Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

21 pág. Pedro Ribeiro e Dr. 03 Capítulo 2 pág. 09 Pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 13 Capítulo 1 pág. 17 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. 2 Julho/2010 . 22 pág.

vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. tais como Aristóteles. De acordo com Aristóteles. Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). Neste módulo. such as biology. 3 . Vamos lá: No século IV a. physics. Any specific branch of this general body of knowledge. este está relacionado com o verbo. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo. Popper. empiristas e estatísticos. sobre a natureza. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade. Uma definição bastante completa é: “1. filósofos.. Desde séculos antes de Cristo. “scindo = dividir”. ou lógica aristotélica. Nestas construções. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. o mais confiável possível. 2. seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. 3.camacho@usp. Fisher. Segundo este método. mais ou menos completas.br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho. os homens) e termos particulares (Ex. todos os homens Julho/2010 Pág. Bayes. Bacon. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. talvez pelo resto das nossas vidas. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”. geology or astronomy. Underwood e Jaynes. Deste modo. c. estes elementos podem ser identificados e. também latim.” Academic Press Dictionary of Science & Technology. A continuação. Existem várias definições de ciência. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados. The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. existem termos gerais (Ex.

só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. O sistema lógico inventado por Aristóteles.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). entretanto. Para Bacon. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo. fazendo com que esta determinação fosse. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. Para Bacon. Outro problema é exposto na continuação. durante muito tempo. Segundo este método. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Em 1620. Segundo este autor. e isto afeta ao resultado final. situações relativamente similares. expressada em forma de probabilidade prévia. em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. Para Popper. a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). Deste modo. Porém. Desta forma. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. Em 1670. Bacon. explicar de forma cautelosa. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. 4 Julho/2010 . O conhecimento gerado permitiria. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. segundo ele.

Em geral. uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex. Apesar do problema lógico apontado por Popper. Na literatura. Pessoalmente. modelos. Para testar as conclusões. etc). 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). Sober 1999 e Lloyd 1987.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003. Por isto. 5 . O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. Assim. Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). teorias. citados por Lewin-koh et al. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. durante sua apresentação de raciocínio plausível. 2004). para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. amostras. Julho/2010 Pág. 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex. 4) Testar empiricamente as conclusões. predições ou hipóteses).

morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram. 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos. Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. 2). 4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos. predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 .Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento. que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994). Imagine que queremos saber se. 2008). Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950. 6 Julho/2010 . 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia. muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. em lagartos.

pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. as espécies de cada tratamento são aparentadas. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. Assim. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. 2. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas. Para isto. esquerda). os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. Por outro lado.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. Sob a hipótese de parentesco A. Por exemplo. tanto métodos falsificacionistas (Ex. na fisiologia comparativa. Hoje em dia. Entretanto. a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. Você concorda com esta forma de proceder. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. 7 . poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta. Sob a hipótese de parentesco B. Deste modo.

8 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto. mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se. Pág.

ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters. mediante prévio pagamento.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. 9 . Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material. Por último. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. ou site do laboratório onde trabalha.). “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. Biological Abstracts. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse. Zoological Records. Julho/2010 Pág. com artigos mais antigos. para ter certeza de que vale a pena respondê-la. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor.camacho@usp. Você sempre deverá começar com uma pergunta que. Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema.PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira. Google Acadêmico etc. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal.br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. a solicitação de xérox ou arquivos ”. Em são Paulo. 1987). “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”.

Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1. Execução e análise das  observações 7. ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland. ou hipótese. 1984).  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão.Leitura e observações prévias 2. deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. 2004). Interpretação 8. Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão. Comunicação de resultados  e conclusões. é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. 2004) (ou tal vez em uns poucos. Identificação da lacuna de  conhecimento 3. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. Desenho das observações que respondem à pergunta 5. Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. Ex. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la. desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam. Quadro 1. 10 Julho/2010 . permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais. de maneira objetiva. Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. Ainda. 1984).

2004). 3). Podemos encontrar dois tipos básicos. ou scatter plots (Magnusson e Mourão. categorias). Julho/2010 Pág. A) gráfico com fator categórico. enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. sexo. Como mostra a Fig. O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3. 2004). as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. Exemplos de gráficos de dispersão. etc. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. gráficos de dispersão. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. 2004). B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. 3. As variáveis contínuas proporcionam mais informação. mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis. peso. tratamento. concentração. não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. como variáveis categóricas podemos citar cores. 11 . Por outro lado. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. comprimento. o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal.

12 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta. Entretanto. um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. Julho/2010 Pág. 2002). No verificacionismo. uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes. Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. deveremos realizar observações que a respondam. Para um cientista. Entretanto. 13 .br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral. Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert. um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores.camacho@usp. Por exemplo. 1984).

um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação.4). 4). Neste caso. Pág. uma vez isolados possíveis fatores de confusão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente. que hipótese suporta melhor os dados). Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig. maior do que o ruído. queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores). houve /não houve diferença. é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso. Associado a este tipo de experimento. variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável. Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo. 14 Julho/2010 . em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações.

Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. decidir quantas observações serão necessárias. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. confiança e pseudorepetição. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe. se você pergunta a um(a) colega. 15 . ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. vamos lá. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles. você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. as repetições são chamadas de pseudorepetições. estão relacionadas por um fator de confusão. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. Para entender a relação entre fatores de confusão. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. mas isso não acontece com as pseudorepetições. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas. Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. Agora. Finalmente. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). é importante neste caso!). de modo que faz com que seu valor esteja relacionado. pseudorepetição e confiança. apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. na realidade. Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). e como serão feitos os controles. Por exemplo. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a). Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo.

pag. Pág. Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). 16 Julho/2010 . 4.

as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter. você teve que esperar longas burocracias (licenças. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. não lhe entendiam bem. Assim mesmo. etc. Um relatório de pesquisa deve ser tão claro. resultados. falta dinheiro. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam.. pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. se você não tem cuidado no que vem agora. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. resumo. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. A continuação. Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema. Iremos nos estender mais nas seções de resumo. Para isto. e você deve dominá-las desde o começo. Suas idéias sofreram críticas..Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência. Basicamente. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). 17 . Bom. discussão.camacho@usp. consta de 7 partes: título. introdução. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág.). resultados e discussão. O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. referências neste capítulo. Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. material e métodos. agradecimentos e referências. Passou tempo lendo. às vezes. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa. busque textos (Ex. material e métodos. uma grande dose de experiência é necessária. tudo isso pode não ter servido de nada. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. introdução. Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. agradecimentos e referências na tabela 1. solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. Veja dicas úteis sobre o título. segurança. preciso e curto quanto seja possível. infra-estrutura falha.

seja crítico e ajude à ciência progredir. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. devem ser apresentados em forma de tabelas. Os dados. material e métodos. 1966). a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. Concretamente. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram. resultados e discussão. explicando corretamente para ele. estes devem seguir a mesma ordem na introdução. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. em forma de hipótese a ser testada. as técnicas. Agora. 18 Julho/2010 . Desta forma. Por último.1). Por último. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. A fim de facilitar a interpretação do leitor. Se o relatório tem vários objetivos. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. quando numerosos. mas evitando redundância. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. Se nos nossos resultados. curtamente. os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições. Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô. Em seguida. Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. de forma que possam ser referidos no texto. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. eu digo a você que. Pior ainda. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. Isto implica em descrever as observações feitas. reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. e serem numerados. podemos enganar aos nossos leitores. é porque você não entende bem o que está fazendo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho. Na discussão. este é o lugar onde se deve apontar. Busque críticas.

Lembre-se que em ciência. 19 . Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele. Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar. tratamos com assuntos que. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. Assim mesmo. Para evitar erros em seu experimento. a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. Considerações finais. via de regra. Julho/2010 Pág. Isto faz com que todos nós cometamos erros. são complicados. Espero que lhe ajude. A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde).

e só as que estão no texto. os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações. as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos. aparecem na seção referencias? Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses. 20 Julho/2010 .

Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. do especial ao geral. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. (ex. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. Teoria empírica: Segundo Popper. prévia a um experimento. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. sobre outro possível descritor. exame. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo. ensaio. aquela teoria que pode ser testada. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies. previsões. Conclusões. mas ainda não conferida. estes animais não são aquáticos. Teste: prova. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. seja esta tomada sobre uma população. Julho/2010 Pág. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. Teoria: explicação sobre um fenômeno. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos. a partir de uma amostra da mesma. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. Para Popper. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. deve ser um conjunto de enunciados. 21 .

(1620) Novum Organum. Trad.edu. Morris Books.C).L. Disponível em: http://ebooks. E. 1. Bulletin of Ecological Society of America 77. E. 545 pp. Aristóteles (350 A. e Subhash R. Statistical Science. American Statistician 38: 26-19.html (maio 2009). N. statistical. M. 1997.(1959). USA.12. W. Escondido. T.P. 59 pp. Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. K.au/ (Maio 2009).L. 8888.adelaide. 557pp. (1858).162-176. J. R. 567p.L. (1996). W. R.). G. Peters. 136 pp. S.Trad por J. H. The nature of scientific evidence. R. D. 370–418. Jenkinson. Pág. (2003) Probability Theory: The Logic of Science.. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. How To Write Backwards.L. sendo influenciada pelos fatores. Popper. Disponível em: http://www-biba. New York 366 pp. Cambridge. S. Subhash R. 22 Julho/2010 . 154 pp. (1987) Graphs in scientific publications. Magnusson. Amorim. Francis Bacon. 2004. 2342 pp. Magnusson. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology..inrialpes. California. T. (2004) Statistics without Math. Disponível em: Jaynes. Keogh M. Lewin-Koh. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. First English edition by Hutchinson & Co. Cambridge University Press.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009). (1991) A Critique for Ecology. Ruído: variação não devida ao fator. Cambridge. philosophical and empirical considerations(eds. The university of Chicago Press. Cambridge University Press. Spedding http://en. W. Prior Analytics (livro 1). Por A. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922. Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar.fr/Jaynes/prob. E.wikisource. (2002) Experimental design and data analysis for biologists. Cleveland. (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances.J. Ribeirão Preto. A brief tour of statistical concepts. Quinn G. Cambridge University Press. M. (2002) Fundamentos de sistemática filogenética. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. Bayes. Taper.. Morris C.J. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53. Brazil. The logic of scientific discovery. A. Mourão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação. Londrina. Taper. Bibliografia Aldrich. Editora Holos.

1997. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. J. M.. Stearns. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. 1987. J. A. 2008. Cambridge university press.. 2008. S. Scheiner. Suppes. Theoretical_Ecology. B. Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. Systematics and herpetology in the age of genomics. A general theory of ecology. E. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques. 2008. (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. G. S. 23 . Underwood.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. Bioscience 58. North Holland press. J. Wiens. P. 392pp. Willig. 297–307. Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. Chapman M. J. S. Technical report Nº 33. Underwood. 97-115. Julho/2010 Pág. A. Sober. e Connell. M. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. R. Some modest advice for graduate students. D. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics. Cambridge UP. 1:21–28.C. naturelles et sociales”. R. 1960. 522 pp.

24 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Além disso. como é o caso da malária. Neste módulo. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia.moraes@usp. .br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais. com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos. que coordena o crescimento.

49 Bibliografia pág. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. Célia R.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. S. 26 Julho/2010 . 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra. 66 Pág. Daniel Carneiro Carrettiero pág.

Além disso. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. 2003). Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares. Muitos hormônios. endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci. além de uma maior independência em relação ao ambiente. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. originando os verdadeiros seres multicelulares. sinais intracelulares devem ser transduzidos. Nos organismos multicelulares. ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções.br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células. por meio da evolução a partir de uma única célula.. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente. 2003). que mais tarde originaram tecidos. que formavam estruturas designadas colônias. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. A maioria das Julho/2010 Pág. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais). foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células.. neurotransmissores. Contudo. A diferenciação celular. Para garantir o sucesso e a diversificação da vida.moraes@usp. 2007). a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer.Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col. quimiocinas. os quais levaram ao aparecimento de órgãos. mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente. 27 . 2003). Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. levando a uma diminuição da taxa metabólica.

Ainda. enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. 2003). portanto. chegando muitas vezes ao núcleo. ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. atravessar a membrana e atuar dentro das células. os chamados receptores. Pág. cuja célula alvo encontra-se distante. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade. ativando múltiplas vias de sinalização. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. essa região é conhecida como fenda sináptica. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. por exemplo. 1) (Rang e Dale. dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. 2007). enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular. e dessa forma. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial. os quais são chamados de hormônios. os quais são lançados na região entre neurônios. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. 2007). em hidrossolúveis e lipossolúveis.. Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores. 28 Julho/2010 . os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. que possam interpretar os sinais. Deste modo.

enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. que é iniciada por um agonista. 2003). 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. Os agonistas ativam os receptores.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. consequentemente. Adaptado de Rang e Dale. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág. 29 . e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. porém sem causar ativação desse receptor. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. os receptores são agrupados em quatro superfamílias. a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. 2007). A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e.

receptores solúveis no citosol (Fig. O primeiro receptor dessa família a ser clonado. cada um na interface das duas subunidades α. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras. Figura 2 . δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig.receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G. 30 Julho/2010 . Para que o receptor seja Pág. permitindo o fluxo dos íons (Fig. γ. δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina. receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR). γ. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. tirosina quinase. (2) superfamília tipo 2 .receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos. β. β. 3). 4). o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos.Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col. 2).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico.. 2003). Sua estrutura pentamérica (2α. esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. Na ausência de um neurotransmissor. fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 . Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α.

Retirado de Squire e col. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai.Esquema de abertura do canal. Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. potássio e cálcio.Sinalização Celular ativado. que são canais de cloro (Squire e col. como acetilcolina. 2003. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. 2007). glutamato. mesmo quando a despolarização é mantida. plasticidade sináptica e neurodegeneração. 2003. que são canais de sódio ou cálcio. permitindo a passagem de íons (Rang e Dale. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. 2003). o canal se abre quase que instantaneamente. hiperpolarizando a célula. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e. podendo levar à despolarização celular... tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. se abrem. como é o caso de GABA e glicina. cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente. Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. dessa forma. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato.. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular. Figura 4 . (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. Retirado de Squire e col. 31 . O influxo de íons através Julho/2010 Pág.

uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). aminoácidos modificados. A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. 1998). o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. o GDP é liberado.5’ monofosfato (AMPc). Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. íons. 2007). 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G. esteróides. γ – no interior da célula. as quais estimulam a geração de adenosina 3’. lipídeos. Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. Pág. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. β. como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col. Quando a proteína G é ativada. nucleotídeos.. (Fig. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. 5). 2002). neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col.. capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ. Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz. fosfoinositídeos. Recentemente. 32 Julho/2010 . 2005). essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal.. Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. Em termo. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα. A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico. 2002). postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica.

2001). Pierce e col. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc. Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. 2002). as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. 33 . 2008). as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0. Figura 5 .Sinalização Celular Classicamente. Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág.. Gαs. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi). levando a ligação do GDP a Gα. 2003. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα. Em alguns casos. Gαq e Gα12/13 (fig. ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz. Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos.Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. 7) (Cabrera-Vera e col. Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos.. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular.

Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase. Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. 2001). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). 2005). 34 Julho/2010 . Pág. Na sua forma inativa. e subsequente liberação da subunidade (C). Depois de formado. CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz. a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). Após ativação. As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos. e duas subunidades catalíticas (C).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. Na ausência de AMPc. a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs).

5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig. o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci. O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação. promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ). ou ainda. As setas em vermelho representam inibição de um componente da via. A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3. A subunidade Giα inibe adenililciclase. a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular.4. promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático. A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. podendo ser clivado. Quando a proteína Gq é estimulada.Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G. Uma vez ativada. 35 . Em muitos tipos celulares.Sinalização Celular Figura 7 . a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. 2007). gerando ácido araquidônico. gerando 1. e as setas em verde a ativação. Julho/2010 Pág. 8).5bisfosfato de fosfatidilinositol. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R). promovendo a diminuição de AMPc.

afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska. o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. migração. Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. os receptores do tipo I e II. tirosina fosfatase. essa cascata de Pág. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). diferenciação. dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. incluindo proliferação. As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos.. O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas. Existe ainda uma superfamília de proteínas G. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. desse modo. serina/treonina quinase. referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α). os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. ou Ras. 1999). 2008). guanililciclase. maturação e apoptose. 36 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. para o interior das células.

Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. através da manutenção da pressão arterial. Nas vias de sinalização de receptores monoméricos. Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. 2000). Ab1 (Fig 10). uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. 2003)..Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. migração. fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). tais como fator de crescimento epidérmico (EGF). c-Fos e Elk-1. A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. levando a proliferação. fator de crescimento de fibroblasto (FGF). as quais incluem Src. Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. diferenciação. Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. quando ativados por ligantes. Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. 2000). As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos. desfosforilam proteínas celulares. A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor. os receptores tirosina fosfatase. 2008) Julho/2010 Pág. As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores. 2007). 9). o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP). Janus Kinases (Jaks). a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada. Em contrapartida. (Levitzki. envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. 2009). ou mudanças metabólicas. fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). Em adição aos RTKs. A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. 37 .

Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase. 38 Julho/2010 . Pág. envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas. Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase.

1995). derivados de esteróides (vitamina D3). vitamina D. (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide. causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). 2005). de ligação ao ligante (LBD). 1997).ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio.. andrógenos e estrógeno). não esteróides (hormônios da tireóide. 39 . O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág. colesterol entre outros. dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps).. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. prostaglandinas e vitamina D3. Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. e um domínio c-terminal menos conservado. dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros. Em geral. esteróides. como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col. A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional. Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. A ligação do hormônio leva a mudança conformacional. retinóides. mineralocorticóides. retinóides. retinóides. Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo. 2002). Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides.Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. homeostase e doenças (Togash e col. um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD). A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos. (4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad. fosforilação e interação com outras proteínas. metabolismo. e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles. e assim são classificados dentro de quatro grupos.

1995. O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. Tenbaum e Baniahmad. homodimerização. heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col. 1997). Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col.. Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares. O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação.. 40 Julho/2010 . translocação para o núcleo. 1995). Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. Pág. Modificado de Rang e Dale. O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares. 2007.

principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária. 41 . a maioria dos casos é de P.png) Julho/2010 Pág. 2005). 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. quando os insetos hematófagos já existiam). P. No Brasil. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico. como modelos experimentais. Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios. que transmite as espécies infectantes humanas P. vivax e P. vivax (Who. P. falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. falciparum. (Fonte : http://en. P. darling. 2005). no Brasil e A. malariae.Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. ovale.com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil.wikipedia. A Africa subsaariana concentra 90% dos casos. na África). gambiae. no laboratório.

Nos Estados fora da Amazônia Legal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. Contudo. período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. 2002). 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem. Amazonas. A incidência da malária. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. no entanto. Pará. 1991). aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. área endêmica do país. por exemplo. Pág. Roraima e Tocantins. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col.. os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS. para avaliação dos efeitos colaterais. apesar das medidas preventivas. mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. Além disso. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. responsáveis por recaídas. Amapá. 1993. no Brasil. pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. Maranhão. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. composta pelos estados do Acre. 1996). Mato Grosso. Atualmente. 42 Julho/2010 . e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica. 1998).. Rosenthal. Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão. a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea. um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias. grau de risco da infecção da área de destino. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. 1996). Rondônia.

Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados. enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos. Para o fechamento do ciclo. após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig.org/wiki/Malaria).wikipedia. Uma vez na corrente sanguínea. 43 . fêmea. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en. Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles. Estes. a forma infectante do mosquito (Garcia. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT.. que mede 1. 2006).000 merozoitos.6 X 1. de vida intracelular obrigatória. Por um processo ainda desconhecido. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col. Julho/2010 Pág.. 2001).0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel. 2006). os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos. (Chouaibou e col.Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria. trofozoito e esquizonte. que retira 3 a 4 microlitros de sangue. o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. 2).

Parasita P. Foi demonstrado por Hotta e col. os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. gallinaceum P. inui P. Pág. 2001) (Tab. e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é. bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. vivax P. 1970). knowlesi P. chabaudi P.. típicas da doença (Hawking. malariae P. Quando se mantém parasitas em cultura. coatneyi P. cathemerium P. Dependendo da espécie de parasita. berghei P.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab. e col. vivax. vinckei P. 1) Tabela 1. cynomolgi P. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico. 1). 44 Julho/2010 . portanto. (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. yoelii P. estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P. falciparum e P. o responsável por toda manifestação clínica na malária. brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium. respectivamente (Garcia. 2001). falciparm P...

ativa a via de inositol 1.. plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. 2003). 2003). 1999. A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência. porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. 2000).. Garcia e col. Gazarini e col. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ). (Garcia. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia. (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. Varotti e col. através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito. nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col.. nos estágios trofozoitos do Plasmodium. divisão e diferenciação celular (Berridge. Especificamente. por sua vez. Hotta e col. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col.. Dentro deste contexto. É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. 45 . no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados. 1998. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. 2005). como organização do citoesqueleto.. (Hotta e col. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo. que são devirados do triptofano. 1997. 2003). Como qualquer célula eucariótica. Varoti e col.4.5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE). Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág.... 1997.Sinalização Celular a sincronia é perdida. que está presente em grande quantidade na glândula pineal. 1998).

Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. Barrett.. toxoplasma. 3).. Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col. pela necessidade do íon metálico para catálise. 1988). cisteina e aspartil proteases). sendo três delas (serine. As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania. 2002). Em estudos realizados com P. 2003). a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. Groman. assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos. Roth e col.1999). 46 Julho/2010 . chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág. 1951. pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP). 1994). 1948. degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal. O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col.. Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman. com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig.1999). Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. são necessárias proteases do parasita. giardia e plasmodium (Rosenthal. 1986). Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro.

2005). Julho/2010 Pág.Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al. 2009).(Modificado de Carmona et al. 47 . nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al. Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF). Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático). 2005).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 48 Julho/2010 .

. Atualmente. 2001). 1998). animais e protozoários.. 2000). 2004a).. um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing.Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa. Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty. 2001). um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas.com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. Matzke e col. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA). que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col. durante a década de 1990. PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. 1992). 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky.. Até o final da década de 1980. 1994). O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe. somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin.. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col. sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col. 49 . 1993b). RNAi) em animais. fungos. uma classe de pequenos RNAs com função regulatória.bio@hotmail. 2000. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág. Entretanto. Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA.. Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. formação de heterocromatina (Kennerdell e col. 2003). que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional. Histórico O fenômeno. elegans.. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. 1990. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. 50 Julho/2010 . A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS). 1990). Tetrahymena thermophila. e em animais (Drosophila e C. ao contrário do esperado. Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. uma enzima chave na biossíntese de antocianinas.. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). 1998). 1990). Alguns anos após a descrição da co-supressão. O fenômeno foi denominado co-supressão. 1992. ou seja. conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles. 2003). 1996. Schizosaccharomyces pombe. nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. elegans). A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs. Lindbo e Dougherty.. as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral.. Van Der Krol e col. 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. sem pigmento. Romano & Macino. 1992). Lindbo e col. Entretanto. C.. apóiam essa hipótese (Denli & Hannon. cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. Entretanto. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág.. Van Der Krol e col. Drosophila melanogaster. atualmente denominado silenciamento de RNA. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos.. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. crassa. e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. 1996. incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. 1995). no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos. 1990. inibindo. Em ambos os casos. simultaneamente. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col. camundongos e humanos... Neurospora crassa.

