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livro2010

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Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

03 Capítulo 2 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. Pedro Ribeiro e Dr. 22 pág. 2 Julho/2010 . 13 Capítulo 1 pág. 21 pág. 17 pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 09 Pág.

. o mais confiável possível. Any specific branch of this general body of knowledge. Desde séculos antes de Cristo. este está relacionado com o verbo. vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. 2. seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. Existem várias definições de ciência. Deste modo. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex.camacho@usp. geology or astronomy. os homens) e termos particulares (Ex. Bayes. Fisher. tais como Aristóteles. existem termos gerais (Ex. seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento. empiristas e estatísticos. Uma definição bastante completa é: “1. talvez pelo resto das nossas vidas. espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. filósofos. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. 3 . Underwood e Jaynes. ou lógica aristotélica. 3. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”. “scindo = dividir”. mais ou menos completas. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. Vamos lá: No século IV a. such as biology. também latim. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). De acordo com Aristóteles. todos os homens Julho/2010 Pág. Nestas construções. A continuação. physics. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. sobre a natureza. Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade. estes elementos podem ser identificados e. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo. Bacon. Popper. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. Neste módulo. c.br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. Segundo este método. The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation.” Academic Press Dictionary of Science & Technology.

O conhecimento gerado permitiria. Para Bacon. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. Em 1620. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. Segundo este autor. em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. Porém. expressada em forma de probabilidade prévia. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. entretanto. Para Bacon. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. Para Popper.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. Outro problema é exposto na continuação. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. segundo ele. Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. O sistema lógico inventado por Aristóteles. explicar de forma cautelosa. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. durante muito tempo. situações relativamente similares. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. Deste modo. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). e isto afeta ao resultado final. Segundo este método. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo. Bacon. Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. Desta forma. feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. Em 1670. fazendo com que esta determinação fosse. a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). 4 Julho/2010 .

4) Testar empiricamente as conclusões. modelos. Julho/2010 Pág. teorias. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem. 5 . Em geral. Por isto. uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. amostras. durante sua apresentação de raciocínio plausível. para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. Pessoalmente. citados por Lewin-koh et al. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados. 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. 2004). etc). e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003. Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. Apesar do problema lógico apontado por Popper. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. Para testar as conclusões. uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex. predições ou hipóteses). hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. Na literatura. neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). Assim. Sober 1999 e Lloyd 1987.

2). 4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. em lagartos. que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994). 6 Julho/2010 . 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 . muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens. 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia.Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento. Imagine que queremos saber se. Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram. Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. 2008). Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950. morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág.

a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. 2. Hoje em dia. os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. Sob a hipótese de parentesco B.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. Assim. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. Você concorda com esta forma de proceder. 7 . Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). Por exemplo. Sob a hipótese de parentesco A. pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. tanto métodos falsificacionistas (Ex. Por outro lado. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas. Para isto. Deste modo. Entretanto. esquerda). ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. na fisiologia comparativa. as espécies de cada tratamento são aparentadas.

8 Julho/2010 . Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto. mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se.

a solicitação de xérox ou arquivos ”. Você sempre deverá começar com uma pergunta que. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor. as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida. Julho/2010 Pág.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. 9 .PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal. “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. com artigos mais antigos. mediante prévio pagamento. Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science. 1987). É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”.). Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. Zoological Records. Biological Abstracts. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters. Em são Paulo. ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos. Por último.br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. ou site do laboratório onde trabalha. Google Acadêmico etc. Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. para ter certeza de que vale a pena respondê-la.camacho@usp.

Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. Desenho das observações que respondem à pergunta 5. 2004). Interpretação 8.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1. Identificação da lacuna de  conhecimento 3. 10 Julho/2010 . Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland. ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland. de maneira objetiva. Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. Quadro 1. 1984). Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4.  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. Execução e análise das  observações 7. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão. permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la. ou hipótese. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais. Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. 1984). Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. Comunicação de resultados  e conclusões. enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. Ex. desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam.Leitura e observações prévias 2. Ainda. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. 2004) (ou tal vez em uns poucos.

Como mostra a Fig. não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. Julho/2010 Pág. 3. 2004). etc. categorias). comprimento. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. sexo. enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. gráficos de dispersão. 2004). o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal. 3). A) gráfico com fator categórico. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. 2004). mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis. concentração. B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão. 11 . Exemplos de gráficos de dispersão. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. peso. as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. As variáveis contínuas proporcionam mais informação. Por outro lado. tratamento. como variáveis categóricas podemos citar cores. ou scatter plots (Magnusson e Mourão. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. Podemos encontrar dois tipos básicos.

12 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Julho/2010 Pág.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral. se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire. repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. Para um cientista. Entretanto. a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. Entretanto. de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. Por exemplo. deveremos realizar observações que a respondam. 2002). No verificacionismo. um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores. um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. 13 . compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes.camacho@usp.br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la. Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões. para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. 1984). compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo. influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.

14 Julho/2010 . Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo. Associado a este tipo de experimento. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação. queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores). que hipótese suporta melhor os dados). Pág. houve /não houve diferença. maior do que o ruído. variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações. Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente.4). a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. uma vez isolados possíveis fatores de confusão. 4). “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável. ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig. Neste caso. Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito.

ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. de modo que faz com que seu valor esteja relacionado. 15 . confiança e pseudorepetição. decidir quantas observações serão necessárias. estão relacionadas por um fator de confusão. Por exemplo. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. e como serão feitos os controles. Agora.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo. Finalmente. Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). Para entender a relação entre fatores de confusão. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles. as repetições são chamadas de pseudorepetições. se você pergunta a um(a) colega. sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas. vamos lá. Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. mas isso não acontece com as pseudorepetições. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. pseudorepetição e confiança. na realidade. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. é importante neste caso!). apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada. pag. 4. 16 Julho/2010 . Pág.

Um relatório de pesquisa deve ser tão claro. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. discussão. Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa. e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. A continuação. Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. segurança. preciso e curto quanto seja possível.). solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. etc.. as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter. Iremos nos estender mais nas seções de resumo. O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema. referências neste capítulo. Bom. Passou tempo lendo. busque textos (Ex. material e métodos. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. resumo. Veja dicas úteis sobre o título.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. Assim mesmo. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). e você deve dominá-las desde o começo. tudo isso pode não ter servido de nada. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. falta dinheiro. resultados. infra-estrutura falha. agradecimentos e referências na tabela 1. Para isto. não lhe entendiam bem. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág. se você não tem cuidado no que vem agora.camacho@usp. às vezes. pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. agradecimentos e referências. material e métodos. Basicamente. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam. Suas idéias sofreram críticas. resultados e discussão. introdução. uma grande dose de experiência é necessária.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência. consta de 7 partes: título. 17 .. introdução. você teve que esperar longas burocracias (licenças.

1). mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. 1966). Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. estes devem seguir a mesma ordem na introdução. reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. 18 Julho/2010 . Agora. Na discussão. o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. explicando corretamente para ele. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. Se nos nossos resultados. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. Em seguida. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág. mas evitando redundância. e serem numerados. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. material e métodos. A fim de facilitar a interpretação do leitor. eu digo a você que. Os dados. curtamente. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram. Isto implica em descrever as observações feitas. é porque você não entende bem o que está fazendo. Concretamente. Por último. as técnicas. Busque críticas. Desta forma. este é o lugar onde se deve apontar. em forma de hipótese a ser testada. de forma que possam ser referidos no texto. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. seja crítico e ajude à ciência progredir. podemos enganar aos nossos leitores. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível. Se o relatório tem vários objetivos. devem ser apresentados em forma de tabelas. resultados e discussão. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. quando numerosos. Pior ainda. Por último.

A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. 19 . via de regra. Assim mesmo. Isto faz com que todos nós cometamos erros. Julho/2010 Pág. são complicados. Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. Para evitar erros em seu experimento. a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. tratamos com assuntos que. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos. Espero que lhe ajude. A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo. Lembre-se que em ciência. Considerações finais. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele.

os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações. as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos. aparecem na seção referencias? Pág. 20 Julho/2010 . e só as que estão no texto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses.

Julho/2010 Pág. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. mas ainda não conferida. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito. aquela teoria que pode ser testada. Teste: prova. exame. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. do especial ao geral. Conclusões. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. ensaio. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro. deve ser um conjunto de enunciados. Para Popper. previsões. prévia a um experimento.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. sobre outro possível descritor. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. 21 . (ex. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. Teoria: explicação sobre um fenômeno. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies. Teoria empírica: Segundo Popper. seja esta tomada sobre uma população. a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. estes animais não são aquáticos. a partir de uma amostra da mesma. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo.

L. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53.adelaide. Quinn G. Bibliografia Aldrich. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922. W. R. Cambridge. Ribeirão Preto. (2003) Probability Theory: The Logic of Science. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. E. USA. 1. Cambridge University Press. 557pp. Por A.inrialpes. Cambridge University Press. Amorim. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar. Disponível em: http://ebooks. New York 366 pp.L. A brief tour of statistical concepts. 370–418. Aristóteles (350 A. Morris Books. How To Write Backwards. Londrina.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009). Subhash R. M.(1959). (2002) Fundamentos de sistemática filogenética. 2342 pp.wikisource. D.edu.J. 567p. W. Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. Peters.au/ (Maio 2009).fr/Jaynes/prob. (1991) A Critique for Ecology. sendo influenciada pelos fatores. Ruído: variação não devida ao fator. G. 1997. First English edition by Hutchinson & Co. e Subhash R.162-176. Cambridge University Press.L. E. Brazil. Escondido.C). K. American Statistician 38: 26-19. S.P. 154 pp. Pág.). Morris C. The logic of scientific discovery.J. Bayes. Popper.12. Statistical Science. (1620) Novum Organum. Editora Holos. Bulletin of Ecological Society of America 77. (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances. N. S. Lewin-Koh. The nature of scientific evidence. Mourão. E. W.. philosophical and empirical considerations(eds. (2002) Experimental design and data analysis for biologists.html (maio 2009).. Prior Analytics (livro 1). J. Spedding http://en. Taper. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology. Disponível em: http://www-biba. Taper. Cleveland. (2004) Statistics without Math. California. (1987) Graphs in scientific publications. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. Disponível em: Jaynes. Jenkinson. (1996). The university of Chicago Press.Trad por J. Keogh M. (1858).. 136 pp. Francis Bacon. 8888. 22 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação. Cambridge. T. statistical. 2004. Magnusson. Magnusson. R. A. 59 pp.L. M. R. 545 pp. T. Trad. H.

A general theory of ecology. D. 1:21–28. Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. R. 1987. S. Bioscience 58. J. M. Underwood. 97-115.C. M. Julho/2010 Pág. North Holland press. P.. B. 1960. Suppes. Willig. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. Sober. Underwood. Wiens. Some modest advice for graduate students. Cambridge UP. 392pp. Systematics and herpetology in the age of genomics.. 2008. Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. J. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics. Cambridge university press. E. Stearns. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. 1997. Chapman M. (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. S. Technical report Nº 33. e Connell. 297–307. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. G. A. R. A. naturelles et sociales”. 522 pp. J. 2008. Theoretical_Ecology. S. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. Scheiner. J. 23 . 2008. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques.

24 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais. que coordena o crescimento. bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias. Neste módulo. .moraes@usp. Além disso. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia. como é o caso da malária.br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia.

S. 49 Bibliografia pág. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. 66 Pág. 26 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág. Daniel Carneiro Carrettiero pág. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra. Célia R.

ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções.br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células. endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci. por meio da evolução a partir de uma única célula. levando a uma diminuição da taxa metabólica. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. sinais intracelulares devem ser transduzidos. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col.moraes@usp. para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col. originando os verdadeiros seres multicelulares. A maioria das Julho/2010 Pág. que formavam estruturas designadas colônias. Nos organismos multicelulares. 2003). 27 . foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. os quais levaram ao aparecimento de órgãos. Contudo. Além disso. Muitos hormônios. 2003). 2003). quimiocinas... para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais). 2007). mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. além de uma maior independência em relação ao ambiente.Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Para garantir o sucesso e a diversificação da vida. que mais tarde originaram tecidos. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer. A diferenciação celular. neurotransmissores. Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares. a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente.

os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. Ainda. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. chegando muitas vezes ao núcleo. ativando múltiplas vias de sinalização. ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. 2007). cuja célula alvo encontra-se distante. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade. Deste modo. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. 28 Julho/2010 . Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. atravessar a membrana e atuar dentro das células. em hidrossolúveis e lipossolúveis. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. portanto. enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. Pág. essa região é conhecida como fenda sináptica. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea. e dessa forma. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo.. que possam interpretar os sinais. os quais são lançados na região entre neurônios. Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. 2003). os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial. por exemplo. 1) (Rang e Dale. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. os quais são chamados de hormônios. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. 2007). os chamados receptores.

enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. Adaptado de Rang e Dale. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. consequentemente. 29 . 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. que é iniciada por um agonista. mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. 2007). 2003). porém sem causar ativação desse receptor. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág. Os agonistas ativam os receptores. a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e. os receptores são agrupados em quatro superfamílias. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor.

Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina. Figura 2 . receptores solúveis no citosol (Fig. γ. 2003). Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α. O primeiro receptor dessa família a ser clonado. δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. (2) superfamília tipo 2 .receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). β. 3). 2).. 4). receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. permitindo o fluxo dos íons (Fig. cada um na interface das duas subunidades α. foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR).Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. β. Na ausência de um neurotransmissor. tirosina quinase. Sua estrutura pentamérica (2α. receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras.receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). Para que o receptor seja Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 . O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col. (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos. 30 Julho/2010 . γ. o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos.

que são canais de sódio ou cálcio. 2003. mesmo quando a despolarização é mantida. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. 2003. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i. como acetilcolina. o canal se abre quase que instantaneamente. (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares. cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal.. podendo levar à despolarização celular. Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular. dessa forma.Sinalização Celular ativado. potássio e cálcio.. hiperpolarizando a célula. tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. O influxo de íons através Julho/2010 Pág. 2003).. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). Retirado de Squire e col. plasticidade sináptica e neurodegeneração. se abrem. ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios. como é o caso de GABA e glicina. 31 . 2007). Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso.Esquema de abertura do canal. Figura 4 . duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato. que são canais de cloro (Squire e col. glutamato. Retirado de Squire e col. permitindo a passagem de íons (Rang e Dale.

postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. 2002). 2005). lipídeos. 1998). essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal. 2007). 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor. A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. 32 Julho/2010 . β. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. 5). como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col.5’ monofosfato (AMPc). Pág. Quando a proteína G é ativada. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G. γ – no interior da célula. aminoácidos modificados. neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. fosfoinositídeos.. Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα. Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. íons. Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz. Recentemente. A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ. o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. nucleotídeos. 2002). o GDP é liberado. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col. as quais estimulam a geração de adenosina 3’. Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. Em termo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico.. uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). esteróides.. (Fig.

Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz. 2008). como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. 2001). Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág. Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. 2002). as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα. 33 . 7) (Cabrera-Vera e col. A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. levando a ligação do GDP a Gα.Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G.Sinalização Celular Classicamente. promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi).. Em alguns casos.. Gαq e Gα12/13 (fig. Pierce e col. Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. Figura 5 . 2003. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc. as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. Gαs. Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos.

a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz. levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos. Pág. e duas subunidades catalíticas (C). a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. 2005). o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs). 2001). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). Na ausência de AMPc. e subsequente liberação da subunidade (C). PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. 34 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. Na sua forma inativa. Depois de formado. Após ativação. Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase.

5bisfosfato de fosfatidilinositol. A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. 8). A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. Quando a proteína Gq é estimulada. a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático. a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular.5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). Julho/2010 Pág.4. ou ainda. A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig. promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R).Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G. gerando 1. 35 . o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci. e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. e as setas em verde a ativação. Uma vez ativada.Sinalização Celular Figura 7 . 2007). promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ). A subunidade Giα inibe adenililciclase. O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação. Em muitos tipos celulares. IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. promovendo a diminuição de AMPc. podendo ser clivado. gerando ácido araquidônico. As setas em vermelho representam inibição de um componente da via.

. incluindo proliferação. Existe ainda uma superfamília de proteínas G. dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. essa cascata de Pág. diferenciação. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. tirosina fosfatase. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos. migração. 1999). As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. ou Ras. O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas. 36 Julho/2010 . os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. 2008). serina/treonina quinase. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α). Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. os receptores do tipo I e II. maturação e apoptose. desse modo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. guanililciclase. para o interior das células.

resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. Janus Kinases (Jaks). Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). 2007). Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. (Levitzki. desfosforilam proteínas celulares. Nas vias de sinalização de receptores monoméricos. Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. fator de crescimento de fibroblasto (FGF). a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada. migração. as quais incluem Src. Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. Em adição aos RTKs. os receptores tirosina fosfatase. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). diferenciação. A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor. 2000). através da manutenção da pressão arterial. uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. levando a proliferação. 37 . Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP).Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. 2003). As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores. tais como fator de crescimento epidérmico (EGF). Em contrapartida. 2009). resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. 2008) Julho/2010 Pág. Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. 9). 2000). Ab1 (Fig 10). As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos. c-Fos e Elk-1.. A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. ou mudanças metabólicas. quando ativados por ligantes.

38 Julho/2010 . Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase. Pág. envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas. Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase.

e um domínio c-terminal menos conservado. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. não esteróides (hormônios da tireóide. metabolismo. e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles. retinóides. (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. fosforilação e interação com outras proteínas. dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros.. e assim são classificados dentro de quatro grupos. (4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad. 2002). O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág. mineralocorticóides. derivados de esteróides (vitamina D3). 1997). esteróides. retinóides. retinóides. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps). Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart. prostaglandinas e vitamina D3. de ligação ao ligante (LBD). Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. homeostase e doenças (Togash e col. Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. A ligação do hormônio leva a mudança conformacional.ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. 39 . vitamina D. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). 1995). Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo. Em geral. como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col. colesterol entre outros. 2005). andrógenos e estrógeno). um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD).Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio.. A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional. A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos.

O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares. O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco. Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. homodimerização. Modificado de Rang e Dale.. Pág. 40 Julho/2010 . 1995. translocação para o núcleo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. 1995). 1997). heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col. 2007.. Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col. O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação. Tenbaum e Baniahmad. Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares.

no laboratório.wikipedia. P. 41 . 2005). na África). vivax (Who. falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença. principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. a maioria dos casos é de P. como modelos experimentais. gambiae. no Brasil e A. darling. A Africa subsaariana concentra 90% dos casos. malariae. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil. 2005).com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who.Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico. Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. falciparum.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. quando os insetos hematófagos já existiam). Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária. P. que transmite as espécies infectantes humanas P. P. ovale. 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. (Fonte : http://en. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. vivax e P. No Brasil.png) Julho/2010 Pág. É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios.

um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. Contudo. Pará. Maranhão. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. Roraima e Tocantins. 1993. responsáveis por recaídas.. Rosenthal. por exemplo. Rondônia. Além disso. Nos Estados fora da Amazônia Legal. área endêmica do país. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. para avaliação dos efeitos colaterais. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col. no Brasil. Amapá. apesar das medidas preventivas. A incidência da malária. Atualmente. no entanto. grau de risco da infecção da área de destino. 1996). Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão. o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea.. 2002). Pág. aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. 1998). perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias. os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. 42 Julho/2010 . pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. Amazonas. Mato Grosso. composta pelos estados do Acre. 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem. 1991). e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica.

(Chouaibou e col. 2). trofozoito e esquizonte. Estes. 2006). o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. a forma infectante do mosquito (Garcia. que retira 3 a 4 microlitros de sangue. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos.org/wiki/Malaria). após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT. fêmea. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles. Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel..Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria.wikipedia. que mede 1. 2006). Por um processo ainda desconhecido.000 merozoitos. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en. 2001). 43 . que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col.0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. Para o fechamento do ciclo. Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados. Uma vez na corrente sanguínea. os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito.6 X 1.. Julho/2010 Pág. Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. de vida intracelular obrigatória. enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos.

estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P. 44 Julho/2010 . cathemerium P. vinckei P. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab. 1) Tabela 1. respectivamente (Garcia. knowlesi P. bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium.. típicas da doença (Hawking. Foi demonstrado por Hotta e col. Dependendo da espécie de parasita. os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. vivax.. falciparum e P. gallinaceum P. portanto.. inui P. cynomolgi P. berghei P. (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. o responsável por toda manifestação clínica na malária. 2001) (Tab. Parasita P. Quando se mantém parasitas em cultura.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. falciparm P. 1). e col. vivax P. malariae P.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é. coatneyi P. 1970). yoelii P. e col. chabaudi P. 2001). Pág. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico.

2005). como organização do citoesqueleto.. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ). (Hotta e col. A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência. que são devirados do triptofano.4. Como qualquer célula eucariótica.5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE).. Gazarini e col. 1997. 1998). 2003). É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. 45 . plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. 2003). que está presente em grande quantidade na glândula pineal. divisão e diferenciação celular (Berridge. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia. As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. (Garcia. 1999. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col. Hotta e col. 1997. 2003). no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM. Dentro deste contexto. 1998. por sua vez. A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados. Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo. Garcia e col. porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. Varotti e col. Varoti e col. ativa a via de inositol 1. 2000).... (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág. Especificamente.. nos estágios trofozoitos do Plasmodium.Sinalização Celular a sincronia é perdida...

Groman. Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania. 1988). Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos. pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba. Barrett. assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. Roth e col. sendo três delas (serine. 3).1999). Em estudos realizados com P. As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. 46 Julho/2010 . pela necessidade do íon metálico para catálise.. O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col. cisteina e aspartil proteases). toxoplasma. Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. 2002). Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col. a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman. com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig. 1994).. giardia e plasmodium (Rosenthal. 1951. degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal.1999). 1986). chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág. 1948.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP). Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro. são necessárias proteases do parasita.. 2003).

2005).(Modificado de Carmona et al. Julho/2010 Pág.Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al. 2009). 47 . 2005). Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF). nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al. Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 48 Julho/2010 .

. 1994). um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing. 1998).Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa. RNAi) em animais.. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col. 2000). 2001). incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col.bio@hotmail. 1993b). 2000. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA). Atualmente. 2001). formação de heterocromatina (Kennerdell e col.com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. animais e protozoários. que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon. 1992). PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas. 2003). O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. durante a década de 1990. uma classe de pequenos RNAs com função regulatória. somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin. que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. fungos. Matzke e col... Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina. 49 . Entretanto.. 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky. Até o final da década de 1980. sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica. Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs. Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty.. 2004a). introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe.

conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles. sem pigmento. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas.. Lindbo e Dougherty. 1996. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág. Entretanto. 1990. Entretanto.. Romano & Macino. O fenômeno foi denominado co-supressão. 1992. Schizosaccharomyces pombe. 50 Julho/2010 . camundongos e humanos.. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs. as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral. Lindbo e col. atualmente denominado silenciamento de RNA. elegans.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional.. e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. Drosophila melanogaster. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. Van Der Krol e col. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. ou seja. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. simultaneamente. 1990. Alguns anos após a descrição da co-supressão. A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS). 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col. 1995). Histórico O fenômeno.. Neurospora crassa. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. elegans).. Van Der Krol e col. 2003). A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col. crassa. Tetrahymena thermophila. Em ambos os casos. 1990). inibindo. cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. 1998).. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. ao contrário do esperado. 1990).. apóiam essa hipótese (Denli & Hannon. 1992). incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. C.. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos. 1996. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. e em animais (Drosophila e C.

