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Extensão Rural - Livro IDAM

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  • Apresentação
  • Desenvolvimento local e territorialidade
  • O grande desafio da educação empreendedora cooperativa
  • Cooperativismo e desenvolvimento local
  • Desenvolvimentos, uma perspectiva plural
  • Da contradição do sujeito na extensão rural

Assistência Técnica e Extensão Rural: Construindo o Conhecimento Agroecológico

Presidência da República Luis Inácio Lula da Silva Governo do Estado do Amazonas Carlos Eduardo de Sousa Braga Ministério do Desenvolvimento Agrário Miguel Soldatelli Rossetto Secretaria da Agricultura Familiar do MDA Valter Biachini Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA Argileu Martins da Silva Coordenação Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA Francisco Roberto Caporal Secretaria de Produção Rural José Maia Instituto de Desenvolvimento Agropecuário Edimar Vizolli Projeto Desenvolvimento Local Sustentável do Amazonas Antônio Jandir Contente Morais Agência de Agronegócios Raimundo Valdelino Cavalcante Universidade Federal Rural de Pernambuco Valmar Correia de Andrade Departamento de Educação da UFRPE Paulo de Jesus .

Presidência da República Governo do Estado da Amazonas Ministério do Desenvolvimento Agrário Secretaria de Agricultura Familiar Secretaria de Estado de Produção Rural Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas Assistência Técnica e Extensão Rural: Construindo o Conhecimento Agroecológico Organização: Jorge Tavares Ladjane Ramos Manaus • 2006 .

attema. 2. Ladjane. Extensão Rural.9+63. Jorge Roberto.001.3613. 128 p. TAVARES. II.6926 • Email: gtzidam@uol. – Manaus: 2006. Assistência técnica e extensão rural: construindo o conhecimento agroecológico/por Jorge Roberto Tavares e Ladjane Ramos. RAMOS.8(042) Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas – IDAM Av. GTZ. I. Distrito Industrial.1.www. Buriti. 1850.Coordenação Editorial Antônio Jandir Contente Morais Ladjane Ramos Organização: Jorge Roberto Tavares Ladjane Ramos Revisão Peta Teixeira Fotos Arquivo ProVárzea/L.com.075-000 Telefone/FAX: (0.588.C.com.. Desenvolvimento Rural Sustentado. AM.br Catalogação na Fonte I 18 a IDAM. Agroecologia.CDU 631. CEP 69. Marigo Dania Lolah Projeto gráfico e capa Áttema Design Editorial .92). Manaus. 3.br . III.

. .. . .....Sumário Apresentação . ... .. ... . . . . . .... ... ..... . ... . . . . . . ... .. ..... . ... ....... . . . . .... .. ... .. .. .. .. . .... 103 Da contradição do sujeito na extensão rural . . ... ... ... . ..... ... . .... 93 Ana Maria Dubeaux Gervais Desenvolvimentos..... ... ... ...... ... . . .. . . 53 Angelo Brás Fernandes Callou A metodologia científica e o quotidiano da extensão rural: Algumas relações ... .. ... .. . 85 Região amazônica e economia solidária: Uma perspectiva de desenvolvimento integrado sustentável .. ... . . . ..... . ..... . ..... 35 Estratégias de comunicação em contextos populares: Implicações contemporâneas no desenvolvimento local sustentável .. . . ... ... . ... .. 117 Ladjane de Fátima Ramos .. ... .. uma perspectiva plural Jorge Roberto Tavares de Lima . .. .... .. .. . ... . . . . . . ... . .. ... ... . .. . 7 Política Nacional de Ater: Primeiros passos de sua implementação e alguns obstáculos e desafios a serem enfrentados . .. .. . ... .. . .... . 67 Paulo de Jesus O grande desafio da educação empreendedora cooperativa .. ..... . . . 81 Jymmy Peixe Mc Intyre Cooperativismo e desenvolvimento local Maria Luiza Lins e Silova Pires . .. ... . . .. ... ... . . .. .. .. .. 9 Francisco Roberto Caporal Desenvolvimento local e territorialidade Guilherme Soares . . . . . .. ..... . . .. ... .. . . ....... .

.

Os métodos antes apreendidos. economicamente viável e culturalmente adaptada. estimulando a produção de alimentos sadios.Apresentação A história da extensão rural no Brasil passou por várias crises desde o seu surgimento até os dias atuais. Com essa visão. perfeitamente adaptado ao processo de modernização da agricultura já não atendem às exigências do meio rural. de forma ambientalmente sustentável. Com a crise econômica. é que chegamos ao século XXI com uma indefinição do papel do extensionista. Na mesma esteira. Neste aspecto o papel do extensionista sempre esteve atrelado aos modelos de desenvolvimento e interesses vigentes em cada uma dessas etapas. o insucesso do estado desenvolvimentista na década de 80 e o avanço do neoliberalismo nos anos 90. conseqüentemente o papel e intervenção dos técnicos da Ater também sofreram os ventos desta mudança. Decorrente disso. proporcionou o estabelecimento de uma relação forte com a sociedade civil. de reforma agrária e da agricultura familiar. como resposta às necessidades do agricultor familiar. de difusão de tecnologia. e mais uma vez interroga o papel do extensionista e preconiza o fortalecimento de processos participativos e a construção de relações dialéticas entre os atores sociais. o modelo institucional e técnico da extensão entrou em crise. política e ambiental do modelo da revolução verde. de combate a pobreza. Reconhecendo a importância do movimento a partir da mobilização gerada pela implementação da PNATER e acreditando na constru7 . que avançou no processo de democratização e na busca de eqüidade social. estabeleceram-se formas objetivas de apoio à transição Agroecológica na Agricultura familiar. Em meados de 2003 surge a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER). em favor do fortalecimento e da integração de todos os programas de inclusão social.

inclusive no Brasil. mas dos extensionistas envolvidos. com enfoque Agroecológico”. que o Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável -DLS-AM (Sepror/GTZ/IDAM) em parceria com a Secretaria da Agricultura Familiar (SAF/MDA) e Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco tomou a iniciativa de realizar o Curso de “Metodologia em Extensão Rural. em parceria com entidades governamentais e não governamentais e cujo conteúdo está intimamente relacionado ao esforço de capacitação do Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável. foi incluído um artigo de Francisco Roberto Caporal. Programas de Cooperação Técnica em diferentes países.ção de processos democráticos pela equidade e pela inclusão social não só das populações rurais. O projeto de Desenvolvimento Local Sustentável (DLS-AM) é executado pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (IDAM) e pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ).Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural. Além desses. que executa. Presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas Diretor do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural Edimar Vizolli Argileu Martins da Silva Universidade Federal Rural de Pernambuco Paulo de Jesus 8 . Os textos reunidos nesta publicação resumem as apresentações feitas pelos professores e pesquisadores durante o curso. que trata sobre a implementação da nova Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural que vem sendo realizada pelo Dater . pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha (BMZ). Coordenador Geral de Ater (Dater/SAF/MDA).

de 13 de junho daquele ano. promovendo um amplo processo de consulta. Email: francisco. a partir de audiências. 2004). a SAF .Pnater.gov. vem implementando esta nova proposta. seguindo as orientações desta Política. democrático e participativo que envolveu mais de 100 entidades e mais de 500 pessoas. através do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural – Dater. no Dater/SAF/MDA.br Brasília. Espanha. 9 . como estabelece o Decreto Nº 4. levou à construção de alguns consensos e a um conjunto de acordos e redundou no documento que sintetiza a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (MDA. o Ministério do Desenvolvimento Agrário . Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural . Extensionista Rural da EMATER/RS. Mestre em Extensão Rural pelo CPGER da UFSM e Doutor em Agronomia pela Universidade de Córdoba. encontros e seminários envolvendo representações dos agricultores familiares. Este processo. Desde finais de 2003.caporal@mda. Atualmente desempenha a função de Coordenador Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural.739.Política Nacional de Ater: primeiros passos de sua implementação e alguns obstáculos e desafios a serem enfrentados Francisco Roberto Caporal1 Introdução Em 2003. O objetivo deste artigo é registrar alguns passos deste processo e identificar alguns 1 O autor é Engenheiro Agrônomo. 14 de agosto de 2005.MDA passou a ser responsável pelas atividades de Assistência Técnica e Extensão Rural – Ater. de movimentos sociais e de prestadoras de serviços de Ater governamentais e não governamentais. Por delegação da Secretaria da Agricultura Familiar – SAF um grupo de técnicos coordenou a elaboração da nova Política .

Para ser mais precisa a orientação e a implementação desta Missão. que pretendem ser a síntese daquilo que é indispensável para se ter uma nova Ater. visando a “potencialização do uso sustentável dos recursos naturais”. visando a formação de competências. humanista e construtivista. que potencializem os objeti10 . mudanças de atitudes e procedimentos dos atores sociais. buscando viabilizar as condições para o exercício da cidadania e a melhoria da qualidade de vida da sociedade” (MDA. 2004). a Pnater estabelece e se baseia em 5 (cinco) Princípios. com ênfase em processos de desenvolvimento endógeno”. como segue: “Contribuir para a promoção do desenvolvimento rural sustentável. um novo perfil de Assistência Técnica e Extensão Rural – Ater. de fato. estimulando a adoção de novos enfoques metodológicos participativos e de um paradigma tecnológico baseado nos princípios da Agroecologia”. “Desenvolver processos educativos permanentes e continuados. centrado na expansão e fortalecimento da agricultura familiar e das suas organizações. As bases teóricas da nova Pnater: sobre alguns princípios norteadores A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural estabelece que a Missão da Ater deve ser “Participar na promoção e animação de processos capazes de contribuir para a construção e execução de estratégias de desenvolvimento rural sustentável. “Adotar uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar. capaz de contribuir para o fortalecimento da agricultura familiar. numa perspectiva de desenvolvimento rural sustentável. Dados os objetivos deste texto.desafios que ainda precisam ser enfrentados para que o Brasil possa vir a ter. por meio de metodologias educativas e participativas. basta citar aqui apenas três desses Princípios. integradas às dinâmicas locais. a partir de um enfoque dialético.

Estas formas de intervenção devem favorecer o estabelecimento de plataformas de negociação entre técnicos e agricultores que permitam a construção de saberes novos e mais compatíveis com a vida real das populações envolvidas. necessariamente. para dar lugar a novas formas e novos conteúdos desta intervenção. Por isto mesmo. culturais e econômicas de uma sociedade. econômica. não obstante.vos de melhoria da qualidade de vida e de promoção do desenvolvimento rural sustentável”. Esta nova visão. 1983). significaria a realização de potencialidades sociais. segundo o modelo clássico e a lógica linear do princípio de “estender” da fonte ao receptor. que marcaram a história da extensão rural convencional. 1995) não perde sua vigência. 1982. cultural e política. na prática cotidiana. em perfeita sintonia com o seu entorno ambiental e com seus exclusivos valores éticos (ESTEVA. metodologias participativas que ajudem a democratizar a relação entre extensionistas e agricultores. da “alienação”. técnicos disponibilizam seus conhecimentos e não simplesmente os difundem. da pseudo superioridade do conhecimento científico sobre o saber popular. 1996). o estabelecimento desta Missão e destes Princípios supõe uma mudança de rumos com respeito às práticas difusionistas. Ao contrário dos métodos que geram dependência e alienação. onde agricultores e técnicos buscam o “desenvolvimento”2. Estes novos saberes. a nova Ater exige uma visão holística e o estabelecimento de estratégias sistêmicas e não apenas métodos apropriados para uma difusão unilinear e unidirecional de tecnologias. ambiental. 11 . supõe a quebra da 2 Entendemos que o desenvolvimento. Deve-se adotar. em sua formulação teórica mais ampla. (FREIRE. Logo. 2004) Como é possível observar. (MDA. poderiam ser aqueles conhecimentos sobre a realidade social. ao contrário da visão cartesiana e tecnicista que orientou as décadas do desenvolvimentismo. ela deve deixar de ser usada na perspectiva da “persuasão”. da “educação bancária”. na nova Ater. 1969. A teoria da Difusão de Inovações (ROGERS. deverão ser adotadas metodologias que possam contribuir para o “empoderamento” dos atores sociais. próprios do difusionismo.

à expulsão de massas da população rural. De certa forma. poderia ser dito que o enfoque metodológico e tecnológico que está proposto na Pnater. num verdadeiro processo de geração de pobreza. requer a implementação de uma extensão rural agroecológica ou ecossocial3. que sejam opostas àquelas que foram implementadas ao longo do século passado. Trata-se. sequer são adequados do ponto de vista da manutenção da base de recursos naturais que as futuras gerações vão necessitar para que possam assegurar condições dignas de vida.hierarquia de saberes e o respeito aos conhecimentos dos agricultores. que devem ser considerados válidos e necessários para a construção de conhecimentos mais complexos. Esta “visão de mundo” deve levar à formulação de novos processos sócio-econômicos. Os esquemas “modernizadores” da agricultura. de iniqüidade. não são compatíveis com modelos que levam à exclusão social. de subdesenvolvimento. 12 . a Pnater também supõe a necessidade de mudanças. mediados pela realidade. Definimos a Extensão Rural Agroecológica como um processo de intervenção de cará3 Ver CAPORAL (1988) e SÁNCHEZ DE PUERTA (2004). pois parte do princípio de que o padrão tecnológico e as formas de manejo dos agroecossistemas que foram instituídos e modelados no escopo das estratégias de “modernização”. da necessidade do estabelecimento de uma nova ética sócio-ambiental. para o desenho de agroecossistemas sustentáveis e para o estabelecimento de estratégias de desenvolvimento rural sustentável. centradas nos pacotes tecnológicos da Revolução Verde. como ocorreu nas décadas do desenvolvimentismo. Os ideais de sustentabilidade e a segurança das condições de vida das futuras gerações. Por isto mesmo. não são adequados para o estabelecimento de estilos de agricultura e de desenvolvimento sustentável que são desejados pela sociedade e que passaram a ser um imperativo deste século. que sejam produtivos mas que não percam de vista as dimensões sociais e ambientais do desenvolvimento sustentável. Do ponto de vista tecnológico. pois. de violência. a Pnater estabelece a necessidade de adoção dos princípios da Agroecologia e suas bases epistemológicas.

13 . assim como o desenvolvimento de tecnologias. que assegurem a apropriação de conhecimentos por parte dos beneficiários. nos quais a ênfase é colocada sobre as relações de causa e efeito que surgem quando dois fatores se influenciam entre si” (VIGLIZZO. não difusionistas. adotando os princípios teóricos da Agroecologia como critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo. por conseguinte. que veremos adiante. reduzindo a complexidade e perdendo-se. será necessário romper com o modelo cartesiano tanto da extensão rural como da pesquisa e do ensino. com o objeto de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente eqüitativo e ambientalmente sustentável. (CAPORAL.ter educativo e transformador. mas que se baseiem em metodologias participativas. com participação social. 1998) Algumas bases epistemológicas que orientam a nova Ater Para atender os requisitos antes enunciados e as ações prioritárias do Dater. Tal concepção permite estudar e tratar de forma isolada cada parte do problema. é necessário o estabelecimento de processos que estejam orientados por estratégias não convencionais. de pesquisa e de ensino. Portanto. isto é. que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção e sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a realidade. a possibilidade de entender as relações e interações (especialmente as ecológicas) que ocorrem num agroecossistema manejado pelo homem. 2001). baseado em metodologias de investigação-ação participante. pois ela está centrada “em enfoques reducionistas e cartesianos. O que ocorre é que o modelo convencional de extensão rural. pois este não é adequado para apoiar estratégias de transição Agroecológica. É necessário superar a visão tradicional da ciência.

Portanto. Assim. o que requer uma substituição tecnológica . Ademais. ou seja. mas também os problemas que não reconhece. assim como as estratégias de resistência da agricultura familiar e as lógicas orientadoras dos processos decisórios que ocorrem nas unidades familiares de produção. enunciados e idéias divergentes. quando a meta é buscar mais sustentabilidade no processo produtivo agrícola. quando se trata de buscar estratégias de desenvolvimento rural sustentável. estas questões aparecem. Estes. Na agricultura. pois o redesenho de agroecossistemas e o estabelecimento de agriculturas sustentáveis.” de insumos por conhecimentos ricos em informações e menos agressivos ao meio ambiente. como lembra Morin (1998 p. Não obstante. trata-se. que visam à inclusão social. não se pode trabalhar com base num paradigma de redução. Isto ocorre 14 . cada vez mais nos discursos. de professores e de pesquisadores. é necessário partir-se do entendimento de que a insustentabilidade dos nossos sistemas agrícolas convencionais não se resolve apenas com insumos comprados no mercado. o fortalecimento da agricultura familiar e novos desenhos de agroecossistemas sustentáveis.situam-se no campo desse paradigma cartesiano e. plantas e animais. é necessário lidar com a complexidade dos processos de desenvolvimento. como no modelo da Revolução Verde. é algo que exige um enfoque sistêmico e uma visão holística. exclui não apenas os dados. um paradigma de simplificação (disjunção ou redução) não pode reconhecer a existência do problema da complexidade”. na prática cotidiana de agentes de extensão rural. em geral. com inclusão social. ao invés de simplificá-los.. “o paradigma dispõe de um princípio de exclusão. “as agriculturas sustentáveis têm um forte componente de tecnologias de processo. mas as relações entre os indivíduos e entre eles e o meio ambiente. pioram o problema. isto se manifesta pela necessidade de complexificar os sistemas agrícolas. de entender não só a diversidade. Assim mesmo. Como diz Viglizzo (2001). introduzindo biodiversidade e manejando as relações entre solos. também.. o que se observa é a reprodução do modelo cartesiano o que não se coaduna com a nova Pnater. 272-3).

durabilidade no tempo e produtividade do agroecossistema como um todo (ou da unidade familiar de produção) e não de um cultivo em particular. e cada vez mais. Ou seja. embora invisível. A. . não coaduna com ideais e sustentabilidade. estes expressam a natureza virtual do paradigma que os orienta. Eles têm alto potencial entrópico. baseadas no enfoque da economia neo-clássica não dão conta de novas abordagens. Assim. atua “na ordem inconsciente e na ordem supraconsciente. pois dependem. como propõe a Pnater. pesquisa e ensino. requer outra relação entre Agronomia e Ecologia e outro entendimento a respeito de resultados econômicos. STROH. O enfoque holístico requer que se avaliem os resultados em termos de estabilidade. somente se mantêm funcionando porque extraem energia do seu entorno. (1999) “A ecologia da ação nos ajuda a entender que a consciência ecológica não se limita apenas às relações homem/natureza. que mostra os sistemas dinâmicos funcionando na natureza em condições de baixo equilíbrio termodinâmico. As análises convencionais sobre ganhos de produtividade e resultados econômicos. Isto está explicado pela Segunda Lei da Termodinâmica. Por isto. 1999). requerem um permanente subsídio 4 Segundo PENA-VEJA. onde dispõe de um lugar invisível” (MORIN. Como é sabido. 15 . jamais serão sustentáveis. sempre. da degradação dos seus entorno. pois o paradigma “se manifesta constantemente e encarna no que gera” (MORIN. resiliência. há que se fugir das armadilhas do modelo produtivista convencional. ou Lei da Entropia. pois a construção de agriculturas sustentáveis.4 Do mesmo modo. evoca um estado de consciência: tudo tem que ser ecologizado. mas se desdobra em nossas relações com o próprio universo interior. que como se disse antes. 1988). P.porque as ações continuam subordinadas ao paradigma convencional que. é o organizador invisível do núcleo organizacional visível da teoria. os sistemas convencionais baseados na busca de maiores produtividades físicas de monoculturas. inclusão social e fortalecimento da agricultura familiar. a busca do desenvolvimento rural sustentável exige o rompimento com o paradigma dominante. até mesmo as idéias”. embora não apareça explícito nos projetos e nas atividades convencionais de Ater.

A construção de agriculturas sustentáveis requer. Algumas ações do Dater para implementação da Pnater Este não é o lugar para elencar o conjunto de ações do Dater para implementação da Pnater. B. ao invés de buscar sempre maior simplificação. entre outras coisas. para este novo enfoque. sem preocupação ecológica. (2002) NORGAARD. como ocorre na agricultura convencional. buscando alicerçar-se nos princípios e bases epistemológicas da Agroecologia6. uma vez que se baseia no modelo de altos insumos – altas respostas. desenhado a partir de uma visão utilitarista do meio ambiente. A Agroecologia.energético para alcançarem os patamares de produtividade desejados. a ciência e a tecnologia necessárias para o desenvolvimento rural sustentável. Por estas e outras razões de natureza científica. pode contribuir. Repetimos. (2002). decisivamente. E. R. ao longo dos dois anos de sua existência. um marco tecnológico baseado em outro paradigma. (1989). que se deve incursionar por disciplinas circunstancialmente afastadas. R. projetos inovadores. em seu desenho e em seu funcionamento. que leve ao manejo integrado de sistemas complexos. 5 O paradigma ecossocial se enquadra na idéia do pensamento complexo e nos recomenda. aos ecossistemas naturais onde estão inseridos. Ver. com fortalecimento da agricultura familiar. que trate de estabelecer uma nova e qualificada aproximação entre Agronomia e Ecologia. portanto. como matriz científica transdisciplinar. devem basear-se num paradigma ecossocial5. gerando degradação ambiental. de complexificar os sistemas. NORGAARD. 6 16 . portanto. buscando juntar diferentes ciências que tenham incidências interdisciplinares sobre os objetos a que debruça o cientista. y WOODGATE. com produção de alimentos sadios e com preservação ambiental. por exemplo: SEVILLA GUZMÁN. Assim. trata-se. G. Isto exige técnicas e formas de manejo que se articulem entre si.B. com inclusão social. serão aqueles que não seguem a lógica da Revolução Verde. respeitando princípios ecológicos básicos e gerando sistemas de produção que se assemelhem. pois aquela não permite resolver os problemas sócioambientais.

o Dater organizou uma exposição sobre a História da Extensão Rural no Brasil (disponível na página www. 17 .91. em novembro. c) estimular processos educativos e relações de co-responsabilidade entre os agricultores familiares. em 2004. quando forem colocados os desafios para a nova Ater. realizadas no final de 2004. Ainda que alguns destes aspectos venham a aparecer mais adiante. nos âmbitos macro e microrregional.br). caberia informar duas ações importantes. àqueles aspectos que visam fortalecer a transição da extensão rural convencional em direção ao cumprimento dos Princípios e da Missão antes enunciados. com efetivo comprometimento destas e de seus técnicos. econômicas e ambientais da região. Neste sentido.190. contemplando ainda as características culturais. entre outros. não serão tratados os esforços realizados e que redundaram num significativo aumento do orçamento para apoio federal aos serviços de Ater no país. O processo de implementação da Política também veio acompanhado do estabelecimento de parcerias com entidades de Ater e entidades envolvidas em atividades de capacitação de agricultores familiares8. simplesmente. A exposição que teve duração de duas semanas. contou com a colaboração e ativa participação de organizações de Ater governamentais e não governamentais de vários estados brasileiros7. A chamada para Seleção de Projetos de Capacitação de Agricultores Familiares e Técnicos. Em paralelo. em Brasília. sociais. no térreo do Palácio do Planalto. e. geração. cabe salientar que. Assim. suas organizações e as instituições prestadoras de serviços. b) incorporar as dimensões de gênero. a SAF/Dater execu7 8 Por ocasião da abertura da exposição Ministro Miguel Rossetto fez o lançamento oficial da Política Nacional de Ater. Para atender estes objetivos a SAF/Dater firmou 59 Contratos. raça e etnia como temas transversais e na concepção de materiais didáticos.pronaf. no valor de R$ 9. definiu três diretrizes orientadoras para a apresentação de propostas pelas instituições: a) partir de um processo de planejamento e gestão das ações de capacitação/formação realizados de forma compartilhada com os atores sociais comprometidos com o desenvolvimento rural sustentável.Devido à natureza deste artigo. a Conferência Nacional de Ater.org. Por enquanto. foi realizada. Sequer seria adequado abordar as ações destinadas a ampliar o espectro e fortalecer as relações do MDA/SAF/Dater com entidades executoras de serviços de Ater.721. parece necessário restringir esta breve incursão. efetivada em 2004. visando recolocar a Extensão Rural na pauta da política nacional. somente para deixar registrado. com representação de quase todos os estados.

em 2004. foram estabelecidas algumas linhas estratégicas capazes de contribuir para a aceleração e qualificação do processo. direta ou indiretamente.400 novos profissionais. Paraíba e Rio Grande do Norte. Cabe ressaltar que. para que a abrangência dos serviços de Ater pudesse chegar. no valor de R$ 42.6 milhões de unidades familiares de produção9.12 % do orçamento destinado ao Fomento de Atividades e Ater e Capacitação – PRONAF Além de ações diretas. Dele resultou a formação de algumas redes ou o fortalecimento de redes já existentes. com a aquisição de mais de 2. alguns estados já elaboraram seus Planos Estaduais. Isto foi feito. 18 . Observe-se que o 9 Como uma estratégia de resposta positiva do Governo Federal destinada a fortalecer as entidades estaduais de Ater. enquanto outros estão com esta ação em andamento. foram firma. Para levar adiante o processo de implementação da Pnater. Cabe destacar que. houve maciça participação neste processo. Para esta decisão. ao longo do primeiro semestre de 2004. o primeiro passo seria dar ampla divulgação dos principais enfoques da Política.300 veículos. Com isto a SAF/Dater contribuiu. foram alguns dos estados que se beneficiaram desta estratégia. de modo que se abrisse um caminho para a formação de futuras redes de serviços de Ater nos estados. entre 2002 e 2004. através dos Convênios antes citados. Além de divulgar a Política estes seminários destinaram-se. também. partiu-se do entendimento de que para levar à prática a nova Política de Ater.300 computadores e mais de 1. Espírito Santo. O eixo principal desta estratégia está centrado no campo do conhecimento.1 milhões.tou 96. sendo que boa parte contou com apoio da SAF/ Dater. Do mesmo modo. o Dater vem ampliando o apoio técnico-financeiro às organizações estaduais. Minas Gerais. quando o Dater promoveu seminários em todos os estados da federação. as entidades estaduais de Ater contrataram mais de 2. dos 101 Convênios com entidades de Ater nos 27 estados da Federação. a propor aos atores institucionais de Ater em cada estado a elaboração de um Plano Estadual de Ater que pudesse buscar a sinergia e a cooperação entre as ações das diferentes entidades. as instituições estaduais de Ater ampliaram as condições de infraestrutura. Embora com diferenças. sempre e quando os governos dos estados tomarem iniciativas neste sentido. em 2004. a um total aproximado de 1. decisivamente.