Zamore e col. 1996.. Ratcliff e col. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C. A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt).. Mueller e col. 1995). interrompendo o seu ciclo de infecção.. 1998).. observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. 1995. Além de explicar a especificidade do sistema.. 1998. o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA. A princípio. 1999).. Montgomery e Fire. 1998.. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col. foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues... 2000). elegans. e VIGS) (Hamilton e Baulcombe. 51 . A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento. as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam. A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula. enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. 2001. de orientação senso e antisenso. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. ou produziam em pequena quantidade. 1998).. Esses pequenos RNAs. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col. atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs). introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno. 1995). e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. 1995). 2001.Sinalização Celular replicação do vírus. os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno. foram primeiramente observados em plantas. Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. Ruiz e col. e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. 1999). Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. Curiosamente. Kumagai e col.

nematóides. na ausência de dsRNA. A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III. 2001). 2001... 2004). 250 nt) em um processo dependente de ATP.. A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. Ketting e col.. Hammond e col. 2000). A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N.. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox. onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt. Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado. 2001). em C. RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. elegans. Essa RNAse III. consistindo provavelmente na proteína Slicer.. pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col. Em plantas. A enzima Dicer é conservada evolutivamente... devido à especificidade de Pág. 2004. 2001. Recentemente. 2001. 2001) e que mutantes de C. 2001a) e in vivo (Elbashir e col. plantas e animais superiores.. 52 Julho/2010 . fungos. Martinez e col. Okamura e col... protozoários e plantas (Carmell e Hannon. Meister e col. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col. Knight e Bass. 2004.. AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. toda a progênie é silenciada (Grishok e col. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos. 2000). A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2. 1997).. 2001b). crassa (Cogoni e col. Inicialmente foi proposto que.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col... mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo. 1996).. 2001). 2004. com homólogos presentes em fungos. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida. Este fator é dominante. 2002). PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo.. denominada “Dicer”. Analogamente. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col. 2001). que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não.

um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. Sete anos depois da descoberta de Lin-4. com papel em processos como a proliferação celular. a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 ... e sim um par de pequenos RNAs. conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. elegans. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs. 2002b). Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento. elegans. foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col.. 53 . 2001). 2000). Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado. e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila. propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR. sinalização e diferenciação. Lee e Ambros.Quintana e col. 2000. Slack e col.. 2001. Arabidopsis e humanos (Lagos. apoptose. 2001). foi demonstrado que o gene Lin-4. Entretanto. apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col.Sinalização Celular seqüência... em plantas. foi descoberto um segundo gene. este fator seria pelo menos em parte. Lau e col. 1993). 2004). mas não de moléculas de RNA fita dupla.. inibindo o processo de tradução.CmPSRP1).. Recentemente. Atualmente. Llave e col. que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. 2001. elegans (Reinhart e col. Let-7. C. 2001. 2001). não codificava nenhuma proteína. 2000). eles não interferem com o processo de tradução. os micro RNAs (miRNAs). Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo.. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14. um RNA (Vaucheret e Fagard. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples. Inicialmente..

que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo. 2004). denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing).. 2004). Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo. Pág. Em vírus com genoma de DNA. 2004). 2000.. de um transgene. dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe. onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col. ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. 2002). ou mesmo bloqueando. 2004) (Fig. 2004).. A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico.. neste caso em nível transcricional. O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno. Tabara e col.. O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer.. pombe. 2000). Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S. 1).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col. A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. pombe. foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. 1994). Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. o ciclo de infecção. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C... No início de 2004. A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb. O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col. Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. 54 Julho/2010 . 1999). 2002). elegans e Drosophila (Akhtar e col.

O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. B. O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC.Modelo para o silenciamento de RNA. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. gerando o miRNA. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. 55 . Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. A. que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA. Silenciamento transcricional via siRNAs. indicando as três vias atualmente conhecidas. O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma. C. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC.Sinalização Celular Figura 1. gerando os siRNAs. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo.

DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. Ketting e col. 2004c). embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus. sinalização sistêmica e manutenção. 2002). um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. 2001. 2002. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs.. Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2. 2001. 2001. 2001. 2004). 2002. Volpe e col. amplificação. 2005). C. 2001). 2002). Em Drosophila.. envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col... embora com diferenças significativas (Zamore. 56 Julho/2010 . a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros... elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. pombe.. 2001. 2004). Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col.. resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina. dois domínios catalíticos. Até o presente. enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação... DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col. Xie e col. Em Arabidopsis. Xie e col. 2004). o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt.. 2004).. Knight e Bass. DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col. Hutvagner e col. Knight e Bass. S. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. animais e protozoários. Schauer e col. e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS. ainda não foi estabelecida a função de DCL4.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas). Na etapa de iniciação. (Modificado de Zerbini e col. Pág.. fungos. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias.. O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo. 2001. dentre vários vírus testados (Xie e col. 2001. 2002). Esse complexo atua no DNA genômico.. um domínio central PAZ (Piwi. DCR1 em C. Grishok e col. Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA. Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal.

. 2000. Kidner e Martienssen. Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer. devido à ativação e manutenção do silenciamento... Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col.. Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col. 2004). que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col. elegans (Carmell e col. Hutvagner e Zamore... 2002. 2002. Martinez e col. Verdel e col..Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2. 2003).. 1998. A subunidade catalítica é denominada Slicer.. 2002)... O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia. 2001).. 2003). 2003). 1998. Pham e col. Brigneti e col. o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col. 2002. A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col. 1997). 2003). 2003.. 2002). O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S. A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col. em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar.. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col. levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col.. 2002). Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC. Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col.. 2001. Covey e col. Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. pombe (Verdel e col. indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col.. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore. 2004). 2002. enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col. 2004). Grishok e col.. 57 .. 1998.. 2004). Julho/2010 Pág. Mourelatos e col. 2004) a mais de vinte em C. Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col..

De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos. 1998) e animais (Li e col. Em C. 2002. 2002). indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. 58 Julho/2010 . Além da defesa contra infecção por vírus. As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág. elegans e Chlamydomonas reinhardtii. os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos. 2003). Volpe e col. incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. 2002).. Taverna e col. Rhoades e col.. A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. 2002. uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk. o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos.. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs.. 1999). particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. 2002)... Apesar da falta de evidências diretas. outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. 2003). Atuando de forma análoga aos siRNAs. os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col. 2003. incluindo a formação de heterocromatina em S. pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica. 2001). o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA.. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição. 2002). Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico.. o metabolismo de lipídeos (Xu e col. a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col..... a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso.. Em animais. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei. estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington. o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. 2002). 2003). 2002). anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col..

mas não para enxertos expressando transgenes distintos. Este gene. O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados.. A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire... A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas... indicando a propagação a longa distância do sinal. Estudos em C. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes. 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. Observações semelhantes foram realizadas em C. e o gene exógeno uidA.Sinalização Celular heterocárions de N. O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág. que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). C.. elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase.. elegans (Fire e col. folhas de N. 1996). crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col. 1997). elegans. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient). Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. 59 . 1997). Timmons e col. 1998. as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico. 2001). Nestes experimentos. indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col. ou seja. 1998). porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta.

2001). capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. elegans. sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter. Além disso.. O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos. 60 Julho/2010 . 2002). As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional. 2003). SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada.. indivíduos mutantes no gene Rde-4. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col. em C. mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA.. 2002)... porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. 2003. Entretanto.. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. Além disso. Curiosamente. elegans. Em plantas. Mallory e col. entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). 2003). entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág. Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. ou seja.. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs. 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. uma proteína viral supressora de silenciamento. As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida.. essencial para que o silenciamento ocorra. Para determinar a função da proteína SID1. produzem siRNAs de forma deficiente. C. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula. estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. Estudos com HC-Pro. 2000). 2002. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. e em células de mamíferos (Mlotshwa e col. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. Estas células foram transformadas com dois plasmídeos. não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre. o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. Lucas e col. Entretanto.

Drosophila. 2001. enquanto seres humanos possuem de 200 a 255.5-1% do número total de genes do genoma em questão. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. e. vírus. Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col. 2002b). Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como. Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples. Entretanto. denominada CmPSRP1 (C. MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. 2004).Sinalização Celular com a metilação de DNA.. A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs.. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1). Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. por exemplo. dessa forma. camundongos.Quintana e col. 2003. Lee e Ambros. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene... transposon ou gene endógeno. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. pombe. 61 . com ortólogos em vertebrados e invertebrados. 2002). essa hipótese ainda não foi comprovada. Llave e col. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. humanos e plantas (Lagos. Pelo menos 0. C. Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida. 2004). A presença de miRNAs já foi detectada em S. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0.

De fato. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III. existem algumas Pág.. 2004b). características de transcritos de genes da classe II. 2001). ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel.. 2003). o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col.. mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col. 2003). um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. Lee e Ambros. sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. 2004). Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais. pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6. O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col. 62 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas. 2001). capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig. Além disso. 2002). o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’. 2003). Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima... diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III.. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. 2) (Lau e col. 2003a. Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. Lim e col. 2002).. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col.. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col. Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col. 2003b). Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas. C. e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas... Entretanto. sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. Por fim. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col. 2003a). Além disso. 2001. 2003)..

que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros. 2004. 2002). o miRNA172. Além disso. Além disso.. 63 .. estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. 2003. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha. Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. Por fim. gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. Yi e col. 2002).. preferencialmente. Ketting e col. Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA.. que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. 2000). 1999). O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. O oposto é observado com os miRNAs de animais. 2003). que é a mesma do pre-miRNA. 2004). 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas. provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’. denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col.. 2000. liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. 2003b). 2001). em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais. que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA. Rhoades e col. a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. Nesta etapa. Em seguida ocorre a clivagem... 2002. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore. 2004). Slack e col. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou.. com uma única exceção conhecida até o presente. 2002. Chen. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai.. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. 2002). 2003). plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. na região 3’ não traduzida. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA.

Em plantas. a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. (Modificado de Zerbini e col. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. os miRNA também atuam no núcleo. que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. No citoplasma. 64 Julho/2010 .. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col. De acordo com este modelo. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. Figura 2. o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo. denominado pri-miRNA.. O pre-miRNA é subseqüentemente processado. em ambos tipos de organismos. Em plantas. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. Pág. Os miRNAs são transcritos. gerando o miRNA. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. 2003b). a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. gerando o premiRNA. provavelmente pela mesma enzima. via incorporação a um complexo RISC nuclear. 2002). Em animais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore. gerando o miRNA. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. 2005). Em plantas e animais.

. HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col. 65 . DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. Mourelatos e col.Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. 2002). Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col.. sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. Em plantas. a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col. Após o transporte núcleo/citoplasma. a outra fita é degradada. 2002). Uma vez incorporado ao RISC. 2004). além de Dcl1.. Quando isso ocorre.. 2003). mesmo em plantas mutantes para DCL1. o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1. Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. Não são detectados pre-miRNAs. 2002). 2003). o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen. a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. 2000). 2002). portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC. antes da exportação para o citoplasma. 2002). sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. Em plantas.. Desta forma. sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC. correspondente à clivagem citoplasmática em animais. o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col. sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col. O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore.. 2002). Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC.. que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2. 2002). Em animais. 2002).. O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel. que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore. a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág.. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear. estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs. Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col. Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). 2002. 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff.

2003). Smith. Anandalakshmi. 2003). verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe.. a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA. T. Após a clivagem do mRNA alvo. (2000). Entretanto.C. 66 Julho/2010 . 2003) é regulada por miRNAs. Além disso. R. em camundongos (Yekta e col. Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. R. o miRNA159. Bibliografia Akhtar... 2002). o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col. 2004).. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col. envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col.. e o miRNA164. 2004). incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. Proceedings of the National Academy of Sciences. os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col.. MAarathe. Chromodomains are protein-RNA interaction modules. 2004). V. Zink. e VANCE.. 2004. X. (1998). entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore. 2004). 2004) e DCL-1 (Xie e col.. Llave e col.B. Hoxb8. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW. que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. D. ou seja. Ge.H. foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. Pruss. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. Entretanto. o miRNA172. Chen.. 2003). P. 2003. 2002). G.. que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução. 2002). 2002). A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. Quando o miRNA direciona a clivagem. 2004).B. Nature 407:405-9. Mallory... o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore. como AGO1 (Vaucheret e col. Rhoades e col. 2002b..... A viral suppressor of gene silencing in plants. A. Pág. a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA. A. USA 95:13079-84.J. e Becker. Em vários casos.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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sem o cérebro. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. denominadas genericamente por neurociências. O entendimento atual sobre origem. galáxias distantes. a teoria das cordas. atenção. emoção. aprender e lembrar. investigando funções como percepção. criar e destruir civilizações. a mente não pode ser expressa. Com o surgimento da consciência. que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. da linguagem. sem a manifestação do comportamento. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. moléculas. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência). a mente não pode existir. os mecanismos da vida etc. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10. ao longo do tempo. a higiene do meio. A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. articulados criticamente. Como podemos propor a consciência ambiental.). além de didática. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. os átomos. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. Além disso.Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. o equilíbrio do ambiente. hereditariedade. ação etc. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. DNA. comunicar. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber. do abrigo. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. a integração entre as idéias pode ser árida. os buracos negros. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. memória. das ferramentas. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. amar e odiar. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. 87 . funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. 2003). Ironicamente. resolver problemas. percebemos que.

não sobram limites a serem alcançados. Sabemos muito pouco sobre o cérebro. a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. realizando os experimentos devidos. ao elaborar as perguntas devidas. (Kandel. 88 Julho/2010 . continuam a ser a preocupação dos filósofos. Pág. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. Portanto. por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas. 2003). pode-se começar a responder a estas perguntas que. Como resultado. até agora.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental.

sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág. módulos.. entretanto. cujas funções servem a um propósito comportamental específico. Figura 1.plim@gmail. viscerais. Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos. O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais.e.com No sistema nervoso. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados. Desta maneira. sob o ponto de vista anatômico. 89 . O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora. O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. em componentes centrais e periféricos (Fig. neurônios nunca funcionam isolados. o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações. Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções. 1). Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. algumas características são comuns entre eles. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências. i. o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. Há. cardíaco e glândulas. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético. Além destas amplas distinções. 1996).Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata.

Para demonstrar este tipo de circuito. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig. quanto B. Estas três classes – neurônios aferentes. que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. o modelo de circuitos convergentes. Além disto. realizando uma eferência (saída). à esquerda). Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. 2. à direita). circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. Circuitos convergentes são responsáveis. A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. são chamadas de neurônios eferentes. 2. C e D.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. por exemplo. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente. memórias de longa duração. C ou D) seja inibido. Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. Figura 2. Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). 2. À esquerda. Então. Em vez de concentrar as aferências. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido. imagine que tenhamos os neurônios A. o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. centro). 90 Julho/2010 . Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig. No caso do circuito divergente. sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. No funcionamento paralelo. etc (Fig. De modo geral. Esquema representativo dos modelos de circuitos. atividades motoras.

além de processar informações de modo serial. Isto é. de modo geral. aumento da intensidade luminosa. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. 91 . o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada. conseqüentemente. a atividade que leva à ação. Sinais representando cores. glândula. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. ponte e mesencéfalo). Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. No funcionamento serial. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. ou ao tronco encefálico. executará a resposta ao estímulo inicial. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. por meio de um nervo craniano. Por exemplo. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. músculo liso ou músculo cardíaco) que. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. na maioria das vezes inconsciente. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. em que há produz uma reação involuntária rápida. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. gerando. variações da pressão arterial etc). forma e localização. por sua vez. um neurônio estimula outro neurônio. antes deste poder comandá-la voluntariamente. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor. Desta maneira. Julho/2010 Pág. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. Durante o processamento de funções mais complexas. movimento. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. por exemplo.Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. os circuitos envolvidos. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. Ocorrendo um estímulo. estiramento. no neurônio motor. Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. que protege o organismo. independentemente da vontade. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago.

essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo. fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. entre outros. Mais freqüentemente. Em alguns casos. molda os circuitos neurais. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas. experiência). No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade.. Em um axônio aferente. 92 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. além da construção de sua circuitaria. em humanos) durante um período critico na infância. padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. ou patologicamente.e. Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais. paralelamente. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente. em animais. entretanto. i. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. preferências sexuais e aquisição de linguagem. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos. Assim. sua experiência acumulada. a construção dessa Pág. Assim. Como esperado. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. assim como a função visual. a conectividade no córtex visual é alterada. determinando seu comportamento. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto.

Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais. Em resumo. tais como discriminação visual.. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. Primeiro. modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento. 93 . 1949). Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. Segundo. em um animal adulto. Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. Desta maneira.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. XVII). Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. uma das células que estão agindo sob B. ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. Em seu lugar. Julho/2010 Pág. é aumentada. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. memória operacional. Assim. Em 1949. retenção de memória. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. linguagem. ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. etc. atenção espacial. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. pág. Assim. 1949. alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. Ao contrário. reconhecimento de face.

Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. à esquerda). Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. LTP (do inglês. à esquerda. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). Figura 3. ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante. 94 Julho/2010 . A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo. O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo. A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. long-term potentiation) (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. abaixo) (disponível Pág. 3).

a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior. projeta-se para outros 104 neurônios e. Entretanto. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. Por exemplo. categorias. Como conseqüência. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória. Isso permite entender porque a recordação envolve. Interessantemente. a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. a idade do animal em questão e espécie. de comunicarem-se através da sinapse. Estes sinais. Por exemplo.org . Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos). o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado. De acordo com essa concepção. em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios.09/06/2009). A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. por sua vez. na forma de moléculas de neurotransmissores. nas formas de LTP mais compreendidas. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. até respostas mais complexas. mas também por um aumento do número destes receptores. 95 .Neurociências em www. a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas. Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície. ao Julho/2010 Pág. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. Entretanto. como a cognição observada em humanos. mais fortes tornam-se essas conexões. a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração.braincampaign. Nesse contexto. usualmente. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais. a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais.

ou seja. tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal. animais aquáticos. A Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. legumes. invertebrados etc. forma. a recordação também será categórica (frutas. verduras. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. O mesmo ocorre em relação a alimentos.4). pegar um objeto. ou seja. Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. integramos todas as informações disponíveis (cor. De modo circular. Assim. o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. quadrúpedes. O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo. lutar e reproduzir-se. estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros).). Interações podem incluir andar de um lugar para outro. fugir de predadores. Desde a mais primitiva espécie animal. Então. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito. aves. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. 96 Julho/2010 . carnes etc. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”. contexto. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. Figura 4.

permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. em sua maioria. O sistema nervoso evoluiu. “memória”. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. “ação” e. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. ao tornar-se cada vez mais complexo. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e.Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. derivado do latim. Podemos supor então que. significa “apoderar-se” dele. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”). responsáveis por emitir as respostas motoras. “aprendizado”. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos. todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. por fim. desse evento ou dessa resposta. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. sobretudo nos mamíferos. ou pelas vias eferentes. mais provavelmente. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. provavelmente pressionada por fatores ambientais. com ele interagindo de forma contínua e coerente. apesar de seus constantes desafios. sobretudo. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. Eles são. se considerarmos que a percepção do mundo. de uma definição completa e consensual. “consciência”. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. desta forma. E. 97 . não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural. na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza. o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. onde “perceber” algo. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. “atenção”. de forma um tanto óbvia. Desta forma. precisam ser estudados juntos. Esses rótulos estão longe. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág.

desta forma. Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo. basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. Em contraste. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. para um som ser audível. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). ver e ouvir. 5). Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. Da mesma forma. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar. 98 Julho/2010 . neste sentido eles funcionam como um radar. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo. Quando tocamos um objeto. uma vez que um objeto tenha sido percebido.não dependem tanto deste contato. Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. Pág. Comportamentos mais complexos. substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. no nível cortical. Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos. com feedbacks em todos os níveis. temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido. Além disso. Assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva). em direção a estruturas anteriores (motoras).

Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). Em ambos os córtices.Neurociências Figura 5. Do mesmo modo. Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster. O substrato cortical do ciclo percepção-ação. os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais. a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa. longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. 99 . áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). Da mesma forma. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. Assim. 2006). Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados.

isto é. existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. Contudo. Assim. do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. Desde modo. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa. Sendo assim. isto é. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. Assim como vimos acima. Na abordagem sensório-motora. O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. De modo inverso. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita. na abordagem ideomotora. a uma única oportunidade. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. numa análise dos componentes visuais da ação específica. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores. 100 Julho/2010 . fornecendo subsídios para ações mais complexas. tudo começa com uma estimulação. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. em geral. do agente envolvido. Considerando o fato de sermos seres sociais. a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. tudo começa com uma intenção. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas.

Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. isto é. auditiva. Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações. o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. como por exemplo. Conseqüentemente. uma ação implica em um agente e um objetivo. baseada também em outras modalidades. Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. de acordo com esta concepção. entre eles Giacomo Rizzolatti. Todavia. sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores).Neurociências execução da ação observada. esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. pegar/manipular um objeto ou alimento. Os descobridores destes neurônios. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. o estímulo é ligado à intenção do agente. Entretanto. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça. Julho/2010 Pág. Isto é. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo. 101 . como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. em outra perspectiva. Esta resposta. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais. tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. baseado na descrição do objeto e do movimento. os assim denominados “neurônios espelho”. disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. aparentemente. possa participar desta função. embora nenhum movimento efetivo seja executado. implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. 6). isto é. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas.

e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6. mas também no próprio sistema motor do observador. Pág.representação motora da ação observada. À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti.a ação observada sendo executada por outra pessoa . Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador. não apenas pelo sistema sensorial. o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante. 102 Julho/2010 . Desta maneira. ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente . Através do reconhecimento de ações e.1996).

Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos. O arranjo das células nervosas é difuso. nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). reflexo patelar). que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). Em última instância. são responsáveis por transduzir (isto é. 1983). com cruzamentos desordenados de axônios. com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora. nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig.Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. Apesar disso. As células receptoras. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo.g. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág. 1). formando um arcorreflexo monossináptico (e. Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e. portanto. O mais complexo que se tem conhecimento.com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras). Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso. de agora em diante chamadas receptores sensoriais.fv@gmail. flexibilizar o comportamento (Eckert. A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora. Há ainda o arcorreflexo polissináptico. e sem preferência de direção do estímulo conduzido. 103 . Eventualmente. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora.

há animais que tem visão e audição pobres. como os Tarsius. como. Por outro lado. Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente. Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz.g. têm globos oculares extremamente grandes. portanto. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente. 2). a ecolocalização de morcegos. Os receptores tendem a ser muito específicos e. Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele). Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum). Nesse sentido. Comprimento de onda em nanômetros. respondem preferencialmente a um tipo de estímulo.: cobras).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. útil a presas e predadores. pois persistem em diversos grupos. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos. Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig. por exemplo. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. que faz com que a luz passe duas vezes por ela. Outros mamíferos. Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz). em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal. 104 Julho/2010 . É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. Modificado de Carlson (2004).

formando um mosaico. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. 105 . A combinação mais encontrada. dado que as variações entre os grupos são grandes.3). há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor. abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. para que possamos enxergar. o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. formando o rabdômero (Fig. as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica. tanto em vertebrados como em invertebrados. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica. brilho). cada qual com um receptor sensorial. A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e.Neurociências pela estimulação luminosa. Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. Fig. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. 4A). 4B). Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A). Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. Em última instância. A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig. rodeado por 6 a 12 células retinulares. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC). Eckert (1983). 2006).g. precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. provocando uma cascata bioquímica no interior da célula.

As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. 5). Modificado de Lent (2006). com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. Pág. Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. porém. o inverso do centro da fóvea. 5). Alguns têm três tipos de cones. Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. Semelhantemente. As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz. 6). 2006). constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos. Neurônios com axônios longos. Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. não é direto.. como em um quarto escuro. Esse caminho. Dessa forma. 4B). A fóvea é o ponto de maior acuidade visual. toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. 106 Julho/2010 . ainda que responda por menos de 1% do campo visual. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. incluindo os humanos. 4B). uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea). A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. menos cones e mais bastonetes são encontrados. as células ganglionares (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. evidenciando algumas camadas celulares da retina.

permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados. têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. Após o estímulo passar pelo NGL. tem os olhos em lados opostos da cabeça. Modificado de Bear e col. As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. chamadas parvocelulares. no córtex occipital. Encéfalos fora de escala.Neurociências Figura 5 . Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. do gato e do rato. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig. em vermelho. As outras quatro camadas. Herbívoros. todas as fibras passarão pelo Tálamo. mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). algo constante em animais carnívoros. para um mesmo lado da cabeça). (1996). o que reduz sensivelmente a visão binocular. (1996). ele se dirige à V1. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. portanto. 107 . responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar.Córtex visual primário (V1). Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. 6). É ela quem permite a visão binocular. Modificado de Bear e col. que tem um mapa retinotópico. Entremeado nessas camadas. mas potencializa a visão em todas as direções. há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. no córtex occipital do homem. Após o cruzamento no quiasma óptico. isto é. por outro lado.

