Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

03 Capítulo 2 pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 21 pág. 13 Capítulo 1 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. 2 Julho/2010 . Pedro Ribeiro e Dr. 17 pág. 22 pág. 09 Pág.

seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento. geology or astronomy. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex. Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. mais ou menos completas. A continuação. Neste módulo. Underwood e Jaynes. os homens) e termos particulares (Ex. seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo. Segundo este método. Uma definição bastante completa é: “1. De acordo com Aristóteles. such as biology. Bacon. physics. tais como Aristóteles. o mais confiável possível. talvez pelo resto das nossas vidas. Deste modo. “scindo = dividir”.br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho. existem termos gerais (Ex. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. sobre a natureza. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). Bayes. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados. Any specific branch of this general body of knowledge. vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. todos os homens Julho/2010 Pág. 2. estes elementos podem ser identificados e. The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation. ou lógica aristotélica.. c. 3. filósofos. Fisher. Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. este está relacionado com o verbo. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). Desde séculos antes de Cristo.” Academic Press Dictionary of Science & Technology. também latim. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Nestas construções. empiristas e estatísticos. Vamos lá: No século IV a. Popper. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. Existem várias definições de ciência.camacho@usp. 3 .

Desta forma. Segundo este autor. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). e isto afeta ao resultado final. Segundo este método. a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. Outro problema é exposto na continuação. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. Para Bacon. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). fazendo com que esta determinação fosse. Para Popper. O conhecimento gerado permitiria. Em 1620. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. O sistema lógico inventado por Aristóteles. feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. segundo ele. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. Deste modo. Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. Porém. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. situações relativamente similares. entretanto. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). 4 Julho/2010 . a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). expressada em forma de probabilidade prévia. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Bacon. explicar de forma cautelosa. Para Bacon. Em 1670.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. durante muito tempo. em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo.

Assim. 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. 2004). Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. 4) Testar empiricamente as conclusões. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). durante sua apresentação de raciocínio plausível. Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex. 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. Para testar as conclusões. 5 . neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). Julho/2010 Pág. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). etc). Em geral.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. Apesar do problema lógico apontado por Popper. e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003. amostras. para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. citados por Lewin-koh et al. Na literatura. uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex. Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. teorias. por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. predições ou hipóteses). Por isto. Sober 1999 e Lloyd 1987. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. modelos. Pessoalmente. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem.

morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág. muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens. predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 . 6 Julho/2010 . 4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. Imagine que queremos saber se. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram.Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia. em lagartos. 2008). que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994). Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies. Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950. Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. 2). 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos.

esquerda). tanto métodos falsificacionistas (Ex. Por exemplo. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Entretanto. Por outro lado. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. Você concorda com esta forma de proceder. Assim. Hoje em dia. ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. na fisiologia comparativa. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. Sob a hipótese de parentesco A.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. Deste modo. Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). 2. os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. Para isto. as espécies de cada tratamento são aparentadas.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. Sob a hipótese de parentesco B. pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas. 7 .

Pág. 8 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto. mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se.

ou site do laboratório onde trabalha. Zoological Records. Por último. Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material.PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira.camacho@usp. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”.br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. 1987). Biological Abstracts. Julho/2010 Pág. as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. Em são Paulo. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. para ter certeza de que vale a pena respondê-la. Google Acadêmico etc. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor. com artigos mais antigos. Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. Você sempre deverá começar com uma pergunta que. mediante prévio pagamento. 9 . Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. a solicitação de xérox ou arquivos ”. “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse.).

1984). Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão. 2004). é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. de maneira objetiva. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Comunicação de resultados  e conclusões. Interpretação 8. Execução e análise das  observações 7. 2004) (ou tal vez em uns poucos. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la. ou hipótese. Identificação da lacuna de  conhecimento 3. ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland.  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam. Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1.Leitura e observações prévias 2. permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. Quadro 1. Ex. deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. Ainda. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais. Desenho das observações que respondem à pergunta 5. enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão. Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. 1984). 10 Julho/2010 . Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse.

etc. Podemos encontrar dois tipos básicos. peso. ou scatter plots (Magnusson e Mourão. Por outro lado. 2004). Exemplos de gráficos de dispersão. as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. 3. As variáveis contínuas proporcionam mais informação. Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. 2004). Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. tratamento. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. categorias). A) gráfico com fator categórico. o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal. sexo. O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3. Como mostra a Fig. enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. 2004). Julho/2010 Pág. B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. como variáveis categóricas podemos citar cores. 3). comprimento. concentração. 11 . gráficos de dispersão.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 12 Julho/2010 .

camacho@usp. Julho/2010 Pág. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes. um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. 13 .Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial.br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Por exemplo. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. Para um cientista. Entretanto. No verificacionismo. compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo. Entretanto. é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire. uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. 2002). compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral. Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões. deveremos realizar observações que a respondam. 1984). um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores.

maior do que o ruído. 14 Julho/2010 . Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. Associado a este tipo de experimento. que hipótese suporta melhor os dados). 4).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente. Pág. queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores).4). é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso. um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig. Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. Neste caso. em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações. houve /não houve diferença. uma vez isolados possíveis fatores de confusão. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação. Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo.

confiança e pseudorepetição. apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. de modo que faz com que seu valor esteja relacionado. Por exemplo. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. pseudorepetição e confiança. estão relacionadas por um fator de confusão.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. as repetições são chamadas de pseudorepetições. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. é importante neste caso!). Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. se você pergunta a um(a) colega. decidir quantas observações serão necessárias. Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a). Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas. vamos lá. 15 . mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. na realidade. você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). Finalmente. e como serão feitos os controles. Agora. Para entender a relação entre fatores de confusão. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). mas isso não acontece com as pseudorepetições. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles.

Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada. 4. pag.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). Pág. 16 Julho/2010 .

introdução.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág. Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. infra-estrutura falha. Bom. Basicamente. preciso e curto quanto seja possível. discussão. falta dinheiro. Para isto.. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema. às vezes.. etc. Um relatório de pesquisa deve ser tão claro. introdução. resultados e discussão. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. A continuação. 17 .camacho@usp. agradecimentos e referências. referências neste capítulo. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. segurança. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos.). O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. agradecimentos e referências na tabela 1. as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter. material e métodos. tudo isso pode não ter servido de nada. não lhe entendiam bem. Passou tempo lendo. Veja dicas úteis sobre o título. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam. resultados. consta de 7 partes: título. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Suas idéias sofreram críticas. você teve que esperar longas burocracias (licenças. busque textos (Ex. uma grande dose de experiência é necessária. e você deve dominá-las desde o começo. Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. Assim mesmo. Iremos nos estender mais nas seções de resumo. resumo. pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que. material e métodos. solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. se você não tem cuidado no que vem agora.

os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. podemos enganar aos nossos leitores. Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô. e serem numerados. em forma de hipótese a ser testada. quando numerosos. Se o relatório tem vários objetivos. Desta forma. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. A fim de facilitar a interpretação do leitor. Na discussão. mas evitando redundância. a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. devem ser apresentados em forma de tabelas. resultados e discussão. Agora. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. as técnicas. Por último. de forma que possam ser referidos no texto. curtamente. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág. 1966). este é o lugar onde se deve apontar. o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho. Concretamente. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. Por último. Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. estes devem seguir a mesma ordem na introdução. Pior ainda. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. explicando corretamente para ele. Se nos nossos resultados. Busque críticas. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições.1). reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram. Os dados. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. Isto implica em descrever as observações feitas. 18 Julho/2010 . é porque você não entende bem o que está fazendo. mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. Em seguida. seja crítico e ajude à ciência progredir. material e métodos. eu digo a você que.

Julho/2010 Pág. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. Espero que lhe ajude. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos. Para evitar erros em seu experimento. via de regra. tratamos com assuntos que. a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. Considerações finais. Lembre-se que em ciência. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar. 19 . A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. Assim mesmo. são complicados. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. Isto faz com que todos nós cometamos erros.

20 Julho/2010 . e só as que estão no texto. os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses. aparecem na seção referencias? Pág. as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa.

ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. exame. a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. Teoria empírica: Segundo Popper. Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. mas ainda não conferida. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. ensaio. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. estes animais não são aquáticos. prévia a um experimento. (ex. deve ser um conjunto de enunciados. seja esta tomada sobre uma população. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro. 21 . previsões. aquela teoria que pode ser testada. Teoria: explicação sobre um fenômeno. Conclusões. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. Para Popper. sobre outro possível descritor. Julho/2010 Pág. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. do especial ao geral. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito. Teste: prova. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. a partir de uma amostra da mesma. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies.

Mourão.wikisource. Statistical Science. Aristóteles (350 A. USA. Magnusson.Trad por J.html (maio 2009). Taper. California. Cleveland. Cambridge University Press. Bulletin of Ecological Society of America 77. Morris C. Ruído: variação não devida ao fator.(1959).inrialpes. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. 154 pp. E. 22 Julho/2010 . W. Magnusson. Londrina. W. The university of Chicago Press. 370–418. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. Morris Books. e Subhash R.au/ (Maio 2009). Quinn G.C). Cambridge University Press. Spedding http://en. Bayes. The nature of scientific evidence. R. Escondido. Brazil. First English edition by Hutchinson & Co.). Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. Editora Holos. sendo influenciada pelos fatores. T. (1858). Cambridge University Press. Prior Analytics (livro 1). Pág. G. American Statistician 38: 26-19. K. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922.edu. S. A brief tour of statistical concepts.L. R. 59 pp. T. E. (1996).P. philosophical and empirical considerations(eds. Peters. Lewin-Koh. 1997. 545 pp. (1991) A Critique for Ecology. E. Ribeirão Preto. Trad. (1620) Novum Organum.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação. A. New York 366 pp. J. M.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009).L. How To Write Backwards. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology.L. R.fr/Jaynes/prob. The logic of scientific discovery. (2002) Experimental design and data analysis for biologists. M. H. Keogh M. Disponível em: http://ebooks. Por A. (2004) Statistics without Math. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. Francis Bacon. S. Subhash R. Bibliografia Aldrich. Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar.. 136 pp. Amorim. Popper. N.. (1987) Graphs in scientific publications. Disponível em: http://www-biba. 567p.J. (2002) Fundamentos de sistemática filogenética. Cambridge. (2003) Probability Theory: The Logic of Science.12. D. 2342 pp. (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances. W.162-176. statistical.J. 8888. Cambridge. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53.adelaide. 2004.. Disponível em: Jaynes. 1. Jenkinson. 557pp.L. Taper.

Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance. J. Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. S. A. J. Sober. S. 1:21–28. J. 392pp. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. Stearns.. 1997.. Suppes. 297–307. D. P. Julho/2010 Pág.C. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. 23 . (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. Bioscience 58. Cambridge university press. Cambridge UP. Underwood. R. S. North Holland press.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. B. Systematics and herpetology in the age of genomics. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics. M. 522 pp. R. 2008. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques. 2008. A general theory of ecology. Underwood. Chapman M. naturelles et sociales”. J. E. Some modest advice for graduate students. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. 1960. 2008. Scheiner. e Connell. Willig. G. Wiens. A. Theoretical_Ecology. 97-115. 1987. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. Technical report Nº 33. M.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 24 Julho/2010 .

como é o caso da malária.moraes@usp. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos. Neste módulo. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Além disso. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia. com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos.br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular. que coordena o crescimento. bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias. .

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. S. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág. 66 Pág. Célia R. 26 Julho/2010 . Daniel Carneiro Carrettiero pág. 49 Bibliografia pág.

endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci. Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. A maioria das Julho/2010 Pág. 2003). Muitos hormônios.br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células.. além de uma maior independência em relação ao ambiente. Nos organismos multicelulares. para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. Além disso. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. Para garantir o sucesso e a diversificação da vida. mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. que formavam estruturas designadas colônias. levando a uma diminuição da taxa metabólica. 2003). 2003). 2007). 27 . ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções. A diferenciação celular. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col. para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col. originando os verdadeiros seres multicelulares. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais).Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. por meio da evolução a partir de uma única célula. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer. Contudo.. os quais levaram ao aparecimento de órgãos. sinais intracelulares devem ser transduzidos. a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo. quimiocinas. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente. neurotransmissores. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares.moraes@usp. que mais tarde originaram tecidos.

Pág. os quais são lançados na região entre neurônios. 2007). chegando muitas vezes ao núcleo. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. Ainda. em hidrossolúveis e lipossolúveis. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. que possam interpretar os sinais. essa região é conhecida como fenda sináptica. 2007). portanto. 2003). enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos.. Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. 28 Julho/2010 . atravessar a membrana e atuar dentro das células. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. os quais são chamados de hormônios. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. ativando múltiplas vias de sinalização. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. e dessa forma. cuja célula alvo encontra-se distante. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. por exemplo. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial. ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea. os chamados receptores. Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. Deste modo. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. 1) (Rang e Dale.

porém sem causar ativação desse receptor. A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. que é iniciada por um agonista. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. consequentemente. 2003). e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. os receptores são agrupados em quatro superfamílias. Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e. ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. Os agonistas ativam os receptores. Adaptado de Rang e Dale. a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág. 2007). 29 .

Sua estrutura pentamérica (2α. Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. 2003). Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α. δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. 2). β. δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col. γ.. foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR). (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico. Para que o receptor seja Pág. O primeiro receptor dessa família a ser clonado. receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. (2) superfamília tipo 2 . Figura 2 . receptores solúveis no citosol (Fig. γ.receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). cada um na interface das duas subunidades α. fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 . tirosina quinase. receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G. 4). A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. 30 Julho/2010 . Na ausência de um neurotransmissor. permitindo o fluxo dos íons (Fig.Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras. β. 3).receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos.

2003. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). plasticidade sináptica e neurodegeneração. hiperpolarizando a célula. 31 . 2003. Retirado de Squire e col. Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. dessa forma. O influxo de íons através Julho/2010 Pág. (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai. como acetilcolina. potássio e cálcio. glutamato. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios. se abrem. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares.Sinalização Celular ativado.. que são canais de sódio ou cálcio. podendo levar à despolarização celular. duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e.. tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. Retirado de Squire e col.Esquema de abertura do canal. mesmo quando a despolarização é mantida. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. Figura 4 . permitindo a passagem de íons (Rang e Dale. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular..                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. que são canais de cloro (Squire e col. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i. o canal se abre quase que instantaneamente. 2003). Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. 2007). Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente. como é o caso de GABA e glicina. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato.

32 Julho/2010 . Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. β. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G.. 2002). 2007). Pág. o GDP é liberado. 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. Recentemente. postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. 1998). Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell.. Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz. lipídeos. A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. 2005). aminoácidos modificados. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col. 5). fosfoinositídeos. como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col. nucleotídeos. 2002). A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. esteróides.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico. uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ. Quando a proteína G é ativada. Em termo.5’ monofosfato (AMPc). γ – no interior da célula. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα.. essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal. as quais estimulam a geração de adenosina 3’. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. (Fig. íons. capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor.

a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi). 2003. Pierce e col. Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos. 33 . Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág. Figura 5 . 2008). 7) (Cabrera-Vera e col. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. 2001).. 2002). Gαq e Gα12/13 (fig. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II).Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. Em alguns casos. Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos. as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc. como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0.Sinalização Celular Classicamente. promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. levando a ligação do GDP a Gα.. ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα. Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. Gαs.

34 Julho/2010 . Na sua forma inativa. Depois de formado. Após ativação. Na ausência de AMPc. Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase. a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). 2001). As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. e duas subunidades catalíticas (C). CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz. 2005). Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. e subsequente liberação da subunidade (C). Pág.

Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G. promovendo a diminuição de AMPc.5bisfosfato de fosfatidilinositol. a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular. ou ainda. 8). Quando a proteína Gq é estimulada. promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ). o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci.5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. 2007). 35 . IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma.Sinalização Celular Figura 7 . A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3.4. O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação. gerando 1. a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. gerando ácido araquidônico. Em muitos tipos celulares. A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig. e as setas em verde a ativação. A subunidade Giα inibe adenililciclase. A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. Uma vez ativada. podendo ser clivado. Julho/2010 Pág. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R). As setas em vermelho representam inibição de um componente da via.

referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α).. serina/treonina quinase. desse modo. incluindo proliferação. ou Ras. para o interior das células.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. guanililciclase. diferenciação. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. maturação e apoptose. Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. 1999). tirosina fosfatase. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. essa cascata de Pág. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos. As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. 2008). dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. 36 Julho/2010 . o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska. O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. Existe ainda uma superfamília de proteínas G. os receptores do tipo I e II. Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. migração.

o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP). A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. ou mudanças metabólicas. A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. Janus Kinases (Jaks). A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. (Levitzki. As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores. migração. fator de crescimento de fibroblasto (FGF).Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. as quais incluem Src. 2009). envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). 37 . Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. Em adição aos RTKs. 2007). c-Fos e Elk-1. resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada.. 2008) Julho/2010 Pág. Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor. uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. Nas vias de sinalização de receptores monoméricos. 2000). tais como fator de crescimento epidérmico (EGF). desfosforilam proteínas celulares. Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos. 2000). fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. 2003). Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. Ab1 (Fig 10). diferenciação. através da manutenção da pressão arterial. os receptores tirosina fosfatase. quando ativados por ligantes. levando a proliferação. 9). Em contrapartida.

Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase. Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase. Pág. envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas. 38 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase.

. Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides. Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. Em geral. colesterol entre outros. prostaglandinas e vitamina D3. e um domínio c-terminal menos conservado. (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). vitamina D. A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos. retinóides. homeostase e doenças (Togash e col. de ligação ao ligante (LBD). 1995).Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. e assim são classificados dentro de quatro grupos. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. metabolismo. (4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad. 39 . e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles. um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD). 2002).. dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps). Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio. Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo. derivados de esteróides (vitamina D3). como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col.ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. 1997). A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional. Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros. os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. A ligação do hormônio leva a mudança conformacional. fosforilação e interação com outras proteínas. O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág. não esteróides (hormônios da tireóide. mineralocorticóides. 2005). causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart. retinóides. Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. esteróides. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. andrógenos e estrógeno). retinóides.

heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col. 1995. O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco. Pág. O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação. 40 Julho/2010 . Modificado de Rang e Dale. 2007. Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col. Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. Tenbaum e Baniahmad. 1995).. translocação para o núcleo.. Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. homodimerização. 1997). O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares.

png) Julho/2010 Pág. A Africa subsaariana concentra 90% dos casos. 2005). quando os insetos hematófagos já existiam). 41 . (Fonte : http://en. P. principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. que transmite as espécies infectantes humanas P. no laboratório. No Brasil. a maioria dos casos é de P. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico.com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who. darling. falciparum. malariae.wikipedia. como modelos experimentais. no Brasil e A. ovale. 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. 2005).org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. na África).Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios. P. vivax (Who. Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária. Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. gambiae. vivax e P. P. falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil. no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença.

42 Julho/2010 . 1996). pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias. um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. Contudo. Roraima e Tocantins. 1998). período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. Amapá. Mato Grosso. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. Rosenthal. Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. grau de risco da infecção da área de destino. o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. Pág. os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. Além disso.. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica. apesar das medidas preventivas. para avaliação dos efeitos colaterais..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. Amazonas. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. Maranhão. no entanto. Rondônia. Nos Estados fora da Amazônia Legal. A incidência da malária. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. por exemplo. Pará. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col. sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS. 1996). 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem. no Brasil. 1991). 1993. composta pelos estados do Acre. Atualmente. a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea. responsáveis por recaídas. área endêmica do país. 2002).

wikipedia. Julho/2010 Pág. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en.. Por um processo ainda desconhecido.0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. 2006). 2). enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos. a forma infectante do mosquito (Garcia. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT.6 X 1.Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria. Estes. Uma vez na corrente sanguínea. que retira 3 a 4 microlitros de sangue. (Chouaibou e col. de vida intracelular obrigatória. 43 . Para o fechamento do ciclo. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos. fêmea. que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. que mede 1.000 merozoitos.. o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col. os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito. 2006).org/wiki/Malaria). 2001). Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel. Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles. Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. trofozoito e esquizonte.

(2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. o responsável por toda manifestação clínica na malária. berghei P. 44 Julho/2010 . Parasita P. falciparm P. Foi demonstrado por Hotta e col. yoelii P. 1). respectivamente (Garcia. típicas da doença (Hawking. inui P. Pág. coatneyi P.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. Dependendo da espécie de parasita. knowlesi P. e col. estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P. 2001) (Tab. chabaudi P. falciparum e P.. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. vivax P. bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico. brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium. cathemerium P. portanto. 1970). gallinaceum P. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab.. Quando se mantém parasitas em cultura. e col. os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. malariae P. cynomolgi P. vivax.. vinckei P. 2001). 1) Tabela 1.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é.

45 . sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM. 1998).. Varotti e col. 2005).. no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. Como qualquer célula eucariótica. Hotta e col. Dentro deste contexto.. Garcia e col. como organização do citoesqueleto. 2000). 2003).. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo.5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE).. por sua vez.. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col. nos estágios trofozoitos do Plasmodium.4. ativa a via de inositol 1. Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados. Varoti e col. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col. porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. que está presente em grande quantidade na glândula pineal. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág. 2003). através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito. que são devirados do triptofano. nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. Especificamente. 1999. plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. 1998. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. (Garcia. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia.Sinalização Celular a sincronia é perdida. É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. Gazarini e col. 1997. divisão e diferenciação celular (Berridge. 1997. (Hotta e col. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ).. 2003). A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência..

a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. giardia e plasmodium (Rosenthal. Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman.. pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba. Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro. degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal.. 2003). chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág. 3). Groman. cisteina e aspartil proteases). 46 Julho/2010 . Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. toxoplasma. são necessárias proteases do parasita. Roth e col. assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col.1999). pela necessidade do íon metálico para catálise. 1994). Em estudos realizados com P. Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col. com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig. 1951. Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania. 1986). sendo três delas (serine.1999). 1948. 1988). 2002). Barrett.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP).. Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos.

2009). 2005). Julho/2010 Pág. Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático). 2005).Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al. 47 . Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF).(Modificado de Carmona et al. nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 48 Julho/2010 .

. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe. 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky. 2000. um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing. RNAi) em animais. animais e protozoários. Atualmente. 1993b). 2001). fungos. 49 . PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA. Matzke e col.. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina. 2003). somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin. formação de heterocromatina (Kennerdell e col.bio@hotmail.. 2001). que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col.Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa. 2000). que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon. Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty. Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs. durante a década de 1990. incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col. 1992). O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. Até o final da década de 1980. sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica. uma classe de pequenos RNAs com função regulatória.. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA).. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág. 1994).com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente.. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col. 2004a). um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas. Entretanto. 1998).

O fenômeno foi denominado co-supressão... Alguns anos após a descrição da co-supressão. 1990). simultaneamente. Entretanto. 1992). atualmente denominado silenciamento de RNA. ao contrário do esperado. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos.. A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs.. 1992. A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional. sem pigmento. C. crassa. ou seja. Lindbo e Dougherty. conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles.. Em ambos os casos. camundongos e humanos. 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). inibindo. 50 Julho/2010 .. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. 1996.. Van Der Krol e col. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. 1990. 1990). Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas.. Lindbo e col. Van Der Krol e col. Histórico O fenômeno. apóiam essa hipótese (Denli & Hannon. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos. nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. Tetrahymena thermophila. elegans). elegans. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág. 2003). 1998). 1995). Neurospora crassa. e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. Drosophila melanogaster. cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. Entretanto. 1990. Romano & Macino. incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. Schizosaccharomyces pombe. e em animais (Drosophila e C. 1996. as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral..

. 1995). 1998). foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues.. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. de orientação senso e antisenso. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno. 2000). o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA.. Esses pequenos RNAs. A princípio. atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs). e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. 1998). Curiosamente. Zamore e col. Montgomery e Fire. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C.. Ratcliff e col. 2001. Além de explicar a especificidade do sistema. A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento. as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam. 1996. 2001. 51 .. e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col. 1995. introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno. foram primeiramente observados em plantas. 1995). Mueller e col. A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt). Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula...Sinalização Celular replicação do vírus. 1998.. os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col. 1999). A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene.. e VIGS) (Hamilton e Baulcombe. 1995). ou produziam em pequena quantidade. 1999). enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. Kumagai e col. Ruiz e col. interrompendo o seu ciclo de infecção. elegans. Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. 1998..

Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado.. Essa RNAse III. 2001a) e in vivo (Elbashir e col. elegans. A enzima Dicer é conservada evolutivamente. Recentemente. 2004. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. Ketting e col. A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col. 2001. 52 Julho/2010 . 2001). 2001). Okamura e col. A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2. 2001) e que mutantes de C. A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N. Knight e Bass. Hammond e col. 2001. 2001).. 1996). 2000). 2000). PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo. RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. 1997).. Martinez e col. devido à especificidade de Pág. fungos.. crassa (Cogoni e col.. consistindo provavelmente na proteína Slicer. 2004. 2002). nematóides. plantas e animais superiores. denominada “Dicer”..... A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col. onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos.. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox.. 2001b).. toda a progênie é silenciada (Grishok e col. Meister e col.. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col. que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. Este fator é dominante. em C. 250 nt) em um processo dependente de ATP. 2001. com homólogos presentes em fungos.. 2004.. mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo. foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não.. Inicialmente foi proposto que. pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida.. Em plantas. 2001). protozoários e plantas (Carmell e Hannon. AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. na ausência de dsRNA. Analogamente.

sinalização e diferenciação.. 2001. 2002b).. 2004). 2000. 2001). elegans. um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col. Slack e col. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional. 53 . foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col. em plantas. este fator seria pelo menos em parte. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples. Sete anos depois da descoberta de Lin-4. apoptose. foi demonstrado que o gene Lin-4. 2001). A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág. Entretanto.CmPSRP1). Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. Lau e col.. e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. Lee e Ambros. Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado.. Arabidopsis e humanos (Lagos. propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR. Inicialmente. Recentemente. elegans (Reinhart e col. mas não de moléculas de RNA fita dupla. com papel em processos como a proliferação celular. Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila. 2000).Quintana e col.. Llave e col.. C. eles não interferem com o processo de tradução. 1993). Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs.. 2001).. os micro RNAs (miRNAs).. um RNA (Vaucheret e Fagard. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7. que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. não codificava nenhuma proteína. 2000). a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 . Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14. inibindo o processo de tradução.Sinalização Celular seqüência.. 2001. foi descoberto um segundo gene. Let-7. e sim um par de pequenos RNAs. conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. Atualmente. 2001. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. elegans.

pombe. o ciclo de infecção. 2004). 2000. 2004) (Fig. 54 Julho/2010 . A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb. foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. 2004). O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col.. Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe. onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col. O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno.. neste caso em nível transcricional. 2004). Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col. 2002). Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S. elegans e Drosophila (Akhtar e col. 1999).. que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo.. A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. Em vírus com genoma de DNA. ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col. O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer. pombe. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C... ou mesmo bloqueando. Pág.. Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo. Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. No início de 2004. de um transgene. A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. 1). A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico. 2000).. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. 1994). 2002). denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing). Tabara e col.

O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma. Silenciamento transcricional via siRNAs. indicando as três vias atualmente conhecidas. C. Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. A. O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. gerando o miRNA. 55 . que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). B. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo.Sinalização Celular Figura 1. gerando os siRNAs. O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo.Modelo para o silenciamento de RNA.

sinalização sistêmica e manutenção. dois domínios catalíticos. Grishok e col. S. 2004). 2004c). 2001. 2004)... ainda não foi estabelecida a função de DCL4. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs. Xie e col. 2004). Xie e col.. 2002.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas). dentre vários vírus testados (Xie e col. 2001. embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus. um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação. DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus.. 2001). Volpe e col. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. 2001... resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina. pombe. 56 Julho/2010 . animais e protozoários. Hutvagner e col. Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col. DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. DCR1 em C... Pág. 2002). 2002). Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2. O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo. Ketting e col.. Até o presente. embora com diferenças significativas (Zamore.. Na etapa de iniciação.. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col. 2004).. um domínio central PAZ (Piwi. 2002. enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. Em Arabidopsis. 2001. Schauer e col. fungos. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col. amplificação.. o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt. e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS. Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA. 2005). C. 2001. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal. Esse complexo atua no DNA genômico. envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col. (Modificado de Zerbini e col. Em Drosophila. 2001. 2001. Knight e Bass.. Knight e Bass. a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros.. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias. 2002).

Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. 2004).. 2001). A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. 2004). Julho/2010 Pág. levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col. elegans (Carmell e col. 2003).Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2. Hutvagner e Zamore. A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. 2003. 1998.... enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col. Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore. 57 . 2004) a mais de vinte em C. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar. que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col. 2002.. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col. 2001. O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S. Covey e col. 2002). 2002). e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC.. Mourelatos e col. 2003).. pombe (Verdel e col.. Kidner e Martienssen. Pham e col. 2002.. Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. 2003). em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. 2004). indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col. Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col.. o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col. Martinez e col. 2002). 2003).. Verdel e col.. 2004).... Brigneti e col. Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col.... devido à ativação e manutenção do silenciamento... 1998. A subunidade catalítica é denominada Slicer. Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col.. 2002. 2002. 1998. Grishok e col. Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer. 1997). 2000. 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col. A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col. O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia.

As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág. 2003). 2001). anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col. Taverna e col. 2003. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs. Atuando de forma análoga aos siRNAs.. A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma.. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica. 1998) e animais (Li e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington.. De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos. o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA. 2002). a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col. 2002)... 2002. Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei.. pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col. incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. Em C. indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col. a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. elegans e Chlamydomonas reinhardtii. 2002). 2002). outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. 2002). 2002. particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. 2002). incluindo a formação de heterocromatina em S. os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos. o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos. Volpe e col.... estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos. Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição. 1999).. 2003).. 2003). o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. o metabolismo de lipídeos (Xu e col. Em animais. 58 Julho/2010 . Apesar da falta de evidências diretas. Além da defesa contra infecção por vírus.. Rhoades e col. uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk...

2001). A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. elegans. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col. indicando a propagação a longa distância do sinal. A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene.Sinalização Celular heterocárions de N.. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col. 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição. A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire. Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas. Este gene. C. 1998... O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido. O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados. 1996). 1997). as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto.. e o gene exógeno uidA. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient). e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta. Timmons e col. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes. ou seja. mas não para enxertos expressando transgenes distintos. Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col.. 1997).. 1998). Estudos em C. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. 59 . benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe. elegans (Fire e col. Nestes experimentos. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág.. indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. folhas de N. Observações semelhantes foram realizadas em C.

pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter. indivíduos mutantes no gene Rde-4.. os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula. não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col.. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. em C. entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col. 2002). Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). 2003). O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs. capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. essencial para que o silenciamento ocorra.. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. Curiosamente. SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. Estudos com HC-Pro.. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. elegans. 2003). As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida.. Além disso. As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional. Lucas e col. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. Entretanto. Além disso. produzem siRNAs de forma deficiente. ou seja. 2002. Entretanto.. Em plantas. 2000). C. estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. Estas células foram transformadas com dois plasmídeos. 2003. existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico. o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. Mallory e col. 2002)... Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. 2001). Para determinar a função da proteína SID1. entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág. elegans. e em células de mamíferos (Mlotshwa e col. 60 Julho/2010 . mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA. uma proteína viral supressora de silenciamento.

2001. 2002b). Entretanto. 2002). Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. Llave e col. 2004). Lee e Ambros.. Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. denominada CmPSRP1 (C. e. C. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew. A presença de miRNAs já foi detectada em S. dessa forma. pombe. camundongos. 61 . essa hipótese ainda não foi comprovada. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo.Sinalização Celular com a metilação de DNA.5-1% do número total de genes do genoma em questão. enquanto seres humanos possuem de 200 a 255.. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1). por exemplo. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col. vírus. Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica. Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como. com ortólogos em vertebrados e invertebrados. Pelo menos 0. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos. 2003.Quintana e col.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs. Drosophila. transposon ou gene endógeno. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos.. humanos e plantas (Lagos. Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples.. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs. 2004). A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados. a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida.

62 Julho/2010 . características de transcritos de genes da classe II.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica... 2001). Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima. Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais. 2001... 2003a. o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col. Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col. 2004). Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. 2003b). de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col. capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. Entretanto. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col. mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col.. Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. 2003). pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’. e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas... o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs.. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III. 2003). sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. existem algumas Pág. e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. C. Por fim. O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III. Além disso. Além disso. 2003a). 2001). 2003). 2002). sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col.. sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. Lim e col. um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. 2) (Lau e col. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col.. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. 2003). Lee e Ambros.. ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel. 2004b). 2002). De fato. Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas.

2003). preferencialmente.. que é a mesma do pre-miRNA. Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. Além disso.. plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. 2004). 2003). 2002). enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou.. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore. liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. 2000. Slack e col. que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo. gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. 2003. na região 3’ não traduzida. Rhoades e col. 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas.. O oposto é observado com os miRNAs de animais. 2000). Além disso. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai. A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA. o miRNA172.. em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo. 2002. Chen. 1999). Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA. O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA.. estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. 2002). provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’. a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA. Yi e col.. A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col. Nesta etapa. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. 2001). Ketting e col.. 2002). Por fim. que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. 2004. Em seguida ocorre a clivagem. 2004). com uma única exceção conhecida até o presente. 63 . Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais.. que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. 2002. 2003b).

Em animais. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col. De acordo com este modelo. em ambos tipos de organismos. No citoplasma. Pág. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. (Modificado de Zerbini e col. via incorporação a um complexo RISC nuclear. Figura 2. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. gerando o miRNA. gerando o premiRNA. provavelmente pela mesma enzima. denominado pri-miRNA... Em plantas. 64 Julho/2010 . 2005). o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore. Os miRNAs são transcritos. a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. Em plantas e animais. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. Em plantas. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. O pre-miRNA é subseqüentemente processado. 2003b). os miRNA também atuam no núcleo. a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. gerando o miRNA. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. 2002).

DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC. sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col. 2002). o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear. 2002). Em animais. Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC. estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs...Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col. a outra fita é degradada. 2003). a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág. 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff. correspondente à clivagem citoplasmática em animais.. Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col. Mourelatos e col. que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore. 65 . mesmo em plantas mutantes para DCL1. Em plantas. além de Dcl1. Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel... a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. antes da exportação para o citoplasma. Desta forma. a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col.. Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. Não são detectados pre-miRNAs. Quando isso ocorre. que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2. Em plantas. a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. 2002). 2002. sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC. 2002). Após o transporte núcleo/citoplasma.. sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma.. 2002). O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore. 2002). o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. 2000). 2004).. Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. 2002). sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. Uma vez incorporado ao RISC. A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col. 2003). 2002). o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1.

B. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col. os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col. que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. Chen. 2002b. (2000). Chromodomains are protein-RNA interaction modules.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução. Bibliografia Akhtar.C. V. D. ou seja. 2003). Hoxb8. 2003). T. o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col.J. Após a clivagem do mRNA alvo. Mallory.. Rhoades e col.. 2004) e DCL-1 (Xie e col.H. Zink. 2002). 2004). 2004). Quando o miRNA direciona a clivagem. 2002). a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA. Ge. e VANCE. em camundongos (Yekta e col. 2004)... A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos. 2002). como AGO1 (Vaucheret e col. X. 2004. Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. 2003. 2003). MAarathe.. o miRNA172. verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe. Entretanto. a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA. Pruss.. (1998). Anandalakshmi. A viral suppressor of gene silencing in plants. 2004). Pág. o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore.. Llave e col.B.. A. A. P. Nature 407:405-9.. R.. Entretanto. 2004).. incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. R. Em vários casos.. 2003) é regulada por miRNAs. e o miRNA164. que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col. envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col.. Smith. G.. o miRNA159. Proceedings of the National Academy of Sciences.. entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore. USA 95:13079-84. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW. foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. Além disso.. e Becker. 66 Julho/2010 . 2002).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

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Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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o equilíbrio do ambiente. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. 87 . articulados criticamente. das ferramentas. emoção. a teoria das cordas. os mecanismos da vida etc. galáxias distantes. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural. criar e destruir civilizações. que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. investigando funções como percepção. do abrigo. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. da linguagem. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. comunicar.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência). A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. Com o surgimento da consciência. ação etc. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. atenção. Além disso. hereditariedade. memória. aprender e lembrar. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar.). DNA. O entendimento atual sobre origem.Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. Ironicamente. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. os átomos. sem a manifestação do comportamento. resolver problemas. além de didática. os buracos negros. Como podemos propor a consciência ambiental. a integração entre as idéias pode ser árida. percebemos que. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. amar e odiar. sem o cérebro. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. ao longo do tempo. funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. a higiene do meio. denominadas genericamente por neurociências. moléculas. a mente não pode ser expressa. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. a mente não pode existir. 2003).

continuam a ser a preocupação dos filósofos. (Kandel. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. pode-se começar a responder a estas perguntas que. Como resultado. ao elaborar as perguntas devidas. não sobram limites a serem alcançados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental. Portanto. até agora. a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. realizando os experimentos devidos. por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas. 2003). Pág. 88 Julho/2010 . Sabemos muito pouco sobre o cérebro.

Desta maneira. cujas funções servem a um propósito comportamental específico. módulos. sob o ponto de vista anatômico. Há. o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações. O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. viscerais. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais. Figura 1. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. i. Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. algumas características são comuns entre eles. Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág. Além destas amplas distinções. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências.plim@gmail. 1996). A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados.com No sistema nervoso. O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. 89 . o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. em componentes centrais e periféricos (Fig. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos.Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata. cardíaco e glândulas. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético. sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. neurônios nunca funcionam isolados.e. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora.. 1). Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. entretanto.

sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). No funcionamento paralelo. Em vez de concentrar as aferências. A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. 2. Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E. Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. Além disto. Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig. C ou D) seja inibido. C e D.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida. por exemplo. 2. à esquerda). podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. imagine que tenhamos os neurônios A. Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília. etc (Fig. Circuitos convergentes são responsáveis. memórias de longa duração. quanto B. o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. Figura 2. Então. o modelo de circuitos convergentes. são chamadas de neurônios eferentes. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. Esquema representativo dos modelos de circuitos. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. No caso do circuito divergente. atividades motoras. Para demonstrar este tipo de circuito. circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. À esquerda. realizando uma eferência (saída). Estas três classes – neurônios aferentes. De modo geral. centro). que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. 90 Julho/2010 . 2. à direita).

funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. 91 . por meio de um nervo craniano. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago. Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. além de processar informações de modo serial. Desta maneira. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. movimento. glândula. ou ao tronco encefálico. que protege o organismo. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. em que há produz uma reação involuntária rápida. Ocorrendo um estímulo. Isto é. Julho/2010 Pág. variações da pressão arterial etc).Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. gerando. por exemplo. os circuitos envolvidos. o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada. No funcionamento serial. ponte e mesencéfalo). Por exemplo. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. no neurônio motor. estiramento. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. Durante o processamento de funções mais complexas. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. Sinais representando cores. de modo geral. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. aumento da intensidade luminosa. forma e localização. a atividade que leva à ação. executará a resposta ao estímulo inicial. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. independentemente da vontade. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. na maioria das vezes inconsciente. músculo liso ou músculo cardíaco) que. um neurônio estimula outro neurônio. conseqüentemente. por sua vez. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor. antes deste poder comandá-la voluntariamente.

Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo. em humanos) durante um período critico na infância. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é. 92 Julho/2010 . Como esperado. Assim. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente. assim como a função visual. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. preferências sexuais e aquisição de linguagem. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso.e. ou patologicamente. i. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. a construção dessa Pág. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto.. Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos. entretanto. fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. Mais freqüentemente. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas. sua experiência acumulada. paralelamente. Em um axônio aferente. Em alguns casos. molda os circuitos neurais. em animais. experiência). entre outros. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. Assim. além da construção de sua circuitaria. essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. a conectividade no córtex visual é alterada. determinando seu comportamento.

Primeiro. Julho/2010 Pág. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais. Segundo. Assim. memória operacional. ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. linguagem. 1949). atenção espacial. XVII). Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. Em seu lugar. Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. Em resumo.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. Desta maneira. 93 . Assim. reconhecimento de face. retenção de memória. em um animal adulto. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. Ao contrário. é aumentada. uma das células que estão agindo sob B. Em 1949. pág. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento.. 1949. enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. etc. tais como discriminação visual.

Figura 3. long-term potentiation) (Fig. ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante. Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. 3). à esquerda. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. 94 Julho/2010 . Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. abaixo) (disponível Pág. A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. à esquerda). O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo. Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. LTP (do inglês. Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP).

Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície. por sua vez. de comunicarem-se através da sinapse. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. Entretanto. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. Entretanto. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido. Como conseqüência. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. até respostas mais complexas. usualmente. ao Julho/2010 Pág. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica. a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. nas formas de LTP mais compreendidas. Interessantemente. Por exemplo. Nesse contexto. na forma de moléculas de neurotransmissores. mas também por um aumento do número destes receptores. como a cognição observada em humanos. são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas.09/06/2009). 95 . em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais. pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. Por exemplo. mais fortes tornam-se essas conexões.Neurociências em www. a idade do animal em questão e espécie. a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração. o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado. projeta-se para outros 104 neurônios e. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos). a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior. Isso permite entender porque a recordação envolve. Estes sinais. Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. categorias. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. De acordo com essa concepção. isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória.org .braincampaign.

legumes. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. contexto. lutar e reproduzir-se. Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”. Então. o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. carnes etc. forma. tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros). O mesmo ocorre em relação a alimentos. a recordação também será categórica (frutas. fugir de predadores. verduras. Assim. ou seja. integramos todas as informações disponíveis (cor. Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. De modo circular. ou seja. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal. Interações podem incluir andar de um lugar para outro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo. pegar um objeto.4). animais aquáticos. Figura 4. invertebrados etc. aves. Desde a mais primitiva espécie animal.). quadrúpedes. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito. A Pág. 96 Julho/2010 .

de uma definição completa e consensual. se considerarmos que a percepção do mundo. O sistema nervoso evoluiu. provavelmente pressionada por fatores ambientais. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. em sua maioria. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág. sobretudo nos mamíferos. responsáveis por emitir as respostas motoras. apesar de seus constantes desafios. ou pelas vias eferentes. “ação” e. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”). todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. E. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. Podemos supor então que. Eles são. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e. não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. Esses rótulos estão longe. na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. de forma um tanto óbvia. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. desta forma. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos.Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. “aprendizado”. “atenção”. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza. significa “apoderar-se” dele. sobretudo. mais provavelmente. 97 . permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. derivado do latim. com ele interagindo de forma contínua e coerente. precisam ser estudados juntos. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. Desta forma. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. desse evento ou dessa resposta. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. onde “perceber” algo. “memória”. ao tornar-se cada vez mais complexo. por fim. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. “consciência”.

em direção a estruturas anteriores (motoras). Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. Assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. uma vez que um objeto tenha sido percebido. Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver. permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos. Pág. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. para um som ser audível. Em contraste. desta forma. substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo.não dependem tanto deste contato. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. Da mesma forma. com feedbacks em todos os níveis. 5). ver e ouvir. nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva). 98 Julho/2010 . Quando tocamos um objeto. eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz. Além disso. Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo. temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. Comportamentos mais complexos. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. neste sentido eles funcionam como um radar. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar. no nível cortical. Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido.

áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). 99 . Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster. O substrato cortical do ciclo percepção-ação. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais. longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. Da mesma forma. Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato.Neurociências Figura 5. Assim. há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados. Do mesmo modo. Em ambos os córtices. enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa. 2006).

Contudo. a uma única oportunidade. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). isto é. a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. fornecendo subsídios para ações mais complexas. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. Assim. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. Assim como vimos acima. em geral. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. Sendo assim. Desde modo. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. isto é. tudo começa com uma intenção. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. 100 Julho/2010 . do agente envolvido. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores. numa análise dos componentes visuais da ação específica. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. De modo inverso. Na abordagem sensório-motora. na abordagem ideomotora. tudo começa com uma estimulação. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. Considerando o fato de sermos seres sociais. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita.

auditiva. Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. Os descobridores destes neurônios. uma ação implica em um agente e um objetivo. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas.Neurociências execução da ação observada. possa participar desta função. de acordo com esta concepção. pegar/manipular um objeto ou alimento. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). Julho/2010 Pág. baseada também em outras modalidades. Conseqüentemente. embora nenhum movimento efetivo seja executado. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. Todavia. isto é. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. Isto é. baseado na descrição do objeto e do movimento. 6). o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. entre eles Giacomo Rizzolatti. aparentemente. como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. em outra perspectiva. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. Esta resposta. 101 . Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. Entretanto. ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores). implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações. o estímulo é ligado à intenção do agente. isto é. como por exemplo. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. os assim denominados “neurônios espelho”. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6. o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante. não apenas pelo sistema sensorial.a ação observada sendo executada por outra pessoa . À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti. Desta maneira. 102 Julho/2010 . mas também no próprio sistema motor do observador. Pág. Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador.e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador . ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente . Através do reconhecimento de ações e.representação motora da ação observada.1996).

que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). formando um arcorreflexo monossináptico (e. 103 . Há ainda o arcorreflexo polissináptico. O arranjo das células nervosas é difuso.com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras). Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e. A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo.fv@gmail. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora. 1983). nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). Em última instância. reflexo patelar). transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág. com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora. A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados.g.Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig. As células receptoras. são responsáveis por transduzir (isto é. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. Apesar disso. Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos. Eventualmente. e sem preferência de direção do estímulo conduzido. flexibilizar o comportamento (Eckert. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora. de agora em diante chamadas receptores sensoriais. com cruzamentos desordenados de axônios. O mais complexo que se tem conhecimento. portanto. 1). Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso.

Por outro lado. Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz). portanto. Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág. É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. como os Tarsius. como. pois persistem em diversos grupos. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. 2). têm globos oculares extremamente grandes. que faz com que a luz passe duas vezes por ela. O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente. Os receptores tendem a ser muito específicos e. Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal. respondem preferencialmente a um tipo de estímulo. Comprimento de onda em nanômetros. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele).: cobras). 104 Julho/2010 . a ecolocalização de morcegos. Outros mamíferos. Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente. Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz. há animais que tem visão e audição pobres. útil a presas e predadores. Modificado de Carlson (2004).g. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos. por exemplo. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. Nesse sentido.

Fig. Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. provocando uma cascata bioquímica no interior da célula. Em última instância. 4A). Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. formando um mosaico. A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. 4B). Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. 105 . dado que as variações entre os grupos são grandes. Eckert (1983). 2006). Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica.g. brilho). Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e. precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento. tanto em vertebrados como em invertebrados. as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica.Neurociências pela estimulação luminosa. abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. formando o rabdômero (Fig. o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A). A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor. A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig. cada qual com um receptor sensorial. A combinação mais encontrada. Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. para que possamos enxergar. rodeado por 6 a 12 células retinulares. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC).3). A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide.

formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. incluindo os humanos. Neurônios com axônios longos. sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. ainda que responda por menos de 1% do campo visual. toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. Esse caminho. 106 Julho/2010 .. as células ganglionares (Fig. Dessa forma. Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. 4B). A fóvea é o ponto de maior acuidade visual. 5). 6). porém. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz. uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. 2006). Semelhantemente. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. 4B). Alguns têm três tipos de cones. e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea). 5). evidenciando algumas camadas celulares da retina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. não é direto. A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. menos cones e mais bastonetes são encontrados. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. o inverso do centro da fóvea. As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. Modificado de Lent (2006). Pág. como em um quarto escuro. constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos.

As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. isto é. chamadas parvocelulares. ele se dirige à V1. (1996). em vermelho. Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. que tem um mapa retinotópico. por outro lado. Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. o que reduz sensivelmente a visão binocular. 107 . todas as fibras passarão pelo Tálamo.Neurociências Figura 5 . (1996). no córtex occipital. responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. mas potencializa a visão em todas as direções. Após o estímulo passar pelo NGL. algo constante em animais carnívoros. do gato e do rato. 6). têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL).Córtex visual primário (V1). Herbívoros. há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. Após o cruzamento no quiasma óptico. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig. portanto. para um mesmo lado da cabeça). É ela quem permite a visão binocular. Modificado de Bear e col. Modificado de Bear e col. tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar. no córtex occipital do homem. tem os olhos em lados opostos da cabeça. Encéfalos fora de escala. As outras quatro camadas. Entremeado nessas camadas. permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados.