A primeira delas foi a realização de convênios com escolas agrotécnicas e universidades. simplesmente passando a apoiar financeiramente a realização de centenas de eventos regionalizados e/ou estaduais que passaram a acontecer. num total de dez instituições de ensino.400 Agentes de Ater de todos os estados do país. Isto visava. o Dater. três estão em fase de execução. Assim mesmo. no mínimo. em 2004. o Dater implementou duas ações com caráter de Projeto Piloto. em todos os estados. Neste mesmo sentido. de mais de 135 encontros de nivelamento sobre a Política Nacional de Ater. foi a realização de Oficinas de Nivelamento Conceitual. por decisão do Grupo de Trabalho de Formação do Comitê Nacional de Ater. em 2005. o respeito às dinâmicas estaduais. não estabelecendo obrigatoriedade nem prazos. 10 técnicos por estado. com a participação de mais de 270 Agentes de Ater vinculados a organizações governamentais e não governamentais e que pudessem ser multiplicadores destas bases conceituais em suas entidades e em seu entorno de trabalho. visando a qualificação de 200 estudantes. foram estabelecidos acordos com Universidades para a realização de 4 cursos de Especialização em “Extensão Rural para o Desenvolvimento Sustentável”. com a oferta de 35 vagas por curso. com a participação de. com bolsas para estágios de fim de curso e. Destes cursos. posteriormente. já haverá uma importante quantidade de técnicos apropriados dos conceitos básicos que devem orientar as atividades da extensão rural brasileira. Dada a avaliação positiva desta ação. Os cursos são totalmente financiados pelo Dater. em 2006. que deverão ser realizados de agosto a novembro. em média. decidiu pela realização. a oferta de bolsas para que estes jovens recém formados passem a atuar junto a entidades de Ater. para avaliar a possibilidade de viabilizar outras estratégias.Dater adotou como princípio. também. 8 oficinas envolvendo. Isto assegurará que. 5. com garantia de bolsa por dois anos. inclusive as ajudas de custo para os estudantes e 19 . Outra ação concretizada em 2004. contribuir para que estes técnicos passassem a atuar mediante a adoção das bases conceituais da nova Ater. Foram realizadas.

Participaram destes cursos cerca de 200 Agentes de extensão. o Dater promoveu vários cursos de Agroecologia.200. assim.000. Além da realização direta. quilombolas. uso e comercialização de Plantas Medicinais. as especificidades sócioculturais de públicos diferenciados.CFRs). 270 escolas. Ao longo dos dois anos de implementação da Pnater. a SAF/Dater apoiou dezenas de cursos de 10 Pesquisas têm mostrado que alunos de escolas que adotam a Pedagogia da Alternância tendem a permanecer em suas comunidades/propriedades. com cerca de 40 profissionais em cada curso. produção. No total serão beneficiadas. no valor de R$ 1. com destaque para cursos ministrados por especialistas internacionais. uma forma de contribuir para que as ações das entidades de Ater contemplem. no ano de 2004 e início de 2005. inaugurando. que exigem uma ação de extensão e assistência técnica que respeite estas diferenças e as características de suas atividades produtivas.EFAs e Casas Familiar Rural . Clara Nicholls (Universidade de Berkeley – USA). através de convênio com a UNEFAB (que envolve a ARCAFAR). Belém (PA) e São Luis (MA). realizou um curso de 40 horas para Agentes de Ater que atuam em Saúde no Meio Rural. as atividades destas escolas (Escolas Família Agrícola . extrativistas. em 2004. No primeiro semestre deste ano. o Dater realizou dois cursos para Agentes de Ater que atuam no resgate de conhecimentos.00. Do mesmo modo. 20 . atendendo uma demanda específica de um campo de trabalho da extensão que vem crescendo nos últimos anos e que está relacionado com outras políticas públicas. também. aproximadamente. Esta é uma das razões pelas quais a SAF/Dater apoiou. o Dater promoveu.10 Na linha da formação de agentes. como Miguel Altieri.têm por objetivo formar profissionais capazes de influir em suas entidades e contribuir para a ampliação de processos de capacitação de técnicos nos estados. de forma adequada. Carlos Guadarrama e Laura Trujillo (Universidade de Chapingo – México). Com a colaboração destes professores foram realizados dois cursos em Itabuna (BA) com a participação de mais de 120 profissionais. cursos de curta duração para Agentes de Ater que trabalham com indígenas. pescadores artesanais.

o apoio decisivo dado pelo MDA à realização do II Congresso Brasileiro de Agroecologia. Ainda como parte deste processo de socialização o Dater promoveu. o Dater vem coordenando o “Concurso Nacional de Sistematização de Experiências em Agroecologia”.Agroecologia. que reuniu mais de 3. investindo recursos técnicos. criando a oportunidade para que centenas de interessados assistissem as intervenções de dois especialistas em Agroecologia vindos da Universidade de Córdoba. Destes eventos participaram milhares de técnicos. Dentro deste Programa. da I Semana de Agroecologia do Estado do Maranhão. Argentina. que embora tenha tido uma participação menor. seminários e congressos de Agroecologia. em abril de 2005. além de outras tantas atividades. uma vídeo-conferência. realizado em Porto Alegre em novembro de 2004. que está bastante enfatizado como eixo da Política Nacional de Ater. Espanha e outros dois vindos das Universidades de La Plata e Buenos Aires. enquanto que o material recolhido será 21 . agricultores. disponibilização de conhecimentos e tecnologias. cerca de R$ 40 milhões para ações de capacitação de técnicos e agricultores(a). além de dezenas de eventos.500 participantes. transmitida diretamente do auditório da Sede da Embrapa. Outra iniciativa importante foi a elaboração pela SAF do Programa de Apoio à Agricultura de Base Ecológica nas Unidades Familiares de Produção. em 2005. fóruns. para todas as unidades descentralizadas daquela instituição. Do mesmo modo. cabe destacar a realização. constitui-se num marco das ações articuladas de instituições e técnicos daquele estado para a atuação na perspectiva da transição agroecológica. Cabe destacar. cujos 50 melhores trabalhos serão apoiados financeiramente visando ao seu fortalecimento. como encontros. em diferentes estados. em novembro de 2004. materiais e financeiros com vistas a acelerar o processo de socialização de conhecimentos neste novo campo de estudos. e para a realização de diversos eventos entre os quais alguns seminários para a discussão dos currículos das ciências agrárias. apelidado de Programa de Agroecologia. Através deste Programa a SAF/Dater aportarão. estudantes e outros interessados.

em ambos os casos houve articulação com entidades de representação dos agricultores e/ou entidades executoras de serviços de Ater. Por fim. No universo das atividades da SAF/Dater. pretende dá uma idéia aos leitores de uma questão fundamental: para que as orientações da Pnater possam ser postas em prática é necessário que mudem as instituições e suas diretrizes e prioridades. foi aberto outro Edital. Como resultado desta iniciativa. quer pela inovação. em 2004 foi realizado acordo entre MDA e MCT (Secretaria de C&T para a Inclusão Social) e através de dois editais foram acolhidos projetos para a disponibilização de tecnologias adaptadas à agricultura familiar e tecnologias de base ecológica. objetivando a socialização do conhecimento sobre estas experiências. Destaque-se que a maior parte dos recursos foi destinada às regiões Nordeste e Norte. Neste sentido. Raça e Etnia. no valor total de R$ 4 milhões destinados ao financiamento de projetos para disponibilização de tecnologias de base ecológica. 12 22 .publicado. Foram financiados projetos no valor total de R$ 5 milhões para entidades de pesquisa e outros R$ 5 milhões para grupos de professores que atuam em extensão universitária11. o Programa de Promoção da Igualdade em Gênero. mas também é necessário que os Agentes incorporem novos conhecimentos e novas concepções sobre agricultura e desenvolvimento sustentável e sobre o pa11 Participaram dos editais entidades públicas de pesquisa. foram aprovados 170 projetos e firmados Contratos e Convênios com Universidades e instituições de pesquisa. além de pesquisadores vinculados a atividades de Extensão Universitária das Universidades Públicas. mais de 450 projetos estão em fase de avaliação. inclusive de Formação de Agentes de Ater. Em 2005. além de outros orgãos da esfera federal. a SEAP. No momento em que este artigo está sendo escrito. a FUNAI. o MMA. especialmente na área de formação de Agentes de Ater e socialização de conhecimentos necessários para a implementação da Política Nacional de Ater12. diversas ações. quer pelo conteúdo dos editais. o NEAD. com a mesma parceria. Este breve resumo das iniciativas do Dater. é importante citar as ações da SAF/Dater no campo da pesquisa e extensão universitária. contaram com apoio e co-participação com o MCT. a EMBRABA. Esta ação teve ampla e positiva repercussão nos meios científicos e acadêmicos. de âmbito nacional e estadual.

está dado pelas macro orientações de política de desenvolvimento do Estado. a experiência destes dois anos permite identificar um conjunto de limites e desafios que precisam ser enfrentados nos próximos meses e anos. dado o curto espaço de tempo em que estão sendo realizadas. à geração de postos de trabalho no campo. Igualmente. para garantir competição nos mercados de commodities e que portanto forçam a ocupação de novas áreas (como vem ocorrendo no Cerrado e na Amazônia). Os limites e os desafios que ainda devem ser enfrentados Muitas das ações promovidas pelo MDA/SAF/Dater no sentido da implementação da Política Nacional de Ater ainda não podem ser devidamente avaliadas. Este modelo está na contramão das estratégias de desenvolvimento rural sustentável que visam à inclusão social. à manutenção de um tecido 23 . A continuidade do apoio público e do financiamento subsidiado de atividades agropecuárias notadamente insustentáveis. novos formatos pedagógicos e novos conteúdos. em todas as suas atividades. novas metodologias. que exigem o crescimento constante do tamanho do negócio agrícola empresarial. poderá retardar a mudança no estilo de desenvolvimento rural. é necessário que as instituições de ensino e pesquisa tratem de rever seus paradigmas adotando novas bases epistemológicas. Principalmente as políticas do Estado nacional para o desenvolvimento rural podem se constituir num sério obstáculo tanto ao que preconiza a Pnater como à busca de sustentabilidade nas atividades agropecuárias. No entanto.pel da Assistência Técnica e Extensão Rural diante destas novas exigências da sociedade. O primeiro e grande desafio que está colocado diante de todos que trabalham na perspectiva da Pnater. e que têm compromisso com o fortalecimento da agricultura familiar. tanto do Estado Nacional como dos estados federados e municípios. que seguem baseadas nos pacotes da Revolução Verde.

Neste sentido é necessário 13 Muitas das orientações de políticas estaduais para a agricultura ainda tencionam neste mesmo sentido. imediatista e voltada para a “modernização do campo”13. A solução desta contradição poderá definir os rumos futuros do nosso desenvolvimento como sociedade. até agora. no momento. que trata de buscar a sustentabilidade. cabe destacar. tais como: a) A necessidade de mudança institucional As entidades públicas estatais de Ater foram criadas e se desenvolveram à luz de uma perspectiva desenvolvimentista. porque a agricultura familiar ocupa mais de 4. sem descuidar da necessária proteção dos recursos naturais. e suas diretrizes e objetivos orientaram para uma ação de tipo produtivista. alguns dos principais desafios para a implementação plena dos conceitos da Pnater. as instituições estaduais foram adaptadas para isto. onde a mudança pode ser praticada. em geral. baseada na transferência de tecnologias. A perspectiva da transição Agroecológica como está proposta na Pnater. em construção.social heterogêneo e à construção de uma agricultura de base ecológica. O que vemos hoje. No entanto. dando uma margem de tempo até que os modelos venham a se encontrar na expressão completa de sua contradição. Isto resultou na montagem de uma estrutura hierárquica. tanto técnica como administrativa. requer outros formatos organizacionais e a adoção de outros indicadores para a medição de resultados.1 milhões de estabelecimentos rurais. sob a orientação de um mesmo Governo nacional é a disputa de dois modelos de desenvolvimento rural e de agricultura: um modelo já velho. este é um limite objetivo que só não se tornou intransponível. mais compatível com a necessidade de produção de alimentos sadios em quantidades suficientes para garantir a segurança alimentar de toda a população. Por esta razão. então. mas ainda hegemônico. voltada para a obtenção de resultados de curto prazo. não sustentável. 24 . visando ao aumento da produção e da produtividade na agropecuária. Ressalvado este grande limite. e outro.

na sua forma de ver e se relacionar com as coisas do mundo e do trabalho. Ao mesmo tempo. na maioria dos casos também precisam passar pelos mesmos processos de mudança. os profissionais de Ater são parte de uma parcela privilegiada da sociedade. seu status profissional lhes coloca. Ademais. inclusive. automaticamente. cultural. fazem uma disputa por recursos e espaços que não contribui para formação de redes de Ater. Cabe recordar que não é por ser uma ONG que uma entidade têm. incluindo a possibilidade de participação dos “beneficiários”. as entidades não governamentais. Esta não é uma tarefa direta do Dater. o trabalho dos agentes deve passar a ser medido por resultados de médio e longo prazo. senão que cabe ao Departamento um trabalho de assessoria que contribua para que estas mudanças ocorram. Ainda que venham de origem humilde. o que se constitui em mais um risco para o sucesso de uma prática que deve ser 14 Sobre as mudanças necessárias ver CAPORAL (1991 e 1998). Além disso. social. numa posição “pequeno burguesa” que acaba por influir no seu profissionalismo. queiram ou não. a partir da observação das diferentes dimensões da sustentabilidade: econômica. ainda que muitas dominem e pratiquem completamente estas metodologias. que nasceram no vácuo deixado pelas instituições de Ater dos estados. Do mesmo modo. cabe destacar que independente da instituição em que atuem. não há suficiente investimento das entidades não governamentais na capacitação dos seus profissionais e. 25 . política e ética e não apenas dos ganhos de produção e produtividade14 . representação dos agricultores(as) ou participação deles na gestão das entidades. nem todas adotam metodologias compatíveis com a Pnater. ambiental. na maioria dos casos. muitas das ONGs e outras entidades privadas que atuam em Ater.horizontalizar e democratizar os processos de gestão e de decisão destas instituições. ainda que com natureza e alcances diferenciados. por isso. e. Ainda que tenham surgido para ocupar o espaço e combater as políticas modernizadoras da Revolução Verde e as políticas neo-liberais.

a especialização e. E. em vez de formar profissionais que entendam as condições específicas e totalizadoras inerentes aos ecossistemas e agroecossistemas. o ensino nas universidades e escolas agrotécnicas brasileiras adotou um modelo que privilegia a divisão disciplinar. é um processo que implica uma relação entre o homem e o ecossistema onde vive e trabalha. Esta primeira carência na formação limita os profissionais quanto à possibilidade de ter uma visão holística da realidade na qual vai atuar. para muitos agricultores e agricultoras familiares. alheia à realidade objetiva das pessoas e dos processos produtivos concretos. em geral. durante a formação profissional não se faz sequer um momento de integração das disciplinas. uma das deformações geradas pelo modelo de desenvolvimento rural e agrícola ainda vigente. 26 . o que minimiza sua possibilidade de ter uma compreensão da agricultura a partir dos princípios básicos dos processos naturais. os profissionais egressos sabem mesmo é fazer difusão de receitas técnicas e pacotes tecnológicos. foi a transformação imposta aos modelos de educação e formação de profissionais das ciências agrárias e outras áreas do conhecimento. isolada das demais e. Em efeito. não tiveram a oportunidade de chegar a uma compreensão da agricultura como uma atividade que. sem considerar também. os profissionais que saem destas instituições de ensino. Assim. quase sempre. a absoluta maioria das escolas de nível médio e superior das ciências agrárias continuam com o mesmo perfil de formação profissional da época dos convênios MEC-USAID.comprometida com os agricultores(as) familiares e pescadores(as) artesanais. por conseqüência. b) Sobre a necessidade de um “novo profissionalismo” Entre os desafios de uma extensão rural para o desenvolvimento sustentável está a necessidade de estabelecer-se um “novo profissionalismo”. como sabemos. Cada uma delas é repassada aos alunos em sua própria “gaveta”. lamentavelmente. Em realidade. ademais de sua “função de produzir bens”. que. a atividade que desenvolvem é parte de seu modo de vida e não apenas um negócio. Em geral.

presentes na dimensão “meritocrática” e de competição (status) que conformam a concepção educativa das sociedades atuais e que acabam introduzindo na formação dos profissionais alguns valores éticos individualistas. a formação determina um estilo de profissionalismo. Por tudo isto. baseado numa estrutura de geração e transferência de conhecimentos. Em geral. princípios e objetivos estabelecidos na Política Nacional de Ater. o profissionalismo normal é conservador. são estudadas algumas culturas e a criação de alguns animais domésticos. pela hierarquia das organizações e por pautas de recompensa e carreiras. reforçada pela educação e pelo treinamento. Além disso.A segunda grande deformação na formação dos profissionais das ciências rurais e agrárias está relacionada com a distância abstrata com que se trata ao homem-agricultor. que são dominantes na sociedade. mas muito pouco se estuda sobre o homem e a mulher trabalhadores da agricultura e o papel decisivo que eles têm na agricultura. nas atitudes individuais e na prática dos agentes. valores. o solo como substrato para sustentação da produção. a implementação da Pnater exige um amplo processo de formação de profissionais com outro perfil. pode-se afirmar que a nova extensão rural exige um “novo profissionalismo”. que pode ser entendido como um “profissionalismo normal”. que tendem a reproduzir ações profissionais também conservadoras. que se caracterize. c) Sobre a formação dos futuros profissionais para a Ater Dado o que vimos antes. não se pode esquecer que existem fortes implicações ideológicas e políticas no ensino. 27 . sequer conseguindo integrar a agronomia com a ecologia. em primeiro lugar. Logo. cujas bases podem ser buscadas nos conceitos. O ensino costuma basear-se numa visão da agricultura como um conjunto de técnicas agrícolas aplicadas e pouco mais. de maneira que. e que se reproduzem. como a ciência normal. posteriormente. métodos e comportamentos dominantes em uma profissão ou disciplina. ou seja. como aquele que se refere ao pensamento. se estuda muito sobre as máquinas e os insumos. pela capacidade de colocar e ver as pessoas antes das coisas.

de modo que os Agentes não devem se intimidar frente à complexidade e incerteza. Portanto. ainda que não seja papel do MDA/SAF/Dater. a iniciativa do processo de mudança curricular necessária para atender os imperativos do desenvolvimento sustentável e das novas práticas exigidas pela Pnater. Deve-se considerar que este “novo profissionalismo” é necessário. corresponde às necessidades sentidas por eles mesmos. próprios de ações que devem estar baseadas no diálogo e na participação. políticos e históricos. quotidianamente. Se 28 . de modo que possam ser estabelecidos currículos capazes de formar profissionais que tenham as habilidades para olhar a realidade com as lentes de um novo paradigma e atuar a partir de uma compreensão multidisciplinar e humanista e adotando métodos e pedagogias construtivistas. ademais. ao contrário da especialização profissional. já que correspondem a contextos sociais. assim como podem ser utilizados apenas para satisfazer objetivos externos. os métodos ajudam. Como destacam diversos autores. há que se criar mecanismos capazes de influir na mudança curricular. de modo que o Agente deveria estar. em busca dos valores próprios dos beneficiários. Como já se destacou. este “novo profissionalismo” é mais um grande desafio. pelo menos das ciências agrárias. Um “novo profissionalismo”. cabe às escolas de nível médio e às universidades. ideológicos. de modo que os profissionais da Extensão Rural Agroecológica deveriam assumir novos conceitos. estabelecer um “novo profissionalismo” exige que. requer reconhecimento de que nem sempre o que pensamos e estabelecemos como necessidades dos indivíduos e grupos assistidos. Em verdade. se adote uma formação mais multidisciplinar ou pelo menos se amplie a capacidade de interagir com outras profissões e disciplinas. inclusive porque os métodos não são neutros. mas não são suficientes para construir novas relações entre agentes de Ater e agricultores. Por outro lado. de modo que podem ser utilizados para levar a uma genuína capacidade de construção e organização. ademais de novos métodos.com especial atenção aos grupos menos favorecidos. valores e comportamentos.

Assim mesmo. inclusive. não só institucionalizar a Política de Ater. Estas são ainda tarefas por fazer. Portanto. senão buscar formas permanentes de alocação de recursos financeiros. Sabe-se que na tradição brasileira.não o fizerem. d) A legitimação e institucionalização da Pnater Qualquer política pública corre o risco de ser alterada ou. a Pnater. do CONDRAF – Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável. composto por 31 entidades e paritário (Estado.8 milhões para apoiar atividades de Ater no país é ilustrativo desta questão. vem dando uma maior solidez a esta Política. ONGs e entidades de representação da agricultura familiar). por ter sido construída de forma participativa. de modo que todos os atores sociais envolvidos possam contribuir para a superação de eventuais dificuldades e para o aperfeiçoamento da Política. governos alteram políticas em função de seus programas partidários ou de prioridades de governo ou até mesmo em razão de acordos ou alianças. a criação do Comitê Nacional de Ater. ainda em 2005 um Seminário de avaliação da Pnater e do processo de sua implementação. onde as ações e programas do Dater são discutidas e consensadas. juntamente com o Comitê deverá promover. Seus conteúdos e propósitos atendem às demandas e interesses dos segmentos potencialmente beneficiários destes serviços. o Dater. na medida em que não foi instituída por lei. Embora tanto a Constituição como a Lei Agrícola estabeleçam a responsabilidade do Governo Federal com a oferta destes serviços. Não obstante esta debilidade. O fato de em 2003 o orçamento federal destinar apenas R$ 3. 29 . como foi mencionado antes. Neste sentido. como também entre as entidades de representação da agricultura familiar brasileira. abandonada. dados os interesses políticos em jogo. encontra amplo acolhimento entre as entidades do setor. seguirão formando profissionais para o passado e não para o futuro. Ademais. a história dos anos 1990 a 2003 mostra que nem sempre estas determinações constitucionais e legais são transformadas em ação governamental. o desafio que está colocado é. a Pnater apresenta uma reconhecida fragilidade.

talvez seja a internalização dos novos conceitos orientadores desta Política no âmbito das instituições governamentais e não governamentais de Ater e. As ações já realizadas mostram. em 2004. como foi o caso do concurso realizado. Inclusive. observou-se que a maioria das entidades governamentais de Ater investiu muito na capacitação de seus recursos humanos. da EMATER-MG. em particular. identificar algumas resistências quanto a algumas das bases conceituais da nova Ater. onde se destacam a Articulação Mineira de Agroecologia – AMA. até porque era necessário fazer chegar às entidades o conhecimento de que o País volta a ter uma Política para o setor e volta a aportar recursos financeiros para apoiar as ações de Ater. Cabe destacar o esforço da EMATER-PA. estão sendo levadas à prática muitas iniciativas concretas que já mostram alguns impactos. No âmbito das ONGs. seja em conhecimentos sobre Agroecologia. entretanto. é importante registrar que concursos públicos para contratação de Agentes de Ater passaram a incorporar a exigência de conhecimentos sobre as bases teóricas da Pnater. a Rede Ecovida. EMATER-RN e da CEPLAC. Este. O principal deles. que é um elemento central. especialmente na capacitação de agricultores(as). a Rede ASA. especialmente entre algumas poucas entidades governamentais. do IDAM-AM . ainda. inclusive. assim como no fortalecimento de algumas redes de serviços. Este processo permitiu. do Espírito Santo. portanto. cooperativas de técnicos e outras entidades não governamentais que realizam serviços de Ater. qualquer avaliação de seus resultados e dos avanços na aplicação dos novos enfoques propostos seria prematura. pelo INCAPER. que além da vontade política do Governo Federal e do MDA. a Rede de Serviços de Ater do 30 . foi alvo de grande esforço do Dater. da SEATER-AC. de ensino e pesquisa. seja sobre Metodologias Participativas ou sobre outras bases conceituais da Pnater. Neste curto período. observou-se um avanço quanto à Pnater.Reflexões finais A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural começou a ser implementada em fins de 2003.

como por exemplo a Rede de Técnicos em Agroecologia do Estado do Maranhão. o que é uma iniciativa pioneira que deve abrir uma nova história do ensino universitário brasileiro. núcleos de alunos e professores que já atuam ou querem adotar em suas ações de formação as orientações contidas na Pnater. Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente. No momento. e embora se identifiquem muitas imitações. ou em cursos específicos como vem ocorrendo na UFPR15. diretrizes. ao mesmo tempo em que apoiou financeiramente dezenas de entidades não governamentais que atuam em Ater e em capacitação de agricultores(as) familiares.Nordeste. o Dater parte do princípio de que é necessário que exista um período de transição. e a formação de outras. Todos os Termos de Referência. para que Agentes de Ater e suas instituições internalizem e se apropriem dos novos conceitos. por exemplo. Isto assegurou certo avanço no caminho do que recomenda a nova Política. como vimos antes. A articulação do Dater com algumas universidades e escolas de nível médio vem demonstrando que há. 31 . entre outras. diretamente pelas ações do Dater. alguns deles motivados. no interior das instituições de ensino. Este é um limite que precisa ser enfrentado. como está ocorrendo na UFBA. lamentavelmente. se 15 Observe-se que a Universidade Federal do Paraná acaba de abrir concurso para contratar professores de Agroecologia. de modo a acelerar as mudanças no ensino e na pesquisa. Cabe salientar que o menor avanço em termos de capacitação de técnicos para atuarem com base nas orientações da Pnater ocorreu no âmbito das prestadoras de serviços de Ates contratadas pelo INCRA para prestar assessoria aos assentados da reforma agrária. objetivos e orientações metodológicas da Pnater. O tema da Agroecologia. tem sido objeto de seminários e cursos realizados dentro de instituições de pesquisa e de ensino. Ao longo destes dois anos. nas escolas da CEPLAC. o Dater não conta com a estrutura de pessoal que seria necessária para contribuir mais decisivamente no avanço deste processo. a SAF/Dater firmou convênios com as entidades estatais dos 27 estados da federação. chamadas de Projetos e Editais lançados nestes dois anos estabeleceram as bases para a elaboração de projetos que seguissem os princípios.

têm liberado profissionais de seus quadros para participarem como facilitadores em cursos de capacitação promovidos pelo Dater. F R. Da mesma forma. 517p. inclusive. Bibliografia CAPORAL. é fundamental que se registre os agradecimentos do Dater. ao longo destes dois anos. deve ser registrada a participação e contribuição dos membros do Comitê Nacional de Ater e do Fórum de Apoio à Gestão do Programa de Agroecologia. simplesmente com o objetivo de ajudar na implementação da Pnater. 1998. Brasil. (Tese de Mestrado)-CPGER/UFSM. Universidad de Córdoba. do serviço público. (Tese de Doutorado)-Programa de Doctorado en Agroecología. UFRPE e tantas outras que.capacitem para uma atuação diferenciada. convênio EMBRAPA-Epagri. 1998. NEAF-UFPA. de modo que possam por em prática um novo modo de fazer extensão rural. La extensión agraria del sector público ante los desafíos . sem cobrar honorários. e suas entidades representativas. del desarrollo sostenible: el caso de Rio Grande do Sul. pescadores(as). A todos os profissionais que colaboraram. Uma Política que se destina a fortalecer a agricultura familiar e ajudar o Brasil a construir um modelo de desenvolvimento rural sustentável. de Bagé. Santa Maria/RS. Além destas. 32 . assim como aos agricultores(as). Centros da EMBRAPA de Belém. CAPORAL. Córdoba. ISEC-ETSIAN. com participação da cidadania. Antes de finalizar este artigo. com inclusão social. F R. com proteção ao meio ambiente e produção de alimentos sadios e acessíveis para todos. é importante deixar registrado o apoio de algumas entidades estatais. 1991. sem cuja colaboração não teria sido possível levar adiante os propósitos de implementação de uma nova Política de Ater no nosso País. A Extensão Rural e os limites à prática dos Extensionistas . como a EMATER-RS. de Pelotas. Campesinado e Historia. destacamos o apoio de muitas ONGs que contribuíram tanto na facilitação de etapas como na apresentação de suas experiências nestes mesmos eventos de capacitação. España.

