Comissão Organizadora
Amanda de Moraes Narcizo Camila Helena de Souza Queiroz Camila Lopes Petrilli Cláudia Emanuele Carvalho de Sousa Diego Jose Belato y Orts Felipe Viegas Rodrigues Kelly Dhayane Abrantes Lima Leopoldo Francisco Barletta Marchelli Marco Antônio Pires Camilo Lapa Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Marina Marçola Pereira de Freitas Tatiana Hideko Kawamoto

Coordenador: Prof. Dr. Márcio Reis Custódio
VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” http://www.ib.usp.br/cursodeinverno

Realização

Patrocínio

Apresentação

APRESENTAÇÃO
A idéia da criação do Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa surgiu em 2002, quando alunos da pós-graduação do Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP, ansiavam a criação de um espaço que possibilitasse alternativas de aprendizado complementar. Naquele momento de inquietude e vontade discente, a decisão foi de empenho em realizar um curso no período de férias e oferecê-lo a graduandos e recém-graduados que almejassem ingressar na pós-graduação em Fisiologia, ou mesmo para aqueles que se interessassem pelo tema de uma forma geral. Além disso, na última década, percebemos uma preocupação crescente em descentralizar o desenvolvimento concentrado na região Sudeste do país e atingir áreas mais carentes tanto em pesquisa quanto em desenvolvimento humano. Em defesa deste conjunto de idéias e ações que a Comissão Organizadora do Curso de Inverno busca sempre ampliar o alcance do curso, colaborando cada vez mais efetivamente na construção de um país com menos desigualdades. Sendo assim, o curso é voltado para alunos originários das diversas áreas do conhecimento que tenham interesse em Ciências Fisiológicas, mais especificamente em Fisiologia Comparativa. Seu principal objetivo é promover discussões de conhecimentos fundamentais para uma boa formação em Fisiologia, assim como proporcionar uma vivência no dia-a-dia da pesquisa do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências - USP. Este livro visa complementar os conteúdos discutidos em sala de aula, proporcionando uma fonte adicional de consulta para os participantes. O livro é composto de nove unidades que abrangem os mais variados temas dentro da Fisiologia Comparativa, os quais apresentam desde teorias básicas até as mais novas discussões da atualidade.

Desejamos uma boa leitura a todos!

Comissão Organizadora VII Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa Universidade de São Paulo 5 a 23 de Julho de 2010

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Mapa Conceitual

MAPA CONCEITUAL Na tentativa de sempre melhorar a qualidade das aulas e a comunicação dos pósgraduandos, a edição 2010 do “Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa” foi organizado em módulos conforme delineamento sugerido por um mapa conceitual, o qual mostra a interligação entre os diversos assuntos da Fisiologia e aponta as relações existentes entre os temas que serão abordados no decorrer do curso. Assim sendo, a partir dele, os módulos deste ano foram criados de acordo com as proximidades de cada tema. Desta maneira, podemos oferecer aos alunos participantes uma base mais sólida e coesa a cerca da Fisiologia Comparativa, e ao mesmo tempo transmitiremos uma boa noção da diversidade de temas abordados no Departamento de Fisiologia.

Mapa Conceitual mostrando as interligações existentes nos mais diversos temas abordados no Departamento de Fisiologia Geral do Instituto de Biociências da USP, os quais serão apresentados durante as aulas no Curso de Inverno: Tópicos em Fisiologia Comparativa 2010.

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

SUMÁRIO

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 O que é ciência e como praticá-la Formulando perguntas em fisiologia comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do experimental e a estatística inferencial Capítulo 4 Glossário Bibliografia O Fim da Picada: Comunicando Ciência pág. 03 pág. 09 desenho pág. 13 pág. 17 pág. 21 pág. 22

Unidade 2
Sinalização Celular Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Bibliografia Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Fisiologia celular do plasmodium durante a fase assexuada RNAi: ouvindo a voz do silêncio pág. 23 pág. 41 pág. 49 pág. 66

Unidade 3
Neurociências Capítulo 8 Capítulo 9 História da neurociência Princípios básicos em fisiologia neural pág. 79 pág. 89 pág. 103 pág. 115 pág. 121 pág. 127 pág. 139 pág. 153 pág. 163 pág. 179 Pág. iii

Capítulo 10 Fisiologia sensorial Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Capítulo 12 Causa e função Capítulo 13 Percepção Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Capítulo 15 Navegação espacial Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 18 Neurofisiologia da música Bibliografia

pág. 187 pág. 194

Unidade 4
Metabolismo Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Capítulo 20 Medindo a chama da vida Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida pág. 205 pág. 217 pág. 235

Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. 247 Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Bibliografia pág. 257 pág. 269 pág. 279 pág. 286

Unidade 5
Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações e a hipófise de peixes e mamíferos répteis e aves Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Bibliografia pág. 301

Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo pág.305 Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios, pág. 323 pág. 337 pág. 348

Unidade 6
Ecotoxicologia Aquática Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos o zinco Pág. iv pág. 361

Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e pág. 371 VII Curso de Inverno - IB/USP

Sumário

Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos pág. 381 Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 395 Bibliografia pág. 407

Unidade 7
Fisiologia Comparada de Invertebrados Marinhos: Trocas Gasosas, Digestão e Sistema Imune Capítulo 33 Trocas gasosas em invertebrados marinhos brados marinhos similaridades Bibliografia pág. 427

Capítulo 34 Adquirindo energia: formas de alimentação e digestão em invertepág. 435 Capítulo 35 Sistema Imune de Invertebrados marinhos: mecanismos, funções e pág. 455 pág. 467

Unidade 8
Fundamentos de Toxinologia Capítulo 36 Co-evolução entre peçonhas e seus alvos Capítulo 37 Produtos naturais e sua função como defesa química Capítulo 39 Lepidópteros: aspectos biológicos e toxinológicos Capítulo 40 Raias – biologia e envenenamento pág. 473 pág. 483

Capítulo 38 Invertebrados marinhos: toxinas e seus mecanismos de ação pág. 493 pág. 501 pág. 511

Capítulo 41 Serpentes peçonhentas do Brasil: biologia, fisiologia e epidemiologia pág. 519 Bibliografia pág. 535

VII Curso de Inverno - IB/USP

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Sumário

Unidade 9
Quantificação e Análise de Dados Capítulo 42 Quantificação de Fenômenos Fisiológicos Bibliografia pág. 547 pág. 564

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VII Curso de Inverno - IB/USP

Unidade 1
Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa
Coordenador: Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin.camacho@usp.br Este capítulo tem três objetivos. A) Apresentar aos leitores os principais métodos usados para gerar conhecimento científico, B) Mostrar como a fisiologia comparativa pode valer-se de dois destes métodos: o método indutivo e o hipotético-dedutivo, C) Revisar o processo de geração de conhecimento, desde o levantamento de perguntas científicas até a comunicação dos resultados de um projeto de pesquisa, passando por apresentar as bases do desenho experimental e a análise estatística. O fim último deste texto e as aulas associadas é que os alunos tenham uma visão básica e estruturada do método científico. Com esta visão, espero que lhes seja mais fácil aprender no futuro sobre temas mais específicos (desenho experimental, estatística, comunicação da ciência, etc). No final do capítulo, existe um glossário que define termos importantes em negrito. Os termos estão na ordem em que são encontrados durante a leitura, para facilitar uma consulta inmediata.

Por que ler este texto?
Infelizmente, muitos cursos em biologia colocam as disciplinas de método científico como optativas, em lugar de inserir este tipo de preparo, ao menos nas disciplinas obrigatórias da grade curricular. Deste modo, muitos alunos não têm um preparo mínimo para planejar, executar projetos científicos, nem comunicar os resultados obtidos. Como conseqüência, os primeiros trabalhos de um aluno perdem em qualidade, diminuindo também suas possibilidades de obter bolsas no futuro. Este capítulo pretende mostrar alguns conceitos básicos e dicas para auxiliar aos alunos nos seus primeiros encontros com o trabalho de pesquisador. Durante as aulas relacionadas a este módulo veremos estes conceitos da forma mais didática possível, mas neste capítulo tem informações e dicas úteis que não serão explicadas na aula.

03 Capítulo 2 pág. 2 Julho/2010 . 09 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os capítulos revisados pelos profs Dr. 13 Capítulo 1 pág. 22 pág. 17 pág. Pedro Luis Bernardo da Rocha O que é ciência e como praticá-la Agustín Camacho Guerrero Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Capítulo 3 Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial Agustín Camacho Guerrero Capítulo 4 O Fim da Picada: Comunicando Ciência Agustín Camacho Guerrero Glossário Bibliografia pág. 21 pág. Pedro Ribeiro e Dr.

seja com ênfase nos seus objetivos ou nos métodos que usam. 2. Underwood e Jaynes. mais ou menos completas. Neste módulo. estes elementos podem ser identificados e. Popper. a combinação de dois ou mais enunciados verdadeiros (Ex. ou lógica aristotélica. de forma a obter mais conhecimento e com maior confiabilidade.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O que é ciência e como praticá-la. physics. Nestas construções. The systematic observation of natural events and conditions in order to discover facts about them and to formulate laws and principles based on these facts. seguiremos uma visão de ciência como busca e comunicação de conhecimento. Segundo este método. lhe introduzirei aos métodos mais conhecidos e utilizados.. é possível derivar conhecimento novo e necessariamente certo (inferências). geology or astronomy. Assumo que um passo necessário para sermos bons cientistas passa por conhecer os diferentes modos de obtenção de conhecimento. A palavra ciência provém do latim “scientia” proveniente do verbo “scire = saber”. os homens) e termos particulares (Ex. A continuação. existem termos gerais (Ex. Bayes. todos os homens Julho/2010 Pág. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. Bacon. Existem várias definições de ciência. Aristóteles definiu o raciocínio demonstrativo. tais como Aristóteles. Desde séculos antes de Cristo. Socrates) que se referem a subconjuntos dos termos gerais. Uma definição bastante completa é: “1. talvez pelo resto das nossas vidas. 3 . espero justificar um esquema unificado de obtenção de conhecimento que lhe facilite a assimilação de conceitos apresentados em futuros cursos de estatística e delineamento experimental. empiristas e estatísticos. 3. vêm aprimorando os métodos conceituais de obter conhecimento do mundo natural. o mais confiável possível. “scindo = dividir”. Deste modo. este está relacionado com o verbo. em seis obras conhecidas coletivamente como Organon. relacionando estes através de construções lógicas (silogismos). The organized body of knowledge that is derived from such observations and that can be verified or tested by further investigation.camacho@usp. De acordo com Aristóteles. Vamos lá: No século IV a. Métodos conceituais de obtenção do conhecimento. Fisher. também latim. filósofos. sobre a natureza.br O que é ciência? Uma bonita forma de começar a preparar-nos é conhecer a etimologia da palavra que definirá nosso trabalho.” Academic Press Dictionary of Science & Technology. c. such as biology. Any specific branch of this general body of knowledge.

e isto afeta ao resultado final. Assume que a probabilidade de uma hipótese ser verdadeira pode ser calculada multiplicando: A) nossa expectativa de que a hipótese seja certa. Aristóteles não criou um sistema formal para a determinação da veracidade ou generalidade dos termos. este conhecimento deveria gerar novos experimentos e ser testado em diversas situações. não permite calcular a probabilidade de que o próximo corvo que eu veja será preto. Em 1620. Para Popper. Para Bacon. a validade de uma teoria pode ser testada de quatro formas diferentes: 1) Determinando se as conclusões de uma teoria contradizem-se entre Pág. não clarificou quantas nem como deviam ser feitas as observações para assumir um conhecimento como certo. Um problema com este método é que as probabilidades prévias podem mudar subjetivamente com o pesquisador. Desta forma. Segundo este autor. feita com base no conhecimento prévio e subjetivo dos naturalistas. chamado também probabilismo ou falsificacionismo. e não aceitar explicações que não possam ser verificadas pela observação e experiência. segundo ele. O sistema lógico inventado por Aristóteles. 4 Julho/2010 . Francis Bacon rompeu com a tradição da lógica aristotélica propondo evitar que prévias doutrinas intercedam nas nossas observações. Segundo este método. O conhecimento gerado permitiria. fazendo com que esta determinação fosse. a probabilidade bayesiana fornece uma medida de quanto é razoável acreditar em uma hipótese usando toda a informação de que dispomos (Jaynes 2003). em quanto previsões derivadas logicamente desta estejam sobrevivendo a testes com base em observações. explicar de forma cautelosa. Porém. o conhecimento deve estar justificado de forma lógica. vezes B) um valor de verossimilhança (likelihood) obtido a partir de novas observações (Bayes 1763). Este método é conhecido como lógica probabilística indutiva. ele defende que só podemos justificar de forma lógica a crença em uma teoria. o simples fato de que todos os corvos que vi até agora são pretos. entretanto. Outro problema é exposto na continuação. situações relativamente similares. também verdadeiro (então Sócrates é um primata). só era possível aumentar nosso conhecimento através da experimentação e das observações. Bayes elaborou um método lógico de atribuir uma probabilidade a afirmações geradas por indução. Bacon. Karl Popper (1934) enunciou o Método hipotético-dedutivo. Ele defendia que os cientistas deveriam ser céticos acima de tudo. Produzir explicações sobre grupos de casos gerais com base no que sabemos de casos particulares é definido por ele como indução. durante muito tempo. nos permite até hoje combinar observações consideradas certas para fazer crescer nosso conhecimento. Sócrates é um homem) permitem inferir um novo conhecimento. Deste modo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” são primatas. não é possível derivar probabilidades para asserções geradas por indução (Popper 1959) (ex. expressada em forma de probabilidade prévia. pois não conheço quantos corvos existem no mundo). Em 1670. Para Bacon.

Para testar as conclusões. para determinar se esta é empírica ou é uma tautologia. teorias. opino que para que grupos de conceitos sejam úteis e mais facilmente ensináveis estes devem ter significados específicos e estar relacionados entre eles de forma lógica. Um dos problemas principais apontados a este método é que não gera crescimento da certeza relativa nas diferentes teorias. e seus significados são aceitáveis desde os diferentes modos de obtenção de conhecimento (compare com Jaynes 2003. 2004). predições ou hipóteses). hipóteses) e seu contraste com observações do mesmo (também representadas em forma de variáveis. Onde os modelos podem ser considerados representações matemáticas que descrevem ou relacionam variáveis. Popper propõe testar aquelas que vão mais de contra com a teoria e que possam ser mais severamente testadas. 4) Testar empiricamente as conclusões. Em geral. Desta forma estes conceitos ficam hierárquica e logicamente relacionados. Assim. durante sua apresentação de raciocínio plausível. você pode considerar “conclusões de uma teoria” sinônimo de previsões. vários autores baseiam-se no procedimento de “verossemelhança máxima” popularizado por Fischer (Aldrich 1997) para defender que a verificação de certas hipóteses em várias instâncias (ex. podemos encontrar uma diversidade de significados para estes conceitos em função do autor e a área da ciência (Suppes 1960). Por isto. Sober 1999 e Lloyd 1987. neste capítulo combinei a relação entre modelo e teoria proposta por Suppes (1960) e a relação entre modelo e hipótese proposta por Underwood (1997). amostras. 2) Verificando a estrutura lógica da teoria. é possível inserir-los num processo unificado de obtenção de conhecimento científico que combina teoria e observação. relação entre a taxa de ventilação e percentagem de O2 no torrente sanguíneo de um novo vertebrado que ventila). modelos. podemos observar que os métodos de obtenção de conhecimento desde Bacon valem se de concepções que representam o que pensamos do mundo real (Ex. citados por Lewin-koh et al. Apesar do problema lógico apontado por Popper. A representação matemática destas relações é comumente chamada de modelagem. O mapa de conceitos na figura 1 representa tais relações. por considerar-se que sempre existirão infinitas possíveis teorias competindo para explicar cada fenômeno. Na literatura. Julho/2010 Pág. etc). 3) Comparando com outras teorias para saber se o fato de superar nossos testes suporia um avanço científico. 5 . Outros autores tem defendido o uso da verificação para aumentar nossa certeza sobre teorias (Ex. uma abordagem verificacionista da obtenção de evidência). Pessoalmente.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa elas (Para este autor. uma relação entre taxa de ventilação e percentagem de O2 no fluxo sanguíneo dos pulmões foi observada em vários vertebrados) permite obter confiança objetivamente mensurável sobre predições feitas para novas observações (Ex.

6 Julho/2010 . Imagine que queremos saber se. Estes foram: 1) Descrever como os organismos obtêm seus requerimentos no ambiente onde moram. predizem valores sob determinadas circunstancias Figura 1 . 3) Chamar a atenção sobre animais particularmente bons para estudar processos fisiológicos. Um campo com grande desenvolvimento da fisiologia comparativa é a fisiologia evolutiva. muitos cientistas tentam desvendar processos evolutivos através da comparação de características em linhagens de espécies com filogenias conhecidas (Wiens. Mapa de conceitos baseado nas propostas de Suppes (1960) e Underwood O que é Fisiologia Comparativa? Em 1950. 4) Encontrar generalizações derivadas do uso de distintas espécies animais em estudos fisiológicos. 2008). morar em hábitats abertos provoca um aumento da taxa Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Teorias compostas por explicam Sistemas biológicos representados por Modelos dos que se derivam relacionam ou descrevem Variáveis Hipóteses (=predições) (1997). 2) Prover bases fisiológicas para entender a ecologia. Este campo da fisiologia comparativa nos proporciona um exemplo de como dois ou mais métodos de obtenção do conhecimento podem ser combinados (Fig. Prosser listou alguns objetivos da fisiologia comparativa como disciplina. 2).Relações lógicas entre conceitos centrais ao processo de obtenção de conhecimento. em lagartos. Uma vez que as técnicas moleculares têm acelerado nosso conhecimento das relações filogenéticas entre as espécies. que busca entender a evolução dos parâmetros fisiológicos (Garland & Carter 1994).

Você concorda com esta forma de proceder. Os cladogramas A e B mostram diferentes relações filogenéticas entre as espécies comparadas. Poderíamos ter certeza que é o tipo de hábitat quem faz aumentar a taxa metabólica? Teríamos mais certeza se nossa hipótese fosse representada por B? sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 taxa metabólica sp1 sp2 sp3 sp4 sp5 sp6 sp7 sp8 A sp6 sp2 sp8 sp4 sp5 sp1 sp7 sp2 floresta área aberta B Figura 2. poderíamos obter que espécies de áreas abertas têm uma maior taxa metabólica (Fig. Entretanto. a menor taxa metabólica não pode mais ser explicada pelo parentesco. Por exemplo. Por outro lado. as espécies são elementos que apresentam relações filogenéticas.Teste de Fisher) quanto verificacionistas nos permitiriam testar de maneira objetiva se a taxa metabólica aumenta em função do tipo de habitat. veríamos que as espécies de área florestada pertencem à linhagem da esquerda e as de área aberta à linhagem da direita. poderíamos comparar espécies de área aberta com espécies de floresta. com base em amostras da taxa metabólica das espécies referidas. Hoje em dia. ou opina que só podemos confiar em um modo de obtenção de conhecimento? Aqui não é possível Julho/2010 Pág. 2. os produtos dos diferentes métodos de obter conhecimento podem ser combinados dentro de uma disciplina científica. na fisiologia comparativa.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa metabólica com relação a morar em florestas. métodos indutivos (análise bayesiana) e verificacionistas (análise da verossimilhança máxima) estão entre os mais usados para escolher dentre hipóteses de relações filogenéticas (Amorim 2002). Sob a hipótese de parentesco A. Assim. esquerda). Imagine que estas fossem representadas pelo gráfico A. 7 . tanto métodos falsificacionistas (Ex. pois em todos os pares de espécies mais aparentadas a que mora na mata tem a taxa metabólica mais baixa que a que mora em um hábitat aberto. Sob a hipótese de parentesco B. Comparação hipotética da taxa metabólica entre espécies de lagartos de áreas de floresta e de área aberta. Para isto. as espécies de cada tratamento são aparentadas. implicando em que a taxa metabólica mais baixa pode ser devida a viver em floresta ou a ser simplesmente uma característica compartilhada do grupo. Deste modo.

Pág. mas lhe recomendo que consulte Sober (2008) antes de decidir-se. 8 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” estender-se mais sobre este assunto.

Por último. as chances de gerar um maior avanço científico se multiplicam. Exija da sua universidade maior acesso a revistas científicas e participe da solicitação de livros na biblioteca da sua unidade! Em seguida.br Buscando trabalho: como levantar uma pergunta a responder. 1987).PDF” de quaisquer artigos ou separatas que se encontrem numa biblioteca brasileira. para ter certeza de que vale a pena respondê-la. Você sempre deverá começar com uma pergunta que. ou bem como a necessidade de dados sobre aspectos fisiológicos de determinadas espécies ou grupos que a complementam. Isto pode estar escondendo o problema de que não sabemos o que é mais relevante saber sobre nosso objeto de estudo (Peters.camacho@usp. Julho/2010 Pág. leia organizadamente o material bibliográfico e busque mais entre as referências bibliográficas destes trabalhos. você pode pedir diretamente ao autor ou conseguir na internet do seu site pessoal. Em são Paulo. Existem várias ferramentas em internet e nas bibliotecas para encontrar este conhecimento (Web of Science. “Levante-se sobre os ombros dos gigantes” diria Issac Newton. 9 . Nas universidades públicas brasileiras o portal de periódicos da CAPES garante acesso a vários jornais científicos on-line. para encontrar o grupo de artigos que tratam o tema de nosso interesse (uma opção: use os conceitos relacionados na sua hipótese de estudo). Centremo-nos agora sobre o seu trabalho: fazer ciência. “O sistema COMUT de bibliotecas brasileiras permite. Google Acadêmico etc. Zoological Records. Uma vez conseguidas algumas referências devemos procurar o material. a Fapesp ainda fornece acesso ao site Jstor. Através destas ferramentes podemos procurar artigos ou livros que falem sobre nosso tema de interesse.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Formulando perguntas em fisiologia comparativa Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. mediante prévio pagamento. As perguntas podem surgir como hipóteses que refutam as previsões centrais da teoria comumente aceita sobre um determinado tema. com artigos mais antigos.). ou site do laboratório onde trabalha. deverá ter surgido do conhecimento do estado da arte da disciplina de interesse. Biological Abstracts. É importante uma cuidadosa seleção de palavras chave. Quando realizamos perguntas baseadas sobre conhecimento levantando por outros pesquisadores. É necessário pensar duas vezes antes descrever um aspecto da fisiologia de uma espécie ou grupo de espécies sob o pretexto único de que “nunca foi estudado”. a solicitação de xérox ou arquivos ”.

 Execução e análise das  observações 7. caso responder sua pergunta precise de algumas sub-perguntas). Emissão da pergunta cuja  resposta preenche a lacuna 4. 2004). ou hipótese. é que podemos transformar a pergunta em hipótese só tirando o ponto de interrogação. 2004) (ou tal vez em uns poucos. Comunicação de resultados  e conclusões. Agora estamos em condições de decidir se usaremos variáveis contínuas ou categóricas para representar nossos fatores e variáveis de interesse. Ex. permite que as outras pessoas realizem sugestões ou críticas mais importantes antes de começar todo o trabalho (Magnusson e Mourão. Uma pergunta clara é aquela que pode ser expressa como uma previsão. 10 Julho/2010 . deveremos formulá-la da maneira mais clara possível. enquanto que variáveis categóricas dividem estas variáveis sob critérios subjetivos para representá-las Pág. Variáveis contínuas representam características da natureza atribuindo-lhes números reais. Os fatores ou variáveis independentes serão representados sempre no eixo horizontal e as variáveis dependentes ou de interesse são representadas sempre no eixo vertical (Cleveland. Isto é fundamental para: A) determinar o que queremos medir exatamente. 1984). B) fazer testes estatísticos que nos permitam calcular. desenhar nossas observações de modo a evitar que estas nos confundam. confiança sobre a resposta indicada pelas nossas observações e C) determinar se os custos para responder esta pergunta são altos demais como para tentar responde-la. ao facilitar a exposição dos nossos objetivos e resultados esperados a outras pessoas (Cleveland.  Esquema  básico do  processo de  trabalho científico. Como ser objetivo: Transformação da pergunta em um gráfico Uma vez que tenhamos uma pergunta e confiamos em que esta tem relevância suficiente para investir o esforço necessário. 1984).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” 1. Interpretação 8. “a testosterona estimula o comportamento agressivo na piranha?” ou “a taxa de crescimento dos girinos é mais alta em presença de Iodo na água?” Um indício de que a pergunta está bastante clara é que você pode ver nos dois exemplos. Identificação da lacuna de  conhecimento 3. Fazer uma representação gráfica dos nossos objetivos ajuda a esclarecer quais os tipos de variáveis devemos e podemos medir. Quadro 1. Desenho das observações que respondem à pergunta 5.Leitura e observações prévias 2. Os eixos do gráfico devem representar as partes de nossa pergunta. Levantar uma pergunta clara sobre o mundo implica necessariamente que possamos representá-la em um gráfico cartesiano (Magnusson e Mourão. Ainda. de maneira objetiva.

categorias). B) Gráfico com fator contínuo (modificado de Magnusson e Mourão. peso. Os tipos de variáveis escolhidas determinarão o tipo de gráfico utilizado. 3. o primeiro tem variáveis categóricas no eixo horizontal. Entre os gráficos mais informativos e fáceis de entender estão os gráficos de nuvens de pontos. ou scatter plots (Magnusson e Mourão. As variáveis contínuas proporcionam mais informação. tratamento. como variáveis categóricas podemos citar cores. O melhor tipo de variável vai depender essencialmente da sua pergunta e dos recursos disponíveis. Exemplos de gráficos de dispersão. comprimento. 2004). A) gráfico com fator categórico. quando categorizamos variáveis podemos perder informação (Magnusson e Mourão. o segundo usa variáveis contínuas no eixo horizontal (Fig. 11 . 3). etc. Podemos encontrar dois tipos básicos. Julho/2010 Pág. gráficos de dispersão. sexo. O CHUMBO NA ÁGUA INFLUENCIA A TAXA METABÓLICA DOS GIRINOS? taxa metabólica taxa metabólica A pouco chumbo muito chumbo B concentração de chumbo na água Figura 3. Por isto é necessário estar seguro sobre qual informação se quer obter para decidir sobre que tipo de variável usar. Entre os exemplos mais comuns de variáveis contínuas estão: comprimento de onda. 2004). enquanto as categóricas são mais simples de entender e manejar. concentração. não teria detectado o efeito do chumbo sobre o crescimento dos girinos. as categorias podem ser mais didáticas e fáceis de manejar. Se na pergunta anterior o pesquisador tivesse escolhido comparar duas concentrações de chumbo. Como mostra a Fig. 2004). Por outro lado.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa (etiquetas. mesmo quando realmente existe uma relação entre as variáveis.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 12 Julho/2010 .

br Agora que já sabemos qual é nossa pergunta e como representá-la. Para um cientista. repetição ou réplica: elas são cada uma das observações que gera uma resposta a sua pergunta (são os pontos nos gráficos). 2002). 13 . Julho/2010 Pág. é crucial aprender a enxergar e evitar fatores que confundam suas conclusões de maneira não desejada ou oculta. Para evitar confusões ao comunicar-se com colaboradores durante a fase de planejamento é conveniente aprender claramente os seguintes conceitos: Unidade amostral. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. a secreção de saliva poderia ser provocada pela visão ou cheiro destes antes que pela sua presença na boca do animal. influenciem em nossa resposta (Quinn e Keogh. uma vez depositados alimentos na boca de um animal e medindo variações no volume de saliva. 1984). um experimentador poderia determinar que a secreção de saliva é controlada pela presença de alimentos na boca. deveremos realizar observações que a respondam. se ele não tiver o cuidado de administrar alimentos sem que o animal os veja ou os cheire. um dos maiores problemas para responder perguntas sobre sistemas naturais é que estes são afetados por múltiplos fatores. de maneira que pode ser impossível saber se a variação observada na variável dependente é derivada de nosso fator ou destes fatores (Hurlbert. O desenho experimental representa nossa decisão de quantas observações necessitamos e como as distribuímos para evitar que fatores de confusão. Por exemplo. No verificacionismo. Estes são fatores cujo efeito se mistura com o do nosso fator de estudo. Entretanto. Universo amostral: é aquela parte da natureza sobre a qual se quer obter informações por meio de observações e a qual se aplicam nossas conclusões. compararíamos as observações com diferentes possibilidades teoricamente justificadas). Erros cometidos durante o desenho amostral podem fazer com que o efeito de fatores inadvertidos seja indistinguível do efeito dos teus fatores de estudo. Testar uma hipótese é mesmo isto: contrastar os valores das nossas observações com os valores que esperaríamos para ela (No falsificacionismo.camacho@usp.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Evitando confundir-nos: aspectos fundamentais do desenho experimental e a estatística inferencial. O que significa testar uma hipótese? Como vimos antes. para avançar em ciência derivamos hipóteses a partir de modelos considerados válidos cuja rejeição/aceitação com base em observações implicaria no refinamento ou rejeição das teorias que possuímos sobre o mundo. Entretanto. compararíamos com os valores esperados caso nossa hipótese não fosse correta.

houve /não houve diferença. em função de como a variabilidade está partilhada nos dados que representam nossas observações. uma vez isolados possíveis fatores de confusão. 4). Você pode estar-se perguntando: “para que toda esta complicação?” A resposta é a seguinte: como normalmente só conseguimos observar uma parte da variação de nosso sistema de estudo.4). Associado a este tipo de experimento. “Scatter-plots” mostrando a distribuição da variação em dois tipos básicos de análise: A) análise da relação entre duas variáveis e B) comparação do efeito de dois tratamentos sobre uma variável.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Frequentemente. maior do que o ruído. queremos realizar algum de dois tipos de testes: A) se os valores de nossa variável de interesse estão relacionados com uma ou mais variáveis independentes (fatores). um teste falsificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com a distribuição de freqüência teórica (=hipótese): esperada no caso de que o ruído seja maior que o efeito. a finalidade de um experimento é avaliar se a variação provocada pelo fator é. Os testes estatísticos nos permitem estimar o quanto é seguro aceitar a resposta a nossa pergunta (= houve/não houve relação. variável dependente variável dependente ruído variação provocada pelo fator ruído variação provocada pelo fator A f ator B tratamento tratamento 2 1 Figura 4. que hipótese suporta melhor os dados). é possível que o resultado de nosso experimento seja esperado pelo acaso. Um teste verificacionista compararia a distribuição de freqüências observadas com as distribuições de freqüências teóricas para os dois casos possíveis: que o efeito seja maior ou vice-versa. Pág. Neste caso. 14 Julho/2010 . Uma forma comum de fazer isto é distribuir-se a variação encontrada em tal conjunto de dados em variação provocada por um fator (efeito) e a variação não devida a este fator (ruído) (Fig. ou B) Se os valores de nossa variável de interesse feitas em duas ou mais situações diferentes (tratamentos) são iguais ou diferentes (Fig.

é importante neste caso!). confiança e pseudorepetição. perguntar a suas avós e tias depois de perguntar a sua mãe não vai trazer tanta confiança. Em que caso você se sentiria com maior confiança sobre as opiniões: depois de perguntar a sua mãe? Depois de perguntar a sua mãe. se estas serão dispostas aleatória ou sistematicamente. Lhe recomendo que leia a maior quantidade de literatura possível sobre desenho experimental e estatística antes de começar a coletar seus dados. Lembra do problema no final do capítulo 1? Quando um fator altera os valores de nossas repetições. você poderia ainda pensar que “ele(a) quer te agradar”.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Repetição. Obtenha informações mais detalhadas e mais exemplos em Hulbert (1984) e Magnusson e Mourão (2004). Aumentar o número de repetições nos permite aumentar nossa confiança no resultado. Agora. se você pergunta a um(a) colega. vamos lá. Existem outros aspectos do desenho de um experimento. se a resposta deste(a) colega) concordar com a de outros(as) colegas não relacionados(as) com ele(a). Finalmente. avós e tias? Depois de perguntar a um(a) colega. pseudorepetição e confiança. ou depois de perguntar a várias meninas não muito próximas? Como pode ter deduzido. mas todos estes passos são críticos para o sucesso do seu trabalho. 15 . Tipos gerais de pseudo-repetição incluem: espacial= as observações tem valores relacionados por causa da sua posição no espaço. Comece pela tabela de Julho/2010 Pág. leia o seguinte exemplo: Imagine que você quer ir “bonito(a)” a uma festa. e como serão feitos os controles. Busque sempre respostas independentes para suas perguntas! Provocam pseudorepetição aqueles fatores que não fazem parte do estudo e que fazem com que os valores de nossas observações não sejam independentes entre eles. mas isso não acontece com as pseudorepetições. estão relacionadas por um fator de confusão. apesar de que aumentar o número de pseudorepetições pode nos dar uma falsa sensação de confiança. Para entender a relação entre fatores de confusão. pois é provável que vão dizer que você está muito bonito(a). as repetições são chamadas de pseudorepetições. temporal= quando o fator que relaciona os valores das observações é o tempo. decidir quantas observações serão necessárias. Por exemplo. de modo que faz com que seu valor esteja relacionado. filogenética= provocada por relações de origem comum entre as observações e técnica= quando é um elemento do equipamento ou procedimento experimental que está relacionando os valores obtidos nas observações. Explicar isto está fora do tempo disponível para este módulo. e sua resposta é que você está “muito bonito(a)”. sua confiança em que você está bonito(a) aumentará muito! Cair na pseudorepetição é acreditar que repetições aumentaram nossa confiança sobre a resposta a nossa pergunta quando estas. Na opinião de cada uma delas está embutido o fator de confusão “parentesco” (que. na realidade.

Parafraseando a Peters (1987): Não fazer isto “porque você não teve tempo” facilmente acabará em que todo o esforço e dinheiro público investido não sirvam para nada. pag.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Magnusson e Mourão (2004). Pág. 16 Julho/2010 . 4.

). Foi um caminho árduo: você teve que ler vários artigos que não entendia bem ou com os quais nem concordava para levantar uma pergunta não respondida até agora. agradecimentos e referências na tabela 1. as relações lógicas entre elas e alguns elementos básicos que devem conter. Estas dicas estão baseadas no livro de Peters (1984). Assim mesmo. Um relatório de pesquisa deve ser tão claro. introdução. Basicamente. discussão. busque textos (Ex. Recomendo que você a procure em seu orientador e lendo artigos nas revistas onde pretendam publicar. resolvendo inúmeros problemas (animais que morrem antes de obter os dados. consta de 7 partes: título. Repassaremos aqui as partes de um relatório de pesquisa. Passou tempo lendo. material e métodos.. resumo. preciso e curto quanto seja possível. infra-estrutura falha. agradecimentos e referências.. Dentro da introdução devem ficar claros: A) o problema que vamos abordar e sua relevância B) o estado da arte sobre o problema. veremos algumas dicas básicas para estruturar textos científicos. você teve que esperar longas burocracias (licenças.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa O Fim da Picada: Comunicando Ciência. segurança. falta dinheiro. Para isto.br Pense por um segundo no momento no qual você terminará seu experimento. Veja dicas úteis sobre o título. Partes e estrutura de um relatório de pesquisa. e explica de forma sucinta os métodos empregados e os principais resultados e conclusões. A continuação. Bom. pensando e discutindo o projeto com outras pessoas que. se você não tem cuidado no que vem agora. e você deve dominá-las desde o começo. mostrando a lacuna de conhecimento que pretendemos preencher e porque precisa ser preenchida e C) as decorrências dos possíveis Julho/2010 Pág.camacho@usp. Suas idéias sofreram críticas. O resumo se compõe normalmente de um parágrafo que demonstra a relevância e os objetivos do estudo. resultados e discussão. uma grande dose de experiência é necessária. material e métodos. às vezes. resultados. manuais de redação de jornais científicos) e faça cursos especializados no tema. 17 . solicitação de fundos) e repetir seu experimento várias vezes. Agustín Camacho Guerrero Laboratório de Herpetologia agustin. etc. introdução. Conseguiu imaginar? Com certeza você vai lembrar-se deste parágrafo depois do seu mestrado. A valia dos cientistas se mede grandemente a través da qualidade e quantidade de artigos científicos que publicam. não lhe entendiam bem. tudo isso pode não ter servido de nada. referências neste capítulo. Iremos nos estender mais nas seções de resumo.

1966). mostrando quais as implicações dos nossos resultados sobre a lacuna de conhecimento levantada. e serem numerados. curtamente. devemos expor como nossos resultados se relacionam com a hipótese que pretendíamos testar. Veja uma lista de verificação básica para identificar problemas em seu relatório de pesquisa (Tab. Einstein dizia que se você não consegue explicar seu trabalho a seu avô. A seção de “resultados” deve dar toda a informação necessária para responder nossa pergunta inicial e que outros possam avaliar se a respondemos mesmo ou não. Se evitarmos mostrar claramente nosso desenho experimental pode ser que rejeitem nosso relatório na revista que o queremos publicar. Busque críticas. eu digo a você que. Isto implica em descrever as observações feitas. explicando corretamente para ele. em forma de hipótese a ser testada. Dados apresentados em tabelas e gráficos devem ser explicados também no texto. seja crítico e ajude à ciência progredir. Em seguida. Os gráficos devem expor a parte mais importante dos nossos resultados (nossa pergunta e as observações que a respondem) e informar sempre o número de repetições.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” resultados de nosso trabalho.1). o desenho experimental e as análises devem aparecer explicados e justificados de forma que os leitores sejam capazes de: A) entender como alcançam o objetivo escolhido B) Repeti-lo C) perceber possíveis fraquezas no delineamento. Se nos nossos resultados. 18 Julho/2010 . Por último. futuros experimentos ou hipóteses testáveis que permitam avançar no entendimento do problema abordado. A fim de facilitar a interpretação do leitor. Os dados. Concretamente. Por último. os gráficos não representam as partes de nossa pergunta. estes devem seguir a mesma ordem na introdução. Desta forma. os objetivos devem aparecer da forma mais clara possível. Pior ainda. Tanto tabelas quanto gráficos devem ter uma legenda curta e auto-explicativa. a evidência gerada para respondê-la parecerá fraca a vista dos outros (Magnusson. Agora. Se o relatório tem vários objetivos. Na discussão. as técnicas. devem ser apresentados em forma de tabelas. material e métodos. de forma que possam ser referidos no texto. este é o lugar onde se deve apontar. podemos enganar aos nossos leitores. reconhecendo as fraquezas que puderem comprometer os resultados. resultados e discussão. mostrar a consistência (ou inconsistência) dos nossos resultados com os resultados de outros trabalhos levantados na introdução. estabelecendo as relações que foram estatisticamente significativas e as que não foram. O “material e métodos” deve conter uma explicação clara dos métodos empregados para alcançar o objetivo declarado no fim da introdução. é porque você não entende bem o que está fazendo. quando numerosos. mas evitando redundância. até seu avô poderia fazer críticas imprevistas e acertadas sobre o Pág.

Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa seu trabalho. a melhor saída é apresentar seu projeto a pessoas com visão crítica. A melhor forma de enfrentar os próximos anos de preparação é você que deve planejar. tratamos com assuntos que. via de regra. 19 . A comunidade científica deve ajudar-se a través de visão crítica e sentido construtivo. A lista de referências que segue é uma seleção da literatura que fez muita diferença na minha própria formação (alguma delas chegou um pouco tarde). Lembre-se que em ciência. Isto faz com que todos nós cometamos erros. Encontrar falhas nos aspectos do desenvolvimento lógico do trabalho de um colega pode ser de grande ajuda para ele. poderão julgar se foram convencidas ou não pelos seus argumentos. Terminou este capítulo que pretendia mostrar-lhe um pouquinho do que vem pela frente. Para evitar erros em seu experimento. Julho/2010 Pág. são complicados. Espero que lhe ajude. Se estas pessoas conseguem entendê-lo perfeitamente. antes que invista grande esforço e dinheiro em um projeto mal planejado. podemos evitar que um trabalho confunda a comunidade científica através da geração de evidências ou argumentos que permita mostrar que este está errado. Assim mesmo. Considerações finais.

aparecem na seção referencias? Pág. No título O titulo representa os elementos da sua pergunta? E o universo de estudo? Na introdução: A lacuna de conhecimento está clara? Esta se deriva logicamente do estado da arte da disciplina? Os objetivos buscam preencher esta lacuna? Os conceitos mantêm o significado ao longo do texto? Os objetivos buscam testar ou verificar uma hipótese? Nos métodos: Há pontos importantes para julgar a validade do trabalho que não foram explicados? Está claro para que serve cada seção dos métodos? As medidas realizadas e os procedimentos adotados estão claramente justificados? No caso de várias hipóteses. os resultados foram apresentados na mesma ordem que as análises dos métodos? Os dados mostrados permitem julgar se as análises foram feitas corretamente? Na discussão Foram discutidos problemas que possam ter interferido na resposta? Os resultados de estudos comparados com o nosso são mesmo comparáveis? As conclusões e sugestões derivam logicamente dos resultados? Mostraram-se novas hipóteses para avançar no entendimento do tema abordado? Nos reconhecimentos As pessoas/organizações que prestaram a ajuda ou licenças mais fundamentais estão presentes? Nas referências Todas as citações. as análises estão redigidas na mesma ordem que os objetivos? Nos resultados: Um gráfico de dispersão representa a resposta a nossa pergunta principal? O número de observações está claro no gráfico? Existe redundância entre a informação mostrada no texto e os dados apresentados nos gráficos e/ou tabelas? No caso de vários objetivos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tabela 1: Lista de verificação na redação de um relatório de pesquisa. 20 Julho/2010 . e só as que estão no texto.

Julho/2010 Pág. seja esta tomada sobre uma população. Diferencia-se de lei porque a teoria não precisa ter sido demonstrada amplamente com dados empíricos. do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis. Princípio científico: pode ser considerado sinônimo de lei científica Epistemológico: relativo ao estudo do funcionamento da ciência. são duas categorias que mostram generalidade de aplicação de um conceito.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Glossário Etimologia: parte da gramática que estuda da história ou origem das palavras. Conclusões. verossimilhança é proporcional à probabilidade de observar os dados sendo um determinado descritor verdadeiro. aquela teoria que pode ser testada. do especial ao geral. Para Popper. sobre outro possível descritor. a partir de uma amostra da mesma. Teste: prova. exame. mas ainda não conferida. Modelo: tem variados significados dependendo do contexto. ensaio. Probabilidade prévia: estimação subjetiva da probabilidade de um evento. Indução: Raciocínio ou forma de conhecimento pelo qual passamos do particular ao universal. Caráter ancestral: característica considerada original para um grupo de espécies. Lei científica: relação tão demonstrada empiricamente que é assumido que sempre vai ser observada em determinadas condições. Tautologia: uma afirmação lógica onde as premissas são iguais à conclusão. prévia a um experimento. previsões. Teoria empírica: Segundo Popper. ou bem tomada a partir da combinação lógica de duas premissas verdadeiras (Ex: Se as premissas de que todos os homens tem coração e que Sócrates é um homem são verdadeiras. deve ser um conjunto de enunciados. predições ou hipóteses: uma proposição aceitável do ponto de vista de uma teoria ou um modelo. porém a maioria pode ser considerada como “representação simplificada”. logo eles não moram na água) Filogenia: representação de relações de parentesco entre espécies ou grupos de espécies. a verossimilhança valoriza a plausibilidade de um descritor hipotético deste conjunto. (ex. Dentro do processo de geração de conhecimento um modelo pode ser considerado como uma representação de relações entre variáveis acorde com a teoria da que forma parte tal modelo. Verossimilhança: Dado um conjunto de dados observados. Silogismos: arranjos de três proposições lógicas onde a última se deduz necessariamente das duas anteriores Inferência: conclusão. estes animais não são aquáticos. Teoria: explicação sobre um fenômeno. então podemos inferir que Sócrates tem coração) Casos gerais e particulares: Para Aristóteles e Bacon. 21 .

2342 pp. ed: Editora Planta / Sinauer Associates. 8888.. S. Trad. D. Cambridge University Press. Fisher and the Making of Maximum Likelihood 1912-1922. First English edition by Hutchinson & Co. Peters. Cambridge University Press.fr/Jaynes/prob.J. How To Write Backwards. K.adelaide. W. e Subhash R. Fatores ou variáveis independentes: elemento ou circunstância que contribui a produzir um estado em uma variável influenciada por ele. 154 pp. N. R. statistical. Cambridge University Press.org/wiki/Novum_Organum (Maio 2009). Keogh M. Efeito: influencia de um elemento sobre outro. R. A..L. California. E.edu. (1991) A Critique for Ecology. The university of Chicago Press.html (maio 2009). T.wikisource.Trad por J. Disponível em: http://www-biba. Magnusson. A brief tour of statistical concepts. sendo influenciada pelos fatores.L. The logic of scientific discovery. Pseudorepetições: observações cujos valores estão afetados por um fator de confusão. Cambridge. (1992) Academic Press Dictionary of Science & Technology. 136 pp. 1997. (1763) An Essay towards solving a Problem in the Doctrine of Chances. Bibliografia Aldrich. (2004) Statistics without Math.12. New York 366 pp. W. Escondido. Morris C. Quinn G. Prior Analytics (livro 1). Aristóteles (350 A. (2002) Fundamentos de sistemática filogenética.au/ (Maio 2009). J. (1996). S. (1620) Novum Organum. M. Bayes.inrialpes.(1959). American Statistician 38: 26-19. W. Magnusson. Editora Holos. (2002) Experimental design and data analysis for biologists. Mourão.). Ruído: variação não devida ao fator.P. Amorim. Spedding http://en. E. 22 Julho/2010 . Variáveis dependentes ou de interesse: variável cuja variação estamos interessados em explicar. 557pp. G. 2004. M. Morris Books. Londrina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Tratamento: aqui tratado como manipulação. 1.L. Subhash R. 545 pp.C). Philosophical Transactions of the Royal Society of London 53. Francis Bacon. USA.162-176. Disponível em: Jaynes. Cambridge. 59 pp. Taper. Ribeirão Preto. (2003) Probability Theory: The Logic of Science. T. Popper. Lewin-Koh. The nature of scientific evidence. (1858). philosophical and empirical considerations(eds. R. H. Pág.. Por A. Disponível em: http://ebooks.J. 567p. Statistical Science. Jenkinson.L. (1987) Graphs in scientific publications. 370–418. Taper. E. Bulletin of Ecological Society of America 77. Cleveland. Brazil.

J. Proceedings of the colloquium “La notion et Ie role du modele dans les sciences mathematiques. 2008. A.Método Científico Aplicado a Estudos em Fisiologia Comparativa Huey. Chapman M. 522 pp. J. J. Cambridge UP. Cambridge university press. Technical report Nº 33. 297–307. 392pp. P. 2008. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 250. R. Evidence and Evolution: The Logic Behind the Science. Suppes. E. S. North Holland press.. Sober. 1987. 1:21–28. M. S. Theoretical_Ecology. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 150-153. Bulletin of the Ecological Society of America 68: 145-150. Some modest advice for graduate students. (1987) Reply to Stearns: Some acynical advice for graduate students. R. G. Scheiner. naturelles et sociales”. B. Wiens. (2000) Observations in ecology: you can’t make progress on processes without understanding the patterns. Willig. Julho/2010 Pág. A. 1997. A general theory of ecology. 97-115. S. 2008. Experiments in ecology: their logical design and interpretation under analysis of variance. Underwood. D. M. 23 . Systematics and herpetology in the age of genomics. e Connell. Bioscience 58. 1960. Stearns. J..C. Underwood. A comparison of the uses and the meaings of models in mathematics and physics.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 24 Julho/2010 .

Além disso. a diferenciação e o metabolismo das células em diversos tecidos e órgãos. que coordena o crescimento. será apresentada a técnica do RNAi (RNA de interferência) como ferramenta de estudo para a fisiologia.moraes@usp. serão abordados os aspectos da evolução da multicelularidade e os mecanismos básicos da transdução de sinais. com destaque para as vias de transdução do sinal em diversos modelos. como é o caso da malária. Neste módulo.Unidade 2 Sinalização Celular Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. bem como a contextualização desses mecanismos dentro de patologias.br A sobrevivência dos organismos multicelulares depende de uma rede elaborada de comunicação inter e intracelular. .

Daniel Carneiro Carrettiero pág. 26 Julho/2010 . Célia R. 41 Laura Nogueira da Cruz Revisado por Dra. Garcia Capítulo 7 RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Revisado por Dr. 27 Capítulo 6 Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada pág. Magalhães Moraes Revisado por Dra Ana Maria de Lauro Castrucci pág. 66 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 5 Comunicação celular: entendendo a ritmicidade endógena Maria Nathália C. S. 49 Bibliografia pág.

Para garantir o sucesso e a diversificação da vida. 27 . foi necessário o aparecimento de estruturas de ligação e principalmente de comunicação entre as diferentes células. ao longo do tempo algumas das células da colônia especializaram-se em determinadas funções. mediadores locais e estímulos sensoriais exercem seus efeitos sobre as células através de ligação a diferentes classes de receptores. que mais tarde originaram tecidos. Esses transdutores altamente especializados são capazes de modular a sinalização de várias vias que levam a diversas respostas biológicas (Cabrera-Vera e col. quimiocinas. Os ancestrais dos organismos multicelulares seriam simples agregados de seres unicelulares. ampliados e finalmente convertidos para uma resposta fisiológica adequada (Pires-da-Silva e Sommer. Inicialmente todas as células da colônia desempenhavam a mesma função. Contudo. 2003).. os quais levaram ao aparecimento de órgãos. originando os verdadeiros seres multicelulares. A maioria das Julho/2010 Pág. para um conjunto de células especializadas proporcionando interações entre elas (Ben-Shlomo e col.moraes@usp. que formavam estruturas designadas colônias. A diferenciação celular.Sinalização Celular Comunicação Celular: Entendendo a Ritmicidade Endógena Maria Nathália de Carvalho Magalhães Moraes Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação nathalia. Muitos hormônios. 2003). a qual desempenhava todas as funções necessárias para o organismo. centros integradores dessas informações (sistema nervoso) e efetuadores de ajustes homeostáticos (sistema muscular. a manutenção da homeostase é dependente de um processamento continuo de informações através de uma complexa rede de células. relacionada com a função especifica acentuou-se no decorrer da evolução. Além disso. 2007). sinais intracelulares devem ser transduzidos. além de uma maior independência em relação ao ambiente. 2003). levando a uma diminuição da taxa metabólica. neurotransmissores. endócrino e exócrino) (Isoldi e Castrucci..br Evolução da Multicelularidade O grande passo obtido através da evolução da unicelularidade para a pluricelularidade certamente foi a capacidade de comunicação entre as células. A especialização celular permitiu uma melhor utilização da energia. por meio da evolução a partir de uma única célula. Nos organismos multicelulares. Neste processo foram surgindo diferentes tipos de células. Para que as células pudessem sincronizar as tarefas e perceber informações do ambiente. foi necessária a especialização de células para percepção do ambiente (receptores sensoriais). para que o organismo responda a constantes mudanças do ambiente.

. por exemplo. os quais amplificam o sinal e desencadeiam respostas intracelulares específicas para o sinal inicial. Os mensageiros químicos extracelulares podem ser classificados de acordo com a distância que percorrerão do local de sua síntese até a célula alvo. os quais são chamados de hormônios. Os sinalizadores parácrinos produzidos por células nervosas são denominados neurotransmissores. ativando múltiplas vias de sinalização. os chamados receptores. entre neurônios e fibra muscular ou entre neurônios e glândula exócrina ou endócrina. enquanto os efeitos produzidos por hormônios esteróides. onde a fosforilação de alvos protéicos leva geralmente a mudanças imediatas em sua configuração e atividade. cuja célula alvo encontra-se distante. além dos sinalizadores que são lançados na corrente sanguínea. bem como o tipo de inter-relação entre a célula produtora e a célula alvo. Os hidrossolúveis são incapazes de atravessar a membrana celular. que possam interpretar os sinais. Os sinalizadores secretados pela própria célula produtora e que atuam em células adjacentes próximas são chamados de parácrinos. portanto. que mudam sua conformação quando os mensageiros se ligam a eles. A ligação mensageiro-receptor inicia uma cascata de sinalização que irá evocar a participação de diversos segundos mensageiros. Ainda. em hidrossolúveis e lipossolúveis. Os ligantes podem ainda ser classificados quanto à sua solubilidade. enquanto os sinalizadores que atuam na própria célula produtora são conhecidos como autócrinos. 1) (Rang e Dale. 2007). e dessa forma. 2007). os quais são lançados na região entre neurônios. atravessar a membrana e atuar dentro das células. Pág. Os princípios moleculares nos quais a transdução do sinal se baseia são representados por associações específicas de proteínas e sua fosforilação ou desfosforilação. 2003). Cada classe de receptor ativa segundos mensageiros específicos. ocorrem dentro de algumas horas ou dias (Fig. Deste modo. o balanço entre fosforilação e desfosforilação é determinante para a transdução do sinal intracelular. chegando muitas vezes ao núcleo. Para que as células interpretem esses sinais devem apresentar elementos que reconheçam esses mensageiros. essa região é conhecida como fenda sináptica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” famílias de receptores evoluiu com o advento da multicelularidade e com a necessidade de um comportamento coordenado do organismo (Ben-Shlomo e col. Já os compostos lipossolúveis apresentam alta afinidade química pela membrana podendo. Alguns deles são muito rápidos em escala de milissegundos. Alvos para ação dos mensageiros químicos Os mensageiros químicos intercelulares devem atingir células alvo. devem ser reconhecidos por receptores localizados na membrana. 28 Julho/2010 . dessa forma sendo reconhecidos por receptores intracelulares (Isoldi e Castrucci. os receptores podem evocar tipos diferentes de efeitos celulares.

porém sem causar ativação desse receptor. a saber: (1) superfamília tipo 1 receptores-canal (ou ionotrópicos). e dessa forma bloqueando o efeito dos agonistas. que é iniciada por um agonista. ocupam uma porcentagem significativa dos receptores. A ligação e ativação representam duas etapas distintas da geração de uma resposta mediada por um receptor. consequentemente. mesmo em baixas concentrações (Rang e Dale. 2003). Os ligantes com alta potência geralmente apresentam alta afinidade pelos receptores e. 2007 Interação molécula-receptor Existe uma diferença importante entre agonistas e antagonistas. Os agonistas ativam os receptores. Tipos de receptores Segundo a estrutura molecular e a natureza do mecanismo de transmissão. receptores de membrana que formam o próprio canal Julho/2010 Pág. A ativação do receptor ocorre através da ligação da molécula de tal modo que desencadeie uma resposta tecidual. Adaptado de Rang e Dale. os receptores são agrupados em quatro superfamílias. Agonistas e antagonistas são poderosas ferramentas que permitem a caracterização de estruturas e funções de subtipos de receptores (Squire e col. enquanto os antagonistas podem se combinar com os mesmos sítios. A tendência de um ligante se ligar aos receptores é dada através de sua afinidade. 29 . 2007). A ocupação de um receptor por uma molécula de um ligante pode ou não resultar na ativação desse receptor.Sinalização Celular Figura 1 – Relação receptor e tempo de ação.

tirosina quinase. foi o receptor nicotínico da acetilcolina (nAchR). Para que o receptor seja Pág. receptores de membrana acoplados a sistemas efetores intracelulares por meio de proteína G. e só podem atravessá-la com a ajuda de proteínas transmembrânicas na forma de canais ou transportadoras. (3) superfamília tipo 3 – receptores enzimáticos. 3). 30 Julho/2010 . permitindo o fluxo dos íons (Fig. 2003). cada um na interface das duas subunidades α. esses canais iônicos permanecem em estado fechado e são impermeáveis aos íons. 2). γ. A ligação do neurotransmissor induz uma rápida mudança conformacional que abre o canal.receptores acoplados à proteína G (GPCRs ou 7-TM ou metabotrópicos). receptores de membrana com domínio intracelular de proteína quinase (em geral. (2) superfamília tipo 2 . δ) possui dois sítios de ligação à acetilcolina. β. fosfatase e outras) e (4) superfamília tipo 4 . O primeiro receptor dessa família a ser clonado. 4). δ) combinadas para formar um canal iônico através da membrana (Fig. receptores solúveis no citosol (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” iônico. γ.receptores reguladores da transcrição de genes (ou receptores nucleares ou receptores intracelulares). β. Na ausência de um neurotransmissor. As mudanças na corrente da membrana resultante da ligação do ligante ao canal ionotrópico são geralmente mensuradas numa escala de milissegundos. Os receptores do tipo canal são compostos por 4 ou 5 subunidades (α. Sua estrutura pentamérica (2α. Figura 2 .Tipos de famílias de receptores Superfamília tipo 1: receptores-canal Os íons são incapazes de penetrar na bicamada lipídica da membrana celular. o qual é usado como modelo para o estudo da estrutura dos receptores ionotrópicos. O fluxo iônico cessa quando o transmissor se dissocia do receptor ou quando o receptor se torna dessensibilizado (Squire e col. Cada subunidade consiste de 4 segmentos transmembrana (TM) referidos como TM1-TM4..

que são canais de sódio ou cálcio. tais como: (i) canais de potássio ativados por cálcio. como é o caso de GABA e glicina. (iii) existem ainda outros canais que respondem a ligantes intracelulares. cujas funções ainda não estão bem esclarecidas. Esses canais são distintos daqueles que medeiam os efeitos excitatórios de ATP extracelular. ácido gama-amino butírico (GABA) e ATP agem dessa maneira e causam aumento na permeabilidade ao Na+ e K+. como acetilcolina.. mesmo quando a despolarização é mantida. O influxo de íons através Julho/2010 Pág. Essa abertura (ativação) induzida pela despolarização da membrana é de curta duração. como canais de potássio sensíveis a diacilglicerol. Retirado de Squire e col. duas moléculas de acetilcolina devem se ligar a esses sítios e. ou dificultando uma eventual resposta de despolarização a um estimulo excitatório. potássio e cálcio. permitindo a passagem de íons (Rang e Dale. 2003). glutamato.. se abrem quando a concentração intracelular de ATP cai. podendo levar à despolarização celular. Os canais controlados por voltagem abrem-se quando a membrana celular é despolarizada. que são canais de cloro (Squire e col. Alguns canais controlados por ligantes respondem a sinais intracelulares e não extracelulares. Os canais controlados por ligantes são ativados através da ligação de um mensageiro químico extracelular a um sítio na molécula do canal. Os canais mais importantes nesse grupo são os canais seletivos para sódio. Dependendo do íon para o qual o canal é seletivo a alteração no potencial de repouso da célula poderá atuar de forma diferente..                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Figura 3 – Estrutura do receptor canal. 31 . Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do sistema nervoso. quando ocorre um aumento da [Ca2+]i. como é o caso de alguns subtipos de receptores de acetilcolina e glutamato. Retirado de Squire e col. (ii) canais de potássio sensíveis a ATP. dessa forma.Esquema de abertura do canal. Os receptores canais de glutamato são responsáveis pelo fenômeno de potenciação de longo termo (LTP). Figura 4 . plasticidade sináptica e neurodegeneração. se abrem. 2003. 2007).Sinalização Celular ativado. hiperpolarizando a célula. 2003. A maior parte dos neurotransmissores excitatórios. o canal se abre quase que instantaneamente.