000 Hz e indo até cerca de 120. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho. à membrana basilar dentro dela (Fig. mais especificamente. (1996). os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total.000 Hz. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20. 108 Julho/2010 . 8). têm comportamento extremamente direcional e reflexivo. com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina. freqüências acima de 10. fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina. Modificado de Bear e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1. No outro extremo.000 Hz. devido a características implícitas à cóclea. freqüências acima de 20. preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig. Figura 7 . características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons.000 Hz. podendo ser feita a quilômetros de distância. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. morcegos têm faixa de audição começando em 10. 7) (Carlson.Representação do sistema auditivo humano. Os superagudos. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante.000 Hz. Emitindo sons acima de 50. Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação. Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas.000 Hz. parte da Pág. 2005). Diferentemente da visão.

no entanto. Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. no meio. Essa energia. Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. integrantes da orelha interna. 7).Neurociências orelha externa (Fig. resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. os cílios dos mecanorreceptores. Modificado de Bear e col. a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. Julho/2010 Pág. (1996). Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. Como a cóclea é um tubo inextensível. Sons médios. A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. que farão a transmissão para a janela oval na cóclea. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos. 8). não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x. A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. inicialmente pelo nervo coclear (Fig. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo. com todas as suas características de frequência e intensidade. Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas. A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. Pelo contrário. permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas. 109 . todo som causará vibração por toda a membrana basilar. bigorna e estribo). movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio.

permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. Modificado de Bear e col. 2006). 10). com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular. esse sistema deve ser no cérebro. O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo). impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. 2006). Modificado de Lent (2006). pela adição do canal horizontal. A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados. 2006) (Fig. Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. para acelerações lineares (Graf. Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. 110 Julho/2010 . (1996). Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent. 9). considerado um sexto sentido dos organismos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). ausente nos agnatas. Pág. tendo íntima relação com o sistema motor. a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig.

Interessantemente. embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. no giro pós-central (Fig. 2005). Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. as maiores áreas de processamento). A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. como na cóclea. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). já que estes têm hábitos noturnos. Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. formando um mapa somatotópico do organismo. temperatura ou dor. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. 2006). IV e VI). 5). Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. 111 . Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo.Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). outras seguem diretamente para o cerebelo. portanto. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III. Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico. ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. Assim como na visão. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. permitindo a formação de imagens estáveis na retina. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. como a ponta dos dedos.

o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. substância naturalmente presente em carnes. que detectam cinco qualidades: amargor. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores. 112 Julho/2010 . no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. Treinados. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo. Já receptores para sal. indicam a presença de cloreto de sódio. por outro lado. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins. em última instância. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson. Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. O caso mais surpreendente. é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar. doçura indica presença de açúcares. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água.. Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos. 1997 apud Carlson. extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. Outras projeções se dão para a Pág.. resultado da ação bacteriana. queijos e alguns vegetais. porém.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas. doçura. 1986 apud Martins e col. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. são detentores de um olfato apuradíssimo. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller. Acidez é um indicativo de decomposição. 2005). substâncias amargas ou azedas serão evitadas. salinidade e umami. 2005). Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. 1995). Curiosamente.. Por outro lado. claramente um alimento. de fato. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. acidez.

002 °C. formando um ângulo de 90° uns com os outros. 2006). A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz. o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e. que precisam manter sua temperatura regulada. 3). Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. sendo homólogo entre todos os grupos (Graf. Há críticas à existência da magnetorrecepção. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. entre eles: aves migratórias.Neurociências amígdala e hipotálamo. passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas.. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig. coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. Mais do que isso. A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. 113 . sendo detectado. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos. 2006). Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca. as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans. isto é. Por outro lado. através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico.g.

Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. 2006). A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes. A forma como percebemos o mundo também não é. mas apenas aqueles mais bem adaptados. enguias e até mesmo bactérias. de fato. Estímulos como a luz. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. ainda que elas sejam análogas entre espécies. tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos. necessariamente. tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. Além disso. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem.. 114 Julho/2010 . Não há melhores órgãos e sistemas. Em última instância. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. disponível na superfície terrestre globalmente. 2006).

. tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. provavelmente.Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail. ocelos. pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. mas. tamanhos. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. ou podem ter uma origem polifilética. de um único ancestral comum. Origens evolutivos No caso da “visão”. Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar. 1995.em todos os exemplos. embora os olhos apresentem uma variedade de formas. incluindo a navegação e noção de tempo. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante. Logicamente. por definição. Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos. surgido mais de uma vez durante a evolução. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central. Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus). 1977). Arthropoda e Chordata. Estas estruturas (ex. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes.. ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . ou seja. Salviani-Plawen e Mayr. 115 . o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. olhos compostos. olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”. 1859). desenhos ópticos e localização corporal. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág.com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida. os olhos podem ter uma origem monofilética. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins.

(Fig. e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes. A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. 2000. Modificado de Fernald.1). Figura 1 – Tipos de olhos. Duas dessas soluções aparecem em Chordata. o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz. Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág. podem ser divididas em duas grandes classes. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. 1995). paralelas umas às outras. uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz. as células fotorreceptoras. 116 Julho/2010 .

2001). Durante a evolução do olho. 2003).têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt. Annelida. Pichaud and Desplan. poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano. genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo . o olho simples (ex. 2003). este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz. 1999. Em sua origem.homeobox. protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e. A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena. Duas células . 117 . Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz.olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo).. Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar.1992. 2) (Gehring and Ikeo. Especializado. que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash. 2000). Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes. 2002).Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis. (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos. Lophotrochozoa). Fernald. além disso. Figura 2 – Foto ilustrativa (D. Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig. assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt. Julho/2010 Pág. verde: células de pigmento. Arendt).

Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang. Pág. 118 Julho/2010 . olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes. apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. 3 (Arendt.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. 2003. 2001). Arendt e Wittbrodt. A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig. 2003). Nos vertebrados. A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. 2001). nas quais a célula parece ter um achatamento. Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. 2001).

desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. plexiforme externa. especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar.1997). plexiforme interna. Os sistemas de transdução. Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. externa. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e. da espécie. 2001). a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula. Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. Julho/2010 Pág. cada um com sua peculiaridade. nuclear externa. epitélio pigmentar) (Fig. uma modificação do cílio. conseqüentemente. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. 119 . amplificação e transmissão (Randall.Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. por outro lado. desempenhando operações de detecção. 4 do capítulo anterior). são muito parecidos. nuclear interna. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 120 Julho/2010 .

uma saúva fêmea. Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. Foram selecionadas. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. agitada ou apressada. o bico escancarado. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. uma mulher. de aves e outras classes de animais . de onde o ovo vem saindo.fazem em favor de suas crias. leite em pó e um carrinho de bebê. perderiam a prole. Dobrando-se ventralmente. 121 . recebem uma explicação simples da teoria da evolução. O macho não apareceu por ali (Robert et al. retira-o e.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. talvez dormindo. Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. pinça-o com precisão. 1961). do qual eclode uma larva. e acaba descansando um pouco. Enquanto dirige. pescoço esticado para cima. Ato contínuo. girando o corpo. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. protegido do sol de verão pela folhagem acima. na primeira semana de vida. e faz cálculos de dinheiro. evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. uns 15 cm abaixo da superfície do solo. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. a uns 15 cm do solo. A um metro dali.. uma outra fêmea. ela pensa na lista. A fêmea. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. põe mais um ovo de alimentação. mamadeira. Alguns minutos depois. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. Não é um ovo normal. incluindo fraldas. desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. enclausurada na câmara que construiu. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. mete o bico goela adentro do pidão. Mais alguns minutos e a cena se repete. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . voa para trás. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center. um ninho de tico-tico abriga um só filhote.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira.e também alguns machos. porém. É bem maior e é mole. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. chupetas. De repente. ela não vai à exaustão total. Ao pensar em cada item. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. bem rápida. Bem mais longe. ela chega de novo: mais uma refeição. o filhote se ergue. 1940). na direção de onde chegou. Está sossegado. No entanto.

Trata-se de um desconforto filosófico. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. tão adaptativa nas relações sociais. as funções. Essa faculdade. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se. É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. Abandonando o ninho. fim. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino. 1941). O cálculo da formiga é um pouco diferente. no entanto. inclusive absorvendo seus músculos alares. propósito e objetivo. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. 122 Julho/2010 . ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. Tal inquietude. facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem. são pontos terminais de linhagens. jejuando durante meses. Pois são estas. mas essencialmente o mesmo. o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. com a manutenção subordinada à reprodução. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural. Ora. 1942. finalidade. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. decorre de um exame superficial do conceito de função. o Pág. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. vivendo de reservas. Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. precisariam de menos alimentos para si mesmas. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. E se não construísse a câmara. como se o futuro pudesse determinar o passado. mães extremadas dão origem a mães extremadas. as tico-ticos estariam melhor.

embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. Portanto. por exemplo. na maioria das vezes. 123 . A observação de que as larvas de formigas são inertes. no entanto. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal. terá valor no plano funcional. incapazes de se alimentarem sozinhas. uma funcional e outra causal. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. em busca de como ele controla as ações dos rivais. O controle de suas ações. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. obra da adaptação. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. prêmio Nobel de 1973. o canto está dentro de um estudo causal. Examinado dessa forma. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. A resposta causal. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. Niko Tinbergen. O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. portanto. que devemos chamar de causas do comportamento. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. e mais duas que não serão aqui examinadas. possibilitando a seleção de programas genéticos. a funcional. fazendo-os mais ou menos agressivos. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê. Contudo. cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. ou com o objetivo de recarregar sua bateria. constitui um outro tipo de fenômeno. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. que tem.

ou seja. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. os jovens fazem coisas de adultos. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. em condições normais no ambiente natural.. e assim por diante. As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. inclui rotineiramente relações entre machos. a sede quando falta água. seja no ambiente natural seja no laboratório. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. Em condições anormais. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. no prelo). o animal deve engolir água e não areia ou flores. Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. Existem mariposas que subitamente. Alguns segundos depois. no ambiente natural. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. Em condições normais. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. 124 Julho/2010 . E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. tão comum em mamíferos. esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente. fora tanto do contexto funcional como do causal. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. a começar pelo reconhecimento correto do objeto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido. elas recobram seu vôo normal. causas e funções podem desencontrar-se. é necessária a ação de fatores causais adequados. Sim. Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. em pleno vôo. antes de atingirem o solo. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. No comportamento lúdico. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. mas presente também em aves. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. como a sexualidade dos bonobos que.

Mesmo tendo perdido o fungo. comuns em animais sociais. Foi vã toda a dedicação da tico-tico. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho. sem fungo. 2004). está feliz de poder ajudar. neste caso imaginário específico. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. mãe solteira. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. a reprodução. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. Porém. Não a viu. os ovos perderam-se todos. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. para fazer outro em lugar mais seguro. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. solidária. Sem esse jardim de fungo. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. Diferentemente de qualquer outro animal. A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. Já o comportamento da mãe. Se a percebesse. 125 . Ela continuará a alimentar as larvas. ao planejar o filho. O filho foi planejado. menos um. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. que normalmente reside no Julho/2010 Pág. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais. que está sem dinheiro. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. Ela tinha um bom emprego. abandonando o ninho.Neurociências o comportamento animal. O filho. Por predação ou furados pela chupim. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. No caso que estamos examinando. em seu benefício. Essa pelotinha de fungo era essencial. seu esforço é vão. A amiga. É filho de uma amiga. na pré-história. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. Explorando o sistema causal da hospedeira. Isso foi assim. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. a ticotico talvez tivesse ido embora. o da chupim.

as respostas são mais hesitantes. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional. a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais. que muitos animais são capazes de fazer. mas não se revela facilmente a si mesma. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. humanos. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. 126 Julho/2010 . As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. Em nós. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação. A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. porém o progresso é indiscutível. Pág. biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas. 1981). Curiosamente. A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. é uma causa dos comportamentos da mãe. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada.

perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. timbre. Esse mecanismo depende. intensidade. ouvindo ou sentindo estímulos). altura para audição. Ainda assim. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). Não importa qual a posição do carro mostrado na figura. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. abstração. forma. Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor. mas vai além destes.Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. como a memória ou a atenção. portanto. sabemos que se trata do mesmo carro. A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. movimento para visão.fv@gmail. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. especialmente atenção e memória. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. a percepção de uma determinada nota é mantida. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida. capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. 1. Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo. Humanos são para os quatro desenhos. Ele seguramente o estranhará. Ivry e Mangun (2006). 127 . Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. Por outro lado. o reconhecerá pelo cheiro e voz. de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. Tome por exemplo a Fig. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes.

mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). 2006). 128 Julho/2010 . essa informação continua avançando por diferentes regiões. adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). como já mencionado. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido. o que descarta problemas de memória. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. Mais do que isso. entender como percebemos. pelo contrário. são parte dos chamados córtices associativos. pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. de fato. em geral.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. associado a apenas uma modalidade sensorial. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. A informação que chega até o córtex visual não para em V1. Com esse arranjo. Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. mais fibras vão convergindo na rede neural. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção. particularmente no caso da espécie humana (Preuss. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e. passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia.

as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. podemos entender “onde” vemos um objeto. Quanto mais adiante na sequência. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. Através da via dorsal. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo. mas não de outras características. mais adiante na sequência de processamento visual. independente de qual delas. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos. Modificado de Lent. 2). já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. Julho/2010 Pág. permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo. Apesar do arranjo sequencial. 2006. Na Fig. o tempo de reação é menor. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. como movimento ou cor. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão. 129 .Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig.

se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. o uso de aspas justifica-se porque. para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão. Retirado de Kandel e col. 130 Julho/2010 . para processamento de informações sobre localização espacial e movimento. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons. relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. Apesar disso. Evidências clínicas. e uma via ventral (córtex temporal inferior). falando-se em percepção. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. De fato. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. (2000). mais uma vez. Semelhantemente ao sistema visual. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos. isto é. simplesmente não há “correto”. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. que disparam para Pág. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral.

mas. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo. Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos.. Como no carro da Figura 1. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. Para ele a estimulação visual nunca existiu. se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). novamente. 131 . invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). por outra via. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. cheiros e pressões (táteis) ao seu redor. Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. mas eles Julho/2010 Pág.. Para ele. morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros. logo.). Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. ganhará maior processamento neural destes circuitos. isto não é o que um cego percebe do mundo. são apenas as outras sensações. precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. melhor dizendo.Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. incluindo os humanos. resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. Essa região está envolvida com memória operacional e atenção. após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). Por outro lado (ou. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos). e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível. é a constância perceptual para estímulos sonoros. Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. Olhe a Fig. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. 5 sugere o formato de um triângulo. Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. ao olhar para um Pág. A Fig. 4 criam a ilusão de algo que se distancia. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. 4A. 4B e isso ficará ainda mais claro. apesar de serem iguais. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. 6. não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. Assim. o que faz com que. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. As barras convergentes na Fig. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. Tome por exemplo a Fig. Isso não significa que falhamos em enxergar. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. mas sem todas as suas bordas esperadas. de fato. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. após uma análise mais cuidadosa. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória). vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. todos dirão que a barra superior é maior. Apenas alguns. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos. Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito. 132 Julho/2010 . Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia.

perceba-se cores trocadas na imagem. preto ou qualquer tom de cinza). mas pelas cores em volta da mesma. O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. com ativações bilaterais. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. para uma parede branca. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura.Neurociências fundo neutro (branco. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto. Figura 7 . Figura 6 – Efeito de pós-imagem. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais. Veja na Fig. Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo.Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. O que você percebe à primeira vista na Fig. 133 . Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e. 9? Julho/2010 Pág. em seguida. Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem.

mas há relatos bem Pág. pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global. A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. 134 Julho/2010 . mas não se dão conta dos detalhes. seja por grafemas. percebem os detalhes das imagens originais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras). Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. mas perdem a forma global. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. o contrário não acontecerá). Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. 2006. se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela. como dito acima. Retirado de Lent. ou por sons (palavras em geral). isto é. Por outro lado.

Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. cheiros para cores e. música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas. gostos gerando formas. A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais).Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos. inativas.Modelos de Sinestesia. 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág. 135 . Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns. As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral. Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). mais curiosamente. em azul. duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. Figura 10 . mas funcionalmente inativas. A Fig. Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. Modificado de Bargary e Mitchell (2008).

não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”.g. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. movimento. A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. Tomando por base o exemplo anterior. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. É o chamado binding problem. Se um deles disser que um dó maior é azul. Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores. um valor bem diferente dos 0. cor. por exemplo: números escritos na língua de origem. 136 Julho/2010 . De qualquer forma. 2006). A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. 2008). Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard. A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções.05% anteriormente sugeridos. por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida. Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. Pág. no caso da visão). Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e. o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. 2003). portanto. forma. etc..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell.

diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”. desde sempre. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. Segundo os autores.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. ao final do processamento. incluindo as fases iniciais do processo. com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. porém. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral). 137 . consequentemente. O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo. Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. Essa explicação. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. porém. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que. Julho/2010 Pág. não favorece essa explicação. complexando o estímulo processado). mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. apenas representamos internamente o que é percebido externamente. ainda carece de comprovações. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores.

138 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos. podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. Ainda sim.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. Desta forma. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. no relato de uma experiência de infância. aprendizagem de conceitos. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. 139 . Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais. ocorre de maneira constante.barletta@gmail. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas. Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). ela age também selecionando comportamentos. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. na execução habilidosa de uma ação motora. permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. lenta e gradual. Por exemplo. por exemplo. se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág.

parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. Se. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. Indivíduos capazes de identificar estímulos. Do ponto de vista evolutivo. além de planejar uma ação antes de sua execução. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais. isso pode ser altamente vantajoso. se beneficiarão. no entanto. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. ações essas baseadas em experiências anteriores. a complexidade de tal ambiente aumentar. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. A evolução do sistema nervoso. 140 Julho/2010 . pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. Uma vez gerada a previsão de um evento. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. estarão mais aptos para determinado ambiente. Em outras palavras. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. fazendo uso de processos antecipatórios. Portanto. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema. o surgimento de diferentes sistemas de memória. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação. conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. sobretudo dos processos de memória. com regras de operações essencialmente diferentes. Assim sendo. No entanto. Suporte aos sistemas de memória Pág. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento). capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível.

Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. 141 . isto é.) em potenciais elétricos. é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. odores etc. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo. Assim. Conectadas aos neurônios. gerada por atividade espontânea. que por sua vez.g. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses. recebe projeções de outros milhares de neurônios. as memórias. são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. deste modo. sob a forma de impulsos elétricos. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. temos um processo de computação neural. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica. luz. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. Essas informações sensoriais. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). som. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações. Levando em consideração tais possibilidades de combinação.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. por sua vez. avalia e passar o sinal a outros neurônios. possui bilhões de neurônios. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios. Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. Além disso. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso. que transformam diferentes formas de energia (e.

que não receberam choque nas patas no dia anterior. foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias. 1 . treino inicial representado pela curva verde). alguns peixes voltaram à posição normal. depois do treinamento com choque nas patas. Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. (ver Fig. após entrarem nessa câmara. por uma porta tipo guilhotina. como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. 1). apesar do flutuador (Fig. Após longo esforço de cerca de 3 horas. 1 – direita: barras de cor laranja). O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. levam um choque nas patas. À medida que esse intervalo de tempo aumenta. maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. Em experimentos adicionais. menor é o efeito. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. 2. Xavier (2004) e Gold (1970). A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo. Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). 1). Animais de um grupo controle. Em uma etapa de teste. entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). Modificado de Pavão (2009). Se Pág. Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso. a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. realizada 24 horas depois. O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens.esquerda). Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). 142 Julho/2010 .

2007). 143 . os flutuadores foram recolocados. algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. Num terceiro teste. esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento. Ou seja. Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul. no teste de memória realizado 3 dias depois. Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular. 3 dias depois. e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. curva vermelha). os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. Atualmente. 2. abaixo) – curva verde. os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. com treino de cerca de 180 minutos.. Então. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. acima). porém. Em outro teste. curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos.Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois. indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. os animais realizam a tarefa mais rapidamente. Modificado de Pavão (2009). Xavier (2004) e Shashoua (1985). Flutuadores foram presos aos animais. ficavam em posição confortável (esquerda.e. i. 2. Em segundo momento. Em conjunto. ver Helene e Xavier. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. essas proteínas foram denominadas ependiminas. esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig.

esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. por exemplo). A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente. gerando circuitos alterados no sistema nervoso. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. associado com produção de proteínas. Posteriormente ao experimento de Shashoua. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. O outro. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade. muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos. no máximo. Diferentemente. plasticidade. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. mais instável. Um deles. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses). a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. parece envolver alterações estruturais nas sinapses. 144 Julho/2010 . Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. uma de curta duração e a outra de longa duração. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. meses ou anos. Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. simplesmente. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. algumas horas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória.

Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade. representa a experiência adquirida. 145 . Sendo assim. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. Julho/2010 Pág. correspondente àquela gerada durante a experiência original. Sendo assim. qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. assim como Hebb havia proposto. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP). ou redes nervosas. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes. Como vimos. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. Aparentemente. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. anos ou até mesmo uma vida inteira. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo. Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. Em outras palavras. tornando-as associadas. Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios.Neurociências circuitos neurais.

Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). estão profundamente associadas com os processos de memória. usualmente. "nós" da rede. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. Assim sendo. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica. A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. Em primatas. Uma vez ativos. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. Isso significa que. A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. Isso permite entender porque a recordação envolve. categorias. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. mais fortes tornam-se as conexões. costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. ação e outros processos cognitivos. organizadas no tempo e espaço. percepção. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. por meio de sua atividade e conexões. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. Como consequência. a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. 146 Julho/2010 . dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes. como por um ato de vontade para recordar aquela experiência. quando Pág. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. Além disso.

provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. Figura 3 . de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). uma dada população de nós disparando.Esquema representativo de redes neurais de Hebb. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). Nessa rede. (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. 147 . se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas. Julho/2010 Pág. Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios. enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. Além disso. e de Helene e Xavier. Nesse sentido. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. A rede tem uma organização inicial como representado em (A). excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. Modificado de Bear. 2002. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória. já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. 2007. ou pode ter reverberado nessa rede. é ativada (B). representa uma determinada informação. ao receber um estímulo. Por exemplo. levando à sua previsão.Neurociências ativados. essas ligações podem variar em intensidade. então. de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial. um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. contribuindo para a lembrança completa da experiência original.

Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular. estava restrito à aquisição de memórias de longa duração. Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais.. Por exemplo. e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente.M. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas. aprendeu a ler palavras invertidas.M. Após a remoção das estruturas. neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração. isto é. Na ocasião. isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala. 148 Julho/2010 . Segundo essa ideia. assim como seu QI. Curiosamente. além de outras porções corticais. porém cooperativa. que funcionam de forma independente. o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. o paciente sofria de epilepsia intratável. o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. 2007). H. foi removido cirurgicamente. porém. quando consultado sobre seu treinamento prévio. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória. estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis. O prejuízo cognitivo de H. uma espécie de reverberação da Pág. parece atualmente bem difundida. sua personalidade e a memória de curta duração. H. ele alegava nunca ter feito isso. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia).M. representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações.M. descrito por Scoville e Milner (1957). possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier. O foco epiléptico. Como dito anteriormente. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). suas capacidades perceptuais se mantiveram.

Julho/2010 Pág. ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste.M. pacientes parkinsonianos exibem. 2007). Em outras palavras. têm lesão no lobo temporal medial). 149 . 4). Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita).M. pode-se dizer que. Curiosamente. Resultados de estudos como do paciente H. Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente. usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. Trazendo esse conceito para o caso do paciente H. e uma memória de procedimentos (ou implícita). Neste contexto. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. Em suma. como visto. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier. Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu. por exemplo. mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. Duplas dissociações. pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. embora possam cooperar entre si. pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas.Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. usualmente preservada nos pacientes amnésicos.