Modificado de Bear e col. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina.000 Hz. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho. parte da Pág. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante. Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo. à membrana basilar dentro dela (Fig. preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig. 7) (Carlson. Emitindo sons acima de 50.000 Hz. freqüências acima de 10.000 Hz. com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total. morcegos têm faixa de audição começando em 10. (1996). Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação. devido a características implícitas à cóclea. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina.Representação do sistema auditivo humano.000 Hz.000 Hz e indo até cerca de 120. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. mais especificamente. características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons. No outro extremo. 2005). Figura 7 . 108 Julho/2010 . Diferentemente da visão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1. 8). Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas. têm comportamento extremamente direcional e reflexivo.000 Hz. podendo ser feita a quilômetros de distância. freqüências acima de 20. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20. Os superagudos.

bigorna e estribo). A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. 7). Como a cóclea é um tubo inextensível. 109 . resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. no entanto. Pelo contrário. A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. Modificado de Bear e col. os cílios dos mecanorreceptores. Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. (1996). Julho/2010 Pág. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana. inicialmente pelo nervo coclear (Fig. a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape. no meio. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. que farão a transmissão para a janela oval na cóclea.Neurociências orelha externa (Fig. integrantes da orelha interna. Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. com todas as suas características de frequência e intensidade. Essa energia. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo. todo som causará vibração por toda a membrana basilar. não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. Sons médios. 8).

Modificado de Bear e col. Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. 2006). ausente nos agnatas. Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent. a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig. pela adição do canal horizontal. 2006) (Fig. com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular. esse sistema deve ser no cérebro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). para acelerações lineares (Graf. 2006). formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. 10). 9). Modificado de Lent (2006). A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados. impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. considerado um sexto sentido dos organismos. Pág. Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. (1996). tendo íntima relação com o sistema motor. O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo). 110 Julho/2010 .

portanto. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III. 2005). resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. as maiores áreas de processamento). A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. 5). já que estes têm hábitos noturnos. formando um mapa somatotópico do organismo. ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. IV e VI). 2006). 111 . Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. permitindo a formação de imagens estáveis na retina. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. temperatura ou dor. O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico. Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. outras seguem diretamente para o cerebelo. Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. como a ponta dos dedos. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. como na cóclea.Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo. Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. no giro pós-central (Fig. Interessantemente. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. Assim como na visão.

112 Julho/2010 . Por outro lado. 1986 apud Martins e col. Curiosamente. Outras projeções se dão para a Pág. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. porém. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos. Acidez é um indicativo de decomposição. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller. claramente um alimento. 2005). acidez. substâncias amargas ou azedas serão evitadas. no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos. doçura. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col. 1997 apud Carlson.. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. O caso mais surpreendente. resultado da ação bacteriana. indicam a presença de cloreto de sódio. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. em última instância. por outro lado. de fato. salinidade e umami. Treinados. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. doçura indica presença de açúcares. 1995). são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. são detentores de um olfato apuradíssimo. que detectam cinco qualidades: amargor. 2005). substância naturalmente presente em carnes. extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos.. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas. é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar.. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo. queijos e alguns vegetais. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. Já receptores para sal. podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água. Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins.

Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig. passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz. 3). Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. 2006). Há críticas à existência da magnetorrecepção. Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca. formando um ângulo de 90° uns com os outros. que precisam manter sua temperatura regulada. o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. sendo homólogo entre todos os grupos (Graf. sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. sendo detectado.Neurociências amígdala e hipotálamo. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. entre eles: aves migratórias. 113 . as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans.002 °C. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. Mais do que isso. A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e.. A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico. isto é.g. 2006). coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. Por outro lado.

A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes. ainda que elas sejam análogas entre espécies. A forma como percebemos o mundo também não é. enguias e até mesmo bactérias. 2006). 114 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. necessariamente. Pág. Não há melhores órgãos e sistemas. Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. Além disso. de fato. tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos. Em última instância. tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. mas apenas aqueles mais bem adaptados. disponível na superfície terrestre globalmente. 2006).. Estímulos como a luz. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar.

. Estas estruturas (ex. surgido mais de uma vez durante a evolução.em todos os exemplos. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág. ou podem ter uma origem polifilética. Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos. os olhos podem ter uma origem monofilética. ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . Logicamente. Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar. 1995. Origens evolutivos No caso da “visão”. 1977). tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos.Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail. mas. ou seja.. olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. tamanhos. 115 . desenhos ópticos e localização corporal. Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus). incluindo a navegação e noção de tempo. 1859). ocelos. Salviani-Plawen e Mayr. o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. por definição. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. provavelmente. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução.com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz. pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin. de um único ancestral comum. Arthropoda e Chordata. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida. olhos compostos. embora os olhos apresentem uma variedade de formas.

paralelas umas às outras.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz. Figura 1 – Tipos de olhos. as células fotorreceptoras. podem ser divididas em duas grandes classes. e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes. 116 Julho/2010 .1). A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág. 2000. o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. (Fig. Duas dessas soluções aparecem em Chordata. Modificado de Fernald. uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz. 1995).

2003). 2000). Em sua origem.têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt.2001). Lophotrochozoa). Especializado. Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes.Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash. Julho/2010 Pág. poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano.olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. verde: células de pigmento. 117 . protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e. 2003). Figura 2 – Foto ilustrativa (D. 1999. A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena. Arendt). Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo). Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land. (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos.homeobox. 2) (Gehring and Ikeo. além disso.. Fernald. Annelida. tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis. 2002). Pichaud and Desplan. Durante a evolução do olho. este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz.1992. genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo . Duas células . o olho simples (ex. Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt. Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar. existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig.

A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes. Pág. Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang. A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. 2001). com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. nas quais a célula parece ter um achatamento. 2001). 118 Julho/2010 . o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. 2001). Nos vertebrados. Arendt e Wittbrodt.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig. 2003. 2003). Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. 3 (Arendt.

epitélio pigmentar) (Fig.1997). a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt.Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. são muito parecidos. nuclear interna. plexiforme interna. uma modificação do cílio. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula. plexiforme externa. nuclear externa. cada um com sua peculiaridade. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. da espécie. Os sistemas de transdução. Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. 119 . Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. externa. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. por outro lado. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos. desempenhando operações de detecção. A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. conseqüentemente. Julho/2010 Pág. 4 do capítulo anterior). especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e. amplificação e transmissão (Randall. desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. 2001).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 120 Julho/2010 .

Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. pinça-o com precisão. de aves e outras classes de animais . perderiam a prole. Está sossegado. A um metro dali. ela pensa na lista. na primeira semana de vida. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. recebem uma explicação simples da teoria da evolução. agitada ou apressada. enclausurada na câmara que construiu. Não é um ovo normal.fazem em favor de suas crias. Dobrando-se ventralmente. mamadeira. na direção de onde chegou. Bem mais longe. retira-o e. a uns 15 cm do solo. Enquanto dirige. Mais alguns minutos e a cena se repete. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. Foram selecionadas. Ao pensar em cada item. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. voa para trás. do qual eclode uma larva. É bem maior e é mole. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri. chupetas. desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. leite em pó e um carrinho de bebê. mete o bico goela adentro do pidão. 121 . ela não vai à exaustão total. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. ela chega de novo: mais uma refeição. porém. o bico escancarado. talvez dormindo. De repente. põe mais um ovo de alimentação. o filhote se ergue. uma outra fêmea. uns 15 cm abaixo da superfície do solo.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira. uma saúva fêmea. incluindo fraldas.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. O macho não apareceu por ali (Robert et al. 1940). Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. A fêmea. pescoço esticado para cima. evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. girando o corpo. uma mulher. um ninho de tico-tico abriga um só filhote. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. Alguns minutos depois. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. Ato contínuo.e também alguns machos. de onde o ovo vem saindo. bem rápida. e faz cálculos de dinheiro. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. e acaba descansando um pouco. protegido do sol de verão pela folhagem acima. 1961). No entanto..

no entanto. tão adaptativa nas relações sociais. com a manutenção subordinada à reprodução. inclusive absorvendo seus músculos alares. em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. Tal inquietude. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. 1941). o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. Pois são estas. vivendo de reservas. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. propósito e objetivo. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. mas essencialmente o mesmo. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. são pontos terminais de linhagens. enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. fim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta. Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. decorre de um exame superficial do conceito de função. finalidade. ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. precisariam de menos alimentos para si mesmas. Ora. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. como se o futuro pudesse determinar o passado. Abandonando o ninho. Essa faculdade. E se não construísse a câmara. 122 Julho/2010 . 1942. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem. O cálculo da formiga é um pouco diferente. mães extremadas dão origem a mães extremadas. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. as tico-ticos estariam melhor. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se. jejuando durante meses. Trata-se de um desconforto filosófico. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade. as funções. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino. o Pág. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre.

fazendo-os mais ou menos agressivos. cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. A observação de que as larvas de formigas são inertes. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. prêmio Nobel de 1973. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. portanto. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. O controle de suas ações. constitui um outro tipo de fenômeno. Niko Tinbergen. uma funcional e outra causal. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. por exemplo. a funcional. possibilitando a seleção de programas genéticos. Portanto.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. em busca de como ele controla as ações dos rivais. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. incapazes de se alimentarem sozinhas. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. no entanto. Examinado dessa forma. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. Contudo. na maioria das vezes. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional. e mais duas que não serão aqui examinadas. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. 123 . O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. ou com o objetivo de recarregar sua bateria. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. obra da adaptação. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal. terá valor no plano funcional. que devemos chamar de causas do comportamento. embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. A resposta causal. que tem. o canto está dentro de um estudo causal. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê.

Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. Em condições normais. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido. no prelo). tão comum em mamíferos. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução. em condições normais no ambiente natural. Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir. seja no ambiente natural seja no laboratório. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. No comportamento lúdico. Alguns segundos depois. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. 124 Julho/2010 . elas recobram seu vôo normal. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação. antes de atingirem o solo. Sim. os jovens fazem coisas de adultos. o animal deve engolir água e não areia ou flores. inclui rotineiramente relações entre machos. causas e funções podem desencontrar-se. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. como a sexualidade dos bonobos que. ou seja. As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome.. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. a sede quando falta água. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. em pleno vôo. fora tanto do contexto funcional como do causal. no ambiente natural. Existem mariposas que subitamente. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. a começar pelo reconhecimento correto do objeto. mas presente também em aves. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. e assim por diante. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. é necessária a ação de fatores causais adequados. Em condições anormais. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas.

a reprodução. a ticotico talvez tivesse ido embora. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais. Sem esse jardim de fungo. seu esforço é vão. É filho de uma amiga. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. Se a percebesse. Não a viu. O filho foi planejado. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. que normalmente reside no Julho/2010 Pág. Essa pelotinha de fungo era essencial. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara. 125 . Porém. o da chupim. Por predação ou furados pela chupim. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. Isso foi assim. menos um. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho. mãe solteira. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. neste caso imaginário específico. Já o comportamento da mãe. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. solidária. sem fungo. ao planejar o filho. Ela tinha um bom emprego. comuns em animais sociais. abandonando o ninho. Explorando o sistema causal da hospedeira. para fazer outro em lugar mais seguro. antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. O filho. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. está feliz de poder ajudar. Ela continuará a alimentar as larvas. 2004). ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. Diferentemente de qualquer outro animal. que está sem dinheiro. No caso que estamos examinando. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. os ovos perderam-se todos.Neurociências o comportamento animal. A amiga. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. na pré-história. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. Mesmo tendo perdido o fungo. em seu benefício. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. Foi vã toda a dedicação da tico-tico.

porém o progresso é indiscutível. a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. humanos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. mas não se revela facilmente a si mesma. Pág. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. as respostas são mais hesitantes. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação. 126 Julho/2010 . biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. 1981). Curiosamente. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz. Em nós. Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. é uma causa dos comportamentos da mãe. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas. que muitos animais são capazes de fazer. A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais.

capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo. especialmente atenção e memória. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. altura para audição. o reconhecerá pelo cheiro e voz. Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. como a memória ou a atenção.Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. intensidade. Não importa qual a posição do carro mostrado na figura. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga. abstração. Humanos são para os quatro desenhos. forma. de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. a percepção de uma determinada nota é mantida.fv@gmail. 1. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor. Ele seguramente o estranhará. 127 . Ainda assim. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes. sabemos que se trata do mesmo carro. ouvindo ou sentindo estímulos). mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição. Por outro lado.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. movimento para visão. mas vai além destes. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. portanto. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. Tome por exemplo a Fig. timbre. Ivry e Mangun (2006). Esse mecanismo depende.

pelo contrário. Com esse arranjo. em geral. o que descarta problemas de memória. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. 128 Julho/2010 . essa informação continua avançando por diferentes regiões. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. particularmente no caso da espécie humana (Preuss. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. Mais do que isso. passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. são parte dos chamados córtices associativos. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. de fato. entender como percebemos. associado a apenas uma modalidade sensorial. mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). 2006). Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. A informação que chega até o córtex visual não para em V1. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital. Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”. como já mencionado. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e. mais fibras vão convergindo na rede neural. em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção. quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido.

as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo. mas não de outras características. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos. podemos entender “onde” vemos um objeto.Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig. Através da via dorsal. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. Modificado de Lent. Julho/2010 Pág. já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. Apesar do arranjo sequencial. 2). mais adiante na sequência de processamento visual. 2006. O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. Na Fig. como movimento ou cor. permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão. independente de qual delas. 129 . Quanto mais adiante na sequência. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. o tempo de reação é menor. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo.

falando-se em percepção. Apesar disso. relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto. mais uma vez. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral. que disparam para Pág. Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons. e uma via ventral (córtex temporal inferior). simplesmente não há “correto”. 130 Julho/2010 . Semelhantemente ao sistema visual. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. Retirado de Kandel e col. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. (2000). isto é. o uso de aspas justifica-se porque. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. para processamento de informações sobre localização espacial e movimento. não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. De fato. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias. Evidências clínicas. para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão.

Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos. resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível.. se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. 131 . novamente. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos). Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. cheiros e pressões (táteis) ao seu redor. Para ele. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. isto não é o que um cego percebe do mundo. Como no carro da Figura 1. são apenas as outras sensações.. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. Para ele a estimulação visual nunca existiu. invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). ganhará maior processamento neural destes circuitos. mas eles Julho/2010 Pág.). É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. é a constância perceptual para estímulos sonoros. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual. Por outro lado (ou. morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros. logo. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. por outra via. Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. incluindo os humanos. mas. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo. e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. Essa região está envolvida com memória operacional e atenção. melhor dizendo.

apesar de serem iguais. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. Isso não significa que falhamos em enxergar. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. de fato. não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. 4A. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. mas sem todas as suas bordas esperadas. Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia. Tome por exemplo a Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. 4 criam a ilusão de algo que se distancia. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória). 132 Julho/2010 . Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. Assim. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. o que faz com que. após uma análise mais cuidadosa. Apenas alguns. 4B e isso ficará ainda mais claro. Olhe a Fig. vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. A Fig. percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito. todos dirão que a barra superior é maior. 5 sugere o formato de um triângulo. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. 6. As barras convergentes na Fig. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. ao olhar para um Pág. As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos.

8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. preto ou qualquer tom de cinza). 133 . em seguida. para uma parede branca. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. mas pelas cores em volta da mesma. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais. Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. 9? Julho/2010 Pág. Veja na Fig. O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem. com ativações bilaterais. enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. O que você percebe à primeira vista na Fig.Neurociências fundo neutro (branco. Figura 7 . perceba-se cores trocadas na imagem. Figura 6 – Efeito de pós-imagem.Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma.

isto é. pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global. como dito acima.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. mas perdem a forma global. mas não se dão conta dos detalhes. percebem os detalhes das imagens originais. mas há relatos bem Pág. seja por grafemas. A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. ou por sons (palavras em geral). Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras). o contrário não acontecerá). 2006. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. Por outro lado. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. Retirado de Lent. 134 Julho/2010 . se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela.

A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág. em azul. Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). 135 . gostos gerando formas.Modelos de Sinestesia. 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas. Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. Modificado de Bargary e Mitchell (2008).Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos. Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. mas funcionalmente inativas. Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral. mais curiosamente. Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. Figura 10 . inativas. A Fig. embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais). As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. cheiros para cores e.

Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores. Tomando por base o exemplo anterior. 2006).g. Pág.05% anteriormente sugeridos. por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida. A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida. A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções. cor.. 2003). por exemplo: números escritos na língua de origem. não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”. Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e. A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. 136 Julho/2010 . Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. um valor bem diferente dos 0. forma. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente. Se um deles disser que um dó maior é azul. portanto. 2008).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. De qualquer forma. no caso da visão). movimento. etc. É o chamado binding problem.

Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. Julho/2010 Pág. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral). Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. desde sempre. invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. Segundo os autores. ainda carece de comprovações. complexando o estímulo processado). não favorece essa explicação. o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que. Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”. Essa explicação. 137 . consequentemente. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). incluindo as fases iniciais do processo. diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. ao final do processamento. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo. apenas representamos internamente o que é percebido externamente. porém. porém.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 138 Julho/2010 .

permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado. Desta forma. lenta e gradual. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. ela age também selecionando comportamentos. aprendizagem de conceitos.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. no relato de uma experiência de infância. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas. Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais. por exemplo.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. 139 . Por exemplo. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos.barletta@gmail. se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág. num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. Ainda sim. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. ocorre de maneira constante. na execução habilidosa de uma ação motora.

a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. 140 Julho/2010 . conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. Suporte aos sistemas de memória Pág. Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. Em outras palavras. pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. Se. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento). Uma vez gerada a previsão de um evento. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. além de planejar uma ação antes de sua execução.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. Portanto. o surgimento de diferentes sistemas de memória. isso pode ser altamente vantajoso. sobretudo dos processos de memória. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. A evolução do sistema nervoso. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada. com regras de operações essencialmente diferentes. fazendo uso de processos antecipatórios. capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. a complexidade de tal ambiente aumentar. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente. Indivíduos capazes de identificar estímulos. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema. Do ponto de vista evolutivo. se beneficiarão. no entanto. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos. ações essas baseadas em experiências anteriores. No entanto. Assim sendo. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação. estarão mais aptos para determinado ambiente.

temos um processo de computação neural. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses. recebe projeções de outros milhares de neurônios. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. gerada por atividade espontânea. Essas informações sensoriais.) em potenciais elétricos. Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. Levando em consideração tais possibilidades de combinação. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso. sob a forma de impulsos elétricos. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. isto é. é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. avalia e passar o sinal a outros neurônios. que por sua vez. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. Assim. as memórias. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações.g. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. que transformam diferentes formas de energia (e. Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. Além disso. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). Conectadas aos neurônios. odores etc. deste modo. luz. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios. som. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo. 141 . Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. possui bilhões de neurônios. por sua vez.

142 Julho/2010 . após entrarem nessa câmara.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias. Xavier (2004) e Gold (1970).esquerda). A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo. apesar do flutuador (Fig. Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). (ver Fig. maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. realizada 24 horas depois. como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. depois do treinamento com choque nas patas. os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. que não receberam choque nas patas no dia anterior. levam um choque nas patas. Após longo esforço de cerca de 3 horas. Se Pág. por uma porta tipo guilhotina. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). 1 . Em uma etapa de teste. O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens. 1). Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. Modificado de Pavão (2009). alguns peixes voltaram à posição normal. Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso. À medida que esse intervalo de tempo aumenta. 1). O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. 2. 1 – direita: barras de cor laranja). Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). treino inicial representado pela curva verde). menor é o efeito. Em experimentos adicionais. entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. Animais de um grupo controle.

que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. porém. 2. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. Em conjunto. Ou seja. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. Flutuadores foram presos aos animais. Modificado de Pavão (2009).. esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. ver Helene e Xavier. Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular. os animais realizam a tarefa mais rapidamente. 3 dias depois. 143 . e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. 2. essas proteínas foram denominadas ependiminas. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul.Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois. os flutuadores foram recolocados.e. curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos. e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. Num terceiro teste. curva vermelha). 2007). o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. Em segundo momento. acima). abaixo) – curva verde. Atualmente. ficavam em posição confortável (esquerda. Então. com treino de cerca de 180 minutos. no teste de memória realizado 3 dias depois. Xavier (2004) e Shashoua (1985). esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. i. Em outro teste.

mais instável. Posteriormente ao experimento de Shashoua. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade. algumas horas. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. por exemplo). simplesmente. uma de curta duração e a outra de longa duração. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. Diferentemente. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. no máximo. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. Um deles. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo. a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias. As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. plasticidade. parece envolver alterações estruturais nas sinapses. Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. associado com produção de proteínas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. gerando circuitos alterados no sistema nervoso. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. O outro. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. meses ou anos. parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. 144 Julho/2010 . relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses). pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos.

145 . o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade. Em outras palavras. correspondente àquela gerada durante a experiência original. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes.Neurociências circuitos neurais. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. anos ou até mesmo uma vida inteira. Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. representa a experiência adquirida. ou redes nervosas. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. Julho/2010 Pág. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. Aparentemente. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. Como vimos. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. Sendo assim. Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP). Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. tornando-as associadas. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. Sendo assim. assim como Hebb havia proposto. qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo.

146 Julho/2010 . A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. Isso permite entender porque a recordação envolve. Isso significa que. Em primatas. categorias. costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. Como consequência. mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. Assim sendo. ação e outros processos cognitivos. Além disso. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. Uma vez ativos. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). como por um ato de vontade para recordar aquela experiência. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica. esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. por meio de sua atividade e conexões. "nós" da rede. organizadas no tempo e espaço. usualmente. Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. mais fortes tornam-se as conexões. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. estão profundamente associadas com os processos de memória. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. percepção. são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. quando Pág.

Neurociências ativados. A rede tem uma organização inicial como representado em (A). então. 2007. contribuindo para a lembrança completa da experiência original. um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. Julho/2010 Pág. uma dada população de nós disparando. e de Helene e Xavier. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. Além disso. (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. 2002. Modificado de Bear. mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). Nesse sentido. enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. ou pode ter reverberado nessa rede. 147 . representa uma determinada informação. excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões. essas ligações podem variar em intensidade. levando à sua previsão. Por exemplo. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória. já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. ao receber um estímulo. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas. Nessa rede. é ativada (B). Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios.Esquema representativo de redes neurais de Hebb. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. Figura 3 . de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial.

o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória. Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular. uma espécie de reverberação da Pág. Após a remoção das estruturas. o paciente sofria de epilepsia intratável. foi removido cirurgicamente.M. Segundo essa ideia. 148 Julho/2010 . 2007). aprendeu a ler palavras invertidas. Na ocasião. assim como seu QI. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração. isto é. neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. ele alegava nunca ter feito isso. porém cooperativa. quando consultado sobre seu treinamento prévio. porém. estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis. estava restrito à aquisição de memórias de longa duração. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais.. Curiosamente. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia). isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala. que funcionam de forma independente. descrito por Scoville e Milner (1957).M. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos. Como dito anteriormente. O prejuízo cognitivo de H. suas capacidades perceptuais se mantiveram. possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. parece atualmente bem difundida. além de outras porções corticais. H. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente. Por exemplo. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. sua personalidade e a memória de curta duração. H.M.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. O foco epiléptico.M.

M. ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu. Resultados de estudos como do paciente H. por exemplo. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. Em suma. Neste contexto. têm lesão no lobo temporal medial). Curiosamente. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. Duplas dissociações. ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste. usualmente preservada nos pacientes amnésicos. 149 . pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. pode-se dizer que. como visto. Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações. são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita). pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier. 4). usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. Julho/2010 Pág. 2007). Trazendo esse conceito para o caso do paciente H. e uma memória de procedimentos (ou implícita).M. prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas. mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. Em outras palavras. pacientes parkinsonianos exibem. embora possam cooperar entre si.Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente.

em cada caso.PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração. A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas. 150 Julho/2010 . como já descritas. Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo. 5). 2007). ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig. ocorre de forma cumulativa.amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson .M . o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. porém. Além disso. Pág. A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. Sua aquisição é gradual e dependente de treino.amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson . o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência.PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. possui um acesso consciente. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição. ou seja. (modificado de Helene e Xavier.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H.M . Sendo assim.