A ligação do mensageiro ao receptor acoplado a proteína G (GPCRs) induz uma mudança conformacional no receptor.. esses segundos mensageiros disparam eventos como ativação de cascatas cinéticas e fosforilação de fatores citosólicos e transcrição de fatores nucleares (Brivanlou e Darnell.. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” do canal aberto é conseqüência da liberação de glutamato do neurônio pré-sináptico e da despolarização da membrana do neurônio pós-sináptico.5’ monofosfato (AMPc). 2002). A duração do sinal é determinada pela taxa de hidrólise do GTP da subunidade Gα e subseqüente reassociação de Gα-GDP com Gβγ (Hamm. sendo os primeiros receptores a emergirem entre os organismos unicelulares. Em termo. fazendo com que este permita o influxo de cálcio e a geração de oxido nítrico e/ou espécies reativas de oxigênio (Kloda e col. essa mudança de voltagem da membrana expele íons Mg2+ que estavam bloqueando o canal. e o GTP liga-se à subunidade Gα e assim ocorre a dissociação do complexo Gα-GTP do complexo Gβγ. o qual recruta e ativa diferentes proteínas G. 2002). as quais estimulam a geração de adenosina 3’. aminoácidos modificados. fosfoinositídeos. peptídeos e hormônios glicoprotéicos (Ben-Shlomo e col. diacilglicerol e outros segundos mensageiros. A cinética da ativação da proteína G através dos GPCRs tem sido descrita recentemente. neurotransmissores ou glicoproteínas com os receptores 7TM na superfície da célula induz uma mudança conformacional do receptor que ativa a proteína G – composta das subunidades α. 2007). 32 Julho/2010 . esteróides. Recentemente. Quando a proteína G é ativada. postulou-se a existência de mecanismos que aceleram a atividade GTPásica. Vários efetores tem sido apontados como promotores da atividade GTPásica da subunidade α da proteína G. Baseado em observações de que a atividade GTPásica de proteínas G isoladas é mais baixa do que sob condições fisiológicas. lipídeos. Superfamília tipo 2: receptores acoplados a proteínas G Os receptores da família tipo 2 são de origem antiga. uma família de proteínas chamadas “reguladoras da sinalização da proteína G” (proteína RGS). como por exemplo canais iônicos ou enzimas (Pierce e col. íons. Dessa forma tanto Gα-GTP quanto Gβγ encontram-se livres para ativar seus efetores. (Fig. Pág. O papel central desses receptores em organismos multicelulares é refletido por suas divergentes estruturas e funções. 2005). capaz de aumentar a atividade GTPásica da subunidade α da proteína G foi identificada (Wettschureck e Offermanns. β. 2003) Estrutura da proteína G A interação de hormônios. o GDP é liberado. nucleotídeos. No estágio inativo GDP liga-se à subunidade Gα. γ – no interior da célula.. 5). Os estímulos extracelulares que ativam os GPCRs incluem luz.

O sinal é finalizado quando a γ-fosfatase do GTP é removida pela intrínseca atividade GTPásica da subunidade Gα. promovendo assim uma diminuição dos níveis de AMPc. Gαs. Ambas subunidades estão livres para modular a atividade de uma grande variedade de efetores intracelulares. Gαq e Gα12/13 (fig. as proteínas G são divididas em quatro famílias baseadas na similaridade de suas subunidades α: Gαi/0. Em alguns casos. 7) (Cabrera-Vera e col.Sinalização Celular Classicamente.Mecanismo de ação do receptor acoplado a proteína G. A interação do ligante exógeno com o receptor de membrana promove a ativação do receptor e sua interação com a proteína G intracelular. 2001). Figura 5 . 2008). 2003. Após ativação do receptor acoplado a proteína Gs. como representado na figura 6 (Isoldi e Castrucci. Existem 9 tipos de adenililciclases conhecidas em mamíferos.. Gα-GTP então se dissocia do complexo Gβγ e do receptor. Para estudar as funções das proteínas Gi tem sido muito utilizada uma toxina extraída do Clostridium botulinum (toxina de pertússis ou PTX) a qual é capaz de ribosilar ADP dessas proteínas Julho/2010 Pág.. outras inibidas por baixas concentrações de cálcio ou por calcineurina (uma proteína fosfatase dependente de ca2+) ou pela fosforilação de proteínas quinases II dependentes de Ca2+/calmodulina (CAMK II). Cada família consiste de vários membros que frequentemente mostram padrões de expressão específicos. as quais podem ser ativadas pelo complexo cálcio/calmodulina. a subunidade α da proteína G inibe a adenililciclase (Gi). A reassociação de GDP com Gα completa o ciclo. levando a ligação do GDP a Gα. Pierce e col. 2002). 33 . Membros de uma família são estruturalmente similares e frequentemente compartilham algumas de suas propriedades funcionais. ou pode ainda ligar-se a canais modulando-os e dessa forma não exercendo função reguladora sobre adenililciclase (Schwartz. O acoplamento do receptor a proteína G faz com que ocorra uma mudança de GDP para GTP na subunidade Gα. adenililciclase (AC) é ativada pela subunidade α da proteína Gs passando a sintetizar AMPc.

a subunidade (C) volta a inibir a PKA pela reassociação com a subunidade (R). Na sua forma inativa. Dessa forma o tratamento com PTX resulta em um desacoplamento do receptor com a proteína Gi (Wettschureck e Offermanns. 2005). a PKA é formada por duas subunidades reguladoras (R). 34 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tornando-as incapaz de interagir com o receptor. Depois de formado. Na ausência de AMPc. e subsequente liberação da subunidade (C). levando a célula a um aumento da transcrição de genes específicos. o AMPc liga-se a proteínas quinases dependentes de AMPc (PKAs). Após ativação. 2001). Ativação da PKA ocorre através da ligação do AMPc nas subunidades (R). Figura 6 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo adenililciclase. CREB liga-se a regiões do gene que contêm um elemento de resposta ao AMPc (CRE) e sob fosforilação inicia a cascata de expressão de genes (Schwartz. As subunidades C livres são capazes de fosforilar o fator de transcrição CREB. PKA pode atuar em diferentes substratos e desencadear uma variedade de respostas. e duas subunidades catalíticas (C). Pág.

Quando a proteína Gq é estimulada. Em muitos tipos celulares. gerando 1. o qual dá inicio à via de síntese de eicosanóides como as prostaglandinas (Isoldi e Castrucci. gerando ácido araquidônico. e dessa forma IP3 atua em receptores do reticulo promovendo liberação do cálcio. a PLCβ promove a catálise do fosfolipídio de membrana 4. promovendo a diminuição de AMPc.5-trisfosfato de inositol (IP3) e diacilglicerol (DAG). A subunidade Gsα ao contrario de Giα promove aumento do concentração de AMPc. ou ainda. Essa ligação promove a abertura desses canais de cálcio e a conseqüente liberação dos estoques desse íon para o citoplasma. As setas em vermelho representam inibição de um componente da via. podendo ser clivado. IP3 difunde-se da membrana para o interior da célula. 2007).4. A subunidade Giα inibe adenililciclase. e as setas em verde a ativação. 8). Uma vez ativada. onde se ligará aos receptores de IP3 (IP3R). promove a ativação da enzima fosfolipase Cβ (PLCβ). promovendo assim um influxo de cálcio do meio extracelular para o interior da célula. A família da proteína Gq é uma das mais bem caracterizadas entre as proteínas G (ver fig.Representação esquemática da cascata de sinalização evocada por proteínas G.5bisfosfato de fosfatidilinositol.Sinalização Celular Figura 7 . A subunidade Gqα ativa a produção de DAG e IP3. 35 . O DAG permanece na membrana podendo promover ativação da proteína quinase C (PKC) desencadeando assim uma cascata de fosforilação. Julho/2010 Pág. a liberação de cálcio dos estoques intracelulares induz a abertura de canais de cálcio da membrana celular. que são canais de cálcio existentes na membrana do reticulo endoplasmático ou sarcoplasmático.

. O domínio citoplasmático do receptor tipo II é constitutivamente ativo e este fosforila o receptor tipo I em resíduos serina e treonina em resposta à ligação do mensageiro extracelular. essa cascata de Pág. 36 Julho/2010 . As proteínas Ras processam sinais vindos de receptores tirosina quinase e GPCRs. o qual estimula uma mudança na atividade de GDP/GTP resultando na ligação do GTP em seu estado ativo à proteína (Schaafsma e col. diferenciação. os quais são classificados de acordo com suas propriedades estruturais e funcionais. Existe ainda uma superfamília de proteínas G. tirosina fosfatase. serina/treonina quinase. Os receptores do tipo serina/treonina apresentam como ligante o fator de crescimento transformante beta (TGFβ). Superfamília do tipo 3: receptores enzimáticos São encontrados quatro receptores com diferentes domínios enzimáticos: tirosina quinase. Essas proteínas Ras estão envolvidas em uma variedade de processos celulares. A ativação de Ras sob estimulação de GPCRs e receptores de fatores de crescimento é regulada pela mudança do fator nucleotídeo de guanina. 2008). O receptor tipo I ativado tradicionalmente fosforila proteínas SMAD citoplasmáticas. guanililciclase. migração. para o interior das células. desse modo. dessa forma ativando a transdução do sinal para o núcleo. As proteínas SMAD ligam-se ao DNA reprimindo ou estimulando a transcrição de genes e. referidas como proteínas G monoméricas (são formadas somente pela subunidade α).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Representação esquemática da via de sinalização intracelular envolvendo a participação da fosfolipase C. maturação e apoptose. Esses receptores se apresentam em dois sub-tipos. os receptores do tipo I e II. incluindo proliferação. ou Ras. 1999). afetando a transcrição gênica (Schenk e Snaar-Jakelska.

Nas vias de sinalização de receptores monoméricos. uma hélice transmembrânica e uma porção citoplasmática que possui tirosina quinase com atividade catalítica (Fig. ou mudanças metabólicas. fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). Em adição aos RTKs. A família dos RTKs inclui os receptores de insulina e muitos fatores de crescimento. as quais incluem Src. quando ativados por ligantes. 2008) Julho/2010 Pág. através da manutenção da pressão arterial. desfosforilam proteínas celulares. 2000).Sinalização Celular sinalização de TGF-β pode representar um papel chave na patogênese de várias doenças incluindo o câncer (Wright e col. o que culmina com a ativação da proteína G monomérica Ras. As ações dos peptídeos natriuréticos são mediadas por sua ligação a três tipos de receptores. os receptores tirosina fosfatase. 2007). Os receptores NPR A e B (receptor peptídico natriurético A e B) são guanililciclases que aumentam a concentração intracelular de GMPc e ativam proteínas quinases dependentes de GMPc. diferenciação. fator de crescimento de fibroblasto (FGF). 37 . (Levitzki. Os RTKs consistem de uma porção extracelular que se liga aos ligantes polipeptídicos. envolvidos na transcrição de genes relacionados à proliferação celular. Receptores tirosina quinase (RTK) são glicoproteínas transmembrânicas que são ativados pela ligação de ligantes cognatos e transduzem o sinal extracelular para o citoplasma através da fosforilação do resíduo de tirosina no próprio receptor (autofosforilação) (Hubbard e Till. Ab1 (Fig 10). migração. existe uma ampla família de tirosina quinases citosólicas não receptoras (NRTKs). Janus Kinases (Jaks). Esses receptores têm sido implicados na angiogênese e na adesão celular (Isoldi e Castrucci. o qual possui um importante papel na regulação da homeostase cardiovascular. 9). As proteínas tirosina quinase foram identificadas em 1980 como as maiores representantes no câncer resultando na investigação desses receptores como alvos terapêuticos. Os receptores guanililciclases (GC) são ativados por um hormônio peptídico denominado peptídeo atrial natriurético (ANP). Em contrapartida. 2003). Os NRTKs são componentes das cascatas de sinalização disparadas por RTKs e por outros receptores de superfície como receptores acoplados a proteína G e receptores do sistema imunológico (Hubbard e Till. Os RTKs ativam numerosas vias de sinalização dentro da célula. 2000). A grande maioria de RTKs é monomérica e dimeriza-se na presença do ligante. 2009). A ativação dos receptores NPRC resulta na inibição da atividade da adenililciclase (Woodard e Rosado. c-Fos e Elk-1. levando a proliferação. resultando na ativação de fatores de transcrição como CREB. resultando em autofosforilação e fosforilação de substratos SHC. fator de crescimento derivado de plaqueta (PDGF). a cascata de MAP quinases (MAPK) é recrutada.. A ativação do receptor pelo ligante leva à ativação da porção quinásica do receptor. tais como fator de crescimento epidérmico (EGF).

Via de sinalização envolvendo a participação das MAP quinase. Pág. Figura 10 – Via de sinalização dos receptores tirosina quinase. envolvendo a participação das tirosinas quinases citosólicas. 38 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 9 – Receptores tirosina quinase.

e um domínio c-terminal menos conservado. mineralocorticóides. como apresentado na figura 11 (Ribeiro e col. A diferente classificação é baseada no modo de ligação ao elemento responsivo ao DNA. Desse modo os receptores são divididos em: esteróides (glicocorticóides. 2002). 2005). Os receptores nucleares são bem difundidos e representam importante papel no desenvolvimento. derivados de esteróides (vitamina D3). Os receptores dessa classe são predominantemente ligados ao DNA como hetero-dímeros. causando modificação local da estrutura da cromatina para regular a expressão desses genes alvo (Hart. prostaglandinas) e receptores para os quais não foi encontrado ainda um ligante específico (receptores órfãos). fosforilação e interação com outras proteínas. Membros dessa classe são ligados ao DNA na ausência do hormônio. 1995). Os receptores nucleares representam uma classe evolutiva altamente conservada de fatores de transcrição em mamíferos. metabolismo. andrógenos e estrógeno). e podem ser classificados de acordo com o tipo de hormônio que se liga a eles.Sinalização Celular Superfamília do tipo 4: receptores reguladores da transcrição de genes A família de receptores reguladores da transcrição de genes ou receptores nucleares (NR) compreende fatores de transcrição de uma grande família de genes. não esteróides (hormônios da tireóide. A ligação do ligante ao receptor leva a mudança conformacional do domínio de ligação ao hormônio e conseqüente ativação transcricional.ou hetero-dímeros ou pela ligação de outras classes de fatores de transcrição ligados ao DNA. retinóides. Deste modo o papel do hormônio é induzir a ligação ao DNA. vitamina D. de ligação ao ligante (LBD). A ligação do hormônio leva a mudança conformacional. um domínio de ligação ao DNA altamente conservado (DBD). Em geral. incluindo receptores de hormônio da tireóide (TH). retinóides. (3) os receptores órfãos que podem se ligar ao DNA como formas monoméricas. (4) ou como dímeros (Tenbaum e Baniahmad. dissociação da proteína hsps e ligação a sequências do DNA como homodímeros. e assim são classificados dentro de quatro grupos. 1997). A ativação dos receptores nucleares ocorre através de ligantes lipofílicos. Estes podem ativar ou reprimir genes alvos pela ligação direta ao elemento responsivo ao DNA como homo.. (2) a segunda classe representa os receptores tais como hormônios da tireóide. prostaglandinas e vitamina D3. Essa atividade tem sido relacionada à formação de complexos com moléculas que parecem servir como co-ativadoras ou co-repressoras. os receptores nucleares possuem em comum três domínios: um variável domínio amino-terminal de ligação ao promotor. homeostase e doenças (Togash e col. 39 . dependendo de sua habilidade para se ligar à sequência de DNA e dimerizar: (1) os receptores esteróides são associados com a proteína de choque térmico (“shock heat” hsps).. colesterol entre outros. retinóides. esteróides. O motivo de ligação ao DNA é Julho/2010 Pág.

.. homodimerização. heterodimerizção e ativação transcricional (Ribeiro e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” essencial para o reconhecimento do elemento responsivo pelo receptor. 2007. O motivo de ligação consiste de 66 aminoácidos contendo dois motivos em dedos de zinco. Quatro resíduos de cisteína altamente conservados são requeridos para coordenar a ligação dos íons Zn2+ (Ribeiro e col. 1995). Modificado de Rang e Dale. 1995. O LBD confere especificidade na ligação ao ligante e possui um número de funções reguladas por essa ligação. O esquema apresenta os diferentes domínios dos receptores nucleares. 40 Julho/2010 . Tenbaum e Baniahmad. translocação para o núcleo. Pág. Figura 11 – Estrutura dos receptores nucleares. Essas funções incluem a liberação do receptor do complexo hsps. 1997).

Sinalização Celular Fisiologia Celular do Plasmodium durante a fase assexuada Laura Nogueira da Cruz Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Plasmodium laurancruz@gmail. É importante lembrar que a malária pode ser muito mais antiga que a humanidade e existem quase 100 espécies de plasmódios. A Africa subsaariana concentra 90% dos casos. quando os insetos hematófagos já existiam). malariae.wikipedia. vivax e P. gambiae. que transmite as espécies infectantes humanas P. P. 2005). darling. (Fonte : http://en. 2005). falciparum é o parasita que mais causa morte por malária no mundo ocorrendo em maior incidência na África. vivax (Who. Plasmódios de roedores e aves são freqüentemente utilizados. sendo as três primeiras espécies encontradas no Brasil. como modelos experimentais. no Brasil e A. 41 . P. no entanto mais de 40% da população mundial está sob risco da doença. 22 dos quais infectam macacos e 50 parasitam aves ou répteis (que tiveram seu apogeu nos períodos Permiano e Triássico. a maioria dos casos é de P. 1) onde ocorre a distribuição geográfica do mosquito do gênero Anopheles (A. ovale. na África).com Malária Malária é uma das mais importantes infecções por protozoários no mundo causando morte de mais de 2 milhões de pessoas anualmente (Who. falciparum. No Brasil.org/wiki/File:Malaria_geographic_distribution_2003. Entender a complexa biologia do parasita é fundamental para o desenho de novas e mais eficientes drogas e desenvolver novas estratégias para combater a epidemia. P. principalmente os habitantes das regiões tropicais e subtropicais do globo (Fig. no laboratório.png) Julho/2010 Pág. Figura 1: Potencial mundial de transmissão de malária.

o risco de transmissão local é pequeno ou inexistente e a quase totalidade dos casos de malária registrada é importada da Amazônia Legal ou de outros países. área endêmica do país. um grande problema no combate à malária deve-se ao aumento da resistência dos parasitas a cloroquina. pois apesar de todas as pesquisas e informações adicionais o número de casos de malária vem aumentando e uma vacina eficiente provavelmente não estará disponível no futuro próximo (Hoffman. 1993. febre no período de dois meses após o curso da quimioprofilaxia ainda pode ser originada pela infecção. Nos Estados fora da Amazônia Legal. Mato Grosso. Amapá. para avaliação dos efeitos colaterais. 1991). O regime profilático consiste em prescrição médica dos medicamentos antimaláricos de acordo com as espécies de Plasmodium predominantes. Pará. Roraima e Tocantins. Amazonas. Atualmente o que pode ser feito são medidas de profilaxias para pessoas que se dirigem a áreas de maior transmissão. preferencialmente contra novos alvos (McKerrow e col. no Brasil. e prolongada por quatro semanas após a saída da área endêmica.. Pág. Rondônia. Outro propósito da profilaxia se estender por um tempo depois da visita a área de risco é para evitar que se importe doença para a origem do viajante. 2005) A quimioprofilaxia deve ser iniciada uma semana antes da viagem. A incidência da malária. responsáveis por recaídas. aumentou cerca de 10 vezes nos últimos 30 anos. período de incubação que pode levar á formação de formas latentes do parasita. perfil de resistência ás drogas e avaliação dos efeitos colaterais associados ao uso das mesmas (Farias.. Maranhão. 1996). 1998). a fim de sustentar a ausência dos parasitas na corrente sangüínea. 42 Julho/2010 . mesmo após a sua transição pelo estágio hepático. derivados de cloroquina e a grande maioria de antimaláricos introduzidos (Olliaro e col. apesar das medidas preventivas. Para inibir o aparecimento de resistência a WHO recomenda que o tratamento utilize pelo menos o combinado de 2 anti-maláricos. Além disso. os esforços para controlar o mosquito Anopheles tiveram pouco sucesso (Alonso. Contudo. 1996). Rosenthal.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Combate à malária Nos últimos cinqüenta anos muitas pesquisas foram realizadas fomentando o desenvolvimento de drogas sintéticas antimalaricas. grau de risco da infecção da área de destino. principalmente da África Limitações da quimioterapia no controle da malária demonstram a necessidade de novas drogas. baixo custo e necessidade de ser aplicada apenas uma vez por semana. no entanto. A mais importante dessas foi a cloroquina que possui baixa toxicidade. Atualmente. 2002). por exemplo. composta pelos estados do Acre. sendo que hoje 99% desses casos ocorrem na Amazônia Legal (FNS.

Julho/2010 Pág. 43 . o mosquito – onde ocorre o ciclo sexual do parasita terá que picar o vertebrado que tem gametocitos presentes na circulação.6 X 1. Uma vez na corrente sanguínea. a infecção se inicia pela picada do mosquito Anopheles. fêmea. Possui um ciclo de vida caracterizado pela sucessão de várias formas especializadas de desenvolvimento Em vertebrados. Figura 2: Ciclo de vida da malária (Fonte: http://en. (Chouaibou e col. alguns merozoitos não invadem os eritrócitos e se diferenciam em gametócitos. que combatia o mosquito! Ciclo de vida O Plasmodium é um parasita eucarioto unicelular. 2).org/wiki/Malaria).wikipedia. que retira 3 a 4 microlitros de sangue. Por um processo ainda desconhecido. 2006). Estes.000 merozoitos... trofozoito e esquizonte. de vida intracelular obrigatória. os esporozoitos invadem os hepatócitos e se desenvolvem para o estágio assexuado de merozoito. Estes são liberados diretamente na corrente sangüínea e invadem os eritrócitos (Sturn e col. enquanto injeta saliva contendo alguns esporozoitos.Sinalização Celular Trabalhos recentes mostram que o controle com telas mosquiteiras impregnadas com inseticida ajuda no combate da malaria. Para o fechamento do ciclo. que mede 1. A malaria caiu na década de 50 pelo esforço combinado da cloroquina e do DTT.0 uM e pertence ao filo Apicomplexa. após o ciclo no mosquito formarão os esporozoitos que migrarão até a glândula salivar e serão transmitidos ao hospedeiro vertebrado (Fig. 2006). Durante este período a infecção é assintomática e cada esporozoito forma 30. 2001). Na corrente sangüínea amadurecem passando pelos estágios de anel. a forma infectante do mosquito (Garcia.

os processos de divisão celular e expressão gênica específicas de cada estágio são de extrema importância. típicas da doença (Hawking. coatneyi P.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” O ciclo intraeritrocítico é. knowlesi P. gallinaceum P. brasilianum Hospedeiro vertebrado primata pássaro roedor roedor roedor roedor galinha homem Homem Primata Primata Homem Pássaro Primata Período do ciclo intraeritrocítico 24h 24h 24h 24h 24h 18h 36h 48h 48h 48h 48h 72h 72h 72h No caso do desenvolvimento intraeritrocítico do Plasmodium. (2000) que o hormônio melatonina é capaz de sincronizar o desenvolvimento do Plasmodium in vivo e in vitro. Quando se mantém parasitas em cultura. Função da melatonina A transição do estágio intraeritrocítico. Pág.. falciparm P.Período do ciclo intraeritrocítio de diversas espécies de Plasmodium (Modificado de Garcia. malariae P. Foi demonstrado por Hotta e col. o responsável por toda manifestação clínica na malária. Dependendo da espécie de parasita. berghei P. cynomolgi P. 1). respectivamente (Garcia.. vinckei P. vivax P. e col. 44 Julho/2010 . 2001) (Tab. 2001). chabaudi P. bem como o processo de invasão in vivo e a produção de gametócitos são processos altamente sincronizados (Garcia. 2001) e na maioria mamíferos estudados seguem ciclos múltiplos de 24h (Tab. vivax. e col. cathemerium P. inui P. Parasita P. yoelii P. sendo na ruptura do eritrócito infectado e conseqüente liberação do parasita para infecção de novas células que ocorrem febre e tremedeira. 1970). 1) Tabela 1. falciparum e P. estes sintomas ocorrem em intervalos distintos – 3 ou 4 dias para P.. portanto.

. 2003). Especificamente. 2005).. 2003). A melatonina tem um largo espectro de atuação (vertebrados. 2000).. 1999. Varoti e col. 2003).Sinalização Celular a sincronia é perdida. 1997. Homeostasia e sinalização por cálcio Variações na concentração de cálcio intracelular exercem papel fundamental em muitos processos biológicos de células eucarióticas. pois no momento da infecção forma o vacúolo parasitóforo (VP) Julho/2010 Pág. Dentro deste contexto. um dos fenômenos que sugeriram que o hospedeiro tem papel fundamental no estabelecimento do ritmo.. 45 . Como qualquer célula eucariótica. por sua vez... (2000) consideram que a melatonina é capaz de ativar a cascata da fosfolipase C que. Sabe-se que para Plasmodium falciparum o Ca2+ extracelular é indispensável no processo de invasão do eritrócito pelo parasita e estudos fisiológicos mostram envolvimento da sinalização de Ca2+ no processo de maturação do parasita. no retículo endoplasmático além de trocadores em organelas intracelulares e na membrana plasmática (Passos e Garcia. A ausência de Ca2+ extracelular é normalmente incompatível com as funções normais da célula e sua sobrevivência. (Hotta e col. nos estágios trofozoitos do Plasmodium. ativa a via de inositol 1. que está presente em grande quantidade na glândula pineal. Hotta e col. 2003) e o outro é um compartimento ácido (Garcia e col. sendo que o ambiente extracelular encontrado pela maior parte das células eucarióticas situa-se ao redor de 1 mM.4. o citoplasma do eritrócito possui baixa concentração de cálcio (menor que 100 nM ). As células eucarióticas possuem mecanismos para manter a homeostasia de Ca2+ estes incluem uma bomba de cálcio na membrana plasmática. Gazarini e col. Garcia e col. (Garcia.5-triposfato (IP3) e libera Ca2+ do retículo endoplasmático (RE). através da invaginação da membrana citoplasmática do eritrócito.. 1997. como organização do citoesqueleto. É interessante observar ainda que os precursores da melatonina. Este hormônio é sintetizado a partir de serotonina. 1998. plantas e protozoários) podendo ser sintetizada em vários tecidos. 1998). divisão e diferenciação celular (Berridge.. Varotti e col. porém sua síntese rítmica é confinada primariamente à glândula pineal. nosso laboratório demonstrou que o parasita resolve o problema de pouco Ca2+ no meio em que sobrevive. que são devirados do triptofano. para o parasita da malária foi demonstrado a existência de 2 compartimentos de Ca2+: um é o clássico retículo endoplasmatico (Passos and Garcia. têm o mesmo efeito da melatonina tanto no ciclo celular do Plasmodium quanto na mobilização de Ca2+ de estoques intracelulares (Beraldo e col.

1948. são necessárias proteases do parasita..1999). Várias proteases de protozoários foram identificadas e caracterizadas sendo utilizadas pelos protozoários em diferentes funções tais como: invasão de células e tecidos do hospedeiro. 1988).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e inverte a polaridade da Ca2+ ATPase da membrana (bombeando ativamente Ca2+ para o interior do VP).. Desta forma pode manter o ambiente de alta concentração de Ca2+ necessário ao desenvolvimento do parasita (Gazarini e col. giardia e plasmodium (Rosenthal. Sabe-se ainda que para a invasão dos eritrócitos por merozoitos e ruptura pelos esquizontes maduros. 1986). Enzimas proteolíticas Enzimas proteolíticas possuem um importante papel no ciclo de vida de todos os protozoários medicamente importantes como leshmania. Em estudos realizados com P. 2002). Groman. Dependendo da especificidade da seqüência peptídica e das proteases pode-se então determinar atividades e funções proteolíticas. 46 Julho/2010 . com seqüências específicas de aminoácido capazes de penetrar na célula e emitir fluorescência quando clivado pela protease (Fig. O conteúdo da hemoglobina em eritrócitos infectados diminui 25-75% durante o ciclo de vida do parasita eritrocítico (Ball e col. cisteina e aspartil proteases). 2003).1999). As proteases podem ser classificadas em quatro classes (Neurath 1989. toxoplasma. 3). Barrett.. degradação de mediadores da resposta imune e hidrólise de proteínas para suprir necessidades nutricionais do parasita (Rosenthal. Roth e col. 1994). assim denominadas pela existência de sítio de aminoácido chave e a metaloprotease . 1951. Peptídeos fluorescente para determinar atividade de proteases Recentemente foram desenvolvidos peptídeos sintéticos. pois durante estes eventos proteínas do citoesqueleto do eritrócito precisam ser hidrolizadas e algumas proteínas do parasita são proteolicamente processadas (Klemba. Outra importante função das proteases inclui a degradação da hemoglobina que é utilizada como uma fonte de amino ácido livre pelo parasita (Scheibel e Sherman. chabaudi utilizou-se este quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF) e microscopia confocal para demonstrar-se que Pág. a concentração de aminoácido livre é maior nos eritrócitos infectados do que nos não infectados e a composição dos aminoácidos de eritrócitos infectados é semelhante à composição de aminoácidos da hemoglobina. pela necessidade do íon metálico para catálise. sendo três delas (serine.

Figura 3: Representação esquemática do mecanismo de funcionamento dos substratos quelante interno fluorescente de peptídeos (IQF). 2009).(Modificado de Carmona et al. nigericina (ionóforo K+/H+) e ionomicina (ionóforo Ca2+/H+) (Farias et al. Estas proteases estão localizadas predominantemente no citoplasma do parasita e sua atividade pode também ser induzida por agentes que aumentam o cálcio citosolico como tapsigardina (inibidor específico da Ca2+ ATPase do retículo endoplasmático). 2005). Julho/2010 Pág. 47 .Sinalização Celular melatonina induz atividade das thiol protease em uma forma cálcio-dependente (Farias et al. 2005).

48 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Atualmente. 1998). 1993b). introduzindo o conceito de silenciamento de RNA (RNA silencing) (Baulcombe. um grande número de fenômenos de silenciamento gênico que ocorriam em nível transcricional e póstranscricional foram descritos em plantas.. 2000). Até o final da década de 1980.... somente modificações na estrutura da cromatina ou de proteínas eram classificadas como epigenéticas (Lewin. um processo conhecido como silenciamento gênico pós-transcricional (posttranscriptional gene silencing. formação de heterocromatina (Kennerdell e col. RNAi) em animais. Modificações epigenéticas na expressão gênica são características herdáveis que não podem ser explicadas por alterações na seqüência de DNA. 49 . durante a década de 1990. 2001). 2000.. 2004a). Matzke e col. Logo após os primeiros estudos com plantas transgênicas resistentes a vírus (Lindbo & Dougherty. PTGS) em plantas e RNAinterferência (RNA interference. O componente unificador dos diferentes processos de silenciamento de RNA já estudados em diversos organismos é o RNA de fita dupla (dsRNA). Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido em vários tipos de modificações genômicas e de cromatina.. animais e protozoários. 2003). incluindo metilação do DNA genômico (Wassenegger e col.bio@hotmail. 1994). uma classe de pequenos RNAs com função regulatória. 2002) e eliminação de DNA (Mochizuki e Gorovsky. Estas descobertas indicam que os mecanismos de silenciamento de RNA controlam a expressão a nível transcricional e Julho/2010 Pág.Sinalização Celular RNAi: ouvindo a voz do silêncio Maísa Costa Laboratório de Neurotransmissão e Regulação da Pressão Arterial maisa.com Introdução O termo “silenciamento gênico” refere-se a uma série de mecanismos por meio dos quais a expressão de um ou mais genes é regulada negativamente. 1992). O silenciamento é considerado uma modificação epigenética. Componentes da maquinaria de PTGS e RNAi também estão envolvidos no processamento e funcionamento de microRNAs. fungos. e que podem resultar na repressão (silenciamento gênico) ou ativação (ativação gênica) da expressão do gene (Vaucheret e col. 2001). sabe-se que este constitui também um mecanismo eficiente de regulação gênica. A presença desse tipo de molécula pode induzir a degradação de RNAs mensageiros (mRNA) homólogos. que atua principalmente no controle de genes envolvidos no desenvolvimento do organismo e na manutenção da integridade do genoma (Denli & Hannon. percebeu-se que o silenciamento de RNA representava um sistema ancestral de defesa contra vírus e retrotransposons (Lindbo e col. Entretanto. que foram originalmente identificados como responsáveis pela repressão da tradução em Chaenorhabditis elegans (Hutvagner e col.

Van Der Krol e col. O fenômeno foi denominado co-supressão. Neurospora crassa. a expressão do gene endógeno pré-existente e da cópia introduzida. Plantas de tabaco foram transformadas com o gene que codifica a proteína capsidial do potyvírus Tobacco etch virus (TEV) (Goodwin e col. crassa. Van Der Krol e col. A análise molecular das linhagens transgênicas comprovou que a introdução da cópia extra havia efetivamente bloqueado a biossíntese de antocianinas. inibindo. ou seja. conforme verificado pela identificação de componentes específicos ou que não estão presentes em todos eles. pois a introdução de um transgene levou ao silenciamento simultâneo do próprio transgene e do gene endógeno homólogo (Napoli e col... Lindbo e Dougherty. foi observado pela primeira vez em plantas transgênicas por dois grupos independentes de pesquisadores (Napoli e col. 1990. Romano & Macino. 1990). Drosophila melanogaster. camundongos e humanos. C. e em animais (Drosophila e C.. A estratégia escolhida consistia em superexpressar o gene que codifica a chalcone sintase (CHS). 1995). e que a maquinaria de silenciamento pode operar nos compartimentos nuclear e citoplasmático. Para isso foi introduzida uma cópia extra do gene Chs sob controle do promotor 35S do Cauliflower mosaic virus (CaMV). apóiam essa hipótese (Denli & Hannon. 1996. similaridades evidentes sugerem que o silenciamento de RNA constitui um sistema conservado entre diferentes organismos. Entretanto. 1998).. nos quais foi denominado RNAi (Fire e col. um fenômeno semelhante foi observado por pesquisadores que tentavam engenheirar plantas transgênicas resistentes a vírus. no qual foi denominado quelling (Cogoni e col. uma enzima chave na biossíntese de antocianinas. Histórico O fenômeno. elegans). Tetrahymena thermophila. Em ambos os casos. Fenômeno semelhante foi relatado no fungo N. Alguns anos após a descrição da co-supressão. simultaneamente. 50 Julho/2010 .. 1992).. 1990. cujas flores apresentassem uma coloração mais intensa. 1990). 1996. o mecanismo apresenta particularidades em cada um desses organismos. Entretanto. Apesar de algumas diferenças nos mecanismos. A clonagem e caracterização de diversos genes que codificam componentes do sistema em Arabidopsis thaliana. ao contrário do esperado.. elegans. Estes pesquisadores tinham como objetivo criar petúnias transgênicas. sem pigmento.. as diferentes linhagens transgênicas obtidas possuíam padrões distintos de variegação floral. 2003). 1993b) ou a replicase do potexvírus Potato X virus (PVX) (Mueller e col.. esperava-se que o excesso de proteína viral afetaria a Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pós-transcricional. 1992. A inibição da pigmentação das flores foi diretamente correlacionada com uma redução específica no acúmulo de mRNA do gene Chs. Lindbo e col. incluindo linhagens que apresentavam flores totalmente brancas. Schizosaccharomyces pombe. atualmente denominado silenciamento de RNA.

1995. O mecanismo de indução de silenciamento por meio da replicação de vírus foi denominado virus-induced gene silencing (VIGS) (Kjemtrup e col. 1998). interrompendo o seu ciclo de infecção...Sinalização Celular replicação do vírus.. e que servem como “guia” para direcionar a degradação de mRNAs homólogos (Bernstein e col. 2001. O paradoxo foi resolvido quando se demonstrou que o dsRNA é o indutor de silenciamento. 51 ... ou produziam em pequena quantidade. Utilizando a técnica de expressão de moléculas anti-senso para inibir a expressão gênica. 1996... Curiosamente. elegans.. e que o silenciamento nos experimentos com moléculas senso fita simples era devido à presença de uma pequena quantidade de dsRNA contaminante nas preparações in vitro de RNA fita simples (Fire e col. e VIGS) (Hamilton e Baulcombe. 2000). observou-se que algumas linhagens transgênicas apresentavam-se resistentes e outras não. Montgomery e Fire. Ruiz e col. A princípio. foram primeiramente observados em plantas. enquanto nas linhagens suscetíveis as plantas expressavam grande quantidade de mRNA e proteína transgênicos (Goodwin e col. Estudos adicionais em Drosophila demonstraram que os siRNAs são resultado da clivagem de dsRNA injetado na célula. 1999). as linhagens resistentes eram aquelas cujas plantas não produziam. de orientação senso e antisenso. que apresentavam homologia com o RNA silenciado e que estão associados ao processo (Hamilton e Baulcombe. A replicação de vírus com genoma de RNA também pode disparar eficientemente o mecanismo de silenciamento. A indução de PTGS por vírus foi confirmada com a observação de que genes endógenos ou transgenes eram silenciados após a infecção com vírus recombinantes contendo parte da seqüência do gene ou transgene. sob diferentes sistemas de indução de silenciamento (introdução de um transgene com homologia a um gene endógeno. Oligonucleotídeos Julho/2010 Pág. 1995). os RNA mensageiros (mRNAs) e as proteínas virais. 1998. 1995). atualmente denominados small interfering RNAs (siRNAs). introdução de um transgene sem homologia com gene endógeno. A primeira evidência direta de que dsRNA pode levar ao silenciamento foi obtida em C. 1998). Esses pequenos RNAs. Ratcliff e col. A análise da taxa de transcrição dos transgenes em plantas resistentes e suscetíveis comprovou que a introdução dos transgenes virais conferia resistência por meio do silenciamento gênico postranscricional de seqüências homólogas (Mueller e col. Kumagai e col. foi demonstrado que moléculas com polaridade senso eram tão eficientes para a inibição quanto moléculas com polaridade anti-senso (Guo & Kemphues. 1998. Mueller e col. 1995). 2001. 1999). o acúmulo de siRNAs em ambas as orientações sugeriu que a formação de dsRNA ocorre antes da degradação do mRNA. A especificidade do mecanismo de silenciamento de RNA foi explicada com a identificação de pequenos RNAs de 21-25 nucleotídeos (nt). Zamore e col. Além de explicar a especificidade do sistema...

Essa RNAse III. 2001. pois em cruzamentos entre indivíduos silenciados ou não. 2001.. Estudos subseqüentes demonstraram que proteínas Argonauta também são componentes do RISC em mamíferos.. Hammond e col. 2000). foi demonstrado que AGO2 de humanos possui atividade de RNase III. A enzima Dicer é conservada evolutivamente. Meister e col. em C. com homólogos presentes em fungos. A geração dos siRNAs a partir de dsRNA foi elucidada em trabalhos com Drosophila. Martinez e col. A natureza deste sinal sistêmico ainda não está totalmente esclarecida. 2004. 1996). Analogamente. plantas e animais superiores. 2004.. Inicialmente foi proposto que. pertencente à família de proteínas Argonauta (Hammond e col. Recentemente. Knight e Bass. PTGS foi transmitido com 100 % de eficiência a partir de porta-enxertos silenciados a enxertos não silenciados contendo o transgene homólogo. crassa (Cogoni e col. denominada “Dicer”.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sintéticos de 21 a 25 nt foram suficientes para induzir RNAi in vitro (Elbashir e col.... protozoários e plantas (Carmell e Hannon.. 2001). onde uma ribonuclease do tipo RNAse III (endonuclease com afinidade por dsRNA) foi parcialmente purificada em associação a fragmentos de RNA de aproximadamente 25 nt. 2001b). toda a progênie é silenciada (Grishok e col. 2001) e que mutantes de C. fungos.. indicando que o sinal é específico em termos de seqüência (Palauqui e col.. Okamura e col. 2002). 2001a) e in vivo (Elbashir e col. 2001).. A caracterização do complexo RISC foi iniciada em Drosophila com a identificação da proteína AGO2.. 2004. que media a clivagem do mRNA alvo após sua associação ao siRNA no complexo RISC (Liu e col. e os siRNAs servem como guia para a degradação de mRNAs homólogos em um complexo ribonucleoprotéico denominado RISC (RNA induced silencing complex) (Bernstein e col. Este fator é dominante.. mas não a enxertos que não possuíam o transgene homólogo. RNAi pode ser disparado em todo o organismo injetando-se dsRNA na cavidade bucal ou por meio da ingestão de bactérias expressando dsRNA (Timmons e col. AGO2 foi co-purificada com o RISC e co-imunoprecipitada com Dicer. elegans em ortólogos a Dicer (DCR-1) não ativam o sistema de RNAi induzido por dsRNA (Grishok e col. cuja seqüência correspondia à de dsRNA de indivíduos nos quais RNAi encontrava-se ativo (Hammond e col... 2004). 52 Julho/2010 . Em plantas. na ausência de dsRNA. 2001. 2001). 1997).. Ketting e col. elegans. devido à especificidade de Pág.. Heterocárions contendo núcleos apresentando genes silenciados e não silenciados exibiam o fenótipo silenciado. 250 nt) em um processo dependente de ATP. 2001). A conservação funcional desta família de proteínas e seu requerimento para RNAi veio com a demonstração de que Dicer de humanos também cliva dsRNAs em siRNAs (Bernstein e col.. A existência de um fator difusível dominante envolvido na sinalização sistêmica do silenciamento foi demonstrada inicialmente em N. 2000). consistindo provavelmente na proteína Slicer. nematóides. produz siRNAs a partir de moléculas relativamente curtas de dsRNA (aprox.

elegans. Os produtos destes genes eram estruturalmente semelhantes aos stRNAs lin-4 e let-7: possuíam aproximadamente 22 nt e eram potencialmente processados por Dicer a partir de um precursor com capacidade de adquirir estrutura secundária em forma de grampo. sinalização e diferenciação. Evidências sobre o envolvimento da maquinaria de RNAi/PTGS no desenvolvimento de diferentes organismos vieram com a descoberta de uma nova classe de pequenos RNAs. Let-7. 2002b). um RNA (Vaucheret e Fagard.. Inicialmente.. 2001. diferente dos stRNAs lin-4 e let-7.. 2001). e que esse pareamento gera uma região de dsRNA que é clivada pelo complexo RISC (Grishok e col. Estudos de microinjeção forneceram evidências de que CmPRSP1 pode mediar o movimento de pequenos RNAs de 25 nt fita simples. A primeira evidência de que dsRNA pode induzir alterações na cromatina foi a observação de que a infecção de plantas por viróides levava à metilação de seqüências endógenas que possuíam homologia com o genoma do viróide Julho/2010 Pág. foi descoberto um segundo gene. que também codifica um pequeno RNA de 22 nt envolvido no desenvolvimento de C.. foram denominados de small temporal RNAs (stRNAs) (Pasquinelli e col. Pouco tempo depois foram clonados diversos genes que codificam pequenos RNAs em Drosophila. acredita-se que os miRNAs possuem papel fundamental na regulação gênica pós-transcricional.. foi demonstrado que o gene Lin-4. Recentemente. apoptose. 2004). propondo-se que eles mediam a repressão de Lin-14 por pareamento na região 3’NTR.CmPSRP1). a análise bioquímica de extrato de floema de abóbora levou à caracterização de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples (Cucurbita maxima phloem small RNA binding protein 1 . apoiando a hipótese de que o sinal sistêmico contém uma proteína de ligação a pequenos RNAs (mas não necessariamente siRNAs) (Yoo e col.Quintana e col. C. Lee e Ambros. elegans. Atualmente. mas não de moléculas de RNA fita dupla. Slack e col. este fator seria pelo menos em parte.. Lau e col. Entretanto... Nos casos em que o alvo desses pequenos RNAs já foi identificado. Arabidopsis e humanos (Lagos. Sete anos depois da descoberta de Lin-4. 2001.. 1993). inibindo o processo de tradução. 2001). os micro RNAs (miRNAs).Sinalização Celular seqüência. O termo “microRNA” (miRNA) foi introduzido para se referir a todos os pequenos RNAs originados a partir de um transcrito endógeno processados por uma RNase III tipo Dicer (Hutvagner e col. eles não interferem com o processo de tradução.. 2000). um com aproximadamente 22 nt e o outro com 16 nt (Lee e col. comprovou-se que ocorre pareamento entre o pequeno RNA e a região codificadora do mRNA alvo. conhecido por controlar o tempo de desenvolvimento do estágio larval de C. Devido ao papel de ambos no controle do desenvolvimento. 2000). Llave e col. e sim um par de pequenos RNAs. em plantas. 53 . 2001. com papel em processos como a proliferação celular. 2000. não codificava nenhuma proteína. 2001). elegans (Reinhart e col. Estes pequenos RNAs eram complementares a várias regiões da região 3’ não-traduzida (3’NTR) do gene Lin-14.

de um transgene.. elegans e Drosophila (Akhtar e col. e com a formação de estruturas fechadas de cromatina que criam padrões estáveis e herdáveis de expressão gênica envolvidas em RNAi em C. No início de 2004. resultando na clivagem do mRNA ou na repressão de sua tradução (Baulcombe. por meio da metilação desta seqüência (Mette e col. 54 Julho/2010 . 2000.. Tabara e col. 1). Uma importante função para esta via é provavelmente proteger o indivíduo de desorganizações genômicas causadas por transposons (Baulcombe. A terceira via é nuclear e está associada à metilação de DNA e à formação de heterocromatina. Pág. 2004). ou mesmo bloqueando. onde foi demonstrado que as proteínas homólogas a Dicer e Argonauta são requeridas para o silenciamento de regiões centroméricas (Volpe e col. 1994). Estudos com proteínas supressoras de silenciamento codificadas por vírus demonstraram que estas vias podem se sobrepor em alguns pontos (Dunoyer e col. que está envolvida na degradação de RNA viral interferindo. 2002). Uma relação mais direta entre RNAi e silenciamento transcricional veio com trabalhos em S. cromoproteínas relacionadas com a repressão transcricional por favorecer a formação de heterocromatina. dsRNA pode ser formado por meio do anelamento de transcritos sobrepostos complementares (Baulcombe. neste caso em nível transcricional.. o ciclo de infecção. O dsRNA pode originar-se da transcrição de um gene endógeno... A primeira via é a de silenciamento citoplasmático via siRNAs. 2002).. ou de um intermediário da replicação de vírus com genoma de RNA. A ligação entre RNAi e remodelamento da cromatina veio com a descoberta das proteínas polycomb. 2004). 2004). 1999). O mecanismo do silenciamento de RNA Estudos genéticos demonstraram a existência de três vias de silenciamento de RNA (Xie e col. A segunda via é a de silenciamento de mRNAs endógenos via miRNAs. foi purificado um complexo induzido por RNA requerido para o início da formação de heterocromatina em S. denominado RITS (RNA-induced initiation of transcriptional gene silencing). A esta observação seguiu-se a descoberta de que dsRNA apresentando seqüências homólogas a regiões promotoras era capaz de induzir silenciamento gênico.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Wassenegger e col. 2004) (Fig. 2000). 2004). pombe.. pombe. Os miRNAs regulam a expressão gênica negativamente por meio do pareamento de bases específicos a mRNAs alvo.. Em vírus com genoma de DNA. Sua existência sugere que RNAi é um mecanismo que atua tanto em nível transcricional como pós-transcricional (Verdel e col. O complexo RITS inclui a proteína Argonauta AGO1 e pequenos RNAs homólogos a regiões centroméricas processados pela Dicer.

Essa via é ativada por meio de dsRNA produzido após a transcrição de transposons ou de seqüências endógenas arranjadas na forma de repetições diretas. Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos ou transgenes via siRNas. onde é degradado pela enzima DCL-2 (em plantas). A.Sinalização Celular Figura 1. de um transgene anti-senso ou de um transgene em repetição invertida. Os siRNAs são incorporados ao complexo RISC. Os miRNAs são transcritos a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo.Modelo para o silenciamento de RNA. Silenciamento transcricional via siRNAs. que irá degradar os mRNAs citoplasmáticos que possuam identidade com a seqüência do siRNA. O dsRNA é provavelmente transportado para o citoplasma. O dsRNA é processado pela Julho/2010 Pág. B. C. 55 . Silenciamento pós-transcricional de genes endógenos via miRNAs. Os vírus ativam essa via produzindo dsRNA durante sua replicação. gerando os siRNAs. indicando as três vias atualmente conhecidas. Uma molécula de dsRNA pode ser gerada a partir da transcrição de um transgene senso. gerando o miRNA. O miRNA é transportado para o citoplasma e incorporado ao complexo RISC. A enzima DCL-1 (em plantas) processa o precursor no núcleo.

Knight e Bass. DCL3 produz siRNAs derivados de retroelementos e de transposons e é requerida para o silenciamento de cromatina. 2004). embora o mutante dcl2 tenha apresentado somente uma redução transiente nos níveis de siRNAs em plantas infectadas com o Turnip crinkle virus. Esse complexo atua no DNA genômico. foram identificados dois parálogos de Dicer que atuam em pontos diferentes do mecanismo: Dicer1 é requerida para o processamento dos precursores de miRNAs. 2004). 2001. 2001. Ketting e col. S. Estudos genéticos e bioquímicos demonstraram que o silenciamento de RNA é um processo gradual com pelo menos quatro etapas: iniciação. a família gênica que codifica proteínas homólogas a Dicer possui quatro membros. animais e protozoários.. Hutvagner e col. As três vias do silenciamento de RNA requerem grupos de proteínas relacionas em plantas. envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Bernstein e col. elegans e DICER-LIKE 1 (DCL1) em Arabidopsis (Bernstein e col. 2002. sugerindo a existência de um mecanismo ancestral comum a estes organismos e às três vias. amplificação. Xie e col. resultando na metilação de seqüências homólogas ao siRNA ou na formação de heterocromatina.. 2001. um ou dois domínios de ligação a dsRNA e um domínio de função desconhecida (Carmell e Hannon. Esta clivagem requer ATP e é mediada por Dicer em Drosophila. fungos. sinalização sistêmica e manutenção.. 2001. embora com diferenças significativas (Zamore. DCR1 em C. 2004).. 2002).. pombe. Pág. enquanto Dicer2 está envolvida no processamento de dsRNAs longos (Lee e col. dois domínios catalíticos.. 2002. 2002). 2002).. DCL1 processa os precursores de miRNAs (Park e col. Dicer possui um domínio de RNA helicase na região amino-terminal. Os siRNAs resultantes do processamento via DCL3 estão associados a transposons e são um pouco mais longos (24 nt) do que os siRNAs resultantes do processamento mediado por DCL1 (21 nt) (Hamilton e col. um domínio central PAZ (Piwi. O modelo para a clivagem de dsRNA mediada por Dicer propõe que a enzima atua como um dímero antiparalelo. Na etapa de iniciação. 2001. 2001. ainda não foi estabelecida a função de DCL4. Experimentos adicionais serão necessários para comprovar o papel de DCL2. 2004c). C. Grishok e col. 2001).. 56 Julho/2010 . 2004). Argonaute e Zwilli) de ligação a RNA.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” enzima DCL-3 (em plantas)..... e os siRNAs resultantes são incorporados ao complexo RITS. 2005). dentre vários vírus testados (Xie e col. Até o presente. DCL2 é provavelmente requerida para a produção de siRNAs derivados de vírus. formando dois centros catalíticos que geram os siRNAs de 22 nt (Blaszczyk e col.. Em Arabidopsis. Volpe e col. Knight e Bass. o dsRNA é processado em siRNAs com aproximadamente 21-24 nt.. Xie e col. elegans e vertebrados possuem somente uma Dicer. 2001. (Modificado de Zerbini e col.. Em Drosophila. Schauer e col.

2002). Verdel e col. o que poderia facilitar a incorporação dos siRNAs ao RISC (Doi e col.. A família de proteínas Argonauta consiste no maior grupo de proteínas especificamente envolvidas no silenciamento de RNA. em Drosophila foram identificados cinco (Williams e Rubin. Grishok e col. 2002) e em humanos oito membros (Sasaki e col.. Mourelatos e col. 2004). Kidner e Martienssen.. 2003). 2002). levou à hipótese de que o silenciamento de RNA seria uma resposta adaptativa de defesa contra vírus (Al-Kaff e col. A observação de que plantas recuperadas de uma primeira infecção viral tornavam-se resistentes à reinfecção pelo mesmo vírus. 2003). Hutvagner e Zamore. Brigneti e col.. 2002. Funções biológicas associadas ao silenciamento de RNA A primeira função biológica proposta para o silenciamento de RNA foi estabelecida em plantas durante estudos sobre a resistência derivada do patógeno. indicando que AGO2 é a própria proteína Slicer (Liu e col. O complexo RISC possui atividade catalítica que cliva especificamente o mRNA alvo sem afetar o siRNA guia. pombe (Verdel e col. A função de R2D2 é discriminar qual das duas fitas do siRNA será incorporada ao RISC (Tomari e col. O número de parálogos identificados em diferentes organismos varia de um em S. 2001). Todos os complexos RISC já caracterizados possuem pelo menos uma proteína da família Argonauta (Hammond e col. 2004). 2002). Evidências adicionais foram obtidas com a observação de que plantas mutantes defectivas para o silenciamento são hipersensíveis à infecção por alguns vírus (Morel e col. 1998. Diversas evidências sugerem que as diferentes proteínas Argonauta não são funcionalmente redundantes em um determinado organismo. A fita incorporada será aquela cujo terminal 5’ se anela com menor energia específica ao terminal 3’ da fita complementar.. e pela descoberta de proteínas virais com capacidade de suprimir o silenciamento em plantas (Anandalakshmi e col... 2001.. Covey e col. 2003). 1997).. 2003.. 1998.. Em humanos foi demonstrado que o domínio Piwi presente em Dicer media interações proteína-proteína entre proteínas Argonauta e Dicer. 57 .. 2002. Martinez e col. 2002. O RISC direciona a clivagem seqüênciaespecífica de mRNAs complementares (Hutvagner e Zamore. 2002. Pham e col. 2004).. Em Arabidopsis foram identificados dez membros (Morel e col. 2004). e foi demonstrado que mutações em AGO2 de mamíferos inibem a capacidade de clivagem do RISC. 1998. devido à ativação e manutenção do silenciamento.. 2004) a mais de vinte em C. 2003).... A subunidade catalítica é denominada Slicer. 2000. que contém domínios de ligação a dsRNA (Liu e col. Análises genéticas em Arabidopsis demonstraram que AGO1 está envolvida nas vias de silenciamento mediadas por siRNAs e miRNAs (Fagard e col. enquanto AGO4 está envolvida em direcionar modificações na cromatina (Zilberman e col..Sinalização Celular O siRNA de fita dupla derivado do processamento de dsRNA por Dicer se associa à proteína R2D2.. elegans (Carmell e col... Julho/2010 Pág.