A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal. Pág. ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig. Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo.PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição. ou seja. Sua aquisição é gradual e dependente de treino. o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. 5). possui um acesso consciente.amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson . o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência. como já descritas. Sendo assim. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento.M .PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. 2007).M . 150 Julho/2010 . (modificado de Helene e Xavier. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. Além disso. porém. em cada caso. ocorre de forma cumulativa.amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson . A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H.

um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. denominado de retentor episódico. 6).Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. Posteriormente. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal. para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração. armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig. A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. Julho/2010 Pág. que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional". Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. Modificado de Helene e Xavier. 2007. a central executiva. memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. 151 . Segundo os autores.Neurociências Figura 5 . Baddeley inseriu um quarto componente no modelo. que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas.

resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. 1982). aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). Assim. teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas. a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas. É provável que a seleção desses sistemas. aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. 152 Julho/2010 . inclusive dos diferentes módulos de memória. Pág. incluindo raciocínio lógico. Considerações finais Em conclusão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . a organização do sistema nervoso. enquanto úteis.g. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. resolução de problemas.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974). do ponto de vista evolutivo. Ainda sim... esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem.g. com propriedades distintas. A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva). enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley.

a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág. Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1.. as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky. 2. Quando o animal se move livremente. Witter e col. o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. Anatomicamente organizado em camadas.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells.com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. Centenas. o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. 1971). 1968. 1). mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). Em ratos. 1989) (Fig. Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente. Adaptado de Paxinos e Watson (2004). No rato. Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. ou seja. se não milhares de experimentos. Em primatas. como veremos a seguir em detalhes. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. 153 .

e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. Figura 2. não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial. Há várias versões desse teste.M. infusões de drogas ou. Adaptado de Eichenbaum (1999). 154 Julho/2010 . que incluem a plataforma visível ou. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. com uma pista que indica onde a plataforma está. O labirinto de Morris é usado. ano de sua morte. Devido à sua simplicidade. 1993). quando fez uma operação experimental no lobo temporal. 2). 1993).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. o paciente H. Cohen e Eichenbaum. como veremos mais adiante. Entre os anos de 1953. 1993). entre outros. 1957. e 2008. Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. 3). Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. Pág. outras vezes. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. em outras vezes. para estudos de lesões. versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. 1978) (Fig. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água.

Julho/2010 Pág. O animal pode executar um programa motor constante. O círculo indica a plataforma escondida ou não. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. 1986). O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel.  Navegação por local. aleatória. por exemplo.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). São elas:    Navegação randômica. ele deve explorar o ambiente de forma randômica.  Navegação por rota. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. nesse caso. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e. Se. 1978. Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica. Navegação práxica. Whishaw e Mittleman. 155 . Navegação táxica. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora.

gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais. Eichenbaum e col. ou seja.. 1993. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas. enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. al. Dessa forma. 1999) e humanos (Ekstrom e col. McNaughton e col. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. 1997. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação. Wiener.. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col... Nishijo e col. 156 Julho/2010 . Matsumura e col. 1990. 1997. Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar. 1978. há um mecanismo fisiológico que é capaz de. as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente.. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. porém sem perceber a posição. possivelmente devido à perda extensiva de place cells. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. como direção de movimento e velocidade. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células. o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. Para tanto. Pág. utilizando-se das pistas externas e internas. 4).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col. Maguire e col. para atualizar a representação de acordo com essas pistas. As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação. Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo. 1994). além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente.. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente. 1983. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados.

2007). imóveis (Hori e col. mesmas posições. os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e... Fig. No entanto. 4. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col. VR(W). Furuya e col. mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente. 2007). 2005). atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual. o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. 2005. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. 5). dessa forma. Furuya e col. 1994). apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies.. porem com menor tamanho. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. 2005. 157 .Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas. Embaixo. Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col. Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. 2007) (Fig. VR(N) é um ambiente similar a VR. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col.. (2005)... porém em posições diferentes. Adaptado de Hori e col. as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. Furuya e col.. 2005. VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos. Em outros estudos. no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação.

e não o contrario. mantendo-se as proporções de B. porém com características similares. Mizumori e Wiliams. 158 Julho/2010 . núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN. Porém. são as pistas que se movem em relação ao animal. núcleo mamilar lateral (LMN. Ranck. Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. (2005).. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col. o ambiente todo é reduzido. em relação ao grupo controle de nãotaxistas. Nesse paradigma. Em B. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col. 1995)... Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo. Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system). Foi verificado que os taxistas. núcleo anterior talâmico (ATN. 2007). (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres. as pistas encontram-se próximas e em C. Em A. 1984). quanto em primatas. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze. apresentavam maior atividade no hipocampo.. Adaptado de Hori e col. 1993) e. mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual. Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS. Maguire e col. no entanto. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle.. Leonhard e col. No entanto. há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. 1996). em menor Pág. Taube.. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. 1991). tanto em ratos.

Julho/2010 Pág. O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. ou seja. Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo. ou seja. se projeta para o AD. diferentemente das place cells. sendo. a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência. Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig.Neurociências quantidade. 2006). são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente. 2004). ou cada população de células. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col. Essas células. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente. PoS envia uma projeção ao LMN.. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. Cada região. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo. na qual sua atividade é máxima. por sua vez. 159 . mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente.. denominadas grid cells. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. O LDN também se conecta com o PoS. 1994). enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. McNaughton e col. Como a direção preferida de ativação não se altera.. o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. em um arranjo de 360º. seguindo um padrão triangular. 1995). 6). a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. dessa forma. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube. que. esquematizadas em um anel de ativações.

cores quentes representando maior taxa de disparos. Pág. Na ausência de movimento. de acordo com sua posição preferencial de disparo. a. Adaptado de McNaughton e col. (2006). Head direction cells arranjadas em círculo. Cada célula se conecta com as adjacentes.Modelo de integração de rotas. Adaptado de McNaughton e col. 2006. A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). Figura 7 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas. 160 Julho/2010 . as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. b. para fins didáticos.

161 . certamente essencial para os processos evolutivos dos animais. que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo.. de melhores épocas do ano para migração. ou quase impossível. ou a memória. encontro de parceiros sexuais. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. 7). A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. por ser menos específico do que o sistema de place cells. acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. junto com o sistema de head direction. essencial para vários processos como busca de alimento. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning). Da mesma forma. Julho/2010 Pág. Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. é muito difícil. etc. No entanto. Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. 1997) (Fig.Neurociências O sistema de grid cells. A codificação de informações a respeito de lugares. Dessa forma. dissociar navegação espacial de memória episódica. localização dos melhores abrigos. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade. 2006) (Fig. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. entre outras questões adaptativas. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. 8). o conhecimento. é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados.

Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal. Adaptado de Einevoll (2006). Pág. Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo. enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. 162 Julho/2010 . Cores quentes indicam altas taxas. Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo.

Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. o estudo das emoções. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. o estudo da mente e. Ou seja. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica. em geral. essas sensações são as emoções. então. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo. etc. em um artigo intitulado O que é a Emoção?. Caroll Izard. se a teoria de James estivesse correta. 163 . Por exemplo. Portanto. começou a ser considerado como nãocientífico. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. por conseguinte. raiva. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas. Jaak Panksepp. retomados. Ademais. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas. segundo James. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem. em geral. A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. a ciência da cognição. i. Julho/2010 Pág. então. Paul Ekman. Para James. aumento da sudorese. Com o surgimento do pensamento behaviorista. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. contração de diferentes músculos. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. alegria. De forma geral.. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. Por exemplo. por volta de 1910. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. Por volta de 1950. vergonha. Pesquisadores como Magda Arnold. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga. De fato.com O que é emoção? Medo. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. as emoções não ocorreriam. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos.e.

nos referimos a este estímulo como recompensa. Edmund Rolls. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. Por exemplo. de uma forma geral.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. ainda não tem uma resposta consensual.e. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. Por exemplo. que apesar de ser um estado emocional negativo. Antonio Damasio. e por outro lado. As emoções. Essa sensação é avaliada pelo organismo. reações Pág. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. 164 Julho/2010 .. mas a questão central levantada por James. i. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido. emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo.. por outro lado. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. trabalha para reduzir. Para ele. a qual resulta numa sensação. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo. e não de esquiva. i. contribuindo para a tomada de uma decisão. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre. Apesar das diferenças entre elas. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos.e. Quando. Richard Davidson. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. O que é a Emoção?. nos referimos a este estímulo como punição. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições. Segundo essa concepção. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. está associada com uma resposta de aproximação.

Darwin observou. e engajar em comportamentos sociais adequados. ereção dos pêlos. que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. por exemplo. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo. por exemplo. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. encontrar alimento e parceiros sexuais. como cegos de nascença e bebês muito novos. 165 . Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. cheiros. exibem normalmente expressões emocionais. como mostra a Fig. Além disso. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual. também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo.e. i. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. como o comportamento de morder quando se está com raiva. não são aprendidas pelo indivíduo.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo. 1. o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas.. batimento das asas. entre muitos outros. um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. Julho/2010 Pág. particularmente as expressões corporais e faciais. a emissão de sons. apresentar cuidado parental. Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies. indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. 1995). Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais. Estudos mais recentes mostraram. Assim.

os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. Isto é. o que tem alto Pág. mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. (A) gato assustado com um cachorro. Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais. e das penas na galinha. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente. Modificado a partir de Darwin (1872). (B) galinha afastando um cão de sua ninhada.g. Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos. 166 Julho/2010 . Entretanto. E nesse contexto. De fato. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. e de se recordar do conteúdo aprendido. Gene Sackett (1966). incluindo as sociais. Note a ereção dos pêlos no gato e no cão. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1. ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. expressão ameaçadora.

colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. em seguida. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. também denominado condicionamento clássico. elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. que não eliciava a resposta de salivação nos cães. 167 .Neurociências valor adaptativo. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. O bebê passou a sentir medo pelo rato. Pavlov. algo que não sentia antes. e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. à apresentação de carne. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som. e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. como no caso do experimento idealizado por Watson. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. não apresentando medo pelo animal. e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. então. Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. 2). Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). Julho/2010 Pág. O condicionamento Pavloviano. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada. quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). Watson. Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. como no caso do experimento de Pavlov.

e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão. respostas neuroendócrinas (e. geralmente um choque nas patas do animal. respostas autonômicas (e. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. Por exemplo. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro. e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado). quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência. toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores.g.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2.. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante. liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). como comportamentos defensivos (e.g. respostas de congelamento). Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007). O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo. o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais. Diferentemente.. por exemplo um estímulo sonoro. chamamos este comportamento de operante. Nesta situação. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). Em geral. neste caso. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. é pareado algumas vezes a um evento aversivo. 168 Julho/2010 .. A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas. Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo.g. Procedimento de condicionamento Pavloviano. o choro do bebê Albert perante ao rato albino.g.. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. entre outras. o animal emite uma Pág.

a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. A estímulos desta natureza nos referimos como punições. recebe um choque nas patas. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. Em algumas regiões do encéfalo. i. como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. Por exemplo. do inglês. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. de cenas alegres ou neutras. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional. No entanto. e é amplamente empregado no estudo das emoções. de sexo. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. Nesta situação comportamental. Até mesmo alterações de humor. entre outras.e. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. que evocam diferentes respostas emocionais. Neste caso. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. toda vez que o rato toca o assoalho. 169 . por exemplo.. Neste caso. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso.

o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. Lobo límbico definido por Broca. 170 Julho/2010 . Figura 4. 5). (1995). e a expressão emocional pelo hipotálamo. em 1937. Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. Figura 3. de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam. 3.International Affective Picture System). o tálamo anterior. Pág. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. Mais tarde. 4. a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. Modificado a partir de Bear et al. Para Papez. o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos. como mostra a Fig. incluindo o córtex cingulado. o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. Bases Neurais Em 1878. (2002). Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. Modificado a partir de Lang et al. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS .

o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. que denominou “sistema límbico”. Por outro lado. Ademais. Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais. Circuito proposto por Papez. a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). como a amígdala e o hipotálamo. as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. por exemplo. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala. como por exemplo. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca.Neurociências Figura 5. denominado síndrome de Klüver-Bucy. parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional. 171 . Historicamente. cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. os animais podiam ver perfeitamente. Modificado a partir de Bear et al. Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. Diferentemente. Isto é. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência. Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. principalmente os visuais. o hipocampo. No início da década de 1950. (2002). os macacos lesados Julho/2010 Pág.

tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. e nesse sentido. do ponto de vista hodológico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. perda de responsividade emocional. 1992).g. e não de outros tipos. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo. Por exemplo. outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. De fato.. diferente de indivíduos normais. O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). Mais tarde. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. e perdiam o medo por cobras e pessoas. De fato. essas informações podem modificar respostas autonômicas. ele dirá 2 ou 3. Baseado nessas e em outras observações. onde um estímulo (e. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências. um choque). Em seres humanos. 172 Julho/2010 . Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). danos amigdalares em seres humanos Pág. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls. Depois de processadas e associadas na amígdala. que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. Mais tarde. endócrinas. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. exame excessivo de objetos.g. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão.

aos 25 anos. Em seres humanos. 173 . Em setembro de 1848. em geral. que sempre abandonava. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. impaciente e grosseiro. tais como perda de inteligência. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. irresponsabilidade e perda de afeto. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. deficiências motoras ou de percepção. fruto de uma forte crise epiléptica. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. incluindo seres humanos. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. 6. como mostra a Fig. um trágico acidente acometeu Gage. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. No entanto. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo. e pouco desenvolvido em outros animais. logo se perdia em outros planejamentos. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. o que não ocorre em animais não-humanos. tais como os roedores. Depois. Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência. e muitos anos mais tarde. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. Macacos com danos na amígdala. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. tornou-se irresponsável. Phineas Gage.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. Por exemplo. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. que se deu 13 anos mais tarde. por exemplo. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las.

o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. De maneira similar.. passa a resultar em nenhuma recompensa. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. por sua vez. Nesta tarefa.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág. que param de responder. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas. diferentemente de animais normais. que inicialmente era recompensada. o reforçamento é revertido. essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. Em seguida. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. (2006). Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al. O núcleo accumbens. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. 2007). a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada. Figura 6. diferentemente de animais normais. Modificado a partir de Gazzaniga et al. 174 Julho/2010 . Por exemplo. nas quais a escolha de um objeto. ou seja. De fato.

o córtex cingulado. de beber. i.e. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários. entre outros. quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. Danos no hipotálamo lateral. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. função primordial das emoções. O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. como por exemplo o comportamento de se alimentar. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. do comportamento defensivo. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. Por outro lado. Finalmente. além do comportamento maternal. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. do ataque predatório. e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. eliminam comportamentos motivados. Por exemplo. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte. a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente. que por razões ainda não claras. Por exemplo. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo. mas não para o valor hedônico das recompensas. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. ou seja. E consistentemente. e o comportamento sexual. estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais.. 175 . por sua vez. a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais. 1998). De fato. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. heroína e cocaína. por exemplo. Isso é diferente de valor hedônico.

a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. um ideograma chinês.P. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. De fato. a paciente S. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. a paciente S. a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. ou seja. indicando o aprendizado do condicionamento aversivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. Apesar disso. indicando reação aversiva ao choque. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). pacientes com lesão hipocampal. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). Entretanto. quando testados na mesma tarefa. demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente. uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. como por exemplo. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. Como foi discutido em capítulo anterior. Num teste chamado impressão emocional subliminar. 176 Julho/2010 . seguida de um estímulo-alvo. sem conhecimento consciente. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes. o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. e não às furiosas. a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. Em um experimento clássico. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas. Por exemplo..R. com dano bilateral na amígdala. e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos. Interessantemente. e consistentemente.

o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. seguido pela consolidação dessa memória. De fato. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. 177 . que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. etc. Por exemplo. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. e não só por meio de um procedimento implícito. ou seja. a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. Numa perspectiva evolutiva. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. Julho/2010 Pág. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. como o falecimento de um ente querido. como o condicionamento aversivo.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. o primeiro namorado. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. Além disso. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo. mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras.

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Antes objeto de estudo apenas de linguistas. em questão de 1 ou 2 anos. ou no som das sílabas que ouvimos. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente. De certo. Anteriormente a este período. por exemplo. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente. tais como fMRI.Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral. na esperança de recobrar-lhe a fala. MEG. Julho/2010 Pág. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. Retrocedendo mais ainda no tempo. ouvimos. apresentasse dificuldades na dicção. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. ou na produção de mesma. É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. PET e ERP. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. como as aves. a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal. algumas espécies de animais se comunicam. falamos. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana.com. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua. Neste capítulo. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC).br Introdução Dentro das ciências cognitivas. as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos. sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos. cães. sua lateralização e modularidade cerebral. 179 . XX) em estudos neurocientíficos. Bebês nascem e. ao encontrar um indivíduo que. lobos e primatas. Assim. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. Atualmente.

e a outra indicando o cisne. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. contam-se 10.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. no planeta. 180 Julho/2010 . e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. simplesmente. Pois bem. e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças. São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. Além disso. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. Em um deles. Por fim. aos 4 anos de idade. de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções). casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente.000 palavras.5 anos. especialmente com chipanzés. tudo isso sem a necessidade de intrução formal. vários experimentos têm sido realizados. Além disso. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana.  conteúdo: não só as palavras.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. Assim. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. comparando-se com crianças de nossa espécie. optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL). não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se. Surgem também algumas questões. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. mas também gestos. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso. De modo muito diferente. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras.

também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro. que serão ilustradas na Fig. Tabela 1 . são orquestrados pelos 1. um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem. 1 e Tab.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. intermediados pelos sistemas visual e motor. O hemisfério Julho/2010 Pág. então. vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. a produção da fala. envolvendo a articulação dos lábios e língua. De fato. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica.Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. 181 . e até mesmo nossa linguagem corporal. a leitura e a escrita. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo. 1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano.

Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. verbos sem flexão. amarelo. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral. Vermelho indica os maiores níveis. As mais conhecidas são as afasias de Broca. e troca de letras durante a escrita. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem. letras e palavras curtas. A afasia de Wernicke não prejudica a produção. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. Devido a esta dificuldade de compreensão. por favor dirijam-se à sala de jantar”. de Wernicke e de Condução. seria produzido por um destes pacientes como “senhora. levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. “Senhoras e senhores. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior). leitura de números. senhor. e conferir entonação. São diversas as disfunções decorrentes de AVC.e. ritmo e prosódia à lingua falada. sala”). Retirado de Posner e Raichie. Pág. é rompido. 1994. tais como compreensão de respostas não-verbais. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). Portanto. 182 Julho/2010 . alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). sua fala fica afetada por uma fluência em excesso.. que interliga as regiões de Broca e Wernicke. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. mas sim a compreensão da fala e da escrita. verde e azul. A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos.Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda.

apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi. há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso. Há. (2001). Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. ainda. apontando apenas para um componente genético. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. entre outras. portanto. parece pertencer ao acervo biológico do homem.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito. ainda. visão. olfato). 183 . Existe.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras. A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. em nossa espécie. E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. quando comparados à população normal. uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos. A dislexia. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. motricidade. e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. destacando-se entre estes Kuhl (2000). herdado geneticamente de nossos ancestrais. mas também para diferentes características linguísticas. por exemplo. a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. devido à modularidade cerebral . 2005).

2004). e o da direita. Retirado de Kim . Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. ao passo que. Ainda assim. De fato. Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. 2000). curiosamente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. a aquisição de outro idioma. nascemos prontos para aprender qualquer idioma. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. após o qual ela deixa de existir. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . hormonais e de plasticidade neural. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas.períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. (Mechelli. 184 Julho/2010 . em dois indivíduos adultos. bebês aos dois meses de idade não o fazem mais. Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália. tomado de um ponto de vista neurobiológico. diferentes entre Pág. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios. de aprendizado simultâneo de duas línguas. 1997.

não faz distinção entre japonês e inglês. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. perceber auditivamente e. Ontogenia. Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. para os povos de língua espanhola. Nosso cérebro. passando pelo seu processamento. representação mental. em português. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. primeiro. ou quaisquer outras línguas entre si.Neurociências elas. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. Julho/2010 Pág. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. 185 . português e alemão. Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. distúrbios. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. e chegando até o fenômeno do bilinguismo. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed. 2004. em inglês. prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. Retirado de Kuhl. anomalias. ou como nas palavras avô e avó. de 0 a 12 meses de idade. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. 4). nos primeiros anos da infância. depois. codificação gênica. e por consequência. para os brasileiros.

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2003. que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. língua ou idade. É o seu timbre. 2003). formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. um mais grave e outro mais agudo. há algumas particularidades nos sistemas de afinação. isto é. Elas estão baseadas em uma tonalidade. classe social. 2007). por mais de uma freqüência). 2001). É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. que é um atributo físico (Bendor e Wang. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. 2001. Apesar das diferenças interculturais. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical). assim como notas musicais. uma característica sempre presente. independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre. essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág. Portanto. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. isto é. não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. irrestrito a gênero. Gray e col.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. 1998).. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica.fv@gmail. ao longo do espectro de audição. A composição de várias ondas produz um som muito específico. são complexos. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. 2006). senão todos. Tramo.Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. por mais que escutemos sons distintos. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural. o que se contrapõe à freqüência. a qual é um atributo perceptual do som. 187 . Ainda assim. É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres.

Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. Gray e col. em última instância.760. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno. para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido. mas também para seus múltiplos. Masataka. provavelmente. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre. que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. 220. 1. Enfim. também em outros organismos). 2001. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais. Hauser e McDermott. Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. 880. estudando o córtex de sagüis. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. 2001. 188 Julho/2010 . quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles.. Benítez-Bribiesca. Pág. quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes. Tramo. 2003.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. 3. 2006). Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. conceito. 2007.520 Hz e etc. no entanto. 2001. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. dispara também para sons com fundamental em 110. não justificam por si só a existência de música globalmente. 2007. Bendor e Wang (2005).

se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. Pinker compara a audição à visão. A música. o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são.pág. a música poderia ser até anterior à fala. 1879. traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. relacionando música e linguagem. paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. Pinker. 535. “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. 1998 . uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. Darwin.. para tentar responder à questão. uma mesma fonte sonora. regulares. Isto é. gritar) tem um apelo acústico próprio. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. que as associa. uma voz em um ambiente cheio de ruídos. Achados mais recentes. separar um solista de uma orquestra. O sistema nervoso. então. 1874. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. rir. serão apresentados mais adiante neste texto. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar. segundo tal proposta de Darwin. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. logo. resmungar. percebendo-as como um tom complexo. então.Neurociências Wright e col. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. 534). dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. em particular. mas como tons complexos. uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. Clark. 1998. Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. por exemplo. baseada em seis pontos principais. chorar. 2000. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música. 189 . para citar alguns) e não há consenso nas respostas. em verdade. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. da prosódia. Nesse sentido. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. por exemplo). O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. É interessante notar que.

paisagens verdejantes. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. A música também interferiria com tais circuitos neurais. 190 Julho/2010 . nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe.pág. bater palmas. o qual não variou em latência. de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. Tal ritmicidade que nos faz dançar. rosnados. O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. passos. certamente estimula nosso sistema motor. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro. Koelsch e col. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . distribuição no escalpo. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). corações e galhos batendo. insegurança ou mudança de habitat. água correndo. ventos. e acompanhar a música. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. 537. como vistas distantes. pássaros cantando. independente deste ser uma frase ou um trecho musical. insegurança ou mudança de habitat. Trovões. fontes neurais e amplitude. possivelmente. balançar. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. todos têm efeitos emocionais.

deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. Isto é.. Fica claro. 2000). os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. sua criação e percepção. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. sejam eles abstratos ou concretos. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. como a linguagem. As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. Essa percepção. 2005). essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana. 2003b). que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. mas permitem. (Pinker. produzi-la. 191 . mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). no entanto. também contextos). a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. assim como a linguagem. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos. são Julho/2010 Pág. em última instância. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. possivelmente. portanto. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. provavelmente. além da própria comunicação entre indivíduos. até mesmo.Neurociências prévio. Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. A capacidade para interpretar música. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. não só em humanos (Wright e col. em outras palavras. Diante dos resultados. independente do conteúdo emocional desses conceitos”. 1998). O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais. Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais.

portanto. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné. Da mesma forma. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne. A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. relações tonais.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. a Cacatua-Negra. Ainda. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros. de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. Mas voltando aos mamíferos. mas não em tons diferentes. Mais do que isso: . como inversões de intervalo. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem. Desde o século retrasado (Clark.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. as baleias optam por produzir sons rítmicos. O experimento de Wright e colegas. 192 Julho/2010 .O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). (2000). o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. permutações e combinações de notas que os compositores humanos”. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. assim como nós. seja da espécie Probosciger aterrimus. 2003). O caso mais atípico e impressionante. É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. Segundo os autores. são freqüentes composições que exploram um tema. Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. trabalhando com macacosrhesus. Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott. As razões são óbvias. Wright e col. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. então. Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. já descrito. talvez. . mas não para melodias atonais. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. porém. expostos a música e melodias diversas. partem para uma seção mais elaborada e. relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. 1879) tal grupo é investigado. depois.