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Assim. algumas dessas restritivas ao alcance do desenvolvimento. integrado e sustentável que agregam ao discurso a tendência de enfoque dada a esse processo. como sendo uma trama de relações sociais com1 Mestre em Administração e Comunicação Rural do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Nesse sentido. o fenômeno da globalização suscita dinâmicas locais. desenvolvimento tem recebido os qualificativos local. cultural – e de natureza contraditória. social. aspectos que lhes são singulares.Desenvolvimento local e territorialidade Guilherme Soares1 Introdução Historicamente a abordagem do desenvolvimento instiga debates acerca de sua abrangência e significados econômicos e sociais. Os processos globais são contraditórios à medida que inclui e exclui pessoas. cria e recria atividades econômicas. 35 . Portanto. agora tomadas como foco dos processos para promoção do desenvolvimento. cidades e países. A globalização como fenômeno multidimensional – econômico. Nesse contexto. a globalização. longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre nações e regiões. Tal fato impõe condições diferenciadas às localidades. o território também assume um significado amplo além daquele de realização das atividades produtivas e/ou apenas delimitação geográfica. ressaltando assim. a abordagem do desenvolvimento na atualidade enseja movimentos locais com perspectivas de inserção nas relações globais. No atual contexto das relações globais. ressaltando ainda que tais processos não ocorrem igualmente nos vários locais. suscita movimentos de reação as tentativas de homogeneização diante da diversidade da criação humana.

seja nos fóruns e espaços públicos de discussão e deliberação política. p. atualmente.plexas formadoras de identidades culturais. assume o papel de protagonistas desse processo. Referências conceituais: Desenvolvimento. Então. Desenvolvimento É recorrente a discussão conceitual do termo desenvolvimento e. dá lugar ao modelo horizontal de promoção do desenvolvimento no qual a sociedade civil é chamada a responder às questões que lhe afligem através de sua influência na formulação de políticas públicas.17) atribui ao termo uma polissemia conceitual. A confrontação inevitável que acontece comumente se dá entre os termos desenvolvimento e crescimento por vezes aplicados de forma confusa e equivocada a alguns fenômenos socioeconômicos. seja nos vários tipos de conselhos municipais. abriga várias acepções. juntamente com o poder local. No Brasil. polêmica devido as interpretações das várias correntes de pensadores acerca de sua abrangência e significado. globalização e território. de modo particular. não rara. ou seja. a sociedade civil em suas várias formas de representação. Diante da complexidade das relações global e local a nova abordagem conferida ao desenvolvimento tem como condição precípua para sua consecução. o desenvolvimento tem um forte apelo à participação social. O esgotamento do modelo desenvolvimentista de planificação centralizada no qual o estado era promotor e provedor de recursos. 36 . significados. Fischer (2002. a participação ativa dos atores locais. responsáveis por diferenciações importantes no âmbito global. no qual a sociedade. dizendo que ‘desenvolvimento’ compreende mesmo uma rede de conceitos. econômicas e sociais. o processo de redemocratização tem avançado nessa direção e vemos nos mais diversos recantos do país iniciativas para promover o desenvolvimento local.

(apud PREVOST 1997) a noção de desenvolvimento: implica aumento de bem-estar com mudança na estrutura econômica e social. Ao contrário. Para este autor o desenvolvimento abriga uma multiplicidade de fatores que envolvem aspectos econômicos. reconhece de forma simplista que o país desenvolvido cresceu mais que o subdesenvolvido. a corrente que defende que crescimento econômico é igual a desenvolvimento. Dowbor (1997. a modernização dos meios de produção não é mais um referencial único para denotar desenvolvimento. é insuficiente para sua interpretação e análise. a abordagem conceitual de desenvolvimento e crescimento é ainda pertinente. O conceito de desenvolvimento contém em si a idéia de crescimento”. face que se impõe como condição que o desenvolvimento seja referente ao ser humano. A relação crescimento econômico e desenvolvimento como causa e efeito embora ainda válida para engajamento no contexto vigente. consensos. pois trata daqueles assuntos que não apresentam uniformidade de tratamento e. afirma que o desemprego já não resulta da ausência do crescimento econômico. a ausência de crescimento econômico é o que caracteriza o subdesenvolvimento. mas do próprio efeito do crescimento econômico. pois a desagregação da base social refuta o conceito. a via para alcançá-lo compreende a inclusão de critérios não exclusivamente econômicos. em todos seus aspectos. sociais e políticos entre outros que devem ter em conta os valores e atitudes de uma população especifica. Para Furtado. p. Neste sentido. não envolve a sociedade inteira em todos os seus aspectos. porém não forçosamente implica uma mudança da estrutura. envolve a sociedade inteira. O crescimento é uma noção mais simples.13) quando fala da transformação estrutural do trabalho. A ocorrência de fenô37 . por conseguinte. Se refere ao aumento das atividades de produção de bens e serviços. Essa percepção considera atributos diversos para alcançar-se o estágio de desenvolvimento pleno e nesse sentido. Nessa concepção.Portanto.

A seguir os marcos históricos da trajetória do significado do termo desenvolvimento: • Origem: Já sugeria uso de estratégias para produzir mudanças • Tomado inicialmente da biologia: sentido de evolução (Charles Darwin) • Aplicação para a área social – final do século XVIII: designa processo gradual de mudança social. USAID (agricultura) . – Estado provedor de recursos.menos de natureza sócio-econômicas que vivenciamos e presenciamos atualmente. – Abordagem unificada do planejamento – integração de programas econômicos e sociais. • Onda do modelo desenvolvimentista no terceiro mundo a partir da década de 1950 – cooperação internacional para ajuda aos países subdesenvolvidos. Nessa perspectiva. ainda não totalmente entendidos em sua real dimensão.1940/1970. economicamente viável e ambientalmente sustentável. • No início de século XX desenvolvimento representa intervenção em áreas periféricas para criação de espaços industriais modernos. de modo que os objetivos gerais são claros: precisamos de um desenvolvimento justo. econômico. Características: – Natureza prescritivista – recomenda a replicação de modelos de outros países. a multidimensionalidade do desenvolvimento apresenta o imperativo ambiental como uma nova vertente desse processo. – O governo como ator estratégico central e agente de mudanças. • Até a década de 40 – representa passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna (ocidentalização). talvez porque não esteja ainda consolidada a perspectiva de desenvolvimento integral e multidimensional (cultural. – Relações verticalizadas (de cima para baixo) com a sociedade. Os 38 . político). Esse modelo no Brasil teve como referencias de cooperação internacional: a Aliança para o Progresso. tem causado perplexidade no meio acadêmico.

2001) Apud (FISCHER. 2002): “prudência ecológica. (SACHS. • “Processo de crescimento descentralizado.Meados da década de 70. regiões. regiões. cimentado em uma nova institucionalidade que possa traduzir-se em articulação e parcerias criativas entre Estado.exemplos desse tempo podem ser: a rodovia Transamazônica. • Década de 1990 – Reforço do qualificativo INTEGRADO – incorporando as dimensões sociais e ambientais à enaltecida dimensão econômica. Projeto RONDON. Apresentaremos a seguir duas definições de desenvolvimento local. baseado nos municípios e comunidades. • Desenvolvimento integrado é localizado espacialmente no território – cidades. Zona Franca de Manaus entre outros.continuidade e manutenção do potencial dos recursos naturais pela via ambiental. apud (FISCHER. Programas de desenvolvimento devem ser duradouros (dimensão temporal) – e sustentáveis – (noção de sustentabilidade) . eficiência econômica e justiça social” – tripé da Agenda 21. municípios 39 .país. Considerar as especificidades locais . É LOCALIZADO TERRITORIALMENTE. No dizer de (SACHS. 2002). SUDAM. “O território como entorno inovador depende de “estratégias de desenvolvimento articuladas”. O território deixa de ser marco de atividades econômicas ou sociais e passa a referência importante no desenvolvimento econômico. • Desenvolvimento local integrado e sustentável – agrega os qualificativos como reforço do discurso e lança a nova perspectiva de desenvolvimento atual. século XX: processo multirrelacional que inclui todos os aspectos da vida de uma coletividade. • Desenvolvimento integrado . especificidade cultural e relações sociais de cada lugar.2001). • Década de 1980 (década perdida) – modelo desenvolvimentista entra em xeque pelo ajuste econômico. cidades etc. Projeto JARI. (SACHS. • Desenvolvimento Endógeno – contrapõe a replicação de modelos.1990).

cooperativas etc) se formam e se desenvolvem. Pode-se dizer que é uma comunidade de atores públicos e privados. JARA.. preocupado com a melhoria da qualidade de vida da população. podendo ser num bairro.. Tais dimensões se articulam e se reforçam mutuamente ou se opõe frontalmente (FISCHER. 2003). participação e solidariedade. – Há uma racionalidade processual e contextual (MARTINELLI. produção e competitividade. Características: – Concertação (PREVOST. comprometido com a geração de empregos e de ocupações produtivas e com a sustentabilidade”.. de infra-estruturas educativas e institucionais de onde a mobilização e a valorização geram idéias e projetos de desenvolvimento”. principalmente dos grupos mais pobres e marginalizados. 2002).2002) são os pontos focais do conceito.e sociedade civil organizada. • A organização para a cooperação e desenvolvimento econômico – OCDE define o nível local como sendo “ o meio ambiente imediato no qual a maior parte das empresas (micro e pequenas. (1998). encontram serviços e recursos dos quais dependem o seu dinamismo e dentro do qual se ligam às redes de troca de informações e de relações técnicas ou comerciais. oferece um potencial de recursos humanos.1995) e articulação estratégica (FISCHER. que busque o pleno aproveitamento dos recursos e potencialidades locais. entre os mais importantes estão: pobreza e exclusão.. Os processos de desenvolvimento local se dão em várias instâncias do território. – Envolve simultaneamente visão de futuro (UTOPIA) e pragmatismo (ação prática). – Visões de futuro construídas por coletivos organizacionais e ações concretas de mudanças. financeiros e físicos. – Compreende processos compartilhados e resultados atingidos. num dis40 . Na abordagem do Desenvolvimento local outros conceitos estão presentes.

numa região ou ainda na própria cidade. Enfatiza relaç ões do tipo produtores e c lientes COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE Qualific aç ão de rec ursos a partir de valorizaç ão do saber loc al Salientam também formas de produç ão não-c apitalistas e estratégias ec onômic as autônomas. numa microrregião. construído nas várias modalidades de discussão pública – conselhos. 41 . Um aspecto interessante dessa dinâmica de desenvolvimento é o seu caráter participativo e democrático.trito. c onsumo étic o. o desenvolvimento local pode ser orientado por dois sentidos e significados: • Da Competição – discurso totalizante (local. c omérc io justo. desenvolvimento local não é sinônimo de desenvolvimento municipal. fóruns entre outros. mas lhe impõe limites e subordina-o aos imperativos não-ec onômic os. Assim. Rec onhec e a importânc ia do atributo ec onômic o. apontam para trajetórias diferentes no que tange à operacionalização dos objetivos do processo de desenvolvimento. Embora o discurso dos vários atores atuantes no processo denote uma certa convergência na direção dos qualificativos do desenvolvimento. Assim. integrado e sustentável). suas visões de mundo todavia. na área rural de uma cidade. COMPETIÇÃO Qualific aç ão de rec ursos humanos a partir de valores orientados para uma lógic a c apitalista Referênc ia modelos produtivos empresariais voltados para uma lógic a de merc ado c apitalista Enaltec e os atributos ec onômic os em relaç ão àqueles de natureza c ultural. • Da Cooperação e solidariedade – inspiram-se nos valores da qualidade de vida e cidadania – inclusão de setores marginalizados na produção e usufruto dos resultados – economia solidária. em uma vila. Enfatiza a redistribuiç ão e rec iproc idade – produç ão assoc iada. o termo local não deve ser confundido com o município. soc ial e ambiental. Diferenças entre os valores de fundo que norteiam as duas vertentes do desenvolvimento local. mas a ênfase é econômica. ou seja.

(2002). 2002). • Descontinuidade política. • Superposição de programas e projetos de diferentes instituições. Fischer. e que por razões ideológicas podem estar presente nas estratégias de desenvolvimento local: “Reificação da comunidade e da cultura local” – variável a ser manipulada por “boas estratégias”. apud FISCHER. nas falácias de despolitização das iniciativas e na exarcebação das potencialidades e virtualidades locais. PENSAR GLOBALMENTE E AGIR LOCALMENTE 42 . tratando dos processos de gestão do desenvolvimento destaca os aspectos que colocam em risco o discurso do desenvolvimento local e conseqüentemente podem contribuir para seu esvaziamento: • Desgaste conceitual. em detrimento de uma visão mais ampla e cosmopolita do desenvolvimento (BOAVENTURA. nacional e global. FATORES IMPACTANTES DAS ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVIMENTO LOCAL INTEGRADO E SUSTENTÁVEL. • Frustração de esbarrar em limites concretos de poder. • Avaliação insuficiente.A diferença básica também está no peso e no papel dos atores envolvidos nas formas de gestão. • Construção externa das estratégias de desenvolvimento local. • Fragilidades metodológicas – modismos e mimetismo metodológico. • Estruturas de interesses para promoção do DL que criam dependência nas comunidades apoiadas. Ressalte-se ainda o risco de isolamento e desarticulação com as oportunidades do mundo global em função de uma sobrevalorização dos valores locais. • Dificuldades de articulação dos agentes do desenvolvimento. Nesses termos o autor defende estratégias de desenvolvimento local que se articulem com as relações globais e propõe: “localismo cosmopolita” e plural – estratégias multiescalares que articulem ações locais com estratégias alternativas em escala regional. • Desgaste dos métodos participativos e consensos vazios.

o foco não deve ser apenas no local. e outros excluídos.resultante de um conjunto de forças dinâmicas – econômicas. e que resulta em mudanças significativas nas relações entre estado.. Ao mesmo tempo em que as sociedades contemporâneas se vêem atravessadas por processos globais. ideológicas. bem como à redefinição das relações entre as esferas política e econômica.. 1994: p.1995) apud (CAMPANHOLA. SILVA. Outra definição interpreta o fenômeno como sendo promotor de uma “. sociedade civil e a esfera produtiva representada pelo mercado. mas também nas relações e interações que ocorrem entre localidades e regiões. 2000) Nos países em desenvolvimento. 1999) apud (CAMPANHOLA. 2000) Desse modo. que resultam em mudanças na governança dos espaços democráticos e no papel do Estado (Bonanno et al. 43 . (1999) apud (CAMPANHOLA. Portanto. e acelerando ou refreando a homogeneidade de consumo e comportamento humanos (Moreira. Bonanno et al. SILVA.. há nações. SILVA. a seguir apresentaremos duas definições.85) apud (CAMPANHOLA.Globalização A globalização é um processo multidimensional envolvendo diversas variáveis simultaneamente. culturais e religiosas – que estão modelando e remodelando a divisão internacional do trabalho. favorecendo ou dificultando a acumulação de capital. Uma primeira delas define como sendo um fenômeno “. a globalização. a globalização acelera o processo de exclusão social dos pequenos produtores agrícolas. Por isso.reorganização do espaço das relações sociais. dos trabalhadores e dos consumidores mais pobres. As definições são também várias. há a necessidade de se buscar novos pontos de equilíbrio entre o global e o local. políticas. SILVA.2000).. abrigam dinâmicas locais que se propõem a solucionar problemas gerados tanto dentro como fora de seus limites (Navarro Yáñez. O que tem se observado é que forças globais requerem e estimulam respostas nas esferas local e regional (Jentoft et al. 1998) apud (CAMPANHOLA.2000).. 2000). regiões e locais que vão sendo incluídos nas cadeias de produção.. Nesse sentido. SILVA.

a suposta ação dos consumidores. Os chamados “nichos” de mercado. Assim. tem contribuído para redefinir os mercados. a globalização de mercados tende a ampliar a diferenciação territorial do que a sua homogeneização (Saraceno. Por essa razão.2000). fazendo surgir novos padrões culturais de qualidade de nutrição e de meio ambiente (Marsden 1995. 44 . A soma social das duas conexões começa a remodelar o espaço rural a partir de dentro e da interação com outros espaços. são criados espaços dependentes e espaços dominantes.longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização na distribuição de capital. Marsden. 1998). 2000). Nas cadeias agroalimentares os varejistas assumem um papel de coordenação dos fluxos de informações por estarem mais próximos do consumidor. já que a população de renda mais baixa ainda demanda alimentos baratos. Assim. que se referem a demandas por produtos com características específicas e de alto valor – por exemplo alimentos livres de resíduos químicos ou que não tenham causado degradação ambiental no processo de produção .geralmente estão vinculadas às classes sociais mais afluentes. não pretendemos nesse momento seguir o itinerário das diferentes abordagens conceituais. através das redes varejistas. e por conseguinte. Desse modo. afinal de contas serão os responsáveis pelas mudanças ao longo da cadeia de produção. porém trataremos de apresentar aquelas que poderão promover a melhor compreensão dos fatores presentes na concepção de territorialidade e de sua relação com a promoção para o desenvolvimento. conforme as diversas linhas de pensamento. obtidos por processos de produção em massa. pouco diferenciados. contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre nações e regiões. 1998) Apud (VILELA. Território Inicialmente ressaltemos que a abordagem conceitual do território é ampla. apud (VILELA. Esse autor explica que as redes de alimentos têm conexões horizontais e verticais com os espaços nos quais elas estão situadas.

Tais categorias preservam suas autonomias analíticas individuais. através de suas atividades produtivas. conforme apresenta RIBAS et al.2004) espaço e território não são termos equivalentes. (2004 p. define território: “termo geral utilizado para descrever uma porção do espaço ocupado pela pessoa. culturais e sociais. Os conceitos de território incorporam também outras categorias analíticas além de estado e sociedade. Essa perspectiva se coaduna com o que defende FISCHER (2002). Amapá ainda na década de 70 e meados de 80.. O conceito de território aparece associado também ao estado. grupo ou estado” (RIBAS. E explica sua afirmação: “o espaço é anterior ao território. Portanto. o ator territorializa o espaço (p. Percebe-se a existência de um primeiro elemento de confrontação entre território e espaço..2004). O território aparece também como aquela porção que está apropriada pelas ações humanas. é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Roraima. não se pode deslocar do entendimento de terri45 . Para Raffestin (1993). que a gestão do desenvolvimento é afinal de contas uma gestão de poderes. os casos dos outrora territórios de Rondônia. pois o território se forma a partir do espaço. Podemos citar como exemplo. ocupado e utilizado por diferentes grupos sociais como conseqüência de suas práticas de territorialidade” . e neste particular a concepção de território apresenta duas conotações. Sob o ponto de vista social a geografia define território como sendo “espaço social definido.143).Uma primeira compreensão sobre o território é aquela que diz que território é a parte do espaço ocupada e apropriada pelo homem. concreta ou abstratamente (. apud (RIBAS. O Dictionary of human Geography (1994).17): “ a primeira refere-se a soberania territorial algo que tem a ver com as reivindicações pela posse e controle legítimos e exclusivos sobre uma dada área. mas apresentam entre si interfaces dinâmicas na construção do território. tais como poder e mercado. Ao se apropriar de um espaço. A segunda conotação é aquela que se refere a uma determinada área que ainda não está incorporada inteiramente na vida política de um estado.)..

A complexidade das relações produtivas e a reorganização do espaço rural pela globalização tornaram o espaço rural com uma nova dinâmica.tório essas instâncias analíticas. como uma trama de relações complexas envolvendo estado. marcada pela revalorização da natureza e pela interligação econômica entre os 46 . recorremos a duas reflexões sobre poder e mercado relacionado ao território. É cada vez mais difícil conceber o meio rural apenas por uma análise setorial. social e cultural que resulta de jogos de oferta e de procura. superando a idéia de território vinculado apenas ao local de realização das atividades econômicas. enfocando atividades econômicas que historicamente o caracterizam como meio da produção agrícola. A partir da dinâmica da relação global e local podemos entender melhor como se articulam as relações rural e urbano. econômica. de nós e redes que se imprimem no espaço e que constituem. mas é sim. Para finalizar. a forma de como ele (mercado) se articula e se integra a diversidade social. Raffestin(1993) e Badie(1995) Apud (RIBAS. no exercício do poder “pode ser uma interação política. Como se pode perceber as abordagens articulam dimensões e categorias importantes no processo de construção do conceito de território. A dinâmica do meio rural na perspectiva de desenvolvimento local. o território”.2004). Raffestin diz que a ação das pessoas ou grupos. então. afirma que o mercado sozinho não suscita a criação de uma nova territorialidade. O território hoje se caracteriza. sendo por isso incorporado hoje aos ditames do desenvolvimento local. que provém dos indivíduos e/ou dos grupos. sociedade e mercado. sobremaneira em tempos de globalização. Isso conduz a sistemas de malhas. a partir de dois importantes autores. de algum modo. No que concerne a relação do mercado com o território Badie (1995) estudando a formação territorial da Europa. pois constituem elementos cruciais no entendimento das dinâmicas territoriais contemporâneas.

as interpretações podem incorrer em exageros e criação de novos mitos. tomam relevância as atividades não-agrícolas que passam a compor parcela significativa da renda do meio rural. Semelhantemente ao que ocorre com a globalização. como todo fenômeno.setores econômicos. em relação a forma como o meio rural se articula com o meio urbano. desenvolvimento rural Adaptado de Silva. baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias. o meio rural torna-se multifuncional e articulado ao meio urbano e por isso tem sido denominado de novo rural. A seguir apresenta alguns dos velhos mitos do meio rural e também alguns novos mitos criados com a emergência das atividades não-agrÍcolas. Grossi. esse fenômeno não ocorre igualmente em todos os espaços rurais. sendo essa dinâmica mais intensa e freqüente em algumas regiões do que em outras. não é propriamente um processo original e inovador em si. Nesse contexto. 47 . particularmente. Grossi. A reorganização do espaço rural se trata propriamente de uma mudança do papel e função do meio rural no contexto das relações global e local. Campanhola (2002) como: • Uma agropecuária moderna. já bastante conhecida em países desenvolvidos. descritas por Silva. portanto. VELHOS MITOS O rural é sinônimo de atraso O rural é sinônimo de agríc ola NOVOS MITOS As atividades não agríc olas são a soluç ão para o desemprego As atividades não-agric olas podem ser o motor para regiões atrasadas. suscitando a criação e recriação de novas atividades produtivas. Todavia. O desenvolvimento agríc ola leva ao O novo rural não prec isa de regulaç ão públic a. Campanhola (2002) O que convencionalmente vem sendo chamado de novo rural brasileiro na verdade se trata de uma reconfiguração produtiva e política em andamento nos espaços rurais. Nessa perspectiva.

próprios para construção de um modelo de desenvolvimento rural sustentável. Portanto. impulsionadas por nichos especiais de mercados. aqüicultura. que pode ser representada. muitas destas atividades foram recriadas a partir de demandas diferenciadas surgindo os chamados nichos de mercado. de como se insere nos processos de integração local e global e de sua articulação com o meio urbano.e muito menos a implantação somente de uma agricultura moderna. • O dinamismo rural depende das relações de interdependência com o meio urbano. ligadas à moradia. reservas extrativistas. Sintetizando. a perspectiva do desenvolvimento rural a partir da noção territorial e das novas ruralidades compreende as seguintes características: • O desenvolvimento rural não significa urbanização do meio rural. Dessa forma o desenvolvimento rural não significa necessariamente a urbanização do rural – que não deve ser confundido com revalorização do espaço rural . manejo florestal sustentável. Nesse processo o meio rural deve se aproximar de uma dinâmica territorial que enseje modelos e/ou arranjos produtivos que valorize a identidade local.• Um conjunto de atividades não-agricolas. ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços. algumas a partir da valorização do meio rural como espaço de moradia e lazer (turismo rural) e outras como decorrência de atividades de proteção da natureza. Depende sim. 48 . mas sabe-se que a diversidade desse meio constitui um de seus pilares. Não existe um modelo pronto para alcançar o desenvolvimento rural. farmacologia fitoterápica entre outros. beneficiamento de frutas exóticas. o capital humano e social existentes. pela cultura local e pela biodiversidade. • Um conjunto de “novas” atividades agropecuárias. Neste particular o Amazonas tem os elementos diferenciadores de seu território. por exemplo. como apontam algumas das experiências nessa direção: turismo ecológico. os recursos naturais.

