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Arte-educagao em um museu de arte Ana Mae Barbosa No Brasil, trabalho do arte-educador nos museus tem sido improvisado, desde os ‘anos 50, quando Ecyla Castanheira Brandao e Sigrid Porto de Barros comecaram a organizar os primeiros servicas educativos em museus, no Rio de Janeiro. Apesar de, atualmenie, existrem no Pals 79 cursos universitarios de Educagdo Arts- tica, em nenhum deles hd qualquer abordagem a respelto da preparacso do arte-educador para trabalhar em musous. Em 1986, com mais cinco colegas, das mais diferentes reas de artes, preparel um pré-projeto para dellagrar as discuss6es sobre a possivel criagdo do Instituto de Artes na Univer- sidade de Séo Paulo. Propunha ¢ delneava um Departamento de Arte-Educagdo com trés éreas de forma- 40 inte-relacionadas, porém distinis: ensino de arte em escolas formals; arte-educagdo em mus seus e arte-educagéo para agdo cultura. Este departemento,e sua conseqiente preocupagéo com a formagao do protessor de ate para museu, nem sequer igurou no projelo dfinitvo do insiuto de Artes, até hoje em discus ‘so nos diversos canais burocraticos da Universidade de So Paulo. A oposicao cerrada do pro- fessor de Teatro-Educacto @ a oposigao mais amena, porém configurada com clareza, do profes- sor de Educagdo Musical, que proferiram permanecer como apéndices de outros departamentos, aliadas 20 cistarcado boicote de membros da comisséo de implantacdo, destru a utopia de se ctiar o primeiro curso de Educacto Aistica com énfase em museu,no Brasil, Entretanto, 0 pione- rismo da USP no campo da Arte-Educacao tem sido indomavel gragas ao incentivo dos especia- listas de outras éreas, especialmente de cinema, jomalismo, relacbes pubicas,récio-TV, toria da comunicagao e hstéria da arte, ‘Assim, ainda em 86, a prof Elza Aizenberg ¢ eu organizamos 0 primeiro curso de es pecializagao em Arte-Educacao em Museu. O curso nao nos satisfez completamente porque, es- truturado no formato de uma série de palestras, ndo aprotundava os estudos como gostar‘amos. Eniretanto, do ponto de vista de contetdo, correspondeu acuilo que consideramas importante para a formago de um arte-educador em museu, incluindo museologia, museografa, curadoria,histbria da arie @ estéiica, Este citimo t6pico fol o mais aprofundado, ministrado em dez avlas dias peo tof David Best, da Universidade de Swansea (Gré-Bretanha). Um dos problemas mais discutdos no curso, durante minhas aulas, fia relagdo entre arte-educadores e curadores. Sabemos que estes proissionais tém o mesmo objetivo: alcangar a melhor organizacao estética para as exposi¢6es, tornando-as, o maximo poss(vel, acessiveis a0 pico, Portanto, qualidade estética e acessiblidade so 0s principlos que direcionam o trabaho o curador e do arte-educador no museu. Entretanto, na maioria dos museus, 0 arte-educador & um apBndice e & até diigido, criantado pelo curador, que diz 0 que deve ser fito ou como dove ser Iida a exposi¢ao pelo pabl- 10, © compete ao arte-educador apenas orientar para aquela letura ou executar a animacéo pro- posta, ANA MAE BARBOSA 6 dirolora do Musou de Arte Contampordnga (AC), proiessora de ‘Arie-Educagao Ga ECA, e autora de Recorte @colagem ~ a infuércia de John Dewoy no ensino da arte no ras Ecstora Corer) 6 Teor rica da educaréo antisica (Eatora Cui, Junto, Jutho e Agosto/1969 Revista (TSP - 125 vei: the Cleveland Meum ot Contudo, interpretar uma exposigo 6 um processo to complexo e dialético quanto interpreter um quadro ou uma escultura. Ao arte-educador compete aludar o piblico a encontrar seu caminto interpretative no impor a intengao do curador, da mesma maneira que aatitude de adivinhar a intencionaldade do artista fi derrogada pela prorizacao da letura do objeto estético, por ele produzido, As alividades do arte-educador © do curador so complementares: interpretar uma ‘exposigdo ¢ téo importante quanto installa! Séo atividades que tém como suporte teoras esti cs, conceituacéo de espaco e de tempo. (© primeiro museu a crar a funcdo de arte-educador foi o "Victoria and Albert Mu- ‘seum’, em 1852, Acoplado a uma escola de Artes Industias, a "South Kensington Schoo", neste ‘museu as "Artes Menores” tinham tanta importancia quanto as “Aries Maiores" curadores, con- servadores @ arte-educadores eram iguaimente consideracos, numa liao de equiorio cultural apreenciéa com Ruskin, Wiliam Mortis, Cole, Redgrave e Wiliam Dyce. Ruskin, posteriormente (1869), criicando a “South Kensington School’, que era para adultos, propos a criagdo de escolas primétias de desenho em todos os museus e galerias de arte da Inglaterra. Enirentando vérios e consecutivos problemas, mais polticos do que estéticos, “Victoria and Albert Museum” tna, alé 1970, um dos trés melhores programas de Arte-Educagao em Museu na Europa, 4JA.n0s Estados Unidos, a introducdo da Arte-Educagao nos museus, em 1872, no “Metropolitan” do Nova York e, em 1876, no "Musou de Belas-Artes” de Boston, estabeleceu 0 ensino da arie e apreciagdo arlstica como petiféricas, algo & parte do funcionamento do museu. No Novo Mundo, & somente no século XX que a funco educacional do museu comeca a ser co- locada no mesmo grau de importancia que sua funcdo de preservacao e exibicdo das obras da arte. O “Cleveland Museum’, em 1915, e 0 "Museu de Toledo”, em 1903, déo inicio a0 seu pro- grama educacional, mesmo antes de que tivessem a cole¢o organizada e um prédio proprio. A introdugao da Arte Moderna no Novo Mundo, sempre feta de maneira espalhatato- sa, despertando a reaco dos conservadores, que teimavam em aceitar somente aquilo que era ‘nstitucionaimente consagtado como “boa arte" na Europa, tornau necessario um trabalho de con vencimento junto ao pablico, feto especiaimente pelo setor educacional dos museus. A partir do advento da Arte Modema, os museus nos Estados Unidos passaram constiuir @ vanquarda no ensino da arte, realzando um trabalho renovador em relacao as escolas @ alé as universidades, e o mesmo tem acontecido no Brasil (© “Museu de Arte Moderna” de Nova York (MOMA) fo fundaco em 1929, com o ex: plicit objetivo didatico de levar a uma compreensao da Arie Moderna. Tendo camo piblico a elite sofisicada de Nova York, havia, entretanto, a preocupagao de que 05 outros estratos cullurais aprendessem alguma coisa sobre a producao atistica em sua visita ao Museu, sem ser necessé- rio apreender integralmente os valores da alta cultura de vanguard. (© "MOMA” @ 0 “Museu de Cleveland” so os pioneitos da moderna Arte-Educagio ‘em museus, teoticamente fundamentada por Viclor D'Amico, em Nova York, ¢ Thomas Munro, em Cleveland, Ambos foram muito inluenciados pela idéias de John Dewey, podendo Thomas Munro ser mesmo considerado seu discipulo, Foi Dewey quem o orientou para vsitar a escola de Franz Cizek, em Viena, conside- rada a primeira escola da modema Arte-Educacao. Os livros de Munro, além disso, $20 muito beminformados em flosofia da arte de raizes pragmatstas. Para Munro @ D'Amico, uma des preocupagdes era vencer 0 abismo enire a estética apresentada nos museus de arte @ a estética do melo ambiente cotidiano, na qual se alimentava 2 visao de milhOes de trabalhacores, classe que oles queriam conquistar para o museu, seguiam John Dewey que afirmava: “Eu no posso pensar em nada mais absurdo e fil do que levar arte @ prazer estét- co artficiaimente &s multd6es que trabalham nos mais feios meio ambientes e que deixam suas feias fébricas somente para andar por deprimentes ras, para comer e cormir e se ocupar de tar relas domésticas em sérdidas e tistes morad Ciinteresse das goracdes mais jovens pela arte e por problemas estéticos 6 um espe- rangoso sinal de crescimento cultural. Mas se tomaré um mecanismo escapista, a menos que se