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M4 7O DE /kome Te € DBE “PRA BORA Os trabalhos e os dias a bi ae Bitte Ve CoM nap re ete fol tees iL Glory MARY DE CAMARGO NEVES LAFER BIBLIOTECA POLEM TLUMI+URAS HESIODO As tt CE ACA OS TRABALHOS E OS DIAS (PRIMEIRA PARTE) Introdugao, tradugao e comentarios Mary de Camargo Neves Lafer 0 Outro rico apressado em plantar, semeare a casa beneficiar; o vizinho inveja ao vizinho apressado atrds de riqueza; boa Luta para os homens esta €;/ 0 oleiro ao oleiro cobiga, o¢arpimeiro ao carpiniteiro, v. 25 0 mendigo ao mendiga inteja eo aedo a0 G Perses! mete isto em-teu Animo: a Luta malevolente tev peito do trabalho ndo afaste para ouvir querelas ria 4gora ¢ a elas dar guvidos. Pois pouco interesse hd em disputas e djscursos para quem em caéa abundante sustento/ndo tem she Na sua estagao;’o que a terra traz, o trigo de Demé1 contra ben: ‘alheios poderias. Masao haverd se; Ss vez para assim agires. Decidamos aqti nossa disputa/ v. 35 Ja dividimos a heranga e | e tu dg’ muito mais te apoderando ibém para seduzir reis lores-de-presentes, que este litigio quefem julgar. Négcios, nao sabem quanto a metade vale phais que 0 todo v.40 nem quanto proveito an malva e no asfédelo*. Mito de Prometeu e Pandora Oculto retém os deuses o vital para os homens; sendo comodamente em um sé dia trabalharias para teres por um ano, podendo em dcio ficar; acima da fumaga logo o leme alojarias‘,-- / v. 45 trabalhos de bois ¢ incansdveis mulas se perderiam. Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou®, pois foi logrado por Prometeu de curvo-tramar; por isso para os homens tramou tristes pesares: ocultou o fogo. E de novo o bravo filho de Japeto v. 50 3. Os versos 40 ¢ 41 reproduzem uma maxima fundamental bln grega i- gada a idéia de se dever “obscrvar a medi também él ida em excesso". O v. 41 deve também se referir a um dos Sete Sabios, Epiménides, jue precisava, scgundo a tadicdo, apenas de malva eae niindey peek se alimen- tar. (Cf, Vernant, in As ongens do pensamento free 4 Para a sccagem ¢ a melhor conservagao do do navio quando em desuso, usava-se, na Antiguidade, este processo aqui aludido. 5 No texto grego o verbo também rege um objeto direto que nao aparece ai, mas apenas no v. 30: 0 fogo (pw). Decidi conservar essa disposiggo para assinalar que eo ocultamento do fogo se di, de certa forma, também no nivel sintitico. 25 roubou-o do tramante Zeus para os homens moriais em oca férula®, dissimulando-o de Zeus frui-raios. Ent4o encolerizado disse 0 agrega-nuvens Zeus: “Filho de Japeto, sobre todos em tuas tramas, apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas; v. 55 grande praga para ti e para os homens vindouros! Para esses em lugar do fogo eu darei um mal ¢ todos se alegrarao no 4nimo, mimando muito este mal"’. Disse assim ¢ gargalhou o pai dos homens ¢ dos deuses; ordenou entdo ao inclito Hefesto muito velozmente terra 4 4gua misturar ¢ af pér humana voz € forga, ¢ assemelhar de rosto 4s deusas imortais esta bela e deleit4vel forma de virgem; e a Atena ensinar os trabalhos, o polideddleo’ tecido tecer; 4 durea Afrodite 4 volta da cabega verter graga, v. 65 terrivel desejo e preocupagdes devoradoras de membros. Ai pdr espirito de co e dissimulada conduta determinou ele a Hermes Mensageiro Argifonte. Assim disse ¢ obedeceram a Zeus Cronida Rei. R4pido o inclito Coxo® da terra plasmou-a v. 70 conforme recatada virgem, por designios do Cronida; Atena, deusa de glaucos olhos, cingiu-a e adomou-a; deusas Gracas e soberana Persuasio em volta do pescogo puseram colares de ouro e a cabega, com flores vernais, coroaram as bem comadas Horas e Palas Atena ajustou-lhe ao corpo o adoro todo. Entéo em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte 6 Este era o modo de conservar ¢ ransportar 0 [ogo aceso, jd que o interior da férula é altamente combustivel ¢ suficientermente protetor. 