1998). 2001.. 1999). observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não.. 1998. 51 . 1999). e VIGS) (Hamilton e Baulcombe. atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs). Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. Kumagai e col. Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. 1998). 1995). 2001. 1995). Ruiz e col.. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col. 1995. Curiosamente. introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno.. elegans. interrompendo o seu ciclo de infecção. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C.. foram primeiramente observados em plantas. 1996. o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA. A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. Além de explicar a especificidade do sistema. Esses pequenos RNAs. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. ou produziam em pequena quantidade. Montgomery e Fire.. Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula. e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. Zamore e col.. os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento. Ratcliff e col. sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno. as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam. A princípio.Sinalização Celular replicação do vírus. A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt). 1995). foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col.. e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. 1998. de orientação senso e antisenso... 2000). enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. Mueller e col.

. 2001) e que mutantes de C. 2000). 2004. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col. Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col. consistindo provavelmente na proteína Slicer. 2004). 2001). Inicialmente foi proposto que. 52 Julho/2010 . PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo. 2001b). A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. 2001). toda a progênie é silenciada (Grishok e col. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não. 1997). AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. fungos.. A enzima Dicer é conservada evolutivamente. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox. protozoários e plantas (Carmell e Hannon.. 250 nt) em um processo dependente de ATP. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col. que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. devido à especificidade de Pág. mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo. 2002). Knight e Bass. com homólogos presentes em fungos. Okamura e col. Ketting e col.. pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col.. Em plantas. crassa (Cogoni e col.. 2000). denominada “Dicer”. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col. Martinez e col.... 2001). RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. nematóides. 2004... Analogamente... onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt. Este fator é dominante. elegans. A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col. 2001. Meister e col.. Hammond e col. 2001. na ausência de dsRNA. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos. Recentemente. 1996). 2001). A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2. 2001. plantas e animais superiores.. 2004. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida. 2001a) e in vivo (Elbashir e col.. foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III. A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N. em C. Essa RNAse III..

2001. 2001). elegans (Reinhart e col. Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs. um RNA (Vaucheret e Fagard. Llave e col. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág.. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples. Lee e Ambros. este fator seria pelo menos em parte. os micro RNAs (miRNAs).. eles não interferem com o processo de tradução. foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col. Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado. mas não de moléculas de RNA fita dupla.. e sim um par de pequenos RNAs. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14. Lau e col.. apoptose. inibindo o processo de tradução. 1993). em plantas. 53 .Quintana e col. e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. sinalização e diferenciação.CmPSRP1). Arabidopsis e humanos (Lagos. 2000). 2004). Recentemente. conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. Sete anos depois da descoberta de Lin-4. 2001). Entretanto. apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col. com papel em processos como a proliferação celular. Inicialmente.. um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. 2001.. que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. foi demonstrado que o gene Lin-4.. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional. Slack e col. Atualmente. 2002b). 2001). 2001. 2000). não codificava nenhuma proteína... elegans..Sinalização Celular seqüência. elegans. Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo. Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila. 2000. a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 . Let-7. foi descoberto um segundo gene. Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento. C.

o ciclo de infecção... Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. 2004) (Fig. 2004). A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico. pombe.. A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. ou mesmo bloqueando. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. Tabara e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col... 1). foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb. 2000). de um transgene. No início de 2004. A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. neste caso em nível transcricional. 2004). 2002). 1999). cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. pombe.. A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo. Em vírus com genoma de DNA. elegans e Drosophila (Akhtar e col.. 2002). O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col. denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing). dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe. 1994). onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col. 54 Julho/2010 . ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C. Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. Pág. 2000. Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. 2004).. 2004). O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno. Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S. que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col.

Silenciamento transcricional via siRNAs. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. gerando o miRNA. Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. A. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA.Modelo para o silenciamento de RNA. 55 . Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo. O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. gerando os siRNAs. B. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. C.Sinalização Celular Figura 1. indicando as três vias atualmente conhecidas. O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma.

o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt.. Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA. (Modificado de Zerbini e col. Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col. 2002). DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus. pombe. Xie e col. 2002. Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2.. O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo.. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. 2002). 2004). 2004). Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação. fungos. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. 2001). Em Arabidopsis. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias. Ketting e col. 2004). 2004c). um domínio central PAZ (Piwi. 2002.. 2001. resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina. Grishok e col... um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. Schauer e col. Na etapa de iniciação. DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. embora com diferenças significativas (Zamore. C. Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal. sinalização sistêmica e manutenção. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col. Volpe e col. 2005). 2001.. 2001. envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col. amplificação. dois domínios catalíticos. Hutvagner e col. ainda não foi estabelecida a função de DCL4. Até o presente. a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros. Xie e col. Esse complexo atua no DNA genômico.. e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS... 2001.. 2002).. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs.. enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. 2001. Knight e Bass. 2001. Knight e Bass. 56 Julho/2010 . 2004). dentre vários vírus testados (Xie e col. DCR1 em C. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col. S. embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus. elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. Em Drosophila.. animais e protozoários.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas). 2001. Pág..

Hutvagner e Zamore. 1998. 2002. 1998.. Brigneti e col.. A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col.. Kidner e Martienssen. elegans (Carmell e col... pombe (Verdel e col. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col. 2004). 2003). em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. 2004). Martinez e col. Pham e col.. indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col. 2002. Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col. A subunidade catalítica é denominada Slicer. Covey e col. 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col.. 2004) a mais de vinte em C. O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia.. que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col. o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col. 2003). O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar.. Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col... Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col.. A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. 1998. levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col. 2004). 2003). Mourelatos e col. 2001)... A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col. Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer.. Grishok e col. 2002)... O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S. 57 . 2004). 2003... Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. Julho/2010 Pág. enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col. devido à ativação e manutenção do silenciamento.. 2003). 1997).. 2002. 2002. 2002). 2001. 2000. 2002).Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2. e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC. Verdel e col.

2001). pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col. 2002). a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col. 2003. o metabolismo de lipídeos (Xu e col. estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos. Além da defesa contra infecção por vírus. De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos... o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col... Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica. elegans e Chlamydomonas reinhardtii. 1998) e animais (Li e col.. 1999). Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei.. Atuando de forma análoga aos siRNAs. 2003). uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk. 2002... 2002).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington. particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. Em C. Apesar da falta de evidências diretas. anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA. os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs. 2002). Volpe e col.. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição.. o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. Rhoades e col. 2002). indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. 2003). 2002). incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. 2002.. 58 Julho/2010 .. 2003). Em animais. os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos. o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA. As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág. incluindo a formação de heterocromatina em S. Taverna e col.. 2002).. Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico. outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso.

O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados. 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. elegans (Fire e col. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe. 1997).. porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. C. 59 . e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase.Sinalização Celular heterocárions de N. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág. folhas de N. as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas.. A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. indicando a propagação a longa distância do sinal. 1997). Estudos em C. e o gene exógeno uidA. Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col. O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene.. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient). Nestes experimentos. ou seja. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col. A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido. 1998. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col. 1996). Observações semelhantes foram realizadas em C. elegans.. mas não para enxertos expressando transgenes distintos.. que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). 1998).. Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico. Timmons e col. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes. Este gene.. 2001). A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição.

SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. 2002. As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional. 2003).. C. Entretanto. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter. Lucas e col.. capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade. 2000). Estas células foram transformadas com dois plasmídeos.. 60 Julho/2010 . e em células de mamíferos (Mlotshwa e col.. o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. Estudos com HC-Pro.. 2001). não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre. Além disso. porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida. Mallory e col. existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico. 2002). 2002). entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col.. os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs. estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. em C. entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág.. produzem siRNAs de forma deficiente. 2003. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col. Entretanto. uma proteína viral supressora de silenciamento. Curiosamente. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. elegans. Em plantas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. indivíduos mutantes no gene Rde-4. Além disso. mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. essencial para que o silenciamento ocorra. Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. 2003). Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. elegans.. ou seja. Para determinar a função da proteína SID1. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula.

Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema.. essa hipótese ainda não foi comprovada. 2002).. Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como. Entretanto. 61 . 2001. 2004). pombe.5-1% do número total de genes do genoma em questão. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0.. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew.. Drosophila. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. 2002b). Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene. humanos e plantas (Lagos. Lee e Ambros.Quintana e col. Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos. com ortólogos em vertebrados e invertebrados. por exemplo. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1). Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. dessa forma. vírus. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos. camundongos. A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados. e. transposon ou gene endógeno. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. A presença de miRNAs já foi detectada em S. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. enquanto seres humanos possuem de 200 a 255. denominada CmPSRP1 (C.Sinalização Celular com a metilação de DNA. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. 2004). 2003. C. a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col. Llave e col. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs. Pelo menos 0.

capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig. Entretanto. Além disso. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III. Lim e col.. 2003a). sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col. pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6.. diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III. características de transcritos de genes da classe II. 2002). o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs.. de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica. ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel.. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima... 2003a.. Lee e Ambros. 2001. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col.. De fato. mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col.. Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais. 2001).. 2004b). C. o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col. 2003). Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas. 2002). 2004). e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. 62 Julho/2010 . 2) (Lau e col. Além disso. O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’. 2003b). Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas. 2001). 2003).. existem algumas Pág. e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas. 2003). 2003). Por fim. sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col. Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col.

gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore.. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou. o miRNA172. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. 2002). liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases. Chen. Ketting e col. denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col. estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. Em seguida ocorre a clivagem. que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo.. O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. preferencialmente. Além disso. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA. 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas. 63 . que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. que é a mesma do pre-miRNA. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. Por fim. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’.. 1999).. Yi e col.. 2004). 2004. 2003). A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. 2003. 2002).. com uma única exceção conhecida até o presente. na região 3’ não traduzida. Além disso. 2002. em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo. 2000). 2002). Slack e col. 2002.. 2001). Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA. Rhoades e col. 2004). A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA. O oposto é observado com os miRNAs de animais.. Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros. plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. 2003b). 2003).. a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA. 2000. Nesta etapa.

Os miRNAs são transcritos. Pág. a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. via incorporação a um complexo RISC nuclear. gerando o miRNA. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. 64 Julho/2010 . Em plantas e animais. Em animais. 2005). No citoplasma. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. gerando o miRNA. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. (Modificado de Zerbini e col. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col. gerando o premiRNA. o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo. Figura 2. 2002). Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. 2003b). os miRNA também atuam no núcleo. Em plantas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore.. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. O pre-miRNA é subseqüentemente processado. que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. em ambos tipos de organismos.. Em plantas. De acordo com este modelo. provavelmente pela mesma enzima. denominado pri-miRNA.

2002). O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore. 2002). 2000). Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). Desta forma.. a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. mesmo em plantas mutantes para DCL1.. a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col. 2002). sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col. Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. 2003). A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col. estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs. sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. Quando isso ocorre. que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore. HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col. Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear. DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. 2002). 65 . 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff. Mourelatos e col. o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1. Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col. Não são detectados pre-miRNAs. correspondente à clivagem citoplasmática em animais.. 2003). 2002). Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC.. portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC.. Em plantas. Em plantas.Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. 2002. 2002). a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág. 2002). Em animais. antes da exportação para o citoplasma. 2004).. além de Dcl1. Após o transporte núcleo/citoplasma. O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel. o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen. a outra fita é degradada... sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC. 2002). a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col. o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. Uma vez incorporado ao RISC.. que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2.

2002). 2004) e DCL-1 (Xie e col. verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe.C. o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore. ou seja. A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos. A... Pág. 2002b. MAarathe. 2003). Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. Nature 407:405-9. e Becker... Mallory.. G. 2003). 2002).. Pruss. o miRNA172. Em vários casos. e o miRNA164.. a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW. 2004). (1998). Rhoades e col.. V. Quando o miRNA direciona a clivagem. Além disso. 2002).. incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. R. 2003. o miRNA159. A. R.B. (2000).B. 2003). Entretanto. Entretanto. em camundongos (Yekta e col. T. A viral suppressor of gene silencing in plants.. Llave e col. 2003) é regulada por miRNAs. 2002). 2004). Ge. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col. P. X. 66 Julho/2010 . o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col. envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col.. USA 95:13079-84. Chen. Zink. 2004). que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col.. 2004)..H. 2004). Anandalakshmi. foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. Bibliografia Akhtar. entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução. os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col. a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. 2004. Proceedings of the National Academy of Sciences.. D. Smith. que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. Chromodomains are protein-RNA interaction modules. Hoxb8. e VANCE.. como AGO1 (Vaucheret e col.J. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. Após a clivagem do mRNA alvo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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os átomos. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. os buracos negros. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar. a mente não pode ser expressa. a higiene do meio. moléculas. aprender e lembrar. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. investigando funções como percepção. denominadas genericamente por neurociências. galáxias distantes. sem a manifestação do comportamento. emoção. comunicar. amar e odiar. a mente não pode existir. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. os mecanismos da vida etc. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. além de didática. atenção. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. a teoria das cordas. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. 2003). a integração entre as idéias pode ser árida. Ironicamente. o equilíbrio do ambiente. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência).Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. articulados criticamente. resolver problemas. A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. ação etc. da linguagem. Além disso. Como podemos propor a consciência ambiental. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. Com o surgimento da consciência. ao longo do tempo. percebemos que. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. DNA. O entendimento atual sobre origem. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber. sem o cérebro. funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10.). hereditariedade. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. memória. do abrigo. criar e destruir civilizações. das ferramentas. 87 .

até agora. Como resultado. pode-se começar a responder a estas perguntas que. continuam a ser a preocupação dos filósofos. a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. ao elaborar as perguntas devidas. Sabemos muito pouco sobre o cérebro. Pág. (Kandel. não sobram limites a serem alcançados. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. 2003). 88 Julho/2010 . Portanto. por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental. realizando os experimentos devidos.

cujas funções servem a um propósito comportamental específico. Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções. A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais. sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente. O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. neurônios nunca funcionam isolados. algumas características são comuns entre eles. entretanto. viscerais. sob o ponto de vista anatômico.Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata. Há. módulos. O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados. Além destas amplas distinções. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora. Desta maneira. i.com No sistema nervoso. Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. cardíaco e glândulas. em componentes centrais e periféricos (Fig. Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. 89 . o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações.. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos.e.plim@gmail. Figura 1. 1996). o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. 1).

que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. quanto B. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília. 90 Julho/2010 . A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. Circuitos convergentes são responsáveis. circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. Para demonstrar este tipo de circuito. De modo geral. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. memórias de longa duração. à esquerda). Esquema representativo dos modelos de circuitos. imagine que tenhamos os neurônios A. atividades motoras. o modelo de circuitos convergentes. À esquerda. Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E. No funcionamento paralelo. o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. por exemplo. realizando uma eferência (saída). Além disto. C e D. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida. centro). O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido. sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. Estas três classes – neurônios aferentes. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente. Em vez de concentrar as aferências. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. C ou D) seja inibido. Figura 2. 2. 2. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). No caso do circuito divergente. 2. Então. Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. à direita). etc (Fig. são chamadas de neurônios eferentes.

Julho/2010 Pág. 91 . por sua vez. glândula. estiramento. executará a resposta ao estímulo inicial. Por exemplo. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. em que há produz uma reação involuntária rápida. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. por exemplo. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. ponte e mesencéfalo). variações da pressão arterial etc). o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada.Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. de modo geral. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. músculo liso ou músculo cardíaco) que. independentemente da vontade. Ocorrendo um estímulo. os circuitos envolvidos. Durante o processamento de funções mais complexas. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. conseqüentemente. Sinais representando cores. a atividade que leva à ação. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. no neurônio motor. No funcionamento serial. por meio de um nervo craniano. Isto é. gerando. forma e localização. antes deste poder comandá-la voluntariamente. ou ao tronco encefálico. funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. Desta maneira. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor. movimento. um neurônio estimula outro neurônio. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago. que protege o organismo. além de processar informações de modo serial. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. aumento da intensidade luminosa. na maioria das vezes inconsciente.

. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto. molda os circuitos neurais. Mais freqüentemente. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos. determinando seu comportamento. Assim. Assim. fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. a conectividade no córtex visual é alterada. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso. experiência). padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões. No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. entretanto.e. Como esperado. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. em humanos) durante um período critico na infância. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. Em alguns casos. sua experiência acumulada. preferências sexuais e aquisição de linguagem. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. ou patologicamente. paralelamente. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. além da construção de sua circuitaria. Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais. a construção dessa Pág. entre outros. i. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é. em animais. 92 Julho/2010 . assim como a função visual. essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. Em um axônio aferente.

pág. em um animal adulto. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. reconhecimento de face. 1949). 1949. Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara. Segundo. linguagem. 93 . Em resumo. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem. XVII). ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. Ao contrário. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. Em 1949. Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. Desta maneira. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. atenção espacial. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. memória operacional. tais como discriminação visual. alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento. Assim. Primeiro. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. Em seu lugar. retenção de memória.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento.. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. uma das células que estão agindo sob B. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais. etc. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. Julho/2010 Pág. é aumentada. Assim.

Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. à esquerda). ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante. O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo. A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). 94 Julho/2010 . abaixo) (disponível Pág. A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo. long-term potentiation) (Fig. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). Figura 3. à esquerda.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. 3). LTP (do inglês.

De acordo com essa concepção. Por exemplo. A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. Isso permite entender porque a recordação envolve. Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície. usualmente. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. até respostas mais complexas. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos).org . a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. Estes sinais. 95 . isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. mas também por um aumento do número destes receptores. em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória. projeta-se para outros 104 neurônios e. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. Nesse contexto. de comunicarem-se através da sinapse.braincampaign. a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas. nas formas de LTP mais compreendidas. categorias. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. Por exemplo. mais fortes tornam-se essas conexões. Entretanto. o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais. Interessantemente. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido. na forma de moléculas de neurotransmissores. Entretanto. pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais. como a cognição observada em humanos. a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração.Neurociências em www. são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. por sua vez. ao Julho/2010 Pág.09/06/2009). Como conseqüência. que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. a idade do animal em questão e espécie. Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica.

Interações podem incluir andar de um lugar para outro. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. Figura 4. ou seja. quadrúpedes. verduras. contexto. o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc.). a recordação também será categórica (frutas. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros). fugir de predadores. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. Desde a mais primitiva espécie animal. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito. conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. pegar um objeto. Então. invertebrados etc. 96 Julho/2010 . Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. A Pág. integramos todas as informações disponíveis (cor. legumes. Assim. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal.4). tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. De modo circular. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. forma. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. animais aquáticos. carnes etc. lutar e reproduzir-se. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. O mesmo ocorre em relação a alimentos. Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. aves. ou seja. O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo.

97 . não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural. E. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”). onde “perceber” algo. sobretudo. de uma definição completa e consensual. Desta forma. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. “atenção”. sobretudo nos mamíferos. responsáveis por emitir as respostas motoras. ou pelas vias eferentes. Esses rótulos estão longe. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág. “ação” e. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. ao tornar-se cada vez mais complexo. desta forma. em sua maioria. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. se considerarmos que a percepção do mundo. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. por fim. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. significa “apoderar-se” dele. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza. de forma um tanto óbvia. na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. com ele interagindo de forma contínua e coerente. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos. O sistema nervoso evoluiu. permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. “aprendizado”. derivado do latim. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. precisam ser estudados juntos. Podemos supor então que. provavelmente pressionada por fatores ambientais. apesar de seus constantes desafios. mais provavelmente. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. desse evento ou dessa resposta. “consciência”. “memória”.Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. Eles são.

eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz.não dependem tanto deste contato. requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo. 98 Julho/2010 . Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. Quando tocamos um objeto. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva). Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos. neste sentido eles funcionam como um radar. ver e ouvir. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. no nível cortical. Pág. Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. Em contraste. Além disso. Da mesma forma. em direção a estruturas anteriores (motoras). guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. uma vez que um objeto tenha sido percebido. podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar. para um som ser audível. 5). Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido. Assim. temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. Comportamentos mais complexos. com feedbacks em todos os níveis. desta forma. Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver.

Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. 2006). os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. Do mesmo modo. a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. Da mesma forma. Em ambos os córtices. há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa. Assim. 99 . O substrato cortical do ciclo percepção-ação. Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato.Neurociências Figura 5. enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais.

existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. Sendo assim. em geral. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. tudo começa com uma estimulação. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória. tudo começa com uma intenção. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções. do agente envolvido. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. isto é. 100 Julho/2010 . do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. Assim como vimos acima. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores. isto é. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. Assim. Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita. podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. Na abordagem sensório-motora. Desde modo. numa análise dos componentes visuais da ação específica. a uma única oportunidade. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. Considerando o fato de sermos seres sociais. De modo inverso. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. Contudo. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. fornecendo subsídios para ações mais complexas. nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. na abordagem ideomotora.

Neurociências execução da ação observada. disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. Conseqüentemente. possa participar desta função. ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). aparentemente. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas. entre eles Giacomo Rizzolatti. 101 . Julho/2010 Pág. baseada também em outras modalidades. de acordo com esta concepção. os assim denominados “neurônios espelho”. isto é. Entretanto. como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. como por exemplo. Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. uma ação implica em um agente e um objetivo. implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça. o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. isto é. embora nenhum movimento efetivo seja executado. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. em outra perspectiva. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais. Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. Isto é. Esta resposta. baseado na descrição do objeto e do movimento. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. Os descobridores destes neurônios. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo. 6). Todavia. sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores). o estímulo é ligado à intenção do agente. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. auditiva. pegar/manipular um objeto ou alimento. Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações.

ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente . o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante. 102 Julho/2010 . Pág. À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti. Desta maneira. Através do reconhecimento de ações e.a ação observada sendo executada por outra pessoa . não apenas pelo sistema sensorial.1996). mas também no próprio sistema motor do observador.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6.e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador . Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador.representação motora da ação observada.

são responsáveis por transduzir (isto é.com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras). que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). Há ainda o arcorreflexo polissináptico. A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. Apesar disso. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora. nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig. com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora.fv@gmail. portanto. reflexo patelar). 103 . As células receptoras. Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e.Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). com cruzamentos desordenados de axônios. Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso. O mais complexo que se tem conhecimento. 1). O arranjo das células nervosas é difuso. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo. A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados.g. Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos. Em última instância. 1983). formando um arcorreflexo monossináptico (e. e sem preferência de direção do estímulo conduzido. transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora. flexibilizar o comportamento (Eckert. Eventualmente. de agora em diante chamadas receptores sensoriais.

como os Tarsius.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. Comprimento de onda em nanômetros. Por outro lado. que faz com que a luz passe duas vezes por ela. Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. 2). a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele). Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig.g. portanto. a ecolocalização de morcegos. Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum). em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal. por exemplo. 104 Julho/2010 . Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág. têm globos oculares extremamente grandes. útil a presas e predadores. como. pois persistem em diversos grupos. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. Os receptores tendem a ser muito específicos e. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos. Nesse sentido. sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente.: cobras). É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. há animais que tem visão e audição pobres. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente. Modificado de Carlson (2004). respondem preferencialmente a um tipo de estímulo. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz). Outros mamíferos.

o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. 4B). tanto em vertebrados como em invertebrados. brilho). formando um mosaico. 105 . precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. Eckert (1983). há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor. para que possamos enxergar. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC). provocando uma cascata bioquímica no interior da célula. rodeado por 6 a 12 células retinulares. Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A). Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. A combinação mais encontrada. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. 4A). A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig. cada qual com um receptor sensorial.3). formando o rabdômero (Fig. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento. Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica.Neurociências pela estimulação luminosa. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica. A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. 2006). A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e.g. dado que as variações entre os grupos são grandes. Em última instância. Fig. abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina.

e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea).. toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. 4B). uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. porém. Semelhantemente. As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. A fóvea é o ponto de maior acuidade visual.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. 6). 5). sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). ainda que responda por menos de 1% do campo visual. 106 Julho/2010 . formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. Neurônios com axônios longos. Alguns têm três tipos de cones. 4B). Esse caminho. 2006). o inverso do centro da fóvea. Pág. como em um quarto escuro. 5). Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. Dessa forma. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz. incluindo os humanos. evidenciando algumas camadas celulares da retina. as células ganglionares (Fig. Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos. não é direto. Modificado de Lent (2006). com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. menos cones e mais bastonetes são encontrados.

por outro lado. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. no córtex occipital do homem. É ela quem permite a visão binocular. chamadas parvocelulares. há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. As outras quatro camadas. Entremeado nessas camadas. Após o cruzamento no quiasma óptico. mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). mas potencializa a visão em todas as direções. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig. Encéfalos fora de escala. Modificado de Bear e col. em vermelho. tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar. (1996). todas as fibras passarão pelo Tálamo. permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados. As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. para um mesmo lado da cabeça). do gato e do rato. portanto.Neurociências Figura 5 . Após o estímulo passar pelo NGL. responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. Herbívoros. (1996). o que reduz sensivelmente a visão binocular.Córtex visual primário (V1). 107 . 6). Modificado de Bear e col. tem os olhos em lados opostos da cabeça. no córtex occipital. Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. que tem um mapa retinotópico. Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. ele se dirige à V1. têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. isto é. algo constante em animais carnívoros.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1. fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina. Emitindo sons acima de 50. 7) (Carlson. à membrana basilar dentro dela (Fig. 8). (1996). parte da Pág. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina. os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total. freqüências acima de 20. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho. têm comportamento extremamente direcional e reflexivo. 2005). Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo. freqüências acima de 10. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. mais especificamente. Os superagudos. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante. Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação.000 Hz.Representação do sistema auditivo humano.000 Hz. devido a características implícitas à cóclea.000 Hz.000 Hz e indo até cerca de 120. preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig.000 Hz. 108 Julho/2010 . Diferentemente da visão. Figura 7 . com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons. morcegos têm faixa de audição começando em 10. Modificado de Bear e col. No outro extremo. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. podendo ser feita a quilômetros de distância. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20. Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas.000 Hz.

no entanto. todo som causará vibração por toda a membrana basilar. 109 . Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas. Pelo contrário. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape. Sons médios. A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. inicialmente pelo nervo coclear (Fig. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. Como a cóclea é um tubo inextensível. (1996). A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. 7). Essa energia.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo. os cílios dos mecanorreceptores. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. integrantes da orelha interna. não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana.Neurociências orelha externa (Fig. não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. Modificado de Bear e col. movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. que farão a transmissão para a janela oval na cóclea. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos. A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. no meio. resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas. com todas as suas características de frequência e intensidade. Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. bigorna e estribo). Julho/2010 Pág. 8).

considerado um sexto sentido dos organismos. O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo). Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). 10). A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados. com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. pela adição do canal horizontal. (1996). permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. Modificado de Bear e col. esse sistema deve ser no cérebro. todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular. Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. 110 Julho/2010 . 2006) (Fig. Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. Modificado de Lent (2006). impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. tendo íntima relação com o sistema motor. Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent. 2006). ausente nos agnatas. formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. para acelerações lineares (Graf. 2006). 9). a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig.

IV e VI). temperatura ou dor. permitindo a formação de imagens estáveis na retina. como na cóclea. Assim como na visão. Interessantemente. 2005). Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. 111 . como a ponta dos dedos. A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. 2006).Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. já que estes têm hábitos noturnos. as maiores áreas de processamento). É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. formando um mapa somatotópico do organismo. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo. no giro pós-central (Fig. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. outras seguem diretamente para o cerebelo. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. 5). embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico. Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. portanto. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas.. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos. extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. salinidade e umami. Já receptores para sal. O caso mais surpreendente.. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos. por outro lado. Acidez é um indicativo de decomposição. Outras projeções se dão para a Pág. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. queijos e alguns vegetais. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins. Treinados. resultado da ação bacteriana. Por outro lado. doçura indica presença de açúcares. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água. claramente um alimento. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller. 2005). Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. de fato. 2005). 1995). acidez. em última instância. indicam a presença de cloreto de sódio. doçura. 112 Julho/2010 . substâncias amargas ou azedas serão evitadas. 1986 apud Martins e col. Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. que detectam cinco qualidades: amargor. 1997 apud Carlson. Curiosamente. são detentores de um olfato apuradíssimo. o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col. substância naturalmente presente em carnes. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores.. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo. é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. porém. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson.

que precisam manter sua temperatura regulada. isto é. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. formando um ângulo de 90° uns com os outros. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans. passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. 113 . Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. sendo homólogo entre todos os grupos (Graf. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. 3). 2006). detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca. Mais do que isso. A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig. 2006). mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág. através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico.. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas. A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial.002 °C. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz.g.Neurociências amígdala e hipotálamo. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos. Por outro lado. sendo detectado. entre eles: aves migratórias. Há críticas à existência da magnetorrecepção.

A forma como percebemos o mundo também não é. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. enguias e até mesmo bactérias.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. de fato. mas apenas aqueles mais bem adaptados. disponível na superfície terrestre globalmente. Pág. necessariamente. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. Não há melhores órgãos e sistemas. 2006). tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos.. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. Além disso. Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. 114 Julho/2010 . Estímulos como a luz. 2006). A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. Em última instância. ainda que elas sejam análogas entre espécies.

pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin..em todos os exemplos. os olhos podem ter uma origem monofilética. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução. Logicamente. provavelmente.. ou podem ter uma origem polifilética. tamanhos. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes. 115 . o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. mas. Origens evolutivos No caso da “visão”. ocelos. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central. 1859). incluindo a navegação e noção de tempo. Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar. ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . olhos compostos. 1995. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. embora os olhos apresentem uma variedade de formas. desenhos ópticos e localização corporal. Arthropoda e Chordata. por definição. olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”. tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág. ou seja. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. Estas estruturas (ex. 1977). Salviani-Plawen e Mayr. de um único ancestral comum. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins. Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus).com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz.Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail. Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos. surgido mais de uma vez durante a evolução.

as células fotorreceptoras. paralelas umas às outras. A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. 1995). e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes. Duas dessas soluções aparecem em Chordata. podem ser divididas em duas grandes classes. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. 116 Julho/2010 . Modificado de Fernald. uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz. Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz. (Fig. Figura 1 – Tipos de olhos. 2000.1). o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder.

este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz. 2003). que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash.Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. Figura 2 – Foto ilustrativa (D. poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano. Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes. existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz. Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . Julho/2010 Pág.1992. Annelida. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig. Fernald. genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo .têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt. protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e.homeobox. tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis. Durante a evolução do olho. Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar. Lophotrochozoa). Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land.. Especializado. assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt. Pichaud and Desplan. 1999. Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo). 2000). Arendt). A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena. além disso. Duas células . o olho simples (ex. (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos. 117 .olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. 2) (Gehring and Ikeo. 2003). 2002).2001). Em sua origem. verde: células de pigmento.

A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. 2003). A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. 2001).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig. 2001). Arendt e Wittbrodt. Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. 3 (Arendt. 2001). a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. 118 Julho/2010 . nas quais a célula parece ter um achatamento. Nos vertebrados. Pág. 2003. Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang. Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes.

1997). Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. nuclear externa. especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula. a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt. nuclear interna. uma modificação do cílio. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos. Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. epitélio pigmentar) (Fig. 4 do capítulo anterior). desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. da espécie. 2001). Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. 119 . Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e. cada um com sua peculiaridade. desempenhando operações de detecção.Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. Julho/2010 Pág. por outro lado. A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. conseqüentemente. são muito parecidos. plexiforme externa. plexiforme interna. amplificação e transmissão (Randall. externa. Os sistemas de transdução.

120 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

uma saúva fêmea. A um metro dali. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. ela não vai à exaustão total. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. o bico escancarado. Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. 1940). uma outra fêmea. desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. girando o corpo.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . de aves e outras classes de animais . chupetas. ela pensa na lista. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. É bem maior e é mole. Não é um ovo normal. protegido do sol de verão pela folhagem acima. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. de onde o ovo vem saindo. bem rápida. agitada ou apressada. O macho não apareceu por ali (Robert et al. incluindo fraldas. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri.e também alguns machos.fazem em favor de suas crias. e faz cálculos de dinheiro. Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. mete o bico goela adentro do pidão. 121 . Alguns minutos depois. Enquanto dirige. talvez dormindo. enclausurada na câmara que construiu. Dobrando-se ventralmente. voa para trás. leite em pó e um carrinho de bebê. e acaba descansando um pouco. um ninho de tico-tico abriga um só filhote. na primeira semana de vida. pescoço esticado para cima. A fêmea. 1961). evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. porém. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. o filhote se ergue.. Mais alguns minutos e a cena se repete. perderiam a prole. No entanto. Está sossegado. retira-o e. recebem uma explicação simples da teoria da evolução. Ao pensar em cada item. Ato contínuo. do qual eclode uma larva. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. ela chega de novo: mais uma refeição. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. a uns 15 cm do solo. na direção de onde chegou.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira. mamadeira. De repente. Foram selecionadas. põe mais um ovo de alimentação. uma mulher. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. Bem mais longe. uns 15 cm abaixo da superfície do solo. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. pinça-o com precisão.

enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. com a manutenção subordinada à reprodução. inclusive absorvendo seus músculos alares. 1942. como se o futuro pudesse determinar o passado. no entanto. É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta. O cálculo da formiga é um pouco diferente. precisariam de menos alimentos para si mesmas. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. Ora. Pois são estas. jejuando durante meses. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. fim. vivendo de reservas. 1941). decorre de um exame superficial do conceito de função. o Pág. propósito e objetivo. as funções. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre. 122 Julho/2010 . Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. Abandonando o ninho. em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. E se não construísse a câmara. Trata-se de um desconforto filosófico. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se. o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem. as tico-ticos estariam melhor. são pontos terminais de linhagens. mas essencialmente o mesmo. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. mães extremadas dão origem a mães extremadas. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. Tal inquietude. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. Essa faculdade. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. tão adaptativa nas relações sociais. finalidade. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade.

ou com o objetivo de recarregar sua bateria. Contudo. uma funcional e outra causal. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. o canto está dentro de um estudo causal. incapazes de se alimentarem sozinhas. em busca de como ele controla as ações dos rivais. portanto. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. obra da adaptação. no entanto. cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. A observação de que as larvas de formigas são inertes. O controle de suas ações. possibilitando a seleção de programas genéticos. que devemos chamar de causas do comportamento. constitui um outro tipo de fenômeno. terá valor no plano funcional. Portanto. Niko Tinbergen. 123 . e mais duas que não serão aqui examinadas. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. a funcional. por exemplo. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas. na maioria das vezes. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. A resposta causal. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. Examinado dessa forma.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. prêmio Nobel de 1973. fazendo-os mais ou menos agressivos. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. que tem.

As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. a sede quando falta água. Em condições anormais. e assim por diante. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. os jovens fazem coisas de adultos. inclui rotineiramente relações entre machos. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. fora tanto do contexto funcional como do causal. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. 124 Julho/2010 . Alguns segundos depois.. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. seja no ambiente natural seja no laboratório. esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente. causas e funções podem desencontrar-se. mas presente também em aves. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. No comportamento lúdico. o animal deve engolir água e não areia ou flores. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. em pleno vôo. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. Sim. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. a começar pelo reconhecimento correto do objeto. no ambiente natural. no prelo). A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido. Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. ou seja. como a sexualidade dos bonobos que. Em condições normais. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. elas recobram seu vôo normal. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. em condições normais no ambiente natural. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução. tão comum em mamíferos. Existem mariposas que subitamente. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. é necessária a ação de fatores causais adequados. antes de atingirem o solo.

125 . Porém. os ovos perderam-se todos. em seu benefício. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. a ticotico talvez tivesse ido embora. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara. Ela tinha um bom emprego. solidária. Essa pelotinha de fungo era essencial. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. O filho. para fazer outro em lugar mais seguro. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. Mesmo tendo perdido o fungo. No caso que estamos examinando. ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. Explorando o sistema causal da hospedeira. O filho foi planejado. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. está feliz de poder ajudar. comuns em animais sociais. Não a viu. neste caso imaginário específico. A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. sem fungo. Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. na pré-história. a reprodução. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. A amiga. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. ao planejar o filho. Já o comportamento da mãe. 2004). antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. Diferentemente de qualquer outro animal. que normalmente reside no Julho/2010 Pág. É filho de uma amiga. Ela continuará a alimentar as larvas. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. o da chupim. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. que está sem dinheiro. mãe solteira. abandonando o ninho. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. Foi vã toda a dedicação da tico-tico. Se a percebesse. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho.Neurociências o comportamento animal. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. Sem esse jardim de fungo. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. Por predação ou furados pela chupim. seu esforço é vão. menos um. Isso foi assim. O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais.

as respostas são mais hesitantes. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. que muitos animais são capazes de fazer. Pág. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. Curiosamente. Em nós. 126 Julho/2010 . a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. 1981). A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. mas não se revela facilmente a si mesma. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação. biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. humanos. é uma causa dos comportamentos da mãe. A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional. As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz. porém o progresso é indiscutível. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais.

abstração. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida. sabemos que se trata do mesmo carro. Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo. ouvindo ou sentindo estímulos). portanto. 1. capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. a percepção de uma determinada nota é mantida. o reconhecerá pelo cheiro e voz. Esse mecanismo depende. timbre. Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. como a memória ou a atenção. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. intensidade. Ele seguramente o estranhará. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. Tome por exemplo a Fig. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga. Por outro lado. movimento para visão. de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. especialmente atenção e memória. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. mas vai além destes. Ainda assim. Humanos são para os quatro desenhos. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes. mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição. 127 . Não importa qual a posição do carro mostrado na figura.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. Ivry e Mangun (2006).Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. forma.fv@gmail. altura para audição. Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor.

particularmente no caso da espécie humana (Preuss. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. associado a apenas uma modalidade sensorial. pelo contrário. são parte dos chamados córtices associativos. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. entender como percebemos. Mais do que isso. quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. A informação que chega até o córtex visual não para em V1. Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. 2006). Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”. de fato. 128 Julho/2010 . como já mencionado. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido. essa informação continua avançando por diferentes regiões. pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. em geral. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e. o que descarta problemas de memória. mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). Com esse arranjo. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. mais fibras vão convergindo na rede neural. passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital.

o tempo de reação é menor. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos. Julho/2010 Pág. independente de qual delas.Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig. 2006. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. Modificado de Lent. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo. mas não de outras características. mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. Através da via dorsal. mais adiante na sequência de processamento visual. Na Fig. podemos entender “onde” vemos um objeto. Apesar do arranjo sequencial. Quanto mais adiante na sequência. O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão. permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. como movimento ou cor. já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. 129 . 2).

relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. Evidências clínicas. não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias. 130 Julho/2010 . Retirado de Kandel e col. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). falando-se em percepção. Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons. (2000). Apesar disso. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. Semelhantemente ao sistema visual. esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. De fato. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos. que disparam para Pág. o uso de aspas justifica-se porque. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. mais uma vez. e uma via ventral (córtex temporal inferior). simplesmente não há “correto”. para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão. A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral. isto é. para processamento de informações sobre localização espacial e movimento.

Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. Como no carro da Figura 1. precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. Para ele. Para ele a estimulação visual nunca existiu. É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. 131 . Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). Por outro lado (ou. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. cheiros e pressões (táteis) ao seu redor. é a constância perceptual para estímulos sonoros. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo.. novamente.). após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. são apenas as outras sensações. logo. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual. se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. mas. Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. isto não é o que um cego percebe do mundo. mas eles Julho/2010 Pág. ganhará maior processamento neural destes circuitos. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. melhor dizendo. incluindo os humanos. morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros.. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível. e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. por outra via. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos). Essa região está envolvida com memória operacional e atenção.Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos.

percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. mas sem todas as suas bordas esperadas. 132 Julho/2010 . Isso não significa que falhamos em enxergar. vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. Tome por exemplo a Fig. As barras convergentes na Fig. Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. o que faz com que. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. 4 criam a ilusão de algo que se distancia. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. 4A. apesar de serem iguais. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. 6. Assim. 4B e isso ficará ainda mais claro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. Apenas alguns. As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos. 5 sugere o formato de um triângulo. ao olhar para um Pág. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. todos dirão que a barra superior é maior. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. de fato. A Fig. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. após uma análise mais cuidadosa. Olhe a Fig. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória).

enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. mas pelas cores em volta da mesma. O que você percebe à primeira vista na Fig. Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem.Neurociências fundo neutro (branco. Figura 7 . Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo. com ativações bilaterais. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais. Veja na Fig. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. em seguida. 9? Julho/2010 Pág. Figura 6 – Efeito de pós-imagem.Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto. preto ou qualquer tom de cinza). 133 . perceba-se cores trocadas na imagem. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. para uma parede branca.

o contrário não acontecerá). Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. como dito acima. 134 Julho/2010 . ou por sons (palavras em geral). 2006. Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. mas não se dão conta dos detalhes. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. percebem os detalhes das imagens originais. se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela. seja por grafemas. mas perdem a forma global. Retirado de Lent. isto é. pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global. Por outro lado. Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. mas há relatos bem Pág.

Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. mais curiosamente. 135 . Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. A Fig. Figura 10 . embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais). As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns.Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos.Modelos de Sinestesia. Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. gostos gerando formas. 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. mas funcionalmente inativas. A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). em azul. As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral. Modificado de Bargary e Mitchell (2008). música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas. cheiros para cores e. inativas. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág.

Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores. A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. De qualquer forma. 2006). Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. movimento. A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. É o chamado binding problem. etc. Tomando por base o exemplo anterior.. um valor bem diferente dos 0. por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida. Pág. 2003). Se um deles disser que um dó maior é azul. 136 Julho/2010 . Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. portanto. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. no caso da visão).05% anteriormente sugeridos. Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções. forma. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida.g. não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell. cor. 2008). A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente. por exemplo: números escritos na língua de origem. Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard.

o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. ainda carece de comprovações. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que. desde sempre. Julho/2010 Pág. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. ao final do processamento. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral). porém. Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que. invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. incluindo as fases iniciais do processo. apenas representamos internamente o que é percebido externamente. diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. 137 . Segundo os autores. consequentemente. porém. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”. Essa explicação. não favorece essa explicação. complexando o estímulo processado).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 138 Julho/2010 .

lenta e gradual. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. ocorre de maneira constante. ela age também selecionando comportamentos. Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. na execução habilidosa de uma ação motora. Desta forma. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos. podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção. por exemplo. se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. Ainda sim. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. Por exemplo.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. aprendizagem de conceitos. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. 139 .barletta@gmail. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores. Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). no relato de uma experiência de infância.

Do ponto de vista evolutivo. A evolução do sistema nervoso. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada. capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. Se. Uma vez gerada a previsão de um evento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. o surgimento de diferentes sistemas de memória. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. a complexidade de tal ambiente aumentar. a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais. se beneficiarão. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. Indivíduos capazes de identificar estímulos. Assim sendo. 140 Julho/2010 . Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos. além de planejar uma ação antes de sua execução. Em outras palavras. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. fazendo uso de processos antecipatórios. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento). ações essas baseadas em experiências anteriores. isso pode ser altamente vantajoso. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. sobretudo dos processos de memória. Suporte aos sistemas de memória Pág. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. Portanto. no entanto. a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. No entanto. estarão mais aptos para determinado ambiente. com regras de operações essencialmente diferentes. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema.

odores etc. que por sua vez. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. som. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. luz. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo.g. isto é. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. as memórias. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. deste modo.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. Além disso. recebe projeções de outros milhares de neurônios. que transformam diferentes formas de energia (e.) em potenciais elétricos. gerada por atividade espontânea. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. Assim. avalia e passar o sinal a outros neurônios. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. possui bilhões de neurônios. 141 . é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas. por sua vez. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios. Levando em consideração tais possibilidades de combinação. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica. Conectadas aos neurônios. são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações. Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. Essas informações sensoriais. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. sob a forma de impulsos elétricos. temos um processo de computação neural. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso.

Em experimentos adicionais. Se Pág. por uma porta tipo guilhotina. Após longo esforço de cerca de 3 horas. A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo.esquerda). Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso. Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. 1). que não receberam choque nas patas no dia anterior. maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. treino inicial representado pela curva verde). menor é o efeito. como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. 1). realizada 24 horas depois. Animais de um grupo controle. Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). apesar do flutuador (Fig. depois do treinamento com choque nas patas. a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. À medida que esse intervalo de tempo aumenta. alguns peixes voltaram à posição normal. Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). 2. Xavier (2004) e Gold (1970). 1 . entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. levam um choque nas patas. os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. 1 – direita: barras de cor laranja).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias. O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens. Em uma etapa de teste. Modificado de Pavão (2009). (ver Fig. após entrarem nessa câmara. 142 Julho/2010 .

Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois.e. acima). i. esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. Flutuadores foram presos aos animais. curva vermelha). 3 dias depois. Atualmente. no teste de memória realizado 3 dias depois. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul. os animais realizam a tarefa mais rapidamente. Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. os flutuadores foram recolocados. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos. Em segundo momento. o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. Então. ficavam em posição confortável (esquerda. Ou seja. 2. 143 . abaixo) – curva verde. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. Num terceiro teste. e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. Modificado de Pavão (2009). Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular. Xavier (2004) e Shashoua (1985). que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. 2. essas proteínas foram denominadas ependiminas. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. 2007).. com treino de cerca de 180 minutos. os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. Em outro teste. porém. Em conjunto. ver Helene e Xavier.

parece envolver alterações estruturais nas sinapses. plasticidade. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses). Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. associado com produção de proteínas. Diferentemente. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. algumas horas. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. 144 Julho/2010 . parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias. Um deles. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. Posteriormente ao experimento de Shashoua. Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. no máximo. simplesmente. O outro. sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. uma de curta duração e a outra de longa duração. meses ou anos. mais instável. A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. por exemplo). muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos. gerando circuitos alterados no sistema nervoso.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória.

qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes. o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade.Neurociências circuitos neurais. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. Sendo assim. a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. Julho/2010 Pág. Aparentemente. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. ou redes nervosas. Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios. Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. tornando-as associadas. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. Como vimos. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. correspondente àquela gerada durante a experiência original. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP). estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. representa a experiência adquirida. assim como Hebb havia proposto. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. anos ou até mesmo uma vida inteira. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo. Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. Sendo assim. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. 145 . Em outras palavras.

organizadas no tempo e espaço. percepção. Uma vez ativos. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. estão profundamente associadas com os processos de memória. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. 146 Julho/2010 . costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. Assim sendo. ação e outros processos cognitivos. Isso permite entender porque a recordação envolve. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. Isso significa que. como por um ato de vontade para recordar aquela experiência. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. Em primatas. A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. categorias. por meio de sua atividade e conexões. Como consequência. dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. mais fortes tornam-se as conexões. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção. usualmente. mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento. "nós" da rede. quando Pág. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. Além disso.

Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios. excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões. Além disso. 2002.Neurociências ativados. 147 . Por exemplo. levando à sua previsão. enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). é ativada (B). de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial. 2007. e de Helene e Xavier. uma dada população de nós disparando. então. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas.Esquema representativo de redes neurais de Hebb. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. Julho/2010 Pág. Modificado de Bear. Nessa rede. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. ou pode ter reverberado nessa rede. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. ao receber um estímulo. Figura 3 . Nesse sentido. provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. essas ligações podem variar em intensidade. contribuindo para a lembrança completa da experiência original. representa uma determinada informação. se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. A rede tem uma organização inicial como representado em (A).

M. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração. possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. descrito por Scoville e Milner (1957). além de outras porções corticais. 148 Julho/2010 . estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis. Na ocasião. Segundo essa ideia. neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier. O foco epiléptico. o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. uma espécie de reverberação da Pág. o paciente sofria de epilepsia intratável. Após a remoção das estruturas. ele alegava nunca ter feito isso. Por exemplo. Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular. Curiosamente.M.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. isto é. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória. sua personalidade e a memória de curta duração. porém cooperativa. Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais. assim como seu QI.M. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. H. Como dito anteriormente. isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala. foi removido cirurgicamente. suas capacidades perceptuais se mantiveram.. quando consultado sobre seu treinamento prévio. porém. que funcionam de forma independente. aprendeu a ler palavras invertidas. 2007). apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia). representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos. H. O prejuízo cognitivo de H. parece atualmente bem difundida. estava restrito à aquisição de memórias de longa duração.M.

como visto. 149 . Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações. pode-se dizer que. Trazendo esse conceito para o caso do paciente H. têm lesão no lobo temporal medial). Curiosamente. ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. 2007). usualmente preservada nos pacientes amnésicos. Resultados de estudos como do paciente H. pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. pacientes parkinsonianos exibem. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier.M.M. Duplas dissociações. pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas. e uma memória de procedimentos (ou implícita). e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente. por exemplo. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. Julho/2010 Pág. mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. 4). Em suma. embora possam cooperar entre si. Neste contexto. Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu. Em outras palavras. Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita).Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas.

Sua aquisição é gradual e dependente de treino. possui um acesso consciente. o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento.amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson . Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H.PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. 5). como já descritas. ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig. ocorre de forma cumulativa.amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson .PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração. o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência. Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo.M . Além disso. em cada caso.M . 2007). 150 Julho/2010 . Sendo assim. (modificado de Helene e Xavier. ou seja. porém. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal.

Neurociências Figura 5 . memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. Julho/2010 Pág. denominado de retentor episódico. a central executiva. Baddeley inseriu um quarto componente no modelo. um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. Modificado de Helene e Xavier. Segundo os autores. armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig. 6). para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal. A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional". 2007. que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. 151 .Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. Posteriormente. Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas.

a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas. enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley. resolução de problemas. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . 1982). É provável que a seleção desses sistemas. 152 Julho/2010 . Considerações finais Em conclusão..g. com propriedades distintas. inclusive dos diferentes módulos de memória. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. Assim.. a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência. aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). a organização do sistema nervoso.g. Ainda sim. resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas. do ponto de vista evolutivo. incluindo raciocínio lógico. esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva). Pág. aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. enquanto úteis.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974).

como veremos a seguir em detalhes. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells. ou seja. a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. Em primatas. o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica. 1). Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). 1968. as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky. 2. Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1. Witter e col. No rato.com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. Anatomicamente organizado em camadas. o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. Em ratos. Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente.. Quando o animal se move livremente. Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. 1989) (Fig. Centenas. 153 . 1971). Adaptado de Paxinos e Watson (2004). se não milhares de experimentos.

2). versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. outras vezes. Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. 154 Julho/2010 . o paciente H. em outras vezes. O labirinto de Morris é usado. com uma pista que indica onde a plataforma está. 1993). quando fez uma operação experimental no lobo temporal. não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. 1993). infusões de drogas ou. Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. Cohen e Eichenbaum. nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. 3). como veremos mais adiante. Devido à sua simplicidade. Há várias versões desse teste.M. 1978) (Fig. ano de sua morte.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. para estudos de lesões. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial. e 2008. 1993). e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. 1957. entre outros. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. Entre os anos de 1953. Pág. que incluem a plataforma visível ou. Figura 2. Adaptado de Eichenbaum (1999).

aleatória. O círculo indica a plataforma escondida ou não. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. Julho/2010 Pág. por exemplo. Navegação práxica. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel. O animal pode executar um programa motor constante. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). São elas:    Navegação randômica. 1978. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora. 155 .  Navegação por rota. Se. 1986). Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica. nesse caso. Navegação táxica. Whishaw e Mittleman.  Navegação por local. O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas. ele deve explorar o ambiente de forma randômica.

4). Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar. Dessa forma. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células. Wiener. Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. porém sem perceber a posição. Nishijo e col. 1994). esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação. o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. para atualizar a representação de acordo com essas pistas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos.. 1993. Matsumura e col. Pág. Eichenbaum e col. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col. 1990. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais. 1983.. além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente. 1997. ou seja. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas. possivelmente devido à perda extensiva de place cells. al. gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados. utilizando-se das pistas externas e internas. as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente. enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. Para tanto. 1997. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col.. Maguire e col. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente. 156 Julho/2010 . Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo. como direção de movimento e velocidade. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. 1978. há um mecanismo fisiológico que é capaz de.. 1999) e humanos (Ekstrom e col.. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação. McNaughton e col..

Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col. As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas.. 157 . no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação. imóveis (Hori e col. 2005. VR(W). 2005). Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. Em outros estudos.. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. Furuya e col. mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente. 2005. 5).. (2005). mesmas posições. No entanto. Embaixo. porém em posições diferentes. Furuya e col. 2007) (Fig. Furuya e col. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col. 1994). o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col.. 4. Adaptado de Hori e col. Fig. 2005.. atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual. porem com menor tamanho..Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies.. 2007). 2007). VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. dessa forma. VR(N) é um ambiente similar a VR. as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos.

apresentavam maior atividade no hipocampo. 1995).. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col. quanto em primatas.. núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN. em menor Pág. Maguire e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col. Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo.. mantendo-se as proporções de B. e não o contrario. núcleo mamilar lateral (LMN. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle. há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. são as pistas que se movem em relação ao animal. 1991). no entanto. (2005). Leonhard e col. Em A. porém com características similares. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS. 1993) e. em relação ao grupo controle de nãotaxistas. tanto em ratos. 1984). (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres.. as pistas encontram-se próximas e em C.. Nesse paradigma. Mizumori e Wiliams. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. núcleo anterior talâmico (ATN. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze.. 2007). 158 Julho/2010 . Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system). Ranck. Taube. o ambiente todo é reduzido. Foi verificado que os taxistas. 1996). Adaptado de Hori e col. mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual. Em B. Porém. Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. No entanto.

Julho/2010 Pág. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col.. o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. diferentemente das place cells. PoS envia uma projeção ao LMN. enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação. denominadas grid cells. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. que. 1995). seguindo um padrão triangular. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência. por sua vez. 2004). esquematizadas em um anel de ativações. dessa forma. mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente. são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente. ou seja. Como a direção preferida de ativação não se altera. As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube.. 159 . Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. 2006). nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. ou seja.. 6). em um arranjo de 360º.Neurociências quantidade. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. 1994). sendo. Cada região. O LDN também se conecta com o PoS. ou cada população de células. Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. se projeta para o AD. McNaughton e col. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente. a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. na qual sua atividade é máxima. Essas células. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo.

Modelo de integração de rotas. para fins didáticos. Na ausência de movimento. b. de acordo com sua posição preferencial de disparo. A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas. Adaptado de McNaughton e col. Adaptado de McNaughton e col. A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). Figura 7 . (2006). 160 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. Head direction cells arranjadas em círculo. Cada célula se conecta com as adjacentes. cores quentes representando maior taxa de disparos. 2006. Pág. a.

encontro de parceiros sexuais. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. dissociar navegação espacial de memória episódica. essencial para vários processos como busca de alimento. A codificação de informações a respeito de lugares. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. 8). entre outras questões adaptativas. A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. localização dos melhores abrigos. 161 . Dessa forma. ou a memória. sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade. Julho/2010 Pág. Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning).Neurociências O sistema de grid cells. por ser menos específico do que o sistema de place cells. certamente essencial para os processos evolutivos dos animais. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados. Da mesma forma. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. o conhecimento.. junto com o sistema de head direction. 1997) (Fig. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. No entanto. de melhores épocas do ano para migração. 2006) (Fig. ou quase impossível. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo. Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. é muito difícil. acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. 7). etc.

162 Julho/2010 . As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. Adaptado de Einevoll (2006). Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal. enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo. Pág. Cores quentes indicam altas taxas. Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar.

começou a ser considerado como nãocientífico. i. Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. se a teoria de James estivesse correta. retomados. De fato. Ademais. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos. essas sensações são as emoções. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga. em geral. Por exemplo. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. alegria. A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. Julho/2010 Pág. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica. 163 . raiva.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções. De forma geral. em geral. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. Por volta de 1950. em um artigo intitulado O que é a Emoção?. segundo James. a ciência da cognição. Jaak Panksepp. Por exemplo. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. Ou seja. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem.e. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram. Caroll Izard. então. Pesquisadores como Magda Arnold. etc. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas.. contração de diferentes músculos. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. vergonha. por conseguinte. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. Portanto. o estudo da mente e. aumento da sudorese. então. por volta de 1910.com O que é emoção? Medo. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. o estudo das emoções. as emoções não ocorreriam. Paul Ekman. Com o surgimento do pensamento behaviorista. Para James. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva.

Essa sensação é avaliada pelo organismo. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. mas a questão central levantada por James. i. Para ele. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo.e. trabalha para reduzir. reações Pág. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. e não de esquiva. Por exemplo. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. ainda não tem uma resposta consensual. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. O que é a Emoção?. Apesar das diferenças entre elas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. Richard Davidson. de uma forma geral. Edmund Rolls. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. 164 Julho/2010 . está associada com uma resposta de aproximação. nos referimos a este estímulo como punição. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido.. contribuindo para a tomada de uma decisão. Segundo essa concepção. i. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo.. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. Por exemplo. nos referimos a este estímulo como recompensa. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo.e. a qual resulta numa sensação. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições. Antonio Damasio. que apesar de ser um estado emocional negativo. Quando. As emoções. por outro lado. Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo. e por outro lado.

indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. ereção dos pêlos. e engajar em comportamentos sociais adequados. Julho/2010 Pág. o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas. Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. por exemplo. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo. como mostra a Fig. i. a emissão de sons. entre muitos outros. Assim. Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies. cheiros. 1. batimento das asas. como o comportamento de morder quando se está com raiva. que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. 165 . como cegos de nascença e bebês muito novos. Além disso. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva. por exemplo. Estudos mais recentes mostraram. apresentar cuidado parental.. Darwin observou. exibem normalmente expressões emocionais. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual. que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. particularmente as expressões corporais e faciais.e. 1995). um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo. não são aprendidas pelo indivíduo. encontrar alimento e parceiros sexuais. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo.

incluindo as sociais. e de se recordar do conteúdo aprendido. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. e das penas na galinha. expressão ameaçadora. Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. Note a ereção dos pêlos no gato e no cão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1. Entretanto. Gene Sackett (1966). Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. E nesse contexto. Isto é. Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. 166 Julho/2010 . (B) galinha afastando um cão de sua ninhada. Modificado a partir de Darwin (1872). ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. o que tem alto Pág. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social. (A) gato assustado com um cachorro.g. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. De fato. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente. os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos.

Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. não apresentando medo pelo animal. O bebê passou a sentir medo pelo rato. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne. algo que não sentia antes. como no caso do experimento de Pavlov. Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. Julho/2010 Pág. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. 167 . Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som. Pavlov. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato.Neurociências valor adaptativo. 2). colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. também denominado condicionamento clássico. em seguida. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. O condicionamento Pavloviano. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. à apresentação de carne. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). que não eliciava a resposta de salivação nos cães. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. Watson. Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. então. elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). como no caso do experimento idealizado por Watson. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada.

Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo. 168 Julho/2010 . geralmente um choque nas patas do animal. entre outras. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. o choro do bebê Albert perante ao rato albino.g. Procedimento de condicionamento Pavloviano. é pareado algumas vezes a um evento aversivo... respostas neuroendócrinas (e. O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo. liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). respostas autonômicas (e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2. chamamos este comportamento de operante.. como comportamentos defensivos (e. o animal emite uma Pág. por exemplo um estímulo sonoro.. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores. Diferentemente.g. A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas. Por exemplo. quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência. neste caso. o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão. respostas de congelamento). Em geral. Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007).g. e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado).g. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. Nesta situação. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro.

. 169 . Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo. No entanto. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. recebe um choque nas patas. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. do inglês. por exemplo. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação. de sexo. que evocam diferentes respostas emocionais.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência.e. como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. Em algumas regiões do encéfalo. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. e é amplamente empregado no estudo das emoções. A estímulos desta natureza nos referimos como punições. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. Por exemplo. Neste caso. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. entre outras. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. Neste caso. i. toda vez que o rato toca o assoalho. de cenas alegres ou neutras. Nesta situação comportamental. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. Até mesmo alterações de humor. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo.

o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso. como mostra a Fig. 4. Modificado a partir de Bear et al. Para Papez. Bases Neurais Em 1878. e a expressão emocional pelo hipotálamo. Pág. Lobo límbico definido por Broca. em 1937.International Affective Picture System). a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. (2002). (1995). Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. 5). Modificado a partir de Lang et al. o tálamo anterior. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. Mais tarde. o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. incluindo o córtex cingulado. Figura 3. Figura 4.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos. 170 Julho/2010 . Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS . 3. o córtex cingulado e o hipocampo (Fig.

as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional. (2002). Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. os animais podiam ver perfeitamente. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca. Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. como a amígdala e o hipotálamo. 171 . Isto é. como por exemplo. que denominou “sistema límbico”. não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais. Historicamente.Neurociências Figura 5. o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. Diferentemente. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. Circuito proposto por Papez. denominado síndrome de Klüver-Bucy. Ademais. a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. No início da década de 1950. cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. os macacos lesados Julho/2010 Pág. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência. Modificado a partir de Bear et al. a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). Por outro lado. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. principalmente os visuais. Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. o hipocampo. por exemplo. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala.

danos amigdalares em seres humanos Pág. Depois de processadas e associadas na amígdala. 172 Julho/2010 .. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies.g. do ponto de vista hodológico. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo. onde um estímulo (e. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. perda de responsividade emocional. o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão. Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). Por exemplo. Em seres humanos. e perdiam o medo por cobras e pessoas. essas informações podem modificar respostas autonômicas. O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). Mais tarde. consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. diferente de indivíduos normais. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls. Mais tarde. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. endócrinas. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. exame excessivo de objetos. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. e nesse sentido.g. De fato. e não de outros tipos. e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. ele dirá 2 ou 3. 1992). Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo. Baseado nessas e em outras observações. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. De fato. somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. um choque).

como mostra a Fig. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. No entanto. que se deu 13 anos mais tarde. aos 25 anos. o que não ocorre em animais não-humanos. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. tais como perda de inteligência. Depois. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. Em seres humanos. Em setembro de 1848. 6. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. irresponsabilidade e perda de afeto. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. e pouco desenvolvido em outros animais. incluindo seres humanos. Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. impaciente e grosseiro. em geral. um trágico acidente acometeu Gage. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. fruto de uma forte crise epiléptica. deficiências motoras ou de percepção. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. 173 . logo se perdia em outros planejamentos. tais como os roedores. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. por exemplo. Phineas Gage. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo. Por exemplo. e muitos anos mais tarde. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. Macacos com danos na amígdala. que sempre abandonava. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. tornou-se irresponsável.

O núcleo accumbens.. 174 Julho/2010 . Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas. essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. diferentemente de animais normais. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. nas quais a escolha de um objeto. Em seguida. por sua vez. (2006). passa a resultar em nenhuma recompensa. que inicialmente era recompensada. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. Figura 6. ou seja. Modificado a partir de Gazzaniga et al. diferentemente de animais normais. o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. 2007). estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. o reforçamento é revertido. Por exemplo. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. Nesta tarefa. que param de responder. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. De fato. De maneira similar. a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada.

apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva.. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente. por sua vez. a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. heroína e cocaína. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte. Finalmente. do ataque predatório. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. além do comportamento maternal. Por exemplo. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos.e. entre outros. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp. Por outro lado. por exemplo. O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. E consistentemente. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. como por exemplo o comportamento de se alimentar. e o comportamento sexual. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. eliminam comportamentos motivados. mas não para o valor hedônico das recompensas. 175 . a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. Isso é diferente de valor hedônico. ou seja. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág. i. e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo. De fato. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. do comportamento defensivo. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado. função primordial das emoções. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. que por razões ainda não claras. 1998). Danos no hipotálamo lateral. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. Por exemplo. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. o córtex cingulado. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. de beber. estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais. estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais.

a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. e consistentemente. 176 Julho/2010 . um ideograma chinês. a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso.P. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). a paciente S. quando testados na mesma tarefa. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. seguida de um estímulo-alvo. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. Por exemplo. indicando o aprendizado do condicionamento aversivo. Interessantemente. com dano bilateral na amígdala. Entretanto. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. Num teste chamado impressão emocional subliminar. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos. indicando reação aversiva ao choque. Apesar disso. como por exemplo. a paciente S. foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente. o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. sem conhecimento consciente. De fato. pacientes com lesão hipocampal.. Como foi discutido em capítulo anterior. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes. uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. ou seja.R. demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos. e não às furiosas. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. Em um experimento clássico.

no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. seguido pela consolidação dessa memória. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. Numa perspectiva evolutiva. Por exemplo. como o falecimento de um ente querido. a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. 177 . mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. Além disso. o primeiro namorado. etc. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo. Julho/2010 Pág.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. e não só por meio de um procedimento implícito. como o condicionamento aversivo. o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia. ou seja. somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. De fato. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes.

178 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos. PET e ERP. por exemplo. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. ouvimos. ou no som das sílabas que ouvimos. De certo. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. falamos. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. Atualmente. apresentasse dificuldades na dicção. Antes objeto de estudo apenas de linguistas. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente.br Introdução Dentro das ciências cognitivas. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana. É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. como as aves. Assim. ou na produção de mesma. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC). as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos. lobos e primatas. na esperança de recobrar-lhe a fala. a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal. Retrocedendo mais ainda no tempo. XX) em estudos neurocientíficos. Neste capítulo. MEG. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos. Julho/2010 Pág. em questão de 1 ou 2 anos. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral. tais como fMRI. algumas espécies de animais se comunicam. era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua. e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. 179 .com. Bebês nascem e. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente.Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. sua lateralização e modularidade cerebral. cães. Anteriormente a este período. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. ao encontrar um indivíduo que.

São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. Pois bem. e a outra indicando o cisne. Além disso. optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL). comparando-se com crianças de nossa espécie. especialmente com chipanzés. vários experimentos têm sido realizados. no planeta. De modo muito diferente.5 anos. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso. Surgem também algumas questões. contam-se 10.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções). de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág.000 palavras. Além disso. e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade. e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças.  conteúdo: não só as palavras. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. mas também gestos. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. simplesmente. Assim. tudo isso sem a necessidade de intrução formal. aos 4 anos de idade. 180 Julho/2010 . Por fim. casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. Em um deles.

Tabela 1 . 1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano. De fato. a produção da fala.Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. que serão ilustradas na Fig. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano. 181 . 1 e Tab. são orquestrados pelos 1. O hemisfério Julho/2010 Pág. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas. então. envolvendo a articulação dos lábios e língua. um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem. também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana. e até mesmo nossa linguagem corporal. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. intermediados pelos sistemas visual e motor. a leitura e a escrita.

“Senhoras e senhores. Portanto. Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos. por favor dirijam-se à sala de jantar”. A afasia de Wernicke não prejudica a produção. Pág. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo. seria produzido por um destes pacientes como “senhora.. 1994. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). e troca de letras durante a escrita. que interliga as regiões de Broca e Wernicke. São diversas as disfunções decorrentes de AVC. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. senhor. 182 Julho/2010 . verbos sem flexão. letras e palavras curtas. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. sua fala fica afetada por uma fluência em excesso. leitura de números. sala”). Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. tais como compreensão de respostas não-verbais. e conferir entonação. A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores. verde e azul. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). ritmo e prosódia à lingua falada. Vermelho indica os maiores níveis.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem. levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular. Devido a esta dificuldade de compreensão. As mais conhecidas são as afasias de Broca. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior).Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda. Retirado de Posner e Raichie. é rompido. de Wernicke e de Condução. mas sim a compreensão da fala e da escrita.e. amarelo.

Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. apontando apenas para um componente genético. devido à modularidade cerebral . a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. quando comparados à população normal. com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos. (2001). olfato). destacando-se entre estes Kuhl (2000). articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. mas também para diferentes características linguísticas. apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. por exemplo. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi. A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. 183 . e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma. 2005). Existe. motricidade. herdado geneticamente de nossos ancestrais. Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. A dislexia. visão. há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso. portanto. e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. ainda. ainda. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. entre outras. em nossa espécie. parece pertencer ao acervo biológico do homem.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. Há.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito.

Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas. curiosamente. 184 Julho/2010 . diferentes entre Pág. Retirado de Kim . 1997. Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. em dois indivíduos adultos. Ainda assim. maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália. (Mechelli. de aprendizado simultâneo de duas línguas. hormonais e de plasticidade neural. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios. tomado de um ponto de vista neurobiológico. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. De fato. percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. ao passo que. 2000). nascemos prontos para aprender qualquer idioma.períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . e o da direita. a aquisição de outro idioma. Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. bebês aos dois meses de idade não o fazem mais. após o qual ela deixa de existir. 2004).

português e alemão. representação mental. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. em português. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. codificação gênica. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. Retirado de Kuhl. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. em inglês.Neurociências elas. perceber auditivamente e. depois. prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. nos primeiros anos da infância. Julho/2010 Pág. e por consequência. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. primeiro. não faz distinção entre japonês e inglês. anomalias. Ontogenia. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. e chegando até o fenômeno do bilinguismo. para os povos de língua espanhola. passando pelo seu processamento. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. ou quaisquer outras línguas entre si. 185 . distúrbios. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed. Nosso cérebro. ou como nas palavras avô e avó. de 0 a 12 meses de idade. para os brasileiros. Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. 2004. Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória. 4).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 186 Julho/2010 .

classe social. Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. ao longo do espectro de audição. língua ou idade. que é um atributo físico (Bendor e Wang.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz.fv@gmail. há algumas particularidades nos sistemas de afinação.Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. 2007). 2006). são complexos. irrestrito a gênero. senão todos.. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág. Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. o que se contrapõe à freqüência. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural. 187 . essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. 1998). Tramo. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica. Elas estão baseadas em uma tonalidade. Apesar das diferenças interculturais. Portanto. 2003). um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre. a qual é um atributo perceptual do som. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. 2003. É o seu timbre. não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. uma característica sempre presente. Gray e col. por mais que escutemos sons distintos. assim como notas musicais. um mais grave e outro mais agudo. isto é. formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. Ainda assim. 2001). por mais de uma freqüência). independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres. A composição de várias ondas produz um som muito específico. isto é. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. 2001. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical).

encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. em última instância. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. 880. conceito.760. Enfim. Hauser e McDermott. quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. 2001. 2006).520 Hz e etc. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. Bendor e Wang (2005). Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. não justificam por si só a existência de música globalmente. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles. 220. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido. 3. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. Tramo. Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. Benítez-Bribiesca. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre.. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno. no entanto. 1. também em outros organismos). estudando o córtex de sagüis. dispara também para sons com fundamental em 110. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes. 2007. quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes. 2001. Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. 188 Julho/2010 . que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. 2003. Masataka. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais. 2001. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. mas também para seus múltiplos. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. provavelmente. Gray e col. 2007.

logo. serão apresentados mais adiante neste texto. percebendo-as como um tom complexo. para tentar responder à questão. a música poderia ser até anterior à fala. Nesse sentido. uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. relacionando música e linguagem. 189 . da prosódia. 1874. traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. Pinker. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música. 1998. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. Clark. 1998 . 1879.. Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. em verdade. O sistema nervoso. É interessante notar que. mas como tons complexos. então. gritar) tem um apelo acústico próprio. então. 2000. 534). paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar. dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. uma voz em um ambiente cheio de ruídos. Isto é. 535.pág. o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são. regulares. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. uma mesma fonte sonora. por exemplo. em particular.Neurociências Wright e col. para citar alguns) e não há consenso nas respostas. Achados mais recentes. se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. resmungar. Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. segundo tal proposta de Darwin. Pinker compara a audição à visão. rir. separar um solista de uma orquestra. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. chorar. Darwin. Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. por exemplo). “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. que as associa. baseada em seis pontos principais. A música.

possivelmente. paisagens verdejantes. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. Koelsch e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor. balançar.pág. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. 537. como vistas distantes. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial. água correndo. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. A música também interferiria com tais circuitos neurais. O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. 190 Julho/2010 . insegurança ou mudança de habitat. bater palmas. passos. O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. Trovões. Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . o qual não variou em latência. pássaros cantando. ventos. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). insegurança ou mudança de habitat. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro. todos têm efeitos emocionais. de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. e acompanhar a música. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe. fontes neurais e amplitude. rosnados. corações e galhos batendo. nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). certamente estimula nosso sistema motor. distribuição no escalpo. Tal ritmicidade que nos faz dançar. independente deste ser uma frase ou um trecho musical.

