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Comissão Organizadora

Amanda de Moraes Narcizo


Camila Helena de Souza Queiroz
Camila Lopes Petrilli
Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa
Diego Jose Belato y Orts
Felipe Viegas Rodrigues
Kelly Dhayane Abrantes Lima
Leopoldo Francisco Barletta Marchelli
Marco Antônio Pires Camilo Lapa
Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes
Marina Marçola Pereira de Freitas
Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio

VII Curso de Inverno:


“Tópicos em Fisiologia Comparativa”
http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio
Apresentação

APRESENTAÇÃO

A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu


em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto
de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que
possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e
vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e
oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação
em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral.
Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em
descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas
mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste
conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca
sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção
de um país com menos desigualdades.
Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do
conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em
Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos
fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência
no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP.
Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula,
proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de
nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os
quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora
VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa
Universidade de São Paulo
5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP Pág. i


Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL

Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pós-


graduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi
organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual
mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações
existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir
dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada
tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e
coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção
da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no
Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão
apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

Pág. ii VII Curso de Inverno - IB/USP


Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

Capítulo 1 O que é ciência e como praticá-la pág. 03


Capítulo 2 Formulando perguntas em fisiologia comparativa pág. 09
Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho
experimental e a estatística inferencial pág. 13
Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 17
Glossário pág. 21
Bibliografia pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular

Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena pág. 23


Capítulo 6 Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada pág. 41
Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 49
Bibliografia pág. 66

Unidade 3
Neurociências

Capítulo 8 História da neurociência pág. 79


Capítulo 9 Princípios básicos em fisiologia neural pág. 89
Capítulo 10 Fisiologia sensorial pág. 103
Capítulo 11 Neurofisiologia da visão pág. 115
Capítulo 12 Causa e função pág. 121
Capítulo 13 Percepção pág. 127
Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos pág. 139
Capítulo 15 Navegação espacial pág. 153
Capítulo 16 Neurobiologia das emoções pág. 163
Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem pág. 179

VII Curso de Inverno - IB/USP Pág. iii


Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música pág. 187


Bibliografia pág. 194

Unidade 4
Metabolismo

Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações pág. 205


Capítulo 20 Medindo a chama da vida pág. 217
Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 235
Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê?
pág. 247
Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão
metabólica sazonal pág. 257
Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios pág. 269
Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais pág. 279
Bibliografia pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada

Lista de abreviações pág. 301


Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo
e a hipófise de peixes e mamíferos pág.305
Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios,
répteis e aves pág. 323
Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino pág. 337
Bibliografia pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática

Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos pág. 361


Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e
o zinco pág. 371

Pág. iv VII Curso de Inverno - IB/USP


Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos


aquáticos pág. 381
Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais
pág. 395
Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas,
Digestão e Sistema Imune

Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos pág. 427


Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em inverte-
brados marinhos pág. 435
Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e
similaridades pág. 455
Bibliografia pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia

Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos pág. 473


Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química pág. 483
Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493
Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos pág. 501
Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 511
Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia
pág. 519
Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP Pág. v


Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados

Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos pág. 547


Bibliografia pág. 564

Pág. vi VII Curso de Inverno - IB/USP


Unidade 1

Método Científico Aplicado a Estudos


em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero
Laboratório de Herpetologia
agustin.camacho@usp.br

Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados
para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se
de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de
geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a
comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases
do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas
associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico.
Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais
específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do
capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na
ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?


Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como
optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da
grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar,
executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os
primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas
possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos
básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de
pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da
forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não
serão explicadas na aula.
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Todos os capítulos revisados pelos profs


Dr. Pedro Ribeiro e Dr. Pedro Luis Bernardo da Rocha

Capítulo 1 O que é ciência e como praticá-la pág. 03


Agustín Camacho Guerrero

Capítulo 2 Formulando perguntas em fisiologia comparativa pág. 09


Agustín Camacho Guerrero

Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho


experimental e a estatística inferencial pág. 13
Agustín Camacho Guerrero

Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 17


Agustín Camacho Guerrero

Glossário pág. 21

Bibliografia pág. 22

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

O que é ciência e como praticá-la.


Agustín Camacho Guerrero
Laboratório de Herpetologia
agustin.camacho@usp.br

O que é ciência?
Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra
que definirá nosso trabalho, talvez pelo resto das nossas vidas. A palavra ciência provém do
latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”, este está relacionado com o verbo,
também latim, “scindo = dividir”. Existem várias definições de ciência, mais ou menos
completas, seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. Uma definição
bastante completa é:
“1. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover
facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. 2. The
organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified
or tested by further investigation. 3. Any specific branch of this general body of knowledge,
such as biology, physics, geology or astronomy.” Academic Press Dictionary of Science &
Technology.
Neste módulo, seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de
conhecimento, o mais confiável possível, sobre a natureza.

Métodos conceituais de obtenção do conhecimento.


Desde séculos antes de Cristo, filósofos, empiristas e estatísticos, tais como
Aristóteles, Bacon, Bayes, Fisher, Popper, Underwood e Jaynes, vêm aprimorando os
métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural, de forma a obter mais
conhecimento e com maior confiabilidade. Assumo que um passo necessário para sermos
bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. A
continuação, lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados. Deste modo, espero
justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação
de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental.
Vamos lá:
No século IV a. c., Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo, ou lógica
aristotélica, em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. De acordo com
Aristóteles, existem termos gerais (Ex. os homens) e termos particulares (Ex. Socrates) que
se referem a subconjuntos dos termos gerais. Segundo este método, estes elementos
podem ser identificados e, relacionando estes através de construções lógicas (silogismos),
é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). Nestas
construções, a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex. todos os homens

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

são primatas; Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento, também


verdadeiro (então Sócrates é um primata). O sistema lógico inventado por Aristóteles, nos
permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso
conhecimento. Porém, Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da
veracidade ou generalidade dos termos, fazendo com que esta determinação fosse, durante
muito tempo, feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas.
Em 1620, Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo
evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. Para Bacon, só era
possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. O
conhecimento gerado permitiria, segundo ele, explicar de forma cautelosa, situações
relativamente similares. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no
que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. Para Bacon, este
conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. Ele
defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo, e não aceitar explicações
que não possam ser verificadas pela observação e experiência. Bacon, entretanto, não
clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um
conhecimento como certo.
Em 1670, Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a
afirmações geradas por indução. Este método é conhecido como lógica probabilística
indutiva. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada
multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa, expressada em forma de
probabilidade prévia, vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de
novas observações (Bayes 1763). Desta forma, a probabilidade bayesiana fornece uma
medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que
dispomos (Jaynes 2003). Um problema com este método é que as probabilidades prévias
podem mudar subjetivamente com o pesquisador, e isto afeta ao resultado final. Outro
problema é exposto na continuação.
Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo, chamado também
probabilismo ou falsificacionismo. Segundo este método, não é possível derivar
probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. o simples fato de
que todos os corvos que vi até agora são pretos, não permite calcular a probabilidade de
que o próximo corvo que eu veja será preto, pois não conheço quantos corvos existem no
mundo). Para Popper, o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. Deste modo,
ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria, em quanto
previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em
observações. Segundo este autor, a validade de uma teoria pode ser testada de quatro
formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

elas (Para este autor, você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de
previsões, predições ou hipóteses). 2) Verificando a estrutura lógica da teoria, para
determinar se esta é empírica ou é uma tautologia; 3) Comparando com outras teorias
para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico; 4) Testar
empiricamente as conclusões. Para testar as conclusões, Popper propõe testar aquelas que
vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. Um dos
problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza
relativa nas diferentes teorias, por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis
teorias competindo para explicar cada fenômeno.
Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza
sobre teorias (Ex. Sober 1999 e Lloyd 1987, citados por Lewin-koh et al. 2004). Apesar do
problema lógico apontado por Popper, vários autores baseiam-se no procedimento de
“verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a
verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. uma relação entre taxa de
ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários
vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para
novas observações (Ex. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente
sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). A representação matemática destas
relações é comumente chamada de modelagem. Onde os modelos podem ser
considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis.
Em geral, podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde
Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex.
teorias, modelos, hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também
representadas em forma de variáveis, amostras, etc). Na literatura, podemos encontrar uma
diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência
(Suppes 1960). Pessoalmente, opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais
facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre
eles de forma lógica. Por isto, neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria
proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood
(1997). Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados, e seus
significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento
(compare com Jaynes 2003, durante sua apresentação de raciocínio plausível, uma
abordagem verificacionista da obtenção de evidência). Assim, é possível inserir-los num
processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e
observação. O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

explicam Sistemas
Teorias
biológicos
compostas
por representados por

relacionam ou
Modelos descrevem Variáveis
dos que se
derivam
predizem valores
sob determinadas
Hipóteses
circunstancias
(=predições)
Figura 1 - Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de
conhecimento. Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood
(1997).

O que é Fisiologia Comparativa?

Em 1950, Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina.


Estes foram:
1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram.
2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia.
3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos
fisiológicos.
4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos
fisiológicos.
Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia
evolutiva, que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter
1994). Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das
relações filogenéticas entre as espécies, muitos cientistas tentam desvendar processos
evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com
filogenias conhecidas (Wiens, 2008).
Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou
mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. 2). Imagine que
queremos saber se, em lagartos, morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

metabólica com relação a morar em florestas. Para isto, poderíamos comparar espécies de
área aberta com espécies de floresta. Assim, poderíamos obter que espécies de áreas
abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. 2, esquerda). Entretanto, as espécies são
elementos que apresentam relações filogenéticas. Imagine que estas fossem representadas
pelo gráfico A, veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da
esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. Poderíamos ter certeza que é o tipo de
hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese
fosse representada por B?

sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8

sp5
taxa metabólica

sp6
sp7 A
sp1
sp8
sp2 sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2

sp3
sp4

floresta área B
aberta
Figura 2. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e
de área aberta. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies
comparadas. Sob a hipótese de parentesco A, as espécies de cada tratamento são aparentadas,
implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser
simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Sob a hipótese de parentesco B, a menor
taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco, pois em todos os pares de espécies
mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um
hábitat aberto.

Hoje em dia, métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da


verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de
relações filogenéticas (Amorim 2002). Por outro lado, tanto métodos falsificacionistas
(Ex.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a
taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat, com base em amostras da taxa
metabólica das espécies referidas. Deste modo, os produtos dos diferentes métodos de
obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. Por
exemplo, na fisiologia comparativa. Você concorda com esta forma de proceder, ou opina
que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

estender-se mais sobre este assunto, mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes
de decidir-se.

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

Formulando perguntas em fisiologia comparativa

Agustín Camacho Guerrero


Laboratório de Herpetologia
agustin.camacho@usp.br

Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder.


Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. Você sempre deverá
começar com uma pergunta que, para ter certeza de que vale a pena respondê-la, deverá
ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. Quando
realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores,
as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. “Levante-se sobre os
ombros dos gigantes” diria Issac Newton. É necessário pensar duas vezes antes descrever
um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que
“nunca foi estudado”. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é
mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters, 1987).
Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este
conhecimento (Web of Science, Biological Abstracts, Zoological Records, Google
Acadêmico etc.). Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem
sobre nosso tema de interesse. É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave,
para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os
conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). Uma vez conseguidas algumas
referências devemos procurar o material. Nas universidades públicas brasileiras o portal de
periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. Em são Paulo, a
Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor, com artigos mais antigos. “O sistema COMUT de
bibliotecas brasileiras permite, mediante prévio pagamento, a solicitação de xérox ou
arquivos ”.PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca
brasileira. Por último, você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu
site pessoal, ou site do laboratório onde trabalha. Exija da sua universidade maior acesso a
revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em
seguida, leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências
bibliográficas destes trabalhos. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as
previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema, ou bem como a
necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que
a complementam.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Como ser objetivo: Transformação da


1.Leitura e observações
pergunta em um gráfico
prévias
Uma vez que tenhamos uma pergunta e
2. Identificação da lacuna de  confiamos em que esta tem relevância suficiente
conhecimento
para investir o esforço necessário, deveremos
3. Emissão da pergunta cuja  formulá-la da maneira mais clara possível. Isto é
resposta preenche a lacuna fundamental para: A) determinar o que queremos
medir exatamente, desenhar nossas observações
4. Desenho das observações
de modo a evitar que estas nos confundam; B)
que respondem à pergunta
fazer testes estatísticos que nos permitam
5. Execução e análise das  calcular, de maneira objetiva, confiança sobre a
observações resposta indicada pelas nossas observações e C)
determinar se os custos para responder esta
7. Interpretação
pergunta são altos demais como para tentar
8. Comunicação de resultados  responde-la. Uma pergunta clara é aquela que
e conclusões. pode ser expressa como uma previsão, ou
Quadro 1.  Esquema  básico do  hipótese, Ex. “a testosterona estimula o
processo de  trabalho científico. comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa
de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a
pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos, é que podemos
transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação.
Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos
representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão, 2004) (ou tal vez em uns
poucos, caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Fazer uma
representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis
devemos e podemos medir. Ainda, ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados
esperados a outras pessoas (Cleveland, 1984), permite que as outras pessoas realizem
sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e
Mourão, 2004).
Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. Os fatores ou
variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis
dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland,
1984).
Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou
categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. Variáveis contínuas
representam características da natureza atribuindo-lhes números reais, enquanto que
variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

(etiquetas, categorias). Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão:


comprimento de onda, peso, comprimento, concentração, etc. como variáveis categóricas
podemos citar cores, sexo, tratamento. As variáveis contínuas proporcionam mais
informação, enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. O melhor
tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis.
Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. Entre os
gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos,
gráficos de dispersão, ou scatter plots (Magnusson e Mourão, 2004). Podemos encontrar
dois tipos básicos, o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal, o segundo usa
variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. 3).

O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS?


taxa metabólica

taxa metabólica

pouco muito concentração de


A B
chumbo chumbo chumbo na água

Figura 3. Exemplos de gráficos de dispersão. A) gráfico com fator categórico. B) Gráfico com
fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão, 2004).

Como mostra a Fig. 3, quando categorizamos variáveis podemos perder informação


(Magnusson e Mourão, 2004). Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido
comparar duas concentrações de chumbo, não teria detectado o efeito do chumbo sobre o
crescimento dos girinos, mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis.
Por outro lado, as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. Por isto é
necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de
variável usar.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho


experimental e a estatística inferencial.

Agustín Camacho Guerrero


Laboratório de Herpetologia
agustin.camacho@usp.br

Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la, deveremos


realizar observações que a respondam. Entretanto, um dos maiores problemas para
responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores.
Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo, de maneira que
pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de
nosso fator ou destes fatores (Hurlbert, 1984). Por exemplo, um experimentador poderia
determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca, uma
vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva.
Entretanto, se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou
os cheire, a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que
pela sua presença na boca do animal. Para um cientista, é crucial aprender a enxergar e
evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. O
desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e
como as distribuímos para evitar que fatores de confusão, influenciem em nossa resposta
(Quinn e Keogh, 2002).
Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de
fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Para evitar
confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é
conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral, repetição ou
réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os
pontos nos gráficos); Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer
obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões.

O que significa testar uma hipótese?


Como vimos antes, para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos
considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no
refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. Testar uma hipótese é
mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que
esperaríamos para ela (No falsificacionismo, compararíamos com os valores esperados
caso nossa hipótese não fosse correta. No verificacionismo, compararíamos as observações
com diferentes possibilidades teoricamente justificadas).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Frequentemente, queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores


de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis
independentes (fatores), ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas
ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig.4).

ruído
variável variável
dependente dependente variação
ruído
provocada
pelo fator
variação
provocada
pelo fator

f ator tratamento tratamento


A B 1 2

Figura 4. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A)


análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma
variável.

Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a
seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso
sistema de estudo, é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo
acaso. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a
nossa pergunta (= houve/não houve relação; houve /não houve diferença, que hipótese
suporta melhor os dados), em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que
representam nossas observações.
Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto
de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator
(ruído) (Fig. 4). Neste caso, a finalidade de um experimento é avaliar se a variação
provocada pelo fator é, uma vez isolados possíveis fatores de confusão, maior do que o
ruído. Associado a este tipo de experimento, um teste falsificacionista compararia a
distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese):
esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. Um teste verificacionista
compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências
teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa.

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

Repetição, pseudorepetição e confiança.


Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de
nossas repetições, de modo que faz com que seu valor esteja relacionado, as repetições
são chamadas de pseudorepetições. Aumentar o número de repetições nos permite
aumentar nossa confiança no resultado, mas isso não acontece com as pseudorepetições,
apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação
de confiança.
Para entender a relação entre fatores de confusão, confiança e pseudorepetição, leia
o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. Em que caso você se
sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de
perguntar a sua mãe, avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega, ou depois de
perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido, perguntar a suas
avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança, pois é provável
que vão dizer que você está muito bonito(a). Na opinião de cada uma delas está embutido o
fator de confusão “parentesco” (que, vamos lá, é importante neste caso!). Agora, se você
pergunta a um(a) colega, e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”, você poderia
ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”. Finalmente, se a resposta deste(a) colega)
concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a), sua confiança em
que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que
repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas,
na realidade, estão relacionadas por um fator de confusão. Busque sempre respostas
independentes para suas perguntas!
Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que
fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles.
Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores
relacionados por causa da sua posição no espaço, temporal= quando o fator que relaciona
os valores das observações é o tempo, filogenética= provocada por relações de origem
comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou
procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações.
Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e
Mourão (2004).
Existem outros aspectos do desenho de um experimento. Por exemplo, decidir
quantas observações serão necessárias, se estas serão dispostas aleatória ou
sistematicamente, e como serão feitos os controles. Explicar isto está fora do tempo
disponível para este módulo, mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu
trabalho. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho
experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. Comece pela tabela de

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Magnusson e Mourão (2004), pag. 4. Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque
você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido
não sirvam para nada.

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

O Fim da Picada: Comunicando Ciência.

Agustín Camacho Guerrero


Laboratório de Herpetologia
agustin.camacho@usp.br

Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. Foi um
caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem
concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. Passou tempo lendo,
pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que, às vezes, não lhe entendiam bem.
Suas idéias sofreram críticas, você teve que esperar longas burocracias (licenças,
solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes, resolvendo inúmeros
problemas (animais que morrem antes de obter os dados, infra-estrutura falha, falta dinheiro,
segurança, etc.). Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo
depois do seu mestrado...
Bom, se você não tem cuidado no que vem agora, tudo isso pode não ter servido de
nada. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de
artigos científicos que publicam. Para isto, uma grande dose de experiência é necessária.
Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde
pretendam publicar. Assim mesmo, busque textos (Ex. referências neste capítulo, manuais
de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. A continuação,
veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. Estas dicas estão
baseadas no livro de Peters (1984), e você deve dominá-las desde o começo.
Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa, as relações lógicas entre elas e
alguns elementos básicos que devem conter.

Partes e estrutura de um relatório de pesquisa.


Um relatório de pesquisa deve ser tão claro, preciso e curto quanto seja possível.
Basicamente, consta de 7 partes: título, resumo, introdução, material e métodos, resultados,
discussão, agradecimentos e referências. Veja dicas úteis sobre o título, agradecimentos e
referências na tabela 1. Iremos nos estender mais nas seções de resumo, introdução,
material e métodos, resultados e discussão.
O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e
os objetivos do estudo, e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais
resultados e conclusões.
Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua
relevância B) o estado da arte sobre o problema, mostrando a lacuna de conhecimento que
pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

resultados de nosso trabalho. Por último, os objetivos devem aparecer da forma mais clara
possível. Concretamente, em forma de hipótese a ser testada.
O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados
para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. Desta forma, as técnicas, o
desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que
os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo
C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. Se evitarmos mostrar claramente nosso
desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos
publicar. Pior ainda, podemos enganar aos nossos leitores.
A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder
nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. Isto
implica em descrever as observações feitas, estabelecendo as relações que foram
estatisticamente significativas e as que não foram. Os dados, quando numerosos, devem
ser apresentados em forma de tabelas. Os gráficos devem expor a parte mais importante
dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar
sempre o número de repetições. Se nos nossos resultados, os gráficos não representam as
partes de nossa pergunta, a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos
outros (Magnusson, 1966). Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e
auto-explicativa, e serem numerados, de forma que possam ser referidos no texto. Dados
apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto, mas evitando
redundância.
Na discussão, devemos expor como nossos resultados se relacionam com a
hipótese que pretendíamos testar, reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer
os resultados. Em seguida, mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados
com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução, mostrando quais as
implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. Por último,
este é o lugar onde se deve apontar, curtamente, futuros experimentos ou hipóteses
testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado.
Se o relatório tem vários objetivos, estes devem seguir a mesma ordem na
introdução, material e métodos, resultados e discussão. A fim de facilitar a interpretação do
leitor. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de
pesquisa (Tab.1).

Busque críticas, seja crítico e ajude à ciência progredir.


Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô, é porque
você não entende bem o que está fazendo. Agora, eu digo a você que, explicando
corretamente para ele, até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

seu trabalho. A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido
construtivo.
Lembre-se que em ciência, tratamos com assuntos que, via de regra, são
complicados. Isto faz com que todos nós cometamos erros. Para evitar erros em seu
experimento, a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. Se estas
pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente, poderão julgar se foram convencidas ou não
pelos seus argumentos. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do
trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele, antes que invista grande esforço
e dinheiro em um projeto mal planejado. Assim mesmo, podemos evitar que um trabalho
confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que
permita mostrar que este está errado.

Considerações finais.
Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela
frente. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve
planejar. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita
diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). Espero que
lhe ajude.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa.


No título
O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo?
Na introdução:
A lacuna de conhecimento está clara?
Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina?
Os objetivos buscam preencher esta lacuna?
Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto?
Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese?
Nos métodos:
Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados?
Está claro para que serve cada seção dos métodos?
As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados?
No caso de várias hipóteses, as análises estão redigidas na mesma ordem que os
objetivos?
Nos resultados:
Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal?
O número de observações está claro no gráfico?
Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos
gráficos e/ou tabelas?
No caso de vários objetivos, os resultados foram apresentados na mesma ordem que as
análises dos métodos?
Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente?
Na discussão
Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta?
Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis?
As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados?
Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado?
Nos reconhecimentos
As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão
presentes?
Nas referências
Todas as citações, e só as que estão no texto, aparecem na seção referencias?

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Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa

Glossário
Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras.
Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser
observada em determinadas condições.
Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica
Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência.
Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente
das duas anteriores
Inferência: conclusão, seja esta tomada sobre uma população, a partir de uma amostra da
mesma, ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex:
Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são
verdadeiras, então podemos inferir que Sócrates tem coração)
Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon, são duas categorias que mostram
generalidade de aplicação de um conceito.
Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao
universal, do especial ao geral, do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis.
Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento, prévia a um
experimento.
Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados, a verossimilhança valoriza a
plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto, sobre outro possível descritor.
verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um
determinado descritor verdadeiro.
Teoria: explicação sobre um fenômeno. Para Popper, deve ser um conjunto de enunciados.
Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com
dados empíricos.
Conclusões, previsões, predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de
vista de uma teoria ou um modelo, mas ainda não conferida.
Modelo: tem variados significados dependendo do contexto, porém a maioria pode ser
considerada como “representação simplificada”. Dentro do processo de geração de
conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre
variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo.
Teoria empírica: Segundo Popper, aquela teoria que pode ser testada.
Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão.
(ex. estes animais não são aquáticos, logo eles não moram na água)
Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies.
Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies.
Teste: prova, ensaio, exame.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Tratamento: aqui tratado como manipulação.


Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir
um estado em uma variável influenciada por ele.
Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em
explicar, sendo influenciada pelos fatores.
Efeito: influencia de um elemento sobre outro.
Ruído: variação não devida ao fator.
Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão.

Bibliografia

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Julho/2010 Pág. 23
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Pág. 24 Julho/2010
Unidade 2

Sinalização Celular

Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes


Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação
nathalia.moraes@usp.br

A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede


elaborada de comunicação inter e intracelular, que coordena o crescimento, a
diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos. Neste
módulo, serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os
mecanismos básicos da transdução de sinais, bem como a contextualização desses
mecanismos dentro de patologias, como é o caso da malária. Além disso, será
apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo
para a fisiologia, com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos
modelos.
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena pág. 27


Maria Nathália C. Magalhães Moraes
Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci

Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada


pág. 41
Laura Nogueira da Cruz
Revisado por Dra. Célia R. S. Garcia

Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 49


Maísa Costa
Revisado por Dr. Daniel Carneiro Carrettiero

Bibliografia pág. 66

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Sinalização Celular

Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena

Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes


Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação
nathalia.moraes@usp.br

Evolução da Multicelularidade
O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a
pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células, por meio da
evolução a partir de uma única célula, a qual desempenhava todas as funções necessárias
para o organismo, para um conjunto de células especializadas proporcionando interações
entre elas (Ben-Shlomo e col., 2003). Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam
simples agregados de seres unicelulares, que formavam estruturas designadas colônias.
Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. Contudo, ao
longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas
funções. A diferenciação celular, relacionada com a função especifica acentuou-se no
decorrer da evolução, originando os verdadeiros seres multicelulares. Neste processo foram
surgindo diferentes tipos de células, que mais tarde originaram tecidos, os quais levaram ao
aparecimento de órgãos. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia,
levando a uma diminuição da taxa metabólica, além de uma maior independência em
relação ao ambiente.
Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do
ambiente, foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente
(receptores sensoriais), centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e
efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular, endócrino e exócrino) (Isoldi e
Castrucci, 2007).
Para garantir o sucesso e a diversificação da vida, foi necessário o aparecimento de
estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. Nos
organismos multicelulares, a manutenção da homeostase é dependente de um
processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. Além
disso, para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente, sinais
intracelulares devem ser transduzidos, ampliados e finalmente convertidos para uma
resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer, 2003). Muitos hormônios,
neurotransmissores, quimiocinas, mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus
efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. Esses
transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias
que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col., 2003). A maioria das

Julho/2010 Pág. 27
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de


um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col., 2003).

Alvos para ação dos mensageiros químicos


Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo, que possam
interpretar os sinais. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar
elementos que reconheçam esses mensageiros, os chamados receptores, que mudam sua
conformação quando os mensageiros se ligam a eles. A ligação mensageiro-receptor inicia
uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos
mensageiros, ativando múltiplas vias de sinalização. Cada classe de receptor ativa
segundos mensageiros específicos, os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas
intracelulares específicas para o sinal inicial. Os princípios moleculares nos quais a
transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas
e sua fosforilação ou desfosforilação, onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente
a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. Deste modo, o balanço entre
fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. Ainda,
os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares. Alguns deles são muito
rápidos em escala de milissegundos, enquanto os efeitos produzidos por hormônios
esteróides, por exemplo, ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. 1) (Rang e Dale,
2007).
Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a
distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo, bem como o tipo de
inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. Os sinalizadores secretados pela
própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de
parácrinos, enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são
conhecidos como autócrinos, além dos sinalizadores que são lançados na corrente
sanguínea, cuja célula alvo encontra-se distante, os quais são chamados de hormônios. Os
sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados
neurotransmissores, os quais são lançados na região entre neurônios, entre neurônios e
fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina; essa região é
conhecida como fenda sináptica. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua
solubilidade, em hidrossolúveis e lipossolúveis. Os hidrossolúveis são incapazes de
atravessar a membrana celular, e dessa forma, devem ser reconhecidos por receptores
localizados na membrana. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química
pela membrana podendo, portanto, atravessar a membrana e atuar dentro das células,
chegando muitas vezes ao núcleo, dessa forma sendo reconhecidos por receptores
intracelulares (Isoldi e Castrucci, 2007).

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Sinalização Celular

Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação. Adaptado de Rang e Dale, 2007

Interação molécula-receptor
Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. Agonistas e
antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e
funções de subtipos de receptores (Squire e col, 2003). Os agonistas ativam os receptores,
enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios, porém sem causar
ativação desse receptor, e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. A ocupação de
um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse
receptor. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que
desencadeie uma resposta tecidual. A ligação e ativação representam duas etapas distintas
da geração de uma resposta mediada por um receptor, que é iniciada por um agonista. A
tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. Os ligantes
com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e,
consequentemente, ocupam uma porcentagem significativa dos receptores, mesmo em
baixas concentrações (Rang e Dale, 2007).

Tipos de receptores
Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão, os
receptores são agrupados em quatro superfamílias, a saber: (1) superfamília tipo 1 -
receptores-canal (ou ionotrópicos), receptores de membrana que formam o próprio canal

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

iônico; (2) superfamília tipo 2 - receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou


metabotrópicos), receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por
meio de proteína G; (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos, receptores de
membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral, tirosina quinase,
fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 - receptores reguladores da transcrição de genes
(ou receptores nucleares ou receptores intracelulares), receptores solúveis no citosol (Fig.
2).

Figura 2 - Tipos de famílias de receptores

Superfamília tipo 1: receptores-canal


Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular, e só
podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou
transportadoras. Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α, β, γ,
δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. 3). Cada subunidade
consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4. Na ausência de
um neurotransmissor, esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são
impermeáveis aos íons. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança
conformacional que abre o canal, permitindo o fluxo dos íons (Fig. 4). As mudanças na
corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente
mensuradas numa escala de milissegundos. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se
dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col., 2003). O
primeiro receptor dessa família a ser clonado, foi o receptor nicotínico da acetilcolina
(nAchR), o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores
ionotrópicos. Sua estrutura pentamérica (2α, β, γ, δ) possui dois sítios de ligação à
acetilcolina, cada um na interface das duas subunidades α. Para que o receptor seja

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Sinalização Celular

ativado, duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e, dessa forma, o canal
se abre quase que instantaneamente, permitindo a passagem de íons (Rang e Dale, 2007).
Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é
despolarizada. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de
curta duração, mesmo quando a despolarização é mantida. Os canais mais importantes
nesse grupo são os canais seletivos para sódio, potássio e cálcio.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Figura 3 – Estrutura do receptor canal. Figura 4 - Esquema de abertura do canal.


Retirado de Squire e col., 2003. Retirado de Squire e col., 2003.

Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um


mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. Os receptores desse tipo
controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. A maior parte dos
neurotransmissores excitatórios, como acetilcolina, glutamato, ácido gama-amino butírico
(GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+.
Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não
extracelulares, tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio, se abrem,
hiperpolarizando a célula, quando ocorre um aumento da [Ca2+]i; (ii) canais de potássio
sensíveis a ATP, se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai. Esses canais
são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular; (iii) existem
ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares, como canais de potássio
sensíveis a diacilglicerol, cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. Dependendo do
íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar
de forma diferente, podendo levar à despolarização celular, como é o caso de alguns
subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato, que são canais de sódio ou cálcio; ou
dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório, como é o
caso de GABA e glicina, que são canais de cloro (Squire e col., 2003).
Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação
de longo termo (LTP), plasticidade sináptica e neurodegeneração. O influxo de íons através

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da


despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico, essa mudança de voltagem da
membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal, fazendo com que este
permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio
(Kloda e col., 2007).

Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G


Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga, sendo os primeiros receptores
a emergirem entre os organismos unicelulares. O papel central desses receptores em
organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. A ligação do
mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança
conformacional no receptor, o qual recruta e ativa diferentes proteínas G, as quais
estimulam a geração de adenosina 3’,5’ monofosfato (AMPc), fosfoinositídeos, diacilglicerol e
outros segundos mensageiros. Em termo, esses segundos mensageiros disparam eventos
como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de
fatores nucleares (Brivanlou e Darnell, 2002). Os estímulos extracelulares que ativam os
GPCRs incluem luz, íons, nucleotídeos, lipídeos, esteróides, aminoácidos modificados,
peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col., 2003)

Estrutura da proteína G
A interação de hormônios, neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores
7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a
proteína G – composta das subunidades α, β, γ – no interior da célula. No estágio inativo
GDP liga-se à subunidade Gα. (Fig. 5). Quando a proteína G é ativada, o GDP é liberado, e
o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do
complexo Gβγ. Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus
efetores, como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col., 2002). A duração do
sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente
reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm, 1998). A cinética da ativação da proteína G
através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. Baseado em observações de que a
atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas,
postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. Vários
efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da
proteína G. Recentemente, uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização
da proteína G” (proteína RGS), capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α
da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns, 2005).

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Sinalização Celular

Classicamente, as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na


similaridade de suas subunidades α: Gαi/0, Gαs, Gαq e Gα12/13 (fig. 7) (Cabrera-Vera e col.,
2003; Pierce e col., 2002). Cada família consiste de vários membros que frequentemente
mostram padrões de expressão específicos. Membros de uma família são estruturalmente
similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais.

Figura 5 - Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. A interação do ligante exógeno


com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G
intracelular. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para
GTP na subunidade Gα. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. Ambas
subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores
intracelulares. O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade
GTPásica da subunidade Gα, levando a ligação do GDP a Gα. A reassociação de GDP com Gα
completa o ciclo.
Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs, adenililciclase (AC) é ativada pela
subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc, como representado na figura 6
(Isoldi e Castrucci, 2008). Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos, as
quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina, outras inibidas por baixas
concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou
pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). Em
alguns casos, a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi), promovendo assim
uma diminuição dos níveis de AMPc, ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa
forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz, 2001). Para estudar
as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium
botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

tornando-as incapaz de interagir com o receptor. Dessa forma o tratamento com PTX resulta
em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns, 2005).

Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo


adenililciclase.
Depois de formado, o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc
(PKAs). Na sua forma inativa, a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R), e
duas subunidades catalíticas (C). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas
subunidades (R), e subsequente liberação da subunidade (C). Após ativação, PKA pode
atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. Na ausência de
AMPc, a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). As
subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB, levando a célula
a um aumento da transcrição de genes específicos. CREB liga-se a regiões do gene que
contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de
expressão de genes (Schwartz, 2001).

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Sinalização Celular

Figura 7 - Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G. As


setas em vermelho representam inibição de um componente da via, e as setas em verde a ativação.
A subunidade Giα inibe adenililciclase, promovendo a diminuição de AMPc. A subunidade Gsα ao
contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. A subunidade Gqα ativa a produção de
DAG e IP3, e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio.

A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G


(ver fig. 8). Quando a proteína Gq é estimulada, promove a ativação da enzima fosfolipase
Cβ (PLCβ). Uma vez ativada, a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4,5-
bisfosfato de fosfatidilinositol, gerando 1,4,5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol
(DAG). IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula, onde se ligará aos receptores
de IP3 (IP3R), que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático
ou sarcoplasmático. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a
conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. Em muitos tipos
celulares, a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de
cálcio da membrana celular, promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular
para o interior da célula. O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da
proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação, ou ainda,
podendo ser clivado, gerando ácido araquidônico, o qual dá inicio à via de síntese de
eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci, 2007).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a


participação da fosfolipase C.

Existe ainda uma superfamília de proteínas G, referidas como proteínas G


monoméricas (são formadas somente pela subunidade α), ou Ras. Essas proteínas Ras
estão envolvidas em uma variedade de processos celulares, incluindo proliferação,
diferenciação, migração, maturação e apoptose. A ativação de Ras sob estimulação de
GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator
nucleotídeo de guanina, o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando
na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col., 2008). As proteínas
Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs, para o interior das
células, afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska, 1999).

Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos


São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina
quinase, serina/treonina quinase, tirosina fosfatase, guanililciclase. Os receptores do tipo
serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ).
Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos, os receptores do tipo I e II, os quais são
classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. O domínio
citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I
em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. O receptor
tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas, dessa forma
ativando a transdução do sinal para o núcleo. As proteínas SMAD ligam-se ao DNA
reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e, desse modo, essa cascata de

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Sinalização Celular

sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças


incluindo o câncer (Wright e col., 2009).
As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores
representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos
terapêuticos. (Levitzki, 2003). Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas
transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal
extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio
receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till, 2000). Os RTKs ativam numerosas vias de
sinalização dentro da célula, levando a proliferação, diferenciação, migração, ou mudanças
metabólicas. A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de
crescimento, tais como fator de crescimento epidérmico (EGF), fator de crescimento de
fibroblasto (FGF), fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF), fator de crescimento
endotelial vascular (VEGF). Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos
ligantes polipeptídicos, uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que
possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. 9). A grande maioria de RTKs é
monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. A ativação do receptor pelo ligante leva à
ativação da porção quinásica do receptor, resultando em autofosforilação e fosforilação de
substratos SHC, o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. Nas vias de
sinalização de receptores monoméricos, a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada,
resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB, c-Fos e Elk-1, envolvidos na
transcrição de genes relacionados à proliferação celular. Em adição aos RTKs, existe uma
ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs), as quais incluem Src,
Janus Kinases (Jaks), Ab1 (Fig 10). Os NRTKs são componentes das cascatas de
sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores
acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till, 2000).
Em contrapartida, os receptores tirosina fosfatase, quando ativados por ligantes,
desfosforilam proteínas celulares. Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e
na adesão celular (Isoldi e Castrucci, 2007).
Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico
denominado peptídeo atrial natriurético (ANP), o qual possui um importante papel na
regulação da homeostase cardiovascular, através da manutenção da pressão arterial. As
ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores.
Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que
aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes
de GMPc. A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase
(Woodard e Rosado, 2008)

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 9 – Receptores tirosina quinase. Via de sinalização envolvendo a participação das MAP
quinase.

Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase, envolvendo a participação das
tirosinas quinases citosólicas.

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Sinalização Celular

Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes

A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares


(NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes, incluindo
receptores de hormônio da tireóide (TH), esteróides, retinóides, vitamina D, colesterol entre
outros. Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no
desenvolvimento, metabolismo, homeostase e doenças (Togash e col., 2005). A ativação
dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos, fosforilação e interação com
outras proteínas. Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento
responsivo ao DNA como homo- ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de
fatores de transcrição ligados ao DNA. Essa atividade tem sido relacionada à formação de
complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras,
causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses
genes alvo (Hart, 2002).
Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de
fatores de transcrição em mamíferos, e podem ser classificados de acordo com o tipo de
hormônio que se liga a eles. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides
(glicocorticóides, mineralocorticóides, andrógenos e estrógeno), derivados de esteróides
(vitamina D3), não esteróides (hormônios da tireóide, retinóides, prostaglandinas) e
receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos).
A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA, e
assim são classificados dentro de quatro grupos, dependendo de sua habilidade para se
ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a
proteína de choque térmico (“shock heat” hsps). A ligação do hormônio leva a mudança
conformacional, dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homo-
dímeros. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA; (2) a segunda classe
representa os receptores tais como hormônios da tireóide, retinóides, prostaglandinas e
vitamina D3. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio. A
ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao
hormônio e conseqüente ativação transcricional. Os receptores dessa classe são
predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros; (3) os receptores órfãos que
podem se ligar ao DNA como formas monoméricas; (4) ou como dímeros (Tenbaum e
Baniahmad, 1997).
Em geral, os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável
domínio amino-terminal de ligação ao promotor, um domínio de ligação ao DNA altamente
conservado (DBD), e um domínio c-terminal menos conservado, de ligação ao ligante (LBD),
como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col., 1995). O motivo de ligação ao DNA é

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. O motivo de ligação


consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco. Quatro resíduos de
cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+
(Ribeiro e col., 1995; Tenbaum e Baniahmad, 1997). O LBD confere especificidade na
ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação. Essas
funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps, translocação para o núcleo,
homodimerização, heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col., 1995).

Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares. O esquema apresenta os diferentes domínios dos
receptores nucleares. Modificado de Rang e Dale, 2007.

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Sinalização Celular

Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada

Laura Nogueira da Cruz


Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium
laurancruz@gmail.com

Malária
Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando
morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who, 2005). A Africa subsaariana
concentra 90% dos casos, no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da
doença, principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. 1)
onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. darling, no Brasil
e A. gambiae, na África), que transmite as espécies infectantes humanas P. falciparum, P.
malariae, P. vivax e P. ovale, sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil.
P. falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em
maior incidência na África. No Brasil, a maioria dos casos é de P. vivax (Who, 2005).
É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e
existem quase 100 espécies de plasmódios, 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam
aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico, quando os
insetos hematófagos já existiam).
Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados, no laboratório, como
modelos experimentais. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o
desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater
a epidemia.

Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária.


(Fonte : http://en.wikipedia.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003.png)

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Combate à malária
Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o
desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. A mais importante dessas foi a
cloroquina que possui baixa toxicidade, baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas
uma vez por semana. Atualmente, no entanto, um grande problema no combate à malária
deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina, derivados de cloroquina e a
grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col., 1996). Para inibir o
aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o
combinado de 2 anti-maláricos.
A incidência da malária, no Brasil, por exemplo, aumentou cerca de 10 vezes nos
últimos 30 anos, sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS,
2002), área endêmica do país, composta pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas,
Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Nos Estados fora da
Amazônia Legal, o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade
dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países,
principalmente da África
Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de
novas drogas, preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col., 1993; Rosenthal,
1998), pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de
malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no
futuro próximo (Hoffman, 1996). Além disso, os esforços para controlar o mosquito
Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso, 1991).
Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se
dirigem a áreas de maior transmissão. O regime profilático consiste em prescrição médica
dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes,
grau de risco da infecção da área de destino, perfil de resistência ás drogas e avaliação dos
efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias, 2005)
A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem, para avaliação
dos efeitos colaterais, e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica, a
fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea, mesmo após a sua
transição pelo estágio hepático, período de incubação que pode levar á formação de formas
latentes do parasita, responsáveis por recaídas. Contudo, apesar das medidas preventivas,
febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada
pela infecção. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área
de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante.

