Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

2 Julho/2010 . 09 Pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 21 pág. Pedro Ribeiro e Dr. 22 pág. 17 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. 03 Capítulo 2 pág. 13 Capítulo 1 pág.

Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. Nestas construções. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. sobre a natureza. Segundo este método. todos os homens Julho/2010 Pág. seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. c. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo.” Academic Press Dictionary of Science & Technology. tais como Aristóteles. filósofos. “scindo = dividir”. Neste módulo. Any specific branch of this general body of knowledge. such as biology. 3 . espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. De acordo com Aristóteles.camacho@usp. Uma definição bastante completa é: “1. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. mais ou menos completas. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.. ou lógica aristotélica. vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. Bayes. A continuação.br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”. 3. Popper. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). Underwood e Jaynes. Fisher. Vamos lá: No século IV a.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. estes elementos podem ser identificados e. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados. geology or astronomy. The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation. também latim. existem termos gerais (Ex. Deste modo. Desde séculos antes de Cristo. os homens) e termos particulares (Ex. seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento. 2. physics. este está relacionado com o verbo. o mais confiável possível. Bacon. empiristas e estatísticos. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade. talvez pelo resto das nossas vidas. Existem várias definições de ciência.

e isto afeta ao resultado final. durante muito tempo. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. Para Bacon. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo. Outro problema é exposto na continuação. situações relativamente similares. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. O conhecimento gerado permitiria. Desta forma. Segundo este autor. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. Em 1620. só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. Deste modo. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. 4 Julho/2010 . explicar de forma cautelosa. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. segundo ele. fazendo com que esta determinação fosse. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. Para Bacon. Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. Em 1670. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. O sistema lógico inventado por Aristóteles. em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. Segundo este método.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). Para Popper. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. entretanto. nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. Porém. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. expressada em forma de probabilidade prévia. Bacon.

amostras. Para testar as conclusões. durante sua apresentação de raciocínio plausível. Assim. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex. Sober 1999 e Lloyd 1987. teorias. uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003. 4) Testar empiricamente as conclusões. modelos. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. Julho/2010 Pág. predições ou hipóteses). uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex. hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). Por isto. 5 . Na literatura. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. 2004).Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. citados por Lewin-koh et al. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. etc). para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. Apesar do problema lógico apontado por Popper. 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). Em geral. Pessoalmente. Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados.

4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos.Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. 2008). Imagine que queremos saber se. em lagartos. Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos. morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág. muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens. 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia. que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994). 2). Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram. 6 Julho/2010 . predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 . Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies.

Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). 7 . os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. Deste modo. esquerda). na fisiologia comparativa. Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. Assim. as espécies de cada tratamento são aparentadas. Por exemplo. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta. Sob a hipótese de parentesco B. Você concorda com esta forma de proceder. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. Para isto. Sob a hipótese de parentesco A. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. Por outro lado. Entretanto. tanto métodos falsificacionistas (Ex. a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. Hoje em dia. 2.

Pág. 8 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto. mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se.

br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. mediante prévio pagamento. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse. 1987). Você sempre deverá começar com uma pergunta que. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos. Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema. “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. Google Acadêmico etc. ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science.). as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam.PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira. Julho/2010 Pág. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. com artigos mais antigos. É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida.camacho@usp. Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor. “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal. É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. a solicitação de xérox ou arquivos ”. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters. Por último.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. ou site do laboratório onde trabalha. Biological Abstracts. Zoological Records. 9 . para ter certeza de que vale a pena respondê-la. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). Em são Paulo.

ou hipótese. 2004) (ou tal vez em uns poucos. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Comunicação de resultados  e conclusões. 1984). Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais.  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. 1984). ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland. desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam. Execução e análise das  observações 7. 10 Julho/2010 . Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. Identificação da lacuna de  conhecimento 3.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1. Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4. permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland. é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. Ainda. Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. de maneira objetiva. Quadro 1. Interpretação 8. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão.Leitura e observações prévias 2. 2004). Ex. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão. B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. Desenho das observações que respondem à pergunta 5.

2004). tratamento. enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. Podemos encontrar dois tipos básicos. Julho/2010 Pág. como variáveis categóricas podemos citar cores. gráficos de dispersão. mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis. 11 . ou scatter plots (Magnusson e Mourão. categorias). não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. A) gráfico com fator categórico. 3). B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão. Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. As variáveis contínuas proporcionam mais informação. etc. peso. comprimento. Por outro lado.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. Como mostra a Fig. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. sexo. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal. 2004). concentração. 2004). O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3. 3. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo. Exemplos de gráficos de dispersão.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 12 Julho/2010 .

repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert.br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la. compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). Entretanto. Julho/2010 Pág. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes. Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo. Para um cientista. influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. 2002). para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. 13 . se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire. a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Entretanto. Por exemplo. um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial. compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta. uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. No verificacionismo. um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores. 1984). Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões.camacho@usp. deveremos realizar observações que a respondam. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta.

14 Julho/2010 . ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig. uma vez isolados possíveis fatores de confusão. Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. maior do que o ruído. Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo. Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores). Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente. Associado a este tipo de experimento. um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. 4). Pág. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável. a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso. variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. Neste caso.4). em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações. que hipótese suporta melhor os dados). houve /não houve diferença.

Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. e como serão feitos os controles. decidir quantas observações serão necessárias. Finalmente. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe. 15 . Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo. mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas. se você pergunta a um(a) colega. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). estão relacionadas por um fator de confusão. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”. confiança e pseudorepetição. Por exemplo. mas isso não acontece com as pseudorepetições. Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. Agora. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. na realidade. Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. pseudorepetição e confiança. apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). as repetições são chamadas de pseudorepetições. vamos lá.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. Para entender a relação entre fatores de confusão. Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a). você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. é importante neste caso!). Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. de modo que faz com que seu valor esteja relacionado.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). 16 Julho/2010 . pag. Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada. 4. Pág.

Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que. busque textos (Ex. falta dinheiro. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. A continuação. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. material e métodos. introdução. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam. e você deve dominá-las desde o começo. agradecimentos e referências na tabela 1. resultados e discussão. discussão. uma grande dose de experiência é necessária. Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. infra-estrutura falha. etc. Basicamente. referências neste capítulo. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. Para isto. as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág. 17 . introdução. às vezes. segurança. O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. preciso e curto quanto seja possível.. Veja dicas úteis sobre o título.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência.). e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). agradecimentos e referências. Iremos nos estender mais nas seções de resumo. Assim mesmo. solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. tudo isso pode não ter servido de nada. consta de 7 partes: título. se você não tem cuidado no que vem agora. resumo. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. resultados. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. você teve que esperar longas burocracias (licenças. Bom. material e métodos. Um relatório de pesquisa deve ser tão claro.camacho@usp. Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema.. não lhe entendiam bem. Suas idéias sofreram críticas. Passou tempo lendo.

reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. Concretamente. seja crítico e ajude à ciência progredir. o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. explicando corretamente para ele. em forma de hipótese a ser testada. resultados e discussão. eu digo a você que. podemos enganar aos nossos leitores.1). Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. Por último. os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível. Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. Isto implica em descrever as observações feitas. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág. mas evitando redundância. e serem numerados. curtamente. material e métodos. Por último. Na discussão. é porque você não entende bem o que está fazendo. Busque críticas. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. 1966). Se nos nossos resultados. quando numerosos. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. 18 Julho/2010 . mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. A fim de facilitar a interpretação do leitor. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. Desta forma. Os dados. a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. as técnicas. Agora. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições. Em seguida. Pior ainda. Se o relatório tem vários objetivos. este é o lugar onde se deve apontar. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. devem ser apresentados em forma de tabelas. de forma que possam ser referidos no texto. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. estes devem seguir a mesma ordem na introdução.

a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. Espero que lhe ajude. Assim mesmo. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos. são complicados. Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). 19 . Considerações finais. Lembre-se que em ciência. Julho/2010 Pág. Para evitar erros em seu experimento. via de regra. Isto faz com que todos nós cometamos erros. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. tratamos com assuntos que. A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa. e só as que estão no texto. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses. as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos. aparecem na seção referencias? Pág. os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações. 20 Julho/2010 .

Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. 21 . Julho/2010 Pág. previsões. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo. Teoria empírica: Segundo Popper. mas ainda não conferida. estes animais não são aquáticos.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. prévia a um experimento. ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. seja esta tomada sobre uma população. Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo. Para Popper. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. Teste: prova. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. deve ser um conjunto de enunciados. sobre outro possível descritor. a partir de uma amostra da mesma. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito. a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. do especial ao geral. ensaio. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. (ex. aquela teoria que pode ser testada. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos. Teoria: explicação sobre um fenômeno. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. exame. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. Conclusões. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro.

Trad.. Keogh M.edu.html (maio 2009). D. California.J. T. H. M..fr/Jaynes/prob. Morris Books. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology.P. A. E. Taper.L. Ribeirão Preto. Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. (1858). Jenkinson. (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances. M.wikisource. Taper. Cambridge University Press. New York 366 pp.au/ (Maio 2009). How To Write Backwards. Aristóteles (350 A. Spedding http://en. 1997.Trad por J. Cambridge University Press. Popper. 545 pp. Brazil. Londrina. Morris C. R.). E. Disponível em: http://ebooks. 59 pp. Statistical Science. statistical.C). Cambridge University Press. USA. Bibliografia Aldrich. 557pp. 136 pp. e Subhash R. First English edition by Hutchinson & Co. Peters. philosophical and empirical considerations(eds. Pág. S. Disponível em: http://www-biba. American Statistician 38: 26-19. Por A. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. (2004) Statistics without Math. N. Prior Analytics (livro 1). Amorim. The logic of scientific discovery.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009). W.inrialpes. Subhash R.J. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53. E. Ruído: variação não devida ao fator. T. The nature of scientific evidence. 8888. 567p. (1996). 154 pp. Escondido. sendo influenciada pelos fatores. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922.(1959).L. S. Francis Bacon. The university of Chicago Press.adelaide. R. 2004. G. Cambridge. Disponível em: Jaynes.. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. K. Bulletin of Ecological Society of America 77. Editora Holos. Lewin-Koh.L. Mourão. (1987) Graphs in scientific publications.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação.L. W. Cleveland. 22 Julho/2010 . R. Bayes. Magnusson.12. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. (2002) Experimental design and data analysis for biologists. (1620) Novum Organum. Cambridge. Magnusson. 2342 pp. Quinn G. 370–418.162-176. W. 1. (2002) Fundamentos de sistemática filogenética. (1991) A Critique for Ecology. A brief tour of statistical concepts. J. Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar. (2003) Probability Theory: The Logic of Science.

1987. Chapman M.. Cambridge university press. J. R. 2008. B. G. Underwood. Wiens. J. Theoretical_Ecology. Underwood. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. A general theory of ecology. R.C. S. Willig. Systematics and herpetology in the age of genomics.. Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. 522 pp. D. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics. 297–307. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. S. 2008. Some modest advice for graduate students. 1997. 1960. Sober. E. Stearns. P. J. A. (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. M. North Holland press. 97-115. Bioscience 58. Cambridge UP. J. 1:21–28. A. 23 . e Connell. M. Scheiner.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques. 2008. Julho/2010 Pág. Technical report Nº 33. Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance. 392pp. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. naturelles et sociales”. S. Suppes.

24 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

como é o caso da malária. Neste módulo. Além disso. bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais. com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia.moraes@usp. que coordena o crescimento. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos.br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. .

49 Bibliografia pág. 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág. 66 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra. S. Célia R. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. Daniel Carneiro Carrettiero pág. 26 Julho/2010 .

2003). endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci. Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores.. Para garantir o sucesso e a diversificação da vida. que mais tarde originaram tecidos. 2007). por meio da evolução a partir de uma única célula.br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células. sinais intracelulares devem ser transduzidos. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. Contudo. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente. 2003).Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. quimiocinas. Além disso. além de uma maior independência em relação ao ambiente. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. 27 . para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col.. 2003). os quais levaram ao aparecimento de órgãos. A maioria das Julho/2010 Pág. que formavam estruturas designadas colônias. levando a uma diminuição da taxa metabólica. foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. Nos organismos multicelulares. originando os verdadeiros seres multicelulares. a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo.moraes@usp. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer. neurotransmissores. A diferenciação celular. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. Muitos hormônios. para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais). Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares.

Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial.. que possam interpretar os sinais. além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea. os chamados receptores. enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. essa região é conhecida como fenda sináptica. por exemplo. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. 2007). atravessar a membrana e atuar dentro das células. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos. Deste modo. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. os quais são chamados de hormônios. Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. Ainda. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. 2007). 28 Julho/2010 . cuja célula alvo encontra-se distante. chegando muitas vezes ao núcleo. portanto. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. Pág. Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo. dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. em hidrossolúveis e lipossolúveis. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. 1) (Rang e Dale. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. e dessa forma. os quais são lançados na região entre neurônios. 2003). ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. ativando múltiplas vias de sinalização.

e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. 2007). a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). 2003). 29 . os receptores são agrupados em quatro superfamílias. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. Adaptado de Rang e Dale. A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. que é iniciada por um agonista. enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. porém sem causar ativação desse receptor. 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. Os agonistas ativam os receptores. consequentemente. Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e. A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor.

γ.receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. O primeiro receptor dessa família a ser clonado.Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras. receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G.receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina. Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. 2003).. cada um na interface das duas subunidades α. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col. 30 Julho/2010 . tirosina quinase. 2). (2) superfamília tipo 2 . 3). 4). permitindo o fluxo dos íons (Fig. Sua estrutura pentamérica (2α. receptores solúveis no citosol (Fig. fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico. Para que o receptor seja Pág. γ. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal. (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos. β. β. o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos. Na ausência de um neurotransmissor. receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. Figura 2 . foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR).

. dessa forma. como acetilcolina. plasticidade sináptica e neurodegeneração. hiperpolarizando a célula. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios.Esquema de abertura do canal. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. O influxo de íons através Julho/2010 Pág. duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e. Retirado de Squire e col. Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai. Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). Retirado de Squire e col. como é o caso de GABA e glicina. se abrem. 2003). ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular. mesmo quando a despolarização é mantida.. (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. 31 . cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. que são canais de sódio ou cálcio. que são canais de cloro (Squire e col. 2007).. Figura 4 . 2003. 2003. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. o canal se abre quase que instantaneamente. podendo levar à despolarização celular. tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. permitindo a passagem de íons (Rang e Dale. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares. potássio e cálcio.Sinalização Celular ativado. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. glutamato. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente.

postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. 2002).. 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col. essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal. 5). β. Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col. Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. 2007). o GDP é liberado.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico. Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz. capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. íons.5’ monofosfato (AMPc). uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). 1998). Em termo. e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ.. γ – no interior da célula. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell. fosfoinositídeos. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. Pág. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor. neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. 2005). aminoácidos modificados. (Fig. A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. esteróides. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G. Recentemente. Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. 2002). lipídeos. Quando a proteína G é ativada. nucleotídeos. as quais estimulam a geração de adenosina 3’. 32 Julho/2010 ..

33 . promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. Em alguns casos.. A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. Figura 5 .. 2001). O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. Gαs. Gαq e Gα12/13 (fig. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc. 7) (Cabrera-Vera e col. 2003. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular. as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0. a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi).Sinalização Celular Classicamente. 2002). Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα. 2008). Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos. Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág. Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. levando a ligação do GDP a Gα. ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz.Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). Pierce e col.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase. e duas subunidades catalíticas (C). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos. Na sua forma inativa. e subsequente liberação da subunidade (C). As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. Depois de formado. Pág. a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). 2005). Na ausência de AMPc. CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz. 34 Julho/2010 . a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). 2001). o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs). Após ativação. PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas.

A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. Uma vez ativada. e as setas em verde a ativação.5bisfosfato de fosfatidilinositol. gerando ácido araquidônico. promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ).Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G. a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. promovendo a diminuição de AMPc. 2007). O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático. e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig.Sinalização Celular Figura 7 . Quando a proteína Gq é estimulada. Julho/2010 Pág. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. Em muitos tipos celulares.5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). As setas em vermelho representam inibição de um componente da via. a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular. A subunidade Giα inibe adenililciclase. ou ainda. o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci.4. 8). podendo ser clivado. promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R). 35 . gerando 1. A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3.

referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α). tirosina fosfatase. os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. Existe ainda uma superfamília de proteínas G.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. maturação e apoptose. guanililciclase. afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska. 1999). os receptores do tipo I e II. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos. serina/treonina quinase. ou Ras. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). diferenciação. Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas.. dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. desse modo. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. 2008). essa cascata de Pág. migração. As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. 36 Julho/2010 . incluindo proliferação. para o interior das células.

As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores.. 2009). 2000). a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada. A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. migração. uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. Janus Kinases (Jaks). os receptores tirosina fosfatase. o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. Ab1 (Fig 10). fator de crescimento de fibroblasto (FGF). desfosforilam proteínas celulares. através da manutenção da pressão arterial. Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. 9). Em contrapartida. 2007). Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). c-Fos e Elk-1. Nas vias de sinalização de receptores monoméricos. diferenciação. Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP). resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. 37 . 2000). envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. ou mudanças metabólicas. Em adição aos RTKs. tais como fator de crescimento epidérmico (EGF). A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. quando ativados por ligantes. Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. levando a proliferação. A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor.Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. 2008) Julho/2010 Pág. (Levitzki. As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos. as quais incluem Src. 2003).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase. Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase. Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase. Pág. 38 Julho/2010 . envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas.

(4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad. 2005). retinóides. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). vitamina D. A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos.Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. e assim são classificados dentro de quatro grupos. não esteróides (hormônios da tireóide. 1997). Em geral. os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros. homeostase e doenças (Togash e col. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio. como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col. mineralocorticóides. andrógenos e estrógeno). um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD). Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). derivados de esteróides (vitamina D3). A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional. dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps). e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles. Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart. 1995). Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo. 2002). (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides. 39 . retinóides.. A ligação do hormônio leva a mudança conformacional.ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide.. colesterol entre outros. esteróides. prostaglandinas e vitamina D3. e um domínio c-terminal menos conservado. fosforilação e interação com outras proteínas. Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. metabolismo. Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. de ligação ao ligante (LBD). retinóides.

Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares. O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares. 2007. Modificado de Rang e Dale. translocação para o núcleo. heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col. 1997).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. Tenbaum e Baniahmad. homodimerização. Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. 1995).. 40 Julho/2010 . O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação. 1995. Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col. Pág. O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco..

com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who. 2005). malariae. falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. a maioria dos casos é de P. principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. A Africa subsaariana concentra 90% dos casos.wikipedia. no laboratório. (Fonte : http://en. ovale. 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. P. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. P. vivax e P. É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios. na África). vivax (Who.Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. P. no Brasil e A. Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária. 2005). no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença. que transmite as espécies infectantes humanas P. quando os insetos hematófagos já existiam). falciparum. No Brasil. darling. 41 . como modelos experimentais.png) Julho/2010 Pág. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico. gambiae. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil.

A incidência da malária. Rosenthal. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. Nos Estados fora da Amazônia Legal.. no entanto. Contudo. aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. Atualmente. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. Além disso. 2002). 1998). sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS. Rondônia. composta pelos estados do Acre. 1991). 1993. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. Pág. um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea. para avaliação dos efeitos colaterais. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col. 1996). no Brasil. Amazonas. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. Maranhão. área endêmica do país. Mato Grosso. por exemplo. grau de risco da infecção da área de destino. Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas.. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. 42 Julho/2010 . responsáveis por recaídas. os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias. 1996). apesar das medidas preventivas. Roraima e Tocantins. o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. Amapá. mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. Pará. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica. 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem.

. Uma vez na corrente sanguínea.0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. (Chouaibou e col. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en. Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel. a forma infectante do mosquito (Garcia. 43 . que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. 2006).. 2006). Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. Para o fechamento do ciclo. os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito. 2001).6 X 1.000 merozoitos. 2). Estes. após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles.org/wiki/Malaria). fêmea.Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT. enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos. Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados. Por um processo ainda desconhecido. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos. de vida intracelular obrigatória. que mede 1. Julho/2010 Pág.wikipedia. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col. trofozoito e esquizonte. que retira 3 a 4 microlitros de sangue.

bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. Quando se mantém parasitas em cultura.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é. chabaudi P. inui P. Pág. knowlesi P. cynomolgi P. coatneyi P.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. Dependendo da espécie de parasita. malariae P. Foi demonstrado por Hotta e col.. respectivamente (Garcia. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico. 1). brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium. 2001) (Tab. (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P. vinckei P. yoelii P. cathemerium P. 1970). falciparm P. 2001). e col. vivax. típicas da doença (Hawking. 44 Julho/2010 . berghei P. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab. o responsável por toda manifestação clínica na malária. Parasita P. gallinaceum P. 1) Tabela 1. falciparum e P. os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. portanto.. vivax P.. e col.

. (Garcia. 1999. Como qualquer célula eucariótica. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia. Varotti e col. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ).. Especificamente. Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. 45 . através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág. A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência. como organização do citoesqueleto. 2000). 1997. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo. (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. que são devirados do triptofano. 2003).5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE). Varoti e col. porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. 2005). 1997... ativa a via de inositol 1... nos estágios trofozoitos do Plasmodium. Hotta e col.. Garcia e col. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col. nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM. 2003). 1998). As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. Gazarini e col. (Hotta e col. no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. Dentro deste contexto.4. É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. divisão e diferenciação celular (Berridge. por sua vez.. 2003). que está presente em grande quantidade na glândula pineal.Sinalização Celular a sincronia é perdida. A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. 1998.

2002). 1988). são necessárias proteases do parasita. Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro.. Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. 2003). Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman. degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal. assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . 3). 1951. O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col. Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col. sendo três delas (serine. chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág. Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. Barrett. Roth e col. pela necessidade do íon metálico para catálise. Groman. 46 Julho/2010 . com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig. a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. toxoplasma. giardia e plasmodium (Rosenthal.. Em estudos realizados com P.1999). pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba. As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. 1986).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP).1999). cisteina e aspartil proteases). Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania. 1948. 1994).. Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos.

Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al. 2005). 2009). Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático).(Modificado de Carmona et al. nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al. Julho/2010 Pág. 47 . 2005). Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 48 Julho/2010 .

Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty. sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica. O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. 1998). Matzke e col.. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina.. PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. 1992). um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas. fungos. 2001). durante a década de 1990. formação de heterocromatina (Kennerdell e col. Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA. 2003). 49 . 2000). Atualmente. 1993b). RNAi) em animais. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col.Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa.bio@hotmail. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA). Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs.. Até o final da década de 1980.com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. 1994). uma classe de pequenos RNAs com função regulatória. animais e protozoários. Entretanto. incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col. introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe. 2000. um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing. que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky. 2004a)... somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin. 2001).. que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col.

as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral. cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional. 50 Julho/2010 . atualmente denominado silenciamento de RNA. Romano & Macino. Neurospora crassa. ao contrário do esperado. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. Histórico O fenômeno. O fenômeno foi denominado co-supressão. conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. crassa.. 1995). 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col. elegans). 1990).. e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. C. 1990. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. Van Der Krol e col. 1992. 1990. 2003). Lindbo e col.. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. Van Der Krol e col. apóiam essa hipótese (Denli & Hannon.. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos. elegans. 1996.. Tetrahymena thermophila. Schizosaccharomyces pombe. Alguns anos após a descrição da co-supressão. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. 1990). Entretanto. sem pigmento. Lindbo e Dougherty. 1992). Em ambos os casos. Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas. 1998). simultaneamente. 1996. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág... Drosophila melanogaster. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. Entretanto. inibindo. camundongos e humanos. A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS).. e em animais (Drosophila e C. nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. ou seja. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs.

ou produziam em pequena quantidade. A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento. Montgomery e Fire.. 1995. e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. 1999). as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam.. 1998). Zamore e col. o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA. Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. 1998. A princípio. e VIGS) (Hamilton e Baulcombe. foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. 1995). Além de explicar a especificidade do sistema. 2001. Mueller e col. sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno. enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. 1996. 1998. atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs).. observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula. 1995).. 2000).. e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. interrompendo o seu ciclo de infecção. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col... Curiosamente.Sinalização Celular replicação do vírus.. introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno. Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. Kumagai e col. Ratcliff e col. 1995).. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. Esses pequenos RNAs. de orientação senso e antisenso. foram primeiramente observados em plantas. Ruiz e col.. 2001. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C. elegans. 1998). 1999). 51 . A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt). A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col.

consistindo provavelmente na proteína Slicer. Essa RNAse III.... 2001). 2004. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col. em C. plantas e animais superiores... 2004). 2000). 2001. Inicialmente foi proposto que. 2001) e que mutantes de C. Analogamente.. 2001a) e in vivo (Elbashir e col. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos. AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer... A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2. crassa (Cogoni e col. 2001. 2001b). toda a progênie é silenciada (Grishok e col. elegans. A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt... foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III.. 250 nt) em um processo dependente de ATP. denominada “Dicer”.. Martinez e col. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não. Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado. devido à especificidade de Pág. 1996). pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col. A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col. RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. fungos. nematóides. mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo.. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox. que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. com homólogos presentes em fungos. 2001). 2004. A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. 1997). 2004. 2001). Meister e col. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida. A enzima Dicer é conservada evolutivamente. 52 Julho/2010 . elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col. Ketting e col. Okamura e col. Este fator é dominante. 2001). 2000). Recentemente. Hammond e col. 2002). protozoários e plantas (Carmell e Hannon. na ausência de dsRNA.. Em plantas... Knight e Bass. 2001. PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo..

Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila. 2001). Sete anos depois da descoberta de Lin-4. um RNA (Vaucheret e Fagard. propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR. e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento.. Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs. 2000. sinalização e diferenciação.. 2000). 2004). conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. 2001). 2001. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples.. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7. um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. 2001. 1993). que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional. foi demonstrado que o gene Lin-4. não codificava nenhuma proteína. eles não interferem com o processo de tradução. com papel em processos como a proliferação celular. 2000). Llave e col. Lee e Ambros... 2001. este fator seria pelo menos em parte.. Lau e col. apoptose. Recentemente. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14. Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado. inibindo o processo de tradução. C. apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col. Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo.. a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 .. Slack e col.Quintana e col. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. Let-7.CmPSRP1). Inicialmente. elegans (Reinhart e col. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág. foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col. Arabidopsis e humanos (Lagos.. e sim um par de pequenos RNAs. Atualmente. 2001). os micro RNAs (miRNAs). elegans. foi descoberto um segundo gene. mas não de moléculas de RNA fita dupla. Entretanto.Sinalização Celular seqüência. elegans.. 53 . 2002b). em plantas.

O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col. A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. Em vírus com genoma de DNA. o ciclo de infecção.. 54 Julho/2010 . ou mesmo bloqueando. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col. Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. 1999).. cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. de um transgene. 2004). 1994). A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. Tabara e col. A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. 2000. pombe. Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. 2004). denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing). Pág. dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe.. Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S.. O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer. No início de 2004. ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. pombe. 2004). neste caso em nível transcricional. onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col... A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico. A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb. 2004) (Fig. O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno. foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. 2000). Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo. 2002).. 1). 2004).. elegans e Drosophila (Akhtar e col. 2002).

O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo. 55 . gerando o miRNA. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. B. Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. Silenciamento transcricional via siRNAs. A. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC. O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma. que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA.Modelo para o silenciamento de RNA.Sinalização Celular Figura 1. indicando as três vias atualmente conhecidas. O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. gerando os siRNAs. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. C.

2004). Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col. DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros... 2002. um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. 2001. Ketting e col. pombe... 2001. dentre vários vírus testados (Xie e col.. Em Drosophila. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs... Esse complexo atua no DNA genômico. Em Arabidopsis. um domínio central PAZ (Piwi. Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias. O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo. dois domínios catalíticos. resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. 2005). 2002). Schauer e col.. 2001.. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus. amplificação. 56 Julho/2010 . C.. embora com diferenças significativas (Zamore. envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col. 2001). fungos. 2004). 2001. ainda não foi estabelecida a função de DCL4.. 2002. DCR1 em C. Volpe e col. embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus. 2004c). Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA. Até o presente. S. Grishok e col. 2001.. Knight e Bass. 2002). enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. Xie e col. 2001. 2002). animais e protozoários. 2004). elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col. 2001. Knight e Bass. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal... Hutvagner e col. Na etapa de iniciação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas). Pág. e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS.. o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt. 2004). sinalização sistêmica e manutenção. Xie e col. (Modificado de Zerbini e col. Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação.

o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col. A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. Kidner e Martienssen. 2004) a mais de vinte em C. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col.. O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia.. Covey e col... 2004). 2003).. A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col.. levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col.. Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col. 2002.. 2002. 2000.. indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col. 2002). elegans (Carmell e col. 2003).Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2. e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC. 2003).. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore.. Verdel e col. 2002. Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col.... 2004). 2002). 57 . devido à ativação e manutenção do silenciamento. 2003. Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col. Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. 2002). A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col.. pombe (Verdel e col. 2004). Hutvagner e Zamore. 2003). 1997). 2002... A subunidade catalítica é denominada Slicer. 1998. 2001. Julho/2010 Pág.. Martinez e col. em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S.. Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. 1998... Mourelatos e col. Grishok e col. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar. Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col. que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col. Pham e col. Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer. 2004). 2001). 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col. 1998. Brigneti e col.

o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA. 58 Julho/2010 . 2002. estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos... incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. o metabolismo de lipídeos (Xu e col. 1998) e animais (Li e col. Em animais. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica... o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos. outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso. 2002). 2002). os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col. 2002). Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei. 2002). 2002). As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág.. Em C. A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. incluindo a formação de heterocromatina em S. 2003. particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos. De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos.. Atuando de forma análoga aos siRNAs. uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk. Volpe e col. Apesar da falta de evidências diretas. 2002.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs.. 2003). Taverna e col. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col.. 2003). indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. 1999). anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA. o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição. elegans e Chlamydomonas reinhardtii.. 2003).... Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico. 2002). Rhoades e col. pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col... Além da defesa contra infecção por vírus. 2001). a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col.

Observações semelhantes foram realizadas em C. Estudos em C. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. Nestes experimentos. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes.. elegans. e o gene exógeno uidA. e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta.. 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase. 2001). indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col.. porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. 1998). O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados. as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. elegans (Fire e col. 1997). 1998. indicando a propagação a longa distância do sinal. que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido.. Este gene. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col.Sinalização Celular heterocárions de N. mas não para enxertos expressando transgenes distintos. A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire. elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col.. 1997). 1996). A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. Timmons e col. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas. folhas de N. ou seja. 59 . Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient). O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág.. C. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe.. Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico.

existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico. O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. uma proteína viral supressora de silenciamento. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs. As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida.. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. 2003). elegans. SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada. pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade. Em plantas. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. Além disso. não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre. Curiosamente. Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos.. 2002. Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. C.. elegans. Mallory e col. entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág. estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. 2003).. As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional.. produzem siRNAs de forma deficiente. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col. 2002). e em células de mamíferos (Mlotshwa e col. em C. Lucas e col. Estudos com HC-Pro. capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. 2002). Para determinar a função da proteína SID1. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col. essencial para que o silenciamento ocorra. o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. Entretanto.. 60 Julho/2010 ... Além disso. 2003. ou seja. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula. indivíduos mutantes no gene Rde-4. sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter. 2000). 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA. 2001). Estas células foram transformadas com dois plasmídeos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. Entretanto.

. por exemplo. Lee e Ambros. Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples. 2002b). dessa forma.. pombe. 2003. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1). C. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. 2004). Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. A presença de miRNAs já foi detectada em S. humanos e plantas (Lagos. A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados. MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. Pelo menos 0. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene. essa hipótese ainda não foi comprovada. vírus. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col.Quintana e col.. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs. 2001.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs. Drosophila. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew. e. Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica.. 2004). enquanto seres humanos possuem de 200 a 255. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0. camundongos. Entretanto. com ortólogos em vertebrados e invertebrados. Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como.5-1% do número total de genes do genoma em questão. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos. 61 .Sinalização Celular com a metilação de DNA. Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. denominada CmPSRP1 (C. Llave e col. transposon ou gene endógeno. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos. 2002). a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida.

2002). mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col.. 2003). sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col. ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col. 2003b)... características de transcritos de genes da classe II. 2004b). 2003). 2003a. Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas. 2) (Lau e col. Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima. e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. 2003). de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col. Entretanto. sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col. o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs.. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col. Lim e col. 2002). Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. 2001). Por fim.. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III.. 2004). 2003). 2001. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas.. Além disso. Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col.. sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. 2001). e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica. Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais.. C. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. De fato.. Lee e Ambros. pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6. diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III. o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’.. existem algumas Pág. 62 Julho/2010 . 2003a). Além disso.

. que é a mesma do pre-miRNA. Além disso.. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais.. Em seguida ocorre a clivagem. a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA.. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. 2004. 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. Rhoades e col. Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha.. O oposto é observado com os miRNAs de animais. na região 3’ não traduzida. denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col. A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA. 2001). gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. 2003. o miRNA172. Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA. provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA. Nesta etapa. 63 . 2002). Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. 1999). que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo. 2002). Yi e col. Além disso. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. Chen. Ketting e col. 2002. preferencialmente. 2004). O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. 2003). 2000.. Por fim. em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore. 2002. plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou. 2000). liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases.. 2002). 2004). 2003b). 2003).. que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros.. com uma única exceção conhecida até o presente. Slack e col.

provavelmente pela mesma enzima.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore. gerando o premiRNA. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. Os miRNAs são transcritos. Pág. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo. Figura 2. via incorporação a um complexo RISC nuclear. Em plantas e animais. Em plantas. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col. (Modificado de Zerbini e col.. O pre-miRNA é subseqüentemente processado. 2005).. No citoplasma. 2002). os miRNA também atuam no núcleo. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. De acordo com este modelo. em ambos tipos de organismos. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. gerando o miRNA. que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo. gerando o miRNA. denominado pri-miRNA. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. 64 Julho/2010 . Em plantas. 2003b). Em animais.

.. a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col. 2002). antes da exportação para o citoplasma. o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen.Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1. 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff. a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col. Não são detectados pre-miRNAs. 2003). O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore. Uma vez incorporado ao RISC. O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel. Em plantas. correspondente à clivagem citoplasmática em animais. 2002). o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col. Mourelatos e col. 2004). Em animais... Desta forma. Quando isso ocorre. 2002). Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC. 2002). sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. 65 . que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2. sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear. Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC.. a outra fita é degradada. que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore. Em plantas. mesmo em plantas mutantes para DCL1. a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág.. Após o transporte núcleo/citoplasma. 2002). 2002. estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col. 2003). 2002). 2002). 2002).. DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col. 2000). sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC... além de Dcl1. Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col.

2002b. e Becker. Chen. o miRNA172. Quando o miRNA direciona a clivagem. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. Smith. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. Além disso. em camundongos (Yekta e col. 2004.. 2003) é regulada por miRNAs.. 2002). A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos. Pág. 2004) e DCL-1 (Xie e col. 2003). que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. Nature 407:405-9. Mallory. Hoxb8.. Rhoades e col.. 66 Julho/2010 . 2003).. o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore. 2002). Entretanto. MAarathe. a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA.. Bibliografia Akhtar. Pruss. como AGO1 (Vaucheret e col. 2004). 2002). 2002). e o miRNA164. Proceedings of the National Academy of Sciences.B. Ge. verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe.B. R. o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col.H. Em vários casos. os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col.J. Após a clivagem do mRNA alvo... V. 2004). foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução. USA 95:13079-84. D. Llave e col. e VANCE.. 2003. Entretanto. o miRNA159. (1998). Zink. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW... a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA.. (2000). G. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col.. P. ou seja. R. incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. Anandalakshmi... T. 2004). Chromodomains are protein-RNA interaction modules.C. A. entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore.. A viral suppressor of gene silencing in plants. X. 2004). envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col. 2003). Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col. A.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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Neurociências

cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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Além disso. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. resolver problemas. criar e destruir civilizações. comunicar. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. ação etc. os mecanismos da vida etc. da linguagem. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. Ironicamente. das ferramentas. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. a teoria das cordas. a mente não pode ser expressa. além de didática. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. aprender e lembrar. percebemos que. Como podemos propor a consciência ambiental. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. hereditariedade. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural.Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. investigando funções como percepção. o equilíbrio do ambiente. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10. 2003).000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência). a mente não pode existir. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. moléculas. Com o surgimento da consciência. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. O entendimento atual sobre origem. galáxias distantes. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. sem a manifestação do comportamento. denominadas genericamente por neurociências. emoção. amar e odiar. funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. a integração entre as idéias pode ser árida. memória. que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. a higiene do meio. os átomos. articulados criticamente. 87 . do abrigo. atenção. os buracos negros. ao longo do tempo. sem o cérebro. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. DNA. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber.).

Sabemos muito pouco sobre o cérebro. por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas. até agora. a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. não sobram limites a serem alcançados. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. ao elaborar as perguntas devidas. 2003). 88 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental. realizando os experimentos devidos. (Kandel. continuam a ser a preocupação dos filósofos. pode-se começar a responder a estas perguntas que. Portanto. Pág. Como resultado.

89 . Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. Figura 1. o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. Há. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais. 1996). O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente. Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. Além destas amplas distinções.e. i.plim@gmail.com No sistema nervoso. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados. neurônios nunca funcionam isolados. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora. A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético.. Desta maneira. o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações. cardíaco e glândulas. sob o ponto de vista anatômico. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos. em componentes centrais e periféricos (Fig. entretanto. módulos. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág.Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata. viscerais. cujas funções servem a um propósito comportamental específico. 1). Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. algumas características são comuns entre eles.

o modelo de circuitos convergentes. que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. Então. centro). o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. 2. circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente. podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida. Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig. 2. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. Em vez de concentrar as aferências. à direita). Para demonstrar este tipo de circuito. quanto B. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. atividades motoras. C e D. etc (Fig. 90 Julho/2010 . Circuitos convergentes são responsáveis. A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. Estas três classes – neurônios aferentes. C ou D) seja inibido. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig. Além disto. De modo geral. Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. à esquerda). imagine que tenhamos os neurônios A. No caso do circuito divergente. No funcionamento paralelo. Figura 2. memórias de longa duração.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E. Esquema representativo dos modelos de circuitos. À esquerda. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. por exemplo. realizando uma eferência (saída). O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. 2. sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. são chamadas de neurônios eferentes.

em que há produz uma reação involuntária rápida. Julho/2010 Pág. Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. antes deste poder comandá-la voluntariamente. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. por sua vez. executará a resposta ao estímulo inicial. No funcionamento serial. por meio de um nervo craniano. Ocorrendo um estímulo. gerando. 91 . ou ao tronco encefálico. movimento. Por exemplo. que protege o organismo. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. a atividade que leva à ação. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. variações da pressão arterial etc). Isto é.Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. glândula. um neurônio estimula outro neurônio. os circuitos envolvidos. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. além de processar informações de modo serial. funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. independentemente da vontade. Durante o processamento de funções mais complexas. forma e localização. músculo liso ou músculo cardíaco) que. Desta maneira. Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. Sinais representando cores. no neurônio motor. na maioria das vezes inconsciente. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor. ponte e mesencéfalo). de modo geral. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. estiramento. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. conseqüentemente. por exemplo. aumento da intensidade luminosa.

Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. Assim. No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. paralelamente. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos. sua experiência acumulada. Como esperado. molda os circuitos neurais.e. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo. i. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. entre outros. Em um axônio aferente. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas. em animais. ou patologicamente. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. assim como a função visual. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. além da construção de sua circuitaria. a conectividade no córtex visual é alterada. Em alguns casos.. em humanos) durante um período critico na infância. entretanto. a construção dessa Pág. essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso. Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais. Mais freqüentemente. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. preferências sexuais e aquisição de linguagem. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto. fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. 92 Julho/2010 . padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. experiência). Assim. determinando seu comportamento. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é.

memória operacional. linguagem. 1949).. etc. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. Julho/2010 Pág. Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. 93 . enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. tais como discriminação visual. retenção de memória. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. Ao contrário. Em seu lugar. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. Segundo. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. 1949. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem. reconhecimento de face. Primeiro. Em resumo.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. em um animal adulto. Assim. atenção espacial. pág. alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. uma das células que estão agindo sob B. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais. Desta maneira. Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. Em 1949. XVII). é aumentada. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. Assim.

Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). abaixo) (disponível Pág. Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. 3). A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. 94 Julho/2010 . LTP (do inglês. A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo. O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo. ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. à esquerda. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. long-term potentiation) (Fig. Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. à esquerda). Figura 3.

A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. na forma de moléculas de neurotransmissores.braincampaign. ao Julho/2010 Pág. Nesse contexto. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. 95 . Estes sinais. Isso permite entender porque a recordação envolve.09/06/2009). a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração. a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. até respostas mais complexas. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. Interessantemente. Entretanto. pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais. Por exemplo. a idade do animal em questão e espécie. Como conseqüência. categorias. usualmente. Entretanto. projeta-se para outros 104 neurônios e. De acordo com essa concepção. mas também por um aumento do número destes receptores.Neurociências em www. de comunicarem-se através da sinapse. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais. isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. por sua vez. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e. como a cognição observada em humanos. mais fortes tornam-se essas conexões. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. nas formas de LTP mais compreendidas. Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície. o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado.org . são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos). a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas. a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior. em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. Por exemplo.

invertebrados etc. legumes. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. Então.4). 96 Julho/2010 . animais aquáticos. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”. De modo circular. pegar um objeto. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. ou seja. O mesmo ocorre em relação a alimentos. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal. o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc. Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. forma. Interações podem incluir andar de um lugar para outro. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. Desde a mais primitiva espécie animal. tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. Figura 4. aves. carnes etc. integramos todas as informações disponíveis (cor. a recordação também será categórica (frutas.). O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo. ou seja. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. quadrúpedes. verduras. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros). fugir de predadores. contexto. Assim. A Pág. lutar e reproduzir-se.

Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. “atenção”. responsáveis por emitir as respostas motoras. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. O sistema nervoso evoluiu. significa “apoderar-se” dele. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. Podemos supor então que. de forma um tanto óbvia. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág. provavelmente pressionada por fatores ambientais. o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. precisam ser estudados juntos. derivado do latim. onde “perceber” algo. ou pelas vias eferentes. desse evento ou dessa resposta. E. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. “consciência”. em sua maioria. sobretudo nos mamíferos. Esses rótulos estão longe. com ele interagindo de forma contínua e coerente. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. “ação” e. sobretudo. “memória”. mais provavelmente. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza. “aprendizado”. de uma definição completa e consensual. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e. 97 . na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. Desta forma. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. apesar de seus constantes desafios. se considerarmos que a percepção do mundo. ao tornar-se cada vez mais complexo. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. desta forma. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”). por fim. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. Eles são.

98 Julho/2010 . Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). com feedbacks em todos os níveis. Assim. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. neste sentido eles funcionam como um radar.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo.não dependem tanto deste contato. Pág. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. Em contraste. nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva). basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. em direção a estruturas anteriores (motoras). uma vez que um objeto tenha sido percebido. para um som ser audível. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo. guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos. Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. desta forma. Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. ver e ouvir. substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar. Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz. Comportamentos mais complexos. Além disso. Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo. 5). Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. Quando tocamos um objeto. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. no nível cortical. Da mesma forma.

há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados. a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. 99 . Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster. as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato. os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. 2006). Assim. Do mesmo modo.Neurociências Figura 5. Da mesma forma. enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). O substrato cortical do ciclo percepção-ação. Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. Em ambos os córtices. Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa.

Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. a uma única oportunidade. do agente envolvido. em geral. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). isto é. Desde modo. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. De modo inverso. a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. Assim. numa análise dos componentes visuais da ação específica. podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. Sendo assim. do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. tudo começa com uma intenção. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções. fornecendo subsídios para ações mais complexas. nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas. Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita. 100 Julho/2010 . Assim como vimos acima. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. Considerando o fato de sermos seres sociais. isto é. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. na abordagem ideomotora. Contudo. Na abordagem sensório-motora. tudo começa com uma estimulação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores.

Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações. possa participar desta função. Julho/2010 Pág. embora nenhum movimento efetivo seja executado. como por exemplo. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. auditiva. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. aparentemente. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. Os descobridores destes neurônios. pegar/manipular um objeto ou alimento. o estímulo é ligado à intenção do agente. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais. Conseqüentemente. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas. o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. entre eles Giacomo Rizzolatti. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo. 6). sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores). disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. 101 . de acordo com esta concepção. em outra perspectiva. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). baseada também em outras modalidades. isto é. Isto é. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. Esta resposta. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça. Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. isto é.Neurociências execução da ação observada. Todavia. tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). baseado na descrição do objeto e do movimento. uma ação implica em um agente e um objetivo. Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. Entretanto. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. os assim denominados “neurônios espelho”.

Pág. não apenas pelo sistema sensorial. À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti. Desta maneira.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6. Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador.e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador . mas também no próprio sistema motor do observador. ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente .representação motora da ação observada. Através do reconhecimento de ações e.a ação observada sendo executada por outra pessoa . 102 Julho/2010 .1996). o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante.

Há ainda o arcorreflexo polissináptico. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. 103 .Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e. nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág. 1). com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora. e sem preferência de direção do estímulo conduzido. formando um arcorreflexo monossináptico (e.com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras). portanto. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora. Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos. reflexo patelar). A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). As células receptoras.g. A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados. Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso.fv@gmail. 1983). flexibilizar o comportamento (Eckert. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora. O arranjo das células nervosas é difuso. nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig. O mais complexo que se tem conhecimento. Eventualmente. Apesar disso. Em última instância. de agora em diante chamadas receptores sensoriais. são responsáveis por transduzir (isto é. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo. com cruzamentos desordenados de axônios.

que faz com que a luz passe duas vezes por ela. É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. como.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. Nesse sentido. como os Tarsius. Outros mamíferos. útil a presas e predadores.: cobras). têm globos oculares extremamente grandes. por exemplo. Comprimento de onda em nanômetros. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente. 2). Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente.g. Os receptores tendem a ser muito específicos e. a ecolocalização de morcegos. Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz). 104 Julho/2010 . pois persistem em diversos grupos. Por outro lado. a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele). O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. há animais que tem visão e audição pobres. Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum). Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz. respondem preferencialmente a um tipo de estímulo. Modificado de Carlson (2004). portanto. em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal. Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág.

A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig. há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor.3). cada qual com um receptor sensorial. formando um mosaico. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. brilho). 4B). A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide.g. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC). Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. rodeado por 6 a 12 células retinulares. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. Em última instância. 4A). 105 .Neurociências pela estimulação luminosa. Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. formando o rabdômero (Fig. Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. Eckert (1983). abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina. A combinação mais encontrada. Fig. 2006). dado que as variações entre os grupos são grandes. Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A). para que possamos enxergar. tanto em vertebrados como em invertebrados. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica. Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. provocando uma cascata bioquímica no interior da célula.

Dessa forma. 5). Esse caminho. uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. incluindo os humanos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. 6). 4B). 5). constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos. Semelhantemente. o inverso do centro da fóvea. as células ganglionares (Fig. menos cones e mais bastonetes são encontrados. e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea). como em um quarto escuro. Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. 106 Julho/2010 . Neurônios com axônios longos. Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. porém. evidenciando algumas camadas celulares da retina. não é direto. As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. Modificado de Lent (2006). As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz. sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. 2006). 4B).. Alguns têm três tipos de cones. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. ainda que responda por menos de 1% do campo visual. A fóvea é o ponto de maior acuidade visual. Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. Pág.

Encéfalos fora de escala. em vermelho. algo constante em animais carnívoros. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. Entremeado nessas camadas.Córtex visual primário (V1). tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar. chamadas parvocelulares. É ela quem permite a visão binocular. 6). Modificado de Bear e col. todas as fibras passarão pelo Tálamo. ele se dirige à V1. que tem um mapa retinotópico. têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. Modificado de Bear e col.Neurociências Figura 5 . para um mesmo lado da cabeça). o que reduz sensivelmente a visão binocular. mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). Após o estímulo passar pelo NGL. As outras quatro camadas. permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados. no córtex occipital do homem. mas potencializa a visão em todas as direções. no córtex occipital. isto é. (1996). Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. tem os olhos em lados opostos da cabeça. Herbívoros. por outro lado. 107 . Após o cruzamento no quiasma óptico. portanto. (1996). do gato e do rato. responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig.