É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág. ao invés de sermos os inventores dela. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas. 193 .edu/~suits/overtone. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. sugere que a música deve ‘predar’ os humanos.Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. . e em grande parte do mundo. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano.phy. são derivadas da Série Harmônica (ver http://www. Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais. .. 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical.html para maiores detalhes). Nas palavras de Gray e col. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa.Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância. . enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller.mtu. as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição).Neurociências de músicas produzidas pelo homem. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas. expressões faciais fechadas e até choro.” – pág. 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum.Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas. as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental. é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. De fato. 1998). Ainda. Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras. relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos.

). p. Apesar de tantas evidências. pp. como apontado por Darwin. Pág. (1941) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. B 356: 1545-1563. Na espécie humana. Phil. claro – improvável quando se compara com outros grupos). a música adquire outros significados muito mais fortes como promover a coesão de grupo e a interação social (podendo até possuir a mesma capacidade de abstração e atribuição de significados que a linguagem. ed. Dev. como apontado por Pinker (1998). J. M. 194 Julho/2010 .197228. tal uso não invalida que elas sejam capazes de produzir sons musicais e que a estrutura das “músicas” produzidas seja semelhante à humana. III. As críticas são freqüentemente embasadas no fato dos cantos serem essencialmente produzidos por machos.13. M. v. seguramente os motivos pelos quais ela permanece são outros (a não ser que ela já tenha se originado por esses outros motivos. D. Revista de Entomologia.137-148. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. Evolução do sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo.-Hymenoptera-Formicidae). 2004). mas uma propriedade específica do sistema nervoso central. D. p. a falta de consenso entre pesquisadores sobre a musicalidade em outras espécies animais permanece. Autuori. Autuori. Bibliografia Arendt. Lond. Wittbrodt. a organização musical semelhante entre diferentes espécies nos mostra que ela não é um acidente. (2003) Evolution of eyes and photoreceptor cell types Int. J. Arendt. M.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reconhecimento de sons musicais mesmo em espécies que não o homem. (1940) Algumas observações sobre formigas cultivadoras de fungo (Hym. Independente dos motivos pelos quais a música se originou no homem. 1974.11. I. (1942) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. Se há algo de exclusivo entre homem e música. como parte do ritual de acasalamento.47-89. v. Mais provável ainda que sua existência se apóie em diversos fatores e não apenas em um deles. 1908).. isso parece ser a produção e a apreciação da mesma por puro prazer. como apontado por Koelsch e col. Reconstructing the eyes of Urbilateria. 47: 563-571 Autuori. 1908). New York: Academic Press. Muito pelo contrário. que caminha em estreitas relações com a comunicação intra-específica e a seleção sexual.Trans. Biol. uma propriedade emergente da interação de diversos sistemas.. v. (2001). Ainda assim. Working memory. Roy. Soc. Baddeley AD. Bower GA. In The Psychology of Learning and Motivation. Formicidae). vol. Escavação de um sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel.12. 8. Hitch G. É possível que a origem da musicalidade de humanos resida nestes mesmos mecanismos (de seleção sexual).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 202 Julho/2010 .

conseqüentemente. comunidades e ecossistemas. 6) interação entre metabolismo energético e reprodução. Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético. 3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. . podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental. Sendo assim. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. fisiológica e bioquímica. a viabilidade das populações. com especial atenção à técnica de respirometria.com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental.

269 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. 205 pág. Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. 286 pág. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. Silvia C. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. Carlos Arturo Navas pág. Silvia C. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. 257 Pág. 204 Julho/2010 . 279 pág. 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. “Ana” o quê? pág. 217 pág.

a soma do anabolismo e catabolismo. Tais vias biossintetizadoras. são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material. 2) Cálculo através da produção de calor do organismo. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores. em princípio. Julho/2010 Pág. na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox. a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação.Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail. extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. que invariavelmente requerem a adição de energia. 205 . portanto. 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina).com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. juntas essas reações degradativas. incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos. 2005). Dentre essas reações. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. 1). é o método mais preciso. desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações. são designadas como catabolismo (Fig. Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). Segundo Schmidt-Nielsen (2002). produtoras de energia livre. 2005). 2000). Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e. 1) (Nelson e Cox. Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo..

Pág. e o trabalho externo para a locomoção e comunicação. Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho. Para conhecer a taxa metabólica de um organismo..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. o trabalho interno químico. elétrico e mecânico. Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. 206 Julho/2010 . A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. 2005). 2002). é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). osmótico. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. 2000). 2) (Randall e col. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. Desta forma. sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig. a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos.

sistema nervoso. que é similar a TMB. 0. pulmão. mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero. 207 . e a Julho/2010 Pág. o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos). Em humanos. 2. o relativo tamanho do fígado. respectivamente. o animal deve estar em repouso. por exemplo. coração e músculos são 2. não deve haver condições estressantes.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. rim. trato gastrointestinal. 0.volume de oxigênio por Kg por minuto).9.5. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . 2002). 1997). 0. 2000). É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown. A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie. 2. É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. Em mamíferos. e 42%..4.

Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. devido a isso. representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. 20.   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. em virtude da compensação metabólica ou Energia. 208 Julho/2010 . a TMB pode variar devido a diferentes fatores. 1998). na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que. 11 e 25% respectivamente. 1998). é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal.. 4. 1998). através do ATP (Ferrano e Soares. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. entre eles a temperatura. a movimentação dos seus átomos é elevada. Por essa razão. Sendo assim. Como foi dito acima. Por isso. 2000). Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura. 10. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras.. é possível utilizar a temperatura corporal. Existem outras formas de energia como a química provinda. a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas. Para alguns ectotérmicos. 2000). quando há um aumento da energia em uma molécula. como a energia associada ao movimento (energia cinética). Entretanto. Pág. mais especificamente sua estabilidade. da aclimatação térmica (Randall e col. por exemplo. nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. 6. 1998). tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. a taxa metabólica padrão (TMP). 2002). é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal.

. foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus.. seja no ar ou na água. Os Julho/2010 Pág. que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. deveriam ser denominados homeotérmicos. portanto. Estes animais podem ser divididos em dois grupos. répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e. Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. 2000). 2000). A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. Peixes que vivem em águas profundas. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos. os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados. Ao contrário disso. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita.. 2000). endotérmicos. embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos.. são denominados homeotérmicos. apresentam uma temperatura corporal constante e. e os que não geram calor. já que. 2000). Frequentemente. Previamente os peixes. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. anfíbios. aves e mamíferos homeotérmicos. com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. Porém. 209 . os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira. quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. ectotérmicos (Randall e col. sendo separados em: os que geram calor metabólico. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. Contudo. Na maioria dos mamíferos. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C. ectotérmicos e endotérmicos. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002).Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório.

não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col.. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. 1965). Como mencionado anteriormente. como alguns tubarões. Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov. 2005). mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. por meio da atividade muscular. Além disso. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev. Skulache. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. Fisiológica e bioquimicamente. 210 Julho/2010 . e col. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. salmão e muitos insetos voadores. UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP). Os monotremados. 2002). Entretanto.. Além disso. Demonstrou-se Pág. foi descoberto outra proteína. 2002). Contudo. que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. 2002). Este tecido é estritamente de mamíferos.. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética. denominada avUCP.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo. como os équidnas. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria.. que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. 1963). que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. 1960. hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. 2000). aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos.

2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. 2001). respectivamente. respectivamente. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. 2002). que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. quadruplicaria em 20°C. e a UCP1. 211 . t1 e t2 . a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero.. 9. 3).Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. posteriormente. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. como no metabolismo. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen. são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente. com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C. Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. dentre um determinado limite. aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. 2002). Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos. Como pode ser observado abaixo (Fig. Julho/2010 Pág. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos.

é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. 2002). Para temperaturas que apresentam efeitos letais. Para muitos processos. como as taxas de respiração e metabólica. Com isso. os valores de Q10 são próximos a 2. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra. 4). quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. No entanto. e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. 2002). Porém. 212 Julho/2010 . 2002). a fração de um número grande de partículas. isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades. Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. por exemplo. o Q10 apresenta valores menores que 1.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética. assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero.

2002). com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero.Metablismo população. mas também. Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero. 2002). 213 . que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional. 2002). 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. Dito isto. abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto. Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise.

Figura 5 . 214 Julho/2010 . 2002).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. 2002) (Fig. Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). Pág. mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero. 5).Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero. 2002).

a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto). 215 . 2002). Desta forma. Julho/2010 Pág. já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos. nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. principalmente o metabolismo. que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero. Com base nisso.Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais. Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos. e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 216 Julho/2010 .

fogo e ar. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. A partir daí. ou de encontrar o elixir da longevidade. O problema não era. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. o ar e a vida. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. apresenta três relações chave entre: ar e vida. Contudo. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág. A seqüência de eventos históricos. Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar. apresentado no capítulo anterior.Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th. Longe disso. Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida.kawamoto@gmail. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo.B. simplificada para fins didáticos. Lighton (2008). Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. ao término da chama. mas sim. os alquimistas perceberam que. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida. a princípio. as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. no entanto. 217 . nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). entender o que é o ar e como ele suporta a vida. pré-método científico.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral. Leonardo da Vinci (1452–1519). a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. a medida de metabolismo energético em si. e fogo e vida.

sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. não havia chama para saturar o ar de flogisto. teoricamente repleto de flogisto. Neste contexto. primeiro.org/wiki/File:Mayow). já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e. o ar não podia estar saturado de flogisto. a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões. contrário do que seria esperado pela teoria. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. na mesma jarra. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível. Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. mas sim ganha peso. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. voltava à sua forma metálica anterior a calcinação. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria. Pág. Incrivelmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. instantes depois o camundongo morria. O calx quando combinado com carvão. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. Este era o caso da queima de metais. e observou que quando a vela apagava. no caso dos animais. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804).wikipedia.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. o metal supostamente “deflogisticado”. John Mayow morre. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal. a qual chamou de “nitro-aereus”. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração. eles morrem. Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. reforçando a teoria do flogisto. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en. 218 Julho/2010 . pássaros e camundongos diminui até certo nível. O mesmo acontecia com a vela. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society.

ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. Percebeu. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. Entretanto. 219 . este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. ainda. Além disso. o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo. Deste modo. a coulorimetria e a respirometria aberta. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. Priestley produziu. por mais contraditório que pareça. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. ainda. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica.Metablismo extingue o fogo. manômetros e respirometria fechada. Prietley pensou ter descoberto o flogisto. em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. Havia. como dito no início deste texto. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. Incrivelmente. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. 2). A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio. a partir de então. O desenvolvimento dos paradigmas. indiretamente. De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. a ciência percorre caminhos tortuosos e. medem. que o gás que não sustenta mais a chama. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje.

Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier. calcularam pela primeira vez. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa. Figura 2 . 1 Pág. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia. Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo. através da quantidade de água produzida por esse derretimento.jpg.wikipedia. somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0. aproximadamente o mesmo que uma vela queimando.) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado. um de descobriram a termogênese induzida por dieta. a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso). momento em que ambos são decapitados.org/wiki/File:Icecalorimeter. 220 Julho/2010 . baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo). Contudo.334kJ/g. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas. sem mudança de temperatura. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica.

já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661. The Skeptical Chymist. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado. Po é a pressão de referência. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria. Seu predecessor.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. cerca de 20 anos antes. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. Robert Boyle. 3). Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. permitindo uma nova série de medidas comparativas. a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643. conforme a fórmula: Pa – Po = H. 4). já que no tubo em U (Fig. Julho/2010 Pág.g. Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. sensibilidade. Em 1643. cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida. Em 1661. Mais especificamente. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. Assim. 221 .Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U.

5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico. o mesmo volume de ar durante todo o experimento. por exemplo. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada. Figura 4. Figura 5 . no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa.Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. de preferência. com um absorvedor de gás carbônico colocado. Ao final do experimento. e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. 222 Julho/2010 . Pág. mantendo. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento.) ou KOH. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. assim. já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio.

O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica. Julho/2010 Pág. chuva). e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902. 223 . É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH. descrito mais adiante. Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273. podendo incutir erro na medição. diferente do respirômetro de Gilson. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido. 500mL de água). Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p. Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro.e. o que pode alterar a medição também. 6). 5g de tauroglicocolato de sódio. T é a temperatura em graus Celsius.

Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2. A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. 4. Pág. O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo. 7). Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg.Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica. Coloque o animal na câmara. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. 3. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . 2. Os passos a serem seguidos são: 1. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. (Fig. 224 Julho/2010 .

225 . Por exemplo. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. o sistema não Julho/2010 Pág. o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio.325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin. Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia. Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. ou seja. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0.04464.43. usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2. Figura 7 .15 ) / ( 101.

MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. 226 Julho/2010 . de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). perda de água. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. A respirometria fechada não permite. Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório. Este é o caso de animais que produzem calor. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia). produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. Outra limitação quanto ao seu uso. como os artrópodes traqueados. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. O aumento de gás carbônico. MR é o metabolismo medido com o absorvedor. alterando o metabolismo de forma consistente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. que se estendam por dias. também. Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). Dentre as alterações listadas anteriormente. ou que respiram de forma intermitente. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. medições muito longas. alimentação. Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. por exemplo. Contudo. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. Pág.

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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(B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia. que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais.3). o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente. Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. 1992). embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers. (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG). isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos. 1992). 238 Julho/2010 . Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia. Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais.As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes. 1997). desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig. Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento).2) (Withers. Figura 2. Pág.

239 . Figura 4. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig.4) (Withers. 1975.Metablismo Figura 3. pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. 1992). Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas. modificado de Withers.Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. Por exemplo.Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May. Julho/2010 Pág. 1992). variando de poucos graus até acima de 400C. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. 1992). Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação. Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores.1976 – Modificado de Withers. com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente.

Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas. Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. mas alguns ocasionalmente têm Pág. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. 1992). Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência. ele é termoconformador em áreas sombreadas. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. Assim. 240 Julho/2010 . muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. Atraídas pela cantoria. isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. 2010). Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. 1992). Entretanto. alterações do contorno do corpo. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal. o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol. quando a chuva chega. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. por exemplo. Em um ou no máximo dois meses. mas é termorregulador em áreas abertas. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. em rochas aquecidas. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas.

pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar.60C a -0. 1992). Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. todavia. desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. permanecem superresfriados.86°C. desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente.9° C for colocada próxima ao peixe. 1992). tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento. que seria de aproximadamente -1. Desta forma. Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento. Ectotérmicos terrestres. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers. ao contrário. Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C. portanto. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers. o estado de super-resfriamento é destruído. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C). 241 . Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C.7 0C. pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. Por exemplo. 1992). e o peixe congela e morre. se um pedaço de água congelada a −1.Metablismo contato com temperaturas congelantes.

1971). se nucleados. Répteis e anfíbios. Hyla versicolor. o glicerol encontra-se ausente. por exemplo. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal. 1996). Outras rãs tolerantes Pág. Trematomus (DeVries. o seu desenvolvimento. Durante uma noite ocasionalmente fria. o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. há toda uma preparação para o inverno. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico. ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. 1996). Rana pipiens. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo.possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento.. em rãs que não toleram o congelamento. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . sem que congelassem (Lowe e col. Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. tais como a rã leopardo comum. Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno. 242 Julho/2010 . por outro lado. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno.6°C foram super-resfriados até -8°C. começariam a congelar a -0. cujos fluidos corpóreos. além disso. portanto. Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. (Schmidt-Nielsen e Duke. 1982). mas. pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries. A rã. Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. 1970). apresenta um congelamento parcial e controlado.

Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar.Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação. 1996): . pois o tempo de exposição é de grande importância. a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. 1992). A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo. por conseguinte. mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock. ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas. Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo. 243 . . isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. 1996). não está disponível para os animais aquáticos. Por conseguinte.Suprimento inadequado de oxigênio. como a rã madeira. .Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes. Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal). 1985). mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke. . deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas.Metablismo ao congelamento. Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. na qual ocorrem 50% de mortalidade. não pode ser determinada com exatidão. A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey. A temperatura letal. Rana sylvatica.Desnaturação das proteínas. coagulação térmica.

A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. 1992).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea.7ºC. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele. Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental. conseqüentemente. achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos. a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. através do ofego. Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. (5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. o que faz com que tenham menor necessidade energética. 244 Julho/2010 . Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. 1992). enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág. Por exemplo. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers. Por exemplo. (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. 1992). (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta.9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2. (3) O corpo possui um formato (alongado.

. a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987)... pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar. 2002). De acordo com Shine e col. Huey e col. 1984. 1983). Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew. Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos. 1984) e serpentes (Herckrotte. Schieffelin e Queiroz. 1991) e serpentes (Herckrotte. Crowley e Pietruszka. 2001). 245 . 1964.Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. 1982. anfíbios anuros (Gomes e col. Julho/2010 Pág. 2002). quando apresentam baixas temperaturas corpóreas. salamandras (Brodie Jr. a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo.. 1994. Mudanças no comportamento defensivo.. Keogh e DeSerto. 1983.. Entre os fatores abióticos. Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais. Crowley e Pietruszka. Oliveira e Martins. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. (2000). 1982. têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand. Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col. induzidas pela temperatura. repelir ou escapar do predador. 1982). 1983). com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. Mori e Burghardt. 1982). a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas. Hertz e col. 1991. ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. e col.. 1967. Hertz e col. Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. Arnold e Bennett.1967. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 246 Julho/2010 .

1998. derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos. de Fisiologia. podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab.. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase.. morcegos. 2005).. Este último. é de especial importância para os animais de pequeno tamanho.. enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal. como não há trabalho mecânico. 2005). répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col..com Conforme visto no capítulo anterior. Nas mitocôndrias das células em geral. Como já mencionado no capítulo 1. o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias. por sua vez. Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col. Entretanto. Branco e col. 2005). resultando na formação de ATP. 247 . a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial. Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos. ratos. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. Os mecanismos de ganho. também chamada Julho/2010 Pág. 2007). uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor.Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia.. Como já discutido anteriormente.. Neste tecido os ácidos graxos. geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes. A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção. a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col. Assim.. a UCP1. 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. 2007). os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col. anfíbios.). A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”. localizado próximo às escápulas e aos rins. O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo..

sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos.. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. principalmente autonômicos. 2007). denominada área pré- Pág. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente. logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase.Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. Por fim. gatos. ovelhas e aves). os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica. como visto também para ectotérmicos. A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP. equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães. A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall. 1997). 2004). 248 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig.. Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. Figura 1. 1).

Ainda. Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie. isto é. o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal. estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc.harvard. Para a manutenção da eutermia. quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local. além de termointegradora.jpg). 1998. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais). a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. Boulant.edu/_i/198. A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. 249 .Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. 2001).med. 2007).Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO). Bícego e col.. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura.. segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006). hipertermia. (http://healthysleep. diz-se que ele está em eutermia. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal. hipotermia. 1992. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. Figura 2. Por outro lado. febre e anapirexia (Gordon. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia. já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais.

geralmente. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. 2005). a ZTN para humanos adultos nus. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. 1998). Por exemplo. vômito e diarréia (Branco e col. TCI. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. · Na hipertermia moderada. Tc: temperatura corporal. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. exaustão. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. Assim. 3). Dessa forma. a energia extra é empregada para manter a eutermia.. a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. na hipertermia severa. respectivamente. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN. Porém. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. temperatura crítica superior. nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações. Entretando. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. resultando nos estados de hiper ou hipotermia. VO2. tontura. hipotermia e hipertermia. consumo de O2. TCS. ou choque térmico. Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local. Figura 3. 250 Julho/2010 . que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. temperatura crítica inferior.Esquema de três estados térmicos: eutermia. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados. dor de cabeça.

2000) e peixes (Reynolds e col. 1991). répteis (Hallman e col. convulsões. é um aumento regulado da Tc. Febre A febre. Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda. a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos. porém devido a falhas no sistema termorregulador. 2002). anfíbios (Kluger. aves (D'Alecy e Kluger. alucinação. diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. decréscimo da frequência respiratória. Na febre. 1977. delírio. 1998). A hipertermia. A resposta febril é uma reação complexa. dentre outros. 2001. Macari e col. Nesse contexto. O aumento na produção de energia térmica. apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. Bicego-Nahas e col. além de Julho/2010 Pág... O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia.Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora. 1991) e. por outro lado. Veremos a seguir quais são essas situações e porque. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa. em decorrência do desenvolvimento da febre. pois podem causar desidratação. Steiner e Branco. podendo levar o indivíduo ao coma. 1990. é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. 1993. 1994). lesões no encéfalo. dentre outros prejuízos. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col.. Don e col. 1976). nestes casos. durante a anapirexia. 2005). pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon. enquanto em um ambiente com Ta alta. como mencionado anteriormente. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC. amnésia. Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos.1975... Maloney e Gray. 251 . mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. idosos e subnutridos..

como já abordado. o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. 1991.. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. Kluger e col. Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais. 1998). Figura 4.. que por ser conservada ao longo de tantos anos. Pág. 1995. 252 Julho/2010 . 4). deve conferir benefícios aos organismos (Kluger.Esquema de um gradiente térmico. quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente. A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e. De fato. Dessa forma. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger. 1991. No caso da febre. uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais. Marnila e col. 1991).. 1998). Kluger e col.

principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger. 1991... 2005). é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica. diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia. 2005). IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG). Anapirexia Anapirexia.b). estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. Matsuda e col. Essa nomenclatura (anapirexia). 253 . peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. Julho/2010 Pág. 1994. lagartos. 1998).. 1997a. IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. Em contrapartida. TNF-α. 1992. 1996). IL-6. Fabricio e col.Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril. Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. Blatteis e Sehic. apesar de bem definida. Por fim.. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos .Metablismo Figura 5. Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos. estes são fagocitados por células do sistema imune. Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores). segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”..inclusive humanos -..

isquemia. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. 2001. para a produção de energia na forma de ATP. 1992)... cirurgias cardíacas e traumas cranianos. a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood. No entanto. consequentemente. 1985. dentre outros (Bao e col. 1981. 2004). Com todos esses benefícios associados à queda da Tc. Durante a anapirexia. De fato. 1997. 1985. contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. Gordon. mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante. envenenamento. um aumento na sobrevida de ratos.. 1996. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. pois diminuem respostas altamente custosas. Gordon..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004). contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. 1997. Wood. o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. 2000. 2001). pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. Malvin e Wood. Gordon e Fogelson. mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. Malvin e Wood. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág. 2002). 1991. anemia. O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e. 2001. 1995. 1997. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. facilitando assim a recuperação do indivíduo. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. altas atitudes. etc) ou por insuficiências cardíacas. como em casos de hemorragia. Kline e col. 1998). Barros e col. seja por exposição ambiental (tocas. Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico.. 1992. 1995. traumatismos cranianos. Hicks e Wood. Holzer e col. Então. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. Sendo assim.. 2001). camundongos. entretanto. Reissmann e col. como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco. 2002). que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. 1995. além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. mesmo que localizado e passageiro. Wood e Stabenau. Gautier. ou anapirexia. respiratórias e/ou metabólicas. Wood. isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. Dessa forma. Steiner e Branco.. acidentes vasculares encefálicos. é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. 254 Julho/2010 .