Neurociências prévio. não só em humanos (Wright e col. Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. em última instância. no entanto. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. sejam eles abstratos ou concretos. possivelmente. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. são Julho/2010 Pág. Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. (Pinker. os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. assim como a linguagem. além da própria comunicação entre indivíduos. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. produzi-la. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. 2005). Fica claro. provavelmente. O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. até mesmo.. Diante dos resultados. diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. também contextos). O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais. 191 . 2003b). 2000). independente do conteúdo emocional desses conceitos”. Essa percepção. relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. como a linguagem. mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). mas permitem. Isto é. em outras palavras. essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana. que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. 1998). de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. portanto. Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. A capacidade para interpretar música. sua criação e percepção.

Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. . depois. O caso mais atípico e impressionante. 192 Julho/2010 .O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. partem para uma seção mais elaborada e. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné. relações tonais. os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott. seja da espécie Probosciger aterrimus. Wright e col. são freqüentes composições que exploram um tema. Mas voltando aos mamíferos. 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem. tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais. É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). já descrito.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. portanto. então. 2003). Da mesma forma. talvez. O experimento de Wright e colegas. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. assim como nós. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. mas não em tons diferentes. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). As razões são óbvias. permutações e combinações de notas que os compositores humanos”. de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. a Cacatua-Negra. o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros. mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. 1879) tal grupo é investigado. Ainda. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). como inversões de intervalo. Mais do que isso: . A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. (2000). expostos a música e melodias diversas. Desde o século retrasado (Clark. relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. porém. Segundo os autores. as baleias optam por produzir sons rítmicos. mas não para melodias atonais. trabalhando com macacosrhesus.

Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas. 1998). É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág. sugere que a música deve ‘predar’ os humanos. relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais. as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas. De fato. enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller. .Neurociências de músicas produzidas pelo homem. é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. Ainda. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano. . mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos.. e em grande parte do mundo.html para maiores detalhes). com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância. 193 . 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum.mtu.phy.Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. ao invés de sermos os inventores dela. 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. expressões faciais fechadas e até choro. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas.edu/~suits/overtone. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical. .Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição).” – pág. são derivadas da Série Harmônica (ver http://www. Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras. Nas palavras de Gray e col.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 202 Julho/2010 .

6) interação entre metabolismo energético e reprodução. 3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental. comunidades e ecossistemas.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab.com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. com especial atenção à técnica de respirometria. fisiológica e bioquímica. . Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental. podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental. a viabilidade das populações. este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. conseqüentemente. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. Sendo assim.

279 pág. 217 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. Carlos Arturo Navas pág. Silvia C. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. 204 Julho/2010 . Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. 257 Pág. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr. 269 pág. 286 pág. 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. 205 pág. Silvia C.

Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo. Julho/2010 Pág. incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos. em princípio. portanto. 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação. 205 . é o método mais preciso. ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material. a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo. são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. 2) Cálculo através da produção de calor do organismo. extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. 1). produtoras de energia livre. 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina). e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. a soma do anabolismo e catabolismo. Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores. Tais vias biossintetizadoras. As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações. toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. juntas essas reações degradativas. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. que invariavelmente requerem a adição de energia. na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox.com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). Segundo Schmidt-Nielsen (2002). Dentre essas reações. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. 1) (Nelson e Cox. são designadas como catabolismo (Fig. 2005). 2000).. Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e. 2005).Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail.

Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. Para conhecer a taxa metabólica de um organismo. A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. 2) (Randall e col.. é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). 2002). o trabalho interno químico. 2005).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig. Desta forma. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. Pág. 206 Julho/2010 . a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos. osmótico. e o trabalho externo para a locomoção e comunicação. Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. 2000). elétrico e mecânico.

o animal deve estar em repouso. que é similar a TMB. rim. 2. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . e a Julho/2010 Pág. e 42%. É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. 0. É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown. mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero. o relativo tamanho do fígado. coração e músculos são 2.. 0. Em humanos. não deve haver condições estressantes. 0. 2. A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. trato gastrointestinal. sistema nervoso.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. Em mamíferos. por exemplo.5. 2000).9. respectivamente.volume de oxigênio por Kg por minuto). pulmão. o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos). As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. 2002).4. 207 . as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie. 1997).

tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras. devido a isso. a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura. da aclimatação térmica (Randall e col. em virtude da compensação metabólica ou Energia. nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. Entretanto. Pág. na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar. Por essa razão. entre eles a temperatura. 1998). 2002). Para alguns ectotérmicos. 2000). Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. 4. é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal.. 1998). Por isso. a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas. por exemplo. 20. 1998). a movimentação dos seus átomos é elevada. 6. Sendo assim. 10. mais especificamente sua estabilidade. 11 e 25% respectivamente. através do ATP (Ferrano e Soares. representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. é possível utilizar a temperatura corporal. é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal. 2000). Como foi dito acima.. Existem outras formas de energia como a química provinda. Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que. 208 Julho/2010 . como a energia associada ao movimento (energia cinética).   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. a taxa metabólica padrão (TMP). quando há um aumento da energia em uma molécula. a TMB pode variar devido a diferentes fatores.

deveriam ser denominados homeotérmicos. Frequentemente.Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório. Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. Porém. podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002). os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis. Contudo. sendo separados em: os que geram calor metabólico. quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. e os que não geram calor. ectotérmicos e endotérmicos. 209 . Estes animais podem ser divididos em dois grupos. dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. 2000). A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. endotérmicos. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus. 2000). os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. Peixes que vivem em águas profundas. apresentam uma temperatura corporal constante e. Na maioria dos mamíferos. Previamente os peixes. répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e. aves e mamíferos homeotérmicos. Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira.. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. já que. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima. para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C.. portanto. 2000). elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. anfíbios. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. Os Julho/2010 Pág. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col. 2000). são denominados homeotérmicos. os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. Ao contrário disso.. ectotérmicos (Randall e col.. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. seja no ar ou na água.

Além disso. aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos. 1960. 2005). Além disso. 210 Julho/2010 . Os monotremados. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev. UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP). Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo. foi descoberto outra proteína. Como mencionado anteriormente. fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. Contudo. 1963). como os équidnas. não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col.. salmão e muitos insetos voadores. 2002). Este tecido é estritamente de mamíferos. que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. 2002). O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. denominada avUCP. e col. Skulache. tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. 2002). mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. Demonstrou-se Pág. 2000). que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. Fisiológica e bioquimicamente. em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. como alguns tubarões. 1965). Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom.. Entretanto. por meio da atividade muscular. assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col...

2002). que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. 3). Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente. posteriormente. Julho/2010 Pág. Como pode ser observado abaixo (Fig. 211 . como no metabolismo. e a UCP1. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen. dentre um determinado limite. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. 2001). respectivamente. 9. quadruplicaria em 20°C.. com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero.Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. 2002). k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. t1 e t2 . 2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos. respectivamente.

2002). o Q10 apresenta valores menores que 1. 212 Julho/2010 . para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero. é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. 2002). Com isso. assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. os valores de Q10 são próximos a 2. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra. Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética. e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. 2002). isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos. dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. a fração de um número grande de partículas. Porém. como as taxas de respiração e metabólica. No entanto. Para muitos processos. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades. Para temperaturas que apresentam efeitos letais. 4). quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. por exemplo.

A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional. é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise. abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto. mas também. Dito isto.Metablismo população. Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero. 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. 2002). 213 . 2002). 2002). Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero.

Figura 5 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. 5). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). 214 Julho/2010 . Pág. 2002). 2002).Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero. 2002) (Fig. Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2). mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero.

que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero. nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação. 215 . já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal. 2002).Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais. Com base nisso. Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos. Desta forma. a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto). principalmente o metabolismo. Julho/2010 Pág. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 216 Julho/2010 .

no entanto. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida. apresenta três relações chave entre: ar e vida. pré-método científico. 217 . Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. e fogo e vida. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral. Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar.B. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo. Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. Lighton (2008). ou de encontrar o elixir da longevidade. A seqüência de eventos históricos. Longe disso. fogo e ar. a princípio.Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. simplificada para fins didáticos. não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder. mas sim. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro. entender o que é o ar e como ele suporta a vida.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida. Contudo. os alquimistas perceberam que. ao término da chama. as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. o ar e a vida.kawamoto@gmail. apresentado no capítulo anterior. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. a medida de metabolismo energético em si. O problema não era. Leonardo da Vinci (1452–1519). veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. A partir daí.

Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. Este era o caso da queima de metais. Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. reforçando a teoria do flogisto. eles morrem. sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. e observou que quando a vela apagava.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. o ar não podia estar saturado de flogisto. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria. instantes depois o camundongo morria. Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society. na mesma jarra. Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. a qual chamou de “nitro-aereus”. John Mayow morre. O mesmo acontecia com a vela. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração. Incrivelmente. já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e. 218 Julho/2010 . Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. não havia chama para saturar o ar de flogisto. primeiro. mas sim ganha peso. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . pássaros e camundongos diminui até certo nível. Pág. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. contrário do que seria esperado pela teoria. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. o metal supostamente “deflogisticado”. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. Neste contexto. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. voltava à sua forma metálica anterior a calcinação.wikipedia. encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. no caso dos animais. teoricamente repleto de flogisto. O calx quando combinado com carvão. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804).org/wiki/File:Mayow). O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível.

A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio. Priestley produziu. a coulorimetria e a respirometria aberta. Incrivelmente. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. indiretamente. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. por mais contraditório que pareça. como dito no início deste texto. Percebeu. ainda. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. ainda. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar. que o gás que não sustenta mais a chama. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. manômetros e respirometria fechada. a partir de então. Deste modo. Além disso.Metablismo extingue o fogo. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica. O desenvolvimento dos paradigmas. Entretanto. medem. De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. a ciência percorre caminhos tortuosos e. Prietley pensou ter descoberto o flogisto. Havia. 2). 219 . o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma.

baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica. Contudo. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético. sem mudança de temperatura. Figura 2 . aproximadamente o mesmo que uma vela queimando. Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia. Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício.jpg. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo). Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. através da quantidade de água produzida por esse derretimento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo. 1 Pág. somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa. 220 Julho/2010 . Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso). um de descobriram a termogênese induzida por dieta.) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado.334kJ/g. momento em que ambos são decapitados.Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier.wikipedia. calcularam pela primeira vez. a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC.org/wiki/File:Icecalorimeter.

221 . Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. permitindo uma nova série de medidas comparativas. Po é a pressão de referência. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U.Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. 3). já que no tubo em U (Fig. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. cerca de 20 anos antes. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido. Em 1661. Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. The Skeptical Chymist. Mais especificamente. Julho/2010 Pág. Em 1643. dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. Assim. Seu predecessor. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida. Robert Boyle. conforme a fórmula: Pa – Po = H. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado. 4). a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. sensibilidade. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria. já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661.g.

5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada. Figura 5 . O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co. Figura 4. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial. Pág. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada. de preferência.Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. Ao final do experimento. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico. já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). com um absorvedor de gás carbônico colocado. 222 Julho/2010 . no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U. por exemplo. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento. o mesmo volume de ar durante todo o experimento.) ou KOH. é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa. mantendo. assim.

Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido. b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara. descrito mais adiante. T é a temperatura em graus Celsius. Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH.e.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro. diferente do respirômetro de Gilson. o que pode alterar a medição também. O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica. 223 . O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902. Julho/2010 Pág. 6). 5g de tauroglicocolato de sódio. É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273. Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. chuva). e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. 500mL de água). podendo incutir erro na medição.

onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. 4.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . 7).Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. Os passos a serem seguidos são: 1. (Fig. O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. Coloque o animal na câmara. 224 Julho/2010 . Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante. Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica. 3. Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson. 2. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2. Pág. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes.

Em uma condição em que o animal tem um QR de 1.325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema.04464. Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia. o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio. usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1. 225 . ou seja.15 ) / ( 101. Figura 7 . o sistema não Julho/2010 Pág. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item. Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273.43. Por exemplo. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema.

Dentre as alterações listadas anteriormente. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. ou que respiram de forma intermitente. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. A respirometria fechada não permite. por exemplo. o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia). Pág. Outra limitação quanto ao seu uso. Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. alterando o metabolismo de forma consistente. MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Este é o caso de animais que produzem calor. também. Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. Contudo. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). MR é o metabolismo medido com o absorvedor. por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. que se estendam por dias. O aumento de gás carbônico. alimentação. medições muito longas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. como os artrópodes traqueados. perda de água. 226 Julho/2010 . Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório.

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente. embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers. 1992). Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia. que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert. (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia. ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG). isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais. (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. Figura 2.2) (Withers. desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig. 1997).3). 238 Julho/2010 . 1992). Pág. Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento). Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais.As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes.

pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. 1975. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. modificado de Withers.1976 – Modificado de Withers. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente. Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia.4) (Withers. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas.Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O.Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May. 1992). 1992). Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores. 239 .Metablismo Figura 3. Julho/2010 Pág. Figura 4. 1992). Por exemplo. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig. variando de poucos graus até acima de 400C.

Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas. 2010). a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. quando a chuva chega. Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal. em rochas aquecidas. mas alguns ocasionalmente têm Pág. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência. Entretanto. com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. Em um ou no máximo dois meses.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). mas é termorregulador em áreas abertas. Atraídas pela cantoria. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. 1992). Assim. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C.. Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. 1992). o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol. por exemplo. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência. 240 Julho/2010 . alterações do contorno do corpo. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica. ele é termoconformador em áreas sombreadas. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima.

9° C for colocada próxima ao peixe. permanecem superresfriados. ao contrário. Por exemplo. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente. Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers.86°C. pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0. eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar. Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. o estado de super-resfriamento é destruído. 1992). 241 . pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto. portanto. e o peixe congela e morre. 1992). Desta forma. 1992). Ectotérmicos terrestres. que seria de aproximadamente -1. Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. se um pedaço de água congelada a −1. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C).60C a -0. todavia. desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C.Metablismo contato com temperaturas congelantes. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C.7 0C. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento. Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento.

Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico. Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno.6°C foram super-resfriados até -8°C. cujos fluidos corpóreos. 1996). mas. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . por exemplo. Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo.. em rãs que não toleram o congelamento. Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. Trematomus (DeVries. há toda uma preparação para o inverno. Outras rãs tolerantes Pág. Rana pipiens. Hyla versicolor. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. 1996). Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". por outro lado. sem que congelassem (Lowe e col. tais como a rã leopardo comum. Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. 1971). o glicerol encontra-se ausente. Répteis e anfíbios. o seu desenvolvimento. começariam a congelar a -0. o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. (Schmidt-Nielsen e Duke. se nucleados. 1970). Durante uma noite ocasionalmente fria. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal. pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo. portanto. ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero.possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento. somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. 1982). Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. A rã. apresenta um congelamento parcial e controlado. além disso. É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. 242 Julho/2010 . 1996).

não pode ser determinada com exatidão. A temperatura letal. 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas. Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. como a rã madeira.Metablismo ao congelamento. 1992). coagulação térmica. Por conseguinte. a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. por conseguinte. 243 .Desnaturação das proteínas. não está disponível para os animais aquáticos. . Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal). 1985). Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock.Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey. rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo. Rana sylvatica. 1996): . Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo. A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke. na qual ocorrem 50% de mortalidade. ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas.Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação. pois o tempo de exposição é de grande importância. . 1996). .Suprimento inadequado de oxigênio. A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C.

achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers. A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. 1992). conseqüentemente. o que faz com que tenham menor necessidade energética. A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág. embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta. (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. 1992). através do ofego. (3) O corpo possui um formato (alongado. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele. a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. Por exemplo. Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental.9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2. Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea. 244 Julho/2010 .7ºC. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. (5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. Por exemplo. Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos. (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. 1992).

Hertz e col. Crowley e Pietruszka.. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos. Keogh e DeSerto. 1983. Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col. 1983). a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987). Crowley e Pietruszka. 1982. Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais. ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. 1994. 2001). 1964.. 1982). Mudanças no comportamento defensivo. Entre os fatores abióticos. têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. Schieffelin e Queiroz. De acordo com Shine e col. Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. Huey e col. 1983). a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas.. induzidas pela temperatura. repelir ou escapar do predador. anfíbios anuros (Gomes e col. 2002). 1991) e serpentes (Herckrotte. a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo. 1991. 245 . Julho/2010 Pág. Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos.. 1982. e col. com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. 1967. 2002). Hertz e col. 1984. Arnold e Bennett. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. salamandras (Brodie Jr....1967. Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew.Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. 1984) e serpentes (Herckrotte. 1982). pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar. quando apresentam baixas temperaturas corpóreas. (2000). Oliveira e Martins. Mori e Burghardt.

246 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col. enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal. 2007). por sua vez. 247 .. é de especial importância para os animais de pequeno tamanho. também chamada Julho/2010 Pág... os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo. morcegos.. répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. Assim. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos. geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes. Este último. a UCP1.. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab. A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção. anfíbios. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col. podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase.. como não há trabalho mecânico. Como já mencionado no capítulo 1. Os mecanismos de ganho. Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col. uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor.. resultando na formação de ATP. Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”.. de Fisiologia. ratos. Entretanto. Neste tecido os ácidos graxos. 2005).com Conforme visto no capítulo anterior. Branco e col. praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col. Nas mitocôndrias das células em geral. derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos. 2005).Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. localizado próximo às escápulas e aos rins. 2005). o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias.). 2007). a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial.. Como já discutido anteriormente. 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. 1998.

A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP. Por fim. 1997). No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente. equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães. Figura 1. Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase. como visto também para ectotérmicos. sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos. os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica. A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall. 1). logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. 2004). denominada área pré- Pág. A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. 2007).Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. 248 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. principalmente autonômicos. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig. ovelhas e aves)... gatos.

estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc. isto é. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura. (http://healthysleep.harvard. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal. quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local. já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais.Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO. Por outro lado. 1992. Ainda. A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006).edu/_i/198. Boulant. Bícego e col. 2007). além de termointegradora. 2001). febre e anapirexia (Gordon. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais).med. 249 .Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO). a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. hipotermia.. o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal.jpg).. hipertermia. Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. Para a manutenção da eutermia. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia. Figura 2. diz-se que ele está em eutermia. 1998.

. Porém. 2005). respectivamente. 3). tontura. Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local. quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN. a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. TCS. consumo de O2. VO2. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. exaustão.Esquema de três estados térmicos: eutermia. temperatura crítica inferior. vômito e diarréia (Branco e col. TCI. Por exemplo. Dessa forma. ou choque térmico. Assim. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. Tc: temperatura corporal. que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. a energia extra é empregada para manter a eutermia. dor de cabeça. na hipertermia severa. 1998). a ZTN para humanos adultos nus. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. Figura 3. hipotermia e hipertermia. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. 250 Julho/2010 . temperatura crítica superior. resultando nos estados de hiper ou hipotermia. geralmente. Entretando. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações. · Na hipertermia moderada.

durante a anapirexia. 1977. 1976). 1991) e. nestes casos. porém devido a falhas no sistema termorregulador. 1990. 2005). diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. amnésia. pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. dentre outros prejuízos. alucinação...Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora.. convulsões. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger. Maloney e Gray. além de Julho/2010 Pág. aves (D'Alecy e Kluger. anfíbios (Kluger. A hipertermia. Macari e col. O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia. decréscimo da frequência respiratória. 1991). é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda. Steiner e Branco. 2001. podendo levar o indivíduo ao coma. 2000) e peixes (Reynolds e col. Na febre. delírio.. A resposta febril é uma reação complexa. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. em decorrência do desenvolvimento da febre. 1994). répteis (Hallman e col. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC. 1993. Nesse contexto. é um aumento regulado da Tc. idosos e subnutridos.. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col. Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. 1998). mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon. como mencionado anteriormente. enquanto em um ambiente com Ta alta.1975. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos. apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. lesões no encéfalo. 2002). Don e col. Febre A febre.. pois podem causar desidratação. Bicego-Nahas e col. Veremos a seguir quais são essas situações e porque. é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. O aumento na produção de energia térmica. dentre outros. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. por outro lado. 251 . a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos.

1991). quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável. Kluger e col. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente. Figura 4. No caso da febre. 1998). De fato. que por ser conservada ao longo de tantos anos. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger. o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta.. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. 252 Julho/2010 . como já abordado. 1991. Kluger e col. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. 1995. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. 1998). A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger. 1991. Marnila e col. Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais.Esquema de um gradiente térmico. uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais.. Pág. 4).. Dessa forma. deve conferir benefícios aos organismos (Kluger.

Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. Em contrapartida.Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col. IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril. Blatteis e Sehic. apesar de bem definida. Por fim. 1994. diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia. principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger.. 1998). Essa nomenclatura (anapirexia).. 1996). segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”. estes são fagocitados por células do sistema imune. Anapirexia Anapirexia. Matsuda e col.. 1991. lagartos.. 2005). 253 ..b). Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos.. é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica.Metablismo Figura 5. TNF-α. 2005). IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG). peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. Julho/2010 Pág. Fabricio e col.inclusive humanos -. IL-6. 1997a. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores). 1992. estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos .

De fato.. dentre outros (Bao e col. entretanto. como em casos de hemorragia. traumatismos cranianos. 1995. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante. acidentes vasculares encefálicos.. mesmo que localizado e passageiro. 1985. Hicks e Wood. mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. cirurgias cardíacas e traumas cranianos. envenenamento. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. 2001. Malvin e Wood. mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. 1981. facilitando assim a recuperação do indivíduo. 1992). ou anapirexia. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. pois diminuem respostas altamente custosas. 2002).. 1995. 1992. No entanto. O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e. Wood. Com todos esses benefícios associados à queda da Tc. 254 Julho/2010 . 1997. isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. Holzer e col. seja por exposição ambiental (tocas.. contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. camundongos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004).. consequentemente. Reissmann e col. 1997. respiratórias e/ou metabólicas. 2001. pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. 2004). Gordon e Fogelson. é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. 1997. etc) ou por insuficiências cardíacas. 2001). a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood. Wood. Gordon. Gautier. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág. 1995. Steiner e Branco. Gordon. que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco.. 2000. Então. além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. Kline e col. um aumento na sobrevida de ratos. 2002). Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. Sendo assim. 1985. Barros e col. Durante a anapirexia. anemia. para a produção de energia na forma de ATP.. 1998). altas atitudes. Wood e Stabenau. o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. 1991. 2001). isquemia. Malvin e Wood. Dessa forma. 1996.

2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. 255 . Paro e col. o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col. Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal. evidentemente. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc. Scarpellini e col. a anapirexia. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col. 2009). os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon. na APO. 2003). Por outro lado. Deve ser lembrado. Entretanto.. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos.. Gargaglioni e col. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. 2005. GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc). que essas alterações.. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros. 2002b). 2009).. Dentre estes estão a dopamina. E. 2002a. assim como acontece na febre. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. também na APO. contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. ou seja. Como pode ser notado. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim.. Em suma. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. serotonina. a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. 2000. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental.Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico. 2001). A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. Ainda. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores.. levando à queda da Tc. respectivamente. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. Steiner e col.. a serotonina. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições. para serem benéficas. os receptores mi e delta. tais como infecção e hipóxia. Julho/2010 Pág.

