livro2010

 

Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

17 pág. 13 Capítulo 1 pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 2 Julho/2010 . Pedro Ribeiro e Dr. 09 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. 21 pág. 22 pág. 03 Capítulo 2 pág.

br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho. physics. Existem várias definições de ciência.camacho@usp. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). Deste modo. Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Segundo este método. os homens) e termos particulares (Ex. 3 . 3. estes elementos podem ser identificados e. 2. filósofos. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade. “scindo = dividir”. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”. Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. este está relacionado com o verbo. seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. Neste módulo. Nestas construções. mais ou menos completas. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo. existem termos gerais (Ex. tais como Aristóteles. Fisher. talvez pelo resto das nossas vidas. Desde séculos antes de Cristo. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex..Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. De acordo com Aristóteles. Bayes. Any specific branch of this general body of knowledge. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. ou lógica aristotélica. seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento.” Academic Press Dictionary of Science & Technology. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados. Popper. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. todos os homens Julho/2010 Pág. Vamos lá: No século IV a. Uma definição bastante completa é: “1. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). também latim. The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation. o mais confiável possível. espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. sobre a natureza. Underwood e Jaynes. empiristas e estatísticos. geology or astronomy. A continuação. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. such as biology. Bacon. c.

não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. Bacon. a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. Para Bacon. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. segundo ele. Segundo este autor. situações relativamente similares. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. Em 1670. Para Bacon. Desta forma. feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. entretanto. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). O sistema lógico inventado por Aristóteles. Para Popper. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. expressada em forma de probabilidade prévia. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Em 1620. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. Deste modo. O conhecimento gerado permitiria. nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. e isto afeta ao resultado final. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Outro problema é exposto na continuação. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. Segundo este método. durante muito tempo. fazendo com que esta determinação fosse. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. explicar de forma cautelosa. Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). Porém. este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. 4 Julho/2010 .

Julho/2010 Pág. citados por Lewin-koh et al. Em geral. Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados. predições ou hipóteses). relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. 2004). 5 . teorias. amostras. podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex. para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. Sober 1999 e Lloyd 1987. uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). Por isto. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex. Para testar as conclusões. modelos. 4) Testar empiricamente as conclusões. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. Na literatura. Assim. Apesar do problema lógico apontado por Popper. 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. Pessoalmente. Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. etc). durante sua apresentação de raciocínio plausível.

4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos. em lagartos. Imagine que queremos saber se. Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens. 6 Julho/2010 . morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág. 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 .Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento. 2008).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994). Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos. 2). Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies. Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950.

Para isto. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. tanto métodos falsificacionistas (Ex. Hoje em dia.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. Assim. a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Deste modo. poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta. na fisiologia comparativa.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. 2. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. Sob a hipótese de parentesco B. Entretanto. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). Por exemplo. Sob a hipótese de parentesco A. Você concorda com esta forma de proceder. esquerda). ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas. as espécies de cada tratamento são aparentadas. Por outro lado. os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. 7 .

Pág. 8 Julho/2010 . mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto.

1987). “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. mediante prévio pagamento. Por último.br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor. as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. 9 .). ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). Em são Paulo. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos.camacho@usp. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal. a solicitação de xérox ou arquivos ”. Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material. É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”. Google Acadêmico etc. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida. Zoological Records. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse. com artigos mais antigos. para ter certeza de que vale a pena respondê-la. Você sempre deverá começar com uma pergunta que. Julho/2010 Pág. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema. ou site do laboratório onde trabalha.PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira. É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters. Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. Biological Abstracts.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1. Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4. Ex. 1984). deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. Execução e análise das  observações 7. ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland. permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais. ou hipótese. 2004). desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam.Leitura e observações prévias 2. Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. 2004) (ou tal vez em uns poucos. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão. 10 Julho/2010 . enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. Identificação da lacuna de  conhecimento 3. Comunicação de resultados  e conclusões. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la.  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. 1984). Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. de maneira objetiva. Interpretação 8. Ainda. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Quadro 1. Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão. B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. Desenho das observações que respondem à pergunta 5.

Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. 2004). o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal. enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão. O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. concentração. 3. categorias). comprimento. peso. mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. 2004). As variáveis contínuas proporcionam mais informação. as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. 2004). como variáveis categóricas podemos citar cores. ou scatter plots (Magnusson e Mourão. Por outro lado. A) gráfico com fator categórico. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo. Exemplos de gráficos de dispersão. etc. não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. Podemos encontrar dois tipos básicos. 11 . gráficos de dispersão. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. Como mostra a Fig. sexo. Julho/2010 Pág. 3). tratamento.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 12 Julho/2010 .

compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Por exemplo. deveremos realizar observações que a respondam. 1984). repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial. a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. 2002). Para um cientista. 13 . Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo. compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta. Julho/2010 Pág. Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Entretanto.br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral. um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores. se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire.camacho@usp. Entretanto. No verificacionismo. um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes.

é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso. Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig. a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. que hipótese suporta melhor os dados). uma vez isolados possíveis fatores de confusão. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente. Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação.4). queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores). variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. Associado a este tipo de experimento. 14 Julho/2010 . maior do que o ruído. 4). Pág. em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações. houve /não houve diferença. Neste caso.

Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. vamos lá. mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. e como serão feitos os controles. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo. é importante neste caso!). de modo que faz com que seu valor esteja relacionado. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. se você pergunta a um(a) colega. as repetições são chamadas de pseudorepetições. decidir quantas observações serão necessárias. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”. Agora. 15 . na realidade. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles. Finalmente. Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. confiança e pseudorepetição. pseudorepetição e confiança. mas isso não acontece com as pseudorepetições. Por exemplo. Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. estão relacionadas por um fator de confusão. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. Para entender a relação entre fatores de confusão. ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a). sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas.

Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada. 16 Julho/2010 . 4. pag.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). Pág.

Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Bom. infra-estrutura falha. uma grande dose de experiência é necessária. Passou tempo lendo. solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. às vezes. segurança. resumo. Para isto. discussão. material e métodos. Basicamente. tudo isso pode não ter servido de nada.). resultados. O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. referências neste capítulo. Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema. Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter.. Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. etc. se você não tem cuidado no que vem agora. introdução. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam. agradecimentos e referências na tabela 1. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema.camacho@usp.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. introdução. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa. agradecimentos e referências. e você deve dominá-las desde o começo. e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. Suas idéias sofreram críticas. 17 . pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que.. resultados e discussão. A continuação. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. material e métodos. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. busque textos (Ex. Assim mesmo. consta de 7 partes: título. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). Veja dicas úteis sobre o título. preciso e curto quanto seja possível. você teve que esperar longas burocracias (licenças. Iremos nos estender mais nas seções de resumo. Um relatório de pesquisa deve ser tão claro. falta dinheiro. não lhe entendiam bem.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência.

mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. Os dados. devem ser apresentados em forma de tabelas. em forma de hipótese a ser testada. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. estes devem seguir a mesma ordem na introdução. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. este é o lugar onde se deve apontar. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. e serem numerados. 1966). as técnicas. os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram. Por último. Busque críticas. Se nos nossos resultados. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. quando numerosos. Em seguida. Se o relatório tem vários objetivos. 18 Julho/2010 . resultados e discussão. mas evitando redundância.1). Por último. curtamente. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições. de forma que possam ser referidos no texto. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. Isto implica em descrever as observações feitas. seja crítico e ajude à ciência progredir. Concretamente. Pior ainda. Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô. reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág. explicando corretamente para ele. Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. Na discussão. Agora. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. Desta forma. material e métodos. o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. eu digo a você que. a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. é porque você não entende bem o que está fazendo. podemos enganar aos nossos leitores. A fim de facilitar a interpretação do leitor.

Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. Isto faz com que todos nós cometamos erros. via de regra. são complicados. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos. tratamos com assuntos que. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele. Espero que lhe ajude. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). Julho/2010 Pág. Lembre-se que em ciência. Para evitar erros em seu experimento. 19 . Considerações finais. Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente. a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. Assim mesmo.

aparecem na seção referencias? Pág. 20 Julho/2010 . as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa. e só as que estão no texto. os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações.

(ex. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies. mas ainda não conferida. Teoria empírica: Segundo Popper. Para Popper. 21 . a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. ensaio. Conclusões. previsões. do especial ao geral. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito. Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. Teoria: explicação sobre um fenômeno. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. a partir de uma amostra da mesma. ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. exame. Julho/2010 Pág. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. Teste: prova. prévia a um experimento. Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. estes animais não são aquáticos. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. deve ser um conjunto de enunciados. seja esta tomada sobre uma população. sobre outro possível descritor. aquela teoria que pode ser testada.

Mourão. 154 pp. (2002) Experimental design and data analysis for biologists. S. 8888.J.L.wikisource. Disponível em: http://www-biba. Trad. H. Morris Books. First English edition by Hutchinson & Co. E. N. 567p. 22 Julho/2010 . 59 pp. M. W. Editora Holos.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009).(1959). Cleveland. Cambridge University Press. Cambridge University Press. Taper. Quinn G. Ribeirão Preto. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. Brazil.edu. 2004. The logic of scientific discovery. (2004) Statistics without Math. 2342 pp. J. M. R. T. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922. 1. USA. Aristóteles (350 A. Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar. How To Write Backwards. Disponível em: http://ebooks. G. Keogh M.L. Jenkinson. Cambridge.162-176. (1858). Prior Analytics (livro 1).html (maio 2009). Morris C.inrialpes. (1620) Novum Organum. Cambridge. philosophical and empirical considerations(eds.). Por A.C).12. California. T. A brief tour of statistical concepts.P. A. Bibliografia Aldrich. (1991) A Critique for Ecology. E. Taper. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. Amorim. sendo influenciada pelos fatores.L. S. 370–418. 1997.Trad por J. (2002) Fundamentos de sistemática filogenética. New York 366 pp... Francis Bacon. R. (2003) Probability Theory: The Logic of Science. Escondido. e Subhash R. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology. Bulletin of Ecological Society of America 77. American Statistician 38: 26-19.J.L. Pág. Lewin-Koh. Cambridge University Press. Londrina.. W.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação. Spedding http://en. Ruído: variação não devida ao fator. R. 136 pp. E.adelaide. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53. D. Magnusson. (1996). Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. W. Subhash R. Bayes. Statistical Science. Disponível em: Jaynes. Peters. 545 pp. 557pp. statistical. Popper.fr/Jaynes/prob. The nature of scientific evidence. Magnusson. (1987) Graphs in scientific publications.au/ (Maio 2009). (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances. K. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. The university of Chicago Press.

Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. J. Julho/2010 Pág. Some modest advice for graduate students. (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. 2008. A. Stearns.. Chapman M. 1987. Willig. 522 pp. 2008. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. M. 2008. Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance. S. Scheiner. Cambridge university press. Bioscience 58. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. E. 297–307. 1:21–28. naturelles et sociales”. Technical report Nº 33. G. Underwood. e Connell. Wiens. R. 1960. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques. J. 23 . Cambridge UP. M. Underwood. P. S. R. 1997. D. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. A. A general theory of ecology. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics..C. Systematics and herpetology in the age of genomics. 97-115. 392pp. Suppes. S. J. J. Sober. North Holland press. B. Theoretical_Ecology.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 24 Julho/2010 .

Neste módulo.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Além disso.br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular. como é o caso da malária. bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia. . que coordena o crescimento. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais. com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos.moraes@usp.

Célia R. Daniel Carneiro Carrettiero pág. 66 Pág. 26 Julho/2010 . 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. S. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. 49 Bibliografia pág. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra.

levando a uma diminuição da taxa metabólica. mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci. Muitos hormônios. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente. A diferenciação celular. para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col. Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares.br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células. ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. 2007). 2003). Para garantir o sucesso e a diversificação da vida. que mais tarde originaram tecidos. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais). Além disso. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col.. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer. neurotransmissores. Nos organismos multicelulares. quimiocinas. que formavam estruturas designadas colônias. para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente.moraes@usp.Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. originando os verdadeiros seres multicelulares. foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. sinais intracelulares devem ser transduzidos. 27 . além de uma maior independência em relação ao ambiente. 2003). 2003). Contudo. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. A maioria das Julho/2010 Pág. a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo.. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. por meio da evolução a partir de uma única célula. os quais levaram ao aparecimento de órgãos. Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função.

além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. 2007). essa região é conhecida como fenda sináptica. enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade. os chamados receptores. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. 2003). Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. ativando múltiplas vias de sinalização. portanto. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo. 1) (Rang e Dale. ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. atravessar a membrana e atuar dentro das células. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial. por exemplo. 2007). 28 Julho/2010 . Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. chegando muitas vezes ao núcleo. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. os quais são lançados na região entre neurônios. os quais são chamados de hormônios. Deste modo. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. Ainda. Pág. e dessa forma. que possam interpretar os sinais. em hidrossolúveis e lipossolúveis. cuja célula alvo encontra-se distante. enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular. Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores..

porém sem causar ativação desse receptor. A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. 2007). enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. Os agonistas ativam os receptores. e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. que é iniciada por um agonista. 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e. A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. os receptores são agrupados em quatro superfamílias.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. 29 . ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. Adaptado de Rang e Dale. 2003). consequentemente. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág.

receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. cada um na interface das duas subunidades α. O primeiro receptor dessa família a ser clonado. β. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal.receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α. tirosina quinase. Na ausência de um neurotransmissor. (2) superfamília tipo 2 . Para que o receptor seja Pág.. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras.Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. Sua estrutura pentamérica (2α. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico. (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos. o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos. 30 Julho/2010 . γ. Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. permitindo o fluxo dos íons (Fig.receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. Figura 2 . fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 . β. receptores solúveis no citosol (Fig. γ. 4). 2). foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR). 3). receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G. 2003). δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina.

Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato. cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares. ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. potássio e cálcio. Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. como acetilcolina. Retirado de Squire e col. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. O influxo de íons através Julho/2010 Pág. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. hiperpolarizando a célula. 2003). glutamato.Esquema de abertura do canal.Sinalização Celular ativado. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai.. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente. dessa forma. tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular. mesmo quando a despolarização é mantida.. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). plasticidade sináptica e neurodegeneração. se abrem. 2007). Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada. 31 . Figura 4 . permitindo a passagem de íons (Rang e Dale. 2003. que são canais de sódio ou cálcio.. o canal se abre quase que instantaneamente. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. podendo levar à despolarização celular. Retirado de Squire e col. como é o caso de GABA e glicina. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. 2003. que são canais de cloro (Squire e col. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico. como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col. 1998). (Fig. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. 2007). aminoácidos modificados. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G. A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell. A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente.. Quando a proteína G é ativada. Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal. 2002). postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. 5).. fosfoinositídeos. γ – no interior da célula. 2002). as quais estimulam a geração de adenosina 3’. Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col. íons.5’ monofosfato (AMPc). uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. lipídeos. nucleotídeos. esteróides. 32 Julho/2010 . Recentemente. A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. 2005). β. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. o GDP é liberado. Em termo.. o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. Pág. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα.

. Pierce e col.Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. Gαq e Gα12/13 (fig. 7) (Cabrera-Vera e col. 2003. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular. 2002). promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0. Gαs. 2001). Figura 5 . Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi). Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos. Em alguns casos. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα.. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc. ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz. 2008). A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. 33 . Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág.Sinalização Celular Classicamente. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos. levando a ligação do GDP a Gα.

levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos. a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). Na sua forma inativa. Depois de formado. e duas subunidades catalíticas (C). Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. e subsequente liberação da subunidade (C). 2005). PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). Após ativação. o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). 2001). Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase. Na ausência de AMPc. Pág. 34 Julho/2010 . CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz.

a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular. e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. 35 . ou ainda. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. promovendo a diminuição de AMPc. Em muitos tipos celulares. 8). o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci. A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3. podendo ser clivado. promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ).Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G.5bisfosfato de fosfatidilinositol.Sinalização Celular Figura 7 . As setas em vermelho representam inibição de um componente da via. Quando a proteína Gq é estimulada. IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. gerando ácido araquidônico. promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação.4. Uma vez ativada. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático. A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. Julho/2010 Pág. 2007). A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig. A subunidade Giα inibe adenililciclase. gerando 1. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R). e as setas em verde a ativação.5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG).

desse modo. essa cascata de Pág. 2008).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. os receptores do tipo I e II. 1999). Existe ainda uma superfamília de proteínas G. 36 Julho/2010 . guanililciclase. maturação e apoptose. tirosina fosfatase. O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas. referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α). As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. incluindo proliferação.. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos. para o interior das células. As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. serina/treonina quinase. ou Ras. diferenciação. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. migração. afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska.

desfosforilam proteínas celulares. fator de crescimento de fibroblasto (FGF). Janus Kinases (Jaks). A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor. ou mudanças metabólicas. levando a proliferação. A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. quando ativados por ligantes. as quais incluem Src. Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. 2007). c-Fos e Elk-1. o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. 37 . resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). através da manutenção da pressão arterial. 2008) Julho/2010 Pág. Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP). 2000). Ab1 (Fig 10). 2003). A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. 2000). Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. (Levitzki. Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada.Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. Nas vias de sinalização de receptores monoméricos.. diferenciação. Em adição aos RTKs. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. 9). os receptores tirosina fosfatase. migração. tais como fator de crescimento epidérmico (EGF). resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. 2009). As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores. Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. Em contrapartida. As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos.

Pág. envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas. Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase. 38 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase. Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase.

Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. 1995).. Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. (4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad.. 2002). 39 . 2005). não esteróides (hormônios da tireóide. fosforilação e interação com outras proteínas. colesterol entre outros. mineralocorticóides. A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos. homeostase e doenças (Togash e col. e assim são classificados dentro de quatro grupos. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart.ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles. como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col. Em geral. derivados de esteróides (vitamina D3). Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo. A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional. metabolismo. e um domínio c-terminal menos conservado. andrógenos e estrógeno). retinóides.Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides. retinóides. Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. vitamina D. esteróides. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). 1997). prostaglandinas e vitamina D3. dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps). os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. de ligação ao ligante (LBD). Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio. A ligação do hormônio leva a mudança conformacional. um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD). dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros. O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág. (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide. retinóides.

translocação para o núcleo. 1995. heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col. 2007. 40 Julho/2010 . O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco. Pág. Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col. homodimerização.. O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação.. 1997).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares. 1995). Tenbaum e Baniahmad. O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares. Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. Modificado de Rang e Dale.

É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios. a maioria dos casos é de P. no laboratório. 2005). A Africa subsaariana concentra 90% dos casos. P. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. que transmite as espécies infectantes humanas P. falciparum. malariae.Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. P.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. 2005). falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. quando os insetos hematófagos já existiam). darling.wikipedia. na África). 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. como modelos experimentais. gambiae. vivax (Who. vivax e P. principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico.png) Julho/2010 Pág. P. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil.com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who. ovale. (Fonte : http://en. no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença. 41 . Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. No Brasil. no Brasil e A.

Além disso. para avaliação dos efeitos colaterais. perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias.. Amapá. 1996). Pág. Amazonas. a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. no entanto. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. área endêmica do país. Rosenthal. 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem. composta pelos estados do Acre. Pará. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. Nos Estados fora da Amazônia Legal. 42 Julho/2010 . Mato Grosso. 1991). mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. Roraima e Tocantins. aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. por exemplo. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. no Brasil. 1998). os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. Rondônia. apesar das medidas preventivas. A incidência da malária. um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. responsáveis por recaídas. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. Contudo. o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. grau de risco da infecção da área de destino. 1996). O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão. e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. Maranhão. sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS. 1993.. 2002). Atualmente.

2). Para o fechamento do ciclo. os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito. 43 . 2001). após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos. Por um processo ainda desconhecido. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col.Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria. Julho/2010 Pág. (Chouaibou e col. Estes. a forma infectante do mosquito (Garcia. Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel. de vida intracelular obrigatória. que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles. enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos. o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. fêmea.0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT. que retira 3 a 4 microlitros de sangue..6 X 1. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en. Uma vez na corrente sanguínea.000 merozoitos. trofozoito e esquizonte.. Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados.org/wiki/Malaria). 2006).wikipedia. 2006). que mede 1.

falciparum e P. knowlesi P. falciparm P. 44 Julho/2010 . brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium. e col. Dependendo da espécie de parasita. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico. 1). berghei P.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é.. vivax P. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. inui P. malariae P. 1) Tabela 1. 2001) (Tab. vivax. 2001). os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. Foi demonstrado por Hotta e col. cathemerium P. respectivamente (Garcia. vinckei P. Quando se mantém parasitas em cultura. típicas da doença (Hawking.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab.. 1970). portanto.. gallinaceum P. cynomolgi P. chabaudi P. o responsável por toda manifestação clínica na malária. bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. Pág. estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P. Parasita P. coatneyi P. yoelii P. (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. e col.

porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. 2003). que está presente em grande quantidade na glândula pineal. Varotti e col. Especificamente.. As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. Hotta e col. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ). nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. (Garcia. 45 . Como qualquer célula eucariótica.. 1997. que são devirados do triptofano. 2003). ativa a via de inositol 1. 1998. 2003). Gazarini e col. Garcia e col.. É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág. nos estágios trofozoitos do Plasmodium. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col.. (Hotta e col. divisão e diferenciação celular (Berridge. (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. 1997..Sinalização Celular a sincronia é perdida. Varoti e col. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência. através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito. Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. por sua vez. Dentro deste contexto. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col. sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM..4.5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE).. plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia. 2000).. como organização do citoesqueleto. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. 1998). 2005). 1999. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo. A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados.

1948. pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba. Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania.1999). degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal. Barrett. cisteina e aspartil proteases). 2002). são necessárias proteases do parasita. Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col. As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. giardia e plasmodium (Rosenthal. 1951. Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos. assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . toxoplasma. 1986). sendo três delas (serine. chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág.1999). Roth e col.. 2003). 1988).. pela necessidade do íon metálico para catálise.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP). 1994). Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman.. Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. Em estudos realizados com P. 3). com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig. a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro. 46 Julho/2010 . Groman. Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col.

(Modificado de Carmona et al. nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al. 2009). Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático). 2005). 47 . Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF). 2005). Julho/2010 Pág.Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 48 Julho/2010 .

Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina. animais e protozoários... 2003). 2004a). Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA. Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág. 49 . O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. Matzke e col. uma classe de pequenos RNAs com função regulatória. Entretanto.. introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe. sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica.. fungos. 2000). 2001). que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon. Até o final da década de 1980. durante a década de 1990. somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin.bio@hotmail. 1993b).Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA). incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col. 2001). RNAi) em animais. 1994). 1992). um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing. PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col. 1998). formação de heterocromatina (Kennerdell e col. Atualmente.. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col.com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky. 2000. um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas. Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs..

. A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS). Drosophila melanogaster. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col. no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. Schizosaccharomyces pombe. Em ambos os casos. 1990. uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. 1995). 1996. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. C. Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas. incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. 1990.. as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos. elegans). Entretanto. crassa. inibindo. simultaneamente.. Tetrahymena thermophila. 1990). ou seja. Van Der Krol e col. atualmente denominado silenciamento de RNA. Lindbo e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional. 1990).. sem pigmento. 1996. Lindbo e Dougherty. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. Alguns anos após a descrição da co-supressão. Romano & Macino. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. O fenômeno foi denominado co-supressão.. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs. Van Der Krol e col.. 1992). Neurospora crassa.. e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. ao contrário do esperado. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. camundongos e humanos. apóiam essa hipótese (Denli & Hannon. 50 Julho/2010 . 1992. elegans. 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col.. Entretanto. A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. e em animais (Drosophila e C. 2003). cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. 1998). Histórico O fenômeno. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N.. conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles.

elegans. Montgomery e Fire. 51 .. 2001. Esses pequenos RNAs. A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. 1998. os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. 1998). enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. foram primeiramente observados em plantas. 1996. introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno. Além de explicar a especificidade do sistema... sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno.. Ratcliff e col. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C.. e VIGS) (Hamilton e Baulcombe.. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col. Zamore e col. Kumagai e col.. 1995). ou produziam em pequena quantidade. e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. Ruiz e col. 2000).Sinalização Celular replicação do vírus. Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula. 2001. foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues... o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA. Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam. Curiosamente. interrompendo o seu ciclo de infecção. observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. Mueller e col. 1995). Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. 1998. 1999). 1999). de orientação senso e antisenso. atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs).. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col. 1995). A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt). 1998). e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. A princípio. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. 1995. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento.