Modificado de Bear e col. fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina. com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina. Emitindo sons acima de 50. Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo.000 Hz. freqüências acima de 10. Diferentemente da visão. os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total. podendo ser feita a quilômetros de distância. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20.000 Hz. características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons.000 Hz. devido a características implícitas à cóclea.000 Hz e indo até cerca de 120. 7) (Carlson. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho. mais especificamente. à membrana basilar dentro dela (Fig. têm comportamento extremamente direcional e reflexivo. preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig.000 Hz. 8). Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação. morcegos têm faixa de audição começando em 10. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. 108 Julho/2010 . freqüências acima de 20. parte da Pág.Representação do sistema auditivo humano. No outro extremo. Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1.000 Hz. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante. Os superagudos. Figura 7 . (1996). 2005).

que farão a transmissão para a janela oval na cóclea. 7). A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. no meio. Pelo contrário. Modificado de Bear e col. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo. inicialmente pelo nervo coclear (Fig. A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos. com todas as suas características de frequência e intensidade. permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas. Essa energia. 8). Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. todo som causará vibração por toda a membrana basilar. integrantes da orelha interna. 109 .Neurociências orelha externa (Fig. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. no entanto. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. Sons médios. Como a cóclea é um tubo inextensível. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. os cílios dos mecanorreceptores. (1996). Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x. Julho/2010 Pág. não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. bigorna e estribo). a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape.

formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. Modificado de Bear e col. Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. 2006). 10). tendo íntima relação com o sistema motor. permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados. impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular. ausente nos agnatas. (1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). Pág. 2006). Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent. 9). considerado um sexto sentido dos organismos. para acelerações lineares (Graf. pela adição do canal horizontal. Modificado de Lent (2006). a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig. Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. 2006) (Fig. 110 Julho/2010 . esse sistema deve ser no cérebro. O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo).

resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. formando um mapa somatotópico do organismo. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III. como a ponta dos dedos. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. Assim como na visão. permitindo a formação de imagens estáveis na retina. portanto. como na cóclea. as maiores áreas de processamento). Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo. ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. 5). além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico.Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). temperatura ou dor. 111 . A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. 2005). Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. Interessantemente. outras seguem diretamente para o cerebelo. já que estes têm hábitos noturnos. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. 2006). Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. no giro pós-central (Fig. O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. IV e VI).

Acidez é um indicativo de decomposição. claramente um alimento. Outras projeções se dão para a Pág. extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. por outro lado.. Por outro lado. Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. substâncias amargas ou azedas serão evitadas. O caso mais surpreendente. Curiosamente. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. substância naturalmente presente em carnes. são detentores de um olfato apuradíssimo. são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. resultado da ação bacteriana. 1997 apud Carlson. 2005). é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson. 1995). 2005). doçura. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores. queijos e alguns vegetais. salinidade e umami. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller.. 112 Julho/2010 . doçura indica presença de açúcares. porém. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. Já receptores para sal.. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos. indicam a presença de cloreto de sódio. acidez. no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos. em última instância. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. 1986 apud Martins e col. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. que detectam cinco qualidades: amargor. Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água. o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. Treinados. de fato.

mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas. Mais do que isso. 2006). as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. sendo homólogo entre todos os grupos (Graf. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e. Há críticas à existência da magnetorrecepção. 113 . através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico. 2006). A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico.002 °C. que precisam manter sua temperatura regulada.g. isto é. 3). o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. formando um ângulo de 90° uns com os outros.Neurociências amígdala e hipotálamo. entre eles: aves migratórias. sendo detectado. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf. A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos.. Por outro lado.

Não há melhores órgãos e sistemas. Além disso. disponível na superfície terrestre globalmente. tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos. A forma como percebemos o mundo também não é. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. Em última instância. mas apenas aqueles mais bem adaptados. Estímulos como a luz. ainda que elas sejam análogas entre espécies. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. 2006).. A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem. Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. enguias e até mesmo bactérias. tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. Pág. 2006). 114 Julho/2010 . de fato. necessariamente.

Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins. 1995. incluindo a navegação e noção de tempo. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida.em todos os exemplos. os olhos podem ter uma origem monofilética. ou seja. Origens evolutivos No caso da “visão”. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág. provavelmente. olhos compostos. surgido mais de uma vez durante a evolução. o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. mas.. Logicamente. 1977). ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . de um único ancestral comum. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. Estas estruturas (ex. Salviani-Plawen e Mayr. Arthropoda e Chordata. olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”. por definição. 1859). ou podem ter uma origem polifilética. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes. 115 .. embora os olhos apresentem uma variedade de formas. desenhos ópticos e localização corporal. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central.com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. tamanhos. Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar. pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin. tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. ocelos. Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus). Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos.

uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz. podem ser divididas em duas grandes classes. A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. 1995). paralelas umas às outras. as células fotorreceptoras. 2000. Modificado de Fernald. e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz. Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág. (Fig. 116 Julho/2010 . Figura 1 – Tipos de olhos. o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder. Duas dessas soluções aparecem em Chordata.1).

2) (Gehring and Ikeo. Arendt). Pichaud and Desplan. este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz.Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar. assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt. 2000).homeobox. Julho/2010 Pág. Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes. Fernald. que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash. Especializado.2001). poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano. 1999. 117 .têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt. A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena. 2002).. protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e. Duas células . Annelida. Figura 2 – Foto ilustrativa (D. genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo .1992. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig. Durante a evolução do olho. (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos. além disso. 2003). o olho simples (ex. Em sua origem. Lophotrochozoa). 2003). Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo). verde: células de pigmento.olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land. tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis. existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz.

Arendt e Wittbrodt. A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). 2003). nas quais a célula parece ter um achatamento. Pág. 2001). Nos vertebrados. Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. 2001). 2001). Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig. 3 (Arendt. olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. 118 Julho/2010 . Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes. a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. 2003.

Os sistemas de transdução. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula. 119 . plexiforme interna. Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. 4 do capítulo anterior). a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt. nuclear interna.Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. externa. desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. são muito parecidos. Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. desempenhando operações de detecção. amplificação e transmissão (Randall. A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. 2001).1997). uma modificação do cílio. por outro lado. Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. Julho/2010 Pág. cada um com sua peculiaridade. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. da espécie. nuclear externa. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar. conseqüentemente. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos. epitélio pigmentar) (Fig. plexiforme externa. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 120 Julho/2010 .

incluindo fraldas. o filhote se ergue. De repente. 1940). de onde o ovo vem saindo. Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. perderiam a prole. protegido do sol de verão pela folhagem acima. Ato contínuo. e acaba descansando um pouco. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. do qual eclode uma larva.fazem em favor de suas crias. retira-o e. Ao pensar em cada item. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. 1961). ela não vai à exaustão total.e também alguns machos. põe mais um ovo de alimentação. Enquanto dirige. chupetas. de aves e outras classes de animais . talvez dormindo. Dobrando-se ventralmente. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center. a uns 15 cm do solo. pinça-o com precisão. na direção de onde chegou. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. e faz cálculos de dinheiro. A um metro dali. porém. desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. Foram selecionadas. mete o bico goela adentro do pidão. Está sossegado. No entanto. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. 121 . uma saúva fêmea. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. girando o corpo. um ninho de tico-tico abriga um só filhote. O macho não apareceu por ali (Robert et al. mamadeira. uma mulher. É bem maior e é mole. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. A fêmea. Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. agitada ou apressada. ela pensa na lista. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. bem rápida. leite em pó e um carrinho de bebê.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. na primeira semana de vida. voa para trás. pescoço esticado para cima.. Bem mais longe. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. o bico escancarado. enclausurada na câmara que construiu. Não é um ovo normal. uns 15 cm abaixo da superfície do solo. recebem uma explicação simples da teoria da evolução. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . ela chega de novo: mais uma refeição. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. Mais alguns minutos e a cena se repete. Alguns minutos depois. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri. evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. uma outra fêmea.

Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. mães extremadas dão origem a mães extremadas. Tal inquietude. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. 1941). É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta. tão adaptativa nas relações sociais. mas essencialmente o mesmo. O cálculo da formiga é um pouco diferente. fim. E se não construísse a câmara. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. as funções. precisariam de menos alimentos para si mesmas. ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. o Pág. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre. Essa faculdade. inclusive absorvendo seus músculos alares. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. 1942. enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. propósito e objetivo. Ora. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. as tico-ticos estariam melhor. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. no entanto. como se o futuro pudesse determinar o passado. vivendo de reservas. são pontos terminais de linhagens. em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. com a manutenção subordinada à reprodução. Pois são estas. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. Abandonando o ninho. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem. finalidade. jejuando durante meses. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. Trata-se de um desconforto filosófico. 122 Julho/2010 . ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. decorre de um exame superficial do conceito de função.

O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. Examinado dessa forma. a funcional. cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. Contudo. no entanto. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. 123 . em busca de como ele controla as ações dos rivais. o canto está dentro de um estudo causal. A resposta causal. portanto.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional. obra da adaptação. terá valor no plano funcional. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. incapazes de se alimentarem sozinhas. embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. prêmio Nobel de 1973. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. Niko Tinbergen. que tem. possibilitando a seleção de programas genéticos. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. ou com o objetivo de recarregar sua bateria. uma funcional e outra causal. fazendo-os mais ou menos agressivos. O controle de suas ações. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. que devemos chamar de causas do comportamento. na maioria das vezes. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê. A observação de que as larvas de formigas são inertes. por exemplo. e mais duas que não serão aqui examinadas. constitui um outro tipo de fenômeno. Portanto.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido. no ambiente natural. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. antes de atingirem o solo. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. como a sexualidade dos bonobos que. seja no ambiente natural seja no laboratório. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. em condições normais no ambiente natural. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução. é necessária a ação de fatores causais adequados. a começar pelo reconhecimento correto do objeto. tão comum em mamíferos. Existem mariposas que subitamente. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação. os jovens fazem coisas de adultos. 124 Julho/2010 . esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente.. e assim por diante. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. no prelo). Em condições normais. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. a sede quando falta água. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. o animal deve engolir água e não areia ou flores. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. Sim. No comportamento lúdico. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. mas presente também em aves. fora tanto do contexto funcional como do causal. em pleno vôo. Alguns segundos depois. Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. ou seja. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. inclui rotineiramente relações entre machos. Em condições anormais. elas recobram seu vôo normal. causas e funções podem desencontrar-se.

antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. menos um. os ovos perderam-se todos. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. Não a viu. Já o comportamento da mãe. para fazer outro em lugar mais seguro. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. Isso foi assim.Neurociências o comportamento animal. Essa pelotinha de fungo era essencial. a reprodução. A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. Explorando o sistema causal da hospedeira. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. O filho. Porém. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. O filho foi planejado. a ticotico talvez tivesse ido embora. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. Ela tinha um bom emprego. ao planejar o filho. Se a percebesse. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho. A amiga. Sem esse jardim de fungo. Ela continuará a alimentar as larvas. neste caso imaginário específico. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. solidária. o da chupim. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. Foi vã toda a dedicação da tico-tico. Mesmo tendo perdido o fungo. É filho de uma amiga. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. que está sem dinheiro. comuns em animais sociais. 2004). Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. Por predação ou furados pela chupim. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara. sem fungo. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais. 125 . está feliz de poder ajudar. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. mãe solteira. na pré-história. seu esforço é vão. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. em seu benefício. Diferentemente de qualquer outro animal. No caso que estamos examinando. abandonando o ninho. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. que normalmente reside no Julho/2010 Pág.

126 Julho/2010 . porém o progresso é indiscutível. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. as respostas são mais hesitantes. a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. Curiosamente. 1981). é uma causa dos comportamentos da mãe. biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. humanos. Pág. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais. A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. mas não se revela facilmente a si mesma. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz. que muitos animais são capazes de fazer. As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. Em nós.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional.

de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. Tome por exemplo a Fig. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição. 1. especialmente atenção e memória. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes. Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor. forma. capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. a percepção de uma determinada nota é mantida. altura para audição. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. Ainda assim. sabemos que se trata do mesmo carro. mas vai além destes. Por outro lado. timbre.Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. Ivry e Mangun (2006). portanto. Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. intensidade. Não importa qual a posição do carro mostrado na figura. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga.fv@gmail. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. 127 . ouvindo ou sentindo estímulos). Esse mecanismo depende.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. movimento para visão. Ele seguramente o estranhará. Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida. Humanos são para os quatro desenhos. perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. como a memória ou a atenção. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. o reconhecerá pelo cheiro e voz. abstração.

são parte dos chamados córtices associativos. A informação que chega até o córtex visual não para em V1. Mais do que isso. como já mencionado. associado a apenas uma modalidade sensorial. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. 128 Julho/2010 . em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção. Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). Com esse arranjo. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido. entender como percebemos. quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). mais fibras vão convergindo na rede neural. essa informação continua avançando por diferentes regiões. adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. 2006). passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. pelo contrário. o que descarta problemas de memória.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”. Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. particularmente no caso da espécie humana (Preuss. Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. em geral. de fato. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital.

2). já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão. como movimento ou cor. podemos entender “onde” vemos um objeto. 129 . o tempo de reação é menor. permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. 2006. independente de qual delas. Apesar do arranjo sequencial. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos. O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. Através da via dorsal. mas não de outras características. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo. Julho/2010 Pág. Quanto mais adiante na sequência. mais adiante na sequência de processamento visual. Modificado de Lent. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo.Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig. Na Fig.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. o uso de aspas justifica-se porque. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. (2000). isto é. e uma via ventral (córtex temporal inferior). para processamento de informações sobre localização espacial e movimento. Retirado de Kandel e col. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos. se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. Apesar disso. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. Semelhantemente ao sistema visual. para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão. relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. mais uma vez. Evidências clínicas. esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. simplesmente não há “correto”. 130 Julho/2010 . De fato. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias. A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral. falando-se em percepção. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. que disparam para Pág. Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons.

cheiros e pressões (táteis) ao seu redor. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. Para ele a estimulação visual nunca existiu. após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual. ganhará maior processamento neural destes circuitos.Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível.). se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. mas eles Julho/2010 Pág. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. são apenas as outras sensações.. mas. 131 . Por outro lado (ou. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo.. Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos. novamente. incluindo os humanos. precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. Como no carro da Figura 1. resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. Para ele. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos). morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros. isto não é o que um cego percebe do mundo. invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. por outra via. Essa região está envolvida com memória operacional e atenção. é a constância perceptual para estímulos sonoros. logo. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. melhor dizendo.

Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória). não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. Assim. As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos. 4B e isso ficará ainda mais claro. ao olhar para um Pág. As barras convergentes na Fig. Isso não significa que falhamos em enxergar. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. 6. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. todos dirão que a barra superior é maior. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. após uma análise mais cuidadosa. 5 sugere o formato de um triângulo. 4 criam a ilusão de algo que se distancia. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. 4A. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. Apenas alguns. o que faz com que. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. Tome por exemplo a Fig. A Fig. 132 Julho/2010 . mas sem todas as suas bordas esperadas. Olhe a Fig. vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia. apesar de serem iguais. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. de fato. Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar.

Neurociências fundo neutro (branco. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto. preto ou qualquer tom de cinza). perceba-se cores trocadas na imagem. O que você percebe à primeira vista na Fig. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. Figura 7 .Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. mas pelas cores em volta da mesma. Veja na Fig. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais. Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem. para uma parede branca. Figura 6 – Efeito de pós-imagem. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura. 133 . 9? Julho/2010 Pág. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo. com ativações bilaterais. em seguida. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e.

mas não se dão conta dos detalhes. mas há relatos bem Pág. Retirado de Lent. Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. 134 Julho/2010 . percebem os detalhes das imagens originais. Por outro lado. 2006. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. ou por sons (palavras em geral). A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. isto é. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. o contrário não acontecerá). Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. como dito acima. mas perdem a forma global.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras). seja por grafemas. se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela. pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global.

Modelos de Sinestesia. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. inativas. gostos gerando formas. cheiros para cores e. mais curiosamente. Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). mas funcionalmente inativas. As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns. Figura 10 . As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral.Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos. Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. 135 . embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais). Modificado de Bargary e Mitchell (2008). Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág. música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas. Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. A Fig. em azul.

A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. Pág. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. De qualquer forma. não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”. Tomando por base o exemplo anterior. 2006). Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. portanto. por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida.05% anteriormente sugeridos. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. um valor bem diferente dos 0. 136 Julho/2010 .g. A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e. no caso da visão). Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. É o chamado binding problem. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell. Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. por exemplo: números escritos na língua de origem. Se um deles disser que um dó maior é azul. etc. A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida. movimento. Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores.. 2003). 2008). forma. Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard. cor. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual.

desde sempre. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral). O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção. porém. com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. ao final do processamento. o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. porém. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. Segundo os autores. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que. Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). Essa explicação. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. Julho/2010 Pág. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. ainda carece de comprovações. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. 137 . Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”. mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. não favorece essa explicação. apenas representamos internamente o que é percebido externamente. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. complexando o estímulo processado). consequentemente. incluindo as fases iniciais do processo. Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 138 Julho/2010 .

O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. no relato de uma experiência de infância. lenta e gradual. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. Desta forma. Ainda sim. que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. 139 . Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais. permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). na execução habilidosa de uma ação motora. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores. ocorre de maneira constante. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. aprendizagem de conceitos. Por exemplo. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas. ela age também selecionando comportamentos. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. por exemplo.barletta@gmail. podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção.

se beneficiarão. a complexidade de tal ambiente aumentar. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada. Do ponto de vista evolutivo. 140 Julho/2010 . a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema. conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. além de planejar uma ação antes de sua execução. isso pode ser altamente vantajoso. Indivíduos capazes de identificar estímulos. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. Suporte aos sistemas de memória Pág. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais. no entanto. fazendo uso de processos antecipatórios. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. estarão mais aptos para determinado ambiente. sobretudo dos processos de memória. Uma vez gerada a previsão de um evento. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. Se. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. Em outras palavras. Portanto. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. Assim sendo. ações essas baseadas em experiências anteriores. o surgimento de diferentes sistemas de memória. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos. Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. A evolução do sistema nervoso. com regras de operações essencialmente diferentes. No entanto.

que transformam diferentes formas de energia (e. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. Levando em consideração tais possibilidades de combinação. deste modo. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. temos um processo de computação neural. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. 141 . isto é. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas. Assim. odores etc. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. que por sua vez. por sua vez.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. recebe projeções de outros milhares de neurônios. som. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. luz. Além disso. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. Essas informações sensoriais. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações. Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. possui bilhões de neurônios. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios.) em potenciais elétricos. sob a forma de impulsos elétricos. é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). avalia e passar o sinal a outros neurônios. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos.g. Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. gerada por atividade espontânea. Conectadas aos neurônios. as memórias. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses.

esquerda). Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). 1). a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. Animais de um grupo controle. O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens. realizada 24 horas depois. Em experimentos adicionais. Modificado de Pavão (2009). por uma porta tipo guilhotina. 1 . 1). Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. (ver Fig. depois do treinamento com choque nas patas. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. 142 Julho/2010 . foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. alguns peixes voltaram à posição normal. À medida que esse intervalo de tempo aumenta. Após longo esforço de cerca de 3 horas. Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). 2. menor é o efeito. como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias. que não receberam choque nas patas no dia anterior. após entrarem nessa câmara. Xavier (2004) e Gold (1970). Em uma etapa de teste. maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso. 1 – direita: barras de cor laranja). treino inicial representado pela curva verde). entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. Se Pág. levam um choque nas patas. apesar do flutuador (Fig.

os flutuadores foram recolocados.e. Num terceiro teste. curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul. i. essas proteínas foram denominadas ependiminas. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. no teste de memória realizado 3 dias depois. que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. porém. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. ver Helene e Xavier. abaixo) – curva verde. Flutuadores foram presos aos animais. o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento.. e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. 143 . Em segundo momento. 3 dias depois. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. 2. 2. algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. Ou seja. 2007). Em outro teste. Então. ficavam em posição confortável (esquerda. e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. acima). Em conjunto.Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois. Modificado de Pavão (2009). os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. Atualmente. indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. curva vermelha). os animais realizam a tarefa mais rapidamente. com treino de cerca de 180 minutos. esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. Xavier (2004) e Shashoua (1985).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória. algumas horas. pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. 144 Julho/2010 . As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade. meses ou anos. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. associado com produção de proteínas. Posteriormente ao experimento de Shashoua. gerando circuitos alterados no sistema nervoso. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses). sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. plasticidade. simplesmente. Diferentemente. uma de curta duração e a outra de longa duração. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias. mais instável. parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos. por exemplo). parece envolver alterações estruturais nas sinapses. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo. Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. no máximo. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. O outro. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. Um deles. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente.

estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP). Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. Aparentemente. Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. Sendo assim. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. 145 . a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. anos ou até mesmo uma vida inteira. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. Sendo assim. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. Em outras palavras. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. correspondente àquela gerada durante a experiência original. ou redes nervosas. Julho/2010 Pág. assim como Hebb havia proposto. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo. representa a experiência adquirida. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Como vimos. o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade. tornando-as associadas. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes.Neurociências circuitos neurais.

usualmente. são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. quando Pág. Isso significa que. por meio de sua atividade e conexões. costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. Assim sendo. organizadas no tempo e espaço. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica. Uma vez ativos. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. Isso permite entender porque a recordação envolve. Em primatas. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. mais fortes tornam-se as conexões. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. Além disso. dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. categorias. como por um ato de vontade para recordar aquela experiência. estão profundamente associadas com os processos de memória. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. "nós" da rede. 146 Julho/2010 . A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. ação e outros processos cognitivos. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. percepção. Como consequência.

Nessa rede. representa uma determinada informação. excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. 2002. e de Helene e Xavier. 2007. Além disso. mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. essas ligações podem variar em intensidade. contribuindo para a lembrança completa da experiência original. é ativada (B).Esquema representativo de redes neurais de Hebb. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. Figura 3 . se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. ou pode ter reverberado nessa rede. A rede tem uma organização inicial como representado em (A). (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. Nesse sentido. 147 . já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. Modificado de Bear. Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. Julho/2010 Pág. de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial. Por exemplo.Neurociências ativados. provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. uma dada população de nós disparando. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas. levando à sua previsão. então. de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). ao receber um estímulo. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória.

isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala. porém cooperativa. aprendeu a ler palavras invertidas. 2007). suas capacidades perceptuais se mantiveram. isto é. sua personalidade e a memória de curta duração. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia). Após a remoção das estruturas.M. e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. H. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas. Segundo essa ideia. estava restrito à aquisição de memórias de longa duração.. uma espécie de reverberação da Pág. descrito por Scoville e Milner (1957).M. ele alegava nunca ter feito isso. o paciente sofria de epilepsia intratável. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier. Na ocasião. o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação.M. parece atualmente bem difundida. representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. quando consultado sobre seu treinamento prévio. Como dito anteriormente. foi removido cirurgicamente. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos. O foco epiléptico. que funcionam de forma independente. assim como seu QI. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. 148 Julho/2010 . o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. H. possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular.M. porém. além de outras porções corticais. Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais. Curiosamente. Por exemplo. O prejuízo cognitivo de H.

Duplas dissociações. Curiosamente. mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente. Em outras palavras. 2007). como visto. e uma memória de procedimentos (ou implícita). ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou.Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. 4).M. pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. pode-se dizer que. Neste contexto. usualmente preservada nos pacientes amnésicos. ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste. usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. Em suma. Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu. Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações.M. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. pacientes parkinsonianos exibem. Resultados de estudos como do paciente H. pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita). 149 . Julho/2010 Pág. por exemplo. Trazendo esse conceito para o caso do paciente H. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier. prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas. embora possam cooperar entre si. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. têm lesão no lobo temporal medial).

amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson .PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. 2007).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H. como já descritas. Pág. ocorre de forma cumulativa.M .amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson . o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência.M . A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal. ou seja.PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição. Além disso. porém. (modificado de Helene e Xavier. possui um acesso consciente. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento. Sua aquisição é gradual e dependente de treino. 150 Julho/2010 . o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. Sendo assim. em cada caso. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas. 5). ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig. Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo.

6). memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal. um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. Modificado de Helene e Xavier. Segundo os autores. 151 . armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig.Neurociências Figura 5 . Baddeley inseriu um quarto componente no modelo. que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente.Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. a central executiva. 2007. que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas. A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. Julho/2010 Pág. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. denominado de retentor episódico. Posteriormente. Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional".

aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas.g. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. resolução de problemas. incluindo raciocínio lógico. enquanto úteis. Assim. Pág. esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974). Considerações finais Em conclusão. a organização do sistema nervoso.. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem. Ainda sim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 ..g. do ponto de vista evolutivo. 1982). inclusive dos diferentes módulos de memória. aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e. É provável que a seleção desses sistemas. A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva). com propriedades distintas. resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley. a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência. 152 Julho/2010 .

Anatomicamente organizado em camadas. 1). mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). Adaptado de Paxinos e Watson (2004). Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1. Quando o animal se move livremente. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. ou seja. como veremos a seguir em detalhes..com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág. Witter e col. 1971). o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. 1989) (Fig. No rato. Centenas. as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. Em primatas. 2. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells. Em ratos. o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. 153 . Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica. 1968. se não milhares de experimentos. Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente.

quando fez uma operação experimental no lobo temporal. 1993). não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. como veremos mais adiante. Cohen e Eichenbaum. Devido à sua simplicidade. 1993). para estudos de lesões. Adaptado de Eichenbaum (1999). 1957. 1993).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial. versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. o paciente H. Entre os anos de 1953. 1978) (Fig. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. ano de sua morte.M. Há várias versões desse teste. Figura 2. nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. com uma pista que indica onde a plataforma está. e 2008. e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. em outras vezes. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. Pág. 2). entre outros. O labirinto de Morris é usado. Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. 3). infusões de drogas ou. outras vezes. que incluem a plataforma visível ou. 154 Julho/2010 .

Navegação práxica. São elas:    Navegação randômica. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e.  Navegação por local. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora. aleatória. O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. O círculo indica a plataforma escondida ou não. Whishaw e Mittleman. Se. nesse caso. 1986). Julho/2010 Pág. 1978. Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica. Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. por exemplo. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. O animal pode executar um programa motor constante. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. 155 . Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). Navegação táxica. ele deve explorar o ambiente de forma randômica. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas.  Navegação por rota.

o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. Dessa forma.. 1997. 1994). Para tanto. 1993. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. 1983. As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação. gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar.. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células. Wiener. ou seja. 1999) e humanos (Ekstrom e col. enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. 1978.. além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente. 156 Julho/2010 . possivelmente devido à perda extensiva de place cells. 1990. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação.. utilizando-se das pistas externas e internas. para atualizar a representação de acordo com essas pistas. há um mecanismo fisiológico que é capaz de. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col. Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo. esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. 1997. as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente.. al. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais. Matsumura e col. Nishijo e col. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col. Pág. porém sem perceber a posição. como direção de movimento e velocidade. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos. 4). Eichenbaum e col. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados. Maguire e col. McNaughton e col.

2007). Furuya e col. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col. 4. porem com menor tamanho. Adaptado de Hori e col. o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. 2007). VR(W). No entanto. Furuya e col. 157 . Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos. (2005). mesmas posições. 2005).. Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. 2005. 2007) (Fig.... 2005. Em outros estudos. 1994). As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas. porém em posições diferentes. 2005.Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. 5). mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente. Furuya e col. os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e. dessa forma. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual. imóveis (Hori e col. Fig. VR(N) é um ambiente similar a VR. VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. Embaixo. apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies. Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col.... no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação.

Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. Em B.. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. Leonhard e col. as pistas encontram-se próximas e em C. 1996). 1991). Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. são as pistas que se movem em relação ao animal.. Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo. Em A. tanto em ratos. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col. No entanto. Maguire e col. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle. mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual. Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze. (2005). Taube.. (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres. Adaptado de Hori e col. o ambiente todo é reduzido. 1995). 2007). 1984). Foi verificado que os taxistas. Mizumori e Wiliams.. Nesse paradigma. mantendo-se as proporções de B. 1993) e. Porém. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. e não o contrario. em menor Pág. núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN.. 158 Julho/2010 . em relação ao grupo controle de nãotaxistas..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col. apresentavam maior atividade no hipocampo. há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. Ranck. núcleo mamilar lateral (LMN. núcleo anterior talâmico (ATN. no entanto. Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system). quanto em primatas. porém com características similares.

. PoS envia uma projeção ao LMN. 6). esquematizadas em um anel de ativações. 1995). O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente. denominadas grid cells. se projeta para o AD. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. Cada região. ou seja. 2006).. seguindo um padrão triangular. Como a direção preferida de ativação não se altera. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. O LDN também se conecta com o PoS. que. sendo. McNaughton e col. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência. Julho/2010 Pág. na qual sua atividade é máxima. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. ou cada população de células. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo. 2004). nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. ou seja. por sua vez. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente.Neurociências quantidade. 159 . 1994). Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col. a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação. dessa forma.. As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube. diferentemente das place cells. enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. Essas células. a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. em um arranjo de 360º. mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente.

Na ausência de movimento.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. de acordo com sua posição preferencial de disparo. A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). para fins didáticos. Figura 7 .Modelo de integração de rotas. (2006). as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. Cada célula se conecta com as adjacentes. A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas. Pág. Head direction cells arranjadas em círculo. Adaptado de McNaughton e col. a. 2006. 160 Julho/2010 . cores quentes representando maior taxa de disparos. b. Adaptado de McNaughton e col.

Julho/2010 Pág. 8). que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. encontro de parceiros sexuais.Neurociências O sistema de grid cells. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. etc. sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade. Da mesma forma. o conhecimento.. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning). 1997) (Fig. dissociar navegação espacial de memória episódica. Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. certamente essencial para os processos evolutivos dos animais. é muito difícil. 161 . No entanto. 2006) (Fig. são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. A codificação de informações a respeito de lugares. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. por ser menos específico do que o sistema de place cells. de melhores épocas do ano para migração. junto com o sistema de head direction. 7). é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. essencial para vários processos como busca de alimento. ou quase impossível. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo. ou a memória. é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. Dessa forma. localização dos melhores abrigos. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. entre outras questões adaptativas.

Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. Adaptado de Einevoll (2006). As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo. 162 Julho/2010 . Pág. Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal. Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar. Cores quentes indicam altas taxas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal.

Com o surgimento do pensamento behaviorista. então. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. 163 . Por exemplo. Ou seja. Caroll Izard. a ciência da cognição. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. o estudo das emoções. aumento da sudorese. vergonha. alegria. em geral.com O que é emoção? Medo. contração de diferentes músculos. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. retomados. Para James. Paul Ekman. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas. i. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica. o estudo da mente e. Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. as emoções não ocorreriam. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. em geral. Julho/2010 Pág. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. Por volta de 1950. Pesquisadores como Magda Arnold. essas sensações são as emoções. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. etc. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem. por conseguinte. De fato. Jaak Panksepp. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga. em um artigo intitulado O que é a Emoção?.. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos.e. Portanto. raiva. então. A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. segundo James. Ademais. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. começou a ser considerado como nãocientífico. por volta de 1910. Por exemplo. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram. De forma geral. se a teoria de James estivesse correta.

A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos. emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. nos referimos a este estímulo como recompensa.. reações Pág. Por exemplo. As emoções. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido. e não de esquiva. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. O que é a Emoção?. e por outro lado. Por exemplo. ainda não tem uma resposta consensual. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre. Segundo essa concepção. i. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. Quando. a qual resulta numa sensação. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo. que apesar de ser um estado emocional negativo.e. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições. Antonio Damasio. Richard Davidson. i. Essa sensação é avaliada pelo organismo. está associada com uma resposta de aproximação. Edmund Rolls. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. mas a questão central levantada por James. Apesar das diferenças entre elas. Para ele. contribuindo para a tomada de uma decisão. nos referimos a este estímulo como punição. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. trabalha para reduzir.. por outro lado. 164 Julho/2010 . de uma forma geral. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções.e.

o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas. entre muitos outros. como mostra a Fig. Além disso. como o comportamento de morder quando se está com raiva. encontrar alimento e parceiros sexuais. que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual. também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo. Julho/2010 Pág. cheiros. um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. Darwin observou. particularmente as expressões corporais e faciais. 1. indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. a emissão de sons. Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais. Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. 165 . ereção dos pêlos. não são aprendidas pelo indivíduo. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo. por exemplo. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo. exibem normalmente expressões emocionais. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie.e. por exemplo. i. 1995). Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies. como cegos de nascença e bebês muito novos.. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. Assim. e engajar em comportamentos sociais adequados. batimento das asas. Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. Estudos mais recentes mostraram. apresentar cuidado parental.

Modificado a partir de Darwin (1872). 166 Julho/2010 . Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. Entretanto. De fato. e de se recordar do conteúdo aprendido. quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social. expressão ameaçadora.g. Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. incluindo as sociais. Gene Sackett (1966). mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. (B) galinha afastando um cão de sua ninhada. (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. E nesse contexto. Isto é. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. o que tem alto Pág. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. e das penas na galinha. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. Note a ereção dos pêlos no gato e no cão. (A) gato assustado com um cachorro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1.

algo que não sentia antes. então. em seguida. Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. 167 . 2). Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. O condicionamento Pavloviano. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne. O bebê passou a sentir medo pelo rato. Pavlov. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. que não eliciava a resposta de salivação nos cães. e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação.Neurociências valor adaptativo. colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. não apresentando medo pelo animal. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. como no caso do experimento idealizado por Watson. e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. como no caso do experimento de Pavlov. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada. Watson. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. Julho/2010 Pág. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. à apresentação de carne. também denominado condicionamento clássico. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som.

o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2. o choro do bebê Albert perante ao rato albino. geralmente um choque nas patas do animal. por exemplo um estímulo sonoro..g. como comportamentos defensivos (e. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. Nesta situação. Procedimento de condicionamento Pavloviano. liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). o animal emite uma Pág. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). chamamos este comportamento de operante. Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo. Diferentemente. quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência. é pareado algumas vezes a um evento aversivo. toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. respostas neuroendócrinas (e. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro.. Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007).g. neste caso. respostas de congelamento). A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas. e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado). respostas autonômicas (e. O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo.. 168 Julho/2010 .g. Por exemplo. e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão.g.. Em geral. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante. entre outras.

de sexo. 169 . e é amplamente empregado no estudo das emoções.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. Até mesmo alterações de humor. que evocam diferentes respostas emocionais. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. recebe um choque nas patas. Em algumas regiões do encéfalo. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. de cenas alegres ou neutras. Neste caso. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação..e. i. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. Neste caso. como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. No entanto. Por exemplo. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo. por exemplo. A estímulos desta natureza nos referimos como punições. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. entre outras. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. toda vez que o rato toca o assoalho. a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. do inglês. Nesta situação comportamental.

International Affective Picture System).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS . Mais tarde. Figura 3. Modificado a partir de Bear et al. (1995). e a expressão emocional pelo hipotálamo. 170 Julho/2010 . de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam. Para Papez. Lobo límbico definido por Broca. incluindo o córtex cingulado. Pág. 4. 3. 5). o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. (2002). a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. em 1937. Modificado a partir de Lang et al. Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso. o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. Figura 4. o tálamo anterior. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. Bases Neurais Em 1878. como mostra a Fig.

171 . Isto é. a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. os macacos lesados Julho/2010 Pág. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. o hipocampo. No início da década de 1950. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência. Circuito proposto por Papez. cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. Modificado a partir de Bear et al. o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. como por exemplo. (2002). a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente.Neurociências Figura 5. como a amígdala e o hipotálamo. Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. principalmente os visuais. por exemplo. Diferentemente. denominado síndrome de Klüver-Bucy. Historicamente. Ademais. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais. que denominou “sistema límbico”. Por outro lado. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca. os animais podiam ver perfeitamente. as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional.

Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. onde um estímulo (e. tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies. De fato. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). perda de responsividade emocional. Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). Mais tarde. 172 Julho/2010 . e nesse sentido. Em seres humanos. e não de outros tipos. Depois de processadas e associadas na amígdala. O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. um choque).g. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. diferente de indivíduos normais. Mais tarde. outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. danos amigdalares em seres humanos Pág. do ponto de vista hodológico. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa. e perdiam o medo por cobras e pessoas.. essas informações podem modificar respostas autonômicas. 1992). somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão. endócrinas. que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. exame excessivo de objetos.g. Por exemplo. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls. ele dirá 2 ou 3. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. De fato. Baseado nessas e em outras observações.

Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência. Por exemplo. o que não ocorre em animais não-humanos. que sempre abandonava. por exemplo. lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. 173 . Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. um trágico acidente acometeu Gage. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. No entanto. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. irresponsabilidade e perda de afeto. logo se perdia em outros planejamentos. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las. tornou-se irresponsável. em geral. e muitos anos mais tarde. como mostra a Fig. incluindo seres humanos. tais como perda de inteligência. aos 25 anos. e pouco desenvolvido em outros animais. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. Em setembro de 1848. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. que se deu 13 anos mais tarde. fruto de uma forte crise epiléptica. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. impaciente e grosseiro. Em seres humanos. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. deficiências motoras ou de percepção. Macacos com danos na amígdala. 6. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. Phineas Gage. Depois. tais como os roedores. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça.

2007). ou seja. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. diferentemente de animais normais. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas. Figura 6. o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. Modificado a partir de Gazzaniga et al. a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada. o reforçamento é revertido. diferentemente de animais normais. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. por sua vez. nas quais a escolha de um objeto. (2006). Nesta tarefa. Por exemplo. estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. O núcleo accumbens.. De maneira similar. De fato. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al. 174 Julho/2010 . O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. que param de responder. que inicialmente era recompensada. Em seguida. passa a resultar em nenhuma recompensa. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa.

mas não para o valor hedônico das recompensas. Por exemplo. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. além do comportamento maternal. de beber.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. como por exemplo o comportamento de se alimentar. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. Por exemplo. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. Isso é diferente de valor hedônico. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. e o comportamento sexual. heroína e cocaína. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. Por outro lado. que por razões ainda não claras. E consistentemente. Danos no hipotálamo lateral. função primordial das emoções. O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. por sua vez. apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado. do comportamento defensivo. e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. eliminam comportamentos motivados. estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. 1998). 175 . quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos. a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal.e. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente.. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. i. De fato. estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários. do ataque predatório. Finalmente. entre outros. ou seja. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. o córtex cingulado. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. por exemplo. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo.

o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente.P. Interessantemente. e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos. pacientes com lesão hipocampal. De fato. a paciente S. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação. Num teste chamado impressão emocional subliminar. a paciente S. 176 Julho/2010 . Entretanto. Como foi discutido em capítulo anterior. a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. Apesar disso. seguida de um estímulo-alvo. foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. Por exemplo. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. indicando reação aversiva ao choque. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. quando testados na mesma tarefa. indicando o aprendizado do condicionamento aversivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente.R. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. e consistentemente. um ideograma chinês. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso. como por exemplo. não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. e não às furiosas. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente. com dano bilateral na amígdala. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente. sem conhecimento consciente. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. Em um experimento clássico. ou seja. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas..

no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. Por exemplo. e não só por meio de um procedimento implícito. 177 . o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. De fato. O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia. mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. Julho/2010 Pág. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. o primeiro namorado. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. como o falecimento de um ente querido. ou seja. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo. etc. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. Numa perspectiva evolutiva. como o condicionamento aversivo. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. seguido pela consolidação dessa memória. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. Além disso.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes.

178 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. 179 . a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal. XX) em estudos neurocientíficos. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. MEG. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral. por exemplo. e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. ou na produção de mesma. ao encontrar um indivíduo que. cães. sua lateralização e modularidade cerebral. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. Neste capítulo. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. tais como fMRI.com. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente. como as aves. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente. na esperança de recobrar-lhe a fala. Anteriormente a este período. PET e ERP. as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos. falamos. algumas espécies de animais se comunicam. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC). Antes objeto de estudo apenas de linguistas. Assim. ouvimos. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. em questão de 1 ou 2 anos. apresentasse dificuldades na dicção. É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos. ou no som das sílabas que ouvimos. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. Julho/2010 Pág.br Introdução Dentro das ciências cognitivas. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. De certo. Atualmente. Bebês nascem e. Retrocedendo mais ainda no tempo. lobos e primatas. era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua.

Assim. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. aos 4 anos de idade. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente.5 anos. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. comparando-se com crianças de nossa espécie. Por fim.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3. no planeta. eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si.  conteúdo: não só as palavras. contam-se 10. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. Em um deles. mas também gestos. vários experimentos têm sido realizados. não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se. e a outra indicando o cisne. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras. tudo isso sem a necessidade de intrução formal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. 180 Julho/2010 . e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso. Além disso. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. Além disso. simplesmente. Pois bem. São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL). e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente. especialmente com chipanzés. de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções). Surgem também algumas questões. De modo muito diferente.000 palavras.

1 e Tab. O hemisfério Julho/2010 Pág. que serão ilustradas na Fig. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. 181 . um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem. então. a produção da fala. intermediados pelos sistemas visual e motor. De fato. também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro.Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. envolvendo a articulação dos lábios e língua. e até mesmo nossa linguagem corporal. são orquestrados pelos 1. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. 1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano. Tabela 1 . vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana. a leitura e a escrita.

Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. verbos sem flexão. levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p. Retirado de Posner e Raichie. São diversas as disfunções decorrentes de AVC. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior).e. por favor dirijam-se à sala de jantar”. 1994. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. As mais conhecidas são as afasias de Broca. seria produzido por um destes pacientes como “senhora. Vermelho indica os maiores níveis. senhor. 182 Julho/2010 . Pág. amarelo. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular. Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem. Portanto. leitura de números. “Senhoras e senhores. mas sim a compreensão da fala e da escrita. tais como compreensão de respostas não-verbais. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo. A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos.. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). de Wernicke e de Condução.Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda. ritmo e prosódia à lingua falada. e troca de letras durante a escrita. verde e azul. A afasia de Wernicke não prejudica a produção. sala”). é rompido. letras e palavras curtas. alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). Devido a esta dificuldade de compreensão. e conferir entonação. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. que interliga as regiões de Broca e Wernicke. sua fala fica afetada por uma fluência em excesso.

destacando-se entre estes Kuhl (2000). com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. ainda. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. entre outras. motricidade. envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos. (2001). por exemplo. articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. devido à modularidade cerebral . O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. portanto. 2005). Há. Existe. A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. apontando apenas para um componente genético. 183 . olfato). em nossa espécie. e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma. apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. A dislexia. quando comparados à população normal. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. visão. aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. mas também para diferentes características linguísticas. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi. E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. parece pertencer ao acervo biológico do homem. Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito. herdado geneticamente de nossos ancestrais. ainda.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso.

percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. curiosamente. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro. Retirado de Kim . sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. Ainda assim. e o da direita. 184 Julho/2010 . hormonais e de plasticidade neural. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios. Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. nascemos prontos para aprender qualquer idioma. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. ao passo que. bebês aos dois meses de idade não o fazem mais. De fato. Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. (Mechelli. tomado de um ponto de vista neurobiológico. 1997. 2000). Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. após o qual ela deixa de existir. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . a aquisição de outro idioma. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. de aprendizado simultâneo de duas línguas. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. em dois indivíduos adultos. 2004). maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas. diferentes entre Pág.períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos.

de 0 a 12 meses de idade. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. e por consequência. 4). representação mental. codificação gênica. ou quaisquer outras línguas entre si. 2004. Retirado de Kuhl. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. nos primeiros anos da infância. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. e chegando até o fenômeno do bilinguismo. anomalias. Ontogenia. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. primeiro. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. para os povos de língua espanhola. português e alemão. distúrbios. Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. passando pelo seu processamento. em português. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. para os brasileiros. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed. Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória. em inglês. depois. perceber auditivamente e. Nosso cérebro. Julho/2010 Pág.Neurociências elas. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. não faz distinção entre japonês e inglês. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. 185 . ou como nas palavras avô e avó.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 186 Julho/2010 .

irrestrito a gênero. 1998). não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre. É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres. Apesar das diferenças interculturais. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. isto é. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical).. o que se contrapõe à freqüência. ao longo do espectro de audição. são complexos. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág.fv@gmail. classe social. Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. língua ou idade. 2007). 2006). É o seu timbre. Elas estão baseadas em uma tonalidade. É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. por mais que escutemos sons distintos. A composição de várias ondas produz um som muito específico. um mais grave e outro mais agudo. Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural. Portanto. 187 . Gray e col. senão todos. que é um atributo físico (Bendor e Wang. por mais de uma freqüência). Ainda assim.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. 2003. 2001). independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. a qual é um atributo perceptual do som. formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. 2003). há algumas particularidades nos sistemas de afinação.Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. uma característica sempre presente. essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. isto é. Tramo. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica. assim como notas musicais. 2001.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. 2001. que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. conceito. quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. estudando o córtex de sagüis. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre. Masataka. Gray e col. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. 188 Julho/2010 . no entanto. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. Pág. Hauser e McDermott. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. 220. 2001..520 Hz e etc. 3. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. mas também para seus múltiplos. provavelmente. 880. dispara também para sons com fundamental em 110. Benítez-Bribiesca. também em outros organismos). Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes. 2003. para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. 2007. Enfim. não justificam por si só a existência de música globalmente.760. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. 2001. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais. Tramo. 2007. quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes. em última instância. Bendor e Wang (2005). encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. 1. 2006).

Achados mais recentes. 1998 . Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. 535. a música poderia ser até anterior à fala. uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. A música. serão apresentados mais adiante neste texto. que as associa. se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. Nesse sentido. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar. paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. 1998. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. 534). baseada em seis pontos principais. separar um solista de uma orquestra. Darwin. então. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. regulares. por exemplo. Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. por exemplo). para citar alguns) e não há consenso nas respostas.Neurociências Wright e col. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. em particular. 1879. para tentar responder à questão. gritar) tem um apelo acústico próprio. rir. dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. chorar. 2000. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. em verdade. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. Isto é. o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são. O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. 1874. traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. 189 . mas como tons complexos. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. relacionando música e linguagem. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. percebendo-as como um tom complexo. Pinker.. Pinker compara a audição à visão. da prosódia. É interessante notar que. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. então. uma voz em um ambiente cheio de ruídos. O sistema nervoso. logo.pág. segundo tal proposta de Darwin. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. resmungar. uma mesma fonte sonora. Clark.

o qual não variou em latência. A música também interferiria com tais circuitos neurais. bater palmas. corações e galhos batendo. independente deste ser uma frase ou um trecho musical. pássaros cantando. nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. Koelsch e col. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. insegurança ou mudança de habitat. certamente estimula nosso sistema motor. insegurança ou mudança de habitat. como vistas distantes. de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. distribuição no escalpo. todos têm efeitos emocionais. Trovões. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. rosnados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. passos. paisagens verdejantes. Tal ritmicidade que nos faz dançar. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial. O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). possivelmente. 537. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . ventos. e acompanhar a música. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. água correndo. Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro. 190 Julho/2010 . balançar. O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas.pág. fontes neurais e amplitude.

como a linguagem. 1998). em última instância. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. portanto. são Julho/2010 Pág.Neurociências prévio. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. mas permitem. no entanto. relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. Isto é. que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. 191 . Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. assim como a linguagem. 2000). As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). 2003b). O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. produzi-la. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. Fica claro. possivelmente. de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. provavelmente. a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. não só em humanos (Wright e col. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. independente do conteúdo emocional desses conceitos”. essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana. em outras palavras. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. (Pinker. Essa percepção. sua criação e percepção. diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. também contextos). sejam eles abstratos ou concretos. 2005). Diante dos resultados. A capacidade para interpretar música. além da própria comunicação entre indivíduos. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais. mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música).. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. até mesmo.