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Sinalização Celular

Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com
inseticida ajuda no combate da malaria. (Chouaibou e col., 2006). A malaria caiu na década
de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT, que combatia o mosquito!

Ciclo de vida
O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular, de vida intracelular obrigatória, que
mede 1,6 X 1,0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. Possui um ciclo de vida caracterizado
pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento
Em vertebrados, a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles, fêmea, que
retira 3 a 4 microlitros de sangue, enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos. Uma
vez na corrente sanguínea, os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para
o estágio assexuado de merozoito. Durante este período a infecção é assintomática e cada
esporozoito forma 30,000 merozoitos. Estes são liberados diretamente na corrente
sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col., 2006). Na corrente sangüínea amadurecem
passando pelos estágios de anel, trofozoito e esquizonte. Por um processo ainda
desconhecido, alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em
gametócitos, a forma infectante do mosquito (Garcia, 2001).
Para o fechamento do ciclo, o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita -
terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação. Estes, após o
ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão
transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. 2).

Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Malaria).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

O ciclo intraeritrocítico é, portanto, o responsável por toda manifestação clínica na


malária, sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para
infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira, típicas da doença (Hawking,
1970). Dependendo da espécie de parasita, estes sintomas ocorrem em intervalos distintos –
3 ou 4 dias para P. falciparum e P. vivax, respectivamente (Garcia, e col., 2001) (Tab. 1).

Função da melatonina
A transição do estágio intraeritrocítico, bem como o processo de invasão in vivo e a
produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia, 2001) e na
maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab. 1)

Tabela 1- Período do ciclo intraeritrocítio de diversas


espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia, e col., 2001).

Parasita Hospedeiro vertebrado Período do ciclo


intraeritrocítico
P. knowlesi primata 24h
P. cathemerium pássaro 24h
P. vinckei roedor 24h
P. chabaudi roedor 24h
P. berghei roedor 24h
P. yoelii roedor 18h
P. gallinaceum galinha 36h
P. falciparm homem 48h
P. vivax Homem 48h
P. cynomolgi Primata 48h
P. coatneyi Primata 48h
P. malariae Homem 72h
P. inui Pássaro 72h
P. brasilianum Primata 72h

No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium, os processos de divisão


celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. Foi
demonstrado por Hotta e col., (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o
desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. Quando se mantém parasitas em cultura,

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Sinalização Celular

a sincronia é perdida, um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel
fundamental no estabelecimento do ritmo. (Hotta e col., 2000).
A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados, plantas e protozoários)
podendo ser sintetizada em vários tecidos, porém sua síntese rítmica é confinada
primariamente à glândula pineal. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina, que está
presente em grande quantidade na glândula pineal.
É interessante observar ainda que os precursores da melatonina, que são devirados
do triptofano, têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto
na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col., 2005).
Hotta e col., (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da
fosfolipase C que, por sua vez, ativa a via de inositol 1,4,5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do
retículo endoplasmático (RE), nos estágios trofozoitos do Plasmodium.

Homeostasia e sinalização por cálcio


Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em
muitos processos biológicos de células eucarióticas, como organização do citoesqueleto,
divisão e diferenciação celular (Berridge, 2003).
As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+
estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática, no retículo endoplasmático
além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e
Garcia, 1997; Garcia e col., 1998).
Especificamente, para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2
compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia, 1997,
Varoti e col., 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col., 1998, Varotti e col.,
2003).
Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no
processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento
da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. (Garcia, 1999, Gazarini e col.,
2003).
Como qualquer célula eucariótica, o citoplasma do eritrócito possui baixa
concentração de cálcio (menor que 100 nM ), sendo que o ambiente extracelular encontrado
pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM. A ausência de Ca2+
extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua
sobrevivência.
Dentro deste contexto, nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o
problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive, através da invaginação da membrana
citoplasmática do eritrócito, pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP)

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o


interior do VP). Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+
necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col., 2003).

Enzimas proteolíticas
Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os
protozoários medicamente importantes como leshmania, toxoplasma, giardia e plasmodium
(Rosenthal,1999).
Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo
utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos
do hospedeiro, degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para
suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal,1999).
As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989; Barrett,
1994), sendo três delas (serine, cisteina e aspartil proteases), assim denominadas pela
existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease , pela necessidade do íon
metálico para catálise.
Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos
esquizontes maduros, são necessárias proteases do parasita, pois durante estes eventos
proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do
parasita são proteolicamente processadas (Klemba, 2002).
Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é
utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman, 1988).
O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo
de vida do parasita eritrocítico (Ball e col., 1948; Groman, 1951; Roth e col., 1986), a
concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não
infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à
composição de aminoácidos da hemoglobina.

Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases


Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos, com seqüências específicas
de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela
protease (Fig. 3). Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases
pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas.
Em estudos realizados com P. chabaudi utilizou-se este quelante interno
fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que

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Sinalização Celular

melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente


(Farias et al, 2005).
Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do
parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o
cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo
endoplasmático), nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias
et al, 2005).

Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos


substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF).(Modificado de Carmona
et al, 2009).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Sinalização Celular

RNAi: ouvindo a voz do silêncio

Maísa Costa
Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial
maisa.bio@hotmail.com

Introdução
O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos
quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. O silenciamento é
considerado uma modificação epigenética. Modificações epigenéticas na expressão gênica
são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de
DNA, e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação
gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col., 2001). Até o final da década de 1980,
somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como
epigenéticas (Lewin, 1998). Entretanto, durante a década de 1990, um grande número de
fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e pós-
transcricional foram descritos em plantas, fungos, animais e protozoários, introduzindo o
conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe, 2000; Matzke e col., 2001).
Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo
& Dougherty, 1992), percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema
ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col., 1993b). Atualmente,
sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica, que atua
principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na
manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon, 2003). O componente unificador
dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é
o RNA de fita dupla (dsRNA). A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação
de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos, um processo conhecido como silenciamento
gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing, PTGS) em plantas e RNA-
interferência (RNA interference, RNAi) em animais. Componentes da maquinaria de PTGS e
RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs, uma
classe de pequenos RNAs com função regulatória, que foram originalmente identificados
como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e
col., 2000). Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido
em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina, incluindo metilação do DNA
genômico (Wassenegger e col., 1994), formação de heterocromatina (Kennerdell e col.,
2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky, 2004a). Estas descobertas indicam que
os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

pós-transcricional, e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos


nuclear e citoplasmático.
Apesar de algumas diferenças nos mecanismos, similaridades evidentes sugerem
que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos.
A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em
Arabidopsis thaliana, C. elegans, Drosophila melanogaster, Neurospora crassa,
Schizosaccharomyces pombe, Tetrahymena thermophila, camundongos e humanos,
apóiam essa hipótese (Denli & Hannon, 2003). Entretanto, o mecanismo apresenta
particularidades em cada um desses organismos, conforme verificado pela identificação de
componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles.

Histórico
O fenômeno, atualmente denominado silenciamento de RNA, foi observado pela
primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores
(Napoli e col., 1990; Van Der Krol e col., 1990). Estes pesquisadores tinham como objetivo
criar petúnias transgênicas, cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. A
estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase
(CHS), uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. Para isso foi introduzida uma
cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV).
Entretanto, ao contrário do esperado, as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam
padrões distintos de variegação floral, incluindo linhagens que apresentavam flores
totalmente brancas, ou seja, sem pigmento. A análise molecular das linhagens transgênicas
comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de
antocianinas, inibindo, simultaneamente, a expressão do gene endógeno pré-existente e da
cópia introduzida. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com
uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs. O fenômeno foi denominado
co-supressão, pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do
próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col., 1990; Van Der Krol e col.,
1990). Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. crassa, no qual foi denominado
quelling (Cogoni e col., 1996; Romano & Macino, 1992), e em animais (Drosophila e C.
elegans), nos quais foi denominado RNAi (Fire e col., 1998).
Alguns anos após a descrição da co-supressão, um fenômeno semelhante foi
observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a
vírus. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial
do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col., 1996; Lindbo e Dougherty, 1992;
Lindbo e col., 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col.,
1995). Em ambos os casos, esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a

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Sinalização Celular

replicação do vírus, interrompendo o seu ciclo de infecção. A princípio, observou-se que


algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. Curiosamente,
as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam, ou produziam em
pequena quantidade, os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais, enquanto nas
linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína
transgênicos (Goodwin e col., 1996; Mueller e col., 1995). A análise da taxa de transcrição
dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos
transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de
seqüências homólogas (Mueller e col., 1995).
A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o
mecanismo de silenciamento. A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a
observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com
vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. O mecanismo de
indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced
gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col., 1998; Kumagai e col., 1995; Ratcliff e col., 2001;
Ruiz e col., 1998).
A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em
C. elegans. Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a
expressão gênica, foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes
para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues, 1995). O
paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento, e
que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à
presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de
RNA fita simples (Fire e col., 1998; Montgomery e Fire, 1998).
A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a
identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt), de orientação senso e anti-
senso, que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao
processo (Hamilton e Baulcombe, 1999).
Esses pequenos RNAs, atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs),
foram primeiramente observados em plantas, sob diferentes sistemas de indução de
silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno, introdução
de um transgene sem homologia com gene endógeno, e VIGS) (Hamilton e Baulcombe,
1999). Além de explicar a especificidade do sistema, o acúmulo de siRNAs em ambas as
orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA.
Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem
de dsRNA injetado na célula, e que servem como “guia” para direcionar a degradação de
mRNAs homólogos (Bernstein e col., 2001; Zamore e col., 2000). Oligonucleotídeos

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col., 2001a) e
in vivo (Elbashir e col., 2001b), na ausência de dsRNA.
A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com
Drosophila, onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por
dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de
aproximadamente 25 nt, cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais
RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col., 2000). Essa RNAse III, denominada “Dicer”,
produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox. 250 nt) em um
processo dependente de ATP, e os siRNAs servem como guia para a degradação de
mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced
silencing complex) (Bernstein e col., 2001; Hammond e col., 2000). A enzima Dicer é
conservada evolutivamente, com homólogos presentes em fungos, plantas e animais
superiores. A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para
RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs
(Bernstein e col., 2001) e que mutantes de C. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não
ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col., 2001; Ketting e col., 2001;
Knight e Bass, 2001).
A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação
da proteína AGO2, pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col., 2001).
AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. Estudos
subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC
em mamíferos, fungos, nematóides, protozoários e plantas (Carmell e Hannon, 2004;
Martinez e col., 2002). Recentemente, foi demonstrado que AGO2 de humanos possui
atividade de RNase III, consistindo provavelmente na proteína Slicer, que media a clivagem
do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col., 2004; Meister
e col., 2004; Okamura e col., 2004). A existência de um fator difusível dominante envolvido
na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N. crassa
(Cogoni e col., 1996). Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e
não silenciados exibiam o fenótipo silenciado. Analogamente, em C. elegans, RNAi pode
ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da
ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col., 2001). Este fator é dominante,
pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não, toda a progênie é silenciada
(Grishok e col., 2001). Em plantas, PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de
porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo, mas
não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo, indicando que o sinal é específico
em termos de seqüência (Palauqui e col., 1997). A natureza deste sinal sistêmico ainda não
está totalmente esclarecida. Inicialmente foi proposto que, devido à especificidade de

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Sinalização Celular

seqüência, este fator seria pelo menos em parte, um RNA (Vaucheret e Fagard, 2001).
Recentemente, a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização
de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita
maxima phloem small RNA binding protein 1 - CmPSRP1). Estudos de microinjeção
forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de
25 nt fita simples, mas não de moléculas de RNA fita dupla, apoiando a hipótese de que o
sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não
necessariamente siRNAs) (Yoo e col., 2004).
Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento
de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs,
os micro RNAs (miRNAs). Inicialmente, foi demonstrado que o gene Lin-4, conhecido por
controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. elegans, não codificava
nenhuma proteína, e sim um par de pequenos RNAs, um com aproximadamente 22 nt e o
outro com 16 nt (Lee e col., 1993). Estes pequenos RNAs eram complementares a várias
regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14, propondo-se que eles mediam a
repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR, inibindo o processo de tradução. Sete
anos depois da descoberta de Lin-4, foi descoberto um segundo gene, Let-7, que também
codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C. elegans (Reinhart e
col., 2000; Slack e col., 2000). Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento,
foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col., 2000). Pouco
tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em
Drosophila, C. elegans, Arabidopsis e humanos (Lagos- Quintana e col., 2001; Lau e col.,
2001; Lee e Ambros, 2001; Llave e col., 2002b). Os produtos destes genes eram
estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e
eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de
adquirir estrutura secundária em forma de grampo. Entretanto, em plantas, diferente dos
stRNAs lin-4 e let-7, eles não interferem com o processo de tradução. Nos casos em que o
alvo desses pequenos RNAs já foi identificado, comprovou-se que ocorre pareamento entre
o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo, e que esse pareamento gera uma
região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col., 2001). O termo
“microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a
partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e
col., 2001). Atualmente, acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na
regulação gênica pós-transcricional, com papel em processos como a proliferação celular,
apoptose, sinalização e diferenciação. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir
alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à
metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

(Wassenegger e col., 1994). A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA


apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir
silenciamento gênico, neste caso em nível transcricional, por meio da metilação desta
seqüência (Mette e col., 2000). A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio
com a descoberta das proteínas polycomb, cromoproteínas relacionadas com a repressão
transcricional por favorecer a formação de heterocromatina, e com a formação de estruturas
fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica
envolvidas em RNAi em C. elegans e Drosophila (Akhtar e col., 2000; Tabara e col., 1999).
Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S.
pombe, onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são
requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col., 2002). No início de
2004, foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de
heterocromatina em S. pombe, denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional
gene silencing). O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs
homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer. Sua existência sugere que
RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional
(Verdel e col., 2004).

O mecanismo do silenciamento de RNA


Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA
(Xie e col., 2004) (Fig. 1). Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas
por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e
col., 2002). A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs, que está
envolvida na degradação de RNA viral interferindo, ou mesmo bloqueando, o ciclo de
infecção. O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno, de um transgene,
ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. Em vírus com genoma
de DNA, dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos
complementares (Baulcombe, 2004). A segunda via é a de silenciamento de mRNAs
endógenos via miRNAs. Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio
do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo, resultando na clivagem do mRNA ou
na repressão de sua tradução (Baulcombe, 2004). A terceira via é nuclear e está associada
à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. Uma importante função para esta via
é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por
transposons (Baulcombe, 2004).

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Sinalização Celular

Figura 1- Modelo para o silenciamento de RNA, indicando as três vias atualmente conhecidas.
A. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. Uma molécula de
dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso, de um transgene anti-senso
ou de um transgene em repetição invertida. O dsRNA é provavelmente transportado para o
citoplasma, onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas), gerando os siRNAs. Os siRNAs são
incorporados ao complexo RISC, que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam
identidade com a seqüência do siRNA. Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua
replicação. B. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. Os miRNAs são
transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de
grampo. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo, gerando o miRNA. O miRNA
é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. C. Silenciamento transcricional
via siRNAs. Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou
de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. O dsRNA é processado pela

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

enzima DCL-3 (em plantas), e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS. Esse
complexo atua no DNA genômico, resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na
formação de heterocromatina. (Modificado de Zerbini e col., 2005).

As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em


plantas, fungos, animais e protozoários, sugerindo a existência de um mecanismo ancestral
comum a estes organismos e às três vias, embora com diferenças significativas (Zamore,
2002). Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um
processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação, amplificação, sinalização
sistêmica e manutenção. Na etapa de iniciação, o dsRNA é processado em siRNAs com
aproximadamente 21-24 nt. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em
Drosophila, DCR1 em C. elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e
col., 2001; Knight e Bass, 2001; Schauer e col., 2002). Dicer possui um domínio de RNA
helicase na região amino-terminal, um domínio central PAZ (Piwi, Argonaute e Zwilli) de
ligação a RNA, dois domínios catalíticos, um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um
domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon, 2004).
O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua
como um dímero antiparalelo, formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22
nt (Blaszczyk e col., 2001). S. pombe, C. elegans e vertebrados possuem somente uma
Dicer, envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e
col., 2001; Grishok e col., 2001; Hutvagner e col., 2001; Ketting e col., 2001; Knight e Bass,
2001; Volpe e col., 2002). Em Drosophila, foram identificados dois parálogos de Dicer que
atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos
precursores de miRNAs, enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs
longos (Lee e col., 2004c).
Em Arabidopsis, a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui
quatro membros. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col., 2002; Xie e col.,
2004). DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus,
embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de
siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus, dentre vários vírus testados (Xie e
col., 2004). Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2.
DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o
silenciamento de cromatina. Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão
associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes
do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col., 2002; Xie e col., 2004). Até o
presente, ainda não foi estabelecida a função de DCL4.

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Sinalização Celular

O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à


proteína R2D2, que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col., 2003). A função de
R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col.,
2004). A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica
ao terminal 3’ da fita complementar. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de
mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore, 2002). Todos os complexos RISC já
caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col.,
2001; Hutvagner e Zamore, 2002; Martinez e col., 2002; Mourelatos e col., 2002; Verdel e
col., 2004). A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas
especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. O número de parálogos identificados
em diferentes organismos varia de um em S. pombe (Verdel e col., 2004) a mais de vinte
em C. elegans (Carmell e col., 2002; Grishok e col., 2001). Em Arabidopsis foram
identificados dez membros (Morel e col., 2002), em Drosophila foram identificados cinco
(Williams e Rubin, 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col., 2003). Em humanos
foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína
entre proteínas Argonauta e Dicer, o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao
RISC (Doi e col., 2003; Pham e col., 2004). Diversas evidências sugerem que as diferentes
proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo.
Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de
silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col., 2000; Kidner e Martienssen,
2003), enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman
e col., 2003).
O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo
sem afetar o siRNA guia. A subunidade catalítica é denominada Slicer, e foi demonstrado
que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC,
indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col., 2004).

Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA


A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida
em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. A observação de que
plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção
pelo mesmo vírus, devido à ativação e manutenção do silenciamento, levou à hipótese de
que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e
col., 1998; Covey e col., 1997). Evidências adicionais foram obtidas com a observação de
que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por
alguns vírus (Morel e col., 2002), e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de
suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col., 1998; Brigneti e col., 1998;

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Kasschau e Carrington, 1998) e animais (Li e col., 2002). Além da defesa contra infecção
por vírus, o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição
de DNA. Em C. elegans e Chlamydomonas reinhardtii, indivíduos com mutações em
componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e
col., 1999). Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de
retrotransposons em Trypanossoma brunei, indicando que o intermediário de dsRNA
produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e
col., 2001). A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à
sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. De forma
análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos, o silenciamento de RNA é
específico contra elementos exógenos, a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma
resposta massiva contra um invasor (nesse caso, uma molécula de ácido nucléico)
(Plasterk, 2002).
Apesar da falta de evidências diretas, outra função proposta para o mecanismo é a
de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs
celulares (Tijsterman e col., 2002).
O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta
dos miRNAs, estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação pós-
transcricional de genes endógenos. Atuando de forma análoga aos siRNAs, os miRNAs são
processados pela Dicer (Lee e col., 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col.,
2002), anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA, o que leva à
degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. A maioria
dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de
transcrição, particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o
desenvolvimento (Kasschau e col., 2003; Rhoades e col., 2002). Em animais, os mRNAs
controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos,
incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col., 2003), o metabolismo de lipídeos (Xu e
col., 2003), a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col.,
2003).
Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na
formação da cromatina e/ou reorganização genômica, incluindo a formação de
heterocromatina em S. pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma
de Tetrahymena thermophila (Hall e col., 2002; Taverna e col., 2002; Volpe e col., 2002).

Caráter sistêmico do silenciamento de RNA


Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico. As
primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que

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Sinalização Celular

heterocárions de N. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o


fenótipo silenciado (Cogoni e col., 1996). Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col.,
1997), C. elegans (Fire e col., 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col., 2001) demonstraram
que o silenciamento não é restrito às células iniciais, sugerindo a existência de um sinal
sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e
que ativa o mecanismo em tecidos distantes.
A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de
enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col., 1997).
Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii,
que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase, e o gene
exógeno uidA, que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). O silenciamento foi sempre
transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o
mesmo transgene, mas não para enxertos expressando transgenes distintos. Os mesmos
resultados foram obtidos nos três sistemas, indicando que o sinal sistêmico não é uma
característica específica de um gene em particular. Em todos os casos o silenciamento do
enxerto foi específico, ou seja, as seqüências silenciadas foram as mesmas que
encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. Esta especificidade de seqüência sugere que
o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição. A transmissão do
silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente
separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada,
indicando a propagação a longa distância do sinal.
A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde
plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram
silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. Nestes experimentos,
folhas de N. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe,
1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col., 1998). O
silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados, e
subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta.
Observações semelhantes foram realizadas em C. elegans. A expressão de GFP foi
silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se
indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo
bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire, 1998; Timmons e col., 2001).
O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente
silenciada ainda não é totalmente compreendido. Estudos em C. elegans identificaram um
gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos, porém totalmente
dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. Este gene, denominado Sid1 (systemic
RNA interference deficient), codifica uma proteína transmembrana que se localiza na

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

periferia celular (Winston e col., 2002). Para determinar a função da proteína SID1, os
autores utilizaram células S2 de Drosophila, capazes de ativar normalmente o mecanismo
de silenciamento, porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. Estas
células foram transformadas com dois plasmídeos, o primeiro codificando luciferase e o
segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. As células foram imersas
em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48
horas e a atividade de luciferase foi medida. As células que expressavam SID1 funcional
apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com
plasmídeos expressando SID1 não funcional, mesmo na presença de altas concentrações
de dsRNA. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da
célula. Além disso, foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é
sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas, sugerindo que ocorre de
forma passiva (Feinberg e Hunter, 2003). O transporte passivo poderia ocorrer nos dois
sentidos, ou seja, SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula
inicialmente silenciada.
Em plantas, acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula
via plasmodesmas (Himber e col., 2003; Lucas e col., 2001) e a longa distância via floema
(Klahre e col., 2002; Mallory e col., 2003). Entretanto, não se sabe de que forma (ativa ou
passiva) o transporte ocorre.
Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico, pois eles
possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade, estão
consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para
movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas, além de serem suficientes para induzir o
silenciamento de RNA em Drosophila, C. elegans, e em células de mamíferos (Mlotshwa e
col., 2002). Entretanto, existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs
estejam associados ao sinal sistêmico. Estudos com HC-Pro, uma proteína viral supressora
de silenciamento, demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HC-
Pro não ocorre acúmulo de siRNAs, entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal
sistêmico não é afetada (Mallory e col., 2001). Além disso, em C. elegans, indivíduos
mutantes no gene Rde-4, essencial para que o silenciamento ocorra, produzem siRNAs de
forma deficiente, porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col., 2000).
Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA
demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas
para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt).
Curiosamente, os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da
classe dos siRNAs longos. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüência-
específica do mRNA alvo, entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e

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Sinalização Celular

com a metilação de DNA. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão
envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos, enquanto
os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de
metilação do DNA (Hamilton e col., 2002). Entretanto, essa hipótese ainda não foi
comprovada, e, dessa forma, a natureza precisa do sinal sistêmico permanece
desconhecida.
Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita
maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente
envolvidos no processo de sinalização sistêmica, pois uma análise comparativa de
seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs. Experimentos realizados com
plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs
derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. Uma análise bioquímica desse
extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs
de fita simples, denominada CmPSRP1 (C. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1),
sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico
(Yoo e col., 2004).

MicroRNAs
MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt
envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. A presença de miRNAs já foi
detectada em S. pombe, Drosophila, camundongos, humanos e plantas (Lagos- Quintana
e col., 2003; Lee e Ambros, 2001; Llave e col., 2002b).
Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs
alvos, porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. Os siRNAs
são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene, vírus, transposon
ou gene endógeno. Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não
codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos.
O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0,5-1% do número
total de genes do genoma em questão. C. elegans e Drosophila possuem
aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs, enquanto seres humanos
possuem de 200 a 255. Pelo menos 0,2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs.
Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na
regulação gênica como, por exemplo, a de fatores de transcrição que se ligam a DNA
(Nakahara e Carthew, 2004). A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados
entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados, com
ortólogos em vertebrados e invertebrados, sugerindo uma conservação evolutiva com base

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

em sua função biológica. Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais, ainda
não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel, 2004).
A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas,
sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col.,
2001; Lee e Ambros, 2001). Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela
RNA polimerase III, pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o
snRNA U6. Entretanto, diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela
RNApol III. Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais
RNAs transcritos pela enzima, e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas
seguidas, o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col., 2002).
Além disso, um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos
adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST, e muitos destes ESTs possuem
cauda poli A e são ocasionalmente processados, sugerindo que são transcritos pela RNA
polimerase II (Smalheiser, 2003). Por fim, a inserção de elementos enhancer que
respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e
col., 2003). De fato, foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os
miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda
poli-A na extremidade 3’, características de transcritos de genes da classe II. Além disso, o
tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II
suprime o acúmulo de pri-miRNAs, e ensaios de imunoprecipitação de cromatina
demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs
(Lee e col., 2004b).
Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila
estão localizados em introns, preferencialmente na mesma orientação do mRNA, sugerindo
que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns, de
forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col., 2003). O alvo desses miRNAs é o próprio
mRNA processado, o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do
miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col., 2003a). Outros miRNAs estão
agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA
“policistrônico”, capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do
processamento (Fig. 2) (Lau e col., 2001). Apesar da maioria dos genes que codificam
miRNAs em plantas, C. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col.,
2003a; Lim e col., 2003b), mais da metade desses genes em Drosophila está organizada
em agrupamentos (Aravin e col., 2003).
Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de
RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos
o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col., 2002), existem algumas

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Sinalização Celular

diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e


animais. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais
variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col.,
2002). Além disso, plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o
mRNA alvo, em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente
complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore, 2002). A comparação entre alvos de
miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. Os sítios de
complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora
do mRNA alvo, enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou,
preferencialmente, na região 3’ não traduzida. Além disso, em plantas existe apenas um
sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo, enquanto que em
animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col., 2000;
Rhoades e col., 2002; Slack e col., 2000). Por fim, os miRNAs de plantas atuam
predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros, 2003), com uma única
exceção conhecida até o presente, o miRNA172, que regula a expressão do gene
APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA
(Aukerman e Sakai, 2003; Chen, 2004). O oposto é observado com os miRNAs de animais,
que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua
estabilidade (Olsen e Ambros, 1999). Somado à ausência de conservação entre os genes
que codificam miRNAs em plantas e animais, estas diferenças sugerem que esses genes
evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel, 2004).
O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. 2) propõe que a
maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas. A primeira etapa consiste na clivagem
nuclear do pri-miRNA, que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de
grampo com aproximadamente 60-70 nt, denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e
col., 2002). Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha, que cliva ambas as fitas do pri-
miRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo, gerando um premiRNA
com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’
(Lee e col., 2003b). O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma
pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col., 2004; Yi e col., 2003). A clivagem nuclear
define a extremidade 5’ do miRNA, que é a mesma do pre-miRNA. A extremidade 3’ é
processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore, 2002; Ketting e col.,
2001). Nesta etapa, a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de
silenciamento de RNA. Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do pre-
miRNA, provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na
extremidade 3’. Em seguida ocorre a clivagem, liberando um miRNA de fita dupla com
aproximadamente 21-25 pares de bases, contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore, 2002). De acordo


com este modelo, a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da
segunda clivagem do pre-miRNA, definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e
col., 2003b).

Figura 2. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs


(miRNAs) em plantas e animais. Os miRNAs são transcritos, em ambos tipos de organismos, a
partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo,
denominado pri-miRNA. Em plantas, o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo,
gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. O pre-miRNA é
subseqüentemente processado, provavelmente pela mesma enzima, gerando o miRNA. Em animais,
o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha, gerando o premiRNA. O pre-miRNA é
transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. No
citoplasma, o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer, gerando o miRNA. Em plantas e animais,
o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC, que irá degradas os mRNAs endógenos
que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. Em plantas, os miRNA também atuam no
núcleo, via incorporação a um complexo RISC nuclear. (Modificado de Zerbini e col., 2005).

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Sinalização Celular

Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. Não são detectados


pre-miRNAs, mesmo em plantas mutantes para DCL1, a proteína homóloga à Dicer
envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col., 2002). A localização nuclear de DCL1
sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col., 2003). DCL1 (ou outra enzima
ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem, correspondente à clivagem
citoplasmática em animais, antes da exportação para o citoplasma. O acoplamento da
primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis
detectáveis em plantas (Bartel, 2004). Não existem dados conclusivos sobre o transporte do
miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. Um ortólogo à exportina-5
denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis, sugerindo que esta proteína
está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. Embora o processamento de miRNAs não
tenha sido testado em mutantes hst1, estas plantas apresentam alterações morfogenéticas
e redução no acúmulo de alguns miRNAs, sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é
afetada (Bollman e col., 2003).
Após o transporte núcleo/citoplasma, o modo de ação dos miRNAs é bastante
semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. Os miRNAs foram
inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado
miRNP (miRNA ribonuclein complex), que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2,
a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col., 2002; Mourelatos e col., 2002). O miRNA let-
7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um
RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore, 2002). Desta forma,
sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC, que direciona a clivagem de
mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore, 2002).
Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC. Quando isso
ocorre, a outra fita é degradada. Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no
RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento
de bases mais instável (Schwarz e col., 2002).
Em plantas, o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1, além
de Dcl1. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear, sugerindo que
elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col., 2002). HEN1 é
uma dsRNA metilase (Anantharaman e col., 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA
(Lu e Fedoroff, 2000), portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs
de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC.
Uma vez incorporado ao RISC, o miRNA vai direcionar a clivagem específica de
mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen, 2002). Em plantas, a
grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica
(Rhoades e col., 2002). Em animais, a maioria dos miRNAs possui complementaridade a

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a
tradução. Entretanto, foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu
mRNA alvo, Hoxb8, em camundongos (Yekta e col., 2004).
Quando o miRNA direciona a clivagem, esta ocorre precisamente da mesma forma
que a clivagem direcionada por siRNAs, ou seja, entre o décimo e o décimo primeiro
nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore, 2002). Após a clivagem do mRNA
alvo, o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro
mRNA alvo (Hutvagner e Zamore, 2002).
Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais
(Rhoades e Bartel, 2004; Llave e col., 2002b; Rhoades e col., 2002). Em vários casos, os
alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises
computacionais (Rhoades e col., 2002). Entretanto, a validação definitiva de um mRNA alvo
requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo
a impedir o anelamento do miRNA, verificando-se um subseqüente aumento na
concentração do mRNA alvo (Baulcombe, 2004). A identificação dos mRNAs alvos dessa
forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de
genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos, incluindo diversos fatores de
transcrição (Bartel, 2004). Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW, que regula a expressão
do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col., 2003), o
miRNA159, que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de
reguladores de crescimento (Palatnik e col., 2003), o miRNA 165/166 que regula a
expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces
adaxial e abaxial de folhas (Emery e col., 2003), o miRNA172, que regula a expressão do
fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai, 2003;
Chen, 2004), e o miRNA164, que regula a expressão de vários fatores de transcrição da
classe NAC, envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e
reprodutivos (Mallory e col., 2004). Além disso, a expressão de genes relacionados com a
própria maquinaria do silenciamento de RNA, como AGO1 (Vaucheret e col., 2004) e DCL-1
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Pág. 76 Julho/2010
Unidade 3

Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli


leopoldo.barletta@gmail.com
²Breno Teixeira Santos
breno.santos@gmail.com
¹Felipe Viegas Rodrigues
rodrigues.fv@gmail.com
¹Laboratório de Neurociência e Comportamento
²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema


nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas
genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como
neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do
funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas),
neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e
fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de
versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de
milhares de neurônios).
Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as
neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as
principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção,
percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do
funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos
biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando
os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que
delineiam o funcionamento global desses sistemas.
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8 História da neurociência pág. 79


Camile Maria Costa Corrêa
Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier
Capítulo 9 Princípios básicos em fisiologia neural pág. 89
Renata Pereira Lima
Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier
Capítulo 10 Fisiologia sensorial pág. 103
Felipe Viegas Rodrigues
Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco
Capítulo 11 Neurofisiologia da visão pág. 115
Antônio Carlos da Silva
Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas
Capítulo 12 Causa e função pág. 121
Dr. Pedro Leite Ribeiro
Capítulo 13 Percepção pág. 127
Felipe Viegas Rodrigues
Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias
Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos pág. 139
Leopoldo Barletta Marchelli
Capítulo 15 Navegação espacial pág. 153
Cyrus Villas-Boas
Capítulo 16 Neurobiologia das emoções pág. 163
Bárbara Onishi
Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem pág. 179
Rodrigo Collino
Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier
Capítulo 18 Neurofisiologia da música pág. 187
Felipe Viegas Rodrigues
Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro
Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima
Bibliografia pág. 194

Pág. 78 Julho/2010
Neurociências

História da Neurociência

Camile Maria Costa Corrêa


Laboratório de Neurociência e Comportamento
camile.mc.correa@gmail.com

Introdução
Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamo-
nos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras?
Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível
desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da
vida mental?
Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo
comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos
eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto,
esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre
a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje.
Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que
maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo
que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização,
estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de
vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à
neurociência.

A mente nas antigas civilizações


Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há
registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como
alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas
permeavam a própria natureza.
Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia,
fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas,
uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de
observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça
ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações
substanciais da percepção e do comportamento.
Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de
trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no
crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas,
provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os
responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas
aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios
com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos.
Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento.
Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa
cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos,
ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as
civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam
essa laboriosa e arriscada cirurgia.
Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como
mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o
mecanismo de interação dessa mente com esse corpo?
Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o
Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o
tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja
consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro.
Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com
um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e
até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas
lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras


Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de
400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas
perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002).
Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o
primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que
seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu
próprio território de localização.
Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro
o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que
dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os
ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve
enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram.
Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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Neurociências

cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas
responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da
mente, da alma e até da alma imortal.
Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da
medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram
propagadas até a idade moderna.
Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos
sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores
noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer,
alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum
outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia
cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto,
fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede
de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.)
Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles,
(384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus
argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o
cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma
emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está
pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do
latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração.
Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no
cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era
um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica.
O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência
porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em
afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de
animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes
com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com
a mente.
Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por
serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda
dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam
que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede.
Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência
médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos
ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a
responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido
resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela
memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo
da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais.
Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia,
não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante
muitos séculos.
Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo
conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O
anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que
ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou
que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o
espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho,
ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma,
seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam
não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro.
Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de
armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos,
atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular
perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo
No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650)
especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria
como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre
quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma
rápida e involuntária.
Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o
cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o
aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que
iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo
motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o
movimento do membro. (Consenza, 2002).
Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a
tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da
realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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Neurociências

sistema nervoso.
Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a
estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o
fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do
encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele
argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à
noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono.
Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da
dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da
experimentação.

O início dos experimentos


Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na
física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e
Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema
nervoso.
A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o
início da era científica em neurociência (Consenza, 2002).

1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja


origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII,
quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se
para isso o trabalho de Luigi Galvani;
2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do
cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e
função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais
etc.;
3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram
através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas
os elementos funcionais de todos os organismos.
4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma
como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles
Darwin, cientista e naturalista inglês.

No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas
de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se
contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a
essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da
neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série
de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa,
mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as
propriedades de comunicação no sistema nervoso.
Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções
nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que
descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por
células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema
nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um
grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas
nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada,
resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889,
argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von
Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e
funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002).
Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos
espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células
musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral


O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de
muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma
determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades
mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos
responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro,
cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997).
Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por
observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes
mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito
de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um
mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura.
Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas,
principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava
possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais.
O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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Neurociências

pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de
uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi
descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao
hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável
exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de
que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas
Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução
paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época;
até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal,
sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou
que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os
organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem
tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de
vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada
resultado da evolução pela seleção natural.
Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um
fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a
estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos,
fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a
vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e
neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro,
o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em
relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia.
De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos
mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os
das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas
selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos
promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver
roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais).
Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y
Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura
microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se
comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia
continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto,
por Sherrington.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

O começo da psicologia experimental


A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de
aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan
Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio
Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares
e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do
conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da
psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como
disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na
terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas
atribuíveis a desordens biológicas.
Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis
pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo
dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que
apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes.
O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da
psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria.
O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da
neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas,
muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel
da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se
na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e
efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se
traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro.


Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas,
passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as
metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade
faz sobre a sua própria vida mental.
Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível
agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A
história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando
retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu
impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições
diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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Neurociências

A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. A essência
de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e
perceber, amar e odiar, aprender e lembrar, resolver problemas, comunicar, criar e destruir
civilizações. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento
cerebral. Além disso, sem o cérebro, a mente não pode existir; sem a manifestação do
comportamento, a mente não pode ser expressa.
A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de
viragem cultural. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo, do abrigo, das
ferramentas, da linguagem, que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças
culturais. Com o surgimento da consciência, incluindo um sentido de si mesmo e uma
sensação de continuidade com o passado e futuro, o homem começou a olhar sobre seus
próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. Quem sou? De onde vim?
Para onde vou?
As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. Ironicamente, apesar
do conhecimento detalhado de quase tudo no universo, em todas as escalas imagináveis (o
sistema solar, galáxias distantes, os buracos negros, os átomos, moléculas, a teoria das
cordas, DNA, hereditariedade, os mecanismos da vida etc.), ainda não sabemos quase nada
sobre o órgão que fez todas essas descobertas. O conhecimento das funções do cérebro
permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois
séculos atrás. Como podemos propor a consciência ambiental, a higiene do meio, o
equilíbrio do ambiente; se não cultivamos a nossa própria vida interior"?
Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca
de 10.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de
Neurociência), mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem
resposta. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única
pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram,
2003).
Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos, percebemos que, ao longo
do tempo, a integração entre as idéias pode ser árida. A ciência da mente depende da
conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico, articulados
criticamente. O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema
nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas
genericamente por neurociências.
A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do
sistema nervoso, investigando funções como percepção, atenção, memória, emoção, ação
etc, por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente, além de didática.
“Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

observação comportamental. Como resultado, a neurociência durante as próximas décadas


pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os
mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. (Kandel, 2003).
Portanto, ao elaborar as perguntas devidas, realizando os experimentos devidos,
pode-se começar a responder a estas perguntas que, até agora, continuam a ser a
preocupação dos filósofos. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento
de nós mesmos, não sobram limites a serem alcançados. Sabemos muito pouco sobre o
cérebro, por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas.

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Neurociências

Princípios básicos em fisiologia neural


Renata Pereira Lima
Laboratório de Neurociência e Comportamento
renata.plim@gmail.com

No sistema nervoso, neurônios nunca funcionam isolados; eles estão organizados


em circuitos que processam tipos específicos de informações. O sistema nervoso parece
organizado em grupos de circuitos, i.e., módulos, cujas funções servem a um propósito
comportamental específico. Desta maneira, sistemas sensoriais como a visão ou audição
adquirem e processam informações a partir do ambiente, o sistema motor permite que o
organismo responda a tais informações através da geração de ações. Há, entretanto, um
grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas
aferências e eferências. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e
são responsáveis pelas mais complexas funções.
Além destas amplas distinções, os neurocientistas têm convencionalmente dividido o
sistema nervoso dos vertebrados, sob o ponto de vista anatômico, em componentes centrais
e periféricos (Fig. 1). O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula
espinal. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os
receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora, que consiste em
axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos
esquelético, viscerais, cardíaco e glândulas.

Figura 1. Arranjo anatômico do sistema nervoso em


humanos. Em azul o sistema nervoso central (SNC)
e em amarelo, o sistema nervoso periférico (SNP)
(retirado de Bear, 1996).