Como pode ser notado. Em suma. Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica. 2000. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico. assim como acontece na febre. 2009). 2005. Entretanto. levando à queda da Tc... é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores. Gargaglioni e col. respectivamente. E. Paro e col. Julho/2010 Pág.. para serem benéficas.. 2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. 2001). a serotonina. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim. Steiner e col. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. na APO. serotonina. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. Dentre estes estão a dopamina. evidentemente... contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. também na APO. Por outro lado. A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. tais como infecção e hipóxia. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal. 2002b). 2002a. os receptores mi e delta. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col. Deve ser lembrado. 255 . 2003). Scarpellini e col. a anapirexia.Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica.. GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc). o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. que essas alterações. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. ou seja. 2009). os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon. Ainda.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 256 Julho/2010 .

ou ótimas. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. 2003). ou dissociada da dormência sazonal. sobrevivam à escassez de água. sem acesso ao ar atmosférico. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação. Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. incluindo anuros. Carey e col. portanto. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento. em muitos casos. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. como mencionado acima. temperatura e umidade. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência.. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. 257 . Na maioria dos casos. Ciclo Anual Julho/2010 Pág. como no torpor diário. para determinadas funções. que possibilitam.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. peixes e caramujos. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia.fisioib@usp. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada. mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e. mas com apenas algumas horas de duração. A estivação possibilita que muitos animais. A depressão metabólica é. como nos casos de estivação e hibernação. sono e anidrobiose. 2004. a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. tais como fotoperíodo. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica. A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal.Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian. dentre outros eventos.

mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. Meses antes do estresse ambiental. estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. ou ambos. por exemplo. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados. a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. dentre outras respostas. 258 Julho/2010 . Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. Esquilos. E uma diminuição da TMB já no meio do verão. que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. 2005). antes que a ingestão de alimentos diminua. Desta maneira. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e. 1974). A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col.. quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. 2005). provavelmente por um mecanismo central. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. desta forma. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes. possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. 2004). 2005). o armazenamento de substratos. seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos. Dark. fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. 2000. 2005). indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark.

Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal. os níveis circulantes de leptina são menores no outono. 2000).. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col. Neste animal. 259 . que apresenta dormência sazonal.. No morcego Myotis lucifugus. Recentemente. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. 2000. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada. assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. 2000). Entretanto. Niewiarowski e col. têm sido investigados em outros grupos... 2004). A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica.. 2000). Spanovich e col. Neste caso. Paolucci e col. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. Em endotérmicos. as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito. 2006). ou seja. a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência.. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col. das frequências cardíaca e respiratória. permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col.Metablismo adiposidade do animal. 2000. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos. antes estudados somente em mamíferos. Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo. Já em marmotas Marmota flaviventris. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético. Neste mesmo animal. a secreção de leptina. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág.... embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col. estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col. 2006). os efeitos e a estrutura da leptina. 2000). elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. 2001. durante a pré-hibernação.

alguns processos fisiológicos diminuem. Ruf e Arnold. bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações. 260 Julho/2010 . reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey. Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia. a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se. embora. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. Storey. 2004. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. em grande parte. 2000). Com base neste pressuposto. Curiosamente. 1994. 200). Nos mamíferos. Esta semelhança. enquanto outros são totalmente interrompidos. Diferentemente da função cardíaca. a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col. muitas vezes..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto. 2007). estes processos são retomados durante os despertares periódicos. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. 2004). Pág. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. portanto. o fluxo sanguíneo renal. Durante a depressão metabólica. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey. 2004). 2003)..K+-ATPase. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col. que supre a atividade de enzimas como a Na+..

261 ... Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col.Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. Provavelmente. de fato. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO). alguns endotérmicos e ectotérmicos. Por outro lado. embora a capacidade funcional do órgão seja preservada. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão. a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. Em hibernantes clássicos como os esquilos... assim como ocorre nas células dos hibernantes. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col. Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center. Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág. O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo. ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. 2005). quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S). Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. Dado o elevado custo dos processos de digestão. Após 6 h de exposição ao H2S. a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. observa-se uma pronunciada atrofia do intestino. seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e. 2007). apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. Na depressão metabólica sazonal. 2003). acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. 1). atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições. 2003). parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real. preservando a viabilidade celular.

262 Julho/2010 .. b) Primata lêmure Microcebus murinus.. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig. Pág. 2). duram menos de 24 horas.a) Lagarto teiú Tupinambis merianae. Nestes casos. alguns anfíbios e répteis.. Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. a b Figura 1. por exemplo. 2002. 2004.. apresentada por outros animais. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC.. 2004). nos quais os animais acordam. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas. geralmente. 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. 2004). Souza e col. interrompidas por despertares periódicos que. Na marmota. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col. Knight e col. Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. 2000). há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col.

a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. 2005). mas também para que o despertar seja bem sucedido. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. Em diversas condições fisiológicas. Souza e col. 263 . catalisada por proteínas fosfatases. Neste momento. a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna.. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar.Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). 2004). Em alguns mamíferos hibernantes. e a eutermia (4). com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). (Modificado de Heldmaier e col. proteínas responsáveis pela transcrição gênica. Na primavera.. Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. provendo aminoácidos para a síntese de glicose. como visto em capítulos anteriores. Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. e na remoção desses grupos. várias enzimas glicolíticas. quando os animais despertam da fase de dormência. ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. catalisada por proteínas quinases. 2004). Ta representa temperatura ambiente. síntese e Julho/2010 Pág.. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência. o rápido reaquecimento durante o despertar (3). receptores e transportadores de membrana. a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2). essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1). 2003.

O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. Em condições anóxicas. é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia. Durante a fase de dormência. 2004). da formação de acetilCoA a partir de piruvato. em parte.3). que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa.. 264 Julho/2010 . Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. Este complexo enzimático. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. Observa-se. nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). além de ajustes específicos. carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. um tecido dependente de glicose. vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. 2004). Curiosamente. principalmente. preservados para utilização pelo cérebro. De uma maneira geral. hexoquinase. consequentemente. 2003). Para ilustrar como esta regulação acontece. no nível da expressão gênica. entretanto. o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. 1990).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados.

2002).. Confirmando esta idéia. inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. no coração do hibernante. A quantidade de lipase pancreática. 2004). A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase. A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. 2004). Paralelamente. Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial. que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente. de Julho/2010 Pág. alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. assim como da lípase hormônio sensível. 265 .Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). como a citrato sintase. 2000). há um aumento da expressão da lipase pancreática. primeiro passo da síntese de ácidos graxos. uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas.

a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo. PPARα é um receptor nuclear. diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. aumentando a meia vida destas moléculas. os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. 266 Julho/2010 . a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. (2000) na última década. a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. HSL. Paralelamente. As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição. estocagem e excreção (Storey e Storey. triglicerídeos. De Pág. 2003). As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células. lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. ativado por ácidos graxos. durante a hibernação em mamíferos. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. TG. embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. 2004). o que além de contribuir para a economia energética. 1997). Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. Portanto. dada a inibição da síntese de proteínas.

durante a depressão metabólica. Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col. consequentemente. evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. 2007). animais menores possuem membranas mais insaturadas e. alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal.. há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções. próximos à região polar. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold. quanto pelo transporte ativo. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col. ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. A atividade da Na+. 2003). 2008). a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. Em um caramujo terrestre estivante. 1998). o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy. A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e..Metablismo maneira geral. Curiosamente. as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios. 1998). aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. de forma significativa. tanto passivo através de canais iônicos. dados não publicados). 1987). provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea.K+-ATPase. Adicionalmente. Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos. provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. 1980). 267 . além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira. Face à redução das taxas de produção de energia.K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. 2000. alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. embora a atividade da Na+. A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. dissociadas de efeitos da temperatura. um hibernante herbívoro. Hulbert. Na marmota.. taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else. 1997) e a inibição deste processo contribui.

a inibição destes vários processos. cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. 1999). Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. 1995). MacDonald e Storey. o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand. Por exemplo. Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos. 1984. rins e fígado (Balaban e Bader. Pág. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos. com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. 268 Julho/2010 . No conjunto. o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. Adicionalmente.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético. a atividade da Na+.

os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig. Neste período em que o trato digestório está vazio. 2004).com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação. Assim. incluindo crescimento. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população. mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução. 2004). o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais. anapirexia. as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo.Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético.1b). sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. Desta forma. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider. Por outro lado. termorregulação e reprodução (Fig. os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. Julho/2010 Pág. quando a energia é escassa. 1a). febre. 2004). Durante a evolução dos animais. manutenção. quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. corte. e a energia excedente é armazenada (Scheneider. Deste modo. 269 . os comportamentos relacionados à defesa territorial. Como já discutido. hibernação e dormência). Sendo assim. 2004).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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1991. Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas. evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos.. Kolar e Lodge.. Carey. 1999.. A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais. 1991. 2005).. Tocher e col. A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. 2000. Daszak e col. Drinnan... Julho/2010 Pág. a fragmentação modifica as condições de luz. 1997. 2001. 2001. Navas e Otani. além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow.. 1989. Primack e Rodrigues. Vitousek e col. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento. 2005). 281 . 1992. 1994. Zuidema e col. redução da diversidade genética. são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman. 1998. 1996). Zuidema e col. o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. 1999). as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. Gascon e col. 2007). juntamente com a ecologia. o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente. predação. temperatura. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. parasitismo (Dukes e Mooney. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema. Desse modo. 1996. Rodrigues. e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam. Zachariassen e col.. 1996.Metablismo e Merriam. 2001). influenciando diretamente os microhábitats. Além da redução populacional. 2005). 1994. Galindo-Leal e Câmara.. Bierregaard e col. umidade e vento. 1997). incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991. por exemplo: competição. uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col.

Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. 2010). também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. A poluição da água. além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema. a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. essenciais para qualquer organismo vivo. Essa vulnerabilidade dos ecossistemas. 282 Julho/2010 . A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. 2001). sendo prejudicial a saúde pública e ambiental. as quais modificam outras características da água. Pág. Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . os poluentes podem promover a formação de ácidos. por sua vez.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício. No ar. Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies. é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. como por exemplo.

2008). É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar. 1987. Blaustein e Wake. Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente. Sampaio e col.. 2008). No Brasil. 1998. 2007. da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. 283 . e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar.. De natureza multidisciplinar. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. por conseguinte. observamos a elevação de 0. podendo ser extintas.. 2008). 2009). 1995. Além de alterações na temperatura. através do conhecimento sobre a história natural das espécies. Mangum e Hochachka. aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. 1990. reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. 1993) e plantas (Hinrichsen.Metablismo que por sua vez. 1992. Como conseqüências dessas ações. Angilletta e col.. 1989. Mackenzie e El-Ashry. 2008). das queimadas (Sampaio e col. 1986). 2005). 2008). também. A análise integrada da variação fisiológica. mais uma vez. favorecendo. 2002). temperatura e correntes de água (Carey. Sampaio e col. alteram o pH do solo e de corpos d’água. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. 2001. É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. Tal equilíbrio é. France e Collins. ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. Diante desse cenário. em diferentes níveis de abordagem. bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. Buckeridge.. Wells. 1988). é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé. 2007. indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. 2007 – AR4).. Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas.75% da temperatura média no Brasil (Marengo. As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col.

2006). Dentro desta perspectiva. somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. se possível. 2003).. Navas e Otani. Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo... 19991. 19991. temperatura corpórea. Carlisle. taxa opercular. mesmo que indiretamente. Zachariassen e col. Carey. da asa ou de outros apêndices) em tempo real. 1997. 2006. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. 1999. 2000). 2001). 2005). 1999. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. 1995). 1995. batimento caudal. Costa e Gales.. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. 1991. 2002. 2005. Carey. 1998. DeAngelis. Zachariassen e col. Wikelski e Cooke. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa. a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman. assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores. Beyers e col. Wikelski e Cooke. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. Hopkins e col. além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. como por exemplo: a biotelemetria.. 2000. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. 2006). além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e. Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos. 284 Julho/2010 . 2005. 2007). reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca. Nagy e col. O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. os princípios. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods. 1991. Barbieri e col. Diante da introdução dos poluentes. comunidades e ecossistemas.. 2006).

2004). 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. capacidade natatória. por exemplo.. Rowe e col. mais a longo prazo. 1998. 2007). Costa e Sinervo. 1996. 2004). 1998. 2000. 2007). Em suma. 2001).. Calow.. 1999. Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais.. podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies. Zuidema e col... 2003. 2005. Rowe e col. Porém. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental. Através desses dados. Barbieri e col. Somero. a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. Wikelski e Cooke. determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. Neckel-Oliveira e Gascon.Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. 1994. 1991. possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. 285 . Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. 1998). Julho/2010 Pág. de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey. esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. 2005. Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação.. 1991. Além disso. 1995. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. Drinnan. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. Rowe e col. 2006). podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka. 2006). taxa de crescimento. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. 2002).

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Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6. será intensamente discutida neste capítulo. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. em especial a neuroendocrinologia. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. a importância dos estudos em fisiologia comparada. vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. fisiológica e anatomicamente interligados.br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. Em relação à neuroendocrinologia. endócrino e imune. agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental). ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. em invertebrados (Unidade 7). veremos. distantes do seu centro de origem. mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). ao longo deste capítulo. . de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. Os sistemas biológicos: nervoso. Neste capítulo. Neste contexto. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. visto que. como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G).Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. Desta forma. interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo. estão. a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso. vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. os sistemas nervosos e endócrinos. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. Adicionalmente.

348 pág. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. 300 Julho/2010 . 323 pág. Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr. 337 pág. 305 Pág.

5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág. 301 .Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.

302 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág.

Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág. 303 .

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 304 Julho/2010 .

ou seja. também denominados de hormônios. assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris. sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. 2007). 1954).br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. Norris. Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). conhecida como fisiologia. com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris. 2010). processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos. o entendimento do sistema endócrino. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp.. Esses produtos de secreção. ou glândulas de “secreção interna”. até que. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos. sua estrutura Julho/2010 Pág. 2007). pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar. 1992. as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. que estão submetidas a diferentes condições. 305 . Adicionalmente. o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col. Já a neuroendocrinologia. Inicialmente. 2006). Segundo Zohar e colaboradores (2010).

analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária. Berne e Levy. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. ou neuro-hipófise (NH). é o hipotálamo (Withers. e hipófise posterior. passados aproximadamente 35 anos. as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente. 1973). bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. pois. 2007). Outros estudos posteriores a esta época. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). Neste sentido.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. atuando na recepção. sendo que. que extratos encefálicos. cerebelo. ou adeno-hipófise (AH). 2006. um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. neuroendocrinologia é um assunto mais recente. 1998. a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. Guyton e Hall. Norris. o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. ou seja. mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos. vários tópicos ainda permanece incertos. 1998. 2007). Norris. Norris. e tronco encefálico. 2007). 1966). numerosos hormônios são sintetizados. Guyton e Hall. integração e no redirecionamento de sinais. 2002). Para melhor compreensão do eixo H-H. Já em peixes. Norris. Fisiologicamente. 2007). De uma forma geral. 1992. Anatomicamente. 1992. 2006. Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. em alguns casos. 2006. Fisiologicamente. Em relação à hipófise. Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. 306 Julho/2010 . forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. em peixes. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. apresentaram pela primeira vez. que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág.

2004). 1971. 1998).. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal.. Tabela 1.Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col. Desde então. é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. cuja estimulação/secreção. 2006). Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy.. Levando-se em consideração apenas a reprodução. 1973). o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas. de lampreias a mamíferos (Guilgur e col. alguns anos depois. Lethimonier e col. o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais. 2002. 1998). no entanto. Burgus e col. foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. Adicionalmente. Originalmente... entretanto. 307 .. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. 1983). 1972). múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios. abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade.

cuja função ainda é especulativa e uma outra forma. também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH. Whitlock. 1991b). 1998). ou seja. 2006. 1993). estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos. o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). a liberação de GnRH. É importante salientar. Essa variedade de formas de GnRH. pois. 2003). as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11).. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col. ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col. elevação do segundo mensageiro. em peixes teleósteos (Sherwood e Adams.. relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower. 1993). como por exemplo. que por sua vez. 2006).. em anfíbios (Conlon e col. em répteis (Lovejoy e col. todas as formas são decapeptídeos. 2002). exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. uma vez que. A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback).. foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. 308 Julho/2010 .... 09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas. 1984) e em mamíferos (White e col. 2005). que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col. 2004). 2005). duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie. Segundo Sherwood e Adams (2005). Guilgur e col. 2) (Weltzien e col. entretanto. a ativação da fosfolipase C. Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008).. Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy.. Tsai. além disso. 1998). 2002) e Aplysia californica (Zhang e col. que possuem doze aminoácidos e. faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col. mas em geral. em aves (Miyamoto e col.. Em geral. são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados).. os aminoácidos número 01. 04.. 2). Em mamíferos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. em elasmobrânquios (Lovejoy e col.. 1991a). 2008).. 2004. 2002. Pág. e estes. 2005).

Sherwood e Adams. Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. o ciclo de claro e escuro (dia/noite). mudanças de temperatura. 2006). Guilgur e col.Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. tem sido identificadas em peixes. influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz. uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. Adicionalmente. semelhantes. (2006). que por sua vez. estariam atuando nesta modulação do GnRH. As formas de GnRH grifadas em cinza. 309 . que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. (2002). Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. entre outros. 1997). a kisspeptina. outras complexas interações de sinais neuronais... Adaptado de: Iwakoshi e col. (2005). são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro).

que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. 2008). se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. 1992. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. 2006. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. as possíveis células alvos. são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers. chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos.e. sistema este. 310 Julho/2010 . ou hipófise anterior. que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. Guyton e Hall. Desta forma. e agora. há uma zona intermediária. que produzem a tireotropina (TSH). 2009). Berne e Levy.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. Em geral. inibindo a liberação de GtHs. Norris. as funções dos hormônios Pág. Os hormônios hipofisários em mamíferos. veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). e entre essas duas partes. quando foram descobertos. são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. a sua natureza química. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). Embriologicamente. ou hipófise posterior. e são armazenados e liberados pela NH. 1998. Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. E ainda no ano 2000. foi discutida resumidamente. como observado para os hormônios hipotalâmicos. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. a NH. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). o mecanismo de ação. controlando as funções de suas células. Já na AH. Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. as diferentes formas (quando for aplicado). Berne e Levy. Desta forma. de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. 1998). i. 2007). a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. as células tireotrópicas. a adeno-hipófise (AH). A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. 2006). cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. pois através deste sistema. a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. 2006. a neuro-hipófise (NH). 2004).

a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH. o hormônio ACTH. T4 e a triiodotironina.). mas também apresenta um papel nas contrações do útero. carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. relacionado também com o metabolismo corporal. Berne e Levy. conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. sintetizado pelo hipotálamo. Tabela 3. cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. é um hormônio. os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. O TSH. 2006. que são hormônios glicoprotéicos. 311 .1.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH. T3). O hormônio TSH. que sintetizam o FSH e o LH. sintetizado pelas células tireotrópicas. é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. atuando principalmente nas gônadas. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH). estão diretamente relacionadas com a reprodução animal. 1998). Em relação à AH. estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy. produzido pelas células corticotrópicas. ou seja. relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas. Já a ocitocina. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos). por sua vez. a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. também conhecido como arginina-vasopressina. 1998). As células gonadotrópicas. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais. ou seja. é um hormônio glicoprotéico. cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina.

o aumento da síntese protéica. O GH e a PRL. 312 Julho/2010 . mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. incluindo especificamente. (2006) e Berne e Levy. Neste caso. além de atuar no metabolismo. O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos. já a PRL. são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. (1998). a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. a neuroendocrinologia em peixes. A combinação das tabelas 1 e 3. Adicionalmente. Figura 1. ver as revisões de: Guyton e Hall. (2006). Neuroendocrinologia em peixes Em geral. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos. (1998) e Guyton e Hall. Modificado de Berne e Levy. uma abordagem geral em peixes se faz Pág. é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos. mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). em humanos.

2004). 1969. São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos.).. Em relação à sua distribuição. percepção sensorial e reprodução (Hoar. contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson. Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. 2003). 2003. desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. Moyle e Cech. Além da importância como fonte alternativa de alimento. anatômicas. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). flutuação.1. Em relação à reprodução. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes. Vazzoler. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. 2006. 2003. 1996. 1999. Zavala-Camin. 2004). comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies. nutrição. Lowe-McConnell. ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. 1990. as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. 313 . ZavalaCamin. por exemplo). essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton. os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa. Hochachka e Somero. 58% são marinhos. osmorregulação. 1998). morfológicas. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas. 1990). Moyle e Cech. a desova total ou a desova parcelada). Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. 2002. ou seja. com esse grande número de espécies existentes. a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. 1990. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2. Desta maneira. além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva. Wooton. apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. Moyle e Cech.

. 2003. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas.. Zohar e col. Guilgur e col. 2005). 2004. em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH. em algumas espécies de teleósteos. González-Martínez e col. 2005).. sendo: cGnRH-II (chicken II). 2006). O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes. Guilgur e col. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral). 2006. 2004. 314 Julho/2010 . entre outras formas (Lethimonier e col. 2006. Zandbergen e col.. Pandolfi e col. Com isto. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. 2002. 2006). Já a segunda ou terceira forma. também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col. 1995. 2010).. Entretanto. 2010).. para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas.. em peixes teleósteos. Zohar e col. 2005. ou seja.. Guilgur e col. Sherwood e Adams. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente. para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. 2005). ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH. ou seja.. 2010). no qual. Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col. 2002). Guilgur e col. como por exemplo. tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col.. 2004. 2004.. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower. os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada... sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior. Zohar e col. foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col.. que em teleósteo.. como por exemplo. 1997). 2002)... Pág. em Siluriformes. sendo que. ainda são discutidas na literatura especializada. 2006. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva. Neste contexto. Guilgur e col. está relacionada especificamente com a reprodução. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo.. Pandolfi e col. 2002.. o comportamento reprodutivo... como por exemplo. o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. Dubois e col. 2004.. ao contrário dos mamíferos. 1994..

Desta forma. 1997).. alguns estudos apontam que.. Entretanto. pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. em vários teleósteos. na região da NH. Goos e col. 1992) de catfish africano. 315 . 2004. 1995. foram identificadas estas duas formas de GnRH. Neste sentido. no catfish africano. como por exemplo. Somoza e col. Weltzien e col. e provavelmente. nos teleósteos Julho/2010 Pág. 1994. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas. 1994.. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col. sendo que. o que veremos a seguir. em geral. por exemplo. 1993) e de encéfalo (Bogerd e col.... assim como em mamíferos. ainda não é bem compreendida. Em relação aos hormônios hipofisários.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. pois. sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. 2004)... apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso. possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro. Neste contexto. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária. 2006). 2001). a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. apenas duas formas de GnRH foram identificadas.. Agulleiro e col. entretanto. são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. 1995.. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise. Hipófise em peixes A hipófise em peixes. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa). como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH).. Adicionalmente. Portanto. em extratos de hipófise (Schulz e col. neste grupo. as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. 1997). Dubois e col.

. como por exemplo. Kawauchi. melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower. exceto a somatolactina. 2004). que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH).. Takei e Loretz. 2003. no metabolismo. o principal hormônio desta glândula é o cortisol. Weltzien e col. os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. 2006). 2004. Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. nos aspecto Pág. que todos esses hormônios. na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs). 2006). hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL). a família prolactina/somatotropina. a arginina – vasotocina (AVT). Em geral. e em peixes. sendo que. É importante salientar. segundo Kawauchi e Sower (2006).. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios. 1996.. a adrenocoticotropina (ACTH). 2003. que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col. 1990. como por exemplo. Neste caso. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células.. as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. portanto. conhecidas como células somatotrópicas. 2006. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. este hormônio atua em vários processos fisiológicos. Weltzien e col. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas. Batten e col. 1996).. estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. que inclui prolactina (PRL).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios. entre outros neuropeptídeos (Acher. 2004. 2006. 2006. em teleósteos. Duarte e col. Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). 2000). Kaneko. 2001. também são identificadas na região PPD.. 2006).. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). Kawauchi e Sower. Cinquetti e Dramis.. “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). 316 Julho/2010 . Adicionalmente. como por exemplo. 2006). Kawauchi e Sower.. Cala e col. características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH). 1999. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante). e a família dos hormônios glicoprotéicos.