58 Julho/2010 . incluindo o controle da apoptose (Brennecke e col. os miRNAs são processados pela Dicer (Lee e col. Caráter sistêmico do silenciamento de RNA Uma característica marcante do silenciamento de RNA é seu caráter sistêmico. Em animais. O papel do silenciamento de RNA foi consideravelmente ampliado com a descoberta dos miRNAs. Atuando de forma análoga aos siRNAs. particularmente aqueles envolvidos na regulação de genes que controlam o desenvolvimento (Kasschau e col. 2002). 1998) e animais (Li e col. indivíduos com mutações em componentes da via de RNAi apresentam uma taxa mais elevada de transposição (Ketting e col. A maioria dos miRNAs já identificados em plantas possui como alvo mRNAs que codificam fatores de transcrição. 2002). Apesar da falta de evidências diretas.. Rhoades e col. 2003b) e estão associados ao RISC (Martinez e col. o metabolismo de lipídeos (Xu e col. As primeiras suspeitas sobre a existência de um “fator difusível” vieram da observação de que Pág. o silenciamento de RNA é específico contra elementos exógenos. 2002.. o que leva à degradação do mRNA e conseqüente regulação negativa da expressão gênica. Volpe e col. estabelecendo-se o envolvimento do mecanismo na regulação póstranscricional de genes endógenos. Outro indicativo dessa função foi a detecção de siRNAs derivados de retrotransposons em Trypanossoma brunei. 2002).... pombe e a eliminação de grandes fragmentos de DNA do genoma de Tetrahymena thermophila (Hall e col.. Taverna e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Kasschau e Carrington.. incluindo a formação de heterocromatina em S. outra função proposta para o mecanismo é a de remoção de RNAs aberrantes não funcionais do núcleo ou do conjunto de mRNAs celulares (Tijsterman e col. Descobertas recentes sugerem que o silenciamento de RNA está envolvido na formação da cromatina e/ou reorganização genômica. 2001). a supressão de tumores e a resistência a estresses oxidativos (Lewis e col. elegans e Chlamydomonas reinhardtii.. 2003).. a resposta pode ser amplificada e desencadeia uma resposta massiva contra um invasor (nesse caso. 2003.. anelando-se ao mRNA alvo e formando uma região de dsRNA. 2003). os mRNAs controlados por miRNAs estão envolvidos em uma ampla gama de processos biológicos. indicando que o intermediário de dsRNA produzido durante o ciclo de transposição pode ser processado pela enzima Dicer (Djikeng e col. 2002. 2002).. 2003). Além da defesa contra infecção por vírus. 2002).. De forma análoga ao sistema imunológico presente em aves e mamíferos. 2002)... 1999). uma molécula de ácido nucléico) (Plasterk. Em C. A função do silenciamento de RNA na defesa contra vírus e transposons levou à sugestão de que o mecanismo funcionaria como um “sistema imune” do genoma. o silenciamento de RNA também está envolvido na proteção contra a transposição de DNA.

indicando que o sinal sistêmico não é uma característica específica de um gene em particular. ou seja.. indicando a propagação a longa distância do sinal. 59 . O mecanismo pelo qual o silenciamento é propagado a partir da célula inicialmente silenciada ainda não é totalmente compreendido. elegans. crassa contendo núcleos silenciados e não silenciados apresentavam o fenótipo silenciado (Cogoni e col. 2001). Em todos os casos o silenciamento do enxerto foi específico.. Timmons e col. as seqüências silenciadas foram as mesmas que encontravam-se silenciadas no porta-enxerto. 1998. 1997) ou bombardeadas com uma cópia extra de GFP (Voinnet e col. A transmissão do silenciamento também ocorreu quando porta-enxertos silenciados foram fisicamente separados do enxerto por um segmento de caule de 30 cm de planta não-transformada. sugerindo a existência de um sinal sistêmico que é propagado a partir da célula onde o mecanismo foi inicialmente ativado e que ativa o mecanismo em tecidos distantes.. folhas de N. Os mesmos resultados foram obtidos nos três sistemas. denominado Sid1 (systemic RNA interference deficient).. que codificam respectivamente as enzimas nitrato redutase e nitrito redutase. O silenciamento foi sempre transmitido de porta-enxertos silenciados para enxertos não silenciados que expressavam o mesmo transgene..Sinalização Celular heterocárions de N. 1998) e Drosophila (Dzitoyeva e col. e o gene exógeno uidA. mas não para enxertos expressando transgenes distintos. benthamiana não silenciadas foram agroinoculadas (Voinnet e Baulcombe. A propagação sistêmica do silenciamento também foi demonstrada em ensaios onde plantas transgênicas de Nicotiana benthamiana não silenciadas para GFP foram silenciadas pela introdução de uma segunda cópia do transgene. Estudos adicionais em plantas (Palauqui e col. A expressão de GFP foi silenciada em células da linhagem germinativa e em células somáticas alimentando-se indivíduos com dsRNA homólogo a GFP ou cultivando-se indivíduos em solução contendo bactérias expressando dsRNA (Timmons e Fire. elegans identificaram um gene requerido para o transporte do sinal sistêmico entre tecidos. 1997).. Estudos em C. 1998). A existência do sinal sistêmico foi claramente demonstrada em experimentos de enxertia entre plantas transgênicas silenciadas e não silenciadas (Palauqui e col. Este gene. elegans (Fire e col. 1997). 2001) demonstraram que o silenciamento não é restrito às células iniciais. Esta especificidade de seqüência sugere que o sinal sistêmico possui um ácido nucléico em sua composição. Nesses ensaios foram utilizados três transgenes distintos: os genes endógenos Nia e Nii. C. porém totalmente dispensável para iniciar ou manter o silenciamento. e subseqüentemente nas folhas superiores (não inoculadas) da planta. que codifica a enzima β-glucuronidase (GUS). O silenciamento foi inicialmente detectado nos tecidos inoculados/bombardeados. codifica uma proteína transmembrana que se localiza na Julho/2010 Pág. 1996). Nestes experimentos. Observações semelhantes foram realizadas em C..

Lucas e col. não se sabe de que forma (ativa ou passiva) o transporte ocorre.. 2003. 2001) e a longa distância via floema (Klahre e col. 2003). produzem siRNAs de forma deficiente. As células foram imersas em uma solução contendo diferentes concentrações de dsRNA homólogo a luciferase por 48 horas e a atividade de luciferase foi medida. os siRNAs derivados de retroelementos endógenos são exclusivamente da classe dos siRNAs longos. Mallory e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” periferia celular (Winston e col. Entretanto. existem duas evidências contrárias à hipótese de que os siRNAs estejam associados ao sinal sistêmico.. Além disso. C.. em C. Em plantas. 2002. pois eles possuem comprimento longo o suficiente para garantir a especificidade. essencial para que o silenciamento ocorra. e em células de mamíferos (Mlotshwa e col. O transporte passivo poderia ocorrer nos dois sentidos. 2000). 2003). uma proteína viral supressora de silenciamento. entretanto a capacidade de produzir ou enviar o sinal sistêmico não é afetada (Mallory e col. ou seja. Estudos com HC-Pro. entretanto estão correlacionados com o silenciamento sistêmico e Pág. mesmo na presença de altas concentrações de dsRNA.. sugerindo que ocorre de forma passiva (Feinberg e Hunter. Além disso. além de serem suficientes para induzir o silenciamento de RNA em Drosophila. demonstraram que em plantas onde o silenciamento foi suprimido por HCPro não ocorre acúmulo de siRNAs. porém o silenciamento sistêmico não é afetado (Parrish e col. 2002). 2001). capazes de ativar normalmente o mecanismo de silenciamento. indivíduos mutantes no gene Rde-4. o primeiro codificando luciferase e o segundo codificando formas funcionais ou não funcionais de SID1. Estas células foram transformadas com dois plasmídeos. Os siRNAs longos são dispensáveis para a clivagem seqüênciaespecífica do mRNA alvo. Trabalhos de caracterização de siRNAs produzidos durante o silenciamento de RNA demonstraram a existência de duas classes de siRNAs em plantas transgênicas silenciadas para GFP: uma classe de siRNAs “longos” (24-26 nt) e outra de siRNAs “curtos” (21-22 nt). Curiosamente.. Para determinar a função da proteína SID1. acredita-se que o sinal sistêmico seja capaz de se mover célula-a-célula via plasmodesmas (Himber e col. os autores utilizaram células S2 de Drosophila. elegans. elegans. 2002). Uma hipótese atrativa é a de que os siRNAs fazem parte do sinal sistêmico. Entretanto. porém incapazes de propagar o silenciamento sistemicamente. SID1 pode ser responsável pela saída do sinal sistêmico da célula inicialmente silenciada. estão consistentemente associados ao silenciamento e são pequenos o suficiente para movimentar-se célula-a-célula via plasmodesmas. foi demonstrado que o transporte de dsRNA mediado por SID1 não é sensível a baixas concentrações de ATP e baixas temperaturas. As células que expressavam SID1 funcional apresentaram uma taxa de silenciamento 105 vezes maior de as células transfectadas com plasmídeos expressando SID1 não funcional. Esse resultado indica que SID1 facilita o transporte de dsRNA para o interior da célula... 60 Julho/2010 ..

pombe.. sugerindo que esta proteína é parte da maquinaria envolvida no silenciamento sistêmico (Yoo e col. humanos e plantas (Lagos. pois uma análise comparativa de seqüência identificou possíveis alvos destes pequenos RNAs.Sinalização Celular com a metilação de DNA. elegans e Drosophila possuem aproximadamente 100 a 140 genes que codificam miRNAs. porém diferenciam-se destes pela origem e pela natureza do mRNA alvo. Llave e col.5-1% do número total de genes do genoma em questão. Drosophila. enquanto os siRNAs longos estariam envolvidos na sinalização sistêmica e na etapa nuclear de metilação do DNA (Hamilton e col. 2002). denominada CmPSRP1 (C. por exemplo. A maioria dos genes que codificam miRNAs são conservados entre espécies relacionadas e aproximadamente 30 % são altamente conservados. 2001. camundongos. Uma análise bioquímica desse extrato levou à identificação de uma proteína que se liga seletivamente a pequenos RNAs de fita simples. Os miRNAs são processados a partir de transcritos endógenos que não codificam proteínas e possuem como alvo mRNAs endógenos. Os miRNAs atuam de forma análoga aos siRNAs regulando negativamente mRNAs alvos. C. enquanto seres humanos possuem de 200 a 255. a de fatores de transcrição que se ligam a DNA (Nakahara e Carthew. Essas observações sugerem que os siRNAs curtos estão envolvidos no processo de incorporação ao RISC e clivagem dos mRNAs alvos. 2003. O número de genes que codificam miRNAs está estimado em 0.2 % do genoma de Arabidopsis codifica miRNAs. 2004). Um estudo detalhado do extrato de floema de plantas de abóbora (Cucurbita maxima) demonstrou a presença de uma população de pequenos RNAs provavelmente envolvidos no processo de sinalização sistêmica. com ortólogos em vertebrados e invertebrados. 61 . 2002b). Experimentos realizados com plantas transgênicas silenciadas e infectadas por vírus confirmaram a presença de siRNAs derivados do transgene ou do vírus no extrato do floema. e. a natureza precisa do sinal sistêmico permanece desconhecida. dessa forma. essa hipótese ainda não foi comprovada. maxima Phloem Small RNA Binding Protein 1).. Esta representatividade relativa é comparável à de outras famílias gênicas envolvidas na regulação gênica como. vírus. 2004). MicroRNAs MicroRNAs (miRNAs) constituem uma classe de pequenos RNAs de 21-24 nt envolvidos na regulação da expressão gênica em eucariotos. Entretanto.. Os siRNAs são derivados do próprio mRNA alvo transcrito a partir de um transgene. sugerindo uma conservação evolutiva com base Julho/2010 Pág. transposon ou gene endógeno. Lee e Ambros. A presença de miRNAs já foi detectada em S..Quintana e col. Pelo menos 0.

Por fim.. sugerindo que são transcritos a partir do promotor do gene e processados a partir dos introns. Aproximadamente um quarto dos genes que codificam miRNAs em Drosophila estão localizados em introns. Apesar da maioria dos genes que codificam miRNAs em plantas. a inserção de elementos enhancer que respondem à RNApol II em Drosophila induz a expressão do miRNA Bantam (Brennecke e col. um grande número de transcritos quiméricos contendo miRNAs e transcritos adjacentes têm sido encontrado em bibliotecas de EST. 2003b).. sugerindo que são transcritos pela RNA polimerase II (Smalheiser. e possuem seqüência internas com mais de quatro uracilas seguidas. 2001). o que sugere um cenário regulatório onde a expressão coordenada do miRNA e de seu mRNA alvo é desejada (Lim e col. capaz de gerar vários miRNAs distintos após a finalização do processamento (Fig. mais da metade desses genes em Drosophila está organizada em agrupamentos (Aravin e col. 2001). O alvo desses miRNAs é o próprio mRNA processado. 2004). sugerindo que são transcritos a partir de unidades transcricionais independentes (Lau e col. e ensaios de imunoprecipitação de cromatina demonstraram que a RNApol II está fisicamente associada ao promotor de alguns miRNAs (Lee e col.. ainda não foram descritos miRNAs ortólogos nos dois reinos (Bartel. A maioria dos genes que codifica miRNAs se localiza em regiões intergênicas. De fato. Lee e Ambros. o que seria o sinal de término da transcrição para a RNApol III (Lee e col. características de transcritos de genes da classe II. foi demonstrado que os transcritos primários (nucleares) que geram os miRNAs (denominados pri-miRNAs) possuem estrutura de capa na extremidade 5’ e cauda poli-A na extremidade 3’. 62 Julho/2010 . C. preferencialmente na mesma orientação do mRNA. Lim e col. de forma análoga a diversos snRNAs (Aravin e col. 2003). 2002). 2004b)..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” em sua função biológica. Outros miRNAs estão agrupados no genoma em um arranjo e padrão de expressão que produz um pri-miRNA “policistrônico”. 2002). pois ela transcreve a maioria dos pequenos RNAs como os tRNAs e o snRNA U6. Além disso. e muitos destes ESTs possuem cauda poli A e são ocasionalmente processados. 2003). Embora a presença de miRNAs em plantas e animais sugira que esta classe de RNAs não codificantes está envolvida na regulação da expressão gênica desde pelo menos o último ancestral comum destas linhagens (Reinhart e col. Os transcritos que geram miRNAs são um pouco mais longos do que os demais RNAs transcritos pela enzima. o tratamento de células humanas com α-amanitina a concentrações que inibem a RNApol II suprime o acúmulo de pri-miRNAs. Inicialmente acreditava-se que os miRNAs eram transcritos pela RNA polimerase III. Entretanto.. elegans e humanos estar organizada de forma isolada (Lim e col. existem algumas Pág. 2003).. 2003). Embora miRNAs estejam presentes em plantas e animais... diversas evidências indicam que os miRNAs não são transcritos pela RNApol III. 2) (Lau e col. 2001... 2003a). 2003a. Além disso..

Por fim. enquanto que em animais podem existir sítios múltiplos de complementaridade (Reinhart e col. 2004. enquanto que em animais podem se localizar na região codificadora ou.. que libera um intermediário com estrutura secundária em forma de grampo com aproximadamente 60-70 nt. Os sítios de complementaridade dos miRNAs de plantas estão localizados sempre na região codificadora do mRNA alvo. 2000). denominado pre-miRNA (precursor miRNA) (Lee e col. 2003). A clivagem nuclear define a extremidade 5’ do miRNA. A comparação entre alvos de miRNAs em plantas e animais indica três diferenças adicionais. Ketting e col. contendo fosfatos nas extremidades 5’ e dois Julho/2010 Pág. Além disso. 63 . que é a mesma do pre-miRNA. 1999). 2003b).. Em seguida ocorre a clivagem. que regula a expressão do gene APETALA2 em Arabidopsis reprimindo a tradução sem afetar a estabilidade do mRNA (Aukerman e Sakai... a Dicer atua de forma idêntica à clivagem de dsRNA no processo de silenciamento de RNA.Sinalização Celular diferenças importantes na biogênese e no modo de ação entre os miRNAs de plantas e animais.. 2002). 2001). O oposto é observado com os miRNAs de animais.. 2003). preferencialmente. plantas requerem uma complementaridade perfeita entre o miRNA e o mRNA alvo. gerando um premiRNA com um fosfato em sua extremidade 5’ e 2 nucleotídeos protundentes na extremidade 3’ (Lee e col. Além disso. A extremidade 3’ é processada no citoplasma pela enzima Dicer (Hutvagner e Zamore. Rhoades e col.. em plantas existe apenas um sítio de complementaridade entre determinado miRNA e seu mRNA alvo. 2003.. 2002. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5 (Lund e col. A primeira etapa consiste na clivagem nuclear do pri-miRNA. provavelmente por afinidade da enzima com o fosfato 5’ e os 2 nt protundentes na extremidade 3’. Inicialmente ocorre o reconhecimento da região de fita dupla do premiRNA. Nesta etapa. que cliva ambas as fitas do primiRNA em sítios próximos à base da estrutura em forma de grampo. 2004). O modelo atual para a biogênese de miRNAs em animais (Fig. A estrutura em forma de grampo predita para o pri-miRNA em plantas é muito mais variável em comprimento e tipicamente mais longa do que em animais (Reinhart e col. que predominantemente reprimem a tradução de seus mRNAs alvos sem afetar sua estabilidade (Olsen e Ambros. Slack e col. em contraste com miRNAs em animais que são imprecisamente complementares ao alvo (Hutvagner e Zamore. Yi e col. na região 3’ não traduzida. estas diferenças sugerem que esses genes evoluíram independentemente após a divergência dos dois reinos (Bartel. 2000. 2002.. o miRNA172. 2002). Chen. Somado à ausência de conservação entre os genes que codificam miRNAs em plantas e animais. 2002). liberando um miRNA de fita dupla com aproximadamente 21-25 pares de bases. os miRNAs de plantas atuam predominantemente degradando o mRNA alvo (Carrington e Ambros. com uma única exceção conhecida até o presente. 2) propõe que a maturação dos miRNAs ocorre em duas etapas. Esta clivagem é realizada pela RNase III Drosha. 2004).

(Modificado de Zerbini e col. que irá degradas os mRNAs endógenos que apresentam homologia com a seqüência do miRNA. 2005). via incorporação a um complexo RISC nuclear. O pre-miRNA é subseqüentemente processado. a especificidade da primeira clivagem determina a posição correta da segunda clivagem do pre-miRNA. Os miRNAs são transcritos. definindo assim ambas as extremidades do miRNA (Lee e col. Pág. Processos nucleares e citoplasmáticos envolvidos na biogênese de microRNAs (miRNAs) em plantas e animais. em ambos tipos de organismos. gerando o miRNA. Em animais. Em plantas.. Em plantas e animais. o pre-miRNA é processado pela enzima Dicer. No citoplasma. gerando o miRNA. o pri-miRNA é processado no núcleo pela enzima Drosha. os miRNA também atuam no núcleo. o miRNA citoplasmático é incorporado ao complexo RISC. O pre-miRNA é transportado de forma ativa do núcleo para o citoplasma pelo complexo Ran-GTP/Exportina-5. gerando um intermediário com aproximadamente 60-70 nt denominado pre-miRNA. De acordo com este modelo.. gerando o premiRNA. Figura 2. 2002). denominado pri-miRNA. provavelmente pela mesma enzima.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nucleotídeos protundentes nas extremidades 3’ (Hutvagner e Zamore. o pri-miRNA é processado pela enzima DCL-1 no núcleo. Em plantas. 2003b). 64 Julho/2010 . a partir de genes que produzem um RNA precursor com estrutura secundária em forma de grampo.

que direciona a clivagem de mRNAs no mecanismo de silenciamento de RNA (Hutvagner e Zamore. 2003). 2002). 2002).. a maioria dos miRNAs possui complementaridade a Julho/2010 Pág. 2000). Estudos para determinar qual das fitas é incorporada no RISC mostraram que a fita incorporada é aquela que possui o terminal 5’ com pareamento de bases mais instável (Schwarz e col. 2003). 2002). sugeriu-se que o complexo miRNP corresponde ao RISC.. 2002) e HYL1 se liga especificamente a dsRNA (Lu e Fedoroff. Após o transporte núcleo/citoplasma.. 2004). Mourelatos e col.. sugerindo que elas atuam em uma etapa nuclear da biogênese de miRNAs (Park e col.. HEN1 é uma dsRNA metilase (Anantharaman e col.. A proteínas HEN1 e HYL1 possuem sinal de localização nuclear. 2002).Sinalização Celular Em plantas o processamento parece ser um pouco diferente. 2002). A localização nuclear de DCL1 sugere esta realiza o papel funcional de Drosha (Papp e col. O miRNA let7 de humanos se associa a eIF2C2 e é capaz de guiar a clivagem sítio-específica de um RNA alvo artificial 100 % complementar ao Mirna (Hutvagner e Zamore. mesmo em plantas mutantes para DCL1. que em humanos inclui a proteína Argonauta eIF2C2. o acúmulo de miRNAs é dependente dos genes Hen1 e de Hyl1. 2002. Uma vez incorporado ao RISC. 65 . Em plantas.. 2002). antes da exportação para o citoplasma. Não são detectados pre-miRNAs. a helicase GEMIN3 e GEMIN4 (Martinez e col. DCL1 (ou outra enzima ainda não identificada) realiza também a segunda clivagem. a proteína homóloga à Dicer envolvida na biogênese de miRNAs (Reinhart e col. a outra fita é degradada. Quando isso ocorre. a grande maioria dos miRNAs cujos alvos já foram identificados atuam via clivagem específica (Rhoades e col.. 2002). Em plantas.. portanto podem estar envolvidas em marcar e direcionar os miRNAs de fita dupla que devem ser incorporados ao RISC. Não existem dados conclusivos sobre o transporte do miRNA de fita dupla do núcleo para o citoplasma em plantas. Embora o processamento de miRNAs não tenha sido testado em mutantes hst1. o miRNA vai direcionar a clivagem específica de mRNAs complementares ou reprimir sua tradução (Zeng e Cullen. 2002). sugerindo que a via biossintética dos miRNAs é afetada (Bollman e col. além de Dcl1. Em animais. Desta forma. Um ortólogo à exportina-5 denominado HST1 (Hasty 1) foi identificado em Arabidopsis. Os miRNAs foram inicialmente encontrados em associação com um complexo ribonucleoprotéico denominado miRNP (miRNA ribonuclein complex). O acoplamento da primeira e segunda clivagens no núcleo pode explicar a ausência de pre-miRNAs em níveis detectáveis em plantas (Bartel. o modo de ação dos miRNAs é bastante semelhante às etapas do silenciamento de RNA mediado por siRNAs. estas plantas apresentam alterações morfogenéticas e redução no acúmulo de alguns miRNAs. sugerindo que esta proteína está envolvida no transporte núcleo/citoplasma. correspondente à clivagem citoplasmática em animais. Somente uma das fitas do miRNA de fita dupla é incorporada ao RISC.

e o miRNA164. Llave e col. o miRNA 165/166 que regula a expressão de três fatores de transcrição da classe envolvidos na diferenciação das faces adaxial e abaxial de folhas (Emery e col. que regula a expressão do fator de transcrição MYB33 envolvido no balanço de reguladores de crescimento (Palatnik e col.. 2004) e DCL-1 (Xie e col. Pág.J. A viral suppressor of gene silencing in plants.B. Chen.. e VANCE. verificando-se um subseqüente aumento na concentração do mRNA alvo (Baulcombe. 2004). Entretanto. A. que regula a expressão de vários fatores de transcrição da classe NAC. X. G. A. 2003). P. Ge. Bibliografia Akhtar.. Proceedings of the National Academy of Sciences. R. Anandalakshmi. Alguns exemplos incluem o miRNA-JAW. em camundongos (Yekta e col. Smith. A identificação dos mRNAs alvos dessa forma demonstrou que os miRNAs estão predominantemente envolvidos na regulação de genes relacionados ao desenvolvimento de órgãos e tecidos.H. Entretanto. V. Nature 407:405-9. USA 95:13079-84.. MAarathe. que regula a expressão do fator de transcrição APETALA2 envolvido na morfogênese floral (Aukerman e Sakai. como AGO1 (Vaucheret e col. 2003). o miRNA172. Quando o miRNA direciona a clivagem... os alvos desses miRNAs foram identificados e comprovados por meio de análises computacionais (Rhoades e col..B.C. Hoxb8. (2000). foi demonstrado que o miRNA mir-196 direciona a clivagem do seu mRNA alvo. Mallory. ou seja. 2003) é regulada por miRNAs.. (1998). Rhoades e col.. 2002b. 2004). R. 2002). Em vários casos. Além disso. 2003)..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” vários sítios na região 3’ não traduzida de mRNAs alvos e acredita-se que atuam inibindo a tradução... 2002).. Chromodomains are protein-RNA interaction modules. entre o décimo e o décimo primeiro nucleotídeo pareado do miRNA (Hutvagner e Zamore. o miRNA permanece intacto e pode direcionar o reconhecimento e a clivagem de outro mRNA alvo (Hutvagner e Zamore. 2004). o miRNA159. e Becker. que regula a expressão do fator de transcrição TCP envolvido na morfogênese de folhas (Palatnik e col. esta ocorre precisamente da mesma forma que a clivagem direcionada por siRNAs. 2004. incluindo diversos fatores de transcrição (Bartel. a expressão de genes relacionados com a própria maquinaria do silenciamento de RNA.. D. Existe atualmente um grande número de miRNAs identificados em plantas e animais (Rhoades e Bartel. 66 Julho/2010 . Pruss. 2002). 2002). a validação definitiva de um mRNA alvo requer estudos nos quais sua suposta seqüência de reconhecimento seja alterada de modo a impedir o anelamento do miRNA.. T. 2004). 2004). 2003. envolvidos em diversos aspectos da diferenciação de órgãos vegetativos e reprodutivos (Mallory e col.. Após a clivagem do mRNA alvo. Zink.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Xie, Z.; Johansen, L.K.; Gustafson, A.M.; Kasschau, K.D.; Lellis, A.D.; Zilberman, D.; Jacobson, S.E. e Carrington, J.C. (2004). Genetic and functional diversification of small RNA pathways in plants. PLoS Biology 2:E104. Xie, Z.; Kasschau, K.D. e Carrington, J.C. (2003). Negative feedback regulation of Dicer-Like1 in Arabidopsis by microRNA-guided mRNA. Current Biology 13:784-9. Yi, R.; Qin, Y.; Macara, I.G. e Cullen, B.R. (2003). Exportin-5 mediates the nuclear export of premicroRNAs and short hairpin RNAs. Genes & Development 17:3011-16. Yoo, B.C.; Kragler, F.; Varkonyi-Gasic, E.; Haywood, V.; Archer-Evans, S.; Lee, Y.M.; Lough, T.J. e Lucas, W.J. (2004). A systemic small RNA signaling system in plants. Plant Cell 16:1979- 2000. Zamore, P.D.; Tuschl, T.; Sharp, P.A. e Bartel, D.P. (2000). RNAi: Double-stranded RNA directs the ATP-dependent cleavage of mRNA at 21 to 23 nucleotide intervals. Cell 101:25-33. Zeng, Y. e Cullen, B.R. (2002). RNA interference in human cells is restricted to the cytoplasm. RNA 8:855-60.

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Unidade 3
Neurociências

¹Leopoldo Barletta Marchelli leopoldo.barletta@gmail.com ²Breno Teixeira Santos breno.santos@gmail.com ¹Felipe Viegas Rodrigues rodrigues.fv@gmail.com ¹Laboratório de Neurociência e Comportamento ²Laboratório de Fisiologia Teórica

O entendimento atual sobre origem, funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento, denominadas genericamente por neurociências. Esta ampla área inclui disciplinas como neuroanatomia (estudo da estrutura do sistema nervoso), neurofisiologia (estudo do funcionamento de células nervosas e conjuntos de células nervosas), neuropsicologia (estudo dos processos cognitivos e suas relações com anatomia e fisiologia) e até mesmo a engenharia (modelagem analítica e computacional de versões simplificadas de células neurais, chegando a simulação de redes de milhares de neurônios). Baseado no conhecimento de todas essas disciplinas, apresentaremos as neurociências desde seus primórdios até o conhecimento atual. Abordaremos as principais funções cognitivas no estudo das neurociências como atenção, percepção, ação, memória e emoção, empregando o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Também abordaremos modelos de processos biofísicos e métodos de análise quanti/qualitativa da dinâmica neural, mas utilizando os conhecimentos da engenharia, que busca obter estruturas teóricas básicas que delineiam o funcionamento global desses sistemas.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Capítulo 8

História da neurociência Camile Maria Costa Corrêa Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier

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Capítulo 9

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Capítulo 10 Fisiologia sensorial Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Andreas Betz e Daiane Gil Franco Capítulo 11 Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Revisado por Dr. Carlos Arturo Navas Capítulo 12 Causa e função Dr. Pedro Leite Ribeiro Capítulo 13 Percepção Felipe Viegas Rodrigues Revisado por Arnaldo Cheixas-Dias Capítulo 14 Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Capítulo 15 Navegação espacial Cyrus Villas-Boas Capítulo 16 Neurobiologia das emoções Bárbara Onishi Capítulo 17 Neurofisiologia da linguagem Rodrigo Collino Revisado por Dr. Gilberto Fernando Xavier Capítulo 18 Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Revisado por: Dr. Pedro Leite Ribeiro Dr.Leonardo Henrique R. G.de Lima Bibliografia

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Neurociências

História da Neurociência
Camile Maria Costa Corrêa Laboratório de Neurociência e Comportamento camile.mc.correa@gmail.com Introdução Como pensamos? Como interpretamos a nossa realidade? De que forma situamonos no mundo e desenvolvemos nossa identidade, nossas relações, crenças e loucuras? Como nos emocionamos, sonhamos e experienciamos consciência? Como foi possível desenvolvermos filosofia, ciência e artes? Haveria uma chave para entender os mistérios da vida mental? Atualmente, nosso conhecimento entende o cérebro como órgão responsável pelo comportamento e pelas faculdades mentais. Também aprendemos que fenômenos eletroquímicos são os responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso. No entanto, esses conhecimentos são relativamente recentes e durante muitos séculos as crenças sobre a maneira de funcionar do cérebro foram radicalmente diferentes das professadas hoje. Investigar o tratamento histórico dessas questões permite vislumbrar de que maneiras a humanidade vem formulando perguntas fundamentais sobre os aspectos daquilo que tradicionalmente identificamos como mente: sua existência, essência, localização, estrutura e função. Todos os passos, dos mais intuitivos aos mais rigorosos do ponto de vista experimental, constituem juntos os alicerces do conhecimento que hoje relacionamos à neurociência.

A mente nas antigas civilizações Sabe-se que as civilizações antigas exerciam uma produção cultural muito rica. Há registros de povos primitivos que praticavam religiões e acreditavam em entidades tais como alma e espírito. Interessantemente, além de estarem presentes no domínio do corpo, elas permeavam a própria natureza. Entretanto, essas culturas não contavam com o que hoje se conhece sobre fisiologia, fazendo com que as tentativas de localização da mente soassem simplesmente ilógicas, uma vez que as pistas das sedes para os fenômenos mentais eram intuídas a partir de observações cotidianas. Havia evidências de que a mente poderia estar dentro da cabeça ao perceber, por exemplo, que um trauma nessa região poderia causar alterações substanciais da percepção e do comportamento. Uma evidência da aposta nessa localização são os achados dos rituais de trepanação. A trepanação é uma técnica cirúrgica de abertura de uma ou mais fendas no crânio, com o provável intuito de afastar maus espíritos. Povos antigos, como os maias,

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(2000 a.C. – 900 d.C.) realizavam esse tipo de procedimento em pessoas acordadas, provavelmente acreditando que espíritos maus existentes no interior da cabeça seriam os responsáveis por patologias tais como epilepsia e o estado de coma e, uma vez feitas essas aberturas, os espíritos poderiam escapar, o que promoveria a recuperação e cura. Crânios com perfurações feitas em vida foram encontrados em sítios que datam de até 10.000 anos. Pela cicatrização, há indícios de que as pessoas sobreviviam a esse procedimento. Ora, alguns casos de coma eram devidos a um aumento da pressão intracraniana e essa cirurgia realmente promove alívio da hipertensão intracraniana podendo, em alguns casos, ter até valor terapêutico. Cadáveres dessa forma foram encontrados em quase todas as civilizações do mundo e, mesmo povos modernos, como os da Oceania, ainda praticam essa laboriosa e arriscada cirurgia. Uma segunda questão tão intrigante quanto a localização diz respeito à forma como mente e corpo viriam a se influenciar. Se uma mente existe e se ela está no corpo, qual o mecanismo de interação dessa mente com esse corpo? Um outro indício, documental, de que há muito se associava o cérebro à mente é o Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, americano que adquiriu a relíquia em 1862. Considerada o tratado científico mais antigo conhecido, foi escrito no Egito e data, embora não haja consenso, de 1600 a.C. Lá estão descritos 30 casos de referências diretas ao cérebro. Descrições anatômicas, traumatológicas e clínicas, com detalhes sobre o que acontecia com um trauma de guerra, provocando epilepsia, convulsões, paralisia, problemas sensoriais e até alteração do sistema nervoso autônomo nas pessoas que haviam sido vítimas dessas lesões.

Abordagens Filosóficas Pioneiras Foi na Antigüidade Grega, com o florescimento intelectual em Atenas, por volta de 400-300 anos a.C., que começou a surgir o pensamento sistematizado sobre algumas perguntas relativas à mente. (Consenza, 2002). Na cultura ocidental, Alcmaeon de Crotona (século V a.C.) foi possivelmente o primeiro a localizar no cérebro a sede das sensações. Para ele, os nervos ópticos, que seriam ocos, levariam a informação ao cérebro, onde cada modalidade sensorial teria seu próprio território de localização. Ainda no século V a.C., Demócrito, Diógenes, Platão e Teófrasto punham no cérebro o comando das atividades corporais. Também entre os gregos, Herófilo (335-280 a.C.), que dissecou e escreveu sobre o cérebro, foi o primeiro a descrever suas cavidades, os ventrículos cerebrais, associando-os às funções mentais. Essa idéia, como veremos, teve enorme importância na “neurofisiologia” dos séculos que se seguiram. Os filósofos gregos Alcaemeon e Demócrito acreditavam que a sede da mente era o

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cérebro. Para eles, a constituição interna dos nervos era oca e seriam estas as estruturas responsáveis por transmitir uma espécie de fluido vital, chamado espírito animal, base da mente, da alma e até da alma imortal. Na filosofia ocidental dois nomes entraram em intenso debate. Hipócrates - o pai da medicina - e Aristóteles, pai das ciências do conhecimento natural, cujas idéias foram propagadas até a idade moderna. Hipócrates (460-379 a.C.) acreditava que o cérebro era a sede da mente, dos sentimentos e das emoções; ele seria a estrutura responsável pelos sonhos, terrores noturnos e problemas mentais. "Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. Na época não havia conhecimento sistematizado sobre a anatomia cerebral, pois não se praticavam dissecações. As declarações hipocráticas eram, portanto, fruto de intuições filosóficas baseadas na observação clínica de que o cérebro seria a sede de tudo o que hoje se acredita que seja (juízo, emoções, sentimentos etc.) Porém, esse conhecimento dos hipocráticos sofreu uma regressão com Aristóteles, (384 a.C. - 322 a.C)., para quem a sede dos referidos fenômenos estava no coração. Seus argumentos eram simples: o coração hospeda a razão por ser quente e ativo, enquanto o cérebro serve para resfriar o sangue, por ser frio e inerte. Ora, quando se experiencia uma emoção forte, ela é sentida no coração, pela ativação simpática. Diz-se que o coração está pesado, que se gosta de alguém “de coração” ou até mesmo que se sabe algo de cor; do latim, decorado. Acreditava-se, inclusive, que até a memória estaria no coração. Na época, associou-se erradamente o efeito à causa, quer dizer, a emoção está no cérebro, a sua expressão está no coração. Porém, Aristóteles não era experimentador, era um filósofo, pensava essencialmente de acordo com a lógica. O médico romano Galeno (130-200) foi importante na história da neurociência porque foi o primeiro a refutar o que disse Aristóteles. Para aquele, não haveria sentido em afirmar que o cérebro tivesse a função de esfriar as paixões do coração. Pela dissecação de animais ele destinou muita atenção às meninges e às cavidades encefálicas (contrastantes com a massa, amorfa, cerebral) fazendo com que se buscasse relacionar os ventrículos com a mente. Os ventrículos pareciam ser estruturas-chave na procura pela sede da mente por serem espaços destacados, cheios de líquidos, e, uma vez que ainda era forte a idéia vinda dos gregos de que a mente seria intermediada pelo espírito animal, várias pistas indicavam que aqueles ventrículos cheios de fluido fossem a sua sede. Esse conceito de Galeno foi apropriado durante toda a Idade Média pela ciência médica. Acreditava-se, por especulação puramente teórica, que havia três células dos ventrículos no cérebro. A primeira célula (anterior) seria responsável pela sensação e

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percepção (nervos ligando os órgãos dos sentidos ao ventrículo 1). A segunda célula seria a responsável pelo juízo, pensamento e razão (ventrículos laterais; faculdades nobres, fluido resfriado e o refugo seria filtrado pelo sangue). Já a terceira seria a responsável pela memória, e utilizada pelos outros dois ventrículos para o funcionamento cerebral. Leonardo da Vinci, grande anatomista, também fez desenhos dos ventrículos cerebrais. Até aqui, tem-se uma teoria da mente que, embora não se baseasse na fisiologia, não deixava de apresentar uma certa consistência interna. A idéia dos fluidos vigeu durante muitos séculos. Foi apenas a partir da Renascença que houve mudanças mais pronunciadas, pelo conhecimento mais detalhado sobre a anatomia do cérebro. (Consenza, 2002). O anatomista Vesalius, (1514-1564) escreveu o livro “Da Estrutura do Corpo Humano” em que ele, através das dissecções que realizava em seres humanos e em outros animais, notou que estes (inclusive asnos e jumentos) também tinham ventrículos. Observou-se que o espaço ventricular nos homens e em outros primatas era praticamente do mesmo tamanho, ao contrário do restante do cérebro que, no homem, mostrava diferenças. Dessa forma, seria lógico pensar que os aspectos intelectuais superiores, tão peculiares a nós, estariam não nos ventrículos, mas em outras partes do cérebro. Contudo, continuou-se a acreditar que os ventrículos cerebrais eram um local de armazenamento dos espíritos animais, de onde eles partiriam para, através dos nervos, atingir os órgãos sensoriais ou de movimento. Assim, a teoria da localização ventricular perdurou por muito tempo.

Descartes e o mecanicismo No século XVII, o filósofo, matemático e naturalista René Descartes (1596-1650) especulava sobre a natureza do sistema nervoso, sobre de que maneira ele funcionaria como a base da mente. Ele propôs o mecanismo da ação reflexa, fenômeno que ocorre quando, ao encostar-se num estímulo nocivo, como o fogo, retira-se o membro de forma rápida e involuntária. Descartes propôs que o estímulo, ao atingir o pé, seria transmitido pelos nervos até o cérebro, sendo que essa transmissão seria conduzida de forma hidráulica. Assim, o aquecimento provocaria um aumento do fluxo do fluido (espírito animal) para o cérebro, que iria aos ventrículos, até a glândula pineal, (reguladora desse fluxo), voltando até o nervo motor, de forma a inchar o músculo tal qual um fole que promoveria, finalmente, o movimento do membro. (Consenza, 2002). Note-se que o modelo físico do cérebro na época era hidráulico, seguindo a tecnologia disponível na época. Descartes comparou as fontes do jardim de Versailles, da realeza francesa, cujos mecanismos eram hidráulicos, com a própria complexidade do

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sistema nervoso. Descartes fez uma série de desenhos, puramente especulativos, mostrando a estrutura fibrosa do cérebro humano; e ele especulava que a glândula pineal regulava o fluxo do espírito animal dentro do cérebro como se fosse uma válvula. Há desenhos do encéfalo inflado e desinflado; correspondendo ao estado de vigília e de sono. Ele argumentava que os fluxos iriam se acumulando durante o dia e inchando o cérebro e, à noite, a pineal (válvula) entrava em funcionamento e isso promovia o sono. Nessa época almejava-se chegar ao conhecimento pela via da razão pura, da dialética, do exame da lógica das palavras e do conhecimento, em detrimento da experimentação.

O início dos experimentos Em fins do século XVIII (1780, 1790) inaugurou-se realmente a era científica. Na física, com Galileu Galilei, e na ciência biológica com outros dois italianos: Luigi Galvani e Alessandro Volta. Esses dois cientistas foram pioneiros no estudo experimental do sistema nervoso. A seguir são elencados quatro conceitos que, nos séculos XVIII e XIX, permearam o início da era científica em neurociência (Consenza, 2002). 1. A eletricidade animal: a idéia de que “espíritos animais” percorriam os nervos, cuja origem remonta ao pensamento grego, permaneceu corrente até o Século XVIII, quando ficou demonstrada a natureza elétrica na condução nervosa, destacando-se para isso o trabalho de Luigi Galvani; 2. A localização de áreas cerebrais: o conhecimento de que determinadas partes do cérebro apresentam diferentes funções. Têm início as tentativas de aliar forma e função para mapear faculdades cerebrais: ações motoras, percepções sensoriais etc.; 3. A doutrina neuronal: uma especialização da doutrina celular. Cientistas descobriram através do microscópio que as células não eram somente elementos estruturais, mas os elementos funcionais de todos os organismos. 4. A teoria da Evolução: a partir da segunda metade do século XIX até hoje se firma como o conceito mais revolucionário nas ciências biológicas; foi proposto por Charles Darwin, cientista e naturalista inglês. No final do século XVIII, Luigi Galvani (1737-1798) notou que, ao amarrar as pernas de um sapo a uma grade metálica, submetendo-as a uma descarga, as pernas se contraíam. Na época, os modelos físicos também estavam em transformação. Uma hipótese

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seria a de que a eletricidade pudesse ser o fluido animal, a base do espírito vital. Aliado a essa descoberta, o magnetismo fez com que o paradigma hidráulico fosse banido da neurociência, que gradativamente passou a adotar o modelo elétrico. Galvani fez uma série de experimentos elegantes, demonstrando que a origem da eletricidade não era externa, mas interna, do próprio tecido animal. A partir daí foram conduzidos os estudos sobre as propriedades de comunicação no sistema nervoso. Os conceitos fundamentais sobre o papel do tecido cerebral para as funções nervosas também se desenvolveram no século XIX. Theodor Schwann (1810-1882), que descreveu a bainha de mielina, foi quem primeiro propôs que todo o corpo seria formado por células. Sua teoria teve ampla aceitação para todos os tecidos, com exceção do sistema nervoso, em relação ao qual se acreditava que as células eram contínuas, formando um grande sincício. Somente com a descoberta das técnicas de impregnação das estruturas nervosas pela prata (método de Golgi) foi possível uma observação mais acurada, resultando nos trabalhos de Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) que, já em 1889, argumentava que as células nervosas eram elementos isolados. Em 1891 Wilhelm von Waldeyer (1836-1921) cunhou o termo “neurônio” para designar a unidade anatômica e funcional do sistema nervoso.(Consenza, 2002). Finalmente veio a descoberta, por Charles Scott Sherrington (1857-1952), dos espaços existentes nas junções entre células nervosas ou entre estas e as células musculares. Sherrington chamou essas estruturas de “sinapses”.

Frenologia e a localização cerebral O médico alemão Franz Gall (1758-1828) propôs que o cérebro seria composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento de sub-órgãos responsáveis por eles. Assim, a forma externa do crânio refletiria a forma interna do cérebro, cuja observação poderia ser usada para diagnosticar faculdades mentais. (Sabbatini, 1997). Embora não fosse experimentador, Gall propôs esse modelo em boa fé, por observações feitas em centenas de crânios de pessoas normais, sentenciados, doentes mentais etc. Apesar de ter proposto uma teoria sem fundamentação científica, teve o mérito de chamar a atenção da ciência para o localizacionismo, para o fato de que haveria um mapeamento das funções cerebrais em relação à sua estrutura. Esse movimento levou a uma série de estudos baseados em informações clínicas, principalmente pela incidência de tumores ou de lesões em seres humanos, que tornava possível correlacionar alterações estruturais a disfunções comportamentais. O médico francês Pierre Broca mostrou que havia no cérebro uma área responsável

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pela linguagem falada. Ele estudou um paciente afásico (capaz de emitir somente o som de uma palavra) e, quando da morte desse paciente, pela realização de necrópsia, foi descoberta uma lesão, originada pela sífilis, numa área muito pequena, restrita ao hemisfério esquerdo. Chegou-se à conclusão de que aquela área era a responsável exclusiva da elaboração da linguagem. Essa idéia foi a primeira comprovação científica de que tal mapeamento pudesse realmente existir.

Novos Paradigmas Na esteira de transformações, toda a ciência sofreu o impacto da revolução paradigmática proposta por Darwin, pesquisador que violou conceitos profundos na época; até então Deus teria criado o ser humano de maneira exclusiva, à parte do Reino Animal, sendo que não fazíamos parte dessa cadeia por sermos nobres, superiores. Darwin mostrou que éramos parte desse ambiente em evolução e, mais ainda, que à medida que os organismos têm necessidade de se adaptar às mudanças no ambiente, eles desenvolvem tecidos (cerebrais e não cerebrais) para se adaptar àquela circunstância. A existência de vários fenômenos naturais, inclusive o papel do sistema nervoso, passa a ser considerada resultado da evolução pela seleção natural. Ainda um conceito fundamental na época é o de homeostase. Claude Bernard, um fisiologista francês da segunda metade do século, propôs um conceito do meio interno: a estabilidade, a temperatura corporal, a quantidade de determinados elementos sangüíneos, fluidos corporais ou intracelulares, tudo deve se manter constante para que seja possível a vida. Assim, os organismos desenvolveram formas extremamente sofisticadas (hormonais e neurais) de manter esse equilíbrio interno a despeito de mudanças no ambiente. O cérebro, o sistema endócrino, o sistema imune, funcionavam como isoladores do organismo em relação ao ambiente, a exemplo do processo regulatório da homeotermia. De forma análoga os próprios fenômenos mentais fariam igualmente parte dos mecanismos de homeostasia, indicando que até os comportamentos sofisticados como os das faculdades da mente humana fossem vistos como resultados da evolução, como táticas selecionadas para manter o equilíbrio. Por exemplo, no frio, os mecanismos bioquímicos promotores da homeotermia podem não ser suficientes, o que nos leva a desenvolver roupas, casas, ou migrar para clima mais quente (utilização de faculdades mentais). Finalmente a doutrina neuronal foi proposta/adaptada por dois cientistas: Ramón y Cajal (espanhol) e Camilo Golgi (italiano), que estudaram com grande detalhe a estrutura microscópica interna do sistema nervoso e descobriram que essas células pareciam se comunicar entre si através de processos fibrosos (axônios e dendritos) e que não havia continuidade entre elas. O conceito de sinapse foi desenvolvido posteriormente, como visto, por Sherrington.

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O começo da psicologia experimental A partir dessa época assistiu-se ao surgimento dos primeiros estudos de aprendizagem e memória; o conceito de reflexo condicionado, que foi elaborado por Ivan Pavlov, seria produto do funcionamento neuronal. Ele e Eric Kandel receberam o prêmio Nobel, este último por sua contribuição para desvendar os mecanismos e as bases celulares e moleculares do aprendizado. A partir daí vivemos uma revolução das técnicas advindas do conhecimento acumulado. Esse saber teve repercussões práticas, como o surgimento da psiquiatria científica e a mudança conceitual que passou a considerar as doenças como disfunções do cérebro e o conseqüente uso de conhecimentos psicológicos e fisiológicos na terapia. Os sintomas não eram mais devidos à possessão ou falta de caráter, mas atribuíveis a desordens biológicas. Jean Marie Charcot, psiquiatra francês, juntamente com Pinel, foram responsáveis pelas mudanças de atitude com relação à doença mental. Charcot é conhecido pelo estudo dos fenômenos histéricos, vistos não mais como falhas de caráter de mulheres que apresentavam essa neurose, mas como fruto de fenômenos biológicos subjacentes. O estudo da histeria influenciou o médico vienense Sigmund Freud, criador da psicanálise, que também procurou dar um embasamento neurológico à teoria. O desenvolvimento de medicamentos e de cirurgias foram marcantes na história da neurociência, como a lobotomia pré-frontal, uma técnica cirúrgica utilizada por décadas, muitas vezes sem motivo, desenvolvida pelo médico português Egaz Moniz (prêmio Nobel da década de 40) para tratamento de pacientes psicóticos. Já na década de 50 investiu-se na terapia medicamentosa, a intervenção química como alternativa de tratamento seguro e efetivo das psicoses, fazendo com que o conhecimento gerado pelas pesquisas se traduzisse também em intervenções sociais.

O Futuro da pesquisa do cérebro. Entender o que nos faz humanos recruta, há milênios, desde idéias místicas, passando pelo conhecimento filosófico, e modernamente contando também com as metodologias científicas. O avanço dessas pesquisas alimenta a visão que a humanidade faz sobre a sua própria vida mental. Ao propormos uma divisão didática das idéias no tempo, percebemos que é possível agrupar a evolução do conceito sobre estrutura e funcionamento do sistema nervoso. A história é sempre um recurso precioso para o estudo do movimento das idéias. Olhando retroativamente, assistimos ao surgimento de uma determinada proposição, medimos seu impacto imediato ou tardio, seu declínio, seu retorno em outro tempo sob condições diferentes ou sua rejeição definitiva pela falta de evidências. (Kristensen et al. 2001)

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investigando funções como percepção. além de didática. ação etc. a mente não pode existir. ao longo do tempo. DNA. hereditariedade. os átomos. atenção. moléculas.000 documentos são apresentados a cada ano na Sociedade para reuniões de Neurociência). resolver problemas. mesmo as perguntas mais básicas sobre nossas mentes permanecem sem resposta. Quem sou? De onde vim? Para onde vou? As revoluções científicas transformam nossa visão de mundo. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que nos permitem pensar e perceber.). denominadas genericamente por neurociências. por essa ser considerada uma estratégia de abordagem coerente. a higiene do meio. O que é a vontade? Quem é o “eu”? Como explicar o sentimento de uma única pessoa que perdura no tempo e no espaço? O que é a consciência? (Ramachandram. 2003). 87 . o equilíbrio do ambiente. percebemos que. os buracos negros. articulados criticamente. aprender e lembrar. se não cultivamos a nossa própria vida interior"? Apesar do acúmulo de grandes quantidades de conhecimento sobre o cérebro (cerca de 10. A evolução humana é notável na medida em que foi marcada por vários pontos de viragem cultural. amar e odiar. galáxias distantes. Apesar de vislumbrarmos as correntes de pensamentos. Com o surgimento da consciência. memória. apesar do conhecimento detalhado de quase tudo no universo. em todas as escalas imagináveis (o sistema solar. das ferramentas. A ciência da mente depende da conversa integrada entre experimentos controlados e o esforço teórico. Além disso. funcionamento e capacidade do sistema nervoso é resultado do esforço de múltiplas áreas do conhecimento. os mecanismos da vida etc. sem o cérebro. que exigia uma combinação de fatores genéticos e mudanças culturais. a integração entre as idéias pode ser árida. a teoria das cordas. A neurociência cognitiva assume o conceito de modularidade do funcionamento do sistema nervoso. Como podemos propor a consciência ambiental. incluindo um sentido de si mesmo e uma sensação de continuidade com o passado e futuro. emoção. sem a manifestação do comportamento. “Não mais estamos restritos a inferir sobre as funções mentais simplesmente a partir da Julho/2010 Pág. ainda não sabemos quase nada sobre o órgão que fez todas essas descobertas. O entendimento atual sobre origem.Neurociências A mente é uma definição que tenta resgatar a essência do ser humano. o homem começou a olhar sobre seus próprios ombros e a questionar acerca das suas próprias origens. do abrigo. criar e destruir civilizações. a mente não pode ser expressa. O conhecimento das funções do cérebro permanece tão primitivo como o nosso conhecimento do resto do corpo humano um ou dois séculos atrás. comunicar. da linguagem. Exemplos disso foram as peculiares descobertas do fogo. Essas expressões são intrinsecamente relacionadas ao funcionamento cerebral. Ironicamente.

ao elaborar as perguntas devidas. Sabemos muito pouco sobre o cérebro. até agora. realizando os experimentos devidos. continuam a ser a preocupação dos filósofos. Portanto. Ao entendermos a natureza humana baseada no entendimento de nós mesmos. Pág. pode-se começar a responder a estas perguntas que. 88 Julho/2010 . a neurociência durante as próximas décadas pode desenvolver os instrumentos necessários para testar o mais profundo de todos os mistérios biológicos – as bases biológicas da mente e da consciência”. (Kandel.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” observação comportamental. Como resultado. não sobram limites a serem alcançados. 2003). por isso temos de manter uma mente aberta e estar preparados para surpresas.

Embora o arranjo dos circuitos que compõem estes sistemas varie grandemente de acordo com suas funções. cardíaco e glândulas. O sistema nervoso parece organizado em grupos de circuitos. i. Em azul o sistema nervoso central (SNC) e em amarelo. As conexões sinápticas que definem um circuito são tipicamente realizadas numa densa malha de dendritos e terminais axonais. sob o ponto de vista anatômico. entretanto. um grande número de células e circuitos que estão entre estas mais ou menos bem definidas aferências e eferências. que consiste em axônios de nervos motores que conectam o encéfalo e a medula espinal aos músculos esquelético. 1996). Além destas amplas distinções.. o sistema nervoso periférico (SNP) (retirado de Bear. 1). 89 . Desta maneira.plim@gmail. os neurocientistas têm convencionalmente dividido o sistema nervoso dos vertebrados. sistemas sensoriais como a visão ou audição adquirem e processam informações a partir do ambiente.e. já as que transmitem informações para fora do encéfalo e da medula espinal (ou Julho/2010 Pág. módulos. Arranjo anatômico do sistema nervoso em humanos. neurônios nunca funcionam isolados.com No sistema nervoso. o sistema motor permite que o organismo responda a tais informações através da geração de ações. algumas características são comuns entre eles. cujas funções servem a um propósito comportamental específico. Há. em componentes centrais e periféricos (Fig. O sistema nervoso periférico (SNP) inclui fibras de neurônios que conectam os receptores sensoriais na superfície do corpo ao SNC e a porção motora.Neurociências Princípios básicos em fisiologia neural Renata Pereira Lima Laboratório de Neurociência e Comportamento renata. Figura 1. Células nervosas que transmitem informações em direção ao sistema nervoso central são chamadas de neurônios aferentes. O sistema nervoso central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinal. Eles são coletivamente referidos como sistemas de associação e são responsáveis pelas mais complexas funções. eles estão organizados em circuitos que processam tipos específicos de informações. A direção do fluxo de informação em um circuito particular é essencial para se entender sua função. viscerais.

à direita). De modo geral. no centro o modelo divergente e o reverberante à direita. 2. atividades motoras. Figura 2. circuitos podem funcionar paralela ou serialmente. C e D. No caso do circuito divergente. uma aferência no neurônio A se projeta para o neurônio B. estas se projetam separadamente para diferentes neurônios. Estas três classes – neurônios aferentes. 2. Então.  Reverberantes: o sinal de aferência é transmitido ao longo de uma série de neurônios e cada um destes fará sinapses com neurônios de uma porção da via previamente percorrida. A característica básica de um circuito divergente é o fato de que um único neurônio iniciará respostas de maneira crescente em outros neurônios. 90 Julho/2010 . realizando uma eferência (saída). o modelo de circuitos convergentes. são chamadas de neurônios eferentes. 2. Em vez de concentrar as aferências. quanto B. pela interpretação dos estímulos sensoriais (Fig. o neurônio A possui uma aferência e se projeta para os neurônios B. podemos classificar os circuitos como:  Convergentes: aqueles nos quais um grupo de neurônios recebe uma aferência (entrada) de um neurônio pré-sináptico e o circuito tende a se tornar concentrado. C ou D) seja inibido. Estes neurônios se projetam para um neurônio D e este se projeta para outro neurônio E.  Divergentes: são os circuitos que funcionam de maneira oposta aos circuitos convergentes. que se projeta para o neurônio C e então para o D e este se projeta de volta para o neurônio A (ou para o B) e o ciclo se repete até que um neurônio (que pode ser tanto A. à esquerda). À esquerda. neurônios eferentes e os interneurônios – são os constituintes básicos de todos os circuitos neurais. por exemplo. sinais aferentes são processados em vias distintas e as informações são Pág. Esquema representativo dos modelos de circuitos. imagine que tenhamos os neurônios A.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para fora do circuito em questão). Circuitos reverberantes estão envolvidos no ciclo de sono-vigília. Células nervosas que participam somente no aspecto local do circuito são chamadas de interneurônios. Tais circuitos são encontrados nos sistema motores e sensoriais (Fig. B e C e que cada um deles possua uma entrada diferente. Para demonstrar este tipo de circuito. No funcionamento paralelo. Circuitos convergentes são responsáveis. centro). O impulso reverbera sendo enviado ao longo do circuito continuamente até que um neurônio seja inibido. etc (Fig. memórias de longa duração. Além disto.

executará a resposta ao estímulo inicial. músculo liso ou músculo cardíaco) que. • extensão da perna após a percussão e estiramento do tendão patelar. • fechamento da pupila com o aumento da intensidade luminosa. além de processar informações de modo serial. que por sua vez estimula outro neurônio e assim por diante. como por exemplo: • a retirada imediata da mão de uma panela muito quente. Por exemplo. Tal reação é originada a partir de um estímulo externo que gera uma resposta antes mesmo do indivíduo tomar conhecimento da existência do estímulo periférico e. movimento. por meio de um nervo craniano. Durante o processamento de funções mais complexas. por exemplo. um neurônio estimula outro neurônio. são processados simultaneamente em diferentes regiões do encéfalo. ponte e mesencéfalo). variações da pressão arterial etc). Julho/2010 Pág. No funcionamento serial. Isto é. Muitos reflexos motores são controlados por neurônios localizados na substância cinzenta da medula espinhal e do tronco encefálico (bulbo. • aumento da secreção gástrica com a chegada do alimento no estômago. Desta maneira. na maioria das vezes inconsciente. a atividade que leva à ação. 91 . Na medula ou no tronco encefálico o neurônio aferente comunica-se com o eferente diretamente ou por meio de interneurônios associativos. os resultados dos processamentos de um circuito são necessários para que o próximo circuito possa contribuir para o processamento total. Um exemplo clássico de processamento serial é o arco reflexo. antes deste poder comandá-la voluntariamente. por sua vez. funcionam concomitantemente em paralelo com outros circuitos de maneira sincronizada. Este tipo de processamento está envolvido nas respostas mais simples e estereotipadas. conseqüentemente. a fibra sensitiva de um nervo aferente (ou sensitivo) transmite-o até a medula espinhal passando pela raiz posterior. Atividades concomitantes (e sincronizadas) nas vias visuais dorsal e ventral (que são anatomicamente distintas) são responsáveis pela percepção unitária da imagem. no neurônio motor. estiramento. ou ao tronco encefálico. em que há produz uma reação involuntária rápida.Neurociências analisadas de maneira analítica concomitantemente no tempo. gerando. Os axônios eferentes que levam essa ordem da medula (pela raiz anterior) ou do tronco encefálico (por um nervo craniano) constituem as fibras eferentes motoras ou vegetativas que levam a informação ao órgão efetor (músculo estriado esquelético. aumento da intensidade luminosa. glândula. de modo geral. que protege o organismo. o sistema visual funciona em vias paralelas que processam a informação neural de forma simultânea e integrada. forma e localização. Sinais representando cores. É importante ressaltar que o processamento serial é a maneira mais simples por meio da qual um circuito pode funcionar. os circuitos envolvidos. independentemente da vontade. Ocorrendo um estímulo. o ato reflexo é um mecanismo que gera uma reposta involuntária do organismo a um determinado estímulo (dor.