Embora o arranjo dos circuitos que compõem


estes sistemas varie grandemente de acordo com
suas funções, algumas características são comuns
entre eles. As conexões sinápticas que definem um
circuito são tipicamente realizadas numa densa malha
de dendritos e terminais axonais. A direção do fluxo
de informação em um circuito particular é essencial
para se entender sua função. Células nervosas que
transmitem informações em direção ao sistema
nervoso central são chamadas de neurônios
aferentes; já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

para fora do circuito em questão), são chamadas de neurônios eferentes. Células nervosas
que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. Estas
três classes – neurônios aferentes, neurônios eferentes e os interneurônios – são os
constituintes básicos de todos os circuitos neurais.
De modo geral, podemos classificar os circuitos como:
 Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência
(entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado.
Para demonstrar este tipo de circuito, imagine que tenhamos os neurônios A, B e C e
que cada um deles possua uma entrada diferente. Estes neurônios se projetam para
um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E, realizando uma eferência
(saída). Circuitos convergentes são responsáveis, por exemplo, pela interpretação
dos estímulos sensoriais (Fig. 2, à esquerda).
 Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos
convergentes. Em vez de concentrar as aferências, estas se projetam
separadamente para diferentes neurônios. No caso do circuito divergente, o neurônio
A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B, C e D. A característica
básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas
de maneira crescente em outros neurônios. Tais circuitos são encontrados nos
sistema motores e sensoriais (Fig. 2, centro).
 Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de
neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via
previamente percorrida. O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito
continuamente até que um neurônio seja inibido. Então, uma aferência no neurônio A
se projeta para o neurônio B, que se projeta para o neurônio C e então para o D e
este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que
um neurônio (que pode ser tanto A, quanto B, C ou D) seja inibido. Circuitos
reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília, atividades motoras,
memórias de longa duração, etc (Fig. 2, à direita).

Figura 2. Esquema representativo dos modelos de circuitos. À esquerda, o modelo de circuitos


convergentes, no centro o modelo divergente e o reverberante à direita.

Além disto, circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. No funcionamento


paralelo, sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são

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Neurociências

analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. Por exemplo, o sistema


visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e
integrada. Sinais representando cores, movimento, forma e localização, por exemplo, são
processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. Atividades concomitantes
(e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são
responsáveis pela percepção unitária da imagem. No funcionamento serial, os resultados
dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa
contribuir para o processamento total. Isto é, um neurônio estimula outro neurônio, que por
sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. Um exemplo clássico de processamento
serial é o arco reflexo, em que há produz uma reação involuntária rápida, na maioria das
vezes inconsciente, que protege o organismo. Tal reação é originada a partir de um estímulo
externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da
existência do estímulo periférico e, conseqüentemente, antes deste poder comandá-la
voluntariamente. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na
substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo, ponte e
mesencéfalo), independentemente da vontade, como por exemplo:
• a retirada imediata da mão de uma panela muito quente;
• extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar;
• fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa;
• aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago.
Desta maneira, o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do
organismo a um determinado estímulo (dor, estiramento, aumento da intensidade luminosa,
variações da pressão arterial etc). Ocorrendo um estímulo, a fibra sensitiva de um nervo
aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior, ou ao
tronco encefálico, por meio de um nervo craniano. Na medula ou no tronco encefálico o
neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios
associativos, gerando, no neurônio motor, a atividade que leva à ação. Os axônios eferentes
que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo
craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao
órgão efetor (músculo estriado esquelético, glândula, músculo liso ou músculo cardíaco)
que, por sua vez, executará a resposta ao estímulo inicial.
É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por
meio da qual um circuito pode funcionar. Este tipo de processamento está envolvido nas
respostas mais simples e estereotipadas. Durante o processamento de funções mais
complexas, de modo geral, os circuitos envolvidos, além de processar informações de modo
serial, funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira
sincronizada.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência


A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos
associados à interação do sistema com o ambiente. Assim, fatores químicos liberados por
determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem
projeções de outros neurônios intrinsecamente; paralelamente, essas projeções e conexões
entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação
proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. Assim,
os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas
filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade
neuronal (isto é, experiência), modificando a circuitaria sináptica do encéfalo. A atividade
neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a
estrutura e a função do sistema nervoso, além da construção de sua circuitaria.
A história de interação de um indivíduo com o ambiente, i.e., sua experiência
acumulada, molda os circuitos neurais, determinando seu comportamento. Em alguns
casos, as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns
comportamentos inatos. Mais freqüentemente, entretanto, experiências desenvolvidas em
períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um
repertório comportamental no indivíduo adulto. Estes períodos críticos influenciam
comportamentos diversos incluindo laços maternais, preferências sexuais e aquisição de
linguagem, entre outros.
Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados
estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções, suas
bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas. Talvez o exemplo mais bem
investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. Alguns estudos
mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que
influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. No sistema visual (e em
outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de
atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. Em
um axônio aferente, padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões.
Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente, em animais, ou
patologicamente, em humanos) durante um período critico na infância, a conectividade no
córtex visual é alterada, assim como a função visual. Se não é feita a manutenção destes
padrões até o final do período critico, estas alterações estruturais da circuitaria nervosa
dificilmente se restabelecem posteriormente.
A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal
possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a
experiência específica daquele individuo. Como esperado, a construção dessa

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Neurociências

conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações


maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. Assim, em um animal adulto, o sistema
nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos
celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos.

Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes


O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou
menos exclusivamente a algumas funções cognitivas, tais como discriminação visual,
linguagem, atenção espacial, reconhecimento de face, retenção de memória, memória
operacional, etc., tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o
apóiem. Em seu lugar, modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma
alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento.
Em 1949, Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica
proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. Além de
acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais, ele foi além
do simples conexionismo dos behavioristas. Primeiro, ele argumentou que uma associação
não poderia ser localizada numa simples sinapse. Ao contrário, os neurônios estariam
agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas
conexões sinápticas. Segundo, Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta
poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais
a neurônios motores. Assim, era necessário postular “um mecanismo central que explicasse
o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento”
(Hebb, 1949). Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó, Hebb acreditava que a
estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas
centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. Tal “atividade reverberante”
torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos
posteriores ao atraso. Em resumo, Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos
duplos” da memória. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta
duração, enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa
duração. Desta maneira, Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade
reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade
no sistema” (Hebb, 1949, pág. XVII).
Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um
axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara, alguns processos de
crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou
B) de tal modo que a eficiência de A, uma das células que estão agindo sob B, é
aumentada.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Além disto, Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a
conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização
de padrões de atividade reverberante. Uma vez que este padrão de atividade foi
armazenado nas conexões sinápticas, ele pode ser resgatado repetidamente a partir da
excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante.
A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação
de longa duração, LTP (do inglês, long-term potentiation) (Fig. 3). A LTP é um estreitamento
da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e
pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos
de alta freqüência na célula nervosa. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in
vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo).

Figura 3. Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). Os


receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. O
neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo, à esquerda).
A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo, à
esquerda, abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita, abaixo) (disponível

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Neurociências

em www.braincampaign.org - 09/06/2009).

Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica, a LTP aumenta a habilidade de


dois neurônios, um pré-sináptico e outro pós-sináptico, de comunicarem-se através da
sinapse. O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem
estabelecido, em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de
acordo com a região em que acontecem, a idade do animal em questão e espécie.
Entretanto, nas formas de LTP mais compreendidas, a melhora desta comunicação é
predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas
em receber sinais das células pré-sinápticas. Estes sinais, na forma de moléculas de
neurotransmissores, são recebidos por receptores presentes na superfície da célula pós-
sináptica. Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade
dos receptores já existentes na superfície, mas também por um aumento do número destes
receptores.
Interessantemente, a LTP compartilha muitas características com a memória de
longa duração, o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do
aprendizado. Por exemplo, a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de
novas proteínas, possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários
meses. A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado, desde o
relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais, até
respostas mais complexas, como a cognição observada em humanos.
De acordo com essa concepção, a alteração estrutural leva ao armazenamento da
informação podendo explicar o fenômeno da memória. Este modelo postula que todas as
representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada
pela experiência (estímulos repetidos). Nesse contexto, pode-se assumir que memórias
filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não
necessitam de experiência individual para serem funcionais, embora possam ser
aprimoradas pela experiência individual.
Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104
neurônios e, por sua vez, projeta-se para outros 104 neurônios e, que o encéfalo humano
contém pelo menos 1011 neurônios, isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões
sinápticas são formadas no cérebro. Entretanto, a complexidade de seu funcionamento é
evidentemente maior, em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos
quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. Quanto mais
freqüentes as exposições a estímulos relevantes, mais fortes tornam-se essas conexões.
Como conseqüência, a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. Isso
permite entender porque a recordação envolve, usualmente, categorias. Por exemplo, ao

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda, não raro a lista
conterá animais agrupados por categorias de similaridade, ou seja, quadrúpedes, aves,
animais aquáticos, invertebrados etc. O mesmo ocorre em relação a alimentos; a
recordação também será categórica (frutas, verduras, legumes, carnes etc.). Isso ocorre
porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que
levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos
relacionados. Assim, quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um
determinado conceito, estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já
conhecemos (associando nós de uma rede com outros). Então, quando visualizamos a
imagem de uma maçã caindo, integramos todas as informações disponíveis (cor, forma,
contexto, movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum
momento foram associados ao conceito “maçã”. O mesmo vale para uma outra modalidade
de estímulo, ou seja, um som específico que atribuímos como característico de um
determinado animal, o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor
etc.
Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção
Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um
fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um
objetivo. Desde a mais primitiva espécie animal, todo o processo é regulado por feedbacks
externos (ambiente) e internos (Fig.4). Esse padrão de funcionamento torna o organismo
apto a forragear, fugir de predadores, lutar e reproduzir-se.

Figura 4. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. Interações
podem incluir andar de um lugar para outro, pegar um objeto, conversar com uma pessoa ou dirigir
um carro. De modo circular, tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. Esta
interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. A

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Neurociências

visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento, ações
motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e, desta forma, precisam ser
estudados juntos.

O sistema nervoso evoluiu, sobretudo nos mamíferos, de tal forma que uma grande
complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes,
responsáveis por canalizar as informações sensoriais, ou pelas vias eferentes, responsáveis
por emitir as respostas motoras, mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de
entrada e saída. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e
motoras são os principais responsáveis pela riqueza, flexibilidade e plasticidade de
comportamentos observados. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que
podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais, na multiplicidade de graus de liberdade
com que ações são organizadas pelos sistemas motores e, sobretudo, pela rica e plástica
relação que se estabelece entre esses dois conjuntos.
A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma
conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “pré-
motores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por
circuitos “perceptivos”), provavelmente pressionada por fatores ambientais. Podemos supor
então que, ao tornar-se cada vez mais complexo, o funcionamento dos circuitos neurais que
organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”,
“atenção”, “aprendizado”, “memória”, “ação” e, por fim, “consciência”. Esses rótulos estão
longe, em sua maioria, de uma definição completa e consensual. Eles são, mais
provavelmente, o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do
funcionamento do sistema nervoso, não se constituindo em entidades separadas e
independentes da função neural.
Desta forma, se considerarmos que a percepção do mundo, onde “perceber” algo,
derivado do latim, significa “apoderar-se” dele, logo veremos que não há percepção sem que
alguma forma de atenção esteja em jogo. E é só por meio da percepção atenta que temos
de um estímulo que sentimos, de um evento que presenciamos ou de uma resposta que
emitimos, que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto, desse evento ou dessa
resposta, resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. E,
de forma um tanto óbvia, todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo, “arquivá-lo” e
“resgatá-lo”, seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e
emissão de uma ação sobre o mundo, com ele interagindo de forma contínua e coerente,
permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo, apesar de seus constantes desafios.

Percepção envolve Ação

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo.
Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver, fazendo uma varredura
visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. Da mesma forma, para um
som ser audível, temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. Quando tocamos um
objeto, ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos.
Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que
funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. Além
disso, uma vez que um objeto tenha sido percebido, podemos decidir se iremos nos
aproximar ou nos afastar. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. Ao
identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. Em cada um
destes casos nosso comportamento depende do que é percebido.
A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante
entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao
objeto percebido. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a
fonte de estimulação. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação;
substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta; desta
forma, o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. Em
contraste, ver e ouvir,não dependem tanto deste contato. Os olhos e os ouvidos podem
capturar a informação originária de fontes remotas, neste sentido eles funcionam como um
radar. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está
próximo, eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz.
Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo, permitindo que o
indivíduo explore a vizinhança.

Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação


Em todo o sistema nervoso central, o processamento de seqüências de ações
guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores
(sensórias), em direção a estruturas anteriores (motoras), com feedbacks em todos os
níveis. Assim, no nível cortical, a informação flui de maneira circular ao longo de uma série
de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepção-
ação (Fig. 5).
Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são
integradas em níveis mais inferiores do ciclo, nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva)
e em áreas motoras da hierarquia (executiva). Comportamentos mais complexos, guiados
por estímulos também mais complexos e distantes no tempo, requerem uma integração em
níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas),
basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior.

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Neurociências

Figura 5. O substrato cortical do ciclo percepção-ação. Em azul está representado o lado da


percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. Os retângulos vazios representam áreas
intermediárias ou subáreas do córtex. As setas representam vias anatomicamente identificadas em
macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de
Fuster, 2006).

Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais, longas fibras cortico-
corticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as
áreas equivalentes executivas. Assim, áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais
associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias), enquanto
áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior
(áreas superiores). Do mesmo modo, há evidências anatômicas de conexões ordenadas
descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. Em
cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva, a próxima ação de uma
seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos
globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão
ocorrendo naquele momento. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que
processam a ação é cumulativa. Da mesma forma, as entradas sensoriais associativas do
córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto
espacial e temporal imediato. Sinais que necessitam ser processados em um contexto
temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração
temporal em graus mais elevados. Estes sinais são processados no córtex posterior e
concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). Em ambos os
córtices, os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem


enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. Sendo assim, o
córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que
estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores.
Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita, em geral, a uma única
oportunidade, temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do
mundo e guardá-las na memória, podendo usar essa informação em uma próxima
oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. Esse aprendizado permite um
refinamento a longo prazo de nossas ações, fornecendo subsídios para ações mais
complexas, mais integrativas e de maior alcance adaptativo.

O Sistema de Neurônios Espelho


Quando temos que explicar uma ação humana, a neurociência tem duas abordagens
maiores: a sensório-motora e a ideomotora. Na abordagem sensório-motora, tudo começa
com uma estimulação, e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação.
De modo inverso, na abordagem ideomotora, tudo começa com uma intenção, e as ações
são consideradas como o meio de realizar estas intenções, isto é, as ações são vistas como
o meio para determinados fins que seguem a intenção.
Assim como vimos acima, existe uma sobreposição e uma dependência entre as
percepções e as ações, tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais.
Desde modo, fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas
percepções.
Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa, a
abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. Considerando o fato de
sermos seres sociais, nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as
outras pessoas, tentando entender o que elas estão fazendo e por que. Esta “comunicação
primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo.
Contudo, como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as
bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem
inspirado uma série de estudos em busca destas respostas.
O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no
sistema visual (abordagem sensório-motora); isto é, numa análise dos componentes visuais
da ação específica, do agente envolvido, do objeto ao qual a ação é direcionada e do
contexto no qual ela está inserida. Assim, a interação de todos estes elementos identificados
visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra
pessoa. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma
“representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na

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Neurociências

execução da ação observada; de acordo com esta concepção, embora nenhum movimento
efetivo seja executado, a representação motora evocada pela observação permitiria o
reconhecimento do significado do que é visto. Com a descoberta de que há ativação de
neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações, os assim
denominados “neurônios espelho”, e considerando que esta hipótese não exclui a
possibilidade de que outro processo cognitivo, baseado na descrição do objeto e do
movimento, possa participar desta função, esta hipótese motora vem ganhando cada vez
mais adeptos. Todavia, tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema
que combina observação e execução – percepção e ação.
Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta
durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação
desempenhada por outro indivíduo. Sua descoberta ocorreu durante experimentos com
macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos, como por
exemplo, pegar/manipular um objeto ou alimento. Os descobridores destes neurônios, entre
eles Giacomo Rizzolatti, implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área
F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais
alcançavam pedaços de alimentos. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados
no setor superior da área F5), disparavam não somente quando o macaco pegava o
alimento, como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano)
desempenhando esta ação, como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor
(Fig. 6). Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no
controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”.
Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de
informações visuais, o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas, a
fim de reconhecer o objetivo final da ação. Esta resposta, baseada também em outras
modalidades, isto é, auditiva, sugere que a atividade espelho depende da riqueza das
experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor
(memória de planos motores). Entretanto, aparentemente, o reconhecimento do objetivo
final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se
houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. Isto é, uma
ação implica em um agente e um objetivo. Conseqüentemente, o reconhecimento de uma
ação implica no reconhecimento de um objetivo e, em outra perspectiva, o entendimento da
intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. Vendo sua mão movimentando-se
em direção à maça, ele reconhece o que Maria fará (pegará algo), e também reconhece que
Maria quer pegar uma maça, isto é, o estímulo é ligado à intenção do agente.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 6. Experimento feito com macacos em


que ele executa uma ação (pegar o amendoim)
e também observa esta mesma ação sendo
feita pelo experimentador. À direita está um
esquema que exemplifica a atividade dos
neurônios espelho nas duas situações (retirado
de Rizzolatti,1996).

Desta maneira, o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração


entre percepção e ação bastante interessante. Através do reconhecimento de ações e, não
apenas pelo sistema sensorial, mas também no próprio sistema motor do observador, ocorre
uma integração online das informações recebidas do ambiente - a ação observada sendo
executada por outra pessoa - e também entre informações presentes no sistema nervoso do
observador - representação motora da ação observada.

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Neurociências

Fisiologia Sensorial

Felipe Viegas Rodrigues


Laboratório de Neurociência e Comportamento
rodrigues.fv@gmail.com

Introdução
O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais
simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras), nenhum ou
algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras)
(Fig. 1).

Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso.

O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo, em que uma única célula
recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora.
Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência.
Eventualmente, modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra
efetora, formando um arcorreflexo monossináptico (e.g. reflexo patelar). Ressalta-se que a
comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal
e, portanto, flexibilizar o comportamento (Eckert, 1983).
Há ainda o arcorreflexo polissináptico, com pelo menos um interneurônio entre as
células receptora e efetora. A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos
gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. Em última instância, nosso cérebro
é um gânglio (ou um grande conjunto deles). O mais complexo que se tem conhecimento.
A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos
Celenterados. O arranjo das células nervosas é difuso, com cruzamentos desordenados de
axônios, e sem preferência de direção do estímulo conduzido. Em alguns Celenterados há
um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos, que é presente em
todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). Apesar disso, os arcos-
reflexo polissinápticos são mais comuns.
As células receptoras, de agora em diante chamadas receptores sensoriais, são
responsáveis por transduzir (isto é, transformar uma forma de energia em outra) o estímulo

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. Os receptores
tendem a ser muito específicos e, em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um
órgão no animal, respondem preferencialmente a um tipo de estímulo.
A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço
– seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. Ela tem
excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida,
sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente; portanto, útil a presas e predadores.
Por outro lado, animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros
sistemas sensoriais, como, por exemplo, a ecolocalização de morcegos. Aqueles que
dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de
luz. Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum), que faz com
que a luz passe duas vezes por ela. Outros mamíferos, como os Tarsius, têm globos
oculares extremamente grandes.
É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos, mas apenas
aqueles mais adequados para um determinado ambiente. Nesse sentido, há animais que
tem visão e audição pobres, sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem
presas (e.g.: cobras). Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas
funções, pois persistem em diversos grupos.

Visão
A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o
ultravioleta (Fig. 2).

Figura 2 – Faixa de luz


visível (em destaque)
utilizada pelos receptores
dos organismos vivos.
Comprimento de onda em
nanômetros. Modificado de
Carlson (2004).

O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada


ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do
vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do
violeta carregarem muita energia, a ponto de serem danosos para os tecidos (raios
ultravioleta A e B são danosos à pele).
Mecanismo de transdução
Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples
fototaxia (movimento em direção à luz). Mas mais do que gerar uma resposta intracelular

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Neurociências

pela estimulação luminosa, para que possamos enxergar, precisamos formar uma imagem
representativa do ambiente que nos rodeia. Isso só é possível nos organismos
multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os
quais surgiram independentemente em diversos grupos animais.
Apesar das diferenças no formato e no funcionamento, o mecanismo básico envolve
a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. A molécula fundamental
para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide. Todo
fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. A combinação mais
encontrada, tanto em vertebrados como em invertebrados, é entre opsina e Retinal (uma
molécula derivada da Vitamina A).
Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor
(uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação
luminosa, provocando uma cascata bioquímica no interior da célula. Em última instância, há
uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor, que é transmitida até o Sistema
Nervoso Central (SNC).
Os invertebrados mais bem estudados com respeito
ao sistema visual são os insetos. Eles possuem olhos
compostos por unidades individuais chamadas omatídeos,
cada qual com um receptor sensorial. Este é formado por
um dendrito central de uma célula chamada excêntrica,
rodeado por 6 a 12 células retinulares, as quais enviam
uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito
da célula excêntrica, formando o rabdômero (Fig.3).
A formação de imagem nesse tipo de olho se dá
pela composição das diversas partes do campo visual
captadas pelos diversos omatídeos, formando um
mosaico. A quantidade de pigmentos visuais é bastante
Figura 3 – Representação de um variável, com alguns crustáceos apresentando até oito
omatídeo do olho composto de
invertebrado. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin, 2006).
Eckert (1983). Os vertebrados reúnem todos os receptores em um
mesmo local (a retina, Fig. 4A), abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e
intermediada por uma lente, um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida
sobre a retina. A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes
(Fig. 4B). Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses
receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e.g. brilho), dado que
as variações entre os grupos são grandes. O comprimento de onda que será absorvido em
cada receptor é também bastante variável. A maioria dos primatas possui na retina dois

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col., 2006).
Alguns têm três tipos de cones, incluindo os humanos, e todos os primatas têm os cones
concentrados na porção central da retina (fóvea), uma depressão formada pelo afastamento
das camadas celulares superiores (Fig. 4B).

Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados.


(B) Detalhe da fóvea no centro da retina,
evidenciando algumas camadas celulares da
retina. Modificado de Lent (2006).

A fóvea é o ponto de maior acuidade visual, sendo processado por quase 50% do
córtex visual primário (V1) (Fig. 5), ainda que responda por menos de 1% do campo visual.
Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens
desse ponto do campo visual são tratadas. Conforme se afasta do centro da retina em
direção à periferia, menos cones e mais bastonetes são encontrados, com virtualmente
nenhum cone nas regiões mais periféricas, o inverso do centro da fóvea.
Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a
apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). Eles são
extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. Semelhantemente, é
pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas
(ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz, como em um quarto escuro. A
percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de
pigmento a todo instante, constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos.
Neurônios com axônios longos, as células ganglionares (Fig. 4B), formam o nervo
óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos
fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. 5).
Esse caminho, porém, não é direto. Há um cruzamento de parte das fibras que se
dirigem ao SNC (Fig. 6). As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os
lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. As fibras do hemicampo nasal se cruzam
no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. Dessa forma, toda a estimulação do
lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa.

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Neurociências

Figura 5 - Córtex visual primário (V1), em vermelho, no córtex occipital do homem, do gato e do rato.
Encéfalos fora de escala. Modificado de Bear e col. (1996).

Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig.
6). É ela quem permite a visão binocular, responsável pela visão em profundidade e criada
pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados, portanto, para um mesmo lado da
cabeça), algo constante em animais carnívoros. Herbívoros, por outro lado, tem os olhos em
lados opostos da cabeça, o que reduz sensivelmente a visão binocular, mas potencializa a
visão em todas as direções, permitindo que esses animais percebam a aproximação de
predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados.

Figura 6 – Cruzamento das fibras do


nervo óptico e hemicampos
contemplados em cada hemisfério
cerebral. Modificado de Bear e col.
(1996).

Após o cruzamento no quiasma óptico, todas as fibras passarão pelo Tálamo, mais
especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). Esse núcleo tem seis regiões
citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. As duas camadas mais inferiores
possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos
bastonetes: é a camada magnocelular. As outras quatro camadas, chamadas
parvocelulares, têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas
dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. Entremeado nessas camadas,
há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul.
Após o estímulo passar pelo NGL, ele se dirige à V1, no córtex occipital, que tem um
mapa retinotópico, isto é, tem uma região cortical para cada região na retina atendida por
uma célula ganglionar. Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

quase 50% de V1, fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial
deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse
número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina, com cada vez mais células
receptoras para cada célula ganglionar. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo:
a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos
afastamos do centro da retina.

Audição
A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras
internas chamadas escalas, preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig. 7)
(Carlson, 2005).

Figura 7 - Representação do sistema


auditivo humano. Modificado de Bear e col.
(1996).

O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e


20.000 Hz, devido a características implícitas à cóclea, mais especificamente, à membrana
basilar dentro dela (Fig. 8), que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências.
Diferentemente da visão, o intervalo de frequências captado por outros animais não é
semelhante. Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes
como forma de comunicação, podendo ser feita a quilômetros de distância. No outro
extremo, morcegos têm faixa de audição começando em 10.000 Hz e indo até cerca de
120.000 Hz. Os superagudos, freqüências acima de 10.000 Hz, têm comportamento
extremamente direcional e reflexivo, características que se tornam ainda mais exacerbadas
nos ultra-sons, freqüências acima de 20.000 Hz. Emitindo sons acima de 50.000 Hz, os
morcegos podem perfeitamente voar no escuro total, conseguindo desviar dos obstáculos
presentes em seu caminho. Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de
ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um
som e recaptura do mesmo após reflexão.
Mecanismo de transdução
A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo, parte da
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Neurociências

orelha externa (Fig. 7). Essa energia, com todas as suas características de frequência e
intensidade, é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo, bigorna e
estribo), que farão a transmissão para a janela oval na cóclea, integrantes da orelha interna.
A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1,6x na energia
sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x,
resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente.
A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da
cóclea e para a membrana basilar. Como a cóclea é um tubo inextensível, a Janela
Redonda funciona como uma válvula de escape, permitindo a movimentação dos líquidos
internos e vibração nas membranas.
Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas.
Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. Sons médios, no
meio, e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea. Tais constatações não
significam que um som fará com que só aquela região vibre. Pelo contrário, todo som
causará vibração por toda a membrana basilar, mas ela será muito pequena fora do ponto
de ressonância, não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana.
O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos
nervosos. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a
despolarização que será conduzida ao córtex cerebral, inicialmente pelo nervo coclear (Fig.
8).
A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa. A vibração da
membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão; os cílios dos
mecanorreceptores, no entanto, não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana
tectorial, movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de
canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. Isso resultará
em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos
neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de
disparos.

Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. Modificado de Bear e col. (1996).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

As fibras nervosas que saem da cóclea fazem


algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo
Primário (A1), a mais importante delas no Núcleo
Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse
(Fig. 9).
Todas as fibras que saem do NGM chegam até
A1, formando um mapa tonotópico da membrana
basilar da cóclea com frequências graves mais
anteriores e as agudas mais posteriores. Esse arranjo
permite o que é chamado “Princípio de Localização”:
uma determinada população de neurônios de A1 com
sua atividade alterada indica fielmente uma
determinada frequência de vibração na membrana
basilar (Lent, 2006).

Sistema Vestibular
Associado às estruturas que permitem a
audição, todos os vertebrados contam também com o
sistema vestibular, com o qual podem perceber
Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal.
impulsos nervosos provenientes da
cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado, esse sistema deve ser
no cérebro. Modificado de Lent (2006). considerado um sexto sentido dos organismos, tendo
íntima relação com o sistema motor, permitindo correções posturais reflexas a estimulações
bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf, 2006).
O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares
para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo), para
acelerações lineares (Graf, 2006) (Fig. 10). A presença de três canais semicirculares surge
nos gnastomados, pela adição do canal horizontal, ausente nos agnatas.

Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano. Modificado de Bear e col. (1996).

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Neurociências

Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação


(ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa
(cúpula). Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em
relação ao canal, resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou
hiperpolarização das células ciliadas, como na cóclea.
A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na
medula; outras seguem diretamente para o cerebelo. Interessantemente, algumas projeções
vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos
cranianos III, IV e VI). Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o
movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça,
permitindo a formação de imagens estáveis na retina. Pessoas com lesão no nervo
vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson, 2005).

Somestesia
O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma
diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de
neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão, temperatura
ou dor. Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir
reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância, ao organismo) – um
arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar.
As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil, utilizado para se
localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos, já que estes têm hábitos
noturnos. Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo,
formando um mapa somatotópico do organismo. Assim como na visão, algumas regiões são
mais privilegiadas do que outras, como a ponta dos dedos, lábios e língua tendo os menores
campos receptivos do sistema (e, portanto, as maiores áreas de processamento). O córtex
somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano, no giro pós-central (Fig. 5).
Sentidos químicos
Olfação
As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos
sistemas sensoriais mais antigos dos animais. É o único sistema que faz conexões diretas
com o córtex cerebral (córtex olfatório), embora outras conexões neurais conduzam os
estímulos recebidos também ao tálamo, além de conexões com o lobo frontal do neocórtex
e o sistema límbico. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem
ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico, os
comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent, 2006).
O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

uma espécie dependerá das pressões seletivas. Cachorros não são capazes de enxergar
em cores como nós enxergamos; por outro lado, são detentores de um olfato apuradíssimo,
frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. Treinados,
são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas
em terremotos, sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente.
Tubarões também são fantásticos na detecção de odores, podendo perceber uma gota de
sangue em dezenas de litros de água. O caso mais surpreendente, porém, é o das
mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de
apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de
ar. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância.
Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre
gêneros – resultando, em última instância, no acasalamento – e também à demarcação de
território entre indivíduos. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que
moram juntas (Weller e Weller, 1995), o reconhecimento do próprio odor em relação ao de
outros indivíduos (Porter e col., 1986 apud Martins e col., 2005) e a preferência por odores
do sexo oposto (Martins, 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também
exista em humanos. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos
estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo.

Gustação
A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores
específicos na língua, que detectam cinco qualidades: amargor, acidez, doçura, salinidade e
umami. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores. Curiosamente,
felinos não possuem receptores para doçura (Carlson, 2005).
Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado; doçura
indica presença de açúcares, claramente um alimento. Já receptores para sal, indicam a
presença de cloreto de sódio, extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do
organismo. Por outro lado, substâncias amargas ou azedas serão evitadas. Acidez é um
indicativo de decomposição, resultado da ação bacteriana. Já o amargor é um excelente
indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas.
Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico, substância
naturalmente presente em carnes, queijos e alguns vegetais. Um sexto tipo de receptor
poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos; de fato, trabalhos
recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos
(Gilbertson e col., 1997 apud Carlson, 2005).
As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do
tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. Outras projeções se dão para a

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Neurociências

amígdala e hipotálamo. Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos
reforçadores de sabores doces e salgados.

Outros sentidos
O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas
que podemos perceber. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no
céu impedindo luz direta. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do
omatídeo (Fig. 3), formando um ângulo de 90° uns com os outros. A estimulação pela luz é
até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização
da luz.
Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas
da linha lateral. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos
ativos de outros peixes próximos (e.g., coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a
areia do fundo do lago ou oceano, um mecanismo frequentemente utilizado por
elasmobrânquios. Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca,
através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico. A
corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo
que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo
elétrico, sendo detectado.
A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. Ela está ausente
nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que
esses organismos vivem. Por outro lado, o mecanismo receptor presente ao longo da linha
lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio,
sendo homólogo entre todos os grupos (Graf, 2006). Mais do que isso, as interrelações com
outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans,
passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce
desses receptores (Graf, 2006).
Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos, que precisam
manter sua temperatura regulada, quanto em outros animais que dependem desse tipo de
receptor para capturar presas. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm
termorreceptores com altíssima sensibilidade, sendo capazes de detectar aumentos de
temperatura tão pequenos quanto 0,002 °C, isto é, detectar um camundongo distante 40 cm
se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente.
O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns
animais para orientação e deslocamentos de longa distância; entre eles: aves migratórias,
pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. Há críticas à
existência da magnetorrecepção, mas os experimentos que a refutam parecem apenas

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. Além disso, de fato, tais
animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio)
(Freake e col., 2006). Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em
salamandras, enguias e até mesmo bactérias.

Conclusões
Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos
possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. Não há melhores
órgãos e sistemas, mas apenas aqueles mais bem adaptados. A comparação entre grupos
revela que algumas soluções são muito semelhantes, ainda que elas sejam análogas entre
espécies. Estímulos como a luz, disponível na superfície terrestre globalmente, tornaram
possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos.
É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. A forma como
percebemos o mundo também não é, necessariamente, a forma como outros animais com
órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem, dado que a área cortical dedicada a um
determinado sistema pode variar imensamente (Catania, 2006). Em última instância,
qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais
estímulos estão moldando um determinado comportamento.

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Neurociências

Neurofisiologia da visão

Antônio Carlos da Silva


Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva
acdsilva@gmail.com

Introdução
Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz, provavelmente, tem
exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. Os milhares de
amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que
usam a luz para visão e outros fins, incluindo a navegação e noção de tempo. Um pássaro
em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de
uma fêmea para acasalar, um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante, ou
uma águia em seu vôo em busca de uma presa - em todos os exemplos, estes animais
precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que
fazer em seguida. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida
pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser
processados pelo sistema nervoso central.

Origens evolutivos
No caso da “visão”, embora os olhos apresentem uma variedade de formas,
tamanhos, desenhos ópticos e localização corporal, todos eles fornecem informações
similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes. Logicamente, os olhos podem
ter uma origem monofilética, ou seja, de um único ancestral comum, ou podem ter uma
origem polifilética, surgido mais de uma vez durante a evolução.
Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em
diferentes grupos sistemáticos, o que nos leva a tentar compreender quais as soluções
encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta
essa enorme diversidade ( Halder, 1995; Salviani-Plawen e Mayr, 1977).
Estas estruturas (ex. ocelos, olhos compostos, olhos em câmara) que
asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”, nos levam a relembrar
Darwin em “como a seleção natural... pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho”
(Darwin, 1859). Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em
células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. Existem
alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus), mas, por definição, todos os olhos requerem
células especializadas para fototransdução.
Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca,
Arthropoda e Chordata. Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

para coletar e focar a luz. (Fig.1). Duas dessas soluções aparecem em Chordata, e uma
delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de
lentes.

Figura 1 – Tipos de olhos. Modificado de Fernald, 2000.

Fotorreceptores
As unidades básicas do olho, as células fotorreceptoras, podem ser divididas em
duas grandes classes, uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar
(rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz, paralelas
umas às outras, o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são
formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este
é formado de uma lente e um rabdoma (Halder, 1995).
A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” –
não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. Alguns pesquisadores
argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas

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Neurociências

por células fotorreceptoras e um pigmento celular, como observado em pequenas larvas


ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig. 2) (Gehring and Ikeo, 1999; Pichaud and Desplan,
2002).

Figura 2 – Foto ilustrativa (D. Arendt), Duas


células - olho larval e protótipo pigmento-taça com
olho fotoreceptores microvilares em Platynereis
dumerilii (Polychaeta, Annelida, Lophotrochozoa).
Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior
esquerdo), (canto superior direito) adulto (72 h) e
(estrutura maior abaixo) olhos totalmente
crescidos. Em amarelo: células fotoreceptoras
microvilar; verde: células de pigmento.

Em sua origem, o olho simples (ex. protozoário Euglena possui pequenas vesículas
sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria
a função de detectar a direção da luz para fototaxia e, além disso, poderia ter uma forma
primitiva de relógio circadiano, que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e
escuro (Gehring e Rosbash, 2003).
Especializado, este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta
informação à célula dermal sensível a luz. A localização de fotorreceptores em pequenas
vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como
observado em Euglena, existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um
pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz.
Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo
microvilar mais predominante em invertebrados (Land,1992; Fernald, 2000). Entretanto
novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” - homeobox, genes
estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro
do organismo - têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais
multicelulares (Arendt, 2003).
Durante a evolução do olho, tipos adicionais de células foram surgindo entre elas
células dermais fotossensíveis. Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz
atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e
cefalópodes, assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt.,2001).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina


A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. A informação luminosa
ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível, o qual
permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em
muitos sinais de transdução por cascata intracelular. Estas semelhanças sugerem que todos
os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt, 2001).
Nos vertebrados, a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de
tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da
retina (Marquardt, 2001). Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o
disco dos olhos (Jang, 2003).
Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes.
Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras, nas quais a célula
parece ter um achatamento, com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas,
apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes. A
Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C
(PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode
ser observado na Fig. 3 (Arendt, 2003; Arendt e Wittbrodt, 2001).

olho composto

olho de vertebrados

Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara.

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Neurociências

Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. Sua característica é um


aumento da área superficial na membrana celular externa, uma modificação do cílio. A
membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de
receptores da célula se parece com uma pilha de discos. Os fotorreceptores ciliares usam
uma via diferente de sinalização, ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a
concentração de GMP cíclico na célula. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais,
a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt,
2001).