A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott. 192 Julho/2010 . trabalhando com macacosrhesus. a Cacatua-Negra. 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem. As razões são óbvias. 2003). É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). seja da espécie Probosciger aterrimus. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. então. como inversões de intervalo. mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. partem para uma seção mais elaborada e. Mas voltando aos mamíferos. são freqüentes composições que exploram um tema. depois. Wright e col. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. O caso mais atípico e impressionante. tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. mas não para melodias atonais. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). Ainda. talvez. . (2000). O experimento de Wright e colegas. relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. as baleias optam por produzir sons rítmicos. porém. portanto. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. Mais do que isso: . assim como nós. já descrito. Desde o século retrasado (Clark. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne. relações tonais. expostos a música e melodias diversas. permutações e combinações de notas que os compositores humanos”.O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). Da mesma forma. Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros. Segundo os autores. mas não em tons diferentes. 1879) tal grupo é investigado.

são derivadas da Série Harmônica (ver http://www. . . enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller. é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos.” – pág.Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas. ao invés de sermos os inventores dela.Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa. e em grande parte do mundo. É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág. Nas palavras de Gray e col. sugere que a música deve ‘predar’ os humanos. Ainda. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância.phy. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos. De fato. relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum. as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição).Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas.mtu. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical. Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais. expressões faciais fechadas e até choro. 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana.. . Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras. 193 .html para maiores detalhes).Neurociências de músicas produzidas pelo homem. 1998). as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas.edu/~suits/overtone.

que caminha em estreitas relações com a comunicação intra-específica e a seleção sexual.11. M. Roy. Mais provável ainda que sua existência se apóie em diversos fatores e não apenas em um deles. (1941) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp..Trans.137-148. como parte do ritual de acasalamento. Working memory. D. 2004). Phil. É possível que a origem da musicalidade de humanos resida nestes mesmos mecanismos (de seleção sexual). vol.197228. p. uma propriedade emergente da interação de diversos sistemas. Autuori. Muito pelo contrário. v. M.. Evolução do sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. a organização musical semelhante entre diferentes espécies nos mostra que ela não é um acidente. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. Soc. D. (1942) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. Hitch G. Apesar de tantas evidências.). Dev. As críticas são freqüentemente embasadas no fato dos cantos serem essencialmente produzidos por machos. Autuori. M. p.12. In The Psychology of Learning and Motivation. como apontado por Pinker (1998). mas uma propriedade específica do sistema nervoso central. J. Formicidae). 1908). Independente dos motivos pelos quais a música se originou no homem. 1908).13. Na espécie humana. J. New York: Academic Press. Arendt. Biol. (2001). 1974.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reconhecimento de sons musicais mesmo em espécies que não o homem. seguramente os motivos pelos quais ela permanece são outros (a não ser que ela já tenha se originado por esses outros motivos. Bower GA. Ainda assim. claro – improvável quando se compara com outros grupos). 194 Julho/2010 . Baddeley AD. Se há algo de exclusivo entre homem e música. a música adquire outros significados muito mais fortes como promover a coesão de grupo e a interação social (podendo até possuir a mesma capacidade de abstração e atribuição de significados que a linguagem. Escavação de um sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. como apontado por Darwin. 8. III. v. (2003) Evolution of eyes and photoreceptor cell types Int. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. como apontado por Koelsch e col. Wittbrodt. ed. 47: 563-571 Autuori. a falta de consenso entre pesquisadores sobre a musicalidade em outras espécies animais permanece. isso parece ser a produção e a apreciação da mesma por puro prazer. Lond. (1940) Algumas observações sobre formigas cultivadoras de fungo (Hym. Revista de Entomologia. B 356: 1545-1563. tal uso não invalida que elas sejam capazes de produzir sons musicais e que a estrutura das “músicas” produzidas seja semelhante à humana. I. v.-Hymenoptera-Formicidae). Pág.47-89. pp. Bibliografia Arendt. Reconstructing the eyes of Urbilateria.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 202 Julho/2010 .

com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente. 6) interação entre metabolismo energético e reprodução. conseqüentemente. 3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. . este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético. fisiológica e bioquímica. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. com especial atenção à técnica de respirometria.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab. comunidades e ecossistemas. Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais. a viabilidade das populações. Sendo assim. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental.

204 Julho/2010 . 257 Pág. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra. Silvia C. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. 217 pág. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. 205 pág. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr. Carlos Arturo Navas pág. 269 pág. Silvia C.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. 286 pág. 279 pág. 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. “Ana” o quê? pág.

ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. 2005). 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação. Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e.. em princípio. Dentre essas reações. produtoras de energia livre. toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. é o método mais preciso. 1). desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). são designadas como catabolismo (Fig.com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. Tais vias biossintetizadoras. 1) (Nelson e Cox. a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo. portanto. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox. 2000). Segundo Schmidt-Nielsen (2002). 205 . Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). Julho/2010 Pág. que invariavelmente requerem a adição de energia. são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores. extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações. a soma do anabolismo e catabolismo. 2005). juntas essas reações degradativas. 2) Cálculo através da produção de calor do organismo. 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina). incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos.Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail. Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo.

Pág. elétrico e mecânico. é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). Para conhecer a taxa metabólica de um organismo. 2002).. A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. e o trabalho externo para a locomoção e comunicação. a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos. 206 Julho/2010 . 2005). 2000). sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. Desta forma. Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. 2) (Randall e col. Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. osmótico. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. o trabalho interno químico.

para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. Em humanos. A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. e 42%. rim. 207 . 0. 0.volume de oxigênio por Kg por minuto).4. as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie.. 0. trato gastrointestinal. mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero. É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown. As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. respectivamente. Em mamíferos. sistema nervoso. o animal deve estar em repouso. não deve haver condições estressantes. coração e músculos são 2. 2000). 2. 2002).9. e a Julho/2010 Pág.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. 2. 1997). o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos). pulmão. o relativo tamanho do fígado.5. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . por exemplo. É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). que é similar a TMB.

entre eles a temperatura. 1998). Sendo assim. por exemplo. é possível utilizar a temperatura corporal. 2000).. 1998). 2002). 10. Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal. representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. da aclimatação térmica (Randall e col. Existem outras formas de energia como a química provinda. 208 Julho/2010 . Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. 20. Entretanto. 6. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. a movimentação dos seus átomos é elevada. Como foi dito acima. nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal.   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. 1998). na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar. mais especificamente sua estabilidade. a TMB pode variar devido a diferentes fatores. como a energia associada ao movimento (energia cinética). em virtude da compensação metabólica ou Energia. Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura. 1998). quando há um aumento da energia em uma molécula. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras. Por isso. através do ATP (Ferrano e Soares. tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. Para alguns ectotérmicos. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17. a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. 4. a taxa metabólica padrão (TMP). 11 e 25% respectivamente. Pág.. Por essa razão. devido a isso. 2000). a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas.

para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C. ectotérmicos (Randall e col. A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. 2000). foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos. aves e mamíferos homeotérmicos. Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. e os que não geram calor. Previamente os peixes. Ao contrário disso. Porém. já que. os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. Os Julho/2010 Pág. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima.. Peixes que vivem em águas profundas. apresentam uma temperatura corporal constante e. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus. embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. 2000). Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira. Estes animais podem ser divididos em dois grupos. Contudo.Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório. 2000). com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. portanto. ectotérmicos e endotérmicos. elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. endotérmicos. os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais.. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados.. os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002). que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e. Na maioria dos mamíferos. anfíbios. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col. deveriam ser denominados homeotérmicos. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis.. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita. são denominados homeotérmicos. sendo separados em: os que geram calor metabólico. 2000). seja no ar ou na água. quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. Frequentemente. 209 .

hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. 2000).. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. Fisiológica e bioquimicamente. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. Como mencionado anteriormente. salmão e muitos insetos voadores. Demonstrou-se Pág. tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. 1960. 2005). que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP). assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. 1963). 1965). Além disso.. 2002). Além disso. aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev. não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col. foi descoberto outra proteína.. 2002). em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov. Entretanto. 210 Julho/2010 . 2002). Este tecido é estritamente de mamíferos. por meio da atividade muscular. que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. denominada avUCP. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom. Skulache. O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. Os monotremados. Contudo. Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo.. como alguns tubarões. e col. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria. como os équidnas.

que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero. respectivamente. 2002). 2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. e a UCP1. aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente..Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. 2002). Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. 9. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos. a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero. k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. Julho/2010 Pág. 2001). quadruplicaria em 20°C. posteriormente. respectivamente. com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C. Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen. 211 . Como pode ser observado abaixo (Fig. como no metabolismo. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. t1 e t2 . dentre um determinado limite. 3).

assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. os valores de Q10 são próximos a 2. Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. Para temperaturas que apresentam efeitos letais. Com isso. é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. 4). e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. Porém. a fração de um número grande de partículas. 2002). Para muitos processos. o Q10 apresenta valores menores que 1. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. como as taxas de respiração e metabólica. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. 2002). 212 Julho/2010 . 2002). isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos. para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra. por exemplo. No entanto. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética.

é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. 2002). 213 . com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero. 2002). 2002). abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto.Metablismo população. 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional. Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero. que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. Dito isto. mas também. Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise.

2002) (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. Pág. 5). Figura 5 . Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2). 2002). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). 214 Julho/2010 . mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero.Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero. 2002).

e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação. Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos. já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal. 215 . que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero.Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais. Com base nisso. Desta forma. nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. principalmente o metabolismo. Julho/2010 Pág. a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto). 2002).

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 216 Julho/2010 .

217 . no entanto. o ar e a vida. Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo. os alquimistas perceberam que. Contudo. apresenta três relações chave entre: ar e vida. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje.Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th. as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida.kawamoto@gmail.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. A partir daí. pré-método científico. a medida de metabolismo energético em si. A seqüência de eventos históricos. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág. Lighton (2008). a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. ao término da chama. fogo e ar. apresentado no capítulo anterior.B. Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida. veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. O problema não era. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral. Leonardo da Vinci (1452–1519). em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. simplificada para fins didáticos. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder. a princípio. entender o que é o ar e como ele suporta a vida. mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. e fogo e vida. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. mas sim. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro. Longe disso. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. ou de encontrar o elixir da longevidade. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar.

instantes depois o camundongo morria. O calx quando combinado com carvão. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. eles morrem. mas sim ganha peso. sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Este era o caso da queima de metais. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society. primeiro. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração. 218 Julho/2010 . Incrivelmente. John Mayow morre.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria.wikipedia. voltava à sua forma metálica anterior a calcinação. e observou que quando a vela apagava. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804). Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. reforçando a teoria do flogisto. O mesmo acontecia com a vela.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e. a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões. Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. a qual chamou de “nitro-aereus”. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. na mesma jarra.org/wiki/File:Mayow). encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. teoricamente repleto de flogisto. o ar não podia estar saturado de flogisto. pássaros e camundongos diminui até certo nível. Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en. contrário do que seria esperado pela teoria. O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível. no caso dos animais. Neste contexto. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . Pág. não havia chama para saturar o ar de flogisto. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal. o metal supostamente “deflogisticado”.

O desenvolvimento dos paradigmas. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. como dito no início deste texto. ainda. medem. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. Percebeu. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma. a coulorimetria e a respirometria aberta. Havia. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. Incrivelmente. 2). De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica. ainda. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. Entretanto. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. que o gás que não sustenta mais a chama. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. Deste modo. a partir de então. indiretamente. Além disso. a ciência percorre caminhos tortuosos e. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. manômetros e respirometria fechada. Priestley produziu. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. por mais contraditório que pareça.Metablismo extingue o fogo. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar. Prietley pensou ter descoberto o flogisto. 219 . Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo.

Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa. Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso). Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo).334kJ/g. através da quantidade de água produzida por esse derretimento. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica.Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia. aproximadamente o mesmo que uma vela queimando. Contudo.jpg. Figura 2 .org/wiki/File:Icecalorimeter. Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. 1 Pág. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. um de descobriram a termogênese induzida por dieta. sem mudança de temperatura. momento em que ambos são decapitados. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0. calcularam pela primeira vez. 220 Julho/2010 .wikipedia. baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético. somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC.) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado.

conforme a fórmula: Pa – Po = H. Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. Em 1643. Mais especificamente. Assim. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado. 4).g. The Skeptical Chymist. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. 3). As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. 221 . cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida. já que no tubo em U (Fig.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. Po é a pressão de referência.Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida. Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. cerca de 20 anos antes. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria. Julho/2010 Pág. dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643. Robert Boyle. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U. permitindo uma nova série de medidas comparativas. sensibilidade. Em 1661. Seu predecessor. a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661.

Figura 4. mantendo. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento.) ou KOH. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas. no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada. já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. com um absorvedor de gás carbônico colocado. assim. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica. 5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico. e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. Pág. A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio. é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa. O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co. 222 Julho/2010 .Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial. por exemplo. de preferência. Ao final do experimento. o mesmo volume de ar durante todo o experimento. Figura 5 .

6). e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. T é a temperatura em graus Celsius. b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara. 5g de tauroglicocolato de sódio. Julho/2010 Pág. diferente do respirômetro de Gilson. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro. descrito mais adiante. Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. podendo incutir erro na medição. O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902.e. Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido. 223 . A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. o que pode alterar a medição também. Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. chuva). Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH. 500mL de água). O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica.

Pág. 2. Os passos a serem seguidos são: 1. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes. A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2. 224 Julho/2010 . 3.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg. 4. (Fig. Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson.Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. 7). onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo. O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. Coloque o animal na câmara.

usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2. Por exemplo.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1.325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar.15 ) / ( 101. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia. o sistema não Julho/2010 Pág. o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin.04464. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0. 225 .43. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1. ou seja.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. Figura 7 . Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item.

MR é o metabolismo medido com o absorvedor. alterando o metabolismo de forma consistente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. Contudo. por exemplo. Este é o caso de animais que produzem calor. perda de água. Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. que se estendam por dias. Outra limitação quanto ao seu uso. de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). como os artrópodes traqueados. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia). Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. ou que respiram de forma intermitente. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. 226 Julho/2010 . por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. O aumento de gás carbônico. A respirometria fechada não permite. também. medições muito longas. que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório. Pág. Dentre as alterações listadas anteriormente. alimentação.

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais. Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento). que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert. Pág. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais. Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. 1992). (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente.As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes. Figura 2. 238 Julho/2010 . 1997). isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos.3). ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia. (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos. 1992). embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers. Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia.2) (Withers. desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig.

com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente.Metablismo Figura 3.1976 – Modificado de Withers.Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May. 1992).Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O. modificado de Withers.4) (Withers. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig. Julho/2010 Pág. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. Figura 4. 1975. Por exemplo. Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação. 1992). Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas. 239 . 1992). pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia. variando de poucos graus até acima de 400C.

mas é termorregulador em áreas abertas. Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. alterações do contorno do corpo. o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. 2010). Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas.. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). 240 Julho/2010 . Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. 1992). Em um ou no máximo dois meses. a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. Entretanto. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal. isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. Atraídas pela cantoria. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C. por exemplo. A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência. Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. mas alguns ocasionalmente têm Pág. Assim. quando a chuva chega. ele é termoconformador em áreas sombreadas. em rochas aquecidas. 1992).

Ectotérmicos terrestres. Desta forma.Metablismo contato com temperaturas congelantes. desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. todavia.7 0C. portanto. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. que seria de aproximadamente -1. ao contrário.60C a -0. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento. Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C. 1992). 1992). Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. se um pedaço de água congelada a −1. pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto.86°C. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C). Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento. 1992). Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers. e o peixe congela e morre. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce. o estado de super-resfriamento é destruído. pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0. eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar. desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C. permanecem superresfriados. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente. Por exemplo. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers.9° C for colocada próxima ao peixe. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. 241 . Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento.

Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. cujos fluidos corpóreos. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal. em rãs que não toleram o congelamento. 1982). Rana pipiens. por outro lado. Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. (Schmidt-Nielsen e Duke. portanto. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. 1996). Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico. Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. 1970). por exemplo.6°C foram super-resfriados até -8°C. Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno. A rã. Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. sem que congelassem (Lowe e col. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo. Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . tais como a rã leopardo comum. Outras rãs tolerantes Pág. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. 242 Julho/2010 . É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. o seu desenvolvimento.. mas. Durante uma noite ocasionalmente fria. Hyla versicolor. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. além disso. somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. começariam a congelar a -0. o glicerol encontra-se ausente. 1996). pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries.possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento. se nucleados. há toda uma preparação para o inverno. Trematomus (DeVries. 1971). Répteis e anfíbios. apresenta um congelamento parcial e controlado.

1992). pois o tempo de exposição é de grande importância.Metablismo ao congelamento. Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal). . Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. Rana sylvatica. Por conseguinte. isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. não está disponível para os animais aquáticos. 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas. Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. como a rã madeira. não pode ser determinada com exatidão. ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas. 1985). 1996). A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C. 1996): . Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes.Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. . coagulação térmica. 243 .Suprimento inadequado de oxigênio. rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo.Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação. mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke.Desnaturação das proteínas. deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. por conseguinte. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo. mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock. A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. A temperatura letal. na qual ocorrem 50% de mortalidade. . e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey.

(5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação.7ºC. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. conseqüentemente. A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea. Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers. Por exemplo. (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. através do ofego. achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos.9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2. A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. 244 Julho/2010 . 1992). embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. (3) O corpo possui um formato (alongado. 1992). (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. o que faz com que tenham menor necessidade energética. Por exemplo. 1992).

1984) e serpentes (Herckrotte. Keogh e DeSerto.. pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar. 1984. 2002).. 245 .. (2000).. Mudanças no comportamento defensivo. Hertz e col. repelir ou escapar do predador. com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. 1994. Mori e Burghardt. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. Huey e col.. ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. 1982. Crowley e Pietruszka. 1983).. quando apresentam baixas temperaturas corpóreas.1967. Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew. salamandras (Brodie Jr. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos. 1982).. De acordo com Shine e col. 1991) e serpentes (Herckrotte. Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais. 1983. Oliveira e Martins. Entre os fatores abióticos. Arnold e Bennett. Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo. 1967. anfíbios anuros (Gomes e col. 2001). Crowley e Pietruszka. Julho/2010 Pág. Schieffelin e Queiroz. 1982). 1983). e col. 1991. Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. induzidas pela temperatura. 1982. a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987). têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand.Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. 1964. 2002). Hertz e col. Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 246 Julho/2010 .

2007). Branco e col. 2005).. de Fisiologia. os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col. Como já discutido anteriormente. a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col.). 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. Neste tecido os ácidos graxos.. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos. por sua vez. morcegos. A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”. geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes. Como já mencionado no capítulo 1. Entretanto. anfíbios.com Conforme visto no capítulo anterior. localizado próximo às escápulas e aos rins.. derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos. Os mecanismos de ganho. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col. o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias. resultando na formação de ATP. Nas mitocôndrias das células em geral. Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col.Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia.. como não há trabalho mecânico. praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col... também chamada Julho/2010 Pág. 247 . podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica. é de especial importância para os animais de pequeno tamanho. O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo... a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial. 2005). enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal. uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase. 1998. A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção. Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. Assim. a UCP1. Este último. ratos. 2007).. répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. 2005).

o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. como visto também para ectotérmicos. No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. gatos. 2004). sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos. os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica.Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. ovelhas e aves).. 2007). denominada área pré- Pág. Figura 1. logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall. é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase. principalmente autonômicos.. 1997). Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig. 1).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. Por fim. equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães. 248 Julho/2010 . A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente.

Boulant. (http://healthysleep.Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO..med. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais). Bícego e col. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. Ainda. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal. quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local.harvard.edu/_i/198. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. 2001). estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc. febre e anapirexia (Gordon. Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie.. hipertermia. a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. Por outro lado. Para a manutenção da eutermia.jpg). hipotermia.Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO). segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006). o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal. já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais. diz-se que ele está em eutermia. A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. Figura 2. 2007). 1998. 249 . além de termointegradora. isto é. 1992. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura.

TCS. tontura. Por exemplo. Figura 3. 2005). consumo de O2. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. temperatura crítica inferior. Entretando. temperatura crítica superior. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. Porém. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis. Assim. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. 250 Julho/2010 . Dessa forma. Tc: temperatura corporal. a ZTN para humanos adultos nus. dor de cabeça. respectivamente. que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. exaustão.Esquema de três estados térmicos: eutermia. resultando nos estados de hiper ou hipotermia. · Na hipertermia moderada. 1998). vômito e diarréia (Branco e col. quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN. 3). VO2. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. na hipertermia severa. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. ou choque térmico. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. hipotermia e hipertermia. geralmente. nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações. a energia extra é empregada para manter a eutermia. TCI. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados.

Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col. em decorrência do desenvolvimento da febre. porém devido a falhas no sistema termorregulador. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger. 1991) e. é um aumento regulado da Tc. 1994). 2005). geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos. Na febre. Febre A febre. aves (D'Alecy e Kluger. além de Julho/2010 Pág. podendo levar o indivíduo ao coma. Steiner e Branco. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos. 2002). amnésia. como mencionado anteriormente. convulsões. Macari e col.. Nesse contexto. dentre outros. 1990. 1993. diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. Veremos a seguir quais são essas situações e porque. anfíbios (Kluger. Maloney e Gray. 1977.. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. lesões no encéfalo. a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. alucinação.. pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. répteis (Hallman e col.. enquanto em um ambiente com Ta alta. 1976). 2001. apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. 1991). Don e col. nestes casos.1975. é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. A hipertermia. A resposta febril é uma reação complexa. Bicego-Nahas e col. por outro lado.. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC. delírio. mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon. Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia. 1998). durante a anapirexia. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. O aumento na produção de energia térmica. dentre outros prejuízos. 2000) e peixes (Reynolds e col. pois podem causar desidratação. mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. idosos e subnutridos.. Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. decréscimo da frequência respiratória. 251 . é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda.

De fato. 1991. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger.. Dessa forma. 4). 252 Julho/2010 . Kluger e col. uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais. 1991. Marnila e col. 1995. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger.. Pág. quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável.Esquema de um gradiente térmico.. 1998). Figura 4. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente. 1991). o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta. como já abordado. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. Kluger e col. deve conferir benefícios aos organismos (Kluger. A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. que por ser conservada ao longo de tantos anos. Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais. No caso da febre.

253 . estes são fagocitados por células do sistema imune. Fabricio e col.Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col. segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”. Blatteis e Sehic. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG).inclusive humanos -.b). 1992. 1998). principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos . estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. IL-6.. Julho/2010 Pág. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril. peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. Matsuda e col. lagartos. diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia. TNF-α.Metablismo Figura 5.. Essa nomenclatura (anapirexia). 1994. Por fim. 1996). apesar de bem definida.. 2005).. Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos. é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica. Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores).. 2005). 1991. Em contrapartida. 1997a. Anapirexia Anapirexia..

mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. entretanto. Sendo assim. Gordon e Fogelson. que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco. Steiner e Branco. 1995. contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. 1992. Barros e col. Kline e col. No entanto. camundongos. Wood. dentre outros (Bao e col. 2001. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. Wood e Stabenau. traumatismos cranianos. para a produção de energia na forma de ATP... além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. 1985. altas atitudes. 1997. o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. 1992). um aumento na sobrevida de ratos. 2002). Com todos esses benefícios associados à queda da Tc. 2004). O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. Malvin e Wood. 2000. pois diminuem respostas altamente custosas. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. 2001).. isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. seja por exposição ambiental (tocas. anemia.. ou anapirexia. Gordon. Então. pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. isquemia. Wood. etc) ou por insuficiências cardíacas. 2001). De fato.. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág. Gordon. 1981.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004). mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. envenenamento. facilitando assim a recuperação do indivíduo. Dessa forma. Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante. Durante a anapirexia. 254 Julho/2010 . é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. 1996. 1991. cirurgias cardíacas e traumas cranianos. Malvin e Wood. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. respiratórias e/ou metabólicas. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. Reissmann e col. como em casos de hemorragia. 1997. 1998). 2001... 1995. mesmo que localizado e passageiro. Hicks e Wood. a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood. Holzer e col. 1997. 2002). Gautier. 1985. contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. consequentemente. 1995. acidentes vasculares encefálicos.