2000) Para que o planejamento do uso do espaço ou local seja efetivo é imprescindível que os métodos e estratégias incluam e integrem ao desenvolvimento as variáveis ambientais. sociais e culturais. por se tratar. 1992). a biodiversidade. Os atributos do território e sua contribuição ao processo de desenvolvimento rural estão estreitamente vinculados. tais como: 49 . podem vir a contribuir para melhoria da qualidade de vida da população local. A biodiversidade presente num dado território. de um banco de recursos genéticos ainda pouco conhecido. constitui hoje elemento de diferenciação em relação a outras regiões do planeta. Historicamente. a introdução de mecanismos públicos que possibilitem a igualdade de acesso aos benefícios gerados e o compromisso com a conservação dos recursos naturais e recreativos e da qualidade ambiental. econômicas. entre outras coisas. o desenvolvimento local requer um planejamento territorial e não estritamente setorial dos processos econômicos e sociais para avaliar a competitividade. econômicas e de políticas públicas. as mudanças com o tempo e o delineamento de políticas (Saraceno. Diferenciação territorial: A sócio-biodiversidade amazônica como estratégia para o desenvolvimento rural sustentável Os meios e fins da sustentabilidade variam conforme as condições ecológicas.• Desenvolvimento rural pressupõe planejamento de ações para aproveitamento dos atributos particulares voltados para mercados que valorizem a paisagem. SILVA. apud (CAMPANHOLA. a qualidade ambiental que por extensão. sociais. tanto no âmbito regional como local (Brooks. tem-se aplicado intensamente os recursos biológicos e genéticos em diversas áreas da vida humana. a qualidade e a cultura local. Nesse sentido. 2000). SILVA. Entre os princípios a serem observados estão a participação da comunidade local no encaminhamento das decisões. sem dúvida. 1998) apud (CAMPANHOLA.

político. A combinação do valor social dessas populações locais junto com a disponibilidade dos recursos da biodiversidade assume um diferencial estratégico para as regiões que lhes abrigam. Essa é a principal característica que diferencia a abordagem do desenvolvimento local própria desse momento de institucionalidade democrática e descentralização política. Desenvolver é alcançar uma condição de equilíbrio social. A sócio-biodiversidade. melhorar a qualidade de vida das pessoas através do saneamento básico. os processos de desenvolvimento local não devem prescindir da contribuição do conhecimento das populações tradicionais em relação ao uso dessa biodiversidade. diretamente ou através de suas representações que juntamente com o poder público e as instancias econômicas-produtivas podem debater seus problemas e soluções. com papel fundamental na promoção do desenvolvimento rural sustentável. é necessário transformar a longo prazo a educação. O desenvolvimento local se insere nessa perspectiva trazendo consigo a premissa da participação efetiva da sociedade civil. o conhecimento das populações tradicionais acerca dos múltiplos usos dos recursos da flora e fauna existente constitui fator estratégico de um dado território. A biodiversidade hoje é vista como fator estratégico não apenas sob o aspecto econômico. econômico e ambiental enraizado na sociedade de tal maneira que seja capaz de assegurar sua continuidade independente de variações contingênciais negativas. ou seja. na perspectiva de desenvolvimento de medicamentos futuros. Nesses termos. ou seja. agricultura e medicina ALBAGLI (2003). segurança entre outros. da saúde.alimentação. o modelo econômico dependente e subordinado ao capital internacional. mas como suporte a vida haja vista que a “diversidade da vida é fundamental ao equilíbrio ambiental” ALBAGLI (2003). do modelo desenvolvimentista verti50 . moradia. Considerações finais O desenvolvimento enseja uma trajetória de mudanças estruturais e não apenas conjunturais.

Salvador. Cesupa. o rural passa de uma condição apenas de supridor de alimentos e matérias-primas primárias. à biodiversidade e à cultura. 1997. FISCHER. 2000. 1998. Recife: IICA. DOWBOR. Ed.cal que predominou durante décadas no Brasil. Setembro. Interesse global no saber local: geopolítica da biodiversidade. 2003. et JOYAL. Petrópolis. J. biodiversidade e conhecimento tradicional na Amazônia”. JARA. 2003. considerados importantes na construção de identidades e territorialidades diferenciadoras no âmbito econômico.Ladislaw Dowbor.EMBRAPA. IN: A gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação. Bibliografia ALBAGLI. IN: Desafios da globalização. SP. SILVA. Palestra magna no Seminário “Saber local interesse global: propriedade intelectual. Desenvolvimento e Gestão – introdução a uma agenda. Dante P. José Graziano da. Resende (Orgs. Desenvolvimento local e a democratização dos espaços rurais. Sarita. Globalização e tendências institucionais. A valorização do ambiente natural impõe reflexões acerca do uso e proteção da natureza. A região do Amazonas se caracteriza por apresentar territorialidades estratégicas e diferenciadoras de forma particular.). Rio de Janeiro. local valorizado pelo meio urbano pela complementaridade econômica. Barueri. CAMPANHOLA. Poderes locais. esses aspectos em conjunto e convergindo ações equilibradas tendem a alcançar um modelo de desenvolvimento rural sustentável.Ladislaw. 51 . Vozes. Museu Paraense Emílio Goeldi.17. para ser então. relacionadas às populações tradicionais. Ed. IN: Cadernos de Ciência e Tecnologia. o fator território aparece associado ao desenvolvimento não apenas como um lócus físico das atividades produtivas. BA. social e ambiental. Brasília. Desse modo. Clayton./abr. 2002. C. MARTINELLI. nº 1 jan. Vol. Desenvolvimento local e o papel das pequenas e médias empresas. Tânia. Octávio Ianni e Paulo Edgard A. Tânia Fischer (coord. mas por envolver aspectos inerentes a dinâmica das relações sociais. André. Belém.). Manole. Ed. Nesse contexto. Casa da qualidade. A sustentabilidade do desenvolvimento local.

SAQUET. IN: Cadernos de Ciência e Tecnologia. José Graziano da. Clayton. 2002. Paul . Marcos Aurélio. Unioeste. GROSSI. – 1995. O desenvolvimento Econômico Local.PAPE. SILVA. 2000. Francisco Beltrão. Eliseu Savério.1997. Paul. jan/abr. 19 p. VILELA. Território e desenvolvimento: diferentes abordagens. vol.PRÉVOST. Cuadernos de Desarolo Rural. 52 . Mauro Del. SPOSITO. PRÉVOST. Domingues. O que há de realmente novo no rural brasileiro. nº 1. EMBRAPA MEIONORTE. Campanhola. Programa de Associativismo para Pesquisa Ensino e Extensão . EMBRAPA. segundo semestre . Sérgio Luiz de O. Teresina. RIBAS. nº 37. A importância das novas atividades agrícolas ante a globalização: a agricultura no estado do Piauí.37-67.El Desarrolo Local y las cooperativas. 2004. Out.

com.Estratégias de comunicação em contextos populares: Implicações contemporâneas no desenvolvimento local sustentável Angelo Brás Fernandes Callou1 Introdução É recorrente. se tornou consenso. peixes@elogica. com a redemocratização do país e a consolidação da crítica à teoria rogeriana de Difusão de Inovações. sobre a qual 1 Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (POSMEX).br 53 . partimos do terreno da Comunicação Rural para discutir alguns aspectos teóricos das estratégias de comunicação para a participação de comunidades em processos de Desenvolvimento Local. redimensionar os limites das estratégias de comunicação participativas frente aos cenários socioambientais contemporâneos. parece necessário. evocar a participação popular como estratégia de inserção democrática nos processos de intervenção para o desenvolvimento. mais exatamente. entretanto. doutor em Ciências da Comunicação. Partimos. no campo da Comunicação. Desde os anos de 1980. Nesse sentido. de dois lugares: um que diz respeito à utilização da Comunicação como estratégia de Difusão de Inovações na Agricultura dos anos de 1970/80. do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Internalizada essa concepção. entre os pesquisadores pós-paulofreirianos. de que a comunicação participativa ou horizontal é ponto de partida para construção de qualquer política socioeconômica e ambiental nas organizações governamentais e não governamentais que lidam com os contextos populares. particularmente no meio rural.

Ao contrário. além dos prejuízos ambientais. as estratégias de comunicação na instância do desenvolvimento local não representem mais uma “romaria a um novo santo”. no Brasil. o outro relacionado aos desafios vivenciados na atualidade pela Comunicação Rural em contextos populares. de imediato. de que foram as abomináveis “resistências conservadoras” de algumas populações rurais à adoção de tecnologias agropecuárias. 54 . ou a sua “adoção retardatária”. A modernização dolorosa. capitaneado por Everett Rogers. É importante salientar. particularmente nos anos de 1970/80. quanto pelos pesquisadores de Comunicação Rural e Extensão Rural. Difusão de inovações e suas estratégias de comunicação: Um breve histórico Como sabemos. 1981. que apesar dos estudos realizados pela Difusão de Inovações terem sinalizado as estratégias mais eficazes de intervenção para a adoção tecnológica. no presente. José. 2 Vide GRAZIANO DA SILVA. o aumento da concentração de terra e as migrações campo-cidade. fronteira agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. para que. A preocupação com essa abordagem é a de chamar a atenção para os resultados sociais e ambientais negativos provocados no passado pela “modernização da agricultura” como vetor de desenvolvimento. como diria Rogers. estrutura agrária.faremos um breve histórico. uma considerável aceitação por parte tanto das agências governamentais de extensão agrícola. o modelo americano de Difusão de Inovações na Agricultura. Cabe lembrar aqui a observação de Juan Díaz Bordenave. fundamentalmente. Rio de Janeiro : Zahar. o decantado desenvolvimento dos contextos populares do meio rural não ocorreu. na medida em que os “pacotes tecnológicos” desarticulavam as relações de trabalho no campo e endividavam os pequenos produtores rurais2. foram observados. obteve. que contribuíram como contraponto à desarticulação social e econômica e à depredação do meio ambiente com o advento da “modernização da agricultura”.

A Folkcomunicação 3 CAPORAL. a crítica à Difusão de Inovações ainda tateava. entretanto. Texto digitado. 1984. o seu poder de corrosão. incorporavam a participação como estratégia para se comunicar e planejar atividades com as populações rurais4. Santa Maria.731 hectares da cobertura florestal. Dissertação (mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Santa Maria. Superando a revolução verde: a transição agroecológica no estado do Rio Grande do Sul. agora sobre o manto da “participação”. março de 2003.000 hectares restavam apenas.764.52% de florestas nativas3. Francisco Roberto. 30 p. 5-6. por assim dizer.Entretanto.585. através das suas expressões mais tradicionais. no período em questão.6%. tecnologia na agricultura e o discurso da EMBRATER. 4 55 . os pesquisadores tivessem uma leitura crítica do que significaria a modernização da agricultura em termos de impactos socioculturais e ambientais. Capital. Hoje. essas “resistências” parecem não ter obtido repercussão suficiente. João Carlos. de uma espécie de boutade para fazer valer as políticas públicas verticais de desenvolvimento da agricultura pela via da modernização. em 1983. na verdade. Essa crítica acontecera muito lentamente e só fora consolidada em meados dos anos de 1980. 137 p. entretanto. a exemplo das EMATER. A cultura dita popular. quando levamos em consideração o desmatamento da cobertura florestal nativa do Estado. segundo ainda esses autores. afinal de contas. foi também utilizada como estratégia de comunicação persuasiva para viabilizar o caráter modernizador da agricultura. que. Mas as práticas extensionistas não correspondiam aos preceitos dialógicos propostos por Paulo Freire. em nível do discurso. No que diz respeito à questão participativa e à questão cultural das populações rurais no cenário da modernização da agricultura. 1. o Estado já possui 17. pois. Tratava-se. Dizem eles que dos 10. àquela época. 1984. Santa Maria (RS). Segundo Ferreira e Gausmann. p. as instituições governamentais. Não podemos exigir. Vide CANUTO. à época. citado por Francisco Caporal. a cobertura florestal original passou dos 40% para 5. já em vigor. é interessante observar que. pelo menos no Rio Grande do Sul.

desenvolvimento. em 1986. é uma síntese de todo esse processo.) nos revela o quanto de esforço estava sendo feito para facilitar a adoção de um modelo cujas conseqüências não estavam sendo avaliadas. opinião. Itinerário de Luiz Beltrão. quase sempre o meio mais conservador e retardatário no desenvolvimento sócio-cultural e econômico. novas ideologias. almanaques. pela expropriação dos meios de produção.”7 A crítica desenvolvida por Walmir Barbosa no âmbito da Folkcomunicação versus Difusão de Inovações. ao oferecer munição teórica pelo seu mais ilustre representante e criador da matéria: Luiz Beltrão. novas práticas. p. que “o alto grau de credibilidade e sua natureza lúdica permitiam uma aceitação popular espontânea” das inovações6. teatro de fantoches. E agenda seguidores. refratárias aos novos usos. Diz ele. BELTRÃO. Estão aí incluídos como instrumentos facilitadores da adoção tecnológica os folhetos de cordel. 3. comenta. Luiz apud MELO. 1977.. Roberto. 1998. Roberto Benjamin. Recife : AIP/ UNICAP. a reflexão intelectual se debru5 Esse livro é parte da sua tese de doutoramento apresentada à Universidade de Brasília. Comunicação. 6 7 56 . no livro Comunicação e Folclore 5. no início dos anos de 1970. na sua tese de doutoramento.. se referindo a manifestações da Folkcomunicação. BENJAMIN.. como na religião e na moral. 104-105.cit. p. Sobre isso vide BENJAMIN. em 1967.praticamente inaugurou esse encontro com o difusionismo tecnológico. em 1971. que o folheto popular e o almanaque “refletem a opinião pública matriz do meio social onde se acham integrados os poetas. segundo José Marques de Melo. Roberto apud MARQUES DE MELO. Tanto na política. os folhetos refletem idéias gerais e conservadoras. Petrópolis : Vozes. José Marques de. Da mesma forma que a lógica do capital já começava a atuar de modo concreto sobre o campesinato.ed. op. 104. Diz ele: “Uma reflexão (. José. citado também por José Marques de Melo. entre tantos outros meios de comunicação popular presentes no meio rural.

Walmir de Albuquerque.167-178. cit. quanto a questão da «valorização» das culturas populares do período da Difusão de Inovações.”8 O que é importante reter dessa digressão é que tanto a noção de participação. p. Estratégias de comunicação contemporâneas Para abordar esse tema lançamos mão do interessante estudo publicado recentemente por Desirée Rabelo. 14. 161-162. Comunicação e mobilização na agenda 21 local. E o mais grave. Idem. expropriação dos meios de produção cultural. da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O estudo revela-se como uma cartografia do planejamento comunicacional ali desenvolvido. Com o objetivo de «identificar algumas estratégias de comunicação consonantes com a mobilização prósustentabilidade»10. e Pastoral da Criança. duas outras experiências – Operação Rodízio (de automóveis). em São Paulo. 57 . em 1996. 2003.11 Sem a pretensão de desenvolver estudos comparativos. a complexidade que envolve os diversos processos de participação dos atores sociais envolvidos nas mobilizações e a importância das estratégias de comunicação para flexibilizar e desobstruir canais de comunicação. no qual ela acrescenta. op. Desirée Cipriano. Vitória : FACITEC. 203 p. 8 9 10 11 BARBOSA. através dessas experiências. para reelaborar com eles novas formas de intervenção. se mantém implícita e explicitamente na pauta das discussões das políticas e estratégias de comunicação para o desenvolvimento dos cenários socioeconômicos e ambientais contemporâneos. Rabelo se debruça sobre a implantação. p. Comunicação e Mobilização na Agenda 21 Local9.. p. ainda. RABELO. para propor aos agentes do capital também a expropriação dos meios de produção cultural.çava sobre a cultura do povo. a autora apresenta. refazendo e buscando compreender o funcionamento de todo o processo de mobilização social e suas estratégias de comunicação. da Agenda 21 local em Vitória do Espírito Santo. Idem.

”14 O reeditor para Toro.Para desenvolver essa pesquisa. 2) “identificar e instrumentalizar reeditores”. Rabelo se estrutura teoricamente a partir dos estudos de Bernardo Toro. cit.. Idem. 63 Idem.”15.. Rabelo traz. passando por um cabelereiro. por seu papel social. como ele próprio sintetiza. pode ser desde um professor até os média e seus profissionais. b) o reeditor social. ou seja. isto é. e 3) “gerar processos de coletivização”. É alguém capaz de modificar as formas de pensar. Idem.”16 Cabe ao editor. e c) o editor. tornar público os 12 13 14 15 16 17 TORO. talvez. são três os atores principais necessários para iniciar um processo de mobilização: a) o produtor social. criar estratégias que possibilitem reunir. segundo circunstâncias e propósitos. as campanhas Que nenhuma família passe fome neste Natal e Para que todas as crianças tenham vida. com credibilidade e legitimidade. segundo Rabelo. transmitir. entre outros exemplos. pode ser uma instituição ou também uma pessoa que tem como tarefa “estruturar informações em códigos pertinentes à mobilização. sentir e atuar de seu público. enfrenta os seguintes desafios: 1) “construir e divulgar imagiários”. p. Este. técnicas e profissionais para que um processo de mobilização ocorra. que vê os processos de participação e mobilização como um “ato de comunicação”12. qualquer pessoa “que tem o poder de negar.. Idem. para Toro. um padre. segundo o autor citado17. Idem. através de Rabelo. institucionais. diferentes atores em prol de um objetivo comum. Trata-se de “pessoa ou instituição com legitimidade e capacidade de criar condições econômicas. Bernardo apud RABELO. introduzir e criar sentidos. ou. 58 . segundo Rabelo. op. Para este autor. Neste caso é uma “pessoa que. Ou seja. na medida em que. do ponto de vista da comuncição para mobilização.”13. “somar singularidades”. a tarefa mais complexa. segundo ainda Rabelo. mobilizar. p. 64. ocupação ou trabalho tem capacidade de readequar mensagens..

Entretanto. por seu turno. em termos de comunicação popular. dos meios de comunicação de massa. 59 . 65-67. ou seja. aquelas estratégias mais promissoras. em última instância. apenas como um problema no âmbito das estratégias de comunicação. Michael. em que “Agir com estratégia é deixar alguns clientes insatisfeitos para que outros possam ficar verdadeiramente contentes. In: Estratégia e planejamento. a todos aqueles que se interessam pela participação/ mobilização comunitária e social em prol do desenvolvimento sustentável.trabalhos que estão sendo desenvolvidos e os apoios institucionais ou individuais recebidos.”19 Como vimos. realça a importância do planejamento da comunicação. animando. dissecar. p. A temática da participação popular/mobilização não deve ser pensada. Investir nessa direção é tratar os contextos populares como um produto. É bem verdade que as preocupações atuais com as estratégias de comunicação se distinguem daquelas realizadas pela Difusão de Inovações e Folkcomunicação. a divulgação dos resultados podem criar um sentimento de auto-estima entre os atores sociais envolvidos na mobilização. segundo a autora. A nova era da estratégia. pois. para apoiar diferentes tipos de campanhas e público. PORTER. o seu trabalho não aborda algumas questões que consideramos hoje como fundamentais nos estudos de Comunicação Rural e Extensão Rural. diga-se de passagem ainda tão pouco contemplado pelas agências de desenvolvimento dos contextos populares. em desafios de registrar. Isso implicaria. São Paulo : Publifolha. Além disso. p. Com essa perspectiva teórica. os processos de participação18 . tão somente. o estudo de Rabelo oferece pistas metodológicas para os produtores sociais. reeditores sociais e editores. 2002. cujo preceito teórico seria o de Michael Porter. a nosso ver. Daí a importância. na medida em que pretendem abrir/desobstruir canais à inserção cidadã dos contextos populares nos processos de 18 19 Idem. 31. revelar. isto foi feito no passado com repercussões negativas sobre as populações rurais e o meio ambiente.

o texto Desafios da Comunicação Rural em Tempo de Desenvolvimento Local 21. nesses últimos 10 anos.78. pela primeira vez. N. Mas o que parece relevante e instigante é pensar as culturas populares na contemporaneidade a partir dos estudos de Comunicação Rural para analisar até que ponto vale a pena se deter nas estratégias e participação comunitária de forma específica à recuperação/preservação ambiental. e as novas concepções sobre o rural brasileiro que enlaçam atividades agrícolas e não agrícolas num mesmo território agrário. 6-19. essa discussão tem o seu lugar de importânica. Idem. 2001. ano 27. Desafios da comunicação rural em tempo de desenvolvimento local. publica-se. por transformações teóricometodológicas consideráveis. Revista de Comunicação Integrada. 3. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável. no qual articula-se. No que diz respeito especificamente à Comunicação Rural e Desenvolvimento Local. UFPB. essa temática aos estudos de Comunicação Rural no Brasil. setembro/1995. Maria Salett. 21 60 . 1998. Brasília : IICA. Desenvolvimento local. Pelo menos três vetores contribuíram para o surgimento dessas tranformações: a influência dos estudos em desenvolvimento local. Portanto. 2000. Carlos. Angelo Brás Fernandes. Comunicação rural e desenvolvimento local sustentável Os estudos de Comunicação Rural/Extensão Rural no Brasil vêm passando. Por que precisamos de desenvolvimento local integrado e sustentável. Revista Signo. integrado e sustentável: dez consensos. Augusto de. Se não vejamos. p. Ano II. aqui compreendido como um processo de concertação/orquestração dos diferentes atores sociais empenhados no desenvolvimento sustentável das potencialidades econômicas endógenas20. Nesse momento. Brasília : Instituto de Política. CALLOU.. a disseminação dos Cultural Studies ingleses nas pesquisas em Comunicação da América Latina. e JARA. a perspectiva de desenvolver os contextos populares a partir de políticas governamentais mais amplas perde estatura na Comunicação Rural em virtude da fragmenta20 São vários os textos que abordam o assunto.desenvolvimento. Proposta. Vide especialmente FRANCO. TAUK SANTOS. em 1995. n.

22 As noções de participação e de cultura popular se mantêm ainda coladas nessa nova abordagem. mas dentro de uma leitura distinta daquela do passado e. ou seja.Serviços de Tecnologias Alternativas (SERTA) . jan.)./abr. Ou seja. 1998. Maria Salett. de Canclini. TAUK SANTOS. aspectos novos apareceram para instrumentalizar a sua ação no Desenvolvimento Local. e as aspirações simbólicas construídas a partir de estímulos da cultura hegemônica. em geral via meios de comunicação de massa. na concepção de Néstor García Canclini e Jesus Martín-Barbero sobre as culturas populares no capitalismo. num movimento pendular entre as possibilidades de consumo ao nível de sua existência. À medida em que a Comunicação Rural lançou mão dos estudos culturais latino-americanos da Comunicação para compreender os processos de recepção de mensagens pelas culturas populares do meio rural. que abordamos. talvez. Extensão pesqueira e gestão da comunicação no desenvolvimento local. pulveriza/localiza. Angelo Brás Fernandes. Comunicação e Educação. acenadas pelo SERTA. Coube à Comunicação Rural nesse novo cenário envolver-se com os contextos populares como facilitadora/gestora dos processos comunicacionais na concertação para o desenvolvimento local. 61 . In: PRORENDA RURAL-PE (Org. a Comunicação Rural tem hoje uma outra leitura no âmbito da participação comunitária.se configura de maneira ambivalente e refuncionalizada. n 11 : 29 a 34. da que se vê embutida no estudo de Desirée Rabelo.ção do espaço pelos atuais processos de reestruturação da economia mundial e sua repercussão contraditória sobre as culturas locais.. Espelhada. na sua pesquisa de doutoramento. Gestão da comunicação no desenvolvimento regional. Extensão pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. 2002. e CALLOU. que as reconfiguram como culturas híbridas e ressignificadoras dos produtos midiáticos. Recife : Bagaço. chega à conclusão. de que a participação de pequenos agricultores no programa de desenvolvimento rural analisado . lastreada principalmente na categoria “consumo”. os pequenos produtores ru22 Vide TAUK SANTOS. São Paulo : Editora Moderna. principalmente. Maria Salett. exclui/inclui. por exemplo. Salett Tauk Santos. desorganiza/organiza.