Em um axônio aferente. preferências sexuais e aquisição de linguagem. No sistema visual (e em outros sistemas também) a competição entre aferências com diferentes padrões de atividade é um determinante importante na consolidação dos padrões de conectividade. além da construção de sua circuitaria. experiências desenvolvidas em períodos específicos no início da vida (referidos como períodos críticos) determinam um repertório comportamental no indivíduo adulto. Estes períodos críticos influenciam comportamentos diversos incluindo laços maternais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Construção de Circuitos e sua Modificação pela Experiência A construção da circuitaria do sistema nervoso envolve processos ontogenéticos associados à interação do sistema com o ambiente. experiência). fatores químicos liberados por determinados neurônios em diferentes estágios do desenvolvimento ontogenético atraem projeções de outros neurônios intrinsecamente. Se não é feita a manutenção destes padrões até o final do período critico. assim como a função visual. Assim. Embora seja possível identificar conseqüências comportamentais de determinados estímulos que foram apresentados em períodos críticos para determinadas funções. A atividade neuronal gerada em decorrência de interações com o ambiente pré e pós-natal influencia a estrutura e a função do sistema nervoso. Assim. modificando a circuitaria sináptica do encéfalo.e. 92 Julho/2010 . em humanos) durante um período critico na infância.. padrões de atividade correlatos tendem a estabilizar as conexões. Mais freqüentemente. Alguns estudos mostraram que a experiência é traduzida em padrões distintos de atividade neuronal que influenciam a função e a conectividade dos neurônios relevantes. molda os circuitos neurais. essas projeções e conexões entre neurônios podem originar-se também em associação com a estimulação proporcionada pelo ambiente e/ou pela atividade de certos conjuntos de neurônios. Talvez o exemplo mais bem investigado relacione-se ao período crítico no estabelecimento da visão. ou patologicamente. A história de interação de um indivíduo com o ambiente. Quando padrões normais de atividade são rompidos (experimentalmente. sua experiência acumulada. i. Como esperado. entretanto. em animais. a conectividade no córtex visual é alterada. os padrões macroscópicos básicos das conexões no sistema nervoso estabelecidas filogeneticamente podem ser microscopicamente alterados por padrões de atividade neuronal (isto é. A conectividade nervosa estabelecida ao longo do desenvolvimento normal possibilita ao encéfalo armazenar vasta quantidade de informações que refletem a experiência específica daquele individuo. paralelamente. determinando seu comportamento. estas alterações estruturais da circuitaria nervosa dificilmente se restabelecem posteriormente. as experiências funcionam primariamente como gatilhos que ativam alguns comportamentos inatos. Em alguns casos. entre outros. a construção dessa Pág. suas bases biológicas ainda não estão completamente esclarecidas.

1949). Donald Hebb hipotetizou uma forma de plasticidade sináptica proporcionada por uma continuidade temporal das atividades pré e pós-sinápticas. o sistema nervoso se torna gradativamente mais refratário a lições da experiência e os mecanismos celulares que medeiam as alterações da conectividade neuronal se tornam menos plásticos. pág. Primeiro. Hebb acreditava que a estimulação sensorial poderia iniciar padrões de atividade neural que eram mantidas centralmente pela circulação em loops de feedbacks sinápticos. atenção espacial. Seguindo as idéias do neurofisiologista Lorente de Nó. linguagem. Esta proposição pode ser precisamente colocada da seguinte forma: quando um axônio da célula A repetidamente ou persistentemente dispara.Neurociências conectividade que tanto influencia o desenvolvimento do sistema nervoso gera alterações maiores nos estágios iniciais de desenvolvimento. Desta maneira. tais como discriminação visual. memória operacional. retenção de memória. os neurônios estariam agrupados em “assembléias de células” e esta associação era distribuída nas suas conexões sinápticas. enquanto as conexões sinápticas eram o fundamento da memória de longa duração. era necessário postular “um mecanismo central que explicasse o atraso existente entre o estímulo e a resposta que é tão característico do pensamento” (Hebb. etc. Julho/2010 Pág. Assim. uma das células que estão agindo sob B. Em 1949. Em seu lugar. Hebb rejeitou a noção de que a relação estímulo-reposta poderia ser explicada somente por um simples arco reflexo conectando neurônios sensoriais a neurônios motores. em um animal adulto. Integração entre Circuitos I: o Modelo de Redes O conceito de que no córtex cerebral há domínios discretos dedicados mais ou menos exclusivamente a algumas funções cognitivas. Hebb hipotetizou um “mecanismo com fundamentos duplos” da memória. Ao contrário. Assim. XVII). ele foi além do simples conexionismo dos behavioristas. Em resumo. A atividade neural reverberante era o fundamento da memória de curta duração. Hebb propôs que: “A persistência ou repetição de uma atividade reverberante tende a induzir mudanças celulares permanentes que promovem estabilidade no sistema” (Hebb. Além de acreditar que as conexões sinápticas eram as bases das associações mentais. alguns processos de crescimento ou mudanças metabólicas acontecem em uma ou em ambas as células (A ou B) de tal modo que a eficiência de A. é aumentada. Tal “atividade reverberante” torna estes padrões possíveis para as respostas que são subseqüentes aos estímulos posteriores ao atraso. ele argumentou que uma associação não poderia ser localizada numa simples sinapse. 93 . modelos de redes neurais têm sido apresentados como uma alternativa mais coerente com as evidências disponíveis sobre seu funcionamento. 1949. tem sido questionado devido à falta de evidências conclusivas que o apóiem.. Segundo. reconhecimento de face.

A expressão de LTP pode dever-se à presença de mais receptores AMPA (receptores em amarelo. Este estreitamento pode durar de minutos a horas (in vitro) ou de horas a dias ou meses (in vivo). à esquerda. O neurotransmissor é libertado durante atividade basal e durante a indução de LTP (topo. abaixo) ou à presença de receptores AMPA mais eficientes (à direita. abaixo) (disponível Pág. à esquerda).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Além disto. ele pode ser resgatado repetidamente a partir da excitação de neurônios sensoriais ou a partir de outros padrões de atividade reverberante. 3). A hipótese de Hebb foi verificada décadas depois com a descoberta da potenciação de longa duração. A LTP é um estreitamento da conexão entre dois neurônios que resulta de uma estimulação simultânea de ambos e pode ser induzida experimentalmente aplicando-se uma seqüência de pequenos estímulos de alta freqüência na célula nervosa. Uma vez que este padrão de atividade foi armazenado nas conexões sinápticas. Hebb hipotetiza uma função específica para esta “sinapse hebbiana”: a conversão da memória de curta duração em memória de longa duração pela estabilização de padrões de atividade reverberante. Os receptores NMDA (vermelho) constituem a maquinaria molecular da aprendizagem. 94 Julho/2010 . Figura 3. Modelo representativo do funcionamento da Potenciação de Longa-Duração (LTP). LTP (do inglês. long-term potentiation) (Fig.

pode-se assumir que memórias filogenéticas correspondem a redes que se consolidaram ao longo das gerações e não necessitam de experiência individual para serem funcionais. Nesse contexto. a melhora desta comunicação é predominantemente feita através do aumento da sensibilidade das células pós-sinápticas em receber sinais das células pré-sinápticas. a LTP compartilha muitas características com a memória de longa duração. a alteração estrutural leva ao armazenamento da informação podendo explicar o fenômeno da memória.09/06/2009). Isso permite entender porque a recordação envolve. desde o relativamente simples condicionamento clássico presente em todos os animais.org . Por exemplo. De acordo com essa concepção. Por exemplo. até respostas mais complexas. Como conseqüência. a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. Pela eficiência aumentada da transmissão sináptica. mas também por um aumento do número destes receptores. a LTP aumenta a habilidade de dois neurônios. a idade do animal em questão e espécie. Estes sinais. Este aumento de sensibilidade é devido não somente ao aumento da atividade dos receptores já existentes na superfície. categorias. em partes porque a LTP é controlada por múltiplos mecanismos que variam de acordo com a região em que acontecem. mais fortes tornam-se essas conexões. de comunicarem-se através da sinapse. embora possam ser aprimoradas pela experiência individual. a LTP e a memória de longa duração dependem da síntese de novas proteínas. são recebidos por receptores presentes na superfície da célula póssináptica. possuem propriedades associativas e podem durar potencialmente vários meses. a complexidade de seu funcionamento é evidentemente maior. usualmente. que o encéfalo humano contém pelo menos 1011 neurônios. nas formas de LTP mais compreendidas. Quanto mais freqüentes as exposições a estímulos relevantes. Se considerarmos que um neurônio tipicamente recebe informações de cerca de 104 neurônios e.braincampaign. na forma de moléculas de neurotransmissores. por sua vez. ao Julho/2010 Pág. isto significa dizer que pelo menos 1019 conexões sinápticas são formadas no cérebro. Interessantemente. o que faz dela uma candidata muito atrativa como um mecanismo celular do aprendizado. A LTP também pode responder por vários tipos de aprendizado. um pré-sináptico e outro pós-sináptico. Este modelo postula que todas as representações cognitivas consistem em redes de neurônios cuja atividade foi associada pela experiência (estímulos repetidos). em particular quando se considera os arranjos seqüenciais pelos quais uma informação pode viajar ao longo de seqüências de neurônios. Entretanto. como a cognição observada em humanos. Entretanto. 95 . O mecanismo preciso para este aumento da transmissão ainda não é bem estabelecido.Neurociências em www. projeta-se para outros 104 neurônios e.

Assim.). aves. O mesmo ocorre em relação a alimentos. quando aprendemos que determinado estímulo se refere a um determinado conceito. todo o processo é regulado por feedbacks externos (ambiente) e internos (Fig. carnes etc. fugir de predadores. verduras. lutar e reproduzir-se. integramos todas as informações disponíveis (cor.4). Isso ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. quadrúpedes. Esta interdependência entre ação e percepção é ilustrada pelo “Ciclo Percepção-Ação” da figura acima. O mesmo vale para uma outra modalidade de estímulo. conversar com uma pessoa ou dirigir um carro. tais ações afetam diretamente nossa percepção do mundo. Esse padrão de funcionamento torna o organismo apto a forragear. Figura 4. Desde a mais primitiva espécie animal. forma. Interações podem incluir andar de um lugar para outro. Integração entre Circuitos II: Ação e Percepção Todas as formas de comportamento adaptativo requerem o processamento de um fluxo de informação sensorial e sua transdução em uma série de ações direcionadas a um objetivo. movimento) com os circuitos já consolidados previamente e que em algum momento foram associados ao conceito “maçã”. a recordação também será categórica (frutas. quando visualizamos a imagem de uma maçã caindo. invertebrados etc. legumes. 96 Julho/2010 . estamos na verdade fazendo associações com conceitos que já conhecemos (associando nós de uma rede com outros). o cheiro de uma comida que está intimamente ligado com o seu sabor etc. ou seja. contexto. animais aquáticos. pegar um objeto. ou seja. Uma das finalidades da percepção é permitir uma interação com o ambiente. um som específico que atribuímos como característico de um determinado animal. não raro a lista conterá animais agrupados por categorias de similaridade. De modo circular.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” pedirmos para uma pessoa listar todos os animais de que se recorda. A Pág. Então.

Esses rótulos estão longe. apesar de seus constantes desafios. todo trabalho investido em se “apoderar” do mundo. Percepção envolve Ação Julho/2010 Pág. “atenção”. O sistema nervoso evoluiu. “aprendizado”. o resultado das limitações que ainda temos em compreender a essência do funcionamento do sistema nervoso. permitindo nossa permanência nesse mesmo mundo. Isso se manifesta na enorme diversidade de estímulos que podem ser reconhecidos pelos sistemas sensoriais. “arquivá-lo” e “resgatá-lo”. mais provavelmente. provavelmente pressionada por fatores ambientais. ao tornar-se cada vez mais complexo. de uma definição completa e consensual. A progressiva elaboração dos circuitos neurais pode ser entendida como uma conseqüência da seleção de ações mais vantajosas (organizadas por circuitos “prémotores”) em resposta à identificação seletiva de estímulos específicos (realizada por circuitos “perceptivos”). de forma um tanto óbvia. derivado do latim. ações motoras e processos sensoriais estão conectados inseparavelmente e. logo veremos que não há percepção sem que alguma forma de atenção esteja em jogo. não se constituindo em entidades separadas e independentes da função neural.Neurociências visão que temos na integração sensório-motora é que em vários aspectos do comportamento. o funcionamento dos circuitos neurais que organizam a integração sensório-motora expressa aquilo que chamamos de “percepção”. Podemos supor então que. por fim. se considerarmos que a percepção do mundo. precisam ser estudados juntos. desta forma. significa “apoderar-se” dele. “memória”. Eles são. com ele interagindo de forma contínua e coerente. sobretudo. sobretudo nos mamíferos. onde “perceber” algo. E. “consciência”. desse evento ou dessa resposta. seria inútil e sem sentido se não usássemos essa informação na organização e emissão de uma ação sobre o mundo. responsáveis por emitir as respostas motoras. em sua maioria. de um evento que presenciamos ou de uma resposta que emitimos. pela rica e plástica relação que se estabelece entre esses dois conjuntos. 97 . na multiplicidade de graus de liberdade com que ações são organizadas pelos sistemas motores e. de tal forma que uma grande complexidade estrutural e funcional foi alcançada não tanto pelas vias aferentes. E é só por meio da percepção atenta que temos de um estímulo que sentimos. “ação” e. flexibilidade e plasticidade de comportamentos observados. resgatando uma memória arquivada por meio de um processo de aprendizado. responsáveis por canalizar as informações sensoriais. ou pelas vias eferentes. mas por circuitos neurais que intermedeiam essas vias de entrada e saída. Desta forma. que poderemos mais tarde nos lembrar desse objeto. Os complexos circuitos neurais que se localizam entre as vias sensoriais e motoras são os principais responsáveis pela riqueza.

nas áreas sensoriais da hierarquia (perceptiva) e em áreas motoras da hierarquia (executiva).não dependem tanto deste contato. Todos estes exemplos demonstram que a percepção é um processo ativo que funciona para direcionar e otimizar o comportamento através do seu refinamento. com feedbacks em todos os níveis.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Perceber algo geralmente requer alguma ação por parte de quem esta percebendo. podemos decidir se iremos nos aproximar ou nos afastar. guiados por estímulos também mais complexos e distantes no tempo. desta forma. Ao ouvir um barulho podemos responder a ele ou ficar quieto. no nível cortical. Em cada um destes casos nosso comportamento depende do que é percebido. temos que direcionar nossos ouvidos em sua direção. A orientação da percepção por meio de uma ação induz uma distinção interessante entre os vários sentidos que tem a ver com a proximidade do observador em relação ao objeto percebido. Ao identificar um objeto pelo toque podemos descartá-lo ou mantê-lo conosco. 5). Freqüentemente temos que olhar (direcionar os olhos) para ver. substâncias químicas voláteis são diluídas conforme a distância da fonte aumenta. eles estendem a percepção para um mundo além dos limites dos dedos e do nariz. a informação flui de maneira circular ao longo de uma série de áreas hierarquicamente organizadas e entre conexões que constituem o ciclo percepçãoação (Fig. em direção a estruturas anteriores (motoras). para um som ser audível. Os olhos e os ouvidos podem capturar a informação originária de fontes remotas. Quando tocamos um objeto. uma vez que um objeto tenha sido percebido. Ações automáticas e/ou muito freqüentes em resposta a estímulos sensoriais são integradas em níveis mais inferiores do ciclo. neste sentido eles funcionam como um radar. Em contraste. Além disso. Organização e Hierarquia no Ciclo Percepção-Ação Em todo o sistema nervoso central. Assim. fazendo uma varredura visual do ambiente até que o objeto de desejo seja encontrado. 98 Julho/2010 . basicamente áreas superiores de associação sensorial e córtex frontal anterior. o cheirar funciona mais eficientemente para substâncias que estão próximas. Da mesma forma. Tocar e saborear algo requer um contato direto entre o observador e a fonte de estimulação. permitindo que o indivíduo explore a vizinhança. Estes dois sentidos substituem o deslocamento até a fonte de estímulo. Comportamentos mais complexos. Eles permitem que o indivíduo faça contato perceptual com um objeto que não está próximo. ver e ouvir. Pág. Cheirar também é um certo contato com a fonte de estímulação. o processamento de seqüências de ações guiadas sensorialmente segue um fluxo a partir de estruturas geralmente posteriores (sensórias). requerem uma integração em níveis corticais mais superiores de ambas as hierarquias (perceptuais e executivas). ele é mais facilmente identificado se for explorado pelos nossos dedos.

as entradas sensoriais associativas do córtex posterior são progressivamente mais concretas e mais dependentes de um contexto espacial e temporal imediato. enquanto áreas frontais anteriores se conectam com áreas associativas superiores do córtex posterior (áreas superiores). longas fibras corticocorticais conectam recíproca e topologicamente as áreas da hierarquia perceptual com as áreas equivalentes executivas. O substrato cortical do ciclo percepção-ação.Neurociências Figura 5. há evidências anatômicas de conexões ordenadas descendentes do córtex frontal anterior ao córtex pré-motor e deste para o córtex motor. 99 . Os retângulos vazios representam áreas intermediárias ou subáreas do córtex. Estes sinais são processados no córtex posterior e concomitantemente nas áreas superiores do córtex frontal anterior (rostral). Da mesma forma. Em cada estágio deste processo em cascata na hierarquia executiva. 2006). Em azul está representado o lado da percepção no ciclo e em vermelho o lado da ação. os sinais são integrados simultaneamente com as informações prévias (as regras Julho/2010 Pág. Assim. áreas pré-motoras se conectam com áreas sensoriais associativas relativamente inferiores (áreas inferiores de ambas as hierarquias). a próxima ação de uma seqüência é determinada por dois tipos de influências: 1) o processamento dos aspectos globais da seqüência nas áreas frontais superiores e 2) os sinais sensoriais que estão ocorrendo naquele momento. A ativação progressiva de áreas frontais inferiores que processam a ação é cumulativa. Sinais que necessitam ser processados em um contexto temporal mais amplo (episódico) requerem ações que dependem de uma integração temporal em graus mais elevados. Em ambos os córtices. As setas representam vias anatomicamente identificadas em macacos e ressaltam a conectividade recíproca entre os córtices posterior e anterior (retirado de Fuster. Para garantir as interações entre as duas hierarquias corticais. Do mesmo modo.

nós humanos passamos boa parte do nosso tempo observando as outras pessoas. mais integrativas e de maior alcance adaptativo. tanto nos seus sistemas quanto nas respostas comportamentais. como reconhecemos e entendemos as intenções das outras pessoas? Quais as bases neurofisiológicas desta habilidade? A recente descoberta de neurônios espelho tem inspirado uma série de estudos em busca destas respostas. Na abordagem sensório-motora. Assim como vimos acima.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de uma determinada tarefa e as instruções eventualmente dadas) antes mesmo de serem enviados para o processamento em estágios inferiores da hierarquia frontal. o córtex frontal anterior integra as mais elaboradas associações da informação sensorial que estão armazenadas em redes dos córtices sensoriais e motores. temos uma grande vantagem ao construirmos representações perceptivas do mundo e guardá-las na memória. Se considerarmos que a execução de uma ação não se limita. Sendo assim. as ações são vistas como o meio para determinados fins que seguem a intenção. Esta “comunicação primitiva” é essencial para estratégias de sobrevivência e sociabilidade do indivíduo. fornecendo subsídios para ações mais complexas. O Sistema de Neurônios Espelho Quando temos que explicar uma ação humana. na abordagem ideomotora. existe uma sobreposição e uma dependência entre as percepções e as ações. Assim. do objeto ao qual a ação é direcionada e do contexto no qual ela está inserida. Uma hipótese alternativa admite que a observação de uma ação estimularia uma “representação motora interna” que envolveria as mesmas estruturas neurais envolvidas na Pág. Contudo. a abordagem ideomotora oferece uma predição muito consistente. e as ações são consideradas como o meio de realizar estas intenções. tentando entender o que elas estão fazendo e por que. a neurociência tem duas abordagens maiores: a sensório-motora e a ideomotora. 100 Julho/2010 . tudo começa com uma intenção. a uma única oportunidade. De modo inverso. do agente envolvido. e as ações são consideradas uma conseqüência desta estimulação. Desde modo. isto é. Esse aprendizado permite um refinamento a longo prazo de nossas ações. isto é. fica difícil imaginar que nossas ações sejam meras escravas de nossas percepções. Considerando o fato de sermos seres sociais. numa análise dos componentes visuais da ação específica. tudo começa com uma estimulação. O reconhecimento de uma ação foi inicialmente concebido como baseado apenas no sistema visual (abordagem sensório-motora). podendo usar essa informação em uma próxima oportunidade em que ações semelhantes sejam requeridas. em geral. a interação de todos estes elementos identificados visualmente permitiria ao observador reconhecer e entender uma ação feita por outra pessoa. Em uma situação em que uma pessoa observa as ações de outra pessoa.

embora nenhum movimento efetivo seja executado. sugere que a atividade espelho depende da riqueza das experiências próprias do observador e de ações presentes em seu repertório motor (memória de planos motores). isto é. Estudos posteriores mostraram que pelo menos 10% dos neurônios envolvidos no controle motor de ações desempenhadas com as mãos são “neurônios espelho”. como por exemplo. Os descobridores destes neurônios. e considerando que esta hipótese não exclui a possibilidade de que outro processo cognitivo. 6). isto é. o estímulo é ligado à intenção do agente. de acordo com esta concepção. entre eles Giacomo Rizzolatti. o sistema de neurônios espelho lida com informações mais abstratas. o reconhecimento do objetivo final de uma ação baseado em exposição prévia do observador só parece possível se houver dicas suficientes no ambiente acerca da intenção desse outro indivíduo. aparentemente. Esta resposta. Isto é. e também reconhece que Maria quer pegar uma maça. o reconhecimento de uma ação implica no reconhecimento de um objetivo e. Sua descoberta ocorreu durante experimentos com macacos envolvendo o controle motor de ações desempenhadas com as mãos. Todavia. possa participar desta função. uma ação implica em um agente e um objetivo. Estes estudos mostram que além do reconhecimento da ação motora por meio de informações visuais. a representação motora evocada pela observação permitiria o reconhecimento do significado do que é visto. 101 . os assim denominados “neurônios espelho”. a fim de reconhecer o objetivo final da ação. auditiva. Conseqüentemente. implantaram eletrodos no córtex frontal inferior de macacos (área F5) e registraram a atividade dos neurônios individualmente enquanto os animais alcançavam pedaços de alimentos. Julho/2010 Pág. esta hipótese motora vem ganhando cada vez mais adeptos. ele reconhece o que Maria fará (pegará algo). Entretanto. como se a mesma tivesse sido “refletida” no seu córtex motor (Fig. o entendimento da intenção do agente: “João vê Maria pegando uma maça”. pegar/manipular um objeto ou alimento. Vendo sua mão movimentando-se em direção à maça. tem sido proposto que os neurônios espelho formam um sistema que combina observação e execução – percepção e ação. disparavam não somente quando o macaco pegava o alimento. baseado na descrição do objeto e do movimento. como também quando ele observava outro indivíduo (macaco ou humano) desempenhando esta ação. baseada também em outras modalidades. Com a descoberta de que há ativação de neurônios na região do córtex pré-motor durante a observação de ações. Neurônios espelho são um grupo particular de neurônios cuja atividade aumenta durante a execução de uma ação motora particular ou da observação da mesma ação desempenhada por outro indivíduo.Neurociências execução da ação observada. Eles observaram que alguns destes neurônios (situados no setor superior da área F5). em outra perspectiva.

Através do reconhecimento de ações e. ocorre uma integração online das informações recebidas do ambiente .1996).e também entre informações presentes no sistema nervoso do observador . Pág. À direita está um esquema que exemplifica a atividade dos neurônios espelho nas duas situações (retirado de Rizzolatti.representação motora da ação observada. Desta maneira. Experimento feito com macacos em que ele executa uma ação (pegar o amendoim) e também observa esta mesma ação sendo feita pelo experimentador.a ação observada sendo executada por outra pessoa . não apenas pelo sistema sensorial. o sistema de neurônios espelho oferece um modelo de integração entre percepção e ação bastante interessante. 102 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6. mas também no próprio sistema motor do observador.

A rede neural mais simples em organismos vivos é aquela encontrada nos Celenterados. formando um arcorreflexo monossináptico (e. em que uma única célula recebe o estímulo em um ponto do organismo e diretamente atua como uma célula efetora.g. nenhum ou algum processamento do sinal (interneurônios) e um sistema de saída (células efetoras) (Fig. Em última instância. 1). A existência do interneurônio nessa interface deu origem aos gânglios – acúmulos de corpos celulares no organismo. Apesar disso. reflexo patelar). Ressalta-se que a comunicação entre as duas células já poderia representar uma forma de modulação do sinal e. e sem preferência de direção do estímulo conduzido. nosso cérebro é um gânglio (ou um grande conjunto deles). Eventualmente. que é presente em todos os outros organismos multicelulares (com tecido verdadeiro). Há ainda o arcorreflexo polissináptico. O arranjo mais simples possível é chamado arcorreflexo. O mais complexo que se tem conhecimento. com cruzamentos desordenados de axônios. de agora em diante chamadas receptores sensoriais. com pelo menos um interneurônio entre as células receptora e efetora. modificou-se para um arranjo com duas células: uma receptora e outra efetora. As células receptoras.com Introdução O sistema nervoso de qualquer organismo pode ser modelado em sua forma mais simples como um sistema que possui entrada de dados (células receptoras).fv@gmail. flexibilizar o comportamento (Eckert. são responsáveis por transduzir (isto é. os arcosreflexo polissinápticos são mais comuns. O arranjo das células nervosas é difuso. Figura 1 – Modelo simplificado do arranjo de um Sistema Nervoso. portanto. Em alguns Celenterados há um início de organização em direção a arcos-reflexo monossinápticos.Neurociências Fisiologia Sensorial Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. Esse arranjo já permite uma série de respostas comportamentais úteis à sobrevivência. 1983). 103 . transformar uma forma de energia em outra) o estímulo Julho/2010 Pág.

por exemplo. que faz com que a luz passe duas vezes por ela. Modificado de Carlson (2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ambiental em um sinal elétrico que possa ser processado pelo encéfalo. Aqueles que dependem do sistema visual têm mecanismos de compensação das condições mínimas de luz. Por outro lado. Mecanismo de transdução Mesmo alguns organismos unicelulares apresentam resposta à luz – uma simples fototaxia (movimento em direção à luz). há animais que tem visão e audição pobres. respondem preferencialmente a um tipo de estímulo. Ela tem excelentes propriedades direcionais e a maior velocidade de deslocamento conhecida. mas apenas aqueles mais adequados para um determinado ambiente. útil a presas e predadores. a ponto de serem danosos para os tecidos (raios ultravioleta A e B são danosos à pele). pois persistem em diversos grupos. sendo muito fiel para retratar mudanças no ambiente. O fato de nos mais diversos organismos a faixa de energia eletromagnética captada ser tão restrita deve-se aos comprimentos de onda acima (comprimento de onda maior) do vermelho não carregarem energia suficiente para um efeito apreciável e aqueles abaixo do violeta carregarem muita energia. portanto. Mas mais do que gerar uma resposta intracelular Pág. É importante ressaltar que não há sistemas mais ou menos evoluídos. sendo dependentes dos sentidos químicos para encontrarem presas (e. animais com hábitos noturnos tiveram favorecimento de outros sistemas sensoriais. a ecolocalização de morcegos. Olfato e gustação parecem extremamente adaptativos para algumas funções. 2). Comprimento de onda em nanômetros. Os receptores tendem a ser muito específicos e. 104 Julho/2010 . como. Visão A faixa de luz visível pelos animais compreende-se do infravermelho até o ultravioleta (Fig. A luz parece ser a melhor forma de energia para se localizar e locomover no espaço – seu desenvolvimento se deu independentemente em diversos grupos animais. em conjunto com o arranjo no qual estão dispostos em um órgão no animal.g. Nesse sentido. como os Tarsius. Outros mamíferos. Figura 2 – Faixa de luz visível (em destaque) utilizada pelos receptores dos organismos vivos.: cobras). Gatos possuem um tecido refletivo na retina (chamado Tapetum lucidum). têm globos oculares extremamente grandes.

há uma alteração da atividade eletrofisiológica do receptor. A combinação mais encontrada. Apesar das diferenças no formato e no funcionamento.Neurociências pela estimulação luminosa. Este é formado por um dendrito central de uma célula chamada excêntrica. é entre opsina e Retinal (uma molécula derivada da Vitamina A). Os vertebrados reúnem todos os receptores em um mesmo local (a retina. Em última instância. provocando uma cascata bioquímica no interior da célula.3). A maioria dos primatas possui na retina dois Julho/2010 Pág. o mecanismo básico envolve a captação da luz e a estimulação de fotorreceptores específicos. Todo fotorreceptor possui essa combinação em suas membranas. 4A). A molécula fundamental para esse processo é uma combinação entre opsina (uma proteína) e um carotenóide. Os invertebrados mais bem estudados com respeito ao sistema visual são os insetos. O comprimento de onda que será absorvido em cada receptor é também bastante variável. Isso só é possível nos organismos multicelulares e na presença de olhos – órgãos especializados para captação de luz – os quais surgiram independentemente em diversos grupos animais. dado que as variações entre os grupos são grandes. formando o rabdômero (Fig. Eckert (1983). Fig. abrigados por uma câmara com entrada de luz controlada e intermediada por uma lente. com alguns crustáceos apresentando até oito omatídeo do olho composto de invertebrado. as quais enviam uma densa profusão de microvilos em direção ao dendrito da célula excêntrica. Modificado de diferentes pigmentos em seu sistema visual (Cronin. 4B). para que possamos enxergar. cada qual com um receptor sensorial. A maioria dos grupos possui dois tipos de receptores: cones e bastonetes (Fig.g. tanto em vertebrados como em invertebrados. A quantidade de pigmentos visuais é bastante Figura 3 – Representação de um variável. precisamos formar uma imagem representativa do ambiente que nos rodeia. um arranjo que permite a projeção de uma imagem invertida sobre a retina. Poucas generalizações podem ser feitas quanto ao envolvimento desses receptores na visão de cores e outras propriedades de uma imagem (e. rodeado por 6 a 12 células retinulares. que é transmitida até o Sistema Nervoso Central (SNC). 2006). formando um mosaico. Essas moléculas se encontram em abundância nas dobras de membrana do receptor (uma a cada 5 nm em alguns receptores) e mudam sua conformação com a estimulação luminosa. A formação de imagem nesse tipo de olho se dá pela composição das diversas partes do campo visual captadas pelos diversos omatídeos. Eles possuem olhos compostos por unidades individuais chamadas omatídeos. 105 . brilho).

Figura 4 – (A) Olho em câmara de vertebrados. como em um quarto escuro. 5). menos cones e mais bastonetes são encontrados. (B) Detalhe da fóvea no centro da retina. ainda que responda por menos de 1% do campo visual.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tipos de cones (cada um com um pigmento) mais bastonetes (Casagrande e col. Pág. e todos os primatas têm os cones concentrados na porção central da retina (fóvea). Conforme se afasta do centro da retina em direção à periferia. As fibras do hemicampo nasal se cruzam no quiasma óptico e seguem para o lado contralateral. 6). Os bastonetes são mais sensíveis à luz do que os cones (podendo responder a apenas um fóton – o equivalente à luz de uma vela a 1 km de distância). formam o nervo óptico que transmite a alteração da atividade eletrofisiológica resultante da estimulação dos fotorreceptores em direção ao V1 (Fig. porém. Alguns têm três tipos de cones. 4B). Há um cruzamento de parte das fibras que se dirigem ao SNC (Fig. as células ganglionares (Fig. incluindo os humanos. Semelhantemente. Modificado de Lent (2006). 5). As células ganglionares do hemicampo temporal em ambos os lados não se cruzam e seguem ipsilateralmente. Neurônios com axônios longos. Essa discrepância de valores é resultado da extrema fidelidade com a qual as imagens desse ponto do campo visual são tratadas. 106 Julho/2010 . 4B). uma depressão formada pelo afastamento das camadas celulares superiores (Fig. com virtualmente nenhum cone nas regiões mais periféricas. toda a estimulação do lado direito irá para o córtex esquerdo e vice-versa. 2006). constituindo todas as tonalidades de cores que enxergamos. A fóvea é o ponto de maior acuidade visual. Esse caminho. não é direto.. A percepção de cores através dos cones se dá pela interação da estimulação dos três tipos de pigmento a todo instante. o inverso do centro da fóvea. Dessa forma. Eles são extremamente importantes para a detecção de bordas e movimento. evidenciando algumas camadas celulares da retina. sendo processado por quase 50% do córtex visual primário (V1) (Fig. é pela maior acuidade visual dessas células que tendemos a enxergar imagens acinzentadas (ou simplesmente sem cor) em condições de pouca luz.

o que reduz sensivelmente a visão binocular. permitindo que esses animais percebam a aproximação de predadores independentemente do local para o qual eles estejam direcionados. As duas camadas mais inferiores possuem neurônios com corpos celulares grandes e trazem as informações vindas dos bastonetes: é a camada magnocelular. 6). tem uma região cortical para cada região na retina atendida por uma célula ganglionar. Note que há uma extensa área de sobreposição dos campos esquerdo e direito (Fig. portanto. Após o estímulo passar pelo NGL. que tem um mapa retinotópico. (1996).Neurociências Figura 5 . Herbívoros. têm neurônios com corpo celulares pequenos e trazem informações vindas dos cones com pigmentos sensíveis à luz vermelha e verde. Esse núcleo tem seis regiões citoarquitetônicas muito bem definidas nos primatas. por outro lado. mais especificamente pelo Núcleo Geniculado Lateral (NGL). 107 . Lembrando que a região compreendida pela fóvea corresponde a Julho/2010 Pág. mas potencializa a visão em todas as direções. Encéfalos fora de escala. As outras quatro camadas. (1996). ele se dirige à V1. Após o cruzamento no quiasma óptico. Figura 6 – Cruzamento das fibras do nervo óptico e hemicampos contemplados em cada hemisfério cerebral. Entremeado nessas camadas. para um mesmo lado da cabeça). tem os olhos em lados opostos da cabeça. em vermelho. isto é. no córtex occipital. no córtex occipital do homem. do gato e do rato. há células chamadas koniocelulares que trazem informações dos cones sensíveis ao azul. algo constante em animais carnívoros. responsável pela visão em profundidade e criada pela proximidade entre os dois globos oculares (voltados. chamadas parvocelulares. É ela quem permite a visão binocular. Modificado de Bear e col. Modificado de Bear e col. todas as fibras passarão pelo Tálamo.Córtex visual primário (V1).

fica claro que a fidelidade entre célula ganglionar e receptor sensorial deve ser altíssima na fóvea (ou pelo menos na fóvea central – algo como 1:1) e que esse número deve ser bem reduzido nas regiões periféricas da retina. Audição A cóclea é uma estrutura tubular enrolada sobre si mesmo com três câmaras internas chamadas escalas.000 Hz. Figura 7 . preenchidas por líquidos de composições específicas (Fig. 8).000 Hz e indo até cerca de 120. O sistema auditivo humano está limitado a perceber freqüências entre 20 Hz e 20. os morcegos podem perfeitamente voar no escuro total. 2005). Eles utilizam-se do que chamamos de sonar: um mecanismo de ecolocalização baseado na percepção da posição de objetos no espaço pela geração de um som e recaptura do mesmo após reflexão. podendo ser feita a quilômetros de distância. características que se tornam ainda mais exacerbadas nos ultra-sons. Esse fato introduz o conceito de Campo Receptivo: a área da retina para qual uma célula ganglionar responde é maior quanto mais nos afastamos do centro da retina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quase 50% de V1. que não vibra com sons fora dessa faixa de frequências. devido a características implícitas à cóclea. morcegos têm faixa de audição começando em 10. (1996). 108 Julho/2010 . freqüências acima de 10. parte da Pág. mais especificamente. à membrana basilar dentro dela (Fig. Diferentemente da visão. freqüências acima de 20. Os superagudos. com cada vez mais células receptoras para cada célula ganglionar. No outro extremo. conseguindo desviar dos obstáculos presentes em seu caminho.000 Hz. o intervalo de frequências captado por outros animais não é semelhante. 7) (Carlson.Representação do sistema auditivo humano. Emitindo sons acima de 50. têm comportamento extremamente direcional e reflexivo. Modificado de Bear e col.000 Hz.000 Hz. Mecanismo de transdução A energia sonora no ambiente chega até ao tímpano pelo canal auditivo. Infra-sons (freqüências abaixo de 20 Hz) são utilizados por tigres e elefantes como forma de comunicação.000 Hz.

Como a cóclea é um tubo inextensível. é transmitida pelo tímpano aos ossículos da orelha média (martelo. movimentando-se em relação à célula e causando abertura ou fechamento de canais pelo estiramento da membrana celular e influxo de potássio e cálcio. 7). permitindo a movimentação dos líquidos internos e vibração nas membranas. Sons médios. resultando em um ganho em amplitude de 32x aproximadamente. Essa energia. não se deslocam por estarem imersos e fixos na membrana tectorial. A interação existente entre os três ossículos causa uma amplificação de até 1. que farão a transmissão para a janela oval na cóclea. A vibração transmitida à janela oval é então transferida para os líquidos internos da cóclea e para a membrana basilar. integrantes da orelha interna. a Janela Redonda funciona como uma válvula de escape. todo som causará vibração por toda a membrana basilar. Modificado de Bear e col. A membrana tectorial no órgão de Corti é uma estrutura rígida e fixa.Neurociências orelha externa (Fig. Diferentes regiões da membrana basilar são mais sensíveis a freqüências distintas. inicialmente pelo nervo coclear (Fig.6x na energia sonora que recebemos e a diferença de área entre o tímpano e a janela oval outra de 20x. Figura 8 – Representação esquemática do órgão de Corti. Sons agudos – altas freqüências – são melhores percebidos no início dela. Isso resultará em despolarização ou hiperpolarização dos receptores e a mensagem transmitida pelos neurônios bipolares que integram o nervo coclear será maior ou menor freqüência de disparos. Tais constatações não significam que um som fará com que só aquela região vibre. mas ela será muito pequena fora do ponto de ressonância. Pelo contrário. no entanto. os cílios dos mecanorreceptores. Julho/2010 Pág. Nele se encontram os receptores sensoriais (mecanorreceptores) que iniciam a despolarização que será conduzida ao córtex cerebral. bigorna e estribo). A vibração da membrana basilar acaba causando o deslocamento de todo esse órgão. O órgão de Corti é o responsável pela transdução da energia sonora em impulsos nervosos. 8). 109 . com todas as suas características de frequência e intensidade. (1996). não alterando a atividade eletrofisiológica em outros pontos da membrana. no meio. e sons graves – baixas freqüências – no final da cóclea.

Esse arranjo permite o que é chamado “Princípio de Localização”: uma determinada população de neurônios de A1 com sua atividade alterada indica fielmente uma determinada frequência de vibração na membrana basilar (Lent.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As fibras nervosas que saem da cóclea fazem algumas sinapses no trajeto até o Córtex Auditivo Primário (A1). O sistema é composto na maioria dos vertebrados por três canais semicirculares para percepção de acelerações angulares (rotações) e os otólitos (sáculo e utrículo). todos os vertebrados contam também com o sistema vestibular. permitindo correções posturais reflexas a estimulações bruscas e estabilização do olho durante a movimentação corporal (Graf. Modificado de Bear e col. esse sistema deve ser no cérebro. para acelerações lineares (Graf. 10). formando um mapa tonotópico da membrana basilar da cóclea com frequências graves mais anteriores e as agudas mais posteriores. ausente nos agnatas. 2006) (Fig. a mais importante delas no Núcleo Geniculado Medial (NGM) onde todas fazem sinapse (Fig. 2006). considerado um sexto sentido dos organismos. tendo íntima relação com o sistema motor. Modificado de Lent (2006). impulsos nervosos provenientes da cóclea até o córtex auditivo primário Raramente mencionado. 2006). 110 Julho/2010 . pela adição do canal horizontal. Pág. com o qual podem perceber Figura 9 – Trajeto percorrido pelos fenômenos de aceleração e postura corporal. Sistema Vestibular Associado às estruturas que permitem a audição. 9). Todas as fibras que saem do NGM chegam até A1. A presença de três canais semicirculares surge nos gnastomados. (1996). Figura 10 – Órgãos do equilíbrio no ouvido humano.

ao organismo) – um arcorreflexo monossináptico como o reflexo patelar. resultando em movimentação da cúpula e despolarização ou hiperpolarização das células ciliadas. 2005). embora outras conexões neurais conduzam os estímulos recebidos também ao tálamo. Sentidos químicos Olfação As conexões neurais da via olfativa até o córtex sugerem que esse é um dos sistemas sensoriais mais antigos dos animais. algumas projeções vão para os núcleos dos nervos cranianos que controlam o movimento ocular (nervos cranianos III. O córtex somatossensorial faz parte do lobo parietal do cérebro humano. como a ponta dos dedos.Neurociências Os canais são completamente preenchidos por líquido e contém uma dilatação (ampola) com células ciliadas (mecanorreceptores) associadas a uma estrutura gelatinosa (cúpula). É o único sistema que faz conexões diretas com o córtex cerebral (córtex olfatório). Os movimentos de rotação do organismo causam o deslocamento do líquido em relação ao canal. outras seguem diretamente para o cerebelo. além de conexões com o lobo frontal do neocórtex e o sistema límbico. Essas projeções permitem o reflexo vestíbulo-ocular que corrige o movimento dos olhos enquanto andamos ou simplesmente movimentamos a cabeça. As vibrissas de ratos e camundongos são também um órgão tátil. algumas regiões são mais privilegiadas do que outras. 111 . Esses neurônios fazem conexões diretas com neurônios motores para permitir reflexos e evitar eventuais danos à pele (em última instância. temperatura ou dor. os comportamentos ligados à homeostase e às emoções (Lent. lábios e língua tendo os menores campos receptivos do sistema (e. 5). permitindo a formação de imagens estáveis na retina. Assim como na visão. formando um mapa somatotópico do organismo. São as conexões com o lobo frontal que provavelmente nos permitem ter consciência dos cheiros ao nosso redor e as conexões com o sistema límbico. já que estes têm hábitos noturnos. no giro pós-central (Fig. as maiores áreas de processamento). Somestesia O sistema somatossensorial permite perceber estímulos na pele através de uma diversidade de receptores sensoriais especializados: modificações nas terminações de neurônios unipolares que alteram sua atividade eletrofisiológica pela pressão. Interessantemente. como na cóclea. Os estímulos somestésicos também são levados ao córtex cerebral via tálamo. O sistema olfativo é um bom exemplo de como o sistema sensorial mais importante a Julho/2010 Pág. IV e VI). A maioria das projeções do nervo vestibular vai para um núcleo homônimo na medula. Pessoas com lesão no nervo vestibular têm sérias dificuldades em enxergar enquanto se deslocam (Carlson. utilizado para se localizarem no ambiente e mais importantes do que os olhos. portanto. 2006).

extremamente importante para o equilíbrio eletroquímico do organismo. 112 Julho/2010 . Treinados. Feromônios são moléculas intraespecíficas que servem à comunicação entre gêneros – resultando. acidez. porém. frequentemente sendo vistos farejando o chão atrás de algo que lhes interessa. substância naturalmente presente em carnes. indicam a presença de cloreto de sódio. Já receptores para sal. Os animais tendem a ingerir rapidamente tudo o que é doce ou salgado. Tubarões também são fantásticos na detecção de odores. Gustação A gustação está presente na maioria dos vertebrados e depende de receptores específicos na língua. 2005) trazem indícios fortes de que esse mecanismo também exista em humanos.. 2005). Cachorros não são capazes de enxergar em cores como nós enxergamos. Acidez é um indicativo de decomposição. As vias neurais da gustação se dão através do núcleo posteromedial ventral do tálamo para a base do córtex frontal e para o córtex insular. em última instância. Isso se traduz em conseguir perceber uma fêmea a milhas de distância. queijos e alguns vegetais. podendo perceber uma gota de sangue em dezenas de litros de água. Há claras razões adaptativas para a seleção de tais receptores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” uma espécie dependerá das pressões seletivas. Umami é um sabor relacionado à presença de glutamato monossódico. doçura indica presença de açúcares. 1997 apud Carlson. claramente um alimento. Já o amargor é um excelente indicativo da presença de alcalóides potencialmente venenosos produzidos por plantas. por outro lado. O caso mais surpreendente. sendo melhores que os humanos fazendo tais buscas visualmente. 1986 apud Martins e col. substâncias amargas ou azedas serão evitadas. salinidade e umami. no acasalamento – e também à demarcação de território entre indivíduos.. Por outro lado. 2005) e a preferência por odores do sexo oposto (Martins. são hoje largamente utilizados para encontrar drogas em bagagens e pessoas soterradas em terremotos. doçura. Um sexto tipo de receptor poderia também detectar a presença de ácidos-graxos nos alimentos. o reconhecimento do próprio odor em relação ao de outros indivíduos (Porter e col. Outras projeções se dão para a Pág. é o das mariposas: os machos de algumas espécies são capazes de detectar concentrações de apenas uma molécula do feromônio de atração sexual da fêmea para até 1017 moléculas de ar. Fatos como a coincidência do ciclo menstrual entre mulheres que moram juntas (Weller e Weller.. felinos não possuem receptores para doçura (Carlson. são detentores de um olfato apuradíssimo. trabalhos recentes indicam respostas celulares causadas pela presença de ácidos-graxos específicos (Gilbertson e col. 1995). Curiosamente. que detectam cinco qualidades: amargor. Alguns desses exemplos nos mostram que nem sempre precisamos estar conscientes de um estímulo para responder ao mesmo. de fato. 2005). resultado da ação bacteriana.

coração) mesmo que eles estejam enterrados sob a areia do fundo do lago ou oceano. Outros peixes são capazes de produzir uma corrente elétrica fraca.Neurociências amígdala e hipotálamo. Cobras dos gêneros Crotalus e Sistrurus têm termorreceptores com altíssima sensibilidade. pombos-correio (uma variação do pombo-comum) e as tartarugas-marinhas. A corrente gerada flui da parte posterior para a anterior do peixe e qualquer material próximo que tenha uma condutividade diferente daquela da água causará uma alteração no campo elétrico. Por outro lado. 2006). Sugere-se que a via hipotalâmica sirva para mediar efeitos reforçadores de sabores doces e salgados. O campo magnético terrestre também parece ser um estímulo utilizado por alguns animais para orientação e deslocamentos de longa distância. Termorreceptores são extremamente importantes tanto em mamíferos. 3). que precisam manter sua temperatura regulada. sendo capazes de detectar aumentos de temperatura tão pequenos quanto 0. as interrelações com outros mecanorreceptores podem ser traçadas até o nemátoda Caenorhabiditis elegans. Alguns peixes têm células eletrorreceptoras que são modificações de células ciliadas da linha lateral. através de uma série de despolarizações sincronizadas das células de seu órgão elétrico. Isso é possível pelo arranjo dos microvilos no rabdômero do omatídeo (Fig. Mais do que isso.g. Outros sentidos O repertório de estimulações físicas que servem à orientação não se limita àquelas que podemos perceber. Há críticas à existência da magnetorrecepção. detectar um camundongo distante 40 cm se ele estiver 10°C acima da temperatura ambiente. mas os experimentos que a refutam parecem apenas Julho/2010 Pág. Insetos conseguem se guiar pelo Sol mesmo quando há nuvens no céu impedindo luz direta. entre eles: aves migratórias. A própria linha lateral de peixes e anfíbios é um órgão sensorial. A estimulação pela luz é até seis vezes maior nos microvilos que estão paralelos à orientação do vetor de polarização da luz. quanto em outros animais que dependem desse tipo de receptor para capturar presas.. Ela está ausente nos grupos superiores de vertebrados e é extremamente adaptativa ao ambiente em que esses organismos vivem. Essas células podem captar correntes elétricas produzidas por tecidos ativos de outros peixes próximos (e. um mecanismo frequentemente utilizado por elasmobrânquios. isto é. o mecanismo receptor presente ao longo da linha lateral é uma célula ciliada como aquela descrita para os órgãos de audição e equilíbrio. 2006). passando pelas drosófilas e apontando para um desenvolvimento evolutivamente precoce desses receptores (Graf. formando um ângulo de 90° uns com os outros. 113 . sendo homólogo entre todos os grupos (Graf.002 °C. sendo detectado.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” falhar em detectá-la e não invalidam a existência do mecanismo. Pág. Não há melhores órgãos e sistemas. necessariamente. Em última instância.. Além disso. É provável que outras formas de percepção de estímulos existam. qualquer observação comportamental merece uma postura cautelosa na busca de quais estímulos estão moldando um determinado comportamento. Eckert (1983) relata evidências de que ele possa existir em salamandras. Conclusões Os mecanismos sensoriais empregados pelos organismos são os mais diversos possíveis e produto das pressões seletivas que um ambiente pode gerar. disponível na superfície terrestre globalmente. a forma como outros animais com órgãos análogos ou mesmo homólogos o percebem. mas apenas aqueles mais bem adaptados. tornaram possível o desenvolvimento independente de órgãos receptores nos mais diversos grupos. 2006). enguias e até mesmo bactérias. Estímulos como a luz. ainda que elas sejam análogas entre espécies. 2006). tais animais possuem partículas de magnetita inervadas na região do osso etmóide (crânio) (Freake e col. A comparação entre grupos revela que algumas soluções são muito semelhantes. A forma como percebemos o mundo também não é. de fato. dado que a área cortical dedicada a um determinado sistema pode variar imensamente (Catania. 114 Julho/2010 .

o que nos leva a tentar compreender quais as soluções encontradas por cada grupo de animais durante o processo de evolução no qual resulta essa enorme diversidade ( Halder. pode produzir um órgão tão maravilhoso como o olho” (Darwin. ou uma águia em seu vôo em busca de uma presa . Estas linhagens produziram essencialmente oito soluções ópticas Julho/2010 Pág. incluindo a navegação e noção de tempo. ou seja. A sua decisão poderá ser apropriada somente se a informação oferecida pelo meio ambiente for corretamente codificada e transformada em sinais que possam ser processados pelo sistema nervoso central. Salviani-Plawen e Mayr. ocelos. embora os olhos apresentem uma variedade de formas. Os milhares de amanheceres e pores-do-sol desde o início da vida têm levado a evolução dos olhos que usam a luz para visão e outros fins. Origens evolutivos No caso da “visão”. mas. surgido mais de uma vez durante a evolução. de um único ancestral comum. Três filos emergem do período Cambriano com olhos funcionais: Mollusca. Existem alguns olhos sem pupila ou lentes (Nautilus). Um pássaro em uma manhã de primavera ouvindo o canto de outros machos competidores em busca de uma fêmea para acasalar.em todos os exemplos. Os olhos são suscetíveis de coletar o sinal luminoso e focar com lentes em células fotorreceptoras especializadas para converter fótons em sinais neurais. tem exercido uma potente força de seleção sobre os organismos vivos. Logicamente. 1859). tamanhos. estes animais precisam de uma acurada informação sobre o que ocorre ao seu redor para decidirem o que fazer em seguida. Estas estruturas (ex. por definição. 1977). 1995.. um lagarto do deserto buscando abrigo do sol escaldante.Neurociências Neurofisiologia da visão Antônio Carlos da Silva Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva acdsilva@gmail.. todos os olhos requerem células especializadas para fototransdução. provavelmente. Arthropoda e Chordata. ou podem ter uma origem polifilética. todos eles fornecem informações similares a respeito de ondas e intensidade de suas fontes.com Introdução Desde a formação da Terra há bilhões de anos atrás a luz. Estudos filogenéticos relevaram que olhos evoluíram independentemente em diferentes grupos sistemáticos. nos levam a relembrar Darwin em “como a seleção natural. olhos compostos. os olhos podem ter uma origem monofilética. 115 . olhos em câmara) que asseguraram aos organismos “captarem estímulos luminosos”. desenhos ópticos e localização corporal.

uma ciliar (conjunto de cílios sensíveis a luz) e um tipo microvilar (rabdomérico) o qual é constituído por um conjunto de células receptoras de luz. 116 Julho/2010 . Alguns pesquisadores argumentam que o foto-olho poderia ter surgido como duas pequenas estruturas compostas Pág. o exemplo mais comum é em olhos compostos de insetos que são formados por omatídeos (um pequeno sensor que distingue a claridade da escuridão) e este é formado de uma lente e um rabdoma (Halder. Duas dessas soluções aparecem em Chordata. 2000. A estrutura ancestral que poderia ser chamada de precursora do olho – “foto-olho” – não tem bem esclarecido o seu surgimento na árvore evolutiva. Modificado de Fernald. Fotorreceptores As unidades básicas do olho. (Fig. 1995). podem ser divididas em duas grandes classes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” para coletar e focar a luz.1). paralelas umas às outras. e uma delas é nominalmente usada como gradiente para um indíce de refração para produção de lentes. as células fotorreceptoras. Figura 1 – Tipos de olhos.

Neurociências por células fotorreceptoras e um pigmento celular. Arendt). (canto superior direito) adulto (72 h) e (estrutura maior abaixo) olhos totalmente crescidos.2001). o olho simples (ex. genes estruturais responsáveis por determinar qual a posição de determinadas estruturas dentro do organismo . este órgão fotorreceptor primitivo providencia uma discreta informação à célula dermal sensível a luz. 2003). Entretanto novas descobertas relacionando o gene “controlador principal” . 2000). Aquelas que compõem as estruturas sensíveis à luz atingiram sua diversidade máxima na estrutura “olho em câmara” de vertebrados e cefalópodes. Alguns estudos sugerem que o olho do tipo ciliar é comum a vertebrados e o do tipo microvilar mais predominante em invertebrados (Land. 1999. Pichaud and Desplan. Fernald. Especializado. 2002). tipos adicionais de células foram surgindo entre elas células dermais fotossensíveis. poderia ter uma forma primitiva de relógio circadiano.olho larval e protótipo pigmento-taça com olho fotoreceptores microvilares em Platynereis dumerilii (Polychaeta. como observado em pequenas larvas ciliadas no poliqueta trocóforo (Fig. Annelida. além disso. que permitisse a oscilação do animal entre ciclos de claro e escuro (Gehring e Rosbash. Julho/2010 Pág. 2) (Gehring and Ikeo.. verde: células de pigmento. Figura 2 – Foto ilustrativa (D. Durante a evolução do olho.homeobox. Em amarelo: células fotoreceptoras microvilar. Duas células . protozoário Euglena possui pequenas vesículas sensíveis a luz “eyes spot”) poderia ter realizado alguma forma primitiva de visão a qual teria a função de detectar a direção da luz para fototaxia e. 117 . A localização de fotorreceptores em pequenas vesículas ou bolsas com pigmentos sensíveis a luz proporciona informação adicional como observado em Euglena. Ultra-estrutura larval 24 h (canto superior esquerdo). Lophotrochozoa).1992. existem células sensíveis a luz no citoplasma que contém um pigmento vermelho-alaranjado responsável por essa percepção da luz. 2003). Em sua origem.têm revelado um terreno comum aos olhos de praticamente todos os animais multicelulares (Arendt. assim como nos olhos compostos de artrópodes (Arendt e Wittbrodt.