2000. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. levando à queda da Tc. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros. Como pode ser notado.. Em suma. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico. Scarpellini e col. contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc).. 2002a. é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores. também na APO. a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. ou seja. a anapirexia.. para serem benéficas. 2005.. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental. Julho/2010 Pág. assim como acontece na febre. E. Ainda. o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. 255 . Deve ser lembrado. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. Por outro lado. os receptores mi e delta. 2002b). 2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. 2009). Dentre estes estão a dopamina. 2003). Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica. 2001).. Paro e col. serotonina. na APO. tais como infecção e hipóxia. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col.Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica. respectivamente. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. Entretanto. Steiner e col. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc.. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. 2009). os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon. evidentemente. Gargaglioni e col. a serotonina. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. que essas alterações..

256 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

257 . 2003). Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio..Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian. Na maioria dos casos. ou dissociada da dormência sazonal. como mencionado acima.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência. que possibilitam. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida. sono e anidrobiose. temperatura e umidade. peixes e caramujos. como no torpor diário. sem acesso ao ar atmosférico. Carey e col. em muitos casos. ou ótimas. dentre outros eventos. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação. a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e. Ciclo Anual Julho/2010 Pág. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. tais como fotoperíodo. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável. A estivação possibilita que muitos animais. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia. sobrevivam à escassez de água. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. 2004. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. mas com apenas algumas horas de duração. como nos casos de estivação e hibernação. A depressão metabólica é. uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada. para determinadas funções. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento.fisioib@usp. portanto. A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal. incluindo anuros.

E uma diminuição da TMB já no meio do verão. Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades. fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. 1974). possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. 2000. mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e. quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. o armazenamento de substratos. que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. por exemplo. Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. antes que a ingestão de alimentos diminua. Dark. Esquilos. Desta maneira. dentre outras respostas. 258 Julho/2010 . mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes. os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. desta forma. Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos. mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col.. indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. ou ambos. estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. provavelmente por um mecanismo central. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. 2004). A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. 2005). dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark. 2005). 2005). A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. 2005). da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados. Meses antes do estresse ambiental.

embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col. Spanovich e col. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos. durante a pré-hibernação. elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. 2001.. Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. 259 . No morcego Myotis lucifugus. os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal.. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier. os níveis circulantes de leptina são menores no outono. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada. das frequências cardíaca e respiratória. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col. 2000.. têm sido investigados em outros grupos. a secreção de leptina. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea.Metablismo adiposidade do animal. 2000. 2000)... Em endotérmicos. a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência. A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág. Já em marmotas Marmota flaviventris. 2006). Neste caso. assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. antes estudados somente em mamíferos. 2006). 2004). 2000). Neste mesmo animal. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col. Paolucci e col. estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col. 2000). Neste animal. Niewiarowski e col.. 2000). os efeitos e a estrutura da leptina.. ou seja. Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito. permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col. Recentemente. Entretanto. que apresenta dormência sazonal...

Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto. 2000). 200). Storey.. embora. alguns processos fisiológicos diminuem. O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se.K+-ATPase. 2003). a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. Esta semelhança. Ruf e Arnold. Curiosamente. Diferentemente da função cardíaca. 2004). 2004.. Nos mamíferos. 260 Julho/2010 . Com base neste pressuposto. ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. muitas vezes. bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). o fluxo sanguíneo renal. reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey. 2004). que supre a atividade de enzimas como a Na+. em grande parte. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. 2007). de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col. sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. portanto. Pág. Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. 1994. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. Durante a depressão metabólica. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. estes processos são retomados durante os despertares periódicos.. enquanto outros são totalmente interrompidos. estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey. mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col.

Após 6 h de exposição ao H2S. embora a capacidade funcional do órgão seja preservada. Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições. 2005). a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S). 2003).. Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005. Na depressão metabólica sazonal. atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real. a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. observa-se uma pronunciada atrofia do intestino.Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. preservando a viabilidade celular. assim como ocorre nas células dos hibernantes. Por outro lado. apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. Em hibernantes clássicos como os esquilos. alguns endotérmicos e ectotérmicos.. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO). Provavelmente. de fato. 2007). Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center.. 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão. a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col. tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). Dado o elevado custo dos processos de digestão. O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo. Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág.. 261 . 2003). estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e. ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. 1). absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col.

duram menos de 24 horas. 2004). interrompidas por despertares periódicos que. 2004. nos quais os animais acordam. 262 Julho/2010 . alguns anfíbios e répteis. Souza e col. Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida. 2). Na marmota.. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC. a b Figura 1. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig.. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col. geralmente.. 2004). 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col. Knight e col.a) Lagarto teiú Tupinambis merianae... por exemplo. Pág. 2002. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. apresentada por outros animais. 2000). Nestes casos. há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col. b) Primata lêmure Microcebus murinus.

a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna. a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. Souza e col.Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). síntese e Julho/2010 Pág.. catalisada por proteínas quinases. 2004). Em diversas condições fisiológicas. várias enzimas glicolíticas. e a eutermia (4). ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares. Em alguns mamíferos hibernantes. (Modificado de Heldmaier e col. o rápido reaquecimento durante o despertar (3). e na remoção desses grupos. as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência. essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. mas também para que o despertar seja bem sucedido. como visto em capítulos anteriores. Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. Ta representa temperatura ambiente. provendo aminoácidos para a síntese de glicose. com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1). a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2).. 2003.. 2005). receptores e transportadores de membrana. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar. proteínas responsáveis pela transcrição gênica. quando os animais despertam da fase de dormência. 263 . Neste momento. 2004). catalisada por proteínas fosfatases. Na primavera.

Para ilustrar como esta regulação acontece. preservados para utilização pelo cérebro. como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados. ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. principalmente. nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. um tecido dependente de glicose. por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. hexoquinase.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. 2004). Este complexo enzimático. pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia. Observa-se. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. no nível da expressão gênica. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados.3). o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase. em parte. da formação de acetilCoA a partir de piruvato. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. consequentemente. Em condições anóxicas. Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos. 2004). além de ajustes específicos. já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. 1990). há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. 264 Julho/2010 . vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa. levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. entretanto. Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. De uma maneira geral. O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. Curiosamente. 2003). fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada.. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). Durante a fase de dormência.

Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial. inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas. Paralelamente. assim como da lípase hormônio sensível. A quantidade de lipase pancreática. a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente. no coração do hibernante. que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. de Julho/2010 Pág. A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). 265 .. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase. 2000). há um aumento da expressão da lipase pancreática. e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. como a citrato sintase. Confirmando esta idéia.Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. 2002). primeiro passo da síntese de ácidos graxos. 2004). 2004).

diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. ativado por ácidos graxos. os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. Portanto. Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. estocagem e excreção (Storey e Storey. triglicerídeos. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. Paralelamente. TG.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. 1997). 266 Julho/2010 . De Pág. a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. 2003). Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. durante a hibernação em mamíferos. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. 2004). Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica.. a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo. HSL. a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. PPARα é um receptor nuclear. que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. (2000) na última década. dada a inibição da síntese de proteínas. aumentando a meia vida destas moléculas. o que além de contribuir para a economia energética. As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição.

o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy. próximos à região polar. além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira. taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else. Em um caramujo terrestre estivante.Metablismo maneira geral. provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. dissociadas de efeitos da temperatura.. de forma significativa. dados não publicados). quanto pelo transporte ativo. Na marmota. Hulbert. embora a atividade da Na+. alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos... as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios. Curiosamente. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. 1997) e a inibição deste processo contribui. a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções. durante a depressão metabólica.K+-ATPase. 2007). ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. tanto passivo através de canais iônicos. Face à redução das taxas de produção de energia. alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal. consequentemente. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col. provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea. evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. 267 . A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e. A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. 1980).K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col. 2008). um hibernante herbívoro. para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col. 2003). Adicionalmente. 2000. A atividade da Na+. animais menores possuem membranas mais insaturadas e. 1987). 1998). 1998).

embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético. Pág. 1995). 1999). Adicionalmente. Por exemplo. cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos. o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. rins e fígado (Balaban e Bader. 1984. Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos. Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. No conjunto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência. MacDonald e Storey. com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons. a inibição destes vários processos. a atividade da Na+. 268 Julho/2010 .

hibernação e dormência). 2004). Julho/2010 Pág. Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético. manutenção. o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais.Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população. mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie. os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução. Por outro lado. incluindo crescimento. quando a energia é escassa. 2004). quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. anapirexia.com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação. termorregulação e reprodução (Fig. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig. e a energia excedente é armazenada (Scheneider. as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo. os comportamentos relacionados à defesa territorial. corte.1b). febre. Durante a evolução dos animais. Sendo assim. Assim. 2004). 269 . sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. 1a). 2004). Neste período em que o trato digestório está vazio. Como já discutido. Desta forma. Deste modo. os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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. Além da redução populacional. 2001. o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam.. 1989.. Drinnan. 1997. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema. 2005). A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais. Zachariassen e col. 1994. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas. Rodrigues. A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. temperatura. 281 . Zuidema e col. 1994. uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col. Vitousek e col. 2000. 1996). o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente. Primack e Rodrigues. 2007). A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento. juntamente com a ecologia. Zuidema e col. por exemplo: competição. Kolar e Lodge. Bierregaard e col. 2005).... Gascon e col. incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991. 1999.. 1999). a fragmentação modifica as condições de luz. 1996. Carey. redução da diversidade genética. 2001. Galindo-Leal e Câmara. 1991.Metablismo e Merriam. Daszak e col. Navas e Otani. 1991. predação. são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman. 1998.. 1996. as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. Julho/2010 Pág. umidade e vento. Desse modo. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. 2005).. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. influenciando diretamente os microhábitats. Tocher e col. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow. 1992. parasitismo (Dukes e Mooney. 2001). evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos. além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. 1997).

Essa vulnerabilidade dos ecossistemas. A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. essenciais para qualquer organismo vivo. Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. 2001). também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. como por exemplo. Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. Pág. 2010). é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. as quais modificam outras características da água. A poluição da água. além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema. No ar. por exemplo. sendo prejudicial a saúde pública e ambiental.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício. 282 Julho/2010 . por sua vez. os poluentes podem promover a formação de ácidos.

2008). mais uma vez. 2008). reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. 1990. aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. 2001.. 1987.Metablismo que por sua vez. É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. France e Collins. e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. 1995. 1992. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. Tal equilíbrio é. 2008). Sampaio e col. da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. 1989. atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. No Brasil.. favorecendo. Blaustein e Wake. 2008). 1988). podendo ser extintas. observamos a elevação de 0. 283 . Buckeridge. Mackenzie e El-Ashry. 2002). Sampaio e col. De natureza multidisciplinar. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. Wells. Mangum e Hochachka. é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé.. 2007. bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. 1998. 1993) e plantas (Hinrichsen.75% da temperatura média no Brasil (Marengo.. a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar. por conseguinte. 1986). alteram o pH do solo e de corpos d’água. Diante desse cenário. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. Além de alterações na temperatura. em diferentes níveis de abordagem. das queimadas (Sampaio e col. 2008).. temperatura e correntes de água (Carey. As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col. Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas. através do conhecimento sobre a história natural das espécies. 2007 – AR4). indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. 2007. ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. também. Angilletta e col. A análise integrada da variação fisiológica. 2009). Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente.. Como conseqüências dessas ações. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. 2005).

Dentro desta perspectiva. Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos. 2005. 2006.. 2005. A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia.. 2007). somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. 2006). comunidades e ecossistemas. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca. além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. Carey. Costa e Gales.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. 1991. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. 2003). reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. Carlisle. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. mesmo que indiretamente. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. 2006). 1991. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods. Carey. Wikelski e Cooke. DeAngelis. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. 2006). 1999.. 284 Julho/2010 . 2000. temperatura corpórea. batimento caudal. taxa opercular. se possível. a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman.. Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo.. Navas e Otani. 19991. 2005). 1995. 2000).. os princípios. O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. 1995). 2001). a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. da asa ou de outros apêndices) em tempo real. Wikelski e Cooke. Zachariassen e col. 19991. 1999. Beyers e col. além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e. 1997. Barbieri e col. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee. Diante da introdução dos poluentes. Hopkins e col. assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores. Zachariassen e col. 1998. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. como por exemplo: a biotelemetria. 2002. Nagy e col.

Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação. 2004). 1999. Em suma. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. 285 . 2002). 1995. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais. Zuidema e col. Drinnan. 1991. de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey. capacidade natatória.. Rowe e col.. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. por exemplo. 2003. 2005. 2007). 1998). podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka. 2007). Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. Calow. Barbieri e col.. Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. 2001). Costa e Sinervo. possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. mais a longo prazo. Somero. 2000. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental. 1994. determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. Rowe e col.Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. 2006)... 1991. Rowe e col. 1998. Julho/2010 Pág. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. 1996. 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. taxa de crescimento. 2005. Neckel-Oliveira e Gascon. 1998. Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. 2006). Porém. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. Através desses dados. podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies.. Wikelski e Cooke. 2004).. Além disso.

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Adicionalmente. . Em relação à neuroendocrinologia. Neste capítulo. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. visto que. mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso. em invertebrados (Unidade 7). de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo. fisiológica e anatomicamente interligados. será intensamente discutida neste capítulo. Os sistemas biológicos: nervoso.br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. distantes do seu centro de origem. Desta forma. agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental). vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. em especial a neuroendocrinologia. Neste contexto. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. a importância dos estudos em fisiologia comparada. ao longo deste capítulo. estão. os sistemas nervosos e endócrinos. veremos.Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6. como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. endócrino e imune.

348 pág. 337 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr. Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág. 323 pág. 305 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. 300 Julho/2010 . répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra.

5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág. 301 .Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.

302 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág.

Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág. 303 .

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 304 Julho/2010 .

as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). 2010). sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp.br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. 305 . Adicionalmente. é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. sua estrutura Julho/2010 Pág. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. também denominados de hormônios. Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar. conhecida como fisiologia. O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos. Esses produtos de secreção. 2007). Já a neuroendocrinologia. 1992. que estão submetidas a diferentes condições. ou seja. 2007). Inicialmente. 2006). Norris. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes.. este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos. com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris. pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. ou glândulas de “secreção interna”. o entendimento do sistema endócrino. assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris. até que. Segundo Zohar e colaboradores (2010). 1954).

306 Julho/2010 . um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). 2006.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. é o hipotálamo (Withers. integração e no redirecionamento de sinais. que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. Norris. Norris. Norris. o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. 2007). o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. em peixes. Em relação à hipófise. mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos. vários tópicos ainda permanece incertos. 1998. Outros estudos posteriores a esta época. e tronco encefálico. pois. que extratos encefálicos. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente. em alguns casos. 1992. numerosos hormônios são sintetizados. cerebelo. apresentaram pela primeira vez. Guyton e Hall. sendo que. 2006. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág. Fisiologicamente. Guyton e Hall. 2007). Berne e Levy. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. neuroendocrinologia é um assunto mais recente. atuando na recepção. 2006. Norris. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. Fisiologicamente. ou seja. bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. 2002). 1998. 1973). as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. 1966). Para melhor compreensão do eixo H-H. passados aproximadamente 35 anos. Neste sentido. este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. De uma forma geral. ou neuro-hipófise (NH). Anatomicamente. 2007). e hipófise posterior. Já em peixes. Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. 1992. a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. 2007). analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária. Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. ou adeno-hipófise (AH).

Desde então. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar. Lethimonier e col. 307 .. Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula. de lampreias a mamíferos (Guilgur e col.. 1998). 1998). o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal. Adicionalmente. entretanto. Originalmente. no entanto. 1973)... o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. Levando-se em consideração apenas a reprodução. abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade. Burgus e col. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy.Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág.. 1972).. é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios. Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária. Tabela 1. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários. 2002. 1983). alguns anos depois. cuja estimulação/secreção. 1971. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. 2004). foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos. 2006).

. 308 Julho/2010 . É importante salientar.. 09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. 1991a). em anfíbios (Conlon e col. foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col... em aves (Miyamoto e col. Pág. em elasmobrânquios (Lovejoy e col. mas em geral. 1984) e em mamíferos (White e col. todas as formas são decapeptídeos. 2004. pois. 2).. são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados). Segundo Sherwood e Adams (2005). 2002). e estes. Em geral. a ativação da fosfolipase C. Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. Em mamíferos. 2005). ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col. ou seja. a liberação de GnRH. entretanto. estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos... 2005). cuja função ainda é especulativa e uma outra forma. os aminoácidos número 01..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11). A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback). o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). Tsai. 2006). 1998). faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col. em répteis (Lovejoy e col. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas. em peixes teleósteos (Sherwood e Adams. uma vez que. além disso. 2002. podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy. como por exemplo. elevação do segundo mensageiro. 2) (Weltzien e col.. Guilgur e col. que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col.. duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie.. 1993). 2005). 2004). exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. que por sua vez. 1991b). que possuem doze aminoácidos e.. Essa variedade de formas de GnRH. Whitlock. 2002) e Aplysia californica (Zhang e col.. 04. 2003). 2006. 2008).. 1998). 1993). também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH. relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower. Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008).

entre outros. Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. 309 ..Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. o ciclo de claro e escuro (dia/noite). são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. Guilgur e col. As formas de GnRH grifadas em cinza. Adaptado de: Iwakoshi e col. (2005). pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. tem sido identificadas em peixes. ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro). Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. estariam atuando nesta modulação do GnRH. a kisspeptina. Sherwood e Adams. Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas. semelhantes. (2002). (2006). influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz.. outras complexas interações de sinais neuronais. mudanças de temperatura. que por sua vez. que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. 1997). uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. Adicionalmente. 2006).

que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. a sua natureza química. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. Desta forma. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. 1998. ou hipófise posterior. o mecanismo de ação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). Berne e Levy.e. e são armazenados e liberados pela NH. há uma zona intermediária. Em geral. são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers. Embriologicamente. 2008). veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). Guyton e Hall. 1998). as diferentes formas (quando for aplicado). Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. sistema este. a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. a adeno-hipófise (AH). denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). as funções dos hormônios Pág. cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. controlando as funções de suas células. como observado para os hormônios hipotalâmicos. 310 Julho/2010 . Desta forma. 2009). Já na AH. 2006). pois através deste sistema. e entre essas duas partes. quando foram descobertos. que produzem a tireotropina (TSH). de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. 2006. o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. inibindo a liberação de GtHs. Berne e Levy. as células tireotrópicas. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. ou hipófise anterior. A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos. se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. i. 2004). Norris. 1992. Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina. as possíveis células alvos. foi discutida resumidamente. 2006. 2007). e agora. Os hormônios hipofisários em mamíferos. a neuro-hipófise (NH). a NH. E ainda no ano 2000.

é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos). cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. O hormônio TSH. os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. T4 e a triiodotironina. relacionado também com o metabolismo corporal. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall. As células gonadotrópicas.1. T3). é um hormônio. Berne e Levy. conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. mas também apresenta um papel nas contrações do útero.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH. que sintetizam o FSH e o LH. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH). relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas.). produzido pelas células corticotrópicas. 311 . é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. Tabela 3. sintetizado pelo hipotálamo. por sua vez. ou seja. cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina. sintetizado pelas células tireotrópicas. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy. Em relação à AH. a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH. progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. Já a ocitocina. ou seja. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. O TSH. atuando principalmente nas gônadas. 2006. o hormônio ACTH. 1998). 1998). que são hormônios glicoprotéicos. também conhecido como arginina-vasopressina. estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. estão diretamente relacionadas com a reprodução animal. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais. é um hormônio glicoprotéico.

(1998) e Guyton e Hall. O GH e a PRL. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). 312 Julho/2010 . O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS). além de atuar no metabolismo. é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos. A combinação das tabelas 1 e 3. ver as revisões de: Guyton e Hall. (2006). são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. (2006) e Berne e Levy. Modificado de Berne e Levy. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). a neuroendocrinologia em peixes. o aumento da síntese protéica. em humanos. Neste caso. mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. Figura 1. já a PRL. participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite. Adicionalmente. incluindo especificamente. a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. uma abordagem geral em peixes se faz Pág. (1998). mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. Neuroendocrinologia em peixes Em geral. ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos.

2002. 2003. 1990). os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. Lowe-McConnell. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes. Vazzoler. 1998). além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva. a desova total ou a desova parcelada). ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. 1996. 1990. a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas. morfológicas. percepção sensorial e reprodução (Hoar. Em relação à sua distribuição.. Além da importância como fonte alternativa de alimento. Wooton. comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. Desta maneira. ou seja. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). 58% são marinhos. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton. 2003. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2. com esse grande número de espécies existentes. 1990. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies. Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. Hochachka e Somero. Moyle e Cech. apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. 2003). anatômicas. flutuação. São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos. Em relação à reprodução. as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. Moyle e Cech. Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. 313 . osmorregulação. seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa. ZavalaCamin. nutrição. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson. 2004). Zavala-Camin. 2004).). 1999. 2006. Moyle e Cech. por exemplo). 1969.1.

. 2002. 2002. 2003. como por exemplo. sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col. ou seja.. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col. 2004. 1994. Pandolfi e col. 2004.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva. tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col.. ao contrário dos mamíferos. Zohar e col. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH. foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col. no qual. 2010). ou seja. As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes. Guilgur e col. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas. 2006).. 2005). 2004. 2006). Pág.. em peixes teleósteos...... 2010). 314 Julho/2010 . Guilgur e col. 2005).. Já a segunda ou terceira forma. sendo que. sendo: cGnRH-II (chicken II). Dubois e col. o comportamento reprodutivo. 2005). Com isto. que em teleósteo. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral). em algumas espécies de teleósteos. ainda são discutidas na literatura especializada. Zohar e col.. 2006. Zandbergen e col. os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada. em Siluriformes. 2005. 2006. também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col.. Guilgur e col. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior.. Guilgur e col... o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. Sherwood e Adams. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. Zohar e col.. Entretanto. como por exemplo. Neste contexto.. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower. González-Martínez e col. A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. 2002). entre outras formas (Lethimonier e col. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo. 2004. Pandolfi e col. ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente. para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. 1995. Guilgur e col. 2004. 1997). 2002).... para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas. 2006.. 2010). em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH.. como por exemplo. Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col. está relacionada especificamente com a reprodução.

. 1997). Somoza e col. pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. 2001). Entretanto. Agulleiro e col.. Adicionalmente. 1997). e provavelmente. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. Neste contexto. apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso. em extratos de hipófise (Schulz e col. alguns estudos apontam que. como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH). a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos. assim como em mamíferos. nos teleósteos Julho/2010 Pág. 1995. Dubois e col. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária.. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa)... as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. Em relação aos hormônios hipofisários. o que veremos a seguir. entretanto. são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos. por exemplo. 1994. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise. identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. sendo que. na região da NH. Portanto. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas. 315 .. pois.. em vários teleósteos. como por exemplo.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. 2006). 2004). sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. 2004. 1994.. possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro. Desta forma.. foram identificadas estas duas formas de GnRH. em geral. 1995. Weltzien e col. Hipófise em peixes A hipófise em peixes. 1992) de catfish africano. apenas duas formas de GnRH foram identificadas... ainda não é bem compreendida. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col. Goos e col. 1993) e de encéfalo (Bogerd e col. no catfish africano. neste grupo. Neste sentido.