1998. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural).. é preciso levar em consideração que as culturas populares atuam num terreno de ambigüidades permanentes.. afirma a autora. In: CALLOU. vol. por mais bem intencionados que sejam os produtores sociais. 188 p. pelas mutuárias da Cila de Chã de Marinheiro. (o caso Pintadas/BA).13. Esse impacto tem exigido redefinições no conceito de território agrário. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). Conceição Maria Dias.. Somam-se a esses aspectos os desafios enfrentados pelas populações rurais com o impacto da mundialização dos mercados no meio agrícola brasileiro. jul. UFRPE. 193 p. 2000. Comunicação e consumo: espaço das mediações da cultura transnacional e das culturas populares. n. tecnologia e desenvolvimento local. 46 e 47 apud CALLOU. Coleção GT Intercom. p. e LIMA. na medida em que as atividades agropecuárias vêm se reunindo às atividades não agrícolas./dez. Recife. Em lugar de restringirem sua participação à questão política e produtiva. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). Dissertação de Mestrado em Comunicação Rural. SÁ BARRETO. 2. 62 . 2001. Maria de Fátima Massena. Aída Lúcia Mello. como deseja o SERTA. Mulher e consumo: a recepção das mensagens do programa de apoio ao desenvolvimento comunitário (PRODEC) da Caixa econômica Federal. Angelo Brás Fernandes. São Paulo. Comunicação rural e era tecnológica: tema de abertura. Portanto.INTERCOM. Carmem Virgínia M. As proposições de incluir as atividades produtivas já existentes no meio rural brasileiro (lazer. Recife : UFRPE. reeditores sociais e editores de que fala Desirée Rabelo na construção de estratégias de comunicação para mobilização comunitária. 144 p. com aspectos da vida cotidiana como o lazer e a religião23. 345 p. Maria Salett Tauk. 2002. Recife : UFRPE.. artesanato. entre outras) nas políticas públicas de desenvolvimento 23 SANTOS. indústrias. em Surubim/PE.) Comunicação rural. p. (Reprodução literal e parcial da nota de rodapé 41. MELO. Comunitário: espaço simbólico de encontros e desencontros.rais dão significados incompatíveis com a noção de participação concebida pelo programa. Recife : UFRPE. 2003. Comunicação e reforma agrária: estudo de recepção das políticas do MEPF-INCRA pelos assentados de Gaipió – PE. a mesclam.21). 43. turismo. Vide também PASSOS. Angelo Brás Fernandes (org. XIX. 1996. nem sempre captadas (ou cooptadas) pelas estratégias de comunicação. trabalho em domicílio. Recife : Bagaço. Comunicação e desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da incubadora tecnológica de cooperativas populares – INCUBACOOP pelas mulheres da cooperativa de costura de Abreu e Lima – COOPECAL-PE. Revista Brasileira de Comunicação . N.

d. 25 26 27 63 . Cenário este onde as culturas populares também perdem o caráter romântico desejado pelos folcloristas27 para serem pensadas no substantivo plural. ao desenvolvimento local e à sociedade tecnológica emergente. em reordenação permanente. O novo mundo rural. n. José. José (edit. s. Sobre isso vide ORTIZ. 2002. concordamos com Clayton Campanhola e José Graziano da Silva ao incluírem a gestão ambiental das atividades num processo mais amplo e integrado de desenvolvimento local para não restringir as estratégias de mobilização aos recursos naturais ou ao meio ambiente26. José. Revista ops. Jaguariúna (SP) : EMBRAPA. 2000. perdem suas singularidades para encontrar seu sentido mais dinâmico num cenário de desenvolvimento local sustentável. 1. O novo rural brasileiro: políticas públicas. 7. 7. 3. Internet. 2. Meio Ambiente. GRAZIANO DA SILVA. Eli da. estão no bojo dessas novas ruralidades questões relativas ao meio ambiente. José. cultura popular. Diretrizes de políticas públicas para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de desenvolvimento local. GRAZIANO DA SILVA. Belo Horizonte. excluídas. v.rural. bem como a reivindicação de uma reforma agrária não essencialmente agrícola24. Por uma reforma agrária não essencialmente agrícola. n. GRAZIANO DA SILVA. transnacionalizadas. vêm exigindo que se pense de maneira diferenciada as estratégias de Comunicação Rural. p. e GRAZIANO DA SILVA. maio. p. 1997. UFMG. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se calcula. quando sabemos que os contextos populares do meio rural hoje são mais amplos do que se imaginava. 1997. Campinas (SP) : Editora Autores Associados. p. Noutras palavras. Mais complexa essa questão se torna. Estudos recentes mostram que o Brasil possui mais de 70% dos seus municípios no meio rural25. como pretendemos que sejam discutidas e pesquisadas. 2. São Paulo : Olho d’Água. In: CAMPANHOLA. 66. Sobre o assunto veja-se VEIGA. as estratégias para participação de comunidades em processos de recuperação/preservação ambiental. hibridizadas.). José. em várias direções e temporalidades. Por outro lado. Clayton. 304 p. v. 24 Sobre isso vide GRAZIANO DA SILVA. Nova Economia. Clayton. v. Salvador. E são nesses territórios onde se localizam as principais questões ligadas ao meio ambiente. CAMPANHOLA. Românticos e folclorista. Entrevista. Diante desses aspectos. 43-81. Renato.

fronteira agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. BENJAMIN. O novo rural brasileiro: políticas públicas. p. Francisco Roberto. integrado e sustentável: dez consensos. 3. 1984. março de 2003. In: CALLOU. José. Clayton. Recife : AIP/UNICAP 1998.Por último. 64 . Comunicação rural e era tecnológica: tema de abertura.). José (edit. Augusto de. Walmir de Albuquerque. Bibliografia BARBOSA. Itinerário de Luiz Beltrão. Augusto de. UFMG. FRANCO. José. Roberto. Capital. Recife : Bagaço. GRAZIANO DA SILVA. GRAZIANO DA SILVA. José. tecnologia na agricultura e o discurso da EMBRATER. n. tecnologia e desenvolvimento local. 43-81. GRAZIANO DA SILVA.1. 6-19. GRAZIANO DA SILVA. 2000. 66. 1998. v. podemos arriscar dizer. Jaguariúna (SP) : EMBRAPA. A questão agrária e a comunicação rural no Brasil. ano 27. 1984. . CALLOU. Angelo Brás Fernandes (org.78. n.) Comunicação rural. Clayton. O novo mundo rural. 5-6. CAPORAL. Meio Ambiente. Tese doutoramento (ECA/USP). Santa Maria (RS). CAMPANHOLA. Por que precisamos de desenvolvimento local integrado e sustentável.13. p. Proposta. 1986. Santa Maria. Texto digitado. Diretrizes de políticas públicas para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de desenvolvimento local. estrutura agrária. Rio de Janeiro : Zahar. maio. CANUTO.7. 137 p. João Carlos. Angelo Brás Fernandes. Coleção GT Intercom. In: CAMPANHOLA. Belo Horizonte. n. Superando a revolução verde: a transição agroecológica no estado do Rio Grande do Sul. 30 p. Nova Economia. p. 2002. p. estudos culturais da Comunicação e novas ruralidades – que o planejamento da comunicação e suas estratégias de mobilização comunitária podem se tornar rarefeitas diante das ambivalências e das ressignifações que os contextos populares apresentam nos processos de participação das propostas de desenvolvimento local. FRANCO. considerando os três vetores acima abordados – desenvolvimento local. 1981. Dissertação (mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Santa Maria. v. Brasília : Instituto de Política. Desenvolvimento local. 1997. 2000. A modernização dolorosa.

SÁ BARRETO. 1997. 188 p. Dissertação de Mestrado em Comunicação Rural. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural)./ dez. 1977. ORTIZ. Mulher e consumo: a recepção das mensagens do programa de apoio ao desenvolvimento comunitário (PRODEC) da Caixa econômica Federal.GRAZIANO DA SILVA. 2. p. 2001. XIX. 2000. Por uma reforma agrária não essencialmente agrícola.d. (o caso Pintadas/BA). 2003.INTERCOM. Desirée Cipriano. Comunicação e desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da incubadora tecnológica de cooperativas populares – INCUBACOOP pelas mulheres da cooperativa de costura de Abreu e Lima – COOPECAL-PE. MELO. 46 e 47. n. Petrópolis : Vozes. Recife : UFRPE. pelas mutuárias da Cila de Chã de Marinheiro. Aída Lúcia Mello. José. N. jul.. 3a Ed. 1997. 144 p. opinião. Renato. Maria de Fátima Massena. A nova era da estratégia. 345 p. 2001. 1998. São Paulo. cultura popular. Belo Horizonte. Comunicação e mobilização na agenda 21 local. MARQUES DE MELO. São Paulo : Publifolha. Entrevista. Comunicação e reforma agrária: estudo de recepção das políticas do MEPF-INCRA pelos assentados de Gaipió – PE. 65 . Comunicação. 43. p. RABELO. LIMA. 2. In: Estratégia e planejamento. Recife : UFRPE. 7. Carmem Virgínia M. GRAZIANO DA SILVA. JARA. Michael. vol. s. Recife. 193 p. PASSOS. José. desenvolvimento. São Paulo : Olho d’Água. Salvador. em Surubim/PE. 7. José. 43-81. 2003. Conceição Maria Dias. v. Românticos e folclorista. Maria Salett Comunicação e consumo: espaço das mediações da cultura transnacional e das culturas populares. UFRPE. maio. Vitória : FACITEC. Recife : UFRPE. v. 2. O novo mundo rural. UFMG. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável. Carlos. Revista Brasileira de Comunicação . 1996. GRAZIANO DA SILVA. p. 203 p. Nova Economia. TAUK SANTOS. 2002. 1. Internet. PORTER. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). Comunitário: espaço simbólico de encontros e desencontros. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). Brasília : IICA. 31. p. n. Revista ops. José.

2002. 2002. Angelo Brás Fernandes. N. Campinas (SP) : Editora Autores Associados. 66 . Recife : Bagaço. Comunicação e Educação. 3. Gestão da comunicação no desenvolvimento regional. Revista de Comunicação Integrada. Extensão pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. 1998. CALLOU. In: PRORENDA RURAL-PE (Org. Extensão pesqueira e gestão da comunicação no desenvolvimento local. 304 p. Maria Salett. Eli da. São Paulo : Editora Moderna. UFPB. Maria Salett.). jan.TAUK SANTOS. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se calcula. setembro/1995./abr. Desafios da comunicação rural em tempo de desenvolvimento local.. TAUK SANTOS. Revista Signo. Angelo Brás Fernandes. VEIGA. Maria Salett. TAUK SANTOS. e Baccega. Ano II. CALLOU. n 11 : 29 a 34.

fazem parte do quotidiano.A metodologia científica e o quotidiano da extensão rural: Algumas relações Prof. por exemplo. todas elas com reflexo. Pretende-se aqui suscitar algumas reflexões em torno de possíveis relações entre o domínio de princípios básicos da metodologia científica e a atuação profissional de alguém enquanto extensionista rural. Curso de Aperfeiçoamento em Extensão Rural promovido pelo PROJETO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS (SEPROR / IDAM E GTZ – Amazonas) em outubro / novembro de 2004. em parte. em torno de conhecimento e em torno de pesquisa? Como tal compreensão pode também condicionar o desempenho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo? Este texto sistematiza. seja no quotidiano do campo. uma diversidade de tipos de conhecimentos está presente. buscando contribuir com elementos de resposta para as seguintes questões. A prática de extensionista rural e a diversidade de conhecimentos Qualquer que seja o paradigma dominante num sistema de extensão rural. extensionista rural – pecuarista. 67 . na cidade de Presidente Figueiredo .AM. entre outras: qual a compreensão do extensionista rural e da extensionista rural em torno de ciência. Paulo de Jesus1 O trabalho do Extensionista Rural e da Extensionista Rural tem passado por diferentes orientações paradigmáticas. seja na formação profissional. tendo por base pesquisa bibliográfica e as próprias vivências do autor. a interação extensionista rural – agricultor. discussões empreendidas junto a um grupo de extensionista rurais efetuadas no Estado do Amazonas2. Nesse processo de interação. Dr. 1 2 Professor Adjunto no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Então. Ou seja. ‘engole’ o objeto que conheceu. contudo. No processo de conhecimento. conhecer é estabelecer uma relação entre a pessoa que conhece e o objeto que passa a ser conhecido. resultando daí um conjunto de impressões. por mais absurdo que pareça. transforma em conceito esse objeto. um dia se programa uma visita a uma dessas comunidades. quem conhece acaba por. de caracterizar os diferentes tipos de conhecimento. isto é. um extensionista rural ou uma extensionista rural é designado para trabalhar num município amazônico em que existem algumas comunidades predominantemente indígenas. Galliano (1986:17) assim se expressava: Em linhas gerais. tem conhecimentos muito elementares e talvez estereotipados sobre comunidades predominantemente indígenas. reconstituio em sua mente. o resultado. uma reflexão se impõe: o que é conhecimento? Qual o entendimento do extensionista rural e da extensionista rural em torno do significado de conhecimento e como se processa a sua produção? De forma simplificada e inspirada em Ruiz (1996) pode-se formular um entendimento sobre conhecimento baseado em três elementos: a) o sujeito cognoscente. de sensações. de certo modo. de imagens sobre a comunidade. ao vivo. ou seja. Imagine-se que o extensionista rural ou a extensionista rural. b) o objeto cognoscível. Ilustrando. com a comunidade predominantemente indígena (situação a ser conhecido ou situação cognoscente). O que vai acontecer: o sujeito (o extensionista rural ou a extensionista rural) vai interagir. suas formas de lazer. Dessa forma. suas relações com outras 68 . suas condições de vida e de produção e de comercialização. apropriar-se do objeto que conheceu. isto é.Antes. sua composição etária e por sexo. culturais. o que fica da relação entre o sujeito e o objeto. alguém que tem a capacidade de conhecer. seus valores religiosos. algo que pode ser conhecido e c) a imagem.

sensações. Muito freqüentemente distingue-se o conhecimento pela adjetivação: conhecimento popular. assim como condiciona o comportamento. DEMO. a forma e. ALVES. entre outros). ou seja. escrever um texto sobre a comunidade predominantemente indígena visitada. registrado. escrito. se o extensionista rural ou a extensionista rural. As imagens.. são os condicionamentos sob os quais a relação entre o ser cognoscente e o cognoscível. Isso favorece a compreensão daquilo que distingue os diferentes tipos de conhecimento: é. Tal relação. Também aquele resultado (imagens. 1996. ou consolidadas. Os livros. é condicionada por diversos fatores (DEMO. Mas. inclusive em situações de laboratórios. com a comunidade predominantemente indígena e outras. como se sabe. as sensações. a relação do extensionista rural ou da extensionista rural. 1995. apresenta-se uma classificação sobre conhecimento que distingue pelo menos quatro tipos de conhecimento: 69 . a atuação. esse texto será um resultado da experiência de interação vivenciada. conhecimento científico. tem-se um resultado dessa relação estabelecida. ou reconstruídas com acréscimos ou substituições. por exemplo. interação vivenciada sob diversas formas. por exemplo. informações) pode ser sistematizado. tem-se um conhecimento. as impressões são captadas e armazenadas no cérebro e depois serão. Muitos autores apresentam tipologias de conhecimento e suas características (RUIZ. são as formas e os condicionamentos presentes na relação do extensionista e da extensionista com a comunidade predominantemente indígena que podem caracterizar o tipo de conhecimento resultante dessa interação. ou seja. Parece explicado o sentido de conhecimento e a forma como ele é produzido. No exemplo acima apresentado. 1995). do exemplo acima. conhecimento religioso. são conhecimentos sistematizados que resultaram da interação sujeito – objeto. por exemplo.etnias etc. entre o sujeito e o objeto se processa. A seguir. 1996. de outro lado. por exemplo. de um lado. os artigos de revista científica. 2004. CERVO.

• visão fragmentada e subjetiva. • expresso em linguagem diversificada e vaga. na busca da solução para problemas imediatos. vai interiorizando as tradições da coletividade”. vai acumulando vivências. • condições de produção e de uso que podem permitir a emergência do caráter dogmático. no decorrer da existência. sem regras formais. por exemplo. 70 . primeiros princípios éticos e intuição estética. crenças. dificultando ou impossibilitando o controle e avaliação experimental. subordinada ao envolvimento afetivo e emotivo de quem o elabora. • é elaborado de forma espontânea e instintiva. condicionada aos interesses. • tem caráter utilitário e é repassado de um indivíduo a outro e de geração a geração. como afirma Ruriz (1996:91) todo homem. e.A) Conhecimento do senso comum ou conhecimento ordinário ou conhecimento empírico ou conhecimento vulgar ou ainda conhecimento intuitivo Uma primeira observação sobre esse tipo de conhecimento diz respeito à adjetivação freqüentemente utilizada pelos autores: senso comum. portanto ametódica. ordinário. • intuição dos primeiros princípios lógicos. são adjetivos que podem refletir uma atitude de desvalorização. • incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações baseadas apenas nas crenças pessoais. assistemática. que não valoriza o esforço da busca de provas e evidências. vulgar. convicções pessoais e expectativas do sujeito cognoscente.E aí está a forma como é produzido esse tipo de conhecimento: espontaneamente. daquilo que ouviu de terceiros. No entanto. como se vê seguir: • quase sempre baseado na percepção sensorial. “vai acumulando conhecimentos daquilo que viu pessoalmente.

como se vê a seguir: 71 .Como se afirmou anteriormente. com pecuarista que. Assim. B) Conhecimento filosófico A compreensão do sentido e da forma de construção do conhecimento filosófico passa pela compreensão de que a Filosofia: • tem como objetos. que antecede à experiência. idéias. Mas. parece ser fácil deduzir também que freqüentemente a pessoa está em estado de filosofar. todos recorremos a ele. ao mesmo tempo. seus comportamentos. um agricultor familiar pergunta: E por que tem que ser assim. quando. Doutor? C) Conhecimento religioso Esse tipo de conhecimento supõe uma compreensão sobre Teologia. todos estamos impregnados desse tipo de conhecimento. se aproximam também das características do conhecimento filosófico. as conclusões. E no quotidiano de seu trabalho. por exemplo. seus valores são também condicionados pelo conhecimento do senso comum. das leis mais universais. Deduz-se com certa facilidade que a construção desse tipo de conhecimento tem regras próprias. portanto não passíveis de observação sensorial. • está sempre à procura do mais geral. com indígenas. se interessando pela formulação de uma concepção unificada e unificante do universo. • objetiva questionar as certezas. o extensionista rural ou a extensionista rural é também detentor ou detentora desse tipo de conhecimento e está constantemente interagindo profissionalmente com pessoas que detém ou produzem esse tipo de conhecimento e conseqüentemente suas atitudes. • utiliza o método racional onde prevalece o processo dedutivo. exigências lógicas não redutíveis a realidades materiais. relações conceituais. • tem como fundamento a evidência lógica. e se centra na coerência lógica. procurando sentido ou interpretação mais ampla em resposta às grandes indagações do espírito humano. como ele ou ela. o extensionista rural ou a extensionista rural interage com agricultores familiares.

D) Conhecimento científico Para entender o conhecimento científico. contraditoriamente. • supõe e exige a autoridade divina. todos e todas. os índios e as índias. até o Renascimento. cultos afro-brasileiros. nela se fundamentando e só a ela atendendo. diferentes da Filosofia e demais ciências (sentidos corporais. quando bem analisados. • geral. Parece que as características do conhecimento religioso ficaram claras. alguém pode ser profundamente religioso (católico. o conhecimento científico se caracterizava como: • certo. Neste sentido. faz-se necessário situá-lo no tempo. Claro. presbiteriano. • utiliza como princípio operativo a fé religiosa que é de ordem místico-intuitiva e não de ordem racional-analítica. batista. seus comportamentos tem também a influência do conhecimento religioso. 72 . os agricultores e agricultoras. • tem uma esfera de valor completamente autônoma. • utiliza princípios operativos (razão iluminada. inteligência e razão natural). Aqui também se pode afirmar que os comportamentos. as atitudes humanas são muito influenciadas pelo conhecimento religioso: os técnicos e as técnicas. por exemplo) e ser um grande cientista. os professores e professoras. portanto uma epistemologia autônoma.: Teoria da Evolução das Espécies. Outra reflexão importante refere-se ao fato de professar. Assim. de praticar. até aqueles e aquelas que. origem do mundo). se dizem ateus ou atéias. budista. de ser influenciado ou determinado pelo conhecimento religioso não impede a influência de outros tipos de comportamento. às vezes surgem grandes conflitos. pela condição de explicar os motivos da certeza. porque conhecia no real o que há de mais universal e válido para todos os casos da mesma espécie. de atitudes.• não se distingue da Filosofia e das outras ciências pelo objeto de estudo que é ou pode ser o mesmo (Ex. elevada pelo Dom sobrenatural e gratuito da fé).