256 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação. como no torpor diário. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. sobrevivam à escassez de água. como nos casos de estivação e hibernação. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica. a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. 2003). 257 . uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. dentre outros eventos. mas com apenas algumas horas de duração. tais como fotoperíodo. peixes e caramujos. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. para determinadas funções. mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e. em muitos casos. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. 2004. incluindo anuros. ou dissociada da dormência sazonal. A depressão metabólica é. sono e anidrobiose. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência.. como mencionado acima. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento. sem acesso ao ar atmosférico. temperatura e umidade. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida. Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio. Carey e col. A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal. Na maioria dos casos. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada. Ciclo Anual Julho/2010 Pág. A estivação possibilita que muitos animais.fisioib@usp.Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian. portanto. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. ou ótimas. que possibilitam.

da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados.. indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. 2004). possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades. E uma diminuição da TMB já no meio do verão. 2005). Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. 2005). A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. por exemplo. desta forma. 2005). a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. 2000. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. 2005). seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark. Dark. possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. Esquilos. Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. Desta maneira. 258 Julho/2010 . ou ambos. dentre outras respostas. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. provavelmente por um mecanismo central. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes. estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. 1974). mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. antes que a ingestão de alimentos diminua. os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. o armazenamento de substratos. Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. Meses antes do estresse ambiental. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e. mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col.

No morcego Myotis lucifugus... Em endotérmicos. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág. Spanovich e col.. ou seja. 2000).. 2000). durante a pré-hibernação. embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col.. Já em marmotas Marmota flaviventris. 2001. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier. que apresenta dormência sazonal. 2000). 2006). assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. Niewiarowski e col. A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica. Entretanto. estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col..Metablismo adiposidade do animal. a secreção de leptina. têm sido investigados em outros grupos. Paolucci e col. 259 . Neste animal. 2000. 2000. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. Neste mesmo animal. Recentemente. os efeitos e a estrutura da leptina. 2004). antes estudados somente em mamíferos. Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo.. os níveis circulantes de leptina são menores no outono. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada. os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal. Neste caso. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col. Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. 2000).. 2006). elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col. das frequências cardíaca e respiratória. a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência.. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito.

. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. embora. estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey. enquanto outros são totalmente interrompidos. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. 200). 2000). Esta semelhança. Storey. 1994. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. portanto. Ruf e Arnold. Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto. Com base neste pressuposto. 2004). Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia.. 2004. Curiosamente. em grande parte. mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col. a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se. reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey. Nos mamíferos. estes processos são retomados durante os despertares periódicos. bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). que supre a atividade de enzimas como a Na+. a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. muitas vezes. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. Diferentemente da função cardíaca.. ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. Durante a depressão metabólica. 260 Julho/2010 . sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. 2003). o fluxo sanguíneo renal. Pág.K+-ATPase. 2007). 2004). alguns processos fisiológicos diminuem.

Por outro lado. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições. Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág. Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center. Na depressão metabólica sazonal. 2007).Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. assim como ocorre nas células dos hibernantes. observa-se uma pronunciada atrofia do intestino. 2003). 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO). Após 6 h de exposição ao H2S. seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col. Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005. a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col. embora a capacidade funcional do órgão seja preservada. tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). 2003). acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col. atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. Provavelmente. quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S).. de fato. a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. Em hibernantes clássicos como os esquilos. 261 . Dado o elevado custo dos processos de digestão. 1). apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. alguns endotérmicos e ectotérmicos. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e.. parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real.. O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo.. 2005). Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. preservando a viabilidade celular.

. 2000). 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col. Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. 2).. alguns anfíbios e répteis.. 262 Julho/2010 . Souza e col. Na marmota. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida. Pág. por exemplo. interrompidas por despertares periódicos que. Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. 2004). 2002. nos quais os animais acordam. Knight e col. Nestes casos. a b Figura 1.. b) Primata lêmure Microcebus murinus. apresentada por outros animais. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas.a) Lagarto teiú Tupinambis merianae. geralmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC. 2004).. duram menos de 24 horas. 2004.

síntese e Julho/2010 Pág. Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1). o rápido reaquecimento durante o despertar (3). a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência.Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). receptores e transportadores de membrana. Souza e col. a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2). as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. catalisada por proteínas quinases. Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. quando os animais despertam da fase de dormência. Neste momento. com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). 2003. como visto em capítulos anteriores. Em alguns mamíferos hibernantes. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. 2004). Em diversas condições fisiológicas. e na remoção desses grupos. 2005). mas também para que o despertar seja bem sucedido. Na primavera. Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares. catalisada por proteínas fosfatases.. essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. 263 . Ta representa temperatura ambiente. várias enzimas glicolíticas.. proteínas responsáveis pela transcrição gênica. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar.. a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna. (Modificado de Heldmaier e col. 2004). e a eutermia (4). provendo aminoácidos para a síntese de glicose.

1990). consequentemente. 2003). como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados.. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). entretanto. o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. além de ajustes específicos. carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. 2004). O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. Para ilustrar como esta regulação acontece.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. De uma maneira geral.3). o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. Curiosamente. nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia. Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. Observa-se. Este complexo enzimático. da formação de acetilCoA a partir de piruvato. hexoquinase. Durante a fase de dormência. já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada. 2004). Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos. é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. principalmente. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. preservados para utilização pelo cérebro. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. um tecido dependente de glicose. no nível da expressão gênica. Em condições anóxicas. há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. em parte. 264 Julho/2010 . que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal.

e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial. como a citrato sintase. 2002). A quantidade de lipase pancreática. Paralelamente. no coração do hibernante. Confirmando esta idéia. a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). 2004). 2000). inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas.. 2004). A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. assim como da lípase hormônio sensível. alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. primeiro passo da síntese de ácidos graxos. de Julho/2010 Pág. há um aumento da expressão da lipase pancreática.Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. 265 . Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente. A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase.

a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo. Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica. dada a inibição da síntese de proteínas. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. 2004). lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. 2003). ativado por ácidos graxos. PPARα é um receptor nuclear. embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. 1997). que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. HSL.. TG. Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. o que além de contribuir para a economia energética. Paralelamente. 266 Julho/2010 . a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. triglicerídeos. durante a hibernação em mamíferos. Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. De Pág. Portanto. aumentando a meia vida destas moléculas. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células. (2000) na última década. estocagem e excreção (Storey e Storey.

Curiosamente. Na marmota. o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy. dissociadas de efeitos da temperatura. próximos à região polar. de forma significativa. tanto passivo através de canais iônicos. A atividade da Na+.. 267 . dados não publicados).K+-ATPase. 1980). durante a depressão metabólica. consequentemente. Em um caramujo terrestre estivante. quanto pelo transporte ativo. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col. a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. Adicionalmente. 2000. 1987). evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos.. A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. animais menores possuem membranas mais insaturadas e. provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea. aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. embora a atividade da Na+.. um hibernante herbívoro. provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal. alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. 2008). Face à redução das taxas de produção de energia. 1997) e a inibição deste processo contribui.K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col.Metablismo maneira geral. 2007). Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira. 1998). para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col. 2003). as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios. ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções. Hulbert. 1998). taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência. rins e fígado (Balaban e Bader. 268 Julho/2010 . o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand. embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético. Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. Por exemplo. a atividade da Na+. o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. No conjunto. a inibição destes vários processos. Pág. Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. MacDonald e Storey. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos. Adicionalmente. 1984. 1995). com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons. 1999).

Sendo assim. a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig. sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais. os comportamentos relacionados à defesa territorial. termorregulação e reprodução (Fig. 1a). e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução. os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo.1b).Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população. Assim. Neste período em que o trato digestório está vazio. Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético. manutenção. 2004). Julho/2010 Pág. e a energia excedente é armazenada (Scheneider. quando a energia é escassa. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. corte. anapirexia. as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo. hibernação e dormência). Por outro lado. Como já discutido. Deste modo. quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. febre. os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento. 269 . incluindo crescimento. 2004). Durante a evolução dos animais. o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. 2004). Desta forma. 2004).com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação. mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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1999). Primack e Rodrigues.. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. 1991. o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente. parasitismo (Dukes e Mooney. 1996.. as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. 2005). 1994. 1992. umidade e vento. 1994. 1998. Zachariassen e col. A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais. 2005). 2001. 1989. 1996). Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas.. Navas e Otani. Daszak e col. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema. predação. Bierregaard e col. Galindo-Leal e Câmara.. 2000. 1991. redução da diversidade genética. temperatura. Além da redução populacional. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. Vitousek e col. 1997. Gascon e col. além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991. Julho/2010 Pág. 1997). o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. Tocher e col. Desse modo. Carey.. influenciando diretamente os microhábitats. Zuidema e col. Drinnan. 2001. Kolar e Lodge. 1999. são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman. Rodrigues. e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam. a fragmentação modifica as condições de luz. 2001). 281 . juntamente com a ecologia. 2007).. 1996.. evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos. uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col. por exemplo: competição..Metablismo e Merriam. Zuidema e col.. A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento. 2005).

2010).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . como por exemplo. Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício. A poluição da água. 282 Julho/2010 . essenciais para qualquer organismo vivo. No ar. Pág. também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. por sua vez. a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. as quais modificam outras características da água. sendo prejudicial a saúde pública e ambiental. 2001). os poluentes podem promover a formação de ácidos. Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies. por exemplo. Essa vulnerabilidade dos ecossistemas.

1998. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. France e Collins. 2008). Tal equilíbrio é.. 2001. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. Diante desse cenário... 2008). Angilletta e col. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. A análise integrada da variação fisiológica. temperatura e correntes de água (Carey. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. 2007. 1989. aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. De natureza multidisciplinar. mais uma vez. podendo ser extintas. Como conseqüências dessas ações.. Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente. 2005). e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. 1990. Mackenzie e El-Ashry. Buckeridge. Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas. As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col. 2007 – AR4). bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. através do conhecimento sobre a história natural das espécies. Além de alterações na temperatura. da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. também. 1987. 283 . Blaustein e Wake. em diferentes níveis de abordagem. atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. Wells.75% da temperatura média no Brasil (Marengo. 1988). 2008). favorecendo. alteram o pH do solo e de corpos d’água. é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé. No Brasil. observamos a elevação de 0. É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. 2008). ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. 2008). indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. 2007. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. Sampaio e col. por conseguinte. podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar. 1992.Metablismo que por sua vez. 1993) e plantas (Hinrichsen. das queimadas (Sampaio e col. 1986).. Mangum e Hochachka. Sampaio e col.. 2002). a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. 2009). 1995.

2007). 2006). Beyers e col. 2006). Barbieri e col. Wikelski e Cooke. além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores. Dentro desta perspectiva. temperatura corpórea. 1995). 2001).. Carlisle. 1998. 19991. 1991.. 2005. Zachariassen e col. além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. 2005). Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos.. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. 2006). Zachariassen e col. taxa opercular. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa...VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. mesmo que indiretamente. Costa e Gales. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca. os princípios. O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. 1991. 1999. Hopkins e col. Navas e Otani. como por exemplo: a biotelemetria. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee. comunidades e ecossistemas. a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. da asa ou de outros apêndices) em tempo real. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. Nagy e col. 1999. Carey. Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo. 2000). A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. 2006. Diante da introdução dos poluentes. 2003). reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman. 2005. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. 284 Julho/2010 . 1997. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. 2000. Wikelski e Cooke. 2002. 1995. batimento caudal. 19991.. DeAngelis. somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods. Carey. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. se possível.

Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. 2007). taxa de crescimento. capacidade natatória. 2004). 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. 1999. 1998). 1994. de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais. Barbieri e col. 1991. Costa e Sinervo.. 285 . podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies. 1995. Rowe e col.. Porém. Rowe e col.. Através desses dados. 2005. Além disso.. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental. 2003. Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação. 1998.. 1991. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. 2007). Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. 2004). Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. Wikelski e Cooke. possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. por exemplo. 1996.. Somero. 2006). determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. Julho/2010 Pág. 2005. 2000. Em suma. a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. Calow. podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka.. 2002). esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. mais a longo prazo. 2006). 1998. Drinnan. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. Neckel-Oliveira e Gascon. Zuidema e col. 2001). Rowe e col.

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como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). Neste capítulo. será intensamente discutida neste capítulo. visto que. vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia. em especial a neuroendocrinologia. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. fisiológica e anatomicamente interligados. Em relação à neuroendocrinologia. endócrino e imune. distantes do seu centro de origem. Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6. interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo. os sistemas nervosos e endócrinos. Adicionalmente. mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). Desta forma.Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. em invertebrados (Unidade 7). a importância dos estudos em fisiologia comparada. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. ao longo deste capítulo.br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. Os sistemas biológicos: nervoso. que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso. Neste contexto. estão. . agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental). veremos.

348 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr. 337 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra. 300 Julho/2010 . 305 Pág. 323 pág. Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios.

301 .Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág. 302 Julho/2010 .

Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág. 303 .

304 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Inicialmente. Já a neuroendocrinologia. 2007). Adicionalmente. o entendimento do sistema endócrino. 2007). sua estrutura Julho/2010 Pág. Segundo Zohar e colaboradores (2010). com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris.br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos. pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. também denominados de hormônios. conhecida como fisiologia. 2010). as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. Esses produtos de secreção. 1954). ou seja. é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. que estão submetidas a diferentes condições. até que. este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos. Norris. Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. 1992. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. 2006). Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar.. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes. 305 . assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris. O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. ou glândulas de “secreção interna”.

que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. vários tópicos ainda permanece incertos. 1966). Fisiologicamente. as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. 2006. Anatomicamente. Norris. Para melhor compreensão do eixo H-H. passados aproximadamente 35 anos. 1992. De uma forma geral. 2006. 2007). integração e no redirecionamento de sinais. atuando na recepção. apresentaram pela primeira vez. Em relação à hipófise. olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente. 2002). Guyton e Hall. ou neuro-hipófise (NH). o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. que extratos encefálicos. 2007). Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária. 1998. Berne e Levy. Guyton e Hall. e tronco encefálico. numerosos hormônios são sintetizados. e hipófise posterior. 306 Julho/2010 . mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. Fisiologicamente. 2007). em peixes. um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. Norris. cerebelo. neuroendocrinologia é um assunto mais recente. Já em peixes. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. pois. ou adeno-hipófise (AH). o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. 1998. é o hipotálamo (Withers. Norris. bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. sendo que. 1973). 1992. Neste sentido. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. ou seja. Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. em alguns casos. 2006. forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. Norris. a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. 2007). Outros estudos posteriores a esta época.

Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col. o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais. abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade.. Lethimonier e col. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários. Originalmente... 1998). Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula. 1998).. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos. Tabela 1. 1972). é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios. entretanto. Desde então. 2002. de lampreias a mamíferos (Guilgur e col. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy. Levando-se em consideração apenas a reprodução. 2004). 1983). cuja estimulação/secreção. Adicionalmente. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar. 2006). alguns anos depois.Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. 1971. no entanto. Burgus e col.. 307 . foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. 1973). múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág..

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. 2002). Segundo Sherwood e Adams (2005). faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col. Pág. que possuem doze aminoácidos e... como por exemplo. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas. em répteis (Lovejoy e col. 2008). em peixes teleósteos (Sherwood e Adams. 1993). a liberação de GnRH. ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col. elevação do segundo mensageiro.. relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower... Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. ou seja. os aminoácidos número 01. 1991a). 2).. a ativação da fosfolipase C. pois. podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy. Essa variedade de formas de GnRH. 2004.. em aves (Miyamoto e col.. É importante salientar. 2003). Tsai. 1998).. foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. 2005). que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col. o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). 2004). 1998). Em mamíferos. 2002. as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11). 2005). 1993). 308 Julho/2010 . cuja função ainda é especulativa e uma outra forma. em elasmobrânquios (Lovejoy e col. além disso. Whitlock. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col. Em geral. uma vez que... em anfíbios (Conlon e col. 2006. 09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie. entretanto. 2) (Weltzien e col. Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008). são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados). Guilgur e col. 1991b). que por sua vez. também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH. e estes. todas as formas são decapeptídeos.. 04. 2006). 2005). estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos. exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. 2002) e Aplysia californica (Zhang e col... 1984) e em mamíferos (White e col. mas em geral. A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback).

Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas. Guilgur e col. Sherwood e Adams. são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. outras complexas interações de sinais neuronais. 309 . Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. que por sua vez. influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz..Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. (2002). mudanças de temperatura. pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. Adaptado de: Iwakoshi e col. a kisspeptina. 1997). (2005). ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro). As formas de GnRH grifadas em cinza. que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. o ciclo de claro e escuro (dia/noite). tem sido identificadas em peixes. entre outros. Adicionalmente. estariam atuando nesta modulação do GnRH. Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. semelhantes.. (2006). 2006).

o mecanismo de ação. Berne e Levy. Os hormônios hipofisários em mamíferos. e agora. A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos. foi discutida resumidamente. as possíveis células alvos. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. como observado para os hormônios hipotalâmicos. 1992. 2006. de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. as células tireotrópicas. que produzem a tireotropina (TSH). 2006. denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. inibindo a liberação de GtHs. 310 Julho/2010 . Desta forma. Desta forma. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. e são armazenados e liberados pela NH. a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. Berne e Levy. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. E ainda no ano 2000. 1998. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers. quando foram descobertos. e entre essas duas partes. 2004). 2007).e. i. e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. controlando as funções de suas células. ou hipófise anterior. são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. Embriologicamente. veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. sistema este. cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. 1998). as diferentes formas (quando for aplicado). ou hipófise posterior. a sua natureza química. a neuro-hipófise (NH). pois através deste sistema. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. 2006). as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. as funções dos hormônios Pág. o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. há uma zona intermediária. 2008). se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. 2009).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). Guyton e Hall. Em geral. Já na AH. a NH. Norris. a adeno-hipófise (AH).

progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. T3). atuando principalmente nas gônadas. cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. é um hormônio glicoprotéico. ou seja. carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH). a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. Já a ocitocina. é um hormônio. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall. os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. Berne e Levy. produzido pelas células corticotrópicas. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais. a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH. que são hormônios glicoprotéicos.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH. 1998). relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas. Tabela 3. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos). As células gonadotrópicas. O TSH. 2006. estão diretamente relacionadas com a reprodução animal. mas também apresenta um papel nas contrações do útero. T4 e a triiodotironina. O hormônio TSH. é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. Em relação à AH. por sua vez. 1998). sintetizado pelo hipotálamo. também conhecido como arginina-vasopressina. é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina. 311 . sintetizado pelas células tireotrópicas. relacionado também com o metabolismo corporal. o hormônio ACTH. ou seja. que sintetizam o FSH e o LH.1. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy.).

(1998) e Guyton e Hall.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). ver as revisões de: Guyton e Hall. ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). A combinação das tabelas 1 e 3. já a PRL. incluindo especificamente. (2006) e Berne e Levy. mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. uma abordagem geral em peixes se faz Pág. além de atuar no metabolismo. O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS). a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos. O GH e a PRL. a neuroendocrinologia em peixes. Adicionalmente. participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite. 312 Julho/2010 . o aumento da síntese protéica. Neuroendocrinologia em peixes Em geral. são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. (1998). Modificado de Berne e Levy. Figura 1. (2006). é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos. Neste caso. em humanos. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos.

anatômicas. essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton. 58% são marinhos. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton. Em relação à sua distribuição. 2002. 1990). Moyle e Cech. 1996. os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. percepção sensorial e reprodução (Hoar. Zavala-Camin. 1998). apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. 2003.). flutuação. desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio. Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. Desta maneira.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. 2004). 2006. Lowe-McConnell. além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva.. seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa. as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. 1999. 313 . 1969. osmorregulação. a desova total ou a desova parcelada).1. morfológicas. 1990. nutrição. a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes. com esse grande número de espécies existentes. Vazzoler. Moyle e Cech. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. Em relação à reprodução. ou seja. Wooton. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2. 1990. Hochachka e Somero. São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos. 2003. 2003). ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. Além da importância como fonte alternativa de alimento. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies. contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson. por exemplo). ZavalaCamin. Moyle e Cech. 2004).

em algumas espécies de teleósteos. Pág. para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. sendo: cGnRH-II (chicken II). Guilgur e col.. As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes.. 2003. 2002. também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col.. como por exemplo. como por exemplo. 2004. 2006). Já a segunda ou terceira forma. 2005). foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col.. 2004. o comportamento reprodutivo. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente. os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada. A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. 314 Julho/2010 . em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH. entre outras formas (Lethimonier e col. Zohar e col.. 1997). Neste contexto.. 2010).. 2005). que em teleósteo. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col. Com isto. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH... O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. 1995. 2006). 2006. 2002). 2004. 2005). Guilgur e col. 2006. tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col.. Guilgur e col. 2002. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior. Zohar e col. González-Martínez e col.. 2010).. 1994. Dubois e col. Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col.. Zandbergen e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva... 2006. sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col. 2010).. o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower. Sherwood e Adams.. Pandolfi e col. ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. em Siluriformes. está relacionada especificamente com a reprodução. ou seja. 2004. 2002). ou seja. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas.. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral)... Pandolfi e col. para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo. Zohar e col. em peixes teleósteos. 2005. como por exemplo. Entretanto. sendo que. Guilgur e col. ao contrário dos mamíferos. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais. no qual. 2004.. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. Guilgur e col... ainda são discutidas na literatura especializada.

1993) e de encéfalo (Bogerd e col. e provavelmente. 1997). Entretanto. sendo que.. sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas.. apenas duas formas de GnRH foram identificadas. alguns estudos apontam que. possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro.. entretanto. em extratos de hipófise (Schulz e col. o que veremos a seguir. 1994.. foram identificadas estas duas formas de GnRH.. assim como em mamíferos... As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos. apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso. por exemplo. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa). em geral. nos teleósteos Julho/2010 Pág. são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos. 2006). Em relação aos hormônios hipofisários.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. 315 . Weltzien e col. pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. Desta forma. 1995.. 2004.. como por exemplo. ainda não é bem compreendida. Portanto. no catfish africano. neste grupo. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col. pois.. na região da NH. Somoza e col. Agulleiro e col. 1995. Adicionalmente. identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. 2001). Goos e col. Hipófise em peixes A hipófise em peixes.. Neste contexto. 1997). Neste sentido. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. 2004). A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. Dubois e col. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. 1994. como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH). em vários teleósteos. 1992) de catfish africano. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios.. os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. Cinquetti e Dramis. as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. 2006. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante). que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH). exceto a somatolactina. 2004. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina.. Kawauchi e Sower. Kawauchi. Takei e Loretz. no metabolismo. 1996. que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). também são identificadas na região PPD. o principal hormônio desta glândula é o cortisol. como por exemplo. sendo que. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados. 316 Julho/2010 . características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. 1990. 2004. estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col. que todos esses hormônios. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH).. a família prolactina/somatotropina. segundo Kawauchi e Sower (2006). 2004). 2003. como por exemplo. “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). conhecidas como células somatotrópicas. Kawauchi e Sower.. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios. hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL). a arginina – vasotocina (AVT).. Neste caso. 1999. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas. nos aspecto Pág. no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células.. Em geral. melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower. 1996). 2001. Batten e col. Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). 2006). Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. Duarte e col. É importante salientar.. e a família dos hormônios glicoprotéicos. Adicionalmente. 2006). este hormônio atua em vários processos fisiológicos. portanto.. Weltzien e col. 2006).. Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). a adrenocoticotropina (ACTH). entre outros neuropeptídeos (Acher. Kaneko. 2006. Cala e col.. a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH). na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs). 2006). 2003. como por exemplo. e em peixes. 2000). 2006. Weltzien e col. que inclui prolactina (PRL). em teleósteos.