A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. A enzima Dicer é conservada evolutivamente. 2000). pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos. denominada “Dicer”... 52 Julho/2010 . fungos. Hammond e col. Martinez e col. A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2.. crassa (Cogoni e col. 2004.... 2001... 2001) e que mutantes de C. plantas e animais superiores. onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt. nematóides. A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. Inicialmente foi proposto que. Analogamente. na ausência de dsRNA. Okamura e col. elegans. 2001). devido à especificidade de Pág. A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida. Meister e col.. 2001). 1997). Recentemente.. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col. 250 nt) em um processo dependente de ATP.. foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col. consistindo provavelmente na proteína Slicer. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col.. com homólogos presentes em fungos. Este fator é dominante. Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado. 2004. 2004. Knight e Bass. 2002). 2001b). 2001). 2001. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col. 2004)... Essa RNAse III. em C. 2001. Em plantas. toda a progênie é silenciada (Grishok e col. 2001a) e in vivo (Elbashir e col. PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo... mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo. RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. 2001). protozoários e plantas (Carmell e Hannon. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não. 1996). 2000).. que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. Ketting e col.

e sim um par de pequenos RNAs.. 2001. 2000. apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col.. Sete anos depois da descoberta de Lin-4.. Let-7.Quintana e col. um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14. Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado. 2002b). um RNA (Vaucheret e Fagard. foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col. que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo. 1993). Slack e col. Llave e col.CmPSRP1). em plantas. 2001. elegans. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. 2004). este fator seria pelo menos em parte. 2001). eles não interferem com o processo de tradução. foi demonstrado que o gene Lin-4. Lee e Ambros. elegans (Reinhart e col. sinalização e diferenciação. e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs. não codificava nenhuma proteína.. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples. inibindo o processo de tradução. Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento. os micro RNAs (miRNAs). conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. mas não de moléculas de RNA fita dupla.. Atualmente. 2000)... C.. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 . com papel em processos como a proliferação celular. Arabidopsis e humanos (Lagos. 2000). Inicialmente. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7. Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila.. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág. Recentemente.Sinalização Celular seqüência. apoptose. 2001). foi descoberto um segundo gene. Lau e col. 2001. Entretanto. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional. 2001). propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR. 53 .. elegans.

. 2004) (Fig. 2004). O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno. 2002). dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe.. 1999). Pág. A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico. 54 Julho/2010 . Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo. O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col. o ciclo de infecção. que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo. 2000). 1). Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S. A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing). A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C. pombe. Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col.. Tabara e col. pombe. elegans e Drosophila (Akhtar e col. 2004). Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. de um transgene. ou mesmo bloqueando. neste caso em nível transcricional.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col. A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb... cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. 2004). A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. 2004). O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer.. No início de 2004. foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. Em vírus com genoma de DNA.. 1994). 2002).. 2000. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col.

Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. Silenciamento transcricional via siRNAs. C. A. Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC.Sinalização Celular Figura 1. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. 55 . O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). gerando o miRNA.Modelo para o silenciamento de RNA. que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA. indicando as três vias atualmente conhecidas. gerando os siRNAs. Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. B. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs.

Ketting e col.. 2002). embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus.. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias.. enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. (Modificado de Zerbini e col. Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA. elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. S. um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. 2004). Knight e Bass. Pág. 2001. 2004). Grishok e col. Hutvagner e col. sinalização sistêmica e manutenção. DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus. 2001. 2001. dois domínios catalíticos. 2004c). Em Arabidopsis. dentre vários vírus testados (Xie e col. resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina. pombe. embora com diferenças significativas (Zamore. Knight e Bass. a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros. Schauer e col. Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs... um domínio central PAZ (Piwi....VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas). 2004). Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal.. o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação. 2001. 56 Julho/2010 . Em Drosophila. Na etapa de iniciação. Xie e col. DCR1 em C. e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS. 2001. Esse complexo atua no DNA genômico. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col. Volpe e col.. Até o presente. animais e protozoários. 2001.. fungos. amplificação. 2002.. ainda não foi estabelecida a função de DCL4. C.. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. 2002). Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2.. 2001. 2002). O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo. 2002. Xie e col. DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col.. 2004). 2001). envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. 2005).

.. Hutvagner e Zamore. elegans (Carmell e col. Julho/2010 Pág. 2004). O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S. A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA.. 2002). Verdel e col... 2000.. 2004). 2002. 2004). enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col. 2001). Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer. em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. 2003). que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col... 2002). Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col.. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar. 1997). Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col. Mourelatos e col. 2003).... A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col. 1998. 57 . 2002. Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno.. o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col. e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col. 2003). Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. Covey e col. Martinez e col..Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2.. 2001.. pombe (Verdel e col. 2004). levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col. 1998. indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col.. devido à ativação e manutenção do silenciamento. 2004) a mais de vinte em C. Brigneti e col. 2002). Grishok e col. 2002. 2003). 2002.. Pham e col.. 2003. Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col.. Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col. 1998. Kidner e Martienssen.. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore. 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col. A subunidade catalítica é denominada Slicer. O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia.

uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. 2003).. indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. 2003). elegans e Chlamydomonas reinhardtii. Rhoades e col. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica. De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col. Além da defesa contra infecção por vírus. 2002).. 2002). 2002). a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso. os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos.. 2002).. particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. 2003.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington. 1998) e animais (Li e col. anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA.. outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág.. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição. 2002). incluindo a formação de heterocromatina em S. pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col. estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos. Em animais. Apesar da falta de evidências diretas. a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col. 2002). Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico.. Volpe e col.. Em C. incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. Taverna e col. o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. 1999). 2002. Atuando de forma análoga aos siRNAs.... o metabolismo de lipídeos (Xu e col. 2002.. 2001). os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col.. 58 Julho/2010 . A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos. o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA. 2003).. Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei.

ou seja. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág. Estudos em C. elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes. 1997). 1998. A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire. O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase. indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. folhas de N. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. 59 . Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col. mas não para enxertos expressando transgenes distintos. indicando a propagação a longa distância do sinal. Timmons e col. A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col. e o gene exógeno uidA. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição.. e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta. Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico.. porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. 1998). 2001). Observações semelhantes foram realizadas em C... 1996).Sinalização Celular heterocárions de N. as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. 1997). que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). Nestes experimentos. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe. Este gene. elegans. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col.... elegans (Fire e col. C. A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient). O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene.

. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula. ou seja. 2002).. Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). 2000).. Além disso. 2003). Curiosamente. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. Estudos com HC-Pro. 2002. 2003). uma proteína viral supressora de silenciamento. Lucas e col. 2001). Estas células foram transformadas com dois plasmídeos. e em células de mamíferos (Mlotshwa e col. Em plantas. porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. 60 Julho/2010 . estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida. SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada. Entretanto. indivíduos mutantes no gene Rde-4. existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico. capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter.. essencial para que o silenciamento ocorra. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. em C. não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre. 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col.. entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág. mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA. 2003. Além disso. As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional.. elegans. elegans. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col. os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos. O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade. Para determinar a função da proteína SID1. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. 2002). produzem siRNAs de forma deficiente... o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. C. Mallory e col. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. Entretanto.

A presença de miRNAs já foi detectada em S. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. humanos e plantas (Lagos. MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. 2001. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew. Pelo menos 0. 2004). Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1). A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados.. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. camundongos. transposon ou gene endógeno. essa hipótese ainda não foi comprovada. Lee e Ambros. a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida. 2003. Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica. com ortólogos em vertebrados e invertebrados.. 61 . Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene. pombe.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs. dessa forma.. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. por exemplo. e. Entretanto. 2002b). enquanto seres humanos possuem de 200 a 255.Sinalização Celular com a metilação de DNA. denominada CmPSRP1 (C. 2002). vírus. Llave e col. C.Quintana e col.5-1% do número total de genes do genoma em questão. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos.. Drosophila. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col. 2004).

Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col. Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas.. Lim e col. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica. 2001). Além disso... Além disso. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III.. Entretanto. Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III. o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’. 2002).. e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col... 62 Julho/2010 . existem algumas Pág. um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. 2003a. ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel. de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col. o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col. 2) (Lau e col. 2001. Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. Lee e Ambros. De fato. Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais. mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col. pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6. características de transcritos de genes da classe II. 2003). sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. 2003). 2002). 2001).. 2003b). sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig.. Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima.. 2003). Por fim.. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas. O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. 2004b). C. 2003). 2003a).

Slack e col.. 2002). provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’. a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA. Rhoades e col. Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros. 2001). Nesta etapa. que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. 2004). 2003.. O oposto é observado com os miRNAs de animais.. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. Por fim. 2004. Além disso. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA. 2000). estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai. que é a mesma do pre-miRNA.. 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais. 2004). 2003). com uma única exceção conhecida até o presente. Ketting e col. gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo. Em seguida ocorre a clivagem. preferencialmente. 2002). A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. 2003).. que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo. Yi e col. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore. plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. o miRNA172. Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha... O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases. 2002. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA.. Além disso. 2000. 63 . 2003b). Chen. Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA.. enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou. na região 3’ não traduzida. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. 1999). 2002. 2002).

que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. Os miRNAs são transcritos. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. provavelmente pela mesma enzima. No citoplasma. Pág. o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo. Em plantas e animais. em ambos tipos de organismos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore. 64 Julho/2010 . denominado pri-miRNA. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. gerando o miRNA. Em plantas. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col.. Em plantas. 2002). a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. via incorporação a um complexo RISC nuclear. Figura 2. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. gerando o miRNA. gerando o premiRNA. 2005). O pre-miRNA é subseqüentemente processado.. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. De acordo com este modelo. (Modificado de Zerbini e col. a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. os miRNA também atuam no núcleo. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. 2003b). Em animais.

Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel. 2003). Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col. a outra fita é degradada. correspondente à clivagem citoplasmática em animais. Em plantas. 2002). o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1. 2003). 2002). 2002). Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs. 2000). Uma vez incorporado ao RISC.. Mourelatos e col. a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col.. o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen. antes da exportação para o citoplasma. Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. 2002). 2002). que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2. Em animais. 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff. portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC. a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág. O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore. sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. mesmo em plantas mutantes para DCL1. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear.. que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore.. sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col.. DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. Após o transporte núcleo/citoplasma. 2002). a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col. 2004). Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC. sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC. sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. além de Dcl1. 65 . 2002. Quando isso ocorre. 2002). Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. 2002). HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col. Não são detectados pre-miRNAs.. Em plantas. A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col.. Desta forma...

Chen. e o miRNA164...J. 2003.. P. R.. verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe. 2004). 2002b..B. Além disso. Pág. o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore. o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col. MAarathe.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução. Rhoades e col.. Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. 2004). A viral suppressor of gene silencing in plants. G. como AGO1 (Vaucheret e col. A. Hoxb8. Proceedings of the National Academy of Sciences. o miRNA159. que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col. R. (2000). Entretanto. o miRNA172. Após a clivagem do mRNA alvo.. Ge. Bibliografia Akhtar. entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore.H. Llave e col... Quando o miRNA direciona a clivagem. 2003). Smith. 2004). (1998). 2004). D.. X. 2002). a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW. 2002).. Entretanto. 2004). 2002). Nature 407:405-9. e VANCE. os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col.. ou seja. A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos. Pruss. 2004) e DCL-1 (Xie e col. a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA. 66 Julho/2010 . V. incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. USA 95:13079-84.. 2004. 2003). e Becker. que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. Em vários casos.. Mallory. Anandalakshmi. A. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. 2003) é regulada por miRNAs.C. envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col.B. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. Chromodomains are protein-RNA interaction modules.. Zink. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col. em camundongos (Yekta e col.. foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. T. 2003). 2002).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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Neurociências

cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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os mecanismos da vida etc. aprender e lembrar. ao longo do tempo. os átomos. percebemos que. o equilíbrio do ambiente. O entendimento atual sobre origem. a teoria das cordas.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência). Ironicamente. a integração entre as idéias pode ser árida. galáxias distantes. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. denominadas genericamente por neurociências. a mente não pode existir. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. 87 . que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. comunicar. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. hereditariedade. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. amar e odiar. emoção. investigando funções como percepção. a higiene do meio.Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. das ferramentas. criar e destruir civilizações. além de didática. atenção. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. sem o cérebro.). A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber. do abrigo. DNA. os buracos negros. resolver problemas. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. moléculas. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. Com o surgimento da consciência. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. articulados criticamente. da linguagem. Como podemos propor a consciência ambiental. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. a mente não pode ser expressa. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar. sem a manifestação do comportamento. 2003). A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. memória. Além disso. ação etc.

Sabemos muito pouco sobre o cérebro. não sobram limites a serem alcançados. continuam a ser a preocupação dos filósofos. pode-se começar a responder a estas perguntas que. Portanto. a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental. 2003). Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. Pág. realizando os experimentos devidos. por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas. Como resultado. (Kandel. ao elaborar as perguntas devidas. até agora. 88 Julho/2010 .

e. 1). 1996). viscerais. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos. entretanto. cardíaco e glândulas. Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. i. A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético. módulos. 89 . O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. cujas funções servem a um propósito comportamental específico.com No sistema nervoso. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências.. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados. Há. Figura 1. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora.Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata. neurônios nunca funcionam isolados. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág. sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente. Desta maneira. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais. em componentes centrais e periféricos (Fig. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. algumas características são comuns entre eles. sob o ponto de vista anatômico.plim@gmail. Além destas amplas distinções. Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções.

sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. Para demonstrar este tipo de circuito. 2. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig. por exemplo. No caso do circuito divergente. Então. Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. atividades motoras. Em vez de concentrar as aferências. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. realizando uma eferência (saída). que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. No funcionamento paralelo. C ou D) seja inibido. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. centro). Circuitos convergentes são responsáveis. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. quanto B. 2. Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig. Figura 2. Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília. De modo geral. Além disto. memórias de longa duração. o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. 90 Julho/2010 . o modelo de circuitos convergentes. etc (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. Estas três classes – neurônios aferentes. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. C e D. O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. são chamadas de neurônios eferentes. podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente. 2. Esquema representativo dos modelos de circuitos. circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. à esquerda). Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida. imagine que tenhamos os neurônios A. À esquerda. à direita).

na maioria das vezes inconsciente. No funcionamento serial. antes deste poder comandá-la voluntariamente. gerando. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. Julho/2010 Pág. a atividade que leva à ação.Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. forma e localização. de modo geral. por sua vez. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. Ocorrendo um estímulo. estiramento. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. ponte e mesencéfalo). Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. por exemplo. em que há produz uma reação involuntária rápida. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. ou ao tronco encefálico. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. além de processar informações de modo serial. Por exemplo. o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada. Isto é. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. independentemente da vontade. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago. músculo liso ou músculo cardíaco) que. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. um neurônio estimula outro neurônio. aumento da intensidade luminosa. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. 91 . que protege o organismo. executará a resposta ao estímulo inicial. por meio de um nervo craniano. Durante o processamento de funções mais complexas. conseqüentemente. os circuitos envolvidos. Desta maneira. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. no neurônio motor. glândula. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. movimento. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. Sinais representando cores. variações da pressão arterial etc).

Assim. padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. em humanos) durante um período critico na infância. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente. Mais freqüentemente. No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. Em alguns casos. i. experiência). essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. molda os circuitos neurais. Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas. em animais. fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto. Em um axônio aferente. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. entre outros. paralelamente. entretanto. assim como a função visual. a conectividade no córtex visual é alterada. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é. determinando seu comportamento. ou patologicamente. sua experiência acumulada.. Assim. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos.e. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso. além da construção de sua circuitaria. a construção dessa Pág. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. preferências sexuais e aquisição de linguagem. Como esperado. 92 Julho/2010 .

é aumentada. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. atenção espacial. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. Ao contrário. ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. Julho/2010 Pág. Assim. em um animal adulto. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. retenção de memória. pág. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. Desta maneira. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. reconhecimento de face.. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem. Em 1949. Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. XVII). Assim. Em seu lugar. etc. Segundo. Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. linguagem. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. Primeiro. tais como discriminação visual. ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. Em resumo. 93 . alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. memória operacional. uma das células que estão agindo sob B. 1949. 1949). Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento. Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara.

Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo. O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante. à esquerda. Figura 3. à esquerda). abaixo) (disponível Pág. 3). A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). LTP (do inglês. 94 Julho/2010 . Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. long-term potentiation) (Fig. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem.

nas formas de LTP mais compreendidas. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido. até respostas mais complexas. a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração. de comunicarem-se através da sinapse. como a cognição observada em humanos. por sua vez. são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. usualmente. mais fortes tornam-se essas conexões. Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. Por exemplo. categorias. mas também por um aumento do número destes receptores. ao Julho/2010 Pág.braincampaign. a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior.org . Interessantemente. Por exemplo. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos). que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e. Nesse contexto. a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas. em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. Estes sinais. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. projeta-se para outros 104 neurônios e. Isso permite entender porque a recordação envolve. Entretanto. A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. a idade do animal em questão e espécie. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica. o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado.Neurociências em www. De acordo com essa concepção. na forma de moléculas de neurotransmissores. Como conseqüência. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais. Entretanto. isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. 95 . a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória.09/06/2009). Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície.

A Pág. forma. a recordação também será categórica (frutas. Figura 4. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. carnes etc. lutar e reproduzir-se. invertebrados etc. ou seja. Assim. aves. animais aquáticos. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. quadrúpedes. Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”. Então. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. Desde a mais primitiva espécie animal. O mesmo ocorre em relação a alimentos. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros). conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. Interações podem incluir andar de um lugar para outro. ou seja. 96 Julho/2010 .). verduras. De modo circular. integramos todas as informações disponíveis (cor. o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc. legumes. O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo. tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. pegar um objeto. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. fugir de predadores. contexto.4).

o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. de uma definição completa e consensual. de forma um tanto óbvia. responsáveis por emitir as respostas motoras. em sua maioria. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. se considerarmos que a percepção do mundo. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. desta forma. precisam ser estudados juntos. significa “apoderar-se” dele. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. “ação” e. sobretudo nos mamíferos. Desta forma. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e. E. 97 . Esses rótulos estão longe. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural. desse evento ou dessa resposta. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. por fim. ou pelas vias eferentes.Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. apesar de seus constantes desafios. “consciência”. Eles são. mais provavelmente. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág. provavelmente pressionada por fatores ambientais. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. Podemos supor então que. permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. derivado do latim. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. “memória”. ao tornar-se cada vez mais complexo. sobretudo. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. “aprendizado”. onde “perceber” algo. O sistema nervoso evoluiu. com ele interagindo de forma contínua e coerente. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. “atenção”. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”).

Da mesma forma. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. em direção a estruturas anteriores (motoras). guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. Assim. Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo. 5). Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido. Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. com feedbacks em todos os níveis. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. desta forma. Pág. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. Comportamentos mais complexos. Além disso. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. ver e ouvir. eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz. Em contraste.não dependem tanto deste contato. uma vez que um objeto tenha sido percebido. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver. no nível cortical. substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. 98 Julho/2010 . temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). Quando tocamos um objeto. nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva). requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos. para um som ser audível. neste sentido eles funcionam como um radar. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar.

O substrato cortical do ciclo percepção-ação. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa. Em ambos os córtices. a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato. longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. 2006). Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados.Neurociências Figura 5. Da mesma forma. Assim. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. Do mesmo modo. Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais. há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). 99 . As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster.

a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. Considerando o fato de sermos seres sociais. isto é. podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. Desde modo. do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. do agente envolvido. Na abordagem sensório-motora. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. Sendo assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. tudo começa com uma intenção. fornecendo subsídios para ações mais complexas. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória. na abordagem ideomotora. numa análise dos componentes visuais da ação específica. O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa. em geral. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). isto é. Assim como vimos acima. tudo começa com uma estimulação. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. 100 Julho/2010 . Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. Assim. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. a uma única oportunidade. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. Contudo. De modo inverso. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções.

aparentemente. o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais.Neurociências execução da ação observada. uma ação implica em um agente e um objetivo. de acordo com esta concepção. pegar/manipular um objeto ou alimento. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas. baseada também em outras modalidades. Conseqüentemente. Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. 101 . entre eles Giacomo Rizzolatti. ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). auditiva. baseado na descrição do objeto e do movimento. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. Todavia. em outra perspectiva. Julho/2010 Pág. o estímulo é ligado à intenção do agente. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo. sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores). Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. possa participar desta função. isto é. os assim denominados “neurônios espelho”. tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. como por exemplo. implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. Os descobridores destes neurônios. como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. Isto é. 6). Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações. isto é. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. Entretanto. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. embora nenhum movimento efetivo seja executado. Esta resposta.

mas também no próprio sistema motor do observador. Desta maneira.1996).representação motora da ação observada. ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6. o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante.a ação observada sendo executada por outra pessoa . Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador. Através do reconhecimento de ações e. não apenas pelo sistema sensorial. À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti. 102 Julho/2010 . Pág.e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador .

e sem preferência de direção do estímulo conduzido. A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. As células receptoras. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora. formando um arcorreflexo monossináptico (e. Eventualmente. 1). nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig. Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora. que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). flexibilizar o comportamento (Eckert.fv@gmail. portanto. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo. reflexo patelar).com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras). de agora em diante chamadas receptores sensoriais. Há ainda o arcorreflexo polissináptico. Apesar disso. Em última instância. com cruzamentos desordenados de axônios. O arranjo das células nervosas é difuso. com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora. O mais complexo que se tem conhecimento. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. são responsáveis por transduzir (isto é. 103 . nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados. 1983).g. Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos. Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e.Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig. Modificado de Carlson (2004). em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos. Por outro lado. 104 Julho/2010 . como. que faz com que a luz passe duas vezes por ela. Os receptores tendem a ser muito específicos e. há animais que tem visão e audição pobres. a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele). Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz. Comprimento de onda em nanômetros. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. por exemplo. têm globos oculares extremamente grandes. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente. Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum). Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. 2). Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz).g. pois persistem em diversos grupos. Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág. respondem preferencialmente a um tipo de estímulo. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. Nesse sentido. a ecolocalização de morcegos. Outros mamíferos. portanto. como os Tarsius.: cobras). sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente. útil a presas e predadores.

abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. cada qual com um receptor sensorial. A combinação mais encontrada. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina. Eckert (1983). Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. 105 . precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide. Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. para que possamos enxergar. brilho). A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. 4B). as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica. o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. Fig. Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. formando um mosaico. Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica. 2006). há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor. Em última instância. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC). rodeado por 6 a 12 células retinulares.g. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A).3). dado que as variações entre os grupos são grandes. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e.Neurociências pela estimulação luminosa. formando o rabdômero (Fig. A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. provocando uma cascata bioquímica no interior da célula. 4A). tanto em vertebrados como em invertebrados.

o inverso do centro da fóvea.. As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. ainda que responda por menos de 1% do campo visual. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. não é direto. As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. Dessa forma. 6). 2006). incluindo os humanos. porém. formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). evidenciando algumas camadas celulares da retina. Neurônios com axônios longos. Modificado de Lent (2006). como em um quarto escuro. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. menos cones e mais bastonetes são encontrados. Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz. A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. 4B). 4B). as células ganglionares (Fig. 5).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. Semelhantemente. constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos. sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. 106 Julho/2010 . Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea). Pág. Esse caminho. A fóvea é o ponto de maior acuidade visual. 5). Alguns têm três tipos de cones.

Neurociências Figura 5 . tem os olhos em lados opostos da cabeça. em vermelho.Córtex visual primário (V1). 6). mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. As outras quatro camadas. Modificado de Bear e col. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. isto é. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig. todas as fibras passarão pelo Tálamo. no córtex occipital. responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. que tem um mapa retinotópico. mas potencializa a visão em todas as direções. Modificado de Bear e col. Encéfalos fora de escala. por outro lado. Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. (1996). Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. portanto. tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar. É ela quem permite a visão binocular. Entremeado nessas camadas. (1996). Herbívoros. algo constante em animais carnívoros. do gato e do rato. 107 . há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. no córtex occipital do homem. o que reduz sensivelmente a visão binocular. para um mesmo lado da cabeça). ele se dirige à V1. Após o estímulo passar pelo NGL. Após o cruzamento no quiasma óptico. permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados. chamadas parvocelulares.

com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. podendo ser feita a quilômetros de distância. Figura 7 . Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo. devido a características implícitas à cóclea. Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação. 108 Julho/2010 . freqüências acima de 20.000 Hz e indo até cerca de 120.000 Hz. fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina.000 Hz. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina.000 Hz. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho. 7) (Carlson.Representação do sistema auditivo humano. Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas. Os superagudos. têm comportamento extremamente direcional e reflexivo. No outro extremo. os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total. 8). morcegos têm faixa de audição começando em 10. freqüências acima de 10. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons. 2005). Emitindo sons acima de 50.000 Hz. parte da Pág. (1996). à membrana basilar dentro dela (Fig. Diferentemente da visão. Modificado de Bear e col. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20. mais especificamente. preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1.000 Hz.

Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x.Neurociências orelha externa (Fig. 8). A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. (1996). Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas. que farão a transmissão para a janela oval na cóclea. integrantes da orelha interna. no meio. Sons médios. bigorna e estribo). não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. todo som causará vibração por toda a membrana basilar. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. 109 . os cílios dos mecanorreceptores. Julho/2010 Pág. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. Como a cóclea é um tubo inextensível. inicialmente pelo nervo coclear (Fig. A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana. Essa energia. Pelo contrário. Modificado de Bear e col. permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas. 7). movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. no entanto. A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape. Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. com todas as suas características de frequência e intensidade. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos.

com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. Modificado de Bear e col. formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. ausente nos agnatas. Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. 110 Julho/2010 . pela adição do canal horizontal. 2006). 10). Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. esse sistema deve ser no cérebro. permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. tendo íntima relação com o sistema motor. 9). A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent. 2006). Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo). 2006) (Fig. Pág. a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig. Modificado de Lent (2006). considerado um sexto sentido dos organismos. (1996). impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. para acelerações lineares (Graf. todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular.

formando um mapa somatotópico do organismo. embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. 2006). temperatura ou dor. outras seguem diretamente para o cerebelo. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico. portanto. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. as maiores áreas de processamento). Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. já que estes têm hábitos noturnos. como a ponta dos dedos. no giro pós-central (Fig. 111 . Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. como na cóclea. permitindo a formação de imagens estáveis na retina. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. Interessantemente. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. 2005).Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. IV e VI). É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). Assim como na visão. 5). ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo.

Curiosamente. doçura indica presença de açúcares. Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos. salinidade e umami. Por outro lado. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. 112 Julho/2010 . indicam a presença de cloreto de sódio. substâncias amargas ou azedas serão evitadas. o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. em última instância. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar. O caso mais surpreendente. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. Acidez é um indicativo de decomposição. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores. Outras projeções se dão para a Pág. porém. 1997 apud Carlson. são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. 2005). acidez. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo.. queijos e alguns vegetais. são detentores de um olfato apuradíssimo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas. claramente um alimento. no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. por outro lado. substância naturalmente presente em carnes.. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. Já receptores para sal. 2005). podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água. de fato.. resultado da ação bacteriana. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. doçura. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos. extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. que detectam cinco qualidades: amargor. 1995). Treinados. 1986 apud Martins e col.

A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. Há críticas à existência da magnetorrecepção. mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág.g. Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. que precisam manter sua temperatura regulada. isto é. Mais do que isso. sendo homólogo entre todos os grupos (Graf. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. 2006). Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca. A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz. sendo detectado. passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf.Neurociências amígdala e hipotálamo. entre eles: aves migratórias. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico. detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. Por outro lado. 113 . 3). o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas. formando um ângulo de 90° uns com os outros. 2006). sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans.. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig.002 °C.

de fato. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem. ainda que elas sejam análogas entre espécies. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. Estímulos como a luz. Pág. tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos. necessariamente. 2006).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes. Não há melhores órgãos e sistemas. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. 2006). 114 Julho/2010 . mas apenas aqueles mais bem adaptados. A forma como percebemos o mundo também não é. enguias e até mesmo bactérias. Além disso. disponível na superfície terrestre globalmente.. Em última instância.

Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus). ocelos.. Salviani-Plawen e Mayr. ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . incluindo a navegação e noção de tempo. o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. por definição. 1859). ou podem ter uma origem polifilética. os olhos podem ter uma origem monofilética.com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz. tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins. ou seja. surgido mais de uma vez durante a evolução. Origens evolutivos No caso da “visão”. tamanhos. olhos compostos. Estas estruturas (ex. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida. 115 . Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos. pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin. desenhos ópticos e localização corporal. mas. 1995. olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”.Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail.em todos os exemplos.. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes. 1977). provavelmente. Logicamente. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. de um único ancestral comum. Arthropoda e Chordata. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. embora os olhos apresentem uma variedade de formas. Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág.

as células fotorreceptoras.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz. paralelas umas às outras. e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes. Modificado de Fernald. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. Figura 1 – Tipos de olhos. A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. (Fig. 116 Julho/2010 . 1995). podem ser divididas em duas grandes classes. uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz.1). o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder. Duas dessas soluções aparecem em Chordata. 2000. Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág.

Annelida. tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis.2001). genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo . 2000). 2003). além disso. A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena.têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt. 1999. Duas células . 2) (Gehring and Ikeo. Especializado. Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo). verde: células de pigmento. Durante a evolução do olho. Lophotrochozoa). poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano. Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land. assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt. Pichaud and Desplan.homeobox. que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash. o olho simples (ex. Julho/2010 Pág. 117 ..olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. Arendt). Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar. existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz. 2003).1992. protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e. Em sua origem. 2002). este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz. Fernald. Figura 2 – Foto ilustrativa (D. Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes. Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos.Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig.

Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang. A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. nas quais a célula parece ter um achatamento. A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. 3 (Arendt.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. Nos vertebrados. 118 Julho/2010 . 2001). Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. Arendt e Wittbrodt. olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes. 2003. Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. 2003). com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. 2001). 2001). Pág. Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig.

nuclear externa. Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. plexiforme externa. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula.1997). conseqüentemente. A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. da espécie. por outro lado. Julho/2010 Pág. cada um com sua peculiaridade. 4 do capítulo anterior). desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. amplificação e transmissão (Randall. Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. uma modificação do cílio. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos. externa. especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar. a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. plexiforme interna. Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e. desempenhando operações de detecção. são muito parecidos. Os sistemas de transdução. nuclear interna. 2001).Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. epitélio pigmentar) (Fig. 119 .

120 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

uns 15 cm abaixo da superfície do solo. leite em pó e um carrinho de bebê. o bico escancarado. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center. enclausurada na câmara que construiu. A fêmea. Ato contínuo. girando o corpo. perderiam a prole. retira-o e. o filhote se ergue. 121 . desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. ela chega de novo: mais uma refeição. porém. O macho não apareceu por ali (Robert et al. talvez dormindo. No entanto. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. 1940). a uns 15 cm do solo. chupetas. de aves e outras classes de animais . De repente. Mais alguns minutos e a cena se repete.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. mamadeira. recebem uma explicação simples da teoria da evolução. na direção de onde chegou.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. um ninho de tico-tico abriga um só filhote. Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. Ao pensar em cada item. Alguns minutos depois. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. É bem maior e é mole. Enquanto dirige. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . protegido do sol de verão pela folhagem acima. põe mais um ovo de alimentação.. pinça-o com precisão. Dobrando-se ventralmente. e acaba descansando um pouco. agitada ou apressada. do qual eclode uma larva. mete o bico goela adentro do pidão. A um metro dali. na primeira semana de vida. Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. uma mulher. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. bem rápida. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. e faz cálculos de dinheiro. uma saúva fêmea. uma outra fêmea.e também alguns machos. incluindo fraldas. Foram selecionadas. voa para trás. ela não vai à exaustão total. Bem mais longe.fazem em favor de suas crias. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. pescoço esticado para cima. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. ela pensa na lista. Não é um ovo normal. 1961). Está sossegado. de onde o ovo vem saindo.

E se não construísse a câmara. mas essencialmente o mesmo. O cálculo da formiga é um pouco diferente. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. Abandonando o ninho. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. Pois são estas. propósito e objetivo. Tal inquietude. 122 Julho/2010 . facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem. as funções. tão adaptativa nas relações sociais. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. vivendo de reservas. ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade. Ora. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. precisariam de menos alimentos para si mesmas. como se o futuro pudesse determinar o passado.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. as tico-ticos estariam melhor. mães extremadas dão origem a mães extremadas. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre. 1942. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural. fim. ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. o Pág. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. finalidade. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. 1941). É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta. Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. Essa faculdade. com a manutenção subordinada à reprodução. o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. no entanto. Trata-se de um desconforto filosófico. decorre de um exame superficial do conceito de função. são pontos terminais de linhagens. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. jejuando durante meses. inclusive absorvendo seus músculos alares. enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se.

terá valor no plano funcional. O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. ou com o objetivo de recarregar sua bateria. constitui um outro tipo de fenômeno. prêmio Nobel de 1973. Portanto. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. que devemos chamar de causas do comportamento. a funcional. na maioria das vezes. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. A observação de que as larvas de formigas são inertes. em busca de como ele controla as ações dos rivais. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. A resposta causal. Contudo. O controle de suas ações. Niko Tinbergen. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. obra da adaptação. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. Examinado dessa forma. que tem. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. possibilitando a seleção de programas genéticos. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. no entanto. fazendo-os mais ou menos agressivos. e mais duas que não serão aqui examinadas. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. por exemplo. cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. portanto. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê. o canto está dentro de um estudo causal. incapazes de se alimentarem sozinhas. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. uma funcional e outra causal. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. 123 .

esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução. inclui rotineiramente relações entre machos. elas recobram seu vôo normal. no prelo). Sim. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. no ambiente natural. 124 Julho/2010 . Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. a começar pelo reconhecimento correto do objeto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido.. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. e assim por diante. fora tanto do contexto funcional como do causal. causas e funções podem desencontrar-se. tão comum em mamíferos. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. o animal deve engolir água e não areia ou flores. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. os jovens fazem coisas de adultos. antes de atingirem o solo. No comportamento lúdico. mas presente também em aves. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. Existem mariposas que subitamente. Alguns segundos depois. ou seja. seja no ambiente natural seja no laboratório. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. em condições normais no ambiente natural. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. a sede quando falta água. Em condições anormais. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. em pleno vôo. As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. Em condições normais. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. como a sexualidade dos bonobos que. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. é necessária a ação de fatores causais adequados. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir.

O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais. A amiga. Por predação ou furados pela chupim. a ticotico talvez tivesse ido embora. Essa pelotinha de fungo era essencial. está feliz de poder ajudar. Ela tinha um bom emprego. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. menos um. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. É filho de uma amiga. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. Foi vã toda a dedicação da tico-tico. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. que normalmente reside no Julho/2010 Pág. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. Já o comportamento da mãe. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. Mesmo tendo perdido o fungo. abandonando o ninho. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. Diferentemente de qualquer outro animal. Ela continuará a alimentar as larvas. para fazer outro em lugar mais seguro. na pré-história. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. 2004).Neurociências o comportamento animal. ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. Sem esse jardim de fungo. em seu benefício. O filho. os ovos perderam-se todos. Não a viu. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. ao planejar o filho. O filho foi planejado. Porém. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. a reprodução. neste caso imaginário específico. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. seu esforço é vão. mãe solteira. que está sem dinheiro. Se a percebesse. Isso foi assim. No caso que estamos examinando. antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. o da chupim. sem fungo. 125 . comuns em animais sociais. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. Explorando o sistema causal da hospedeira. solidária.

Em nós. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. Curiosamente. A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional. As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. humanos. 1981). A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação. mas não se revela facilmente a si mesma. é uma causa dos comportamentos da mãe. Pág. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. porém o progresso é indiscutível. as respostas são mais hesitantes. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz. que muitos animais são capazes de fazer. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. 126 Julho/2010 .

timbre.fv@gmail. Esse mecanismo depende. intensidade. 127 . Não importa qual a posição do carro mostrado na figura. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga. Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. Tome por exemplo a Fig. mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição. Ivry e Mangun (2006). Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor. o reconhecerá pelo cheiro e voz. forma. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. ouvindo ou sentindo estímulos). Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo.Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. a percepção de uma determinada nota é mantida. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). abstração. Por outro lado. altura para audição. Ele seguramente o estranhará. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. Humanos são para os quatro desenhos. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. especialmente atenção e memória. como a memória ou a atenção. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes. de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. mas vai além destes. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. portanto. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. 1.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. movimento para visão. Ainda assim. sabemos que se trata do mesmo carro.

quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido. mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). 128 Julho/2010 . de fato. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital. particularmente no caso da espécie humana (Preuss. o que descarta problemas de memória. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. entender como percebemos. pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. associado a apenas uma modalidade sensorial. Mais do que isso. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia. em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. pelo contrário. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. 2006). Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). são parte dos chamados córtices associativos. em geral. passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. como já mencionado. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. Com esse arranjo. essa informação continua avançando por diferentes regiões. mais fibras vão convergindo na rede neural. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e. Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. A informação que chega até o córtex visual não para em V1.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”.

mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. Apesar do arranjo sequencial. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo. mais adiante na sequência de processamento visual. o tempo de reação é menor. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. Quanto mais adiante na sequência. Na Fig.Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig. permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. Julho/2010 Pág. 2006. como movimento ou cor. mas não de outras características. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. Através da via dorsal. 129 . 2). já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. independente de qual delas. as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. podemos entender “onde” vemos um objeto. Modificado de Lent. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos.

(2000). simplesmente não há “correto”. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão. isto é. 130 Julho/2010 . e uma via ventral (córtex temporal inferior). Retirado de Kandel e col. mais uma vez. Apesar disso. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. que disparam para Pág. Evidências clínicas. esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos. A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto. falando-se em percepção. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral. para processamento de informações sobre localização espacial e movimento. relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. De fato. o uso de aspas justifica-se porque.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons. Semelhantemente ao sistema visual. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias. não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer.

É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. novamente. Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. por outra via. ganhará maior processamento neural destes circuitos. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos). isto não é o que um cego percebe do mundo. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual.. e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. Como no carro da Figura 1. após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos. morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros. logo. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo. 131 . são apenas as outras sensações.Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos. mas eles Julho/2010 Pág. Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. cheiros e pressões (táteis) ao seu redor.). Essa região está envolvida com memória operacional e atenção. se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás.. invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. melhor dizendo. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. incluindo os humanos. Por outro lado (ou. precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. Para ele. é a constância perceptual para estímulos sonoros. Para ele a estimulação visual nunca existiu. mas.

As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos. o que faz com que. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. 4 criam a ilusão de algo que se distancia. Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. todos dirão que a barra superior é maior. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. Assim. 5 sugere o formato de um triângulo. Isso não significa que falhamos em enxergar. vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. mas sem todas as suas bordas esperadas. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. A Fig. 132 Julho/2010 . Tome por exemplo a Fig. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. 4A. Apenas alguns. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. As barras convergentes na Fig. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. ao olhar para um Pág. de fato. Olhe a Fig. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória). 4B e isso ficará ainda mais claro. apesar de serem iguais. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. após uma análise mais cuidadosa. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. 6. não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito.

Neurociências fundo neutro (branco. com ativações bilaterais. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. Figura 6 – Efeito de pós-imagem. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma. mas pelas cores em volta da mesma.Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. O que você percebe à primeira vista na Fig. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. em seguida. Veja na Fig. Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto. 9? Julho/2010 Pág. 133 . Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem. Figura 7 . O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. perceba-se cores trocadas na imagem. preto ou qualquer tom de cinza). enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. para uma parede branca.

isto é. Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. Por outro lado. mas perdem a forma global. Retirado de Lent. se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela. o contrário não acontecerá). seja por grafemas. percebem os detalhes das imagens originais. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. como dito acima. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. mas não se dão conta dos detalhes. Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. 2006. Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. mas há relatos bem Pág. ou por sons (palavras em geral).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras). 134 Julho/2010 . pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global.

Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas.Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos. As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns. Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. cheiros para cores e. Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. 135 . gostos gerando formas.Modelos de Sinestesia. Figura 10 . A Fig. Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral. mais curiosamente. mas funcionalmente inativas. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág. Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. Modificado de Bargary e Mitchell (2008). 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais). inativas. em azul.

Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente. não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”. Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard. Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e.g. De qualquer forma. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. por exemplo: números escritos na língua de origem. A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. Se um deles disser que um dó maior é azul. um valor bem diferente dos 0. Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. movimento.05% anteriormente sugeridos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell. no caso da visão). por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. portanto. etc. É o chamado binding problem. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. Pág.. 136 Julho/2010 . forma. Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores. Tomando por base o exemplo anterior. 2006). cor. 2003). o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. 2008).

o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. consequentemente. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. não favorece essa explicação. Segundo os autores. Julho/2010 Pág. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. ao final do processamento. diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. Essa explicação. porém. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. desde sempre. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. incluindo as fases iniciais do processo. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que. complexando o estímulo processado). apenas representamos internamente o que é percebido externamente. com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. porém. O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção. Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que. 137 . invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). ainda carece de comprovações. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral).

138 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos.barletta@gmail. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. Desta forma. aprendizagem de conceitos. ocorre de maneira constante. Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. por exemplo. Ainda sim. O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). Por exemplo. Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. na execução habilidosa de uma ação motora. 139 . se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. ela age também selecionando comportamentos. que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. lenta e gradual. no relato de uma experiência de infância. num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes.

isso pode ser altamente vantajoso. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação. Suporte aos sistemas de memória Pág. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. ações essas baseadas em experiências anteriores. além de planejar uma ação antes de sua execução. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. 140 Julho/2010 . a complexidade de tal ambiente aumentar. se beneficiarão. a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento). com regras de operações essencialmente diferentes. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. Do ponto de vista evolutivo. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível. capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. Uma vez gerada a previsão de um evento. Em outras palavras. Indivíduos capazes de identificar estímulos. Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos. No entanto. pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. A evolução do sistema nervoso. conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. Assim sendo. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. no entanto. o surgimento de diferentes sistemas de memória. fazendo uso de processos antecipatórios. sobretudo dos processos de memória. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente. parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. estarão mais aptos para determinado ambiente. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. Se. Portanto. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais.

Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. temos um processo de computação neural. que transformam diferentes formas de energia (e. 141 . isto é. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. que por sua vez. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações. avalia e passar o sinal a outros neurônios. odores etc. deste modo. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. recebe projeções de outros milhares de neurônios. Essas informações sensoriais. Conectadas aos neurônios.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. luz. por sua vez. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. possui bilhões de neurônios. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. gerada por atividade espontânea. Além disso. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses.g. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. sob a forma de impulsos elétricos. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. som. as memórias. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso. é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios.) em potenciais elétricos. Levando em consideração tais possibilidades de combinação. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. Assim.

O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens. Em uma etapa de teste. realizada 24 horas depois. os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. Xavier (2004) e Gold (1970). levam um choque nas patas. 1 . Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. menor é o efeito. À medida que esse intervalo de tempo aumenta. treino inicial representado pela curva verde). Em experimentos adicionais. a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. que não receberam choque nas patas no dia anterior. Se Pág. depois do treinamento com choque nas patas. alguns peixes voltaram à posição normal. 1). A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo. Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso.esquerda). maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. (ver Fig. Modificado de Pavão (2009). Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. 2. Animais de um grupo controle. 1). Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. 1 – direita: barras de cor laranja). 142 Julho/2010 . apesar do flutuador (Fig. por uma porta tipo guilhotina. Após longo esforço de cerca de 3 horas. após entrarem nessa câmara.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias.

e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. os animais realizam a tarefa mais rapidamente. indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. Em segundo momento. porém. 143 . algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. 2007). 3 dias depois. Xavier (2004) e Shashoua (1985). abaixo) – curva verde. i. Num terceiro teste. o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. 2. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. 2. curva vermelha). Modificado de Pavão (2009). com treino de cerca de 180 minutos. os flutuadores foram recolocados. ficavam em posição confortável (esquerda. esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. Então. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. Atualmente. no teste de memória realizado 3 dias depois. Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular. os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. Em outro teste. ver Helene e Xavier. Ou seja. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul. Flutuadores foram presos aos animais. e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. Em conjunto. esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento. acima). que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. essas proteínas foram denominadas ependiminas.Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois..e.

muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos. simplesmente. esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. parece envolver alterações estruturais nas sinapses. gerando circuitos alterados no sistema nervoso. plasticidade. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. algumas horas. O outro. sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. mais instável. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses). pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. Posteriormente ao experimento de Shashoua. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. Um deles. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente. As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. 144 Julho/2010 . Diferentemente. no máximo. por exemplo). Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. associado com produção de proteínas. meses ou anos. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória. uma de curta duração e a outra de longa duração. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo.

mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Julho/2010 Pág. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. anos ou até mesmo uma vida inteira. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP). estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. Sendo assim. Como vimos. Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes. o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. 145 . Aparentemente. Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. Sendo assim. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. representa a experiência adquirida. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo. Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios. Em outras palavras. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. assim como Hebb havia proposto.Neurociências circuitos neurais. tornando-as associadas. correspondente àquela gerada durante a experiência original. ou redes nervosas. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas.

usualmente. esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. Isso significa que. A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. Como consequência. A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. estão profundamente associadas com os processos de memória. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes. como por um ato de vontade para recordar aquela experiência. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). mais fortes tornam-se as conexões. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. categorias. percepção. Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. ação e outros processos cognitivos. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. quando Pág. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção. por meio de sua atividade e conexões. Além disso. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. "nós" da rede. Uma vez ativos. Assim sendo. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. 146 Julho/2010 . a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. Em primatas. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. Isso permite entender porque a recordação envolve. organizadas no tempo e espaço. dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento. são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica.

Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios. excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões. Figura 3 . enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. Nessa rede. de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. uma dada população de nós disparando. se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. 2007. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. levando à sua previsão. ou pode ter reverberado nessa rede. A rede tem uma organização inicial como representado em (A). 147 .Neurociências ativados. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. representa uma determinada informação. de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial. já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. Nesse sentido. contribuindo para a lembrança completa da experiência original. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória.Esquema representativo de redes neurais de Hebb. e de Helene e Xavier. Modificado de Bear. Julho/2010 Pág. mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. 2002. ao receber um estímulo. Por exemplo. então. Além disso. essas ligações podem variar em intensidade. é ativada (B).

Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular. 2007). o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória. Segundo essa ideia. o paciente sofria de epilepsia intratável. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia). Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais. O prejuízo cognitivo de H. O foco epiléptico. porém.M. Curiosamente. H. sua personalidade e a memória de curta duração. uma espécie de reverberação da Pág. representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. além de outras porções corticais. Na ocasião. 148 Julho/2010 . neste último caso a amnésia era temporalmente graduada.. o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. parece atualmente bem difundida.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. assim como seu QI. quando consultado sobre seu treinamento prévio. H. ele alegava nunca ter feito isso.M. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. Após a remoção das estruturas. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. isto é. e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente. foi removido cirurgicamente. aprendeu a ler palavras invertidas. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos. porém cooperativa. isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala.M. que funcionam de forma independente. possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração. Como dito anteriormente. Por exemplo. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). descrito por Scoville e Milner (1957). suas capacidades perceptuais se mantiveram. estava restrito à aquisição de memórias de longa duração. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier. estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis.M. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas.

2007). prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas. por exemplo. Neste contexto. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. Julho/2010 Pág. são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. usualmente preservada nos pacientes amnésicos. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. têm lesão no lobo temporal medial).M.Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. e uma memória de procedimentos (ou implícita). pacientes parkinsonianos exibem.M. Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita). Trazendo esse conceito para o caso do paciente H. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. como visto. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente. Duplas dissociações. pode-se dizer que. pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas. Curiosamente. Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. Em outras palavras. embora possam cooperar entre si. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier. Resultados de estudos como do paciente H. 149 . mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. Em suma. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste. 4). Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu.

o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. em cada caso. o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. ocorre de forma cumulativa. como já descritas.M . Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo.amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson . possui um acesso consciente. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento. porém. Sua aquisição é gradual e dependente de treino.M . Além disso. ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig.PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. ou seja. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição.amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson . Pág. Sendo assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H. 150 Julho/2010 . A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas. 5). (modificado de Helene e Xavier. A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal. 2007).PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração.

um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. Julho/2010 Pág. memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. 151 . que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas. Segundo os autores. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. Posteriormente. A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig. para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração.Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. Modificado de Helene e Xavier. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal. 6). que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional". 2007. denominado de retentor episódico. a central executiva.Neurociências Figura 5 . Baddeley inseriu um quarto componente no modelo.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . Pág.. incluindo raciocínio lógico. a organização do sistema nervoso. esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. com propriedades distintas. É provável que a seleção desses sistemas. enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem. teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas. A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva). aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974). aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). Considerações finais Em conclusão. resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. do ponto de vista evolutivo. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. 1982). 152 Julho/2010 . enquanto úteis. Assim. inclusive dos diferentes módulos de memória.. resolução de problemas.g. Ainda sim. a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas.g. a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência.