2007. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal. que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas. que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas.Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. Segundo os autores. 151 . armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig. Posteriormente. um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional". Modificado de Helene e Xavier. denominado de retentor episódico. memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. a central executiva. Baddeley inseriu um quarto componente no modelo. para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração. 6). A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. Julho/2010 Pág.Neurociências Figura 5 .

a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência. resolução de problemas.g. 152 Julho/2010 . A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva). teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas. a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974)... enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley. aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). Pág.g. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. Considerações finais Em conclusão. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. Ainda sim. É provável que a seleção desses sistemas. resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. enquanto úteis. com propriedades distintas. do ponto de vista evolutivo. incluindo raciocínio lógico. Assim. a organização do sistema nervoso. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem. inclusive dos diferentes módulos de memória. esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. 1982).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e.

1971). ou seja. Em ratos. No rato. Em primatas. Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente. mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. como veremos a seguir em detalhes.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky.. 153 . Anatomicamente organizado em camadas. Adaptado de Paxinos e Watson (2004). Witter e col. o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas.com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. Quando o animal se move livremente. 1). se não milhares de experimentos. 1989) (Fig. Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica. 2. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells. Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1. a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág. Centenas. 1968.

1993). Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. Cohen e Eichenbaum. versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. 1978) (Fig. Adaptado de Eichenbaum (1999).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. Entre os anos de 1953. como veremos mais adiante. Figura 2. 1957. e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. Pág. 3). Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. para estudos de lesões. 154 Julho/2010 . – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. infusões de drogas ou. quando fez uma operação experimental no lobo temporal. 2). não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. outras vezes. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. ano de sua morte. que incluem a plataforma visível ou. 1993). nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. Há várias versões desse teste. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial.M. e 2008. 1993). entre outros. em outras vezes. o paciente H. com uma pista que indica onde a plataforma está. Devido à sua simplicidade. O labirinto de Morris é usado.

Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. ele deve explorar o ambiente de forma randômica. Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). Julho/2010 Pág. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel. 1986). O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas. Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica. Navegação táxica. O círculo indica a plataforma escondida ou não. 155 . O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. Whishaw e Mittleman. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e.  Navegação por rota.  Navegação por local. O animal pode executar um programa motor constante. aleatória. por exemplo. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. nesse caso.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. Se. Navegação práxica. 1978. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. São elas:    Navegação randômica.

como direção de movimento e velocidade. 1983. 1997.. 4). Maguire e col. gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col. o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. 1978. para atualizar a representação de acordo com essas pistas. esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente. Eichenbaum e col. Pág. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas.. 1993. Nishijo e col. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo. Dessa forma. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação. Matsumura e col. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células. há um mecanismo fisiológico que é capaz de. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col.. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et.. McNaughton e col. Wiener. As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados. Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos. 1990.. ou seja. 156 Julho/2010 . enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais. possivelmente devido à perda extensiva de place cells.. al. 1994). Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. 1999) e humanos (Ekstrom e col. Para tanto. utilizando-se das pistas externas e internas. porém sem perceber a posição. 1997. além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente.

os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e.. Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col.Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. 2007). Embaixo. VR(W). Fig. mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente.. 2005.. porém em posições diferentes. Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col. VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. No entanto. Furuya e col. Em outros estudos.. As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas. 5). apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies. 2005. 2005. 2007) (Fig. imóveis (Hori e col. 4. 157 . 1994). mesmas posições. Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col. dessa forma.. 2007). VR(N) é um ambiente similar a VR. (2005).. atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual. as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. 2005). Furuya e col. Furuya e col. porem com menor tamanho. Adaptado de Hori e col. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação..

(2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres. há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. 1993) e. Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system). no entanto.. Foi verificado que os taxistas. Nesse paradigma. Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS. em relação ao grupo controle de nãotaxistas. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col. apresentavam maior atividade no hipocampo. Mizumori e Wiliams. 1984). núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN. 2007). Maguire e col.. Em B. Em A. 1991).. Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. (2005)... Leonhard e col. tanto em ratos. mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual.. o ambiente todo é reduzido. núcleo mamilar lateral (LMN. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. em menor Pág. Porém. porém com características similares. são as pistas que se movem em relação ao animal. quanto em primatas. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle. No entanto. 1996). núcleo anterior talâmico (ATN. as pistas encontram-se próximas e em C. 1995). e não o contrario. Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo. Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. Taube. mantendo-se as proporções de B. 158 Julho/2010 . Ranck. Adaptado de Hori e col.

O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. seguindo um padrão triangular.. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. sendo. Essas células. Julho/2010 Pág. 2006). Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo. ou seja. o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. 159 . mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente. 1995). McNaughton e col. em um arranjo de 360º. O LDN também se conecta com o PoS. 6). ou seja. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente.Neurociências quantidade. se projeta para o AD. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência. por sua vez. Como a direção preferida de ativação não se altera. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação. a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. denominadas grid cells. dessa forma. Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig. Cada região. na qual sua atividade é máxima. PoS envia uma projeção ao LMN. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo.. que.. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. esquematizadas em um anel de ativações. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente. 2004). As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube. 1994). a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. diferentemente das place cells. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. ou cada população de células.

de acordo com sua posição preferencial de disparo. Adaptado de McNaughton e col. as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. (2006). Figura 7 . para fins didáticos. a. A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). b. 160 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. Head direction cells arranjadas em círculo. Pág. A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas. cores quentes representando maior taxa de disparos. Adaptado de McNaughton e col. 2006. Na ausência de movimento.Modelo de integração de rotas. Cada célula se conecta com as adjacentes.

2006) (Fig. é muito difícil. ou a memória. 7). Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. A codificação de informações a respeito de lugares. etc. entre outras questões adaptativas. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. 161 . 8). acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. por ser menos específico do que o sistema de place cells. No entanto. Julho/2010 Pág. sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade. Dessa forma. A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. Da mesma forma. dissociar navegação espacial de memória episódica. o conhecimento. ou quase impossível. que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. 1997) (Fig. encontro de parceiros sexuais. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. de melhores épocas do ano para migração.. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados.Neurociências O sistema de grid cells. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo. essencial para vários processos como busca de alimento. certamente essencial para os processos evolutivos dos animais. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning). junto com o sistema de head direction. localização dos melhores abrigos.

enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo. 162 Julho/2010 . As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo. Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. Cores quentes indicam altas taxas. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. Adaptado de Einevoll (2006). Pág. Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar.

Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas.. Jaak Panksepp. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. as emoções não ocorreriam. A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. então. Ou seja. Por exemplo. se a teoria de James estivesse correta. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. em um artigo intitulado O que é a Emoção?. aumento da sudorese. vergonha. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. Com o surgimento do pensamento behaviorista. contração de diferentes músculos. De forma geral. Caroll Izard. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos. Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. raiva. Por exemplo. Portanto. o estudo das emoções. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas. retomados. então. etc. Por volta de 1950. por volta de 1910. a ciência da cognição. Julho/2010 Pág. em geral. Paul Ekman. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. Ademais. alegria. por conseguinte. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga.e. Pesquisadores como Magda Arnold. em geral. segundo James. 163 . começou a ser considerado como nãocientífico.com O que é emoção? Medo. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. o estudo da mente e. i. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem. essas sensações são as emoções. De fato. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo. Para James. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções.

nos referimos a este estímulo como punição. reações Pág. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo. Por exemplo. Antonio Damasio. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. Edmund Rolls. que apesar de ser um estado emocional negativo. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções. a qual resulta numa sensação.e. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. e não de esquiva.. um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James. está associada com uma resposta de aproximação. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. Apesar das diferenças entre elas.. Segundo essa concepção. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente.e. ainda não tem uma resposta consensual. Para ele. O que é a Emoção?. Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo. 164 Julho/2010 . emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. i. i. e por outro lado. contribuindo para a tomada de uma decisão. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. nos referimos a este estímulo como recompensa. Richard Davidson. Quando. trabalha para reduzir. por outro lado. Essa sensação é avaliada pelo organismo. mas a questão central levantada por James. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. As emoções. de uma forma geral. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. Por exemplo.

que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. apresentar cuidado parental. Darwin observou. como o comportamento de morder quando se está com raiva. Além disso. Estudos mais recentes mostraram. Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies.. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. como cegos de nascença e bebês muito novos. não são aprendidas pelo indivíduo. um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. cheiros. como mostra a Fig. Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais. Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. a emissão de sons. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. Assim.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual. o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas. por exemplo. que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. 1. por exemplo. exibem normalmente expressões emocionais. Julho/2010 Pág. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo. ereção dos pêlos. i. batimento das asas. entre muitos outros.e. 1995). também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva. e engajar em comportamentos sociais adequados. encontrar alimento e parceiros sexuais. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. 165 . Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. particularmente as expressões corporais e faciais. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo.

Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. Modificado a partir de Darwin (1872). (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. (B) galinha afastando um cão de sua ninhada. Isto é. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. o que tem alto Pág. E nesse contexto. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. e das penas na galinha. Note a ereção dos pêlos no gato e no cão.g. De fato. Gene Sackett (1966). incluindo as sociais. expressão ameaçadora. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. Entretanto. 166 Julho/2010 . ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. (A) gato assustado com um cachorro. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1. e de se recordar do conteúdo aprendido. os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais.

e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som.Neurociências valor adaptativo. então. elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. não apresentando medo pelo animal. O bebê passou a sentir medo pelo rato. quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada. também denominado condicionamento clássico. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. como no caso do experimento de Pavlov. e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. 2). Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. como no caso do experimento idealizado por Watson. à apresentação de carne. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. algo que não sentia antes. Watson. que não eliciava a resposta de salivação nos cães. O condicionamento Pavloviano. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne. Pavlov. em seguida. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). 167 . Julho/2010 Pág. Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação.

o animal emite uma Pág... Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo.. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). por exemplo um estímulo sonoro.g. Nesta situação. Por exemplo. neste caso. respostas neuroendócrinas (e. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro. entre outras.g. A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas. Procedimento de condicionamento Pavloviano. geralmente um choque nas patas do animal. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. 168 Julho/2010 . o choro do bebê Albert perante ao rato albino.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2. Diferentemente.g. e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão. toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores. quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência.g. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo. o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais.. Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007). liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). como comportamentos defensivos (e. Em geral. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante. é pareado algumas vezes a um evento aversivo. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. respostas autonômicas (e. respostas de congelamento). e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado). chamamos este comportamento de operante.

como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo. e é amplamente empregado no estudo das emoções. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. A estímulos desta natureza nos referimos como punições. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. Neste caso.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. que evocam diferentes respostas emocionais. Por exemplo. recebe um choque nas patas. de cenas alegres ou neutras. entre outras. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas. a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação. Neste caso. Até mesmo alterações de humor.. no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. i. No entanto. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência. Nesta situação comportamental. do inglês. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional. toda vez que o rato toca o assoalho. por exemplo.e. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. 169 . de sexo. Em algumas regiões do encéfalo. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante.

o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. Figura 4. incluindo o córtex cingulado. Pág. o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam. 170 Julho/2010 . Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. 3. como mostra a Fig. em 1937. Mais tarde.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos. Modificado a partir de Lang et al. Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. Para Papez. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. Lobo límbico definido por Broca. 5). a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. (2002). e a expressão emocional pelo hipotálamo. Bases Neurais Em 1878.International Affective Picture System). o tálamo anterior. Figura 3. (1995). 4. o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS . Modificado a partir de Bear et al.

as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. Historicamente. Isto é. parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional. por exemplo. Circuito proposto por Papez.Neurociências Figura 5. a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. os animais podiam ver perfeitamente. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala. denominado síndrome de Klüver-Bucy. cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. principalmente os visuais. o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. Modificado a partir de Bear et al. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. o hipocampo. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. (2002). No início da década de 1950. 171 . a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência. que denominou “sistema límbico”. como por exemplo. Diferentemente. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca. os macacos lesados Julho/2010 Pág. Ademais. Por outro lado. como a amígdala e o hipotálamo.

O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa. e nesse sentido. 172 Julho/2010 . que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. Em seres humanos. Mais tarde. consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). um choque). Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls. somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências.. ele dirá 2 ou 3. Baseado nessas e em outras observações.g. De fato. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo. danos amigdalares em seres humanos Pág. Depois de processadas e associadas na amígdala. 1992).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. perda de responsividade emocional. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. e não de outros tipos. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). Mais tarde. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. De fato. e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo. endócrinas. onde um estímulo (e.g. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. e perdiam o medo por cobras e pessoas. do ponto de vista hodológico. Por exemplo. tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies. exame excessivo de objetos. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. diferente de indivíduos normais. essas informações podem modificar respostas autonômicas.

Macacos com danos na amígdala. e muitos anos mais tarde.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. Em seres humanos. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. 6. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. Phineas Gage. deficiências motoras ou de percepção. tornou-se irresponsável. impaciente e grosseiro. 173 . lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. que se deu 13 anos mais tarde. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. Por exemplo. em geral. um trágico acidente acometeu Gage. fruto de uma forte crise epiléptica. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. irresponsabilidade e perda de afeto. Depois. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. aos 25 anos. incluindo seres humanos. tais como os roedores. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. como mostra a Fig. que sempre abandonava. No entanto. o que não ocorre em animais não-humanos. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência. tais como perda de inteligência. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas. por exemplo. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. e pouco desenvolvido em outros animais. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las. Em setembro de 1848. logo se perdia em outros planejamentos.

nas quais a escolha de um objeto. Nesta tarefa. De maneira similar. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág. 174 Julho/2010 . passa a resultar em nenhuma recompensa. Figura 6. Modificado a partir de Gazzaniga et al. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. Por exemplo. Em seguida.. que inicialmente era recompensada. O núcleo accumbens. o reforçamento é revertido. por sua vez. ou seja. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. (2006). diferentemente de animais normais. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. De fato. 2007). que param de responder. essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al. diferentemente de animais normais. a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada.

O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. do ataque predatório. a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal. entre outros. por exemplo. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte. Finalmente. Por exemplo. por sua vez. o córtex cingulado. a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente. ou seja. que por razões ainda não claras. de beber. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. Isso é diferente de valor hedônico. i. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. mas não para o valor hedônico das recompensas. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo. além do comportamento maternal. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. Danos no hipotálamo lateral. 1998). quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp. heroína e cocaína. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários.e. e o comportamento sexual. E consistentemente. a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág. 175 .. do comportamento defensivo. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais. Por exemplo. De fato. eliminam comportamentos motivados. como por exemplo o comportamento de se alimentar. função primordial das emoções. Por outro lado. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva.

com dano bilateral na amígdala. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação.. De fato. como por exemplo. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas. Em um experimento clássico. quando testados na mesma tarefa. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes. uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. Por exemplo. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. e não às furiosas. a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. ou seja. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. indicando reação aversiva ao choque. a paciente S. seguida de um estímulo-alvo. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso. Como foi discutido em capítulo anterior. Num teste chamado impressão emocional subliminar. Apesar disso. demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. Entretanto. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente. e consistentemente. a paciente S. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). 176 Julho/2010 . e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente. indicando o aprendizado do condicionamento aversivo. a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. sem conhecimento consciente.R. o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. Interessantemente. pacientes com lesão hipocampal.P. um ideograma chinês.

O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. e não só por meio de um procedimento implícito. etc. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. o primeiro namorado. 177 . Por exemplo.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. como o condicionamento aversivo. mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo. como o falecimento de um ente querido. o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. ou seja. que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo. De fato. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. Julho/2010 Pág. seguido pela consolidação dessa memória. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. Além disso. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. Numa perspectiva evolutiva. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo.

178 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

ao encontrar um indivíduo que. MEG. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral.com.Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. PET e ERP. tais como fMRI. Julho/2010 Pág. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente. Antes objeto de estudo apenas de linguistas. como as aves. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. Bebês nascem e. Neste capítulo. ou no som das sílabas que ouvimos. ou na produção de mesma. apresentasse dificuldades na dicção. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. na esperança de recobrar-lhe a fala. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana. Assim. Retrocedendo mais ainda no tempo. as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. 179 . É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. sua lateralização e modularidade cerebral. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC). ouvimos. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente. Anteriormente a este período. De certo. em questão de 1 ou 2 anos. sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos.br Introdução Dentro das ciências cognitivas. falamos. por exemplo. cães. lobos e primatas. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos. Atualmente. algumas espécies de animais se comunicam. era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. XX) em estudos neurocientíficos. a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal.

e a outra indicando o cisne. 180 Julho/2010 . De modo muito diferente. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras. simplesmente.5 anos. mas também gestos. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. Assim. vários experimentos têm sido realizados. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. aos 4 anos de idade. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia.000 palavras. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3. comparando-se com crianças de nossa espécie. tudo isso sem a necessidade de intrução formal. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. Em um deles. e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente.  conteúdo: não só as palavras. no planeta. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. Além disso. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. Além disso. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. contam-se 10. Por fim. optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças. casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. Pois bem. de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág. especialmente com chipanzés. São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções). não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se. Surgem também algumas questões. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se.

Tabela 1 .Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. a produção da fala. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. 181 . também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro. O hemisfério Julho/2010 Pág. 1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano. 1 e Tab. De fato. são orquestrados pelos 1. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. envolvendo a articulação dos lábios e língua. a leitura e a escrita. 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica. intermediados pelos sistemas visual e motor. então. vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano. um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana. e até mesmo nossa linguagem corporal. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas. que serão ilustradas na Fig.

de Wernicke e de Condução. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores. ritmo e prosódia à lingua falada. letras e palavras curtas. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. 182 Julho/2010 . Pág. por favor dirijam-se à sala de jantar”. e troca de letras durante a escrita. verde e azul. sua fala fica afetada por uma fluência em excesso. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular.e. Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). seria produzido por um destes pacientes como “senhora. que interliga as regiões de Broca e Wernicke. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p..Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral. tais como compreensão de respostas não-verbais. Devido a esta dificuldade de compreensão. leitura de números. e conferir entonação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem. “Senhoras e senhores. Retirado de Posner e Raichie. verbos sem flexão. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. amarelo. Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. mas sim a compreensão da fala e da escrita. Vermelho indica os maiores níveis. 1994. sala”). Portanto. A afasia de Wernicke não prejudica a produção. é rompido. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior). São diversas as disfunções decorrentes de AVC. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo. As mais conhecidas são as afasias de Broca. senhor.

envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito. e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. mas também para diferentes características linguísticas.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. em nossa espécie. por exemplo. com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. Há. articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. motricidade. quando comparados à população normal. Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma. apontando apenas para um componente genético. olfato). E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras. há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso. destacando-se entre estes Kuhl (2000). Existe. herdado geneticamente de nossos ancestrais. devido à modularidade cerebral . A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. ainda. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi. (2001). portanto. 183 . visão. A dislexia. a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. ainda. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . parece pertencer ao acervo biológico do homem. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. entre outras. 2005).

2004). Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália. (Mechelli. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. hormonais e de plasticidade neural. De fato. sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas. percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. ao passo que. nascemos prontos para aprender qualquer idioma. curiosamente. 184 Julho/2010 .períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos. 2000). em dois indivíduos adultos. de aprendizado simultâneo de duas línguas. e o da direita. Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. após o qual ela deixa de existir. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . a aquisição de outro idioma. tomado de um ponto de vista neurobiológico. Retirado de Kim . Ainda assim. diferentes entre Pág. 1997. Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro. Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. bebês aos dois meses de idade não o fazem mais. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios.

ou como nas palavras avô e avó. nos primeiros anos da infância. em português. de 0 a 12 meses de idade. Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. ou quaisquer outras línguas entre si. representação mental. e por consequência. e chegando até o fenômeno do bilinguismo. distúrbios. em inglês. Retirado de Kuhl. Ontogenia. 185 . depois. primeiro. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. passando pelo seu processamento. para os povos de língua espanhola. Julho/2010 Pág. para os brasileiros. não faz distinção entre japonês e inglês. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed.Neurociências elas. Nosso cérebro. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. codificação gênica. prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. perceber auditivamente e. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. anomalias. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. 2004. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. português e alemão. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. 4). Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória.

186 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

isto é. não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres. Gray e col. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica. que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. o que se contrapõe à freqüência. língua ou idade. a qual é um atributo perceptual do som. 187 . 2007).Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. É o seu timbre. isto é. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. Elas estão baseadas em uma tonalidade. por mais que escutemos sons distintos. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural. um mais grave e outro mais agudo. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical). formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. irrestrito a gênero. há algumas particularidades nos sistemas de afinação.. assim como notas musicais. 1998). Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. Apesar das diferenças interculturais. por mais de uma freqüência). Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág. 2003. 2001). 2003). ao longo do espectro de audição. um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre.fv@gmail. Tramo. 2001. senão todos. 2006). Ainda assim.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. A composição de várias ondas produz um som muito específico. classe social. são complexos. uma característica sempre presente. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. Portanto. que é um atributo físico (Bendor e Wang.

não justificam por si só a existência de música globalmente. dispara também para sons com fundamental em 110. 2001. Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. conceito. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. 220. Benítez-Bribiesca. Masataka. Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. Tramo. 188 Julho/2010 . Pág. estudando o córtex de sagüis. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido. que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. provavelmente. 2007. quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno. quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. mas também para seus múltiplos. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. Gray e col. em última instância.520 Hz e etc. Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes.. 3. 1. Bendor e Wang (2005). no entanto. 2001. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. também em outros organismos). Hauser e McDermott. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. 2007. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre.760. 2006). 880.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. 2003. para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. Enfim. 2001.

uma voz em um ambiente cheio de ruídos. por exemplo. por exemplo). o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são. relacionando música e linguagem. A música. baseada em seis pontos principais. O sistema nervoso. O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. então.pág. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. Pinker compara a audição à visão. em particular. para citar alguns) e não há consenso nas respostas. chorar. que as associa. 1874. da prosódia. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. rir. então. 2000. uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. 1879. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. para tentar responder à questão. Pinker. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. 1998 . Nesse sentido. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. mas como tons complexos. Isto é. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. serão apresentados mais adiante neste texto. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. regulares. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. uma mesma fonte sonora. separar um solista de uma orquestra. paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. 535. É interessante notar que. logo. gritar) tem um apelo acústico próprio. Achados mais recentes. em verdade. a música poderia ser até anterior à fala. segundo tal proposta de Darwin. resmungar. dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. 189 . percebendo-as como um tom complexo. Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música.Neurociências Wright e col. 534).. Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. 1998. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. Darwin. uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. Clark.

água correndo. balançar. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial. distribuição no escalpo. certamente estimula nosso sistema motor. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. como vistas distantes.pág. possivelmente. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. 537. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. insegurança ou mudança de habitat. Koelsch e col. 190 Julho/2010 . O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor. independente deste ser uma frase ou um trecho musical. Tal ritmicidade que nos faz dançar. o qual não variou em latência. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro. A música também interferiria com tais circuitos neurais. fontes neurais e amplitude. rosnados. insegurança ou mudança de habitat.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. e acompanhar a música. paisagens verdejantes. Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. ventos. O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. Trovões. nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. passos. todos têm efeitos emocionais. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. bater palmas. corações e galhos batendo. pássaros cantando. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe.

em outras palavras. no entanto. de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. A capacidade para interpretar música. a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana.Neurociências prévio. Diante dos resultados. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais. As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. 2000). independente do conteúdo emocional desses conceitos”. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. em última instância. diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. até mesmo. Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. 2005). 2003b). mas permitem. portanto.. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). produzi-la. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. (Pinker. também contextos). como a linguagem. 191 . além da própria comunicação entre indivíduos. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. Fica claro. sejam eles abstratos ou concretos. O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos. sua criação e percepção. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. assim como a linguagem. 1998). deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. provavelmente. Isto é. possivelmente. são Julho/2010 Pág. Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. não só em humanos (Wright e col. Essa percepção.

depois. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. relações tonais. Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). porém. É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). talvez. partem para uma seção mais elaborada e. 192 Julho/2010 . permutações e combinações de notas que os compositores humanos”. pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. mas não para melodias atonais.O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros. . (2000). Segundo os autores. Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné. Da mesma forma. tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. Mas voltando aos mamíferos. Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. As razões são óbvias. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). já descrito. como inversões de intervalo. Ainda. então. a Cacatua-Negra. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). mas não em tons diferentes. de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. são freqüentes composições que exploram um tema. Desde o século retrasado (Clark. o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. 1879) tal grupo é investigado. trabalhando com macacosrhesus. Wright e col. portanto. expostos a música e melodias diversas. 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. Mais do que isso: . os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. as baleias optam por produzir sons rítmicos. O caso mais atípico e impressionante. A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. O experimento de Wright e colegas. seja da espécie Probosciger aterrimus. mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. assim como nós. 2003).