7 “Polidedéleo” & um belenismo formado por dais elementos dicionarizados, “deddleo” € um adjetivo gado ao nome Dédalo, o construtor do labirinto de ‘Cnossos, ¢ que significa complexo, intrincado, complicado. O prefixo pol -, lar- gamente empregado em nossa lingua, significa “muitos”, “miltiplos" etc. 8 O deus coxo Hefestos 27 mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta forjou, por desfgnios do baritonante Zeus. Fala o arauto dos deuses af pés ¢ a esta mulher chamou Pandora, porque todos os que tém olimpia morada an deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pio. ;° “f “°° E quando terminou o {ngreme invencfvel ardil, a Epimetew’ o pai enviou o fnclito Argifonte veloz mensageiro dos deuses, odomlevando; Epimeteu v. 85 nao pensou no que Prometeu Ihe dissera jamais dom é do olimpio Zeus aceitar, mas que logo o devolvesse para mal nenhum nascer aos homens mortais. Depois de aceitar, sofrendo o mal, ele compreendeu. Antes vivia sobre a terra a grei dos humanos v. 90 arecato dos males, dos diffceis trabalhos, das terriveis doengas que ao homem p6em fim; mas a mulher, a grande tampa do jarro algando, dispersou-os € para os homens tramou tristes pesares. v. 95 Sozinha, ali, a Expectagao'® em indestrutfvel morada abaixo das bordas restou e para fora nao voou, pois antes repds ela a tampa no jarro, por designios de Zeus porta-gide, 0 agrega-nuvens. Mas outros mil pesares erram entre os homens; v. 100 plena de males, a terra, pleno, o mar; doencas aos homens, de dia ¢ de noite, vao ¢ vém, espontineas, levando males aos mortais, em siléncio, pois o amante Zeus a voz lhes tirou. Da inteligéncia de Zeus nao h4 como escapar! v. 105 ‘ 9 Epimetcu ¢ irmao ¢ reverso de Prometeu; seu nome indica que ele tem a.com- preensio dos fatos 56 apds terem eles acontecido, como verificar no mito. Fala-sc em “prometéia™ ¢ em “epimeté come formas de inteligéncia dos fatos, 10 Eipis foi taduzida por “Expectagdo" porque comporta mais o sentido amplo de espera (do negative ou do positive) do que a palavra "Esperanga’’, que tradi- cionalmente aparece nas tradugées (ef. p. 74 do-cap. UL, 2). 29 2 j eed , ‘ 3 a ke As cince ragas a 1 : Raga de Ouro pe the Meme ata Bats 2. A a wey te ee hee ate t's Se queres, com outra esténa esta encimarei; , i bem e sabiamente langa-a em teu peito! 7 [Como da mesma origem nasceram deuses ¢ homens.) Primeiro de ouro a raga dos homens mortais criaram os imortais, que mantém olimpias moradas. —v. 110 npo de Cronos, quando no céu este reinava; : at como deuses viviam, tendo despreocupade coragiio, 4), , apartados, longe de penas e misérias; nem temivel nh eee velhice lhes pesava, sempre iguais nos pés e nas mos, alegravam-se em festins, os males todos afastados, vo 1s Morriam como por sono tomados; todos os bens cram para eles: espontanea a terra nutriz fruto trazia abundante € generoso e eles, contentes, tranqiilos nutriam-se de seus prédigos bens. Mas depois que a terra a esta raga cobriu y. 120 eles sdo, por desfgnios dq poderoso Zeus, génios corajosos, cténicos, curaddres dos homens mortais. [Eles entio vigiam decisées ¢ obras mals4s, ‘ i vestidos de ar vagam onipresentes pela terra.] v. 125 E dio riquezas: foi este o seu privilégio real. Raga de Prata — sy Entio uma segunda raga bem inferior criaram, argéntea, os que detém olimpia morada; a urea, nem por talhe nem por espirito, semelhante; mas por cem anos filho junto 4 mae cuidadosa wv. 130 crescia, menino grande, em sua casa brincando, al ras lei entre os homens segundo © costume. bntao Zeus Cronida encolerizade os escondeu porque | ona nao davam uos ditosos deuses que o Olimpo dete Depois também esta raga sob a terra ele ocultou ¢ so chamados hipoctGnicos, venturosos pelos nwrtais, segundos, mas ainda assim honra os acompanha Raga de Bronze — ; E Zeus Pai. terceira, outra raga de homens mortais foers brénzea criow em nada se assemelhando a argént ‘ « Hogs era do freixo, terrivel e forte, e lhe importavam de Ares v.145 +, ‘ obras gementes ¢ violéncias, nenhum trigo ‘ seg eles comiam ¢ de ago tinham resistente 0 corago; | See inacessfveis: grande sua forga e bragos invenciveis dos ombros nasciam sobre as robustas partes. Deles, brénzeas as armas ¢ brénzeas as casas, v. 150 com bronze trabalhavam: negro ferro nao havia. E por suas préprias maos tendo sucumbido desceram ao timido paldcio do gélido Hades; ** anénimos; a morte, por assombrosos que fossem, pegou-os negra. Deixaram, do sol, a luz brilhante. v. 155 Raga des Herdis — Mas depois também a esta raga a terra cobriu, de novo ainda outra, quarta, sobre fecunda terra Zeus Cronida fez mais justa ¢ mais corajo: 1] Mantive na tradugio a variago de concordiincia de verbo com © sujeito no singular ¢ no plural como acontece no texto grego. 