A Transdução do sinal em fotorreceptores microvilares envolve ativação de fosfolipase C (PLC) e do inositol tri-fosfato (IP3). Estas semelhanças sugerem que todos os olhos têm um antepassado evolutivo comum (Arendt. 2001). a pax6 – importante fator de transcrição no desenvolvimento de tecidos específicos – é exigida para a formação de praticamente todos os tipos de células da retina (Marquardt. Eles aumentam as suas superfícies apicais em numerosas dobras. olho composto olho de vertebrados Figura 3 – Representação da formação da imagem no (A) olho composto e no (B) olho em câmara. nas quais a célula parece ter um achatamento. 2003. Um exemplo de como se dá a formação de imagem pode ser observado na Fig. Em Drosophila a pax6 é necessária para a formação de todo o disco dos olhos (Jang. Arendt e Wittbrodt.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Todos os fotorreceptores sensíveis à luz utilizam um pigmento derivado da vitamina A e este pigmento está vinculado a uma proteína chamada Opsina. 2003). Fotorreceptores microvilares são encontrados nos olhos compostos de artrópodes. o qual permite que a opsina se ligue a uma proteína G – uma molécula comum e versátil usado em muitos sinais de transdução por cascata intracelular. 118 Julho/2010 . A informação luminosa ativa a opsina e causa uma mudança na conformação do pigmento fotossensível. 3 (Arendt. Pág. 2001). 2001). Nos vertebrados. com a composição de cerdas finas e cerdas membranosas. apesar de a própria célula poder assumir muitas formas em espécies diferentes.

cada um com sua peculiaridade. Conclusão As diferenças fundamentais de morfologia. As evidências aqui levantadas nos mostram que existem relações importantes entre as estruturas básicas dos fotorreceptores e nos levam a refletir sobre o processo de evolução. Os sistemas de transdução. nuclear externa. Tanto o IP3 e o PDE existem em todos os animais. conseqüentemente. amplificação e transmissão (Randall. ativam uma fosfodiesterase (PDE) que muda a concentração de GMP cíclico na célula. especialmente ao compararmos as camadas da célula da retina que compõem o olho em câmara dos vertebrados (ganglionar. nuclear interna. onde cada grupo animal enfrentando pressões seletivas nos mais variados ambientes desenvolveu uma grande diversidade de tipos de olhos. plexiforme interna. desenvolvimento e estrutura dos fotorreceptores de diversos tipos de olhos encontrados no reino animal sugerem que os olhos surgiram independentemente pelo menos 40 vezes. externa.1997).Neurociências Fotorreceptores ciliares são comuns em vertebrados. atendendo a condições necessárias a sobrevivência do indivíduo e. plexiforme externa. uma modificação do cílio. Julho/2010 Pág. 119 . 2001). A membrana ciliar é expandida e empacotada em dobras profundas de modo que a região de receptores da célula se parece com uma pilha de discos. são muito parecidos. a diferença está na via que é utilizada nos diferentes fotorreceptores (Arendt e Wittbrodt. Sua característica é um aumento da área superficial na membrana celular externa. por outro lado. 4 do capítulo anterior). epitélio pigmentar) (Fig. da espécie. Os fotorreceptores ciliares usam uma via diferente de sinalização. desempenhando operações de detecção.

120 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Ato contínuo. incluindo fraldas. girando o corpo. aparece em sua mente a imagem de um bebê: ela sorri. em contraste com a casca dura dos ovos de procriação. voa para trás. Não ficou nem um instante para descansar do sol dardejante de verão. ela pensa na lista. ela não vai à exaustão total. Fica preocupada e percebe que vai ter de pagar com o cartão de crédito. uma mulher. De repente. Enquanto dirige.com Apoiado numa trama de galhinhos de uma trepadeira. Alguns minutos depois. leva as mandíbulas até a abertura de seu ovipositor. o bico escancarado. e acaba descansando um pouco. talvez dormindo. Os esforços desmedidos que tantas fêmeas . retira-o e. 121 . Elas estão cuidando da sobrevivência de seus genes. desdobra-se e o coloca delicadamente na boca de uma das várias larvas que estão todas juntas. É bem maior e é mole. de onde o ovo vem saindo. Foram selecionadas. Segura-o ali enquanto a larva vai sorvendo sua refeição (Autuori. Está sossegado. e faz cálculos de dinheiro. 1961). No entanto. Na lista que leva na bolsa estão anotados vários itens. pinça-o com precisão. Bem mais longe. enclausurada na câmara que construiu. 1940). Ao pensar em cada item. Se as fêmeas de tico-tico ficassem descansando na sombra. Não é um ovo normal. A fêmea. A um metro dali.Neurociências Causa e Função Pedro Leite Ribeiro Laboratório de Ecofisiologia Evolutiva pedrolribeiro@gmail. ela chega de novo: mais uma refeição. conhecida popularmente pelos nomes de içá e tanajura. mete o bico goela adentro do pidão. leite em pó e um carrinho de bebê. seu dispêndio de energia seria muito menor e correriam menos riscos. a uns 15 cm do solo. Dobrando-se ventralmente. uns 15 cm abaixo da superfície do solo. engata a primeira marcha em seu carro e parte para o shopping center.e também alguns machos. na primeira semana de vida. de aves e outras classes de animais . do qual eclode uma larva. uma saúva fêmea. em evidente desfavor de sua própria sobrevivência. na direção de onde chegou. Mais alguns minutos e a cena se repete. agitada ou apressada. um ninho de tico-tico abriga um só filhote. protegido do sol de verão pela folhagem acima. evitando as fadigas da busca de comida para seus filhotes. põe mais um ovo de alimentação.. mamadeira.fazem em favor de suas crias. porém. recebem uma explicação simples da teoria da evolução. ele inclui a descendência como parte Julho/2010 Pág. Seu cálculo da relação entre custos e benefícios não se completa no balanço energético de seus próprios organismos. perderiam a prole. o filhote se ergue. O macho não apareceu por ali (Robert et al. chupetas. uma outra fêmea. chega a tico-tico e habilmente pousa na beirada do ninho. bem rápida. pescoço esticado para cima.

em face do justo receio de adotar uma visão teleológica da evolução. É comum que os estudantes de Psicologia e Biologia sintam certo mal-estar com o conceito de função por causa de sua proximidade com as idéias de meta. precisariam de menos alimentos para si mesmas. Entendido o organismo como um sistema que está configurado para manter-se e reproduzir-se. Ora. o leitor poderá demonstrar a um observador sua tendência a interpretar a movimentação como se houvesse um enredo de fugas e perseguições. no entanto. Sua única chance de viver depende de conseguir que suas filhas dêem início a um novo formigueiro. enquanto mães omissas não dão origem a ninguém. fim. finalidade. é no entendimento do papel de cada comportamento que se dá o estudo funcional. mães extremadas dão origem a mães extremadas. o Pág. 122 Julho/2010 . 1942. A tico-tico teria uma ou duas novas oportunidades na mesma estação e outras mais no ano seguinte. A função do ovário e de todo o conjunto de órgãos e processos que resultam na produção dos ovos completa-se com o comportamento reprodutivo. Abandonando o ninho. são pontos terminais de linhagens. mas essencialmente o mesmo. com a manutenção subordinada à reprodução. E se não construísse a câmara. decorre de um exame superficial do conceito de função. inclusive absorvendo seus músculos alares. É no exame do contexto adaptativo e dos efeitos do comportamento que podemos descobrir suas funções. É claro que é uma tolice rematada conceber a evolução como um desígnio divino. as tico-ticos estariam melhor. Assim como fêmeas férteis dão origem a fêmeas férteis enquanto fêmeas estéreis não dão origem a nada. o alvo direto das pressões seletivas ao longo do processo de seleção natural. jejuando durante meses. as funções. ela não está trocando uma vida mais fácil pela procriação. propósito e objetivo. ficaria perambulando pelo solo até ser morta ou morrer de inanição (Autuori. Fazendo o enorme esforço da fundação de um formigueiro. Programando engenhosamente a movimentação de alguns pequenos círculos numa tela de computador. O cálculo da formiga é um pouco diferente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” decisiva da equação. vivendo de reservas. Tal inquietude. como se o futuro pudesse determinar o passado. 1941). ao aprender que o estudo científico não pode deixar-se contaminar ingenuamente pela subjetividade. Trata-se de um desconforto filosófico. A função de um órgão só se completa com o comportamento que o usa. Ela é incapaz de sair da câmara subterrânea onde se encerrou e buscar comida na superfície. tão adaptativa nas relações sociais. mas não transmitiriam esse comportamento a qualquer descendente. Essa faculdade. Pois são estas. O estudo funcional do comportamento é a busca de suas conseqüências para a sobrevivência e para a reprodução. Uma das muitas notáveis propriedades da mente humana é a sua habilidade de decifrar as intenções por trás do comportamento alheio. algo como a realização de um projeto ou o desdobramento de um plano de alguma forma presente desde sempre. facilmente transborda de seu uso funcional levando-nos à ilusão de perceber intencionalidade e consciência onde elas não existem.

constitui um outro tipo de fenômeno. ou dizer que um robô procura e usa a tomada para recarregar. no entanto. A observação de que as larvas de formigas são inertes. possibilitando a seleção de programas genéticos. ou com o objetivo de recarregar sua bateria. Filogênese: por que esta espécie tem esse comportamento? Como evoluiu? Como se comportavam seus ancestrais? Quais foram as pressões seletivas que o moldaram? Ontogênese: o repertório comportamental de uma espécie não surge todo no Julho/2010 Pág. Portanto. terá valor no plano funcional. O controle de suas ações. organizou o estudo do comportamento em quatro tipos de resposta à pergunta por quê. em busca de como ele controla as ações dos rivais. aquilo que os leva a fazer o que fazem a cada momento. Assim como não há erro conceitual em descrever as peças de um automóvel dizendo qual é o objetivo de cada uma delas. a pergunta "por que a içá alimenta as larvas?" tem duas respostas. Essa aparência de que funções se desenvolveram “para resolver determinados problemas” está relacionada ao fato de que o ambiente funciona de forma relativamente regular. é preciso entender que a Ciência pode adotar termos de uso corrente sem trazer suas conotações e implicações. na maioria das vezes. moldados ao longo de uma prolongada história adaptativa. O que leva a içá a fazer cada um de seus movimentos são os estímulos do ambiente e de seu próprio corpo. A descoberta de que o canto do tico-tico tem a função de proteger seu território e seduzir as fêmeas não significa que ele tenha de seu comportamento a mesma consciência que tem um ser humano em situações análogas. por exemplo. obra da adaptação. incapazes de se alimentarem sozinhas. o seu entendimento feito através de estudos de fisiologia. e mais duas que não serão aqui examinadas. prêmio Nobel de 1973. podem ser explicados como fruto do acaso submetido à seleção. A resposta causal. Examinado dessa forma. 123 . cujo estudo é normalmente associado a questões relacionadas com ecologia. fazendo-os mais ou menos agressivos. Já a indagação "será que as larvas dão algum sinal de suas necessidades. assim também não há teleologia em reconhecer que a evolução criou organismos dotados de recursos que dão conta de sua manutenção e reprodução agindo como se estivessem sendo controlados pelas conseqüências de suas ações. que tem. que devemos chamar de causas do comportamento. Contudo. seus hormônios e as programações de seu sistema nervoso. Note-se que esse mesmo canto deve também ser entendido como estímulo que atinge os ouvidos dos machos rivais. a funcional. embora presentemente gerem a sensação de finalidade na sua construção. Já o efeito do canto sobre a preservação do território é uma questão funcional. ou a produção de ovos de alimentação obedece a um programa que independe do estado das larvas?" cabe no plano causal. uma funcional e outra causal. Niko Tinbergen. o canto está dentro de um estudo causal. portanto.Neurociências estudante pode hesitar quando se depara com o conceito de função. Investigar se a quantidade de testosterona afeta a freqüência ou a intensidade do canto do tico-tico é um estudo causal.

Alguns cães domésticos dão uma volta em torno do lugar onde estão prestes a deitar-se para dormir. no prelo). Drosófilas mutantes sem asas movem as patas traseiras como se as estivessem limpando. em condições normais no ambiente natural. A compreensão da diferença entre causa e função tem a virtude de problematizar o comportamento. fora tanto do contexto funcional como do causal. As vítimas humanas de anorexia entendem bem a diferença entre precisar de comida e ter fome. causas e funções podem desencontrar-se. é necessária a ação de fatores causais adequados. mas presente também em aves. A descoberta de que a função desse comportamento é protegê-la do ataque de morcegos leva-nos a buscar algum órgão receptor do ultra-som usado pelos morcegos em seu sistema de ecolocação. Entre a falta de água nos tecidos e as atividades de procurá-la e ingeri-la. revelando de forma dramática como é notável o entrosamento normal. seja no ambiente natural seja no laboratório. apetites específicos quando ocorrem carências específicas. 124 Julho/2010 . elas recobram seu vôo normal. E temos também que estar preparados para encontrar comportamentos cuja função principal não é sua única função. Há alguns casos documentados de adoção interespecífica (Otoni et al. Como se dá seu desenvolvimento? Por que tal comportamento aparece em tal idade? Qual é o papel do aprendizado? O entendimento da diferença entre causa e função serve bem para evitar confusões conceituais. Alguns segundos depois. tão comum em mamíferos. e assim por diante. ou seja. inclui rotineiramente relações entre machos. No comportamento lúdico. os jovens fazem coisas de adultos. o animal deve engolir água e não areia ou flores. Existem mariposas que subitamente. Em condições normais. no ambiente natural. em pleno vôo. A receptividade sexual acontece quando o organismo está pronto para a reprodução.. como a sexualidade dos bonobos que. Sim. entre fêmeas e entre adultos e jovens impúberes. Assim como nossa capacidade empática pode induzir-nos ao erro de antropomorfizar Pág. E deve tomá-la e não atacá-la com mordidas. mas é útil para gerar hipóteses sobre os fatores que atuam sobre ele. os fatores causais e as funções têm um entrosamento admirável. Não é óbvio que a falta de água leve o animal a beber. deixam-se cair como se tivessem sido mortalmente feridas. Em condições anormais. Há pelo menos um caso bem documentado de cópula entre um chimpanzé e uma fêmea babuína. a sede quando falta água. O esclarecimento da função de um comportamento não resolve o problema causal. antes de atingirem o solo. a começar pelo reconhecimento correto do objeto. Lesões do hipotálamo lateral tornam os ratos inapetentes a ponto de morrerem de inanição com comida abundante ao seu alcance.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recém-nascido. esse entrosamento torna-se admirável quando se apreende bem a noção de que uma função não produz por si só o comportamento correspondente.

sem fungo. Explorando o sistema causal da hospedeira. No caso que estamos examinando. Essa pelotinha de fungo era essencial. a chupim logrou desvirtuar a função do comportamento da tico-tico. ao planejar o filho. a ticotico talvez tivesse ido embora. Tais exceções não devem ofuscar o extraordinário ajuste entre causas e funções sem o qual não haveria manutenção nem reprodução. ela vinha sendo furtivamente observada por uma fêmea de chupim. Mesmo tendo perdido o fungo. Ela ia depositá-la com todo o cuidado no chão da câmara.Neurociências o comportamento animal. Não a viu. A complexidade do comportamento humano é um desafio para a análise de causas e funções. O bebê cuja lembrança fez sorrir a mulher que ia ao shopping center preocupada com a despesa não é seu filho. Já o comportamento da mãe. comuns em animais sociais. Lembra mais os comportamentos altruístas de fortalecimento de vínculos interpessoais. O parasitismo comportamental é uma lição fascinante acerca dos modos como o comportamento é controlado. A tico-tico vai continuar a cuidar do chupim como se fosse seu filho até sua independência. Porém. Mesmo que tivesse aversão ao ato sexual. 2004). A içá que alimentava as larvas com ordem e precisão perdera a pequena porção de fungo que pegou do ninho onde nasceu e trouxe na bolsa infrabucal. Sem esse jardim de fungo. seu esforço é vão. e depois meticulosamente alimentá-la com suas fezes e fazê-la prosperar. e a chupim conseguiu botar um ovo junto aos seus. Diferentemente de qualquer outro animal. O filho. está feliz de poder ajudar. antes de nossos ancestrais descobrirem a relação entre sexo e procriação. neste caso imaginário específico. os ovos perderam-se todos. ela conhece a relação entre a cópula e a gravidez e entre esta e o nascimento de uma criança. Isso foi assim. o alimento será inútil e mãe e filhas não vão durar muito. menos um. Não queria casar-se e procurou um homem com o único fim de ter o filho. parece inverter ou fundir a relação entre causa e função. abandonando o ninho. solidária. os animais também têm seus transbordamentos motivacionais. que se tornarão pupas e depois obreiras que vão cavar um túnel para cima e procurar alimento na superfície. Dias antes daquela ensolarada manhã em que a tico-tico cuidava de buscar comida. Ela continuará a alimentar as larvas. A amiga. para fazer outro em lugar mais seguro. Ela tinha um bom emprego. 125 . o da chupim. que normalmente reside no Julho/2010 Pág. em seu benefício. a reprodução. É filho de uma amiga. O comportamento da mulher que presenteia não parece ser um excesso de cuidados maternais. mas terá novas chances nos anos seguintes (Buzzetti. O filho foi planejado. não é a conseqüência desconhecida ou desconsiderada da atividade sexual. a içá continuou a responder aos estímulos presentes. na pré-história. Por predação ou furados pela chupim. Foi vã toda a dedicação da tico-tico. Não existe nenhuma possibilidade de a seleção natural operar e cancelar essa inércia comportamental. mãe solteira. Se a percebesse. que está sem dinheiro. ela poderia lançar mão da inseminação artificial. Perdeu o emprego e sua vida ficou complicada.

Com métodos de observação e experimentação cada vez mais refinados. mas não se revela facilmente a si mesma. A pergunta "Por que esse animal está se comportando desse modo?" recebe respostas cada vez mais amplas e convincentes. é uma causa dos comportamentos da mãe. Ela os transformou em algo que ainda não conseguimos entender. Em nós. e as próximas décadas deverão proporcionar descobertas fascinantes (Lorenz. Pode-se fazer uma analogia com o comportamento de busca de algo perdido. humanos. Curiosamente. que muitos animais são capazes de fazer. a cultura trouxe alterações importantes tanto ao plano causal quanto ao funcional. a cultura criou os recursos que nos permitem organizar o pensamento científico e com ele progredir no entendimento do que fazem os outros animais. Quando trocamos animal por ser humano nessa indagação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” plano funcional. Uma fêmea que se perca de seu filhote e saia a procurá-lo também constitui um caso em que a distinção entre causa e função fica reduzida ou anulada. biólogos e psicólogos vêm progredindo de modo acelerado no estudo do comportamento animal e humano. porém o progresso é indiscutível. A memória e a capacidade cognitiva permitem que um animal se comporte em relação a um objeto do qual não recebe qualquer estimulação. 126 Julho/2010 . Ela não destruiu os sistemas que operavam antes de sua origem. O comportamento nesse caso tem a função de encontrar o objeto que é também parte de suas causas. 1981). as respostas são mais hesitantes. As próprias causas e funções de seu desenvolvimento constituem um desafio difícil que ainda é objeto de debate entre os que se dedicam a elucidá-las. Pág.

Por outro lado. ouvindo ou sentindo estímulos). intensidade. únicos em sua capacidade de Retirado de Gazzaniga. de aprendizado e ele é possivelmente uma particularidade da espécie humana. Esse campo de estudo lida com dois problemas: (1) como todos os aspectos de um estímulo sensorial são entendidos e processados (cor. A constância perceptual só é possível pela integração da informação sensorial com a informação de outras regiões encefálicas. portanto. Tome por exemplo a Fig. apesar das quatro imagens serem distintas e provocarem estimulações diferentes nas porções iniciais do sistema visual. abstração. Ivry e Mangun (2006). Entender percepção é entender não somente como percebemos alguma coisa (seja vendo.Neurociências Percepção Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. mas vai além destes. como a memória ou a atenção. capazes de ver um tronco Julho/2010 Pág. Embora as frequências produzidas por eles sejam diferentes. mas também por que percebemos e quais as implicações para com outros aspectos da cognição. perceptualmente logo nos damos conta de que se trata do mesmo carro. forma. especialmente atenção e memória. Falar em percepção é falar sobre os córtices associativos. 127 . Experimente colocar um capacete de ciclismo (que cobre apenas a parte superior da cabeça) e aparecer diante do seu cachorro. com alterações dos harmônicos que compõem o som resultante (dando a cada instrumento seu timbre). movimento para visão. Esse mecanismo depende.com Percepção é um função do sistema nervoso central que depende do entendimento dos sistemas sensoriais. o que o fará parar de hesitar Figura 1 – A imagem na retina é imensamente diferente após algum tempo. timbre. Humanos são para os quatro desenhos. O mesmo princípio é verdadeiro para a percepção de uma mesma nota musical tocada por instrumentos diferentes. o reconhecerá pelo cheiro e voz. sabemos que se trata do mesmo carro. a percepção de uma determinada nota é mantida. Ele seguramente o estranhará. altura para audição. 1. Uma das principais diferenças entre a percepção e as sensações é a constância perceptual. por exemplo) e (2) qual a relação com outras funções da cognição. Não importa qual a posição do carro mostrado na figura. Ainda assim. inclusive (ou talvez principalmente) das memórias adquiridas ao longo da vida.fv@gmail.

Ao conjunto de sintomas de incapacidade de percepção é dado o nome agnosia. há neurônios mais adiante nessa cadeia que só Pág. Algumas dessas regiões são neoformações em primatas e elas constituem a maior parte do córtex cerebral. mais fibras vão convergindo na rede neural. entender como percebemos. passando por populações de neurônios especializadas no processamento de características específicas de um estímulo visual. Tais pessoas se tornaram incapazes de reconhecer objetos ou pessoas que antes lhes eram muito familiares. em geral por acidentes vasculares cerebrais (AVC). o que descarta problemas de memória. Uma particularidade desse sistema sequencial é que a cada conjunto de sinapses que são realizadas a partir de V1. A informação que chega até o córtex visual não para em V1. levando ao entendimento de que o problema é perceptual e. em que os pacientes tiveram comprometimento da percepção. a estimulação por outra modalidade sensorial resulta em imediata identificação do objeto ou pessoa em questão. Vamos elucidar agora como essa informação é manipulada e integrada com informações de outras regiões corticais para. pelo contrário. mais específica é sua função no processamento visual: enquanto aquelas no início da cadeia de processamento disparam para simples estímulos em forma de barra (com populações específicas para as diversas angulações possíveis dessa barra). 128 Julho/2010 . adentrando os córtices temporal inferior e parietal posterior. quanto mais adiante na sequência esteja uma população de neurônios. Mais do que isso. No capítulo sobre fisiologia sensorial foi possível entender como se dá o processo de transdução do estímulo luminoso em sinal elétrico e como essa informação é levada até o córtex. Uma investigação minuciosa evidencia que tais pessoas podem descrever em detalhes o que lhes é pedido. são parte dos chamados córtices associativos. Essas regiões encontram-se na confluência das áreas sensoriais e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cortado em uma floresta e imediatamente pensar: “Que bom! Um banco para descansar!”. como já mencionado. Vias perceptuais As lesões cerebrais que levam a problemas de percepção frequentemente são aquelas que ocorrem em áreas dos córtices parietal posterior. 2006). pois recebem aferências corticais das regiões sensoriais e integram aferências múltiplas para desempenhar funções cognitivas supramodais e comportamentais específicas. temporal inferior ou face lateral do córtex occipital. essa informação continua avançando por diferentes regiões. Visão O sistema visual é a modalidade mais estudada de todos os sistemas sensoriais conhecidos. particularmente no caso da espécie humana (Preuss. Com esse arranjo. de fato. O interesse pelos mecanismos de percepção veio a partir de casos clínicos de lesões cerebrais. em geral. associado a apenas uma modalidade sensorial.

Julho/2010 Pág. independente de qual delas. 129 . O maior tempo de reação para detecção de um estímulo visual quando mais de uma característica precisa ser analisada em um teste perceptual (cor e forma. mas não de outras características. as evidências atuais apontam para um processamento em paralelo regiões. já que essa via nos trás informações sobre movimento e posição espacial de um objeto. podemos entender “onde” vemos um objeto. Vale ressaltar que o arranjo existente nos permite definir uma via dorsal e outra ventral de processamento. por exemplo) também reforça a ideia do processamento em paralelo. 3 pode ser vista uma representação das diferentes regiões de processamento visual e o papel de cada uma delas na construção de um percepto visual. mais complexo é o estímulo para qual a população de neurônios irá responder. Na Fig. Apesar do arranjo sequencial. como movimento ou cor. 2006. mesmo que estas sejam processadas Figura 2 – Estrutura sequencial na organização dos córtices associativos do SNC. mais adiante na sequência de processamento visual. Quanto mais adiante na sequência.Neurociências dispararão para combinações dessas barras ou se o estímulo em (Fig. Se apenas uma das características for necessária para a detecção do estímulo. o tempo de reação é menor. Através da via dorsal. Modificado de Lent. 2). permitindo identificar características como cor e forma de um objeto. Já a via ventral nos traz informações de “o quê” vemos. dessas Casos diversas de clínicos questão tiver características de um móvel pacientes que tiveram um AVC em regiões muito específicas do de encéfalo percepção (nos de córtices algum associativos) revelam a perda componente da visão.

não deixam dúvidas de que essas vias colaboram de forma independente para a percepção de um objeto qualquer. e outra posterodorsal para a percepção de características espaciais e localização do estímulo. Audição O sistema auditório e seus córtices associativos adjacentes têm sido mais bem estudados nos últimos anos. 130 Julho/2010 . A ativação de todas as regiões corticais é necessária para que possamos ter a “correta” percepção de um objeto à nossa frente. relacionada à percepção de características do som como timbre e tonalidade. Apesar disso. simplesmente não há “correto”. Evidências clínicas. Semelhantemente ao sistema visual. isto é. existem duas vias de saída para os córtices associativos: uma anteroventral. Novos experimentos têm trazido evidências de que o processamento de diferentes características do som também ocorre em diferentes regiões corticais. e uma via ventral (córtex temporal inferior). falando-se em percepção. que disparam para Pág. emoções e a atenção deslocada a um dado estímulo do ambiente. mais uma vez. Um paciente com lesão em regiões da via ventral poderá afirmar não existir uma caneta (objeto) sobre uma mesa diante dele. para processamento de informações sobre localização espacial e movimento. (2000). para processamento de informações como cor e forma do objeto em questão. Retirado de Kandel e col. esse indivíduo faria o movimento correto e até mesmo poderia pegar a caneta. Bendor e Wang (2005) encontraram no córtex auditivo de saguis-comuns (na região anteroventral) neurônios capazes de perceber tons.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Vias paralelas de processamento do estímulo visual: via dorsal (córtex parietal posterior). o uso de aspas justifica-se porque. De fato. Falaremos mais sobre isso nos tópicos seguintes. se ele for instruído a imaginar um objeto sobre a mesa e demonstrar como seria o movimento para pegar esse objeto. mas sim uma experiência pessoal que é fortemente influenciada pelas nossas memórias.

Para ele a estimulação visual nunca existiu. Para ele. invariavelmente ele chegará à região anterior do lobo frontal (ou estruturas homólogas). círculos vermelhos não devem significar nada para você neste exato momento. Há casos bem documentados de pessoas que conseguiram desenvolver a capacidade de se ecolocalizar (como os morcegos) para se locomover. Memórias atentas ao contexto Em diversos mamíferos. perceber o mundo não é “ver” uma imagem preta e atentar às outras sensações. Essa população de neurônios provavelmente existe também em outras espécies de primatas. morcegos são um exemplo brilhante do funcionamento da via posterodorsal e a capacidade de localização por estímulos sonoros. Essa região está envolvida com memória operacional e atenção. Acredita-se que eles sejam capazes de estabelecer um mapa do ambiente por onde se locomovem tão preciso quanto aquele que estabelecemos pela estimulação visual. isto é apenas um reflexo da forma como percebemos o mundo.. É interessante notar que a definição de qual estímulo receberá atenção em um dado momento também dependerá do contexto em que se encontra uma pessoa. Seria como tentar imaginar como um cego (de nascença) percebe o mundo. e é onde o estímulo será integrado com memórias passadas e. novamente. incluindo os humanos. Essa relação entre frequências é exatamente aquela encontrada entre duas oitavas musicais. mas.). melhor dizendo. Embora você provavelmente tenha pensado em fechar seus olhos e prestar atenção aos sons. são apenas as outras sensações. por outra via. logo. Essas pessoas parecem criar mapas rudimentares do ambiente. ganhará maior processamento neural destes circuitos. Imaginese na sua rotina diária no colégio alguns anos atrás. Como no carro da Figura 1. Tentar imaginar algo como isso é quase impossível.. 131 . Por outro lado (ou. especialmente no caso de primatas (e possivelmente em outros mamíferos).Neurociências uma determinada frequência e também para seus múltiplos. se o estímulo tiver maior relevância para o organismo (ou simplesmente se for um estímulo muito forte – como um ruído muito alto). precisos o suficiente para se locomoverem sem maiores problemas. Você consegue se lembrar com que facilidade você percebia o sinal da sua escola soar perto do horário de ir embora? Ou mesmo quantos “alarmes-falsos” você tinha durante essa espera? Da mesma forma. cheiros e pressões (táteis) ao seu redor. resultando em um fenômeno que chamamos comumente de atenção. após um estímulo percorrer todos os circuitos necessários à sua percepção (ainda que de forma inconsciente). mas eles Julho/2010 Pág. é a constância perceptual para estímulos sonoros. É possivelmente pelo disparo desses neurônios que identificamos as notas semelhantes entre dois instrumentos musicais diferentes. isto não é o que um cego percebe do mundo.

Ilusões e hemisférios cerebrais Ter memórias significa aprender sobre o ambiente que nos rodeia. apesar de serem iguais. 5 sugere o formato de um triângulo. As barras convergentes na Fig. após uma análise mais cuidadosa. 132 Julho/2010 . A Fig. o que faz com que. (A) (B) Nosso treino para perceber formas geométricas nos faz enxergá-las até mesmo onde elas não existem. ao olhar para um Pág. Figura 5 – Triângulo de Kanisa. todos dirão que a barra superior é maior. percebemos as barras paralelas como sendo de diferentes tamanhos. não é raro que tenhamos uma visão distorcida daquilo que está diante de nós. Há também efeitos causados pelos próprios receptores sensoriais. Tome por exemplo a Fig. Apenas nos deixamos levar pelo aprendizado que tivemos em toda nossa vida: ao longo dos anos. As ilusões de óptica não se resumem apenas a fenômenos mnemônicos (que dizem respeito à memória). Em (B) uma possível explicação biológica para esse efeito. 6. Apenas alguns. dirão que ambas tem o mesmo tamanho. vemos que linhas de mesmo tamanho parecem menores quanto mais distantes elas estão de nós. Olhe a Fig. A figura é conhecida como Triângulo de Kanisa. Quando essas memórias são integradas com nossa percepção. Assim. Algumas pessoas chegam a dizer que ele é mais branco que as áreas em volta! A explicação direta é que nos acostumamos a enxergar com mais luz algo que está em primeiro plano. mas sem todas as suas bordas esperadas. 4A. 4 criam a ilusão de algo que se distancia.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” terão muita importância quando estiver dirigindo para algum lugar. de fato. A estimulação de um determinado receptor retiniano para cor por um período prolongado leva à percepção da cor complementar correspondente. Você provavelmente já se deparou com imagens como as que estão na Fig. Essas diferenças sutis naquilo que percebemos são produto de ativação de circuitos de atenção e das memórias que acumulamos ao longo da vida. As linhas paralelas em (A) parecem ter diferentes tamanhos. Qual das duas barras horizontais é maior? À primeira vista. 4B e isso ficará ainda mais claro. Isso não significa que falhamos em enxergar. Figura 4 – Ilusão de Ponzo.

com ativações bilaterais.Os quadrados “A” e “B” da figura são diferentes na cor? Não! Os quadrados não são diferentes! De forma mais ampla. preto ou qualquer tom de cinza). Veja na Fig. 133 . O que você percebe à primeira vista na Fig. perceba-se cores trocadas na imagem. Testes com pacientes que sofreram um AVC e estudos com animais lesionados sugerem que o hemisfério esquerdo se encarrega primordialmente da percepção de detalhes de uma imagem. 8 como estes pacientes desempenham em um teste simples de cópia de uma figura. O que você vê? Essa questão torna-se extremamente importante quando pensamos em contraste. enquanto que o hemisfério direito se encarrega das características globais. 7? A resposta correta é: nada diferentes! Não há modificações! Isso acontece porque as cores ao redor da cor atentada influenciam a percepção da mesma. em seguida. Quão diferentes são as cores dos quadrados “A” e “B” na Fig. Olhe fixamente por cerca de 30 segundos para qualquer um dos pontos pretos nas imagens e. somos influenciados por diferenças entre nossos hemisférios cerebrais.Neurociências fundo neutro (branco. mas pelas cores em volta da mesma. para uma parede branca. A percepção de uma cor em um determinado momento é influenciada não somente pela cor em si. 9? Julho/2010 Pág. Figura 6 – Efeito de pós-imagem. Uma ilusão criada pelos receptores sensoriais quando superestimulados por uma determinada cor. Figura 7 . Essas diferenças manifestam-se também na percepção de figuras com conteúdo ambíguo. diferenças sutis na ativação refletem certas dominâncias interhemisféricas que podem também resultar em diferenças na percepção. Apesar de estes trabalharem sempre em conjunto.

2006. Retirado de Lent. A percepção induzida pelo estímulo primário é sempre muito específica e unidirecional (a estimulação pelo percepto induzido não gera a percepção do estímulo indutor pareado. seja um número ou uma letra (ou até mesmo palavras). Pacientes que tem apenas o hemisfério esquerdo funcionante. Sinestesia A sinestesia é um caso muito específico de percepção em que uma determinada modalidade sensorial gera a percepção de outra modalidade. se a palavra “casa” induz a percepção da cor amarela. Frequentemente a percepção induzida é a de cores. ou por sons (palavras em geral). isto é. seja por grafemas. o contrário não acontecerá). mas há relatos bem Pág. mas não se dão conta dos detalhes. Figura 9 – O que você vê nesse quadro? Um sinesteta pode repetir mais de centenas de pares de percepções com pouco ou nenhum erro. pacientes com apenas o hemisfério direito funcionante percebem a forma global. mas perdem a forma global. percebem os detalhes das imagens originais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Desempenho de pacientes com hemisférios cerebrais paralisados em um teste de cópia de figura. Um dos eventos mais frequentes é a percepção secundária de cores após a estimulação primária por um grafema. como dito acima. 134 Julho/2010 . Por outro lado.

Conexões excitatórias são mostradas como flechas e inibitórias como pontas em traço. Regiões em amarelo estão ativas (começando pela região indutora) e. música (ou intervalos tonais ou simplesmente tons) para cores ou formas. As evidências de casos clínicos e fenomenologia da sinestesia apontam mais fortemente para alterações estruturais na conectividade cerebral. 10 apresenta um resumo dos modelos de mecanismos possíveis. com ligações anormais entre as regiões indutora e induzida no cérebro de sinestetas (Bargary e Julho/2010 Pág. mais curiosamente. embora exista pelo menos um caso bem documentado de percepção secundária de gostos induzida por intervalos tonais (musicais). duas proposições foram feitas: alterações estruturais e alterações funcionais. A Fig. 135 . Em relação aos mecanismos neurais que possibilitam a sinestesia. gostos gerando formas. cheiros para cores e. A investigação sobre o fenômeno é ainda muito recente e algumas perguntas básicas sobre o assunto só agora começaram a ser respondidas.Neurociências documentados de palavras gerando percepção de gostos. Linhas pontilhadas representam conexões presentes estruturalmente. A mesma pessoa reporta possuir o caso mais comum de sinestesia entre tonalidades musicais e cores. Figura 10 . Modificado de Bargary e Mitchell (2008). Os modelos diferem na rota proposta de ativação cruzada (direta ou indireta) entre as regiões indutora e concorrente e nas diferenças subjacentes ao sinesteta (estruturais ou funcionais). em azul.Modelos de Sinestesia. As percepções secundárias de gostos e também cheiros são menos comuns. mas funcionalmente inativas. inativas.

A incidência da sinestesia na população mundial é de algo entre 1% e 4% (Simner e colaboradores. mas observações comportamentais levam à sugestão de que há uma “confusão sinestésica” nas primeiras semanas de vida. Diferenças na manifestação da sinestesia ainda levaram à sugestão de uma classificação em dois tipos de sinestetas: (1) de ordem baixa e (2) de ordem alta (Ramachandran e Hubbard. Estudos em primatas dão indícios de que essas conexões “anormais” estão naturalmente presentes no organismo durante a fase fetal e o período de lactância. etc. um valor bem diferente dos 0. É o chamado binding problem.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Mitchell.g. não ouse afirmar que um sinesteta tem sentidos menos maduros ou perguntar a ele “como é viver assim?”. Pág. por exemplo) podem reportar associações diferentes para a cor induzida. Sinestetas de ordem baixa tendem a ter o efeito de indução apenas com estímulos muito específicos. nos sinestetas de ordem alta mesmo algarismos escritos em números romanos (que nada mais são do que letras) poderiam gerar a percepção induzida. portanto. Vale ressaltar que diferentes possuidores de uma mesma sinestesia (tons para cores. Tomando por base o exemplo anterior. Se um deles disser que um dó maior é azul. 136 Julho/2010 . A plena maturação perceptual e a segregação dos sentidos viriam apenas após alguns poucos meses de vida. Concluir é um problema Uma das maiores questões ainda não respondidas com respeito à percepção é como geramos um percepto único das estimulações constantes à nossa frente se aspectos diferentes de um estímulo são processados em regiões distintas do córtex cerebral (e. 2008). forma. o outro poderá dizer: “Isto está errado!”. 2006). por exemplo: números escritos na língua de origem. De qualquer forma.. no caso da visão). Já os sinestetas de ordem alta têm o efeito de indução toda vez que o conceito que um determinado indutor sugere está presente.05% anteriormente sugeridos. movimento. 2003). A resposta sempre presente após essa pergunta é: “Como você vive assim?!”. Isto ainda não fora comprovado em recémnascidos humanos. Não se sabe por que a indução de cores é muito mais frequente que a indução de outras percepções. mas após esse período essa hiperconectividade de regiões sensoriais tende a ser removida do cérebro. Essa divisão leva em consideração o estágio de processamento em que ocorre o fenômeno perceptual. cor.

O estudo de casos de sinestesia tem trazido algumas colaborações para aquilo que entendemos sobre percepção. ainda carece de comprovações. diferentes de qualquer cor que eles já tenham visto em algum objeto ou lugar. o que “desviaria” o processamento de estágios iniciais da percepção de cores. Parece mais plausível aos pesquisadores que o encéfalo forme um percepto único pela sincronização do disparo dos neurônios das diferentes regiões corticais. apenas representamos internamente o que é percebido externamente. não favorece essa explicação. Ramachandran e Hubbard (2003) atribuem essas cores estranhas à ligação cruzada (ou direta) de um córtex sensorial para outro. mas de todo o padrão de atividade neural que leva à formação de um percepto. porém. isso sugere que a experiência subjetiva da percepção de cores depende não só do processamento final. fica claro que ainda precisamos entender muito sobre os mecanismos pelos quais simplesmente percebemos o mundo que está ao nosso redor. invariavelmente todas as informações sobre o estímulo estariam ali reunidas. pelo sequenciamento de neurônios no encéfalo. desde sempre.Neurociências Uma das possíveis explicações para a forma como geramos um percepto é a de que. Pelo menos é isso que os estudos sobre atenção e memória sugerem cada vez mais fortemente. Um deles chegou a chamar essas percepções sinestésicas de “cores marcianas”. consequentemente. ainda que cada uma delas esteja envolvida no processamento de distintos aspectos de um estímulo apresentado. A quantidade de regiões envolvidas e a divisão do processamento em duas vias (dorsal e ventral). complexando o estímulo processado). Estando certa ou não a sugestão dada por Ramachandran e Hubbard (2003). com cada vez mais neurônios se juntando em um próximo neurônio (e. Ou talvez um dia tenhamos a certeza de que. 137 . Segundo os autores. Julho/2010 Pág. Alguns sinestetas relatam a percepção de cores estranhas. Essa explicação. ao final do processamento. incluindo as fases iniciais do processo. porém.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 138 Julho/2010 .

barletta@gmail. por exemplo. na lembrança de locais específicos e pessoas conhecidas. lenta e gradual. ou no próprio uso da linguagem e suas regras. na execução habilidosa de uma ação motora. aprendizagem de conceitos. podem relacionar grandes quantidades de informações passadas e presentes e selecionar quais receberão um processamento preferencial por meio do direcionamento da atenção. a memória é tida como um dos resultados mais fascinantes. Além de a seleção atuar sobre estruturas e mecanismos. sistemas biológicos são tidos como produtos da evolução por seleção natural. Em função de experiências prévias podem flexibilizar o controle de seus comportamentos e gerar respostas mais adequadas às demandas ambientais. ocorre de maneira constante.Neurociências Memória e seus aspectos evolutivos Leopoldo Barletta Marchelli Laboratório de Neurociência e Comportamento leopoldo. permite que determinados organismos eventualmente aprendam sobre informações e regras ambientais relevantes (altamente informativas). num processo de aprendizagem que tem como conseqüência a transformação de sua própria estrutura e funcionamento. Ainda sim. se um ambiente é relativamente simples e Julho/2010 Pág. Essa propriedade manifesta-se em humanos de diferentes maneiras. O fato de um organismo portar sistemas capazes de armazenar e processar determinadas informações confere a ele considerável vantagem adaptativa. Há de se ressaltar que todo o processo evolução das espécies. A grande capacidade de interagir com o meio e armazenar informações provenientes dele. o sistema nervoso é capaz de detectar relações entre esses eventos e suas respostas. Isso ocorre na medida em que o sistema nervoso reage a estímulos e às suas contingências espaciais (onde) e temporais (quando). ela age também selecionando comportamentos. Por exemplo. Desta forma. 139 . Isso lhes garante um repertório de soluções para os mais diversos problemas que a sobrevivência impõe Aspectos evolutivos e comportamentais Aos olhos da teoria proposta por Charles Darwin em 1859. organismos portadores de sistemas de memória passam a detectar regularidades e de certa forma prever o ambiente. que pode favorecer o desenvolvimento de um sistema mais adaptado. no relato de uma experiência de infância.com Das propriedades que emergem da organização e funcionamento do sistema nervoso. O que demonstra a presença de memória em um organismo é a capacidade que ele tem de alterar seu comportamento em virtude de experiências anteriores. Com o acúmulo de informações sobre experiências anteriores.

Neste caso esses indivíduos estariam então mais aptos para tal ambiente. Eventualmente adaptações que servem para a resolução de um dado problema. a imprevisibilidade pode tornar-se um problema. Uma vez que a emissão de determinados comportamentos diante de algumas situações traz ganhos adaptativos. O comportamento antecipatório baseia-se na combinação de informações temporais e espaciais. o individuo pode responder a um estímulo de maneira antecipada. Se. no entanto. com regras de operações essencialmente diferentes. sem comprometer de algum modo a integridade do sistema no desempenho da ação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” possui certa regularidade. estarão mais aptos a reagirem prontamente a estímulos ambientais. a complexidade de tal ambiente aumentar. capaz de obter e armazenar o máximo de informações relevantes sobre o ambiente. A evolução do sistema nervoso. Do ponto de vista evolutivo. A habilidade de adquirir e armazenar tais conhecimentos pode favorecer a previsão de eventos e suas conseqüências que necessariamente determinam uma ação (resposta a esse evento). Assim sendo. a seleção natural pode favorecer indivíduos que sejam capazes de gerar “previsões” de tal ambiente e responder de maneira antecipatória. prever o ambiente e gerar as “inferências” e respostas mais adequadas. parece estar relacionada com a idéia do desenvolvimento de sistemas seletivos capazes de lidar com diferentes demandas ambientais que surgem ao longo vida do individuo. Suporte aos sistemas de memória Pág. pois isso possibilita avaliar consequências futuras de ações correntes. Indivíduos que tiverem um sistema mais flexível. No entanto. parece razoável considerar que a memória seja um dos resultados de maior sucesso ao longo da evolução biológica. se beneficiarão. Portanto. que podem ser caracterizados como especializações adaptativas que lidam com problemas específicos do animal no seu ambiente. Uma vez gerada a previsão de um evento. estarão mais aptos para determinado ambiente. faz com que indivíduos possam lidar com uma grande variedade de problemas. Em outras palavras. isso pode ser altamente vantajoso. ações essas baseadas em experiências anteriores. 140 Julho/2010 . sobretudo dos processos de memória. Indivíduos capazes de identificar estímulos. o surgimento de diferentes sistemas de memória. artifícios antecipatórios possibilitam que planos de ação sejam elaborados antes mesmo da ocorrência desse evento. além de planejar uma ação antes de sua execução. fazendo uso de processos antecipatórios. Tais demandas sugerem a existência de diferentes sistemas de memória. a resolução de problemas e a emissão de comportamentos antecipatórios. serão capazes de solucionarem problemas de maneira antecipatória quando um padrão regular puder ser identificado. conferem ao repertório comportamental do organismo alto valor adaptativo. podem não ser tão efetivas assim para outros problemas também presentes no ambiente.

é possível imaginar a complexidade dos substratos que armazenam informações no sistema nervoso. as conexões entre os neurônios podem estar arranjadas de diversas maneiras para formar circuitos definidos. Uma decorrência lógica dessa suposição é que seja possível Julho/2010 Pág. sob a forma de impulsos elétricos. isto é. são transmitidas por circuitos definidos do sistema nervoso.Neurociências O funcionamento dos sistemas de memória implica no armazenamento de uma quantidade substancial de informações sobre o ambiente. por sua vez. estímulos de diversas naturezas que se transformam em sinais elétricos. Uma mensagem passa de um neurônio para outro através de sinapses. alterando a transmissão de impulsos elétricos por esses circuitos neurais. Cada neurônio envia projeções para milhares de outros neurônios e. há células especializadas para a recepção de informações ambientais (receptores sensoriais). Essas informações sensoriais. Por essa projeções passam sinais que ativam o sistema de diferentes maneiras. luz. Essas informações ficam inteiramente armazenadas no sistema nervoso do indivíduo. que por sua vez. Quando muitos sinais sinápticos de entrada são transformados em um único sinal de saída. sinais de entrada combinam-se de maneira a gerar informações muito mais elaboradas do que uma simples somação de sinais. havendo circuitos neurais dedicados ao processamento preferencial de informações de cada uma das modalidades sensoriais. que transformam diferentes formas de energia (e. sobre suas regularidades e sobre os efeitos de ações anteriores. temos um processo de computação neural. desencadeie processos que levam à alteração da conectividade entre células nervosas. 141 . possui bilhões de neurônios. os sistemas de memória são claramente dependentes da estrutura e do funcionamento do sistema nervoso. odores etc. Todas essas modificações provocadas em elementos constituintes do sistema nervoso caracterizam (representam) assim o armazenamento de informações. Levando em consideração tais possibilidades de combinação. É nesse momento que ocorre modulação do processamento de informações. as memórias.) em potenciais elétricos. Assim. Alguns desses sinais de saída podem provocar aumento da ativação de algumas vias e uma diminuição em outras. gerada por atividade espontânea. Além disso. avalia e passar o sinal a outros neurônios. som. recebe projeções de outros milhares de neurônios. Conectadas aos neurônios. Basicamente o processamento neuronal recebe a informação. células nervosas capazes de conduzir impulsos elétricos e processar informações. deste modo.g. estímulos ambientais e respostas a esses estímulos. influenciando assim tanto a atividade elétrica quanto a química dos neurônios. e outros circuitos responsáveis pela integração de informações de diferentes modalidades sensoriais. Aspectos fisiológicos da memória Pressupõe-se que a atividade eletrofisiológica.

Outro experimento que trata de questões fisiológicas sobre a memória foi feito por Shashoua (síntese publicada em 1985). A organização temporal dos eventos (esquerda) e os resultados (direita): o tempo que os ratos submetidos aos diferentes tratamentos demoraram para entrar na câmara escura – quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque eletroconvulsivo menor é a lembrança do evento aversivo. a uma câmara escura cujo assoalho é constituído de barras metálicas eletrificáveis. Figura 1 – Experimento de Gold e colaboradores (1970). por uma porta tipo guilhotina. levam um choque nas patas. Se Pág. Após longo esforço de cerca de 3 horas. após entrarem nessa câmara. menor é o efeito. Intervalo de tempo entre choque nas patas e choque eletroconvulsivo (S). 1 . foram aplicadas correntes elétricas no sistema nervoso dos animais com diferentes intervalos de tempo entre o choque na pata e o choque eletroconvulsivo (ver Fig. maior é o prejuízo de memória aversiva sobre o ambiente escuro. O experimentador prendeu um flutuador nas nadadeiras peitorais de peixinhos dourados para fazer com que os animais ficassem em posição desconfortável. como se o choque eletroconvulsivo perdesse sua efetividade para evitar sua consolidação. apesar do flutuador (Fig. O conhecimento atual sobre memória é resultado do trabalho de inúmeros personagens. 1). 142 Julho/2010 . 1 – direita: barras de cor laranja). os animais inseridos na câmara clara não entram na câmara escura (ver a barra vermelha da Fig. Xavier (2004) e Gold (1970). 1). realizada 24 horas depois. que não receberam choque nas patas no dia anterior. À medida que esse intervalo de tempo aumenta.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” detectar a ocorrência de alterações bioquímicas associadas à alteração da conectividade nervosa relacionada ao processo de formação de memórias.esquerda). Gold e colaboradores (1970) expuseram ratos a uma câmara clara conectada. (ver Fig. entram rapidamente na câmara escura (ver barra verde da Fig. Observa-se que quanto menor o intervalo de tempo entre o choque nas patas e o choque no sistema nervoso. Em experimentos adicionais. Animais de um grupo controle. Modificado de Pavão (2009). Em uma etapa de teste. alguns peixes voltaram à posição normal. Os ratos rapidamente entram na câmara escura. treino inicial representado pela curva verde). 2. depois do treinamento com choque nas patas.

Em conjunto. 143 . esses animais comportaram-se como se nunca tivessem sido submetidos ao treinamento. Os encéfalos dos animais dos dois grupos foram homogeneizados conjuntamente e as proteínas foram separadas por peso molecular.Neurociências o flutuador for removido e recolocado três dias depois. os peixes retornam à posição normal em apenas 15 minutos. com treino de cerca de 180 minutos. 2007). indicando que elas foram incorporadas no cérebro dos animais que aprenderam a tarefa. Flutuadores foram presos aos animais. porém. 2. o que indica que eles aprenderam e retiveram a solução desse desafio (Fig. Num terceiro teste. as ependiminas são denominadas “moléculas de adesão celular” e estão diretamente relacionadas com o fortalecimento e formação de sinapses. no teste de memória realizado 3 dias depois. os flutuadores foram recolocados. Figura 2 – Experimentos de Shashoua (1985) envolvendo aprendizagem em peixes dourados. os resultados obtidos a partir de experimentos envolvendo choques eletroconvulsivos e síntese de proteínas sugerem que há dois processos envolvidos na Julho/2010 Pág. Modificado de Pavão (2009). abaixo) – curva verde. A maioria das proteínas presentes estava marcada tanto com valina-H* quando com valina-C*. algumas delas estavam mais marcadas com valina-H*. ver Helene e Xavier.e. curva vermelha). Shashoua (1985) injetou valina marcada com hidrogênio radioativo (valina-H*) no ventrículo encefálico de animais que ficaram por 4h com o flutuador. 2. ficavam em posição confortável (esquerda. essas proteínas foram denominadas ependiminas. e valina marcada com carbono radioativo (valina-C*) no ventrículo de animais que não foram treinados. que em ficavam em posição desconfortável (esquerda. e os animais demoraram cerca de 15 minutos para ficar na posição confortável. os anticorpos foram injetados no ventrículo encefálico de peixes que tinham acabado de aprender a tarefa de nadar com o flutuador. Atualmente. i. Em segundo momento. os animais realizam a tarefa mais rapidamente. Ou seja.. Em outro teste. 3 dias depois. indicando que aprenderam essa habilidade – curva azul. acima). curva azul) (para detalhes sobre esses experimentos. Animais treinados tratados com anticorpos para proteínas envolvidas com a alteração de circuitos neurais apresentam desempenho similar a animais não tratados – os traços de memória foram apagados pelo tratamento. esses peixes demoraram cerca de 3h para voltar à posição normal (Fig. as ependiminas foram isoladas e injetadas em coelhos para produção de anticorpos específicos contra as ependiminas. Então. Xavier (2004) e Shashoua (1985).

parece envolver alterações estruturais nas sinapses. por exemplo). A plasticidade sináptica de curta duração pode ser induzida rapidamente. estando relacionado ao padrão de atividade eletrofisiológica dos neurônios (frequência de disparos. As diferentes modalidades de arquivamento parecem envolver alguns tipos de alterações no sistema: (1) alterações transitórias na atividade eletrofisiológica (taxa de disparos) de populações de neurônios. percebe-se que além de aumentar a capacidade de comunicação entre as diversas populações de neurônios. Diferentemente. meses ou anos. que estariam ligadas ao arquivamento por curtos períodos de tempo. Isso tem trazido importantes informações acerca das diferentes etapas e modalidades do processo de formação de memórias em nível celular. (2) alteração na facilidade com que a atividade eletrofisiológica é transmitida entre neurônios. Tal fenômeno denomina-se neuroplasticidade ou. plasticidade. O outro. 144 Julho/2010 . Muito dos processos cognitivos depende de tal propriedade. relacionada com o arquivamento por períodos intermediários de tempo (que pode durar de minutos até meses).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” manutenção da memória. envolve processos de transcrição gênica e síntese de novas proteínas. Um deles. sua estrutura e funcionamento possibilitam a formação de memórias em decorrência de experiências vividas. Plasticidade neural O sistema nervoso possui a capacidade de se modificar estruturalmente e funcionalmente em decorrência de estímulos que de algum modo incidem sobre ele. simplesmente. Posteriormente ao experimento de Shashoua. gerando circuitos alterados no sistema nervoso. a neuroplasticidade é uma característica marcante e constante da função neural. Esse tipo de plasticidade reflete alterações na força de sinapses pré-existentes. no máximo. é prejudicado pelo choque eletroconvulsivo. Inerente ao funcionamento do sistema nervoso. pela modificação de proteínas pré e pós-sinápticas. Com base nessas e em outras características do sistema nervoso apresentadas até aqui. parece não requerer síntese proteica e mantém-se por. algumas horas. inclusive o envolvimento dessas proteínas na alteração plástica do sistema nervoso. Muitas moléculas subjacentes à formação de memória já foram descobertas. uma de curta duração e a outra de longa duração. esse tipo de plasticidade sináptica parece envolver a remodelação de sinapses existentes ou a formação de novas sinapses. (3) alterações estruturais permanentes na conectividade neuronal que levam à formação de Pág. mais instável. muitos trabalhos com proteínas associadas aos processos de arquivamento de informação ao nível celular vêm sendo desenvolvidos. Parece haver dois tipos básicos de plasticidade sináptica. associado com produção de proteínas. a plasticidade sináptica de longa duração (que parece ter sido a modalidade principal investigada nos estudos de Shashoua) dura dias.