Em primatas. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. ou seja.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. Centenas. Quando o animal se move livremente. como veremos a seguir em detalhes. Anatomicamente organizado em camadas. 1971). 1989) (Fig. o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1. Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica.com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. Em ratos. 2. o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. 153 . 1). Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente. Witter e col. No rato. Adaptado de Paxinos e Watson (2004).. se não milhares de experimentos. 1968. Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky.

1993). Cohen e Eichenbaum. 154 Julho/2010 . 3). 2). que incluem a plataforma visível ou. com uma pista que indica onde a plataforma está. Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. Entre os anos de 1953. Pág. quando fez uma operação experimental no lobo temporal. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. para estudos de lesões. versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. e 2008. Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. como veremos mais adiante. Adaptado de Eichenbaum (1999). ano de sua morte.M. o paciente H. infusões de drogas ou. Devido à sua simplicidade. 1993). em outras vezes. outras vezes. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. 1957. Há várias versões desse teste. não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. O labirinto de Morris é usado. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. 1978) (Fig. Figura 2.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. 1993). nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial. entre outros.

155 . 1986).  Navegação por local. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas. Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. aleatória. Julho/2010 Pág. nesse caso. Navegação táxica. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. ele deve explorar o ambiente de forma randômica. Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica.  Navegação por rota. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e. por exemplo. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel. O animal pode executar um programa motor constante. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. Navegação práxica. Whishaw e Mittleman. São elas:    Navegação randômica. Se. Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). 1978. O círculo indica a plataforma escondida ou não. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada.

Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. 1997. há um mecanismo fisiológico que é capaz de.. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col. esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar. Dessa forma. possivelmente devido à perda extensiva de place cells. McNaughton e col. 1978. 1993. o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. al. para atualizar a representação de acordo com essas pistas. 156 Julho/2010 .. Para tanto. 1994). as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação. Pág. 1997. utilizando-se das pistas externas e internas. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col. como direção de movimento e velocidade. Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação. Nishijo e col. Maguire e col. ou seja. enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células. Eichenbaum e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos.. além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente... 1990. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. Wiener. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados. gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. 4).. 1999) e humanos (Ekstrom e col. porém sem perceber a posição. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais. Matsumura e col. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas. 1983.

Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos. 2007). no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação. Furuya e col. Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. 157 . (2005). VR(N) é um ambiente similar a VR. Em outros estudos... 2005. os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col. mesmas posições.. 1994). as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. dessa forma. Furuya e col. 5).. Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col. 2007). No entanto. 4. mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col. 2005. VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. 2005. Fig. Embaixo.Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. 2007) (Fig. 2005). As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas. Furuya e col. porem com menor tamanho. imóveis (Hori e col.. VR(W).. atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual. o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. Adaptado de Hori e col.. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. porém em posições diferentes. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies.

mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual. 1993) e. 158 Julho/2010 . Adaptado de Hori e col. Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN.. núcleo anterior talâmico (ATN. 2007). Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS. Porém. núcleo mamilar lateral (LMN. 1991). quanto em primatas. mantendo-se as proporções de B. as pistas encontram-se próximas e em C. (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres.. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze. são as pistas que se movem em relação ao animal. Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system). tanto em ratos. 1984). e não o contrario. 1995). há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. Mizumori e Wiliams. 1996). apresentavam maior atividade no hipocampo. No entanto. Em A. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle. Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. Leonhard e col. Foi verificado que os taxistas. Ranck. em relação ao grupo controle de nãotaxistas. Taube. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col. Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo. Maguire e col. (2005).. Nesse paradigma. em menor Pág. no entanto. porém com características similares.. Em B...VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col. o ambiente todo é reduzido.

a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. ou seja. 6).. por sua vez. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência.. Cada região. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente. 2006). o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. O LDN também se conecta com o PoS. na qual sua atividade é máxima. dessa forma. nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. Julho/2010 Pág. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col. em um arranjo de 360º. McNaughton e col. Essas células. são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente.. 2004). Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo. O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. que. seguindo um padrão triangular. 1994). 159 . enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. se projeta para o AD. ou seja. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. PoS envia uma projeção ao LMN. Como a direção preferida de ativação não se altera. Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig. denominadas grid cells. sendo. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. esquematizadas em um anel de ativações. 1995). ou cada população de células.Neurociências quantidade. a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. diferentemente das place cells. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação.

A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). Adaptado de McNaughton e col. Na ausência de movimento. 2006. (2006). a. para fins didáticos. Figura 7 . as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. de acordo com sua posição preferencial de disparo. b. 160 Julho/2010 . Adaptado de McNaughton e col. Cada célula se conecta com as adjacentes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas. Head direction cells arranjadas em círculo.Modelo de integração de rotas. Pág. cores quentes representando maior taxa de disparos.

são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. essencial para vários processos como busca de alimento. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning). por ser menos específico do que o sistema de place cells. ou quase impossível. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. Da mesma forma. o conhecimento. Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. A codificação de informações a respeito de lugares. entre outras questões adaptativas. 1997) (Fig. localização dos melhores abrigos. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. dissociar navegação espacial de memória episódica. No entanto.. encontro de parceiros sexuais.Neurociências O sistema de grid cells. etc. 2006) (Fig. sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade. que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. de melhores épocas do ano para migração. acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. ou a memória. Dessa forma. é muito difícil. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. 7). é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados. A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. 8). Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. Julho/2010 Pág. 161 . Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. junto com o sistema de head direction. certamente essencial para os processos evolutivos dos animais.

Cores quentes indicam altas taxas. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. Adaptado de Einevoll (2006). Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar. 162 Julho/2010 . As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo. enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal. Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo. Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields.

Julho/2010 Pág. 163 . Caroll Izard. essas sensações são as emoções. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas. Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. Com o surgimento do pensamento behaviorista. i. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. Ou seja. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. contração de diferentes músculos. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. em geral. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. começou a ser considerado como nãocientífico. a ciência da cognição. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem. Jaak Panksepp. por volta de 1910.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo. aumento da sudorese.. as emoções não ocorreriam. em um artigo intitulado O que é a Emoção?. em geral.e. De fato. Pesquisadores como Magda Arnold. etc. Por exemplo. por conseguinte. então. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga. o estudo da mente e. segundo James. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções. Paul Ekman. A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. retomados. alegria. se a teoria de James estivesse correta. Ademais.com O que é emoção? Medo. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. Por volta de 1950. o estudo das emoções. vergonha. Para James. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. De forma geral. raiva. Portanto. então. Por exemplo. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas.

um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. 164 Julho/2010 . reações Pág.. e não de esquiva. nos referimos a este estímulo como punição. de uma forma geral. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. Para ele. Richard Davidson.e. Quando. que apesar de ser um estado emocional negativo. Antonio Damasio. Por exemplo. O que é a Emoção?. a qual resulta numa sensação. emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. contribuindo para a tomada de uma decisão. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo. nos referimos a este estímulo como recompensa. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. As emoções. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. Essa sensação é avaliada pelo organismo. ainda não tem uma resposta consensual. por outro lado. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James. mas a questão central levantada por James. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções. trabalha para reduzir.e. Por exemplo. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre.. Segundo essa concepção. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. está associada com uma resposta de aproximação. Edmund Rolls. i. Apesar das diferenças entre elas. e por outro lado. i.

i. ereção dos pêlos.e. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. batimento das asas. a emissão de sons. Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. e engajar em comportamentos sociais adequados. por exemplo. Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies. entre muitos outros. Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo. particularmente as expressões corporais e faciais. apresentar cuidado parental. como cegos de nascença e bebês muito novos. Darwin observou. o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas. como mostra a Fig. 1. Julho/2010 Pág. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. Assim. por exemplo. que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. encontrar alimento e parceiros sexuais.. como o comportamento de morder quando se está com raiva. 1995). que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo. um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. 165 . exibem normalmente expressões emocionais. Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais. Estudos mais recentes mostraram. também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo. Além disso. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. cheiros. não são aprendidas pelo indivíduo.

Gene Sackett (1966). Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. Note a ereção dos pêlos no gato e no cão. e das penas na galinha.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1. e de se recordar do conteúdo aprendido. E nesse contexto. Modificado a partir de Darwin (1872). os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. (A) gato assustado com um cachorro. (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. Isto é. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais. (B) galinha afastando um cão de sua ninhada. ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. expressão ameaçadora. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. Entretanto. mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. De fato. 166 Julho/2010 . quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. o que tem alto Pág. Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos.g. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. incluindo as sociais. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente.

e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. algo que não sentia antes. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação.Neurociências valor adaptativo. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som. e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. então. Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. à apresentação de carne. Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. em seguida. O condicionamento Pavloviano. e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. Julho/2010 Pág. 2). colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). como no caso do experimento idealizado por Watson. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. Watson. que não eliciava a resposta de salivação nos cães. quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). Pavlov. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. 167 . O bebê passou a sentir medo pelo rato. Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. também denominado condicionamento clássico. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne. elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. não apresentando medo pelo animal. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. como no caso do experimento de Pavlov.

respostas autonômicas (e. o choro do bebê Albert perante ao rato albino. geralmente um choque nas patas do animal. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante. toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores.. liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. chamamos este comportamento de operante.g. respostas de congelamento). 168 Julho/2010 . como comportamentos defensivos (e.g. Procedimento de condicionamento Pavloviano. por exemplo um estímulo sonoro. Por exemplo. e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado). o animal emite uma Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2. Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007). O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência. neste caso.g.g. Nesta situação. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. é pareado algumas vezes a um evento aversivo. Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo... A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas.. respostas neuroendócrinas (e. Diferentemente. e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão. Em geral. entre outras. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro.

de cenas alegres ou neutras. No entanto. i. de sexo. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas. Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. por exemplo. como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos.e. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. Em algumas regiões do encéfalo. toda vez que o rato toca o assoalho. a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. que evocam diferentes respostas emocionais. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. Neste caso. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. Neste caso. Por exemplo. no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. e é amplamente empregado no estudo das emoções. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. recebe um choque nas patas. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. do inglês. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. 169 . A estímulos desta natureza nos referimos como punições. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo.. entre outras. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. Nesta situação comportamental. Até mesmo alterações de humor.

Modificado a partir de Lang et al. (2002). Para Papez. Figura 4. incluindo o córtex cingulado. como mostra a Fig. 4. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS . Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. em 1937. Lobo límbico definido por Broca. (1995). Pág. Mais tarde.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos. 3. Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso. o tálamo anterior.International Affective Picture System). 5). de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam. Bases Neurais Em 1878. Figura 3. o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. e a expressão emocional pelo hipotálamo. Modificado a partir de Bear et al. 170 Julho/2010 .

cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência. Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. Modificado a partir de Bear et al. No início da década de 1950. por exemplo. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca. Isto é. Circuito proposto por Papez. 171 . como a amígdala e o hipotálamo. Diferentemente. os animais podiam ver perfeitamente. as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. Historicamente. que denominou “sistema límbico”. Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala. os macacos lesados Julho/2010 Pág.Neurociências Figura 5. a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional. o hipocampo. como por exemplo. a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. principalmente os visuais. Ademais. (2002). Por outro lado. o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. denominado síndrome de Klüver-Bucy. não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais.

e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo.g. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). do ponto de vista hodológico. Em seres humanos. Mais tarde. Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). diferente de indivíduos normais. perda de responsividade emocional. 172 Julho/2010 . Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. e perdiam o medo por cobras e pessoas. que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo.. Depois de processadas e associadas na amígdala. Mais tarde. endócrinas. exame excessivo de objetos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. essas informações podem modificar respostas autonômicas.g. somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. danos amigdalares em seres humanos Pág. outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. onde um estímulo (e. 1992). O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. Por exemplo. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. De fato. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências. ele dirá 2 ou 3. tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies. e não de outros tipos. um choque). consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. De fato. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa. e nesse sentido. Baseado nessas e em outras observações.

O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. impaciente e grosseiro. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. em geral. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. tais como os roedores. 173 . Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. 6. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte. um trágico acidente acometeu Gage. Em seres humanos. deficiências motoras ou de percepção. No entanto. Em setembro de 1848. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. fruto de uma forte crise epiléptica. o que não ocorre em animais não-humanos. irresponsabilidade e perda de afeto. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. Phineas Gage. logo se perdia em outros planejamentos. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. Depois. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. e muitos anos mais tarde. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo. Por exemplo. Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. aos 25 anos. lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. incluindo seres humanos. e pouco desenvolvido em outros animais. Macacos com danos na amígdala. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. que se deu 13 anos mais tarde. por exemplo. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. como mostra a Fig. tais como perda de inteligência. que sempre abandonava. tornou-se irresponsável.

Modificado a partir de Gazzaniga et al. 174 Julho/2010 . (2006). diferentemente de animais normais. Figura 6. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. 2007). Nesta tarefa. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al. nas quais a escolha de um objeto. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. diferentemente de animais normais. o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág. a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada. que param de responder. Em seguida. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. ou seja.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. O núcleo accumbens.. De maneira similar. passa a resultar em nenhuma recompensa. Por exemplo. que inicialmente era recompensada. De fato. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. o reforçamento é revertido. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. por sua vez.

e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. como por exemplo o comportamento de se alimentar. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. por exemplo. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. Isso é diferente de valor hedônico. 175 . O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente. eliminam comportamentos motivados. Por outro lado. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado. Por exemplo. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. i. ou seja. função primordial das emoções. do ataque predatório.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos. entre outros. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. Danos no hipotálamo lateral. o córtex cingulado. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. Por exemplo. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. por sua vez. De fato. estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais. além do comportamento maternal. quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp. 1998). a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal. e o comportamento sexual. Finalmente. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág. a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte.e. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. heroína e cocaína. mas não para o valor hedônico das recompensas.. E consistentemente. que por razões ainda não claras. do comportamento defensivo. de beber. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva.

a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. Num teste chamado impressão emocional subliminar. e não às furiosas. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas. indicando reação aversiva ao choque. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). sem conhecimento consciente. Entretanto. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). indicando o aprendizado do condicionamento aversivo. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. quando testados na mesma tarefa. e consistentemente. Por exemplo. a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. a paciente S. ou seja. Como foi discutido em capítulo anterior. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente.. um ideograma chinês. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. Em um experimento clássico. o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. a paciente S. De fato. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação. pacientes com lesão hipocampal. e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos. seguida de um estímulo-alvo. Interessantemente. Apesar disso. 176 Julho/2010 .P.R. como por exemplo. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso. com dano bilateral na amígdala.

somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. 177 . a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. e não só por meio de um procedimento implícito. mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo. De fato. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes. o primeiro namorado. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras. como o condicionamento aversivo. que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. etc. Julho/2010 Pág. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. seguido pela consolidação dessa memória. Além disso. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. Numa perspectiva evolutiva. o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. Por exemplo. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo. ou seja. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. como o falecimento de um ente querido.

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XX) em estudos neurocientíficos. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. lobos e primatas. É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. Neste capítulo. Anteriormente a este período.Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. em questão de 1 ou 2 anos. e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. cães. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. ouvimos. tais como fMRI. ou na produção de mesma.com. falamos. Atualmente. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente. algumas espécies de animais se comunicam. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC). era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua. na esperança de recobrar-lhe a fala. Retrocedendo mais ainda no tempo. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal. Bebês nascem e. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente. Julho/2010 Pág. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana. Assim. Antes objeto de estudo apenas de linguistas. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral. PET e ERP. por exemplo. MEG. De certo. apresentasse dificuldades na dicção. ao encontrar um indivíduo que.br Introdução Dentro das ciências cognitivas. sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos. 179 . ou no som das sílabas que ouvimos. como as aves. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. sua lateralização e modularidade cerebral. as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos.

180 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente. não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se. tudo isso sem a necessidade de intrução formal. e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3. vários experimentos têm sido realizados. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. comparando-se com crianças de nossa espécie. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. especialmente com chipanzés.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si.000 palavras. Surgem também algumas questões.  conteúdo: não só as palavras. simplesmente. casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras. mas também gestos.5 anos. Por fim.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. De modo muito diferente. Além disso. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente. contam-se 10. Em um deles. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se. Assim. e a outra indicando o cisne. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana. optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL). São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. no planeta.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções). Pois bem. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. Além disso. aos 4 anos de idade. de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia.

1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. a leitura e a escrita. 181 . que serão ilustradas na Fig. a produção da fala. Tabela 1 . De fato. são orquestrados pelos 1. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas. e até mesmo nossa linguagem corporal.Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. O hemisfério Julho/2010 Pág.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana. também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro. 1 e Tab. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo. envolvendo a articulação dos lábios e língua. intermediados pelos sistemas visual e motor. então. vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem.

. sua fala fica afetada por uma fluência em excesso. ritmo e prosódia à lingua falada. é rompido. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores.Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda. Pág. Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral. sala”). Vermelho indica os maiores níveis.e. que interliga as regiões de Broca e Wernicke. A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p. verde e azul. “Senhoras e senhores. alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). mas sim a compreensão da fala e da escrita. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo. e conferir entonação. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. As mais conhecidas são as afasias de Broca. Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. verbos sem flexão. A afasia de Wernicke não prejudica a produção. tais como compreensão de respostas não-verbais. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). 182 Julho/2010 . amarelo. de Wernicke e de Condução. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. e troca de letras durante a escrita. São diversas as disfunções decorrentes de AVC. Portanto. Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. letras e palavras curtas. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior). 1994. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular. por favor dirijam-se à sala de jantar”. seria produzido por um destes pacientes como “senhora.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem. Devido a esta dificuldade de compreensão. Retirado de Posner e Raichie. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. leitura de números. senhor.

Existe. olfato). destacando-se entre estes Kuhl (2000). em nossa espécie. (2001). 183 . e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma. A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. ainda. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi. envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos. Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . portanto. com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. visão. E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. herdado geneticamente de nossos ancestrais. por exemplo. entre outras. articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. ainda.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. 2005). mas também para diferentes características linguísticas.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras. parece pertencer ao acervo biológico do homem. apontando apenas para um componente genético. A dislexia. O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. Há. Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso. devido à modularidade cerebral . motricidade. apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. quando comparados à população normal.

maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas.períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. após o qual ela deixa de existir. bebês aos dois meses de idade não o fazem mais. sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. 184 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. ao passo que. percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. a aquisição de outro idioma. de aprendizado simultâneo de duas línguas. 1997. Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas. nascemos prontos para aprender qualquer idioma. e o da direita. Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. tomado de um ponto de vista neurobiológico. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. hormonais e de plasticidade neural. curiosamente. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. (Mechelli. 2000). Retirado de Kim . diferentes entre Pág. De fato. 2004). Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro. em dois indivíduos adultos. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. Ainda assim. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios.

e chegando até o fenômeno do bilinguismo. passando pelo seu processamento. 185 . Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. ou quaisquer outras línguas entre si. Nosso cérebro. não faz distinção entre japonês e inglês. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. português e alemão. anomalias. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. e por consequência. codificação gênica. em português. Retirado de Kuhl. de 0 a 12 meses de idade. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. nos primeiros anos da infância. primeiro. Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória. Ontogenia.Neurociências elas. prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. perceber auditivamente e. 2004. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. 4). para os povos de língua espanhola. distúrbios. em inglês. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. Julho/2010 Pág. depois. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. para os brasileiros. ou como nas palavras avô e avó. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. representação mental.

186 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

2003. Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica. É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres. por mais de uma freqüência). senão todos. por mais que escutemos sons distintos. Ainda assim. Tramo. assim como notas musicais. Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical). um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre. 1998). isto é. 2006).. Apesar das diferenças interculturais. língua ou idade. Gray e col. não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. há algumas particularidades nos sistemas de afinação. o que se contrapõe à freqüência. 2007). que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. irrestrito a gênero. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. 2001. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural.Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues.fv@gmail.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. É o seu timbre. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág. ao longo do espectro de audição. 2001). classe social. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. Elas estão baseadas em uma tonalidade. 187 . que é um atributo físico (Bendor e Wang. isto é. Portanto. a qual é um atributo perceptual do som. um mais grave e outro mais agudo. A composição de várias ondas produz um som muito específico. essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. uma característica sempre presente. são complexos. 2003).

3. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. conceito. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre. no entanto. também em outros organismos). É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno. Benítez-Bribiesca. Gray e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. Bendor e Wang (2005). Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. mas também para seus múltiplos. 2006). para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. Enfim. quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes. 2007. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. 2001. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. 2007. Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. 880.. que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. 188 Julho/2010 . em última instância. Masataka. 1. 2001. Tramo. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais.520 Hz e etc. dispara também para sons com fundamental em 110. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. Hauser e McDermott. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles. 220. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. 2001. provavelmente. Pág. Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. não justificam por si só a existência de música globalmente. estudando o córtex de sagüis. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido. 2003.760.

traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. 535. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. 1998. 189 . separar um solista de uma orquestra. então. “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. 1874. É interessante notar que.pág. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música. uma mesma fonte sonora. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. 2000. então. Clark. relacionando música e linguagem. Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. em verdade. Isto é. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. em particular. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala.. Pinker compara a audição à visão. O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. Achados mais recentes. a música poderia ser até anterior à fala. Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. 1998 . Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. baseada em seis pontos principais. para tentar responder à questão. logo. que as associa. rir. 534). o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são. O sistema nervoso.Neurociências Wright e col. chorar. percebendo-as como um tom complexo. regulares. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. para citar alguns) e não há consenso nas respostas. gritar) tem um apelo acústico próprio. por exemplo). uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. por exemplo. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. 1879. mas como tons complexos. da prosódia. Nesse sentido. Pinker. resmungar. segundo tal proposta de Darwin. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. Darwin. A música. serão apresentados mais adiante neste texto. uma voz em um ambiente cheio de ruídos. dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar.

insegurança ou mudança de habitat. O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. paisagens verdejantes. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). todos têm efeitos emocionais. desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. 537. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. A música também interferiria com tais circuitos neurais. O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. o qual não variou em latência. O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial. Tal ritmicidade que nos faz dançar. possivelmente. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. 190 Julho/2010 . ventos. rosnados. fontes neurais e amplitude. independente deste ser uma frase ou um trecho musical.pág. como vistas distantes. insegurança ou mudança de habitat. Koelsch e col. corações e galhos batendo. certamente estimula nosso sistema motor. passos. e acompanhar a música. água correndo. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. balançar. pássaros cantando. nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). bater palmas. distribuição no escalpo. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. Trovões. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro.

(Pinker. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. mas permitem. Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. 2000). os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos.. relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. Diante dos resultados. mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). sejam eles abstratos ou concretos. Isto é. mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. 2005). 2003b). deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. Essa percepção. 1998). O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais.Neurociências prévio. como a linguagem. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. provavelmente. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. até mesmo. Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. sua criação e percepção. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. além da própria comunicação entre indivíduos. Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. Fica claro. portanto. possivelmente. não só em humanos (Wright e col. em última instância. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. em outras palavras. assim como a linguagem. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. no entanto. 191 . As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana. independente do conteúdo emocional desses conceitos”. A capacidade para interpretar música. são Julho/2010 Pág. produzi-la. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. também contextos).

1879) tal grupo é investigado. As razões são óbvias. Desde o século retrasado (Clark. Mais do que isso: . então. Mas voltando aos mamíferos. trabalhando com macacosrhesus. depois. Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. expostos a música e melodias diversas. talvez. os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. Segundo os autores. Ainda. 2003).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. portanto. Da mesma forma. pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. mas não em tons diferentes. relações tonais. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott. são freqüentes composições que exploram um tema. O caso mais atípico e impressionante. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. assim como nós. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne. mas não para melodias atonais. como inversões de intervalo.O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem. permutações e combinações de notas que os compositores humanos”. . porém. Wright e col. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné. a Cacatua-Negra. as baleias optam por produzir sons rítmicos. partem para uma seção mais elaborada e. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. 192 Julho/2010 . seja da espécie Probosciger aterrimus. O experimento de Wright e colegas. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. já descrito. (2000). tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais.

Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais. sugere que a música deve ‘predar’ os humanos. 1998). as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição).” – pág. . 193 . . ao invés de sermos os inventores dela. De fato. e em grande parte do mundo.phy. É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância.html para maiores detalhes).edu/~suits/overtone.Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical. são derivadas da Série Harmônica (ver http://www. 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana.mtu. mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos. relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. Ainda. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa.Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas. 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum. Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras. Nas palavras de Gray e col. enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller. expressões faciais fechadas e até choro. .. as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental.Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas. é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos.Neurociências de músicas produzidas pelo homem.