12 A ee Aybris significa “violéncia provocada por paixio", “ultraje™, pes desferidos por al ‘soberba" etc. Assim, niio me parece adequado one por “Desmedida” ov por “Violéncia", conforme consagrou 4 tra- digo, jd que ambas refletem apenas parcialmente o sentido do original; parece me que “Excesso” se presta melhor para traduzir esta nocio em po 33 be raga divina de homens herdéis e sio chamados semideuses, peragao anterior 4 nossa na terra sem fim. v. 160 A estes a guerra mic o gnito temfvel da tribo tanceae jt Pot # eres a uns, na terra Cadméia, sob Tebas de Sete Portas,“ cin cf ¢ oe dan, pate fizeram perecer pelos rebanhos de Edipo combatendo, * #4" & € @ outros, embarcados para além do grande mar abissal a Tréia levaram por causa de Helena de belos cabelos, v. 165 ali certamente remate de morte os envolveu todos ~ ? 70°" " ¢ longe dos humanos dando-lhes sustento e morada uh ‘eh Zeus Cronida Pai nos confins da terra as confinou. *.* 'f '/ E sao eles que habitam de coragao trangiiilo . 4. . aby ie a Ilha dos Bem-Aventurados, junto ao oceano profundo, v. 1FOce. ote. herdis afortunados, a quem doce fruto traz trés vezes ao ano a terra nutriz i ag £ van de on aye Raga te Ferro — i Antes no estivesse eu entre os homens da quinta raga, mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. ' Pois agora € a raga de ferro e nunca durante o dia cessarao de labutar e penar e nem & noite de se destruir, e 4rduas angustias os deuses lhes darao. Entretanto a esses males bens estarao misturados. Também esta raga de homens mortais Zeus destruirdy |v. 180 or, «ort no Momento em que nascerem com témporas encanecidas. “‘;**' Nem pai a filhos se assemelhard, nem Aihas a pal; nem hspedes a a fe OF egy one ” ' » ar . “ sip ae te “oe a tel ‘ fag 35 hospedeiro ou companheire a companhcira, e nem irmao a irmao caro sera, como jd havia sido; vao desonrar os pais tio logo estes envelhegam v. 185, e vao censurd-los, com duras palavras insultando-os; cru¢is; sem conhecer o olhar dos deuses ¢ sem poder retribuir aos velhos pais os alimentos; [com a lei nas m4os, um do outre saqueard a cidade] '* graga alguma haverd a quem jura bem, nem ao justo v. 190) nem ao bom; honrar-se-4 muito mais ao malfeitor € ao homem desmedido; com justiga na mao, respeito nio haver4; o covarde ao mais viril lesaré com tortas. palavras falando ¢ sobre elas jurara. A todos os homens miserdveis a inveja acompanhard, v, 195 ela, malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar. Entao, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos, com os belos corpos envoltos em alvos véus, & tribo dos imortais irao, abandonando os homens, » Respeito e Retribuigao; e tristes pesares vo deixar v. 200 aos homens mortais. Contra o mal forga nao havera! A Justiga Agora uma fabula falo aos reis mesmo que isso saibam. Assim disse 0 gaviio ao rouxinol de colorido colo no muito alto das nuvens levando-o cravado nas garras; ele miserdvel varado todo por recurvadas parras v. 205 gemia enquanto o outro prepotente ia Ihe dizendo: “Desafortunado, o que gritas? Tem a ti um bem mais forte; tu irés por onde eu te levar, mesmo sendo bom cantor; der 13 Os versos entre colchetes so aqueles que nem todos os editores de Hesfodo accitam, assim, ete verto € sceito por M. L. West e nio-o€ por P. Mazon, © mesmo acontecendo com o v. 223 v. 108. Por nao estar fazendo estabeleci- mento de texto, preferi manter a cautela dos colchetes. 37