Conclusão
As diferenças fundamentais de morfologia, desenvolvimento e estrutura dos
fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os
olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes, especialmente ao compararmos
as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados
(ganglionar, plexiforme interna, nuclear interna, plexiforme externa, nuclear externa, externa,
epitélio pigmentar) (Fig. 4 do capítulo anterior). Os sistemas de transdução, por outro lado,
são muito parecidos, desempenhando operações de detecção, amplificação e transmissão
(Randall,1997).
As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre
as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de
evolução, onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados
ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos, cada um com sua
peculiaridade, atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e,
conseqüentemente, da espécie.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Neurociências

Causa e Função
Pedro Leite Ribeiro
Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva
pedrolribeiro@gmail.com

Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira, a uns 15 cm do solo, um ninho


de tico-tico abriga um só filhote, na primeira semana de vida. Está sossegado, talvez
dormindo, protegido do sol de verão pela folhagem acima. De repente, bem rápida, chega a
tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. Ato contínuo, o filhote se ergue, pescoço
esticado para cima, o bico escancarado. A fêmea, agitada ou apressada, mete o bico goela
adentro do pidão, retira-o e, girando o corpo, voa para trás, na direção de onde chegou. Não
ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. Alguns minutos depois,
ela chega de novo: mais uma refeição. Mais alguns minutos e a cena se repete. No entanto,
ela não vai à exaustão total, e acaba descansando um pouco. O macho não apareceu por ali
(Robert et al., 1961).
A um metro dali, uns 15 cm abaixo da superfície do solo, enclausurada na câmara
que construiu, uma saúva fêmea, conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura,
põe mais um ovo de alimentação. Não é um ovo normal, do qual eclode uma larva. É bem
maior e é mole, em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. Dobrando-se
ventralmente, leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor, de onde o ovo vem
saindo, pinça-o com precisão, desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das
várias larvas que estão todas juntas. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua
refeição (Autuori, 1940).
Bem mais longe, uma outra fêmea, uma mulher, engata a primeira marcha em seu
carro e parte para o shopping center. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens,
incluindo fraldas, mamadeira, chupetas, leite em pó e um carrinho de bebê. Enquanto dirige,
ela pensa na lista, e faz cálculos de dinheiro. Fica preocupada e percebe que vai ter de
pagar com o cartão de crédito. Ao pensar em cada item, aparece em sua mente a imagem
de um bebê: ela sorri.
Os esforços desmedidos que tantas fêmeas - e também alguns machos, de aves e
outras classes de animais - fazem em favor de suas crias, em evidente desfavor de sua
própria sobrevivência, recebem uma explicação simples da teoria da evolução. Elas estão
cuidando da sobrevivência de seus genes. Foram selecionadas. Se as fêmeas de tico-tico
ficassem descansando na sombra, evitando as fadigas da busca de comida para seus
filhotes, seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos; porém,
perderiam a prole. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no
balanço energético de seus próprios organismos; ele inclui a descendência como parte

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

decisiva da equação. Abandonando o ninho, as tico-ticos estariam melhor, precisariam de


menos alimentos para si mesmas, mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer
descendente. O cálculo da formiga é um pouco diferente, mas essencialmente o mesmo.
Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro, jejuando durante meses,
vivendo de reservas, inclusive absorvendo seus músculos alares, ela não está trocando uma
vida mais fácil pela procriação. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se
encerrou e buscar comida na superfície. E se não construísse a câmara, ficaria
perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori, 1942, 1941). Sua
única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo
formigueiro. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras
mais no ano seguinte. Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto
fêmeas estéreis não dão origem a nada, mães extremadas dão origem a mães extremadas,
enquanto mães omissas não dão origem a ninguém; são pontos terminais de linhagens. A
função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos
ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. A função de um órgão só se completa
com o comportamento que o usa.
O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a
sobrevivência e para a reprodução. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do
comportamento que podemos descobrir suas funções. Entendido o organismo como um
sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se, com a manutenção
subordinada à reprodução, é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o
estudo funcional. Pois são estas, as funções, o alvo direto das pressões seletivas ao longo
do processo de seleção natural. É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia
sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as
idéias de meta, fim, finalidade, propósito e objetivo. Trata-se de um desconforto filosófico,
em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução, como se o futuro
pudesse determinar o passado. Tal inquietude, no entanto, decorre de um exame superficial
do conceito de função. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um
desígnio divino, algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de
alguma forma presente desde sempre. Uma das muitas notáveis propriedades da mente
humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. Essa
faculdade, tão adaptativa nas relações sociais, facilmente transborda de seu uso funcional
levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem.
Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de
computador, o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a
movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. Ora, ao aprender
que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade, o

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Neurociências

estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. Contudo, é preciso
entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e
implicações. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território
e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma
consciência que tem um ser humano em situações análogas. Assim como não há erro
conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma
delas, ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar, ou com o objetivo de
recarregar sua bateria, assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução
criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução
agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações.
O controle de suas ações, no entanto, aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada
momento, constitui um outro tipo de fenômeno, que devemos chamar de causas do
comportamento. O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do
ambiente e de seu próprio corpo, seus hormônios e as programações de seu sistema
nervoso. Portanto, a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas, uma
funcional e outra causal. A observação de que as larvas de formigas são inertes, incapazes
de se alimentarem sozinhas, terá valor no plano funcional. Já a indagação "será que as
larvas dão algum sinal de suas necessidades, ou a produção de ovos de alimentação
obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal.
Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do
tico-tico é um estudo causal. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma
questão funcional. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como
estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. Examinado dessa forma, em busca de
como ele controla as ações dos rivais, por exemplo, fazendo-os mais ou menos agressivos,
o canto está dentro de um estudo causal. Essa aparência de que funções se desenvolveram
“para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente
funciona de forma relativamente regular, possibilitando a seleção de programas genéticos,
moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa; embora presentemente gerem a
sensação de finalidade na sua construção, podem ser explicados como fruto do acaso
submetido à seleção, portanto, obra da adaptação.
Niko Tinbergen, prêmio Nobel de 1973, organizou o estudo do comportamento em
quatro tipos de resposta à pergunta por quê. A resposta causal, que tem, na maioria das
vezes, o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia, a funcional, cujo estudo é
normalmente associado a questões relacionadas com ecologia, e mais duas que não serão
aqui examinadas. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como
evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o
moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

recém-nascido. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em


tal idade? Qual é o papel do aprendizado?
O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões
conceituais. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema
causal, mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. Existem
mariposas que subitamente, em pleno vôo, deixam-se cair como se tivessem sido
mortalmente feridas. Alguns segundos depois, antes de atingirem o solo, elas recobram seu
vôo normal. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de
morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em
seu sistema de ecolocação.
Em condições normais, no ambiente natural, os fatores causais e as funções têm um
entrosamento admirável. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto
para a reprodução, apetites específicos quando ocorrem carências específicas, a sede
quando falta água, e assim por diante. Sim, esse entrosamento torna-se admirável quando
se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento
correspondente. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. Entre a falta de
água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la, é necessária a ação de fatores
causais adequados, a começar pelo reconhecimento correto do objeto, ou seja, o animal
deve engolir água e não areia ou flores. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. A
compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o
comportamento.
Em condições anormais, seja no ambiente natural seja no laboratório, causas e
funções podem desencontrar-se, revelando de forma dramática como é notável o
entrosamento normal. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de
morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance. As vítimas humanas de
anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. Drosófilas
mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. Alguns
cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para
dormir. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma
fêmea babuína. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja
função principal não é sua única função, como a sexualidade dos bonobos que, em
condições normais no ambiente natural, inclui rotineiramente relações entre machos, entre
fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. Há alguns casos documentados de adoção
interespecífica (Otoni et al., no prelo). No comportamento lúdico, tão comum em mamíferos,
mas presente também em aves, os jovens fazem coisas de adultos, fora tanto do contexto
funcional como do causal.
Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar

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Neurociências

o comportamento animal, os animais também têm seus transbordamentos motivacionais.


Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual
não haveria manutenção nem reprodução.
Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida,
ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. Se a percebesse, a tico-
tico talvez tivesse ido embora, abandonando o ninho, para fazer outro em lugar mais seguro.
Não a viu, e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. Por predação ou furados pela
chupim, os ovos perderam-se todos, menos um, o da chupim. Foi vã toda a dedicação da
tico-tico. Explorando o sistema causal da hospedeira, a chupim logrou desvirtuar a função
do comportamento da tico-tico, em seu benefício. O parasitismo comportamental é uma lição
fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. A tico-tico vai continuar
a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência, mas terá novas chances
nos anos seguintes (Buzzetti, 2004).
A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de
fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. Essa pelotinha de
fungo era essencial. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara, e depois
meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. Sem esse jardim de fungo,
seu esforço é vão. Ela continuará a alimentar as larvas, que se tornarão pupas e depois
obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. Porém, sem
fungo, o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. Mesmo tendo perdido o
fungo, a içá continuou a responder aos estímulos presentes. Não existe nenhuma
possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental.
O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada
com a despesa não é seu filho. É filho de uma amiga, mãe solteira, que está sem dinheiro.
O filho foi planejado. Ela tinha um bom emprego. Não queria casar-se e procurou um
homem com o único fim de ter o filho. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada. A
amiga, solidária, está feliz de poder ajudar. A complexidade do comportamento humano é
um desafio para a análise de causas e funções. O comportamento da mulher que presenteia
não parece ser um excesso de cuidados maternais. Lembra mais os comportamentos
altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais, comuns em animais sociais. Já o
comportamento da mãe, ao planejar o filho, parece inverter ou fundir a relação entre causa e
função. Diferentemente de qualquer outro animal, ela conhece a relação entre a cópula e a
gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. Mesmo que tivesse aversão ao ato
sexual, ela poderia lançar mão da inseminação artificial. O filho, neste caso imaginário
específico, não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual.
Isso foi assim, na pré-história, antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo
e procriação. No caso que estamos examinando, a reprodução, que normalmente reside no

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

plano funcional, é uma causa dos comportamentos da mãe. Pode-se fazer uma analogia
com o comportamento de busca de algo perdido, que muitos animais são capazes de fazer.
Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em
que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. A memória e a capacidade
cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe
qualquer estimulação. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que
é também parte de suas causas.
Em nós, humanos, a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao
funcional. Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. Ela os
transformou em algo que ainda não conseguimos entender. Curiosamente, a cultura criou os
recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no
entendimento do que fazem os outros animais, mas não se revela facilmente a si mesma. As
próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é
objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. Com métodos de observação e
experimentação cada vez mais refinados, biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo
acelerado no estudo do comportamento animal e humano. A pergunta "Por que esse animal
está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e
convincentes. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação, as respostas são
mais hesitantes, porém o progresso é indiscutível, e as próximas décadas deverão
proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz, 1981).

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Neurociências

Percepção
Felipe Viegas Rodrigues
Laboratório de Neurociência e Comportamento
rodrigues.fv@gmail.com

Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento


dos sistemas sensoriais, mas vai além destes. Entender percepção é entender não somente
como percebemos alguma coisa (seja vendo, ouvindo ou sentindo estímulos), mas também
por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição, como a
memória ou a atenção. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos.
Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de
um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor, forma, movimento para visão;
intensidade, timbre, altura para audição, por exemplo) e (2) qual a relação com outras
funções da cognição, especialmente atenção e memória.
Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância
perceptual. Tome por exemplo a Fig. 1. Não importa qual a posição do carro mostrado na
figura, sabemos que se trata do mesmo carro, apesar das quatro imagens serem distintas e
provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. O mesmo
princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por
instrumentos diferentes. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes, com
alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu
timbre), a percepção de uma determinada nota é mantida.
A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial
com a informação de outras regiões encefálicas, inclusive (ou talvez principalmente) das
memórias adquiridas ao longo da vida. Esse mecanismo depende, portanto, de aprendizado
e ele é possivelmente uma
particularidade da espécie humana.
Experimente colocar um capacete de
ciclismo (que cobre apenas a parte
superior da cabeça) e aparecer
diante do seu cachorro. Ele
seguramente o estranhará. Por outro
lado, o reconhecerá pelo cheiro e
voz, o que o fará parar de hesitar
Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente
após algum tempo. Humanos são
para os quatro desenhos. Ainda assim, perceptualmente
logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. únicos em sua capacidade de
Retirado de Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006).
abstração, capazes de ver um tronco

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”.
O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de
lesões cerebrais, em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC), em que os pacientes
tiveram comprometimento da percepção. Tais pessoas se tornaram incapazes de
reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. Uma investigação
minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido, o
que descarta problemas de memória. Mais do que isso, a estimulação por outra modalidade
sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão, levando ao
entendimento de que o problema é perceptual e, em geral, associado a apenas uma
modalidade sensorial. Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o
nome agnosia.

Vias perceptuais
As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são
aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior, temporal inferior ou face
lateral do córtex occipital. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais
e, como já mencionado, são parte dos chamados córtices associativos, pois recebem
aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para
desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. Algumas
dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex
cerebral, particularmente no caso da espécie humana (Preuss, 2006).
Visão
O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais
conhecidos. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o
processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é
levada até o córtex. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada
com informações de outras regiões corticais para, de fato, entender como percebemos.
A informação que chega até o córtex visual não para em V1, pelo contrário, essa
informação continua avançando por diferentes regiões, adentrando os córtices temporal
inferior e parietal posterior, passando por populações de neurônios especializadas no
processamento de características específicas de um estímulo visual. Uma particularidade
desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de
V1, mais fibras vão convergindo na rede neural. Com esse arranjo, quanto mais adiante na
sequência esteja uma população de neurônios, mais específica é sua função no
processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam
para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas
angulações possíveis dessa barra), há neurônios mais adiante nessa cadeia que só

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Neurociências

dispararão para combinações


dessas barras ou se o estímulo
em questão tiver
características de um móvel
(Fig. 2).
Apesar do arranjo sequencial,
as evidências atuais apontam
para um processamento em
paralelo dessas diversas
regiões. Casos clínicos de
pacientes que tiveram um AVC
em regiões muito específicas
do encéfalo (nos córtices
associativos) revelam a perda
de percepção de algum
componente da visão, como
movimento ou cor, mas não de
outras características, mesmo
que estas sejam processadas
Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices mais adiante na sequência de
associativos do SNC. Quanto mais adiante na sequência, mais
processamento visual. O maior
complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá
responder. Modificado de Lent, 2006. tempo de reação para
detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada
em um teste perceptual (cor e forma, por exemplo) também reforça a ideia do
processamento em paralelo. Se apenas uma das características for necessária para a
detecção do estímulo, independente de qual delas, o tempo de reação é menor.
Na Fig. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de
processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual.
Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de
processamento. Através da via dorsal, podemos entender “onde” vemos um objeto, já que
essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. Já a via
ventral nos traz informações de “o quê” vemos, permitindo identificar características como
cor e forma de um objeto.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior),
para processamento de informações sobre localização espacial e movimento, e uma via ventral
(córtex temporal inferior), para processamento de informações como cor e forma do objeto em
questão. Retirado de Kandel e col. (2000).

Evidências clínicas, mais uma vez, não deixam dúvidas de que essas vias
colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. Um paciente
com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre
uma mesa diante dele. Apesar disso, se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa
e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto, esse indivíduo faria o
movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. A ativação de todas as regiões
corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa
frente; o uso de aspas justifica-se porque, falando-se em percepção, simplesmente não há
“correto”, mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas
memórias, emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. Falaremos
mais sobre isso nos tópicos seguintes.

Audição
O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem
estudados nos últimos anos. Novos experimentos têm trazido evidências de que o
processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões
corticais. Semelhantemente ao sistema visual, existem duas vias de saída para os córtices
associativos: uma anteroventral, relacionada à percepção de características do som como
timbre e tonalidade; e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e
localização do estímulo.
De fato, Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns
(na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons, isto é, que disparam para

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Neurociências

uma determinada frequência e também para seus múltiplos. Essa relação entre frequências
é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. Essa população de neurônios
provavelmente existe também em outras espécies de primatas, incluindo os humanos. É
possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre
dois instrumentos musicais diferentes. Como no carro da Figura 1, é a constância perceptual
para estímulos sonoros.
Por outro lado (ou, melhor dizendo, por outra via...), morcegos são um exemplo
brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por
estímulos sonoros. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do
ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela
estimulação visual. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível, mas, novamente,
isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo. Seria como tentar imaginar
como um cego (de nascença) percebe o mundo. Embora você provavelmente tenha
pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons, cheiros e pressões (táteis) ao
seu redor, isto não é o que um cego percebe do mundo. Para ele a estimulação visual nunca
existiu, logo, perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras
sensações. Para ele, são apenas as outras sensações.
Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a
capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. Essas pessoas
parecem criar mapas rudimentares do ambiente, precisos o suficiente para se locomoverem
sem maiores problemas.

Memórias atentas ao contexto


Em diversos mamíferos, após um estímulo percorrer todos os circuitos
necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente), invariavelmente ele
chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). Essa região está
envolvida com memória operacional e atenção, especialmente no caso de primatas (e
possivelmente em outros mamíferos), e é onde o estímulo será integrado com memórias
passadas e, se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for
um estímulo muito forte – como um ruído muito alto), ganhará maior processamento neural
destes circuitos, resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção.
É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um
dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. Imagine-
se na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. Você consegue se lembrar com que
facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou
mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma,
círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento, mas eles

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. Essas diferenças sutis
naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias
que acumulamos ao longo da vida.

Ilusões e hemisférios cerebrais


Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia. Quando essas
memórias são integradas com nossa percepção, não é raro que tenhamos uma visão
distorcida daquilo que está diante de nós. Tome por exemplo a Fig. 4A. Qual das duas
barras horizontais é maior? À primeira vista, todos dirão que a barra superior é maior.
Apenas alguns, após uma análise mais cuidadosa, dirão que ambas tem o mesmo tamanho.
Isso não significa que falhamos em enxergar. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado
que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos,
vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores
quanto mais distantes elas estão de nós. As barras
convergentes na Fig. 4 criam a ilusão de algo que se
distancia. Assim, percebemos as barras paralelas como
sendo de diferentes tamanhos. Olhe a Fig. 4B e isso
ficará ainda mais claro.

Figura 5 – Triângulo de Kanisa. Figura 4 – Ilusão de Ponzo. As


linhas paralelas em (A) parecem
ter diferentes tamanhos, apesar
de serem iguais. Em (B) uma
possível explicação biológica
para esse efeito.

(A) (B)
Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo
onde elas não existem. A Fig. 5 sugere o formato de um triângulo, mas sem todas as suas
bordas esperadas, de fato. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. Algumas
pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é
que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano.
As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que
dizem respeito à memória). Há também efeitos causados pelos próprios receptores
sensoriais. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. 6. A
estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva
à percepção da cor complementar correspondente, o que faz com que, ao olhar para um

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Neurociências

fundo neutro (branco, preto ou qualquer tom de cinza), perceba-se cores trocadas na
imagem.

Figura 6 – Efeito de pós-imagem. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando
superestimulados por uma determinada cor. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos
para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e, em seguida, para uma parede
branca. O que você vê?

Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste.


A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor
em si, mas pelas cores em volta da mesma. Quão diferentes são as cores dos quadrados
“A” e “B” na Fig. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso
acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma.

Figura 7 - Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são
diferentes!

De forma mais ampla, somos influenciados por diferenças entre nossos


hemisférios cerebrais. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto, com
ativações bilaterais, diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias inter-
hemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. Testes com
pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o
hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de
uma imagem, enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características
globais. Veja na Fig. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de
cópia de uma figura. Essas diferenças manifestam-se também na percepção de
figuras com conteúdo ambíguo. O que você percebe à primeira vista na Fig. 9?

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um


teste de cópia de figura. Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante,
percebem os detalhes das imagens originais, mas perdem a forma global. Por outro
lado, pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global,
mas não se dão conta dos detalhes. Retirado de Lent, 2006.

Sinestesia
A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma
determinada modalidade sensorial gera a
percepção de outra modalidade. Um dos
eventos mais frequentes é a percepção
secundária de cores após a estimulação
primária por um grafema, seja um número ou
uma letra (ou até mesmo palavras). A
percepção induzida pelo estímulo primário é
sempre muito específica e unidirecional (a
estimulação pelo percepto induzido não gera
a percepção do estímulo indutor pareado,
isto é, se a palavra “casa” induz a percepção
da cor amarela, o contrário não acontecerá).
Um sinesteta pode repetir mais de centenas
Figura 9 – O que você vê nesse quadro?
de pares de percepções com pouco ou
nenhum erro.
Frequentemente a percepção induzida é a de cores, seja por grafemas,
como dito acima, ou por sons (palavras em geral); mas há relatos bem

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Neurociências

documentados de palavras gerando percepção de gostos, gostos gerando formas,


cheiros para cores e, mais curiosamente, música (ou intervalos tonais ou
simplesmente tons) para cores ou formas. As percepções secundárias de gostos e
também cheiros são menos comuns, embora exista pelo menos um caso bem
documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais
(musicais). A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre
tonalidades musicais e cores.
A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas
perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas. Em
relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia, duas proposições
foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. A Fig. 10 apresenta um
resumo dos modelos de mecanismos possíveis.

Figura 10 - Modelos de Sinestesia. Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta
ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta
(estruturais ou funcionais). Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e, em
azul, inativas. Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço.
Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente, mas funcionalmente inativas.
Modificado de Bargary e Mitchell (2008).

As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam


mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral, com ligações
anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Mitchell, 2008). Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia
(tons para cores, por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor
induzida. Se um deles disser que um dó maior é azul, o outro poderá dizer: “Isto está
errado!”. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a
indução de outras percepções.
Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de
uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem
alta (Ramachandran e Hubbard, 2003). Essa divisão leva em consideração o estágio
de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. Sinestetas de ordem
baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos, por
exemplo: números escritos na língua de origem. Já os sinestetas de ordem alta têm
o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está
presente. Tomando por base o exemplo anterior, nos sinestetas de ordem alta
mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras)
poderiam gerar a percepção induzida.
A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4%
(Simner e colaboradores, 2006), um valor bem diferente dos 0,05% anteriormente
sugeridos. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais”
estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de
lactância, mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais
tende a ser removida do cérebro. Isto ainda não fora comprovado em recém-
nascidos humanos, mas observações comportamentais levam à sugestão de que há
uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. A plena maturação
perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses
de vida, portanto. De qualquer forma, não ouse afirmar que um sinesteta tem
sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”. A resposta
sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”.

Concluir é um problema
Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à
percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à
nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões
distintas do córtex cerebral (e.g. cor, forma, movimento, etc., no caso da visão). É o
chamado binding problem.

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Neurociências

Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é


a de que, pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo, com cada vez mais
neurônios se juntando em um próximo neurônio (e, consequentemente,
complexando o estímulo processado), ao final do processamento, invariavelmente
todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. A quantidade de
regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral),
porém, não favorece essa explicação.
Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um
percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões
corticais, ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos
aspectos de um estímulo apresentado. Essa explicação, porém, ainda carece de
comprovações.
O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para
aquilo que entendemos sobre percepção. Alguns sinestetas relatam a percepção de
cores estranhas, diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum
objeto ou lugar. Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de
“cores marcianas”. Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores
estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro, o que
“desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. Segundo os
autores, isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende
não só do processamento final, mas de todo o padrão de atividade neural que leva à
formação de um percepto, incluindo as fases iniciais do processo.
Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003), fica
claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais
simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. Ou talvez um dia
tenhamos a certeza de que, desde sempre, apenas representamos internamente o
que é percebido externamente. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e
memória sugerem cada vez mais fortemente.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Neurociências

Memória e seus aspectos evolutivos

Leopoldo Barletta Marchelli


Laboratório de Neurociência e Comportamento
leopoldo.barletta@gmail.com

Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema


nervoso, a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. O que demonstra a
presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu
comportamento em virtude de experiências anteriores. Essa propriedade manifesta-se em
humanos de diferentes maneiras, por exemplo, na execução habilidosa de uma ação
motora, no relato de uma experiência de infância, na lembrança de locais específicos e
pessoas conhecidas, aprendizagem de conceitos, ou no próprio uso da linguagem e suas
regras.
A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes
dele, permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e
regras ambientais relevantes (altamente informativas). Isso ocorre na medida em que o
sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais
(quando). Ainda sim, o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e
suas respostas, num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a
transformação de sua própria estrutura e funcionamento. Com o acúmulo de informações
sobre experiências anteriores, organismos portadores de sistemas de memória passam a
detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. Desta forma, podem relacionar
grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão
um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção.
O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar
determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. Em função de
experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar
respostas mais adequadas às demandas ambientais. Isso lhes garante um repertório de
soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe

Aspectos evolutivos e comportamentais


Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859, sistemas biológicos são
tidos como produtos da evolução por seleção natural, que pode favorecer o
desenvolvimento de um sistema mais adaptado. Há de se ressaltar que todo o processo
evolução das espécies, ocorre de maneira constante, lenta e gradual.
Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos, ela age também
selecionando comportamentos. Por exemplo, se um ambiente é relativamente simples e

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

possui certa regularidade, a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes
de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. Neste caso
esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. Se, no entanto, a
complexidade de tal ambiente aumentar, a imprevisibilidade pode tornar-se um problema.
Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível, capaz de obter e armazenar o máximo de
informações relevantes sobre o ambiente, estarão mais aptos a reagirem prontamente a
estímulos ambientais. Assim sendo, serão capazes de solucionarem problemas de maneira
antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado.
O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais
e espaciais. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a
previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação
(resposta a esse evento). Uma vez gerada a previsão de um evento, artifícios antecipatórios
possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse
evento. Em outras palavras, além de planejar uma ação antes de sua execução, fazendo
uso de processos antecipatórios, o individuo pode responder a um estímulo de maneira
antecipada. Do ponto de vista evolutivo, isso pode ser altamente vantajoso, pois isso
possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes, sem comprometer de algum
modo a integridade do sistema no desempenho da ação.
A evolução do sistema nervoso, sobretudo dos processos de memória, parece estar
relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com
diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. Tais demandas
sugerem a existência de diferentes sistemas de memória, que podem ser caracterizados
como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu
ambiente. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema,
podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente.
No entanto, o surgimento de diferentes sistemas de memória, com regras de operações
essencialmente diferentes, faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade
de problemas.
Indivíduos capazes de identificar estímulos, prever o ambiente e gerar as
“inferências” e respostas mais adequadas, se beneficiarão; estarão mais aptos para
determinado ambiente. Portanto, a resolução de problemas e a emissão de comportamentos
antecipatórios, ações essas baseadas em experiências anteriores, conferem ao repertório
comportamental do organismo alto valor adaptativo. Uma vez que a emissão de
determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos,
parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao
longo da evolução biológica.
Suporte aos sistemas de memória

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Neurociências

O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma


quantidade substancial de informações sobre o ambiente, sobre suas regularidades e sobre
os efeitos de ações anteriores. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no
sistema nervoso do indivíduo. Assim, os sistemas de memória são claramente dependentes
da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso, que por sua vez, possui bilhões de
neurônios, células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar
informações. Além disso, as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de
diversas maneiras para formar circuitos definidos. Levando em consideração tais
possibilidades de combinação, é possível imaginar a complexidade dos substratos que
armazenam informações no sistema nervoso.
Basicamente o processamento neuronal recebe a informação, avalia e passar o sinal
a outros neurônios. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses.
Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e, por sua vez, recebe
projeções de outros milhares de neurônios. Por essa projeções passam sinais que ativam o
sistema de diferentes maneiras. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são
transformados em um único sinal de saída, temos um processo de computação neural.
Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma
diminuição em outras, deste modo, sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar
informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. É nesse
momento que ocorre modulação do processamento de informações.
Conectadas aos neurônios, há células especializadas para a recepção de
informações ambientais (receptores sensoriais), que transformam diferentes formas de
energia (e.g. luz, som, odores etc.) em potenciais elétricos, isto é, estímulos de diversas
naturezas que se transformam em sinais elétricos, influenciando assim tanto a atividade
elétrica quanto a química dos neurônios. Essas informações sensoriais, sob a forma de
impulsos elétricos, são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso, havendo
circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das
modalidades sensoriais, e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de
diferentes modalidades sensoriais.

Aspectos fisiológicos da memória


Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica, gerada por atividade espontânea,
estímulos ambientais e respostas a esses estímulos, desencadeie processos que levam à
alteração da conectividade entre células nervosas, alterando a transmissão de impulsos
elétricos por esses circuitos neurais. Todas essas modificações provocadas em elementos
constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de
informações, as memórias. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade


nervosa relacionada ao processo de formação de memórias.
O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros
personagens. Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada,
por uma porta tipo guilhotina, a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras
metálicas eletrificáveis. Os ratos rapidamente entram na câmara escura; após entrarem
nessa câmara, levam um choque nas patas. Em uma etapa de teste, realizada 24 horas
depois, os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra
vermelha da Fig. 1). Animais de um grupo controle, que não receberam choque nas patas
no dia anterior, entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. 1). Em
experimentos adicionais, depois do treinamento com choque nas patas, foram aplicadas
correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre
o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. 1 - esquerda). Observa-se que
quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema
nervoso, maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. À medida que
esse intervalo de tempo aumenta, menor é o efeito, como se o choque eletroconvulsivo
perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. (ver Fig. 1 – direita: barras de cor
laranja).

Intervalo de tempo entre choque nas


patas e choque eletroconvulsivo (S).

Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). A organização temporal dos eventos


(esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos
demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas
patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo. Modificado de Pavão
(2009), Xavier (2004) e Gold (1970).
Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por
Shashoua (síntese publicada em 1985). O experimentador prendeu um flutuador nas
nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em
posição desconfortável. Após longo esforço de cerca de 3 horas, alguns peixes voltaram à
posição normal, apesar do flutuador (Fig. 2, treino inicial representado pela curva verde). Se

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Neurociências

o flutuador for removido e recolocado três dias depois, os animais realizam a tarefa mais
rapidamente; i.e., os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos, o que indica
que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. 2, curva azul) (para detalhes
sobre esses experimentos, ver Helene e Xavier, 2007). Em outro teste, Shashoua (1985)
injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de
animais que ficaram por 4h com o flutuador, e valina marcada com carbono radioativo
(valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. Os encéfalos dos animais dos
dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por
peso molecular. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H*
quando com valina-C*; porém, algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*,
indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa;
essas proteínas foram denominadas ependiminas. Num terceiro teste, as ependiminas
foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as
ependiminas. Então, os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que
tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador; no teste de memória
realizado 3 dias depois, esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal
(Fig. 2, curva vermelha). Ou seja, esses animais comportaram-se como se nunca tivessem
sido submetidos ao treinamento. Atualmente, as ependiminas são denominadas “moléculas
de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de
sinapses.

Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados.


Flutuadores foram presos aos animais, que em ficavam em posição desconfortável (esquerda,
acima). com treino de cerca de 180 minutos, ficavam em posição confortável (esquerda, abaixo) –
curva verde. Em segundo momento, 3 dias depois, os flutuadores foram recolocados, e os animais
demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável, indicando que aprenderam essa
habilidade – curva azul. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a
alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de
memória foram apagados pelo tratamento. Modificado de Pavão (2009), Xavier (2004) e Shashoua
(1985).
Em conjunto, os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques
eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

manutenção da memória. Um deles, mais instável, é prejudicado pelo choque eletro-


convulsivo, estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios
(frequência de disparos, por exemplo). O outro, associado com produção de proteínas,
parece envolver alterações estruturais nas sinapses, gerando circuitos alterados no sistema
nervoso.
Posteriormente ao experimento de Shashoua, muitos trabalhos com proteínas
associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo
desenvolvidos. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas.
Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do
processo de formação de memórias em nível celular, inclusive o envolvimento dessas
proteínas na alteração plástica do sistema nervoso.

Plasticidade neural
O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e
funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. Tal
fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou, simplesmente, plasticidade. Inerente ao
funcionamento do sistema nervoso, a neuroplasticidade é uma característica marcante e
constante da função neural. Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade.
Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica, uma de curta duração e a
outra de longa duração. A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida
rapidamente; parece não requerer síntese proteica e mantém-se por, no máximo, algumas
horas. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes, pela
modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. Diferentemente, a plasticidade sináptica de
longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de
Shashoua) dura dias, meses ou anos, envolve processos de transcrição gênica e síntese de
novas proteínas; esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de
sinapses existentes ou a formação de novas sinapses.
Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até
aqui, percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas
populações de neurônios, sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de
memórias em decorrência de experiências vividas. As diferentes modalidades de
arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações
transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios, que
estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo; (2) alteração na facilidade
com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios, relacionada com o
arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses);
(3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de

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Neurociências

circuitos neurais, ou redes nervosas, cuja atividade representaria informações mantidas por
um longo período de tempo, anos ou até mesmo uma vida inteira.

Aquisição e manutenção da memória


Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a
transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável
quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. Sendo
assim, a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um
fenômeno rígido e imutável, mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias.
Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração
de sinapses (portanto, na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação
de longa duração (LTP). Aparentemente, o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal
medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na
representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. Em outras
palavras, estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao
hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas.
Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um
neurônio pós-sináptico, assim como Hebb havia proposto. Acredita-se que a LTP seja um
importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é
essencialmente associativa. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes
sinapses de um mesmo neurônio, permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo
disparo concomitante com uma sinapse forte, tornando-as associadas. Sendo assim, a LTP
é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados, pois gera
uma facilitação na comunicação sináptica. Esse processo parece essencial para a retenção
de informações sobre “o que” ocorreu, mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa
perceptomotora.
Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência
de estímulos ambientais, ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios
recrutados, de maneira a intensificar a comunicação dessas células. Uma vez que a
comunicação sináptica seja facilitada, qualquer referência ao estímulo inicial já causa um
disparo das células envolvidas. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um
processo efetivo de ativação neural.
Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos
de neurônios. Como vimos, essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à
alteração das sinapses já existentes, o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo
populações de neurônios cuja atividade, correspondente àquela gerada durante a
experiência original, representa a experiência adquirida.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação


eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. Isso decorre tanto estímulos que de
alguma forma estão relacionados à experiência original, como por um ato de vontade para
recordar aquela experiência. É curioso notar que os sistemas de memória permitem
identificar estímulos muito específicos e responder a eles, mesmo quando estes não são
apresentados em sua totalidade. Uma vez ativos, esses circuitos podem estabelecer novas
conexões com outros circuitos ativos, ou contar com a adição de novos elementos em
decorrência de novas experiências.
Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes, mais fortes tornam-se
as conexões. Como consequência, a informação tende a ser arquivada de maneira
relacional. Isso permite entender porque a recordação envolve, usualmente, categorias. Tal
fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos
neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em
circuitos relacionados.
É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção,
percepção, ação e outros processos cognitivos, são os que se alteram para a formação de
memórias de diferentes tipos. Isso significa que, quando esses circuitos forem
posteriormente mobilizados, o processamento das informações será diferente em relação às
experiências anteriores, dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. Assim
sendo, a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. Além disso,
estão profundamente associadas com os processos de memória.

Redes neurais e memória


Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma
forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. Em primatas, costuma-se
atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do
córtex) no arquivamento de informações. Esse tecido envolve sistemas de processamento
modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes
modalidades (denominados polimodais e supramodais).
A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais,
organizadas no tempo e espaço. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual
específica, o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento,
por meio de sua atividade e conexões, produzindo uma espécie de "rede" de interconexões
que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. A formação de uma memória
sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a
essa percepção, resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes.
Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade, "nós" da rede, quando

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Neurociências

ativados, excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões, de
forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade
nervosa correspondente ao estímulo inicial.
Nessa rede, uma dada população de nós disparando, provavelmente com níveis de
atividade diferentes em várias regiões nervosas, representa uma determinada informação,
enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós; essas
ligações podem variar em intensidade. Nesse sentido, um mesmo nó pode estar envolvido
em representações distintas, já que a informação é representada pelo conjunto de disparos
dos nós a ela relacionados e não por um nó individual. Isso nos sugere que processos de
memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações
de neurônios.
Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória. Por
exemplo, parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência
original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede, contribuindo para a
lembrança completa da experiência original. Além disso, se dois eventos forem pareados no
tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do
primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento,
levando à sua previsão.

Figura 3 - Esquema representativo de redes neurais de Hebb. Os pontos pretos são os neurônios e
as linhas são as conexões. A rede tem uma organização inicial como representado em (A); ao
receber um estímulo, é ativada (B); esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes, ou pode ter
reverberado nessa rede, de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D);
então, um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto, mas que mantenha algumas das características
do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). Modificado de Bear, 2002, e de Helene e Xavier,
2007.

O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o
funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto
maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica; (2) grupos de neurônios
que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se
mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e; (3) cognição
deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Modularidade e os diferentes processos de memória


A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades
mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso, que funcionam de forma
independente, porém cooperativa, parece atualmente bem difundida. Essa idéia parte do
pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular, representada por
sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. Este conceito de
modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória.
Segundo essa ideia, o processamento de informações nesses módulos acontece de forma
paralela e distribuída, possibilitando que um grande número de unidades de processamento
influencie outras em qualquer momento no tempo, e que grande quantidade de informações
seja processada concomitantemente.
Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória -
correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos
anatomofuncionais, isto é, estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com
danos cerebrais identificáveis. A partir de então foi possível chegar a definições de memória
e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração.
Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa
duração foram também amplamente desenvolvidos.
Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos
de memória foi o caso do paciente H.M., descrito por Scoville e Milner (1957). Na ocasião, o
paciente sofria de epilepsia intratável. O foco epiléptico, que se situava no lobo temporal
medial (bilateralmente), foi removido cirurgicamente; isso resultou na remoção dos 2/3
anteriores do hipocampo e da amígdala, além de outras porções corticais. Após a remoção
das estruturas, H.M. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar
novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia); porém,
neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. O prejuízo cognitivo de H.M.
estava restrito à aquisição de memórias de longa duração; suas capacidades perceptuais se
mantiveram, assim como seu QI, sua personalidade e a memória de curta duração.
Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória, H.M. ainda conseguia adquirir e
reter diversas informações. Por exemplo, aprendeu a ler palavras invertidas, como se
apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas
(ver Helene e Xavier, 2007). O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas.
Curiosamente, quando consultado sobre seu treinamento prévio, ele alegava nunca ter feito
isso.
Como dito anteriormente, o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva
de circuitos envolvidos na representação da informação, uma espécie de reverberação da

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Neurociências

atividade neural que resulta no arquivamento de informação. Essa reverberação seria


essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu, mas não sobre
“como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. Trazendo esse conceito para o caso do
paciente H.M, pode-se dizer que, embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade
motora, ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. Em suma, a natureza da
informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver
Helene e Xavier, 2007).
Curiosamente, pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções
em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos
amnésicos (que, como visto, têm lesão no lobo temporal medial). Os pacientes com
disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e
cognitivas, ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente
as experiências vivenciadas nessas situações de teste. Neste contexto, pacientes
parkinsonianos exibem, por exemplo, prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de
palavras invertidas.
Duplas dissociações, caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas
tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas, são apontadas como
evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso. Resultados
de estudos como do paciente H.M. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de
módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente, embora possam
cooperar entre si.

Modelos de memória
Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações, Cohen (1984) e Squire e
Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa
duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita), usualmente
prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com
disfunções nos gânglios da base, e uma memória de procedimentos (ou implícita),
usualmente preservada nos pacientes amnésicos, mas prejudicada nos pacientes
cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. 4). Em outras palavras, memórias que
atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz
bastante sentido, pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são
denominadas memórias explícitas.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Paciente H.M - amnésico


PREJUÍZO
SABER QUE

Paciente c/ doença de
Parkinson - PRESERVADO
MEMÓRIA DE
LONGO
PRAZO
Paciente H.M - amnésico
PRESERVADO
SABER
COMO

Paciente c/ doença de
Parkinson - PREJUÍZO
Í

Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas


de memória de longa duração. (modificado de Helene e Xavier, 2007).

Memória de longa duração


A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados
períodos de tempo. Sendo assim, ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória
explícita e memória implícita (Fig. 5). Tanto no caso das memórias explícitas como no caso
das implícitas, o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas, como já
descritas; porém, em cada caso, elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso
com diferentes regras de funcionamento.
A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre
fatos e eventos passados e é passível de relato verbal, ou seja, possui um acesso
consciente. Além disso, o arquivamento de informações pode se dar por associações
arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência.
A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso
das atividades previamente treinadas. Sua aquisição é gradual e dependente de treino,
ocorre de forma cumulativa. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se
pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição.

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Neurociências

Figura 5 - Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração.


Modificado de Helene e Xavier, 2007.

Memória operacional
Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória
operacional". Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de
informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. Segundo os
autores, memória operacional compreende um sistema de controle de atenção, a central
executiva, auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento
temporário e manipulação de informações, um de natureza vísuo-espacial e outro de
natureza fonológica.
Posteriormente, para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses
sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa
duração, Baddeley inseriu um quarto componente no modelo, denominado de retentor
episódico, que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação
evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. A central executiva proporcionaria
a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o
responsável pela seleção de estratégias e planos; sua atividade estaria relacionada ao
funcionamento do lobo frontal, que teria a função de supervisionar informações a serem
codificadas, armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig.
6).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 6 - Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e
Hitch (1974). A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a
central executiva), enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de
informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley, 1982).

Ainda sim, a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande


variedade de funções cognitivas, incluindo raciocínio lógico, resolução de problemas,
imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem.

Considerações finais
Em conclusão, a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais
capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo
mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de
arquivar informações depois de uma única experiência, e de sistemas capazes de reter
informações temporariamente, enquanto úteis. É provável que a seleção desses sistemas,
com propriedades distintas, esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações
adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de
problema; as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados
tipos de problema (e.g., aquisição após uma única experiência de treino) o tornam
incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e.g., aquisição de
conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências). Assim, do ponto de
vista evolutivo, a organização do sistema nervoso, inclusive dos diferentes módulos de
memória, teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas,
resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas
específicos.

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Neurociências

Navegação Espacial

Cyrus Villas-Boas
Laboratório de Neurociência e Comportamento
cyrusvb@gmail.com

O debate sobre o hipocampo


O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência.
Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos
de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica.
Anatomicamente organizado em camadas, o hipocampo é claramente identificável
como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal, 1968; Witter e col., 1989) (Fig. 1).

Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta, mostrando o giro denteado
(DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). Adaptado de Paxinos e Watson (2004).

No rato, o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal, o que torna sua parte
dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. Dois aspectos
chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência:
1. Em ratos. Quando o animal se move livremente, as células piramidais do
hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e
Dostrovsky, 1971). Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e
apresentam atividade em uma parte específica do ambiente, como veremos a seguir em
detalhes. Centenas, se não milhares de experimentos, já analisaram a influência de
diversos tipos de manipulações nas place cells.
2. Em primatas. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas
(particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada, ou seja, a
perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

(Scoville e Milner, 1957; Cohen e Eichenbaum, 1993). Entre os anos de 1953, quando fez
uma operação experimental no lobo temporal, e 2008, ano de sua morte, o paciente H.M.
não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia
acontecido, nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e
Eichenbaum, 1993).
Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1)
que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe
e Nadel, 1978) (Fig. 2), e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo
episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum,
1993).

Figura 2. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. Adaptado de Eichenbaum (1999).

Tipos de navegação
Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais
tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. 3). Esse teste consiste de uma piscina
cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. Em
algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. Há
várias versões desse teste, que incluem a plataforma visível ou, outras vezes, com uma
pista que indica onde a plataforma está. Devido à sua simplicidade, esse teste é uma das
ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial. O labirinto de
Morris é usado, entre outros, para estudos de lesões, infusões de drogas ou, em outras
vezes, versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de
place cells, como veremos mais adiante.

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Neurociências

Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. O círculo indica a plataforma escondida ou não. O gráfico
mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. O teste probe-
memory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora. Adaptado
de Rodriguiz e Wetsel (2006).

Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente
e, nesse caso, encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel, 1978; Whishaw e
Mittleman, 1986). São elas:
 Navegação randômica. Se o animal não tem informação prévia de onde a
plataforma está, ele deve explorar o ambiente de forma randômica, aleatória.
 Navegação táxica. O animal pode achar uma pista em uma direção na qual
possa sempre nadar.
 Navegação práxica. O animal pode executar um programa motor constante. Se,
por exemplo, o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também
está no mesmo local, ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação
para chegar à plataforma.
 Navegação por rota. O animal pode aprender a associar uma direção a uma
pista encontrada. Diz-se que a navegação por rota é uma junção das
navegações táxica e práxica.
 Navegação por local. O animal pode aprender a localização da plataforma
baseado em um conjunto de pistas. Ele pode aprender um mapa no qual a
localização da plataforma é conhecida.
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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Outros modelos foram propostos, porém são todos parecidos no que diz respeito às
funções dos sistemas, ou seja, alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais
tipos de navegação supracitados.
Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que
o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. O piloting é um processo pelo
qual o animal determina sua posição através de pistas externas, enquanto o dead reckoning
é um mecanismo que utiliza pistas internas, como direção de movimento e velocidade, para
atualizar a representação de acordo com essas pistas. Dessa forma, esse sistema permite
que sejam usadas pistas internas e externas. Pistas externas são identificadas e usadas
para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente, porém sem
perceber a posição; as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um
tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre
o ambiente.

Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial?


Para navegar em um ambiente familiar, o animal deve usar uma representação
consistente da posição de tempos em tempos. Para tanto, há um mecanismo fisiológico que
é capaz de, utilizando-se das pistas externas e internas, gerar um mapa coerente do
ambiente no qual o animal se encontra. As evidências sugerem que as place cells no
hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação.
Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo,
além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica
relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente. Os locais onde
as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig. 4).
Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo
durante uma tarefa de localização espacial, tanto no ambiente real como em ambiente
virtual (Ghaem e col., 1997; Maguire e col. 1998) e que lesões nessa região causam déficit
severo em tarefas de navegação, possivelmente devido à perda extensiva de place cells.
Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. al, 1978;
McNaughton e col., 1983; Eichenbaum e col., 1990; Wiener, 1996) e foram também
encontradas em macacos (Ono e col., 1993; Nishijo e col. 1997; Matsumura e col., 1999) e
humanos (Ekstrom e col., 1994). Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das
place cells e as variáveis espaciais, diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de
explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células.

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Neurociências

Spikes/s

Figura 4 – Em cima, atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se
movimenta num espaço virtual. VR(W), VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares.
VR(W) e VR têm pistas distais iguais, porém em posições diferentes. VR(N) é um ambiente similar a
VR, porem com menor tamanho. mesmas posições. Embaixo, as rotas que os animais faziam para
passar pelos pontos demarcados. Adaptado de Hori e col. (2005).

As propriedades principais das place cells são:


 Quando as pistas distais são movidas, place fields também se movem
proporcionalmente (Hori e col. 2005).
 Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col.,
2005; Furuya e col., 2007).
 Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col., 1994).
 Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col., 2005;
Furuya e col., 2007) (Fig. 4, Fig. 5).
 Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e
conhecidos, mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente.

Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que, apesar de estruturas
homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies,
no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à
navegação. No entanto, os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados
quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e, dessa forma, imóveis
(Hori e col., 2005; Furuya e col., 2007). Em outros estudos, o animal é colocado em uma

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

cadeira móvel (Ono e col., 1991), mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma
forma de navegação espacial virtual similar a um water maze, no qual o animal controla um
joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col., 2007). Nesse paradigma, no
entanto, são as pistas que se movem em relação ao animal, e não o contrario. Porém,
mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de
acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual.
Maguire e col. (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em
taxistas em Londres. Foi verificado que os taxistas, em relação ao grupo controle de não-
taxistas, apresentavam maior atividade no hipocampo, além de uma parte posterior
aumentada em relação à do grupo controle.

Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes, porém com características


similares. Em A., as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta.
Em B., as pistas encontram-se próximas e em C., o ambiente todo é reduzido, mantendo-se as
proporções de B. Adaptado de Hori e col. (2005).

Outros sistemas de navegação espacial


Além do hipocampo, há outros sistemas que parecem influenciar no processo de
navegação espacial, tanto em ratos, quanto em primatas. Ambos os animais utilizam-se de
múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. No entanto, esses sistemas não
parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz.
Head direction cells
Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head
direction system). Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram
descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS; Ranck, 1984),
núcleo anterior talâmico (ATN; Taube, 1995), núcleo mamilar lateral (LMN; Leonhard e col.,
1996), núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN; Mizumori e Wiliams, 1993) e, em menor

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Neurociências

quantidade, nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC; McNaughton e col.,
1994).
As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação, na qual
sua atividade é máxima, diminuindo à medida em que o animal move a cabeça
progressivamente para longe desse ponto. As taxas de disparo dessas células não são
correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo, mas sim à orientação da cabeça em
relação ao ambiente. Como a direção preferida de ativação não se altera, a célula não pode
codificar informações egocêntricas em relação a uma pista, mas sim informações
alocêntricas em relação a uma direção de referência. As head direction cells geralmente são
sensíveis à rotação de pistas distais (Taube, 1995), evidenciado pela alteração simultânea
de duas ou mais células registradas simultaneamente.
Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como
estando dispostas em um círculo, ou seja, em um arranjo de 360º. Cada região, ou cada
população de células, agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction
cells vizinhas, sendo, dessa forma, esquematizadas em um anel de ativações. Esse sistema
seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular
(Fig. 6).
Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente
conectadas. O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados;
PoS envia uma projeção ao LMN, que, por sua vez, se projeta para o AD. O LDN também se
conecta com o PoS. O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para
o córtex cingulado, enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS.

Grid cells
Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex, o córtex entorrinal apresenta
também alguma atividade relacionada a memória e a localização. Estudos recentes
mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade
relacionada a posicionamento (Fyhn e col., 2004). Essas células, denominadas grid cells,
são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do
ambiente. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente, diferentemente das
place cells, seguindo um padrão triangular, ou seja, a célula dispara quando a posição do
animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do
ambiente, com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid
(McNaughton e col., 2006).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato
e a sua velocidade angular. a. Head direction cells arranjadas em círculo, para fins didáticos, de
acordo com sua posição preferencial de disparo. Cada célula se conecta com as adjacentes. A
influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e
cinza), cores quentes representando maior taxa de disparos. b. A rotação nos sentidos horário ou
anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações
tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a
elas. Na ausência de movimento, as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do
limiar. Adaptado de McNaughton e col, 2006.

Figura 7 - Modelo de integração de rotas. Adaptado de McNaughton e col. (2006).

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Neurociências

O sistema de grid cells, por ser menos específico do que o sistema de place cells, é
tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito,
como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente.
Dessa forma, acredita-se que o córtex entorrinal medial seja, junto com o sistema de head
direction, um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead
reckoning), que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após
ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish, 1997) (Fig. 7). Esse sistema
não depende do uso de pistas externas do ambiente. No entanto, sabe-se que esse sistema
acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições
de visibilidade. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas
coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo, onde a integração e
utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col., 2006) (Fig. 8).

A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial


Como vimos, é muito difícil, ou quase impossível, dissociar navegação espacial de
memória episódica, sendo a primeira apenas uma parte da segunda. Os resultados desses
estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de
memórias do tipo episódica. A codificação de informações a respeito de lugares, certamente
essencial para os processos evolutivos dos animais, é muito bem atribuída ao hipocampo
nos vertebrados. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar
informação de como se chegar a lugares desejados, essencial para vários processos como
busca de alimento, encontro de parceiros sexuais, localização dos melhores abrigos, etc. Da
mesma forma, o conhecimento, ou a memória, de melhores épocas do ano para migração,
onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o
precedem, em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar, entre outras questões
adaptativas, são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de
memória episódica.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal
medial e place cells do hipocampo. Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente
recebem informação das grid cells com ativação similar. Place cells com campos de ativação
menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal, enquanto place cells com
campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal.
Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. As cores dentro dos place fields
simbolizam as taxas de disparo. Cores quentes indicam altas taxas. (B) Os grids são construídos de
acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. Adaptado de Einevoll (2006).

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Neurociências

Neurobiologia das Emoções

Bárbara Onishi
Laboratório de Neurociência e Comportamento
onishib@gmail.com

O que é emoção?
Medo, raiva, alegria, vergonha, tristeza e frustração são todos exemplos de
emoções. De forma geral, emoção se refere a um estado mental associado a alterações
fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância
para o organismo.
Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William
James em 1884, em um artigo intitulado O que é a Emoção?. James sustentou a idéia de
que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por
eventos significativos. Por exemplo, ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata
apresentamos uma resposta de fuga, que é acompanhada por diversas alterações
fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos, contração
de diferentes músculos, aumento da sudorese, etc. Para James, essas sensações são as
emoções. Se essas sensações pudessem ser eliminadas, as emoções não ocorreriam. Ou
seja, segundo James, sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo.
A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920, quando foi questionada
pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas
resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. Por exemplo, alterações
fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão
estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. Portanto, se a
teoria de James estivesse correta, duas emoções diferentes não poderiam estar associadas
às mesmas reações fisiológicas. Ademais, Cannon observou que as alterações fisiológicas
ocorrem, em geral, mais lentamente que as sensações de um estado emocional, i.e., em
geral, sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas
ocorrerem. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o
medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas.
Com o surgimento do pensamento behaviorista, por volta de 1910, o estudo da
mente e, por conseguinte, o estudo das emoções, começou a ser considerado como não-
científico. De fato, emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico
obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica.
Por volta de 1950, a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu,
então, a ciência da cognição. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram, então,
retomados. Pesquisadores como Magda Arnold, Caroll Izard, Jaak Panksepp, Paul Ekman,

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Jeffrey Gray, Antonio Damasio, Richard Davidson, Edmund Rolls, entre outros contribuíram
e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções, mas a
questão central levantada por James, O que é a Emoção?, ainda não tem uma resposta
consensual.
Por exemplo, Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por
recompensas e punições. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um
dado estímulo, nos referimos a este estímulo como recompensa. Quando, por outro lado,
um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo, nos referimos a este
estímulo como punição. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria
um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção
de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. Esse mecanismo de atribuição de
valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva:
respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva
e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso
reprodutivo do indivíduo.
Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente, que não privilegia as respostas
de aproximação e esquiva na definição de emoção. Para ele, emoções seriam estados
mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais
eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. Segundo essa concepção, um
organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo, e por outro
lado, trabalha para reduzir, eliminar ou evitar um estado emocional negativo. Um bom
exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva”
é a raiva, que apesar de ser um estado emocional negativo, está associada com uma
resposta de aproximação, e não de esquiva.
Apesar das fortes evidências contra a teoria de James, i.e., contra o papel das
reações fisiológicas na produção das emoções, Damasio recentemente propôs uma
hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos.
Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é
percebido, uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre, a qual resulta numa
sensação. Essa sensação é avaliada pelo organismo, contribuindo para a tomada de uma
decisão, i.e., para a escolha de uma resposta frente ao estímulo.
Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos
subjacentes às emoções. Apesar das diferenças entre elas, parece haver um consenso de
que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de
valor, seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado
emocional. As emoções, de uma forma geral, são processos que facilitam a emissão de
respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. Por exemplo, reações

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Neurociências

emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras
fontes de perigo, encontrar alimento e parceiros sexuais, apresentar cuidado parental, e
engajar em comportamentos sociais adequados. Assim, também é consenso que as
emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva
evolutiva, atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie.

Reações emocionais inatas e aprendidas


Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em
outros animais, particularmente as expressões corporais e faciais, Darwin observou
semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre
diferentes espécies de animais, o que o levou a propôr que muitas das expressões
emocionais de um organismo são inatas ou herdadas, i.e., não são aprendidas pelo
indivíduo. Darwin observou, por exemplo, que a ereção dos pêlos do corpo e os
comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre
animais de diferentes espécies, como mostra a Fig. 1. Darwin descreveu uma série de
outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies, como o comportamento de
morder quando se está com raiva; a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como
garras, ereção dos pêlos, batimento das asas, etc) em condições de perigo como meio de
desencorajar o adversário de atacar; a emissão de sons, cheiros, posturas e exibição de
partes do corpo como sinal de receptividade sexual, entre muitos outros.
Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares
entre seres humanos de todo o mundo, indicando que elas independem da origem racial e
da herança cultural do indivíduo. Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram
oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas, como
cegos de nascença e bebês muito novos, exibem normalmente expressões emocionais.
Estudos mais recentes mostraram, por exemplo, que as expressões faciais de seres
humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram
padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com
menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar
(Steiner & Glaser, 1995). Além disso, um estudo com diferentes espécies de primatas não-
humanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são
similares entre as espécies para cada categoria de sabor, indicando homologia no que se
refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas
relacionados.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 1. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo.


Note a ereção dos pêlos no gato e no cão, e das penas na galinha. (A) gato assustado com um
cachorro; (B) galinha afastando um cão de sua ninhada; (C) cachorro aproximando-se de outro
cachorro com intenções hostis. Modificado a partir de Darwin (1872).

Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções


a outros indivíduos. Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a
se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais,
incluindo as sociais. E nesse contexto, as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos
outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. Gene Sackett
(1966), ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato
social prévio ao experimento, observou que esses macacos produziam expressões faciais e
respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de
expressão (e.g. expressão ameaçadora, de medo ou de alegria) similares a macacos que
faziam parte de um grupo social. Este estudo demonstrou que a experiência social não era
necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie
produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos. Isso indica que existe um
componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do
conteúdo emocional das expressões. Entretanto, quando os macacos isolados foram
inseridos em um grupo social, mostraram-se incapazes de reagir prontamente e
apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa
dinâmica social. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados
aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir
apropriadamente a tais situações.
De fato, as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. Isto é, os animais
são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não
eliciavam respostas emocionais reflexas, e de se recordar do conteúdo aprendido. Essa
capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na
emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente, o que tem alto

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Neurociências

valor adaptativo.
John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 –
o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. Watson observou que
um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no
bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som. Watson, em
seguida, colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato,
não apresentando medo pelo animal. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato, o
pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. Depois de alguns pareamentos
entre o rato e o som, Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. O
bebê passou a sentir medo pelo rato, algo que não sentia antes. Watson demonstrou
experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos
podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos.

Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais


O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo
fisiologista Ivan Pavlov, e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano
(Fig. 2). Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães, Pavlov observou que os
animais não somente salivavam na presença do alimento, mas também salivavam diante do
pote onde a comida seria apresentada, e até mesmo diante dos sons produzidos na sua
chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida
aos cães. Pavlov, então, elaborou um experimento no qual pareou o som de uma
campainha, que não eliciava a resposta de salivação nos cães, à apresentação de carne,
que por sua vez naturalmente eliciava a salivação. Depois de realizar esse pareamento 60
vezes, Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne,
e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. Ele observou que bastava o som
da campainha para os animais salivarem.
O condicionamento Pavloviano, também denominado condicionamento clássico, é
uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem
emocional em animais não-humanos e humanos, tanto envolvendo estímulos aversivos
(“negativos”), como no caso do experimento idealizado por Watson, quanto envolvendo
estímulos apetitivos (“positivos”), como no caso do experimento de Pavlov.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 2. Procedimento de condicionamento Pavloviano. Modificado a


partir de Moreira & Medeiros (2007).

O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais
mais amplamente estudadas pela neurociência. Sua investigação se faz comumente através
do procedimento de condicionamento clássico aversivo. Nesta situação, a apresentação de
um estímulo inicialmente neutro, por exemplo um estímulo sonoro, é pareado algumas
vezes a um evento aversivo, geralmente um choque nas patas do animal. O som passa a
eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo, como comportamentos
defensivos (e.g., respostas de congelamento), respostas autonômicas (e.g., mudança de
pressão arterial e batimentos cardíacos), respostas neuroendócrinas (e.g., liberação de
hormônios das glândulas adrenais e da pituitária), entre outras. Em geral, toma-se a
resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores.
Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de
comportamentos respondentes. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado
por um evento significativo do ambiente (e.g., o choro do bebê Albert perante ao rato albino,
e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado), e prepara o organismo para
enfrentar o evento em questão. Diferentemente, quando um organismo emite um
comportamento para produzir uma consequência, chamamos este comportamento de
operante. Por exemplo, o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um
comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo
que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais. A estímulos desta
natureza nos referimos como recompensas. A resposta de fuga de um animal para escapar
de um predador também é um comportamento operante; neste caso, o animal emite uma

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Neurociências

resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. A


estímulos desta natureza nos referimos como punições.
Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento
operante, e é amplamente empregado no estudo das emoções. O procedimento de esquiva
passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo, no qual a
apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a
probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. Nesta situação
comportamental, por exemplo, um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma
localizada acima de um assoalho de metal. O rato mostra uma tendência natural de descer
da pequena plataforma para o assoalho da caixa. No entanto, toda vez que o rato toca o
assoalho, recebe um choque nas patas. O tempo que o animal leva para descer da
plataforma aumenta com o treino, indicando aprendizagem do condicionamento operante: o
animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se
esquivar de um perigo – o choque nas patas.
Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no
estudo das emoções. Neste caso, a apresentação de um estímulo que produz uma reação
emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a
obtenção ou manutenção deste estímulo. Por exemplo, é comum a utilização de um
procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa
para receber alimento. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. Neste
caso, a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como
recompensa, i.e., o organismo produz comportamentos para obter a estimulação.
O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o
entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. Em algumas
regiões do encéfalo, a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas
naturais para um organismo, como os efeitos de comida para um animal com fome ou de
água para um animal com sede. Até mesmo alterações de humor, como sensações de bem-
estar ou de mal-estar relatadas por seres humanos, podem ser provocadas por estimulação
elétrica em determinadas áreas do encéfalo.
Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional, como por
exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional, é empregada nas pesquisas sobre
emoções em seres humanos. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema
Internacional de Figuras Afetivas (IAPS, do inglês, International Affective Picture System)
que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência, de sexo, de cenas alegres ou
neutras, entre outras, que evocam diferentes respostas emocionais. Centenas de indivíduos
foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das
reações emocionais que elas evocavam. Essas cenas e as suas respectivas classificações

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações
emocionais em indíviduos. Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. 3.

Figura 3. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS - International


Affective Picture System). Modificado a partir de Lang et al. (1995).

Bases Neurais
Em 1878, o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto
de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso, incluindo o córtex cingulado, o
córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo, como mostra a Fig. 4.

Figura 4. Lobo límbico definido por Broca. Modificado a partir de Bear et al. (2002).

Mais tarde, em 1937, o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam
processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo, o
tálamo anterior, o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. 5). Para Papez, a experiência
emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado, e a expressão emocional
pelo hipotálamo. Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões
bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior, de modo que a
experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam.

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Neurociências

Figura 5. Circuito proposto por Papez. Modificado a partir de Bear et al. (2002).

No início da década de 1950, o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito


proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala, o córtex
orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável
pelas emoções no cérebro, que denominou “sistema límbico”, valendo-se do termo
inicialmente empregado por Broca. O conceito de sistema límbico como a parte emocional
do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência, não é difícil nos
depararmos com esse termo até os dias atuais. Fortes evidências mostram o envolvimento
de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional, como a
amígdala e o hipotálamo. Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que outras estruturas
do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento, como
por exemplo, o hipocampo. Ademais, a idéia de um sistema único responsável pelas
emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. Diferentemente, parece que diferentes
circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com
diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional.
Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às
emoções. Historicamente, a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na
produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy
(1939). Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo
temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos, denominado síndrome de
Klüver-Bucy, cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira
psíquica, que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais,
principalmente os visuais. Isto é, os animais podiam ver perfeitamente, mas os objetos
pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”; por exemplo, os macacos lesados

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

levavam à boca objetos não comestíveis, tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo
ou de outras espécies, e perdiam o medo por cobras e pessoas. Mais tarde, outros estudos
tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na
síndrome, e nesse sentido, o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar
que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças
comportamentais que incluia mansidão, perda de responsividade emocional, exame
excessivo de objetos, consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação
de objetos previamente relacionados ao medo, que em muito se assemelhavam aos
comportamentos observados por Klüver e Bucy. Weiskrantz (1956) também reportou que a
ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa
de esquiva ativa, em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na
presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. Baseado nessas e em
outras observações, Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria
fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às
propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada
até hoje por numerosas evidências. Mais tarde, Jones e Mishkin (1972) sugeriram que
muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo
de aprendizagem (ver Rolls, 1992). Consistentes com esses achados e com essa
interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito
acima), onde um estímulo (e.g., um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e.g.
um choque). Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a
apresentar medo diante do estímulo preditivo, diferente de indivíduos normais. De fato, do
ponto de vista hodológico, a amígdala encontra-se em condições de associar
representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um
estímulo significativo. Depois de processadas e associadas na amígdala, essas informações
podem modificar respostas autonômicas, endócrinas, somáticas e comportamentais por
meio das diferentes áreas de projeção da amígdala.
Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel
fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo. Este envolvimento da
amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo, e não de
outros tipos. Por exemplo, se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar
uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada), ele dirá 2
ou 3, ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. O mesmo não ocorre para uma
expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma
escala. Em seres humanos, a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de
somente poucos tipos de expressões faciais, e não parece importante para produzir
expressões faciais apropriadamente. De fato, danos amigdalares em seres humanos

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Neurociências

provocam fracos prejuízos na interação social, o que não ocorre em animais não-humanos.
Macacos com danos na amígdala, por exemplo, mostram graves prejuízos em responder a
estímulos sociais e, em geral, são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do
grupo.
Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em
processamento emocional é o córtex orbitofrontal. Uma das primeiras evidências disso
surgiu do famoso caso Phineas Gage. Phineas Gage, aos 25 anos, era o contramestre de
uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. O trabalho de Phineas
Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. Em setembro de 1848,
um trágico acidente acometeu Gage. Uma explosão inesperada produzida por um erro no
preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de
Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos
pelo acidente, mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade.
Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência, paciência e
bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. Depois, tornou-se irresponsável,
impaciente e grosseiro. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las;
logo se perdia em outros planejamentos, que sempre abandonava. No entanto, ele não
apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas, tais como perda de inteligência,
deficiências motoras ou de percepção. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar
suas respostas emocionais. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado
dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. O resultado disso foi que Gage logo
foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte, que se
deu 13 anos mais tarde, fruto de uma forte crise epiléptica. O crânio de Phineas Gage e a
barra de ferro que produziu o acidente foram preservados, e muitos anos mais tarde,
Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de
neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal, como
mostra a Fig. 6.
A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex
orbitofrontal. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e
recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. O córtex
orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas, incluindo seres humanos, e
pouco desenvolvido em outros animais, tais como os roedores. Em seres humanos, lesão do
córtex orbitofrontal resulta em euforia, irresponsabilidade e perda de afeto. Essas alterações
se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é
inapropriado. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em
roedores com danos na mesma região. Por exemplo, macacos e ratos com lesão do córtex
orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

tarefa de reversão. Nesta tarefa, o animal é inicialmente recompensado por escolher um


determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. Em seguida, o reforçamento é
revertido, ou seja, a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser
recompensada. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao
primeiro objeto depois da reversão, diferentemente de animais normais, que alteram a sua
escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. De maneira similar, lesão do
córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção, nas quais a escolha de
um objeto, que inicialmente era recompensada, passa a resultar em nenhuma recompensa.
Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as
respostas não são mais reforçadas, diferentemente de animais normais, que param de
responder. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de
representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala
(Schoenbaum et al., 2007). De fato, essas estruturas mantêm densas conexões
bidirecionais entre si. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex
orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas
observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região.

Figura 6. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo


trespassado pela barra de ferro. Modificado a partir de Gazzaniga et al. (2006).

O núcleo accumbens, por sua vez, está envolvido com os estados afetivos ligados a
recompensas prazerosas. Por exemplo, estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação

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Neurociências

de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como


alimentos, oportunidade de contato sexual com outros indivíduos, e até mesmo drogas de
abuso como anfetamina, heroína e cocaína. A ativação dessa região também se dá por
estímulos reforçadores secundários, i.e., estímulos inicialmente neutros que passam a
predizer a ocorrência das recompensas naturais. Evidências sugerem que as projeções
dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de
incentivo a recompensas. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja
um determinado estímulo, ou seja, o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele
estímulo. Isso é diferente de valor hedônico, que se refere a quanto um organismo gosta de
um determinado estímulo. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo, mas
não para o valor hedônico das recompensas. Por outro lado, os neurotransmissores
opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. Por exemplo, a ativação de
receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de
uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas.
Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se,
por exemplo, o córtex cingulado, o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. O
córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. Um dos
tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex
cingulado, que por razões ainda não claras, também auxilia no tratamento de depressão e
do transtorno obsessivo-compulsivo. Danos no hipotálamo lateral, por sua vez, eliminam
comportamentos motivados, como por exemplo o comportamento de se alimentar, de beber,
e o comportamento sexual. E consistentemente, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral
elicia esses tipos de comportamentos, além do comportamento maternal, do ataque
predatório, do comportamento defensivo, entre outros. Finalmente, apesar de a visão
tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente
reflexiva, estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais.
Por exemplo, a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal,
enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo
parabraquial da ponte. O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante
para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. De fato, a
capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente, função primordial das emoções,
é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo, que ela deve ter surgido
muito cedo na história evolutiva dos vertebrados, quando a organização do sistema nervoso
era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp, 1998).

A relação das emoções com outras funções cognitivas


Conforme descrevemos acima, pacientes com lesão da amígdala se mostram

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a


ocorrência de um estímulo aversivo. Por exemplo, a paciente S.P., com dano bilateral na
amígdala, foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns
segundos, a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. Pessoas normais
mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque,
indicando reação aversiva ao choque, e também mostram alterações na condutância da
pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos, indicando o aprendizado do
condicionamento aversivo. Entretanto, a paciente S.R. apesar de mostrar alterações na
condutância da pele em resposta ao choque, não mostrou qualquer alteração diante do
quadrado, demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo.
Apesar disso, a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um
choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. Claramente esses
dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento
emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação. Como foi discutido em
capítulo anterior, o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo, e
consistentemente, pacientes com lesão hipocampal, quando testados na mesma tarefa,
apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado, mas são
incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso.
De fato, as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. O
significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. Em um
experimento clássico, Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações
emocionais a estímulos percebidos subliminarmente, ou seja, sem conhecimento
consciente. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de
tempo muito curtos (da ordem de milisegundos), de forma que não pudessem ser
percebidas de forma consciente. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com
choques elétricos, Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas
perante às letras condicionadas, mesmo sem nenhuma percepção consciente delas.
Num teste chamado impressão emocional subliminar, idealizado por Murphy e
Zajonc (1993), uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada
subliminarmente a um sujeito na tela de um computador, seguida de um estímulo-alvo,
como por exemplo, um ideograma chinês. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram
questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo, relatavam preferência aos
ideogramas associados às expressões sorridentes, e não às furiosas, indicando que os
estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional
ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente.
Interessantemente, a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões
faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas

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Neurociências

conscientemente pelos sujeitos.


Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos
inconscientes. De fato, a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua
influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento, ao passo que a
percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações
emocionais que ela gera ou influencia.
O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido
declarativamente, e não só por meio de um procedimento implícito, como o condicionamento
aversivo. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído, no qual aprendemos a ter medo de
algo por aprendizagem declarativa, mesmo sem nunca termos experienciado de fato o
estímulo aversivo, ou seja, mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao
dado estímulo. Por exemplo, somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada
porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos, mesmo sem
nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. A amígdala também se mostra
importante neste tipo de aprendizagem emocional.
A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de
uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. Isso fica
claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências
sem conteúdo emocional. Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos,
é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional, como o falecimento
de um ente querido, o primeiro namorado, etc. O processo de armazenamento de uma
memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em
questão, seguido pela consolidação dessa memória, que é o processo pelo qual novas
memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. O estado de alerta produzido
por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento, o que faz melhorar a
codificação da representação dessa memória. Além disso, a atividade do hipocampo é
modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento
emocional.
Numa perspectiva evolutiva, a melhora da memória para eventos significativos do
ambiente tem um alto valor adaptativo, pois garante que a informação sobre esses eventos
seja disponibilizada em ocasiões futuras, aumentando a probabilidade de sobrevivência e
sucesso do indivíduo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Neurociências

Neurofisiologia da Linguagem

Rodrigo Collino
Laboratório de Neurociência e Comportamento
rodrigocollino@terra.com.br

Introdução
Dentro das ciências cognitivas, o estudo da linguagem tem ganhado grande
atenção nas últimas décadas. É uma área que envolve diversos detalhes e grande
complexidade, dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da
metade do séc. XX) em estudos neurocientíficos. Anteriormente a este período, as
conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente
através da análise da casos clínicos, advindos de acidentes que causassem danos a áreas
específicas do cérebro, e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na
compreensão da fala, ou na produção de mesma, por exemplo. Retrocedendo mais ainda no
tempo, pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado
totalmente na língua do indivíduo. Assim, ao encontrar um indivíduo que, provavelmente
devido a um acidende vascular cerebral (AVC), apresentasse dificuldades na dicção, era
comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua, na esperança de
recobrar-lhe a fala. Atualmente, estudiosos da neurociência contam com instrumentos
aguçados de avaliação da atividade cerebral, tais como fMRI, MEG, PET e ERP, a fim de
correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus
respectivos padrões de ativação neuronal.
Neste capítulo, vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas
pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana, sua lateralização e
modularidade cerebral, distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos, e
como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação.

A Linguagem é exclusiva do Homem?


Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem; ouvimos,
falamos, lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente, sem pensar
muito na ordem das palavras que emitimos, ou no som das sílabas que ouvimos. Bebês
nascem e, em questão de 1 ou 2 anos, já entendem muito de sua língua-mãe e não levam
muito mais tempo para se comunicarem fluentemente.
Antes objeto de estudo apenas de linguistas, hoje a Linguagem passa também ao
domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral, e até mesmo
encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. De
certo, algumas espécies de animais se comunicam, como as aves, cães, lobos e primatas,

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que
alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”?
Neste sentido, vários experimentos têm sido realizados, especialmente com
chipanzés. Em um deles, tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos
presentes em seu ambiente, e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes
fora apresentado. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que
tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso, o que limita
enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie
humana, e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2,5 anos. Em
outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se, optou-se pela Linguagem de Sinais
(ASL), e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade, o chipanzé havia
aprendido a sinalizar 160 palavras, e chegou até mesmo a produzir a composição “water
bird” ao ver um cisne em um lago. Pois bem, comparando-se com crianças de nossa
espécie, aos 4 anos de idade, elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3.000
palavras. Além disso, não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por
aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se, simplesmente, eram duas
mensagens separadas – uma indicando a água em si, e a outra indicando o cisne.
De modo muito diferente, a espécie humana parece ter sido selecionada com esta
característica inata à linguagem: atualmente, no planeta, contam-se 10.000 idiomas e
dialetos dentre todos os povos da raça humana. Além disso, casos de indivíduos que
cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas
próprias de comunicação. Por fim, há algumas características que diferem a comunicação
humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. São elas:
 criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até
mesmo criar um novo dialeto;
 forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras, e emprego de regras
sintáticas bem definidas para compor sentenças, tudo isso sem a necessidade de
intrução formal, mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia;
 conteúdo: não só as palavras, mas também gestos, expressões faciais e a
entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana.
 uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para
identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções).
Assim, podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa
dentre os seres vivos de nosso planeta. Surgem também algumas questões, de discussão
atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do
cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao
desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar

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Neurociências

na busca por respostas a estas perguntas, vamos agora olhar para dentro do centro da
linguagem: o cérebro humano.

Neuroanatomia da Linguagem
Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de
ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso
central pelo nosso sistema auditivo; a produção da fala, envolvendo a articulação dos lábios
e língua, também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro; a leitura e a escrita, e
até mesmo nossa linguagem corporal, intermediados pelos sistemas visual e motor, são
orquestrados pelos 1,5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa
craniana.
Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas
neuroanatômicas bem definidas e localizadas, que serão ilustradas na Fig. 1 e Tab. 1:

Figura 1 – Principais áreas anatômicas do


cérebro humano.

Tabela 1 - Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem.

Estrutura neuroanatômica Função controlada


Região temporo-superior posterior
Compreensão da fala e escrita
esquerda
Região frontal inferior posterior esquerda Expressão oral e escrita
Córtex auditivo primário Percepção de sons
Região temporo-parietal esquerda Categorização de fonemas
Córtex estriado e pré-estriado Visualização de palavras
Córtex pré-frontal Iniciação e categorização de palavras
Tálamo Interface semântico-lexical

Percebemos, então, um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito


ao controle da linguagem, determinando o hemisfério esquerdo como dominante. De fato,
99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica. O hemisfério

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

direito também participa em características importantes da linguagem, tais como


compreensão de respostas não-verbais, leitura de números, letras e palavras curtas, e
conferir entonação, ritmo e prosódia à lingua falada. O centro de compreensão prosódica
também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior).
Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como
PET e fMRI. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento
cerebral. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral
em função de diferentes usos da linguagem:

Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo


representado por cores. Vermelho indica os
maiores níveis, e níveis progressivamente
menores são indicados por laranja, amarelo,
verde e azul. Retirado de Posner e Raichie, 1994.

Portanto, podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral


podem afetar uma característica específica da linguagem. São diversas as disfunções
decorrentes de AVC, conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da
fala), alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). As mais conhecidas
são as afasias de Broca, de Wernicke e de Condução.
A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita.Geralmente é
decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda, produzindo alterações no paciente
equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular, verbos
sem flexão, levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p.e., “Senhoras e
senhores, por favor dirijam-se à sala de jantar”, seria produzido por um destes pacientes
como “senhora, senhor, sala”). A afasia de Wernicke não prejudica a produção, mas sim a
compreensão da fala e da escrita. Devido a esta dificuldade de compreensão, sua fala fica
afetada por uma fluência em excesso, com abundância de palavras e frequentes trocas de
assunto dentro do mesmo trecho discursivo, produzindo uma espécie de “vazio” na fala.
Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. A afasia
de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda), que interliga
as regiões de Broca e Wernicke, é rompido. Seus principais sintomas são dificuldades na
repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos, e troca de letras durante a escrita.

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Neurociências

Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério


direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no
córtex frontal direito, e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após
lesão no córtex posterior direito.
Há, ainda, aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas
aparentes, apontando apenas para um componente genético. A dislexia, por exemplo,
envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos, ocasionando atrasos no aprendizado
de leitura e grafia incorreta de palavras. Estudos recentes apontam para um possível
correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente
reduzido do hemisfério esquerdo, com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum
temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o
desenvolvimento. Existe, ainda, uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais
ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos, quando comparados à
população normal.

O Cérebro Bilíngue
Comunicar-se, portanto, parece pertencer ao acervo biológico do homem, herdado
geneticamente de nossos ancestrais; em nossa espécie, há um instinto para o
desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no
decorrer do percurso. E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o
nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas, e processá-los a nível neural? Existem
populações neurais específicas para cada idioma, ou que se complementam no
processamento de mais de um idioma? Aqui, devido à modularidade cerebral - já conhecida
não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória, motricidade,
visão, olfato), mas também para diferentes características linguísticas, temos novamente
que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue:
percepção de fonemas estrangeiros, aquisição de um léxico e de estruturas próprias da
língua em questão, articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada
para interação com nativos daquela língua, entre outras.
Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que
envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani &
Abutalebi, 2005), enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica,
destacando-se entre estes Kuhl (2000), Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . (2001),
apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e
adultos.
A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto
pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral, a qual percebe a facilidade

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial, a aquisição de outro idioma.


Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas
estrangeiros, ao passo que, curiosamente, bebês aos dois meses de idade não o fazem
mais. Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção, após o qual ela
deixa de existir. Ainda assim, percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o
chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade
(Stromsworld, 2000), caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas
de oportunidade - períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam
favorecidas por fatores genéticos, hormonais e de plasticidade neural. Os primeiros estudos
utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas
línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para
processamento de ambas as línguas, ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido
duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também
distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. 3):

Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois
idiomas, em dois indivíduos adultos, sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do
idioma, e o da direita, de aprendizado simultâneo de duas línguas. Retirado de Kim , 1997.

Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade, mas
também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral.
Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporo-
parietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente
duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. (Mechelli, 2004). Isto equivale a
dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro, maior a quantidade
de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no
processamento daqueles idiomas.
De fato, tomado de um ponto de vista neurobiológico, nascemos prontos para
aprender qualquer idioma. Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem
quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália, embora estas duas
línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios, diferentes entre

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Neurociências

elas. Nosso cérebro, nos primeiros anos da infância, não faz distinção entre japonês e
inglês, português e alemão, ou quaisquer outras línguas entre si. É somente após alguns
meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais
freqüentes ao nosso meio, e por consequência, a não mais reconhecer fonemas
estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta
(Fig. 4). Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em, primeiro, perceber
auditivamente e, depois, em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas
palavras bad e bed, em inglês, para os brasileiros, ou como nas palavras avô e avó, em
português, para os povos de língua espanhola.
Figura 4 – Linha do
tempo para percepção
de sons da fala em
bebês, de 0 a 12 meses
de idade. Retirado de
Kuhl, 2004.

Conclusão e Perspectivas
O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem.
Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua, passando pelo seu
processamento, distúrbios, anomalias, codificação gênica, representação mental, e
chegando até o fenômeno do bilinguismo, todos ainda reservam perguntas que têm ajudado
em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área.
Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:
 Interação entre linguagem e sistemas de memória;
 Ontogenia, prevenção e reabilitação de afasias e dislexias;
 Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico;
 Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória;
Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades
e níveis de proficiência.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Neurociências

Neurofisiologia da música

Felipe Viegas Rodrigues


Laboratório de Neurociência e Comportamento
rodrigues.fv@gmail.com

Introdução
A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente
(Hauser e McDermott, 2003; Gray e col., 2001; Tramo, 2001), irrestrito a gênero, classe
social, língua ou idade. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural,
um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre, 2003), essa distribuição global gera indícios
de que a música é mais do que isso. Ainda assim, não há uma explicação clara e
consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker, 1998).

A física por trás da música


A grande maioria dos sons encontrados na natureza, senão todos, assim como
notas musicais, são complexos, formados pela composição espectral de ondas senoidais
(isto é, por mais de uma freqüência). A composição de várias ondas produz um som muito
específico, que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. É o seu timbre.
Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma
freqüência fundamental, igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na
composição espectral. As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de
harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. É justamente a composição
espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. A uma composição qualquer é
dado o nome série harmônica.
Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo
do nosso espectro de audição. Elas estão baseadas em uma tonalidade, a qual é um
atributo perceptual do som, o que se contrapõe à freqüência, que é um atributo físico
(Bendor e Wang, 2006). É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de
Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres, 2007), isto é, diferentes culturas
utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de
notas musicais.
Apesar das diferenças interculturais, há algumas particularidades nos sistemas de
afinação; uma característica sempre presente, independente do sistema de afinação
utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição, isto é, por mais que
escutemos sons distintos, um mais grave e outro mais agudo, eles ainda soam muito
semelhantes (e são considerados a mesma nota musical). Portanto, ao longo do espectro de
audição, temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. A esse fenômeno dá-se o nome


oitavas musicais. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno.

Base dos mecanismos neurais da música em humanos


Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo, temos populações
de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. Bendor e Wang
(2005), estudando o córtex de sagüis, encontraram em A1 neurônios capazes de disparar
potenciais de ação não apenas para um único som complexo, mas também para seus
múltiplos. Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com
freqüência fundamental de 440 Hz, dispara também para sons com fundamental em 110,
220, 880, 1.760, 3.520 Hz e etc. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência
da freqüência fundamental, quando apenas os outros harmônicos da composição espectral
daquele som estão presentes.
Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso
processa informações para a percepção de timbre, conceito, que apesar da extrema
relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas
mães) (Trehub e Hannon, 2006), ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia
completamente compreendido. É o disparo dessas populações de neurônios que permite
que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das
cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes, quando a fundamental envolvida é a
mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental.
Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a
percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição
em humanos (e, provavelmente, também em outros organismos); (2) fazemos a
classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a
perceber e não por pura subjetividade. Convencionamos chamar todo som com freqüência
fundamental de 440 Hz de “Lá”. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas)
porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para
todos eles, em última instância, fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais
em alturas diferentes.

Música para quê?