Wittbrodt. seguramente os motivos pelos quais ela permanece são outros (a não ser que ela já tenha se originado por esses outros motivos. Reconstructing the eyes of Urbilateria. Lond. Dev. B 356: 1545-1563.13. 8. p. Bower GA. Muito pelo contrário.). Escavação de um sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. como parte do ritual de acasalamento. M. M. v. ed. Independente dos motivos pelos quais a música se originou no homem. p. I. (2001). Revista de Entomologia.11. a falta de consenso entre pesquisadores sobre a musicalidade em outras espécies animais permanece. uma propriedade emergente da interação de diversos sistemas. Autuori. Evolução do sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. Bibliografia Arendt. 1908). como apontado por Pinker (1998). (1942) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. pp. 2004). Se há algo de exclusivo entre homem e música.-Hymenoptera-Formicidae). In The Psychology of Learning and Motivation.12. v. 47: 563-571 Autuori.47-89. D. Pág. Ainda assim. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo.Trans. a organização musical semelhante entre diferentes espécies nos mostra que ela não é um acidente. Arendt. (2003) Evolution of eyes and photoreceptor cell types Int. J. 1908). vol. M. isso parece ser a produção e a apreciação da mesma por puro prazer.. 1974. mas uma propriedade específica do sistema nervoso central. Hitch G. Na espécie humana. Soc. É possível que a origem da musicalidade de humanos resida nestes mesmos mecanismos (de seleção sexual). III. Apesar de tantas evidências. J. Biol. tal uso não invalida que elas sejam capazes de produzir sons musicais e que a estrutura das “músicas” produzidas seja semelhante à humana. como apontado por Koelsch e col. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. Roy. Autuori.197228. (1941) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. New York: Academic Press. 194 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reconhecimento de sons musicais mesmo em espécies que não o homem. D. a música adquire outros significados muito mais fortes como promover a coesão de grupo e a interação social (podendo até possuir a mesma capacidade de abstração e atribuição de significados que a linguagem. como apontado por Darwin. claro – improvável quando se compara com outros grupos). Working memory. Mais provável ainda que sua existência se apóie em diversos fatores e não apenas em um deles. v.. As críticas são freqüentemente embasadas no fato dos cantos serem essencialmente produzidos por machos.137-148. Formicidae). que caminha em estreitas relações com a comunicação intra-específica e a seleção sexual. Phil. (1940) Algumas observações sobre formigas cultivadoras de fungo (Hym. Baddeley AD.

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202 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. fisiológica e bioquímica. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. . comunidades e ecossistemas. 6) interação entre metabolismo energético e reprodução. Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais.com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab. conseqüentemente. este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. Sendo assim. com especial atenção à técnica de respirometria. a viabilidade das populações. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental.

Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. Silvia C. 269 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. 279 pág. Carlos Arturo Navas pág. 204 Julho/2010 . 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. 286 pág. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra. “Ana” o quê? pág. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr. Silvia C. 217 pág. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. 205 pág. 257 Pág.

Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e. juntas essas reações degradativas. extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. Julho/2010 Pág. Tais vias biossintetizadoras.Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail. Segundo Schmidt-Nielsen (2002). que invariavelmente requerem a adição de energia. na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox. 2000). Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores. produtoras de energia livre. a soma do anabolismo e catabolismo. são designadas como catabolismo (Fig. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. em princípio. Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo. 1). desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina). Dentre essas reações. 2005).. 2005). Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. é o método mais preciso. ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material. e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. 2) Cálculo através da produção de calor do organismo. 1) (Nelson e Cox. incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos. As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações.com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. 205 . 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação. portanto. a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo.

e o trabalho externo para a locomoção e comunicação. Para conhecer a taxa metabólica de um organismo. osmótico. 2002). Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. elétrico e mecânico. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. 2000). 2005). 2) (Randall e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. Desta forma. sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig. é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. 206 Julho/2010 .. A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. o trabalho interno químico. Pág. a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos.

o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos). coração e músculos são 2. 2. o relativo tamanho do fígado.4. que é similar a TMB. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . o animal deve estar em repouso. pulmão. É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown.5. respectivamente. para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. rim. Em humanos. 1997). 207 . É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). trato gastrointestinal. As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. 0.9. 2. 2000). e 42%. 2002). mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero.. por exemplo. Em mamíferos.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. 0. e a Julho/2010 Pág. não deve haver condições estressantes. as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie.volume de oxigênio por Kg por minuto). sistema nervoso. 0.

a taxa metabólica padrão (TMP). Para alguns ectotérmicos. nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. mais especificamente sua estabilidade. Pág. Por isso. na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar.. entre eles a temperatura. 2000). Entretanto. por exemplo. 1998). 20. Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura.. é possível utilizar a temperatura corporal. Existem outras formas de energia como a química provinda. 1998). 11 e 25% respectivamente. Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que. em virtude da compensação metabólica ou Energia. através do ATP (Ferrano e Soares. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. a movimentação dos seus átomos é elevada. 208 Julho/2010 . quando há um aumento da energia em uma molécula.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. a TMB pode variar devido a diferentes fatores. 10. 2000). é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal. 1998). Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. 1998). como a energia associada ao movimento (energia cinética). 2002). Como foi dito acima. 6. da aclimatação térmica (Randall e col. 4. representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. Sendo assim.   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17. Por essa razão. a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. devido a isso. a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras. é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal.

foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. seja no ar ou na água. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. 2000). portanto. Contudo. 2000). apresentam uma temperatura corporal constante e. Peixes que vivem em águas profundas. Ao contrário disso. para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. endotérmicos. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados. Na maioria dos mamíferos. Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira. que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. Previamente os peixes. quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. 209 . aves e mamíferos homeotérmicos. sendo separados em: os que geram calor metabólico. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita. deveriam ser denominados homeotérmicos. Frequentemente.. 2000). já que. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos.. répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e. Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. ectotérmicos (Randall e col. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col. são denominados homeotérmicos. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C. anfíbios. e os que não geram calor. Porém. 2000). podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002).. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis. Estes animais podem ser divididos em dois grupos. os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus. ectotérmicos e endotérmicos..Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório. Os Julho/2010 Pág.

2002). foi descoberto outra proteína. em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov. Demonstrou-se Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. Além disso. Este tecido é estritamente de mamíferos. Os monotremados.. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. como alguns tubarões. Além disso. 210 Julho/2010 . fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. e col. que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. Entretanto. denominada avUCP... Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom. salmão e muitos insetos voadores. 2000). tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria. como os équidnas. que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. 1965). 1960. Contudo. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos. por meio da atividade muscular. 1963). 2002). que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. Skulache. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética. 2005). Como mencionado anteriormente. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. Fisiológica e bioquimicamente. 2002). assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col. O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP).. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo.

2002). e a UCP1. respectivamente. que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero. 9. dentre um determinado limite.Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos. t1 e t2 . aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. 211 . Como pode ser observado abaixo (Fig. 2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. 3).. k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. quadruplicaria em 20°C. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos. como no metabolismo. Julho/2010 Pág. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero. 2001). respectivamente. Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente. posteriormente. 2002). a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen.

dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. 2002). Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. a fração de um número grande de partículas. 212 Julho/2010 . Para temperaturas que apresentam efeitos letais. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades. quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. por exemplo. e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. Com isso. isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos. os valores de Q10 são próximos a 2. assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. Porém. 2002). como as taxas de respiração e metabólica. No entanto. 4). Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. o Q10 apresenta valores menores que 1. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. Para muitos processos. 2002). para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero. é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética.

Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise. 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. 2002). abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto. Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero. 213 .Metablismo população. com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero. que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. Dito isto. 2002). Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. 2002). mas também. A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional.

2002).Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero. Pág. 214 Julho/2010 . mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2). 2002) (Fig. Figura 5 . 5). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). 2002).

2002). Com base nisso. e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação. que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero. já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal. principalmente o metabolismo. Desta forma. Julho/2010 Pág. nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos.Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos. 215 . a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 216 Julho/2010 .

Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar. Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo. A seqüência de eventos históricos. Contudo. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. Leonardo da Vinci (1452–1519).Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th. Lighton (2008). não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro. 217 . as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. apresentado no capítulo anterior.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. a medida de metabolismo energético em si. veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. Longe disso. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. simplificada para fins didáticos. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral. os alquimistas perceberam que. em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág. entender o que é o ar e como ele suporta a vida.B. apresenta três relações chave entre: ar e vida. a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. O problema não era. ou de encontrar o elixir da longevidade. o ar e a vida. pré-método científico. ao término da chama. A partir daí. no entanto. mas sim. mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. e fogo e vida. fogo e ar. nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. a princípio.kawamoto@gmail. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida.

não havia chama para saturar o ar de flogisto. O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804). Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. mas sim ganha peso. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. e observou que quando a vela apagava. na mesma jarra. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. pássaros e camundongos diminui até certo nível. primeiro. no caso dos animais.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. o metal supostamente “deflogisticado”. a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões.wikipedia. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e. teoricamente repleto de flogisto.org/wiki/File:Mayow). voltava à sua forma metálica anterior a calcinação. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. Pág. 218 Julho/2010 . O calx quando combinado com carvão. a qual chamou de “nitro-aereus”. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. o ar não podia estar saturado de flogisto. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. O mesmo acontecia com a vela. contrário do que seria esperado pela teoria.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração. encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . Neste contexto. Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. eles morrem. Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en. John Mayow morre. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria. sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. instantes depois o camundongo morria. Incrivelmente. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Este era o caso da queima de metais. reforçando a teoria do flogisto. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig.

Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. indiretamente. Priestley produziu. ainda. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar. a ciência percorre caminhos tortuosos e. como dito no início deste texto. ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. Prietley pensou ter descoberto o flogisto. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo. De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. 2). que o gás que não sustenta mais a chama. medem. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. por mais contraditório que pareça. a partir de então. Além disso. ainda. O desenvolvimento dos paradigmas. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma. Entretanto. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos. este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. Deste modo. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica. Incrivelmente. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. Havia. 219 . Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. manômetros e respirometria fechada. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig.Metablismo extingue o fogo. a coulorimetria e a respirometria aberta. Percebeu. A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio.

Figura 2 . baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica. sem mudança de temperatura. calcularam pela primeira vez. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. 220 Julho/2010 .Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier. Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0.wikipedia. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético. a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC.) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado. Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia. momento em que ambos são decapitados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo.jpg. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas.org/wiki/File:Icecalorimeter. Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso). Contudo. através da quantidade de água produzida por esse derretimento.334kJ/g. um de descobriram a termogênese induzida por dieta. aproximadamente o mesmo que uma vela queimando. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo). somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. 1 Pág.

sensibilidade. dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643.Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. The Skeptical Chymist. Em 1661.g. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado. conforme a fórmula: Pa – Po = H. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida. Po é a pressão de referência. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. Em 1643. já que no tubo em U (Fig.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido. Assim. Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. cerca de 20 anos antes. Seu predecessor. 3). permitindo uma nova série de medidas comparativas. 4). Julho/2010 Pág. 221 . Robert Boyle. a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. Mais especificamente. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U. cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. Pág. Ao final do experimento. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento.) ou KOH. mantendo. 5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada. com um absorvedor de gás carbônico colocado.Esquema de um sistema simples de respirometria fechada.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial. Figura 5 . 222 Julho/2010 . Figura 4. já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica. assim. no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio. por exemplo. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa. de preferência. o mesmo volume de ar durante todo o experimento. O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co.

e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). Julho/2010 Pág. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. T é a temperatura em graus Celsius. O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica. b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273. É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. chuva). o que pode alterar a medição também. podendo incutir erro na medição. 5g de tauroglicocolato de sódio.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro.e. descrito mais adiante. diferente do respirômetro de Gilson. O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p. Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH. Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. 500mL de água). 223 . 6).

Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2. Os passos a serem seguidos são: 1. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. Coloque o animal na câmara. Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . (Fig. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg. 224 Julho/2010 . O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo.Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. 3. Pág. Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica. 7). 2. 4.

ou seja.04464. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1. Figura 7 . Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19.43. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. 225 . o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin. Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1.325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. Por exemplo. o sistema não Julho/2010 Pág. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia.15 ) / ( 101. usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson.

Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. Outra limitação quanto ao seu uso. que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. como os artrópodes traqueados. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. que se estendam por dias. produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. A respirometria fechada não permite. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. por exemplo. Dentre as alterações listadas anteriormente. alimentação. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. O aumento de gás carbônico. Contudo. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. MR é o metabolismo medido com o absorvedor. também. Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. Este é o caso de animais que produzem calor. MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. Pág. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. perda de água. 226 Julho/2010 . alterando o metabolismo de forma consistente. medições muito longas. ou que respiram de forma intermitente. Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório.

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento). o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente. 238 Julho/2010 .As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes. Pág. embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers. Figura 2. Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert. 1997). isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos. desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig. Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia. ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG). 1992).2) (Withers. Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais. (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais. 1992).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia.3). (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos.

As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig.Metablismo Figura 3. 1975. Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação. 1992). Figura 4. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia.1976 – Modificado de Withers. 1992).Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May. variando de poucos graus até acima de 400C. pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. Por exemplo. Julho/2010 Pág. com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente. Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores. 239 .Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O.4) (Withers. 1992). modificado de Withers.

Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas. isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. Em um ou no máximo dois meses. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência.. quando a chuva chega. ele é termoconformador em áreas sombreadas. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica. Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência. 2010). 240 Julho/2010 . Assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). Atraídas pela cantoria. alterações do contorno do corpo. Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C. A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol. mas é termorregulador em áreas abertas. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal. mas alguns ocasionalmente têm Pág. Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. Entretanto. por exemplo. com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. em rochas aquecidas. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. 1992). muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. 1992). a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico.

Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C.9° C for colocada próxima ao peixe. desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. portanto.86°C. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento. pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0. Por exemplo. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce.7 0C. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto.Metablismo contato com temperaturas congelantes. Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers. se um pedaço de água congelada a −1. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar. desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. Desta forma. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C). Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. 1992). ao contrário. Ectotérmicos terrestres. todavia. que seria de aproximadamente -1. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. o estado de super-resfriamento é destruído. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. permanecem superresfriados. e o peixe congela e morre. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C. 1992).60C a -0. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers. pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam. 1992). tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento. 241 .

Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno. além disso. Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. por outro lado. ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. em rãs que não toleram o congelamento. 1996). somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. por exemplo. Outras rãs tolerantes Pág. cujos fluidos corpóreos.6°C foram super-resfriados até -8°C. Trematomus (DeVries. há toda uma preparação para o inverno. Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. apresenta um congelamento parcial e controlado. o glicerol encontra-se ausente. Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. 242 Julho/2010 .possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento. 1996).. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico. 1970).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo. Hyla versicolor. tais como a rã leopardo comum. 1996). É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. Répteis e anfíbios. portanto. mas. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. começariam a congelar a -0. se nucleados. o seu desenvolvimento. (Schmidt-Nielsen e Duke. Rana pipiens. sem que congelassem (Lowe e col. 1982). Durante uma noite ocasionalmente fria. 1971). Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". A rã. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal. pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries.

rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo. Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. . A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. 243 . mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock. mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke. . não está disponível para os animais aquáticos. deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. 1992).Metablismo ao congelamento. pois o tempo de exposição é de grande importância. ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas. Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. Por conseguinte.Suprimento inadequado de oxigênio.Desnaturação das proteínas. 1985). -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes. 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas. por conseguinte. coagulação térmica. 1996): . A temperatura letal. isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. 1996). a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. Rana sylvatica. . como a rã madeira. não pode ser determinada com exatidão. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo. na qual ocorrem 50% de mortalidade. Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal).Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C. e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey.Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação.

7ºC. conseqüentemente. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0. através do ofego. 1992).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea. Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele. Por exemplo. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers. Por exemplo. (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. 1992). A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos. o que faz com que tenham menor necessidade energética. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. (5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. (3) O corpo possui um formato (alongado. a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers. achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. 244 Julho/2010 .9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2. embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. 1992). Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar.

Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. Hertz e col. Crowley e Pietruszka.. têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand.. De acordo com Shine e col. 1982. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. 1991.1967. a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas. anfíbios anuros (Gomes e col. 1982.. salamandras (Brodie Jr. e col. induzidas pela temperatura. Julho/2010 Pág. Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais. 1984. Crowley e Pietruszka. com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. Huey e col. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos. a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo. pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar. 1983). 1967. 2001). 2002). a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987). ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. Entre os fatores abióticos. (2000). 1994. 1983). Keogh e DeSerto. 245 . 1964. Mudanças no comportamento defensivo. Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos. Mori e Burghardt. repelir ou escapar do predador. 1982).Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. 1983. 2002). 1984) e serpentes (Herckrotte. 1991) e serpentes (Herckrotte. Schieffelin e Queiroz. 1982). Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col... quando apresentam baixas temperaturas corpóreas. Arnold e Bennett... Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew. Oliveira e Martins. Hertz e col.

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Branco e col. répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente.. Nas mitocôndrias das células em geral. Neste tecido os ácidos graxos. por sua vez.. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos.. A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção. a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col. O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. anfíbios. praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col. Entretanto. geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes. localizado próximo às escápulas e aos rins.). de Fisiologia. também chamada Julho/2010 Pág. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase. Como já discutido anteriormente. 1998. Assim. a UCP1. podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica.Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col... uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor.. o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias. 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”. 2005). derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos. os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col. é de especial importância para os animais de pequeno tamanho.com Conforme visto no capítulo anterior. 2005). Os mecanismos de ganho.. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col. morcegos. Como já mencionado no capítulo 1.. Este último. a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial. 2007). 247 . como não há trabalho mecânico. ratos. 2007). enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal. 2005).. resultando na formação de ATP.

é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase. principalmente autonômicos. A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP.Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente. gatos. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig. Por fim. como visto também para ectotérmicos. o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. 2007). ovelhas e aves). equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães. denominada área pré- Pág. A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. 1997). os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica. A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall. Figura 1.. No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos.. 1). 248 Julho/2010 .

(http://healthysleep.Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal.med. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura. 2007). A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal. Figura 2. diz-se que ele está em eutermia. 1998. febre e anapirexia (Gordon. 2001). Por outro lado. Ainda. hipotermia. além de termointegradora. Para a manutenção da eutermia. segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006).edu/_i/198.harvard.. 1992. isto é. já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais. hipertermia. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia. Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie. 249 . Boulant. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais). quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local. estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc.jpg).Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO).. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. Bícego e col.

resultando nos estados de hiper ou hipotermia. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis. temperatura crítica inferior. · Na hipertermia moderada. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. hipotermia e hipertermia.. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. a energia extra é empregada para manter a eutermia. VO2. a ZTN para humanos adultos nus. que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. vômito e diarréia (Branco e col. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. Assim. tontura. TCS. 1998). nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações. 3). a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. dor de cabeça. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. Figura 3. 250 Julho/2010 . temperatura crítica superior. 2005). ou choque térmico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados. Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local. TCI. respectivamente. consumo de O2. na hipertermia severa. Dessa forma. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. exaustão.Esquema de três estados térmicos: eutermia. Porém. Entretando. geralmente. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. Por exemplo. Tc: temperatura corporal.

por outro lado.Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora. alucinação. é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda. 1991) e. pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. nestes casos.. 1977. como mencionado anteriormente. geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa. idosos e subnutridos. Don e col. é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. 1991). O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia. Febre A febre. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger. além de Julho/2010 Pág. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos. 2002). Veremos a seguir quais são essas situações e porque. Bicego-Nahas e col. aves (D'Alecy e Kluger. decréscimo da frequência respiratória. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col. em decorrência do desenvolvimento da febre.. 1998). Steiner e Branco. lesões no encéfalo. diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. 2000) e peixes (Reynolds e col.1975. apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. 1993. convulsões. 251 . mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. Macari e col. podendo levar o indivíduo ao coma. mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon.. A resposta febril é uma reação complexa. Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. Nesse contexto. 1990. 2005). amnésia. dentre outros. O aumento na produção de energia térmica. Na febre. pois podem causar desidratação. 1976).. a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. répteis (Hallman e col. dentre outros prejuízos. delírio. é um aumento regulado da Tc.. 2001. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC.. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. 1994). Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. A hipertermia. durante a anapirexia. enquanto em um ambiente com Ta alta. anfíbios (Kluger. Maloney e Gray. porém devido a falhas no sistema termorregulador.

1991. que por ser conservada ao longo de tantos anos. 1991).. uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais. Pág. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger. A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger.. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. De fato. deve conferir benefícios aos organismos (Kluger. Figura 4. Kluger e col. 1995. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável. Kluger e col. Dessa forma. o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta. Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais. como já abordado. 1998). No caso da febre. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente. 252 Julho/2010 . 1991.Esquema de um gradiente térmico. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. 4).. Marnila e col.

Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. TNF-α. estes são fagocitados por células do sistema imune. Julho/2010 Pág. estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. Anapirexia Anapirexia. peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. IL-6. é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril... Por fim. diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia. 1994. Fabricio e col.Metablismo Figura 5. lagartos.. Matsuda e col. IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG).. principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger. Essa nomenclatura (anapirexia). 1996). IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. 2005). Em contrapartida.inclusive humanos -. Blatteis e Sehic. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. apesar de bem definida.b).. Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos. Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores).. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos . 1991.Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col. 1997a. segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”. 2005). 253 . 1998). 1992.

Reissmann e col.. No entanto. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. De fato. 1997. Holzer e col. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. Gordon. ou anapirexia. contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág.. dentre outros (Bao e col... 2001. Wood e Stabenau. 2004). 1996.. mesmo que localizado e passageiro. 2001). o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. cirurgias cardíacas e traumas cranianos. isquemia. consequentemente. 1985. 1995. 1985. mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. 1995. respiratórias e/ou metabólicas. 254 Julho/2010 . anemia. Então. acidentes vasculares encefálicos. camundongos. 2002). Gautier. seja por exposição ambiental (tocas. 1995. Kline e col. O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e. 1997. é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. etc) ou por insuficiências cardíacas. Malvin e Wood. Wood. 1992. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. 1991. facilitando assim a recuperação do indivíduo. 1981. Sendo assim. traumatismos cranianos. Wood.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004).. mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. pois diminuem respostas altamente custosas. Malvin e Wood. isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. Com todos esses benefícios associados à queda da Tc. Durante a anapirexia. Barros e col. 2000. 2002). Dessa forma. Gordon e Fogelson. que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. entretanto. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. 1997. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. 2001. Gordon. como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco.. para a produção de energia na forma de ATP. altas atitudes. 1998). como em casos de hemorragia. um aumento na sobrevida de ratos. Hicks e Wood. 2001). Steiner e Branco. Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico. além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. envenenamento. 1992). a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood.

. 2000. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. Por outro lado. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições. ou seja. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. Deve ser lembrado. Julho/2010 Pág. 255 . Paro e col. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc. Steiner e col. os receptores mi e delta. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim. Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica.. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. também na APO. 2001). tais como infecção e hipóxia. Entretanto. para serem benéficas. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. assim como acontece na febre. 2005. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental. Em suma. levando à queda da Tc. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos. na APO. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros.. que essas alterações.. a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col..Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica.. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. Como pode ser notado. 2003). os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon. respectivamente. a serotonina. Gargaglioni e col. 2009). serotonina. Dentre estes estão a dopamina.. é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col. 2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. Scarpellini e col. 2002a. a anapirexia. E. 2002b). Ainda. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico. 2009). GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc). evidentemente. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 256 Julho/2010 .

ou dissociada da dormência sazonal. dentre outros eventos. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. tais como fotoperíodo. A depressão metabólica é. para determinadas funções. 2004. A estivação possibilita que muitos animais. 2003). a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. ou ótimas. 257 . em muitos casos. sono e anidrobiose. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência. temperatura e umidade. peixes e caramujos. uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida. Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio. Na maioria dos casos. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica.Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável. sobrevivam à escassez de água. a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. como mencionado acima. mas com apenas algumas horas de duração. como no torpor diário. Ciclo Anual Julho/2010 Pág..fisioib@usp. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. incluindo anuros. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada. que possibilitam. A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. portanto. sem acesso ao ar atmosférico. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia. mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. como nos casos de estivação e hibernação. Carey e col.

antes que a ingestão de alimentos diminua.. Meses antes do estresse ambiental. 2004). Dark. dentre outras respostas. 2005). Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. 2005). Desta maneira. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. ou ambos. seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. Esquilos. A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. desta forma. indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. o armazenamento de substratos. Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades. 1974). da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados. 2000. provavelmente por um mecanismo central. quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. por exemplo. dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. 258 Julho/2010 . mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col. os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. 2005). a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. E uma diminuição da TMB já no meio do verão. uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. 2005). fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes.

Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal. A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada.. permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col. as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito. 2006). Niewiarowski e col. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. durante a pré-hibernação. Entretanto. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos..Metablismo adiposidade do animal. Neste caso. a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. 2006). 2001. Em endotérmicos. têm sido investigados em outros grupos... Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo. 2000). 2004). Recentemente. os efeitos e a estrutura da leptina. 2000). Paolucci e col. assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. Neste mesmo animal. a secreção de leptina. 2000. antes estudados somente em mamíferos. elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. 259 . estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col. 2000. embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col.. das frequências cardíaca e respiratória. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col.. Neste animal. No morcego Myotis lucifugus.. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético.. Spanovich e col. 2000). que apresenta dormência sazonal. os níveis circulantes de leptina são menores no outono. Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág.. 2000). Já em marmotas Marmota flaviventris. ou seja.

a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. 2000). O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. embora. Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. Esta semelhança. Curiosamente. que supre a atividade de enzimas como a Na+. Durante a depressão metabólica. sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. 260 Julho/2010 . bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). Ruf e Arnold. muitas vezes. Storey. Pág. 200). ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações.. portanto. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. 2004).K+-ATPase. estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey.. Diferentemente da função cardíaca. 1994. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col. 2004. o fluxo sanguíneo renal. Nos mamíferos. reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey. 2004). 2007). mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col. Com base neste pressuposto. a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. enquanto outros são totalmente interrompidos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. alguns processos fisiológicos diminuem.. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. estes processos são retomados durante os despertares periódicos. Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. 2003). em grande parte. Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto.

seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col.. Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. Em hibernantes clássicos como os esquilos. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO). de fato. embora a capacidade funcional do órgão seja preservada.Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. 2003). O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo. 2007). Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições.. 2003). Provavelmente. Por outro lado. 1). estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col. Após 6 h de exposição ao H2S. atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). observa-se uma pronunciada atrofia do intestino. quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S). Na depressão metabólica sazonal. alguns endotérmicos e ectotérmicos. Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center. a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col. Dado o elevado custo dos processos de digestão. 2005). ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real. 261 . a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005.. tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e. a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. assim como ocorre nas células dos hibernantes. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. preservando a viabilidade celular. 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão..

por exemplo. apresentada por outros animais. duram menos de 24 horas. Knight e col. Nestes casos. b) Primata lêmure Microcebus murinus. Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. 262 Julho/2010 . 2).. há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida. 2004). Na marmota. interrompidas por despertares periódicos que. geralmente. 2000). nos quais os animais acordam. alguns anfíbios e répteis. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. Souza e col. Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. 2004. 2002. a b Figura 1. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col...a) Lagarto teiú Tupinambis merianae. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC. 2004).. Pág. 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col.

. Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. várias enzimas glicolíticas.. as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. e na remoção desses grupos. como visto em capítulos anteriores. Em alguns mamíferos hibernantes. a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2). (Modificado de Heldmaier e col. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. catalisada por proteínas quinases.. receptores e transportadores de membrana. essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. Na primavera. Souza e col. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar. Neste momento. a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna. 2004). catalisada por proteínas fosfatases. evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1). Em diversas condições fisiológicas. 2005). 2004). 263 .Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). o rápido reaquecimento durante o despertar (3). 2003. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. mas também para que o despertar seja bem sucedido. provendo aminoácidos para a síntese de glicose. quando os animais despertam da fase de dormência. a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. proteínas responsáveis pela transcrição gênica. com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência. Ta representa temperatura ambiente. e a eutermia (4). síntese e Julho/2010 Pág. ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares.

2004). há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. 2004). por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. Este complexo enzimático. pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada. Para ilustrar como esta regulação acontece. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. principalmente. O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. consequentemente. o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase.. levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. um tecido dependente de glicose. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. da formação de acetilCoA a partir de piruvato. além de ajustes específicos. é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. De uma maneira geral. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). 264 Julho/2010 . hexoquinase. carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. Em condições anóxicas. entretanto. em parte. Durante a fase de dormência. preservados para utilização pelo cérebro. o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. Curiosamente. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos. no nível da expressão gênica. que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa.3). nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. 1990). 2003). Observa-se. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. como na maioria dos casos de hibernação e estivação.

alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. Paralelamente. Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente. de Julho/2010 Pág. assim como da lípase hormônio sensível. A quantidade de lipase pancreática.Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase. A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. 2004). um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). 2000). que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. Confirmando esta idéia. como a citrato sintase. 265 . uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas. no coração do hibernante. Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial.. a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. 2002). primeiro passo da síntese de ácidos graxos. e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. 2004). há um aumento da expressão da lipase pancreática.

(2000) na última década. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. aumentando a meia vida destas moléculas. Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. Paralelamente. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. triglicerídeos. PPARα é um receptor nuclear. 2003). As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição. durante a hibernação em mamíferos. De Pág. a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo. TG. As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células.. os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. 1997). 2004). embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. dada a inibição da síntese de proteínas. estocagem e excreção (Storey e Storey. a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica. o que além de contribuir para a economia energética. que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. ativado por ácidos graxos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. 266 Julho/2010 . HSL. Portanto.

Hulbert. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira. 2008). provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. quanto pelo transporte ativo. 1998). aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. 2003). de forma significativa. a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col.K+-ATPase. Adicionalmente. 267 . taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else. ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. 1987). há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções. 1980). 1998). dados não publicados). A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col.K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col. embora a atividade da Na+. Em um caramujo terrestre estivante. 1997) e a inibição deste processo contribui. consequentemente.. o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy.. Curiosamente. próximos à região polar. Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e. evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. Face à redução das taxas de produção de energia. um hibernante herbívoro. as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios. alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. animais menores possuem membranas mais insaturadas e. tanto passivo através de canais iônicos. 2007). A atividade da Na+..Metablismo maneira geral. alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal. dissociadas de efeitos da temperatura. durante a depressão metabólica. Na marmota. 2000. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold. Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos.

o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. 268 Julho/2010 . 1984. Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. No conjunto. a inibição destes vários processos. rins e fígado (Balaban e Bader. 1999). cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. Pág. o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência. embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. MacDonald e Storey. Adicionalmente. Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos. a atividade da Na+. com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons. Por exemplo. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. 1995).

Desta forma. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. Sendo assim. a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. e a energia excedente é armazenada (Scheneider. o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. corte. Deste modo. Assim. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig.1b).Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. Neste período em que o trato digestório está vazio. sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats. 2004). hibernação e dormência). termorregulação e reprodução (Fig. quando a energia é escassa.com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação. Por outro lado. Durante a evolução dos animais. 1a). 2004). os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução. manutenção. e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. os comportamentos relacionados à defesa territorial. 269 . e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider. as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo. 2004). incluindo crescimento. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população. Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético. Julho/2010 Pág. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais. anapirexia. quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. 2004). os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. febre. Como já discutido.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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2001. Rodrigues. Bierregaard e col. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow. Zuidema e col. umidade e vento. Carey. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas. Além da redução populacional. por exemplo: competição... a fragmentação modifica as condições de luz. o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente. influenciando diretamente os microhábitats. 1991. Zachariassen e col. Desse modo. 2005). incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991. 1994. 1994. além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. 1997. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. Vitousek e col. redução da diversidade genética. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. Navas e Otani. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema. são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman.Metablismo e Merriam. 281 . 2000. parasitismo (Dukes e Mooney. Julho/2010 Pág. 1996. 2001. 1999.. temperatura... 1996. Galindo-Leal e Câmara. as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. predação. 1996). juntamente com a ecologia.. Daszak e col. Kolar e Lodge. Zuidema e col. 2007). uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col. 1998. evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos. 2005). Tocher e col.. Primack e Rodrigues. A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento.. Drinnan. e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam. 1991. 1997). A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais.. o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. 2005). 2001). 1989. 1999). Gascon e col. 1992.

por sua vez. além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . por exemplo. os poluentes podem promover a formação de ácidos. a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. como por exemplo. sendo prejudicial a saúde pública e ambiental.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício. 2010). Pág. Essa vulnerabilidade dos ecossistemas. Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. 2001). as quais modificam outras características da água. essenciais para qualquer organismo vivo. Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies. é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. 282 Julho/2010 . No ar. também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. A poluição da água.

através do conhecimento sobre a história natural das espécies. Blaustein e Wake. 2007. em diferentes níveis de abordagem.Metablismo que por sua vez. 1992. 2008).. 1993) e plantas (Hinrichsen. temperatura e correntes de água (Carey. É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. alteram o pH do solo e de corpos d’água. Diante desse cenário. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar. e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col. 1995. podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar. das queimadas (Sampaio e col. 2008). 2008). favorecendo. Buckeridge. indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas. é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé.75% da temperatura média no Brasil (Marengo. reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. Wells. bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. podendo ser extintas. 2008). 1998. Além de alterações na temperatura.. No Brasil. 1987. 1990. É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. Sampaio e col. atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. 283 . 1988).. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. observamos a elevação de 0. Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente. Mangum e Hochachka. 2008). 2007 – AR4). 2001.. 2002)... Sampaio e col. De natureza multidisciplinar. 1989. Tal equilíbrio é. Angilletta e col. ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. 2009). France e Collins. 2007. por conseguinte. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. Como conseqüências dessas ações. também. A análise integrada da variação fisiológica. 1986). Mackenzie e El-Ashry. mais uma vez. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. 2005).

reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. DeAngelis. assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores.. Carlisle. 2005). 1997. Zachariassen e col. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. 1991. 2007). além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. 2006). 1995. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa. 2005. se possível. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. Zachariassen e col. Carey. Diante da introdução dos poluentes. 2000). 284 Julho/2010 . Dentro desta perspectiva. Wikelski e Cooke. Barbieri e col. Costa e Gales. Beyers e col. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. 2000. comunidades e ecossistemas. 2001).. além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e.. Nagy e col. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. 2003). A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. Hopkins e col. 1999. da asa ou de outros apêndices) em tempo real.. Wikelski e Cooke. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee. 2002. a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman. os princípios. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. batimento caudal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca.. 2006). Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo. 1999. Navas e Otani. 2006. 19991. 2006). 1995). como por exemplo: a biotelemetria. 1998. O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. mesmo que indiretamente. taxa opercular. 2005. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods. temperatura corpórea. 1991. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade.. Carey. 19991.

2006). 1991.. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka. capacidade natatória. Somero. Calow. 1995. determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. 1999. Rowe e col. possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. 2005. Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais.. Costa e Sinervo.. Barbieri e col. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. Rowe e col. Wikelski e Cooke. 285 . por exemplo. Julho/2010 Pág.. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais.. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental.. podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies. a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. Drinnan.. Zuidema e col. 2001). Através desses dados. mais a longo prazo. 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. 2007). 2004).Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. 1998). Além disso. 2004). 2003. 2006). 2007). Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. Neckel-Oliveira e Gascon. taxa de crescimento. 1994. 1998. Em suma. 1996. 2000. 2005. Rowe e col. esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação. Porém. 2002). de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey. 1998. 1991.

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estão. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso. Adicionalmente. a importância dos estudos em fisiologia comparada. interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo.br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. ao longo deste capítulo. endócrino e imune. Desta forma. Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6. Os sistemas biológicos: nervoso. que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. Neste contexto. Em relação à neuroendocrinologia. os sistemas nervosos e endócrinos. fisiológica e anatomicamente interligados. . ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. será intensamente discutida neste capítulo. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. Neste capítulo. em invertebrados (Unidade 7). mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia.Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. distantes do seu centro de origem. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). visto que. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. em especial a neuroendocrinologia. veremos. agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental).

Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra. 300 Julho/2010 . 323 pág. 337 pág. 348 pág. 305 Pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios.

5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág. 301 .Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.

302 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág.

Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág. 303 .

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 304 Julho/2010 .

conhecida como fisiologia. as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. 2007). 2006). assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. sua estrutura Julho/2010 Pág. Norris. Inicialmente. Esses produtos de secreção. o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col. até que. Já a neuroendocrinologia. processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. Segundo Zohar e colaboradores (2010). é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. também denominados de hormônios. Adicionalmente. com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris. Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar. a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos.br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. 2007).. 2010). Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). 1954). o entendimento do sistema endócrino. 1992. 305 . sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. que estão submetidas a diferentes condições. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. ou glândulas de “secreção interna”. ou seja. pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes.

este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. pois. Norris. em alguns casos. 1973). bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. Norris. Berne e Levy. cerebelo. neuroendocrinologia é um assunto mais recente. 2007). apresentaram pela primeira vez. em peixes. Neste sentido. Anatomicamente. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. e tronco encefálico. 2006. integração e no redirecionamento de sinais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos. vários tópicos ainda permanece incertos. Outros estudos posteriores a esta época. atuando na recepção. um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. Fisiologicamente. forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. 2006. que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. e hipófise posterior. Fisiologicamente. o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. 306 Julho/2010 . apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. De uma forma geral. sendo que. 2007). Norris. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. Para melhor compreensão do eixo H-H. 2007). numerosos hormônios são sintetizados. 1998. 1992. Guyton e Hall. Já em peixes. Norris. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. ou neuro-hipófise (NH). Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. 2007). é o hipotálamo (Withers. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. Em relação à hipófise. 2002). olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente. o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. ou adeno-hipófise (AH). que extratos encefálicos. ou seja. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág. Guyton e Hall. 1992. que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). passados aproximadamente 35 anos. Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. 2006. analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária. Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. 1966). 1998.

. o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas.. 2002. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários. no entanto. 1983). é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos.. Desde então. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col. Adicionalmente. Lethimonier e col. 1972). Burgus e col. 1998).. 1998).. entretanto. cuja estimulação/secreção. foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. Levando-se em consideração apenas a reprodução. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios. 2004).. 1971. Tabela 1. Originalmente. de lampreias a mamíferos (Guilgur e col. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar. alguns anos depois. abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade. 2006). 1973).Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. 307 . o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais. múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág. Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária. Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula.

que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col. 1991a). relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower. 2005). 2006. Em geral.. também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH.. exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. mas em geral. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab.. 2004. Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. 1984) e em mamíferos (White e col.. a ativação da fosfolipase C. 04. entretanto. 2). 2005). foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. que por sua vez. podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy. Whitlock. 2008). 308 Julho/2010 . 1998). 2002).. em aves (Miyamoto e col. Em mamíferos. uma vez que. 09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. 1998). as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11).. 2) (Weltzien e col. pois. ou seja. são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados).. duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie. ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col. o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). 1993). como por exemplo. É importante salientar. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col. Segundo Sherwood e Adams (2005). faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col.. todas as formas são decapeptídeos. estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos... 2006).. cuja função ainda é especulativa e uma outra forma. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas. Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008). em peixes teleósteos (Sherwood e Adams. Essa variedade de formas de GnRH. em elasmobrânquios (Lovejoy e col.. a liberação de GnRH. Tsai. e estes. em répteis (Lovejoy e col. 1993). além disso. 2005). elevação do segundo mensageiro. 1991b). Pág. que possuem doze aminoácidos e. 2003).. os aminoácidos número 01. A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback). 2002.. 2002) e Aplysia californica (Zhang e col. Guilgur e col. em anfíbios (Conlon e col.

o ciclo de claro e escuro (dia/noite). 1997). outras complexas interações de sinais neuronais. uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. (2002). Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. que por sua vez..Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. (2006). estariam atuando nesta modulação do GnRH. 2006). entre outros. 309 . Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas. Guilgur e col. (2005). influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz. ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro). Adaptado de: Iwakoshi e col.. Adicionalmente. pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. As formas de GnRH grifadas em cinza. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. mudanças de temperatura. que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. a kisspeptina. semelhantes. tem sido identificadas em peixes. Sherwood e Adams. são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo.

que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina. as diferentes formas (quando for aplicado). A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. ou hipófise posterior. 1992. chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. a sua natureza química. 310 Julho/2010 . A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos. e são armazenados e liberados pela NH. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. 2009). e agora. 1998). a NH. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). i. Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. 2004). Em geral. Desta forma. pois através deste sistema. as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. quando foram descobertos. ou hipófise anterior. controlando as funções de suas células. E ainda no ano 2000.e. Embriologicamente. Berne e Levy. as funções dos hormônios Pág. que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. 2006. e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. as possíveis células alvos. inibindo a liberação de GtHs. o mecanismo de ação. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). sistema este. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. Norris. 2008). denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. Já na AH. as células tireotrópicas. 2006. Os hormônios hipofisários em mamíferos. 2006). são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. Desta forma. foi discutida resumidamente. a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. a adeno-hipófise (AH). há uma zona intermediária. cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. que produzem a tireotropina (TSH). a neuro-hipófise (NH). Guyton e Hall. e entre essas duas partes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. 2007). de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. 1998. Berne e Levy. como observado para os hormônios hipotalâmicos.

conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. 2006.1. O hormônio TSH. é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). relacionado também com o metabolismo corporal. produzido pelas células corticotrópicas. é um hormônio. sintetizado pelas células tireotrópicas. que são hormônios glicoprotéicos. é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas. a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. ou seja. As células gonadotrópicas. que sintetizam o FSH e o LH. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy. Em relação à AH. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH). cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina. por sua vez. é um hormônio glicoprotéico. cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. atuando principalmente nas gônadas. estão diretamente relacionadas com a reprodução animal. O TSH. Berne e Levy. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall. o hormônio ACTH.). sintetizado pelo hipotálamo. mas também apresenta um papel nas contrações do útero. estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. T3). 1998). 311 . também conhecido como arginina-vasopressina. Tabela 3. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos). Já a ocitocina. T4 e a triiodotironina. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. 1998). os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. ou seja. a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH.

uma abordagem geral em peixes se faz Pág. é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos. O GH e a PRL. Neuroendocrinologia em peixes Em geral. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos. Modificado de Berne e Levy. (2006). Adicionalmente. (1998). participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite. A combinação das tabelas 1 e 3. O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. além de atuar no metabolismo. o aumento da síntese protéica. (2006) e Berne e Levy. em humanos. ver as revisões de: Guyton e Hall. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). a neuroendocrinologia em peixes. Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos. a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. (1998) e Guyton e Hall. 312 Julho/2010 . mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. incluindo especificamente. já a PRL. mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. Figura 1. Neste caso.

ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. 2006. nutrição. ZavalaCamin. desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio. Hochachka e Somero. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies. Vazzoler. flutuação. Além da importância como fonte alternativa de alimento. com esse grande número de espécies existentes. 1990). morfológicas. 2003. percepção sensorial e reprodução (Hoar. por exemplo). a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. Moyle e Cech. essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton. 2004). 2002. 1990. 1998). Em relação à reprodução. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton.1. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas.). Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. 58% são marinhos. 2004). as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. Zavala-Camin. Desta maneira. 1999. osmorregulação. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. Moyle e Cech. contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson.. Moyle e Cech. ou seja. São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos. 2003). 1969. apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. Lowe-McConnell. a desova total ou a desova parcelada). 1996. comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. 2003. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). 313 . seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva. anatômicas. Em relação à sua distribuição. Wooton. 1990. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2.

. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais... 2004. 2010).. para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral). Dubois e col. ou seja. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior. em algumas espécies de teleósteos.. entre outras formas (Lethimonier e col. Pandolfi e col. 2002. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col. o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. Sherwood e Adams. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. Zohar e col. Guilgur e col.. 2002. Pandolfi e col. como por exemplo. foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col. como por exemplo. Entretanto.. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH. em peixes teleósteos. 2002). como por exemplo. ao contrário dos mamíferos. 2004. Zohar e col.. Neste contexto. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo. Pág.. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas. 2010). está relacionada especificamente com a reprodução. Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col. 314 Julho/2010 .. 2006. 2005. Zandbergen e col. sendo: cGnRH-II (chicken II). 2004. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente. A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. 2005). Zohar e col. 2010). 2003. em Siluriformes. ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. 2004. 2005)... ainda são discutidas na literatura especializada. González-Martínez e col. Guilgur e col. 1995. que em teleósteo.. ou seja. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower. Com isto. As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes. Já a segunda ou terceira forma. 2006.. o comportamento reprodutivo. Guilgur e col. 2002). 2006.... tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col. 2006).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva. 2004. Guilgur e col. para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas.. 1997)... também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col. Guilgur e col. sendo que. sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col... 1994. no qual. os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada. 2005). 2006)..

Somoza e col... As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos.. como por exemplo. Goos e col. foram identificadas estas duas formas de GnRH. o que veremos a seguir. Entretanto. possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro.. em vários teleósteos. como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH). pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. apenas duas formas de GnRH foram identificadas. entretanto. Desta forma.. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. na região da NH.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. pois. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. Portanto. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise. 1995. 2006). nos teleósteos Julho/2010 Pág. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas. 1993) e de encéfalo (Bogerd e col. 2001). por exemplo.. 1997). 315 . sendo que. no catfish africano. Neste sentido... identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos. Dubois e col. e provavelmente. 2004. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa). Hipófise em peixes A hipófise em peixes. sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. Em relação aos hormônios hipofisários. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col. apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso. Agulleiro e col. neste grupo. 2004).. assim como em mamíferos. em geral. 1995. alguns estudos apontam que. Neste contexto. 1992) de catfish africano. ainda não é bem compreendida. as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária. em extratos de hipófise (Schulz e col. Adicionalmente.. 1994. Weltzien e col.. 1997). 1994.

a família prolactina/somatotropina. 2004. 2004). 2006). entre outros neuropeptídeos (Acher. Duarte e col. Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. no metabolismo. Takei e Loretz. e em peixes. 2003. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col. que todos esses hormônios. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. Adicionalmente. 2006). Kawauchi e Sower. melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower... a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH). Batten e col. 2003. em teleósteos. 2006). a arginina – vasotocina (AVT). características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. Em geral. 2001. conhecidas como células somatotrópicas. como por exemplo. hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL). 1996).. como por exemplo. como por exemplo. 1999. 2006.. a adrenocoticotropina (ACTH). Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). É importante salientar. 2004. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados. sendo que. 1996. este hormônio atua em vários processos fisiológicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios. Weltzien e col.. Cinquetti e Dramis. também são identificadas na região PPD. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina. 2006. portanto.. 1990. na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs). no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante).. Kawauchi. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas. segundo Kawauchi e Sower (2006). Neste caso. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). Weltzien e col. 2006). Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). que inclui prolactina (PRL). Kawauchi e Sower. 316 Julho/2010 . as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. e a família dos hormônios glicoprotéicos. 2000). os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. Kaneko.. que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH).. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col. o principal hormônio desta glândula é o cortisol. 2006. exceto a somatolactina. “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). nos aspecto Pág. Cala e col.. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios.

1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col. 1994). 1997. Agulleiro e col. as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. como por exemplo. Kaneko... Finalmente. 1996. Cala e col. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. 2000. Julho/2010 Pág. Vissio e col.. Kawauchi e Sower. Kawauchi e Sower.. 317 . foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990). 2003). Cala e col. 2006). nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col. 2003). Kaneko.. 2002. 1992. 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. 1996). que o papel fisiológico da PRL em teleósteos.. As células produtoras de somatolactina (SL). 2003.. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col. além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. 1994.. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col. 1999).. 2006..Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col. abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. 2006).. 1989 apud Mylonas e col. pois. Kawauchi e Sower. 2006). 1996.. Em relação ao TSH. 2003. Mousa e Mousa. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo. 2003) e indiretamente na reprodução. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. Mayer e col. 2006). reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col... 1997. 1998). Kakizawa e col. Mancera e Fuentes. na reprodução (Olivereau e RandWeaver. como por exemplo: no metabolismo. no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col. 2003. Rand-Weaver e colaboradores (1991).. também conhecidas como PIPAScells. 2002. osmorregulação. Forsyth e Wallis. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos.. Johnson e col. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás. desta forma.. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes. Kawauchi e Sower. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. 1996). 1993. ainda continua desconhecido. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes. produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col.. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo. Sabe-se ainda.. 1993.. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos. 2006. Em relação ao MSH. 1995. Adicionalmente. Forsyth e Wallis. são as GtHs. 2000. 2000. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col. 2006). Kawauchi e Sower. ou seja. Kaneko. e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. o FSH e o LH.

negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. narinas e receptores cutâneos. 2010. 2004. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução.. 318 Julho/2010 . que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col. Em geral. precisam ser investigados mais profundamente. Zohar e col. reiniciando o ciclo. sabe-se também. Levavi-Sivan e col.. Zohar e col. maturação.. Levavi-Sivan e col. Pág. que crescem e se tornam adultos. alterações ambientais como o fotoperíodo. é controlada endogenamente por um sistema endócrino. sendo que em geral. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes.. 1998. liberação e fertilização dos gametas. Adicionalmente. fotoperíodo. Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. 2010). a temperatura e. 2010). Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. 2006). 2006. 2010. Em várias espécies de teleósteos. efeitos positivos. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. Por outro lado. entretanto. em peixes. Weltzien e col. foram registrados. que sintetiza e libera gonadotropinas. 2) (Blázquez e col. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig. Falcón e col. 1999.. pluviosidade entre outros). possivelmente as chuvas... esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura.. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. pineal. são captadas através dos olhos.