É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano. as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller. De fato. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa. .edu/~suits/overtone.. Nas palavras de Gray e col. 1998). é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos. Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras.Neurociências de músicas produzidas pelo homem.mtu. as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição). . 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum.html para maiores detalhes). relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. ao invés de sermos os inventores dela. são derivadas da Série Harmônica (ver http://www. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical.Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. . sugere que a música deve ‘predar’ os humanos. Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais. mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. expressões faciais fechadas e até choro. Ainda.Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas. 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana. com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância. e em grande parte do mundo. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas.phy.Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. 193 .” – pág.

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202 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab. com especial atenção à técnica de respirometria.com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. 3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente. a viabilidade das populações. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais. podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental. 6) interação entre metabolismo energético e reprodução. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. . de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. conseqüentemente. fisiológica e bioquímica. comunidades e ecossistemas. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental. Sendo assim.

286 pág. Silvia C. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. 205 pág. Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. 279 pág. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr. 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. Carlos Arturo Navas pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. 257 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. 204 Julho/2010 . 269 pág. Silvia C. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. 217 pág. “Ana” o quê? pág.

desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). Dentre essas reações. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores. Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. Tais vias biossintetizadoras. 2005). são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. 2005). Segundo Schmidt-Nielsen (2002). portanto. é o método mais preciso. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações. 2) Cálculo através da produção de calor do organismo. que invariavelmente requerem a adição de energia. 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação. 1) (Nelson e Cox. Julho/2010 Pág. 2000). a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo. produtoras de energia livre. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina). ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material.Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail. incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos.. Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e. 205 . a soma do anabolismo e catabolismo. em princípio.com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. 1). juntas essas reações degradativas. Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo. na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox. são designadas como catabolismo (Fig.

sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig. Para conhecer a taxa metabólica de um organismo. a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos. o trabalho interno químico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. e o trabalho externo para a locomoção e comunicação. 2002). 2000).. 2005). Desta forma. Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. Pág. osmótico. 206 Julho/2010 . Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. elétrico e mecânico. é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). 2) (Randall e col.

respectivamente.9. por exemplo.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. 2.5. 1997). 0. mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero. o animal deve estar em repouso. o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos). É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown. coração e músculos são 2. o relativo tamanho do fígado. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. 0.. rim. não deve haver condições estressantes. 207 . trato gastrointestinal. 2. As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. e 42%. 2002).4.volume de oxigênio por Kg por minuto). para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. sistema nervoso. pulmão. e a Julho/2010 Pág. Em humanos. É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). 0. Em mamíferos. 2000). as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie. que é similar a TMB.

é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal. Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que. Por isso. 1998). Para alguns ectotérmicos. 1998). a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas. a TMB pode variar devido a diferentes fatores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. Pág. devido a isso. 6. 11 e 25% respectivamente. Por essa razão.   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. como a energia associada ao movimento (energia cinética).. 4. Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. em virtude da compensação metabólica ou Energia.. por exemplo. mais especificamente sua estabilidade. a movimentação dos seus átomos é elevada. 2002). tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. Entretanto. 20. 1998). através do ATP (Ferrano e Soares. a taxa metabólica padrão (TMP). Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura. é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal. Existem outras formas de energia como a química provinda. Como foi dito acima. Sendo assim. 208 Julho/2010 . é possível utilizar a temperatura corporal. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17. a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras. representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. 1998). 10. 2000). quando há um aumento da energia em uma molécula. da aclimatação térmica (Randall e col. entre eles a temperatura. na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar. 2000).

répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. deveriam ser denominados homeotérmicos. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C.. 209 . Contudo. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita. dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. 2000)... quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira. Os Julho/2010 Pág. os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. Porém. elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. Ao contrário disso. são denominados homeotérmicos. portanto. anfíbios. Previamente os peixes. ectotérmicos (Randall e col. 2000). seja no ar ou na água. 2000). embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. Frequentemente. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis. para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima. os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. Na maioria dos mamíferos. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. aves e mamíferos homeotérmicos. já que.Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório. sendo separados em: os que geram calor metabólico. e os que não geram calor. podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002). Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. Peixes que vivem em águas profundas. ectotérmicos e endotérmicos. endotérmicos. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus. Estes animais podem ser divididos em dois grupos. A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. apresentam uma temperatura corporal constante e. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. 2000).. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col.

Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo. aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos. foi descoberto outra proteína. Fisiológica e bioquimicamente. por meio da atividade muscular. 2000). Além disso. Skulache. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética. Este tecido é estritamente de mamíferos. que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos... 1960. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. Contudo. 2002). mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. salmão e muitos insetos voadores. 210 Julho/2010 .. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. Além disso. Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom. denominada avUCP. 2002). não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col. fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria. e col. UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP). Os monotremados. que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col. Como mencionado anteriormente. como alguns tubarões. hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. 2002). 1965).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. como os équidnas. Demonstrou-se Pág.. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. 1963). tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev. 2005). Entretanto. em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov.

aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. dentre um determinado limite. são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente. t1 e t2 . 2002). Julho/2010 Pág. 2002). k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. 211 . Como pode ser observado abaixo (Fig.. quadruplicaria em 20°C. Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos.Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. 3). 2001). 9. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. como no metabolismo. respectivamente. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen. posteriormente. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. e a UCP1. a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C. 2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. respectivamente. que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero.

é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. No entanto. o Q10 apresenta valores menores que 1. 4). Para muitos processos. 2002). Porém. e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. a fração de um número grande de partículas. assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. Para temperaturas que apresentam efeitos letais. como as taxas de respiração e metabólica. 2002). Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades. os valores de Q10 são próximos a 2. Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. 212 Julho/2010 . por exemplo. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra. isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos. Com isso. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética. quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. 2002).

A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional. 2002). 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. mas também. Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. 2002). com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero. é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. 213 . Dito isto. que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero. Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise.Metablismo população. abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto. 2002).

214 Julho/2010 . Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero. Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2). Figura 5 . 2002). 2002). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. 2002) (Fig.Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero. 5).

Com base nisso. Desta forma. que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero. nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. Julho/2010 Pág. 215 . a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto). 2002). e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação. já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal.Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais. Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos. principalmente o metabolismo. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos.

216 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

e fogo e vida. veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. entender o que é o ar e como ele suporta a vida. pré-método científico. não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar. a medida de metabolismo energético em si. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág. Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. Longe disso. ou de encontrar o elixir da longevidade. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo. Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. O problema não era. a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar. 217 .kawamoto@gmail. nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). apresenta três relações chave entre: ar e vida. a princípio. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. Lighton (2008). mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. o ar e a vida.Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th. os alquimistas perceberam que. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder.B. apresentado no capítulo anterior. Contudo. no entanto. ao término da chama. simplificada para fins didáticos. mas sim. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. fogo e ar. A partir daí. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida. as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. Leonardo da Vinci (1452–1519). A seqüência de eventos históricos.

wikipedia. o ar não podia estar saturado de flogisto. Incrivelmente. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Neste contexto. na mesma jarra. O mesmo acontecia com a vela. instantes depois o camundongo morria. encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. Este era o caso da queima de metais. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804). Pág. não havia chama para saturar o ar de flogisto. teoricamente repleto de flogisto. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. eles morrem. voltava à sua forma metálica anterior a calcinação. Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en. pássaros e camundongos diminui até certo nível. e observou que quando a vela apagava. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. primeiro. a qual chamou de “nitro-aereus”. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. o metal supostamente “deflogisticado”.org/wiki/File:Mayow). Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal. O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível. contrário do que seria esperado pela teoria. Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. no caso dos animais. O calx quando combinado com carvão.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. reforçando a teoria do flogisto. sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. John Mayow morre. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. mas sim ganha peso. a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões. 218 Julho/2010 . Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração.

ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. ainda. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. por mais contraditório que pareça. como dito no início deste texto. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. O desenvolvimento dos paradigmas. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo. Incrivelmente. a ciência percorre caminhos tortuosos e. ainda. 2). Deste modo. manômetros e respirometria fechada. medem. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos.Metablismo extingue o fogo. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. Entretanto. indiretamente. A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio. Além disso. Percebeu. o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica. Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. Havia. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. que o gás que não sustenta mais a chama. 219 . Prietley pensou ter descoberto o flogisto. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. a partir de então. a coulorimetria e a respirometria aberta. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. Priestley produziu.

) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado. baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica. sem mudança de temperatura. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas.org/wiki/File:Icecalorimeter. através da quantidade de água produzida por esse derretimento. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo). Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício. Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético.Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo. somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. aproximadamente o mesmo que uma vela queimando. Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. um de descobriram a termogênese induzida por dieta. momento em que ambos são decapitados. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0. Contudo. 220 Julho/2010 . a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC. calcularam pela primeira vez. Figura 2 .wikipedia. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso).334kJ/g. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia.jpg. 1 Pág.

Assim. 4). sensibilidade. Po é a pressão de referência. Em 1661. Seu predecessor. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. cerca de 20 anos antes.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U. a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. Em 1643. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria.Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. Julho/2010 Pág. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. The Skeptical Chymist. conforme a fórmula: Pa – Po = H. já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661. 3). Robert Boyle. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado.g. 221 . dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643. já que no tubo em U (Fig. Mais especificamente. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. permitindo uma nova série de medidas comparativas. cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida.

de preferência. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. Ao final do experimento. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas. Figura 4. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento. assim. mantendo. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico. Figura 5 . já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. com um absorvedor de gás carbônico colocado.) ou KOH. Pág. 222 Julho/2010 . é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial. o mesmo volume de ar durante todo o experimento. O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio. no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. por exemplo.Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. 5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada.

e. 5g de tauroglicocolato de sódio. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. diferente do respirômetro de Gilson. chuva). Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. 500mL de água). e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). descrito mais adiante. T é a temperatura em graus Celsius. o que pode alterar a medição também. podendo incutir erro na medição. Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro. O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p. Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH. 6). Julho/2010 Pág.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902. O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica. b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273. Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. 223 .

A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. (Fig. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. Pág. Coloque o animal na câmara. 7). Os passos a serem seguidos são: 1. 4. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante.Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg. Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes. onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo. 2. 3. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. 224 Julho/2010 . Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica.

o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. Figura 7 . Por exemplo. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item.04464. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema.325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista. Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19.43. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1. Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273. ou seja. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. o sistema não Julho/2010 Pág. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2.15 ) / ( 101. 225 .

o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. A respirometria fechada não permite. Dentre as alterações listadas anteriormente. Contudo. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. medições muito longas. por exemplo. Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia). MR é o metabolismo medido com o absorvedor. alterando o metabolismo de forma consistente. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. Outra limitação quanto ao seu uso. que se estendam por dias. ou que respiram de forma intermitente. Este é o caso de animais que produzem calor. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. O aumento de gás carbônico. também. Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. Pág. alimentação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório. 226 Julho/2010 . perda de água. Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. como os artrópodes traqueados.

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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Pág. o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais. embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers. Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento). que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert. (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos. ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG).As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes.3). 1992). Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia. 1997). 1992). 238 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia. isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos. Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. Figura 2. Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais.2) (Withers. desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig.

Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores. 1992). Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig. 1975. Julho/2010 Pág. 1992). Por exemplo. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. variando de poucos graus até acima de 400C.4) (Withers. pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. Figura 4. modificado de Withers. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia.Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May.Metablismo Figura 3. 239 . 1992).Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O.1976 – Modificado de Withers. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas.

Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. mas é termorregulador em áreas abertas. 2010). muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica. mas alguns ocasionalmente têm Pág. Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência. ele é termoconformador em áreas sombreadas. 240 Julho/2010 . A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. Entretanto.. alterações do contorno do corpo. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. Assim. Em um ou no máximo dois meses. 1992). Atraídas pela cantoria. 1992). Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. em rochas aquecidas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. por exemplo. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal. quando a chuva chega. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência.

ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C. Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente.86°C. se um pedaço de água congelada a −1.7 0C. eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar. Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento.60C a -0. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. 1992). desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. 241 . 1992). Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C. Ectotérmicos terrestres. e o peixe congela e morre. todavia. o estado de super-resfriamento é destruído. tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. portanto. que seria de aproximadamente -1. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto. Desta forma. 1992). permanecem superresfriados. Por exemplo. Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0.Metablismo contato com temperaturas congelantes.9° C for colocada próxima ao peixe. Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam. ao contrário. pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C).

Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. por outro lado. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . (Schmidt-Nielsen e Duke. começariam a congelar a -0. mas. Durante uma noite ocasionalmente fria. em rãs que não toleram o congelamento. 1996). pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries. 1982). apresenta um congelamento parcial e controlado. o seu desenvolvimento. por exemplo. além disso. Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno.6°C foram super-resfriados até -8°C. 1971). ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. Rana pipiens. Outras rãs tolerantes Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo. 1996). Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. 1996). Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. sem que congelassem (Lowe e col. Hyla versicolor. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. há toda uma preparação para o inverno. Trematomus (DeVries. portanto. Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". cujos fluidos corpóreos. tais como a rã leopardo comum. 242 Julho/2010 . Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. A rã. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal.. 1970).possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento. Répteis e anfíbios. se nucleados. o glicerol encontra-se ausente. É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico.

. pois o tempo de exposição é de grande importância. não está disponível para os animais aquáticos. isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke. 1992). . rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo. não pode ser determinada com exatidão. 1985). deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. na qual ocorrem 50% de mortalidade. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo. Por conseguinte. 243 . 1996). Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. coagulação térmica. A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. como a rã madeira.Desnaturação das proteínas. -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes. Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. 1996): . 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas. ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas.Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. .Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação.Suprimento inadequado de oxigênio. Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal). A temperatura letal. mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock.Metablismo ao congelamento. A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C. Rana sylvatica. e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey. Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. por conseguinte.

A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers.9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2. 1992). (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0. 1992). (5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação. através do ofego. A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág. Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea. embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers. Por exemplo.7ºC. 244 Julho/2010 . a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. o que faz com que tenham menor necessidade energética. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. Por exemplo. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele. achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. (3) O corpo possui um formato (alongado. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. 1992). conseqüentemente.

anfíbios anuros (Gomes e col. a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos. Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. Crowley e Pietruszka.Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas. quando apresentam baixas temperaturas corpóreas. Huey e col. 2001). Entre os fatores abióticos. 1967. pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar.1967. repelir ou escapar do predador.. 1983. Hertz e col. Mudanças no comportamento defensivo. 2002). De acordo com Shine e col. salamandras (Brodie Jr. têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand. Arnold e Bennett. 1991) e serpentes (Herckrotte.. 1983). Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos... ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. Oliveira e Martins.. induzidas pela temperatura. Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col. Julho/2010 Pág. 1994. Schieffelin e Queiroz. 1982. 1982). Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais.. 2002). 1964. Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew. Mori e Burghardt. 1983). Hertz e col. 1984. com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. 1982). 245 . e col. Keogh e DeSerto. (2000). Crowley e Pietruszka. 1991. 1982. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea.. 1984) e serpentes (Herckrotte. a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 246 Julho/2010 .

O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo. Entretanto. Nas mitocôndrias das células em geral.. 247 .. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos. podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col.. resultando na formação de ATP. A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”. localizado próximo às escápulas e aos rins. por sua vez. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase. de Fisiologia. morcegos. Neste tecido os ácidos graxos. a UCP1. 2005). Assim. o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias.. Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col.. Branco e col. 2007). Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. Este último.). Os mecanismos de ganho. enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal. 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. Como já discutido anteriormente. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab. derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos. geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes.. 2007). é de especial importância para os animais de pequeno tamanho. 2005). 1998. também chamada Julho/2010 Pág. 2005). anfíbios.. a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial. a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col. ratos. como não há trabalho mecânico. répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção.. uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col. os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col.Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia.com Conforme visto no capítulo anterior.. Como já mencionado no capítulo 1.

equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães. o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall. 2007). A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. principalmente autonômicos. No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. 248 Julho/2010 . os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica. Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. ovelhas e aves).. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig. sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos. 1997). é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase.Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP.. como visto também para ectotérmicos. Figura 1. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. gatos. Por fim. denominada área pré- Pág. 2004). 1).

segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006).jpg). febre e anapirexia (Gordon. Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie.. A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. Por outro lado. Bícego e col. Figura 2. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura. hipotermia. Boulant. 1992. estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais). (http://healthysleep.Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. Ainda. hipertermia. 1998. isto é. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal.Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO). 249 . quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. diz-se que ele está em eutermia.med. além de termointegradora. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia.edu/_i/198. o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal. 2007). Para a manutenção da eutermia.. já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais.harvard. a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. 2001).

Por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados. Dessa forma.Esquema de três estados térmicos: eutermia. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. tontura. 2005). Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local. temperatura crítica superior. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. a ZTN para humanos adultos nus. Figura 3. a energia extra é empregada para manter a eutermia. nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. consumo de O2. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. Tc: temperatura corporal. vômito e diarréia (Branco e col. Porém. respectivamente. ou choque térmico. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. VO2. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta.. temperatura crítica inferior. 3). TCS. dor de cabeça. a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. hipotermia e hipertermia. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. TCI. resultando nos estados de hiper ou hipotermia. 250 Julho/2010 . que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. exaustão. geralmente. na hipertermia severa. · Na hipertermia moderada. 1998). quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN. Assim. Entretando.

. O aumento na produção de energia térmica. por outro lado. podendo levar o indivíduo ao coma. lesões no encéfalo.. Don e col. Maloney e Gray. aves (D'Alecy e Kluger. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa. 251 . Febre A febre. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col. pois podem causar desidratação. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC. 1993. Veremos a seguir quais são essas situações e porque. durante a anapirexia.Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora. 1994). é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. Steiner e Branco. dentre outros prejuízos. 2001. alucinação. Bicego-Nahas e col. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos. Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. delírio. em decorrência do desenvolvimento da febre. porém devido a falhas no sistema termorregulador. répteis (Hallman e col.. 2000) e peixes (Reynolds e col. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia.. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. 1991). decréscimo da frequência respiratória. a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. Nesse contexto. nestes casos. como mencionado anteriormente. Macari e col. 2002).. é um aumento regulado da Tc. 1990. Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos. 2005). Na febre. 1977. mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. idosos e subnutridos. mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon. 1976). anfíbios (Kluger. 1998). A hipertermia. convulsões. 1991) e. A resposta febril é uma reação complexa.1975. além de Julho/2010 Pág. amnésia. é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda. enquanto em um ambiente com Ta alta. pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia. dentre outros. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger..

Dessa forma. 1998). A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e. que por ser conservada ao longo de tantos anos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger. Marnila e col. No caso da febre. 1991. Pág. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente.. 252 Julho/2010 .. 1991). Figura 4. o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta. 4). uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais. Kluger e col. como já abordado. deve conferir benefícios aos organismos (Kluger.. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. 1991. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger.Esquema de um gradiente térmico. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. Kluger e col. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável. Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais. De fato. 1998). 1995.

Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores). Anapirexia Anapirexia. Matsuda e col. Por fim.. Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. 2005).b). principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger. 2005). 1997a. apesar de bem definida. estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. estes são fagocitados por células do sistema imune. diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia... 1998). Fabricio e col.. 1996). 1992. IL-6. IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril.. IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG). peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. Essa nomenclatura (anapirexia).Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col. lagartos.. Julho/2010 Pág. 1991.inclusive humanos -. Blatteis e Sehic.Metablismo Figura 5. é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica. TNF-α. Em contrapartida. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos . 1994. Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos. 253 . segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”.

2000. 1981. Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico. De fato. para a produção de energia na forma de ATP. 2001). contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. 2004). Gordon. anemia. Wood. contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. ou anapirexia. envenenamento. Reissmann e col. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. 2002). isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. consequentemente.. 1997. seja por exposição ambiental (tocas. Com todos esses benefícios associados à queda da Tc. 1997. 1991. Steiner e Branco. 2001.. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. Gordon. 254 Julho/2010 . Gautier. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. 1992). acidentes vasculares encefálicos. O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004). como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco. é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. 1985. dentre outros (Bao e col.. Gordon e Fogelson. Barros e col. a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood. Sendo assim. pois diminuem respostas altamente custosas. pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. Então. 2001). Malvin e Wood. o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante. 1998). 1985. altas atitudes. Holzer e col. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág. 1995. etc) ou por insuficiências cardíacas. No entanto. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. 1992. Wood e Stabenau. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. 2002).. 2001. respiratórias e/ou metabólicas. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. Durante a anapirexia. cirurgias cardíacas e traumas cranianos.. Kline e col. isquemia. camundongos. mesmo que localizado e passageiro. 1995. traumatismos cranianos. 1997. um aumento na sobrevida de ratos. 1995. como em casos de hemorragia. facilitando assim a recuperação do indivíduo.. mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. entretanto. além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. Dessa forma. Wood. 1996.. Hicks e Wood. Malvin e Wood.

na APO. Entretanto. tais como infecção e hipóxia. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. também na APO. 2009). E.. assim como acontece na febre. os receptores mi e delta. Paro e col. evidentemente. 2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. Por outro lado. Scarpellini e col. a serotonina. Julho/2010 Pág. 255 . 2005. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. Steiner e col. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições. ou seja.. Ainda. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico.. os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim. A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. Como pode ser notado. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros. 2002b). Gargaglioni e col. levando à queda da Tc. que essas alterações. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental.. GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc). Em suma.. Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica. respectivamente. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. Deve ser lembrado. contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. Dentre estes estão a dopamina.. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. 2003). 2000. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal. para serem benéficas. 2009). a anapirexia. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col..Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica. 2001). a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. 2002a. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col. serotonina. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 256 Julho/2010 .

sono e anidrobiose. 2003). uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica.. em muitos casos. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. que possibilitam. Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência. A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento. como nos casos de estivação e hibernação. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação. sobrevivam à escassez de água. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. A depressão metabólica é. incluindo anuros. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. Na maioria dos casos. dentre outros eventos. sem acesso ao ar atmosférico. para determinadas funções. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. como mencionado acima. portanto. peixes e caramujos. mas com apenas algumas horas de duração. A estivação possibilita que muitos animais. Carey e col. Ciclo Anual Julho/2010 Pág. mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e.Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian. temperatura e umidade. ou ótimas. a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. tais como fotoperíodo. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia. 257 . ou dissociada da dormência sazonal.fisioib@usp. 2004. como no torpor diário.

quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades. seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos. a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. como na maioria dos casos de hibernação e estivação.. 2000. mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados. 258 Julho/2010 . mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. 2005).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. ou ambos. indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. antes que a ingestão de alimentos diminua. A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. Esquilos. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. E uma diminuição da TMB já no meio do verão. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. 2005). Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. Desta maneira. dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark. Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. 2005). uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. 2004). Dark. o armazenamento de substratos. Meses antes do estresse ambiental. por exemplo. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e. desta forma. 1974). que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. provavelmente por um mecanismo central. dentre outras respostas. 2005). Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante.

.Metablismo adiposidade do animal. Niewiarowski e col.. das frequências cardíaca e respiratória. 2001.. 259 . os níveis circulantes de leptina são menores no outono. que apresenta dormência sazonal. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col. as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito.. assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. 2000. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. Já em marmotas Marmota flaviventris. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. os efeitos e a estrutura da leptina. 2000. antes estudados somente em mamíferos. 2000).. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada. Spanovich e col. Recentemente. a secreção de leptina. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos. Neste animal. 2006). a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético. Neste caso. 2000). permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág. 2000). os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal... 2004). 2006).. 2000). A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col. embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col. ou seja. Neste mesmo animal. elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. durante a pré-hibernação. Entretanto. Paolucci e col. Em endotérmicos. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col. Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. têm sido investigados em outros grupos. Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo. No morcego Myotis lucifugus. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier..

Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia. a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. 260 Julho/2010 . Diferentemente da função cardíaca.. Storey. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. em grande parte. embora. portanto. a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. 2004). 2007).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. 200). Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. muitas vezes. Com base neste pressuposto. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. 2004). estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey.K+-ATPase. 2000). alguns processos fisiológicos diminuem. Ruf e Arnold. 2004. ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações. o fluxo sanguíneo renal. Nos mamíferos. bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). Esta semelhança. 1994. Pág. O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col. 2003). reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey. enquanto outros são totalmente interrompidos.. estes processos são retomados durante os despertares periódicos. Durante a depressão metabólica. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. que supre a atividade de enzimas como a Na+. Curiosamente. de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col..

2003). Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center. parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real. Provavelmente. Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005.. Em hibernantes clássicos como os esquilos. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO).. 2005). 261 . tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo.. 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão. Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. Dado o elevado custo dos processos de digestão. apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col. a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. 1). ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. embora a capacidade funcional do órgão seja preservada. Por outro lado. quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S). Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. 2007). 2003). Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições. de fato.Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. alguns endotérmicos e ectotérmicos. acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. assim como ocorre nas células dos hibernantes.. observa-se uma pronunciada atrofia do intestino. preservando a viabilidade celular. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col. Na depressão metabólica sazonal. Após 6 h de exposição ao H2S. absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col.

2002. duram menos de 24 horas. alguns anfíbios e répteis. 2004. Knight e col. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas... Na marmota. 2). Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col. geralmente. 2004). b) Primata lêmure Microcebus murinus. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida.. nos quais os animais acordam. a b Figura 1. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col. por exemplo..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC. Nestes casos. interrompidas por despertares periódicos que. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig. Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. 2000). Souza e col..a) Lagarto teiú Tupinambis merianae. 262 Julho/2010 . 2004). Pág. há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col. apresentada por outros animais.

evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1).Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. quando os animais despertam da fase de dormência. Souza e col. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência. Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. 263 . Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares. Em alguns mamíferos hibernantes. (Modificado de Heldmaier e col. a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2). Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. proteínas responsáveis pela transcrição gênica.. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar. receptores e transportadores de membrana. Neste momento. 2003. 2005). catalisada por proteínas fosfatases. provendo aminoácidos para a síntese de glicose. Na primavera. 2004). e a eutermia (4). síntese e Julho/2010 Pág.. com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. e na remoção desses grupos.. mas também para que o despertar seja bem sucedido. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. Ta representa temperatura ambiente. o rápido reaquecimento durante o despertar (3). catalisada por proteínas quinases. Em diversas condições fisiológicas. várias enzimas glicolíticas. como visto em capítulos anteriores. 2004).

264 Julho/2010 . Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. em parte. 2004). 2003). carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. De uma maneira geral. nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa. Em condições anóxicas.. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). 1990). Este complexo enzimático.3). preservados para utilização pelo cérebro. o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase. vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. entretanto. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. da formação de acetilCoA a partir de piruvato. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada. um tecido dependente de glicose. Para ilustrar como esta regulação acontece. por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. além de ajustes específicos. fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia. como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados. é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. consequentemente. já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. hexoquinase. principalmente. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. Durante a fase de dormência. Curiosamente. há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. Observa-se. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. no nível da expressão gênica. Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. 2004).

2004). inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente. de Julho/2010 Pág. Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial.. 2000). e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. A quantidade de lipase pancreática. A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase. alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas. assim como da lípase hormônio sensível. como a citrato sintase. Confirmando esta idéia. no coração do hibernante. 265 . primeiro passo da síntese de ácidos graxos. 2002). A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. Paralelamente. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. há um aumento da expressão da lipase pancreática.Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. 2004).

2004). que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células. triglicerídeos. aumentando a meia vida destas moléculas. HSL. Portanto. PPARα é um receptor nuclear. lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. durante a hibernação em mamíferos. (2000) na última década. As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição. a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo.. diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. estocagem e excreção (Storey e Storey. Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. TG.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. De Pág. 1997). Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. dada a inibição da síntese de proteínas. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. ativado por ácidos graxos. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. 2003). a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. 266 Julho/2010 . a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. Paralelamente. Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. o que além de contribuir para a economia energética.

consequentemente. 1997) e a inibição deste processo contribui.. Em um caramujo terrestre estivante.K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col. Face à redução das taxas de produção de energia. ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. 1987). 1998). Hulbert. 2003). 267 . dissociadas de efeitos da temperatura.. tanto passivo através de canais iônicos. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col. animais menores possuem membranas mais insaturadas e. as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios. de forma significativa. para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col. embora a atividade da Na+. 2007). Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos.. A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e. 1980). alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal. Adicionalmente.Metablismo maneira geral. A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. 2000. aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira. Na marmota. alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções. provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. dados não publicados). a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. durante a depressão metabólica. Curiosamente. quanto pelo transporte ativo. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold. 1998). evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. próximos à região polar. o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy.K+-ATPase. 2008). Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. A atividade da Na+. taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else. um hibernante herbívoro. provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea.

1995). a inibição destes vários processos. 1999). 268 Julho/2010 . embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. rins e fígado (Balaban e Bader. Adicionalmente. 1984. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos. No conjunto.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência. Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos. o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. a atividade da Na+. Por exemplo. Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand. MacDonald e Storey. Pág. com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons.

mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats. Neste período em que o trato digestório está vazio. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais.Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. Desta forma. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig. 2004). anapirexia. e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider. e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie.com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação. Deste modo. os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. hibernação e dormência). incluindo crescimento. febre. a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. quando a energia é escassa. as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo. os comportamentos relacionados à defesa territorial. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução. 2004). 269 . e a energia excedente é armazenada (Scheneider. Sendo assim. manutenção. 2004). Por outro lado. 1a). Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético. corte. Durante a evolução dos animais. 2004). Como já discutido. Julho/2010 Pág. quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento.1b). termorregulação e reprodução (Fig. Assim. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991.. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. 2000. Julho/2010 Pág. Kolar e Lodge. 1998. 1994. 1994. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. Tocher e col. Daszak e col. Galindo-Leal e Câmara. o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. predação. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais. Zachariassen e col. 1999). e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam. 1996). 2001.. redução da diversidade genética. parasitismo (Dukes e Mooney. 1996. Zuidema e col... 1992. 1997. Desse modo. umidade e vento. o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente. 2001). 1996.. Rodrigues. a fragmentação modifica as condições de luz. as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. juntamente com a ecologia. 2005). 1991. Navas e Otani. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema. Carey. 1999. Vitousek e col. evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos.. além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. 2001. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow. influenciando diretamente os microhábitats. por exemplo: competição.Metablismo e Merriam. temperatura. 1989. 281 . são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman.. Primack e Rodrigues.. 1991. 2007). Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas. A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento. uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col. Gascon e col. 1997). Drinnan. Bierregaard e col.. 2005). Além da redução populacional. Zuidema e col. 2005).

No ar. sendo prejudicial a saúde pública e ambiental. como por exemplo. a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. 2001). Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies. 2010). além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema. Pág. 282 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. essenciais para qualquer organismo vivo. Essa vulnerabilidade dos ecossistemas. por exemplo. A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. por sua vez. as quais modificam outras características da água. os poluentes podem promover a formação de ácidos. A poluição da água.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício.

bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. 2008). é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé. 2001. Mackenzie e El-Ashry. 2005). É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. alteram o pH do solo e de corpos d’água. 283 . Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas. Wells. Buckeridge.Metablismo que por sua vez. Tal equilíbrio é. 1987. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar. Angilletta e col. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. 2007. 2009). Sampaio e col. indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. A análise integrada da variação fisiológica. 2007 – AR4). 2008). 1998. ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos.. e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. podendo ser extintas. a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. 1993) e plantas (Hinrichsen.. 1986). 2008). observamos a elevação de 0. 2002). Blaustein e Wake. 1988). aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. 2008).. As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col. 1989. podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar.. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. Diante desse cenário. France e Collins. 2008). É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. favorecendo. 2007.. 1995. em diferentes níveis de abordagem. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. das queimadas (Sampaio e col. mais uma vez. Mangum e Hochachka. reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. Além de alterações na temperatura. através do conhecimento sobre a história natural das espécies. No Brasil. Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente. De natureza multidisciplinar. por conseguinte.. também.75% da temperatura média no Brasil (Marengo. Como conseqüências dessas ações. da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. 1990. Sampaio e col. 1992. temperatura e correntes de água (Carey.

Diante da introdução dos poluentes. 1999. 2007). Barbieri e col. somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. 2005.. Nagy e col. Wikelski e Cooke. Hopkins e col. Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. da asa ou de outros apêndices) em tempo real. se possível.. 2005. 19991. Beyers e col. 1991. 2003). a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman. comunidades e ecossistemas. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. 2006.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. 1997. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. batimento caudal. 2005). além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. Carey. 2000). 1999. a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. 2006). 2001). taxa opercular. mesmo que indiretamente. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods. além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. 1995. 2000. Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo. DeAngelis. Costa e Gales.. 2006). O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. Wikelski e Cooke. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. temperatura corpórea. 1998.. 2006). 2002. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. Zachariassen e col. Dentro desta perspectiva. os princípios. como por exemplo: a biotelemetria. Navas e Otani.. 1991. Zachariassen e col. 19991. 1995). reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa. Carey. 284 Julho/2010 . assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores. Carlisle..

1994. podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies. Neckel-Oliveira e Gascon. determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental. Barbieri e col. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais. Em suma. 1998. Rowe e col. Porém.. Rowe e col. podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka. Somero. Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. 1998). possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. por exemplo. Drinnan. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. 2007). 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. 2006). Wikelski e Cooke. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. 285 . a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. capacidade natatória. Zuidema e col. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. 1995. mais a longo prazo. Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação. Calow. 2002). 1991. 1991. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. 1999. 1998. 1996. 2005. de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey. 2007). Rowe e col. Julho/2010 Pág..Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. 2005. Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. 2004). Através desses dados.. 2004).. 2003.... Além disso. 2000. 2001). taxa de crescimento. Costa e Sinervo. 2006).

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vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia. Neste capítulo. ao longo deste capítulo. Neste contexto. . endócrino e imune. distantes do seu centro de origem. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. Adicionalmente. ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. será intensamente discutida neste capítulo. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. Em relação à neuroendocrinologia. veremos. Os sistemas biológicos: nervoso. que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. fisiológica e anatomicamente interligados. mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. visto que. Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6.br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. estão. os sistemas nervosos e endócrinos. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental). como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). a importância dos estudos em fisiologia comparada. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. em especial a neuroendocrinologia. interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo. Desta forma.Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. em invertebrados (Unidade 7). a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso.

Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág. 348 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra. 305 Pág. 300 Julho/2010 . 323 pág. 337 pág.

5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág. 301 .Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág. 302 Julho/2010 .

Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág. 303 .

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 304 Julho/2010 .

processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. Segundo Zohar e colaboradores (2010). este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. 2010). até que. também denominados de hormônios. que estão submetidas a diferentes condições. pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar. assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris. sua estrutura Julho/2010 Pág. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes. ou glândulas de “secreção interna”.. O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos. Norris. sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. Inicialmente.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. o entendimento do sistema endócrino.br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. conhecida como fisiologia. 2007). 2006). Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). 1992. a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos. o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col. ou seja. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. Já a neuroendocrinologia. 1954). é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. Esses produtos de secreção. 2007). Adicionalmente. 305 . com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris.

apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. 2006. analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária. numerosos hormônios são sintetizados. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. ou neuro-hipófise (NH). De uma forma geral. 2002). que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). Norris. 2006. 1973). em peixes. Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. é o hipotálamo (Withers. 306 Julho/2010 . 2006. Norris. o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. Outros estudos posteriores a esta época. 2007). 2007). as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. Fisiologicamente. forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. Em relação à hipófise. cerebelo. este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. Berne e Levy. vários tópicos ainda permanece incertos. e tronco encefálico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. 1966). 1992. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág. 2007). Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. atuando na recepção. Fisiologicamente. integração e no redirecionamento de sinais. mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos. 2007). a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. apresentaram pela primeira vez. Já em peixes. 1998. que extratos encefálicos. o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. Guyton e Hall. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. neuroendocrinologia é um assunto mais recente. 1998. Para melhor compreensão do eixo H-H. olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. Norris. Anatomicamente. ou adeno-hipófise (AH). em alguns casos. 1992. pois. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. Norris. passados aproximadamente 35 anos. ou seja. um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. sendo que. Guyton e Hall. e hipófise posterior. Neste sentido.

o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais. Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal. Adicionalmente. Burgus e col. cuja estimulação/secreção. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. 2002.. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. 2004). 1972). Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula. 1971.. abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade. 307 . foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. entretanto. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios.. Originalmente. Levando-se em consideração apenas a reprodução. Desde então. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col.. 2006). de lampreias a mamíferos (Guilgur e col. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários.. é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. 1983).Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág.. no entanto. 1998). Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy. alguns anos depois. Lethimonier e col. Tabela 1. 1973). 1998). o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas.

09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. 2)... em anfíbios (Conlon e col.. que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col. Tsai. 2005).. 1991b). em répteis (Lovejoy e col... pois. foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008). Whitlock. A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback). 2008). Essa variedade de formas de GnRH. Guilgur e col. duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie.. 2004). em peixes teleósteos (Sherwood e Adams.. 2006. podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy.. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col. Pág. 2006). 2002. em elasmobrânquios (Lovejoy e col. além disso. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas.. 308 Julho/2010 . entretanto. 1998). todas as formas são decapeptídeos. uma vez que. 1993). 04. exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. elevação do segundo mensageiro. 1998). relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower. estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos. ou seja. 2005). 2002) e Aplysia californica (Zhang e col. em aves (Miyamoto e col. 2003). 1991a). É importante salientar. faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col. Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. Em geral... mas em geral. são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados). cuja função ainda é especulativa e uma outra forma. que possuem doze aminoácidos e. as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11). 2004. 2002). 1984) e em mamíferos (White e col. ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col. que por sua vez. e estes. Em mamíferos.. também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH. 2005)..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. como por exemplo. 1993). a liberação de GnRH. os aminoácidos número 01. o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). a ativação da fosfolipase C. 2) (Weltzien e col. Segundo Sherwood e Adams (2005).

outras complexas interações de sinais neuronais. 309 . Sherwood e Adams. pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. (2002). Adaptado de: Iwakoshi e col. entre outros. que por sua vez. Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos.. que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro). o ciclo de claro e escuro (dia/noite). influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz. 1997). tem sido identificadas em peixes. mudanças de temperatura. Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. Adicionalmente.Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. a kisspeptina. são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. Guilgur e col. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. semelhantes. (2006). 2006). As formas de GnRH grifadas em cinza. (2005). estariam atuando nesta modulação do GnRH. Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas..

Desta forma. e agora. as possíveis células alvos. Os hormônios hipofisários em mamíferos. E ainda no ano 2000. 2004). veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). ou hipófise posterior. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. Em geral. e são armazenados e liberados pela NH. se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. a NH. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. 2006. denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. 2007). Berne e Levy. A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. inibindo a liberação de GtHs. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. 2006. Berne e Levy. a neuro-hipófise (NH). as células tireotrópicas. são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. Já na AH. como observado para os hormônios hipotalâmicos. 1998). pois através deste sistema. A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. a adeno-hipófise (AH). Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. quando foram descobertos. a sua natureza química. as diferentes formas (quando for aplicado). o mecanismo de ação. de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. Desta forma. 2009). as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. i. há uma zona intermediária. Embriologicamente. sistema este. que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina. 1992. controlando as funções de suas células. Norris. 2006). que produzem a tireotropina (TSH). Guyton e Hall. ou hipófise anterior. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. 1998. 310 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. 2008). e entre essas duas partes.e. foi discutida resumidamente. a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. as funções dos hormônios Pág. que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos.

a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH. sintetizado pelas células tireotrópicas. Já a ocitocina. relacionado também com o metabolismo corporal. Em relação à AH. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos).1. atuando principalmente nas gônadas. a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. Berne e Levy. mas também apresenta um papel nas contrações do útero. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall. carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. 2006. também conhecido como arginina-vasopressina. produzido pelas células corticotrópicas. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy. 1998). os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas. estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. 311 . O TSH.). é um hormônio. cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina. 1998). conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. estão diretamente relacionadas com a reprodução animal.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH. progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. é um hormônio glicoprotéico. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH). Tabela 3. As células gonadotrópicas. é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). T3). cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. O hormônio TSH. que são hormônios glicoprotéicos. por sua vez. que sintetizam o FSH e o LH. ou seja. ou seja. sintetizado pelo hipotálamo. T4 e a triiodotironina. o hormônio ACTH. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais.

é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). Figura 1. Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos. já a PRL. O GH e a PRL. a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. (1998) e Guyton e Hall. participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite. uma abordagem geral em peixes se faz Pág. Neste caso. são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. (2006) e Berne e Levy. O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS). em humanos. além de atuar no metabolismo. ver as revisões de: Guyton e Hall. 312 Julho/2010 . Neuroendocrinologia em peixes Em geral. Modificado de Berne e Levy. mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. (1998). A combinação das tabelas 1 e 3. incluindo especificamente. a neuroendocrinologia em peixes. o aumento da síntese protéica. Adicionalmente. (2006).

por exemplo). desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio. 1998). os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. 1969. 2003). 1990). apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. Moyle e Cech. comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. 2002. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes. Vazzoler. morfológicas. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies. contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson. 2006. 1999. percepção sensorial e reprodução (Hoar.1. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). 2004). seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa.. Moyle e Cech. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas. Desta maneira. ou seja. com esse grande número de espécies existentes. 313 . Lowe-McConnell. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton. ZavalaCamin. a desova total ou a desova parcelada). Hochachka e Somero. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva. a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. 1990. Zavala-Camin. essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton. ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. Em relação à sua distribuição. Além da importância como fonte alternativa de alimento.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. 1996. 58% são marinhos. osmorregulação. 1990. as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. Moyle e Cech.). São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos. nutrição. 2004). 2003. 2003. Em relação à reprodução. flutuação. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2. anatômicas. Wooton.

Pág. 2006. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais. 2005). O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior. sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col. A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col. o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. 2010). 2005. 2006). ao contrário dos mamíferos.. Sherwood e Adams. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower.... 2005). como por exemplo. González-Martínez e col. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH. 2006. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col. sendo: cGnRH-II (chicken II)..... As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes. está relacionada especificamente com a reprodução.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva. Guilgur e col. 2005). Guilgur e col. em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas. 2003. 1997).. 2010). 2002). para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. Pandolfi e col.. foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col. 2002). em algumas espécies de teleósteos. também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col. Já a segunda ou terceira forma. 2006. 2002. 2004. 2004.. Entretanto. 1994. entre outras formas (Lethimonier e col.. Zohar e col. sendo que. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral).. Zohar e col.. Zohar e col. 2010). 2004. Zandbergen e col. Dubois e col. Guilgur e col.. em Siluriformes. Com isto. ou seja.... Guilgur e col. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente.. no qual.. ou seja. como por exemplo. que em teleósteo. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. ainda são discutidas na literatura especializada. Pandolfi e col. 2004. Neste contexto. os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada. 314 Julho/2010 . 2004. o comportamento reprodutivo. em peixes teleósteos.. 2002... tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col. 1995. 2006). como por exemplo. Guilgur e col. para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas.

por exemplo. Neste contexto. no catfish africano. foram identificadas estas duas formas de GnRH. entretanto. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. 2001). apenas duas formas de GnRH foram identificadas. Portanto. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária. a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. 1992) de catfish africano. ainda não é bem compreendida. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa). possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro. Adicionalmente. 1993) e de encéfalo (Bogerd e col. 2006). são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos.. sendo que. 1997). 1997). neste grupo. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas.. em extratos de hipófise (Schulz e col.. em vários teleósteos. Agulleiro e col. 1995. alguns estudos apontam que.. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. 1994. Dubois e col.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos. Desta forma.. na região da NH. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. 315 .. o que veremos a seguir. Somoza e col. nos teleósteos Julho/2010 Pág. Entretanto.. identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares. 2004.. como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH). Hipófise em peixes A hipófise em peixes.. assim como em mamíferos. 1994. pois. em geral. pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. Goos e col. Weltzien e col. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. Neste sentido. 2004). 1995.. apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso. Em relação aos hormônios hipofisários. e provavelmente. como por exemplo.. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise.

melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower. segundo Kawauchi e Sower (2006). exceto a somatolactina.. Cinquetti e Dramis. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante). sendo que. características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. 2006. 2006.. 2004. também são identificadas na região PPD. conhecidas como células somatotrópicas. Kawauchi. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios. Neste caso. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). como por exemplo. a família prolactina/somatotropina. 2006). 2000). e em peixes. É importante salientar. este hormônio atua em vários processos fisiológicos. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). como por exemplo. Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. Kaneko. 2004). 2003. 2006). que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col. Kawauchi e Sower.. 1996). a arginina – vasotocina (AVT). os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col.. Takei e Loretz.. Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs).. Batten e col. 2004. portanto. 2006. Weltzien e col. Adicionalmente. Duarte e col.. Cala e col. as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. 2006). “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). 1996. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas.. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. o principal hormônio desta glândula é o cortisol. 1999. entre outros neuropeptídeos (Acher. 316 Julho/2010 .. Kawauchi e Sower. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados. que todos esses hormônios. 2006). que inclui prolactina (PRL). e a família dos hormônios glicoprotéicos. no metabolismo. hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL). Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). como por exemplo. a adrenocoticotropina (ACTH). Em geral. 1990. em teleósteos.. nos aspecto Pág. no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células. 2003. que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios. 2001. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. Weltzien e col. a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH).

Kaneko. 2006).. Cala e col.. ou seja.. 2003) e indiretamente na reprodução. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes.. Julho/2010 Pág. 2006. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. Mousa e Mousa. 1994). Kawauchi e Sower. são as GtHs. nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col. reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col. Kawauchi e Sower. Kaneko. Agulleiro e col. 1993. 1993. Kawauchi e Sower.. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo. que o papel fisiológico da PRL em teleósteos. 2006). 1999). Forsyth e Wallis. 1996. 1996. 1989 apud Mylonas e col. 1998). no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col. Em relação ao TSH.. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. Kawauchi e Sower. 1996).. 2000. desta forma. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos. 1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col. 2000. 2006). Em relação ao MSH.. 2003). Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes. Forsyth e Wallis. Johnson e col. As células produtoras de somatolactina (SL). na reprodução (Olivereau e RandWeaver. como por exemplo: no metabolismo... 1992. ainda continua desconhecido.Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col. Rand-Weaver e colaboradores (1991). 317 . 2006).. 1997. as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. também conhecidas como PIPAScells. além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col. osmorregulação. 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col. produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col. Kaneko. 2002. Cala e col. Mancera e Fuentes. 2000. 1996). Sabe-se ainda. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo. pois.. 2003.. 2006. e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. Vissio e col.. 2006). foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990). 1994. 2002.. 1997.. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. como por exemplo. 2003. o FSH e o LH.. Kakizawa e col. 1995. Adicionalmente.. 2003. Finalmente. Mayer e col. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos.. 2003). Kawauchi e Sower.. abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás.

Por outro lado. fotoperíodo.. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura. Em geral. Weltzien e col.. foram registrados. é controlada endogenamente por um sistema endócrino. em peixes. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos. Zohar e col.. possivelmente as chuvas. pluviosidade entre outros). 1998. Levavi-Sivan e col. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. Em várias espécies de teleósteos. liberação e fertilização dos gametas. Levavi-Sivan e col. Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. sabe-se também.. reiniciando o ciclo. esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. efeitos positivos.. entretanto. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig. maturação. Pág. são captadas através dos olhos. 2006. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes. 2010).. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução. 2) (Blázquez e col. Adicionalmente. precisam ser investigados mais profundamente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes. 2004. 318 Julho/2010 . 2010). pineal. Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col. narinas e receptores cutâneos. 2010. 2006). que sintetiza e libera gonadotropinas. a temperatura e. 2010. Zohar e col. alterações ambientais como o fotoperíodo.. negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. 1999. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. Falcón e col. que crescem e se tornam adultos. sendo que em geral. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo..