Adicionalmente. estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col. que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col.. Cinquetti e Dramis. portanto. Duarte e col. a família prolactina/somatotropina. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. 2000). melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower. É importante salientar. 316 Julho/2010 . como por exemplo.. também são identificadas na região PPD. 2006. como por exemplo. 1990. características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. Cala e col. como por exemplo. “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). 2006. sendo que. Kawauchi. 2001. e em peixes. 1996). Kawauchi e Sower. este hormônio atua em vários processos fisiológicos. 2003. Batten e col. que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH). Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). 2006.. a arginina – vasotocina (AVT). 2003. as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. 2006).. os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. conhecidas como células somatotrópicas. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante).. Em geral... 2004. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). o principal hormônio desta glândula é o cortisol. Weltzien e col. Kaneko. nos aspecto Pág. Neste caso. 2004). 1996. 2004. Weltzien e col. e a família dos hormônios glicoprotéicos. hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL).. a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH). Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). entre outros neuropeptídeos (Acher. exceto a somatolactina. 1999. segundo Kawauchi e Sower (2006). na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs). Kawauchi e Sower.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas. 2006). 2006). que todos esses hormônios. Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células. que inclui prolactina (PRL). Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. Takei e Loretz. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina.. 2006).. em teleósteos. a adrenocoticotropina (ACTH). no metabolismo. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados.

. Kawauchi e Sower.. Johnson e col. Forsyth e Wallis. Em relação ao TSH. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo. Forsyth e Wallis. Kakizawa e col. 1993. 1993. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. 2002. as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. 1997. Adicionalmente. 2000. 1996). Cala e col. o FSH e o LH. 2002. Cala e col. foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990). 1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col. Kawauchi e Sower. Julho/2010 Pág. ou seja. 1996. 2006). 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. Kawauchi e Sower.. abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. 2003.. Mousa e Mousa. 2006. As células produtoras de somatolactina (SL).. 1998).. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. Em relação ao MSH. 1994. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás.. 2006). 2006.. osmorregulação. 1999).. ainda continua desconhecido. 2006). 2003. Rand-Weaver e colaboradores (1991). 2003)... Agulleiro e col. Vissio e col. Kaneko. 1996). Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos. 2006). na reprodução (Olivereau e RandWeaver. 1995..Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes. 2003). produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col... 2000.. são as GtHs. 1997. 1989 apud Mylonas e col... Finalmente. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col.. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col. Mancera e Fuentes. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. Sabe-se ainda. como por exemplo: no metabolismo. Kaneko.. 1994). 2000. 2006).. pois. 2003. no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col. como por exemplo. 1996. e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos. Kaneko. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes. desta forma. reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col. Mayer e col. 1992. 317 . Kawauchi e Sower. nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col. 2003) e indiretamente na reprodução. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo. Kawauchi e Sower. também conhecidas como PIPAScells. além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. que o papel fisiológico da PRL em teleósteos.

efeitos positivos. Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. liberação e fertilização dos gametas.. Weltzien e col. que sintetiza e libera gonadotropinas. Por outro lado. Levavi-Sivan e col. 2006)... principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. pluviosidade entre outros). entretanto. 1999. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. Pág. alterações ambientais como o fotoperíodo. 2010). maturação. 2004. sabe-se também. Levavi-Sivan e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes. a temperatura e. fotoperíodo. é controlada endogenamente por um sistema endócrino. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos. 2006.. 318 Julho/2010 . esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. possivelmente as chuvas. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução. que crescem e se tornam adultos. pineal. que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura.. 2) (Blázquez e col. Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo.. Adicionalmente. são captadas através dos olhos. em peixes. precisam ser investigados mais profundamente. foram registrados. negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. 2010.. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura. Em várias espécies de teleósteos. Em geral.. 2010. Zohar e col. reiniciando o ciclo. sendo que em geral. 1998. Falcón e col. Zohar e col. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig. narinas e receptores cutâneos. 2010).

Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto). 319 .Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Imagens: Renato Massaaki Honji. Julho/2010 Pág. Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur.

Nos machos. como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese. na fase de vitelogênese. é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH). Assim.. O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona. entretanto. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. Haider. Cyr e Eales. converte o colesterol em testosterona. na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase.20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH).20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva. Esta é transportada à camada granulosa. na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo. sendo os andrógenos. como por exemplo. Pág.. estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. 2003). principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia. o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante. desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais.. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). 2000. 1997). A detecção da vitelogenina. Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia. o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). também via corrente sanguínea. os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese. 320 Julho/2010 . 2004. 2003). Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. Nagahama. sendo. 2006). podendo ser expresso em situações adversas. Garcia-López e col. testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. 1996. também sob influência do FSH. 1993. como por exemplo. O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes.

2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais.. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. 2010). Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. Zohar e colaboradores (2010).. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. ainda pouco esclarecida. De uma forma em geral. Julho/2010 Pág.. pois. 2). Adicionalmente. foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. 2001). principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. por serem reofílicas (peixes de piracema). estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies. que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. em operações de cultivo. pois neste ambiente confinado. Neste caso. para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva. sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. Por outro lado. 2010. 2010). premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. 321 . Adicionalmente. fica evidente. veremos no capítulo 32. quando são impedidas de migrar. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas.Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva. apresentam um bloqueio na reprodução. quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. Portanto. mas altera-se de alguma forma. estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. e raros em teleósteos de clima tropical. Taranger e col. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. considerando-se que as espécies de peixes de piracema.

322 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

. de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. gerando também assim. Neste contexto. o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. Julho/2010 Pág. de uma faixa dorsal ectodérmica. estão ao mesmo tempo em funcionamento. presentes e. 2004). que é conhecida como placa medular. levou a consolidação de diversas capacidades funcionais. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. um ritmo biológico. 2002). alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. mesencéfalo e rombencéfalo. composto por três vesículas primárias. na fase embrionária. chamado tubo neural. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios.br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo. Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. no tamanho. eventos futuros (Hickman e col. no presente capítulo serão apresentados. 323 . A parte contínua do tubo neural. também denominado encefalização. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo. sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. Ao contrário. Este processo evolutivo. pelo menos em humanos. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo. répteis e aves. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. Desta forma.

e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr. destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. 2000). 2004).. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. As diferenciações do diencéfalo serão. O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr. sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. Assim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. 2004). Hickman e col. Portanto. nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. No local onde estas duas estruturas se encontram. Em todos os vertebrados. 2004). formando o total de cinco vesículas encefálicas. 2000. o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. e o hipotálamo (ventral). Assim. o mesencéfalo não se divide. e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. e pela primeira vez em vertebrados.. posteriormente. células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. O epitálamo é derivado do Pág. certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr. Sobre este mesmo aspecto. 2000). o tálamo (central).. o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. 2000. descritas de forma geral para os vertebrados sendo. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio. foi como o cérebro de grupos mais primitivos. Assim. não surpreende que o pálio. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. Hickman e col. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col. Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes. como o dos peixes e anfíbios. 324 Julho/2010 . neste momento. invadido por substância cinzenta.

o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. dá origem ao cerebelo. incluindo as funções de percepção do ambiente externo. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo. O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. que tem função na recepção visual. 2000. Norris. 2007). 2006). com exceção dos teleósteos. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. Adicionalmente. Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. Hickman e col. Norris. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. Hickman e col. em alguns casos. 325 . oriundo do piso do diencéfalo. Assim. O metencéfalo. atuando como o centro de coordenação nervosa. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo. na fase embrionária. O hipotálamo. Hickman e col. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo.. 2000. como visto no capítulo anterior (Orr. Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro.. o batimento cardíaco e o metabolismo.. Estas relações primitivas do encéfalo. A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke.. 2004. 2000. Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr. 2000. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. mas também no dos anfíbios. No entanto. 2004). Na parte dorsal. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. 2004). Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr. amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. como comentado anteriormente. 2007. o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado. como os tubarões. e o lobo posterior. é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração. apesar de extremamente fundamentais.Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais. além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais. 2004). Guyton e Hall. que inclui a glândula pineal. contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. foram. Hickman e col. na anatomia funcional. 2000. dorsalmente. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes.

primeiramente. núcleo supraquiasmático (NSQ). 2004). A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA). uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. 2007). Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos. núcleos supra-ópticos (SON). pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI). e núcleos paraventriculares (PVN). aos hormônios e funções foi. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. atribuída a este grupo. pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). A ME conecta. 326 Julho/2010 . o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. núcleos arqueados (ARC). répteis e aves. Figura 1. 1) (Norris. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. a nomenclatura aplicada às estruturas. 2007).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col.. Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág.

estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. 2007). hormônio estimulador da tireóide (TSH). núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise. a prolactina (PRL). o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). 2007). Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas. Julho/2010 Pág. Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário. a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST). sendo comumente em células distintas. Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. e a pars nervosa (PN). Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. Já a neurohipófise. Outros hormônios hipotalâmicos. por exemplo. o hormônio liberador de corticotropina (CRH). como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa. mais anterior. hormônio de crescimento (GH). estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). 327 . estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos.Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. como dito anteriormente. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. 2007). é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. 2006. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). e que o sistema porta passa por ela. Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. região posterior. É através deste sistema que. Quanto ao hipotálamo. embora não listados como hormônios trópicos. Norris.

afetam células específicas não endócrinas. este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo. podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. como exemplo. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. diferentemente de todos os tetrápodes. Chelonia e Crocodilia.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. 2007). Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. De forma. répteis e aves (Norris. o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. regulam outras glândulas endócrinas. Em algumas aves. répteis e aves Como dito anteriormente. a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD. e de forma resumida. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. entretanto. modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. de forma geral. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. Pág. 328 Julho/2010 . Em serpentes adultas. Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. Nas aves. Através de seus prolongamentos axônicos. a PT é completamente ausente. como os pombos e o pardal de coroa branca. que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. aves e mamíferos. Ao contrário. 2007). Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies. é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. neste grupo. que por sua vez. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . em anfíbios. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos.

mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo. Julho/2010 Pág. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. que terá um pouco mais de destaque neste capítulo. 329 . discutido no capítulo anterior. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. O hipotálamo secreta RHs e RIHs. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos. o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). mesotocina e arginina-vasotocina. 2007).Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. ACTH. que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). a hipófise e o alvo endócrino específico. FSH. Estes. LH. por sua vez. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2.

Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col. Assim. Brown e Cai. 3). ou DIT. Primeiramente. Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos. Normalmente. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT. por difusão ou por transporte mediado por carreador. Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide. No entanto. respectivamente. portanto. 2005). promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall. resultando na molécula chamada de T4. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers. conhecida como deiodinase. Kistler e col. 2006. Adicionalmente. triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). formado pelo hormônio e o receptor nuclear. O dímero. 2009). o T3 é mais ativo. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. que realiza essa conversão (Brown. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO). 2007). 2007). e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. Normalmente. Sechman e col. ser metabolizados no fígado e rins. 2007. pouco solúveis em água. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea. Os hormônios da tireóide. outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. Norris. nos vertebrados. têm sua produção estimulada Pág.. Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. 2006). 1952..5 diiodotirosina. atravessam facilmente as membranas celulares. as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica. apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. 1975.. e da mesma forma como os esteróides. Essa molécula é chamada de 3. 330 Julho/2010 . Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e.

. Em vertebrados. que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. Yaoita e Nakajima. 331 . Figura 3. desempenham função importante na metamorfose. ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. o trato digestório. 2006). as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário. o sistema imune (Rollins-Smith. 2007). 2003. Norris. 2007). 1997. o encéfalo e a medula espinhal. 1998). reorganizando a pele (Yoshizato. 1986. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3..Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. na regulação do metabolismo (Norris. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. Ação do hormônio da tireóide em células-alvo. 2006). Brown e col. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. desenvolvendo as criptas viliais. o sistema respiratório. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato. 1996). 2006. o Julho/2010 Pág. o fígado. na formação do sistema nervoso. Nakajima e Yaoita. Em anfíbios. bem como na reestruturação de órgãos. sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. 2005).

mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos). répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH. 1999. sauvagina e urotensina I (Norris. Em frangos. Wilson e Reinert. Estes três hormônios são encontrados em anfíbios. 2000). sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. promove a produção dos esteróides sexuais masculinos. produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio. O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. 2007). e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. além da influência no metabolismo. A liberação do TSH em anfíbios. entre outros trabalhos. 2007). Desde então. sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. primeiramente testosterona.. 1988. O LH induz a ovulação. Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis. Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). 332 Julho/2010 . mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas. Pág. destacando a similaridade destas moléculas e suas ações.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. Sechman e col. a somatostatina (SS). 2009). O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. O LH. e aves. 2007). uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. nos machos. répteis. Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano..

o desenvolvimento e crescimento. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. o metabolismo. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares. estimula a nutrição. é um mediador químico do sistema imunológico. Além disso. nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. ou somatomedina produzida pelo fígado. causando o escurecimento da pele. 2007). sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. 333 . em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. A prolactina. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH). O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. no entanto. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. como cuidado parental. Assim como em peixes. no metabolismo. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios. realizando assim a transferência de calor.Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. Em pombos. A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. e em mamíferos com a produção de leite. e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. em anfíbios e répteis. incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. também pela produção de hormônios corticosteróides. além de seu papel mais tradicional. nos processos reprodutivos. Em répteis este hormônio foi pouco estudado. este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. o fator de crescimento insuliníco (IGF). Além disso. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. o comportamento. tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. O MSH é Julho/2010 Pág. Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes.

O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente. Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I. 1987. 2007).N-C-P-K-G-NH2 C-L. segundos após a sua liberação (Licht e col. alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico. e da tireóide.N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina. aves. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris. 1984. pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta. Acher e col. 2007).. anfíbios. especialmente nos anfíbios Anuros. acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab. 334 Julho/2010 .Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. respectivamente. homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos. a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla.I-T. pois são capazes de produzir uma resposta. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág. Acher. Entre estes dois os hormônios da PN.N-C-P-R-G-NH2 C-F. Choy e Watkins.I-R.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados. 1986. sanguessugas Gafanhotos répteis. Nojiri e col. 1996).I-R. A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). Tabela 1. Estes hormônios são. são muito semelhantes quimicamente. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida... 1). Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y. 1995.

Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio). Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis. 2007). estimulando a reabsorção da água na urina. Julho/2010 Pág.. Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo. na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário. 335 . Norris. 2005. tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais. mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo. pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col. A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios. Além disso.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 336 Julho/2010 .

Para que isso ocorra. 2006). dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. De maneira geral. garantindo que não só operem na sua particularidade. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo. percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. No Unidade 3 (Neurociências). sobretudo as funções metabólicas. crescimento corpóreo.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina. formar os órgãos. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células.br No decorrer da evolução dos organismos. garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão. Julho/2010 Pág. 337 . Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo. o processamento e a armazenagem da informação. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. Nesse sentido. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. apesar de manterem suas especificidades.mpf@usp. Estes por sua vez. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. tais como. Juntamente com o sistema nervoso. Está também associado ao controle da reprodução. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles. mas também interagem e modulem entre si. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos. porém. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação. ritmos biológicos entre outros.

endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. Hoje. 1B). mas Pág. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. 1997.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas. (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento. 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. 1997). Figura 1. (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. Besedovsky e Sorkin. 1977). Animais controles. não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). Chesnokova e Melmed. Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. já se sabe que os sistemas nervoso. injetados com glóbulos vermelhos de ratos. 338 Julho/2010 . (1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. Já na década de 1970. e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold. células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune. 2002).

seja via sanguínea ou linfática. permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais. Frente a uma resposta inflamatória.. 1997. células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo. Julho/2010 Pág. tais como as células endoteliais. Além desse contato direto. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. como NO e prostaglandina.Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. 339 . 2006). citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold. Por ser um sistema difuso. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC.. De fato. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas. a barreira hematoencefálica. 1997). Galea e col. que revestem o vaso sanguíneo. 2006). a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC. garante um grau de privilégio ao SNC. durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. porém. Fisiologicamente. Figura 2. Assim. Chesnokova e Melmed. como as células endoteliais. Além disso. 2002. essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. além de outros mecanismos. a produzirem mediadores secundários. 2).

Resumidamente. Pág. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. o fator de necrose tumoral (TNF. 340 Julho/2010 . mediador inflamatório produzido por células imunes. o SNC não apenas recebe.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. Recentemente. cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada.. essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey. existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC. percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. Assim sendo. 2000). principal neurotransmissor do nervo vago.. Rosas-Ballina e Tracey. Fig. 4. 2009). 2007). A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. 1997). as chamadas pró-inflamatórias. Borovikova e col. Por outro lado. como o nervo vago. 3. levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold. 2009). Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. como por exemplo. 2009). Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1).

o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse. VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F. visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune. Sucintamente. Como feedback negativo. A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH). uma vez que caem na corrente sanguínea. Sternberg e Gold. A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico. os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. 1997). Julho/2010 Pág. 341 .Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. SHAM: animais falso-operados. 2009). e cortisol em humanos. modificado de Borovikova e col. 2000). 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional.. 5. induzido por LPS (15mg/kg).

Classicamente. Frente a um estímulo inflamatório. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. 342 Julho/2010 . modificado de Rosas-Ballina e Tracey. Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. 2007). inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. Durante uma situação de estresse. tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. 2009).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos. Este. caso contrário. Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório. por meio de um reflexo eferente modula a função imune. As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR). provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. modificado de: Pavlov e Tracey. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. Porém. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. Pág. 2006). A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. 2007). Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC. quando o estresse é crônico. Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas.

A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina.Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. classicamente. É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. sobretudo o H-H-A. 1997). a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. 343 . a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. Como uma resposta de feedback negativo. através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. Além de principal mediador do estresse. O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse. Figura 5. Além disso. Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. 2002). o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune. O hipotálamo quando estimulado. De maneira geral. Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina. 2003). a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed.

. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido. 1993). A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores. A partir dele. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. 2006. 2003). como dito anteriormente. em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col. 1999). Porém a integridade vascular. no prelo). As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios.. o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col. 2004)... ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col. 2007). portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga. rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col. 2004) e células do colostro humano (Pontes e col. 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. 1992). placenta humana (Lanoix e col. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. a resposta inflamatória deve Pág.. Considerando o paradigma acima. 2007). sobretudo na camada endotelial. 2006)... 2008) e células imunocompetentes. Assim. Existe também a produção extra-pineal de melatonina. Durante a montagem da resposta inflamatória. (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal. Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col... linfócitos humanos (CarriloVicco e col. O ritmo diário de melatonina no sangue. leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central... tais como a glândula pineal. sobretudo da camada endotelial. projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. Dentre suas propriedades cronobiológicas. a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. Fisiologicamente. 344 Julho/2010 . tais como TNF. sendo responsável.. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória. onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite. Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios. 2007). fígado. permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col. No entanto.. como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col. Markus e colaboradores. 2007).

Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col. Além do mais. Fisiologicamente. células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig. demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais. No entanto.. 345 . 6. citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina... existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal. o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. Markus e col. A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina. visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col. 2009). 2007). Julho/2010 Pág. Na primeira fase da resposta inflamatória. 2007). células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col. Estudos in vitro. 2009). Em um segundo momento. Figura 6. Em um segundo momento. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido.. O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina.

os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall. catecolaminas. tais como testosterona ou progesterona. considerando a integridade dos organismos. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col. à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. 3. óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig. Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos.. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. 2009). 7. Tomaszewska-Zaremba e Herman. 346 Julho/2010 . a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). De maneira geral. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. seu papel funcional é comprometido.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. portanto. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. Dessa forma. Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional. 2006). neurotransmissores. 2009). estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. Para manter a gestação até o final do seu período Pág. assim como opióides. dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta. e isso é garantido pelo sistema reprodutor.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes. O efeito de TNF e IL6.. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. 2001. tais como baço e timo. Resumidamente. por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. Como visto anteriormente. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. como uma doença. Tomaszewska-Zaremba e Herman. Em casos de reposição da melatonina. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. e. essas situações são revertidas. 2005). hipófise e gônadas. o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise.

Figura 7.Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. a probabilidade de um aborto é aumentada. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável. 2001). Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático. caso isso não ocorra. Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. catecolamindas. 2009). Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col.. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman. GABA. a ação de opióides. Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. Por outro lado. Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH. assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais. Julho/2010 Pág. 347 .

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 358 Julho/2010 .

. além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. Zn. Cu e Cd. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”. tais como Al. que constituem a biosfera. Mn. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. populações e comunidades.Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução. Entre os principais efeitos apresentados. resultantes da exposição a alguns metais. a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos.br Em sua definição clássica.

407 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág. 395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág. 361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. 381 pág. 371 Pág. 360 Julho/2010 .Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág.

levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. que. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado. Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col. sendo encontrado em pilhas e baterias. O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. dentro de limites. Metais essenciais. devido aos seus processos de detoxificação (Fasset. como o cobre e zinco. não reagindo com o oxigênio do ar e. Dessa forma. Os metais não essenciais. 2000). de maneira geral. Este metal é tóxico. tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular. Julho/2010 Pág. dúctil à temperatura ambiente. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente.40 gramas e número atômico 48. acessado em 02/05/2010). não são regulados. principalmente no fígado e rins. animais terrestres. rim e glândulas digestivas.Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail. como o cádmio e o mercúrio. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col.com O cádmio Os metais.. 1975).oxigenio. marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. Sua massa atômica é de 112. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. geralmente. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo.com. estão associados com mecanismos bioquímicos. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. Em geral. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica. onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal. não possuindo uma função fisiológica conhecida. Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais. ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio. É um bom condutor de calor e eletricidade. Por isso..tabela. 361 . 2001). por sua vez. então. está associado ao zinco.

362 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. Ao longo da evolução destes organismos. o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos. marinho. para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col. tegumento. proteínas sequestradoras de metais. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). Ele ainda induz a produção de metalotioneínas. acessado em 02/05/2010)... Assim. seguida por sua eliminação pela Pág. Monteilh-Zoller e col. Além disso. 1999). estando presentes em diversos hábitats: estuarino..udesc. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas. tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0. mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados. Assim.br/PreVestibu. o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas.joinville. com valência +2.mundofisico.. Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo. 1999. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente. dulcícola e terrestre..92 Å) do íon cálcio. 1999).. surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias.

As células imunes... O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. principalmente hemócitos. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal. 1993). causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. refletindo o grau de poluição a que está submetido. Por isso. Os antígenos estimulam a migração de hemócitos. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. Por ser moluscos bivalves.. metais não essenciais. 2000).. a dieta. como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde. Outros aspectos importantes devem ser citados. Quando animais de espécies diferentes são comparados.. a localização. 2004). 1995). Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas. 2005). nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. Contudo. indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col... desempenham um papel principal na defesa do organismo. e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. atualmente. mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. pois são filtradores. a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos. 363 . Em espécies particulares.Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. 1999). o tamanho. Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. o sexo do animal e o tipo de tecido. 2001). possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. Altas concentrações de cobre. como o cádmio. Julho/2010 Pág. por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida. 2001). O que se sabe. os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente.

como órgão responsável pela respiração. peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica. podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória. pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. 2005). a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida. 1995). que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. com a exposição ao cádmio. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água. possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos. Já em Oncorhynchus mykiss. especialmente na respiração e osmoregulação. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente.. as brânquias.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. regulação ácido-base. Exceto o cádmio. Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. ao entrar em contato com altas concentrações do metal. Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais. principalmente crustáceos. 364 Julho/2010 . alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos. assim como em células de brânquias. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. regulação osmótica e iônica.. por isso. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos. e col. Assim. Desse modo. Pág. Assim. 2000). Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase. o número de hemócitos circulantes aumenta. 2000). com a permanência dos animais em ambientes poluídos.

. 2004).. 2005). 2005).. provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo. 365 .. Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. Além disso. cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo. Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares. o cádmio diminui o influxo de sódio. O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio. aumentando a toxicidade do cádmio.Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col. 2005). Em crustáceos. envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio. Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas. Em anfípodas. a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda.. como o Na/Ca. A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. e col. observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard. Em peixes. além de Julho/2010 Pág. 2001). junções ou entradas transcelulares. e col. observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo..

porém há resultados contraditórios. embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador. Em resumo. e col. trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág.. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. 366 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. 2005). Por exemplo. Em crustáceos. a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. No entanto. 1996). Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação. além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas.