Imagens: Renato Massaaki Honji.Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Julho/2010 Pág. Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto). 319 .

também via corrente sanguínea. O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes. o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante. Pág. na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo.. desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH).. 2004. Cyr e Eales. também sob influência do FSH. na fase de vitelogênese. 1997). que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). sendo. Garcia-López e col. principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva.20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. Nos machos. 1996. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. entretanto. como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona. é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH). Haider. que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese. na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase. 2006).20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. 2003). Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia. Assim. os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. 1993. Nagahama. converte o colesterol em testosterona. 2003). estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. Esta é transportada à camada granulosa. podendo ser expresso em situações adversas. 2000. 320 Julho/2010 . sendo os andrógenos. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese. como por exemplo. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). A detecção da vitelogenina. Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. como por exemplo.

principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. De uma forma em geral. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. quando são impedidas de migrar. para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva. veremos no capítulo 32. apresentam um bloqueio na reprodução. Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. 2010). ainda pouco esclarecida. Julho/2010 Pág. em operações de cultivo. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. 2). procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais. Zohar e colaboradores (2010).Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. pois neste ambiente confinado. que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. 321 . foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. fica evidente. quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. Neste caso. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. Portanto. e raros em teleósteos de clima tropical.. Adicionalmente. Adicionalmente. considerando-se que as espécies de peixes de piracema. estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. 2001). mas altera-se de alguma forma. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. Taranger e col.. 2010). 2010. por serem reofílicas (peixes de piracema). estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies.. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. Por outro lado. premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. pois.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 322 Julho/2010 .

de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. 323 . sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen. 2004). levou a consolidação de diversas capacidades funcionais. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados. de uma faixa dorsal ectodérmica. composto por três vesículas primárias. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. 2002). pelo menos em humanos. Desta forma. o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. chamado tubo neural. de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo. no tamanho. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. Ao contrário. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo. gerando também assim.br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. Julho/2010 Pág. mesencéfalo e rombencéfalo. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. presentes e. um ritmo biológico.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. estão ao mesmo tempo em funcionamento. répteis e aves. Este processo evolutivo. que é conhecida como placa medular. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. no presente capítulo serão apresentados. A parte contínua do tubo neural.. eventos futuros (Hickman e col. na fase embrionária. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais. Neste contexto. também denominado encefalização.

das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. 2004). o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr. Portanto. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. As diferenciações do diencéfalo serão. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. neste momento. Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. invadido por substância cinzenta. o tálamo (central). destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. 324 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. como o dos peixes e anfíbios. sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. formando o total de cinco vesículas encefálicas. e o hipotálamo (ventral). 2000.. No local onde estas duas estruturas se encontram.. o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. Assim. Em todos os vertebrados. 2000). células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col. sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. O epitálamo é derivado do Pág. e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr. Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes. 2004). o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. Assim. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio. Hickman e col. 2000). nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). Assim. descritas de forma geral para os vertebrados sendo. não surpreende que o pálio. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. foi como o cérebro de grupos mais primitivos. Sobre este mesmo aspecto. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. e pela primeira vez em vertebrados. o mesencéfalo não se divide. 2000. 2004). posteriormente. Hickman e col.. e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr. da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr.

2006). foram. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo. No entanto. Hickman e col. 2000. Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. Norris. atuando como o centro de coordenação nervosa. Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr... 2000. 2004). que inclui a glândula pineal. 2004.. O metencéfalo. 2007). 325 . Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro. dá origem ao cerebelo. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. apesar de extremamente fundamentais. oriundo do piso do diencéfalo. Assim. possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr. Adicionalmente. Hickman e col. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo. Na parte dorsal. Hickman e col. dorsalmente. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio.Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. Estas relações primitivas do encéfalo. O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. 2004). o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado. que tem função na recepção visual. e o lobo posterior. amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. incluindo as funções de percepção do ambiente externo. como comentado anteriormente. a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. como visto no capítulo anterior (Orr. 2000. o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. Norris.. O hipotálamo. em alguns casos. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes. o batimento cardíaco e o metabolismo. é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração. 2007. da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. na anatomia funcional. contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. Hickman e col. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo. 2000. com exceção dos teleósteos. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. na fase embrionária. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais. além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais. 2004). 2000. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. como os tubarões. mas também no dos anfíbios. Guyton e Hall.

A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). 326 Julho/2010 . núcleos supra-ópticos (SON). uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. e núcleos paraventriculares (PVN). A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. primeiramente. atribuída a este grupo. aos hormônios e funções foi. o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. répteis e aves. Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA). núcleos arqueados (ARC).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col.. pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI). Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. núcleo supraquiasmático (NSQ). 2004). A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. a nomenclatura aplicada às estruturas. pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. 1) (Norris. 2007). Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág. Figura 1. 2007). A ME conecta. será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos.

percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. embora não listados como hormônios trópicos. 2007). 2006. Norris. 2007). a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos. o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). e a pars nervosa (PN). Já a neurohipófise. Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). região posterior. Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas. Outros hormônios hipotalâmicos. como dito anteriormente. estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. sendo comumente em células distintas. hormônio estimulador da tireóide (TSH). é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa. a prolactina (PRL). seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise. e que o sistema porta passa por ela. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. por exemplo. Quanto ao hipotálamo. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário. É através deste sistema que. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). 2007). Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. o hormônio liberador de corticotropina (CRH). núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. 327 . mais anterior. Julho/2010 Pág.Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. hormônio de crescimento (GH). o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST).

Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. répteis e aves (Norris. a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies. Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. 328 Julho/2010 . Em algumas aves. é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. Em serpentes adultas. este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo. podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. entretanto. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. Chelonia e Crocodilia. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. em anfíbios. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. e de forma resumida. afetam células específicas não endócrinas. a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD. Ao contrário. Pág. répteis e aves Como dito anteriormente. que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN. Nas aves. como exemplo. neste grupo. diferentemente de todos os tetrápodes. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. 2007). os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados. de forma geral. como os pombos e o pardal de coroa branca.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. Através de seus prolongamentos axônicos.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. que por sua vez. a PT é completamente ausente. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. aves e mamíferos. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. regulam outras glândulas endócrinas. De forma. 2007).

os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). Julho/2010 Pág. discutido no capítulo anterior. 329 . o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. ACTH. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. que terá um pouco mais de destaque neste capítulo.Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. O hipotálamo secreta RHs e RIHs. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos. Estes. por sua vez. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. FSH. LH. GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2. mesotocina e arginina-vasotocina. 2007). que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). a hipófise e o alvo endócrino específico.

por difusão ou por transporte mediado por carreador. promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. pouco solúveis em água. O dímero. 2009). Os hormônios da tireóide. Adicionalmente. Normalmente. que realiza essa conversão (Brown. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. nos vertebrados. 330 Julho/2010 ..5 diiodotirosina. ou DIT. Essa molécula é chamada de 3. Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. formado pelo hormônio e o receptor nuclear. 2006). e da mesma forma como os esteróides. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico. No entanto. Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide. Assim. 1975. Normalmente. ser metabolizados no fígado e rins. o T3 é mais ativo. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea. Norris.. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica. resultando na molécula chamada de T4. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers. triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas. Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados. conhecida como deiodinase. Brown e Cai. Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. 1952. 2007). portanto. respectivamente. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO). apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. 2006. 2007). Sechman e col. Kistler e col. os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. atravessam facilmente as membranas celulares.. têm sua produção estimulada Pág. Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos. e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. 3). Primeiramente. 2007. 2005).

Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. o fígado. as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário.. Ação do hormônio da tireóide em células-alvo. sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. o trato digestório. que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. na regulação do metabolismo (Norris. 1986.. na formação do sistema nervoso. o sistema imune (Rollins-Smith. Em anfíbios. ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. 1997. 1996).Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. 2007). sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. o encéfalo e a medula espinhal. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. 2006). 1998). 2006. 331 . 2006). o sistema respiratório. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato. Brown e col. Figura 3. 2003. 2005). desenvolvendo as criptas viliais. Em vertebrados. Yaoita e Nakajima. o Julho/2010 Pág. desempenham função importante na metamorfose. reorganizando a pele (Yoshizato. Nakajima e Yaoita. bem como na reestruturação de órgãos. 2007). Norris.

O LH induz a ovulação. e aves. a somatostatina (SS). sauvagina e urotensina I (Norris.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. Desde então. primeiramente testosterona. mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos).. 1999. 2009). O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai. produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio.. 332 Julho/2010 . Pág. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH. sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas. Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano. É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. O LH. destacando a similaridade destas moléculas e suas ações. 2007). o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. promove a produção dos esteróides sexuais masculinos. Wilson e Reinert. 2007). 2000). Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). Estes três hormônios são encontrados em anfíbios. entre outros trabalhos. nos machos. e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). 1988. répteis. Sechman e col. 2007). A liberação do TSH em anfíbios. mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. além da influência no metabolismo. sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. Em frangos. O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos.

333 . incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. A prolactina. causando o escurecimento da pele. Em pombos. Em répteis este hormônio foi pouco estudado. sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos. Assim como em peixes. e em mamíferos com a produção de leite. O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. ou somatomedina produzida pelo fígado. tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. no metabolismo. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. também pela produção de hormônios corticosteróides. Além disso. O MSH é Julho/2010 Pág. realizando assim a transferência de calor. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico.Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. no entanto. e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. é um mediador químico do sistema imunológico. nos processos reprodutivos. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. o fator de crescimento insuliníco (IGF). como cuidado parental. estimula a nutrição. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH). este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. o metabolismo. nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. o desenvolvimento e crescimento. A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. o comportamento. Além disso. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. 2007). em anfíbios e répteis. em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. além de seu papel mais tradicional. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares.

N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes. pois são capazes de produzir uma resposta. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris. e da tireóide.I-R. A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). Entre estes dois os hormônios da PN. 1984. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina. Estes hormônios são. 1). 2007). a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla. anfíbios. sanguessugas Gafanhotos répteis.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados. Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I. homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos. 334 Julho/2010 . segundos após a sua liberação (Licht e col. Choy e Watkins.I-R.. acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab. alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico. são muito semelhantes quimicamente. Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y. 1995. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta.. aves. Acher e col. respectivamente. O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene.. Nojiri e col. 1986.N-C-P-R-G-NH2 C-F.N-C-P-K-G-NH2 C-L. Tabela 1.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente. 2007). Acher. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida. 1987. pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois. 1996).Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. especialmente nos anfíbios Anuros. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág.I-T.

Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo. Além disso.. 335 . pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col. na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário. e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis. Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. 2005. Norris. tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais.Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio). estimulando a reabsorção da água na urina. Julho/2010 Pág. 2007). A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios. mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 336 Julho/2010 .

apesar de manterem suas especificidades. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte.br No decorrer da evolução dos organismos. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo. o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. crescimento corpóreo. Para que isso ocorra. garantindo que não só operem na sua particularidade. Juntamente com o sistema nervoso. percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. porém. Julho/2010 Pág. 337 . sobretudo as funções metabólicas. Estes por sua vez. ritmos biológicos entre outros. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células. o processamento e a armazenagem da informação. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão. Nesse sentido. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles. formar os órgãos. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos.mpf@usp.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina. De maneira geral. dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. tais como. Está também associado ao controle da reprodução. 2006). No Unidade 3 (Neurociências). mas também interagem e modulem entre si.

Animais controles. injetados com glóbulos vermelhos de ratos. 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. 1997). endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. Já na década de 1970. não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). 1997. 1B). células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas. ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. 2002). Figura 1. 1977). já se sabe que os sistemas nervoso. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. Chesnokova e Melmed. Besedovsky e Sorkin. 338 Julho/2010 . (1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold. (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém. Hoje. mas Pág.

Fisiologicamente. 2006). Galea e col. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. 2). 339 . permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais. 1997. seja via sanguínea ou linfática... além de outros mecanismos. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. Além disso. a produzirem mediadores secundários. Assim. Chesnokova e Melmed. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. garante um grau de privilégio ao SNC. tais como as células endoteliais. a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC. citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas. Frente a uma resposta inflamatória. a barreira hematoencefálica. células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo. Figura 2. como NO e prostaglandina. 2006). Julho/2010 Pág. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC. 2002. 1997). essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col.Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. De fato. Por ser um sistema difuso. Além desse contato direto. que revestem o vaso sanguíneo. como as células endoteliais. porém.

cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. 1997). 2000).. 2007). 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. principal neurotransmissor do nervo vago. Fig. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1). A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC. Por outro lado. 340 Julho/2010 . percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. 3. 2009). Assim sendo. mediador inflamatório produzido por células imunes. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. o fator de necrose tumoral (TNF. Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. as chamadas pró-inflamatórias. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. o SNC não apenas recebe. Resumidamente. Pág. como o nervo vago. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos.. Borovikova e col. Recentemente. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada. 4. 2009). A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. Rosas-Ballina e Tracey. como por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. 2009). levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold. essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey.

Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg. Como feedback negativo.. SHAM: animais falso-operados. 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). Sternberg e Gold. 2009). conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse. o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. e cortisol em humanos. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune. 5. Julho/2010 Pág. modificado de Borovikova e col. os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. uma vez que caem na corrente sanguínea. Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional. Sucintamente. a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. 2000). 341 . VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F.Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. induzido por LPS (15mg/kg). A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico. 1997). o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH).

Porém. por meio de um reflexo eferente modula a função imune. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. 2007). As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR). 342 Julho/2010 . Este. modificado de Rosas-Ballina e Tracey. 2009). 2007). Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. 2006). porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos. A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. modificado de: Pavlov e Tracey. Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC. Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas. Pág. quando o estresse é crônico. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. caso contrário. Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. Durante uma situação de estresse. Frente a um estímulo inflamatório. Classicamente.

Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. 343 . mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune. a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. Como uma resposta de feedback negativo. Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina. É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed. 2003). Além disso. 1997). sobretudo o H-H-A. a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. De maneira geral. A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina. O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. Além de principal mediador do estresse. classicamente. O hipotálamo quando estimulado. Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). 2002). Figura 5.

. 2004). Assim. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. 2007). fígado. 1993). leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário. Markus e colaboradores. em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col.. placenta humana (Lanoix e col. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios. A partir dele.. 2006). Durante a montagem da resposta inflamatória. Considerando o paradigma acima. 1999). Porém a integridade vascular. permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. No entanto. 2007)... ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col. linfócitos humanos (CarriloVicco e col. 2004) e células do colostro humano (Pontes e col. sendo responsável. 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga. onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite.. Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col. 2003).. 2006. Fisiologicamente. sobretudo na camada endotelial. tais como TNF. a resposta inflamatória deve Pág. 2008) e células imunocompetentes. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido.. Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col. como dito anteriormente.. o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia. Dentre suas propriedades cronobiológicas. 2007). Existe também a produção extra-pineal de melatonina. trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col. A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores.. O ritmo diário de melatonina no sangue. 344 Julho/2010 . a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos. tais como a glândula pineal. sobretudo da camada endotelial. rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col.. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória.. 2007). 1992). As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal.. no prelo). como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col.

o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. Em um segundo momento. células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig. Em um segundo momento. 6. Além do mais. visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido. 2007).. Julho/2010 Pág. existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal.. demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais. 345 .Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. 2007). O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina.. Estudos in vitro.. Markus e col. No entanto. Figura 6. 2009). citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina. 2009). visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col. Fisiologicamente. células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col. Na primeira fase da resposta inflamatória. A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina.

Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. Dessa forma. Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos. Como visto anteriormente. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta. Para manter a gestação até o final do seu período Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col. hipófise e gônadas. 7. portanto. De maneira geral. estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. e. catecolaminas.. essas situações são revertidas. considerando a integridade dos organismos. a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. tais como testosterona ou progesterona. Em casos de reposição da melatonina. Tomaszewska-Zaremba e Herman. 2009). óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig. como uma doença. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. 3. assim como opióides. neurotransmissores. 2009). tais como baço e timo. 346 Julho/2010 . A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. 2006). à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise. Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. O efeito de TNF e IL6. A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. seu papel funcional é comprometido. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). Resumidamente.. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. 2001. e isso é garantido pelo sistema reprodutor. Tomaszewska-Zaremba e Herman. os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. 2005).

Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. 347 . Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. 2009). Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman. Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. catecolamindas. Figura 7. Julho/2010 Pág. a probabilidade de um aborto é aumentada. a ação de opióides. caso isso não ocorra. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. GABA.Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável.. Por outro lado. Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição. 2001). Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático. assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais.

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358 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

que constituem a biosfera. Zn. populações e comunidades. .Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. tais como Al. Mn. Cu e Cd. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural. a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos. Entre os principais efeitos apresentados. resultantes da exposição a alguns metais. a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução.br Em sua definição clássica.

361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. 407 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág. 381 pág. 360 Julho/2010 . 371 Pág. 395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág.Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág.

por sua vez. Dessa forma. Metais essenciais. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado. Em geral. estão associados com mecanismos bioquímicos. Sua massa atômica é de 112. a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col.com. então. Este metal é tóxico. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. animais terrestres. não reagindo com o oxigênio do ar e. O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. Por isso. marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col. como o cádmio e o mercúrio. tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular. dentro de limites. está associado ao zinco. 1975). ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio. sendo encontrado em pilhas e baterias.oxigenio.. onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo. devido aos seus processos de detoxificação (Fasset. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica.tabela. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. 361 . Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. rim e glândulas digestivas. principalmente no fígado e rins. geralmente. 2000). 2001). acessado em 02/05/2010). como o cobre e zinco. que. não possuindo uma função fisiológica conhecida. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente. Julho/2010 Pág.Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail.. Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais. não são regulados. de maneira geral. Os metais não essenciais.40 gramas e número atômico 48. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. dúctil à temperatura ambiente. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. É um bom condutor de calor e eletricidade.com O cádmio Os metais.

. mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados. para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col. Ele ainda induz a produção de metalotioneínas. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos. Além disso. com valência +2.br/PreVestibu. 1999). tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0.mundofisico. os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente.. Assim.. Ao longo da evolução destes organismos. proteínas sequestradoras de metais.udesc. seguida por sua eliminação pela Pág.92 Å) do íon cálcio. 1999. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). 362 Julho/2010 . estando presentes em diversos hábitats: estuarino. 1999). acessado em 02/05/2010). surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias. Monteilh-Zoller e col..joinville. o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. tegumento. marinho. dulcícola e terrestre. o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col.. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo. Assim..

Por ser moluscos bivalves. os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente. e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. Julho/2010 Pág.. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. principalmente hemócitos. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos.. Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. Altas concentrações de cobre. a localização. 2004). Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas. Por isso. a dieta. Contudo. Em espécies particulares. causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. metais não essenciais. pois são filtradores. como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio.. Os antígenos estimulam a migração de hemócitos. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. como o cádmio. 2001). mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça. o sexo do animal e o tipo de tecido. 1995). Outros aspectos importantes devem ser citados. 2000).. As células imunes. possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. desempenham um papel principal na defesa do organismo.. 2001). 363 . nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col. Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. 2005). refletindo o grau de poluição a que está submetido.. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal. não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. atualmente. 1999). O que se sabe. a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada..Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. Quando animais de espécies diferentes são comparados. Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde. por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida. O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo. o tamanho. 1993).

Assim. 2000).. ao entrar em contato com altas concentrações do metal. a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida. Pág. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. regulação osmótica e iônica. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água. possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. por isso. mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. 1995). Assim. Exceto o cádmio.. como órgão responsável pela respiração. Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. 2000). Desse modo. seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase. Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica. com a exposição ao cádmio. principalmente crustáceos. e col. assim como em células de brânquias. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos. Já em Oncorhynchus mykiss. 2005). pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. o número de hemócitos circulantes aumenta.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. com a permanência dos animais em ambientes poluídos. alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos. regulação ácido-base. podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória. Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais. que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. as brânquias. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente. especialmente na respiração e osmoregulação. 364 Julho/2010 .

e col. Além disso. como o Na/Ca. além de Julho/2010 Pág. 2005). aumentando a toxicidade do cádmio.. Em peixes. 365 . O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio. junções ou entradas transcelulares. 2005). cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo.. e col.. A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo. provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo. Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares.. 2004). a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias. 2001). Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas. Em anfípodas.Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col. Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio. o cádmio diminui o influxo de sódio. Em crustáceos. 2005)... observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda.

No entanto. Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos. e col. trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas. Por exemplo. Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo. 366 Julho/2010 . Em crustáceos. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. porém há resultados contraditórios. 1996). Em resumo. Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. 2005).. enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador.

Quando há diminuição de salinidade. Estes metais. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. Julho/2010 Pág. 1996). No entanto. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. são fortes inibidores da anidrase carbônica. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores.Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. enzima responsável pelas trocas gasosas. 367 . principalmente em animais que estão em meios diluídos. muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas. encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. 1996). comprovando a competição entre os íons cádmio. A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. 1996). cálcio e sódio. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades. Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação. tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. em geral.

zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal. Nesta época. Seus efeitos foram encontrados nos rins. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas. e várias interações entre cádmio. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim. fígado e testículos.. peixes. Porém. 1975). sapos. Desse modo. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. Assim. 1975). os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset. os eventos. Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente. É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. talvez. 2005). associados a baixas ingestões de cálcio. A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão. o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão. Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio. Assim.. Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e.. estresse da gravidez e lactação (Fasset. entre outros. às vezes. Em testículos. 1975). causando. proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. como a resistência à corrosão. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd. Atualmente. 1975). 2005). o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. esses Pág. particularmente no rim. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. fatais edemas pulmonares. 368 Julho/2010 . o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares. resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade. Nos rins. A doença era caracterizada por osteomalacia. talvez o zinco.. vitamina D. e formação de células cancerosas (Dalton e col. estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos.

sendo importantes na regulação da proliferação celular. Além disso. 2000). As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular.. o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual. o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong.. diferenciação e morte. Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais. quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset. 2000). Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio. desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong. Julho/2010 Pág. proliferação celular.. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio. No fígado. 2000). Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. 2000).. 1975). 1975). Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses... e col. Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col. Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose. o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. e col. ou seja. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. assim. Assim. pois isto poderia estar relacionado com o fumo. uma modificação na proliferação e morte celular.. 369 . 2000). e col. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular). Atualmente.. o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. a idade. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap. Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas. o sexo e patologias renais (Fasset.. Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 370 Julho/2010 .

2000). As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos.Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp. formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas. 2000). Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. Nas águas não poluidas. Fe. quanto através da dieta. Zn. 1999). Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. Metais de transição (Cu. incluindo os definidos como metais pesados. 371 .br Introdução Durante a evolução. como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. 1999).. Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente. 2000). Co. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre. 2006). frequentemente com base fosfato. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais. onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col.. tanto através do meio em que vivem. Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox. ou por ligação com uma proteína detoxificadora. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade. que permitem a Julho/2010 Pág. No entanto. Se. Metais traço. 2000).. mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada. salobra ou doce (Rainbow. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo.

transporte de oxigênio. atuando ambiguamente na respiração celular.. 372 Julho/2010 . protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow.jpg (04/05/2010). a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais. que é análoga aos rins (Alcorlo e col. onde é visualizado estômago. Abaixo da cutícula.Vista ventral de um crustáceo. 2000). A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. 2003). Brânquias Pág.edu/sdunbar/students/epidermis_removed. “limpeza” de radicais livres.llu. músculo e intestino.. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares. hepatopâncreas. 2006). neste texto (Rainbow. A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas. 2000). e ação de diversas enzimas celulares. http://resweb. Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo. estabilidade protéica. bem como transcrição de DNA (Bury e col. Figura 1 . absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo. absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados. como as brânquias. como funciona para entrada de químicos para qualquer célula.