Os mecanismos anteriormente descritos, no entanto, não justificam por si só a
existência de música globalmente. Enfim, para que existe música? Há vantagens evolutivas
nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess, 2007; Masataka,
2007; Hauser e McDermott, 2003; Benítez-Bribiesca, 2001; Gray e col., 2001; Tramo, 2001;

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Neurociências

Wright e col., 2000; Pinker, 1998; Clark, 1879, Darwin, 1874; para citar alguns) e não há
consenso nas respostas.
O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente, baseada em
seis pontos principais, para tentar responder à questão. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a
música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo, uma confecção rara artesanalmente construída
para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais”
(Pinker, 1998 - pág. 534). O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. O autor
defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais
“emprestados”, em particular, da prosódia. Achados mais recentes, relacionando música e
linguagem, serão apresentados mais adiante neste texto.
O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do
ambiente. Pinker compara a audição à visão, dizendo que assim como recebemos uma
série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de
um fundo de árvores, por exemplo), precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que
nos são apresentados, por exemplo, separar um solista de uma orquestra, uma voz em um
ambiente cheio de ruídos, uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos.
O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao
sistema nervoso, que as associa, percebendo-as como um tom complexo.
“Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do
som” – pág. 535. Isto é, a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato
de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras, mas como tons complexos; logo, o
sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som
oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são, em verdade, uma
mesma fonte sonora. Nesse sentido, “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão
que linhas simétricas, regulares, paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. O
sistema nervoso, então, se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das
melodias e harmonias presentes na música.
O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música.
Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às
chamadas de acasalamento de nossos ancestrais, o autor defende que uma série de
“chamadas emocionais” (como murmurar, chorar, rir, resmungar, gritar) tem um apelo
acústico próprio; “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura
assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”. A música, então, traria diversos
sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. É interessante notar
que, segundo tal proposta de Darwin, a música poderia ser até anterior à fala.
Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. Fazendo mais uma
comparação entre o campo visual e auditivo, o autor ressalta que prestamos atenção a uma

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

série de características visuais que sinalizam segurança, insegurança ou mudança de


habitat, como vistas distantes, paisagens verdejantes, nuvens (que trazem chuva) ou pôr-
do-sol. Ele então escreve:

“Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo


auditivo que sinalizem segurança, insegurança ou mudança de habitat. Trovões,
ventos, água correndo, pássaros cantando, rosnados, passos, corações e galhos
batendo, todos têm efeitos emocionais, presumivelmente porque eles revelam
eventos dignos de atenção no mundo” - pág. 537.

A música também interferiria com tais circuitos neurais, de tal forma que ela altera
nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança.
O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor. O ritmo é um
componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. Tal ritmicidade
que nos faz dançar, bater palmas, balançar, e acompanhar a música, certamente estimula
nosso sistema motor.
O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação
conhecida e que ele coloca como sendo, possivelmente, desde um acidente do
funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos
neuronais e ondas sonoras.
As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por
Pinker (1998) em seu livro. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no
processamento da sintaxe. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o
processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala.
A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600,
significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo, após a apresentação de
sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe
(baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas
para os estímulos sonoros). O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal
anterior.
Koelsch e col. (2004) testaram a capacidade da música para representar
significados. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou
uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental). Um eletroencefalograma com
registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a
apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial, independente deste ser uma
frase ou um trecho musical, o qual não variou em latência, distribuição no escalpo, fontes
neurais e amplitude. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de
semântica, aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto

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Neurociências

prévio. Diante dos resultados, os autores concluíram que “a música pode não apenas
influenciar o processamento de palavras, mas ela pode também pré-ativar representações
de conceitos, sejam eles abstratos ou concretos, independente do conteúdo emocional
desses conceitos”; em outras palavras, assim como a linguagem, a música pode facilitar a
compreensão de significados (em palavras e, provavelmente, também contextos).
Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel,
2003b). A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação
entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na
música, mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). Novas
evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na
sua rítmica musical. Isto é, diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica
musical nas diferentes culturas. Esses achados reforçam a noção de que a música possui
tanto sintaxe quanto semântica e seja, possivelmente, como a linguagem, relativamente
inerente ao homem e não um simples produto da cultura. Novos estudos transculturais
permitirão afirmar se essas evidências se confirmam.
Fica claro, portanto, que a música tem estreitas e importantes relações com o
funcionamento de diversos circuitos neurais. Estes não foram selecionados por vantagens
adaptativas trazidas pela música, mas permitem, em última instância, sua criação e
percepção. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto
da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. O reconhecimento
de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para
diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza, além da própria comunicação
entre indivíduos; eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de
fundo (Zatorre, 2005). As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à
identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). A percepção
de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes
como iguais, não só em humanos (Wright e col., 2000). Essa percepção, provavelmente deu
vantagem adaptativa aos seus possuidores. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto.
(Pinker, 1998).

Origens da musicalidade
Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais, essa
propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana, mas deve estar
presente no cérebro de outros animais também. A capacidade para interpretar música, de
uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou,
até mesmo, produzi-la, deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos.
O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais, no entanto, são

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

os pássaros. Desde o século retrasado (Clark, 1879) tal grupo é investigado. As razões são
óbvias, percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e
escutado o som dos pássaros). Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister, 2000)
apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas
pelo homem. Segundo os autores, os pássaros “frequentemente usam as mesmas
variações rítmicas, relações tonais, permutações e combinações de notas que os
compositores humanos”. Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são
também notadas nas melodias usadas pelos pássaros, como inversões de intervalo,
relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de
registro (tonalidade) usado. O caso mais atípico e impressionante, talvez, seja da espécie
Probosciger aterrimus, a Cacatua-Negra, uma espécie de papagaio do extremo norte da
Austrália e Nova Guiné, que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de
bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e,
então, o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento.
Mas voltando aos mamíferos, Wright e col. (2000), trabalhando com macacos-
rhesus, mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias
idênticas tocadas em oitavas diferentes, mas não em tons diferentes. Ainda, tal
reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais, mas não para melodias atonais.
Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005), já descrito. O
experimento de Wright e colegas, porém, pode ter sido afetado pela exposição prévia dos
animais a música. Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas
para os mesmos (Hauser e McDermott, 2003), portanto, expostos a música e melodias
diversas.
É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos
mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). Há décadas que se
conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne, 2000) também apontam para
semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. A
despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade, as baleias optam por
produzir sons rítmicos, de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade
definida. Mais do que isso:
- O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às
frases na música composta por homens e, assim como nós, elas exploram diversos
fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. Da mesma
forma, são freqüentes composições que exploram um tema, partem para uma seção mais
elaborada e, depois, retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição:
estrofe – refrão – estrofe);
- O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio

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Neurociências

de músicas produzidas pelo homem, possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu
córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa;
- Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais,
as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às
nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única
composição);
- Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons
puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas;
- Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas, indicando que as
baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico
para lembrar-se de composições complexas.
Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes
espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural
humano. Nas palavras de Gray e col., 2001:

“O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum, mesmo
com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de
anos, sugere que a música deve ‘predar’ os humanos, ao invés de sermos os
inventores dela. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical.” – pág. 53

Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de


que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana.
Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras, que causa
sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas.
De fato, as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental, e em grande parte
do mundo, são derivadas da Série Harmônica (ver
http://www.phy.mtu.edu/~suits/overtone.html para maiores detalhes), com as escalas
musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância.
Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento,
relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente
utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. Ainda, sons dissonantes
apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora,
expressões faciais fechadas e até choro, enquanto que sons consonantes os fazem virar-se
para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller, 1998). Dado que
recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais, é improvável que tais
respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem
nos adultos. É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a
percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

reconhecimento de sons musicais mesmo em espécies que não o homem.


Apesar de tantas evidências, a falta de consenso entre pesquisadores sobre a
musicalidade em outras espécies animais permanece. As críticas são freqüentemente
embasadas no fato dos cantos serem essencialmente produzidos por machos, como parte
do ritual de acasalamento. Ainda assim, tal uso não invalida que elas sejam capazes de
produzir sons musicais e que a estrutura das “músicas” produzidas seja semelhante à
humana. Muito pelo contrário, a organização musical semelhante entre diferentes espécies
nos mostra que ela não é um acidente, mas uma propriedade específica do sistema nervoso
central, que caminha em estreitas relações com a comunicação intra-específica e a seleção
sexual.
É possível que a origem da musicalidade de humanos resida nestes mesmos mecanismos
(de seleção sexual), como apontado por Darwin. Mais provável ainda que sua existência se
apóie em diversos fatores e não apenas em um deles, uma propriedade emergente da
interação de diversos sistemas, como apontado por Pinker (1998). Independente dos
motivos pelos quais a música se originou no homem, seguramente os motivos pelos quais
ela permanece são outros (a não ser que ela já tenha se originado por esses outros motivos,
claro – improvável quando se compara com outros grupos). Na espécie humana, a música
adquire outros significados muito mais fortes como promover a coesão de grupo e a
interação social (podendo até possuir a mesma capacidade de abstração e atribuição de
significados que a linguagem, como apontado por Koelsch e col., 2004). Se há algo de
exclusivo entre homem e música, isso parece ser a produção e a apreciação da mesma por
puro prazer.

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Julho/2010 Pág. 201


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Pág. 202 Julho/2010


Unidade 4

Metabolismo

Aline Dal’Olio Gomes


Lab. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
eniladal@gmail.com

Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que


mantém um organismo vivo. Os processos metabólicos variam ajustando as
respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças
ambientais. Sendo assim, este módulo irá abordar as variações do metabolismo
animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em
metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que
envolvem o metabolismo energético, seguida da apresentação de como os fatores
abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura; 2)
técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas,
com especial atenção à técnica de respirometria; 3) a influência do metabolismo nos
fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da
temperatura ambiental; 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais
endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea
relacionada a depressão metabólica em vertebrados; 5) os fenômenos de depressão
metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos
como adaptação comportamental, fisiológica e bioquímica; 6) interação entre
metabolismo energético e reprodução, importância dos lipídios nesse processo e
como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do
ambiente; 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da
temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites
ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e, conseqüentemente, a
viabilidade das populações, comunidades e ecossistemas, podendo atuar de um
modo ativo na conservação ambiental.
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações pág. 205


Carlos Eduardo Tolussi
Revisado pela Dra. Renata Guimarães Moreira

Capítulo 20 Medindo a chama da vida pág. 217


Tatiana Hideko Kawamoto
Revisado pela Dra. Silvia C. Ribeiro de Souza

Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 235


Jessyca Michele Citadini
Revisado pela Dr. Carlos Arturo Navas

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê?


pág. 247
Carolina da Silveira Scarpellini
Revisado pela Dra. Kênia Bícego

Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão


metabólica sazonal pág. 257

Lilian Cristina da Silveira


Revisado pela Dra. Silvia C. Ribeiro de Souza

Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios pág. 269

Aline Dal’ Olio Gomes


Revisado pela Dra. Renata Guimarães Moreira

Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais pág. 279


Lye Otani
Revisado pela Dr. Carlos Arturo Navas

Bibliografia pág. 286

Pág. 204 Julho/2010


Metablismo

Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações

Carlos Eduardo Tolussi


Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
ctolussi@gmail.com

Metabolismo: conceitos e considerações gerais


O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas
orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas; a soma do anabolismo e catabolismo.
As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas
funcionalmente em muitas sequências de reações, na qual o produto da primeira reação se
torna o reagente da próxima (Nelson e Cox, 2005).
Dentre essas reações, algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais
simples, extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula; juntas
essas reações degradativas, produtoras de energia livre, são designadas como catabolismo
(Fig. 1). Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em
moléculas mais complexas e maiores, incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos. Tais vias
biossintetizadoras, que invariavelmente requerem a adição de energia, são coletivamente
designadas de anabolismo (Fig. 1) (Nelson e Cox, 2005).
Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química, toda
energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. Este fato
simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético
(taxa metabólica), desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o
ambiente (Randall e col., 2000).
Segundo Schmidt-Nielsen (2002), a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de
energia por unidade de tempo, e pode ser medida em princípio por três métodos distintos.
1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos
(principalmente fezes e urina). Esse método supõe que não haja alteração na
composição do organismo, portanto, ele não pode ser usado para os organismos
em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura
ou de outro material;
2) Cálculo através da produção de calor do organismo. Esse método fornece
informações sobre todo o combustível utilizado e, em princípio, é o método mais
preciso;
3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação, desde que
haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo
anaeróbio).

Julho/2010 Pág. 205


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 1– Esquema dos processos metabólicos, Anabolismo e


Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox, 2005).

A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão
ocorrendo. Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos; o trabalho
interno químico, osmótico, elétrico e mecânico; e o trabalho externo para a locomoção e
comunicação. Desta forma, a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos, sendo que
uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos
acima e também liberada na forma de calor (Fig. 2) (Randall e col., 2000).
Para conhecer a taxa metabólica de um organismo, é necessário analisar
primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB), que consiste na menor taxa
metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e
Somero, 2002). Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste
organismo foi alterada para realizar algum trabalho.

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Metablismo

Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos


animais (Modificado de Randall e col., 2000).

Em mamíferos, para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as
seguintes condições:
 a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto;
 o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em
jejum para humanos);
 as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie;
 não deve haver condições estressantes;
 o animal deve estar em repouso.
A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor, ou indiretamente
pela medição do consumo de oxigênio (VO2 - volume de oxigênio por Kg por minuto). É
possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR), que é similar a TMB, mas
neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero, 2002). As
técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente
no próximo capítulo.
É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown, 1997). Em
humanos, por exemplo, o relativo tamanho do fígado, trato gastrointestinal, rim, pulmão,
sistema nervoso, coração e músculos são 2; 2; 0,5; 0,9; 2; 0,4; e 42%, respectivamente, e a

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. Entretanto, a
contribuição de cada tecido na TMB é de 17; 10; 6; 4; 20; 11 e 25% respectivamente,
representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero, 2002).
Como foi dito acima, a TMB pode variar devido a diferentes fatores, entre eles a
temperatura. Por isso, é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal, na qual o
animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar. Por essa
razão, a taxa metabólica padrão (TMP), é definida como o metabolismo do animal em
repouso em jejum em certa temperatura corporal. Para alguns ectotérmicos, a TMP
depende do histórico de sua temperatura prévia, em virtude da compensação metabólica ou
da aclimatação térmica (Randall e col., 2000).

Energia, Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos

Conceitos
Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o
entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:
 a energia está relacionada à realização de trabalho, como a energia associada
ao movimento (energia cinética). Existem outras formas de energia como a
química provinda, por exemplo, através do ATP (Ferrano e Soares, 1998);
Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos
metabólicos é necessário compreender que, quando há um aumento da energia em uma
molécula, a movimentação dos seus átomos é elevada, fazendo com que as mesmas se
choquem com maior intensidade umas com as outras, tal processo é chamando de energia
cinética molecular (Ferrano e Soares, 1998).
 temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica
(Ferrano e Soares, 1998);
 calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre
os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares, 1998).

Endotermia e Ectotermia
A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura, devido a isso, a
atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura
corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas
reduzidas. Sendo assim, é possível utilizar a temperatura corporal, mais especificamente
sua estabilidade, nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais
(Randall e col., 2000).

Pág. 208 Julho/2010


Metablismo

Animais expostos a variações de temperatura em laboratório, seja no ar ou na água,


que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental, regulando-a dentro de seus
limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor, são denominados
homeotérmicos. Na maioria dos mamíferos, a faixa de temperatura corpórea central normal
é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C. Alguns outros
vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira, embora tal
controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. Ao
contrário disso, os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a
flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente, quando expostos a temperaturas do
ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col., 2000).
Previamente os peixes, anfíbios, répteis e invertebrados foram considerados
pecilotérmicos e, aves e mamíferos homeotérmicos. Porém, com a progressão dos estudos
de campo observou-se que esta classificação não era apropriada, já que, dependendo do
ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar
(Randall e col., 2000).
Peixes que vivem em águas profundas, na qual as oscilações térmicas são dificilmente
mensuráveis, apresentam uma temperatura corporal constante e, portanto, deveriam ser
denominados homeotérmicos. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura
em vários graus, podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (Schmidt-
Nielsen 2002).
Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima, foi
necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor,
sendo separados em: os que geram calor metabólico, endotérmicos; e os que não geram
calor, ectotérmicos (Randall e col., 2000). Endotérmicos são os animais que geram seu
próprio calor corporal. A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo, elevando
suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. Os
maiores exemplos são as aves e os mamíferos. Ectotérmicos são os animais que produzem
calor metabólico em taxas comparativamente menores, normalmente muita baixas para
permitir a endotermia. Frequentemente, os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de
calor metabólico e altas condutâncias térmicas, fazendo com que sejam pobremente
isolados (Randall e col., 2000). O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos
diferentes vertebrados, ectotérmicos e endotérmicos, para o ajuste da temperatura corpórea
será apresentado nos próximos capítulos.
Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia, que consiste na produção
de vários graus de calor endotérmico pelos animais. Contudo, eles geralmente não regulam
a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita. Estes animais podem ser divididos em
dois grupos, os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. Os

Julho/2010 Pág. 209


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas


centrais elevadas, por meio da atividade muscular, enquanto seus tecidos periféricos se
aproximam da temperatura ambiente, como alguns tubarões, salmão e muitos insetos
voadores. Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais
cujas temperaturas variam muito com o tempo. Os monotremados, como os équidnas, assim
como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito
(Randall e col., 2000).

Metabolismo e Temperatura

Tecido adiposo marrom, UCPs e avUCP


Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso
do tecido adiposo marrom (TAP). Este tecido é estritamente de mamíferos, tentativas de
encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou
outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. Entretanto, aspectos
fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos
eucariotos, que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o
TAP, mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo
TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero, 2002).
O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande
concentração de mitocôndrias, sendo esta última característica a que a diferencia do tecido
adiposo branco, que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. Fisiológica e
bioquimicamente, o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética,
hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. Além disso,
existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da
mitocôndria, que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP
(Hochachka e Somero, 2002). A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está
envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria,
que desacoplaria a fosforilação oxidativa, fazendo com que haja a produção de calor (Collin
e col., 2005).
Como mencionado anteriormente, não foi observado um TAP ou um tecido
termogênico em outros animais (Toyomizu e col., 2002). Contudo, em pinguins foi
encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao
frio (Skulache e Maslov, 1960; Skulache, 1963), sendo mediado pelos ácidos graxos
(Levechev, e col., 1965). Além disso, foi descoberto outra proteína, denominada avUCP, que
apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. Demonstrou-se

Pág. 210 Julho/2010


Metablismo

que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio
(Raimanbalt e col., 2001).
Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para
mamíferos demonstram que a avUCP e a UCP1, respectivamente, são um dos
responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados
como endototérmicos.

Efeitos da temperatura nas proteínas


Como já foi dito anteriormente, dentre um determinado limite, a temperatura causa
efeitos em vários processos fisiológicos, como no metabolismo, mais precisamente na ação
e no funcionamento das enzimas. A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia
de ativação, que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e
Somero, 2002). A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes
posteriormente.
Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas
pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. Este cálculo mede o efeito que a
alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da
equação (Hochachka e Somero, 2002):

Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2)

Na qual, k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da


temperatura, t1 e t2 , respectivamente.
Como pode ser observado abaixo (Fig. 3), com um Q10 de 2 e em uma temperatura
inicial de 0°C, a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C,
quadruplicaria em 20°C, aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da
temperatura. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3, 9, 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen,
2002).

Julho/2010 Pág. 211


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen, 2002).

Para muitos processos, como as taxas de respiração e metabólica, os valores de Q10


são próximos a 2, quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura
corpórea “normal”. Para temperaturas que apresentam efeitos letais, o Q10 apresenta valores
menores que 1, assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também
(Hochachka e Somero, 2002).
A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra, origina-se pelo
fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética.
Porém, isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos
cálculos biológicos. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor
mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema, por exemplo,
para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da
média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero, 2002). Isto é explicado pelo fato
de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função Maxwell-
Boltzmann. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes
velocidades, e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a
colisões com outras partículas (Fig. 4). No entanto, a fração de um número grande de
partículas, dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. Com isso,
é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da

Pág. 212 Julho/2010


Metablismo

população, mas também, que a energia daquele sistema é maior que a média de energia
para que ocorra a reação, com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em
torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero, 2002).

Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação


(Modificado de Hochachka e Somero, 2002).
Dito isto, é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos
catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso
responder duas questões:
 Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de
maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas?
 Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática?
Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura
tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero, 2002). A questão da
velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que
possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional. Isso permitiu desvendar as
mudanças conformacionais no ciclo de catálise, abrangendo a ligação do substrato na
enzima e o fim com a liberação do produto. Esses métodos mostraram a existência de
eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente
representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero,
2002):
1) Enzima + substrato enzima – substrato
2) Complexo complexo ativado
3) enzima – produto complexo
4) enzima + produto

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto, há falhas na


sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e
Somero, 2002). Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da
enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que
após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo
(degrau 2). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o
principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes
dos reagentes (transformação do substrato em produto), mas sim as mudanças
conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da
energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos
(Hochachka e Somero, 2002) (Fig. 5).

Figura 5 - Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em


produtos (Modificado de Hochachka e Somero, 2002).

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Metablismo

É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em


temperaturas biológicas normais, e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de
ativação. Desta forma, a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e
isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato
em produto), que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes
alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação
(Hochachka e Somero, 2002).
Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos
biológicos, principalmente o metabolismo, demonstrando a importância desse fator abiótico
nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos, já que esses não
possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal.
Com base nisso, nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas
para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais
ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações
ambientais.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Metablismo

Medindo a chama da vida

Tatiana Hideko Kawamoto


Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva
th.kawamoto@gmail.com

Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R.B. Lighton (2008).

Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas


para medidas do metabolismo, mostrando os principais estudos de metabolismo e
temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. Contudo, veremos que a
ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear, e nem caminha
progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade.
Longe disso, as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e
tortuoso percurso histórico. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo,
apresentado no capítulo anterior, não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral.
Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas, as primeiras medidas de
metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das
primeiras idéias de metabolismo energético. O problema não era, a princípio, a medida de
metabolismo energético em si, mas a necessidade de desvendar o que era o fogo, o ar e a
vida. A seqüência de eventos históricos, simplificada para fins didáticos, apresenta três
relações chave entre: ar e vida, fogo e ar, e fogo e vida.
A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida. Desde os primórdios da
humanidade sabemos que a vida é depende do ar. Leonardo da Vinci (1452–1519), em seu
Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519, declarou sem maiores
explicações que “onde uma chama não pode arder, nenhum animal que respira pode viver”
(tradução livre). O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação
entre ar e vida, no entanto, não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença
de ar, mas sim, entender o que é o ar e como ele suporta a vida.
A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns
aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. Boa parte do conhecimento que temos
hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas, pré-método científico.
Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro, ou de encontrar o
elixir da longevidade, os alquimistas perceberam que, ao término da chama, a queima do
carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. A partir daí, deduziram a existência de uma
substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama.
Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl
(1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. Segundo a teoria do

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

flogisto, a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância, ou o material


esgotava a sua quantidade de flogisto. Este era o caso da queima de metais, cuja
calcinação deixava para trás como resíduo o calx, o metal supostamente “deflogisticado”. O
calx quando combinado com carvão, teoricamente repleto de flogisto, voltava à sua forma
metálica anterior a calcinação, reforçando a teoria do flogisto.
Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto, Robert Boyle realiza
experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas, pássaros e
camundongos diminui até certo nível, eles morrem, demonstrando que algo no ar mantinha
tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. Neste contexto, o ar não podia
estar saturado de flogisto, já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o
flogisto e, no caso dos animais, não havia chama para saturar o ar de flogisto. Boyle
também mostra que o metal calcinado não perde peso, contrário do que seria esperado pela
teoria, mas sim ganha peso, reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto.
Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão
e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra
com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. 1) ele observou o nível da água
subir até o momento que o animal morria. O nível da água sempre subia mais ou menos até
o mesmo nível. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. O mesmo
acontecia com a vela. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. Ele
ainda colocou a vela e o camundongo juntos, na mesma jarra, e observou que quando a
vela apagava, instantes depois o camundongo morria, sugerindo que ambos eram
sustentados pela mesma substância presente no ar, a qual chamou de “nitro-aereus”.
Incrivelmente, a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava
pelos pulmões, depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente
aquecendo o animal. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no
coração. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio. Pouco tempo depois
de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal
Society, John Mayow morre, encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia
inúmeras descobertas mais.
O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o
entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804). Ele vivia ao lado
de uma cervejaria e, primeiro, descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada

Figura 1 - Ilustração mostrando o equipamento usado por John


Mayow em seus experimentos de combustão e respiração.
Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um
recipiente repleto de água (Modificado de
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Mayow).

Pág. 218 Julho/2010


Metablismo

extingue o fogo. Percebeu, ainda, que o gás que não sustenta mais a chama, em parte
dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. Além disso, ele
descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que
ele chamou de “fixed-air”. Havia, uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se
apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. Prietley pensou ter
descoberto o flogisto. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. Ele percebeu
ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed
air”. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar
sustentasse a vida e a combustão novamente. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás
carbônico. Priestley produziu, ainda, um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio.
Incrivelmente, este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais
tempo do que o próprio ar. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e
dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto. Entretanto, como dito
no início deste texto, a ciência percorre caminhos tortuosos e, por mais contraditório que
pareça, Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os
seus incríveis resultados segundo este paradigma. De fato foi a partir desta perspectiva que
ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido, atribuindo
erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar.
A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e
evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que
estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual
Lavoisier chamou de oxigênio. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos,
ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida
na presença de ar. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica, Lavoisier juntou todos os
elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma
combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. O
desenvolvimento dos paradigmas, a partir de então, acompanharam o desenvolvimento
tecnológico dos equipamentos de medida. Deste modo, a seguir farei uma rápida descrição
das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo, manômetros e respirometria
fechada, a coulorimetria e a respirometria aberta.

Calorímetro de gelo e primeiros conceitos

Antoine Lavoisier, Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos


que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. Ao
colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. 2), medem,
indiretamente, o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o

Julho/2010 Pág. 219


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

gelo. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor
latente de derretimento do gelo é 0.334kJ/g, calcularam pela primeira vez, através da
quantidade de água produzida por esse
derretimento, a energia perdida por um animal
ajustando o metabolismo para 0ºC. Chegaram
ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia,
aproximadamente o mesmo que uma vela
queimando. Daí advém o nome de
calorimetria à técnica e de caloria à unidade
de medida que adotamos nos estudos de
metabolismo energético.
Dentre as muitas descobertas
científicas que o casal é responsável,
somente na área de metabolismo energético
eles realizaram uma série de medidas que
estabeleceram conceitos básicos que ainda
estão sendo desvendados nos dias de hoje.
Medindo humanos e animais estabeleceram
que o consumo de oxigênio aumenta com o
tamanho dos animais e com o exercício,
Figura 2 - Ilustração do primeiro calorímetro descobriram a termogênese induzida por
de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine dieta, inventaram o método de calorimetria
Lavoisier, Marie-Anne Paulze e Pierre-
indireta que mede a taxa metabólica através
Simon Laplace para medir o calor envolvido
do consumo de oxigênio e a calorimetria
em diversos tipos de reações químicas,
direta (calorímetro de gelo). Contudo, o
baseados no conceito de calor latente de
trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier
Joseph Black. Além de inaugurar os
estudos da termoquímica, realizam a e Marie-Anne Paulze é bruscamente
primeira medida de metabolismo energético interrompido com o advento da Revolução
ao medir um porquinho-da-índia no Francesa, momento em que ambos são
calorímetro de gelo (Modificado de decapitados. Somente um século após a
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ice- morte do casal avanços em instrumentos
calorimeter.jpg.) manométricos proporcionam novidades
técnicas no campo das medidas metabólicas.

1
Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado, sem mudança de temperatura. Os
mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para
gasoso).

Pág. 220 Julho/2010


Metablismo

Manômetros e a respirometria fechada


A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo
de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um
recipiente hermeticamente fechado. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é
usando manometria. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas
manométricas já existiam na época de Lavoisier. Seu predecessor, Robert Boyle, já havia
estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco
divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do
que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661, The Skeptical
Chymist. Mais especificamente, Boyle havia descrito o comportamento dos gases em
relação à pressão e a temperatura, estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de
Boyle. Em 1643, cerca de 20 anos antes, Evangelista Torricelli
inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão
atmosférica (Fig. 3). Em 1661, Christian Huygens inventa o
manômetro em tubo-U, permitindo uma nova série de medidas
comparativas, já que no tubo em U (Fig. 4), a diferença na
altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à
diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo,
conforme a fórmula:

Pa – Po = H.g.ρ

onde H é a diferença na altura do menisco do líquido, Pa é a


Figura 3 - Esquema pressão medida, Po é a pressão de referência, g é a gravidade
mostrando o primeiro e ρ é a densidade do líquido usado.
manômetro inventado por Assim, foram lançadas as bases para o desenvolvimento de
Evangelista Torricelli em instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade
1643.
enorme, cada qual com as suas vantagens e suas
desvantagens: amplitude de pressão medida, sensibilidade,
dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que
mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de
possibilidades de montagem de equipamentos.

Julho/2010 Pág. 221


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as


propriedades físico-químicas dos gases terem sido
estabelecidas no século XVII, é somente no início do
século XX que esse tipo de equipamento se populariza e
passa a ser amplamente usado em laboratórios de
pesquisa. Um esquema simplificado de um sistema
respirométrico fechado (Fig. 5) consiste em uma câmara
hermeticamente fechada, com um absorvedor de gás
carbônico colocado, de preferência, no fundo deste
recipiente separado do animal com uma tela de metal, já
que o absorvedor geralmente é composto por uma
substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). A
câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica
a queda de pressão do ar que preenche a câmara
Figura 4- Esquema mostrando
conforme o organismo consome o oxigênio, e uma seringa
o funcionamento de um
de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o
manômetro em tubo-U. Seu
menisco do manômetro no mesmo nível, mantendo,
funcionamento permite a
assim, o mesmo volume de ar durante todo o
comparação entre pressões
experimento. Ao final do experimento, medimos o de dois sistemas. Pressão
consumo do animal através da diminuição total do volume atmosférica versus recipiente
de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. O respirométrico, por exemplo.
que veremos a seguir são as principais variações deste
padrão básico de respirometria fechada.

Figura 5 - Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. O sistema geralmente é


mantido em temperatura constante durante todo o experimento. O absorvedor pode ser Ascarite II
(Thomas Co.) ou KOH. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara
respirométrica, e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial.

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Metablismo

Respirômetro de Volume Constante de Warburg


O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto
Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John
Haldane em 1902. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a
um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. 6). O manômetro em U aqui
possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica, diferente do respirômetro
de Gilson, descrito mais adiante. É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do
manômetro (23g de cloreto de sódio, 5g de tauroglicocolato de sódio, 500mL de água).
Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do
momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos:

O2=h [( Vf [ 273.15 / T ] + Vq x b ) / P ]
(consumo em µL O2)

onde h é a altura do menisco no manômetro, Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara


somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor
do volume do animal medido, T é a temperatura em graus Celsius, Vq é o volume em mL de
todos os líquidos na câmara, b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara, e P é a
pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie).
Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. O
manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a
altitude ou com a condição climática (p.e. chuva), podendo incutir erro na medição. Outro
fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de
KOH, o que pode alterar a medição também. Parte desses problemas foram solucionados
pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 6 - Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. Note que a


pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica.

Respirômetro de Pressão Constante de Gilson


O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson, 1963) é um sistema de
respirometria fechada semelhante ao Warburg, porém resolve o problema de alterações na
pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um
termobarômetro, que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume
e pressão de gás constantes. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema
todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. (Fig. 7). O volume é
mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura
através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. A vantagem
do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta, onde não precisamos
conhecer o volume da câmara onde está o organismo, diferente do sistema de Warburg em
que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. Os passos a
serem seguidos são:

1. Coloque o animal na câmara;


2. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal;
3. Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2;
4. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante.

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Metablismo

Cálculos:
O2=( µL x PB x 273.15 ) / ( 101.325 x T )
(consumo em µLO2)
onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema, PB é a pressão barométrica em
kilopascals e T é temperatura em Kelvin.

Figura 7 - Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. Note que


o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar.

Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):


 microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1.43;
 microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0.04464.
A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista, esconde uma
série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem
treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. Por exemplo, o líquido que
mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema, o animal
pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de
oxigênio, além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item.

Cálculo de Quociente Respiratório (QR)


Como já visto no Capítulo 19, a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é
consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato,
proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter
energia. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1, ou seja, usa carboidratos
como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2, o sistema não

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

apresenta mudança de volume inicial versus final. Parece que o animal não respira porque o
consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. Podemos usar esta
característica para obter o QR usando a fórmula:

QR = (MR-MRap)/MR

onde QR é o quociente respiratório, MR é o metabolismo medido com o absorvedor, MRap é


o metabolismo medido sem o absorvedor.
Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e
pode ser uma medida interessante a ser realizada, de acordo com a pergunta sobre
metabolismo energético que se quer responder.

Limitações da respirometria fechada


A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é
usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de
tecidos. Contudo, a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito
específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível
de ser acompanhada. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo
de organismos íntegros onde a medida não é estável. Isto acontece com animais que
funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a
concentração de oxigênio), alterando o metabolismo de forma consistente. Este é o caso de
animais que produzem calor, por exemplo abelhas e insetos voadores em geral, que alteram
seus níveis de atividade ao longo do experimento, ou que respiram de forma intermitente,
como os artrópodes traqueados. A respirometria fechada não permite, também, medições
muito longas, que se estendam por dias, por exemplo. O aumento de gás carbônico, perda
de água, alimentação, produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações
metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Dentre as alterações listadas
anteriormente, as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição
(hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia), e o progressivo aumento de gás carbônico
(hipercapnia). Outra limitação quanto ao seu uso, é a impossibilidade de acompanhar a
atividade do animal, o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético. Para
pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como
resposta ao confinamento em recipientes pequenos. Ambas as técnicas a seguir aparecem
como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser
listados.

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Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em
1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume
e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção
eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações
nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada.
O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um
recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada,
o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução
de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e
encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio,
restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a
solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8).
Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs,
desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas.
Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]

onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o


volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente


mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico
que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite
que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com
o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente
fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as
medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo
é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto
intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de
fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento
técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam
obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras
do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos
organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento
adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de
oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007).
Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo
associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico.
Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a
respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás
carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela
tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e
ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica
marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com
grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto
direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do
desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é
cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os
diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços
nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo
real.
Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais
dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar
ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no
desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B.
Lighton (Sable Systems International).
O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos
(exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes
necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o
assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório.
Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

Pág. 228 Julho/2010


Metablismo

guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder,
assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes
técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro
Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com
equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de
pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de
abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7.
absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os
dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de


oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as
quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos
gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a
medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma
respirometria de fluxo.

Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a


medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de
consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste
dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a
manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na
obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do
equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar
uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o
consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma
grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais
muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de
oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver
Analisador de CO2).

Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que


a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no
sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo
de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal
medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de
pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade
em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o
metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de
energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não
correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2
por mudanças de pH no sangue.

Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido.
Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e
hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de
máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo
registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas
acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade
menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro
passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo
e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a
composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja
alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor
presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a
atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser
considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado.

Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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Metablismo

influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que
os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto
cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na
dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem
pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas
pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das
câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras
sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido,
e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da
câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e
características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite
fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos
sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos)
são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser
o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem.

Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos
analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é
menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que
realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor
não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de
metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos
significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar
normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou
perclorato de magnésio).

Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado
da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode
ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o
equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás
carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos
respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada.

Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante


durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras
modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas
modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a


realização das medidas.

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada


para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia
usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de
oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado
pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara
respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na
sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não
passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes
técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está
esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um


sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da
câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal
(vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para


estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de
estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla
devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e
interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais
muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios).
Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2.
Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de
uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de
realizar estas medidas de forma válida.

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Metablismo

Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de
CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto
estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita)
(Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada
pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico.
Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também
de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é
emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal
Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como
cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a
interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o
velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma
vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão,
imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo.
Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos
materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e
detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações
energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos.
Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia
de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo,
auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal
com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes
processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo
energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Metablismo

Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida

Jessyca Michele Citadini


Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva
jessyca.citadini@gmail.com

A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para


sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos
possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente.
Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea
relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas,
envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert,
1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia
deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas
trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns
princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a
transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência
acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e
evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).
 Condução
A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos,
líquidos ou gases.
 Convecção
A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às
diferenças de densidade das partes envolvidas.
 Radiação
A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um
objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.
 Evaporação
Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície
corporal.
Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por
exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a
radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para
um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos
aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa
troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos
fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos
examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar
temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por
heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da
temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas
respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico
alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por
causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em
pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e
conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores
adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992).
A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos
animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado
térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais
ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura
de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do
comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por
meio fisiológico (Withers, 1992).

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Metablismo

Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois


muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem
apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra
caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como
seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas
muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico
adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das
bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos
de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar.
Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a
temperatura da água local (Brattström, 1962).
Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea
escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por
evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto,
quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a
termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor
capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico
terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de
um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura
diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade
e calor específico) (Withers, 1992).
Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho
corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de
suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal
determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em
decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área
superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais
vagarosamente (Withers, 1992).
A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo
significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a
manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá
perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também
pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido
têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia, isto é particularmente
evidente em lagartos e crocodilianos. Existem também mudanças no batimento cardíaco
(mais rápido durante o aquecimento), desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos
provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig.2) (Withers, 1992).

Figura 2- As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes. (A) No


ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol, ocorrendo a
vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido
(conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG), o que asseguram o aquecimento do sangue
e circulação eficiente. (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos
cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos, que miniminizam o fluxo
sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert, 1997).

Aquecimento nos insetos


A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a
temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig.3). As libélulas se aquecem em
temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes
posturais. Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a
trás para reduzir a perda de energia. Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica
150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais, embora algumas espécies usem
vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers, 1992).

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Metablismo

Figura 3- Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou
(ii) para minimizar o ganho de energia (May,1976 – Modificado de Withers, 1992).

Coloração
A coloração tem importante efeito na termorregulação, pois 50% da energia radiante
vêm do sol e é no espectro visível. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no
ganho de energia. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies
brancas. Por exemplo, nos animais que apresentam coloração preta é esperado que
absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os
animais de coloração branca (Fig.4) (Withers, 1992).

Figura 4- Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do


deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O. brincki ( élitra branca) em ambiente
de luz solar natural (De Henwood, 1975, modificado de Withers, 1992).

Aquecimento em répteis e anfíbios


A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável, variando de poucos graus
até acima de 400C. Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são
termoconformadores, com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam
durante o dia enquanto estão inativos), muitos lagartos que habitam as florestas não podem
se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. O lagarto tropical Anolis cristatellus
é um oportunista termal; ele é termoconformador em áreas sombreadas, mas é
termorregulador em áreas abertas. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do
ventre com uma superfície ou substrato de energia, por exemplo, em rochas aquecidas.
Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através
da condução em vez da radiação (Withers, 1992).
A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de
termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a
40°C. Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias
comportamentais e fisiológicas. Assim, o controle comportamental inclui: mudança na
orientação do corpo em relação ao sol, alterações do contorno do corpo, mudança na
coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações
na circulação periférica. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de
preferência, a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal
pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. A faixa de sobrevivência termal é
definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. A temperatura
“ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas, com
um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas, isso ocorre por
causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas, como já discutido em
capítulos anteriores (Withers, 1992).
Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses
anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento, quando a chuva chega, os
machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. Atraídas
pela cantoria, as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. Em um ou no
máximo dois meses, quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recém-
nascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia
(Carvalho e col., 2010).

Adaptações ao Frio
Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e
até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. Entretanto,
temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são
potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a
sobrevivência. Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por
migrações ou buscando por microclimas mais quentes, mas alguns ocasionalmente têm

Pág. 240 Julho/2010


Metablismo

contato com temperaturas congelantes. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas


condições brandas de congelamento, desde que a água doce ou água do mar congele entre
00C a -20C. Ectotérmicos terrestres, ao contrário, são particularmente mais susceptíveis ao
congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C). Existe
uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em
condições congelantes (Withers, 1992).

Estratégias anti-congelamento
Vários ectotérmicos, tais como os artrópodes polares e o peixe icefish, evitam se
congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da
temperatura média do ambiente, ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do
ponto de congelamento normal (Withers, 1992).

Depressão osmótica do ponto de congelamento


A água doce congela a 00C. As soluções apresentam uma depressão do ponto de
congelamento, isso ocorre pela presença de moléculas de soluto. Os ectotérmicos podem
potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos
corpóreos, desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. A
normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o
congelamento em água doce, pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre
-0,60C a -0,7 0C. Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento, pois seus
tecidos são geralmente não hiper-osmótico e, portanto, eles podem congelar a mesma ou a
temperatura maior que a água do mar, que seria de aproximadamente -1,86°C. Alguns
ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de
congelamento entre 1 a 10°C. Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. Estes
compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e
as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers,
1992).

Super-resfriamento
Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no
qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam, todavia, permanecem super-
resfriados, a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. Por exemplo,
se um pedaço de água congelada a −1,9° C for colocada próxima ao peixe, o estado de
super-resfriamento é destruído, e o peixe congela e morre. Desta forma, o super-
resfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

agentes nucleadores for muito baixo. Tal super-resfriamento é de fato de grande importância
para a sobrevivência de muitos animais. Durante uma noite ocasionalmente fria, por
exemplo, o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao
congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. Répteis e anfíbios, cujos
fluidos corpóreos, se nucleados, começariam a congelar a -0,6°C foram super-resfriados até
-8°C, sem que congelassem (Lowe e col., 1971). Isso pode significar a diferença entre a vida
e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria, antes
de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. (Schmidt-Nielsen e
Duke, 1996).
Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e
também do de super-resfriamento é o glicerol. O glicerol freqüentemente ocorre em alta
concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio
(Schmidt-Nielsen e Duke, 1996).