Vissio e col. as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. 2000. 1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col. Em relação ao TSH. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes. Kaneko.. Kawauchi e Sower. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col.. na reprodução (Olivereau e RandWeaver. Forsyth e Wallis.. como por exemplo. 2006). Mayer e col. 1994). nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col. Agulleiro e col. 1995. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes. Kaneko.. Kawauchi e Sower. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos. Cala e col. Kakizawa e col.. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. 1993. 317 . 2003). produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col.. o FSH e o LH... 1996). além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. 2003. 1996.Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col. 2006. 1992. 2000. Kawauchi e Sower. 1996. 2006. 2003) e indiretamente na reprodução. 1997.. 1989 apud Mylonas e col.. pois. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás. As células produtoras de somatolactina (SL). 2006). 2003.. Kawauchi e Sower... 2006). também conhecidas como PIPAScells. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos. 1993. 2000. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo. 1994. 1998). abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. 2006). e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. Forsyth e Wallis. Julho/2010 Pág. Kaneko... osmorregulação. no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col. Sabe-se ainda. Em relação ao MSH. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col... 1999). Finalmente. 1997. reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col. Adicionalmente. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo. Kawauchi e Sower. 2003. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col. Johnson e col. 2003). são as GtHs. Mancera e Fuentes. Rand-Weaver e colaboradores (1991). Cala e col. como por exemplo: no metabolismo. 2002. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. 2006). ainda continua desconhecido. ou seja. 2002. Mousa e Mousa.. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. que o papel fisiológico da PRL em teleósteos.. 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. desta forma. 1996). foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990)..

2010). Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. liberação e fertilização dos gametas.. 1999. maturação. a temperatura e. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura. Zohar e col. entretanto. reiniciando o ciclo. Weltzien e col. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos. possivelmente as chuvas. Falcón e col.. são captadas através dos olhos. Levavi-Sivan e col. 318 Julho/2010 . alterações ambientais como o fotoperíodo. é controlada endogenamente por um sistema endócrino. foram registrados. Levavi-Sivan e col. 2) (Blázquez e col. Pág. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes. pluviosidade entre outros). pineal. sendo que em geral. esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. 1998. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução. Zohar e col. Em geral. Em várias espécies de teleósteos. precisam ser investigados mais profundamente.. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 2010. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. efeitos positivos. Por outro lado. narinas e receptores cutâneos.. em peixes. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. 2006. que sintetiza e libera gonadotropinas. fotoperíodo.. 2010). negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal.. que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col.. sabe-se também. Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. 2006). 2004.. Adicionalmente. 2010. que crescem e se tornam adultos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura.

Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur. Imagens: Renato Massaaki Honji. Julho/2010 Pág. 319 .Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto).

Nagahama. Esta é transportada à camada granulosa. também sob influência do FSH. 2003). sendo. 2000.20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. podendo ser expresso em situações adversas. 1993. como por exemplo. 2003). sendo os andrógenos. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH). O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes. o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. 2004. 1996..20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. Assim. 2006). 320 Julho/2010 . que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva. na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase. converte o colesterol em testosterona. é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH). os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante. A detecção da vitelogenina. na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col. também via corrente sanguínea. Pág. testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. entretanto. desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais.. O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona. Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia.. como por exemplo. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese. como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. Haider. 1997). estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. na fase de vitelogênese. que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese. Cyr e Eales. Nos machos. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. Garcia-López e col.

2). pois. premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies.. Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes. sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. quando são impedidas de migrar. quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. apresentam um bloqueio na reprodução. em operações de cultivo. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva. e raros em teleósteos de clima tropical. considerando-se que as espécies de peixes de piracema. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. ainda pouco esclarecida. Por outro lado. Adicionalmente. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. 321 . 2001). 2010. foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. Portanto.. mas altera-se de alguma forma. pois neste ambiente confinado. 2010). procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais. Taranger e col.Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. Neste caso. por serem reofílicas (peixes de piracema). veremos no capítulo 32. Julho/2010 Pág.. Zohar e colaboradores (2010). Adicionalmente. fica evidente. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. 2010). estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. De uma forma em geral. principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 322 Julho/2010 .

o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. 2004). alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. levou a consolidação de diversas capacidades funcionais. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo. 323 . de uma faixa dorsal ectodérmica. que é conhecida como placa medular. também denominado encefalização. Neste contexto. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. Desta forma. de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados.br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. estão ao mesmo tempo em funcionamento. Ao contrário. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo.. chamado tubo neural. Este processo evolutivo. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. A parte contínua do tubo neural. 2002). pelo menos em humanos. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. no presente capítulo serão apresentados. gerando também assim. presentes e. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. eventos futuros (Hickman e col. mesencéfalo e rombencéfalo. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. composto por três vesículas primárias. répteis e aves.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. um ritmo biológico. no tamanho. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais. Julho/2010 Pág. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. na fase embrionária. sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen.

como o dos peixes e anfíbios. descritas de forma geral para os vertebrados sendo. células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. O epitálamo é derivado do Pág. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. Hickman e col. da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr. foi como o cérebro de grupos mais primitivos. o mesencéfalo não se divide. formando o total de cinco vesículas encefálicas. 2000. neste momento. Sobre este mesmo aspecto. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr.. e o hipotálamo (ventral). O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). 2000. Hickman e col. No local onde estas duas estruturas se encontram.. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. posteriormente. sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. 2000). 2004). Assim. e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr.. o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. o tálamo (central). destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. 2004). As diferenciações do diencéfalo serão. invadido por substância cinzenta. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. Assim. não surpreende que o pálio. seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. Portanto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. 2000). certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. Assim. Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes. 2004). se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. e pela primeira vez em vertebrados. 324 Julho/2010 . sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. Em todos os vertebrados. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio.

2004). Hickman e col. Guyton e Hall. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr. A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. na fase embrionária. Norris. Estas relações primitivas do encéfalo. dorsalmente. que tem função na recepção visual. Hickman e col. O metencéfalo. a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. mas também no dos anfíbios. 2000. 2007). além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais. 2006). possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo. atuando como o centro de coordenação nervosa. Na parte dorsal. Assim. que inclui a glândula pineal. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. apesar de extremamente fundamentais. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes. é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração. dá origem ao cerebelo. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo. amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. Hickman e col. como visto no capítulo anterior (Orr. 2000. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo.. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais. como comentado anteriormente. 2000. Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo. 325 . O hipotálamo. Hickman e col. O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. 2007. da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. incluindo as funções de percepção do ambiente externo.. o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado. contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio. como os tubarões. 2004). Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr. foram. 2004. o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. 2000. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. na anatomia funcional. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. 2000. com exceção dos teleósteos.. oriundo do piso do diencéfalo.. e o lobo posterior. Adicionalmente. 2004). No entanto. em alguns casos. Norris.Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. o batimento cardíaco e o metabolismo.

. répteis e aves. será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos. A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. aos hormônios e funções foi. o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. A ME conecta. A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág. 2004). a nomenclatura aplicada às estruturas. pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). e núcleos paraventriculares (PVN). pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col. primeiramente. 2007). 326 Julho/2010 . Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA). A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. atribuída a este grupo. Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. núcleo supraquiasmático (NSQ). Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. Figura 1. 1) (Norris. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. núcleos supra-ópticos (SON). 2007). núcleos arqueados (ARC).

Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. por exemplo. é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos. o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. hormônio de crescimento (GH). Julho/2010 Pág. Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. a prolactina (PRL). Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise. mais anterior. região posterior. 2007). 2007). o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). o hormônio liberador de corticotropina (CRH). a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. É através deste sistema que. Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. e que o sistema porta passa por ela. núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. Norris. sendo comumente em células distintas. Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST).Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. Quanto ao hipotálamo. Outros hormônios hipotalâmicos. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). 2006. e a pars nervosa (PN). embora não listados como hormônios trópicos. 2007). Já a neurohipófise. estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. hormônio estimulador da tireóide (TSH). como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). como dito anteriormente. estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). 327 . O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa.

Em algumas aves. 2007). modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. répteis e aves (Norris. que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN. que por sua vez. este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. Chelonia e Crocodilia. neste grupo. Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. Pág. regulam outras glândulas endócrinas. diferentemente de todos os tetrápodes. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . de forma geral. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados. é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. 328 Julho/2010 . a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. Em serpentes adultas. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. como exemplo. os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. entretanto. a PT é completamente ausente. De forma. o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies. Ao contrário. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos. Através de seus prolongamentos axônicos.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. em anfíbios. além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. como os pombos e o pardal de coroa branca. afetam células específicas não endócrinas. répteis e aves Como dito anteriormente. é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. e de forma resumida. aves e mamíferos. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. 2007). podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. Nas aves.

que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo. mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. que terá um pouco mais de destaque neste capítulo. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). Julho/2010 Pág. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. 2007). 329 . FSH. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. discutido no capítulo anterior. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. mesotocina e arginina-vasotocina.Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. O hipotálamo secreta RHs e RIHs. ACTH. Estes. LH. GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos. por sua vez. o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). a hipófise e o alvo endócrino específico.

Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. 1975. No entanto. e da mesma forma como os esteróides. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea.. Normalmente. portanto. as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica. 2005). 1952. outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas.. Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT. Assim. 2007). Sechman e col. conhecida como deiodinase. ou DIT. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. Normalmente. 2009). Primeiramente. 3). Os hormônios da tireóide. 330 Julho/2010 . que realiza essa conversão (Brown. respectivamente. por difusão ou por transporte mediado por carreador. 2007. o T3 é mais ativo. 2006. Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico. atravessam facilmente as membranas celulares. apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. 2007). Adicionalmente. nos vertebrados. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. Norris. Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos. ser metabolizados no fígado e rins. Brown e Cai. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers. os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. Essa molécula é chamada de 3. resultando na molécula chamada de T4. e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. Kistler e col. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados.. Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. pouco solúveis em água. 2006). promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO). triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide.5 diiodotirosina. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col. O dímero. têm sua produção estimulada Pág. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. formado pelo hormônio e o receptor nuclear.

1986. 1996). Norris. 1998). o Julho/2010 Pág. sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. Nakajima e Yaoita. 2007). na regulação do metabolismo (Norris. o sistema imune (Rollins-Smith. 2006). sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. 2007). o trato digestório. desenvolvendo as criptas viliais.. o fígado. bem como na reestruturação de órgãos. Ação do hormônio da tireóide em células-alvo. 2005).Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato. 1997. Em anfíbios. na formação do sistema nervoso. o sistema respiratório. desempenham função importante na metamorfose. 2006). Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. Figura 3. que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. reorganizando a pele (Yoshizato. 2003. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. 331 . Em vertebrados. 2006. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário.. Yaoita e Nakajima. o encéfalo e a medula espinhal. Brown e col.

É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai. Em frangos. 2009). mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos). Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis. Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). e aves. répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos. Desde então. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. répteis. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH.. 2000). O LH. 2007). Pág. O LH induz a ovulação. Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano. o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas.. 332 Julho/2010 . destacando a similaridade destas moléculas e suas ações. sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. 2007). produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio. a somatostatina (SS). Wilson e Reinert.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. A liberação do TSH em anfíbios. e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). 1988. primeiramente testosterona. promove a produção dos esteróides sexuais masculinos. sauvagina e urotensina I (Norris. Sechman e col. mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. além da influência no metabolismo. 1999. uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). nos machos. 2007). entre outros trabalhos. sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. Estes três hormônios são encontrados em anfíbios.

tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. Em pombos. Assim como em peixes. é um mediador químico do sistema imunológico. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico. sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. Em répteis este hormônio foi pouco estudado. Além disso. este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH). ou somatomedina produzida pelo fígado. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares. causando o escurecimento da pele. em anfíbios e répteis. como cuidado parental. nos processos reprodutivos. no metabolismo. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios. A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. o comportamento. 2007). no entanto. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. o fator de crescimento insuliníco (IGF). nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. A prolactina. e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. além de seu papel mais tradicional. realizando assim a transferência de calor.Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. O MSH é Julho/2010 Pág. estimula a nutrição. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. 333 . e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. o desenvolvimento e crescimento. Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes. também pela produção de hormônios corticosteróides. Além disso. e em mamíferos com a produção de leite. o metabolismo. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos.

O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene.I-R. alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina. pois são capazes de produzir uma resposta. 1996)..I-R. Acher e col. a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla.I-T. A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab. anfíbios. Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y. pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois.. Estes hormônios são. 1987. 2007).N-C-P-R-G-NH2 C-F.. especialmente nos anfíbios Anuros.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente. respectivamente. 1984. Entre estes dois os hormônios da PN. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág. 2007). Choy e Watkins. Tabela 1. e da tireóide. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta. 1). Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida. 1995. são muito semelhantes quimicamente. 1986.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados. 334 Julho/2010 . homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos.N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes. sanguessugas Gafanhotos répteis. Nojiri e col. aves.Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. segundos após a sua liberação (Licht e col. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris. Acher.N-C-P-K-G-NH2 C-L.

tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais. 2007). e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis. Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. estimulando a reabsorção da água na urina. na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário. mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo. 2005. 335 . A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios.. Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo. pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col.Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio). Além disso. Julho/2010 Pág. Norris.

336 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

2006). mas também interagem e modulem entre si. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão. sobretudo as funções metabólicas. tais como. Para que isso ocorra. ritmos biológicos entre outros. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo.mpf@usp. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. Estes por sua vez. Nesse sentido. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. De maneira geral. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo. garantindo que não só operem na sua particularidade. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte. 337 . porém. No Unidade 3 (Neurociências). Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. Está também associado ao controle da reprodução. o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação. apesar de manterem suas especificidades. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. o processamento e a armazenagem da informação. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina.br No decorrer da evolução dos organismos. percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. Juntamente com o sistema nervoso. Julho/2010 Pág. formar os órgãos. crescimento corpóreo.

1997).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém. (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento. 338 Julho/2010 . As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. Hoje. mas Pág. 1997. 1977). (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. Besedovsky e Sorkin. já se sabe que os sistemas nervoso. não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. injetados com glóbulos vermelhos de ratos. células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold. Já na década de 1970. (1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. 2002). Chesnokova e Melmed. endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. Figura 1. Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. 1B). Animais controles. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas.

a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC.. garante um grau de privilégio ao SNC. a barreira hematoencefálica. 2). Além desse contato direto. Assim. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. Figura 2. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col. como NO e prostaglandina. além de outros mecanismos. citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold. Fisiologicamente. 2002. 2006). Julho/2010 Pág. Além disso. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas. tais como as células endoteliais.. De fato. 1997. permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais.Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. 2006). durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. porém. a produzirem mediadores secundários. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. que revestem o vaso sanguíneo. Galea e col. Frente a uma resposta inflamatória. 1997). Por ser um sistema difuso. Chesnokova e Melmed. como as células endoteliais. células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo. essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. 339 . seja via sanguínea ou linfática.

Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1). Pág. 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. como por exemplo. A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. 340 Julho/2010 . Recentemente. A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. Fig. existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC. 3. Resumidamente. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. Assim sendo. Por outro lado.. as chamadas pró-inflamatórias. o fator de necrose tumoral (TNF. 2007). 2000). mediador inflamatório produzido por células imunes. Borovikova e col. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada. como o nervo vago. Rosas-Ballina e Tracey. 2009). cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. o SNC não apenas recebe. essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey. 2009). percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. 1997). levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. 4. 2009). principal neurotransmissor do nervo vago. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos.

Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional. 2000). o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH). 1997). SHAM: animais falso-operados. induzido por LPS (15mg/kg). a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. 5. modificado de Borovikova e col. Sternberg e Gold. 341 . o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. Sucintamente. conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse. 2009). VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F. Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. Como feedback negativo. A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico. visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune.. Julho/2010 Pág. 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). e cortisol em humanos. uma vez que caem na corrente sanguínea.

por meio de um reflexo eferente modula a função imune. 2007). modificado de: Pavlov e Tracey. inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. 2009). A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. modificado de Rosas-Ballina e Tracey. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. 2006). caso contrário. Porém. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. Classicamente. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos. porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR). Durante uma situação de estresse. Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas. Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. 2007). Frente a um estímulo inflamatório. Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório. Este. 342 Julho/2010 . quando o estresse é crônico. tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. Pág.

libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina. mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune.Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. De maneira geral. 343 . 2002). classicamente. a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. Além de principal mediador do estresse. Além disso. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed. O hipotálamo quando estimulado. Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). sobretudo o H-H-A. Figura 5. 2003). uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. Como uma resposta de feedback negativo. o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. 1997). O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse. Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina.

As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. a resposta inflamatória deve Pág. 2007). sobretudo na camada endotelial. como dito anteriormente. rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios. 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. O ritmo diário de melatonina no sangue. A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores.. ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col. 2003). Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col. 1993). o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia.. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos. projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga.. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. 1992). Durante a montagem da resposta inflamatória. 1999). em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col. linfócitos humanos (CarriloVicco e col... 2004) e células do colostro humano (Pontes e col.. 2007). trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col.. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória. Existe também a produção extra-pineal de melatonina. 2007). Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios. No entanto. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido. 2006. placenta humana (Lanoix e col.. sobretudo da camada endotelial.. Dentre suas propriedades cronobiológicas. como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col.. a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. Markus e colaboradores. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário. tais como TNF. 2006).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central. A partir dele. Fisiologicamente. fígado. sendo responsável. 2007). 2008) e células imunocompetentes.. onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite.. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal. no prelo). permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col. 2004). Assim. Porém a integridade vascular. tais como a glândula pineal.. Considerando o paradigma acima. 344 Julho/2010 .

. Figura 6.Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig.. Além do mais. 6. citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina. O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina. Estudos in vitro. 2007). células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col. Na primeira fase da resposta inflamatória. No entanto. o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. Em um segundo momento. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido.. A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina. Em um segundo momento. existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal. visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col. Markus e col. 2007). Julho/2010 Pág. 345 . 2009). demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais. 2009). visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col.. Fisiologicamente.

os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). e. por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). 3.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col. Para manter a gestação até o final do seu período Pág. neurotransmissores. tais como testosterona ou progesterona. e isso é garantido pelo sistema reprodutor. estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. seu papel funcional é comprometido. Resumidamente. considerando a integridade dos organismos. dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta. hipófise e gônadas. 2006). A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos.. Em casos de reposição da melatonina. óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig. Dessa forma. De maneira geral. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. como uma doença. 2009). Tomaszewska-Zaremba e Herman. Tomaszewska-Zaremba e Herman. 2009). à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. 2005). o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise. Como visto anteriormente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes. O efeito de TNF e IL6. O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. 7. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. portanto. essas situações são revertidas. tais como baço e timo. 346 Julho/2010 . Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. catecolaminas.. assim como opióides. a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). 2001. Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional.

catecolamindas. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável. Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH.. assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman. Figura 7. 347 . Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático.Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. caso isso não ocorra. Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. GABA. a probabilidade de um aborto é aumentada. Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col. Julho/2010 Pág. a ação de opióides. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. Por outro lado. 2009). 2001). Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 358 Julho/2010 .

Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. Entre os principais efeitos apresentados. resultantes da exposição a alguns metais.br Em sua definição clássica. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução. a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos. Mn. que constituem a biosfera. . populações e comunidades. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. Zn. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”. além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. Cu e Cd. tais como Al.

Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. 371 Pág. 395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág. 381 pág. 407 pág. 360 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág.

de maneira geral. onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal. 1975).com. Dessa forma. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col. como o cobre e zinco. rim e glândulas digestivas. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. Sua massa atômica é de 112. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado. Os metais não essenciais. O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. Por isso. Em geral.40 gramas e número atômico 48. tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular. ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio. Julho/2010 Pág.. que. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica. 361 .. Metais essenciais. principalmente no fígado e rins. não possuindo uma função fisiológica conhecida.tabela. 2000). a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col. devido aos seus processos de detoxificação (Fasset.com O cádmio Os metais. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente. não são regulados. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. está associado ao zinco. dentro de limites. dúctil à temperatura ambiente. Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. 2001). É um bom condutor de calor e eletricidade. acessado em 02/05/2010). Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. por sua vez. geralmente.Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail.oxigenio. estão associados com mecanismos bioquímicos. animais terrestres. sendo encontrado em pilhas e baterias. não reagindo com o oxigênio do ar e. então. levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. como o cádmio e o mercúrio. Este metal é tóxico.

br/PreVestibu. Além disso. acessado em 02/05/2010).joinville. Assim. seguida por sua eliminação pela Pág. Assim.. surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. 1999. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células. mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados. 1999).. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos.. tegumento.. o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas. 362 Julho/2010 .92 Å) do íon cálcio. dulcícola e terrestre. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas. estando presentes em diversos hábitats: estuarino. para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col. com valência +2.mundofisico. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col. Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo. tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0. 1999)..udesc.. Ao longo da evolução destes organismos. Ele ainda induz a produção de metalotioneínas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. marinho. os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente. proteínas sequestradoras de metais. Monteilh-Zoller e col.

Os antígenos estimulam a migração de hemócitos. Em espécies particulares. Altas concentrações de cobre. As células imunes. metais não essenciais. pois são filtradores.. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas. nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos. a localização. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida.Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. 1999). Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde.. Julho/2010 Pág. causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. Outros aspectos importantes devem ser citados. refletindo o grau de poluição a que está submetido. como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio.. possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. Por ser moluscos bivalves. 363 .. desempenham um papel principal na defesa do organismo. como o cádmio. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. Quando animais de espécies diferentes são comparados. a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada. o tamanho. 2001). principalmente hemócitos. Contudo. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. a dieta. Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio.. e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. atualmente. Por isso. O que se sabe. 2001). indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal.. 2000). mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo. 1995). o sexo do animal e o tipo de tecido. 1993). os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça. 2005). Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos.. 2004).

1995). podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória.. o número de hemócitos circulantes aumenta. regulação ácido-base. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente. 364 Julho/2010 . Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. Já em Oncorhynchus mykiss. Assim. as brânquias. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. com a exposição ao cádmio. como órgão responsável pela respiração. peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica. ao entrar em contato com altas concentrações do metal. alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos. pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase. assim como em células de brânquias. 2000). 2005). Exceto o cádmio. especialmente na respiração e osmoregulação. regulação osmótica e iônica. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida.. que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos. 2000). com a permanência dos animais em ambientes poluídos. Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . Desse modo. principalmente crustáceos. por isso. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. e col. Pág. Assim. mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais.

2005). Em anfípodas.Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col. Além disso. 2004). junções ou entradas transcelulares. 2005). e col. o cádmio diminui o influxo de sódio. além de Julho/2010 Pág. e col. aumentando a toxicidade do cádmio.. como o Na/Ca. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda. envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio. 365 . observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard. Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas. Em crustáceos.. 2005). Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. 2001). cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo. Em peixes.. provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo. A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio... observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo. Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares.. a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias.

além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. porém há resultados contraditórios. Por exemplo. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. Em resumo. e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo.. enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág. 1996). embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador. Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação. trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. No entanto. Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos. a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. 2005). Em crustáceos. 366 Julho/2010 .