. 2003. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo.. 2000. 1993. no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col. o FSH e o LH. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. Vissio e col. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes... como por exemplo: no metabolismo. Forsyth e Wallis... 2003.. 2003) e indiretamente na reprodução. 2006). na reprodução (Olivereau e RandWeaver. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. 2006).. 2003. Kakizawa e col.Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col. abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. 2000.. são as GtHs. também conhecidas como PIPAScells. 317 . 2006. 2006). Johnson e col. que o papel fisiológico da PRL em teleósteos. Cala e col. 1996).. 1996. produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos. 2003). Cala e col. Sabe-se ainda. 1996). 1993. como por exemplo. Julho/2010 Pág. 1995. e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. Finalmente. 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes. 2000. desta forma. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo. ainda continua desconhecido. Adicionalmente. Em relação ao MSH. 1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col.. Kawauchi e Sower. Kaneko.. Kaneko. 2006). Kaneko. reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col... 1989 apud Mylonas e col. pois. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col.. Kawauchi e Sower.. Em relação ao TSH. 1994.. 1997. As células produtoras de somatolactina (SL). as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. 2002. foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990). além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. Forsyth e Wallis. Agulleiro e col. Kawauchi e Sower. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás.. Mousa e Mousa. 1998). 2002. 1992. 1997. Mayer e col. 2003). Mancera e Fuentes. 1994).. Kawauchi e Sower. osmorregulação. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col. 1996. 2006). Kawauchi e Sower. ou seja. Rand-Weaver e colaboradores (1991).. nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col. 1999). 2006.

efeitos positivos.. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura. pluviosidade entre outros). entretanto. fotoperíodo. negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. é controlada endogenamente por um sistema endócrino. 2006. 2010).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes. maturação. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução. que sintetiza e libera gonadotropinas. pineal. 2) (Blázquez e col. em peixes. Levavi-Sivan e col. são captadas através dos olhos. liberação e fertilização dos gametas. Weltzien e col.... Falcón e col. reiniciando o ciclo. 1998. foram registrados. esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. Adicionalmente. 2010. 1999. Zohar e col. Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. 2006)... principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col. 2010.. a temperatura e. narinas e receptores cutâneos. que crescem e se tornam adultos. Em várias espécies de teleósteos. Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. 318 Julho/2010 . sendo que em geral.. Pág. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos. Por outro lado. 2004. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig. 2010). Em geral. sabe-se também. Levavi-Sivan e col. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. precisam ser investigados mais profundamente. possivelmente as chuvas. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. alterações ambientais como o fotoperíodo. Zohar e col.

319 . Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur. Julho/2010 Pág.Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Imagens: Renato Massaaki Honji. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto).

na fase de vitelogênese. O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese.. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva. sendo. 1997). como por exemplo. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase. testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH). Nos machos. O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona.. 2000. estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. também sob influência do FSH. que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. 2004. A detecção da vitelogenina. Nagahama. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo. Assim. principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia. 1993. Cyr e Eales. também via corrente sanguínea. o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante. desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais. Esta é transportada à camada granulosa.. 1996. o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. Pág.20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. Garcia-López e col. como por exemplo. Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). podendo ser expresso em situações adversas. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH). na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col.20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. 320 Julho/2010 . Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. 2006). sendo os andrógenos. como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. Haider. que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca. 2003). converte o colesterol em testosterona. 2003). entretanto.

considerando-se que as espécies de peixes de piracema.. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies. veremos no capítulo 32. principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. 2010).Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. Adicionalmente. quando são impedidas de migrar. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. Zohar e colaboradores (2010). procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais. Julho/2010 Pág. em operações de cultivo. principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro.. ainda pouco esclarecida.. De uma forma em geral. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. fica evidente. Adicionalmente. e raros em teleósteos de clima tropical. 2). Por outro lado. 321 . que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes. pois neste ambiente confinado. 2010. premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. pois. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. mas altera-se de alguma forma. 2001). para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva. estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. por serem reofílicas (peixes de piracema). apresentam um bloqueio na reprodução. Taranger e col. Portanto. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. Neste caso. 2010).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 322 Julho/2010 .

. na fase embrionária. mesencéfalo e rombencéfalo. 2002). Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. Ao contrário. composto por três vesículas primárias. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. 2004).Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. no tamanho. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo. sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen. também denominado encefalização. Desta forma. chamado tubo neural. de uma faixa dorsal ectodérmica. répteis e aves. levou a consolidação de diversas capacidades funcionais.br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. presentes e. alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. 323 . Este processo evolutivo. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo. pelo menos em humanos. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. gerando também assim. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. um ritmo biológico. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. estão ao mesmo tempo em funcionamento. A parte contínua do tubo neural. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados. que é conhecida como placa medular. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais. Julho/2010 Pág. Neste contexto. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo. no presente capítulo serão apresentados. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. eventos futuros (Hickman e col.

Em todos os vertebrados. 2000). células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. o tálamo (central). posteriormente. O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). como o dos peixes e anfíbios. As diferenciações do diencéfalo serão. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. Assim. descritas de forma geral para os vertebrados sendo. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr. sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. neste momento. Hickman e col. o mesencéfalo não se divide. Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes.. 2000). nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio. e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr. 324 Julho/2010 . certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr. Assim. destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. foi como o cérebro de grupos mais primitivos.. Assim. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col.. No local onde estas duas estruturas se encontram. Portanto. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. Hickman e col. o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. não surpreende que o pálio. invadido por substância cinzenta. seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. e o hipotálamo (ventral). Sobre este mesmo aspecto. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. 2004). formando o total de cinco vesículas encefálicas. da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr. 2000. 2000. 2004). das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. O epitálamo é derivado do Pág. e pela primeira vez em vertebrados.

a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. No entanto. foram. dá origem ao cerebelo. mas também no dos anfíbios. em alguns casos.Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. oriundo do piso do diencéfalo. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo. além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais. atuando como o centro de coordenação nervosa. 2000. O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. Adicionalmente. o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração.. na anatomia funcional. com exceção dos teleósteos. e o lobo posterior. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo. como comentado anteriormente. apesar de extremamente fundamentais. na fase embrionária. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes. Guyton e Hall. Hickman e col. 2007. 325 . A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. 2000. contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro. Hickman e col. Estas relações primitivas do encéfalo. O metencéfalo. 2007). 2000. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio. O hipotálamo. como visto no capítulo anterior (Orr. Na parte dorsal. o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. 2004). que inclui a glândula pineal. Norris. Hickman e col. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo.. como os tubarões. incluindo as funções de percepção do ambiente externo. amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. 2004).. possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. dorsalmente. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. Norris. 2000. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo. Assim. 2004. Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr. que tem função na recepção visual. 2000. 2004).. 2006). Hickman e col. o batimento cardíaco e o metabolismo.

2007). O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA). A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág. 326 Julho/2010 . atribuída a este grupo. Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. e núcleos paraventriculares (PVN). o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. A ME conecta. A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. 2007). será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos. pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI). Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. a nomenclatura aplicada às estruturas. aos hormônios e funções foi. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. Figura 1. núcleos supra-ópticos (SON). Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). répteis e aves. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. 1) (Norris. núcleos arqueados (ARC).. A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. 2004). núcleo supraquiasmático (NSQ). primeiramente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col.

sendo comumente em células distintas. o hormônio liberador de corticotropina (CRH). estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos. seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise. mais anterior. 2006. hormônio de crescimento (GH). O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa. É através deste sistema que. o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). Já a neurohipófise. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. hormônio estimulador da tireóide (TSH). a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. embora não listados como hormônios trópicos. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. Quanto ao hipotálamo. a prolactina (PRL). 2007). Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). 2007). Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas. o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. e a pars nervosa (PN). 327 . como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). Julho/2010 Pág. é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). Outros hormônios hipotalâmicos. 2007). região posterior. a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST). percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. como dito anteriormente. núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. Norris. estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. e que o sistema porta passa por ela. por exemplo.Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário.

como os pombos e o pardal de coroa branca. entretanto. afetam células específicas não endócrinas. é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. De forma. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies. o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. Em algumas aves. Ao contrário. a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. regulam outras glândulas endócrinas. e de forma resumida. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. Pág. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. Chelonia e Crocodilia. que por sua vez. neste grupo. 2007). a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD. além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN. em anfíbios. aves e mamíferos. Em serpentes adultas. Através de seus prolongamentos axônicos. Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos. como exemplo. diferentemente de todos os tetrápodes. Nas aves. répteis e aves Como dito anteriormente. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. répteis e aves (Norris. modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. 328 Julho/2010 . este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. de forma geral.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. a PT é completamente ausente. é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. 2007).

que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). a hipófise e o alvo endócrino específico. 329 . o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). O hipotálamo secreta RHs e RIHs. GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2. ACTH. os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). mesotocina e arginina-vasotocina. por sua vez. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. FSH. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. LH. que terá um pouco mais de destaque neste capítulo. mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. discutido no capítulo anterior. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos. 2007).Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. Julho/2010 Pág. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. Estes.

os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. 1975. Sechman e col.. outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas. O dímero. Kistler e col. formado pelo hormônio e o receptor nuclear. 330 Julho/2010 . portanto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers. ou DIT. Assim. respectivamente. ser metabolizados no fígado e rins. Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide. apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. por difusão ou por transporte mediado por carreador. nos vertebrados. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. têm sua produção estimulada Pág. resultando na molécula chamada de T4. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. Norris. Primeiramente. Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e. Adicionalmente. 2007).5 diiodotirosina. e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados. promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall. triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). 3). 2005). Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT. No entanto. Normalmente. Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico. Normalmente. e da mesma forma como os esteróides. 2007). as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica. 1952. Brown e Cai. 2006). Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. 2006. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col. atravessam facilmente as membranas celulares. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea. Essa molécula é chamada de 3.. conhecida como deiodinase. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO).. 2009). o T3 é mais ativo. 2007. Os hormônios da tireóide. que realiza essa conversão (Brown. pouco solúveis em água. Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos.

Figura 3. Brown e col. Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. o Julho/2010 Pág. Yaoita e Nakajima. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. na regulação do metabolismo (Norris. reorganizando a pele (Yoshizato. o encéfalo e a medula espinhal. o trato digestório. sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato. 2006). Ação do hormônio da tireóide em células-alvo. desempenham função importante na metamorfose. 2006. 1986. na formação do sistema nervoso. 331 . ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. Em vertebrados. Nakajima e Yaoita. o fígado. 2005). Norris. as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário. o sistema respiratório. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. 2007). desenvolvendo as criptas viliais. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3.. que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. 1996)..Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. Em anfíbios. o sistema imune (Rollins-Smith. sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. bem como na reestruturação de órgãos. 2007). 1997. 2006). 2003. 1998).

sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. a somatostatina (SS). 1999. 2007). Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano.. mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos. primeiramente testosterona.. e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai. A liberação do TSH em anfíbios. O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. 332 Julho/2010 . o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. O LH induz a ovulação. Desde então. produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio. 2007). e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. O LH. répteis. e aves. 2007). destacando a similaridade destas moléculas e suas ações. Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). promove a produção dos esteróides sexuais masculinos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. além da influência no metabolismo. uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). Em frangos. Sechman e col. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas. Pág. O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. sauvagina e urotensina I (Norris. mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos). Wilson e Reinert. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH. 1988. entre outros trabalhos. nos machos. É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. Estes três hormônios são encontrados em anfíbios. sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. 2009). 2000). Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis.

A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos. como cuidado parental. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. e em mamíferos com a produção de leite. o metabolismo. e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. ou somatomedina produzida pelo fígado. em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. em anfíbios e répteis. 2007). o fator de crescimento insuliníco (IGF). no entanto. Em pombos. nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. 333 . A prolactina. estimula a nutrição. Assim como em peixes. causando o escurecimento da pele. este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. também pela produção de hormônios corticosteróides. O MSH é Julho/2010 Pág. o desenvolvimento e crescimento. o comportamento. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. é um mediador químico do sistema imunológico. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH).Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. Além disso. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares. tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. no metabolismo. Em répteis este hormônio foi pouco estudado. O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. além de seu papel mais tradicional. realizando assim a transferência de calor. Além disso. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. nos processos reprodutivos. incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios.

segundos após a sua liberação (Licht e col. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris. A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). Nojiri e col.. homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos.I-R. Entre estes dois os hormônios da PN.N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes.. acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab. especialmente nos anfíbios Anuros. Estes hormônios são. O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene. 1984. a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta. pois são capazes de produzir uma resposta. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág. Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y. 2007). aves. Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I.I-R. 1). respectivamente. 334 Julho/2010 . 1996).N-C-P-R-G-NH2 C-F. Choy e Watkins.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina. 1987. são muito semelhantes quimicamente.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados.Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. Tabela 1. 1986. anfíbios. sanguessugas Gafanhotos répteis. pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois.N-C-P-K-G-NH2 C-L. 2007). alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico. e da tireóide.I-T. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida.. Acher. 1995. Acher e col.

pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col. mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo. estimulando a reabsorção da água na urina. Além disso. Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo. 2005. Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. 2007). Julho/2010 Pág. A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios. tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais. 335 . na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário. Norris. e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis.Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio)..

336 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Está também associado ao controle da reprodução. No Unidade 3 (Neurociências). 337 . De maneira geral. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão. ritmos biológicos entre outros. Julho/2010 Pág. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte. sobretudo as funções metabólicas. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. Nesse sentido. formar os órgãos. o processamento e a armazenagem da informação. o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. Para que isso ocorra. dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. 2006). mas também interagem e modulem entre si. tais como. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. crescimento corpóreo. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. apesar de manterem suas especificidades.br No decorrer da evolução dos organismos. garantindo que não só operem na sua particularidade. garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. porém. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. Estes por sua vez. Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação.mpf@usp. Juntamente com o sistema nervoso.

já se sabe que os sistemas nervoso. 1B). Besedovsky e Sorkin. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. Já na década de 1970. 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. 1997). ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. Animais controles. 1977). Figura 1. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas. 338 Julho/2010 . 1997. 2002). injetados com glóbulos vermelhos de ratos. células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune. Chesnokova e Melmed. mas Pág. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém. (1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. Hoje. (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento.

2006). 2002. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. 339 . Chesnokova e Melmed. Além disso. Galea e col.Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. tais como as células endoteliais. garante um grau de privilégio ao SNC. a produzirem mediadores secundários. permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col.. Figura 2. além de outros mecanismos. Frente a uma resposta inflamatória. Por ser um sistema difuso. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. Além desse contato direto. 1997. essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. Assim. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC. 2). porém. durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. 2006). a barreira hematoencefálica. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas. a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC. como as células endoteliais. como NO e prostaglandina. que revestem o vaso sanguíneo. citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold.. De fato. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. Fisiologicamente. seja via sanguínea ou linfática. células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo. Julho/2010 Pág. 1997).

2009). Fig. 2007). Por outro lado. o SNC não apenas recebe. percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. as chamadas pró-inflamatórias. levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold. 2009)... 2000). 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. 3. mediador inflamatório produzido por células imunes. como o nervo vago. Recentemente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. Resumidamente. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos. 4. Assim sendo. como por exemplo. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. Borovikova e col. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1). Rosas-Ballina e Tracey. A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. 1997). existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC. 2009). essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey. cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. o fator de necrose tumoral (TNF. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada. 340 Julho/2010 . Pág. Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. principal neurotransmissor do nervo vago.

uma vez que caem na corrente sanguínea.. a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. 1997). Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. 341 . SHAM: animais falso-operados. o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH). o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. Como feedback negativo. A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. modificado de Borovikova e col. 2009). e cortisol em humanos. A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico. 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). Julho/2010 Pág. os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. induzido por LPS (15mg/kg). Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional. Sucintamente. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune. visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg. 5. 2000).Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F. Sternberg e Gold. conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse.

Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC. A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. Pág. Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório. por meio de um reflexo eferente modula a função imune. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. Porém. 2007). Durante uma situação de estresse. Classicamente. quando o estresse é crônico. Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. 2007). Este. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. 342 Julho/2010 . tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. modificado de Rosas-Ballina e Tracey. provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas. modificado de: Pavlov e Tracey. caso contrário. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. Frente a um estímulo inflamatório. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. 2009). As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. 2006).

mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed. Além disso. sobretudo o H-H-A. A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina. Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). Figura 5. através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. De maneira geral. Como uma resposta de feedback negativo. 1997). É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. 2003).Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. Além de principal mediador do estresse. a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. 343 . Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina. o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. classicamente. a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. O hipotálamo quando estimulado. 2002). O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse.

Markus e colaboradores.. 2004). a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios.. 2006. ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col. Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col. rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col. tais como a glândula pineal. permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col. como dito anteriormente. 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. linfócitos humanos (CarriloVicco e col. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos... trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória. Porém a integridade vascular. 2006). 344 Julho/2010 .. 2007). A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores. 2008) e células imunocompetentes. sobretudo na camada endotelial. como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col. Existe também a produção extra-pineal de melatonina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido. tais como TNF.. Assim. Considerando o paradigma acima. O ritmo diário de melatonina no sangue. 2007). onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite. 2004) e células do colostro humano (Pontes e col.. sendo responsável. 1992). 2003). Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. 2007). Durante a montagem da resposta inflamatória. Dentre suas propriedades cronobiológicas. placenta humana (Lanoix e col. 1999). portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga.. a resposta inflamatória deve Pág. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col. fígado. A partir dele.. 1993).. 2007).. No entanto. em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col. Fisiologicamente. As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. sobretudo da camada endotelial. projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário... no prelo).

Na primeira fase da resposta inflamatória. Além do mais.. O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina. o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. Figura 6. Fisiologicamente. visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col. visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col. Julho/2010 Pág. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido. Estudos in vitro.. existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal. 345 . No entanto.. Em um segundo momento. Markus e col.Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais.. A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina. citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina. 2007). 2007). células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig. 2009). Em um segundo momento. 6. células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col. 2009).

hipófise e gônadas. Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional. 7. Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. Tomaszewska-Zaremba e Herman.. Como visto anteriormente. tais como testosterona ou progesterona. Tomaszewska-Zaremba e Herman. Em casos de reposição da melatonina. os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall. 2009). Resumidamente. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. e. 2001. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig. De maneira geral. 2006). por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. considerando a integridade dos organismos. A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. O efeito de TNF e IL6. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). catecolaminas. Para manter a gestação até o final do seu período Pág. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col. A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). neurotransmissores. 3. dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. portanto. seu papel funcional é comprometido. e isso é garantido pelo sistema reprodutor. essas situações são revertidas. tais como baço e timo. assim como opióides. 346 Julho/2010 . Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos. o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes.. como uma doença.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. Dessa forma. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. 2009). 2005).

Julho/2010 Pág. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável. Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman.Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col. Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição. Figura 7. Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático. catecolamindas. 2009). a probabilidade de um aborto é aumentada. assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais. 2001). Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. Por outro lado. Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH. Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. 347 .. caso isso não ocorra. a ação de opióides. GABA.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 358 Julho/2010 .

além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”.br Em sua definição clássica. resultantes da exposição a alguns metais.Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. Entre os principais efeitos apresentados. tais como Al. Cu e Cd. a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos. . Zn. a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. que constituem a biosfera. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. populações e comunidades. Mn.

395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág. 407 pág. 361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap.Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág. 360 Julho/2010 . 371 Pág. 381 pág.

dúctil à temperatura ambiente. Por isso. É um bom condutor de calor e eletricidade. dentro de limites. Sua massa atômica é de 112. tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular.com O cádmio Os metais. 2000). como o cobre e zinco. como o cádmio e o mercúrio. geralmente. marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. não são regulados. Julho/2010 Pág. então. Este metal é tóxico. Os metais não essenciais. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente.. animais terrestres.40 gramas e número atômico 48. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica.. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. sendo encontrado em pilhas e baterias. por sua vez. estão associados com mecanismos bioquímicos. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col. onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal. principalmente no fígado e rins. não reagindo com o oxigênio do ar e. está associado ao zinco.com. Em geral. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado.tabela. de maneira geral. não possuindo uma função fisiológica conhecida. Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. que. O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. Dessa forma. Metais essenciais. 1975). Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais. acessado em 02/05/2010).Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail. levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. 2001). 361 . devido aos seus processos de detoxificação (Fasset. rim e glândulas digestivas. ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio.oxigenio. a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col.

Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo.. Ao longo da evolução destes organismos. seguida por sua eliminação pela Pág. mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados.udesc.. Monteilh-Zoller e col. para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col.. acessado em 02/05/2010).. surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). dulcícola e terrestre. marinho. Assim. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos.92 Å) do íon cálcio. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col..mundofisico. 1999. estando presentes em diversos hábitats: estuarino. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. Ele ainda induz a produção de metalotioneínas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente. tegumento. tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0. 1999). o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas. Assim.br/PreVestibu.joinville. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas.. proteínas sequestradoras de metais. 362 Julho/2010 . o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células. 1999). Além disso. com valência +2.

2005). 2004). como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio..Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. Altas concentrações de cobre. Julho/2010 Pág.. por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal.. causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. Por isso. atualmente. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça. Outros aspectos importantes devem ser citados. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas. não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. O que se sabe. 363 . metais não essenciais. As células imunes. como o cádmio. possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. 1995). Quando animais de espécies diferentes são comparados. O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo. a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada. o sexo do animal e o tipo de tecido. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. refletindo o grau de poluição a que está submetido. o tamanho. Contudo. principalmente hemócitos. 2001). indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col. 1999).. Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos. mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. 2001).. desempenham um papel principal na defesa do organismo. Por ser moluscos bivalves. os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente.. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. a dieta. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. a localização. 2000). e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio. Em espécies particulares. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. Os antígenos estimulam a migração de hemócitos. 1993). pois são filtradores..

Assim. mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. as brânquias. 364 Julho/2010 . Assim. podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória. com a permanência dos animais em ambientes poluídos. 2000). ao entrar em contato com altas concentrações do metal. Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . Desse modo. Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica. Já em Oncorhynchus mykiss.. Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais. a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida. 2005). alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos.. com a exposição ao cádmio. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos. Pág. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. assim como em células de brânquias. especialmente na respiração e osmoregulação. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. 2000). por isso. principalmente crustáceos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. 1995). possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. Exceto o cádmio. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. e col. regulação ácido-base. regulação osmótica e iônica. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água. pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase. o número de hemócitos circulantes aumenta. como órgão responsável pela respiração.

aumentando a toxicidade do cádmio. Em peixes. 365 . observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo.. como o Na/Ca. O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio... além de Julho/2010 Pág. observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard.. 2001). 2004). envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio.Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col. o cádmio diminui o influxo de sódio. Em anfípodas. cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda. e col. Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. e col. provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo. Em crustáceos. 2005). Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas.. junções ou entradas transcelulares. Além disso. Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares. 2005). a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias.. A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. 2005).

porém há resultados contraditórios. e col. Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. 1996). Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos.. 366 Julho/2010 . Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. Em resumo. 2005). trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. Em crustáceos. a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. No entanto. além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas. enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo. Por exemplo.

A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. No entanto. e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas. tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores. Estes metais. encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. em geral. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. 367 . Julho/2010 Pág. comprovando a competição entre os íons cádmio. 1996). principalmente em animais que estão em meios diluídos. cálcio e sódio. Quando há diminuição de salinidade. 1996).Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. 1996). muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. são fortes inibidores da anidrase carbônica. enzima responsável pelas trocas gasosas. Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação.

o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão. Porém. Atualmente. estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal. Desse modo. talvez. 1975). estresse da gravidez e lactação (Fasset. Assim. o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. vitamina D. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e. esses Pág.. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd. zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset. ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset. Seus efeitos foram encontrados nos rins. 2005)... A doença era caracterizada por osteomalacia. A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. associados a baixas ingestões de cálcio.. 1975). resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade. Em testículos. Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas. peixes. 368 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. 1975). fígado e testículos. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão. Assim. Nos rins. o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares. particularmente no rim. entre outros. fatais edemas pulmonares. causando. talvez o zinco. e várias interações entre cádmio. como a resistência à corrosão. às vezes. sapos. Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz. 1975). e formação de células cancerosas (Dalton e col. os eventos. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim. 2005). Nesta época. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio.

Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas. 2000).. 369 . e col. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong... e col.. assim. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. ou seja. o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual. O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col. o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. 1975). Além disso.. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular). diferenciação e morte. pois isto poderia estar relacionado com o fumo. sendo importantes na regulação da proliferação celular. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. a idade. Julho/2010 Pág. e col. Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. uma modificação na proliferação e morte celular. Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose. o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong. 1975). 2000). Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais. As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular. 2000). 2000). o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. 2000). Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria. Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses. Atualmente. proliferação celular.. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio. No fígado... o sexo e patologias renais (Fasset. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap.. Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio. Assim. quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 370 Julho/2010 .

Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada. Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais.. incluindo os definidos como metais pesados. quanto através da dieta. frequentemente com base fosfato. Se. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo. 2000). que permitem a Julho/2010 Pág. 1999). Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox.. mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. 2006). 2000). Nas águas não poluidas. 2000). Fe. como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente. As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. tanto através do meio em que vivem. salobra ou doce (Rainbow. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos.br Introdução Durante a evolução. 2000). Metais de transição (Cu. Metais traço. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade. No entanto. Co..Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp. Zn. onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col. ou por ligação com uma proteína detoxificadora. 1999). 371 . os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre.

a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais. neste texto (Rainbow. “limpeza” de radicais livres. e ação de diversas enzimas celulares. estabilidade protéica. A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas. A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. Brânquias Pág. atuando ambiguamente na respiração celular.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares.jpg (04/05/2010). 2006). 2000). protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow. bem como transcrição de DNA (Bury e col. como funciona para entrada de químicos para qualquer célula. Abaixo da cutícula. onde é visualizado estômago. Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo. transporte de oxigênio.edu/sdunbar/students/epidermis_removed. 2003). Figura 1 . 372 Julho/2010 . absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados.llu. 2000). como as brânquias. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal. músculo e intestino. http://resweb. hepatopâncreas.Vista ventral de um crustáceo. absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo.. que é análoga aos rins (Alcorlo e col..

incluindo metais traço (Rainbow. Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos.jpg (04/05/2010).org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte. as brânquias são cruciais para respiração. Para muitos animais aquáticos. 2004). como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias. essas alterações afetam a fisiologia do animal.jpg/250pxTuna_Gills_cut_out. com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada.Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico. as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida.2004). http://upload. 2000). Dessa maneira. O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col. Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos. 373 .. A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons. Em animais marinhos. balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen. excreção. as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo. 2007).wikimedia. Julho/2010 Pág.

Já no citosol. (d) endocitose. onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo. Fora da membrana apical. (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica. 374 Julho/2010 . mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana.. Modificado de: Freire e col. 2000). o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. 2008. Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. (Rainbow. 2005). cádmio e cobre. tanto quanto atuam no transporte de cálcio. Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada..

A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial.es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort.cnice. O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas. O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos. incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial. 1999). proteínas transmembranas. (http://recursos...2002). Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos. o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular. incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento. implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. celular e tecidual (Yang e col. 2007).mec. No entanto. (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais. as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood. demonstrando o glicocálice. lados hidrofílico e hidrofóbico.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos. 375 . No entanto.

então a água entra osmoticamente (Rainbow. localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col. como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. e desse modo. 2000).2002).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. 2000). Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade.2002). uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. No entanto. Desse modo. A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase. O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. (Rainbow. os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. 1999). 376 Julho/2010 .2002).. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. 2000).2002). Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow. sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. posteriormente potencializando a entrada de metais. aparenta ser através de canal apical de sódio. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág.. 2000). sendo sensível ao sódio. Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1. O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. Dependendo da concentração de sódio no ambiente. particularmente nas brânquias e no fígado. 1999). (b) segunda pela tomada continua de cobre . Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão. uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L). em relação ao meio. um dos caminhos de tomada. o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow. 2000). (Rainbow. a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood.

em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. como acúmulo interno negligenciável. o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang. Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais.. De todas as concentrações testadas de metais essenciais. 377 .2002). a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. seqüestro e regulação (Yang e col. Geralmente. em todos os casos. Em ambientes poluídos.2002).2005).. o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. De acordo com o tempo de exposição. Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória. ATPase basolateral ou em ambos (Wood. talvez em um nível mais preciso do que o cobre. retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col. Para a fase aquosa do zinco. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes. cobre e zinco produzem hipercalcemia.. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa. Então. é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col. O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco. Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood. 1998). 2007). 2000). 2007).. Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes. No entanto. mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col.. as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang.Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. 2007). Zinco O zinco é homeostaticamente regulado.1992). Em peixes. tanto pela água quanto pela dieta.2005). as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco.

resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência. é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes.. ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. Pág. 2000). Já a longo prazo. aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos. por exemplo. A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. 2000).. incluindo controle do fluxo metabólico. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. O zinco também é abundante nos sedimentos. Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. e assim na diminuição da performance respiratória. 2006). 2000). A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos. mudanças compensatórias. A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos. Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados. 378 Julho/2010 . Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos. incluindo reparação dos danos celulares. 2000). onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col.. 2004).2005). A lagosta. absorvendo pela superfície branquial. Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. 2001).

respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow....Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood. 379 . Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas. 2000). desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood. Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col..1992). 2002). Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. a metalotioneína. 2007). 2006). mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col. o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall. 2007). Além disso. uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário. difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col. gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. Na membrana basolateral. é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. ou seja. a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. 2006). É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio. independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio. da poluição por metais pesados (Yang e col.Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. 2000). A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. transporte por canais de proteínas. Em organismos expostos a metais pesados. quando os níveis de metal estão muito altos. 2006). Mas por outro lado. 2006).

380 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

nutrição. relações térmicas. A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional. levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares.Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág. justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. No ambiente aquático. de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. 2006). 381 . sendo assim. Mozeto e Zagatto. sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos. Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático.). 2006. 2006. metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo.br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke. dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos. 2001). estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. as ações antrópicas são muito evidentes. 2006). 1998). antagônicos. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col. respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. frente a alterações antrópicas no meio ambiente. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial.Rocha Oliveira Vieira Lab. sendo que. O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais.

Van Ho e col.. participando de processos fisiológicos. 2002) mas. os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas. via de entrada no organismo. 1997). 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo. porém os efeitos deletérios sobre as populações. existem metais como chumbo (Pb)..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi.. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. são importantes no metabolismo. no litoral e rios próximos a centros urbanos. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). muitas vezes. 1997. em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo. Camakaris e col. 2006). são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. por outro lado. Camakaris e col. 1998. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado. Pág. Metais Os metais. tais como sua forma química. zinco (Zn).. (Chen e col. 382 Julho/2010 . 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. 2004) e à poluição. 1997. 1994). em baixas concentrações. Apesar disso.... McGeer e col... provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col. são os chamados metais essenciais. Wannaz e col.. 2005. oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. cobre (Cu) e manganês (Mn). 1999).. além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col. estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone.. Órgãos como fígado. Alguns metais. e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001.. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos. MadsenMoller. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. 1978. ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col. Celik e Oehlenschager. 1999. cádmio (Cd) e mercúrio (Hg). 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos. além disso. duração da exposição. normalmente. 2003). em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos. 2003). idade e espécie do animal (Kostial e col. considerado micronutriente essencial.

apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. liases. Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. isomerases e ligases.1999. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. transferases. lipídios. H. mas em associação com outros compostos como. Lydersen. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree.Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês.1994). regulação de glicose no sangue e energia celular. seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. PO-. Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. F-. 1985). OH-. em seu estado divalente. dos citocromos. 1995). 383 . pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. catalases e peroxidades. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. 2004). Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune. além disso. O. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col. O alumínio não é muito solúvel em água. as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas. 1990a). descarboxilase e manganês superóxido desmutase. hidrolases.. reprodução. Freeland-Graves e Llanes. proteínas e carboidratos. Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. 2008). no entanto. Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase. SO-. de receptores excitatórios de glutamato. fosfoenolpiruvato. Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. 1987). por exemplo. glutamina sintetase. 1990. Si. replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano.

os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas. 1996). inorgânico e orgânico. Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. Wilkinson e Campbell. Apesar de muitas semelhanças. Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos. A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares. 2008). os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. 1986). torna-se rico em cargas positivas. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. 1993). pode ser encontrado em três formas: elementar. No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. agregação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. este metal se acumula nos rins. 2006). 1984). 1980. e o alumínio na forma de hidróxido. 1977). 1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. 384 Julho/2010 . este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta..

Alternativamente a este processo. Zn. 385 . Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas. As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions. devem ser considerados como um critério de risco em si. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. a entrada de vários metais. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. glutationa e bicarbonato (Foulkes. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. 1987). células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col.. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio.Ecotoxicologia Aquática celulares. tais como. a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col. (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. 1988). desde molecular ao ecossistema como um todo (Who. os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. 1985). 1986). uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. assim como no intestino. Além disso... 1978). Cd. bicarnonato. especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína. grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. 1993). 1994). e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. Julho/2010 Pág. Pb. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. estas células acumulam eficientemente estes metais. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos.

a morte celular (Winston e Di Giulio. peroxidação lipídica (LPO). vitamina B. 1992). catalase (CAT). 386 Julho/2010 . e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col. São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares.. são as metalotioneínas (MTs). 1992. betacaroteno. Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas. Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH). As atividades das enzimas antioxidantes.. peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). ácido ascórbico (vitamina C). alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col. possivelmente levando a inativação enzimática. 1991).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. metais e xenobióticos (Sanders. que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col. que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD). 1993).. 1997).. 1994). 1993). 1992). rico em cisteína. condições oxidativas. Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). Lopez-Torres e col. peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação. este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col. Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose). Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. 2000) Pág. A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão... danos ao DNA e. luz ultravioleta. pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. 1989a). anóxia. que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. finalmente.

Fe3+ + HO. 1997). outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col. Parâmetros reprodutivos e endócrinos..O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. Parâmetros imunológicos .+ HO . os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col. como revisto por Vos e col. proteína e glicose. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese.. como hematócrito.. como os sais de ferro.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores. especialmente reações catalisadas por metais de transição. Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos . 1990.Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. 387 . podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes. Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes. além disso. A presença de enzimas específicas. Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. como as transaminases. Apesar de serem menos específica. no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col. 1995). 1994). 1986). O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos. 1990. Os metais. (1989). hemoglobina. outros parâmetros hematológicos.. Dix e Aikens. deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág. mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey. Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg. (Sole e col. O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. Kasprzak.Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas. 2010). na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich..1993).

. 1985). ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. 1990). pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água. A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição. que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik. A Fase I é uma alteração de oxidação. Vermeulen. mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. 1992. 1991). 1998. Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente. Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores. a biotransformação ou metabolismo. 1996). 1995). quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase. o composto ou os seus metabólitos... a longo prazo. um importante determinante da atividade de um composto. Pratap e Wendelaar Bonga. O metabolismo é. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. II e III. Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col. portanto.. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. 1990). Parâmetros neuromusculares .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência. liga-se a macromoléculas celulares. 1996)..Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col. localizadas principalmente no retículo endoplasmático. Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo. redução ou hidrólise da molécula original. 1992). 388 Julho/2010 . O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I. Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode. Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard.

não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col. peptidases... Adicionalmente a isto. Van Ho e col. além da ocorrência natural e abundante.. Macroalgas (Conti and Cecchetti. mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col.. 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly.. e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. 2003) e microalgas (Tripathi e col. 1995).. 2003) . 1990). 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos.. estes. frequentemente um grupo químico polar. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno. As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col. (Bucheli e Fent. 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados.. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis. 1995).. 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente. Conti e col. 1999).. 1995.. As enzimas da fase III. uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki. 2001. esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col. Invertebrados Julho/2010 Pág. Cu e Zn (Roncarati. 2003). estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. 2007). 2003.Ecotoxicologia Aquática a excreção. Mulder e col.. 389 . estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd. 2006). um açúcar ou aminoácido. esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti.

1979a. Olafson e col. Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma.(Howells e col. M. McGeer e col. R.. no consumo de oxigênio que por sua vez. edulis. 1985). 1992). edulis. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R. 2003). inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. 1984. 1992.. Rosseland e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais. principalmente Na+ e Cl. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris.. decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. 390 Julho/2010 . 1992. Vários autores observaram ainda nas brânquias. hepatopâncreas (Viarengo e col.... foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT. como conseqüência. 1990. 2000. altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col. 1996. decussatus). 1992). galloprovincialis. Além disso.. (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal. Além disso.b) e brânquias (Mouneyrac e col. Schlenk & Benson.. Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas. e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M.. Bebianno e col. 1991. (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial.. 1990). houve um aumento no metabolismo aeróbico. Partearroyo e col. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante. 1993). Handy. em um estudo com três espécies de bivalve (M. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs. perda de eletrólitos. hipóxia e hipercapnia. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram. por sua vez. por exemplo.. provoca acidose plasmática. Pelgrom e col. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais. 2001). e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat. Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre. podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. M.. O alumínio.

Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 1997). Em truta arco-íris. estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col. 1988. 2000. com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney.. 2010). lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col. 1988). Os disruptores endócrinos. 1995). 1993) e redução de progestágenos (Correia. A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS).. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais. onde este metal parece inibir o complexo I. Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam.. 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT).. 2005). e col. 391 . já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias.o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col.. Ali e col.1998).Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. Jiraungkoorskul e col. 2000. além disso. experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade. vitelogenina. levando ao estresse oxidativo. 1988. Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág. especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree. espécie e via de exposição (Wong and Wong. Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard.. O mangânes tem sido associado a citotoxicidade. alterando as fosforilações oxidativas (Chen. já citadas anteriormente. 2003. disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics. 2000). Sanchez e col. 1987). 2001. esta dependente de dose. Wong e Wong.Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann. mesmo em baixas concentrações. seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga. exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. 2004). Goossenaerts e col... gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col.1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas. 1995). Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais... Dautremepuits e col. 2007).

e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág. Em adição.. 1995).. 1985)... que são dependentes principalmente de água da chuva. 1991). 1997).. os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col. os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col.. 1998). 2003). mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto. é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col.. 1990). 1985a). Devlin e col. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar. 1991) e crônico (Hontela e col. a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson.. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col. Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber. níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento. 2001). Freda & McDonald.. apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col.. mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col. 1984.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col. 1998).b. 1982).. O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson.. 2001). 2001. A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. 392 Julho/2010 . 1978). O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5. 1997 a. 1977). Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento.

2002b). A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. 1998. encontradas mortas. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado. Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos. E ainda.. da região do noroeste da Itália.. 2000. Manolis e col.. caretta (Dinelli e col.. Fe. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência.. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col. para completar. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política. 2000. Mn.. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991. Cu. encontraram altas concentrações de metais pesados na casca. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C. mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. 2001. 1998). Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. incluindo tartarugas (Caretta caretta. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte. Fagioli e col. econômica e cultural. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. 1999. 1995. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. 2000 a.b). Sakai e col. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. Ni.. Mn. pulmão.Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. Cu e Zn em sedimentos. e Zn no fígado. Xu e col.. (2006). 1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. Burger e Gibbons. 1996. 1999. 393 . Tankere e col. músculo e tecido adiposo de Caretta caretta. Dinelli e Lucchini. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. Cd e Cu no pulmão.

A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental. 394 Julho/2010 . Pág. porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência. talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes.

. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. ou ainda “disruptores” endócrinos. sendo. principalmente na ecotoxicologia. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col. especialmente os envolvidos na reprodução. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. como por exemplo. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. 395 .Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. Dessa forma. não apenas na fauna aquática. 2007). má formação do trato genital. ou EDC). infertilidade e tumores. pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. 1999). Julho/2010 Pág. Nesse contexto. invertebrados e anfíbios.br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. endocrine disruptor compound. respectivamente. inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. (do inglês. nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson. 2008). É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais. fitoestrógenos e metais. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura. Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova.

a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law. Isto é alarmante. uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. e em última instância. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. desempenham diferentes funções fisiológicas. necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. Não obstante. a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. como por exemplo. 1998). por exemplo. peixes e anfíbios. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. por exemplo. em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). semelhantemente para invertebrados. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. portanto. Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. 2002). considera apenas dados para animais vertebrados. sendo. o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. levando em conta a importância ecológica dos invertebrados. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade. 2002). Pág. enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. moléculas de determinados hormônios. por exemplo. negligenciando representantes dos filos de invertebrados. 396 Julho/2010 . não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. 2002). portanto. para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. 1996). torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como. Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. ou invertebrados.

1999). a concentração utilizada e o tempo de exposição. para os invertebrados. tem efeito direto sobre crustáceos. ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col. (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista). o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. Metais. 1999). pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. Tratando-se de ecotoxicologia aquática. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH. tais como: o metal testado. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica.. possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. Rodríguez e col. Uma vez absorvido. 397 . pois pode ser absorvidos através de canais de Ca. afetando a reprodução e o crescimento. Barata e col.Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. Entre outros efeitos. o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios. Cd e Cu induzem a hiperglicemia. como por exemplo. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. Julho/2010 Pág. possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). 2005). (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col.. pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores.. Cd e Zn) (Depledge. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação. chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos. com exceção de crustáceos e insetos. tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. o Cd. além deste efeito. (2004). 1999). e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes. sugerem que “metais pesados”. como Hg.1998). podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. o desenvolvimento gonadal em mexilhões. a regeneração de membros. estes dados são escassos. O Cd. (2000) demonstram que vários metais pesados.

(Modificado de Rodrigues e col. MF: methyl farnesoato. Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos.: glândula antenal. 2007). Por exemplo.Controle endócrino da reprodução em crustáceos . outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. TG: gânglio torácico. de preferência apresentar dimorfismo sexual. MO: órgão mandibular. de preferência. ecologicamente importantes. contudo são muito sensíveis a diversos Pág.Gl. Figura 1.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. 2007). MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular. A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil. dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson. espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental. T: testiculo. 398 Julho/2010 . CHH: hormônio hiperglicemiante. B: cérebro. GIH: hormônio inibidor gonadal..XO: órgão X. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e. AG: glândula androgênica. A. GSH: hormônio estimulador gonadal. OH: hormônio ovariano. AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina. SG: glândula do seio. OV: ovario. Além disso. bem como no local íntegro (controle). HEP: hepatopâncreas.

.Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido. seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil. 17α. 2004). Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. GTH – I e GTH – II. chamadas de gonadotropinas. 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona. Julho/2010 Pág. Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). por outro lado. decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. 399 . respectivamente. o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. Portanto. 2007). a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col.

Cu. uso de medicamentos (Li. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente. envenenamento por chumbo. Pág. Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas. respectivamente (Blazquez e col. está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. como por exemplo. 400 Julho/2010 . todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. 1998). são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. ou seja. 1995). Mn. tais como a doença de Wilson. Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA). Fe). Pb. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides. O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. Um segundo grupo de doenças neurológicas..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina.

os dados ainda são controversos (Manzo. no metabolismo de carboidratos. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos. entretanto. Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. Bi. como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col. por exemplo. 2007). Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos.. 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. Na verdade. 2007). Pb.. 2007).. e a esclerose amiotrófica. a SOD manganês (superóxido dismutase). Julho/2010 Pág. tais como a doença de Alzheimer. a doença de Parkinson. Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo.Ecotoxicologia Aquática cisplatina. proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col. no entanto. logo Zn. e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). na regulação dos processos reprodutivos. cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. 2007). 2008). Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas. sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. como por exemplo. efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo. 2008). A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. 401 . lipídios.

neurológicas. imunológicas respiratórias cardiovasculares. insuficiência renal avançada (Zatta e col. como por exemplo. independente da rota de absorção. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. 2002). 2002). 2003). 1991). Alumínio A exposição às altas concentrações de Al. entre os quais estão alterações bioquímicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês. particularmente os astrócitos. um estressor. hematológicas. globus pallidus.. endócrinas (Campbell & Bondy. cujos sintomas são bradicinésia.. putamen caudato. não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. rigidez e distonia (Gerber. No caso do alumínio. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório.. 2007). Em países escandinavos. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro. 1988). resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos. incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. Segundo Erickson & Aschner (2003). esqueléticas. Pág. desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos. entre outras. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. 1997). 2004). a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. mais especificamente em estruturas do gânglio basal.. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. como o gaba... assim como de Mn. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. o glutamato e a dopamina. 2001). a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular. um íon metálico. enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. portanto. regulam o metabolismo de neurotransmissores. Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. que não se limita a estes países. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. Algumas células do SNC. o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez. 2003). substância negra. 402 Julho/2010 . Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col.

a agregação. O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo.. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. a polimerização. pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais. em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col. 403 . 2002). desde simples formas iônicas a polímeros. Entretanto. colóides e partículas. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides. As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido. 2002).. 2008). A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração.. Este metal não é muito solúvel em água.. De maneira geral. pois influencia a hidrólise metálica. 2007). O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col.Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col. este metal.. sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas. 1996). 2003). 2008). a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith. mas sim sob a forma mineral.

Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma. 1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen. alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime.. 1987. o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. 1995.. 1998. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi. o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col. é importante notar que Morrissey e col. 2003). porém. responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α... 2010). ou a expressão do LH. Hwang e col. 1996). no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido. 1991. niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese. 1988). 2005). sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col.one (17. apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP. 404 Julho/2010 . o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col. 2000. ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. Como mencionado acima. 1997).. 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col. Tam & Zang. a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). Tam e col. 2010). é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. Kime. No entanto.. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. 2004). o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col... Como nos mamíferos. Na verdade. Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. 1997). pois esse metal em pH 5. Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col. Nesse caso. proteínas quinases (PK) (Méndez e col.. também conhecida por MIS (do inglês. Portanto... 2003).20 P). 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 .5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . após exposição aguda (96 h). 1988. Nesse contexto. 2005).. portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. Berg e col. Vuorinen e col. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática. Atualmente.

e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al. 2007).Sugere-se que o Al.. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. o glutamato (Glu). PKG (proteína Julho/2010 Pág. o Glu é transformado em glutamina (Gln). e a Gln. por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell. no metabolismo de Glu e GABA. e a VTG quando transportada no plasma. por conseguinte. 2002). 1997). por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado. pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. GABA e DA ainda não foi elucidado. quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG. Por exemplo. resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. são reversíveis. pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. impedindo a formação do complexo ER-E2. 2001). pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados. 2000). 1987). Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. Este mecanismo foi sugerido para o Al. pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. a fosvitina (Mugyia e col. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS).. como o Zn. principalmente. Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2. liga-se a íons metálicos..Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope. 405 . uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. 2003). deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col. O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG. Hwang e col. possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. consequentemente. 1998).

2000).. O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE). LH e FSH (Stocco e Clark. sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar.adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos. embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. 2005). e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col.. 1996). 2006). ativa receptores α 1 .. Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide.. Globalmente. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col. bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng. A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T).. que por sua vez. Experimentos conduzidos por Chang e col. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente. 2003). existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). 2007. Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas. 1993). 2005). sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. estes resultados sugerem que. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias. embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. aumentando o cálcio intracelular (Ca2+). (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. No início da esteroidogênese gonadal. 2007). 2005). Além disso. Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col.. como por exemplo. estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col. 1994. Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. 1993). o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS. assim. impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc.. o citocromo P450scc (side chain clivage). que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. Pine e col. 1996).. Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág. na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH.. 406 Julho/2010 . no aumento da liberação de LHRH (Lee e col. FSH e E2 gonadal (Lee e col. 2007).. Após isso.

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