O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col. as brânquias são cruciais para respiração. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte.wikimedia. as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida. excreção.Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico. essas alterações afetam a fisiologia do animal. Dessa maneira.2004).jpg (04/05/2010). 2004).. Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo. 373 . A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons. Para muitos animais aquáticos. 2007). as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada. balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen. Julho/2010 Pág. Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos.jpg/250pxTuna_Gills_cut_out. como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. incluindo metais traço (Rainbow. Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos. Em animais marinhos. http://upload. 2000).

cádmio e cobre. o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. (d) endocitose.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo. 2008. Fora da membrana apical. onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática. tanto quanto atuam no transporte de cálcio.. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos. Já no citosol. 374 Julho/2010 .. mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana. (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica. Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág. 2000). 2005). Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada. (Rainbow. Modificado de: Freire e col. bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática.

.es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort.2002). implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos. proteínas transmembranas. demonstrando o glicocálice..mec.cnice. A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial. O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos. No entanto.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos. as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood. celular e tecidual (Yang e col. 375 . O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas. No entanto. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular. (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais. lados hidrofílico e hidrofóbico. incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular. 2007). Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos. incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial. (http://recursos. 1999).

(b) segunda pela tomada continua de cobre . Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão.. sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. 2000).2002). Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade. a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. e desse modo.2002). O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. 2000). A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase. 1999). 376 Julho/2010 . como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. (Rainbow. (Rainbow. em relação ao meio. Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1. O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. particularmente nas brânquias e no fígado.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. 2000). e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág. 2000). sendo sensível ao sódio. então a água entra osmoticamente (Rainbow. Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. 2000).2002). aparenta ser através de canal apical de sódio. 1999). uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L). Desse modo. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col. No entanto. o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow. uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. Dependendo da concentração de sódio no ambiente. posteriormente potencializando a entrada de metais. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood.2002). um dos caminhos de tomada.. a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente.

Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação.. tanto pela água quanto pela dieta. é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco. mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col.. De acordo com o tempo de exposição. Então. as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal. Em peixes.2005). 2007). como acúmulo interno negligenciável. ATPase basolateral ou em ambos (Wood. o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. talvez em um nível mais preciso do que o cobre. 2007). Geralmente. 2007). 2000). Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes. as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang. seqüestro e regulação (Yang e col. 377 .. o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col. O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco.Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood.2002). No entanto. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes.1992).. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória. 1998).2002). a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. Para a fase aquosa do zinco. em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood. retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col. Em ambientes poluídos. Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág. De todas as concentrações testadas de metais essenciais..2005). em todos os casos. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. Zinco O zinco é homeostaticamente regulado. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang. cobre e zinco produzem hipercalcemia. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais.

2000).. incluindo reparação dos danos celulares. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. por exemplo. absorvendo pela superfície branquial. O zinco também é abundante nos sedimentos. 2000). A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes. 2000). Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. 2001). mudanças compensatórias. 2004). A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos. Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. Já a longo prazo. A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. Pág.. 378 Julho/2010 . A lagosta. é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes. O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados. Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos. 2006). resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência.. onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col. consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos. 2000). incluindo controle do fluxo metabólico. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. e assim na diminuição da performance respiratória.2005). aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação.

Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. 2007). a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons. gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. 2007). Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col. é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas. 2006). independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio. a metalotioneína.. 2000). É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio. transporte por canais de proteínas.. Além disso. A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. 379 . 2006). 2006). Na membrana basolateral. mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col. respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow. 2002). A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. ou seja.. desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood. Em organismos expostos a metais pesados.. uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário. 2006). difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col.Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. 2000).1992).Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. Mas por outro lado. da poluição por metais pesados (Yang e col. quando os níveis de metal estão muito altos. o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall.

380 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. 1998). sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col. 2001). Mozeto e Zagatto. 2006). respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. nutrição. 2006). de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. 381 . No ambiente aquático. sendo assim. estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo. indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional.). A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático. sendo que. frente a alterações antrópicas no meio ambiente. Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. 2006. levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares. antagônicos.Rocha Oliveira Vieira Lab. as ações antrópicas são muito evidentes.br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. relações térmicas. A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág.Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos. O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais. 2006. dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial.

1978... Camakaris e col. tais como sua forma química. 2003). cobre (Cu) e manganês (Mn). normalmente. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. McGeer e col. além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col. cádmio (Cd) e mercúrio (Hg). Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). muitas vezes.. via de entrada no organismo. 2005. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas. Pág. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos. 1997. idade e espécie do animal (Kostial e col... duração da exposição. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. Van Ho e col. Wannaz e col. existem metais como chumbo (Pb).. MadsenMoller.. 1999. em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado. 1997. considerado micronutriente essencial. em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos. em baixas concentrações. oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. além disso. 1994). ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col. 1997).. 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone... Alguns metais. 2003). Camakaris e col. no litoral e rios próximos a centros urbanos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi. 382 Julho/2010 . e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001. Órgãos como fígado. participando de processos fisiológicos. 1999). por outro lado. provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col. 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos. 2006). 1998. Apesar disso. são importantes no metabolismo. são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. porém os efeitos deletérios sobre as populações. são os chamados metais essenciais.. Metais Os metais. 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo. Celik e Oehlenschager.. 2004) e à poluição.. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados. zinco (Zn). 2002) mas. (Chen e col.

mas em associação com outros compostos como. apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. PO-. pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. por exemplo. F-. 2004). dos citocromos.1999. Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. hidrolases. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree. Lydersen. 2008). O alumínio não é muito solúvel em água. 1987). fosfoenolpiruvato. seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano. as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas. Freeland-Graves e Llanes. 1990a). no entanto. regulação de glicose no sangue e energia celular. glutamina sintetase. Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. em seu estado divalente. transferases. reprodução. O. 1995). de receptores excitatórios de glutamato. 1985). proteínas e carboidratos. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col. catalases e peroxidades. Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. H. age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. liases. 383 . Si.. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. além disso. OH-. Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase. SO-. descarboxilase e manganês superóxido desmutase. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. 1990. lipídios.1994). isomerases e ligases. Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune.Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês.

este metal se acumula nos rins. os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos. fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. 1986). pode ser encontrado em três formas: elementar. No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. Wilkinson e Campbell. 1996).. torna-se rico em cargas positivas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. 1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. e o alumínio na forma de hidróxido. cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta. Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. 1980. 1977). agregação. 2006). 1993). Apesar de muitas semelhanças. 1984). pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. inorgânico e orgânico. Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis. 384 Julho/2010 . A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares. A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. 2008).

. especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col. Zn. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína.. Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col. a entrada de vários metais. Cd. 385 . Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas. 1988). os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. tais como. assim como no intestino.. células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. 1987). grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. Alternativamente a este processo. uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. glutationa e bicarbonato (Foulkes. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. 1978). Pb. a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions. 1986). Além disso. Julho/2010 Pág. 1994). 1993).Ecotoxicologia Aquática celulares. devem ser considerados como um critério de risco em si. bicarnonato. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio. e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. estas células acumulam eficientemente estes metais. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. 1985). desde molecular ao ecossistema como um todo (Who.

1997). Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH).. alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col.. 1992). 2000) Pág.. danos ao DNA e. finalmente. 1992). ácido ascórbico (vitamina C).. peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação. que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col. pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. catalase (CAT). São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose). são as metalotioneínas (MTs). betacaroteno. Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. As atividades das enzimas antioxidantes. e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. metais e xenobióticos (Sanders. 386 Julho/2010 . 1989a). rico em cisteína. peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD). 1991). anóxia.. A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão. condições oxidativas. São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares. 1993). Lopez-Torres e col. possivelmente levando a inativação enzimática. 1993). 1994). luz ultravioleta.. 1992. vitamina B. Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). peroxidação lipídica (LPO). este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col. a morte celular (Winston e Di Giulio. Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas.

1986). outros parâmetros hematológicos. 387 . O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. como hematócrito. A presença de enzimas específicas. O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos.O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág. 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg. Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes. Parâmetros imunológicos . na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich. 1995). no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col. 1990. Apesar de serem menos específica. Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. Fe3+ + HO.+ HO . os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col.. Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos .. (1989).1993).. como as transaminases. Parâmetros reprodutivos e endócrinos. 1997). 2010). hemoglobina.. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese. podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes. como os sais de ferro. Os metais. além disso. proteína e glicose. Dix e Aikens. 1994). (Sole e col. 1990. mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey. outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores. Kasprzak.. especialmente reações catalisadas por metais de transição.Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. como revisto por Vos e col.Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas.

Pratap e Wendelaar Bonga. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente.. liga-se a macromoléculas celulares. Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I. O metabolismo é. 1995). 1991). 1996). quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. portanto. Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo. redução ou hidrólise da molécula original. II e III. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode.. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase.. 1992). um importante determinante da atividade de um composto. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard. 1985). Parâmetros neuromusculares . 1990). Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato. 388 Julho/2010 . A Fase I é uma alteração de oxidação. 1996).. localizadas principalmente no retículo endoplasmático. o composto ou os seus metabólitos. Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores. Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais. 1990). Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col. pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. a biotransformação ou metabolismo. ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik. a longo prazo. 1998. A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição. Vermeulen. 1992.Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col..

um açúcar ou aminoácido.Ecotoxicologia Aquática a excreção. uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. Adicionalmente a isto. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis.. 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad.. mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col. Mulder e col. Macroalgas (Conti and Cecchetti. 2006)... estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. 2003. 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly. e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. 1995). 389 . são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados.. 2003) e microalgas (Tripathi e col. 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos. Van Ho e col. estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd.. além da ocorrência natural e abundante. 2003). Cu e Zn (Roncarati. peptidases. 2001. (Bucheli e Fent. 1995. 2007). esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células. As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col. 1995).. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno. 1990). Conti e col. 2003) ... Invertebrados Julho/2010 Pág. não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col. estes. As enzimas da fase III.. esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti. frequentemente um grupo químico polar. 1999)... 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente.

1992). por sua vez. hipóxia e hipercapnia.. Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre. foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT... Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma. 1990.. R. 1991. edulis. Pelgrom e col. 1992. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram. hepatopâncreas (Viarengo e col. 2001).b) e brânquias (Mouneyrac e col. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col. e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat.. em um estudo com três espécies de bivalve (M. McGeer e col. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R. galloprovincialis. M. houve um aumento no metabolismo aeróbico. 390 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. 1985). provoca acidose plasmática. como conseqüência. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais. Além disso. Rosseland e col. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs.. 1979a.. altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col. (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal. 1990). O alumínio. 1992. 1993). Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. decussatus). podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias. Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas. M. edulis.. 1992). Além disso.. Olafson e col.(Howells e col. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. 1996. por exemplo. inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág.. 2003). perda de eletrólitos. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris. 2000. (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante. principalmente Na+ e Cl. Vários autores observaram ainda nas brânquias. Schlenk & Benson. 1984. decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. Partearroyo e col. Handy.. e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M. Bebianno e col. no consumo de oxigênio que por sua vez..

2010). 2003. Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais.. 1995). com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney. esta dependente de dose.. Dautremepuits e col.Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann.. 2000. O mangânes tem sido associado a citotoxicidade. Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard.. 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT). 1987).Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. Ali e col. 2001.o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col... Goossenaerts e col.. 1995). 391 . em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col.. 1988). A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS). espécie e via de exposição (Wong and Wong. 1993) e redução de progestágenos (Correia. Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam. gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col. disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics..1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas. 2000. 2005). especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree. 2000). 1988. seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. e col. alterando as fosforilações oxidativas (Chen.1998). 1997). Jiraungkoorskul e col. já citadas anteriormente. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais.. Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág. 2007). levando ao estresse oxidativo. vitelogenina. além disso. mesmo em baixas concentrações. 2004). Os disruptores endócrinos. experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade. Sanchez e col. 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga. lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col. 1988. Em truta arco-íris. já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias. Wong e Wong. onde este metal parece inibir o complexo I.

Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. Devlin e col. 1991) e crônico (Hontela e col. 1985). O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto. O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. 1991). 2001. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col. níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento. 392 Julho/2010 . 1998). os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col.... 1997 a. 1995). a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson. reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber. A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento.. Em adição.. 1978). 2001). mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col... 1985a). que são dependentes principalmente de água da chuva.b. O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson. 1982).. inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col. 1984. 1997)... Freda & McDonald. 2003).. 2001). 1990). 1977). apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col. 1998). em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5.. e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág. Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar.

mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis.. Dinelli e Lucchini. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. econômica e cultural. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos.. Tankere e col. valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. Cd e Cu no pulmão. para completar. encontraram altas concentrações de metais pesados na casca.b). Manolis e col. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. caretta (Dinelli e col. (2006).. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência. Fagioli e col. 2000. e Zn no fígado. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C.. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991.. Sakai e col. 1996. Ni. 1998. Burger e Gibbons. 2000 a. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col.. 2000. 2002b). Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. 1998). Xu e col. encontradas mortas. E ainda. A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. 393 . Fe. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col. 1999. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. 1995. 1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte. 1999. da região do noroeste da Itália.. pulmão. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas. Mn. Cu e Zn em sedimentos. Cu. Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. 2001.. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. músculo e tecido adiposo de Caretta caretta.Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. Mn. incluindo tartarugas (Caretta caretta.

Pág. talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes. porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados. A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental. 394 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência.

(do inglês. fitoestrógenos e metais. endocrine disruptor compound. respectivamente. inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. sendo. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais. 2007). infertilidade e tumores. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. ou EDC). É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col. principalmente na ecotoxicologia. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. má formação do trato genital. ou ainda “disruptores” endócrinos. 1999). Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. como por exemplo. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura. Julho/2010 Pág. Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos.. invertebrados e anfíbios. pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. 2008). Nesse contexto. não apenas na fauna aquática. especialmente os envolvidos na reprodução. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. Dessa forma.Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos.br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. 395 .

Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. por exemplo. portanto. por exemplo. a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). ou invertebrados. avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. 1996). a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. 1998). desempenham diferentes funções fisiológicas. moléculas de determinados hormônios. Não obstante. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. 2002). considera apenas dados para animais vertebrados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. por exemplo. necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. Isto é alarmante. uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. 2002). levando em conta a importância ecológica dos invertebrados. e em última instância. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides. torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade. peixes e anfíbios. como por exemplo. sendo. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. 2002). Pág. 396 Julho/2010 . Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. portanto. em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. negligenciando representantes dos filos de invertebrados. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. semelhantemente para invertebrados. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como.

tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. (2000) demonstram que vários metais pesados. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. 1999). (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista). estes dados são escassos. O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios. o desenvolvimento gonadal em mexilhões. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. 2005). como Hg. 1999). podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos... 397 . possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. tem efeito direto sobre crustáceos. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação. a concentração utilizada e o tempo de exposição. chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col. O Cd. (2004). afetando a reprodução e o crescimento. Rodríguez e col. como por exemplo. com exceção de crustáceos e insetos. além deste efeito. e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes.1998). possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). Metais. o Cd. entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores.Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. Cd e Zn) (Depledge. Uma vez absorvido. Julho/2010 Pág. o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH. sugerem que “metais pesados”. 1999). pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col.. pois pode ser absorvidos através de canais de Ca. a regeneração de membros. Cd e Cu induzem a hiperglicemia. tais como: o metal testado. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col. para os invertebrados. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica. Barata e col. pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. Entre outros efeitos. Tratando-se de ecotoxicologia aquática.

Além disso. A. de preferência. ecologicamente importantes.Gl. OV: ovario. 2007). A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil.XO: órgão X. Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos. 2007). AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. 398 Julho/2010 . GIH: hormônio inibidor gonadal. GSH: hormônio estimulador gonadal. AG: glândula androgênica. Figura 1. MO: órgão mandibular. dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados. contudo são muito sensíveis a diversos Pág. OH: hormônio ovariano. CHH: hormônio hiperglicemiante. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson. espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental.Controle endócrino da reprodução em crustáceos . B: cérebro. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e. bem como no local íntegro (controle). T: testiculo. de preferência apresentar dimorfismo sexual.: glândula antenal. (Modificado de Rodrigues e col. MF: methyl farnesoato. TG: gânglio torácico. HEP: hepatopâncreas. MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular.. SG: glândula do seio. outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. Por exemplo.

chamadas de gonadotropinas. 2004). a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos. Portanto. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos.Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido. 399 . 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona. 17α. GTH – I e GTH – II. Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. respectivamente. Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. por outro lado.. 2007). seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil. a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. Julho/2010 Pág.

1998). Fe). Pb. respectivamente (Blazquez e col. O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas. como por exemplo. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA). o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. 400 Julho/2010 . Mn. 1995). uso de medicamentos (Li.. Um segundo grupo de doenças neurológicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina. tais como a doença de Wilson. ou seja. envenenamento por chumbo. Pág. todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery. Cu. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente.

Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo. Julho/2010 Pág. efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos. Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas. entretanto. os dados ainda são controversos (Manzo. proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col. lipídios.. a SOD manganês (superóxido dismutase). Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. 2007). 2008).Ecotoxicologia Aquática cisplatina. na regulação dos processos reprodutivos. sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. e a esclerose amiotrófica. 2008). doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. Pb. por exemplo. Bi. Na verdade. 2007).. 2007). tais como a doença de Alzheimer. Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos. a doença de Parkinson. no metabolismo de carboidratos. como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col. logo Zn. 401 .. 2007). no entanto. e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). como por exemplo.

não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. 2004). esqueléticas. rigidez e distonia (Gerber.. 1991).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês.. 1997). enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. regulam o metabolismo de neurotransmissores. a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. imunológicas respiratórias cardiovasculares. insuficiência renal avançada (Zatta e col. 2001).. resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos. 2003). como por exemplo. 2003). substância negra. Em países escandinavos. um íon metálico. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro. assim como de Mn. globus pallidus. portanto. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório. 2002). que não se limita a estes países. cujos sintomas são bradicinésia. independente da rota de absorção. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. Pág. endócrinas (Campbell & Bondy. 2007). putamen caudato. como o gaba. entre outras. quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col. Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. 402 Julho/2010 . o glutamato e a dopamina. Alumínio A exposição às altas concentrações de Al.. Segundo Erickson & Aschner (2003). entre os quais estão alterações bioquímicas. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. um estressor. desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos. pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. neurológicas. Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. 2002). incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. particularmente os astrócitos. No caso do alumínio. o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez. hematológicas. 1988). Algumas células do SNC. a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular... mais especificamente em estruturas do gânglio basal.

A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração.... As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido. 2002). O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. 2002). a polimerização. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col. colóides e partículas. 2008).. 403 . 2007). Entretanto. mas sim sob a forma mineral..Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. Este metal não é muito solúvel em água. 2008). pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo. íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides. a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith. desde simples formas iônicas a polímeros. pois influencia a hidrólise metálica. pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais. a agregação. De maneira geral. este metal. 1996). 2003). sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col. em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col.

. Nesse contexto.. 2004). Kime.. 1988. niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese. no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido. Como nos mamíferos. Como mencionado acima. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi. Nesse caso.5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . 1997). 2005). Tam & Zang. No entanto. 1996). Portanto.. 404 Julho/2010 . 2010). 2003). Berg e col. Tam e col... 1991. o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col.. porém. Vuorinen e col. 1995. Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. 1998. 2005). 1988). o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. 2000. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática. maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col. os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col.. 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col. Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col. 2010). a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α. Hwang e col. proteínas quinases (PK) (Méndez e col. o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH. 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 . apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. ou a expressão do LH. é importante notar que Morrissey e col. pois esse metal em pH 5.. Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP..one (17. após exposição aguda (96 h). Na verdade. alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime. 1997).20 P). Atualmente. 2003).. é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma. 1987. também conhecida por MIS (do inglês. 1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen..

resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. liga-se a íons metálicos. Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col.. Este mecanismo foi sugerido para o Al. 2001). O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS). Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell. pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados. Por exemplo. por conseguinte. Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. e a VTG quando transportada no plasma. no metabolismo de Glu e GABA. 1998). o Glu é transformado em glutamina (Gln). 2000). deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. GABA e DA ainda não foi elucidado. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. e a Gln. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino. inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2.Sugere-se que o Al. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). 2007). e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar. pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. como o Zn. que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado.. Hwang e col. Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. 2002). principalmente. PKG (proteína Julho/2010 Pág. O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG.Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope. o glutamato (Glu). (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. 1997). impedindo a formação do complexo ER-E2.. quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al. 1987). o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. consequentemente. pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. 405 . pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. a fosvitina (Mugyia e col. 2003). são reversíveis.

assim. estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col.. Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide... Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col. (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. 1996). 2006). Além disso. Pine e col. 2007). na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH. 2005). o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS. sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar... LH e FSH (Stocco e Clark. bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col. 2007. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias. Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas. embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. 2007). o citocromo P450scc (side chain clivage). 1994. 1993). Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. No início da esteroidogênese gonadal. O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE). estes resultados sugerem que. A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T). embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col. impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc.. no aumento da liberação de LHRH (Lee e col. Experimentos conduzidos por Chang e col. Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág. Após isso. Globalmente. ativa receptores α 1 . que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. 406 Julho/2010 .. 2000).. que por sua vez. FSH e E2 gonadal (Lee e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col. o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng. o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). 1993).adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos. 2005).. sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH. 1996). aumentando o cálcio intracelular (Ca2+). 2005). 2003). como por exemplo..

A concentração plasmática de prolactina (PRL) foi utilizada como biomarcador no índice de exposição biológica ao Mn em alguns casos específicos. W.329– 334. Mechanisms of heavy-metal sequestration and detoxification in crustaceans: a review. e Lambre.. e Tyree. Duerr. e Mandal. Ash. 366. A. A question of dose.F. Devido à complexidade das mudanças hormonais no sistema endócrino. Embora a PRL seja um dos hormônios que são produzidos/controlados pela hipófise. 1-18. (1995).A. Brown. 439-452. (1987). 638–650. Duhart. e Slikker.... Archives of Biochemestry and Biophysics. 925. H.A. R. F...M. C.. G. Ali.Ecotoxicologia Aquática diretamente sobre glândula tiróide e seus respectivos hormônios (T3 e T4). 547-558. Ahearn. J. 2007). G. (2000). (1999). Revista Brasileira de Biologia.. Activation of the hsp70 promoter by environmental inorganic and organic chemicals: relationships with cytotoxicity and lipophilicity. P. Archibald. Jr. Arrigo. R. M. (2003). Julho/2010 Pág. Science.S. Porcher. clarkia as indicator of the bioavailability of heavy metal in environmental monitoring in the river Guadiamar.C. G.. 300. A. 256 (2).. Mandal. Toxicology. P.. Crehuet. A. (2004). G. 72. 145 (23). Bibliografia Ahearn. S. Manganese-induced reactive oxygen species: Comparison between Mn+2 and Mn+3. e Stone. para trabalhadores (soldadores) no qual foi constatada uma elevação da concentração deste hormônio (Kim e col.D. 2003). como por exemplo. alterando a enzimas deiodinases (Soldin e Aschner. F. Os poucos dados disponíveis atualmente sugerem que o Mn pode afetar diretamente os hormônios tireoidianos. 174. 4 (3).A. J. C.. Ion transport processes of crustacean epithelial cells. Lipe. 58. Baltanas. tais como a DA e o hormônio estimulante da tiróide (TRH) com a exposição ao Mn (Ellingsen e col. e Killebrew. ou indiretamente através de alterações no controle dopaminérgico da glândula tireóide (Soldin e Aschner. Manganese poisoning and the attack of trivalent manganese upon catecholamines. Aslamkhan. (1998). Physiological Biochemistry Zoology.K. Araújo.M. Zhuang. Neurodegeneration.A. não existem estudos que expliquem a relação dos hormônios que controlam a secreção de PRL. The use of red swamp crayfish P. D. Adaptação do índice de integridade biótica usando a comunidade de peixes para o Rio Paraíba do Sul. G.. A dopamina é um modulador na secreção do TSH e os efeitos prejudiciais de manganês para os neurônios dopaminérgicos podem resultar em efeitos profundos sobre a síntese de hormônios tireoidianos. 147-157. (2006). 2007). S. ainda não se dispõe de uma ferramenta eficaz para a avaliação integrada das respostas e da interação entre os hormônios e os contaminantes metálicos. 380-390. Otero.W. Alcorlo. e Montes..J. Science of Total Environment. Journal of Comparative Physiology B. Newport. Z. Ait-Aissa. 407 .M.. 2007). C..

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