Julho/2010 Pág. encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas. Estes metais. No entanto. 1996). 367 .Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. comprovando a competição entre os íons cádmio. tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. principalmente em animais que estão em meios diluídos. são fortes inibidores da anidrase carbônica. em geral. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. 1996). cálcio e sódio. 1996). enzima responsável pelas trocas gasosas. e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação. A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. Quando há diminuição de salinidade. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores. muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades.

fatais edemas pulmonares. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas.. Seus efeitos foram encontrados nos rins. como a resistência à corrosão. Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e. 2005). fígado e testículos. Porém.. Nos rins. estresse da gravidez e lactação (Fasset. 1975). 1975). zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset. o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão. entre outros. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão. talvez o zinco. peixes. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio. Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente. o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. às vezes. particularmente no rim. causando. e formação de células cancerosas (Dalton e col. Atualmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz. os eventos. e várias interações entre cádmio. Desse modo. É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. A doença era caracterizada por osteomalacia. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. talvez. vitamina D. proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. associados a baixas ingestões de cálcio. 1975). A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. sapos. Em testículos.. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal. esses Pág. Assim.. ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd. 2005). 368 Julho/2010 . os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. 1975). estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos. Assim. Nesta época. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim. o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares. resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade.

. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. 1975). No fígado. Julho/2010 Pág. o sexo e patologias renais (Fasset.. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong. Atualmente. 2000). 1975). diferenciação e morte. Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose. e col. a idade. assim... Além disso. ou seja. sendo importantes na regulação da proliferação celular. pois isto poderia estar relacionado com o fumo. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap. Assim.. 2000).. proliferação celular. Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria. o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong. 2000). uma modificação na proliferação e morte celular. 369 . As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais. e col. Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses.. Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. 2000). Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio.. e col.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio. desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong. O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col. Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular). o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual.. 2000). quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 370 Julho/2010 .

mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. Co. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos. como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre. 1999).. 2000). que permitem a Julho/2010 Pág. quanto através da dieta.. incluindo os definidos como metais pesados. Fe. salobra ou doce (Rainbow. os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade. organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente. Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox. Metais traço. No entanto. 371 .. 2006). ou por ligação com uma proteína detoxificadora. As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. tanto através do meio em que vivem.Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp.br Introdução Durante a evolução. 2000). 2000). Zn. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo. Se. depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada. Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais. Nas águas não poluidas. 2000). Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col. frequentemente com base fosfato. Metais de transição (Cu. 1999).

Figura 1 . http://resweb.jpg (04/05/2010). como funciona para entrada de químicos para qualquer célula. que é análoga aos rins (Alcorlo e col. onde é visualizado estômago. como as brânquias. 2003).Vista ventral de um crustáceo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares. “limpeza” de radicais livres. 2006). absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo. a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais. e ação de diversas enzimas celulares. absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados.. 2000). A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas. músculo e intestino. 2000). bem como transcrição de DNA (Bury e col. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal. estabilidade protéica. A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. hepatopâncreas. Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo.. neste texto (Rainbow. 372 Julho/2010 . atuando ambiguamente na respiração celular. transporte de oxigênio.edu/sdunbar/students/epidermis_removed. Brânquias Pág.llu. Abaixo da cutícula. protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow.

Para muitos animais aquáticos. Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo.wikimedia. 2004).2004). Em animais marinhos. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte. http://upload. excreção. 373 . as brânquias são cruciais para respiração.jpg/250pxTuna_Gills_cut_out. Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos. as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida.jpg (04/05/2010). as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. incluindo metais traço (Rainbow. balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen. Julho/2010 Pág. Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos. como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias.Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico. Dessa maneira.. A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. 2007). essas alterações afetam a fisiologia do animal. com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada. 2000). O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col.

Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág. Fora da membrana apical.. Já no citosol. (d) endocitose. 2008. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. (Rainbow. bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática. 2005). Modificado de: Freire e col. o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. 2000).. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos. Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada. (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica. cádmio e cobre. mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. tanto quanto atuam no transporte de cálcio. 374 Julho/2010 . onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo.

mec. o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos. (http://recursos. celular e tecidual (Yang e col. demonstrando o glicocálice. No entanto. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular. No entanto.. 2007). incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial. incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento. lados hidrofílico e hidrofóbico.. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular. 375 .es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos. O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col. proteínas transmembranas. implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. 1999). A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial. Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos. as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood.2002). O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos.cnice. (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais.

. a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. 2000). O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. aparenta ser através de canal apical de sódio. Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. em relação ao meio.. posteriormente potencializando a entrada de metais. Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. 2000).2002). os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade. Desse modo. um dos caminhos de tomada. 2000). 2000). o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow.2002). 1999). A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase. particularmente nas brânquias e no fígado. uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L). uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. No entanto. sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col. Dependendo da concentração de sódio no ambiente. 376 Julho/2010 . (Rainbow. Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1. e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág. então a água entra osmoticamente (Rainbow. a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente. (b) segunda pela tomada continua de cobre . e desse modo. 2000). sendo sensível ao sódio.2002). Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow.2002). (Rainbow. 1999). O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood.

.2005). cobre e zinco produzem hipercalcemia. De todas as concentrações testadas de metais essenciais. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais. Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação. Para a fase aquosa do zinco. o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco. 2007). ATPase basolateral ou em ambos (Wood. Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág.Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang.. O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco. 1998). Em ambientes poluídos. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa. 2007). 2000). Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood. 377 . Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes.2005). é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col.1992). mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col. Geralmente. retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col.. em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood. em todos os casos. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes. a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. Então. De acordo com o tempo de exposição. No entanto. as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal. 2007). Em peixes.. o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. seqüestro e regulação (Yang e col.. talvez em um nível mais preciso do que o cobre. Zinco O zinco é homeostaticamente regulado. como acúmulo interno negligenciável.2002). tanto pela água quanto pela dieta.2002). as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang.

2001). ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. incluindo reparação dos danos celulares. A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos.. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos.2005). A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. 2006). Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. absorvendo pela superfície branquial. A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos. 2000). resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência. onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col. incluindo controle do fluxo metabólico. Já a longo prazo. 378 Julho/2010 . Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. 2004). 2000). Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. e assim na diminuição da performance respiratória. mudanças compensatórias. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. por exemplo. A lagosta. O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes. consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos. 2000)... O zinco também é abundante nos sedimentos. Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes. 2000). Pág. Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca.

desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood. difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col. Além disso. 2006).. Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas. é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. 2000). Em organismos expostos a metais pesados. gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. quando os níveis de metal estão muito altos.. mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col..Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. 2002). 2007). 2000). 2007). uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário. Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow.1992). A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. 2006).. 2006).Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood. 379 . transporte por canais de proteínas. o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall. da poluição por metais pesados (Yang e col. A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio. 2006). a metalotioneína. Mas por outro lado. a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons. ou seja. Na membrana basolateral. Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col. independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio.

380 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos.). O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. Mozeto e Zagatto. No ambiente aquático. as ações antrópicas são muito evidentes. 2006).br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. sendo assim. justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág. indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke. 2006. nutrição. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col. frente a alterações antrópicas no meio ambiente. A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático. Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. 2006). sendo que. A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial. 381 . levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares. sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. antagônicos. metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo. 1998). de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional. estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. 2001).Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap.Rocha Oliveira Vieira Lab. relações térmicas. 2006.

os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas... Pág. Órgãos como fígado. idade e espécie do animal (Kostial e col. são os chamados metais essenciais. considerado micronutriente essencial. 2003). oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos. via de entrada no organismo. e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001. ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col. 1978. cobre (Cu) e manganês (Mn). 1994). Apesar disso.. 2004) e à poluição. 1997. Metais Os metais. em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos. provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col.. 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo.... porém os efeitos deletérios sobre as populações. Camakaris e col. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados. McGeer e col. 1999). cádmio (Cd) e mercúrio (Hg).. Alguns metais. zinco (Zn).. 1997. (Chen e col. Wannaz e col. participando de processos fisiológicos. Van Ho e col. MadsenMoller. normalmente.. em baixas concentrações. 2006).. 2005. 2003).. 1999. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. tais como sua forma química. estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone. 1997). são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. por outro lado. são importantes no metabolismo. Celik e Oehlenschager.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi. 2002) mas. Camakaris e col. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos. duração da exposição. em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado. além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col. 382 Julho/2010 .. além disso. 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). 1998. muitas vezes. no litoral e rios próximos a centros urbanos. existem metais como chumbo (Pb).

2008). F-. Lydersen. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. 383 . fosfoenolpiruvato. reprodução. por exemplo. hidrolases. 1985). 2004).. pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. Freeland-Graves e Llanes. Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. 1995). mas em associação com outros compostos como. H. O. O alumínio não é muito solúvel em água. as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas. OH-. no entanto. PO-. de receptores excitatórios de glutamato. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree. age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. lipídios. replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano. Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. SO-.1994). seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. regulação de glicose no sangue e energia celular.1999. Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col. em seu estado divalente. proteínas e carboidratos. Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. isomerases e ligases. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. Si. descarboxilase e manganês superóxido desmutase. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. 1987). além disso. catalases e peroxidades.Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês. Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. dos citocromos. liases. transferases. glutamina sintetase. 1990. 1990a).

via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. 384 Julho/2010 . fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. Apesar de muitas semelhanças. A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. 1993). 1996). os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares. torna-se rico em cargas positivas. pode ser encontrado em três formas: elementar. este metal se acumula nos rins. 1984). 2008). 1980.. 1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. Wilkinson e Campbell. 1986). e o alumínio na forma de hidróxido. cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta. agregação. inorgânico e orgânico. este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. 2006). Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. 1977). Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos.

células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. Além disso. tais como. glutationa e bicarbonato (Foulkes. e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. 1993). e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. Pb. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína.. Zn. Julho/2010 Pág. 385 . uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col. 1986). Cd. Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. Alternativamente a este processo. estas células acumulam eficientemente estes metais. Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas. desde molecular ao ecossistema como um todo (Who. 1988). assim como no intestino. grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. 1987).. 1994). especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col.. os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio. 1978). (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. a entrada de vários metais.Ecotoxicologia Aquática celulares. bicarnonato. o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col. 1985). uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. devem ser considerados como um critério de risco em si. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos. As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions.

Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. metais e xenobióticos (Sanders. A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão.. anóxia. Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. danos ao DNA e. 1994). peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). 1992. 1993). São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose).. Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. finalmente. Lopez-Torres e col. São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares.. 1989a). que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD).. 1991). condições oxidativas. 2000) Pág. 1997). a morte celular (Winston e Di Giulio. 1992). rico em cisteína. As atividades das enzimas antioxidantes. betacaroteno. catalase (CAT). alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col. Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). ácido ascórbico (vitamina C). que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col. peroxidação lipídica (LPO). 1993). possivelmente levando a inativação enzimática. 386 Julho/2010 .. peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação. 1992). que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col. Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas.. são as metalotioneínas (MTs). e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col. pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. luz ultravioleta. vitamina B.

outros parâmetros hematológicos. outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col. além disso. Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. 1990. 1995). 1986). O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos.Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas. 387 . 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg. Kasprzak. como as transaminases. Apesar de serem menos específica. proteína e glicose. Parâmetros imunológicos .+ HO .. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese. 1990.O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. Dix e Aikens. os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col. deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág.1993). O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich. (1989). especialmente reações catalisadas por metais de transição.. Parâmetros reprodutivos e endócrinos. (Sole e col. Os metais. 1994). A presença de enzimas específicas. mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey.. Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores.. 1997).Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos . Fe3+ + HO. como revisto por Vos e col. como os sais de ferro. hemoglobina. podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes.. no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col. 2010). como hematócrito.

redução ou hidrólise da molécula original. portanto. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. 1990).Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência. O metabolismo é. 388 Julho/2010 . A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode.. 1996). mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água. 1992.. localizadas principalmente no retículo endoplasmático. A Fase I é uma alteração de oxidação. 1995). Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores. 1990). Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col. 1998. O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I.. Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente. Parâmetros neuromusculares . liga-se a macromoléculas celulares. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase. 1985). quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. o composto ou os seus metabólitos. Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. 1991). pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. II e III. um importante determinante da atividade de um composto. a longo prazo. 1992). ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. Pratap e Wendelaar Bonga. Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato. a biotransformação ou metabolismo. Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo.. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard. 1996). que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik. Vermeulen.

1995.. além da ocorrência natural e abundante. não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col. 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos. frequentemente um grupo químico polar.. Conti e col... esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti. Macroalgas (Conti and Cecchetti. (Bucheli e Fent. 2007). 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente. peptidases.. um açúcar ou aminoácido. estes. 2003) e microalgas (Tripathi e col. 1995). estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki.. Cu e Zn (Roncarati. esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células. Invertebrados Julho/2010 Pág.. uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis. 2003. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados. Van Ho e col. 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad. 1995). 1999). 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly.. 389 .. Adicionalmente a isto. e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. 2001. 2003) .Ecotoxicologia Aquática a excreção.. As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno. As enzimas da fase III. 2006). Mulder e col. 2003). 1990). estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd. mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col...

hipóxia e hipercapnia. 2003). Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma. decussatus)...VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais. Pelgrom e col. podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram. 1992). 2000. principalmente Na+ e Cl. 1990. 1992). por sua vez.. Além disso. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. perda de eletrólitos. Vários autores observaram ainda nas brânquias. e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M. Rosseland e col. Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas. 1979a.. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col. em um estudo com três espécies de bivalve (M. 1996. 2001).b) e brânquias (Mouneyrac e col. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais. 1992. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R.. R.(Howells e col. 1993). 1992.. 390 Julho/2010 .. 1991. foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT. Handy. 1984. M. O alumínio.. inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág. (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal. provoca acidose plasmática.. Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre.. no consumo de oxigênio que por sua vez.. hepatopâncreas (Viarengo e col. Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris. houve um aumento no metabolismo aeróbico. edulis. Além disso. 1985). e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat. Schlenk & Benson. 1990). Partearroyo e col. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs. edulis. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. galloprovincialis. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante. altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col. McGeer e col. Olafson e col. por exemplo. como conseqüência. decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. M.. (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial. Bebianno e col.

vitelogenina. Os disruptores endócrinos. Goossenaerts e col. Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais. já citadas anteriormente. gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col. 1995). A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS). 2004). 1997). em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col. 2005).. alterando as fosforilações oxidativas (Chen. 1987). 2010). 2001. Em truta arco-íris. disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics. 2000). Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 391 .Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. Sanchez e col..1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas. 1988. espécie e via de exposição (Wong and Wong. seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. 1988). levando ao estresse oxidativo. já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias.1998). e col.. mesmo em baixas concentrações. Ali e col. 1988.. estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam. 2007). Jiraungkoorskul e col. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais. 1995). lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col..o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col. especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree. Wong e Wong. 2003... 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT). experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade.. Dautremepuits e col. onde este metal parece inibir o complexo I. esta dependente de dose. Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág. com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney.. além disso.. 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga. Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard. 2000. 2000. exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. O mangânes tem sido associado a citotoxicidade.Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann. 1993) e redução de progestágenos (Correia.

. inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. 2001. apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col. a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson. 1978). O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. Em adição. A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. Devlin e col. os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col. Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col. 1985).. 1998). O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson. mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col. Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento. 1985a). Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. 2003). níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5.. 1997 a. e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág.. 1984. 1990). 1991) e crônico (Hontela e col. que são dependentes principalmente de água da chuva. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. Freda & McDonald... O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento. 1982).. 1977). 1997). 1995). 2001). 392 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col... é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col... Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar. 1991). os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col. 1998).b. 2001).. reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber.

. Tankere e col. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência. para completar. econômica e cultural. Cu. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. 2000. Sakai e col. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991. 2001..b). encontraram altas concentrações de metais pesados na casca. Cd e Cu no pulmão. E ainda. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos. 1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. Ni. pulmão.. 2002b). Mn.. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte. Xu e col. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. Dinelli e Lucchini. Burger e Gibbons. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col. Fagioli e col. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado. Manolis e col. 1996. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas.Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. caretta (Dinelli e col. 393 . Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. 1999. 2000. da região do noroeste da Itália. incluindo tartarugas (Caretta caretta. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. 2000 a. A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. 1998).. 1998. Fe. Cu e Zn em sedimentos. 1999. e Zn no fígado. 1995.. (2006).. músculo e tecido adiposo de Caretta caretta. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política. Mn. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. encontradas mortas. mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis.. Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col.

394 Julho/2010 . porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados. talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes. Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência. A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental.

2008). nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col. Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. especialmente os envolvidos na reprodução. infertilidade e tumores.br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. Nesse contexto. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. 1999).Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura. (do inglês. fitoestrógenos e metais. inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos. má formação do trato genital. É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. Dessa forma. 2007). como por exemplo. sendo. 395 . endocrine disruptor compound. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais. ou EDC). principalmente na ecotoxicologia. respectivamente. Julho/2010 Pág. não apenas na fauna aquática. pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. invertebrados e anfíbios. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova. ou ainda “disruptores” endócrinos..

semelhantemente para invertebrados. para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. Pág. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade. moléculas de determinados hormônios. por exemplo. ou invertebrados. sendo. 2002). a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. 2002). uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. por exemplo. a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law. portanto. por exemplo. Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. peixes e anfíbios. como por exemplo. Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. portanto. Não obstante. desempenham diferentes funções fisiológicas. 2002). negligenciando representantes dos filos de invertebrados. 396 Julho/2010 . e em última instância. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. Isto é alarmante. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. 1998). a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. considera apenas dados para animais vertebrados. não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. levando em conta a importância ecológica dos invertebrados.

1999). Julho/2010 Pág. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. Cd e Cu induzem a hiperglicemia. O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios. com exceção de crustáceos e insetos. tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. como Hg. (2004). tais como: o metal testado. Tratando-se de ecotoxicologia aquática. (2000) demonstram que vários metais pesados. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col.. Rodríguez e col. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica. 1999). além deste efeito. a regeneração de membros. pois pode ser absorvidos através de canais de Ca. Cd e Zn) (Depledge. o desenvolvimento gonadal em mexilhões. Entre outros efeitos. para os invertebrados. o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. tem efeito direto sobre crustáceos. (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista).Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos. 2005). pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação. como por exemplo. Uma vez absorvido. Metais.1998). podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. afetando a reprodução e o crescimento. Barata e col. estes dados são escassos. O Cd. pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col. o Cd. ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col. possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores.. possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. sugerem que “metais pesados”.. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH. o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. 397 . chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). 1999). a concentração utilizada e o tempo de exposição. e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes.

. espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental. MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e. MO: órgão mandibular.XO: órgão X. 398 Julho/2010 . Figura 1.Controle endócrino da reprodução em crustáceos .Gl. de preferência. OH: hormônio ovariano. HEP: hepatopâncreas. (Modificado de Rodrigues e col. ecologicamente importantes. dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados. Por exemplo. bem como no local íntegro (controle). A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil. SG: glândula do seio. GIH: hormônio inibidor gonadal. de preferência apresentar dimorfismo sexual. GSH: hormônio estimulador gonadal. AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina. AG: glândula androgênica. Além disso. Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson. B: cérebro. TG: gânglio torácico. 2007).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. T: testiculo. outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. A. OV: ovario. CHH: hormônio hiperglicemiante.: glândula antenal. 2007). MF: methyl farnesoato. contudo são muito sensíveis a diversos Pág.

seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil. a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. GTH – I e GTH – II. 2007). 2004). Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). por outro lado. 17α. Julho/2010 Pág. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos. o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. Portanto. respectivamente. Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos.Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido.. 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona. chamadas de gonadotropinas. 399 .

1995). como por exemplo. o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. Fe). Um segundo grupo de doenças neurológicas. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente. Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery. são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA). está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. ou seja. todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. respectivamente (Blazquez e col. Pb. uso de medicamentos (Li. tais como a doença de Wilson. Cu. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides.. Mn. envenenamento por chumbo. 400 Julho/2010 . Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas. Pág.

os dados ainda são controversos (Manzo. sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. e a esclerose amiotrófica. doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos. Na verdade. 2008). 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. 2008). Pb.. no metabolismo de carboidratos. 2007). lipídios. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos. na regulação dos processos reprodutivos. e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). 2007).. Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. no entanto. cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas. tais como a doença de Alzheimer. Julho/2010 Pág. entretanto. como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col. proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col..Ecotoxicologia Aquática cisplatina. como por exemplo. 2007). a SOD manganês (superóxido dismutase). 2007). A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. logo Zn. por exemplo. Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo. Bi. a doença de Parkinson. 401 . efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo.

enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. rigidez e distonia (Gerber. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. 2003). Segundo Erickson & Aschner (2003).. quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col. 2007). esqueléticas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês. que não se limita a estes países. Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. 1991). não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular. insuficiência renal avançada (Zatta e col.. 1997). resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos.. 1988). No caso do alumínio. um estressor. 2002). endócrinas (Campbell & Bondy. mais especificamente em estruturas do gânglio basal. regulam o metabolismo de neurotransmissores. como o gaba. 2004). cujos sintomas são bradicinésia. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. entre outras.. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro. 2002). um íon metálico. substância negra. hematológicas. 2001). desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos. o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez. imunológicas respiratórias cardiovasculares. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. entre os quais estão alterações bioquímicas. 2003). putamen caudato. o glutamato e a dopamina. Pág. como por exemplo. independente da rota de absorção. neurológicas. globus pallidus.. portanto. a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. assim como de Mn. incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. Algumas células do SNC.. Alumínio A exposição às altas concentrações de Al. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório. Em países escandinavos. particularmente os astrócitos. 402 Julho/2010 .

pois influencia a hidrólise metálica.Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. este metal. 403 .. em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col.. colóides e partículas... O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col. A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração. 2008). a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith. 1996). 2007). mas sim sob a forma mineral. desde simples formas iônicas a polímeros. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. De maneira geral. pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo. sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col. íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides. a polimerização. Entretanto. sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col.. a agregação. 2002). 2008). 2003). As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. Este metal não é muito solúvel em água. 2002). pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais.

1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen. 2005). 1996). no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido. a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). 2004). 1997). 404 Julho/2010 . 2010). Portanto. é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP. Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma. Berg e col.. após exposição aguda (96 h). maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col.. 1988. pois esse metal em pH 5. 2005).... 1988). 2010). o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col.. Kime. é importante notar que Morrissey e col. porém.. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. ou a expressão do LH. niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese. 2000. 2003).. apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. Tam e col. responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α. 1997). 1991. 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi.. também conhecida por MIS (do inglês..5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. Vuorinen e col. Como nos mamíferos. 2003). Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col. Tam & Zang. proteínas quinases (PK) (Méndez e col. Hwang e col. 1998.. o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. Como mencionado acima. Nesse contexto. 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 .one (17. os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col. o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. 1995. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática... Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col.20 P). Atualmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col. 1987. Nesse caso. No entanto. sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime. Na verdade.

liga-se a íons metálicos. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al. resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. e a Gln. principalmente. e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar. por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell. 2002). o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. 2001). 2000).Sugere-se que o Al. inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2. PKG (proteína Julho/2010 Pág. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. como o Zn. e a VTG quando transportada no plasma. são reversíveis. pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados. a fosvitina (Mugyia e col. Por exemplo. consequentemente. Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col. uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. impedindo a formação do complexo ER-E2. o glutamato (Glu). GABA e DA ainda não foi elucidado. 1997).. por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. Este mecanismo foi sugerido para o Al. 1987). O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS). Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. no metabolismo de Glu e GABA. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino.Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope. que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. Hwang e col. 2003).. por conseguinte. 405 . o Glu é transformado em glutamina (Gln). possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. 2007). O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG. 1998). quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG..

no aumento da liberação de LHRH (Lee e col. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias. ativa receptores α 1 . sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar.. assim. Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. FSH e E2 gonadal (Lee e col. Após isso. Pine e col. Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col. Globalmente. 2000). Experimentos conduzidos por Chang e col... o citocromo P450scc (side chain clivage). bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. No início da esteroidogênese gonadal. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente.. existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. Além disso.. 1994.. 406 Julho/2010 . impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc. 1996).adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos. 1996). aumentando o cálcio intracelular (Ca2+). estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col. 2007). embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. estes resultados sugerem que.. o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng. LH e FSH (Stocco e Clark. 2006). (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. 2005). que por sua vez. 1993). Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. 1993). o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). 2005). 2007. e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col. como por exemplo. Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas.. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col. 2005). Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col. sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH. na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH. A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T). 2007). que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. 2003). o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS... O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE).

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