1996).Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. Julho/2010 Pág. são fortes inibidores da anidrase carbônica. principalmente em animais que estão em meios diluídos. enzima responsável pelas trocas gasosas. Estes metais. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores. encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. 1996). muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. cálcio e sódio. comprovando a competição entre os íons cádmio. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. No entanto. 367 . tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. 1996). em geral. Quando há diminuição de salinidade. Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação.

fígado e testículos. peixes. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas. Nos rins. os eventos. Desse modo. e várias interações entre cádmio. 2005). entre outros. como a resistência à corrosão. os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. particularmente no rim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão. estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos. sapos. 1975). Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente. Nesta época. estresse da gravidez e lactação (Fasset. É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal. zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset. 368 Julho/2010 . vitamina D. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim.. Assim. 1975). o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. Porém. esses Pág. 1975). associados a baixas ingestões de cálcio. às vezes. Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e. Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz.. fatais edemas pulmonares. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão. resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. talvez o zinco. 2005). Em testículos. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd.. Seus efeitos foram encontrados nos rins. talvez. e formação de células cancerosas (Dalton e col. Atualmente.. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio. proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e. causando. Assim. 1975). ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset. A doença era caracterizada por osteomalacia. o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares.

. uma modificação na proliferação e morte celular. Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. 2000). o sexo e patologias renais (Fasset. e col. Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses. o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. pois isto poderia estar relacionado com o fumo. Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). diferenciação e morte. Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas.. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio.. quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset. sendo importantes na regulação da proliferação celular. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. a idade. Atualmente.. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong. e col. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular). o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong. assim. 2000). No fígado. 1975). ou seja... Assim. 369 . Além disso.. o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. e col. 2000). Julho/2010 Pág. 2000). proliferação celular. Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria. Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose.. As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular. desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong.. o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual. 1975). 2000). O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col. Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais.

370 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp. tanto através do meio em que vivem. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade.. salobra ou doce (Rainbow. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre.br Introdução Durante a evolução. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo. incluindo os definidos como metais pesados. Co. Nas águas não poluidas. quanto através da dieta. 1999).. 1999). 2000). 2000). Se. que permitem a Julho/2010 Pág. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. No entanto. Fe. 2000). mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. Metais traço. frequentemente com base fosfato. 2000). onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais. depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada. 2006). Zn. Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. 371 . organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente. Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. Metais de transição (Cu. As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas. os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. ou por ligação com uma proteína detoxificadora.. como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos. Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox.

como as brânquias. Abaixo da cutícula.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares.. onde é visualizado estômago. absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo. que é análoga aos rins (Alcorlo e col. hepatopâncreas. transporte de oxigênio.Vista ventral de um crustáceo. “limpeza” de radicais livres. estabilidade protéica.edu/sdunbar/students/epidermis_removed. neste texto (Rainbow. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal. 2003).jpg (04/05/2010). a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais.llu. 2000). Brânquias Pág. protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow. 372 Julho/2010 . bem como transcrição de DNA (Bury e col. 2000).. http://resweb. absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados. músculo e intestino. atuando ambiguamente na respiração celular. como funciona para entrada de químicos para qualquer célula. Figura 1 . A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas. A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. e ação de diversas enzimas celulares. Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo. 2006).

Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos. A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons. as brânquias são cruciais para respiração. incluindo metais traço (Rainbow.jpg/250pxTuna_Gills_cut_out. 2007). Julho/2010 Pág. Dessa maneira. como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias.jpg (04/05/2010). com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada. as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. 2000). O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col. Para muitos animais aquáticos. http://upload.. 373 . Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos.wikimedia. excreção. 2004). essas alterações afetam a fisiologia do animal. Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida. Em animais marinhos. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte.Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico.2004). balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen.

Já no citosol. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo. mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. 2005).. cádmio e cobre. tanto quanto atuam no transporte de cálcio. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada. onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares. (Rainbow. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos. 2000). bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática. 374 Julho/2010 . Fora da membrana apical. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana. 2008. Modificado de: Freire e col. (d) endocitose.. Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág.

incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial. O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas.. (http://recursos. A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial.2002).mec.. No entanto. 2007). celular e tecidual (Yang e col.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos. 375 . demonstrando o glicocálice. Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular. proteínas transmembranas. as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood. lados hidrofílico e hidrofóbico. O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos. No entanto. 1999). (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais. o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular. implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col.cnice.es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral. incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood. A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase. e desse modo. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col. o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow. 376 Julho/2010 . 2000). Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade. 2000). Desse modo. (Rainbow. (b) segunda pela tomada continua de cobre . e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág. 2000).. 2000). então a água entra osmoticamente (Rainbow. um dos caminhos de tomada. em relação ao meio. posteriormente potencializando a entrada de metais. uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. 1999). os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1. 2000).2002). sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. aparenta ser através de canal apical de sódio. particularmente nas brânquias e no fígado. O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. Dependendo da concentração de sódio no ambiente. sendo sensível ao sódio. a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente. O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão.2002). No entanto. 1999).2002). a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. (Rainbow. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow..2002). uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L).

seqüestro e regulação (Yang e col. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood.1992). o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. como acúmulo interno negligenciável. a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa. em todos os casos. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais. as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang. 2000). Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood. Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação. é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes. o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col.. 2007).Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. ATPase basolateral ou em ambos (Wood. Para a fase aquosa do zinco. cobre e zinco produzem hipercalcemia.. Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág. Em ambientes poluídos. tanto pela água quanto pela dieta. as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal.2002). De todas as concentrações testadas de metais essenciais.2005). 1998). O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco. No entanto. De acordo com o tempo de exposição.. Em peixes. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória. Geralmente.2005).. Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes.. Zinco O zinco é homeostaticamente regulado. 377 . talvez em um nível mais preciso do que o cobre. 2007). Então. 2007). retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col.2002). mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col.

Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca. 2000). é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes. incluindo reparação dos danos celulares. absorvendo pela superfície branquial.. aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col. por exemplo. Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. 2000).2005). 2000). Pág. O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. 2006).. 2000). Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. O zinco também é abundante nos sedimentos. A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência. A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos. ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. incluindo controle do fluxo metabólico. mudanças compensatórias. Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. 378 Julho/2010 .. A lagosta. e assim na diminuição da performance respiratória. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos. 2004). A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos. Já a longo prazo. 2001). Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos.

quando os níveis de metal estão muito altos.. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. Além disso. transporte por canais de proteínas. respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow. A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. da poluição por metais pesados (Yang e col. Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas.. 2006). uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário.. Na membrana basolateral. Em organismos expostos a metais pesados. 2006). difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col. a metalotioneína. ou seja. desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood. 2007).Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. 2002). o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall. independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio. Mas por outro lado. 379 . 2006).1992). mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col. 2000).Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood. 2000). Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col. É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio. Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. 2007). 2006).. a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons.

380 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais. justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. sendo que. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. 2006. A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. 2006). a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos. nutrição.Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col. Mozeto e Zagatto.). 2006. dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos. respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial. relações térmicas. sendo assim. indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke. 2006). estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional. 1998). levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares. metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo. 381 . Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. No ambiente aquático. frente a alterações antrópicas no meio ambiente.Rocha Oliveira Vieira Lab. 2001). antagônicos. de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. as ações antrópicas são muito evidentes.br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático.

1998. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. além disso. em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos. Pág. 382 Julho/2010 . Camakaris e col. 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo. 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. Apesar disso. McGeer e col. normalmente. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados.. e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001.. 2005. 1999). participando de processos fisiológicos.. são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. cobre (Cu) e manganês (Mn). oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. 2002) mas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi. duração da exposição. muitas vezes.. 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos. provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col.. os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas. 1997. existem metais como chumbo (Pb). por outro lado. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. 1997). 2004) e à poluição.. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos. ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col.. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado.. zinco (Zn). além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col. Camakaris e col. MadsenMoller. Wannaz e col. Van Ho e col.. idade e espécie do animal (Kostial e col.. 2003). estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone. 1978.. 1997. em baixas concentrações. Alguns metais. via de entrada no organismo. tais como sua forma química... 1994). 2006). (Chen e col. são os chamados metais essenciais. Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). cádmio (Cd) e mercúrio (Hg). porém os efeitos deletérios sobre as populações. Celik e Oehlenschager. Metais Os metais. 1999. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. considerado micronutriente essencial. são importantes no metabolismo. no litoral e rios próximos a centros urbanos. 2003). em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo. Órgãos como fígado.

Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas. seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. 383 . dos citocromos. OH-. SO-.. liases. O alumínio não é muito solúvel em água. lipídios. 1985). glutamina sintetase. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree. no entanto. reprodução. por exemplo.Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês. proteínas e carboidratos. pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col. mas em associação com outros compostos como. PO-. 2008). Freeland-Graves e Llanes. 2004). 1990.1994). além disso. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. Lydersen.1999. age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. 1987). Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. fosfoenolpiruvato. Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune. apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. catalases e peroxidades. de receptores excitatórios de glutamato. 1995). hidrolases. 1990a). F-. Si. em seu estado divalente. regulação de glicose no sangue e energia celular. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano. descarboxilase e manganês superóxido desmutase. H. Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. transferases. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. O. isomerases e ligases. Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase.

Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos. 1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. e o alumínio na forma de hidróxido. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas. 1980. 384 Julho/2010 . Wilkinson e Campbell. Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. 2008). este metal se acumula nos rins. 1993). Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta. pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. pode ser encontrado em três formas: elementar. os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. agregação.. No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. Apesar de muitas semelhanças. 1986). 1984). via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. torna-se rico em cargas positivas. fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. inorgânico e orgânico. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. 1977). 2006). 1996). Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis.

385 .. 1978). Cd. uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. Além disso. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. bicarnonato. devem ser considerados como um critério de risco em si. 1987). (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. a entrada de vários metais. Alternativamente a este processo. 1988).. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. 1994). tais como.Ecotoxicologia Aquática celulares.. grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. Pb. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio. Zn. os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína. Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. assim como no intestino. especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col. 1993). Julho/2010 Pág. Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas. e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions. células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. 1986). o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. glutationa e bicarbonato (Foulkes. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos. estas células acumulam eficientemente estes metais. desde molecular ao ecossistema como um todo (Who. 1985). a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col.

São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares... 1994). 1997). 1992.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. a morte celular (Winston e Di Giulio. condições oxidativas. Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. 1989a). Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. ácido ascórbico (vitamina C). 386 Julho/2010 . 1993). 1991). 1992).. anóxia. finalmente. A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão. Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas. e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col. As atividades das enzimas antioxidantes. alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col.. metais e xenobióticos (Sanders. possivelmente levando a inativação enzimática.. Lopez-Torres e col. que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação. que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD). Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). catalase (CAT).. que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col. vitamina B. 1992). 2000) Pág. peroxidação lipídica (LPO). Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH). danos ao DNA e. peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). 1993). São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose). betacaroteno. luz ultravioleta. rico em cisteína. pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. são as metalotioneínas (MTs). este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col.

mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey.1993).Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. além disso. como as transaminases. 1995). como hematócrito. Os metais. Kasprzak. (Sole e col. 1990. Parâmetros imunológicos . Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. 1997). outros parâmetros hematológicos.. Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos . podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes.. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese. 1986).Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas. 1994). Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. Parâmetros reprodutivos e endócrinos.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores. O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos. no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col. Apesar de serem menos específica.. 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg.O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col. A presença de enzimas específicas.. na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich. deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág. 2010). Dix e Aikens. 1990. Fe3+ + HO. Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes.+ HO . especialmente reações catalisadas por metais de transição.. (1989). como os sais de ferro. proteína e glicose. hemoglobina. como revisto por Vos e col. O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. 387 . os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col.

pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água. II e III. um importante determinante da atividade de um composto. 1992. O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I. Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col.. localizadas principalmente no retículo endoplasmático.. A Fase I é uma alteração de oxidação. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode. pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. 1992). Vermeulen. Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato. portanto. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente. A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição. 1996). 1995). 1991). quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. 1996).. 1990). o composto ou os seus metabólitos. 1990). 1985).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência. a longo prazo. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. redução ou hidrólise da molécula original. Parâmetros neuromusculares . 1998. 388 Julho/2010 . Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais.Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col. Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores.. mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase. Pratap e Wendelaar Bonga. O metabolismo é. liga-se a macromoléculas celulares.. a biotransformação ou metabolismo. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo. que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik.

.Ecotoxicologia Aquática a excreção. esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti. 2006). um açúcar ou aminoácido. peptidases. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis. Macroalgas (Conti and Cecchetti. Mulder e col. Adicionalmente a isto. As enzimas da fase III. além da ocorrência natural e abundante. As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col. 2003) . 2007). 2003.. 2001. estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd.. 1999). Cu e Zn (Roncarati. frequentemente um grupo químico polar. não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col.. 1995. esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células.. 2003). 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos. 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly. Conti e col. uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente..... são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki.. Van Ho e col. 389 . 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col. estes. mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados.. Invertebrados Julho/2010 Pág. 1990).. 1995). e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. (Bucheli e Fent. 2003) e microalgas (Tripathi e col. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno. 1995).

inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág. no consumo de oxigênio que por sua vez. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris.. 390 Julho/2010 . e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M. 1996. 1992. hipóxia e hipercapnia. 2001).. 2000. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram. 1990. altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais. 1979a. 1991. Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma. Além disso... R.b) e brânquias (Mouneyrac e col. em um estudo com três espécies de bivalve (M. por sua vez. edulis. Vários autores observaram ainda nas brânquias. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais.. houve um aumento no metabolismo aeróbico.. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. McGeer e col. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs.. 1990). podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. por exemplo. galloprovincialis. M. 1993). (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal. perda de eletrólitos. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col. Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas. M... 1992). Pelgrom e col. Partearroyo e col. e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat. decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. 1992). O alumínio. Handy. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. edulis.(Howells e col. 1992. Bebianno e col. hepatopâncreas (Viarengo e col. Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. decussatus). como conseqüência. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante.. (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial. principalmente Na+ e Cl. Além disso. foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT. 1985). provoca acidose plasmática. Schlenk & Benson.. 1984. Rosseland e col. 2003). Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre. Olafson e col..

. 1997). disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics. em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col. além disso... exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard.o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col. Wong e Wong. 1993) e redução de progestágenos (Correia. 2007).. e col. onde este metal parece inibir o complexo I..Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann. alterando as fosforilações oxidativas (Chen. 2004). 2000.. Dautremepuits e col. 2010). Em truta arco-íris. esta dependente de dose. 1995). espécie e via de exposição (Wong and Wong. 1988).Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 1988. 1988. estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga. Jiraungkoorskul e col. Sanchez e col. com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney. lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col. mesmo em baixas concentrações. 2003. 1995). experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade. Goossenaerts e col. 2000. já citadas anteriormente. Ali e col. 391 . Os disruptores endócrinos... 2001. gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col. 2005). A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS). vitelogenina. O mangânes tem sido associado a citotoxicidade. Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais.. levando ao estresse oxidativo. 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT). seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. 2000).1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas. Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág.1998). especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree. já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias. 1987).. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais. Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam.

inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. 1998). 2001. 1997). Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col.. é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col.b.. O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson... Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto. O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col. Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar. 1985). em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5. Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col.. 1991) e crônico (Hontela e col. 1982). 1997 a.. Devlin e col. A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. 1984.... 2001). níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col. Freda & McDonald.. 392 Julho/2010 . apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col. 2001).. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. 1977). mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col. 2003). 1991). reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber. 1995). O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. 1990). 1978).. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento. a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson. 1998). Em adição. que são dependentes principalmente de água da chuva. e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág. 1985a).

1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. 1995.. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte. Cd e Cu no pulmão. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. 393 . 1998). Fagioli e col. encontradas mortas. Sakai e col. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991.. 1998. Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. músculo e tecido adiposo de Caretta caretta. Xu e col. mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis.. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col. Cu. valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. Burger e Gibbons. Mn. Ni.. encontraram altas concentrações de metais pesados na casca. 2002b). caretta (Dinelli e col...Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. 1996.. Mn. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col. Manolis e col. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. 1999. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. para completar. 1999. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política. 2000 a. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos.. E ainda.b). 2001. e Zn no fígado. incluindo tartarugas (Caretta caretta. Fe. A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. 2000. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. Dinelli e Lucchini. (2006). da região do noroeste da Itália. 2000. Tankere e col. pulmão. Cu e Zn em sedimentos. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência. Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. econômica e cultural.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência. Pág. porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados. 394 Julho/2010 . talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes. A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental.

br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. infertilidade e tumores. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos. 2007).Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos. Dessa forma. (do inglês. especialmente os envolvidos na reprodução. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. principalmente na ecotoxicologia. 1999). 395 . respectivamente. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova. Julho/2010 Pág. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. 2008). pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. não apenas na fauna aquática. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col. inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura.. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. ou EDC). ou ainda “disruptores” endócrinos. invertebrados e anfíbios. endocrine disruptor compound. Nesse contexto. fitoestrógenos e metais. como por exemplo. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais. sendo. má formação do trato genital.

como por exemplo. o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law. Pág. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. desempenham diferentes funções fisiológicas. torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como. enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. 396 Julho/2010 . 2002). necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. por exemplo. portanto. considera apenas dados para animais vertebrados. moléculas de determinados hormônios. para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. levando em conta a importância ecológica dos invertebrados. Isto é alarmante. 1998). Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. sendo. negligenciando representantes dos filos de invertebrados. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. ou invertebrados. 1996). avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. 2002). em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. por exemplo. por exemplo. uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides. Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. Não obstante. não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. semelhantemente para invertebrados. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. 2002). peixes e anfíbios. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. e em última instância. a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). portanto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade.

possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). (2004). sugerem que “metais pesados”. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica. (2000) demonstram que vários metais pesados. a regeneração de membros. como por exemplo. 1999). ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col. para os invertebrados. Uma vez absorvido. pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col. 2005). o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios. podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. Barata e col. e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH.. estes dados são escassos. além deste efeito. entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores.. afetando a reprodução e o crescimento. Julho/2010 Pág. possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista). 397 . Metais. o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. Tratando-se de ecotoxicologia aquática. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação. 1999). Rodríguez e col. Entre outros efeitos. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col. Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos. Cd e Zn) (Depledge. o desenvolvimento gonadal em mexilhões.1998). tem efeito direto sobre crustáceos. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. a concentração utilizada e o tempo de exposição. o Cd.. como Hg.Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. com exceção de crustáceos e insetos. 1999). O Cd. tais como: o metal testado. pois pode ser absorvidos através de canais de Ca. Cd e Cu induzem a hiperglicemia.

TG: gânglio torácico. Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos. Por exemplo. 398 Julho/2010 . MF: methyl farnesoato. MO: órgão mandibular. 2007). MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular. HEP: hepatopâncreas. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson. (Modificado de Rodrigues e col. Figura 1. dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados. A. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e. de preferência. AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina. OH: hormônio ovariano. 2007). ecologicamente importantes.XO: órgão X.: glândula antenal.. GIH: hormônio inibidor gonadal.Gl. AG: glândula androgênica. A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil. B: cérebro. bem como no local íntegro (controle). SG: glândula do seio. outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. contudo são muito sensíveis a diversos Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. Além disso. GSH: hormônio estimulador gonadal. OV: ovario.Controle endócrino da reprodução em crustáceos . espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental. CHH: hormônio hiperglicemiante. T: testiculo. de preferência apresentar dimorfismo sexual.

a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col. decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona. 2007). a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. GTH – I e GTH – II. 399 . Julho/2010 Pág. 2004). Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. por outro lado. Portanto. respectivamente. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. 17α. Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos.Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido. chamadas de gonadotropinas.. seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil.

Pág. são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. Fe). Cu. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides. ou seja. envenenamento por chumbo. 1998). Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente. está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. Mn. Pb. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA).. Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas. como por exemplo. tais como a doença de Wilson. o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. respectivamente (Blazquez e col. Um segundo grupo de doenças neurológicas. 400 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina. 1995). todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. uso de medicamentos (Li.

na regulação dos processos reprodutivos. e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. Julho/2010 Pág. os dados ainda são controversos (Manzo. Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo. 2007). como por exemplo. entretanto. proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col. Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas. a SOD manganês (superóxido dismutase). sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col... 2007). 2007). cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. por exemplo. Bi. 401 . lipídios. tais como a doença de Alzheimer. no metabolismo de carboidratos. Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos.. Na verdade. doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos.Ecotoxicologia Aquática cisplatina. no entanto. 2007). Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. logo Zn. efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo. e a esclerose amiotrófica. 2008). a doença de Parkinson. 2008). Pb.

pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. particularmente os astrócitos. a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular. 1988). entre outras. 402 Julho/2010 . Algumas células do SNC. o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez. No caso do alumínio. incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. um estressor. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. rigidez e distonia (Gerber. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. endócrinas (Campbell & Bondy. que não se limita a estes países. Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos... globus pallidus. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório. não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. 2003). imunológicas respiratórias cardiovasculares. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. 1997). 2003). enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. putamen caudato. um íon metálico. esqueléticas. regulam o metabolismo de neurotransmissores. 2001). entre os quais estão alterações bioquímicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês. Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. neurológicas. Em países escandinavos. Pág. portanto. 2002)... Alumínio A exposição às altas concentrações de Al. insuficiência renal avançada (Zatta e col. assim como de Mn. 2004). independente da rota de absorção. Segundo Erickson & Aschner (2003).. mais especificamente em estruturas do gânglio basal. 2002). como o gaba. hematológicas. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro. 2007). cujos sintomas são bradicinésia. o glutamato e a dopamina. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. como por exemplo.. resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos. substância negra. 1991). quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col.

a agregação. mas sim sob a forma mineral. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas. pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais. a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith.Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. De maneira geral. 2002). Este metal não é muito solúvel em água. As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. 403 . 2002). este metal. pois influencia a hidrólise metálica. 1996). 2008). em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col. A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração. pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo.. O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. 2007). sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col. Entretanto. 2003).. O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col. sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col.. desde simples formas iônicas a polímeros. colóides e partículas. a polimerização.. íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides.. 2008).

Berg e col. 2004). Como nos mamíferos. 2003).. 1988). Tam e col. o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col. porém. Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. Atualmente. no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido.. Nesse contexto.. ou a expressão do LH. 1997). Como mencionado acima. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP. Nesse caso. 1995. 1998.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col. 1991. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi. ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime... apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col. o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. No entanto. pois esse metal em pH 5. 2010). Hwang e col. 2005).one (17.. portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. 1987. sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. Vuorinen e col. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. 404 Julho/2010 . 2005).. Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col.. 1996). 2003). o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH. Kime.. 1997). 2000. 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 . proteínas quinases (PK) (Méndez e col. niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese. Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma.. 1988. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática..20 P). após exposição aguda (96 h). 1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen. maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col. Tam & Zang. é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col. é importante notar que Morrissey e col. também conhecida por MIS (do inglês... 2010). Portanto. responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α. Na verdade.5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col.

resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado.Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope. Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. Este mecanismo foi sugerido para o Al. 2000). Por exemplo. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino. 1998).. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS). 1997).. deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar. 2001). e a Gln. pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados. pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col.Sugere-se que o Al. no metabolismo de Glu e GABA.. Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG. pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. Hwang e col. PKG (proteína Julho/2010 Pág. quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG. 2007). o glutamato (Glu). inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2. a fosvitina (Mugyia e col. 405 . por conseguinte. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al. como o Zn. são reversíveis. 2003). e a VTG quando transportada no plasma. 1987). GABA e DA ainda não foi elucidado. 2002). uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. impedindo a formação do complexo ER-E2. possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). consequentemente. principalmente. por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. liga-se a íons metálicos. o Glu é transformado em glutamina (Gln).

2005). 1993). 2005). O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE). sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH.. e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados. LH e FSH (Stocco e Clark.. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide. Após isso. No início da esteroidogênese gonadal. 2000)... Experimentos conduzidos por Chang e col. o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng. Além disso.adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos... como por exemplo. 2005). 1996). Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas. (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. 406 Julho/2010 . o citocromo P450scc (side chain clivage). Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS.. 1996). embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. FSH e E2 gonadal (Lee e col. 1994. bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. que por sua vez. Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág. 2007. sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col. 2006). estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col. A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T). impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc. na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH. ativa receptores α 1 .. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente. no aumento da liberação de LHRH (Lee e col... o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). Pine e col. 2007). Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col. estes resultados sugerem que. existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. Globalmente. 1993). embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. 2003). assim. 2007). aumentando o cálcio intracelular (Ca2+).

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