Imagens: Renato Massaaki Honji. 319 . Julho/2010 Pág. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto).Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur.

O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona. Pág. 1993. 2006). 1997). Cyr e Eales.20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH). podendo ser expresso em situações adversas.. O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes. na fase de vitelogênese.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. 2003). 2003). sendo os andrógenos.. Haider. entretanto. estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col. principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese.20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia. também via corrente sanguínea. que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca. Garcia-López e col. converte o colesterol em testosterona. 2000. 2004. desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais. Esta é transportada à camada granulosa. sendo. o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. como por exemplo. Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. 320 Julho/2010 . os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH).. Nagahama. como por exemplo. Assim. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. Nos machos. o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante. na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase. também sob influência do FSH. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva. A detecção da vitelogenina. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese. 1996.

principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. apresentam um bloqueio na reprodução. 2001). ainda pouco esclarecida. 2010. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais. pois neste ambiente confinado.. e raros em teleósteos de clima tropical.Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. considerando-se que as espécies de peixes de piracema.. Por outro lado. premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. Julho/2010 Pág. 2). quando são impedidas de migrar. Neste caso. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva. sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas. 2010). veremos no capítulo 32. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes.. estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies. para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. Adicionalmente. De uma forma em geral. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. pois. mas altera-se de alguma forma. fica evidente. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. por serem reofílicas (peixes de piracema). estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. Adicionalmente. Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. em operações de cultivo. Portanto. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. 321 . quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro. Taranger e col. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. Zohar e colaboradores (2010). 2010).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 322 Julho/2010 .

de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados. Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais.. gerando também assim. um ritmo biológico. que é conhecida como placa medular. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. A parte contínua do tubo neural. alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. 323 . chamado tubo neural. Neste contexto. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. 2002). no presente capítulo serão apresentados. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo. répteis e aves. Ao contrário. estão ao mesmo tempo em funcionamento. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. eventos futuros (Hickman e col. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. presentes e. Este processo evolutivo. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo. pelo menos em humanos. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. Desta forma. de uma faixa dorsal ectodérmica. na fase embrionária. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. no tamanho. 2004). Julho/2010 Pág. levou a consolidação de diversas capacidades funcionais. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo.br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. também denominado encefalização. mesencéfalo e rombencéfalo. composto por três vesículas primárias. sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen.

sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. não surpreende que o pálio. foi como o cérebro de grupos mais primitivos. 2000. certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr.. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. 2000). No local onde estas duas estruturas se encontram. o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. Em todos os vertebrados. neste momento. o tálamo (central). Sobre este mesmo aspecto. o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. o mesencéfalo não se divide. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. Assim. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr. Portanto. o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. descritas de forma geral para os vertebrados sendo. invadido por substância cinzenta. Assim. As diferenciações do diencéfalo serão. 2004). posteriormente.. O epitálamo é derivado do Pág. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. 2000). 2004). Hickman e col. Hickman e col. formando o total de cinco vesículas encefálicas. da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr. como o dos peixes e anfíbios. Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. 324 Julho/2010 . seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. 2004). Assim. e pela primeira vez em vertebrados. O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). 2000. e o hipotálamo (ventral). e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr..

Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr. dá origem ao cerebelo. que tem função na recepção visual. 2000. 2000. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo. No entanto. 2004). A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. mas também no dos anfíbios. como visto no capítulo anterior (Orr. como os tubarões. Hickman e col. foram. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. O hipotálamo. com exceção dos teleósteos. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. 2000. 2007. Estas relações primitivas do encéfalo. oriundo do piso do diencéfalo. 2004. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo. da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. Guyton e Hall. Norris. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo. possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. incluindo as funções de percepção do ambiente externo. o batimento cardíaco e o metabolismo.. O metencéfalo. na anatomia funcional. Adicionalmente. o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado.Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. 2004). a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. 2006). amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. Assim. na fase embrionária. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes. Hickman e col.. e o lobo posterior. em alguns casos. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr. 325 . é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração. 2004). contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. 2007). O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio. Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro. que inclui a glândula pineal. atuando como o centro de coordenação nervosa. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo.. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais.. Norris. 2000. apesar de extremamente fundamentais. Na parte dorsal. 2000. Hickman e col. Hickman e col. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. como comentado anteriormente. dorsalmente. além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais.

será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos. A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). 1) (Norris. aos hormônios e funções foi. atribuída a este grupo. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. 2007). o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. répteis e aves. a nomenclatura aplicada às estruturas. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. 2007). núcleos arqueados (ARC). e núcleos paraventriculares (PVN).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col. A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. núcleo supraquiasmático (NSQ). uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. 2004). pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA).. A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág. Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. A ME conecta. pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI). Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. primeiramente. Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. Figura 1. núcleos supra-ópticos (SON). 326 Julho/2010 .

por exemplo. a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). Julho/2010 Pág. estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). Outros hormônios hipotalâmicos. Quanto ao hipotálamo. o hormônio liberador de corticotropina (CRH). e a pars nervosa (PN). núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. Já a neurohipófise. Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. a prolactina (PRL). e que o sistema porta passa por ela. Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. hormônio de crescimento (GH). 327 . 2007). e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). mais anterior. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário. percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. hormônio estimulador da tireóide (TSH). estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. como dito anteriormente. 2007). seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise. É através deste sistema que. Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. sendo comumente em células distintas. embora não listados como hormônios trópicos. estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos.Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. 2006. O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa. região posterior. o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST). Norris. 2007). Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH).

a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies. Chelonia e Crocodilia. Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. aves e mamíferos. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. e de forma resumida. neste grupo. em anfíbios. a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. 2007). o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos. este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo. a PT é completamente ausente. entretanto. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. De forma. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. Através de seus prolongamentos axônicos. afetam células específicas não endócrinas. como os pombos e o pardal de coroa branca. a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. Em serpentes adultas. podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. répteis e aves (Norris. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. 2007). além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. Pág. répteis e aves Como dito anteriormente. Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. Em algumas aves. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. Nas aves. que por sua vez. os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. Ao contrário.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. como exemplo. é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. regulam outras glândulas endócrinas. diferentemente de todos os tetrápodes. de forma geral. modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. 328 Julho/2010 .

Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. 2007). LH. GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2. 329 . a hipófise e o alvo endócrino específico. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). mesotocina e arginina-vasotocina. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos. FSH. mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G).Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). por sua vez. Julho/2010 Pág. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. ACTH. que terá um pouco mais de destaque neste capítulo. Estes. O hipotálamo secreta RHs e RIHs. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. discutido no capítulo anterior.

nos vertebrados. 2006). O dímero. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados. por difusão ou por transporte mediado por carreador. resultando na molécula chamada de T4.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. Kistler e col. ou DIT. 2009). 2007). Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico. No entanto. promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall.. e da mesma forma como os esteróides. pouco solúveis em água. Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide. outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas. ser metabolizados no fígado e rins. 1975. 2007). conhecida como deiodinase. apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. têm sua produção estimulada Pág. portanto. os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. Adicionalmente. Normalmente. 330 Julho/2010 . Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos. Essa molécula é chamada de 3. Sechman e col. Primeiramente. respectivamente. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. formado pelo hormônio e o receptor nuclear. as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. Os hormônios da tireóide. 2005). que realiza essa conversão (Brown. Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT.5 diiodotirosina.. 2007. Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. Norris. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col. Assim. e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e. 3). atravessam facilmente as membranas celulares. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers. Normalmente. triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). o T3 é mais ativo. Brown e Cai. 2006. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO).. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. 1952.

Em vertebrados. 2007). na regulação do metabolismo (Norris. sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. Nakajima e Yaoita. 2006. 2005). desempenham função importante na metamorfose. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. desenvolvendo as criptas viliais. 2006). sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. o trato digestório. reorganizando a pele (Yoshizato. o sistema respiratório. 2006).Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. 2003. o fígado. as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário. Yaoita e Nakajima. o sistema imune (Rollins-Smith.. bem como na reestruturação de órgãos. Em anfíbios. 1986. ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. Figura 3. Ação do hormônio da tireóide em células-alvo.. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. 1996). o encéfalo e a medula espinhal. o Julho/2010 Pág. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3. 1997. na formação do sistema nervoso. Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. 1998). 2007). Norris. 331 . Brown e col. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato.

sauvagina e urotensina I (Norris. produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio. promove a produção dos esteróides sexuais masculinos. 332 Julho/2010 . Sechman e col. 2007). O LH. destacando a similaridade destas moléculas e suas ações. primeiramente testosterona. 2007). Estes três hormônios são encontrados em anfíbios. Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas. répteis. Em frangos. tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai.. 2007). Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. Wilson e Reinert. 2000). a somatostatina (SS). Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano. Desde então. o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. 2009). sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. nos machos. Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. O LH induz a ovulação. répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos. 1988. 1999. e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. Pág. e aves. entre outros trabalhos.. A liberação do TSH em anfíbios. uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). além da influência no metabolismo. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos).

o fator de crescimento insuliníco (IGF). Assim como em peixes. no entanto. tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. nos processos reprodutivos. 2007). Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes. e em mamíferos com a produção de leite. como cuidado parental. Além disso. A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. o comportamento. o metabolismo. Em répteis este hormônio foi pouco estudado. e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. A prolactina. em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH). Além disso. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. 333 . realizando assim a transferência de calor. é um mediador químico do sistema imunológico. o desenvolvimento e crescimento. este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos.Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. também pela produção de hormônios corticosteróides. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. estimula a nutrição. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico. no metabolismo. O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. ou somatomedina produzida pelo fígado. em anfíbios e répteis. e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. O MSH é Julho/2010 Pág. nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. Em pombos. além de seu papel mais tradicional. sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. causando o escurecimento da pele. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares.

anfíbios. Acher. alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico..I-R. 334 Julho/2010 . pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois. 2007). A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). Choy e Watkins. especialmente nos anfíbios Anuros. aves. Acher e col. 1). respectivamente. são muito semelhantes quimicamente. e da tireóide. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris. Entre estes dois os hormônios da PN.I-T.Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta. pois são capazes de produzir uma resposta. sanguessugas Gafanhotos répteis. O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene. 1996). Tabela 1. 1984. Nojiri e col.N-C-P-K-G-NH2 C-L. Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados. 1986. 1987. 1995. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina.I-R. a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla. segundos após a sua liberação (Licht e col.N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes. Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I. 2007). homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos.N-C-P-R-G-NH2 C-F. Estes hormônios são. acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab.. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida.

tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais. Além disso.. 2005. mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo. Norris. Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo.Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio). estimulando a reabsorção da água na urina. 335 . A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios. pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col. e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis. 2007). Julho/2010 Pág. na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário.

336 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. mas também interagem e modulem entre si. Nesse sentido. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. ritmos biológicos entre outros. apesar de manterem suas especificidades.mpf@usp. formar os órgãos. Julho/2010 Pág. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. 337 . percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. garantindo que não só operem na sua particularidade. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. Juntamente com o sistema nervoso. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos. Estes por sua vez. o processamento e a armazenagem da informação. dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina. crescimento corpóreo. Para que isso ocorra. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células. No Unidade 3 (Neurociências).br No decorrer da evolução dos organismos. porém. 2006). Está também associado ao controle da reprodução. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. tais como. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles. sobretudo as funções metabólicas. De maneira geral. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo.

2002). Chesnokova e Melmed. 1B). 1977). Hoje. ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas. Já na década de 1970. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. injetados com glóbulos vermelhos de ratos. 1997). (1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. Figura 1. Animais controles. (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento. Besedovsky e Sorkin. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. 338 Julho/2010 . mas Pág. já se sabe que os sistemas nervoso. 1997. não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém.

Por ser um sistema difuso. 2). 1997). 1997. como NO e prostaglandina. além de outros mecanismos. Julho/2010 Pág. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. Além desse contato direto. a produzirem mediadores secundários. a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC.. Assim. Frente a uma resposta inflamatória. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. 339 . Figura 2. tais como as células endoteliais. garante um grau de privilégio ao SNC. porém. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col. como as células endoteliais. Chesnokova e Melmed. a barreira hematoencefálica.. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas. 2006).Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. Além disso. Galea e col. 2002. que revestem o vaso sanguíneo. permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais. 2006). essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold. Fisiologicamente. De fato. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. seja via sanguínea ou linfática. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC. células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo.

principal neurotransmissor do nervo vago. cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. 2009)... 1997). o SNC não apenas recebe. Rosas-Ballina e Tracey. 4. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. o fator de necrose tumoral (TNF.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. Resumidamente. A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. mediador inflamatório produzido por células imunes. Recentemente. existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC. 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos. 340 Julho/2010 . como o nervo vago. como por exemplo. 2009). levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold. Borovikova e col. 2007). Fig. Pág. Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1). Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. 3. as chamadas pró-inflamatórias. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada. Por outro lado. essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. Assim sendo. 2009). 2000).

A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. e cortisol em humanos. Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional. Como feedback negativo. Sucintamente. 341 . os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. modificado de Borovikova e col. Sternberg e Gold. conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse. VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F. 2009). o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune. 5. uma vez que caem na corrente sanguínea. 2000). A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico.Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. induzido por LPS (15mg/kg). SHAM: animais falso-operados. 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH). a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. 1997).. Julho/2010 Pág.

342 Julho/2010 . estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. quando o estresse é crônico. Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. 2007). Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório. tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. por meio de um reflexo eferente modula a função imune. modificado de Rosas-Ballina e Tracey. 2007). provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR). Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. caso contrário. Porém. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. Frente a um estímulo inflamatório. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. Pág. Classicamente. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. 2009). Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC. Durante uma situação de estresse. Este. inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas. modificado de: Pavlov e Tracey. 2006).

A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse.Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. 343 . através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. De maneira geral. classicamente. O hipotálamo quando estimulado. o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. 2002). Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. 2003). mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune. Além disso. Além de principal mediador do estresse. libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. sobretudo o H-H-A. 1997). a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. Como uma resposta de feedback negativo. Figura 5. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed. É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina.

projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. 1992). fígado. sobretudo na camada endotelial. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios. Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col.. Dentre suas propriedades cronobiológicas. sobretudo da camada endotelial. portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga. Assim. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col. 1999). 344 Julho/2010 .. Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col. O ritmo diário de melatonina no sangue. no prelo).. a resposta inflamatória deve Pág. a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col. A partir dele. placenta humana (Lanoix e col. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. tais como TNF. 2003).. leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário. Porém a integridade vascular. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos. em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col. 1993). A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central. trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col. o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia. Markus e colaboradores. 2006)... 2007). 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal. Durante a montagem da resposta inflamatória. No entanto. linfócitos humanos (CarriloVicco e col. rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col.. sendo responsável. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. 2004) e células do colostro humano (Pontes e col. Considerando o paradigma acima. 2004). 2007). onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite. 2007). como dito anteriormente.. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória.. Existe também a produção extra-pineal de melatonina. 2007). ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col. 2008) e células imunocompetentes.. Fisiologicamente. tais como a glândula pineal.. 2006...

visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col... 2007). Estudos in vitro. Em um segundo momento. Fisiologicamente. Além do mais. No entanto. Markus e col. O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina. 6. Em um segundo momento. células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col. visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido. 2009). 2009). 2007). demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais. Na primeira fase da resposta inflamatória. Figura 6.Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. Julho/2010 Pág. o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig. existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal. 345 .. citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina.. A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina.

assim como opióides.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes. Em casos de reposição da melatonina. A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. como uma doença. à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. e. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional. Tomaszewska-Zaremba e Herman. O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. O efeito de TNF e IL6. 7. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta.. estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). 2001. 3. 2009). os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall. A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. tais como testosterona ou progesterona. 346 Julho/2010 . De maneira geral. neurotransmissores. Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. 2009). Para manter a gestação até o final do seu período Pág. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. tais como baço e timo. hipófise e gônadas. Dessa forma. óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. Resumidamente.. catecolaminas. Tomaszewska-Zaremba e Herman. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. essas situações são revertidas. Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col. 2006). a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). portanto. e isso é garantido pelo sistema reprodutor. o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise. considerando a integridade dos organismos. Como visto anteriormente. seu papel funcional é comprometido. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. 2005).

. Figura 7. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman. a probabilidade de um aborto é aumentada. Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição.Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. Por outro lado. 2009). Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH. Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col. GABA. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. caso isso não ocorra. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável. Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. 2001). Julho/2010 Pág. assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais. catecolamindas. 347 . a ação de opióides. Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático.

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358 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

tais como Al. Entre os principais efeitos apresentados. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. Cu e Cd. . a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução. Zn. populações e comunidades. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. resultantes da exposição a alguns metais.br Em sua definição clássica. Mn.Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. que constituem a biosfera. a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”. além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág. 360 Julho/2010 . 381 pág. 395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág. 407 pág.Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 371 Pág. 361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap.

Sua massa atômica é de 112. 2000).. ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio. Julho/2010 Pág. Em geral. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. por sua vez. Por isso. dentro de limites. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente. então. levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col.Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail. a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado. Este metal é tóxico.com. Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. 2001). onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal. dúctil à temperatura ambiente. não são regulados. Dessa forma. estão associados com mecanismos bioquímicos. principalmente no fígado e rins. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo.40 gramas e número atômico 48. sendo encontrado em pilhas e baterias. de maneira geral.com O cádmio Os metais. como o cobre e zinco. não possuindo uma função fisiológica conhecida.. animais terrestres. 1975). tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais. como o cádmio e o mercúrio.oxigenio. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. É um bom condutor de calor e eletricidade. acessado em 02/05/2010).tabela. Metais essenciais. não reagindo com o oxigênio do ar e. está associado ao zinco. devido aos seus processos de detoxificação (Fasset. 361 . Os metais não essenciais. marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. que. rim e glândulas digestivas. geralmente.

Assim. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas.. o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas.. os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente.92 Å) do íon cálcio. marinho.. Ele ainda induz a produção de metalotioneínas. Ao longo da evolução destes organismos. Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo.. Monteilh-Zoller e col. dulcícola e terrestre. 362 Julho/2010 . para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col. com valência +2.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. 1999). estando presentes em diversos hábitats: estuarino. surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias. proteínas sequestradoras de metais. tegumento. acessado em 02/05/2010). seguida por sua eliminação pela Pág.udesc.. Assim. Além disso.. 1999). mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col.mundofisico.joinville. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos.br/PreVestibu. tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). 1999. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células.

Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio.. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos. a localização. 363 . Por isso. Quando animais de espécies diferentes são comparados. os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente. pois são filtradores. Contudo. e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. principalmente hemócitos. As células imunes. O que se sabe. indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos. nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal. atualmente. não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. Por ser moluscos bivalves. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça. como o cádmio. O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo. desempenham um papel principal na defesa do organismo. o sexo do animal e o tipo de tecido. causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. Julho/2010 Pág. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas.. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. 2001). por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida. Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde. o tamanho. 2005). a dieta. 1995).. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. Os antígenos estimulam a migração de hemócitos... 2004).Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. 1993). possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. Outros aspectos importantes devem ser citados. refletindo o grau de poluição a que está submetido. 1999). metais não essenciais.. a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada.. Em espécies particulares. 2000). Altas concentrações de cobre. 2001).

mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. 1995). podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. Já em Oncorhynchus mykiss. 2000).. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. 364 Julho/2010 . Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase. por isso. Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. Desse modo. especialmente na respiração e osmoregulação. principalmente crustáceos. Exceto o cádmio. a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente. como órgão responsável pela respiração. possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos.. as brânquias. e col. pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. 2005). Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. Pág. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água. ao entrar em contato com altas concentrações do metal. com a permanência dos animais em ambientes poluídos. assim como em células de brânquias. regulação ácido-base. com a exposição ao cádmio. regulação osmótica e iônica. alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos. que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. 2000). o número de hemócitos circulantes aumenta. Assim. Assim. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos.

provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo. Em anfípodas. a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias. o cádmio diminui o influxo de sódio. observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard. cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo.. 2004).. observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda. 2005). A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. aumentando a toxicidade do cádmio. e col. como o Na/Ca. 365 . Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares. 2005). Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. Em peixes. Em crustáceos.. envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio. O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio.. Além disso. 2005). Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas.. junções ou entradas transcelulares. 2001).. além de Julho/2010 Pág. e col.Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col.

enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág. Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos. porém há resultados contraditórios. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. No entanto. Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. 2005). Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação. e col. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. 1996). 366 Julho/2010 . Em crustáceos. Por exemplo. Em resumo.. além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas. embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo.

e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. No entanto. 1996). são fortes inibidores da anidrase carbônica.Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. comprovando a competição entre os íons cádmio. 1996). A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação. Estes metais. em geral. enzima responsável pelas trocas gasosas. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. principalmente em animais que estão em meios diluídos. 367 . cálcio e sódio. Quando há diminuição de salinidade. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades. 1996). encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores. muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. Julho/2010 Pág. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas.

Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e. Assim. talvez. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio. fatais edemas pulmonares. os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. Porém. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim. Desse modo. Nesta época. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão... às vezes. vitamina D. 2005). e várias interações entre cádmio. entre outros. esses Pág. 1975). Atualmente. associados a baixas ingestões de cálcio. estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos. sapos. proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal.. Em testículos. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd. Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente.. causando. A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. A doença era caracterizada por osteomalacia. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade. talvez o zinco. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. Seus efeitos foram encontrados nos rins. É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas. Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz. o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. os eventos. particularmente no rim. Nos rins. 1975). e formação de células cancerosas (Dalton e col. peixes. o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares. 368 Julho/2010 . 2005). 1975). como a resistência à corrosão. fígado e testículos. estresse da gravidez e lactação (Fasset. 1975). o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e. zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset. Assim.

Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). diferenciação e morte.. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. Além disso. o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. sendo importantes na regulação da proliferação celular. As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong. O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col.. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. o sexo e patologias renais (Fasset.. e col. 2000). Julho/2010 Pág. assim. 2000). Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap. quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset. 369 . 2000). o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong. desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong. Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. 1975).. Atualmente.. ou seja.. Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais. Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio. Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses. No fígado. Assim. e col. a idade.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. e col. proliferação celular. pois isto poderia estar relacionado com o fumo.. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio. Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose. o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual.. uma modificação na proliferação e morte celular. 1975). Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular). o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. 2000). 2000)..

370 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

. que permitem a Julho/2010 Pág. Nas águas não poluidas. Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox. 371 . 1999). 2000). 2000). como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. No entanto.Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp. Se. tanto através do meio em que vivem. 2006). formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas.. Fe. frequentemente com base fosfato. depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada. 2000). Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre. organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente.br Introdução Durante a evolução. ou por ligação com uma proteína detoxificadora. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade. Co. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. quanto através da dieta. 2000). Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. incluindo os definidos como metais pesados.. Metais de transição (Cu. salobra ou doce (Rainbow. os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. 1999). mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col. As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. Zn. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais. Metais traço.

Figura 1 . Abaixo da cutícula.jpg (04/05/2010). 2006). 2000). como funciona para entrada de químicos para qualquer célula. A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. transporte de oxigênio. bem como transcrição de DNA (Bury e col. músculo e intestino. http://resweb.Vista ventral de um crustáceo. neste texto (Rainbow. Brânquias Pág. 2000). Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal.. estabilidade protéica. A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares. absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo. absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados. e ação de diversas enzimas celulares.edu/sdunbar/students/epidermis_removed.llu.. hepatopâncreas. a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais. onde é visualizado estômago. “limpeza” de radicais livres. como as brânquias. que é análoga aos rins (Alcorlo e col. 2003). protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow. atuando ambiguamente na respiração celular. 372 Julho/2010 .

2004). as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida. Dessa maneira. as brânquias são cruciais para respiração. Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos.. Em animais marinhos. Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos.jpg/250pxTuna_Gills_cut_out. as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. 2004).Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. essas alterações afetam a fisiologia do animal.jpg (04/05/2010). 2007). Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo. 373 . excreção. incluindo metais traço (Rainbow. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte. O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col. A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons.wikimedia. Para muitos animais aquáticos. balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen. http://upload. 2000). com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada. Julho/2010 Pág. como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias.