Proteínas anti-congelamento
A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se
conhecida como uma substancia "anticongelativa". Ela foi originariamente identificada e sua
composição elucidada no sangue de um peixe antártico, Trematomus (DeVries, 1970). É
uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de
gelo e, portanto, o seu desenvolvimento. O anticongelativo impede a adição de moléculas de
água ao cristal, pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente
crescimento (DeVries, 1982).

Tolerância ao congelamento
Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam
fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno, somente alguns
vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. Os peixes parecem incapazes de
suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob
condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke, 1996).
Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. A
rã, Hyla versicolor, apresenta um congelamento parcial e controlado, além disso, há toda
uma preparação para o inverno. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol
em seus fluidos corpóreos - possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito
menos tolerante ao congelamento; mas, por outro lado, em rãs que não toleram o
congelamento, tais como a rã leopardo comum, Rana pipiens, o glicerol encontra-se
ausente. Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático, ao passo que a rã no solo tem
contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. Outras rãs tolerantes

Pág. 242 Julho/2010


Metablismo

ao congelamento, como a rã madeira, Rana sylvatica, rapidamente elevam seus níveis


glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo, e isso parece aumentar a
tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey, 1985).

Adaptações a ambientes quentes


Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura
corpórea abaixo da temperatura do ar, ou podem usar de adaptações bioquímicas de
tolerância para altas temperaturas corpóreas. A primeira estratégia da termorregulação só
pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo, por conseguinte, não está
disponível para os animais aquáticos. A segunda estratégia é o aumento da temperatura
crítica máxima (TCM) (Withers, 1992).

Temperatura Crítica Máxima


O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C
à pressão atmosférica normal). Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a
temperaturas próximas do ponto de ebulição, mas algumas bactérias termofílicas podem se
desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock, 1985)
Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas, deve distinguir entre as quais um
organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. A
temperatura letal, na qual ocorrem 50% de mortalidade, não pode ser determinada com
exatidão, pois o tempo de exposição é de grande importância. A maioria dos invertebrados e
vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C, isto é geralmente
consistente com o grupo taxonômico, mas pode haver considerável variabilidade de acordo
com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke, 1996).
Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os
seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke, 1996):
- Desnaturação das proteínas, coagulação térmica;
- Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação;
- Suprimento inadequado de oxigênio;
-Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes;
- Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas.

Resfriamento por evaporação


A evaporação dissipa a energia da água. Por conseguinte, a perda de água por
evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

corpórea. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e


da temperatura (Withers, 1992).
Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida
durante a evaporação. Por exemplo, alguns anfíbios espalham com as patas substâncias
lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele, e um alto fluxo
sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. Ectotérmicos terrestres tendem a
reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. Por exemplo, alguns
animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento
evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar
significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers, 1992).
O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela
respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC, embora não seja capaz
de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta. O lagarto Sauromalus
pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0,9ºC abaixo da temperatura do
ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2,7ºC, através do ofego. As rãs Chiromantis e
Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros
sapos, conseqüentemente, a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar.
Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água,
quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea
abaixo da temperatura do ar. A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para
elevar a perda de água da evaporação, enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a
epiderme com uma camada de cera (Withers, 1992).

Correlações ecológicas em ser ectotérmico


(1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental;
(2) Possuem tamanho corpóreo pequeno, o que faz com que tenham menor necessidade
energética;
(3) O corpo possui um formato (alongado, achatado dorso-ventralmente ou achatado
lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa;
(4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais
eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos;
(5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos
endotérmicos.

A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados


ectotérmicos

Pág. 244 Julho/2010


Metablismo

O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de


adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho
comportamental de lagartos (Bennett 1980; Hertz e col., 1983; Huey e col., 1984) e
serpentes (Herckrotte,1967; Oliveira e Martins, 2002).
Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos, a temperatura
pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas.
Mudanças no comportamento defensivo, induzidas pela temperatura, têm sido reportadas
em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand, 1964; Hertz e col., 1982;
Crowley e Pietruszka, 1983), anfíbios anuros (Gomes e col., 2002), salamandras (Brodie Jr.
e col., 1991) e serpentes (Herckrotte, 1967; Arnold e Bennett, 1984; Schieffelin e Queiroz,
1991; Keogh e DeSerto, 1994; Mori e Burghardt, 2001).
Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays
defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col., 1982; Crowley e Pietruszka, 1983),
ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é
baixa (Hertz e col., 1982). Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há
modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. Nos estudos
feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas,
com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote, quando apresentam
baixas temperaturas corpóreas.

Considerações finais
Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos, a maioria das
atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo, sendo que a mesma está
diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. Muitos processos bioquímicos e
fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura
(Bartholomew, 1982). Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar
nos padrões de comportamentos nos animais. Entre os fatores abióticos, a temperatura
pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade
(Lillywhite 1987). De acordo com Shine e col. (2000), a temperatura do corpo pode ser uma
das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados
ectotérmicos, pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar, repelir
ou escapar do predador.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Metablismo

Termorregulação em endotérmicos:
febre e anapirexia. “Ana” o quê?

Carolina da Silveira Scarpellini


Lab. de Fisiologia, Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal
UNESP/Jaboticabal
carolinascarpellini@gmail.com

Conforme visto no capítulo anterior, geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes,


anfíbios, répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. Entretanto,
a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc
alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col., 2007).
Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores
autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos.
Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de
ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col., 2005). Os mecanismos de ganho,
por sua vez, podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica.
A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por
vasoconstrição periférica e piloereção, enquanto que os mecanismos de produção de
energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal, os dependentes e os
independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col., 2007). A produção de
energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese
obrigatória”, uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na
liberação de energia sob a forma de calor. O tremor consiste em movimentos involuntários
da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo. Assim, como não
há trabalho mecânico, praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e
col., 2005). A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no
músculo esquelético de aves (Bicudo e col., 2002) e no tecido adiposo marrom de
mamíferos placentários (humanos, ratos, morcegos,...). Este último, localizado próximo às
escápulas e aos rins, é de especial importância para os animais de pequeno tamanho,
recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak, 1998; Branco e col., 2005).
Como já mencionado no capítulo 1, o tecido adiposo marrom é bastante
vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias. Neste tecido os ácidos graxos,
derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos, servem como substrato para
oxidação na mitocôndria. Nas mitocôndrias das células em geral, a oxidação dos substratos
resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial.
Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase, resultando
na formação de ATP. Como já discutido anteriormente, a UCP1, também chamada

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Termogenina, é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via


alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase, logo grande parte da
energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica, contribuindo para
o aquecimento dos animais (Fig. 1).

Figura 1- Representação do fluxo de prótons entre o


espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria.
A seta tracejada representa a via pela qual os íons
atravessam a membrana interna durante a síntese de
ATP. A seta contínua que atravessa a proteína
desacopladora (termogenina) indica o caminho dos
prótons durante a dissipação de energia térmica na
termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col.,
2004).

Por fim, os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação


periférica, sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é
extremamente importante para humanos, equinos e bovinos) e ofegação (importante para
cães, gatos, ovelhas e aves). A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através
das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. A exposição da língua ao ar
favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica
corpórea (Randall, 1997).
Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies
mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a
troca de energia térmica entre o animal e o ambiente, como visto também para ectotérmicos.
Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando
expostos a um ambiente quente, o que promove uma perda evaporativa de energia térmica
nesses animais (Bícego e col., 2007).
No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle
dos mecanismos termorreguladores, principalmente autonômicos, denominada área pré-

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Metablismo

óptica do hipotálamo anterior (APO). A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o


telencéfalo (Fig. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas
locais), além de termointegradora, já que recebe informações térmicas de várias regiões do
organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais. Ainda, a APO contém
neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que, segundo o modelo proposto por
Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006), quando ativados pelos
termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura, estimulam a
perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc. Por outro lado,
quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local,
ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com
consequente manutenção da Tc (Matsuda e col., 1992; Boulant, 1998; Bícego e col., 2007).

Figura 2- Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO.


(http://healthysleep.med.harvard.edu/_i/198.jpg).

Estados térmicos
Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia, hipertermia,
hipotermia, febre e anapirexia (Gordon, 2001). Quando o animal apresenta uma Tc
considerada típica para sua espécie, diz-se que ele está em eutermia. Para a manutenção
da eutermia, o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo
metabolismo basal. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal,
isto é, quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

ativados, diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto
térmico da sua espécie. Dessa forma, ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de
energia para que a eutermia seja mantida. Por exemplo, a Tc em eutermia para humanos é
aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e,
geralmente, a ZTN para humanos adultos nus, encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis, 1998).
Assim, quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN, a energia
extra é empregada para manter a eutermia. Entretando, se a Ta aumenta ou reduz
extremamente, nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de
energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando
tais alterações, resultando nos estados de hiper ou hipotermia, respectivamente, que são
consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. 3).

Figura 3- Esquema de três estados térmicos: eutermia, hipotermia e hipertermia. A linha tracejada
·
representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. A linha contínua representa as variações da Tc em
relação à Ta. VO2, consumo de O2; TCI, temperatura crítica inferior; TCS, temperatura crítica superior;
Tc: temperatura corporal.

Na hipertermia moderada, a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para


outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. Essa redistribuição se dá
pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais
sangue que o necessário considerando o metabolismo local. Porém, na hipertermia severa,
a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da
pressão arterial causando o chamado heat stroke, ou choque térmico. A hipertermia severa
resulta em edema nos membros inferiores, tontura, exaustão, dor de cabeça, vômito e
diarréia (Branco e col., 2005). Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de

Pág. 250 Julho/2010


Metablismo

condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação


motora, amnésia, alucinação, decréscimo da frequência respiratória, dentre outros, podendo
levar o indivíduo ao coma.
Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas
da Tc. Na febre, mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o
aumento da Tc (Kluger, 1991) e, durante a anapirexia, mecanismos de perda de energia
térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon, 2001; Steiner e Branco, 2002). Note que os
mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia.
O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia.
Nesse contexto, há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou
uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. Veremos a seguir quais são
essas situações e porque, nestes casos, a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao
organismo que a eutermia.

Febre
A febre, como mencionado anteriormente, é um aumento regulado da Tc, pois é
controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica,
diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc, porém
devido a falhas no sistema termorregulador. Para o desenvolvimento da febre em um
ambiente com Ta baixa, é necessária intensa produção de energia térmica além de redução
na sua perda, enquanto em um ambiente com Ta alta, apenas uma diminuição da perda de
energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. A hipertermia, por
outro lado, é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá.
Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são
benéficos, pois podem causar desidratação, delírio, lesões no encéfalo, convulsões, dentre
outros prejuízos. O aumento na produção de energia térmica, em decorrência do
desenvolvimento da febre, implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar
um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recém-
nascidos, idosos e subnutridos. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada
perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os
pesquisadores: alguns consideram 39ºC, enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC
não são perigosas para humanos (Branco e col., 2005).
A resposta febril é uma reação complexa, geralmente resultante do contato com
agentes inflamatórios ou infecciosos, chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita
em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger, 1991), aves (D'Alecy e Kluger,1975;
Macari e col., 1993; Maloney e Gray, 1998), répteis (Hallman e col., 1990; Don e col., 1994),
anfíbios (Kluger, 1977; Bicego-Nahas e col., 2000) e peixes (Reynolds e col., 1976), além de

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

alguns invertebrados (Kluger, 1991). Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e


a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais, como já
abordado, uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos
animais. Dessa forma, quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente
térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável, eles direcionam-se e
permanecem no lado mais quente do gradiente, desenvolvendo assim a chamada febre
comportamental (Fig. 4).

Figura 4- Esquema de um gradiente térmico. O animal é colocado no centro do aparato e pode


direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. No caso da febre, o animal
desloca-se para o lado com Ta mais alta.

A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala
filogenética e, que por ser conservada ao longo de tantos anos, deve conferir benefícios aos
organismos (Kluger, 1991; Kluger e col., 1998). De fato, muitos estudos apontam o aumento
da atividade do sistema imune (Fig. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos
como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger, 1991; Marnila e col., 1995;
Kluger e col., 1998).

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Metablismo

Figura 5- Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col., 1996).

Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente


microorganismos invasores), estes são fagocitados por células do sistema imune. Os
fagócitos produzem citocinas (IL-1ß, IL-6, TNF-α, IFN-α) que atuam como pirogênios
endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG), principalmente a
PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de
energia térmica (Kluger, 1991; Matsuda e col., 1992; Blatteis e Sehic, 1997a,b). Em
contrapartida, estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1,
IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2
(Zampronio e col., 1994; Fabricio e col., 1998).
Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e
dos antipiréticos. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a
resposta febril, mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col., 2005).
Por fim, os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo
aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos - inclusive humanos -,
lagartos, peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento
da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos
antipiréticos (Branco e col., 2005).

Anapirexia
Anapirexia, segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”, é uma
condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de
mecanismos de perda de energia térmica, diferentemente da hipotermia que ativa
mecanismos de ganho de energia. Essa nomenclatura (anapirexia), apesar de bem definida,

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004), mas particularmente
neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta.
O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e, consequentemente, para a
produção de energia na forma de ATP. Sendo assim, é evidente que um aporte adequado
de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2, mesmo que
localizado e passageiro, pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col., 2001). No
entanto, alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao
longo da vida, seja por exposição ambiental (tocas, altas atitudes, etc) ou por insuficiências
cardíacas, respiratórias e/ou metabólicas, traumatismos cranianos, acidentes vasculares
encefálicos, dentre outros (Bao e col., 1997; Reissmann e col., 2000; Gordon, 2001).
Então, como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas
adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc, ou anapirexia, que é
observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos
unicelulares, como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco, 2002). Durante a
anapirexia, ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia
e inibição da termogênese, além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2, o que
facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier, 1995; Wood,
1995; Gautier, 1996; Barros e col., 2001; Steiner e Branco, 2002). Todas essas respostas
associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico, pois diminuem respostas
altamente custosas, contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a
captação de O2 nos pulmões. Dessa forma, um aumento na sobrevida de ratos,
camundongos, lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos
são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder, 1981; Hicks e
Wood, 1985; Malvin e Wood, 1992; Wood, 1995; Wood e Stabenau, 1998). De modo
semelhante ao que ocorre na febre comportamental, a queda da Tc pode ser evidenciada
quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e
selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e
Wood, 1985; Gordon e Fogelson, 1991; Malvin e Wood, 1992).
Com todos esses benefícios associados à queda da Tc, seria de se esperar que
reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante, como
em casos de hemorragia, anemia, isquemia, envenenamento, cirurgias cardíacas e traumas
cranianos, contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia, facilitando assim a recuperação
do indivíduo. De fato, isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col., 1997; Holzer e col.,
1997, Gordon, 2001; Kline e col., 2004), entretanto, a forma usada para diminuir a Tc do
paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios, mas apresenta uma
desvantagem em relação à anapireixa, que é o aumento da resposta metabólica do paciente

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Metablismo

por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica, os quais são altamente
custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon, 2001).
Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no
Paramecium caudatum e da sua importância clínica, os mecanismos envolvidos nesta
resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus
mediadores/modularores foram descritos. Dentre estes estão a dopamina, a serotonina, o
óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a
queda da Tc (Steiner e col., 2002a; Gargaglioni e col., 2005; Scarpellini e col., 2009). Por
outro lado, os receptores mi e delta, também na APO, estão envolvidos no retorno da Tc ao
estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col., 2009). Ainda, a adenosina e o
monóxido de carbono (Barros e Branco, 2000; Paro e col., 2001) parecem atuar em alguma
outra região no SNC para induzir e inibir, respectivamente, a anapirexia. Como pode ser
notado, a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e
inibidores da queda da Tc, assim como acontece na febre.
Steiner e col. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia
dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros, GMP cíclico (GMPc) e
AMP cíclico (AMPc). O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido
nítrico, serotonina, dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides
kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO, aumentando os
níveis intracelulares de GMPc e AMPc, induzindo uma menor produção de energia térmica e
uma maior perda desta, levando à queda da Tc. É interessante ressaltar que a redução dos
níveis de GMPc e AMPc, na APO, ou seja, o efeito contrário ao que acontece na indução da
anapirexia, ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col., 2002b).
A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado, mas uma queda regulada da
temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de
depressão metabólica durante a dormência sazonal. Entretanto, nestes animais a queda da
Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental, mas parece
ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas
contribuindo assim, para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos
animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col., 2003).
Em suma, é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes
(febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma
falha nos sistemas controladores. E, geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios
aos animais, contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas
situações, tais como infecção e hipóxia. Deve ser lembrado, evidentemente, que essas
alterações, para serem benéficas, devem ocorrer dentro de limites em que o animal não
sofra com extremos das duas condições.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Metablismo

Metabolismo energético em câmera lenta:


mecanismos de depressão metabólica sazonal

Lilian Cristina da Silveira


Laboratório de Metabolismo e Energética
lilian.fisioib@usp.br

Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as


condições ambientais tornam-se desfavoráveis, ou ótimas, para determinadas funções, por
meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos, tais
como fotoperíodo, temperatura e umidade. Animais que apresentam dormência sazonal
exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase
desfavorável, que possibilitam, dentre outros eventos, o armazenamento de substratos
energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de
dormência, como mencionado acima. A dormência sazonal é caracterizada pela presença
de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica.
A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos
animais e pode estar associada à dormência sazonal, como nos casos de estivação e
hibernação, ou dissociada da dormência sazonal, como no torpor diário, sono e anidrobiose.
A depressão metabólica é, portanto, de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos
exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. A estivação possibilita que muitos
animais, incluindo anuros, peixes e caramujos, sobrevivam à escassez de água. Já a
hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e
escassez de alimento. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário,
um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação, mas com apenas algumas horas
de duração, que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é
reduzida. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia, sem acesso ao ar atmosférico,
embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno. Seja em condições
anóxicas ou na presença de oxigênio, a depressão metabólica estende o tempo de
sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de
utilização das reservas de substratos. Na maioria dos casos, a taxa metabólica é reduzida
para 5–40% da taxa metabólica de repouso, mas alguns organismos como esporos e cistos
sofrem depressão metabólica ainda maior e, em muitos casos, a taxa metabólica
simplesmente não pode ser detectada, uma condição denominada criptobiose (Storey e
Storey, 2004; Carey e col., 2003).

Ciclo Anual
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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Antecipação
Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do
fenômeno. Meses antes do estresse ambiental, os animais iniciam uma série de ajustes
comportamentais e fisiológicos que possibilitam, dentre outras respostas, o armazenamento
de substratos, seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos, ou ambos.
Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante, como na maioria dos casos de
hibernação e estivação, a energia é estocada principalmente na forma de lipídios, uma
forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de
ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. Esquilos, por
exemplo, dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de
preparação para a dormência (Dark, 2005).
Os eventos de deposição/mobilização de lipídios, que resultam em
aumento/diminuição da massa adiposa, da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos
estão ligeiramente dessincronizados. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes
que a massa corpórea atinja seu máximo. E uma diminuição da TMB já no meio do verão,
antes que a ingestão de alimentos diminua, possibilita um aumento da massa corpórea dado
pelo acúmulo de gordura. A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do
outono, quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis
de absorção de glicose são mínimos, indicando uma possível insensibilidade à insulina nos
adipócitos (Dark, 2005). Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos, mas ciclos
semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col.,
2004).
As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente
resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica, mas
principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark, 2005).
Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a
massa corpórea em hibernantes, mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste
(Barnes e Mrosovsky, 1974), fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal.
Desta maneira, estes ciclos parecem ser rigidamente controlados, provavelmente por um
mecanismo central, que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco
(TAB) que informa a quantidade total de reservas e, desta forma, possibilita o ajuste da
adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades.
Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina, um hormônio
peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos
não hibernantes (Ahima e Flier, 2000; Dark, 2005). A leptina é produzida principalmente
pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de

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Metablismo

adiposidade do animal. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão


alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier, 2000). Entretanto, os poucos estudos que
investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência
de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal.
No morcego Myotis lucifugus, durante a pré-hibernação, a relação usual entre o nível
de adiposidade e a secreção de leptina não é observada. Os níveis plasmáticos de leptina
elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa
alcança seu máximo. Neste animal, a secreção de leptina, notoriamente um hormônio cujo
efeito inclui aumento do gasto energético, parece estar dissociada da adiposidade durante a
hibernação, permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e
dormência (Kronfeld-schor e col., 2000). Já em marmotas Marmota flaviventris, as
concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da
massa adiposa e tamanho do adipócito. Neste caso, a fim de se esquivarem do efeito
anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda
de energia na dormência, estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência
à leptina (Florant e col., 2004).
Recentemente, os efeitos e a estrutura da leptina, antes estudados somente em
mamíferos, têm sido investigados em outros grupos. Vários trabalhos fornecem evidências
da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em
ectotérmicos (Johnson e col., 2000; Niewiarowski e col., 2000; Paolucci e col., 2001;
Spanovich e col., 2006). A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto
Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos, ou seja,
elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos, embora a massa
corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle
(Niewiarowski e col., 2000). Neste mesmo animal, que apresenta dormência sazonal, os
níveis circulantes de leptina são menores no outono, quando a quantidade de reservas
lipídicas é máxima (Spanovich e col., 2006), assim como foi observado no morcego Myotis
lucifugus (Kronfeld-schor e col., 2000).

Dormência
Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para
iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo
onde permanecerá até a primavera. A entrada em hibernação é caracterizada por uma
rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica, das frequências cardíaca e respiratória,
acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. Em endotérmicos, a
temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um
estado de hipotermia voluntária, enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser, 1994; Ruf e
Arnold, 200).
O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se, em
grande parte, ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações, que resulta em
um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. Dado que a manutenção do
gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia, que supre
a atividade de enzimas como a Na+,K+-ATPase, um maior consumo em relação à produção
de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que
culminam na morte celular. Curiosamente, hibernantes durante a fase ativa são tão
suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes, o que sugere que os mecanismos
celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e,
portanto, reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação
(Storey, 2004). Esta semelhança, somada à constatação de que a habilidade de hibernar é
amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral
e uma propriedade básica da sua fisiologia, sugerem que o fenótipo hibernante não seria
resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes, mas sim da expressão
diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col., 2004; Storey, 2004).
Com base neste pressuposto, bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da
expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não
hibernantes se tornasse possível (Quadro 1).
Durante a depressão metabólica, alguns processos fisiológicos diminuem, enquanto
outros são totalmente interrompidos. Durante toda fase de dormência o coração deve
continuar a bombear sangue, embora, muitas vezes, a uma temperatura corpórea muito
menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal
(Fahlman e col., 2000). Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de
200-300 para 3-5 batimentos por minuto. Diferentemente da função cardíaca, o fluxo
sanguíneo renal, a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos
ou cessam completamente durante o hipometabolismo. Nos mamíferos, estes processos
são retomados durante os despertares periódicos, de maneira que poucas alterações são
observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col.,
2003). Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação
de produtos finais voláteis, estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da
uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação
durante a estivação (Storey e Storey, 2007).

Pág. 260 Julho/2010


Metablismo

Quadro 1: Da ficção científica para a


clínica médica: indução de
depressão metabólica

Mark B. Roth
Fred Hutchinson Cancer
Research Center, Seattle

A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em


diversas obras de ficção científica e, de fato, parece que a ciência está cada vez mais
próxima de tornar esta idéia real, o que traria imensos benefícios para a medicina em uma
variedade de condições. Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos
órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição
energética, são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender
o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. Esta idéia ganhou novo
fôlego em 2005, quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a
gás sulfídrico (H2S), um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo
c oxidase (CCO), tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma
queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). Após
6 h de exposição ao H2S, estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura
normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col.,
2005). Provavelmente, ajustes paralelos nos processos consumidores de energia, assim
como ocorre nas células dos hibernantes, acompanharam a inibição do metabolismo
mitocondrial nestes camundongos, preservando a viabilidade celular.

Dado o elevado custo dos processos de digestão, absorção e assimilação de


alimentos (ação dinâmica específica), a interrupção da alimentação também contribui de
maneira significativa para a economia energética do animal. O trato gastrointestinal
apresenta um intenso metabolismo, atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em
mamíferos (Tracy e Diamond, 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e
função deste órgão. Na depressão metabólica sazonal, observa-se uma pronunciada atrofia
do intestino, embora a capacidade funcional do órgão seja preservada, garantindo que o
animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col., 2003). Na
dormência sazonal de lagartos teiú jovens, a depressão metabólica é acompanhada por
uma redução de 37% da massa do intestino médio, seguida por um aumento de três vezes
da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col.,
2007).
Em hibernantes clássicos como os esquilos, a depressão metabólica é alcançada
através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição
ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col., 2003).
Por outro lado, alguns endotérmicos e ectotérmicos, apresentam depressão metabólica em
temperaturas relativamente altas (Fig. 1). Lêmures de Madagascar podem hibernar a
temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

de cerca de 17ºC, apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo. Nestes


casos, há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um
efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col., 2004; Souza e col., 2004).

a b
Figura 1- a) Lagarto teiú Tupinambis merianae; b) Primata lêmure Microcebus murinus.

Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua


Em pequenos mamíferos, a hibernação consiste de fases de torpor que duram de
uma a três semanas, interrompidas por despertares periódicos que, geralmente, duram
menos de 24 horas, nos quais os animais acordam, elevam a temperatura corpórea para
aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig. 2). Este padrão
de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais
energia quando comparado à hibernação contínua, apresentada por outros animais, por
exemplo, alguns anfíbios e répteis. Na marmota, 72% da energia consumida durante a
hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%)
(Heldmaier e col., 2004). A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é
conhecida, mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos
e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante
o hipometabolismo (Prendergast e col., 2002; Knight e col., 2000).

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Metablismo

Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota
(Marmota marmota), evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação
(1), a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2), o rápido reaquecimento durante o
despertar (3), e a eutermia (4). A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica
e assume um padrão episódico, com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar
de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). Ta representa temperatura ambiente. (Modificado
de Heldmaier e col., 2004).

Despertar
O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal
durante a fase de dormência, mas também para que o despertar seja bem sucedido. Na
primavera, quando os animais despertam da fase de dormência, a taxa metabólica eleva-se
antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa
corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark, 2005). Em alguns mamíferos
hibernantes, a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor
no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons
através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna, como visto
em capítulos anteriores. Neste momento, as reservas remanescentes de carboidratos são
utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário, provendo aminoácidos
para a síntese de glicose, essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos
dependentes de glicose (Carey e col., 2003; Souza e col., 2004).

Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem


e consomem energia nas células

Fosforilação reversível
Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis,
possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar. Um
mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por
grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível, que consiste
na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína,
catalisada por proteínas quinases, e na remoção desses grupos, catalisada por proteínas
fosfatases. Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que
é crítica para a sua estrutura tridimensional, ocorrem efeitos marcantes que modificam
algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas sub-
celulares. Em diversas condições fisiológicas, várias enzimas glicolíticas, receptores e
transportadores de membrana, proteínas responsáveis pela transcrição gênica, síntese e

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação


reversível (Storey, 2004).
O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo
veio de estudos com moluscos marinhos, nos quais a fosforilação da piruvato quinase
causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey,
1990). Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e
consomem energia nas células, além de ajustes específicos, como mudanças no tipo de
substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados. Em condições anóxicas,
carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP, já quando a oferta de O2 no
ambiente não é limitante, como na maioria dos casos de hibernação e estivação, há uma
tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos
graxos como combustível energético (Carey e col., 2003). Tais ajustes nas vias catabólicas
são alcançados, principalmente, pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação.
De uma maneira geral, o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das
enzimas glicogênio fosforilase, hexoquinase, fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase, por
regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. Observa-se, entretanto, que a regulação
destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a
depressão metabólica anaeróbia. Nos casos de depressão metabólica aeróbia, tem sido
demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH),
que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. Este
complexo enzimático, que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA
e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa, é
convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima
piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey, 2004).

Expressão Gênica
A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada, em parte, no nível da
expressão gênica. Para ilustrar como esta regulação acontece, vejamos o que acontece no
coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig.3). Durante a fase de dormência,
há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4), o que resulta em
uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e, consequentemente, da formação de acetil-
CoA a partir de piruvato. Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos,
preservados para utilização pelo cérebro, um tecido dependente de glicose; uma ênfase na
utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. Curiosamente,
ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos,
sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em
mamíferos, levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a

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Metablismo

oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col., 2000).


Confirmando esta idéia, alterações na expressão de enzimas envolvidas na
oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo.
A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase, que catalisa a formação de
malonil-CoA a partir de acetil-CoA, primeiro passo da síntese de ácidos graxos, inibe a
síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA, um
inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria
(carnitina palmitoil transferase – CPT). Paralelamente, há um aumento da expressão da
lipase pancreática, uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente
expressa no pâncreas, no coração do hibernante. A quantidade de lipase pancreática, assim
como da lípase hormônio sensível, também se encontra aumentada no tecido adiposo
branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos
graxos no plasma (Van Breukelen e Martin, 2002).
A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante
papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey, 2004). Assumindo
que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética)
não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente, a inibição do
fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de
enzimas mitocondriais, como a citrato sintase, e /ou pela regulação de enzimas que suprem
a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação
(Storey, 2004).

Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial, de

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

carboidratos para ácidos graxos, durante a hibernação em mamíferos. Foram indicados os efeitos da
concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da
enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no
coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. As linhas com cabeça de
seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição; linhas sólidas indicam a
regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. As setas em vermelho
indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de
oxidação de AG e de carboidratos. PPARα é um receptor nuclear, ativado por ácidos graxos, que
funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios. TG, triglicerídeos;
HSL, lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col., 2003).

Síntese e degradação de proteínas


Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão
metabólica é a síntese protéica. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica
utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal
(Rolfe e Brown, 1997). A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da
inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou
diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente
inibição da maquinaria de tradução. Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes, a
quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta
aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm
latente”. Portanto, a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da
fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de
agregação dos polissomos. Paralelamente, dada a inibição da síntese de proteínas, a
degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo, aumentando a meia vida
destas moléculas, o que além de contribuir para a economia energética, diminui a formação
de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento, estocagem e excreção (Storey
e Storey, 2004).

Composição lipídica das membranas


Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de
membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão
metabólica, embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é
baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. (2000) na
última década. Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a
função de enzimas associadas às membranas de suas células, os autores propuseram que
a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade
metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. De

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Metablismo

maneira geral, animais menores possuem membranas mais insaturadas e,


consequentemente, taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e
Else, 2000; Hulbert, 2007). Adicionalmente, as adaptações à temperatura em peixes e
outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios, próximos à região polar, aparentemente
envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém
a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais
(Gibbs, 1998). Em um caramujo terrestre estivante, alterações na composição da membrana
mitocondrial interna do hepatopâncreas, dissociadas de efeitos da temperatura, foram
sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o
estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções
similares da atividade da CCO (Stuart e col., 1998). Esquilos em torpor apresentam uma
diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas
membranas dos cardiomiócitos, provavelmente em resposta à queda da temperatura
corpórea, embora a atividade da Na+,K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação
com as taxas em animais ativos (Charnock e col., 1980). Na marmota, um hibernante
herbívoro, alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem
desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal,
observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e
Arnold, 2008). Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à
ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor, ao
contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não
hibernantes. Curiosamente, evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo
cardíaco de lagartos teiú, provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer
em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o
estado hipometabólico, além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses
animais (Silveira, dados não publicados).
Face à redução das taxas de produção de energia, a inibição de processos celulares
que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. A
manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a
viabilidade celular e, durante a depressão metabólica, há uma diminuição do movimento dos
íons em ambas as direções, tanto passivo através de canais iônicos, quanto pelo transporte
ativo, o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy, 1987).
A atividade da Na+,K+-ATPase, utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de
mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown, 1997) e a inibição deste processo contribui, de
forma significativa, para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a
dormência (Carey e col., 2003). A fosforilação reversível e as alterações da composição
lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

atividade desta proteína.

Considerações Finais
A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os
mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal.
Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas
células de mamíferos, com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações
no suprimento de energia do que no bombeamento de íons, o que evidencia a importância
da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand, 1995).
Adicionalmente, o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. Por
exemplo, a atividade da Na+,K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se
inalterada durante a hibernação, embora esteja significativamente reduzida no músculo
esquelético, rins e fígado (Balaban e Bader, 1984; MacDonald e Storey, 1999). No conjunto,
a inibição destes vários processos, cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado
dormente, resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das
reservas de substratos endógenos, possibilitando a sobrevivência dos animais durante a
fase de dormência.

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Metablismo

Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios

Aline Dal’Olio Gomes


Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
eniladal@gmail.com

Introdução
Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui
(termorregulação, febre, anapirexia, hibernação e dormência), o processo reprodutivo
também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais. Como já discutido, as
células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo,
mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats,
e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos
que perpetuam a espécie. Neste período em que o trato digestório está vazio, o organismo
depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de
nutrientes. Durante a evolução dos animais, a habilidade de armazenar quantidades
significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de
ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem
o sucesso reprodutivo (Scheneider, 2004).
Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser
central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético, e permite que os animais
priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições
energéticas e reprodutivas (Scheneider, 2004). Sendo assim, quando o alimento é
abundante e o requerimento energético é baixo, a energia é disponível para todos os
processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população, incluindo
crescimento, manutenção, termorregulação e reprodução (Fig. 1a). Desta forma, os
comportamentos relacionados à defesa territorial, corte, cópula e cuidado parental recebem
uma alta prioridade, e a energia excedente é armazenada (Scheneider, 2004).
Por outro lado, quando a energia é escassa, os mecanismos fisiológicos tendem a
favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. Assim, os
processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento,
armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig.1b), pois a reprodução é muito custosa
energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco
(Scheneider, 2004). Deste modo, os mecanismos que controlam o balanço energético são
integrados com aqueles que controlam a reprodução, sendo importante entender a ligação
entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Crescimentoo
A
Alimento
abundante + Baixa demanda
energética = ↑Energia
Manutenção

Reprodução

B
Crescimento
Alimento Alta demanda
escasso + energética = ↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da
demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e
espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território,
corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso
reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é
necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas.
Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a
magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e
fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e,
então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é
direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam
altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado
parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade
reprodutiva (Aubret e col., 2002).
Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a
reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente
migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a
energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são
provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas
e Baras, 2001).

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Metablismo

Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva


durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a
dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como
vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana
temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período
reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos
prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma
diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da
alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação
durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a
vocalização (Carvalho e col., 2008).
Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso
cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o
armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em
muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do
forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um
fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o
comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às
fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se
alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente
direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas
espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto
os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a
lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o
armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador
apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de
jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução


Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a
sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes
componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios
(tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2).
Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem
variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário Estradiol

Lipídios Tec. adiposo


Vitelogenina
Fígado
Proteína
Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética


De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva
energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O
fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam
importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como
reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na
vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intra-
uterino de embriões (Jared e col., 1999).
Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da
qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e
reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se
altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta
às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002).
Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo
entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo,
Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese
seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como
Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de
lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a
chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as
gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao
contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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Metablismo

em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase


reprodutiva (Pérez e col., 2007).
Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na
reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo
arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O
mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição
química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col.,
1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos
corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas
fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um
aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação
chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez
(Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos
podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas
circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006).
Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de
lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o
crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados
quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas
reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as
fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de
vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa
mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para
a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi
similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade
de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas.
Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de
presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta
devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não
foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as
reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento.
Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os
lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente,
2004).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

C. gordurosos
Fígado
Músculo
Músculo

% de lipídios
no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos
(NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de
serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação


reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos
corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima
diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima
A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a
concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são
consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de
armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a
vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976).
Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a
espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma
de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a
história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos
carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta
cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA)
ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os
lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios -
FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,
Pág. 274 Julho/2010
Metablismo

corresponde aos ácidos graxos, compostos principalmente por saturados e


monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na
sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle
da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986).
Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como
crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais
frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam
também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de
hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana
dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e
col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar
muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as
dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna
insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos
gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e
triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos
ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000).
Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de
peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios
(Jones e col., 1998).
A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o
crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva
energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do
vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de
fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os
ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para
sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da
viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo,
como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a
gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés
possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios.
Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 65-
70%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson,
2000).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies
ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma
redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e
Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies
ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser
provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o
requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo
da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de
ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A
porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores
(Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus,
mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um
aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens
importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico,
AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo
a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico)
mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (Fernández-
Palacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do
conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris
(Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos
espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em
que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos
espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o
descongelamento (Izquierdo e col., 2001).
A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos
espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em
peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de
espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de
membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell
e col., 1999).

Pág. 276 Julho/2010


Metablismo

Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de


AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em
peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA,
em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG
parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma
temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos
dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo,
devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves
devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o
experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6,
possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos
espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença
no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das
membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas,
tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes
(Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o
precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das
prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo
de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação
esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode
ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da
esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a
transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol
da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das
enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs
produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e
sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval


A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA
e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a
simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

Julho/2010 Pág. 277


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e


estão associados aos processos de fluidez.
O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande
proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos
estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual
(Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em
DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante
constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e
fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000).
A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida
diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua
síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000).
Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para
síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os
processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a
perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou
eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a
composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade
dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais
ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos,
envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no
funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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Metablismo

A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais

Lye Otani
Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva
lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico


O orçamento energético dos animais e
suas diversas relações com o ambiente são muito
utilizados como base de teorias ecológicas que
visam explicar a diversidade da história evolutiva
observada nos vertebrados (McNab, 1992). O
orçamento energético de um animal é constituído
basicamente dos processos e mecanismos de
obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e
regulados por diversos fatores. A obtenção de
energia nos animais ocorre através da ingestão,
digestão, assimilação e metabolização do alimento
(Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman,
2000). Apesar do processo ser aparentemente
simples, a obtenção de energia para manutenção
do equilíbrio energético é limitado por fatores
intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1).
No ambiente natural, os animais devem
lidar primeiramente com a sazonalidade e
Figura 1. Ilustração da aquisição e disponibilidade do alimento, além disso, sua
gasto de energia. O modelo mostra qualidade também influenciará na quantidade de
alguns gargalos que limitam a energia disponível para ser assimilada. Essa
assimilação de energia e alguns
assimilação de energia, por sua vez, é controlada
processos que demandam um maior
por uma série de limites intrínsecos do animal
gasto energético (Modificado de Weiner,
(Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991;
1992).
Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;
Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a
manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde
ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e
Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à
ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o
papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990).
Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes
na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu
contexto ecológico.
Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o
gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse,
produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores
ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está
inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no
orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para
produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu
equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a
diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados
com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia
pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston,
1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem,
afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das
espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual


O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas
alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando
a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras
espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com
esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos
foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto,
com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução
Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e
comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além
das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações
ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005).
Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem
é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e
Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e
o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades
biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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Metablismo

e Merriam, 1994; Zuidema e col., 1996, Drinnan, 2005). A principal consequência da


fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações, o que as tornam mais
susceptíveis à depressão endogâmica, redução da diversidade genética, e a outros
problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam,
1994; Zuidema e col., 1996). A habilidade de se deslocar e os seus padrões de
deslocamento, juntamente com a ecologia, o uso do hábitat e a habilidade de interagir com
as mudanças em seu ambiente, são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os
efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman, 1997).
Além da redução populacional, a fragmentação modifica as condições de luz,
temperatura, umidade e vento, influenciando diretamente os microhábitats, evidenciadas
pelo efeito de borda (Kapos, 1989; Bierregaard e col., 1992; Rodrigues, 1998; Galindo-Leal
e Câmara, 2005). Desse modo, as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo
ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats,
incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991, Tocher e col., 1997,
Gascon e col., 1999). Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade
para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas
condições (Calow, 1991; Zachariassen e col., 1991; Carey, 2005). Sob a óptica da fisiologia
comparada e abordando as relações energéticas, as diferenças fisiológicas e sua
plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais
serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente.
A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo
o planeta, além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente
relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições
ambientais criadas pelo ser humano. Como conseqüência da instalação dessas espécies
invasoras no novo ecossistema, podemos observar um desequilíbrio nas relações
ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas
que antes não eram observadas, por exemplo: competição, predação, parasitismo (Dukes e
Mooney, 1999; Vitousek e col., 1996; Kolar e Lodge, 2001). A proliferação de patologias
e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações
conjuntas das diversas alterações ambientais, uma vez que há a instalação de espécies
invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col., 2000; Daszak e
col., 2001; Primack e Rodrigues, 2001; Navas e Otani, 2007).