Estímulos ambientais e experiências geram atividade eletrofisiológica em conjuntos de neurônios. Aquisição e manutenção da memória Donald Hebb (1949) baseou-se na plasticidade sináptica para afirmar que a transmissão de informações entre dois neurônios deveria ser facilitada e tornar-se estável quando ocorresse sincronia entre os disparos do primeiro e do segundo neurônio. a LTP é fundamental para o arquivamento de informações sobre eventos experienciados. Um importante elemento descrito inicialmente no hipocampo que atua na alteração de sinapses (portanto. ocorrem alterações na eficiência sináptica dos neurônios recrutados. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. na formação de memórias) é o fenômeno denominado potenciação de longa duração (LTP).Neurociências circuitos neurais. tornando-as associadas. Em outras palavras. qualquer referência ao estímulo inicial já causa um disparo das células envolvidas. Trata-se de uma plasticidade sináptica específica que ocorre entre um neurônio pré e um neurônio pós-sináptico. Julho/2010 Pág. Esse processo parece essencial para a retenção de informações sobre “o que” ocorreu. a transmissão de mensagens entre os neurônios poderia ser regulada: não seria um fenômeno rígido e imutável. anos ou até mesmo uma vida inteira. ou redes nervosas. de maneira a intensificar a comunicação dessas células. Uma vez que a comunicação sináptica seja facilitada. correspondente àquela gerada durante a experiência original. Sendo assim. Aparentemente. assim como Hebb havia proposto. representa a experiência adquirida. o que permite estabelecer circuitos neurais envolvendo populações de neurônios cuja atividade. cuja atividade representaria informações mantidas por um longo período de tempo. 145 . Acredita-se que a LTP seja um importante mecanismo envolvido no armazenamento de informações cuja natureza é essencialmente associativa. estimulações breves e de alta freqüência em uma via excitatória que vai ao hipocampo produz um aumento de longa duração na intensidade das sinapses estimuladas. mas sim algo modulável de acordo com as circunstâncias. permitindo que uma sinapse fraca se fortaleça pelo disparo concomitante com uma sinapse forte. Com o aumento na frequência de disparos das sinapses produzidas em decorrência de estímulos ambientais. pois gera uma facilitação na comunicação sináptica. Como vimos. o hipocampo (e outras estruturas do lobo temporal medial) está envolvido em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação que determina alteração estrutural desses circuitos. Com estímulos muito pequenos pode-se desencadear um processo efetivo de ativação neural. Tal mecanismo pode envolver a interação entre diferentes sinapses de um mesmo neurônio. essa atividade pode levar à formação de novas sinapses ou à alteração das sinapses já existentes. Sendo assim.

são os que se alteram para a formação de memórias de diferentes tipos. Isso significa que. Depois do desaparecimento do estímulo gerador da atividade. A formação de uma memória sobre esse evento envolveria o fortalecimento das conexões entre as células dedicadas a essa percepção. costuma-se atribuir uma grande importância ao neocórtex (a porção filogeneticamente mais recente do córtex) no arquivamento de informações. Em primatas. o processamento das informações será diferente em relação às experiências anteriores. É curioso notar que os sistemas de memória permitem identificar estímulos muito específicos e responder a eles. A maioria das experiências humanas inclui diferentes modalidades sensoriais. Além disso. percepção. quando esses circuitos forem posteriormente mobilizados. o sistema nervoso mobilizaria um grupo de neurônios para representar o evento. 146 Julho/2010 . a informação tende a ser arquivada de maneira relacional. por meio de sua atividade e conexões. produzindo uma espécie de "rede" de interconexões que se mantém em contínua reconstrução ao longo da vida. Como consequência. Redes neurais e memória Praticamente todas as regiões do sistema nervoso estão envolvidas de alguma forma no arquivamento de memórias de um tipo ou de outro. Isso decorre tanto estímulos que de alguma forma estão relacionados à experiência original. Uma vez ativos. estão profundamente associadas com os processos de memória. a percepção e as habilidades se alteram ao longo da história de vida. Isso permite entender porque a recordação envolve. quando Pág. ação e outros processos cognitivos. ou contar com a adição de novos elementos em decorrência de novas experiências. resultando num grupamento celular cujas conexões seriam mais eficientes. Quanto mais frequentes as exposições a estímulos relevantes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” A recordação de informações representadas internamente se dá pela ativação eletrofisiológica de populações de neurônios corticais. É importante ressaltar que os mesmos circuitos neurais associados à atenção. Tal fato ocorre porque o aumento de atividade eletrofisiológica em determinados circuitos neurais (que levam à recordação de uma dada informação) tende a estimular a atividade em circuitos relacionados. categorias. Por exemplo: a partir de uma estimulação perceptual específica. usualmente. dado que o circuito vem sendo alterado a cada uma delas. Assim sendo. esses circuitos podem estabelecer novas conexões com outros circuitos ativos. Esse tecido envolve sistemas de processamento modalmente específicos e sistemas de integração de informações de diferentes modalidades (denominados polimodais e supramodais). mesmo quando estes não são apresentados em sua totalidade. organizadas no tempo e espaço. mais fortes tornam-se as conexões. "nós" da rede. como por um ato de vontade para recordar aquela experiência.

Além disso. levando à sua previsão. O autor sugere que haveria apenas três aspectos centrais que determinariam o funcionamento de um sistema neuronal: (1) a conexão entre neurônios é mais eficaz quanto maior for o grau de relação entre as porções pré e pós-sináptica. de forma que representações seriam mantidas enquanto houvesse reverberação da atividade nervosa correspondente ao estímulo inicial. Por exemplo. é ativada (B). já que a informação é representada pelo conjunto de disparos dos nós a ela relacionados e não por um nó individual.Esquema representativo de redes neurais de Hebb. ou pode ter reverberado nessa rede. Nessa rede. ao receber um estímulo. 147 . Julho/2010 Pág. Isso nos sugere que processos de memória estariam baseados em um funcionamento sistêmico de determinadas populações de neurônios. de modo que as conexões entre os neurônios são fortalecidas (C e D). representa uma determinada informação. Nesse sentido. (2) grupos de neurônios que tendem a disparar conjuntamente irão formar agrupamentos celulares cuja atividade se mantém expressa mesmo após o fim do estímulo que gerou a atividade e. 2002. um mesmo nó pode estar envolvido em representações distintas. Os pontos pretos são os neurônios e as linhas são as conexões. Figura 3 . mas que mantenha algumas das características do inicial (D) é capaz de ativar a rede fortalecida (E). e de Helene e Xavier. esse estímulo pode ser apresentado repetidas vezes. contribuindo para a lembrança completa da experiência original. uma dada população de nós disparando. enquanto a malha representa as ligações associativas das relações entre os nós. provavelmente com níveis de atividade diferentes em várias regiões nervosas. 2007. (3) cognição deriva da atividade sequencial destes agrupamentos celulares facilitados. excitariam ou inibiriam outros nós numa rica e complexa rede de conexões.Neurociências ativados. A rede tem uma organização inicial como representado em (A). um estímulo mais fraco ou mesmo incompleto. então. Modificado de Bear. se dois eventos forem pareados no tempo supõe-se que haja a formação de redes tais que a estimulação da atividade do primeiro evento gera o padrão de atividade eletrofisiológica associada ao segundo evento. Hebb (1949) propõe algumas previsões sobre o funcionamento da memória. parece plausível pensar que estimulações parciais correspondentes à experiência original sejam capazes de regenerar a atividade em toda a rede. essas ligações podem variar em intensidade.

2007). foi removido cirurgicamente. 148 Julho/2010 . Por exemplo. O paciente apresentava um bom desempenho nessas tarefas. parece atualmente bem difundida. porém. o processamento de informações nesses módulos acontece de forma paralela e distribuída. Na ocasião. Muitas das evidências relevantes para o desenvolvimento de modelos de memória correlações entre funções e módulos do sistema nervoso – derivaram de correlatos anatomofuncionais. representada por sistemas paralelos de processamento de diferentes informações. sua personalidade e a memória de curta duração. como se apresentadas por meio de um espelho e também novas habilidades motoras e cognitivas (ver Helene e Xavier.. Inclusive os conceitos de dissociações entre os sistemas particulares da memória de longa duração foram também amplamente desenvolvidos.M. o hipocampo atua em um processo de ativação repetitiva de circuitos envolvidos na representação da informação. aprendeu a ler palavras invertidas. Este conceito de modularidade de funções tem embasado investigações acerca dos processos de memória. assim como seu QI. além de outras porções corticais.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Modularidade e os diferentes processos de memória A noção de que os sistemas de memória compõem um conjunto de habilidades mediadas por diferentes módulos do sistema nervoso. A partir de então foi possível chegar a definições de memória e modelos baseados na dupla dissociação entre memória de curta e longa duração.M. isso resultou na remoção dos 2/3 anteriores do hipocampo e da amígdala. H. suas capacidades perceptuais se mantiveram. uma espécie de reverberação da Pág. O prejuízo cognitivo de H. neste último caso a amnésia era temporalmente graduada. que funcionam de forma independente. possibilitando que um grande número de unidades de processamento influencie outras em qualquer momento no tempo. o paciente sofria de epilepsia intratável. porém cooperativa. apresentou um quadro de amnésia anterógrada (era incapaz de formar novas memórias) e também retrógrada (eventos ocorridos pouco antes da cirurgia).M. Após a remoção das estruturas. ele alegava nunca ter feito isso. O foco epiléptico. Um estudo que muito contribuiu para o desenvolvimento e formalização dos modelos de memória foi o caso do paciente H. estudos envolvendo dificuldades de memória em pacientes com danos cerebrais identificáveis. descrito por Scoville e Milner (1957). estava restrito à aquisição de memórias de longa duração. quando consultado sobre seu treinamento prévio. que se situava no lobo temporal medial (bilateralmente). e que grande quantidade de informações seja processada concomitantemente. ainda conseguia adquirir e reter diversas informações. Como dito anteriormente.M. Mesmo apresentando alguns prejuízos de memória. isto é. Curiosamente. Segundo essa ideia. Essa idéia parte do pressuposto de que a organização cognitiva se dá de forma modular. H.

pois é muito difícil declarar como se anda de bicicleta) e “saber que” são denominadas memórias explícitas. pacientes com doença de Parkinson (caracterizada por disfunções em estruturas nervosas denominadas gânglios da base) possuem um quadro oposto ao dos amnésicos (que. embora o paciente seja capaz de adquirir uma habilidade motora. usualmente preservada nos pacientes amnésicos. Modelos de memória Baseados em estudos envolvendo duplas dissociações. Curiosamente. Em suma. mas não sobre “como” desempenhar uma tarefa perceptomotora. 149 . Cohen (1984) e Squire e Zola-Morgan (1991) propuseram uma distinção para os sistemas de memória de longa duração segundo a qual haveria uma memória declarativa (ou explícita). são apontadas como evidência da existência de sistemas de memória distintos no sistema nervoso.M. Resultados de estudos como do paciente H.M. embora possam cooperar entre si. Essa reverberação seria essencial para o arquivamento das informações sobre “o que” ocorreu. 2007). ele não é capaz de se recordar “que” já a praticou. Trazendo esse conceito para o caso do paciente H.Neurociências atividade neural que resulta no arquivamento de informação. por exemplo. Julho/2010 Pág. Neste contexto. e uma memória de procedimentos (ou implícita). usualmente prejudicada em pacientes amnésicos e preservada em pacientes cerebelares ou com disfunções nos gânglios da base. pode-se dizer que. Os pacientes com disfunções nos gânglios da base exibem dificuldades na aquisição de habilidades motoras e cognitivas. como visto. mas prejudicada nos pacientes cerebelares ou com danos nos gânglios da base (Fig. pacientes parkinsonianos exibem. 4). têm lesão no lobo temporal medial). ao mesmo tempo em que são perfeitamente capazes de descrever verbalmente as experiências vivenciadas nessas situações de teste. Duplas dissociações. prejuízo na aprendizagem da habilidade de leitura de palavras invertidas. e pacientes parkinsonianos sugerem a existência de módulos de memória cujo funcionamento seria relativamente independente. caracterizadas pelo prejuízo de desempenho em algumas tarefas concomitantemente ao desempenho normal em outras tarefas. Em outras palavras. memórias que atualmente são denominadas memórias implícitas correspondem ao “saber como” (o que faz bastante sentido. a natureza da informação “saber que” é diferente da natureza da informação sobre “saber como” (ver Helene e Xavier.

5). Pág. Além disso. elas ocorreriam em diferentes regiões do sistema nervoso com diferentes regras de funcionamento. Tanto no caso das memórias explícitas como no caso das implícitas. (modificado de Helene e Xavier. Sua aquisição é gradual e dependente de treino. em cada caso.M . ela pode ser dividida em dois tipos (ou módulos): memória explícita e memória implícita (Fig.amnésico PRESERVADO COMO Paciente c/ doença de Parkinson .amnésico PREJUÍZO SABER QUE Paciente c/ doença de Parkinson .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Paciente H. ocorre de forma cumulativa. o arquivamento de informações pode se dar por associações arbitrárias que podem formar-se mesmo após uma única experiência.PRESERVADO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO SABER Paciente H. Memória de longa duração A memória de longa duração se refere à retenção de informações por prolongados períodos de tempo.PREJUÍZO Í Figura 4 – Esquema da dupla-dissociação entre funções e áreas envolvendo os sistemas de memória de longa duração. Sendo assim. O conhecimento contido neste tipo de memória manifesta-se pela ativação das estruturas nervosas envolvidas no processo de aquisição. possui um acesso consciente. o arquivamento de informações envolveria alterações sinápticas. 2007). A memória implícita (ou de procedimentos) se expressa pelo desempenho habilidoso das atividades previamente treinadas. como já descritas.M . porém. ou seja. 150 Julho/2010 . A memória explícita (ou declarativa) caracteriza a retenção de experiências sobre fatos e eventos passados e é passível de relato verbal.

Segundo os autores. que teria a função de supervisionar informações a serem codificadas. Julho/2010 Pág. auxiliado por dois sistemas de suporte responsáveis pelo arquivamento temporário e manipulação de informações. sua atividade estaria relacionada ao funcionamento do lobo frontal.Taxonomia dos sistemas de memória de longa duração. para lidar com a associação entre as informações mantidas nesses sistemas de apoio e promover sua integração com informações da memória de longa duração. A central executiva proporcionaria a conexão entre os sistemas de suporte e a memória de longa duração e seria o responsável pela seleção de estratégias e planos. Memória operacional Baddeley e Hitch (1974) conceberam um modelo de memória denominado "memória operacional". Baddeley inseriu um quarto componente no modelo. Posteriormente. que corresponderia a um sistema de capacidade limitada no qual a informação evocada da memória declarativa tornar-se-ia consciente. 151 . Tal modelo refere-se a um arquivamento temporário e gerenciamento de informações para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas. armazenadas e evocadas concomitantemente ao seu ingresso no sistema (Fig. Modificado de Helene e Xavier. um de natureza vísuo-espacial e outro de natureza fonológica. a central executiva. 2007. memória operacional compreende um sistema de controle de atenção. 6).Neurociências Figura 5 . denominado de retentor episódico.

com propriedades distintas. as propriedades que tornam um sistema eficiente para a solução de determinados tipos de problema (e. A área central executiva se refere ao componente de gerencia-mento atencional (a central executiva).. Assim.g.Modelo de memória operacional: três componentes propostos inicialmente por Baddeley e Hitch (1974). teria derivado da interação do organismo com demandas ambientais específicas. enquanto as áreas laterais da figura representam as alças de manutenção de informações por curto período de tempo (adaptado de Baddeley.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . enquanto úteis. 1982). a memória operacional estaria ligada ao desempenho de uma grande variedade de funções cognitivas. incluindo raciocínio lógico.. Pág. Considerações finais Em conclusão. inclusive dos diferentes módulos de memória. a evolução filogenética teria atuado na seleção de sistemas neurais capazes de modificar-se gradualmente pelo desempenho de ações repetitivas (o exemplo mais típico seria o caso de habilidades motoras e perceptuais) de sistemas capazes de arquivar informações depois de uma única experiência. imagética (relacionado ao treinamento imaginativo) e compreensão de linguagem. esteja relacionada ao fato de que memórias são especializações adaptativas que proporcionam vantagens seletivas para a solução de determinados tipos de problema. resolução de problemas. do ponto de vista evolutivo. a organização do sistema nervoso. É provável que a seleção desses sistemas. e de sistemas capazes de reter informações temporariamente. aquisição após uma única experiência de treino) o tornam incompatíveis com a solução de um problema de natureza diversa (e. Ainda sim.g. resultando em especializações adaptativas que permitem ao organismo lidar com problemas específicos. 152 Julho/2010 . aquisição de conhecimento pela mudança cumulativa e gradual de experiências).

o que torna sua parte dorsal facilmente acessível por eletrodos e cânulas de infusão de drogas. 2. o hipocampo é claramente identificável como sendo diferente do córtex (Ramón y Cajal. Centenas. Quando o animal se move livremente. Anatomicamente organizado em camadas. 153 .com O debate sobre o hipocampo O hipocampo é uma das estruturas cerebrais mais estudadas na Neurociência. Witter e col. Em ratos. 1968. já analisaram a influência de diversos tipos de manipulações nas place cells.Neurociências Navegação Espacial Cyrus Villas-Boas Laboratório de Neurociência e Comportamento cyrusvb@gmail. No rato. Lesões do hipocampo e áreas corticais adjacentes em primatas (particularmente em humanos) causam uma profunda amnésia anterógrada. 1). Em primatas.. Adaptado de Paxinos e Watson (2004). mostrando o giro denteado (DG) e o hipocampo (CA1 e CA3). as células piramidais do hipocampo apresentam uma correlação com o local em que o animal se encontra (O’Keefe e Dostrovsky. Essas células são chamadas de células de localização (place cells) e apresentam atividade em uma parte específica do ambiente. o hipocampo se localiza logo abaixo do córtex parietal. a perda da capacidade de formar novas memórias a partir do momento em que houve a lesão Julho/2010 Pág. se não milhares de experimentos. Figura 1 – corte coronal do encéfalo de rato corado com cresil violeta. ou seja. Dois aspectos chave levaram o hipocampo a ser uma das estruturas mais estudadas da Neurociência: 1. como veremos a seguir em detalhes. Ramón y Cajal (1968) data seus estudos como tendo começado em 1888 e cita os estudos de Schaffer em 1892 como tendo sido um marco em sua vida científica. 1989) (Fig. 1971).

Adaptado de Eichenbaum (1999). e 2008. 1993). não conseguia se lembrar (formar memórias do tipo declarativa) de nada o que havia acontecido. Esse teste consiste de uma piscina cheia de água morna misturada com leite ou outra substância que torne a água opaca. nem mesmo dos nomes dos médicos que encontrava diariamente (Cohen e Eichenbaum. que incluem a plataforma visível ou. Tipos de navegação Vamos começar nossa discussão sobre navegação espacial com a tarefa mais tradicional: o labirinto aquático de Morris (1981) (Fig. em outras vezes. Em algum lugar da piscina há uma plataforma na qual o rato pode subir para sair da água. 1993). versões modificadas são utilizadas para o registro unitário da atividade neuronal de place cells. Entre os anos de 1953. quando fez uma operação experimental no lobo temporal. Pág. e (2) que o hipocampo guarda memórias de eventos (do tipo episódicas) temporariamente até seu armazenamento no córtex (Cohen e Eichenbaum. o paciente H. Cada um desses efeitos observados no hipocampo vieram a formar uma teoria: (1) que o hipocampo guarda um mapa cognitivo do ambiente utilizado para navegação (O’Keefe e Nadel. esse teste é uma das ferramentas mais utilizadas para estudos de navegação e memória espacial.M. O labirinto de Morris é usado. Cohen e Eichenbaum. com uma pista que indica onde a plataforma está. entre outros. 3). como veremos mais adiante. 1978) (Fig. 1993). infusões de drogas ou. outras vezes. Há várias versões desse teste. Figura 2.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Scoville e Milner. 1957. – Esquema de representação do mapa cognitivo no rato. Devido à sua simplicidade. ano de sua morte. 2). 154 Julho/2010 . para estudos de lesões.

O animal pode achar uma pista em uma direção na qual possa sempre nadar. Navegação táxica. 155 . 1978. O animal pode aprender a associar uma direção a uma pista encontrada.  Navegação por local. Ele pode aprender um mapa no qual a localização da plataforma é conhecida. O gráfico mostra o tempo despendido no labirinto para que o animal encontre a plataforma. ele deve explorar o ambiente de forma randômica. Se o animal não tem informação prévia de onde a plataforma está. O teste probememory não contém plataforma e o probe-sensorimotor é um teste de habilidade motora. encontrar a plataforma escondida (O’Keefe e Nadel. Adaptado de Rodriguiz e Wetsel (2006). Diz-se que a navegação por rota é uma junção das navegações táxica e práxica. O círculo indica a plataforma escondida ou não. Navegação práxica.  Navegação por rota. O animal pode aprender a localização da plataforma baseado em um conjunto de pistas. Se. São elas:    Navegação randômica. O animal pode executar um programa motor constante. nesse caso. Há cinco possíveis estratégias que o animal pode utilizar para navegar no ambiente e. Whishaw e Mittleman.Neurociências Figura 3 – Labirinto aquático de Morris. ele pode simplesmente utilizar-se desse tipo de navegação para chegar à plataforma. por exemplo. Julho/2010 Pág. o animal inicia cada tentativa no mesmo local e a patforma também está no mesmo local. aleatória. 1986).

As evidências sugerem que as place cells no hipocampo são muito bem adaptadas para lidar com esse tipo de informação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outros modelos foram propostos. al.. Gallistel (1990) propõe um modelo no qual dois componentes são utilizados para que o animal se localize no ambiente: Piloting e Dead Reckoning. 1978. Dessa forma. Nishijo e col. 1997. ou seja. 1998) e que lesões nessa região causam déficit severo em tarefas de navegação. Devido à grande correlação entre as taxas de disparo das place cells e as variáveis espaciais.. Qual é o papel do hipocampo na navegação espacial? Para navegar em um ambiente familiar. 1999) e humanos (Ekstrom e col. Essas células foram extensivamente estudadas em ratos (Olton et. o animal deve usar uma representação consistente da posição de tempos em tempos. Estudos em humanos mostram que o fluxo sanguíneo aumenta no hipocampo durante uma tarefa de localização espacial. esse sistema permite que sejam usadas pistas internas e externas. 4).. Os locais onde as place cells apresentam atividade são chamados de place fields (Fig.. possivelmente devido à perda extensiva de place cells. para atualizar a representação de acordo com essas pistas. diversos trabalhos foram feitos com a finalidade de explorar como essas mudanças podem interferir na atividade dessas células.. Matsumura e col. 1997. O piloting é um processo pelo qual o animal determina sua posição através de pistas externas. Eichenbaum e col. 156 Julho/2010 . como direção de movimento e velocidade. Pistas externas são identificadas e usadas para traçar um mapa de acordo com algum conhecimento do ambiente. 1990. Pág. Maguire e col. Para tanto. porém são todos parecidos no que diz respeito às funções dos sistemas. há um mecanismo fisiológico que é capaz de. McNaughton e col. utilizando-se das pistas externas e internas. tanto no ambiente real como em ambiente virtual (Ghaem e col. 1983. 1994). além de células do giro denteado e córtex entorrinal mostram que há atividade fisiológica relacionada ao local em que o animal se encontra em determinado ambiente. Potenciais de ação disparados por células piramidais do CA3 e CA1 do hipocampo.. 1993. porém sem perceber a posição. 1996) e foram também encontradas em macacos (Ono e col. enquanto o dead reckoning é um mecanismo que utiliza pistas internas. gerar um mapa coerente do ambiente no qual o animal se encontra. alguns modelos são simplesmente a fusão de dois ou mais tipos de navegação supracitados. as pistas internas permitem que o animal calcule sua posição em um tempo t de acordo com uma posição conhecida em t-to sem precisar de conhecimento sobre o ambiente. Wiener.

4. (2005).. 5). 157 . porem com menor tamanho. VR(W) e VR têm pistas distais iguais. no caso do hipocampo parece haver alguma similaridade nas funções relacionadas à navegação. atividade neuronal em spikes/s de uma place cell enquanto um macaco se movimenta num espaço virtual.. VR e VR(N) são diferentes tamanhos de ambientes similares. Furuya e col. porém em posições diferentes. mesmas posições. imóveis (Hori e col. 2007). Continuam a mostrar place fields menores no escuro (Markus e col. Em outros estudos. 2005.. Apresentam diferentes place fields em diferentes ambientes (Hori e col. Fig. os estudos com place cells em macacos são geralmente realizados quando o animal se encontra preso a uma cadeira para macacos e.Neurociências Spikes/s Figura 4 – Em cima. dessa forma. 2005. as rotas que os animais faziam para passar pelos pontos demarcados. o animal é colocado em uma Julho/2010 Pág. As propriedades principais das place cells são:      Quando as pistas distais são movidas. 2007) (Fig.. Furuya e col. mas são não-direcionais quando o animal navega randomicamente.. 2007). Apresentam direcionalidade quando o animal navega em espaços pequenos e conhecidos.. Adaptado de Hori e col. 2005).. VR(N) é um ambiente similar a VR. apesar de estruturas homólogas não terem necessariamente as mesmas propriedades em diferentes espécies. place fields também se movem proporcionalmente (Hori e col. Estudos mais recentes realizados com macacos mostram que. Embaixo. 2005. Continuam a mostrar claros place fields quando uma pista é removida (Hori e col. Furuya e col. VR(W). No entanto. 1994).

(2005).. Maguire e col. 1995). Foi verificado que os taxistas... Células com suas taxas de disparo refletindo a direção da cabeça foram descobertas em diversas estruturas do encéfalo do rato: pós-subículo (PoS.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” cadeira móvel (Ono e col.. Leonhard e col. 158 Julho/2010 . em relação ao grupo controle de nãotaxistas. são as pistas que se movem em relação ao animal. 2007). Mizumori e Wiliams. Figura 5 – Atividade neuronal diferencial em 3 ambientes diferentes. as pistas encontram-se próximas e em C. há outros sistemas que parecem influenciar no processo de navegação espacial. 1991). quanto em primatas. tanto em ratos. 1996). e não o contrario. em menor Pág. mesmo nesses experimentos pode-se ver uma clara atividade diferencial das place cells de acordo com o local em que o animal se encontra no ambiente virtual. Porém. Ranck. Outros sistemas de navegação espacial Além do hipocampo. o ambiente todo é reduzido. núcleo mamilar lateral (LMN. núcleo anterior talâmico (ATN. no entanto.. 1984). Em A. Adaptado de Hori e col. mantendo-se as proporções de B. Nesse paradigma. Em B. esses sistemas não parecem ser suficientes para que haja uma navegação eficaz. Taube. núcleo lateral dorsal do tálamo (LDN. Ambos os animais utilizam-se de múltiplos mapas simultaneamente para se localizarem. Head direction cells Um dos sistemas que pode auxiliar a navegação é o de direção da cabeça (head direction system).. além de uma parte posterior aumentada em relação à do grupo controle. 1993) e. as pistas distais estão localizadas mais afastadas de onde o animal se movimenta. apresentavam maior atividade no hipocampo. No entanto. mas muitas vezes esse paradigma é substituído por uma forma de navegação espacial virtual similar a um water maze. (2000) estudaram as propriedades espaciais do hipocampo em taxistas em Londres. porém com características similares. no qual o animal controla um joystick para se movimentar no ambiente (Furuya e col.

. por sua vez. diferentemente das place cells.. ou cada população de células. que. Estudos recentes mostram que o córtex entorrinal medial também apresenta neurônios com atividade relacionada a posicionamento (Fyhn e col. 159 . seguindo um padrão triangular. se projeta para o AD. Julho/2010 Pág.. Alguns autores propõem uma forma de se interpretar as head direction cells como estando dispostas em um círculo.Neurociências quantidade. 6). Esse sistema seria auxiliado por células intermediárias que recebem informações do sistema vestibular (Fig. são assim chamadas por apresentarem um padrão de ativação independente de pistas do ambiente. Como a direção preferida de ativação não se altera. diminuindo à medida em que o animal move a cabeça progressivamente para longe desse ponto. mas sim à orientação da cabeça em relação ao ambiente. a célula não pode codificar informações egocêntricas em relação a uma pista. 1995). 2006). O PPC recebe projeções do LDN e manda projeções para o PoS e para o córtex cingulado. mas sim informações alocêntricas em relação a uma direção de referência. 2004). denominadas grid cells. Muitas das áreas que contêm as head direction cells estão anatomicamente conectadas. As head direction cells geralmente são sensíveis à rotação de pistas distais (Taube. O núcleo anterior dorsal do tálamo (AD) e o PoS estão diretamente conectados. dessa forma. na qual sua atividade é máxima. O LDN também se conecta com o PoS. As head direction cells apresentam uma única direção preferida de ativação. Sua ativação se dá em diversos lugares do mesmo ambiente. Cada região. enquanto o PCC se conecta diretamente com o ATN e PoS. agiria de forma a integrar a informação advinda das head direction cells vizinhas. nos córtices parietal posterior e cingulado (PPC e PCC. 1994). sendo. PoS envia uma projeção ao LMN. evidenciado pela alteração simultânea de duas ou mais células registradas simultaneamente. esquematizadas em um anel de ativações. em um arranjo de 360º. Grid cells Como uma interface entre o hipocampo e o neocórtex. As taxas de disparo dessas células não são correlacionadas ao ângulo entre a cabeça e o corpo. a célula dispara quando a posição do animal coincide com vértices de um grid triangular periódico que cobre toda a superfície do ambiente. com células diferentes tendo coordenadas de ativação diferentes ao longo do grid (McNaughton e col. ou seja. o córtex entorrinal apresenta também alguma atividade relacionada a memória e a localização. Essas células. ou seja. McNaughton e col.

2006. Pág. Na ausência de movimento. 160 Julho/2010 . para fins didáticos. (2006). Head direction cells arranjadas em círculo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 – Modelo unidimensional de integração de sinal de acordo com a direção da cabeça do rato e a sua velocidade angular. Adaptado de McNaughton e col. A influência de uma célua sobre a outra decresce como uma função da distância (linhas vermelhas e cinza). cores quentes representando maior taxa de disparos. a. Figura 7 . A rotação nos sentidos horário ou anti-horário pode ser detectada por um grupo intermediário de células que recebe informações tantodo sistema vestibular quanto da orientação da cabeça por células imediatamente superiores a elas.Modelo de integração de rotas. as células das outras camadas estariam com ativação abaixo do limiar. Adaptado de McNaughton e col. Cada célula se conecta com as adjacentes. de acordo com sua posição preferencial de disparo. b.

é tido como uma etapa anteiror à formação dos place fields no hipocampo propriamente dito. etc. A importância evolutiva da memória episódica e da navegação espacial Como vimos. como se a informação final fosse passada ao hipocampo para a representação do ambiente. dissociar navegação espacial de memória episódica. que é definida como a habilidade de retornar a um local de origem mesmo após ter feito um caminho tortuoso ou mesmo no escuro (Redish. Outra importante função atribuída a essa estrutura é a de codificar informação de como se chegar a lugares desejados. são relacionadas ao hipocampo através dos processos de formação de memória episódica. ou a memória. A codificação de informações a respeito de lugares. entre outras questões adaptativas. é muito bem atribuída ao hipocampo nos vertebrados. Julho/2010 Pág. um dos componentes principais para o processo de integração de rotas (dead reckoning).Neurociências O sistema de grid cells. 8). sabe-se que esse sistema acumula erros e imprecisões durante uma trajetória feita do escuro ou sob baixas condições de visibilidade.. em qual flor ou em qual horário conseguir mais néctar. onde se proteger do frio no inverno ou onde conseguir alimento nas estações que o precedem. Os resultados desses estudos mostram que o hipocampo deve ter uma função importante na formação de memórias do tipo episódica. sendo a primeira apenas uma parte da segunda. certamente essencial para os processos evolutivos dos animais. Dessa forma. onde a integração e utilização de pistas distais seria utilizada (Einevol e col. é muito difícil. de melhores épocas do ano para migração. Esse sistema não depende do uso de pistas externas do ambiente. 7). encontro de parceiros sexuais. junto com o sistema de head direction. Os vários componentes desse sistema seriam utilizados para atualizar essas coordenadas antes de passar a informação para o hipocampo. localização dos melhores abrigos. 2006) (Fig. ou quase impossível. o conhecimento. 1997) (Fig. acredita-se que o córtex entorrinal medial seja. Da mesma forma. essencial para vários processos como busca de alimento. No entanto. 161 . por ser menos específico do que o sistema de place cells.

Todas as place cells que contém um place field naquele ambiente recebem informação das grid cells com ativação similar. (B) Os grids são construídos de acordo com três funções sinusóides com 120º de diferença entre eles. Cores quentes indicam altas taxas. Place cells com campos de ativação menores (verde) recebem projeções da parte dorsal do córtex entorrinal. 162 Julho/2010 . Pág. Interneurônios (vermelho) auxiliam na inibição e controle do sinal. As cores dentro dos place fields simbolizam as taxas de disparo. (A) conexão entre grid cells do córtex entorrinal medial e place cells do hipocampo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 8 – Modelo para a formação de place fields. Adaptado de Einevoll (2006). enquanto place cells com campos maiores (amarelo) são inervadas por células mais ventrais do cortex entorrinal.

Pesquisadores como Magda Arnold. De fato. se a teoria de James estivesse correta. Uma das primeiras teorias sobre as emoções foi a levantada pelo psicólogo William James em 1884. raiva. duas emoções diferentes não poderiam estar associadas às mesmas reações fisiológicas. a ciência da cognição.e. o estudo da mente e. então. Para James.. então. emoção se refere a um estado mental associado a alterações fisiológicas e comportamentais eliciado por um evento externo ou interno de significância para o organismo. contração de diferentes músculos. Cannon observou que as alterações fisiológicas ocorrem. Julho/2010 Pág. Cannon sugeriu que as reações fisiológicas resultantes de emoções distintas podiam ser as mesmas. por volta de 1910. mais lentamente que as sensações de um estado emocional. Estudos posteriores demonstraram que Cannon estava errado ao afirmar que o medo e a raiva compartilham as mesmas reações fisiológicas. alterações fisiológicas como aumento dos batimentos cardíacos e da sudorese e inibição da digestão estão presentes tanto num estado de medo quanto num estado de raiva. Por exemplo. alegria. Com o surgimento do pensamento behaviorista. o estudo das emoções. aumento da sudorese. tristeza e frustração são todos exemplos de emoções. Jaak Panksepp. Ou seja. ao nos defrontarmos com uma serpente numa mata apresentamos uma resposta de fuga. i. Caroll Izard. em geral. Portanto. 163 . A teoria de James ganhou destaque até meados de 1920. sentimos medo porque fugimos e não fujimos porque sentimos medo. vergonha. Estudos sobre os mecanismos das emoções foram.Neurociências Neurobiologia das Emoções Bárbara Onishi Laboratório de Neurociência e Comportamento onishib@gmail. De forma geral. começou a ser considerado como nãocientífico. as emoções não ocorreriam. que é acompanhada por diversas alterações fisiológicas tal como aumento da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. em um artigo intitulado O que é a Emoção?. James sustentou a idéia de que as emoções são o resultado da percepção das alterações fisiológicas disparadas por eventos significativos. essas sensações são as emoções. segundo James. emoção era um típico exemplo dado pelos behavioristas de um tópico obscuro que deveria ser rejeitado pela comunidade científica. em geral. Por exemplo. por conseguinte. Paul Ekman. Por volta de 1950. Se essas sensações pudessem ser eliminadas. sentimos as emoções antes mesmo de as mudanças fisiológicas a elas associadas ocorrerem. retomados. a revolução cognitivista retomou a concepção de mente e surgiu. Ademais. quando foi questionada pelos estudos do fisiologista Walter Cannon. etc.com O que é emoção? Medo.

Esse mecanismo de atribuição de valor a estímulos do meio ambiente teria um valor adaptativo numa perspectiva evolutiva: respostas que garantem a obtenção de recompensas ou respostas que garantem a esquiva e eliminação de punições tendem a aumentar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo do indivíduo. um organismo trabalha para manter ou aumentar um estado emocional positivo. para a escolha de uma resposta frente ao estímulo. um organismo emite respostas de esquiva a um dado estímulo. Esse autor defende que depois que um estímulo com significância para um organismo é percebido. uma reação fisiológica (marcador somático) ocorre. são processos que facilitam a emissão de respostas apropriadas a eventos significativos ambientais e internos. contribuindo para a tomada de uma decisão. Antonio Damasio.e. i.. mas a questão central levantada por James. Essa sensação é avaliada pelo organismo. Richard Davidson. está associada com uma resposta de aproximação. e por outro lado. Apesar das fortes evidências contra a teoria de James. 164 Julho/2010 . Por exemplo. que apesar de ser um estado emocional negativo. parece haver um consenso de que as emoções operam no sistema nervoso através de um mecanismo de atribuição de valor. Edmund Rolls. entre outros contribuíram e têm contribuído com formulações teóricas sobre os mecanismos das emoções. Rolls e Gray propõem que emoções são estados eliciados por recompensas e punições.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Jeffrey Gray. nos referimos a este estímulo como recompensa. contra o papel das reações fisiológicas na produção das emoções. Um bom exemplo que ilustra a diferença entre as visões “positivo-negativo” e “aproximação-esquiva” é a raiva. por outro lado. eliminar ou evitar um estado emocional negativo. Esses foram alguns exemplos de hipóteses levantadas sobre os processos subjacentes às emoções. Damasio recentemente propôs uma hipótese bastante parecida com a teoria de James: a hipótese dos marcadores somáticos. e não de esquiva. reações Pág. O que é a Emoção?. a qual resulta numa sensação. Paul Rozin apresenta uma visão um tanto diferente. trabalha para reduzir. Quando um organismo emite respostas para a obtenção de um dado estímulo.. As emoções. Por exemplo. A codificação de um estímulo como recompensa ou punição seria um mecanismo do sistema nervoso na interface entre a percepção do estímulo e a produção de comportamentos e respostas autonômicas frente a ele. seja a estímulos do meio ambiente ou às próprias sensações inerentes ao estado emocional. Apesar das diferenças entre elas.e. ainda não tem uma resposta consensual. de uma forma geral. nos referimos a este estímulo como punição. i. que não privilegia as respostas de aproximação e esquiva na definição de emoção. emoções seriam estados mentais positivos ou negativos associados com alterações fisiológicas e comportamentais eliciados por estímulos com significância para o indivíduo. Quando. Para ele. Segundo essa concepção.

165 . Reações emocionais inatas e aprendidas Ao estudar comparativamente as expressões emocionais em seres humanos e em outros animais. indicando homologia no que se refere aos processos subjacentes a essas expressões faciais entre grupos de primatas relacionados. etc) em condições de perigo como meio de desencorajar o adversário de atacar. como mostra a Fig. entre muitos outros. um estudo com diferentes espécies de primatas nãohumanos demonstrou que as expressões faciais eliciadas por diferentes sabores são similares entre as espécies para cada categoria de sabor. Assim. encontrar alimento e parceiros sexuais. Estudos mais recentes mostraram. atuantes para a sobrevivência do indivíduo e da espécie. a emissão de sons e a exibição de partes do corpo (como garras. Darwin descreveu uma série de outros exemplos comuns entre animais de diferentes espécies. Além disso. como o comportamento de morder quando se está com raiva.. como cegos de nascença e bebês muito novos. a emissão de sons. não são aprendidas pelo indivíduo. posturas e exibição de partes do corpo como sinal de receptividade sexual. por exemplo. Também mostrou que mesmo indivíduos que não tiveram oportunidade de aprender os movimentos faciais e corporais com outras pessoas. que as expressões faciais de seres humanos produzidas por suas experiências gustatórias com diferentes sabores eliciaram padrões de expressões faciais altamente similares entre adultos e recém-nascidos com menos 16 horas de vida e que não haviam tido ainda sua primeira experiência alimentar (Steiner & Glaser. e engajar em comportamentos sociais adequados. por exemplo. o que o levou a propôr que muitas das expressões emocionais de um organismo são inatas ou herdadas. apresentar cuidado parental. que a ereção dos pêlos do corpo e os comportamentos de urinar e defecar em situações de grande perigo são muito comuns entre animais de diferentes espécies. Julho/2010 Pág. i. 1995). também é consenso que as emoções são funções do sistema nervoso com alto valor adaptativo numa perspectiva evolutiva. particularmente as expressões corporais e faciais. Darwin observou. 1. ereção dos pêlos. Darwin observou semelhanças nas expressões emocionais entre indivíduos de uma mesma espécie e entre diferentes espécies de animais. cheiros.e. exibem normalmente expressões emocionais. indicando que elas independem da origem racial e da herança cultural do indivíduo.Neurociências emocionais são críticas para a emissão de respostas tais como evitar predadores e outras fontes de perigo. Darwin também observou que as expressões faciais mostram-se muito similares entre seres humanos de todo o mundo. batimento das asas.

E nesse contexto. De fato. e de se recordar do conteúdo aprendido. as emoções estão sujeitas a aprendizagem e memória. (C) cachorro aproximando-se de outro cachorro com intenções hostis. Modificado a partir de Darwin (1872). Entretanto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1. e das penas na galinha. 166 Julho/2010 . Uma função importante das expressões faciais e corporais é de comunicar emoções a outros indivíduos. de medo ou de alegria) similares a macacos que faziam parte de um grupo social. Essa capacidade de aprendizagem e memória de natureza emocional resulta em flexibilidade na emissão de respostas emocionais frente às mudanças do meio ambiente. ao estudar as expressões faciais de macacos que não haviam tido qualquer contato social prévio ao experimento. quando os macacos isolados foram inseridos em um grupo social. (B) galinha afastando um cão de sua ninhada.g. observou que esses macacos produziam expressões faciais e respostas comportamentais diante de fotografias de coespecíficos com diferentes tipos de expressão (e. A experiência social foi fundamental para os macacos previamente isolados aprenderem sobre mensagens emocionais num contexto social complexo e reagir apropriadamente a tais situações. expressão ameaçadora. o que tem alto Pág. incluindo as sociais. (A) gato assustado com um cachorro. Este estudo demonstrou que a experiência social não era necessária para a produção de expressões faciais e comportamentos típicos de sua espécie produzidos diante de expressões faciais de coespecíficos. Isso indica que existe um componente inato tanto na produção de expressões faciais quanto no reconhecimento do conteúdo emocional das expressões. as expressões faciais e o seu reconhecimento pelos outros indivíduos do grupo exercem um papel chave na interação social. Reações emocionais de animais de diferentes espécies perante situações de perigo. Gene Sackett (1966). Note a ereção dos pêlos no gato e no cão. mostraram-se incapazes de reagir prontamente e apropriadamente a expressões faciais e comportamentos de outros macacos numa dinâmica social. os animais são capazes de aprender a apresentar respostas emocionais a estímulos que outrora não eliciavam respostas emocionais reflexas. Isto é. Elas funcionam como um sinal preditivo da tendência de um indivíduo a se engajar em uma série de comportamentos em função das condições ambientais.

quanto envolvendo estímulos apetitivos (“positivos”). elaborou um experimento no qual pareou o som de uma campainha. colocou um rato albino diante do bebê e observou que Albert tentava tocar no rato. Watson demonstrou experimentalmente que reações emocionais são passíveis de aprendizado: indivíduos podem aprender a emitir respostas emocionais a novos estímulos. Pavlov observou que os animais não somente salivavam na presença do alimento. não apresentando medo pelo animal. O bebê passou a sentir medo pelo rato. tanto envolvendo estímulos aversivos (“negativos”). e até mesmo diante dos sons produzidos na sua chegada ao laboratório – todos esses eram eventos que prediziam a liberação da comida aos cães. Ele observou que bastava o som da campainha para os animais salivarem. 167 . Pavlov. e mediu a quantidade de saliva produzida pelos animais. John Watson demonstrou experimentalmente esse tipo de aprendizagem em 1920 – o que veio a ser conhecido como o caso do pequeno Albert e o rato. e em sua homenagem é conhecido por condicionamento Pavloviano (Fig. Ferramentas de estudo: abordagens comportamentais O procedimento experimental utilizado por Watson foi inicialmente descrito pelo fisiologista Ivan Pavlov. em seguida. como no caso do experimento idealizado por Watson. algo que não sentia antes. à apresentação de carne. mas também salivavam diante do pote onde a comida seria apresentada. Julho/2010 Pág. Depois de alguns pareamentos entre o rato e o som. Ao estudar a resposta de salivação reflexa de cães. que não eliciava a resposta de salivação nos cães. o pesquisador produziu um som estridente próximo ao bebê. Watson. Watson observou que um som alto e estridente induzido por uma martelada numa haste de metal eliciava choro no bebê Albert – o bebê apresentava um medo natural àquele tipo de som. O condicionamento Pavloviano. também denominado condicionamento clássico. que por sua vez naturalmente eliciava a salivação. 2). como no caso do experimento de Pavlov. Depois de realizar esse pareamento 60 vezes. Watson observou que Albert passou a chorar na presença do rato. Imediatamente depois que o bebê tocou o rato. então.Neurociências valor adaptativo. é uma ferramenta comportamental comumente utilizada no estudo de aprendizagem emocional em animais não-humanos e humanos. Pavlov apresentou aos cães o som da campainha na ausência da liberação da carne.

liberação de hormônios das glândulas adrenais e da pituitária). Em geral..g. como comportamentos defensivos (e. Procedimento de condicionamento Pavloviano. respostas autonômicas (e. A estímulos desta natureza nos referimos como recompensas. respostas neuroendócrinas (e.. mudança de pressão arterial e batimentos cardíacos). por exemplo um estímulo sonoro. Sua investigação se faz comumente através do procedimento de condicionamento clássico aversivo. geralmente um choque nas patas do animal. toma-se a resposta de congelamento (ou “freezing”) como medida de medo condicionado em roedores. O som passa a eliciar respostas que tipicamente ocorrem na presença de perigo. Os comportamentos relacionados ao condicionamento Pavloviano são chamados de comportamentos respondentes. Nesta situação. Um comportamento respondente é aquele que é eliciado por um evento significativo do ambiente (e. A resposta de fuga de um animal para escapar de um predador também é um comportamento operante.g. e prepara o organismo para enfrentar o evento em questão.g. o choro de um bebê para obter a atenção de seus pais é um comportamento operante: o bebê chora para a obtenção ou manutenção de um estímulo que lhe causa reações emocionais positivas – a atenção de seus pais. respostas de congelamento).g. Diferentemente. e o congelamento diante do estímulo sonoro condicionado). quando um organismo emite um comportamento para produzir uma consequência. O medo aprendido (ou medo condicionado) tem sido uma das reações emocionais mais amplamente estudadas pela neurociência. 168 Julho/2010 .. o choro do bebê Albert perante ao rato albino. a apresentação de um estímulo inicialmente neutro. Modificado a partir de Moreira & Medeiros (2007). entre outras. neste caso. chamamos este comportamento de operante. é pareado algumas vezes a um evento aversivo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2. o animal emite uma Pág.. Por exemplo.

Neste caso.Neurociências resposta de esquiva a um estímulo que lhe causa reações emocionais negativas. é comum a utilização de um procedimento no qual um rato é treinado a pressionar uma barra no interior de uma caixa para receber alimento. Até mesmo alterações de humor. Outro exemplo é o procedimento de auto-estimulação elétrica. Condicionamentos operantes apetitivos também são amplamente empregados no estudo das emoções. Em algumas regiões do encéfalo. 169 . no qual a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional negativa aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta de esquiva a este estímulo. como sensações de bemestar ou de mal-estar relatadas por seres humanos. como por exemplo figuras e palavras com conteúdo emocional. Condicionamento operante é a situação de aprendizado de um comportamento operante. por exemplo.e. entre outras.. podem ser provocadas por estimulação elétrica em determinadas áreas do encéfalo. No entanto. um rato é introduzido sobre uma estreita plataforma localizada acima de um assoalho de metal. de sexo. Neste caso. i. O fenômeno de auto-estimulação elétrica tem sido usado como ferramenta para o entendimento dos mecanismos de recompensa e punição no sistema nervoso. é empregada nas pesquisas sobre emoções em seres humanos. e é amplamente empregado no estudo das emoções. Peter Lang e colaboradores (1995) criaram o Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS. International Affective Picture System) que consiste em um conjunto de fotos de cenas de violência. a estimulação elétrica pode mimetizar os efeitos de recompensas naturais para um organismo. do inglês. que evocam diferentes respostas emocionais. A estímulos desta natureza nos referimos como punições. O procedimento de esquiva passiva (ou inibitória) é um exemplo de condicionamento operante aversivo. Não raro a técnica de apresentação de estímulos de natureza emocional. como os efeitos de comida para um animal com fome ou de água para um animal com sede. o organismo produz comportamentos para obter a estimulação. O tempo que o animal leva para descer da plataforma aumenta com o treino. a apresentação de um estímulo que produz uma reação emocional positiva aumenta a probabilidade de o animal emitir uma resposta para a obtenção ou manutenção deste estímulo. Nesta situação comportamental. O rato mostra uma tendência natural de descer da pequena plataforma para o assoalho da caixa. Essas cenas e as suas respectivas classificações Julho/2010 Pág. Por exemplo. toda vez que o rato toca o assoalho. Centenas de indivíduos foram expostos a essas fotos e classificaram-nas quanto à valência e ao grau de alerta das reações emocionais que elas evocavam. a estimulação elétrica em determinadas regiões do encéfalo funciona como recompensa. de cenas alegres ou neutras. recebe um choque nas patas. indicando aprendizagem do condicionamento operante: o animal aprende a emitir o comportamento de permanecer sobre a plataforma para se esquivar de um perigo – o choque nas patas.

Figura 4. Bases Neurais Em 1878. Mais tarde. o córtex na superfície medial do lobo temporal e o hipocampo. (1995). e a expressão emocional pelo hipotálamo. Algumas cenas do Sistema Internacional de Figuras Afetivas (IAPS . 3. o neurologista James Papez propôs que as emoções seriam processadas por uma rede de circuitos neurais no cérebro que incluia o hipotálamo. Modificado a partir de Bear et al. Papez propôs que o córtex cingulado e o hipotálamo manteriam conexões bidirecionais indiretas entre si através do hipocampo e do tálamo anterior. o neurologista Paul Broca cunhou o termo “lobo límbico” para um conjunto de estruturas nervosas localizadas ao redor do corpo caloso. Para Papez. de modo que a experiência emocional e a expressão emocional se relacionariam.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” têm sido utilizadas em numerosos estudos que empregam a ferramenta de produzir reações emocionais em indíviduos.International Affective Picture System). Algumas dessas cenas são mostradas na Fig. Lobo límbico definido por Broca. Pág. como mostra a Fig. 4. o córtex cingulado e o hipocampo (Fig. Figura 3. 5). em 1937. Modificado a partir de Lang et al. a experiência emocional seria determinada pela atividade do córtex cingulado. (2002). incluindo o córtex cingulado. 170 Julho/2010 . o tálamo anterior.

Algumas estruturas do sistema nervoso têm sido fortemente relacionadas às emoções. por exemplo. Historicamente. não é difícil nos depararmos com esse termo até os dias atuais. cuja característica principal era o que os pesquisadores chamaram de cegueira psíquica. Por outro lado. Modificado a partir de Bear et al. o fisiologista Paul MacLean referiu-se ao circuito proposto por Papez como “circuito de Papez” e adicionou a ele a amígdala. como por exemplo. Esses autores mostraram que a ablação bilateral das porções anteriores do lobo temporal de macacos produziu um conjunto de comportamentos. a primeira sugestão de que a amígdala estaria envolvida na produção de comportamentos emocionais surgiu a partir das observações de Klüver e Bucy (1939). Circuito proposto por Papez.Neurociências Figura 5. valendo-se do termo inicialmente empregado por Broca. o córtex orbitofrontal e parte dos núcleos da base propondo um sistema mais ampliado responsável pelas emoções no cérebro. Fortes evidências mostram o envolvimento de algumas estruturas do sistema límbico em processamentos de ordem emocional. No início da década de 1950. os animais podiam ver perfeitamente. como a amígdala e o hipotálamo. 171 . os macacos lesados Julho/2010 Pág. as pesquisas têm mostrado que outras estruturas do sistema límbico não desempenham papel importante neste tipo de processamento. mas os objetos pareciam ter perdido o seu significado “psicológico”. Diferentemente. o hipocampo. que compreendia a aparente perda da reação emocional a estímulos sensoriais. principalmente os visuais. (2002). Isto é. que denominou “sistema límbico”. denominado síndrome de Klüver-Bucy. Ademais. parece que diferentes circuitos neurais amplamente distribuídos no sistema nervoso estão envolvidos com diferentes situações emocionais ou aspectos do processamento emocional. a idéia de um sistema único responsável pelas emoções no cérebro tem se mostrado inconsistente. O conceito de sistema límbico como a parte emocional do cérebro foi amplamente difundido e apesar da sua inconsistência.

Consistentes com esses achados e com essa interpretação estão os relatos do envolvimento da amígdala no medo condicionado (descrito acima). diferente de indivíduos normais. onde um estímulo (e. em que o animal deve produzir uma resposta operante (de esquiva) na presença de um estímulo que sinaliza a pendência de um choque. ele dirá 2 ou 3. somáticas e comportamentais por meio das diferentes áreas de projeção da amígdala. De fato. e não parece importante para produzir expressões faciais apropriadamente. danos amigdalares em seres humanos Pág.. essas informações podem modificar respostas autonômicas. ao passo que um indivíduo normal dirá 5 ou 6. tentavam copular com indivíduos do mesmo sexo ou de outras espécies. exame excessivo de objetos. um som) prediz a ocorrência de um estímulo aversivo (e. consumo de itens alimentares previamente rejeitados e aproximação de objetos previamente relacionados ao medo. Weiskrantz (1956) também reportou que a ablação bilateral da amígdala em macacos resultou em prejuízo na aprendizagem da tarefa de esquiva ativa. 172 Julho/2010 . o trabalho de Weiskrantz (1956) foi marcante por demonstrar que a ablação bilateral da amígdala em macacos levou a uma série de mudanças comportamentais que incluia mansidão. Mais tarde. e perdiam o medo por cobras e pessoas. perda de responsividade emocional. Estudos com seres humanos têm demonstrado que a amígdala exerce um papel fundamental no reconhecimento de expressões faciais de medo. a amígdala parece ser fundamental para a avaliação de somente poucos tipos de expressões faciais. Jones e Mishkin (1972) sugeriram que muitos dos sintomas da síndrome de Klüver-Bucy seriam decorrentes do prejuízo neste tipo de aprendizagem (ver Rolls.g. do ponto de vista hodológico. um choque). De fato. Mais tarde. Depois de processadas e associadas na amígdala. que em muito se assemelhavam aos comportamentos observados por Klüver e Bucy. Baseado nessas e em outras observações. a amígdala encontra-se em condições de associar representações sensoriais de um dado estímulo com as propriedades afetivas de um estímulo significativo. Este envolvimento da amígdala se dá especialmente em se tratando de expressões faciais de medo. endócrinas.g. Weiskrantz (1956) foi um dos primeiros a sugerir que a amígdala seria fundamental para que as representações de estímulos preditivos fossem associadas às propriedades afetivas de estímulos biologicamente significativos – idéia que é sustentada até hoje por numerosas evidências. Humanos e animais não-humanos com danos na amígdala não aprendem a apresentar medo diante do estímulo preditivo. e nesse sentido. O mesmo não ocorre para uma expressão facial alegre: ambos os sujeitos classificarão essa expressão dentro da mesma escala. Em seres humanos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” levavam à boca objetos não comestíveis. Por exemplo. se solicitarmos a um paciente com dano amigdalar classificar uma expressão facial de medo numa escala de 1 (sem medo) a 6 (amedrontada). outros estudos tentaram determinar que regiões específicas do lobo temporal tinham maior relevância na síndrome. e não de outros tipos. 1992).

lesão do córtex orbitofrontal resulta em euforia. Antes do acidente ele era uma pessoa responsável e admirada pela eficiência. Outra estrutura nervosa que tem sido sistematicamente descrita como envolvida em processamento emocional é o córtex orbitofrontal. A região acometida em Phineas Gage corresponde a uma parte do córtex orbitofrontal. incluindo seres humanos. logo se perdia em outros planejamentos. Damasio e colaboradores (1994) reconstruíram a lesão de Gage com técnicas de neuroimagem confirmando o dano da porção ventromedial do córtex pré-frontal. O córtex orbitofrontal é particularmente bem desenvolvido em primatas. como mostra a Fig. tornou-se irresponsável. Uma explosão inesperada produzida por um erro no preparo de uma dinamite fez com que uma barra de ferro penetrasse pela bochecha de Gage saindo pelo topo frontal de sua cabeça. Esta característica é evidente também em primatas não-humanos e em roedores com danos na mesma região. Essas alterações se refletem na tendência a responder a determinados estímulos quando responder é inapropriado. O trabalho de Phineas Gage era preparar dinamites para a explosão das rochas do terreno. O córtex orbitofrontal equivale à porção mais ventral do córtex pré-frontal e recebe este nome por estar posicionado imediatamente acima das órbitas. mas mostrou mudanças acentuadas em seu comportamento e personalidade. um trágico acidente acometeu Gage. Por exemplo. ele não apresentava sinais de prejuízos de outras naturezas. paciência e bom gerenciamento em seu trabalho e vida pessoal. e pouco desenvolvido em outros animais. Uma das primeiras evidências disso surgiu do famoso caso Phineas Gage. por exemplo. que se deu 13 anos mais tarde. fruto de uma forte crise epiléptica. Macacos com danos na amígdala. tais como perda de inteligência. era o contramestre de uma equipe que trabalhava na construção de uma estrada de ferro. são isolados do convívio social pelos outros indivíduos do grupo. deficiências motoras ou de percepção. O crânio de Phineas Gage e a barra de ferro que produziu o acidente foram preservados. mostram graves prejuízos em responder a estímulos sociais e. Em seres humanos. Phineas Gage. irresponsabilidade e perda de afeto. o que não ocorre em animais não-humanos. Gage parece ter perdido a habilidade de controlar suas respostas emocionais. impaciente e grosseiro. Parece ter perdido também a habilidade de avaliar o significado dos eventos e tomar decisões apropriadas diante deles. tais como os roedores. Depois. macacos e ratos com lesão do córtex orbitofrontal exibem desempenho prejudicado em um teste comportamental denominado Julho/2010 Pág. 6. O resultado disso foi que Gage logo foi demitido de seu emprego e seguiu uma vida sem direcionamento até sua morte.Neurociências provocam fracos prejuízos na interação social. Também não conseguia planejar ações para o futuro e executá-las. que sempre abandonava. aos 25 anos. No entanto. Gage se recuperou dos ferimentos produzidos pelo acidente. 173 . Em setembro de 1848. e muitos anos mais tarde. em geral.