Também deveriam ser formuladas questões que sintetizassem as inquietações do extensionista ou da extensionista em torno da comunidade predominantemente indígena. sistemática. é regida por regras claras e conhecidas de todos. no contexto da produção do conhecimento científico. A ciência não é considerada como algo pronto. de revisão e reavaliação de seus resultados e tem a consciência clara de sua falibilidade e de seus limites. sistemático. teria que ser precedido de uma apropriação do conhecimento já existente em torno do tema. o que é mesmo que ele ou ela quer conhecer. como se viu acima. para ter o caráter científico.. se processa de forma metódica. nos processos de escolarização se incutem visões exatamente diferentes: a ciência é a verdade e é imutável. A relação sujeito – objeto. qual o problema a esclarecer ou explicar? Outra decisão no planejamento do estudo da comunidade a ser visitada: o contato vai ser feito com todos os integrantes da comunidade? como vai se dar esse contato com todos? ou se vai estabelecer 73 . ser precedido de leituras sobre o que já se estudou e publicou em torno de comunidade predominantemente indígena na Amazônia. como se viu. objetivo e crítico. Nem sempre se pensa assim. como afirma Cervo (1996:8).• metódico.) a concepção de ciência é outra. No exemplo acima apresentado. Assim. (. resultante da demonstração e da experimentação. isto é. acabado ou definitivo. Quase sempre. Ou seja. precisaria atender a certas condições. que. Tais regras configuram o chamado método científico. o que a aproxima muito do conhecimento religioso. Não é a posse de verdades imutáveis. o conhecimento resultante da relação do extensionista ou da extensionista rural com a comunidade predominantemente indígena. o contacto do extensionista ou da extensionista teria que ser mais planejado. por exemplo. Hoje.. Atualmente a ciência é entendida como uma busca constante de explicações e soluções.

e valoriza-los. por exemplo. adultos. com a consciência de que não se trata de considerar um tipo de conhecimento melhor ou superior a um outro tipo de conhecimento. Pelos objetivos desse texto. até hipóteses a serem investigadas posteriormente. A consciência das diferenças entre tipos de conhecimentos com os quais se interage no cotidiano pode contribuir para a adoção de atitudes de valorização dessas diferenças e de aprendizagens a partir das diferenças. neste caso. jovens e crianças. extensionista – pecuarista. por exemplo. formular sinteticamente conclusões e. vai ser feito contato apenas com um certo número de habitantes. extensionista – indígena. Tal consciência pode favorecer à interação extensionista – agricultor. a seguir se tentará apresentar elementos que favoreçam a compreensão do processo de produção do conhecimento científico.uma amostra. as informações e como analisá-las posteriormente. a caracterizá-los. por exemplo. incluindo nesse conjunto. sem preconceitos. mulheres. homens. Depois. b)contribuir para compreensão e crítica do conhecimento siste74 . teria que se definir como registrar as impressões. Feita essa breve caracterização dos tipos de conhecimento. isto é. numa perspectiva de aprofundar o conhecimento. podese possivelmente afirmar que hoje o extensionista ou a extensionista. Como se tentou evidenciar. as diferenças entre tipos de conhecimentos são resultados dos processos diferentes de produção de cada tipo de conhecimento. começa a perceber a diversidade de tipos de conhecimentos. Por fim. inclusive comparando-as com impressões produzidas e registradas por outras pessoas. Trata-se de considerá-los como eles são: diferentes. Conhecimento Científico e Método Científico Importa ter bem claro que a compreensão em torno do método científico aponta pelo menos para três finalidades: a)compreendê-lo como processo de produção diferenciador de outros tipos de conhecimento.

etc. da interação sujeito – objeto. A ciência tem um conjunto de procedimentos organizados para obter. para os objetivos desse texto. da prática.matizado a que se tem acesso e c) instrumentalizar-se para sua prática. assinala que “uma das diferenças entre a ciência e as outras formas de conhecimento é a existência de uma organização lógica entre as afirmações que constituem uma teoria científica e a possibilidade de justificá-la”. Pode ser de ordem prática . É a observação do real.(LUNGARZO. Esse é o primeiro passo. Eis o sentido de método: procedimentos organizados em uma seqüência lógica. Ferreira. ou teórica. 1989:42). num processo de produção do conhecimento científico. destaca-se a importância e a caracterização da etapa de observação. Estas 75 . para resolver um problema de pesquisa. inclusive. comparar seus enunciados. Começa-se uma pesquisa pela inquietação produzida a partir da observação. para compreender. Lungarzo (1989). de forma a poder. convém definir ou apresentar um sentido de Método. Observação. testar suas verdades. da situação de pesquisa. por exemplo. assegurar a repetição da experiência. é a existência de um método. que permite organizar. identificação e formulação do problema de pesquisa. Ele assim conclui: Uma das características da ciência. confronto entre teorias. para seu exercício. Em se falando de método científico. problemas relativos a revisões ou validações conceituais. do empírico que suscita a necessidade de pesquisa para explicar. Antes da adjetivação. E o que é problema de pesquisa? Considerem-se algumas definições. identificação e formulação do problema de pesquisa.problemas empíricos -. assim se expressa: Um problema caracteriza-se pela proposição de uma dificuldade a ser resolvida. compilar e testar seus resultados. por exemplo.

dificuldades inviabilizam o conhecimento de fatos ou fenômenos, de importância significativa, para a qual busca-se uma solução. O problema se constitui na pergunta fundamental que norteará todo o trabalho a ser desenvolvido na pesquisa, cuja conclusão final deverá apresentar uma resposta à pergunta colocada no princípio. Consideramos que, em função do problema a ser formulado, o trabalho posterior pode ser facilitado ou dificultado. Um problema, portanto, deve ser: 1. formulado como pergunta; 2. claro e preciso; 3. não deve partir de valores explícitos do pesquisador; 4. deve ser passível de verificação; 5. deve ser viável, passível de ser solucionado (FERREIRA, 1998:133). Outro autor, Lacasse (1991:252) chama a atenção para as características do enunciado do problema, quais sejam: • em por finalidade estabelecer uma relação entre dois ou mais elementos ou variáveis • deve ser claro e sem ambigüidade • deve ser formulado sob a forma de questões • deve ser verificável, observável empiricamente. • não deve apresentar julgamento ou posição moral Já Goldemberg (1997:71), respondendo a pergunta: como formular um problema específico que possa ser pesquisado por processos científicos, afirma ser o primeiro passo tornar o problema concreto e explícito através: • da imersão sistemática no assunto; • do estudo da literatura existente; • da discussão com pessoas que acumularam experiência prática no campo de estudo.
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E completa: “a boa resposta depende da boa pergunta. O pesquisador deve estar consciente da importância da pergunta (...)”. Acima, falando do conhecimento científico, recuperou-se o exemplo da relação do ou da extensionista com uma comunidade predominantemente indígena na Amazônia. Agora, se privilegiou a caracterização do que pode ser indicado como primeira etapa do método científico. Não se quer, como foi afirmado na introdução, dar conta de todo o processo de formação do pesquisador, mesmo sabendose que o extensionista ou a extensionista rural também pode desenvolver pesquisa científica em seu quotidiano de trabalho. A pretensão está em alertar profissionais de extensão rural para a diversidade de tipos de conhecimentos e de seus processos de construção. Tal objetivo sugere reflexões ou considerações na perspectiva enunciada inicialmente de contribuir para a compreensão de como o sentido de ciência, o sentido de conhecimento e de pesquisa científica podem também condicionar o desempenho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo. Para isso, parece oportuno considerações em torno do chamado espírito científico, que se apresentam a seguir:

Atuação e quotidiano de extensionista rural e espírito científico.
Recuperam-se aqui contribuições de um autor já citado (RUIZ, 1996) em torno do que ele qualifica espírito científico. A atuação e o quotidiano de profissionais de extensão rural, como se afirmou no presente texto, são marcados pela convivência com a diversidade de saberes, de conhecimentos que se distinguem, igualmente como se tentou caracterizar no presente artigo, pelos seus processos de produção. Ora, sabe-se que a missão de tais profissionais não está prioritariamente ou predominantemente direcionada para o desenvolvimento de pesquisa científica, ou, se se preferir, para a produção de conhecimento científico. No entanto, tal atuação deve ser caracterizada por atitudes e comportamentos de vigilância epistemológica
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que pode se concretizar pelo exercício do espírito científico caracterizado por Ruiz (1996). Para esse autor: Espírito científico, mentalidade científica, ou atitude científica é um estado de espírito, é uma disposição subjetiva adequada à nobreza e à seriedade do trabalho científico. Esse estado subjetivo resulta do cultivo de uma constelação de virtudes morais e intelectuais; não bastará, pois, conhecê-las; é preciso vivê-las, reduzí-las à prática, cultivá-las. (RUIZ, 1996:132). Ele apresenta, pois, as seguintes características do espírito científico: a) espírito crítico – lembrando que criticar é “antes de tudo, analisar, questionar, submeter a exame, julgar a validade, a fundamentação das soluções estabelecidas” o autor parece querer dizer aos profissionais da extensão rural, no caso do segmento profissional a quem prioritariamente se destina esse texto, que é preciso ter cuidado, é preciso apropriar-se criticamente do conhecimento, das tecnologias, dos contextos para se assegurar uma atuação consistente e coerente. Para isso o autor acima citado faz também a distinção entre espírito crítico (atitude amadurecida de alguém que busca com seriedade a verdade, ponderando razões, confrontando motivos, por exemplo) que deve ser cultivado, estimulado, e espírito de crítica (espírito de contradição, indício de desorganização mental, de superficialidade irresponsável, demolidor e pernicioso) que deve ser banido (p.133); b) espírito de confiança na ciência – a confiança na ciência significa o conjunto de atitudes que implica em distanciar-se de dois extremos: o ceticismo e a submissão passiva a dogmatismos; c) busca de evidências – “O homem comum vê a natureza, ouve a natureza. O cientista a interroga, quer explicações pela linguagem eloqüente dos fatos. Só evidência dos fatos sacia seu desejo de conhecer o ‘como’ e os ‘porquês’ dos fenômenos” (p. 134), em liberdade, com autenticidade e com rejeição de toda sorte de autoritarismo, não se satisfazendo com o simples conhecimento dos fatos, mas procurando sua compreensão, sua justificativa e sua demonstração;
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por exemplo. Nunca aceitar. com pecuaristas e também com trabalhadores e trabalhadoras assalariadas. Os fatos frente à hipóteses pré-concebidas como possível explicação ou resposta à pergunta do problema podem comprová-las. e não de seu engenho criativo. o desdobramento. pois ela é sempre provisória.d) espírito de análise – entendida análise como a decomposição. tais como: qual a compreensão do extensionista rural e da extensionista rural em torno de ciência. aqui apresentadas. assim como na concepção de outros processos de pesquisa. Considerações finais No início do presente texto. g) espírito indagador – a ciência não é um ponto de chagada. e) espírito positivo de apego à objetividade – o autor lembra que é a evidência dos fatos. sempre inspiradas em Ruiz (1996:132-135) parecem contribuir muito para a (re)construção de atitudes. na definição de instrumentos de coleta e análise de dados. a segmentação de um todo complexo em seus componentes ou elementos mais simples.135). uma resposta. em termos de ciência. de comportamentos do extensionista e da extensionista rural em seus processos de interação com agricultores e agricultoras familiares. operação que pode contribuir para a compreensão do fenômeno em estudo. de forma objetiva e irrefutável. Ciência não é literatura de ficção” (p. ou negá-las. Como afirma Ruiz. com índios e índias. Tais considerações sobre espírito científico. a análise vão suscitando. uma tecnologia como definitiva. declarou-se a pretensão de suscitar algumas reflexões em torno de possíveis relações entre o domínio de princípios básicos da metodologia científica e a atuação profissional de alguém enquanto extensionista rural esperando contribuir esclarecer questões. O conhecimento científico está sempre sendo reconstruído. “o cientista não precipita conclusões sem evidência suficiente oriunda dos fatos. que assume a função de critério da verdade. em torno de conhecimento e em torno de pesquisa? Como tal compreensão pode também condicionar o desem79 . fixo e definitivo. a partir das novas indagações que a observação. f) espírito criativo – a criatividade se manifesta na formulação das hipóteses.

São Paulo. São Paulo. Uma última consideração. GOLDENBERG. 1995.penho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo? O autor desenvolveu todo o texto com tais objetivos e espera que de alguma forma o seu resultado possa ajudar aqueles e aquelas que estão com a mão na massa no campo. Etudes Vivantes. se impõe. 1996. 80 . Rio de Janeiro: Makron Books. Edições Loyola. certamente. Pedro. São Paulo: Ed. 1996. São Paulo. Editora Harbra. suas formas de construção e sua diversidade pode favorecer a uma melhor e. possivelmente. O método Científico. em contextos rurais. Editora Brasiliense. Atlas. João Álvaro. PEREIRA. que têm processos de produção (resultado da relação sujeito-objeto) diferentes. A Arte de Pesquisar. Entre a ciência e a sapiência. Brasiliense. Otaviano. RUIZ. O que é Teoria. o autor tentou evidenciar que a compreensão sobre conhecimento. na tentativa de síntese: tudo parece nos levar a afirmar que ninguém pode fugir da diversidade de tipos de conhecimentos. Sobretudo. Guia para eficiência nos estudos. Introduction à la Méthodologie utilisée en Sciences Humaines. no entanto. Trata-se apenas de tipos diferentes de conhecimento. 1986. Atlas. Bibliografia ALVES. São Paulo. 1995. L. como qualquer outro profissional. 2004. J. por exemplo. Guilherme. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo. DEMO. 1997. Mirian. A. Carlos. Rubem. A. são detentores dessa diversidade de conhecimentos e em suas relações profissionais interagem com tal diversidade que está presente em cada ator social.. mais eficaz interação de profissionais de extensão rural com os atores sociais com os quais esses profissionais lidam no seu cotidiano de trabalho profissional. O que é Ciência. Quebeque: Ed. O extensionista rural e a extensionista rural. 1989. Metodologia Científica. GALLIANO. ninguém está autorizado a classificar este ou aquele conhecimento como superior ou inferior. CERVO. Record. Teoria e Prática. São Paulo. LACASSE. 1991 LUNGARZO. Metodologia Científica.

uma das alternativas que se apresenta é a educação empreendedora articulada com o contexto de cooperação a partir da formação de parcerias e de redes de aprendizagem permanente. maior será a probabilidade de acerto nas decisões estratégicas. a princípio. Neste aspecto.O grande desafio da educação empreendedora cooperativa Jimmy Peixe Mc Intyre1 M. mas não impossível de ser realizada. Assim. tanto de caráter interno como externo à organização. para a elevação das probabilidades de acerto. Sc. 1 Doutor e lotado no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Gestão de Cooperativas A partir de cenários globalizados economicamente que se contrapõem às demandas de desenvolvimento e de fortalecimento local. É justamente com desafios como este que o empreendedor cotidianamente se depara no processo de gestão: onde as decisões mais simples passam por exigências complexas de reflexão e de posicionamento por conta de diversos fatores. Assim. 81 . como no macro cenário constituído por vários setores de atividades. enquanto empreendedor. esta parece ser uma missão difícil. quanto maior for a amplitude do conhecimento e mais amplo for o campo de visão do empreendedor. pois ela depende basicamente de um conjunto de habilidades e de métodos para a sua execução. Neste aspecto. qualquer empreendedor cooperativo se depara com os desafios de conjugar a ação empresarial de competitividade com a necessidade de se articular e cooperar tanto no micro cenário de atuação local. precisa-se manter um olho centrado em uma luneta e um outro olho no microscópio.

permitindo identificar quais os seus diferentes papéis na sociedade local. de modo que se delineiem mudanças e transformações sociais. regional e global. Nesta perspectiva. a educação empreendedora visa a autocompreensão. No caso das cooperativas agropecuárias. dentre outras. o foco tradicional e meramente econômico. inicialmente. a gestão e auto-gestão do negócio. para poder se relacionar e intervir com competência no seu campo de atuação. consistem em atributos intangíveis relativos à dimensão pessoal que torna o indivíduo. Este processo. a engenharia de processos. a educação empreendedora consiste em uma atividade contínua composta de três dimensões e estruturada por princípios básicos. competências. como pelo global e vice-versa. único e diferente dos demais a partir de características que podem ser canalizadas e recristalizadas pelo empreendedor em prol do seu negócio. a geografia econômica. Nesta direção. cuja finalidade é permitir ao empreendimento alcançar vantagens competitivas que o consolidem em um ambiente de negócios que passa tanto pelo local. Esta etapa consiste em uma descoberta ou redescoberta das vocações e expectativas individuais enquanto empreendedor. A segunda dimensão da educação empreendedora consiste em identificar fragilidades e oportunidades do negócio para se poder efetuar um mapeamento do ambiente em que a empresa vai atuar. enquanto instrumento estruturador de competitividade é válido para todo tipo de cooperativa. desejos e aspirações. as habilidades. singular.Portanto. Este processo de autoconhecimento possibilita que o empreendedor tenha uma idéia mais clara da estrutura social em que se encontra inserido. este processo pautado em métodos construídos leva o empreendedor ao entendimento das diferentes formas de funcionamento das relações políticas e econômicas da sociedade. para se integrar com outras áreas do conhecimento tais como a psicologia e a sociologia das organizações. numa perspectiva de um novo processo de formação educacional cooperativo. permitindo então o posicionamento do empreendimento perante o cenário 82 . Por conseguinte. cede espaço.

na educação empreendedora. 83 . pelas rotinas. vai nos apontar as principais variáveis que poderá potencializar ou obstaculizar o negócio. a partir de uma visão analítica sobre o campo econômico. de alicerces para a formação da cultura da cooperação na organização. Isto implica em dizer que a educação empreendedora deve estar imersa em conceitos e valores culturais que valorizem a transparência. tanto de processos como de produtos. Assim. Todavia. Neste caso. os quais são os princípios fundamentais e norteadores do bom funcionamento das relações tanto das pessoas como das cooperativas. tipo de produto. deve ficar bem claro que estas dimensões da educação empreendedora. máquinas. detectando aspectos tangíveis e intangíveis. Neste aspecto. os quais são partes mensuráveis. pelos processos e pela satisfação dos clientes. ambiental e tecnológico. o empreendedor. não deve estar apenas atento para a infra-estrutura disponível como: instalação. quantidade de funcionários. Ele deve também se preocupar com um desafio maior sobre aquilo que não podemos mensurar objetivamente. o empreendedor enquanto sujeito da construção do seu conhecimento irá traçar vários roteiros que lhe permita identificar qual o melhor caminho a percorrer com probabilidades de sucesso com menor risco. não podem ser negligenciados. político. mútuos. e que passa pela empatia e a satisfação dos cooperados empreendedores. o mapeamento do ambiente. pois enquanto conteúdos a serem trabalhados eles se constituem em vetores de inovação.traçado. a confiança e os valores democráticos. social. a terceira dimensão da educação empreendedora consiste em uma análise do ambiente interno do empreendimento. não haja apenas um ganhador e sim ganhadores. nas relações estabelecidas. Por fim. de modo a que. equipamentos. Esses aspectos. pelas atividades. somente surtirão o efeito desejado se vierem acompanhadas de ações complementares. Ainda nesta dimensão educativa empreendedora os métodos adotados devem favorecer a visualização de como otimizar as oportunidades pela cooperação. como também.

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eles conhecem a “Feira de Caruaru”. então. haveremos de conhecer alguns festejos comuns à nossa cidade como a “Festa do Papangu”. O fato de sentir 1 Maria Luiza Pires é doutora em sociologia do Departamento de Educação da UFRPE. tentar responder por partes. por exemplo. Claro que se os três amigos estiverem dispostos a conversar mais atentamente. não resta dúvida. o “Alto do Moura” e a “Feira da Sulanca”. 85 . são capazes de admitir que nós duas temos referenciais comuns. e talvez até tenhamos. vizinhança. André e Cristina são de Caruaru. laços mais fortes entre as pessoas. Se a gente diz: “eu e Adriana somos de Bezerros”. todo mundo fala em desenvolvimento local e pode-se até mesmo admitir que esse assunto virou moda nos meios acadêmicos. Em primeiro lugar. O local traz sempre associado uma idéia de proximidade. Mas por que tanta preocupação em torno do desenvolvimento local? O que esse conceito revela? Por que se fala em desenvolvimento local ao invés de apenas desenvolvimento como no passado? Que local é esse?Trata-se de uma idéia de desenvolvimento diferente? Vamos. No mínimo. é possível admitir que a expressão “local” não surge à toa no atual contexto. São esses pontos em comum que revelam a expressão cultural de um povo de um dado lugar. raízes comuns. vão descobrir muito mais pontos em comum. de um modo geral. expressando.Cooperativismo e desenvolvimento local Maria Luiza Lins e Silva Pires1 Que local é esse? Hoje. algum grau de parentesco se investigarmos a nossa árvore genealógica. Com toda certeza. Já Paulo. identidade. entre outros acontecimentos que marcam a nossa vida social. quem sabe. Mesmo para os que não nos conhecem bem.

na idéia. nesse sentido. É como se fosse uma “marca registrada”. um bairro ou até mesmo uma rua ou uma escola. atendimento aos desamparados (crianças. De alguma forma. portanto. um país. velhos e enfermos) passam a ser também discutidos e assumidos pelos diversos atores sociais. ao contrário de apenas desenvolvimento. Se já sabemos que local é esse. sustentabilidade. uma identidade específica. na igualdade. traz uma forte referência aos diversos atores locais. como: globalização. “eu sou filho de Caruaru”. em cada um. violência entre tantas outras. É com orgulho que a gente escuta muitas vezes: “eu sou filho de Bezerros. mas revela as articulações de um local. isto é. Se é possível associar o local a uma idéia de similaridade entre os seres no viver juntos. violência. o local também revela. Mas o local é apenas um município como Bezerros ou Caruaru? Não. de comunidade.de povo de Bezerros ou de Caruaru. que a idéia de desenvolvimento local. especialmente num momento histórico em que se vive a chamada “Crise do Estado”. Isso revela que o assunto local não diz respeito tão somente a um “local” específico.compartilhando com o outro representações culturais semelhantes imprime. em relação a todas as outras cidades do mundo. Pode-se dizer. com o global. que alimenta em cada um de nós um sentimento de pertencimento. uma identidade . desemprego. paradoxalmente. um estado. com o todo. imprime uma condição de pertencimento. O local pode ser um continente. sui generis. uma cidade. uma região. Isso significa que preocupações que antes eram típicas do Estado como: desemprego. crise do Estado. A idéia de local guarda também uma íntima relação com algumas questões complexas da atualidade. cada um desses locais. podemos agora partir para responder o porque de se ter despertado para a questão local nas propostas de desenvolvimento. Em todos esses lugares pode-se perceber elementos comuns que unem os mais diversos indivíduos. na sua capacidade de ação e de articulação. uma idéia de diferença. de diversidade cultural e multiplicidade de arranjos que fazem com que Caruaru e/ou Bezerros tornem-se únicas cidades. 86 .

o médico. define a filosofia de trabalho que está por trás do conceito de desenvolvimento local. E o padre é um ator social? Claro. trabalhadores e trabalhadoras dos mais diversos ramos – agricultura. fábrica. participação. O associado da cooperativa. o padeiro. Isso.o crescimento de importância dos agentes do mercado global (empresas transnacionais) sobre os agentes locais. a professora. a própria cooperativa. o vereador também são? Com toda certeza. envolvendo todos os atores sociais em um projeto coletivo. com o local a que pertencem e dessa forma. Tal perspectiva traz também presente idéias como democracia. Para isso. traz à tona a discussão sobre a idéia de pertencimento. Para os propósitos desse curso. finalmente. de participação. O cooperativismo. . comércio.a quebra de poder do Estado na condução 87 . se essas pessoas tiverem compromisso com a sua comunidade. Cooperativismo e globalização De uma forma simplificada. o sucesso da “fórmula cooperativa”. se dispuserem a “arregaçar as mangas”. autogestão. de solidariedade que imprimem. escolas. pode trazer benéficos para a sua comunidade. o artista. de autonomia. junto com a capacidade de “arregaçar as mangas”. Isso porque. “Arregaçar as mangas” ou “mãos a obra”. cada um a sua maneira. vamos situar a cooperativa (através dos seus associados) enquanto um ator importante no desenvolvimento local.Tal perspectiva traz presente a idéia de que somos co-autores e coresponsáveis pelo destino de todos nós. todos são atores importantes dentro da idéia de desenvolvimento local. Potencialmente. quem são os atores sociais ou atores locais? Os atores locais somos todos nós. naturalmente. nessa perspectiva. autonomia. identifica-se a globalização da economia a partir de três características principais: . escritório. todos somos atores sociais. O prefeito. Mas. é preciso que a gente situe o cooperativismo na sua capacidade de trazer respostas aos desafios contemporâneos de globalização de desemprego e de crise do Estado. construção. portanto.

Tal concepção expressa a mútua influência que existe entre o global e o local. do mesmo modo. Aproximando-se da idéia de diferentes correlações de força. refutando. inclusive. tanto no que diz respeito à produção quanto à comercialização a via cooperativa tem se revelado capaz de atender às demandas globais a partir da organização de atores locais. Dito de outra forma. que essa capacidade de atender às exigências de um dado momento histórico não é nova.o grande avanço tecnológico que caracteriza as últimas décadas. essas globalizações expressam processos singulares de relações sociais movidos por dinâmicas locais. como duas instâncias de um único processo. o que tende a revelar os vencedores e os vencidos a partir de relações de conflito. quem são os vencedores e perdedores dessa acirrada disputa (Bonanno. assim. a idéia de uma única globalização. No seu entendimento. “Pensar globalmente e agir localmente” vem se tornando um chavão cada vez mais popularizado. o cooperativismo vem demonstrando grande capacidade de adaptação às realidades distintas. 1994). alguns estudos têm procurado demonstrar a importância do cooperativismo enquanto um instrumento eficaz de ligação entre os pólos. para ele. o que dificulta enormemente a estabilidade da relação entre local e global.de questões macroeconômicas e . indicando. desde o advento da Revolução Industrial. Se nos voltamos ao passado percebemos que. como uma alternativa de inclusão dos trabalhadores ao modelo produtivo. Necessário também é considerar o caráter concentrado e excludente da globalização. há globalizações no plural. O fato é que dificilmente as discussões sobre os desafios do cooperativismo podem prescindir de uma avaliação mais sistemática da relação entre global e local . a partir da forma de inclusão ou exclusão.duas extremidades de um mesmo processo .a partir de uma relação de mútua influência. 88 . Todas essas questões implicam uma nova divisão internacional do trabalho. Vale ressaltar. revelando-se. Santos (1994) nega o caráter homogêneo da globalização. redefinindo o jogo de forças entre os diversos atores locais /globais. Nesse sentido.

02/01/2000) Intimamente relacionada à criação de empregos. Vejamos alguns exemplos: “Profissionais voltam ao mercado de trabalho” (Diário de Pernambuco. 89 . • “Autogestão recupera empresas quebradas” (Folha de São Paulo. As manchetes de jornal são prósperas em associar o cooperativismo à criação de emprego e renda. habitualmente. as práticas associativas estão sendo identificadas como uma alternativa frente ao desemprego crescente. 05/10/97) De um modo geral. pelo seu caráter de associação econômica. constata-se. De um modo geral.000 empregos até 97" (Folha de São Paulo. 26/01/96) • “Autogestão ‘salva’ 6. 29/09/96). Tais estratégias englobam desde atividades artesanais até aquelas que necessitam de maiores conhecimentos na área científica e tecnológica. conforme pode-se observar nas manchetes abaixo: • “Cooperativas discutem qualidade e autogestão” (Jornal do Commercio. “Mulheres se unem para multiplicar renda” (Jornal do Commercio. “Saiba como as cooperativas estão driblando o desemprego” (Diário de Pernambuco. todas essas manchetes revelam as mais diversas estratégias de sobrevivência que podem se abrigar sob a “fórmula cooperativa”. • “Autogestão é experiência inédita na Região” (Jornal do Commercio. 24/08/1997). 28/09/97). principalmente. o cooperativismo ganha uma importância particular. quando a globalização tem levado um grande número de pessoas ao desemprego.Hoje. “Autogestão contra o desemprego” (Folha de São Paulo. uma forte ênfase no conceito de “autogestão”. 03/11/96). E o cooperativismo. 22/06/97). vem sendo particularmente ressaltado como uma alternativa de inclusão para enfrentar esse período marcado pela grande exclusão social.

pois. do crescimento do emprego e renda. ao lado de outras iniciativas empresariais. com isso. (org) (1994).sejam elas empresas cooperativas ou empresas capitalistas . 90 . mas todo o empreendimento econômico capaz de gerar emprego e renda é capaz de promover o florescimento ou o desenvolvimento de uma dada localidade. Bibliografia BONANNO. redefinindo as relações entre forças locais e globais. Pires. É possível constatar. através de uma forma de organização local – instituída através de uma empresa cooperativa . Mas a questão não se encerra aí. um aumento do poder de barganha dos produtores. a partir da organização da produção e de sua comercialização sob as exigências da globalização. como uma estratégia importante dentro da perspectiva de desenvolvimento rural (Prévost. Lawrence (KA). nesse sentido. From Columbus to ComAgra: the globalisation agriculture and food. que a sobrevivência e crescimento das organizações econômicas . Pires & Buendía. University of Kansas press. Observa-se. que não apenas as cooperativas. 1996.O cooperativismo entre o local e o global A relação entre cooperativismo. Nesse aspecto. evidentemente. finalmente. globalização e desenvolvimento local é fortemente estimulada pelo fato de que.os cooperados podem articular uma rede de relações que não se limita ao âmbito local. desde. as cooperativas vêm contribuindo para a potencialização dos locais em que estão inseridas. 1999. 1999). podemos afirmar que o que define o sucesso ou insucesso das práticas econômicas está associado à sua capacidade de adequação permanente às transformações produtivas. confirmando a perspectiva presente na literatura que identifica as cooperativas.depende das estratégias usadas para responder aos desafios da acirrada competição que tem lugar na economia globalizada. Alessandro et al. seja uma prática econômica de reconhecido sucesso. Vale lembrar.