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Figura 2 - Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta
(Modificado de Otani e Patrício, 2010).
A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias
evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. Essa vulnerabilidade dos
ecossistemas, por sua vez, também pode ser potencializada pela introdução de poluentes
resultantes das diversas atividades antrópicas. Esses poluentes podem contaminar a água o
solo e o ar, sendo prejudicial a saúde pública e ambiental. A poluição da água, por exemplo,
é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. Tais poluentes
comprometem fontes de alimento e água potável, essenciais para qualquer organismo vivo,
além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema. Alguns desses compostos
propiciam a proliferação de determinadas espécies, as quais modificam outras
características da água, como por exemplo, a incidência de luz e a concentração de gases
(Primack e Rodrigues, 2001). No ar, os poluentes podem promover a formação de ácidos,

Pág. 282 Julho/2010


Metablismo

que por sua vez, alteram o pH do solo e de corpos d’água, reduzindo e até dizimando
populações de animais (Beebee e col., 1990; Blaustein e Wake, 1995; France e Collins,
1993) e plantas (Hinrichsen, 1987; Mackenzie e El-Ashry, 1988).
No Brasil, a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas
(IBGE, 2009), e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da
terra e, também, das queimadas (Sampaio e col., 2008). Entre os anos de 1970 a 2004
houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%, atingindo 38
gigatoneladas em 2004 (IPCC, 2007 – AR4). Como conseqüências dessas ações,
observamos a elevação de 0,75% da temperatura média no Brasil (Marengo, 2007; Sampaio
e col., 2008). Além de alterações na temperatura, podemos observar um aumento da
precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do
mar, da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo, 2007; Sampaio e col., 2008).
As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em
alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col., 2008). Essa
reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades
biológicas, favorecendo, mais uma vez, aquelas espécies capazes de se adaptar às novas
condições (Bazzaz e Fajer, 1992; Buckeridge, 2008). É provável que as espécies de
distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas
mudanças, podendo ser extintas. É valido ressaltar que essas alterações não afetarão
apenas os organismos terrestres, comunidades marinhas são afetadas pela alteração da
temperatura e da elevação do nível do mar. Tais conseqüências já podem ser observadas
em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade,
temperatura e correntes de água (Carey, 2005).
Diante desse cenário, fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel
fundamental dentro da Biologia da Conservação, ao estabelecer os limites ambientais que
garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. Tal equilíbrio é, por conseguinte,
indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies, bem como a viabilidade das
populações em um determinado ambiente. A análise integrada da variação fisiológica, em
diferentes níveis de abordagem, e de suas relações com as pressões de seleção torna-se
essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal
(Pough, 1989; Mangum e Hochachka, 1998, Wells, 2001; Angilletta e col., 2002).

Fisiologia comparada e a conservação biológica


Entender as relações biológicas com o ambiente, através do conhecimento sobre a
história natural das espécies, é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades
biológicas (Gilpin e Soulé, 1986). De natureza multidisciplinar, a biologia da conservação
propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

humana nas espécies, comunidades e ecossistemas, além de desenvolver abordagens


práticas para prevenir a extinção de espécies e, se possível, reintegrar as espécies
ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues, 2001). Dentro desta
perspectiva, os princípios, conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de
extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação
ambiental (Koeman, 19991; Zachariassen e col., 19991; Carey, 2005; Wikelski e Cooke,
2006; Navas e Otani, 2007). A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos
organismos vivos estão relacionados à variação ambiental, e os mecanismos por traz
desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey,
2005; Wikelski e Cooke, 2006).
O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita
estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas
nos diversos níveis de organização biológica (Clements, 2000; Carlisle, 2000). Os padrões e
processos do ecossistema podem ser influenciados, mesmo que indiretamente, pelas
ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee, 1995; DeAngelis, 1995).
Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em
laboratório e em campo, como por exemplo: a biotelemetria, detectando alterações
comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca, temperatura corpórea, taxa opercular,
batimento caudal, da asa ou de outros apêndices) em tempo real, a quantificação de
produção de CO2 através de isótopos (Speakman, 1997; Nagy e col., 1999; Costa e Gales,
2003), além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. Os
índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o
estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são
facilmente obtidos a partir de vários métodos, inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e
Woods, 2006).
Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa, somos capazes
de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os
diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow, 1991; Zachariassen e col.,
1991; Hopkins e col., 1998; Beyers e col., 1999; Barbieri e col., 2002; Carey, 2005). A
fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da
ecotoxicologia, assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores.
Diante da introdução dos poluentes, a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível
de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental, além
de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados
provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke, 2006). A grande maioria dos
trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais
profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. Em peixes foi observado que pesticidas podem

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Metablismo

afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar, taxa de


crescimento, capacidade natatória, metabolismo de repouso e regeneração de tecidos
(Beyers e col., 1999; Barbieri e col., 2002). Poluentes também têm sido relacionados a
mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios
(Carey e Bryant, 1995; Calow, 1991; Rowe e col., 1998; Rowe e col., 2001).
Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação, a maioria
dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos
efeitos dos pesticidas (Calow, 1991; Rowe e col., 1998). Porém, é valido ressaltar que os
poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. O
aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento
do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações
energéticas dos animais (Fahring e Merriam, 1994; Zuidema e col., 1996; Drinnan, 2005;
Neckel-Oliveira e Gascon, 2006). Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e
redução do hábitat, por exemplo, a fisiologia comparativa nos propicia entender como o
desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e
Otani, 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças
podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col., 2003; 2004). Tais características
fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental,
determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani,
2007).
Em suma, podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da
conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas
pelo homem podem afetar as diferentes espécies. Uma vez que há uma alteração nessa
equação de obtenção e consumo de energia, esses mecanismos podem acarretar em
conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das
populações (Navas e Otani, 2007). Através desses dados, podemos detectar quais os
principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka,
1998; Somero, 2000; Costa e Sinervo, 2004), possibilitando o desenvolvimento de planos de
manejos apropriados para cada táxon e, mais a longo prazo, de planos para monitoramento
dos ambientes alterados (Carey, 2005; Wikelski e Cooke, 2006). Além disso, os dados da
fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que
propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações
de mudanças climáticas e ambientais.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Unidade 5

Neuroendocrinologia
comparada

Renato Massaaki Honji


Lab. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
honjijp@usp.br

O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia?


Como visto na Unidade 3, a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos
ligados ao sistema nervoso. Neste capítulo, uma breve descrição sobre o conceito de
endocrinologia será abordada, apresentando principalmente a endocrinologia comparada
em vertebrados, visto que, em invertebrados (Unidade 7), vários organismos apresentam
substâncias secretadas por células, que causam efeitos direta ou indiretamente em células
alvos, distantes do seu centro de origem. Em relação à neuroendocrinologia, ciência que
pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia, será
intensamente discutida neste capítulo. Os sistemas biológicos: nervoso, endócrino e imune,
estão, fisiológica e anatomicamente interligados, interagindo multidirecionalmente para
garantir a homeostase do organismo. Neste contexto, vários eixos biológicos são
identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia, como por exemplo: o eixo
hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G), o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo
imune-pineal. Desta forma, veremos, ao longo deste capítulo, a importância dos estudos em
fisiologia comparada, em especial a neuroendocrinologia, destacando-se as principais vias
de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de
vertebrados. Adicionalmente, os sistemas nervosos e endócrinos, agem em conjunto para
integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental),
focando não apenas nos fatores ambientais naturais, mas também nos efeitos dos
compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). Esses compostos
químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na
Unidade 6.
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Lista de abreviações pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo


e a hipófise de peixes e mamíferos pág. 305
Renato Massaaki Honji
Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira

Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios,


répteis e aves pág. 323
Amanda de Moraes Narcizo
Revisado pelar Dra. Renata Guimarães Moreira

Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino pág. 337


Marina Marçola
Revisado por Dr. Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado

Bibliografia pág. 348

Pág. 300 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

Lista de abreviações

AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase


Ach – acetilcolina
ACTH – hormônio adrenocorticotrópico
ADH – hormônio antidiurético
AH – adeno-hipófise
Ala – alanina
ARC – núcleo arqueado
Arg – arginina
Asn – asparagina
Asp – ácido aspártico
AVT – arginina vasotocina
cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish
cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II
CRH – hormônio liberador de corticotropina
CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina
Cys – cisteína
DA – dopamina
DIT – 3,5 diiodotirosina
FSH – hormônio folículo estimulante
GABA – ácido gama-aminobutílico
GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico
GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento
Gln – glutamina
Glu – ácido glutâmico
Gly – glisina
GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas
GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas
gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig
Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54)
GtHs – gonadotropinas
H-H – hipotálamo-hipófise
H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal
H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas
H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide
HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase

Julho/2010 Pág. 301


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

His – histidina
IGF – fator de crescimento insulínico
IL– interleucina
Ile – isoleucina
IST – isotocina
kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54)
Leu – leucina
LH – hormônio luteinizante
LPH – lipotropinas
LPS – lipopolissacarideos
Lys – lisina
MCH – hormônio concentrador de melanina
ME – eminência média
Met – metionina
mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos
mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos
MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação
MSH – hormônio melanotrópico
MST – mesotocina
NH – neuro-hipófise
NO – óxido nítrico
NSQ – núcleo supraquiasmático
OC – quiasma óptico
PD – pars distalis
Phe – fenilalanina
PI – pars intermedia
PIF – fator inibidor da prolactina
pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei
PN – pars nervosa
POA – area pré-óptica
POMC – proopiomelanocortina
PPD – proximal pars distalis
PRF – fator liberador de prolactina
PRL – prolactina
Pro – prolina
PT – pars tuberalis
PVN – núcleo paraventricular

Pág. 302 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

RHs – hormônios liberadores


RIHs – hormônios inibidores
RPD – rostral pars distalis
sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream
Ser – serina
sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão
SHAM – animais falso-operados
SL – somatolactina
SNC – sistema nervoso central
SON – núcleo supra-óptico
SS – somatostatina
T3 – triiodotironina
T4 – tiroxina
Tgb – tiroglobulina
Thr – treonina
TNF – fator de necrose tumoral
TPO – tiróide peroxidase
TRH – hormônio liberador de tireotropina
Trp – triptofano
TSH – hormônio estimulador da tireóide
Tyr – tirosina
Val – valina
VGX – vagotomia bilateral cervical
α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7

Julho/2010 Pág. 303


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Pág. 304 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e


a hipófise de peixes e mamíferos

Renato Massaaki Honji


Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
honjijp@usp.br

A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da


biologia, conhecida como fisiologia. Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos
biológicos que permitem a vida existir e funcionar, a fisiologia animal comparada tem um
foco nas comparações e contrastes dos mecanismos, processos ou respostas fisiológicas
de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie, que estão submetidas a
diferentes condições, sejam elas: naturais ou artificiais (Withers, 1992; Norris, 2007). Já a
neuroendocrinologia, pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a
endocrinologia, ou seja, é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema
endócrino e vice-versa, o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o
cérebro (Zohar e col., 2010). Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a
diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais
(principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os
mamíferos e os peixes). Adicionalmente, o entendimento do sistema endócrino, é um dos
caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e
sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies
viventes.

Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história


As glândulas endócrinas, ou glândulas de “secreção interna”, secretam os produtos
sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como
sinais químicos nos organismos. Esses produtos de secreção, também denominados de
hormônios, assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados
a cerca de 100 anos atrás (Norris, 2007). O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos,
especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias
está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall, 2006). Segundo Zohar e colaboradores
(2010), este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial, com os estudos
propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea
até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de
substâncias por esta glândula (Donovan e Harris, 1954). Inicialmente, as substâncias
sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores, até que, sua estrutura

Julho/2010 Pág. 305


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e


Hall, 2006; Norris, 2007).
Já em peixes, neuroendocrinologia é um assunto mais recente, e as primeiras
informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram
realizadas experimentos, olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente,
ou seja, analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária, desconectadas do
encéfalo (Olivereau e Ball, 1966). Outros estudos posteriores a esta época, apresentaram
pela primeira vez, em peixes, que extratos encefálicos, estimulavam as células hipofisárias
em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil, 1973). Estes estudos foram considerados os
pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes, sendo que, passados
aproximadamente 35 anos, apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia
em peixes, vários tópicos ainda permanece incertos.

Neuroendocrinologia em mamíferos
O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está
bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers, 1992; Guyton e Hall, 2006;
Berne e Levy, 1998; Norris, 2007). Neste sentido, forneceremos uma visão geral sobre as
principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos, pois, este eixo
pode ser considerado o componente mais complexo e, em alguns casos, o mais dominante
de todo o sistema neuroendócrino.
De uma forma geral, as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são
elaboradas e sutis. Anatomicamente, o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes
regiões: cérebro, que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo; cerebelo; e tronco
encefálico, que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente),
mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos, bulbo e
mesencáfalo) (Hansen e Koeppen, 2002). Fisiologicamente, um dos principais núcleos
responsável pela coordenação da glândula hipofisária, é o hipotálamo (Withers, 1992;
Guyton e Hall, 2006; Norris, 2007). Em relação à hipófise, esta pode ser dividida em:
hipófise anterior, ou adeno-hipófise (AH); e hipófise posterior, ou neuro-hipófise (NH).
Fisiologicamente, numerosos hormônios são sintetizados, armazenados e liberados pela
hipófise (Berne e Levy, 1998; Norris, 2007). Para melhor compreensão do eixo H-H, a seguir
cada parte deste eixo é considerada separadamente.

Hipotálamo em mamíferos
O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode
ser considerado como uma estação central de transmissão, atuando na recepção,
integração e no redirecionamento de sinais. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos

Pág. 306 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise,


regulando a síntese e a liberação de outros hormônios. Originalmente, os nomes dos
peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários, cuja estimulação/secreção,
é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy, 1998). A tabela 1 fornece uma lista de
hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos.

Tabela 1. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy, 1998).

Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia


hormonal, abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade, o
mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas.
Levando-se em consideração apenas a reprodução, o principal representante do
primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da
atividade reprodutiva em animais, é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH)
(Schally e col., 1973). Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e
alcança a glândula hipofisária, estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema
porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar, 2002;
Lethimonier e col., 2004). Adicionalmente, este decapeptídeo foi originalmente caracterizado
em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col., 1971; Burgus e col., 1972), no entanto, o
GnRH é identificado em todos os vertebrados, de lampreias a mamíferos (Guilgur e col.,
2006). Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula, entretanto,
alguns anos depois, foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados
(Sherwood e col., 1983). Desde então, múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em

Julho/2010 Pág. 307


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. 2) (Weltzien e col.,


2004), ou seja, foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col.,
1993), em elasmobrânquios (Lovejoy e col., 1991a), em peixes teleósteos (Sherwood e
Adams, 2005), em anfíbios (Conlon e col., 1993), em répteis (Lovejoy e col., 1991b), em
aves (Miyamoto e col., 1984) e em mamíferos (White e col., 1998). Segundo Sherwood e
Adams (2005); Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008), são
caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de
vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados),
entretanto, todas as formas são decapeptídeos, exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e
col., 2002) e Aplysia californica (Zhang e col., 2008), que possuem doze aminoácidos e,
além disso, os aminoácidos número 01, 04, 09 e 10 são perfeitamente conservados ao
longo da evolução (Tab. 2). É importante salientar, que as diferentes formas de GnRH são
comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e
col., 2004; Guilgur e col., 2006; Tsai, 2006).
Em geral, duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma
única espécie, o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain),
cuja função ainda é especulativa e uma outra forma, relacionada com a liberação das GtHs
pela hipófise (Gorbman e Sower, 2003). Em mamíferos, essa outra forma de GnRH
identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col., 2002;
Whitlock, 2005). Essa variedade de formas de GnRH, também sugere-se que existam
diferentes formas de receptores para GnRH, mas em geral, as diferentes formas de GnRHs
exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores
acoplados à proteína-G (família Gq/11), como por exemplo, a ativação da fosfolipase C,
elevação do segundo mensageiro, ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio
(Blomenröhr e col., 2005). Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores
acoplados a proteína-G, pois, faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns
aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col., 2002).
A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a
influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback), uma vez que, a
liberação de GnRH, estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios
gonadotrópicos, que por sua vez, geram alterações nas concentrações dos hormônios das
glândulas periféricas, e estes, podem exercer um controle por feedback no hipotálamo
(Berne e Levy, 1998).

Pág. 308 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

Tabela 2. Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas.


Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. As formas de
GnRH grifadas em cinza, tem sido identificadas em peixes. Adaptado de: Iwakoshi e col., (2002);
Sherwood e Adams, (2005); Guilgur e col., (2006).

Adicionalmente, outras complexas interações de sinais neuronais, que se


convergem para os neurônios hipotalâmicos, estariam atuando nesta modulação do GnRH.
Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características
ambientais, semelhantes, ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro), mudanças de
temperatura, entre outros, são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via
neurônios sensoriais até o hipotálamo, influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei
e Loretz, 2006); o ciclo de claro e escuro (dia/noite), que estimula a glândula pineal a
sintetizar a melatonina, que por sua vez, pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e
Meissl, 1997); a kisspeptina, uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor

Julho/2010 Pág. 309


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

(GPR54), ambos são regulados pelos esteróides gonadais, e também estão diretamente
relacionado com a secreção de GnRH (Colledge, 2008). E ainda no ano 2000, foi
identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise,
inibindo a liberação de GtHs, denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH)
(Tsutsui e Osugi, 2009). Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas
nos animais.
A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos,
i.e. quando foram descobertos, a sua natureza química, as diferentes formas (quando for
aplicado), as possíveis células alvos, o mecanismo de ação, o mecanismo de modulação
(inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. Desta
forma, foi discutida resumidamente, a complexidade fisiológica observada nos neurônios
hipotalâmicos, e agora, veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no
sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos), sistema
este, de grande importância para a regulação das funções hipofisárias, pois através deste
sistema, os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a
AH, controlando as funções de suas células.

Hipófise em mamíferos
Como dito anteriormente, a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas, a
adeno-hipófise (AH), ou hipófise anterior, a neuro-hipófise (NH), ou hipófise posterior, e
entre essas duas partes, há uma zona intermediária, chamado de pars intermedia (Guyton e
Hall, 2006; Berne e Levy, 1998). Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em
mamíferos (humanos), sendo maior e mais funcional em outros vertebrados.
Embriologicamente, a NH, se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa
da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e
Carneiro, 2004). Desta forma, dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo,
e são armazenados e liberados pela NH, são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a
ocitocina. Já na AH, cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células
corticotrópicas, que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina; as células
tireotrópicas, que produzem a tireotropina (TSH); as células gonadotrópicas que sintetizam o
hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH); as células
somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas,
que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall, 2006). A tabela 3 fornece uma lista de
hormônios hipofisários atualmente conhecidos.
Os hormônios hipofisários em mamíferos, como observado para os hormônios
hipotalâmicos, são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers, 1992;
Guyton e Hall, 2006; Berne e Levy, 1998; Norris, 2007). Em geral, as funções dos hormônios

Pág. 310 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH, também conhecido como
arginina-vasopressina, formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são
polipeptídeos), tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de
líquidos corporais, ou seja, a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água
pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH, a
permeabilidade dos ductos à água aumenta muito, conservando assim a água no corpo e
produzindo uma urina muito concentrada. Já a ocitocina, é formada primariamente nos
núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite
da glândula mamária no processo de lactação, mas também apresenta um papel nas
contrações do útero, especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall, 2006; Berne e
Levy, 1998).

Tabela 3. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy, 1998).

Em relação à AH, o hormônio ACTH, produzido pelas células corticotrópicas, é um


hormônio, cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex
supra-renal, ou seja, os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os
corticosteróides, relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas,
carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. O ACTH é estimulado pelo
hormônio liberador de corticotropina (CRH), sintetizado pelo hipotálamo. O hormônio TSH,
sintetizado pelas células tireotrópicas, é um hormônio glicoprotéico, cuja função consiste em
regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos
hormônios (a tiroxina, T4 e a triiodotironina, T3), relacionado também com o metabolismo
corporal. O TSH, por sua vez, é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH).
As células gonadotrópicas, que sintetizam o FSH e o LH, que são hormônios glicoprotéicos,
estão diretamente relacionadas com a reprodução animal, atuando principalmente nas
gônadas, estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona, progesterona e
estradiol) e como descrito acima (item 2.1.), as GtHs são estimuladas pelo GnRH

Julho/2010 Pág. 311


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

(sintetizado no hipotálamo). O GH e a PRL, são hormônios cuja função fisiológica consiste


respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e
ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos, além de
atuar no metabolismo, incluindo especificamente, o aumento da síntese protéica,
mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose; já a PRL, em
humanos, participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite.
O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido
pela somatostatina (SS), ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. A PRL é estimulada
pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF), mas
também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. Para maiores
informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos, ver as revisões de: Guyton e
Hall, (2006) e Berne e Levy, (1998). Adicionalmente, a figura 1 sintetiza os principais pontos
abordados no eixo H-H em mamíferos.

Figura 1. A combinação das tabelas 1 e 3, sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em


mamíferos. Modificado de Berne e Levy, (1998) e Guyton e Hall, (2006).

Neuroendocrinologia em peixes
Em geral, a neuroendocrinologia em peixes, é um assunto recente se compararmos
este tema com os mamíferos. Neste caso, uma abordagem geral em peixes se faz

Pág. 312 Julho/2010


Neuroendocrinologia Comparada

necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo


de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos.
Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os
vertebrados, contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson, 2006; Moyle e
Cech, 2003). São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os
mais diversos ambientes aquáticos, ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas
submarinas dos oceanos. Em relação à sua distribuição, 58% são marinhos, 41% são
dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes, ou seja, essas espécies realizam
migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton, 1990). Além da
importância como fonte alternativa de alimento, os peixes também constituem uma rica fonte
de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles
dos processos biológicos (Blázquez e col., 1998).
Desta maneira, com esse grande número de espécies existentes, a constantes
descobertas de novas espécies e a distribuição mundial, esse sucesso do grupo é atribuído
a uma série de adaptações fisiológicas, anatômicas, morfológicas, comportamentais entre
outras características relacionadas aos processos de respiração, nutrição, osmorregulação,
flutuação, percepção sensorial e reprodução (Hoar, 1969; Wooton, 1990; Moyle e Cech,
2003; Zavala-Camin, 2004). Em relação à reprodução, os peixes são ótimos exemplos da
complexidade reprodutiva, com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas
entre as espécies; as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa
(como por exemplo, a desova total ou a desova parcelada); desenvolvimento de diferentes
órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio, por exemplo); as diferentes
formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas); além das
diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva, seja nas formas de
“piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa, que são
acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton, 1990; Vazzoler,
1996; Lowe-McConnell, 1999; Hochachka e Somero, 2002; Moyle e Cech, 2003; Zavala-
Camin, 2004).
Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou
indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo
apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2.1.), apresentaremos as
diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e
mamíferos.

Hipotálamo em peixes
O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um
neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia

Julho/2010 Pág. 313


VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

reprodutiva, ou seja, o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e


internos que controlam a reprodução em todos os animais, também é aplicado aos peixes
teleósteos (Weltzien e col., 2004; Guilgur e col., 2006; Zohar e col., 2010). O GnRH é
sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na
AH, que em teleósteo, ao contrário dos mamíferos, ocorre via inervação direta das células
gonadotrópicas (Lethimonier e col., 2004; Guilgur e col., 2006).
Neste contexto, em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH,
sendo que, para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas, sendo:
cGnRH-II (chicken II), sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada
específica (Weltzien e col., 2004; Guilgur e col., 2006; Zohar e col., 2010). Em geral para
Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH
(seabream) (Powell e col., 1997), para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe
rei) (Somoza e col., 2002), para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col., 2005),
entre outras formas (Lethimonier e col., 2004; Guilgur e col., 2006). Entretanto, em algumas
espécies de teleósteos, apenas 2 formas de GnRH foram identificadas, como por exemplo,
em Siluriformes, no qual, foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II
(chicken II) (Bogerd e col., 1994; Zandbergen e col., 1995; Dubois e col., 2002). A presença
destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a
questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e
de outros processos fisiológicos, como por exemplo, o comportamento reprodutivo.
Ainda em relação a diferentes formas de GnRH, em peixes teleósteos, os neurônios
sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada, como por
exemplo, o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal, o cGnRH-II pelos
neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior, o “midbrain”) e na região
posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos
neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral), hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver
revisões de: Gorbman e Sower, 2003; Guilgur e col., 2006; Zohar e col., 2010). Com isto, as
diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e
adicionalmente, tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que
sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col., 2002; González-Martínez e col., 2004;
Pandolfi e col., 2005). As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas
em peixes, ainda são discutidas na literatura especializada. Sugere-se que o cGnRH-II atue
como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento
reprodutivo. Já a segunda ou terceira forma, está relacionada especificamente com a
reprodução, ou seja, sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adeno-
hipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col., 2002; Sherwood e
Adams, 2005; Pandolfi e col., 2005).

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Neuroendocrinologia Comparada

Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário


(como em mamíferos) e com isso, as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as
células gonadotrópicas da AH e como consequência, os GnRHs estão presentes nos
extratos de encéfalo e de hipófise. Entretanto, em vários teleósteos, pelo menos uma das
formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise, levantando-se outra
questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula
(m) a produção de GtHs na AH (Powell e col., 1994; Somoza e col., 1994; Goos e col.,
1997). Neste sentido, alguns estudos apontam que, apenas o cGnRH-II foi identificado no
encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é
identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso, a distribuição diferencial das
diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos
(Goos e col., 1997). Neste contexto, a identificação exata das formas de GnRH e a
distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da
reprodução de peixes teleósteos.
As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem
diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos, como
por exemplo, no catfish africano, apenas duas formas de GnRH foram identificadas, como
mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH), entretanto, não necessariamente as duas
formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de
gonadotropinas, pois, peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e
a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col., 1995; Dubois e col.,
2001). Adicionalmente, neste grupo, por exemplo, em extratos de hipófise (Schulz e col.,
1993) e de encéfalo (Bogerd e col., 1992) de catfish africano, foram identificadas estas duas
formas de GnRH, e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina
(Schulz e col., 1995; Agulleiro e col., 2006). Portanto, sugere-se que as duas formas de
GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma
gonadotropina. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em
Siluriformes, ainda não é bem compreendida. Desta forma, uma análise descritiva na
hipófise de peixes teleósteos se faz necessária, o que veremos a seguir.

Hipófise em peixes
A hipófise em peixes, assim como em mamíferos, é dividida em duas regiões
distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa),
identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares, e provavelmente, possuem a
mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro, 2004; Weltzien e col.,
2004). Em relação aos hormônios hipofisários, na região da NH, são encontradas as
terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos, sendo que, em geral, nos teleósteos

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

nessa região são liberadas os neuro-hormônios, como por exemplo, a arginina – vasotocina
(AVT), a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH), entre outros
neuropeptídeos (Acher, 1996; Batten e col., 1999; Duarte e col., 2001; Weltzien e col., 2004;
Kawauchi, 2006). Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução, os
estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o
conhecimento da morfologia da hipófise, inervação dessa hipófise e a identificação e
localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col.,
2004).
Em geral, a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas, no que diz
respeito ao arranjo e localização topográfica das células, características tintoriais dessas
células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col., 2003; Cala e col., 2003;
Weltzien e col., 2004; Kawauchi e Sower, 2006; Cinquetti e Dramis, 2006). Essas regiões
são denominadas de: “pars intermedia” (PI), “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars
distalis” (PPD). Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as
células produtoras de somatolactina (SL); na PPD localizam-se as células produtoras de
gonadotropinas (GtHs), comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de
LH (folículo luteinizante). As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras
de hormônio de crescimento (GH), conhecidas como células somatotrópicas, também são
identificadas na região PPD. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e
as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). Adicionalmente, segundo
Kawauchi e Sower (2006), os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme
sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de
proopiomelanocortina, que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina
(MSH); a família prolactina/somatotropina, que inclui prolactina (PRL), hormônio de
crescimento (GH) e somatolactina (SL); e a família dos hormônios glicoprotéicos, que
contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col., 2006; Takei e Loretz,
2006; Kawauchi e Sower, 2006).
É importante salientar, que todos esses hormônios, exceto a somatolactina, estão
presentes nos outros vertebrados (Ono e col., 1990; Kaneko, 1996). Neste caso, as funções
fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e,
portanto, serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de
vertebrados. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios,
como por exemplo, a adrenocoticotropina (ACTH), melanotropina (MSH) e β-endorfina
(Kawauchi e Sower, 2006). O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de
cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col., 2000), sendo que, em
teleósteos, o principal hormônio desta glândula é o cortisol, e em peixes, este hormônio atua
em vários processos fisiológicos, como por exemplo, no metabolismo, nos aspecto

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Neuroendocrinologia Comparada

relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col., 2000; Kawauchi e


Sower, 2006). Em relação ao MSH, o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é
estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos, produzindo assim uma
rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col., 2003; Kawauchi e Sower, 2006).
Sabe-se ainda, que o papel fisiológico da PRL em teleósteos, está relacionado
principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col., 2000; Forsyth e Wallis, 2002;
Cala e col., 2003; Kawauchi e Sower, 2006; Mancera e Fuentes, 2006). Adicionalmente,
alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos
relacionados ao estresse (Cala e col., 2003). O hormônio GH tem um papel fundamental na
regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos, além de estar envolvido em
outros processos fisiológicos, como por exemplo, osmorregulação, reprodução e
metabolismo (Segura-Noguera e col., 2000; Forsyth e Wallis, 2002; Cala e col., 2003;
Kawauchi e Sower, 2006; Agulleiro e col., 2006).
As células produtoras de somatolactina (SL), também conhecidas como PIPAS-
cells, foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990); Rand-Weaver e
colaboradores (1991); e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes
(Kaneko, 1996; Kawauchi e Sower, 2006). Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou
menos 20 anos atrás, o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes, ainda continua
desconhecido. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos
fisiológicos, como por exemplo: no metabolismo, na regulação ácido-básica e na
osmorregulação (Kakizawa e col., 1993; Kakizawa e col., 1995; Kaneko, 1996), no
desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col., 2003), nos aspectos relacionados ao
estresse (Rand-Weaver e col., 1993; Kaneko, 1996), na reprodução (Olivereau e Rand-
Weaver, 1994; Kaneko, 1996; Vissio e col., 1997; Johnson e col., 1997; Mousa e Mousa,
2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col., 1992; Mayer e col., 1998).
Em relação ao TSH, as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode
estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker, 1999), no
desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col., 2003) e indiretamente na
reprodução, pois, foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito
estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col., 1994) e em outros trabalhos
sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas
(Sullivan e col., 1989 apud Mylonas e col., 1994).
Finalmente, os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo,
são as GtHs, ou seja, o FSH e o LH. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito
importante na reprodução de peixes, desta forma, abordaremos especificamente o eixo H-H-
G em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo, tanto em relação ao estímulo
para a reprodução como no bloqueio do mesmo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente


externo
A reprodução em peixes, apesar de ser modulada por fatores ambientais
(temperatura, fotoperíodo, pluviosidade entre outros), é controlada endogenamente por um
sistema endócrino, principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, que sintetiza e
libera gonadotropinas, esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo
reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz, 2006; Zohar e col., 2010; Levavi-Sivan
e col., 2010). Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas,
maturação, liberação e fertilização dos gametas, sendo que em geral, em peixes, a desova e
a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha, 2006). Os ovos fertilizados
originam embriões e posteriormente larvas, que crescem e se tornam adultos, reiniciando o
ciclo.
Em geral, a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte
forma (Fig. 2) (Blázquez e col., 1998; Weltzien e col., 2004; Zohar e col., 2010; Levavi-Sivan
e col., 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o
início da reprodução, alterações ambientais como o fotoperíodo, a temperatura e,
possivelmente as chuvas, são captadas através dos olhos, pineal, narinas e receptores
cutâneos, que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios
sensoriais até o hipotálamo. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo
reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura, entretanto, os
mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos.
Em várias espécies de teleósteos, foram registrados, efeitos positivos, negativos ou nenhum
efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. Por outro lado, sabe-se também, que a
secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio
seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino
(Kah e col., 1999; Falcón e col., 2010). Adicionalmente, este preciso link entre as
mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes,
precisam ser investigados mais profundamente.

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Neuroendocrinologia Comparada

Figura 2. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle


neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto). Imagens:
Renato Massaaki Honji, Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o


hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH), que estimula as células gonadotrópicas na
hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH), que via corrente
sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada
teca, converte o colesterol em testosterona. Esta é transportada à camada granulosa, na
qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase, também sob influência do FSH.
O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea), estimulando a síntese da
glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que, também via corrente sanguínea, é “sequestrada”
pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH), promovendo o crescimento
do oócito e incorporação de vitelo.
A detecção da vitelogenina, como precursora do vitelo tem sido intensamente
pesquisada nas últimas décadas, desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no
fígado até estudos com enfoques ambientais, como por exemplo, os disruptores endócrinos
que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia
reprodutiva (GoksØyr e col., 2003). Os machos de teleósteos também possuem o gene para
vitelogenina, entretanto, o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol
circulante, podendo ser expresso em situações adversas, como por exemplo, na exposição
dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col., 2003). Este assunto
será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia, principalmente em relação aos
disruptores endócrinos na neuroendocrinologia.
Assim, na fase de vitelogênese, que é um processo pelo qual o citoplasma do
oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva, ocorre um
aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a
síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a
secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese. O LH estimula a
camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona, que é transportada à camada
granulosa e convertida a 17α,20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α,20-21-trihidroxy-4-
pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase, dependendo da espécie
considerada (Peter e Yu, 1997). O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é
conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos
peixes. Nos machos, o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. FSH
e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese, sendo os andrógenos,
testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial
dos testículos, sendo, esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento
do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier, 1993; Cyr e Eales,
1996; Nagahama, 2000; Haider, 2004; Garcia-López e col., 2006).

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Neuroendocrinologia Comparada

Recentemente, foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima


relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados, o chamado
sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col., 2010; Taranger e col., 2010). Zohar e colaboradores
(2010), que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes,
confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a
evolução deste grupo. Por outro lado, estudos adicionais sobre este novo sistema
neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é
necessário (Zohar e col., 2010). Portanto, estas múltiplas e complexas interações hormonais
existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos
peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino, principalmente pelo eixo
hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. 2).
De uma forma em geral, sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes
encontram-se no ambiente natural, mas altera-se de alguma forma, ainda pouco
esclarecida, quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro, em operações
de cultivo, pois neste ambiente confinado, os peixes não conseguem eliminar os seus
gametas. Neste caso, intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo
hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de
maturação gonadal (Zohar e Mylonas, 2001), procedimento necessário para a maioria das
espécies ícticas tropicais, por serem reofílicas (peixes de piracema). Adicionalmente,
considerando-se que as espécies de peixes de piracema, quando são impedidas de migrar,
apresentam um bloqueio na reprodução, fica evidente, que a construção de reservatórios
nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos,
principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva.
Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro, principalmente em
relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima
temperado, e raros em teleósteos de clima tropical, e o fato de que muitas espécies de
peixes encontram-se em vias de extinção, tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de
suma importância, pois, estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento
da fisiologia reprodutiva dessas espécies, para que não ocorra o risco de uma espécie ser
extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva, premissa básica para
um futuro trabalho de repovoamento da espécie. Adicionalmente, veremos no capítulo 32,
os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

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Neuroendocrinologia Comparada

Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a


hipófise de anfíbios, répteis e aves

Amanda de Moraes Narcizo


Lab. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos
amnarcizo@usp.br

Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer


que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade, no tamanho, na
conformação e na capacidade funcional do encéfalo. Este processo evolutivo, também
denominado encefalização, levou a consolidação de diversas capacidades funcionais,
incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo, a alta
capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do
comportamento destes animais. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de
formar associações entre eventos passados, presentes e, pelo menos em humanos, eventos
futuros (Hickman e col., 2004).
O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro
de controle do organismo, sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas.
Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. Ao
contrário, estão ao mesmo tempo em funcionamento, respondendo a diferentes estímulos
para a realização dos processos vitais, gerando também assim, um ritmo biológico. Desta
forma, o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela
coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um
organismo vertebrado, sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor
de hormônios (Schmidt-Nielsen, 2002).
Neste contexto, no presente capítulo serão apresentados, de forma comparativa
entre os grupos de vertebrados: anfíbios, répteis e aves, alguns aspectos da anatomia e dos
efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência
destes em outros sistemas.

Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados


O sistema nervoso central dos vertebrados surge, na fase embrionária, de uma
faixa dorsal ectodérmica, que é conhecida como placa medular. Esta placa se invagina para
formar um tubo oco, chamado tubo neural. A extremidade anterior deste tubo se alarga e
cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo,
composto por três vesículas primárias. No sentido antero-posterior estas vesículas são
denominadas prosencéfalo, mesencéfalo e rombencéfalo. A parte contínua do tubo neural,

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

posterior ao rombencéfalo, da origem à medula espinhal e grande parte do restante do


sistema nervoso (Orr, 2000; Hickman e col., 2004).
Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixes-
bruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes, formando o total de
cinco vesículas encefálicas. Assim, o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo, o
mesencéfalo não se divide, e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr,
2000; Hickman e col., 2004).
Em todos os vertebrados, o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro,
no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala
filogenética. Sobre este mesmo aspecto, uma das grandes e notáveis mudanças associada
à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas, foi como o cérebro
de grupos mais primitivos, como o dos peixes e anfíbios, se expandiu para formar uma
estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos
mamíferos (Hickman e col., 2004). Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos
olfativos grandes, destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são
formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina
camada epitelial dorsal chamada de pálio. Portanto, o pálio é composto por tecido não
nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. Nos
anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo, onde
as células cinzentas se encontram numa região chamada teto, e pela primeira vez em
vertebrados, células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo)
resultando em aumento dos hemisférios cerebrais. Na classe dos répteis ocorre um
destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no
pálio, sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. Este evento está diretamente
relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. Como as aves e
os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais, não surpreende que o pálio,
invadido por substância cinzenta, seja o centro da atividade encefálica também nestes
outros dois grupos derivados. Assim, nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos
lobos olfativos, sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de
animais, e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr, 2000).
As diferenciações do diencéfalo serão, neste momento, descritas de forma geral
para os vertebrados sendo, posteriormente, abordadas as particularidades dos grupos de
interesse de discussão deste capítulo. Assim, das paredes do diencéfalo surgem os
pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. No local onde estas
duas estruturas se encontram, certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto
formando o quiasma óptico (Orr, 2000). O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o
epitálamo (dorsal), o tálamo (central), e o hipotálamo (ventral). O epitálamo é derivado do

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Neuroendocrinologia Comparada

teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário, que inclui a glândula


pineal. A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. Este compreende a principal estação
de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro, atuando como um
centro de impulsos olfativos e visuais, além de estar associado a várias estruturas
glandulares e sensoriais. O hipotálamo, oriundo do piso do diencéfalo, contém vários
núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação
da função hipofisária. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo
da hipófise ou infundíbulo, e o lobo posterior, conhecido também por pars nervosa ou
neurohipófise (Orr, 2000; Norris, 2007). Adicionalmente, o lobo anterior da hipófise
(adenohipófise) é derivado, na fase embrionária, da ectoderme dorsal da cavidade oral
primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. Assim, a hipófise se origina da fusão
do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. E apesar de
a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo, ela está
funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário,
com exceção dos teleósteos, como visto no capítulo anterior (Orr, 2000; Hickman e col.,
2004; Norris, 2007; Guyton e Hall, 2006).
O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos
vertebrados. No entanto, possui maior importância principalmente no grupo dos peixes, mas
também no dos anfíbios, atuando como o centro de coordenação nervosa, como comentado
anteriormente. Na parte dorsal, o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências
conhecidas como lobos ópticos, que tem função na recepção visual. Nas aves os lobos
ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão
aguçada que este grupo apresenta (Orr, 2000; Hickman e col., 2004).
O metencéfalo, dorsalmente, dá origem ao cerebelo, sendo este um centro de
coordenação muscular e equilíbrio. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido,
na anatomia funcional, que esta característica tenha relação com os movimentos
notavelmente vagarosos deste grupo. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos
anfíbios, no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes, como os tubarões,
nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr, 2000; Hickman e col., 2004).
O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo, é extremamente importante em todos os
vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração, o batimento
cardíaco e o metabolismo. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do
ouvido interno (Orr, 2000; Hickman e col., 2004).
Estes aspectos sã