O núcleo accumbens. nas quais a escolha de um objeto.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tarefa de reversão. a escolha de um outro objeto e não mais do primeiro é que passa a ser recompensada. De maneira similar. 174 Julho/2010 . Por exemplo. Animais com lesão do córtex orbitofrontal continuam respondendo mesmo quando as respostas não são mais reforçadas. o animal é inicialmente recompensado por escolher um determinado objeto entre um conjunto de objetos diferentes. o reforçamento é revertido. De fato.. Sugere-se que a atividade do córtex orbitofrontal facilitaria a mudança de representações associativas antigas e a aquisição de novas associações pela amígdala (Schoenbaum et al. ou seja. Essas mudanças comportamentais resultantes de danos no córtex orbitofrontal têm sido relacionadas com a incapacidade de tomar decisões apropriadas observadas em seres humanos e outros animais com lesão nesta região. passa a resultar em nenhuma recompensa. diferentemente de animais normais. diferentemente de animais normais. lesão do córtex orbitofrontal também leva a prejuízo em tarefas de extinção. (2006). essas estruturas mantêm densas conexões bidirecionais entre si. Modificado a partir de Gazzaniga et al. está envolvido com os estados afetivos ligados a recompensas prazerosas. estudos eletrofisiológicos mostram que a ativação Pág. Animais com danos no córtex orbitofrontal continuam respondendo ao primeiro objeto depois da reversão. que param de responder. por sua vez. Nesta tarefa. Em seguida. O crânio de Phineas Gage e a reconstrução da imagem do seu encéfalo trespassado pela barra de ferro. 2007). que inicialmente era recompensada. que alteram a sua escolha para o objeto que passa a resultar em recompensa. Figura 6.

a capacidade de reagir a estímulos significativos do ambiente. e o comportamento sexual. 175 . estudos recentes têm atribuído a ele importância para as experiências emocionais. 1998). estímulos inicialmente neutros que passam a predizer a ocorrência das recompensas naturais. Por outro lado. do comportamento defensivo. Por exemplo. além do comportamento maternal. também auxilia no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo.. do ataque predatório. quando a organização do sistema nervoso era dominada pelo tronco encefálico (Panksepp.Neurociências de neurônios do núcleo accumbens se dá pela apresentação de estímulos prazerosos como alimentos. entre outros.e. Por valor de incentivo entende-se o quanto um organismo deseja um determinado estímulo. mas não para o valor hedônico das recompensas. Danos no hipotálamo lateral. a ativação de receptores opióides no núcleo accumbens por injeção de morfina aumenta a habilidade de uma solução adocicada eliciar reações afetivas positivas. apesar de a visão tradicional sobre as funções do tronco encefálico colocarem-no numa posição meramente reflexiva. e até mesmo drogas de abuso como anfetamina. de beber. Um dos tratamentos para dores intratáveis em seres humanos consiste na destruição do córtex cingulado. A dopamina parece ser importante para o valor de incentivo. heroína e cocaína. O córtex cingulado está envolvido com as sensações e antecipações de dor. i. Dentre outras regiões importantes para o processamento emocional encontram-se. que ela deve ter surgido muito cedo na história evolutiva dos vertebrados. oportunidade de contato sexual com outros indivíduos. enquanto que a sensação de prazer eliciada por um alimento é modulada pelo núcleo parabraquial da ponte. os neurotransmissores opióides parecem estar envolvidos com o valor hedônico. é tão fundamental para a sobrevivência e sucesso do indivíduo. eliminam comportamentos motivados. o córtex cingulado. que se refere a quanto um organismo gosta de um determinado estímulo. ou seja. De fato. o hipotálamo lateral e estruturas do tronco encefálico. por sua vez. por exemplo. função primordial das emoções. Evidências sugerem que as projeções dopaminérgicas para o núcleo accumbens estão envolvidas com a atribuição de valor de incentivo a recompensas. Isso é diferente de valor hedônico. pacientes com lesão da amígdala se mostram Julho/2010 Pág. Por exemplo. o quanto ele está disposto a trabalhar para obter aquele estímulo. E consistentemente. a estimulação elétrica do hipotálamo lateral elicia esses tipos de comportamentos. Finalmente. a sensação de dor é modulada pela substância cinzenta periaquedutal. que por razões ainda não claras. A ativação dessa região também se dá por estímulos reforçadores secundários. A relação das emoções com outras funções cognitivas Conforme descrevemos acima. O núcleo tegmental peduncolopontino tem se mostrado importante para o valor reforçador de drogas de abuso como a morfina e a anfetamina. como por exemplo o comportamento de se alimentar.

uma foto de um rosto com expressão sorridente ou furiosa era apresentada subliminarmente a um sujeito na tela de um computador. O significado emocional de estímulos pode ser processado inconscientemente. mas são incapazes de relatar sobre a associação existente entre o quadrado e o choque no pulso. Pessoas normais mostram alterações na condutância da pele imediatamente após o recebimento do choque. apresentam alterações normais na condutância da pele perante ao quadrado. quando testados na mesma tarefa. Lazarus e McCleary (1951) reportaram a existência de reações emocionais a estímulos percebidos subliminarmente. Claramente esses dados demonstram uma dissociação entre o aprendizado explícito sobre um evento emocional e o aprendizado implícito sobre a mesma situação.P. a impressão emocional se mostrou mais eficaz quando as expressões faciais eram apresentadas de forma subliminar do que quando eram percebidas Pág. Entretanto. indicando reação aversiva ao choque.R. o aprendizado explícito depende do funcionamento do hipocampo. a paciente foi capaz de relatar verbalmente que sabia que receberia um choque tão logo o quadrado fosse apresentado na tela do computador. com dano bilateral na amígdala. indicando o aprendizado do condicionamento aversivo. Zajonc evidenciou que quando os sujeitos eram questionados sobre suas preferências aos estímulos-alvo. apesar de mostrar alterações na condutância da pele em resposta ao choque. indicando que os estímulos-alvo adquiriram um significado emocional em função de uma reação emocional ativada subliminarmente pelas expressões faciais percebidas inconscientemente. 176 Julho/2010 . a qual se seguia imediatamente um choque fraco no seu pulso. mesmo sem nenhuma percepção consciente delas. sem conhecimento consciente. De fato. foi apresentada à figura de um quadrado na tela de um computador por alguns segundos. ou seja. Interessantemente. Num teste chamado impressão emocional subliminar. idealizado por Murphy e Zajonc (1993). e também mostram alterações na condutância da pele perante à figura do quadrado após alguns pareamentos. Lazarus evidenciou que os sujeitos exibiam respostas autonômicas perante às letras condicionadas. Como foi discutido em capítulo anterior. Em um experimento clássico. Depois de alguns pareamentos de algumas letras com choques elétricos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” prejudicados em apresentar respostas autonômicas de medo a um estímulo que prediz a ocorrência de um estímulo aversivo. Lazarus apresentou algumas letras na tela de um computador em períodos de tempo muito curtos (da ordem de milisegundos). demonstrando que não foi capaz de aprender o condicionamento aversivo. relatavam preferência aos ideogramas associados às expressões sorridentes.. não mostrou qualquer alteração diante do quadrado. de forma que não pudessem ser percebidas de forma consciente. Apesar disso. a paciente S. um ideograma chinês. e consistentemente. e não às furiosas. as emoções têm um forte componente não declarativo ou inconsciente. seguida de um estímulo-alvo. a paciente S. pacientes com lesão hipocampal. como por exemplo. Por exemplo.

Se nos propusermos a recordar alguns eventos que vivenciamos. A amígdala também se mostra importante neste tipo de aprendizagem emocional. pois garante que a informação sobre esses eventos seja disponibilizada em ocasiões futuras. é mais provável que nos recordemos de eventos de cunho emocional. De fato. mesmo sem nunca termos sido condicionados aversivamente ao dado estímulo.Neurociências conscientemente pelos sujeitos. somos capazes de aprender a ter medo de tocar uma tomada porque fomos instruídos que podemos levar um choque elétrico se o fizermos. Um exemplo é o fenômeno do medo instruído. mesmo sem nunca termos tocado sequer uma tomada e recebido choque. O estado de alerta produzido por um evento emocional aumenta a atenção direcionada ao evento. A interação das emoções com o sistema de memória declarativa também se dá de uma outra maneira: as emoções podem intensificar nossas memórias declarativas. a melhora da memória para eventos significativos do ambiente tem um alto valor adaptativo. Julho/2010 Pág. seguido pela consolidação dessa memória. a atividade do hipocampo é modulada pela amígdala melhorando o processo de consolidação da memória de um evento emocional. aumentando a probabilidade de sobrevivência e sucesso do indivíduo. Além disso. como o condicionamento aversivo. Estes estudos mostram que as emoções são particularmente sensíveis a estímulos inconscientes. ou seja. etc. O significado emocional de um estímulo também pode ser aprendido declarativamente. que é o processo pelo qual novas memórias tornam-se mais permanentes e resistentes à perda. o que faz melhorar a codificação da representação dessa memória. o primeiro namorado. O processo de armazenamento de uma memória envolve inicialmente a codificação da representação da memória do evento em questão. e não só por meio de um procedimento implícito. ao passo que a percepção consciente de um estímulo possibilita algum controle sobre as reações emocionais que ela gera ou influencia. como o falecimento de um ente querido. Isso fica claro pelo fato de experiências emocionais serem melhor recordadas do que experiências sem conteúdo emocional. Numa perspectiva evolutiva. no qual aprendemos a ter medo de algo por aprendizagem declarativa. 177 . Por exemplo. a percepção estritamente inconsciente de um estímulo e a sua influência nas reações emocionais não são passíveis de questionamento. mesmo sem nunca termos experienciado de fato o estímulo aversivo.

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e até mesmo encontrar semelhanças entre a nossa comunicação e aquela usada por outros animais. Neste capítulo. as conclusões de médicos acerca da neurofisiologia da linguagem eram abstraídas somente através da análise da casos clínicos. tais como fMRI. Anteriormente a este período. Bebês nascem e. cães. em questão de 1 ou 2 anos. XX) em estudos neurocientíficos. o estudo da linguagem tem ganhado grande atenção nas últimas décadas. vamos explorar algumas das maravilhas da linguagem produzidas pelo cérebro humano: o que a torna tão particular da espécie humana.Neurociências Neurofisiologia da Linguagem Rodrigo Collino Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigocollino@terra. PET e ERP. ao encontrar um indivíduo que. já entendem muito de sua língua-mãe e não levam muito mais tempo para se comunicarem fluentemente. hoje a Linguagem passa também ao domínio de neurocientistas que procuram traçar sua ontogenia cerebral. falamos. pensava-se na Grécia Antiga que o controle da linguagem estivesse concentrado totalmente na língua do indivíduo. MEG. É uma área que envolve diversos detalhes e grande complexidade. lemos e escrevemos quase que instintivamente e inconscientemente. por exemplo.br Introdução Dentro das ciências cognitivas. Atualmente. e como é possível o cérebro aprender e utilizar mais de uma língua para nossa comunicação. dado o emprego de técnicas desenvolvidas apenas recentemente (a partir da metade do séc. sua lateralização e modularidade cerebral. Assim. algumas espécies de animais se comunicam. estudiosos da neurociência contam com instrumentos aguçados de avaliação da atividade cerebral. sem pensar muito na ordem das palavras que emitimos.com. A Linguagem é exclusiva do Homem? Vivemos imersos neste complexo comportamento chamado linguagem. como as aves. ou na produção de mesma. e que acabavam por desenvolver sequelas de cunho linguístico – na compreensão da fala. advindos de acidentes que causassem danos a áreas específicas do cérebro. ouvimos. provavelmente devido a um acidende vascular cerebral (AVC). De certo. 179 . era comum oferecer-lhe tratamento através de massagens em sua língua. Antes objeto de estudo apenas de linguistas. apresentasse dificuldades na dicção. lobos e primatas. na esperança de recobrar-lhe a fala. Retrocedendo mais ainda no tempo. a fim de correlacionar características da linguagem e regiões cerebrais específicas e seus respectivos padrões de ativação neuronal. ou no som das sílabas que ouvimos. Julho/2010 Pág. distúrbios ocasionados pela falha em alguns de seus mecanismos.

eram duas mensagens separadas – uma indicando a água em si. o que limita enormemente a produção de nuances dos sons que podem ser emitidos pela espécie humana. há algumas características que diferem a comunicação humana daquela encontrada em qualquer outra espécie animal. e emprego de regras sintáticas bem definidas para compor sentenças. a espécie humana parece ter sido selecionada com esta característica inata à linguagem: atualmente. aos 4 anos de idade. o chipanzé havia aprendido a sinalizar 160 palavras.  conteúdo: não só as palavras.5 anos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” mas até que ponto esta forma de comunicação pode ser equiparada à nossa? Será que alguma outra espécie poderia aprender a “linguagem dos homens”? Neste sentido. elas já possuem um vocabulário de aproximadamente 3. casos de indivíduos que cresceram em total isolamento com a sociedade relatam o desenvolvimento de formas próprias de comunicação. e chegou até mesmo a produzir a composição “water bird” ao ver um cisne em um lago. contam-se 10. Além disso. e a outra indicando o cisne. expressões faciais e a entonação utilizadas carregam significado na comunicação humana. especialmente com chipanzés. Um dos resultados mais significativos deste experimento foi perceber que tais primatas possuem um sistema fonador diferenciado do nosso. mas também gestos. e chegou-se à seguinte conclusão: até os 4 anos de idade. Por fim.000 idiomas e dialetos dentre todos os povos da raça humana. não é possível saber com certeza se a produção de “water bird” por aquele chipanzé representava uma alegoria ao cisne ou se. no planeta. tentou-se ensiná-los a aprender palavras em Inglês de elementos presentes em seu ambiente.  forma: uso de fonemas e sílabas para compor palavras. Em outra tentativa de ensinar um chipanzé a comunicar-se. De modo muito diferente. comparando-se com crianças de nossa espécie. mas da aprendizagem implícita – experienciada em nosso dia-dia. tudo isso sem a necessidade de intrução formal. podemos dizer que nossa forma de comunicação é única e complexa dentre os seres vivos de nosso planeta. Em um deles.  uso: a língua serve o propósito de meio de comunicação social e também para identidade própria (expressa nossos pensamentos e emoções).000 palavras. e esperar que falassem ou ao menos entendessem o que lhes fora apresentado. Pois bem. de discussão atual no meio científico: esta capacidade única do ser humano reflete algum ajuste fino do cérebro primata para o propósito específico da linguagem? Ou tal capacidade dever-se-ia ao desenvolvimento de uma arquitetura neural completamente nova? Para melhor nos ajudar Pág. simplesmente. Assim. Além disso. e também que conseguiam compreender apenas 400 palavras aos 2. vários experimentos têm sido realizados. 180 Julho/2010 . optou-se pela Linguagem de Sinais (ASL). São elas:  criatividade: a capacidade de gerar novas associações de palavras – ou até mesmo criar um novo dialeto. Surgem também algumas questões.

O hemisfério Julho/2010 Pág. a produção da fala. envolvendo a articulação dos lábios e língua. Neuroanatomia da Linguagem Todos os aspectos da linguagem são comandados pelo cérebro: a captação de ondas sonoras provenientes da conversa entre duas pessoas é levada ao sistema nervoso central pelo nosso sistema auditivo.5 quilo de massa cinzenta que se encontra dentro de nossa caixa craniana.Neurociências na busca por respostas a estas perguntas. 181 . 99% das pessoas destras e 70% dos canhotos desenvolvem tal característica. Tabela 1 .Relação de algumas estruturas cerebrais e seus respectivos papéis na linguagem. então. a leitura e a escrita. Estrutura neuroanatômica Região temporo-superior posterior esquerda Região frontal inferior posterior esquerda Córtex auditivo primário Região temporo-parietal esquerda Córtex estriado e pré-estriado Córtex pré-frontal Tálamo Função controlada Compreensão da fala e escrita Expressão oral e escrita Percepção de sons Categorização de fonemas Visualização de palavras Iniciação e categorização de palavras Interface semântico-lexical Percebemos. De fato. intermediados pelos sistemas visual e motor. são orquestrados pelos 1. 1 e Tab. 1: Figura 1 – Principais áreas anatômicas do cérebro humano. e até mesmo nossa linguagem corporal. que serão ilustradas na Fig. também tem seu controle motor coordenado pelo cérebro. determinando o hemisfério esquerdo como dominante. um fenomêno de lateralização cerebral no que se diz respeito ao controle da linguagem. Cada uma destas funções linguísticas encontra-se sob responsabilidade de áreas neuroanatômicas bem definidas e localizadas. vamos agora olhar para dentro do centro da linguagem: o cérebro humano.

Seus principais sintomas são dificuldades na repetição de frases e palavras e na nomeação de objetos. produzindo alterações no paciente equivalentes a uma “fala telegráfica”: substantivos são usados apenas no singular. Portanto. “Senhoras e senhores. O centro de compreensão prosódica também localiza-se no hemisfério direito (córtex posterior). 182 Julho/2010 . A afasia de Wernicke não prejudica a produção. de Wernicke e de Condução. mas sim a compreensão da fala e da escrita. letras e palavras curtas. e troca de letras durante a escrita. 1994..Geralmente é decorrente de lesões na região fronto-posterior esquerda. Retirado de Posner e Raichie. Hoje é possível “ver” o cérebro em funcionamento através de procedimentos como PET e fMRI. senhor. verde e azul. levando até mesmo a uma total quebra na sintaxe da frase (p. conhecidas como afasias (difunções na produção ou compreensão da fala). As mais conhecidas são as afasias de Broca. A afasia de Broca afeta o conteúdo da expressão oral e escrita. A afasia de Condução ocorre quando o fascículo arqueado (região parietal esquerda). ritmo e prosódia à lingua falada. e conferir entonação. leitura de números. e níveis progressivamente menores são indicados por laranja. Vários experimentos tem sido feito envolvendo linguagem e mapeamento cerebral. alexias (disfunções na leitura) e agrafias (disfunções na escrita). seria produzido por um destes pacientes como “senhora. com abundância de palavras e frequentes trocas de assunto dentro do mesmo trecho discursivo. São diversas as disfunções decorrentes de AVC.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” direito também participa em características importantes da linguagem.e. produzindo uma espécie de “vazio” na fala. verbos sem flexão. Na Figura 2 estão representados resultados obtidos quando da ativação cerebral em função de diferentes usos da linguagem: Figura 2 – Níveis relativos de fluxo sanguíneo representado por cores. tais como compreensão de respostas não-verbais. Geralmente é resultado de lesões na região temporo-posterior superior esquerda. por favor dirijam-se à sala de jantar”. é rompido. amarelo. podemos prever que danos em determinada porção do tecido cerebral podem afetar uma característica específica da linguagem. Devido a esta dificuldade de compreensão. Vermelho indica os maiores níveis. sua fala fica afetada por uma fluência em excesso. sala”). que interliga as regiões de Broca e Wernicke. Pág.

visão. ocasionando atrasos no aprendizado de leitura e grafia incorreta de palavras. (2001). aquisição de um léxico e de estruturas próprias da língua em questão. ainda. parece pertencer ao acervo biológico do homem. a qual percebe a facilidade Julho/2010 Pág. Há. uma dificuldade em processar estímulos sensoriais (visuais ou auditivos) de forma rápida por parte de indivíduos disléxicos. quando comparados à população normal. articulação da fala e compreensão auditiva a uma velocidade adequada para interação com nativos daquela língua. temos novamente que discernir entre as várias habilidades envolvidas também na comunicação bilíngue: percepção de fonemas estrangeiros. O Cérebro Bilíngue Comunicar-se. Experimentos em eletrofisiologia têm privilegiado as questões linguísticas que envolvem aquisição e uso do léxico e da gramática em uma ou mais línguas (Perani & Abutalebi.Neurociências Existem também disfunções da linguagem observadas por lesões no hemisfério direito do cérebro: indivíduos que utilizam um único tom de voz na linguagem após lesão no córtex frontal direito. devido à modularidade cerebral . Stager & Werker (1997) e Rivera-Gaxola . 2005). A dislexia. destacando-se entre estes Kuhl (2000). portanto.já conhecida não apenas para diferentes funções cognitivas do ser humano (como memória. ou que se complementam no processamento de mais de um idioma? Aqui. motricidade. por exemplo. 183 . há um instinto para o desenvolvimento da linguagem – apesar dos possíveis problemas ou deficiências no decorrer do percurso. olfato). e indivíduos que não conseguem realizar compreensão prosódica após lesão no córtex posterior direito. em nossa espécie. com grupos de neurônios “mal-posicionados” no planum temporale esquerdo – o que sugere um atraso na migração daquelas células durante o desenvolvimento. A plasticidade neural particularmente em crianças é algo notável e aceito tanto pela comunidade científica como pela sociedade leiga em geral. E quanto à comunicação em duas línguas? Como está preparado o nosso cérebro para aprender dois ou mais idiomas. apontando para padrões de organização neural no córtex auditivo primário de crianças e adultos. entre outras. Estudos recentes apontam para um possível correlato anatômico da dislexia: indivíduos disléxicos apresentam tamanho levemente reduzido do hemisfério esquerdo. aqueles distúrbio linguísticos sem lesões vasculares ou mecânicas aparentes. Existe. herdado geneticamente de nossos ancestrais. mas também para diferentes características linguísticas. apontando apenas para um componente genético. ainda. enquanto outros se propuseram a abordar a percepção fonêmica. envolve grandes dificuldades em processos fonêmicos. e processá-los a nível neural? Existem populações neurais específicas para cada idioma.

Uma criança que nasce na Coréia vai aprender coreano tão bem quanto uma criança que aprende italiano por ter nascido na Itália.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” e velocidade de aprendizado de novas tarefas – em especial. caracterizando ao longo do desenvolvimento infantil algumas janelas de oportunidade . nascemos prontos para aprender qualquer idioma. Ainda assim. embora estas duas línguas possuam sotaques e alguns sons de vogais e consoantes próprios. percebe-se que a facilidade em aprender uma outra língua (o chamado período crítico) continua até aproximadamente quando se inicia a puberdade (Stromsworld. ao passo que aqueles adultos que haviam aprendido duas línguas em momentos distintos de sua vida apresentavam regiões corticais também distintas quando utilizando cada um dos idiomas (Fig. hormonais e de plasticidade neural. mas também o nível de proficiência (ou domínio) do idioma influi na representação cerebral. 3): Figura 3 – Resultados de fMRI mostrando centros de ativação da linguagem para a fala em dois idiomas. ao passo que. (Mechelli. tomado de um ponto de vista neurobiológico.períodos em que a aquisição de habilidades específicas seriam favorecidas por fatores genéticos. 184 Julho/2010 . Estudos com fMRI encontraram maior densidade de massa cinzenta na região temporoparietal esquerda do cérebro daquelas pessoas que haviam aprendido mais precocemente duas línguas e que possuíam maior grau de proficiência. diferentes entre Pág. Isso parece indicar haver um período ótimo para esta percepção. a aquisição de outro idioma. após o qual ela deixa de existir. de aprendizado simultâneo de duas línguas. em dois indivíduos adultos. Mehler e Christophe (2000) sugerem que recém-nascidos já discriminam entre dois idiomas estrangeiros. maior a quantidade de conexões entre neurônios naquela região cerebral específica envolvida no processamento daqueles idiomas. 2004). Os primeiros estudos utilizando-se de indivíduos bilíngues demonstraram que adultos que haviam aprendido duas línguas simultaneamente na infância apresentaram uma região em comum para processamento de ambas as línguas. curiosamente. De fato. Retirado de Kim . sendo o da esquerda uma situação de aprendizado tardio do idioma. e o da direita. Isto equivale a dizer que quanto mais cedo alguém é exposto a um idioma estrangeiro. 1997. Outro importante estudo neste campo provou que não somente a idade. 2000). bebês aos dois meses de idade não o fazem mais.

para os brasileiros. anomalias. em pronunciar determinados fonemas estrangeiros – como nas palavras bad e bed. Melhor compreensão do papel de estruturas subcorticais no processamento linguístico. 2004. Ontogenia. Processos que envolvem desde a aquisição de uma língua. Daí vem a dificuldade que muitos adultos encontram em. de 0 a 12 meses de idade. Conclusão e Perspectivas O campo da neurociência se abre cada vez mais para estudos da linguagem. perceber auditivamente e. Organização do léxico de duas ou mais línguas na memória. Figura 4 – Linha do tempo para percepção de sons da fala em bebês. Podemos apontar como perspectivas para o futuro algumas linhas de estudo:     Interação entre linguagem e sistemas de memória. 185 . prevenção e reabilitação de afasias e dislexias. nos primeiros anos da infância. representação mental. em inglês. em português. primeiro. Neurofisiologia da aquisição e processamento de duas ou mais línguas em diferentes idades e níveis de proficiência. para os povos de língua espanhola. todos ainda reservam perguntas que têm ajudado em nossa construção do conhecimento acerca desta fascinante área. Julho/2010 Pág. depois. passando pelo seu processamento. Nosso cérebro. distúrbios.Neurociências elas. a não mais reconhecer fonemas estrangeiros que não fazem parte do sistema de sons a que a criança está sendo exposta (Fig. codificação gênica. É somente após alguns meses de vida que nosso sistema nervoso central começa a privilegiar os sons mais freqüentes ao nosso meio. ou quaisquer outras línguas entre si. e chegando até o fenômeno do bilinguismo. ou como nas palavras avô e avó. 4). Retirado de Kuhl. não faz distinção entre japonês e inglês. e por consequência. português e alemão.

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classe social. 2003). isto é. Tramo. ao longo do espectro de audição.fv@gmail. 1998). um mais grave e outro mais agudo. 2007). por mais que escutemos sons distintos. formados pela composição espectral de ondas senoidais (isto é. são complexos. A uma composição qualquer é dado o nome série harmônica. Gray e col.Neurociências Neurofisiologia da música Felipe Viegas Rodrigues Laboratório de Neurociência e Comportamento rodrigues. temos um determinado conjunto de notas (definido de acordo com o sistema de Julho/2010 Pág. 2003.com Introdução A música é uma forma de arte e expressão humana presente mundialmente (Hauser e McDermott. A composição de várias ondas produz um som muito específico. igual à freqüência da senoidal de menor comprimento de onda na composição espectral. Freqüentemente tratada apenas como uma manifestação cultural. independente do sistema de afinação utilizado é a repetição de notas ao longo do espectro de audição. isto é. Ainda assim.. É o seu timbre. Se tal som tem período definido (chamado som musical) ele possuirá uma freqüência fundamental. 187 . Apesar das diferenças interculturais. há algumas particularidades nos sistemas de afinação. assim como notas musicais. Portanto. que é um atributo físico (Bendor e Wang. essa distribuição global gera indícios de que a música é mais do que isso. não há uma explicação clara e consensual de suas vantagens adaptativas (Pinker. irrestrito a gênero. eles ainda soam muito semelhantes (e são considerados a mesma nota musical). É por isso que nem todos os povos utilizam o mesmo Sistema de Afinação para compor suas notas musicais (ver Porres. 2006). É justamente a composição espectral de seus harmônicos que dá a cada som seu timbre. Notas musicais são uma classificação subjetiva de freqüências sonoras ao longo do nosso espectro de audição. diferentes culturas utilizam em suas músicas diferentes instrumentos musicais com diferentes conjuntos de notas musicais. por mais de uma freqüência). o que se contrapõe à freqüência. A física por trás da música A grande maioria dos sons encontrados na natureza. senão todos. a qual é um atributo perceptual do som. Elas estão baseadas em uma tonalidade. que carrega uma “assinatura sônica” do corpo que a produz. um alvo de pesquisa “não-essencial” (Zatorre. uma característica sempre presente. língua ou idade. 2001). As outras ondas envolvidas naquela composição são chamadas de harmônicos e são múltiplos da freqüência fundamental. 2001.

quando apenas os outros harmônicos da composição espectral daquele som estão presentes.. Benítez-Bribiesca. Estes mecanismos perceptuais nos mostram dois fatos importantes: (1) a percepção de tons musicais está na base do mecanismo fisiológico que propicia a audição em humanos (e. mas também para seus múltiplos. 880. 2003.760. 220. 3. Tramo. conceito. É possível explicar neurofisiologicamente esse fenômeno.520 Hz e etc. em última instância. encontraram em A1 neurônios capazes de disparar potenciais de ação não apenas para um único som complexo. É o disparo dessas populações de neurônios que permite que nós associemos vozes diferentes (devido ao espectro de frequências específico das cordas vocais de cada pessoa) como semelhantes. Pág. Bendor e Wang (2005). também em outros organismos). Masataka. que apesar da extrema relevância (bebês recém-nascidos são capazes de reconhecer o timbre da voz de suas mães) (Trehub e Hannon. estudando o córtex de sagüis. 2006). provavelmente. ainda não tinha o mecanismo fisiológico que o descrevia completamente compreendido.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” afinação utilizado) se repetindo em intervalos regulares. 188 Julho/2010 . Exemplificando: a mesma população de neurônios que dispara para sons com freqüência fundamental de 440 Hz. não justificam por si só a existência de música globalmente. Música para quê? Os mecanismos anteriormente descritos. 1. 2007. Base dos mecanismos neurais da música em humanos Além do arranjo já descrito no primeiro capítulo deste módulo. Enfim. no entanto. temos populações de neurônios específicas para a percepção de freqüências fundamentais. 2001. Convencionamos chamar todo som com freqüência fundamental de 440 Hz de “Lá”. fornecendo ao ouvinte a percepção de tais sons são iguais em alturas diferentes. quando a fundamental envolvida é a mesma: tais neurônios disparam para sinalizar essa fundamental. A esse fenômeno dá-se o nome oitavas musicais. Mas também assim chamamos seus múltiplos (as oitavas) porque temos uma mesma população de neurônios disparando potenciais de ação para todos eles. Uma dada população pode disparar inclusive na ausência da freqüência fundamental. para que existe música? Há vantagens evolutivas nela? Diversos autores já tentaram responder a essa pergunta (Gess. 2001. dispara também para sons com fundamental em 110. Essa descoberta colabora para o entendimento de como o sistema nervoso processa informações para a percepção de timbre. 2001. Gray e col. (2) fazemos a classificação de notas musicais de acordo com aquilo que nosso cérebro está apto a perceber e não por pura subjetividade. 2007. Hauser e McDermott.

Baseando-se na sugestão de Darwin de que a música surgiu no homem devido às chamadas de acasalamento de nossos ancestrais. relacionando música e linguagem. mas como tons complexos. percebendo-as como um tom complexo. a música poderia ser até anterior à fala. O primeiro aspecto levantado por Pinker é a própria fala. para tentar responder à questão. Clark. 1879. segundo tal proposta de Darwin. O autor defende que a letra presente nas músicas faz com que ela ative circuitos neurais “emprestados”. uma mesma fonte sonora. É interessante notar que. uma vocalização animal em meio a uma floresta cheia de ruídos. gritar) tem um apelo acústico próprio. Darwin. separar um solista de uma orquestra.pág. Pinker. dizendo que assim como recebemos uma série de estímulos luminosos que precisam ser diferenciados e separados (uma pessoa de um fundo de árvores. O terceiro aspecto defendido por Pinker é a emoção trazida pela música. em particular. logo. Achados mais recentes. uma voz em um ambiente cheio de ruídos. Isto é. chorar.Neurociências Wright e col. O autor Steven Pinker estabelece uma proposta bem abrangente. o autor defende que uma série de “chamadas emocionais” (como murmurar. Ele ousa dizer: “Eu suspeito que a música seja um ‘bolo de queijo’ auditivo. 189 . serão apresentados mais adiante neste texto. O segundo aspecto refere-se ao circuito neural relacionado à análise auditiva do ambiente. então.. o autor ressalta que prestamos atenção a uma Julho/2010 Pág. Fazendo mais uma comparação entre o campo visual e auditivo. 535. “Presumivelmente o cérebro as associa para construir nossa percepção da realidade do som” – pág. rir. se utiliza desse circuito neural para fazer a interpretação das melodias e harmonias presentes na música. 1998. 2000. A música. regulares. “melodias são agradáveis ao ouvido pela mesma razão que linhas simétricas. Nesse sentido. Outro aspecto apontado por Pinker é a seleção de habitat. baseada em seis pontos principais. 534). para citar alguns) e não há consenso nas respostas. Pinker compara a audição à visão. da prosódia. uma confecção rara artesanalmente construída para agradar os pontos sensíveis de pelo menos seis de nossas faculdades mentais” (Pinker. O sistema nervoso. por exemplo). resmungar. em verdade. o sistema nervoso associa novamente as diferentes freqüências que constituem um som oriundo de um mesmo ponto no espaço e ao mesmo tempo porque são. precisamos distinguir os diversos estímulos sonoros que nos são apresentados. 1998 . por exemplo. paralelas ou repetitivas são agradáveis aos olhos”. a interpretação em tons complexos provavelmente se dá pelo fato de que sons naturais não ocorrem em freqüências puras. 1874. então. traria diversos sentimentos à tona semelhantemente a essas expressões emocionais. que as associa. O autor defende que nosso ouvido detecta cada freqüência e envia cada uma delas ao sistema nervoso. “é provável que melodias evoquem fortes emoções porque sua estrutura assemelha-se a chamadas emocionais de nossa espécie”.

Tal ritmicidade que nos faz dançar. A música também interferiria com tais circuitos neurais. desde um acidente do funcionamento conjunto de diversos circuitos neurais até uma ressonância entre disparos neuronais e ondas sonoras. certamente estimula nosso sistema motor. rosnados. O ritmo é um componente universal da música e até mesmo único em algumas culturas. e acompanhar a música.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” série de características visuais que sinalizam segurança. após a apresentação de sentenças verbais ou seqüências de acordes musicais com incongruências de sintaxe (baseadas em regras de estrutura verbal para os estímulos verbais e regras harmônicas para os estímulos sonoros). corações e galhos batendo. água correndo. independente deste ser uma frase ou um trecho musical. Música também possui sintaxe e circuitos neurais que fazem o processamento dessa característica musical parecem ser os mesmos utilizados para a fala. o qual não variou em latência. A evidência vem de ambos os processos gerarem um potencial evocado P600. paisagens verdejantes. significativamente indistinto em amplitude e distribuição no escalpo. insegurança ou mudança de habitat. Um eletroencefalograma com registro de potenciais evocados mostrou a expressão de um componente N400 para a apresentação de palavras não relacionadas ao estímulo inicial. aparecendo após a apresentação de palavras não relacionadas com o contexto Pág. 190 Julho/2010 . pássaros cantando. insegurança ou mudança de habitat. distribuição no escalpo. fontes neurais e amplitude. passos. As sobreposições entre música e linguagem vão muito além do relatado por Pinker (1998) em seu livro. como vistas distantes. bater palmas. Trovões. de tal forma que ela altera nossas emoções e nossa noção de segurança ou insegurança. Eles apresentaram palavras aleatórias a voluntários após eles terem ouvido ou uma frase ou um trecho musical (apenas instrumental).pág. O último aspecto defendido pelo autor é um “algo a mais” sem explicação conhecida e que ele coloca como sendo. ventos. balançar. 537. O processamento sintático ocorre em regiões do lobo frontal anterior. O componente N400 já havia sido descrito em experimentos de semântica. possivelmente. Ele então escreve: “Talvez nós também prestemos atenção a características do mundo auditivo que sinalizem segurança. (2004) testaram a capacidade da música para representar significados. Koelsch e col. Patel (2003a) faz uma revisão da sobreposição existente no processamento da sintaxe. todos têm efeitos emocionais. presumivelmente porque eles revelam eventos dignos de atenção no mundo” . nuvens (que trazem chuva) ou pôrdo-sol. O quinto aspecto ressaltado por Pinker é o controle motor.

Essa percepção.Neurociências prévio. O reconhecimento de sons complexos com freqüência fundamental definida é importante também para diferenciar diferentes vocalizações de animais na natureza. A percepção de sons complexos evoluiu ao ponto de tornar a percepção de dois sons muito consonantes como iguais. relativamente inerente ao homem e não um simples produto da cultura. 191 . a música pode facilitar a compreensão de significados (em palavras e. Origens da musicalidade Se de fato a música tem envolvimento com tantos circuitos neurais. possivelmente. A análise do ritmo da linguagem e da música em subcomponentes e a comparação entre os domínios revelam que o agrupamento rítmico é semelhante na linguagem e na música. de uma forma diferente de outros sons quaisquer (também chamados sons não musicais) ou. mas não sua estrutura periódica (que é mais organizada na música). Estes não foram selecionados por vantagens adaptativas trazidas pela música. também contextos). mas deve estar presente no cérebro de outros animais também. no entanto. eles seriam uma boa indicação para distinguir as vocalizações de ruídos de fundo (Zatorre. em última instância. As tonalidades e o timbre certamente serviriam também à identificação de vozes (lembrem-se dos bebês reconhecendo a voz da mãe). assim como a linguagem. mas ela pode também pré-ativar representações de conceitos. mas permitem. Qual ou quais vantagens é algo ainda incerto. O primeiro grupo lembrado quando se fala de música em animais. essa propriedade não pode ser uma exclusividade apenas da espécie humana. deve estar presente pelo menos em outras espécies de mamíferos. provavelmente. são Julho/2010 Pág.. provavelmente deu vantagem adaptativa aos seus possuidores. Fica claro. Há ainda mais: paralelos entre a rítmica da linguagem e a da música (Patel. 2003b). até mesmo. além da própria comunicação entre indivíduos. sua criação e percepção. como a linguagem. (Pinker. produzi-la. os autores concluíram que “a música pode não apenas influenciar o processamento de palavras. Diante dos resultados. Isto é. que a música tem estreitas e importantes relações com o funcionamento de diversos circuitos neurais. Novas evidências ainda sugerem que a rítmica de linguagem de uma cultura deixa impressões na sua rítmica musical. em outras palavras. 2000). A capacidade para interpretar música. 2005). independente do conteúdo emocional desses conceitos”. Novos estudos transculturais permitirão afirmar se essas evidências se confirmam. não só em humanos (Wright e col. Esses achados reforçam a noção de que a música possui tanto sintaxe quanto semântica e seja. diferenças na rítmica da linguagem refletem-se na rítmica musical nas diferentes culturas. A própria capacidade de discriminação de timbres seguramente não é produto da necessidade de reconhecimento de diferentes instrumentos musicais. 1998). portanto. sejam eles abstratos ou concretos.

as baleias optam por produzir sons rítmicos. O experimento de Wright e colegas.O tamanho total de um canto (uma música?) assemelha-se ao tamanho médio Pág. Da mesma forma. Estudos recentes sobre o assunto (Baptista e keister. porém. mostraram que os mesmos são capazes de reconhecer como semelhantes melodias idênticas tocadas em oitavas diferentes. tal reconhecimento positivo aconteceu para melodias tonais. o utilizam para produzir sons como parte de seu ritual de acasalamento. como inversões de intervalo. partem para uma seção mais elaborada e. 192 Julho/2010 . Ainda. Mais do que isso: . mas não para melodias atonais. 2000) também apontam para semelhanças estreitas com as regras de construção musical utilizadas pelo homem. A despeito de poderem produzir sons sem ritmicidade ou tonalidade. os pássaros “frequentemente usam as mesmas variações rítmicas. portanto. uma espécie de papagaio do extremo norte da Austrália e Nova Guiné. relações harmônicas simples e retenção de uma determinada melodia com a troca de registro (tonalidade) usado. de forma semelhante a composições humanas e com tonalidade definida. então. pode ter sido afetado pela exposição prévia dos animais a música. . seja da espécie Probosciger aterrimus. 2000) apontam semelhanças entre a melodia do canto dos pássaros e as melodias produzidas pelo homem. percebidas por qualquer pessoa que já tenha entrado em contato com a natureza (e escutado o som dos pássaros). É provável que o caso mais conhecido e consistente de musicalidade nos mamíferos esteja nas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). Desde o século retrasado (Clark. 1879) tal grupo é investigado. assim como nós. (2000). Freqüentemente tais animais ficam em ambientes com televisões ligadas para os mesmos (Hauser e McDermott.O canto produzido por elas é composto de fraseados de tamanho semelhante às frases na música composta por homens e. são freqüentes composições que exploram um tema. a Cacatua-Negra. elas exploram diversos fraseados dentro de um mesmo tema antes de partir para um tema diferente. mas não em tons diferentes. relações tonais. Mas voltando aos mamíferos. 2003). permutações e combinações de notas que os compositores humanos”. expostos a música e melodias diversas. Segundo os autores.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” os pássaros. Estes resultados são consistentes com o achado de Bendor e Wang (2005). Wright e col. retornam ao tema inicial (semelhante ao nosso formato de composição: estrofe – refrão – estrofe). Detalhes presentes nas músicas produzidas pelo homem são também notadas nas melodias usadas pelos pássaros. Há décadas que se conhece o “canto” dessas baleias e estudos recentes (Payne. depois. que molda gravetos para que se assemelhem a baquetas (de bateria) e batucam em diversos troncos até que achem um com ressonância agradável e. trabalhando com macacosrhesus. As razões são óbvias. talvez. já descrito. O caso mais atípico e impressionante.

É então plausível que a própria física da interação de freqüências induza a percepção daquilo que é agradável ou desagradável e permita a produção ou Julho/2010 Pág.mtu. que causa sons mais ou menos desagradáveis ao encéfalo dependendo das freqüências envolvidas. Nós somos adeptos tardios do ambiente musical. relatado como desagradável pela grande maioria das pessoas e que são freqüentemente utilizados na música para gerar sensações de suspense e tensão. Nas palavras de Gray e col. as notas utilizadas no sistema de afinação da música ocidental. ao invés de sermos os inventores dela. De fato. mesmo com nossos caminhos evolucionários não tendo se cruzado em 60 milhões de anos. 1998). enquanto que sons consonantes os fazem virar-se para a fonte sonora e freqüentemente sorrirem (Trainor e Heinmiller. Ainda. . sugere que a música deve ‘predar’ os humanos.Elementos percussivos são incorporados à música e intercalados com tons puros numa taxa semelhante àquela encontrada em composições humanas. Tantos elementos comuns entre os sons musicais produzidos por essas diferentes espécies apontam para o fato de que a música não possa ser apenas um produto cultural humano. possivelmente pelo fato de que o tamanho de seu córtex permite uma capacidade atencional semelhante à nossa. 193 . e em grande parte do mundo. Dado que recém-nascidos não tem conhecimento algum de escalas musicais.” – pág. .Ainda que elas tenham uma extensão tonal que alcança sete oitavas musicais. as baleias preferem compor músicas com intervalo entre notas também semelhantes às nossas composições (que raramente explora toda essa extensão em uma única composição). são derivadas da Série Harmônica (ver http://www.phy. Sons musicais chamados de dissonantes causam um fenômeno chamado batimento. com as escalas musicais sendo construídas com base nas interações entre notas de maior consonância.edu/~suits/overtone. sons dissonantes apresentados a bebês de apenas quatro meses causam afastamento da fonte sonora. indicando que as baleias possam usar desse artefato tanto quanto os humanos usam: um recurso mnemônico para lembrar-se de composições complexas. é improvável que tais respostas emocionais à música acontecem nestes da mesma forma que elas acontecem nos adultos. Talvez uma conseqüência natural da interação entre as freqüências sonoras.Neurociências de músicas produzidas pelo homem.html para maiores detalhes).. expressões faciais fechadas e até choro.Algumas repetições encontradas são semelhantes a rimas. . 53 Tais indícios de produção musical em outras espécies animais reforçam a idéia de que as raízes da musicalidade devem residir em outros fatores que não a cultura humana. 2001: “O fato de que a música das baleias e dos homens tem tanto em comum.

v. uma propriedade emergente da interação de diversos sistemas.. (1942) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. vol. como parte do ritual de acasalamento. New York: Academic Press. Working memory. a organização musical semelhante entre diferentes espécies nos mostra que ela não é um acidente. (1941) Contribuição para o conhecimento da saúva (Atta spp. que caminha em estreitas relações com a comunicação intra-específica e a seleção sexual. seguramente os motivos pelos quais ela permanece são outros (a não ser que ela já tenha se originado por esses outros motivos.-Hymenoptera-Formicidae). Dev. J. v.). Independente dos motivos pelos quais a música se originou no homem. como apontado por Pinker (1998).12. Soc. Arendt. Lond. Apesar de tantas evidências. Autuori. Mais provável ainda que sua existência se apóie em diversos fatores e não apenas em um deles. 8. Hitch G. Na espécie humana.Trans. In The Psychology of Learning and Motivation. v. Wittbrodt. 194 Julho/2010 . Ainda assim. como apontado por Darwin. Bower GA. Muito pelo contrário. a falta de consenso entre pesquisadores sobre a musicalidade em outras espécies animais permanece.47-89. mas uma propriedade específica do sistema nervoso central. Escavação de um sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. como apontado por Koelsch e col. tal uso não invalida que elas sejam capazes de produzir sons musicais e que a estrutura das “músicas” produzidas seja semelhante à humana. Autuori. (2003) Evolution of eyes and photoreceptor cell types Int. III. Roy.. 1908). As críticas são freqüentemente embasadas no fato dos cantos serem essencialmente produzidos por machos. p. D. (2001).11. 2004). Arquivos do Instituto Biológico São Paulo. Formicidae). Revista de Entomologia. 1908). B 356: 1545-1563. claro – improvável quando se compara com outros grupos). 1974. Baddeley AD. pp. D. isso parece ser a produção e a apreciação da mesma por puro prazer. Biol. Evolução do sauveiro (Atta sexdens rubropilosa Forel. I. p. M. Se há algo de exclusivo entre homem e música. É possível que a origem da musicalidade de humanos resida nestes mesmos mecanismos (de seleção sexual). M.137-148. Pág. M.13. 47: 563-571 Autuori.197228. ed. (1940) Algumas observações sobre formigas cultivadoras de fungo (Hym. a música adquire outros significados muito mais fortes como promover a coesão de grupo e a interação social (podendo até possuir a mesma capacidade de abstração e atribuição de significados que a linguagem. Phil. J.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reconhecimento de sons musicais mesmo em espécies que não o homem. Reconstructing the eyes of Urbilateria. Bibliografia Arendt.

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202 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Os processos metabólicos variam ajustando as respostas dos animais tanto às suas necessidades endógenas quanto às mudanças ambientais. . conseqüentemente. 6) interação entre metabolismo energético e reprodução. 5) os fenômenos de depressão metabólica e dormência sazonal apresentados por animais de diferentes grupos como adaptação comportamental. importância dos lipídios nesse processo e como esses compostos podem variar em relação a dieta dos pais e às condições do ambiente.Unidade 4 Metabolismo Aline Dal’Olio Gomes Lab. 4) regulação da temperatura e metabolismo dos animais endotérmicos e ajustes da febre e queda regulada da temperatura corpórea relacionada a depressão metabólica em vertebrados. 2) técnicas de medida do metabolismo energético em diferentes condições fisiológicas. a viabilidade das populações. Sendo assim. 3) a influência do metabolismo nos fenômenos comportamentais de vertebrados ectotérmicos frente às alterações da temperatura ambiental. comunidades e ecossistemas. seguida da apresentação de como os fatores abióticos influenciam o metabolismo usando como exemplo a temperatura. com especial atenção à técnica de respirometria. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. este módulo irá abordar as variações do metabolismo animal decorrentes de diferentes fatores bióticos e abióticos com especial ênfase em metabolismo energético e temperatura: 1) abordagem geral das definições que envolvem o metabolismo energético.com Entendemos como Metabolismo um conjunto de reações químicas que mantém um organismo vivo. 7) finalizamos o módulo procurando entender o efeito ecofisiológico da temperatura no metabolismo e como este pode ajudar a estabelecer os limites ambientais em vários processos fisiológicos dos indivíduos e. fisiológica e bioquímica. podendo atuar de um modo ativo na conservação ambiental.

Silvia C. Kênia Bícego Capítulo 23 Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Revisado pela Dra. 279 pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 20 Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Revisado pela Dra. 247 Carolina da Silveira Scarpellini Revisado pela Dra. 204 Julho/2010 . Carlos Arturo Navas pág. Ribeiro de Souza Capítulo 24 Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’ Olio Gomes Revisado pela Dra. 205 pág. 257 Pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 25 A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais Lye Otani Revisado pela Dr. Carlos Arturo Navas Bibliografia pág. 217 pág. 235 Capítulo 22 Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. “Ana” o quê? pág. Silvia C. 286 pág. Ribeiro de Souza Capítulo 21 Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida Jessyca Michele Citadini Revisado pela Dr.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 19 Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Revisado pela Dra. 269 pág.

2) Cálculo através da produção de calor do organismo. 1) Cálculo dos valores energéticos ingeridos e o valor de todos os excrementos (principalmente fezes e urina). na qual o produto da primeira reação se torna o reagente da próxima (Nelson e Cox. 2000). e pode ser medida em princípio por três métodos distintos. são coletivamente designadas de anabolismo (Fig. Julho/2010 Pág. 205 . 2005). toda energia liberada durante os processos metabólicos é transformada em calor. Na ausência de trabalho externo ou de armazenagem de energia química. Outras vias começam com moléculas precursoras pequenas e são convertidas em moléculas mais complexas e maiores.com Metabolismo: conceitos e considerações gerais O metabolismo é definido como o conjunto de transformações das moléculas orgânicas catalisadas por enzimas nas células vivas. 3) Cálculo da quantidade de oxigênio utilizada nos processos de oxidação. algumas degradam nutrientes orgânicos em produtos finais simples. a soma do anabolismo e catabolismo. Esse método fornece informações sobre todo o combustível utilizado e. Este fato simples torna possível usar a produção de calor como índice de metabolismo energético (taxa metabólica). são designadas como catabolismo (Fig. ele não pode ser usado para os organismos em crescimento ou aqueles que têm alguma alteração na quantidade de gordura ou de outro material.Metablismo Metabolismo e Temperatura: Conceitos e Implicações Carlos Eduardo Tolussi Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos ctolussi@gmail. Segundo Schmidt-Nielsen (2002). extraindo energia química e a convertendo em uma forma útil para a célula. em princípio. juntas essas reações degradativas.. que invariavelmente requerem a adição de energia. incluindo as proteínas e os ácidos nucléicos. 1). As milhares de reações químicas catalisadas por enzimas nas células são organizadas funcionalmente em muitas sequências de reações. Tais vias biossintetizadoras. produtoras de energia livre. desde que o organismo esteja em um estado térmico estável com o ambiente (Randall e col. desde que haja informações sobre as substâncias oxidadas (não havendo metabolismo anaeróbio). Esse método supõe que não haja alteração na composição do organismo. é o método mais preciso. 2005). a taxa metabólica refere-se ao metabolismo de energia por unidade de tempo. 1) (Nelson e Cox. portanto. Dentre essas reações.

osmótico. 206 Julho/2010 . Com a TMB é possível calcular o quanto da taxa metabólica deste organismo foi alterada para realizar algum trabalho. sendo que uma parte desta será utilizada para realização de diferentes trabalhos como os descritos acima e também liberada na forma de calor (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1– Esquema dos processos metabólicos. é necessário analisar primeiramente a taxa metabólica basal ou padrão (TMB). Anabolismo e Catabolismo (Modificado de Nelson e Cox. 2000). Pág. que consiste na menor taxa metabólica ou no mínimo de energia que o organismo necessita para viver (Hochachka e Somero. Desta forma. Para conhecer a taxa metabólica de um organismo. elétrico e mecânico. a energia ingerida pode seguir diferentes caminhos. 2) (Randall e col. 2005). e o trabalho externo para a locomoção e comunicação.. 2002). Esses processos incluem o crescimento e o preparo de tecidos. A taxa metabólica varia com o tipo e a intensidade dos processos que estão ocorrendo. o trabalho interno químico.

Em mamíferos. As técnicas para medidas do metabolismo energético serão abordados mais detalhadamente no próximo capítulo. por exemplo. ou indiretamente pela medição do consumo de oxigênio (VO2 . sistema nervoso. não deve haver condições estressantes. que é similar a TMB. o animal deve estar em repouso. coração e músculos são 2.Metablismo Figura 2– Caminho que a energia química dos alimentos segue nos animais (Modificado de Randall e col. 2000).. e a Julho/2010 Pág. as condições de temperatura devem ser “normais” para aquela espécie. o relativo tamanho do fígado.volume de oxigênio por Kg por minuto). 1997). para que a TMB seja validada deve ser levado em consideração as seguintes condições:      a análise deve ser no estágio de desenvolvimento adulto. 2002). A TMB deve ser medida diretamente através da produção de calor. rim. o organismo não deve ingerir alimentos (geralmente sendo utilizada uma noite em jejum para humanos).4.5. mas neste caso o organismo não precisa estar em jejum (Hochachka e Somero.9. 0. trato gastrointestinal. e 42%. pulmão. 2. 207 . 2. respectivamente. Em humanos. É importante mencionar que a TMB é tecido especifico (Rolfe e Brown. 0. É possível também calcular a taxa metabólica de repouso (TMR). 0.

a TMB pode variar devido a diferentes fatores. 6. através do ATP (Ferrano e Soares.. 1998). a TMP depende do histórico de sua temperatura prévia. é necessário medir o equivalente da taxa metabólica basal. 1998). representando 90% da TMB em humanos (Hochachka e Somero. 1998). por exemplo. Entretanto. a atividade metabólica de um animal está relacionada diretamente com a sua temperatura corporal: animais com temperaturas corporais baixas apresentam taxas metabólicas reduzidas. é definida como o metabolismo do animal em repouso em jejum em certa temperatura corporal. calor é a energia em trânsito determinada pela diferença de temperatura entre os sistemas envolvidos (Ferrano e Soares. 2000). Por isso. 1998). nos organismos para classificar os processos termorregulatórios corporais (Randall e col. tal processo é chamando de energia cinética molecular (Ferrano e Soares. mais especificamente sua estabilidade. Sendo assim. 2002). na qual o animal não está gastando energia metabólica adicional para se aquecer ou resfriar. 208 Julho/2010 . entre eles a temperatura. Por essa razão. Para a compreensão de como a temperatura pode interferir nos processos metabólicos é necessário compreender que. 2000).   temperatura é a grandeza que mede a intensidade da agitação térmica (Ferrano e Soares. Pág. a taxa metabólica padrão (TMP). quando há um aumento da energia em uma molécula. 10. Como foi dito acima. Endotermia e Ectotermia A velocidade das reações químicas aumenta com a temperatura. fazendo com que as mesmas se choquem com maior intensidade umas com as outras. a contribuição de cada tecido na TMB é de 17.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” soma de todos estes tecidos representa 50% da massa total do organismo. 20. da aclimatação térmica (Randall e col. é possível utilizar a temperatura corporal.. Existem outras formas de energia como a química provinda. como a energia associada ao movimento (energia cinética). em virtude da compensação metabólica ou Energia. devido a isso. Temperatura e Calor: conceitos e sua importância nos organismos Conceitos Serão apresentados abaixo os conceitos de energia e temperatura necessários para o entendimento dos tópicos abordados neste capítulo:  a energia está relacionada à realização de trabalho. 4. Para alguns ectotérmicos. a movimentação dos seus átomos é elevada. 11 e 25% respectivamente.

foi necessário a formação de uma outra nomenclatura baseada na “fonte corpórea” de calor. Porém. seja no ar ou na água. 2000). sendo separados em: os que geram calor metabólico. Endotérmicos são os animais que geram seu próprio calor corporal. portanto. Há também mamíferos que podem oscilar sua temperatura em vários graus. deveriam ser denominados homeotérmicos.. quando expostos a temperaturas do ar ou da água variadas experimentalmente (Randall e col. 2000). e os que não geram calor. a faixa de temperatura corpórea central normal é de 37°C e 38°C e para as aves esta temperatura é próxima de 40°C.. normalmente muita baixas para permitir a endotermia. podendo chegar até a 0°C em períodos como a hibernação (SchmidtNielsen 2002). dependendo do ambiente em que o animal vive ou do seu comportamento a sua temperatura pode variar (Randall e col. que mantêm sua temperatura corporal acima da ambiental. Frequentemente. ectotérmicos (Randall e col. Alguns outros vertebrados conseguem controlar sua temperatura corporal desta maneira. para o ajuste da temperatura corpórea será apresentado nos próximos capítulos. A sua produção se dá pelo subproduto do metabolismo. com a progressão dos estudos de campo observou-se que esta classificação não era apropriada. já que. que consiste na produção de vários graus de calor endotérmico pelos animais. Contudo. regulando-a dentro de seus limites fisiológicos através do controle da produção e da perda de calor. eles geralmente não regulam a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita.. embora tal controle seja limitado a períodos de atividade ou crescimento rápido desses organismos. apresentam uma temperatura corporal constante e. Na maioria dos mamíferos. endotérmicos. ectotérmicos e endotérmicos. Estes animais podem ser divididos em dois grupos. na qual as oscilações térmicas são dificilmente mensuráveis. O mecanismo fisiológico e comportamental adotado pelos diferentes vertebrados.Metablismo Animais expostos a variações de temperatura em laboratório. anfíbios. Um outro conceito a ser mencionado é o de heterotermia. Previamente os peixes. Devido a estas inconsistências em relação a classificação descrita acima. aves e mamíferos homeotérmicos. Peixes que vivem em águas profundas. 209 . elevando suas temperaturas corporais consideravelmente acima das temperaturas do ambiente. os heterotérmicos regionais e os heterotérmicos temporais. Os Julho/2010 Pág. são denominados homeotérmicos. Os maiores exemplos são as aves e os mamíferos. Ectotérmicos são os animais que produzem calor metabólico em taxas comparativamente menores. répteis e invertebrados foram considerados pecilotérmicos e.. os pecilotérmicos são os animais nos quais a temperatura corporal tende a flutuar mais ou menos com a temperatura do ambiente. 2000). Ao contrário disso. 2000). os ectotérmicos têm baixas taxas de produção de calor metabólico e altas condutâncias térmicas. fazendo com que sejam pobremente isolados (Randall e col.