1999. 70. Segundo Cuatrimestre. N. 37. Pela Mão de Alice. UFPE. O social e o político na pós-modernidade. 31-46. Nuevas ruralidades y cooperativismo: una perspectiva comparada. 91 . Recife. out.MARTÍNEZ. Afrontamento. Maria Luiza. segundo semestre: 25-45. 46. Inmaculada Buendía & PIRES. PRÉVOST. p. Revista de Estudios Cooperativos (REVESCO). PIRES. (1996). 123-137. Maria Luiza. SANTOS Boaventura S. 1999. p. Outubro-Dezembro. V. Série Cooperativismo. Cuadernos de Desarrollo Rural. N. O cooperativismo agrícola em questão. N. P. Perspectiva Econômica. 34. Cooperativas e desenvolvimento rural: as recentes discussões no campo da “Nova Geração de Cooperativas”. A trama de relações entre projeto e prática em cooperativas do nordeste do Brasil e do Leste (Quebec) Canadá. _____ . El desarrollo local y las cooperativas. Tese de doutorado. 103. Porto. 2000. (1994).

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de uma maneira geral. a Amazônia é hoje o centro de preocupações de todos os países que compõem a chamada aldeia global. uma vez que a sua aceitação depende da vontade consciente de uma determinada coletividade. nem todos os ecologistas e chefes de governo do mundo inteiro que clamam pela preservação da Amazônia. o Brasil. E como não poderia deixar de ser. num contexto de economia globalizada. todas as sociedades do planeta enfrentam o desafio de definir e implementar vias de desenvolvimento capazes de conciliar prudência ecológica com viabilidade econômica e justiça social. E. Neste texto. a humanidade avança no conhecimento tecnológico. Trata-se de um desafio que.Região amazônica e economia solidária: uma perspectiva de desenvolvimento integrado sustentável Ana Maria Dubeux Gervais1 Os anos 90 representaram para todos os países de economia capitalistas o marco da consolidação de uma série de transformações estruturais provocadas pelo capitalismo que produzem impactos na forma de organização social e econômica dos mesmos. doutora em Sociologia pela Université de Paris I. é político. mas apesar disso. antes de tudo. No entanto. é também nesta época que o Brasil é atingido em cheio por tais transformações. como garan1 Professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Considerada o pulmão do mundo. Em termos globais. Coordenadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFRPE. tentaremos indicar alguns dos aspectos a serem considerados mais especificamente quando tratamos do desenvolvimento da região norte de nosso país. 93 . país que detém uma enorme biodiversidade sofre pressões externas e internas importantes a respeito do uso e da conservação da biodiversidade da região.

os países periféricos. “pode-se dizer que. na maioria dos casos. provavelmente terão problemas para entender e aceitar essas preocupações.3% para 1. através da privatização. os 20% mais pobres viram a sua parte reduzida de 2. conseqüentemente. transferindo-se aos grupos econômicos. entre 1960 e 1991.1995). Convém lembrar que. que a proteção das florestas tropicais e.4% (Hauchler. no mesmo período. não conseguem responsabilizar todo o sistema político global por essa conservação. que praticam o sistema de corte-e-queima da agricultura itinerante. o efeito estufa. é óbvio que a maneira pela qual os moradores dos diversos “bairros da aldeia global” encaram e tratam o ambiente natural está diretamente dependente de sua condição sócio-econômica. geralmente. reconhecem que parte do problema está relacionado às relações desiguais que estabelecem os hermisférios norte e sul deste mesmo planeta. Para bem dizer. de sua incomparável biodiversidade é um insumo de fundamental importância para a sobrevivência das futuras gerações da espécie humana na “aldeia global”. está profundamente dividida. que insiste em uma rigorosa dieta econômica. Neste sentido. também. que durante o século XXI a conservação e as formas de aproveitamento dos recursos naturais se tornarão questões-chaves dentro de uma aldeia global que. ecologistas radicados nos países da Comunidade Européia ou nos Estados Unidos (dispondo. do ponto de vista social. por outro lado. apequena-se o Estado. camponeses na Amazônia ou nas partes africanas e asiáticas do cinturão tropical.tia de uma sobrevida mais longa às populações do planeta. o buraco ozônico e a erosão biogenética indicam. pela reprodução econômica das massas populacionais pobres ou miseráveis que. e. de qualquer origem. Porém. Diante da pressão externa. setores importantes da economia nacional. se de um lado. os 20% mais abastecidos da população mundial aumentaram a sua parcela de toda a riqueza produzida de 70% para 85% enquanto. Como afirma IBIRIBA (2004). com clareza. de 94 . com toda a razão. de condições de segurança social da data do seu nascimento até o momento de sua morte) destacam. diante das imposições externas pela conservação ambiental.

Além disso. a cultural. proporcione uma maior articulação de atores . É nesta perspectiva de articulação que queremos apontar a economia solidária.uma maneira ou de outra. É fundamental então salientar que um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia.sociedade civil. vendo que articulações e interfaces a região estabelece com o país e o mundo. tais como a política. governo. temos que tomar como ponto de partida que esta questão não pode ser pensada isoladamente. tem que estar sobretudo calcada sobre uma proposta de desenvolvimento humano que tenha como eixo a inclusão sócioeconômica de milhares de trabalhadores que lá habitam e que historicamente (desde a época da colonização) têm sido proibidos de se apropriar de seu próprio território. sociológicos. Esta perspectiva. a social. O desenvolvimento da região deve então ser pensado na perspectiva do desenvolvimento sustentável. sobrevivem utilizando. temos que entender que diferentes dimensões perpassam a discussão da temática do desenvolvimento sustentável da região norte. Ao contrário. esses mesmos recursos. como um novo paradigma para se pensar políticas de desenvolvimento sócio-econômico para a região. iniciativa privada . que tem como premissa o atendimento das necessidades da geração atual sem comprometer a habilidade de gerações futuras em atender as suas necessidades.” Para pensar alternativas de desenvolvimento para a região que impliquem em conservação de sua rica biodiversidade. predatoriamente. a econômica. É importante ressaltar que uma tal análise. influenciada particularmente pela pesquisa de Karl Polanyi (1983) sobre a origem política e econômica de nosso tempo. mas um olhar plural onde os elementos antropológicos. não pode ser feita à partir de um olhar meramente econômico. que tem inspirado 95 .para o desenvolvimento sócio-econômico e apresente como eixo central o estabelecimento de políticas articuladas de conservação ambiental. temos que ter claro que devemos enfrentála de forma holística. Uma proposta que se preocupe com a redução dos índices de pobreza. etnológicos entre outros são imprescindíveis para uma compreensão do econômico. entre outras. a ambiental.

O mercado possui. repousando sobre um equilíbrio 96 . ou o poder político (como em relação ao poder senhorial)”. seja ela a tribo.. distingue quatro princípios básicos no comportamento econômico. cada um entre eles associado a um modelo institucional. O que determina o núcleo institucional é indiferente. a cidade-Estado. • O princípio da reciprocidade que corresponde “à relação reciprocidade ocidade. Entretanto. O aspecto essencial da reciprocidade é que as transferências são indissociáveis das relações humanas”. por meio da seqüência durável de dádivas. o chefe. de encontro entre a oferta e a demanda de bens e serviços para fins de troca. estabelecida entre várias pessoas.. Segundo França Filho & Laville (2004.)O modelo da domesticidade é o grupo fechado. o despotismo ou a feudalidade. A reciprocidade é por consequência fundada sobre a dádiva como fator social elementar – a existência da dádiva ligada a uma contra-dádiva. ou seja. Ele supõe uma autoridade e uma divisão do trabalho entre os representantes desta autoridade e os outros membros do grupo humano. • O princípio do mercado que “se caracteriza como um lugar mercado cado.) (.. tais princípios são: • O princípio da domesticidade que “consiste em produzir domesticidade. a prover as necessidades do seu grupo (. • O princípio da redistribuição segundo o qual “a produção redistribuição.múltiplos trabalhos nas mais diversas áreas do conhecimento. p. pode ser o sexo (como em relação à família patriarcal). 32 e 33). então a particularidade de funcionar segundo o registro de um modelo institucional que lhe é próprio: a troca. o que supõe um momento de armazenamento entre aqueles da recepção e repartição. fica a cargo de uma autoridade que tem a responsabilidade de distribuí-la. para seu próprio usufruto. o lugar (como em relação ao vilarejo). o déspota ou o senhor estarão no centro deste modelo e a maneira como praticam a redistribuição é muitas vezes um meio de aumentar o seu poder político”.. o templo.

A troca pode assumir a forma de escambo quando a troca de bens e serviços não passa pelo intermédio de um equivalente geral. historicamente. (.” No entanto. na sociedade capitalista. num mito.) A troca pode assumir a forma de pagamento em espécie quando o demandante não paga o preço fixado em moeda mas em bens ou serviços. da redistribuição e do mercado que reconcilia o econômico e o social que se move a partir de um impulso reciprocitário entre individuos e se consolida na sociedade através da construção de espaços públicos autônomos. Assim. que nos primórdios da existência humana servia como lugar de encontro entre oferta e demanda. pólo que é extremamente importante na construção da própria economia de mercado. foram esquecendo que existem outros princípios econômicos e transformaram o mercado. nós podemos então reconhecer na sociedade contemporânea três pólos de análise: a economia mercantil ou de mercado. da reciprocidade. a economia não mercantil (Estado) e a economia não monetária. A partir daí.entre oferta e demanda. E o que seriam estes espaços públicos autônomos no caso brasileiro ? A partir dos anos 80. mas se opera através de uma relação de equivalência simples estabelecida entre dois conjuntos considerados pelo demandante como do mesmo valor. pólo onde o trabalhador se coloca na perspectiva de troca gratuita e desinteressada que se baseia principalmente nas relações que consolidem seus vínculos com a sociedade. pouco a pouco. no mundo inteiro. isto é às vezes verdade mesmo para aqueles que de uma maneira ou de outra foram excluídos da participação neste mesmo mercado. a economia solidária define-se como uma economia plural que se baseia na hibridação dos principios econômicos da domesticidade. mas mais especificamente nos países 97 .. e por conseguinte. paradoxalmente.. onde observamos uma enorme pluralidade de trocas. é ele quem baliza a maior parte das relações econômicas existentes. o princípio do mercado passa a ser o dominante. E. os seres humanos. Se partimos da aceitação destes princípios como sendo a base das relações entre economia e democracia.

98 . a nossa grande diferença seja que o motor do seu crescimento seja o fato de que quantitativamente. cooperativas de produção e prestação de serviços e centenas de grupos e cooperativas agropecuárias. Assim. em 1999 congregava 52 empresas e 15 mil trabalhadores. Estes trabalhadores. numa perspectiva de um novo sentido de vinculação entre o econômico e o social. que se distanciam do sistema formal do cooperativismo brasileiro vinculado à OCB e se organizam em sistemas próprios. p. cooperativas de trabalhadores e empresas de pequeno e médio porte.” Nós acreditamos que. 109). de grupos informais de produção. o número de indivíduos excluídos de um ponto de vista sócio-econômico seja muitas vezes maior que nos países desenvolvidos. Na linha de frente. sob a batuta do MST. se organizam para descobrir caminhos para o enfrentamento destas mudanças. como associações informais ou grupos de produção de caráter seguidamente familiar e comunitário ou. os empreendimentos organizam-se hoje das mais diversas formas. a economia solidária no Brasil acontece a partir da articulação política de diferentes polos da economia. à exemplo do que aconteceu anteriormente na Europa do século XIX. “Num verdadeiro polimorfismo. excluindo milhares de trabalhadores do mercado formal de trabalho. perfilam-se hoje empresas autogeridas vinculadas à ANTEAG2. implantadas nos assentamentos da reforma agrária. mas talvez. entre outros. embora com contornos próprios e diferenciados dos países desenvolvidos. Como afirma Gaiger (2001.periféricos. através da criação de cooperativas populares. a economia solidária assume em nosso país uma multiplicidade de formas 2 Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionário. e os impactos da reestruturação produtiva são cada vez mais fortes. o processo de globalização da economia se acelera. ainda. de empresas autogestionárias.

Uma proposta que não vise apenas um desenvolvimento econômico daqueles que detém o capital. Neste grupo. encontramos principalmente as cooperativas. que nem sempre possuem um estatuto jurídico. universidades. de pequeno porte. fortalecimento e consolidação das iniciativas de economia solidária um novo caminho. Um caminho que traga novas perspectivas de desenvolvimento que visem a recuperação e o respeito aos ecossistemas naturais (floresta. por exemplo. constituído por ONG’s. associações de trabalhadores autogestionários. vários são os atores que vêm de uma maneira ou de outra trabalhando na direção da construção de uma proposta de desenvolvimento integral para a região. mas que seja inclusiva daqueles que historicamente têm sido colocados à margem de tal sistema.que no nosso entender se organizam em três grupos principais de atores. através de uma proposta de desenvolvimento sustentável. associações. entre outros. através da criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) e por outro através do aumento significativo (principalmente em prefeituras vinculadas ao partido dos trabalhadores) de criação de diretorias ou secretarias municipais de economia solidária. Pensar o desenvolvimento da região significa em construir coletivamente com os diferentes atores que podem possibilitar a ampliação. entre outros. planejar a reinserção sócio econômica de milhares de amazonenses (onde incluímos os po99 . várzea e cerrado) da região para. • O grupo de organizações criadas pelos trabalhadores eles mesmos com o objetivo de encontrar novas alternativas de inserção sócio-econômica. por um lado. as empresas autogestionárias. como por exemplo alguns dos desenvolvidos pelo MST. igrejas. os grupos produtivos rurais e urbanos. No caso da região norte. • O grupo de gestores públicos que tem se consolidado cada vez mais. todos importantes na sua consolidação: • O grupo de organizações que apoiam os trabalhadores em suas iniciativas de economia solidária.

gov. Brasília. FRANÇA FILHO. Frankfurt am Main.desenvolvimento. Fakten Analysen Prognosen. No. 518 p. Porto Alegre. O paradigma da economia solidária se coloca então como uma possibilidade. Ingomar. Globale Trendes 1996. Sonia Miriam (1990) – Para a década de 90 : Prioridades e perspectivas de politicas públicas. Karl – La grande transformation: aux origines politiques et economiques de notre temps. 1995 IMBIRIBA. Para concluir. Paris : Gallimard. Nazaré – Biodiversidade e pobreza : uma questão de decisão política.br/arquivo/sti/publicacoes/ futAmaDilOportunidades/futAmazonia_09. Coleção sociedade e solidariedade. 2004 GAIGER. Genauto C.vos da floresta) excluídos de um ponto de vista social e econômico. 1983 100 . p. Jean-Louis – Economia solidária : uma abordagem internacional. Luiz Inácio (2001) – As organizações do terceiro setor e a economia popular solidária. poderíamos talvez pensar na construção de um verdadeiro desenvolvimento integral sustentável para a região. www. Uma proposta onde a interconexão entre consumidores. & LAVILLE. Bibliografia DRAIBE. IPEA/IPLAN DUBEUX GERVAIS. mas também da sua biodiversidade humana. poupadores e produtores seja possível com vistas ao estabelecimento de redes sociais que dêem suporte ao estabelecimento de novas relações econômicas entre os povos da região. Editora da UFRGS. pouco a pouco já se manifesta na prática cotidiana dos trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho. uma vez que o mesmo. apontamos nesta reflexão apenas alguns elementos para a real necessidade de não mais pensar a região amazônica apenas do ponto de vista da sua biodiversidade natural.pdf . 103 – 151 HAUCHLER. Travail et économie solidaire: le cas des incubateurs Technologiques de coopératives populaires au Brésil – Tese de doutorado – Université de Paris I. vol. Ana Maria (2004) – Education.159. Revista de Ciências Sociais da UNISINOS. site acessado em 02/ 10/2004 POLANYI. A partir deste paradigma.

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De maneira geral.Desenvolvimentos. da existência de uma crise global. ousa indicar possibilidades. mais ousando. De um agrônomo e de um homem que acredita no reencontro do homem com natureza e percebe a agroecologia como uma estratégia desta reunificação. de construção na linha defendida por Garrido Peña (1996) de um pacto social pela vida. O ser humano redescobre a importância da saúde e. procura saídas. Porém. Questão ambiental Atualmente. Não se 1 Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. fazendo-se uma distinção entre comida e alimento. a questão ambiental é um tema presente em todos os espaços. Uma abertura. Para isso parte de uma constatação já realizada por muitos. Talvez a maior e mais importante discussão seja a questão dos transgênicos ou alimentos geneticamente modificados de forma massiva. uma perspectiva plural Jorge Roberto Tavares de Lima1 Sem pretensão. que Capra (1982) identifica como uma crise de percepções. Na imprensa internacional e nacional registra-se catástrofes ambientais. para uma perspectiva propositiva. Este artigo tem a pretensão de registrar algumas observações de alguém encantado com a Amazônia e suas potencialidades. Rediscute-se a questão da alimentação. Um aspecto deve ser destacado. de um meio ambiente saudável. De um sonhador que decepcionado com os rumos do modelo de desenvolvimento hegemônico. os movimentos ecologistas não defendem uma volta ao passado. De um inquieto e atrevido que sem um conhecimento profundo da Amazônia. portanto. 103 . ousando sair do diagnóstico e da constatação da existência da crise.

posicionam contra o avanço da tecnologia. Pelo contrário, têm-se a ciência como aliada para uma vida de qualidade. A agricultura exige um repensar na direção da sustentabilidade. A discussão sobre o meio ambiente ganha contornos nítidos não só em relação à produção, mas também, na conservação e manejo do meio ambiente. O Brasil vive um momento especial. Após o processo de redemocratização, se alcançou no momento uma estabilidade econômica que se deseja permanente. Mas as contradições sociais são muito fortes para serem ocultadas ou ignoradas. Amplia-se a consciência que a questão não se localiza somente no crescimento ou desenvolvimento. Exige-se uma qualificação neste processo e que este tenha como princípio a inclusão social e o resgate da marginalidade de parte significativa da população brasileira. O desafio não é somente crescer, desenvolver, mas crescer incorporando e incluindo pessoas, de forma que se tenha para a população, qualidade de vida.

Correções de estratégias e de conceitos
Este repensar sobre políticas públicas implica em estabelecer responsabilidades que não podem e não devem se circunscrever apenas no âmbito do aparelho governamental seja federal, estadual ou municipal. O desafio é da sociedade e não apenas a brasileira, mas a mundial. Exige-se redesenhar, inclusive, o papel do estado e dos organismos internacionais neste processo, de forma que eles sejam, principalmente, formuladores de políticas participativas e com forte caráter de inclusão. Sendo um desafio mundial, a sociedade deve pressionar para mudanças urgentes nos organismos internacionais. O mundo mudou e são necessárias correções enérgicas, não apenas de estratégias, mas de conceitos. Na agricultura não poderia ser diferente. Depois de várias revoluções no campo, a começar pela “intensificação dos sistemas rotacionais, com plantas forrageiras e pela fusão da atividade agrícola e pecuária” Ehlers (1999:139) no século XVIII. Segue-se as
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transformações com a introdução de uma série de conhecimentos científicos e principalmente no início do século XX com o uso do combustível fóssil. A agricultura vai se transformando no setor de fornecimento de matéria prima para a indústria, notadamente depois da segunda guerra mundial, com o que se denominou chamar de revolução verde, que no Brasil se intensifica a partir de 1970.

Afastamento da natureza
Vários elementos podem ser elencados para uma análise. Destaquese dois, para efeito de análise neste texto. O primeiro é o progressivo afastamento do homem da natureza neste processo. Surge uma nova crença. A certeza que a tecnologia resolve tudo. A segunda, a negação dos conhecimentos tradicionais. De repente, descobre-se a modernidade e esta é entendida também como contrária aos conhecimentos tradicionais. O que é tradicional é atrasado, não é moderno. Moderno é a competitividade, é o uso de alta tecnologia, é a negação de uma identidade e o assumir outra forma de vida. Dos outros. É a importação de valores. É ser do “primeiro mundo”. É a agricultura de escala, de grandes produções. Para atender a lógica da industria, necessita-se da especialização, perde-se a diversidade, pela priorização de monocultivos. Ampliam-se a produção de grãos, não somente para alimentar a população, mas e principalmente, para alimentar os animais. As galinhas, os porcos, o gado passam a serem confinados e se necessita de alimentos para estes. A agricultura se especializa e torna-se um setor totalmente dependente capital financeiro e industrial. Em realidade este não é um processo iniciado recentemente, como parece. Ele tem seus fundamentos, em 1535, quando Portugal decide colonizar o Brasil. Acrescente-se. Forçado por Holanda e França que contestavam o “direito divino” da posse destas terras. Quais os princípios adotados então? A agricultura em grandes áreas (latifúndio) e especialização (monoculturas). Surgem inicialmente os enge105

nhos de açúcar e depois as usinas. Lançam-se as bases de uma agricultura industrial, onde inclusive se precisa importar a mão de obra (escravidão). Em 2004, percebem-se as mesmas bases, impera o latifúndio2, a monocultura e a exclusão. Mas surge uma novidade, a biotecnologia. Uma continuação da “revolução verde”. Que contribui para alimentar a ideologia de que a técnica encontra solução para tudo. Mas na realidade não resolve a exclusão, a perda da biodiversidade, a crise ecológica. Mas não foi uma caminhada tranqüila. Surge a resistência dos índios. As lutas dos negros. A insubordinação dos excluídos. Lutas e mais lutas, contestando o “modelo” implantado e que as elites continuam a reafirmá-lo. Pensam que é possível ajustar, conceder aqui e ali, que está tudo bem. As lutas e a organização popular sinalizam o contrário. Indica de forma clara a urgência por alterações. Há necessidade de mudanças de rumo e de modelo. Porque a crise chegou forte e o planeta agoniza.

Crise de civilização
O progresso da humanidade se a princípio é lento, o mesmo se acelera a partir da segunda metade do século XX e em apenas trinta anos, se alcança uma crise de civilização, que se materializa por um desequilíbrio na natureza, perda de solos, contaminação de lençóis freáticos, perda da diversidade, perda de referenciais teóricos. Enfim, uma crise de grandes proporções, por isso uma crise da civilização. Crise que se pode até ignorar a miséria, produzida pelo nosso modelo, mas não pode ignorar o perigo da contaminação ambiental. Os ricos podem ignorar a miséria, mas não podem ignorar a contaminação. Porque queiram ou não, atinge a
2 Latifundio não significa apenas concentração de terras. Significa acumulação, violencia, desrespeito e manutenção de privilegios. Shiva procura mostrar, analisando o sistema de saber enquanto sistema de poder, ”que as monoculturas ocupam primeiro a mente e depois são transferidas para o solo. As monoculturas mentais geram modelos de produção que destroem a diversidade e legitimam a destruição como progresso, crescimento e melhoria.” (Shiva, 2003:17).

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Mas. com um falso discurso ecotecnocrático. Neste segundo 3 Alonso Mielgo e Sevilla Guzmán (1995). Queremos um desenvolvimento que seja duradouro e includente. Desenvolvimento local. Outra mantém o domínio do homem sobre a natureza. Também existem poucas coincidências sobre estas respostas. É a velocidade da tecnologia intensificando processos. 107 . estabelecendo novos paradigmas. contaminante e destruidora dos equilíbrios naturais. ou seja. Os diagnósticos são distorcidos e as soluções são indicadores de boas intenções sem nenhum comprometimento com sua execução e implementação. Desenvolvimento sustentável. sua separação. Quais seriam nossos caminhos? Que estratégias deveriam ser percorridas? Que princípios norteariam esta construção? Existem muitos estudos. derrubando conceitos.todos. Vamos agrupar em duas grandes linhas. porque. tocam fogo etc. Isto em apenas trinta anos. Queremos que os netos de nossos netos tenham um planeta onde possam viver. destroem o meio ambiente. muitas avaliações e indicações sobre estas questões. discutem esta questão na perspectiva do entendimento da crise ecológica na perspectiva dos organismos internacionais. Afirmam que a construção teórica ecotecnocrata transmite uma mensagem que o planeta está em perigo. defendem um falso ecologismo em um também falso desenvolvimento sustentável por eles propugnado. Agroecologia. Queremos avançar. Uma. não porque os paises ricos e industriais desenvolveram uma forma de produção e de consumo com alto desperdício de energia e recursos. considerando uma reaproximação do homem com a natureza. considere-se que sim. muitas pesquisas. Mas até que ponto estes são novos conceitos? Até que ponto estes não são apenas novas expressões de velhas situações ou de velhos desejos? Será que efetivamente se buscam mudanças? Até que ponto queremos enfrentar os privilégios? Estamos mesmos preparados e nos propomos a enfrentar e construir um processo novo? Estamos comprometidos com outro desenvolvimento?3 Para continuar esta reflexão. Ecodesenvolvimento. Na realidade estes organismos internacionais. Novos conceitos ou novos discursos Surgem novos conceitos. os paises pobres tem um grande crescimento populacional e por isso destrói florestas. (Beck 1998).