Já no citosol. Fora da membrana apical. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. tanto quanto atuam no transporte de cálcio.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo. (Rainbow. onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares.. (d) endocitose. Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. 2008. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática. Modificado de: Freire e col. (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica. Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág. mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. 374 Julho/2010 . 2000). bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática.. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos. 2005). cádmio e cobre.

o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos.mec. Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos. A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial. proteínas transmembranas. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular.es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort. implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral. incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial. demonstrando o glicocálice.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular. O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col. 375 . (http://recursos. 1999). No entanto.2002). as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood. celular e tecidual (Yang e col. 2007). incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos... No entanto. lados hidrofílico e hidrofóbico. O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas.cnice.

Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão. Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade. Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow. Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. Desse modo.2002). 2000). e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág. (Rainbow. os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col.2002). (Rainbow. sendo sensível ao sódio. A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase. O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. então a água entra osmoticamente (Rainbow. (b) segunda pela tomada continua de cobre . particularmente nas brânquias e no fígado..2002). 2000). 1999). como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. 2000). um dos caminhos de tomada. Dependendo da concentração de sódio no ambiente.. No entanto.2002). o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow. 1999). 2000). Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1. uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L). a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente. 2000).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. aparenta ser através de canal apical de sódio. uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood. 376 Julho/2010 . em relação ao meio. e desse modo. sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. posteriormente potencializando a entrada de metais.

De todas as concentrações testadas de metais essenciais. 2000). como acúmulo interno negligenciável. retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col. 2007). Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág. Zinco O zinco é homeostaticamente regulado. Então.. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa. 1998). o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória. Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes. mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col. o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. ATPase basolateral ou em ambos (Wood. O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. No entanto. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes. as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang.Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang. Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood. Para a fase aquosa do zinco. 2007). tanto pela água quanto pela dieta. Em peixes. talvez em um nível mais preciso do que o cobre. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais.2005). em todos os casos.2002). Geralmente..2005). 2007). Em ambientes poluídos.2002).. seqüestro e regulação (Yang e col. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco. cobre e zinco produzem hipercalcemia. De acordo com o tempo de exposição.. em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood. 377 . as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal.1992). Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação..

A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. 2000). incluindo reparação dos danos celulares. O zinco também é abundante nos sedimentos. por exemplo. e assim na diminuição da performance respiratória. 2000). O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados. 2006). Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. incluindo controle do fluxo metabólico. 2000). A lagosta. 2001). Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. 2000)... aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação. A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos.. Pág. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. absorvendo pela superfície branquial. Já a longo prazo. mudanças compensatórias. Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca. 378 Julho/2010 . A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col.2005). é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes. ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. 2004). consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos.

2006). A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio.. 2002)..1992). transporte por canais de proteínas. gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. da poluição por metais pesados (Yang e col. A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. 2007). 2006). Mas por outro lado. Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. 2006). respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow. a metalotioneína.. a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons. 2000). Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. ou seja. difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col. Na membrana basolateral. Além disso.Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood. uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário. mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col.. o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall. 2006). independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio. é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas. Em organismos expostos a metais pesados. quando os níveis de metal estão muito altos. 2000).Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. 2007). 379 . desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood.

380 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

). nutrição. justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial. sendo assim. frente a alterações antrópicas no meio ambiente. 381 . A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. 2001). as ações antrópicas são muito evidentes. sendo que. O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais. 2006. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col.br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág. antagônicos. No ambiente aquático. 2006). indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke.Rocha Oliveira Vieira Lab. respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos. 1998). relações térmicas. sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional. Mozeto e Zagatto. Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. 2006. 2006).Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares. metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo.

Apesar disso.. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado. zinco (Zn). tais como sua forma química. existem metais como chumbo (Pb).. 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados. porém os efeitos deletérios sobre as populações. considerado micronutriente essencial.. Pág. 2002) mas. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. são os chamados metais essenciais. são importantes no metabolismo.. muitas vezes. e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001. ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col. cobre (Cu) e manganês (Mn). 2006). provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col. oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos. 1978. 2003). em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos. duração da exposição. (Chen e col. Camakaris e col. 1997. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos. Órgãos como fígado.. normalmente. os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas. idade e espécie do animal (Kostial e col.. MadsenMoller. 2004) e à poluição. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. 1999). são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. no litoral e rios próximos a centros urbanos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi. Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). em baixas concentrações. Metais Os metais. Wannaz e col.. Alguns metais. 2005.. 1994). via de entrada no organismo.. cádmio (Cd) e mercúrio (Hg). participando de processos fisiológicos. Van Ho e col. 1997. além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col.. 382 Julho/2010 .... por outro lado. 1999. 2003). 1997). 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo. estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone. 1998. Camakaris e col. McGeer e col. em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo. além disso. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. Celik e Oehlenschager.

O. SO-. Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase.1999. por exemplo. transferases. Lydersen.1994). fosfoenolpiruvato. 383 . age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. além disso. liases. Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. 1987). catalases e peroxidades. em seu estado divalente. 2004). de receptores excitatórios de glutamato.. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. H. Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune. proteínas e carboidratos. dos citocromos. 1990. 2008). O alumínio não é muito solúvel em água. apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. no entanto. mas em associação com outros compostos como. 1995). Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano. hidrolases. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col. descarboxilase e manganês superóxido desmutase. regulação de glicose no sangue e energia celular. as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree.Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês. Si. 1985). OH-. reprodução. pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. 1990a). Freeland-Graves e Llanes. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. F-. Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. lipídios. PO-. isomerases e ligases. glutamina sintetase.

A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares. Apesar de muitas semelhanças. agregação. torna-se rico em cargas positivas. 1980. pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta. 2008). este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. 1993). este metal se acumula nos rins. 1986).. fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. 384 Julho/2010 . os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. 1977). A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos. 1984). No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. Wilkinson e Campbell. pode ser encontrado em três formas: elementar. 1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. e o alumínio na forma de hidróxido. 2006).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. 1996). Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. inorgânico e orgânico.

Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína. Além disso.. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. 1988). 1994). 385 . Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. desde molecular ao ecossistema como um todo (Who.. Alternativamente a este processo. devem ser considerados como um critério de risco em si. os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. 1987). uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio. e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. Julho/2010 Pág. a entrada de vários metais. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. bicarnonato. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col. Pb. Zn. glutationa e bicarbonato (Foulkes. 1986). 1978). As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos.. grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. Cd. 1985). a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col. assim como no intestino. estas células acumulam eficientemente estes metais.Ecotoxicologia Aquática celulares. uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. tais como. células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. 1993).

rico em cisteína. finalmente. este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. 386 Julho/2010 . A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão. ácido ascórbico (vitamina C). 1993). que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. 1993). pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. possivelmente levando a inativação enzimática. 1992). São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares. são as metalotioneínas (MTs). Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH).. 1992. 1989a).. As atividades das enzimas antioxidantes. Lopez-Torres e col.. luz ultravioleta. danos ao DNA e.. e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col. peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). catalase (CAT). 1991). a morte celular (Winston e Di Giulio. 2000) Pág. Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. 1997). 1992). que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD). alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col. condições oxidativas. São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose). betacaroteno. Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas.. peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação.. que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col. anóxia. peroxidação lipídica (LPO). 1994). metais e xenobióticos (Sanders. Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. vitamina B.

como as transaminases. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese. 1995).. na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich. 2010).+ HO . Parâmetros imunológicos . deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág. O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos. Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. como revisto por Vos e col. no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col.. Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes. além disso. mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey. hemoglobina.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores. podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes.O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. como hematócrito. 1990. 387 . 1990.1993). Parâmetros reprodutivos e endócrinos. proteína e glicose. 1986).. Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos . Kasprzak. Os metais. Dix e Aikens.. O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col.. Apesar de serem menos específica.Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. A presença de enzimas específicas. 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg. como os sais de ferro. (1989). (Sole e col. Fe3+ + HO. 1997). 1994). especialmente reações catalisadas por metais de transição.Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas. outros parâmetros hematológicos. outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col.

II e III. 1990). ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais. 388 Julho/2010 .. 1995). localizadas principalmente no retículo endoplasmático. O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I. Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col. 1996). pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água. Pratap e Wendelaar Bonga. O metabolismo é. redução ou hidrólise da molécula original. que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik. A Fase I é uma alteração de oxidação. Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato.. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência.Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col. 1996). 1990). o composto ou os seus metabólitos. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard. A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase. liga-se a macromoléculas celulares. 1991).. um importante determinante da atividade de um composto. Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. 1992). Vermeulen. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente. Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores. pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. 1985).. portanto. Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo.. a biotransformação ou metabolismo. 1992. quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. 1998. mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. a longo prazo. Parâmetros neuromusculares .

. e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. estes. além da ocorrência natural e abundante.. As enzimas da fase III. 1990). Van Ho e col. 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad.. 2003. um açúcar ou aminoácido... mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col. Invertebrados Julho/2010 Pág. 389 . 2003). 1995).. são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki.. 2006). Macroalgas (Conti and Cecchetti. Mulder e col.. frequentemente um grupo químico polar. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis. Conti e col. esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células. Adicionalmente a isto. 2007).Ecotoxicologia Aquática a excreção. não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col. 1995. uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. 2001.. 1999). As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col.. estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd. 2003) e microalgas (Tripathi e col. (Bucheli e Fent. esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti. 2003) . 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente. Cu e Zn (Roncarati. 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos. peptidases.. 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados. 1995)..

Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais.. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col.. (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal. Partearroyo e col. 1996. O alumínio. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais. 1985). 1990). Além disso. por sua vez. Além disso. M. McGeer e col. e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram.. em um estudo com três espécies de bivalve (M. 2003). 1992). Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas.. 390 Julho/2010 . altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris. 1990.. houve um aumento no metabolismo aeróbico. Vários autores observaram ainda nas brânquias. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R. 1979a... perda de eletrólitos. Schlenk & Benson. como conseqüência. por exemplo. Bebianno e col. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. decussatus). 1984.(Howells e col. (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs. provoca acidose plasmática. no consumo de oxigênio que por sua vez. podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias.. 1993). foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT. inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág. 1992.b) e brânquias (Mouneyrac e col. M. 1992). Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. 2000. 1991. e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M. decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. Handy. Pelgrom e col.. Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma. 2001). principalmente Na+ e Cl. 1992. Olafson e col. Rosseland e col. R. galloprovincialis.. edulis. edulis.. hipóxia e hipercapnia.. hepatopâncreas (Viarengo e col.

A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS).. Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais. Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 2003. além disso. exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. 2000. Os disruptores endócrinos.. com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney..o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col. experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade. 2004). O mangânes tem sido associado a citotoxicidade. 2010). 2000). estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. 2005). já citadas anteriormente. Sanchez e col. em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col. levando ao estresse oxidativo.1998). 1997). 2001. vitelogenina. Goossenaerts e col. esta dependente de dose. 1988). especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree. Jiraungkoorskul e col. 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT). Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam.Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. 1988. 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga.. Ali e col. alterando as fosforilações oxidativas (Chen. mesmo em baixas concentrações.. 2000. 1993) e redução de progestágenos (Correia. gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col.1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas.. 1995). Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard. 2007). 391 . Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág.. disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics.. seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. Wong e Wong.Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann.. já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias. 1987). espécie e via de exposição (Wong and Wong. e col. Em truta arco-íris. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais. 1988.. onde este metal parece inibir o complexo I. Dautremepuits e col. lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col. 1995).

b.. inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento. Em adição. é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col. mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto.. 1995). 1991).. 2001). O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5. Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col. Freda & McDonald. 1977). 392 Julho/2010 . Devlin e col. 1985)..... apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col. a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson. Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col. 1984. reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber. os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col. 2003).. níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson. 1982). Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. 2001). 1990). 1998). 1998). 2001. Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento. 1997).. mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col.. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. 1978).. os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col. 1985a).. que são dependentes principalmente de água da chuva. 1997 a. 1991) e crônico (Hontela e col.

músculo e tecido adiposo de Caretta caretta. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. Cu e Zn em sedimentos. 1999. econômica e cultural. Burger e Gibbons. pulmão. Cu. Fagioli e col. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col. Dinelli e Lucchini. Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C. A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. 1995.Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. 1996. 393 . Fe.. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência. encontraram altas concentrações de metais pesados na casca. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991. Cd e Cu no pulmão.. Ni. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col... valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. E ainda. Mn. 1998). 1998. 1999. 1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. Manolis e col. Tankere e col. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. 2001. incluindo tartarugas (Caretta caretta. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado.. 2000.. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte.. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política.. mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis. (2006). caretta (Dinelli e col. da região do noroeste da Itália. Mn. 2002b).b). encontradas mortas. para completar. e Zn no fígado. 2000 a. 2000. Xu e col. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos. Sakai e col.

394 Julho/2010 . A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental. talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência. porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados.

não apenas na fauna aquática. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. má formação do trato genital. pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. Julho/2010 Pág. ou EDC). 395 . nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson.Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. principalmente na ecotoxicologia. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos.. inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. Dessa forma. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. 1999). infertilidade e tumores. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais.br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. sendo. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura. como por exemplo. Nesse contexto. É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. 2008). endocrine disruptor compound. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. ou ainda “disruptores” endócrinos. respectivamente. invertebrados e anfíbios. especialmente os envolvidos na reprodução. fitoestrógenos e metais. (do inglês. 2007). Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos.

como por exemplo. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como. moléculas de determinados hormônios. ou invertebrados. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. desempenham diferentes funções fisiológicas. e em última instância. por exemplo. Não obstante. torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. negligenciando representantes dos filos de invertebrados. Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. 396 Julho/2010 . a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. Isto é alarmante. levando em conta a importância ecológica dos invertebrados. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. 2002). 1996). não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. 1998). enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. por exemplo. necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law. 2002). sendo. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade. em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. semelhantemente para invertebrados. por exemplo. portanto. peixes e anfíbios. avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. 2002).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. considera apenas dados para animais vertebrados. Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. portanto. Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. Pág.

e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes. o desenvolvimento gonadal em mexilhões. (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista).1998). O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios.Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. tais como: o metal testado. 1999). Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos. com exceção de crustáceos e insetos. 2005). 1999). a concentração utilizada e o tempo de exposição. como por exemplo. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. estes dados são escassos.. Entre outros efeitos. afetando a reprodução e o crescimento. tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores. (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação. além deste efeito. possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). o Cd. a regeneração de membros. 397 . como Hg. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. pois pode ser absorvidos através de canais de Ca.. pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col. (2000) demonstram que vários metais pesados. sugerem que “metais pesados”. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col.. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica. o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. Julho/2010 Pág. 1999). Barata e col. (2004). para os invertebrados. O Cd. Cd e Zn) (Depledge. Cd e Cu induzem a hiperglicemia. tem efeito direto sobre crustáceos. Uma vez absorvido. podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. Metais. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. Rodríguez e col. Tratando-se de ecotoxicologia aquática.

contudo são muito sensíveis a diversos Pág. TG: gânglio torácico.XO: órgão X. OH: hormônio ovariano. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e. CHH: hormônio hiperglicemiante.. GSH: hormônio estimulador gonadal. ecologicamente importantes. AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina. 398 Julho/2010 . MF: methyl farnesoato. (Modificado de Rodrigues e col. espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental. de preferência. AG: glândula androgênica.Controle endócrino da reprodução em crustáceos . T: testiculo. outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. A. Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos. GIH: hormônio inibidor gonadal. MO: órgão mandibular. B: cérebro. SG: glândula do seio. bem como no local íntegro (controle). HEP: hepatopâncreas. Por exemplo. OV: ovario. 2007).Gl. Figura 1. de preferência apresentar dimorfismo sexual. Além disso. A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil. 2007). MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular.: glândula antenal. dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados.

decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. por outro lado. 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. 17α. 2004).Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido. Portanto. 2007). a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos.. Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos. o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. chamadas de gonadotropinas. Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. GTH – I e GTH – II. respectivamente. 399 . Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil. a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). Julho/2010 Pág.

como por exemplo. tais como a doença de Wilson. Pb. está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. Fe). Mn. o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA). O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. envenenamento por chumbo. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente. uso de medicamentos (Li. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina. 1998). 1995). 400 Julho/2010 . Um segundo grupo de doenças neurológicas. Pág. Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas.. Cu. respectivamente (Blazquez e col. ou seja. todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery.

2008). os dados ainda são controversos (Manzo. Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas.. 2007). 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. na regulação dos processos reprodutivos. Julho/2010 Pág. Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. a doença de Parkinson. efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo. 2007). lipídios. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos. Na verdade. doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. no entanto. como por exemplo.. 401 . e a esclerose amiotrófica. no metabolismo de carboidratos. como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col. a SOD manganês (superóxido dismutase).. sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col. Pb.Ecotoxicologia Aquática cisplatina. Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos. 2007). Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo. tais como a doença de Alzheimer. 2007). entretanto. por exemplo. cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. 2008). e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). Bi. logo Zn.

o glutamato e a dopamina. regulam o metabolismo de neurotransmissores. um estressor. que não se limita a estes países... putamen caudato. 1997). portanto.. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. independente da rota de absorção. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. Alumínio A exposição às altas concentrações de Al. 2002). esqueléticas. 2004). Em países escandinavos. globus pallidus.. imunológicas respiratórias cardiovasculares. cujos sintomas são bradicinésia. Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. Segundo Erickson & Aschner (2003). rigidez e distonia (Gerber. incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. como por exemplo. um íon metálico. particularmente os astrócitos. não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. No caso do alumínio. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos. substância negra. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório. neurológicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês. Algumas células do SNC. insuficiência renal avançada (Zatta e col. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. entre os quais estão alterações bioquímicas. Pág.. entre outras. mais especificamente em estruturas do gânglio basal. resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos. 2001). pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col. enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro. como o gaba. 1991). hematológicas. endócrinas (Campbell & Bondy. 402 Julho/2010 . a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. 1988). Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. assim como de Mn.. 2002). 2003). 2003). 2007). o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez.

pois influencia a hidrólise metálica. a polimerização. 2008). colóides e partículas. desde simples formas iônicas a polímeros.. O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col. Entretanto.. sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col. 2007). pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais. 2002). este metal. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas. a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith. Este metal não é muito solúvel em água. a agregação. íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides. pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo. em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col.Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. mas sim sob a forma mineral... 2008). A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido. 403 .. 1996). sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col. De maneira geral. 2002). O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. 2003).

Berg e col. o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col. o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col. Como nos mamíferos. No entanto. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. porém.. 1995. Vuorinen e col. apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. 2003). 2003).. portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). pois esse metal em pH 5. 1997).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col. o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH. 1996). ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. Atualmente. maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática. Nesse caso. 1987. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP. 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col. os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col. proteínas quinases (PK) (Méndez e col.. Na verdade.. Kime. 2005). é importante notar que Morrissey e col. 2000. 404 Julho/2010 .. 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 ... 2010). alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime. 1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi. 2004).. 1997).. 1988). 1998. Tam e col. Portanto. 2005). niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese.. Tam & Zang. sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido. Nesse contexto.. 2010)..one (17. também conhecida por MIS (do inglês. Como mencionado acima. o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col. Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma.5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . ou a expressão do LH. 1991. é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. após exposição aguda (96 h). responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α. 1988..20 P). Hwang e col.

1998). PKG (proteína Julho/2010 Pág. e a VTG quando transportada no plasma. 2007). o Glu é transformado em glutamina (Gln). 2000). são reversíveis. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado.. 1997). O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS). pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. consequentemente. Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col. possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al.. pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. e a Gln. Hwang e col. a fosvitina (Mugyia e col. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino. o glutamato (Glu). 1987). Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2. no metabolismo de Glu e GABA. (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. 2001). pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados. O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG. esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. 2002). e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar. por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. 405 . como o Zn. GABA e DA ainda não foi elucidado. o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. 2003).Sugere-se que o Al. impedindo a formação do complexo ER-E2. Este mecanismo foi sugerido para o Al. quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG.. deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. principalmente. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). liga-se a íons metálicos. Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. Por exemplo. por conseguinte. resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell.Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope.

sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar.. estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col. 2007). 2007). bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. 2005). 1996). FSH e E2 gonadal (Lee e col.adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos. 1993). o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col. Além disso. 406 Julho/2010 . ativa receptores α 1 . Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col. 2003). o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng.. 2005). O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE)... que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. no aumento da liberação de LHRH (Lee e col. Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas. 2007. 2006).. o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). 1994. estes resultados sugerem que. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados. 1996). A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T). Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág... sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH. Após isso. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias.. 2000). embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col. que por sua vez. assim. e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col.. No início da esteroidogênese gonadal.. LH e FSH (Stocco e Clark. Globalmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente. impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc. como por exemplo. 1993). o citocromo P450scc (side chain clivage). aumentando o cálcio intracelular (Ca2+). Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide. na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH. Experimentos conduzidos por Chang e col. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. Pine e col. 2005).

925. F.W. (2003). Devido à complexidade das mudanças hormonais no sistema endócrino. W. ainda não se dispõe de uma ferramenta eficaz para a avaliação integrada das respostas e da interação entre os hormônios e os contaminantes metálicos. como por exemplo.. ou indiretamente através de alterações no controle dopaminérgico da glândula tireóide (Soldin e Aschner. P. Ash.. Activation of the hsp70 promoter by environmental inorganic and organic chemicals: relationships with cytotoxicity and lipophilicity..J.. para trabalhadores (soldadores) no qual foi constatada uma elevação da concentração deste hormônio (Kim e col. e Lambre. Archibald. (1987).. Mandal.A... A dopamina é um modulador na secreção do TSH e os efeitos prejudiciais de manganês para os neurônios dopaminérgicos podem resultar em efeitos profundos sobre a síntese de hormônios tireoidianos. 439-452.Ecotoxicologia Aquática diretamente sobre glândula tiróide e seus respectivos hormônios (T3 e T4). Lipe. 366. Bibliografia Ahearn. 638–650. Brown. The use of red swamp crayfish P. S.. Ahearn.K. Science of Total Environment.A. Baltanas. D. M.. Adaptação do índice de integridade biótica usando a comunidade de peixes para o Rio Paraíba do Sul.A. 1-18... Newport. Aslamkhan. tais como a DA e o hormônio estimulante da tiróide (TRH) com a exposição ao Mn (Ellingsen e col. A. G. R. e Slikker. (2006). 547-558. R. P. (2000). J. G. A. H.. Neurodegeneration. não existem estudos que expliquem a relação dos hormônios que controlam a secreção de PRL. 2007). S. Revista Brasileira de Biologia. alterando a enzimas deiodinases (Soldin e Aschner. C. Porcher.M.. e Montes.C. 147-157. e Tyree. Crehuet.. G. C. Zhuang. 380-390. A. Os poucos dados disponíveis atualmente sugerem que o Mn pode afetar diretamente os hormônios tireoidianos.D. Otero. 407 . 145 (23). e Mandal. Jr. G. Manganese-induced reactive oxygen species: Comparison between Mn+2 and Mn+3.A.. Physiological Biochemistry Zoology. 4 (3). G. 2007). Journal of Comparative Physiology B. Manganese poisoning and the attack of trivalent manganese upon catecholamines. (1999). Duhart. 72. F.M. e Stone. Ait-Aissa. Mechanisms of heavy-metal sequestration and detoxification in crustaceans: a review. Embora a PRL seja um dos hormônios que são produzidos/controlados pela hipófise. 300. Z.M. Arrigo.F. J. Ali. Duerr. 2003). (2004). 58. clarkia as indicator of the bioavailability of heavy metal in environmental monitoring in the river Guadiamar. Toxicology.. Archives of Biochemestry and Biophysics. Julho/2010 Pág. Ion transport processes of crustacean epithelial cells. 256 (2). Alcorlo. Araújo. (1998).329– 334.S. A concentração plasmática de prolactina (PRL) foi utilizada como biomarcador no índice de exposição biológica ao Mn em alguns casos específicos. A question of dose. C. Science. (1995). 174. 2007). e Killebrew.

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