Pela co-evolução dos conhecimentos. já revela a impropriedade de seguir trilhando este caminho. sua manifestação e expressão ideológica.2002). Na etnoecologia como expressão de uma compressão do tradicional. Nos processos auto-organizativos e complexos através da neguentropia. de animais. (Castoriades. 1997). se materializa no concreto e no simbólico. Na recuperação dos conhecimentos tradicionais. No encontro do homem com a natureza. são muitos os que acreditam que a tecnologia vai trazer as soluções que se precisa. inclusive de novos mundos. inclusive a espiritual. 2002).caso. As pequenas correções de rumos já revelaram que são inconsistentes. Em uma nova racionalidade ambiental. que necessariamente não significa religiosidade. (Shanin. Mudando o rumo Vamos mudar o ruma desta prosa. (Toledo. para avançar na construção de um novo. Aliás. 2001) 108 . do nosso imaginário.1989). Isto só revela uma cosmovisão. Na diversidade e complementariedade. do nosso simbólico. sociais e políticas. Continua a exclusão de homens. Vamos tentar trabalhar em outra direção. aquilo que chamamos de concreto é fruto de nossa percepção. a natureza é para ser explorada e conquistada totalmente e para isso se exige mais pesquisa. Aumenta as catástrofes naturais. Porém. onde a técnica é o centro do processo civilizatório e a tecnologia. (Morin. onde a reprodução de sua família é o centro de suas estratégias. (Chayanov.1974). A situação do mundo hoje. tecnologia e sistemas biológicos (Norgaard. (Leff. Creio que não há necessidade de avançar muito nesta direção. comprometido com suas raízes. No entendimento de uma racionalidade camponesa ou indígena. da natureza. Nas cadeias tróficas. Que ela é capaz de recuperar determinadas situações.1982) Mas é pensar no homem nas suas múltiplas dimensões. valores. Aumenta a concentração de renda e de poder. Vamos buscar uma cosmovisão onde o ser. mais tecnologia e conquistas. organizações sociais. É trabalhar na complexidade dos elementos que compõe a vida.

como um contexto de ação. como expressão de um método e de uma nova área de conhecimento. Ecossistemas como unidade de análise e intervenção. a agroecologia. próprio. o caráter inter e multidisciplinar da intervenção do início até o fim. tendo como base teórica. considerar os aspectos de gênero. Avançando e construindo um conhecimento especifico. (Caporal e Costabeber. onde não há fórmulas préestabelecidas. permite o surgimento de muitas opções. a participação da família do agricultor em todas as fases e etapas do projeto.Vamos pensar na agroecologia. diferente. O diálogo de saberes. Resulta. Aceitam-se princípios e metodologias. Partindo dos agroecosistemas. a Amazônia é um grande desafio e uma grande oportunidade. A valorização do conhecimento endógeno e das potencialidades locais.” Um desenvolvimento diferente? Esta construção parece indicar a necessidade de considerar como elemento determinante o meio ambiente. Trabalhando com as diversas dimensões e campos das ciências. 2002). Ë pensar no desenvolvimento e em uma agricultura sustentável como um processo de transição. Como caminhos de uma construção. o desenvolvimento local sustentável. como unidade/totalidade de análises e de intervenções. discutir diferentes desenvolvimentos. própria. raça e geração. Alguns princípios Alguns princípios poderiam ser listados para esta proposta de desenvolvimento sustentável. Nesta linha. 2001). De forma peculiar. que busca uma agricultura ecológica (Altieri. 2004). Têm109 . 2002) e um desenvolvimento sustentável (Sevilla Guzmán e Woodgate. (Gliessman. construído social e participativamente. portanto. etnia. Shiva (2003:15) recomenda que “adotar a diversidade como forma de pensar. Discutir propostas de desenvolvimento implica considerar os diferentes meios ambientes.

Em sendo assim. afortunadamente pouco desenvolvida. Região. neste ponto. Diversidade vegetal e humana. com 98% delas de utilidade para os Kayapó. para adubar (8%). O resultado a médio 4 Estes indígenas seminômades criaram dentro de suas migrações sazonais áreas produtivas. para atrair caças 940%). em analises de Andersen &Posey (1989) em uma destas ïlhas”foram identificadas 120 especiés. No caminho já iniciado de uma agricultura dita “moderna” altamente dependente de capitais externos a propriedade. Pode-se indicar como analogía hohe. Oportunidade pelo seu caráter único da maior floresta tropical do mundo. para manter as possibilidades de configurar um desenvolvimento. Porém existem umas poucas certezas. configura-se uma extraordinária diversidade. o desrespeito ao meio ambiente. em que se constitui um ecossistema também singular. analisar a “modernidade” e a crise de civilização provocada por este tipo de desenvolvimento. Schröder (2003:42) defende “que os indígenas manipulam ativa e conscientemente o meio ambiente” e cita como exemplo desta complexa manipulação as “ilhas de recursos”4 dos Kayapó-Gorotire. a devastação. 110 . lenhosas (12%). O que sinaliza para aa existência de um conhecimento tradicional da floresta. os SAF’s.se a floresta e a exigência de sua continuidade. alimentícias (25%). alguns questionamentos. Região onde se concentra maior população indígena do país. (Schröder:2003:43). como (72%) planats medicinais. compreender. Mas com grande potencial para um desenvolvimento diferenciado. Ao mesmo tempo. na realidade se está contribuindo para agravar a atual crise mundial? Ambiente inadequado? São muitas as perguntas. Cabe. para oferecer sombra a outras plantas (3%) e para outras utilidades (30%). chamadas de apêtê . &0% destas plantas seriam plantadas e manejadas. a concentração e a exclusão? Quais são os elementos diferenciadores que indicam possibilidades de avanços? Será que há alguma dúvida que adotando o modelo clássico de desenvolvimento. A crise do mundo é uma crise do capital. por que repetir o mesmo estilo e modelo de desenvolvimento de outras regiões? Por que o caminho é a industrialização. Nesta direção é fundamental entender.

Mas. dizimando. adentram na floresta na busca de suas preciosidades. comercializando produtos e interagindo com a floresta de forma ativa e conseqüente. oficiais ou não. no passado. ouros. exportando. Sem preconceitos. produzindo. Pode ter razão. com a chegada dos “civilizados”. animais. não são poucas. É imprescindível uma aproximação com o conhecimento tradicional. vivendo. O desequilíbrio ocorre. A exportação de peixes ornamentais. Negando esta tese está a existência de aproximadamente dois milhões de indígenas. Nesta perspectiva deste desenvolvimento. no mundo. seu manejo. animais e tantas outras coisas é uma constante. Reconheça-se. na perspectiva do capital e da cultura dos europeus. Hoje.e longo prazo é a destruição da floresta e de sua biodiversidade. É este o desenvolvimento que se tem como referência? A Amazônia. pode-se entender a tese de Meggers (1954) que a floresta tropical é um ambiente inadequado ao sustento de sociedades mais complexas. “eles” conhecem a Amazônia. atrás de ouro e pedras preciosas. É fundamental o estabelecimento de um diálogo de saberes. Turistas de paises que destruíram suas florestas vêm conhecer as nossas. Com o intuito de construir um conhecimento coletivo a partir das experiências e das vivências locais. não somente minérios. Existem SAF’s. sua cultura. mas também da biodiversidade. Expedições de pesquisadores. surge um enorme desafio: a necessidade de se conhecer e conhecer bem este magnífico ecossistema. pássaros. Madeira de lei que revestiram palácios. E aí. no presente continuam sendo contrabandeadas para decorar casas de outras pessoas fora da região. se esta sociedade não considera as peculiaridades locais do meio ambiente. Com respeito às diferenças e às distintas cosmovisões. para implantação da monocultura. Que. o meio ambiente. floresta são reduzidos à mercadoria e ocidentalizados. principalmente. na maioria das vezes. conhecer sua fisiologia. Homens. Conhecer não apenas para identificar onde existem minas de metais preciosos. é sinônima de meio ambiente. bem mais que nós. as experiências com 111 . Legalmente ou não. diga-se de passagem. no século XVI. mulheres.

Qual a novidade destas propostas? Por que não existem políticas públicas nesta direção? A população quer um desenvolvimento nes112 . Patenteamento de espécies raras e exóticas. porque a ela nem a de Málaga se iguala. Orquídeas. Indústria de cosméticos. o turismo e outra. Por isso. têm-se visões múltiplas de suas possibilidades. Os consórcios vegetais. seja a inclusão social e o envolvimento ativo da população no manejo adequado de seus ecossistemas. da comida. Uso medicinal e extrativista. É toda vidrada e esmaltada de todas as cores. Experiências de pesca e de manejo de pescado. do artesanato.” Quando se fala da biodiversidade.Permacultura. Estas dimensões têm inúmeros desdobramentos. seja através da dança. além disso. estas alternativas exigem uma floresta. Mas um turismo que alie. Carvajal (1941:47). Mas. Turismo e biodiversidade Um projeto de desenvolvimento diferente.. tão vivas que espantam e. Captação de carbono. Um turismo que não seja simplesmente a oferta de bons hotéis com programas de incursões ecológicas. Doces e sucos. possibilidades diferentes do modelo convencional. Vale salientar que não é de hoje que a cultura na Amazônia desperta admiração. a melhor que já se viu no mundo. vários. da biodiversidade. Uma diversidade de opções. Conhecimentos. que fundamentam um desenvolvimento diferenciado. Extrativismo. onde políticas públicas sejam formuladas para estrategicamente fortalecer duas direções. com amplas perspectivas de fundamentar um desenvolvimento efetivamente sustentável cujo resultado. “. incursões ecológicas. Uma. a biodiversidade. Porém. O pescado e sua indústria. os desenhos e pinturas que fazem nela são tão compassados que com naturalidade eles trabalham tudo em romano. Manejo da floresta com pouco impacto ambiental. hotéis. Indústria farmacêutica.. assim relata sua impressão sobre a cerâmica. com apresentação de distintas manifestações culturais e serviços. Animais e plantas que não conhecemos e que não existem em outra parte do mundo.

ta direção? Esta proposta é absurda? Inconseqüente? Quantos já fizeram, com mais competência e mais detalhes propostas nesta direção e não foram sequer escutados? Estas propostas são contra um projeto de desenvolvimento? Estas propostas significam uma volta ao passado e voltar a viver em malocas e não ter acesso à tecnologia e às inovações?

Necessidade de conhecimentos
Claro que não. Esta é efetivamente uma proposta de desenvolvimento. Aonde se necessita cada vez mais de tecnologia. Exigem-se mais conhecimentos. Alias, este é um fator de desenvolvimento e com amplas perspectivas de exportação. Conhecimento do manejo adequado e apropriado da floresta amazônica. Esta proposta traz em si uma necessidade de avanço cientifico, porém a partir de outros paradigmas. Morin (1991:17) diz que “todo conhecimento, incluindo o conhecimento cientifico, está enraizado, está inscrito em e é dependente de um contexto cultural, social, histórico. Porém o problema consiste em saber quais são estas inscrições, enraizamentos, dependências e perguntar-se se pode haver, e em que condições, uma certa autonomia e uma relativa emancipação do conhecimento e da vida”. Qual o conhecimento amazônico? Qual o conhecimento que reflete e responde ao contexto cultural, social, histórico e natural da Amazônia? Este conhecimento poderá apontar para um desenvolvimento sustentável. Mas, com certeza o conhecimento produzido em outro contexto cultural, social, histórico e natural se implementado na Amazônia poderá concorrer para uma catástrofe e não para um desenvolvimento.

Para concluir
O mundo muda a cada instante porque é formado por entes vivos. Assim, na dinâmica do processo não se pode analisar em uma perspectiva estática. As mudanças acontecem seguidamente. Algumas para
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melhor e outras para pior. Por se pensar que o mundo é uma matéria prima para o capital, chega-se a esta situação de esgotamento. Há um enfraquecimento e um estado débil de vida, com um aumento cada vez maior e mais presente de mortes. Esta separação do homem da natureza nos leva a uma crise de civilização. Configura-se depois de muitos anos nesta caminhada a constatação que muitas estratégias foram equivocadas. Talvez a maior delas, foi a opção por acumular riquezas e a estratégia antropocêntrica de dominação da natureza. Schumacher, (1981) alerta que é um equivoco pensar que está resolvido a questão da produção e destaca a batalha do homem contra a natureza. Registra-se, porém, que não há crise para o capital. Este está cada vez mais bem remunerado, cada vez mais concentrado, cada vez mais excludente. E, as pessoas na Universidade, nos órgãos de desenvolvimento, nas agências de cooperação técnica têm uma enorme responsabilidade. Precisa-se assumir uma postura favorável na direção de contribuir para efetivas mudanças. Precisa-se repensar a maneira de agir em casa, no trabalho, nas relações pessoais e profissionais. Precisa-se olhar a volta e analisar efetivamente que mundo se quer construir. Analisar e aprofundar os conhecimentos sobre a proposta agroecológica e criticando-a, reconstruindo-a, reelaborandoa, identificando-a se pode ser uma ferramenta, uma metodologia e uma epistemologia. Que permita subsidiar e fundamentar o caminhar para mudança de paradigmas e de reafirmação de sonhos, que implantados, leve a construção de outro modelo de sociedade. Que pode ser em uma comunidade, em um grupo, ou individualmente. Marx-Neef (1994:147) diz que “só temos o poder de modificar a nós mesmos, porém o ponto fascinante é que se eu mudo, pode ocorrer algo em conseqüência que pode conduzir a uma mudança no mundo”. Pode ser pequeno, simples. Mas, que seja na direção contrária aos caminhos que levaram a esta crise. Que seja contrária à acumulação, à monocultura, ao enfrentamento, à competição, à pretensa dominação da natureza e à exclusão social. Seja de reafirmação da cooperação, da diversidade, da distribuição e a acumulação comunitária, da inclusão. Seja nos integrando com a natu114

reza, cooperando, aprendendo, observando, entendendo o mistério de sua reprodução em sua complexa auto-organização, promovendo radicalmente a vida. Novamente, reafirma-se, necessita-se da manutenção dos ecossistemas. Necessita-se da floresta, até porque floresta, em última instância significa vida. Inclusive e principalmente para os que vivem fora dela. Retomando a Schumacher(1981:12) que lembra que a batalha do homem contra a natureza se vencida pelo primeiro, significa simplesmente a ameaça de “continuidade da existência do gênero humano”, pelo menos neste planeta.

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para extensionistas.com. email: ladjaneframos@yahoo. uma vez que não sou profissional das ciências agrárias e nosso campo de conhecimento nem sempre se equivale. não ao de extensão” 2. levar reflexões e inquietações. ao invés de discursar sobre teorias e conceitos. Ed.. dialetizar diferentes conceitos da teoria da aprendizagem. Neste sentido. se recusa a “domesticação” dos homens. apontando assim a interrogação acerca do papel de “extensionista” e de sua missão frente à realidade da qual faz parte e tem uma ação de influência. pág. extensão ou comunicação?. desenvolvimento. que me dominam. dissertar na condição de estrangeira. Como ensina Paulo Freire. deste ser que “como educador. assistimos no decorrer da história da extensão rural e mais fortemente na atualidade a reedição da dicotomia presente na nomeação deste individuo que ao ser denominado de extensionista deve ter sua prática pautada em processos comunicacionais. Isto não significa negar 1 2 Perita da Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ) no Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável –AM. deparei-me com o desafio. dentre outros aspectos sobre o tema. participação. embora sua formação não responda a esta exigência. por um lado. principalmente. São Paulo. 12a. 2002.Da contradição do sujeito na extensão rural Ladjane de Fátima Ramos1 “tu és a floresta das contradições” Rainer Maria Rilke Ao ser solicitada para discorrer sobre construtivismo e o enfoque da participação no meio rural. edição. 24. harmonizando técnicas e instrumentos. Paz e Terra.br Paulo Freire. Por outro lado. 117 .. Por esta razão tomei o caminho de. cuja sua tarefa corresponde ao conceito de comunicação.

No entanto isto não foi hegemônico. Ao longo de décadas assistimos focos de reações à prática demandada pela revolução verde. de modificar a forma de atuação. Resistência à falsa nomeação “extensionista” que o colocava e ainda põe em evidência o dilema que vai incidir principalmente sobre sua forma de relação com os agricultores/as. de grupos de extensionista das empresas estatais e de agricultores que faziam frente a ação desenvolvimentista das políticas agrárias e à formação universitária dos profissionais da área. que assim define “Ater deve ser instrumento capaz de contribuir decisivamente para: (a) colocar o agricultor familiar e todos os atores envolvidos na condição de sujeito do processo. O que é exigido ou demandado? Que postura tomar? Tratamos aqui de mudanças. das organizações da sociedade civil. apoiar a apropriação de processo de transformações ou levar pacotes tecnológicos?. ou seja: ser educador ou transmissor de conhecimento?. (b) promover a organização dos agricultores familiares em formas associativas e cooperativas. principalmente. e (d) estimular o exercício da prática solidária como argamassa de uma nova consciência coletiva”3 Neste aspecto o caminho apontado pelo discurso da política brasileira. como fazer este processo de mudança? O que pode impulsionar a reflexão? O novo papel do extensionista está contido no Plano de Desenvolvimento Sustentável do Brasil. 118 . p. do que mesmo uma atitude de alguém que estende seus conhecimentos a um outro. 41. 3 Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável do Brasil Rural – PNDRS.a este profissional um saber que produz a liberdade de si. mas principalmente de alterar as crenças. dos movimentos de igreja. deslocando os atores sociais envolvidos no desenvolvimento sustentável do lugar de “objeto” ao de “sujeito” do processo. é o da participação. a sua interação e a dos agricultores familiares. na verdade constituia-se mais em focos de resistência de alguns sujeitos sociais e. (c) reduzir a dispersão social. por parte de muitos desses técnicos que buscavam muito mais uma postura de educador-educando. valores e conceitos que até então eram tidos como válidos. Mas.

permitindo o crescimento do espírito cooperativo sem que isto signifique o desaparecimento da individualidade. E aqui se coloca algumas interrogações: como se reconhece e dialetiza o saber e como se legitima a posição de sujeito? E especialmente como alimentar. do consumidor. a idéia de viabilidade de um projeto de mundo com mais eqüidade e participação?. que técnicos e agricultores possam interagir e encontrar signos comuns. através de processos comunicacionais. Como afirmamos anteriormente. econômica. cultural dos diferentes atores. Conduta mediadora significa permitir que os agricultores familiares possam. na mente humana. É principalmente o privilégio do ser humano sobre a tecnologia. portanto. os processos comunicacionais permite. Assim seria possível que “algo mais” se construa e conseqüentemente. Cabe. ampliando assim a governabilidade sobre “as coisas” públicas. aqui é entendido como a possibilidade de resgatar a cidadania e presentificar a ação política. construindo e reeditando novos laços e pactos sociais de solidariedade e de contribuição voluntária. mas também proporcionando uma (re)leitura do coletivo. que o sujeito social se presentifique. da agricultora. O privilégio da participação e de processo dialético permitiria a criação de espaço de esperança na construção de novos arranjos de relações sociais. como também ampliar a compreensão 119 . entender que o enfoque de atuação humanista necessita muito mais de uma conduta mediadora de diferentes saberes do que uma atitude de persuasão junto aos agricultores. entende-se que atuar com um enfoque participativo significa recolocar o homem no centro do processo. ampliar sua capacidade de análise e decisão. e aqui falamos tanto do extensionista como do agricultor. por outro lado. através da dialética. O enfoque participativo. social. A resignificação do rural impõe revisões teóricas e mudanças dos profissionais e das organizações que atuam neste meio.Se por um lado esta participação não pode ser considerada “a caixa de pandora” da assistência técnica e extensão rural. da consumidora e de todos aqueles que integram este universo. onde estão depositadas as soluções e tudo se transformará.

econômicas e ética na sociedade. pois os processos de comunicação humana estão condicionados aos aspectos socioculturais e a forma como cada um deu sentido a sua história.sobre crenças. para velhos problemas sociais. na luta. Isso implica numa compreensão do contexto desses dois mundos que interagem. No entanto há dissonâncias e/ou contradições. de um fazer diferente e daí para a tomada de decisão 120 . Este desafio é colocado pela Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) que de uma forma muito audaciosa. dentre outras definições. constantemente. culturais. e não enquanto objeto das políticas e das relações institucionais nos quais estão inseridos. econômicos. Não podemos deixar de considerando que processos de mudanças só ocorrem por um desconforto que mobiliza a energia para a busca de alternativa. correr o risco de experimentar novas formas de relação e soluções criativas. tenta reescrever a Agroecologia como impulsionadora de mudanças nas relações sociais. ambientais e culturais. Mas até que ponto os técnicos ou agentes de Ater estão optando por isto? Quantos podem ser capazes de sair de seu espaço de conforto relativo e se responsabilizarem pelo fato de que podem fazer a história? Estas são interrogações que escutamos no discurso. nas idéias de liberdade e igualdade. valores. Este é o desafio para os agentes da extensão: decidir ousar e reinventar as relações sociais no Brasil. É assim que os sujeitos mudam sua realidade e influenciam o entorno. O avanço da humanidade se escreve nos desafios. conhecimentos e comportamento. com a agricultura sustentável ou mais diretamente. e isto implica em adotar-se uma postura ética e reflexiva que vai ao encontro da democracia e ao respeito pelo outro. políticas. Quais são os limites? Pois estamos falando aqui de se fazer presente no mundo. Também significa se colocar enquanto sujeito. através da problematizacão da realidade e da ação-reflexão é o caminho encontrado pelas técnicas e métodos que priorizam a participação. assumindo-se riscos. É a oportunidade de reescrever a história. atitudes. Esse conceito significa. O processo dialógico. no contexto do desenvolvimento sustentável.

) “se alguém me pergunta. implicando em novos modelos de relação e numa ação libertadora. dos agricultores familiares e demais atores sociais que integram este sistema de relações ligadas ao desenvolvimento do meio rural. a crença de que é possível mudar e.nossa ação política-pedagógica”. neste caminho.. Assim a PNATER aponta para o caminho da democratização e liberdade dos atores... 121 .. Ela implica necessariamente a focalização de um objetivo. Importante ressaltar que não existem fórmulas. Como afirma Paulo Freire (. A configuração de um processo de mudança precisa sempre de situações específicas. Neste contexto as instituições estatais ou não governamentais têm um papel importante para a concretização destas mudanças.e. mas não impossível.. A mudança não tem sentido em si mesma. que se constroem a democracia e o ato de liberdade. a busca de um modelo de desenvolvimento mais sustentável. conseqüentemente para uma nova situação de conforto e domínio. claro.. para processo de aprendizagem organizacional. Os processo de mudanças impulsionam para a aprendizagem coletiva e individual e.. priorizando e construindo formas de atuação que considerem a participação e saberes dos membros das organizações de Ater. onde a Agroecologia aparece como a orientação para a dialetização dos atores. ou seja. é preciso inventar e praticar novos saberes. especificamente.. mas como abordamos anteriormente.) É a partir da consciência de que mudar é difícil. Mas direi também que mudar implica saber que fazê-lo é possível”(. ou como afirma Paulo Freire é parte de “. há diferentes possibilidades que devem ser pautada pela capacidade criativa e por soluções locais. a saída de uma situação a outra. se acho que. basta que nos entreguemos ao cansaço de constantemente afirmar que mudar é possível e que os seres humanos não são puros espectadores. Neste caso a PNATER aponta este foco de mudança. mas atores também da história. A nossa presença no mundo implica escolha e decisão. direi que não. para mudar o Brasil.

A busca de realização de desafios implica avanços. Arthur. Tomos editorial. Domenico. Leny Magalhães. 2000. que são projetos pelos quais se lutam. Paulo. novos operadores de leitura. Como afirma Freire: “ O que o sonho aspira é um ato político”. temos um sujeito que tem que se presentificar com todas as suas contradições de estar em um mundo globalizado e que deve ir em busca de seus sonhos e lutas. Extensão ou comunicação?. Bibliografia BROSE. 2004. estes processos são impulsionados por sonhos. Texto da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural ZIMMEMANN. Editora UNESP. métodos e técnicas. recuos. sejam seres engajados em organizações. e para dizer mais claramente. FREIRE. Se resignificando e reinventando enquanto sujeito emergente. 2004. 2002. coletivo. Recife. Seja estes sujeitos. que se pode reescrever a história e a relação humana no mundo rural e deste com o urbano. Bagaço. Participação na Extensão Rural: Experiências Inovadoras de Desenvolvimento Local. Gestão da Mudança Organizacional. 122 . 12ª edição. resistência. De MASSI. 2003. sejam coletivos ou individualmente. Rio de Janeiro. FREIRE. E em meio a tudo isto.Sendo assim. um modo de ser mais feliz. medos. Psicanálise e educação. construindo assim o desenvolvimento sustentável. Criatividade e grupos criativos. MRECH. Paz e Terra. dentro do limite possível da felicidade e da realidade. Paulo. mas principalmente a tomada de consciência que mudar é possível. técnicos. Sextante. a luta de um e a luta de muitos. Criando novas formas de vida e buscando acima de tudo uma relação mais solidária com os seus. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Markus. transformar o modo de relações sociais em busca de uma melhor forma de viver. agricultores ou consumidores. político. 2003. Este é o maior desafio que nos coloca a PNATER.

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