Como mencionado anteriormente. 210 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” heterotérmicos regionais são geralmente ectotérmicos que podem alcançar temperaturas centrais elevadas. Os monotremados. em pinguins foi encontrado desacopladores em células musculares quando os animais eram expostos ao frio (Skulache e Maslov. 2000).. sendo mediado pelos ácidos graxos (Levechev.. foi descoberto outra proteína. 2005). que apresenta 70% dos aminoácidos idênticos as UCP2 e UCP3 de mamíferos. que certamente perderam um órgão de geração de calor especializado como o TAP. mas eles são capazes de explorar alguns dos mecanismos bioquímicos usados pelo TAP para a produção de calor (Hochachka e Somero. Entretanto. assim como outros mamíferos e aves em torpor ou em hibernação são exemplos deste conceito (Randall e col. o TAP é caracterizado por uma série de circuitos de regulação genética. que media o influxo de prótons que não são ligados para a geração de ATP (Hochachka e Somero. como alguns tubarões. fazendo com que haja a produção de calor (Collin e col. Metabolismo e Temperatura Tecido adiposo marrom. que apresenta uma baixa quantidade dessa organela. como os équidnas. aspectos fundamentais bioquímicos parecidos com o TAP foram encontrados difundidos nos eucariotos. denominada avUCP. Contudo. 1963). 2002).. salmão e muitos insetos voadores. Demonstrou-se Pág. existe uma inserção de proteínas desacopladoras (UCPs) na membrana interna da mitocôndria. tentativas de encontrar órgãos que possuem uma grande geração de calor como o TAP em aves ou outros animais não mamíferos não foram bem sucedidas. O TAP é caracterizado pela alta densidade de triglicerídeos e uma grande concentração de mitocôndrias. Os heterotérmicos temporais constituem em uma grande categoria de animais cujas temperaturas variam muito com o tempo. sendo esta última característica a que a diferencia do tecido adiposo branco. Além disso. Skulache. A família das proteínas UCPs (principalmente a UCP1) está envolvida em uma parcial dissipação do gradiente eletroquímico de prótons da mitocôndria. 2002). UCPs e avUCP Uma das formas utilizadas pelos mamíferos para produção de calor é através do uso do tecido adiposo marrom (TAP). hormonal e neural que estão envolvidos na termorregulação dos mamíferos. Fisiológica e bioquimicamente. Além disso. enquanto seus tecidos periféricos se aproximam da temperatura ambiente. por meio da atividade muscular. não foi observado um TAP ou um tecido termogênico em outros animais (Toyomizu e col. 2002).. Este tecido é estritamente de mamíferos. 1965). 1960. que desacoplaria a fosforilação oxidativa. e col.

Os efeitos da temperatura sobre as taxas de atividade biológicas são quantificadas pelo cálculo do coeficiente de temperatura ou Q10. que é o mínimo de energia requerida para uma reação ocorrer (Hochachka e Somero. 9. 2002): A aplicação deste conceito será abordada com mais detalhes Q10 = (k1/k2)10/(t1-t2) Na qual. como no metabolismo. a taxa de consumo de oxigênio dobraria com um aumento de 10°C. e a UCP1. posteriormente. Este cálculo mede o efeito que a alteração de 10°C tem sobre uma determinada taxa de atividade biológica através da equação (Hochachka e Somero. mais precisamente na ação e no funcionamento das enzimas. a temperatura causa efeitos em vários processos fisiológicos. 3). A principal habilidade das enzimas é a diminuir a energia de ativação. k1 e k2 são a taxa constante determinada pelo aumento e diminuição da temperatura. aumentando constantemente e de forma regular com a elevação da temperatura. Como pode ser observado abaixo (Fig. Se o Q10 for de 3 o aumento seria 3. 27 e assim por diante (Schmidt-Nielsen. 2002). são um dos responsáveis pela regulação térmica desses grupos que os permitem serem classificados Efeitos da temperatura nas proteínas Como já foi dito anteriormente. Tais resultados experimentais para aves e os já conhecidos estudos prévios para mamíferos demonstram que a avUCP como endototérmicos. dentre um determinado limite. t1 e t2 . 211 . 2001). respectivamente. respectivamente. 2002). com um Q10 de 2 e em uma temperatura inicial de 0°C..Metablismo que a expressão da avUCP foi aumentada quando os animais foram aclimatados ao frio (Raimanbalt e col. Julho/2010 Pág. quadruplicaria em 20°C.

os valores de Q10 são próximos a 2. dentro de um determinado intervalo de velocidade é quase constante. Com isso. 2002). isso é uma explicação parcial e qualitativa para os valores de Q10 observados nos cálculos biológicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 3 – Relação da temperatura e o consumo de oxigênio (Modificado de Schmidt-Nielsen. 212 Julho/2010 . Para muitos processos. 2002). 2002). é importante considerar não apenas a frequência do nível de energia que ocorre dentro da Pág. a fração de um número grande de partículas. e a velocidade de uma determinada partícula varia constantemente devido a colisões com outras partículas (Fig. Porém. Essa função aborda que as partículas possuem um intervalo de diferentes velocidades. Uma alteração da temperatura em 10°C acarreta em uma menor mudança relativa na energia cinética das moléculas que integram o sistema. Para temperaturas que apresentam efeitos letais. quando realizados testes em animais com uma taxa de temperatura corpórea “normal”. 4). para 25°C uma mudança de 10°C representa apenas uma alteração entorno de 3% da média do nível de energia cinética (Hochachka e Somero. A interferência da temperatura para que uma reação química ocorra. No entanto. assim como para queda de temperatura o valor será menor que 2 também (Hochachka e Somero. por exemplo. o Q10 apresenta valores menores que 1. origina-se pelo fato de que a reatividade das moléculas é tipicamente dependente da sua energia cinética. Isto é explicado pelo fato de que a energia cinética das populações de moléculas segue uma função MaxwellBoltzmann. como as taxas de respiração e metabólica.

Figura 4–Relação da energia de uma molécula e a energia de ativação (Modificado de Hochachka e Somero. 2002).Metablismo população. Dito isto. 2002): 1) Enzima + substrato 2) Complexo 3) 4) enzima – substrato complexo ativado enzima – produto complexo enzima + produto Julho/2010 Pág. com isso podemos explicar porque os valores de Q10 ficam em torno de 2 mesmo com a elevação de 10° da temperatura (Hochachka e Somero. 213 . que a energia daquele sistema é maior que a média de energia para que ocorra a reação. 2002). 2002). mas também. é importante mencionar a interferência da temperatura nos eventos catalíticos das enzimas e para entendermos como se dá esta interferência é preciso responder duas questões:   Porque as enzimas são capazes de direcionar as transformações químicas de maneira tão rápida em temperaturas biológicas adequadas? Porque que a temperatura é tão importante na atividade enzimática? Estas duas questões estão ligadas diretamente com as mudanças da estrutura tridimensional (conformação) da enzima (Hochachka e Somero. Isso permitiu desvendar as mudanças conformacionais no ciclo de catálise. abrangendo a ligação do substrato na enzima e o fim com a liberação do produto. Esses métodos mostraram a existência de eventos complexos ocorrendo durante o processo catalítico e que são inadequadamente representados pela descrição convencional das reações enzimáticas (Hochachka e Somero. A questão da velocidade da atividade catalítica das enzimas foi respondida graças aos métodos que possibilitaram a caracterização da sua estrutura tridimensional.

mas sim as mudanças conformacionais durante a ligação e liberação do substrato que alteram a barreira da energia de ativação para formar ou quebrar as ligações covalentes dos substratos (Hochachka e Somero. 214 Julho/2010 . Figura 5 . Os quatro degraus existentes de ativação com a notável capacidade da enzima de alterar altas taxas das ligações covalentes no esquema acima demonstram que após o substrato se ligar a enzima (degrau 1) há a formação e ativação de um complexo (degrau 2).Ilustração do funcionamento das enzimas e transformação dos substratos em produtos (Modificado de Hochachka e Somero. há falhas na sugestão do processo da estrutura da enzima durante o ciclo da catálise (Hochachka e Somero. 2002) (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar do esquema de catálise enzimática estar de forma geral correto. 2002). Os recentes estudos sobre o funcionamento das enzimas concluíram que o principal evento que governa o ciclo da catálise não é a alteração nas ligações covalentes dos reagentes (transformação do substrato em produto). 5). Pág. 2002).

215 . nos capítulos posteriores serão apresentadas algumas técnicas utilizadas para medir o metabolismo animal e os diferentes mecanismos utilizados por animais ectotérmicos e endotérmicos no ajuste dos processos metabólicos frente as alterações ambientais. a alteração da temperatura pode alterar a conformação da enzima e isto acarretaria na alteração do vácuo catalítico (local onde há a transformação de substrato em produto). Os fatores mencionados acima ilustram a relação da temperatura com os processos biológicos. demonstrando a importância desse fator abiótico nos organismos endotérmicos e mais fortemente nos ectotérrmicos. já que esses não possuem mecanismos fisiológicos como as UCPs para controlar a sua temperatura corporal. e é por isso que as enzimas podem reduzir a energia de ativação. que gera uma alteração na formação ou na quebra das ligações covalentes alterando a energia de ativação que pode resultar na diminuição da velocidade da reação (Hochachka e Somero. Julho/2010 Pág. principalmente o metabolismo. Com base nisso. Desta forma. 2002).Metablismo É possível integrar os conceitos de energia mudando a conformação da molécula em temperaturas biológicas normais.

216 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre a matéria foi moldado pelas experimentações alquimistas. em seu Codex Atlanticus produzido entre os anos de 1478 a 1519. Neste capítulo será apresentado um contexto histórico do desenvolvimento de técnicas para medidas do metabolismo. A conexão mais intuitiva é a relação entre ar e vida. nenhum animal que respira pode viver” (tradução livre). mas sim. Leonardo da Vinci (1452–1519). apresenta três relações chave entre: ar e vida. Desde os primórdios da humanidade sabemos que a vida é depende do ar. a medida de metabolismo energético em si. e fogo e vida. Para o desenvolvimento do conceito de metabolismo. A composição do ar foi desvendada juntamente com a compreensão de alguns aspectos sobre o fogo e o processo de combustão. A partir daí. deduziram a existência de uma substância vital presente no material a ser queimado que sustentava e era a própria chama. a queima do carvão deixava pouco ou nenhum resíduo. O grande desafio para desenvolvimento do conhecimento sobre a relação entre ar e vida. não era exatamente saber que a vida estava ligada à presença de ar. O problema não era. veremos que a ciência não segue uma seqüência de eventos ordenada nem linear. a princípio. 217 . pré-método científico. os alquimistas perceberam que. e nem caminha progressivamente da completa ignorância para o conhecimento completo da realidade. as descobertas científicas e paradigmas geralmente percorrem um grande e tortuoso percurso histórico. não foi diferente do que o que ocorre na ciência em geral. Contudo. o ar e a vida. ou de encontrar o elixir da longevidade. fogo e ar. Lighton (2008). mas a necessidade de desvendar o que era o fogo. no entanto. Eis que entre 1703 e 1731 o protoquímico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1660–1734) propuseram o nome de flogisto para a tal substância. entender o que é o ar e como ele suporta a vida. Entremeada com os trabalhos dos primeiros alquimistas. ao término da chama. mostrando os principais estudos de metabolismo e temperatura que serviram de base para o que conhecemos hoje. Longe disso. Segundo a teoria do Julho/2010 Pág.kawamoto@gmail. A seqüência de eventos históricos.Metablismo Medindo a chama da vida Tatiana Hideko Kawamoto Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva th.com Este capítulo foi baseado no livro Measuring Metabolic Rates de John R. simplificada para fins didáticos. declarou sem maiores explicações que “onde uma chama não pode arder. as primeiras medidas de metabolismo demoraram cerca de 100 anos para serem feitas desde o surgimento das primeiras idéias de metabolismo energético. apresentado no capítulo anterior. Em algumas das muitas tentativas de transformar outros metais em ouro.B.

sugerindo que ambos eram sustentados pela mesma substância presente no ar. Mas é John Mayow (1643–1679) quem faz a pergunta chave: será que a combustão e a vida são mantidas pela mesma substância? Ao colocar um camundongo em uma jarra com a abertura voltada para uma vasilha com água (Fig. e observou que quando a vela apagava. O mesmo acontecia com a vela. Robert Boyle realiza experimentos mostrando que quando a pressão do ar ao redor de velas. reforçando a teoria do flogisto. pássaros e camundongos diminui até certo nível. ou o material esgotava a sua quantidade de flogisto. contrário do que seria esperado pela teoria. O camundongo estava claramente consumindo algo do ar. Pouco tempo depois de ganhar alguma notoriedade com essas descobertas e de se tornar membro da Royal Society. Pág. o ar não podia estar saturado de flogisto. primeiro. Mayow havia inventado o primeiro respirômetro semi-quantitativo. demonstrando que algo no ar mantinha tanto a chama da vela quanto a vida dos animais testados. o metal supostamente “deflogisticado”. eles morrem. depois para o sangue onde combinava com o combustível aí presente aquecendo o animal.Ilustração mostrando o equipamento usado por John Mayow em seus experimentos de combustão e respiração. na mesma jarra. Boyle também mostra que o metal calcinado não perde peso. já que o que se estava fazendo era liberar mais espaço para o flogisto e.org/wiki/File:Mayow).wikipedia. O calx quando combinado com carvão. 1) ele observou o nível da água subir até o momento que o animal morria. teoricamente repleto de flogisto. descobriu que o gás resultante da fermentação da cevada Figura 1 . a partir dessas primeiras descobertas ele propôs que o nitro-aereus passava pelos pulmões. voltava à sua forma metálica anterior a calcinação. 218 Julho/2010 . Este era o caso da queima de metais. O próximo pesquisador que coleciona descobertas que serviram de base para o entendimento do metabolismo energético foi Joseph Priestley (1733–1804). não havia chama para saturar o ar de flogisto. instantes depois o camundongo morria. Ele vivia ao lado de uma cervejaria e. reforçando ainda mais as idéias contra o flogisto. Essa substância era o que conhecemos hoje como oxigênio.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” flogisto. Incrivelmente. encerrando abruptamente uma carreira científica que prometia inúmeras descobertas mais. O nível da água sempre subia mais ou menos até o mesmo nível. Propôs ainda que o mesmo acontecia na atividade muscular e no coração. mas sim ganha peso. a qual chamou de “nitro-aereus”. Um pouco antes da ampla aceitação da teoria do flogisto. a combustão cessava quando o ar ficava saturado dessa substância. no caso dos animais. Consiste em uma jarra de vidro virada com a abertura em um recipiente repleto de água (Modificado de http://en. Ele ainda colocou a vela e o camundongo juntos. Neste contexto. cuja calcinação deixava para trás como resíduo o calx. John Mayow morre.

em parte dissolve em água e é semelhante ao gás da fermentação da cevada. ainda. Incrivelmente. como dito no início deste texto. que o gás que não sustenta mais a chama. Entretanto. Prietley pensou ter descoberto o flogisto. um outro gás ao aquecer óxido de mercúrio. Havia. De fato foi a partir desta perspectiva que ele descreveu o experimento em que o óxido de mercúrio é aquecido. a coulorimetria e a respirometria aberta. 2). este gás sustentava a chama de velas de forma mais intensa e por mais tempo do que o próprio ar. O desenvolvimento dos paradigmas. acompanharam o desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medida. Lavoisier juntou todos os elementos necessários para solidificar o conceito de metabolismo energético como uma combustão lenta dos alimentos realizada pelos organismos e tecidos vivos. ele descobriu que ao jogar óleo de vitriol sobre giz ele conseguia produzir este mesmo gás que ele chamou de “fixed-air”. ambos aceitavam as similaridades entre o processo de combustão e a manutenção da vida na presença de ar. Marie-Anne Paulze e Pierre-Simon Laplace realizam experimentos que serão o estopim dos estudos de metabolismo e temperatura como conhecemos hoje. Calorímetro de gelo e primeiros conceitos Antoine Lavoisier. Além disso. Ele percebeu ainda que parte do ar que sobrava na jarra após o camundongo morrer também era “fixed air”. Percebeu. Hoje conhecemos essa substância como nitrogênio. atribuindo erroneamente o efeito ao processo de deflogisticamento do ar.Metablismo extingue o fogo. manômetros e respirometria fechada. a ciência percorre caminhos tortuosos e. O “fixed air” nada mais é que o nosso gás carbônico. Propôs ainda que o “fixed air” seria retirado do ar pelas plantas permitindo que o ar sustentasse a vida e a combustão novamente. 219 . ainda. A teoria do flogisto só é derrubada após um acúmulo massivo de experimentos e evidências produzidos por Antoine Lavoisier (1743–1794) e os anti-flogistianos que estabeleceram que era mais parcimonioso assumir que o flogisto era um gás o qual Lavoisier chamou de oxigênio. Priestley foi um dos mais ardorosos defensores do flogisto e interpretou todos os seus incríveis resultados segundo este paradigma. Com os estudos de nutrição e taxa metabólica. Ao colocar uma cobaia dentro de uma gaiola de metal envolta por gelo (Fig. Deste modo. Apesar da controvérsia entre flogistianos e anti-flogistianos. o metabolismo através da transferência de energia (calor) da cobaia para o Julho/2010 Pág. a seguir farei uma rápida descrição das principais técnicas respirométricas: calorímetro de gelo. uma terceira fração desse ar que sobrava após a chama se apagar que não sustentava mais a chama e nem dissolvia em água. Priestley produziu. medem. a partir de então. por mais contraditório que pareça. indiretamente. Neste momento ficamos tentados a antever o próximo passo e dizer que Priestley descobre o oxigênio e derruba a teoria do flogisto.

) Energia absorvida por uma substância enquanto muda de estado. primeira medida de metabolismo energético medir porquinho-da-índia gelo (Modificado calorímetro http://en. Marie-Anne Paulze e PierreSimon Laplace para medir o calor envolvido em diversos tipos de reações químicas. Contudo. Somente um século após a morte do casal avanços em instrumentos manométricos proporcionam novidades técnicas no campo das medidas metabólicas. sem mudança de temperatura. 220 Julho/2010 . momento em que ambos são decapitados. Medindo humanos e animais estabeleceram que o consumo de oxigênio aumenta com o tamanho dos animais e com o exercício. aproximadamente o mesmo que uma vela queimando. através da quantidade de água produzida por esse derretimento. Daí advém o nome de calorimetria à técnica e de caloria à unidade de medida que adotamos nos estudos de metabolismo energético.org/wiki/File:Icecalorimeter.wikipedia. Dentre científicas que as o muitas casal é descobertas responsável. Chegaram ao valor de 270kJ/h ou 75W de energia. Usando o conceito de calor latente1 proposto por Joseph Black e sabendo que o calor latente de derretimento do gelo é 0. o trabalho intelectual do casal Antoine Lavoisier e Marie-Anne Paulze é bruscamente interrompido com o advento da Revolução Francesa.334kJ/g. Os mais comuns são o calor latente de fusão (estado sólido para líquido) e de ebulição (líquido para gasoso).jpg. a energia perdida por um animal ajustando o metabolismo para 0ºC. inventaram o método de calorimetria indireta que mede a taxa metabólica através do consumo de oxigênio e a calorimetria direta (calorímetro de gelo). somente na área de metabolismo energético eles realizaram uma série de medidas que estabeleceram conceitos básicos que ainda estão sendo desvendados nos dias de hoje. 1 Pág.Ilustração do primeiro calorímetro de gelo usado em 1782 e 1783 por Antoine Lavoisier. baseados no conceito de calor latente de Joseph estudos ao Black. Figura 2 . calcularam pela primeira vez. um de descobriram a termogênese induzida por dieta. da Além de inaugurar realizam os a no de termoquímica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” gelo.

g. 3). 221 . Po é a pressão de referência. Pa é a Figura 3 o Esquema primeiro pressão medida. Seu predecessor. estabelecendo o que conhecemos até hoje como Lei de Boyle. Robert Boyle. Em 1661. cada qual com as suas vantagens e suas desvantagens: amplitude de pressão medida. g é a gravidade e ρ é a densidade do líquido usado. conforme a fórmula: Pa – Po = H.Metablismo Manômetros e a respirometria fechada A respirometria fechada baseia-se em medidas indiretas para quantificar o consumo de oxigênio através de mudanças de pressão e volume de ar presente dentro de um recipiente hermeticamente fechado. dinâmica da resposta às mudanças de pressão e custo que mostrando manômetro inventado por Evangelista Torricelli em 1643. permitindo uma nova série de medidas comparativas. As técnicas necessárias para realizar as primeiras medidas manométricas já existiam na época de Lavoisier. Mais especificamente. a diferença na altura da coluna de líquido é diretamente proporcional à diferença de pressão em cada uma das aberturas do tubo. Evangelista Torricelli inventa o primeiro manômetro usado para medir pressão atmosférica (Fig. já que no tubo em U (Fig. sensibilidade. já havia estabelecido as bases do método científico aplicado à química tornando-se um marco divisor de águas que separava o amadorismo e experimentalismo puro dos alquimistas do que conhecemos hoje como química moderna ao publicar seu livro de 1661. foram lançadas as bases para o desenvolvimento de instrumentos que hoje em dia apresentam uma variedade enorme. Boyle havia descrito o comportamento dos gases em relação à pressão e a temperatura. Assim. A maneira mais simples de medir a pressão de gases é usando manometria. 4). Julho/2010 Pág. Em 1643. cerca de 20 anos antes. mudam muito de um instrumento para outro criando uma variedade enorme de possibilidades de montagem de equipamentos. Christian Huygens inventa o manômetro em tubo-U. The Skeptical Chymist.ρ onde H é a diferença na altura do menisco do líquido.

assim. Um esquema simplificado de um sistema respirométrico fechado (Fig. medimos o consumo do animal através da diminuição total do volume de ar causada pelo consumo de oxigênio do animal. Figura 4. o mesmo volume de ar durante todo o experimento.Esquema de um sistema simples de respirometria fechada. 5) consiste em uma câmara hermeticamente fechada. O absorvedor pode ser Ascarite II (Thomas Co.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Apesar da tecnologia e o conhecimento sobre as propriedades físico-químicas dos gases terem sido estabelecidas no século XVII. O manômetro indica a mudança de pressão do ar que preenche a câmara respirométrica. O sistema geralmente é mantido em temperatura constante durante todo o experimento.) ou KOH. e a seringa permite que se injete ar para que o menisco volte para o nível inicial. 222 Julho/2010 . mantendo. já que o absorvedor geralmente é composto por uma substância química corrosiva (Ascarite II ou KOH). A câmara ainda é ligada a um manômetro líquido que indica a queda de pressão do ar que preenche a câmara conforme o organismo consome o oxigênio. no fundo deste recipiente separado do animal com uma tela de metal. por exemplo. é somente no início do século XX que esse tipo de equipamento se populariza e passa a ser amplamente usado em laboratórios de pesquisa. com um absorvedor de gás carbônico colocado. de preferência. Seu funcionamento permite comparação entre pressões de dois sistemas. Figura 5 . e uma seringa de ar que ao injetar ar na câmara procura manter o menisco do manômetro no mesmo nível. O que veremos a seguir são as principais variações deste padrão básico de respirometria fechada. Ao final do experimento. Pressão atmosférica versus recipiente respirométrico.Esquema mostrando o funcionamento de um a manômetro em tubo-U. Pág.

descrito mais adiante.15 / T ] + Vq x b ) / P ] (consumo em µL O2) onde h é a altura do menisco no manômetro. O manômetro usa como a pressão de referência a pressão atmosférica que pode mudar com a altitude ou com a condição climática (p. Este sistema respirométrico é extremamente difícil de ser usado e é muito instável. Vq é o volume em mL de todos os líquidos na câmara. 5g de tauroglicocolato de sódio. Vf é o volume de gás livre (mL) da câmara somado ao volume de ar dentro do manômetro até a altura do menisco descontado o valor do volume do animal medido. o que pode alterar a medição também. 500mL de água). 223 . Parte desses problemas foram solucionados pelo sistema respirométrico de Gilson que veremos a seguir. podendo incutir erro na medição. Outro fator de instabilidade é a diluição dos gases do ar interno na câmara na solução aquosa de KOH. diferente do respirômetro de Gilson. chuva). b é a solubilidade do gás medido no líquido da câmara. É comum o uso do fluido de Brodie como o líquido do manômetro (23g de cloreto de sódio. e P é a pressão atmosférica por mililitro do fluido manométrico (geralmente fluido de Brodie). Julho/2010 Pág.Metablismo Respirômetro de Volume Constante de Warburg O Respirômetro de Volume Constante de Warburg foi amplamente usado por Otto Warburg e colaboradores de Berlim e foi o primeiro descrito por Joseph Barcroft e John Haldane em 1902. O manômetro em U aqui possui como pressão de referência a própria pressão atmosférica. 6).e. A câmara respirométrica é acoplada a um manômetro líquido em U e a um braço lateral repleto de absorvedor de gás carbônico (Fig. T é a temperatura em graus Celsius. Neste sistema o volume do recipiente onde fica o animal e a temperatura exata do momento que foi determinado o volume precisam ser conhecidos para realizar os cálculos: O2=h [( Vf [ 273.

Coloque o animal na câmara. que nada mais é do que outro frasco hermeticamente fechado com volume e pressão de gás constantes. Absorva qualquer CO2 produzido pelo animal. Os passos a serem seguidos são: 1. Meça a mudança de pressão causada pelo consumo de O2.Esquema simplificado de um respirômetro de Warburg. onde não precisamos conhecer o volume da câmara onde está o organismo. 4. Para manter constantes a pressão e o volume do ar o sistema todo é mantido em um banho térmico que mantém a temperatura. Ajuste periodicamente o volume de ar para que a pressão se mantenha constante. Respirômetro de Pressão Constante de Gilson O respirômetro de Pressão Constante de Gilson (Gilson. Pág. 1963) é um sistema de respirometria fechada semelhante ao Warburg. 2. porém resolve o problema de alterações na pressão atmosférica ao ligar uma das pontas do manômetro líquido em U a um termobarômetro. diferente do sistema de Warburg em que era necessário saber o volume de ar exato da situação inicial do sistema. (Fig.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 6 . Note que a pressão de referência do manômetro em U é a própria pressão atmosférica. A vantagem do respirômetro de Gilson é que se trata de uma medida física direta. O volume é mantido constante pela manutenção do menisco do manômetro sempre na mesma altura através da injeção do mesmo volume de ar que já foi consumido pelo animal. 224 Julho/2010 . 3. 7).

Por exemplo. o animal pode entrar em contato com o absorvedor e sofrer injúria durante o registro do consumo de oxigênio. proteína ou lipídio) que está sendo usado pelo animal no momento da medida para obter energia.43. Figura 7 . Note que o termobarômetro é um frasco que contém um volume constante de ar.15 ) / ( 101. Cálculo de Quociente Respiratório (QR) Como já visto no Capítulo 19. microlitros/hora para micromoles/hora=>multiplique por 0.Metablismo Cálculos: O2=( µL x PB x 273. PB é a pressão barométrica em kilopascals e T é temperatura em Kelvin.Esquema simplificado de um respirômetro de Gilson. usa carboidratos como substrato e o sistema respirométrico não possui absorvedor de CO2. além das limitações próprias da respirometria fechada listadas no final deste item. ou seja. a razão entre o que é produzido como CO2 e o que é consumido de O2 pode ser usado para estabelecermos o substrato energético (carboidrato. esconde uma série de detalhes técnicos e de procedimento em que o experimentador precisa estar bem treinado para conseguir um bom funcionamento do sistema. Em uma condição em que o animal tem um QR de 1. A aparente simplicidade deste sistema respirométrico à primeira vista. o sistema não Julho/2010 Pág. 225 .325 x T ) (consumo em µLO2) onde µL é o volume de ar que diminuiu no sistema. o líquido que mantém a pressão pode vazar sobre o organismo durante a montagem do sistema.04464. Transformações para CPTP (Condições Padrão de Temperatura e Pressão):   microlitros/hora para microgramas/hora=>multiplique por 1.

alterando o metabolismo de forma consistente. que se estendam por dias. Ambas as técnicas a seguir aparecem como soluções a alguns dos problemas da respirometria fechada que acabaram de ser listados. alimentação. e o progressivo aumento de gás carbônico (hipercapnia). por exemplo abelhas e insetos voadores em geral. Outra limitação quanto ao seu uso. perda de água. Contudo. também. MRap é o metabolismo medido sem o absorvedor. MR é o metabolismo medido com o absorvedor. Pág. Limitações da respirometria fechada A respirometria fechada foi muito importante no início do século XX e ainda hoje é usada em condições específicas de medições de ensaios enzimáticos e de cultura de tecidos. é a impossibilidade de acompanhar a atividade do animal. Os valores de QR variam com o substrato energético que está sendo queimado e pode ser uma medida interessante a ser realizada. o que incute imprecisão na medida de metabolismo energético.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” apresenta mudança de volume inicial versus final. Isto acontece com animais que funcionam como conformadores metabólicos (mudam o metabolismo conforme a concentração de oxigênio). Este é o caso de animais que produzem calor. A respirometria fechada não permite. Essa limitação torna a técnica inapropriada para medir metabolismo de organismos íntegros onde a medida não é estável. Para pequenos artrópodes o efeito é pior porque estes tendem a aumentar a atividade como resposta ao confinamento em recipientes pequenos. que alteram seus níveis de atividade ao longo do experimento. de acordo com a pergunta sobre metabolismo energético que se quer responder. a técnica está limitada a medições e condições físico-químicas muito específicas para que as alterações no ar de dentro da câmara respirométrica sejam passível de ser acompanhada. O aumento de gás carbônico. por exemplo. as que causam efeitos metabólicos mais importantes são a diminuição (hipóxia) e esgotamento do oxigênio (anóxia). medições muito longas. Parece que o animal não respira porque o consumo de oxigênio compensa a produção de gás carbônico. ou que respiram de forma intermitente. Podemos usar esta característica para obter o QR usando a fórmula: QR = (MR-MRap)/MR onde QR é o quociente respiratório. produção de excretas e diminuição de oxigênio produzem alterações metabólicas inconvenientes e impeditivas às medidas. Dentre as alterações listadas anteriormente. como os artrópodes traqueados. 226 Julho/2010 .

Metablismo

Respirometria Coulométrica
A respirometria coulorimétrica foi descrita pela primeira vez por N. T. Werthessen em 1937. Ela baseia-se, como na respirometria fechada, no princípio de constância de volume e pressão do gás encerrado em um recipiente respirométrico, associado à produção eletrolítica de oxigênio. Esse sistema de grande precisão resolve o problema de alterações nas condições do ar interno á câmara respirométrica, porém é pouco utilizada. O funcionamento é simples: oar de uma câmara respirométrica fica ligado a um recipiente que contém solução saturada de sulfato cúprico. Como na respirometria fechada, o gás carbônico produzido pelo organismo medido é absorvido do ar por ascarite ou solução de KOH. Conforme o volume de ar da câmara diminui, a solução de sulfato cúprico sobe e encosta no anodo, fechando o circuito. Assim que a eletrólise vai liberando oxigênio, restabelece a concentrações de oxigênio, o volume de ar da câmara aumenta e empurra a solução de sulfato cúprico para baixo, desligando o circuito novamente (Fig. 8). Usando o montante de eletricidade liberada ou consumida, medido em coulombs, desta reação de eletrólise obtemos a produção de oxigênio em quantidades muito precisas. Através da fórmula:

nLO2 = Q[Vm/(4F)]
onde Q é a carga de eletricidade, em coulombs, descarregada na solução saturada; Vm é o volume molar de oxigênio em CPTP; e F é a constante de Faraday (96.485 coulombs /mol).

Figura 8 – Esquema simplificado de um sistema coulorimétrico. Todo o sistema é normalmente mantido em temperatura constante. Conforme o organismo consome oxigênio, libera gás carbônico que é retirado do ar pelo ascarite, diminuindo o volume de ar da câmara respirométrica. Isto permite que o nível de solução de sulfato cúprico suba pelo tubo e atinja o anodo, iniciando a eletrólise. Com o avançar da reação eletrolítica, o oxigênio produzido preenche a câmara respirométrica novamente fazendo o nível de solução de sulfato cúprico baixar e desligar o sistema eletrolítico.

Julho/2010

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Respirometria de fluxo
O próximo avanço nas técnicas respirométricas não vem no sentido de facilitar as medidas, muito pelo contrário, a grande desvantagem das técnicas de respirometria de fluxo é a complexidade do equipamento. Enquanto a respirometria fechada é até certo ponto intuitiva e passível de ser feita de modo artesanal, como descrito acima, a respirometria de fluxo passa a se valer de equipamentos mais sofisticados e que exigem um conhecimento técnico mais apurado para que sejam devidamente manejados e as medidas válidas sejam obtidas. A seu favor, a respirometria de fluxo traz uma significativa expansão das fronteiras do que é possível de ser medido e do que se pode conhecer do metabolismo dos organismos, limites estes os quais ainda estamos explorando. Com o equipamento adequado, montado de maneira eficiente, já podemos obter medidas de consumo de oxigênio de uma única drosófila em tempo real (Lighton e Schilman, 2007). Esta respirometria usa um sistema de fluxo criado por bombas de ar à vácuo associado a analisadores de gases compostos de sensores de oxigênio e gás carbônico. Enquanto a respirometria fechada baseia-se na medida de consumo de oxigênio, a respirometria de fluxo permite o registro tanto do consumo de oxigênio quanto do gás carbônico produzido, isoladamente ou associados no mesmo sistema respirométrico. Ela tem expandido as possibilidades de medição de fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e ligados a ajustes dos organismos a diferentes contextos biológicos. Uma característica marcante é a possibilidade de medidas dos animais executando atividades diferentes, com grande precisão no registro de gasto energético. A respirometria de fluxo teve um impacto direto na maneira como lidamos com a fisiologia. Seu uso na medicina, na melhoria do desempenho de atletas, ou na veterinária, no desempenho de animais de corrida, já nos é cotidiano. Toda a fisiologia do esporte, dos ajustes rápidos realizados pelo corpo durante os diferentes tipos de práticas esportivas só puderam ser investigadas diante destes avanços nas técnicas de respirometria, que permitiram obter medidas de gasto energético em tempo real. Se em um extremo temos a possibilidade de medir fenômenos fisiológicos mais dinâmicos e de ajustes rápidos, no outro extremo temos a possibilidade de acompanhar ajustes de animais diminutos e de baixo metabolismo. Papel de destaque no desenvolvimento de novos equipamentos e técnicas encontra-se na figura de John R. B. Lighton (Sable Systems International). O enorme panorama de desenhos experimentais, de montagem dos equipamentos (exemplo, Fig. 9) e mesmo de empresas que oferecem soluções para as diferentes necessidades de pesquisadores e outros profissionais que usam respirometria, tornam o assunto inesgotável e difícil de sintetizar de maneira satisfatória em um texto introdutório. Sendo assim, o que irei explorar a seguir são algumas características necessárias para

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guiar a escolha do tipo de medida mais adequado à pergunta que se deseja responder, assim como as vantagens e desvantagens de cada tipo de medida. Para mais detalhes técnicos, dicas de equipamentos e soluções para possíveis problemas, recomendo o livro Measuring Metabolic Rates de John R. B. Lighton de 2008.

Figura 9 – Esquema de uma das maneiras de montar um sistema respirométrico de fluxo com equipamento da Sable Systems International. 1. bomba de ar; 2. câmara para manter estabilidade de pressão do ar; 3. fluxímetro; 4.controlador de umidade relativa do ar (UR%); 5. controlador de abertura e fechamento das câmaras respirométricas; câmara respirométrica com animal; 7. absorvedor de umidade do ar e gás carbônico; analisador de oxigênio; 9. programa que registra os dados do analisador.

Linha de base: a linha de base é o patamar de referência sobre o qual o consumo de oxigênio ou a produção de gás carbônico são comparados para se obter a medição. São as quantidades iniciais dos gases presentes no ar, antes do animal alterar as proporções dos gases no fluxo. Como a linha de base é o valor de referência a partir do qual se obtém a medida, esta precisa estar bem estável e estabelecida antes do início do registro de uma respirometria de fluxo. Analisador de oxigênio: a quantidade de oxigênio no ar (cerca de 20,95%) faz com que a medida possa ter uma grande amplitude e flutuabilidade de resposta. Uma boa medida de consumo de oxigênio demanda um bom sensor de oxigênio, uma boa calibração e ajuste dos sensores, uma boa estabilidade da composição do ar que entra no sistema e a manutenção do equipamento em um lugar protegido, detalhes que fazem a refletem na obtenção de uma medida válida ou não. Conhecer o equipamento também é importante já

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que cada sensor responde de uma maneira às perturbações que ocorrem ao redor do equipamento. Para alguns aparelhos que são sensíveis à vibração, por exemplo, colocar uma bomba de ar vibrando na mesma mesa pode ser um desastre. Além disso, medir o consumo de oxigênio demanda tempo e paciência, já que a instabilidade do sistema é uma grande desvantagem a ser considerada, efeito especialmente sentido na medida de animais muito pequenos e/ou de metabolismo baixo. A vantagem da medida de consumo de oxigênio é a sua correspondência direta com o metabolismo energético do organismo (ver Analisador de CO2). Analisador de gás carbônico: a quantidade de gás carbônico no ar é muito menor do que a de oxigênio e este pode ser retirado do ar com o uso de absorvedores, antes de entrar no sistema. Isto nos permite criar uma linha de base de valores muito pequenos ou até mesmo de zero CO2, a partir da qual qualquer quantidade de CO2 registrada terá vindo do animal medido. Por ser uma medida mais estável, é a mais recomendada para a medição de pequenos artrópodes. A desvantagem em se medir somente gás carbônico é a necessidade em saber o QR do animal nas diferentes situações em que este está sendo medido, já que o metabolismo obtido a partir do CO2 depende do QR para ser convertido em unidades de energia, diferente do que ocorre com o O2. Outro possível problema é a possibilidade da não correspondência direta com o metabolismo devido a efeitos de liberação massiva de CO2 por mudanças de pH no sangue. Fluxo de ar: a escolha do fluxo de ar a ser usado depende do fenômeno a ser medido. Animais com metabolismo alto pedem fluxos de ar alto, tanto para evitar hipóxia e hipercapnia, em um sistema de lavagem de câmaras, ou mesmo em um sistema de máscara, em que não há perigo de hipóxia e hipercapnia, para que a dinâmica do consumo registrado acompanhe as mudanças metabólicas na mesma velocidade em que elas acontecem. Se a captação da amostra de ar pela máscara acontece em uma velocidade menor do que as mudanças que se deseja acompanhar do organismo, a lentidão do registro passa a não captar o fenômeno. Por outro lado, animais que apresentam baixo metabolismo e/ou pequeno tamanho corpóreo, imprimem baixas trocas gasosas, alterando pouco a composição do ar que passa pelo sistema. Nestes casos, diminuir o fluxo permite que haja alteração na composição do ar suficiente para que esta alteração seja sentida pelo sensor presente no analisador. Porém, fluxos muito baixos causam uma defasagem entre a atividade observada no animal e o registro do analisador, aspecto que precisa ser considerado na hora de decidir o fluxo de ar usado. Lavagem das câmaras respirométricas: o formato da câmara respirométrica tem

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influência direta neste tipo de medida devido ao fato do gás carbônico ser mais pesado que os demais gases presentes no ar e tender a se depositar na parte inferior da câmara. Isto cria, no melhor dos casos, defasagens de medidas e, no pior dos casos, alterações na dinâmicas imprevisíveis na lavagem da câmara. Esta alteração na dinâmica de lavagem pode criar registros no sensor que não tem relação direta com as trocas de gases realizadas pelo animal medido, mas sim, com lavagens ineficientes, incompletas e irregulares das câmaras respirométricas. Os melhores desenhos de câmaras respirométricas são câmaras sem cantos e irregularidades onde o gás carbônico não tenha a possibilidade de ficar retido, e de tamanho próximo ao tamanho do animal. Por outro lado, o formato e tamanho da câmara tem impacto direto no comportamento do animal que está sendo confinado e características do comportamento deste precisam ser considerados para que se evite fatores de estresse quando não se quer medi-los. Por exemplo, de maneira geral, recintos sem cantos ou sem irregularidades (exemplo extremo são recintos perfeitamente esféricos) são altamente perturbadores e podem ser um fator de estresse para o animal, apesar de ser o melhor formato de câmara sob o aspecto de lavagem. Absorvedores de água: a presença de vapor de água no ar que passa pelos sensores dos analisadores de gases altera a medida diminuindo o sinal, ou seja, o valor registrado é menor do que o registrado por um fluxo de ar seco passando pelo sensor. Em animais que realizam grandes volumes de trocas de gases, como mamíferos e aves, esse efeito é menor não afetando de modo impeditivo o registro. Entretanto, quando lidamos com animais de metabolismo mais baixo, como anfíbios, répteis e artrópodes, o vapor de água causa efeitos significativos nas medidas. Para lidar com o vapor de água presente no fluxo de ar normalmente usamos uma sustância que retira essa água do ar (p.e. sílica-gel, drierita ou perclorato de magnésio). Absorvedores de gás carbônico: o ponto no sistema onde o gás carbônico será retirado da corrente de ar muda conforme a montagem do equipamento, como visto acima. Ele pode ser usado para filtrar o ar inicial que entra no sistema. Se o analisador de oxigênio for o equipamento escolhido para a medida, o ar precisa passar por um absorvedor de gás carbônico antes de entrar no aparelho. As substâncias mais usadas em equipamentos respirométricos são o Ascarite II, o KOH e cal sodada. Manutenção de temperatura durante a medida: a manutenção de temperatura constante durante as medidas hoje em dia é feito por câmaras climáticas que vão desde geladeiras modificadas de modo a manter uma ou duas temperatura programadas, até salas modificadas para esse mesmo fim. Estas câmaras climáticas permitem boa variedade de

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combinações de fatores abióticos que, em conjunto com a respirometria de fluxo, permite a realização das medidas. Respirometria de fluxo em medidas de respirometria fechada: ainda é bastante usada para a medição de animais com baixo metabolismo e/ou muito pequenos. A estratégia usada aqui é manter a câmara fechada por tempo suficiente para que a quantidade de oxigênio caia e/ou a produção de gás carbonico seja alta o suficiente para ser detectado pelo sensor do analisador. Após este período, o fluxo passa novamente pela câmara respirométrica, renovando o ar dentro desta, permitindo que uma nova medida inicie na sequência. O ar que sai da câmara é direcionado para os analisadores, podendo ou não passar por um absorvedor de água e CO2 antes de entrar no analisador (para detalhes técnicos consultar Lighton, 2008). O tipo de registro que esse procedimento gera está esquematizado na Fig. 10.

Figura 10 - Ilustração de uma medida de consumo de oxigênio de respirometria fechada feita em um sistema de fluxo de ar, mostrando a linha de base (pontilhado azul claro), a curva de lavagem da câmara (linha contínua branca) e a área correspondente ao consumo de oxigênio do animal (vermelho).

Respirometria de fluxo em medidas de respirometria aberta: é a medida ideal para estudos de comportamentos e gasto energético em contextos biológicos com mudanças de estado mais dinâmicas, como pode ser visto na Fig. 11. Sua utilização só não é mais ampla devido a dificuldades em controlar possíveis problemas de lavagem de câmaras e interferências na sensibilidade dos equipamentos, e seu uso ainda é limitado para animais muito pequenos (p.e. pequenos artrópodes) e/ou de metabolismo muito baixo (p.e. anfíbios). Nestes organismos a respirometria aberta usada mais apropriada é a de produção de CO2. Apesar de já existir equipamentos capazes de realizar respirometria aberta até mesmo de uma Drosophila sp. seu uso é restrito devido ao preço dos equipamentos capazes de realizar estas medidas de forma válida.

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Figura 11- Exemplo de registro de respirometria aberta de uma formiga forrageando. Produção de CO2 da formiga antes de beber uma solução aquosa de açúcar 30% (flecha da esquerda), enquanto estava bebendo (registro entre as flechas) e depois de beber (registro após flecha da direita) (Modificado de Schilman e Roces, 2006).

Considerações finais
Muitas vezes pensamos que a fronteira do conhecimento científico está delimitada pelo o que podemos realizar tecnologicamente em determinado momento histórico. Contudo, a história da ciência e dos cientistas mostra que o mundo científico é feito também de muita criatividade e ousadia em questionar velhos modelos. Neste contexto, é emblemático o exemplo do embate de Priestley (representando os flogistianos) e o casal Lavoisier (representando os anti-flogistianos). É inegável a qualidade de Priestley como cientista e investigador de propriedades da matéria, porém, sua visão de mundo molda a interpretação de seus resultados, e mesmo possuindo evidências suficientes para superar o velho modelo flogistiano, molda a interpretação de seus resultados conforme o paradigma vigente. Coube a Lavoisier mudar a forma de pensar sobre o ar, a vida e a combustão, imprimindo uma longeva mudança de perspectiva ao mundo. Todo este histórico permitiu o desenvolvimento das novas técnicas e dos novos materiais disponíveis apresentados, como as câmaras respirométricas transparentes e detectores de movimento, que possibilitaram a medição da determinação das relações energéticas envolvidas em fenômenos fisiológicos e comportamentais mais dinâmicos. Estas medidas têm sido carro-chefe de novidades recentes na fisiologia como a endotermia de insetos, medidas precisas de gasto energético de organismos em estado reprodutivo, auxiliando também na melhoria de técnicas de criação, medidas de desempenho animal com implicações em interpretações evolutivas e ecológicas, entre outros. Alguns destes processos fisiológicos e comportamentais que envolvem alterações no metabolismo energético de animais ectotérmicos e endotérmicos são apresentados nos cap. seguintes.

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Ectotermia: um acesso de baixo custo à vida
Jessyca Michele Citadini Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva jessyca.citadini@gmail.com A temperatura ambiental é um dos fatores físicos mais importantes para sobrevivência dos animais. Como discutido em capítulos anteriores, os animais ectotérmicos possuem a temperatura do corpo variável de acordo com a temperatura do ambiente. Contudo, em muitos desses organismos, a manutenção de uma temperatura corpórea relativamente alta e estável eventualmente mais apropriada para as atividades metabólicas, envolve de forma complexa, sinérgica e equilibrada, a fisiologia e o comportamento (Bogert, 1949; 1959).

Transferência de energia
Para que um corpo ou animal mantenha uma temperatura constante, a perda de energia deve ser igual ao ganho. Uma compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos nas trocas de energia que afetam a temperatura dos animais requer o conhecimento de alguns princípios físicos. Como já mencionado na presente unidade, o calor, por exemplo, é a transferência de energia entre corpos que diferem em temperatura, e tal transferência acontece via quatro diferentes formas que são: condução, convecção, irradiação e evaporação (Schmidt-Nielsen e Duke,1996).  Condução A condução ocorre entre corpos físicos que estão em contato entre si, sejam sólidos, líquidos ou gases.  Convecção A transferência de energia que ocorre em fluidos em geral e ocorre devido às diferenças de densidade das partes envolvidas.  Radiação A transferência de energia que ocorre na ausência de um contato direto com um objeto - é dessa forma que todos os dias o Sol aquece a Terra.  Evaporação Energia perdida através da água e o resultado é o resfriamento da superfície corporal. Os animais ectotérmicos, utilizam esses mecanismos na regulação da temperatura, por exemplo: condução (seleção do substrato), a convecção (posições em relação ao sol), a radiação (comportamento e pigmentação da pele) e a evaporação através do ofego (Fig.1).

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Figura 1 - Representação da troca de energia por condução, convecção, radiação e evaporação para um réptil em um ambiente terrestre (De Heatwole e Taylor, 1987, Modificado de Withers, 1992).

Ectotérmicos
Vamos primeiramente examinar as relações termais de animais ectotérmicos aquáticos. Os animais de hábitos noturnos geralmente não apresentam uma significativa troca de energia com o meio, portanto, são termoconformadores, já os de hábitos diurnos fazem a termorregulação por migrações verticais e horizontais. Em seguida, vamos examinar os animais ectotérmicos terrestres, os de hábitos noturnos podem evitar temperaturas extremas, são, portanto termoconformadores, já os diurnos termorregulam por heliotermia e seleção de substrato (Withers, 1992). No final será abordada a influência da temperatura sobre a locomoção de vertebrados terrestres e a influência da mesma nas respostas comportamentais defensivas.

Ectotérmicos Aquáticos
A água tem uma condutividade relativamente baixa de energia e um calor específico alto, e, por conseguinte leva um longo tempo, tanto para aquecer como para esfriar. Por causa disto, rápidas flutuações de temperatura do ar fora da água se transformam em pequenas e lentas mudanças dentro dela. O ar é rapidamente aquecido ou resfriado e conseqüentemente foram entre os animais terrestres que se desenvolveram as maiores adaptações a temperaturas extremas (Withers, 1992). A dissipação de energia através das brânquias é tão eficaz para a maioria dos animais aquáticos que a produção metabólica de energia não tem nenhum significado térmico e a temperatura do corpo é semelhante à temperatura da água. Muitos animais ectotérmicos aquáticos são capazes de termorregulação precisamente a uma temperatura de preferência (Tpref). Esta regulação da temperatura de preferência é realizada através do comportamento por uma água de temperatura adequada, ao invés da termorregulação por meio fisiológico (Withers, 1992).

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Os anfíbios são um grupo particularmente interessante de animais ectotérmicos, pois muitas espécies são de transição entre ambientes aquáticos e terrestres. Eles podem apresentar uma temperatura corpórea (Tc) entre 0°C (por exemplo, uma salamandra caminhando sobre um campo de neve) até mais de 40°C (um sapo se aquecendo). Como seria de esperar, os anfíbios aquáticos tem uma Tc similar a temperatura do ar (Ta), mas muitos podem selecionar uma temperatura de preferência, se existe um gradiente térmico adequado na Ta. Por exemplo, muitos girinos selecionam a água mais quente ao redor das bordas de um tanque e evitam o frio em água mais profunda (Brattström, 1970). Os girinos de Hyla regilla expõem a superfície dorsal para que seja exposta à radiação solar. Agrupamentos de girinos podem absorver radiação solar suficiente para aumentar a temperatura da água local (Brattström, 1962). Anfíbios terrestres possuem um potencial para aumentar a temperatura corpórea escolhendo microclimas ou aquecendo através do sol, mas sua alta perda de água por evaporação cutânea tende a diminuir a eficiência do aquecimento ao sol, no entanto, quando hidratados são excelentes evitando o sobreaquecimento (Withers, 1992).

Ectotérmicos terrestres
Muitos ectotérmicos terrestres apresentam uma considerável capacidade para a termorregulação comportamental e fisiológica. O ar tem baixa condutância e uma menor capacidade de energia do que a água, desta forma é mais fácil para um ectotérmico terrestre manter o gradiente termal entre Tc e Ta. A taxa de aquecimento ou resfriamento de um objeto ou animal, em ambientes frios ou quentes é determinada pela temperatura diferencial, pela propriedade da superfície e pela propriedade termal do meio (condutividade e calor específico) (Withers, 1992). Muitas variáveis afetam a condutância dos animais. A mais importante é o tamanho corpóreo, presença de isolamento e a natureza do meio (ar ou água). A massa corporal é de suma importância uma vez que a relação área de superfície/massa corpórea do animal determina inércia termal, ou seja, a tendência a mudar a temperatura do corpo em decorrência das mudanças na temperatura ambiente. Animais grandes têm uma menor área superfície/massa que os pequenos animais, e desta forma resfriam ou aquecem mais vagarosamente (Withers, 1992). A inversa relação entre condutância termal e massa do corpo tem profundo significado ecológico. Animais pequenos possuem considerável dificuldade para a manutenção da temperatura, por exemplo, uma abelha que tem 20 gramas de massa irá perder temperatura em um ambiente frio em poucos minutos. O isolamento térmico também pode afetar a condutância, por exemplo, as abelhas que possui os pelos do corpo removido têm uma maior condutividade que as abelhas que possuem os pêlos (May, 1976). Em

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embora algumas espécies usem vias metabólicas para elevar a temperatura torácica (Withers.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” animais geralmente o ganho é mais rápido do que a perda de energia. desta forma os ajustes cardiovasculares e metabólicos provavelmente facilitam o aquecimento e retardam o resfriamento (Fig. As libélulas se aquecem em temperaturas baixas do ar e regulam seu ganho através da radiação solar e dos ajustes posturais. Existem também mudanças no batimento cardíaco (mais rápido durante o aquecimento). Figura 2. Aquecimento nos insetos A postura do corpo e a orientação das asas podem afetar significantemente a temperatura do corpo de um inseto se aquecendo (Fig. (A) No ambiente terrestre a iguana ao tomar sol absorve energia dos raios de sol. Muitas borboletas podem elevar a temperatura torácica 150C acima da temperatura do ar por ajustes posturais. ocorrendo a vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos e o batimento cardíaco torna-se mais rápido (conforme registrado pelo Eletroencéfalograma – ECG). (B) A perda de energia sobre a água é retardada pela lentidão dos batimentos cardíacos e pela vasoconstricção dos vasos sanguíneos cutâneos. 238 Julho/2010 .2) (Withers. Diversas espécies se aquecem com as asas posicionadas para frente e para a trás para reduzir a perda de energia. 1992). 1992). o que asseguram o aquecimento do sangue e circulação eficiente. Pág. 1997).3). isto é particularmente evidente em lagartos e crocodilianos. que miniminizam o fluxo sanguíneo para a pele (Modificado de Eckert.As iguanas marinhas de Galápagos aquecem e resfriam em velocidades diferentes.

Metablismo Figura 3. nos animais que apresentam coloração preta é esperado que absorvam mais radiação e assim apresentem uma temperatura corpórea maior que os animais de coloração branca (Fig.4) (Withers. Figura 4.Adaptações posturais da libélula para maximizar o ganho de energia (i) por heliotermia ou (ii) para minimizar o ganho de energia (May. As superfícies pretas refletem menos energia radiante que as superfícies brancas. Por exemplo. 1992). 1975. Conseqüentemente a refletância visual (cor) influencia no ganho de energia. Julho/2010 Pág. Lagartos noturnos e algumas espécies de diurnos são termoconformadores. 1992). modificado de Withers. Coloração A coloração tem importante efeito na termorregulação.Temperatura no tórax (símbolos sólidos) e abdômen (símbolos abertos) de besouros do deserto da Namíbia – Onymacris rugatipennis (élitra preta) e O. 1992). pois 50% da energia radiante vêm do sol e é no espectro visível. variando de poucos graus até acima de 400C. brincki ( élitra branca) em ambiente de luz solar natural (De Henwood. Aquecimento em répteis e anfíbios A temperatura corpórea dos repteis é bastante variável. 239 .1976 – Modificado de Withers. com a temperatura corpórea similar a temperatura do ambiente.

a faixa de tolerância termal é o intervalo de temperatura com o qual o animal pode sobreviver sem comprometer o sistema fisiológico. Esses lagartos são chamados de tigmotermos porque seu maior ganho de energia é através da condução em vez da radiação (Withers. Esses lagartos heliotérmicos manipulam a troca de energia através de vias comportamentais e fisiológicas. quando a chuva chega. 240 Julho/2010 . Na caatinga brasileira os sapos Pleurodema diplolistris passam os 10 ou 11 meses anuais de seca enterrados na areia sem água e sem alimento. Assim. as fêmeas escolhem seus pares e liberam dezenas de óvulos. como já discutido em capítulos anteriores (Withers. temperaturas que são frias o suficiente para congelar os tecidos do animal são potencialmente letais e devem ser evitadas ou requerer adaptações específicas para a sobrevivência. ele é termoconformador em áreas sombreadas. mas alguns ocasionalmente têm Pág. 2010). mas é termorregulador em áreas abertas. A temperatura “ótima” é um intervalo que seria o ideal para muitas funções bioquímicas e fisiológicas. 1992).. mudança na coloração (componente fisiológico) e também o controle fisiológico através das alterações na circulação periférica. Atraídas pela cantoria. Alguns lagartos absorvem energia através do contato do ventre com uma superfície ou substrato de energia. os machos emergem cantando em uníssono e logo saltam para a lagoa mais próxima. 1992). em rochas aquecidas. o controle comportamental inclui: mudança na orientação do corpo em relação ao sol.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lagartos noturnos não possuem nenhuma fonte de radiação solar (embora alguns aqueçam durante o dia enquanto estão inativos). Muitos ectotérmicos simplesmente evitam condições congelantes por migrações ou buscando por microclimas mais quentes. com um aumento chegando a um platô e depois decaindo em altas temperaturas. alterações do contorno do corpo. A faixa de sobrevivência termal é definida como a temperatura crítica mínima e a temperatura crítica máxima. Entretanto. Em um ou no máximo dois meses. quando as chuvas cessam e os rios desaparecem os sapos recémnascidos precisam estar completamente formados e prontos para se enterrarem na areia (Carvalho e col. isso ocorre por causa da instabilidade termal das estruturas e funções das proteínas. A maioria dos lagartos diurnos se aquece em luz solar e são chamados de termorreguladores com temperatura de preferência do corpo de aproximadamente 35 a 40°C. Lagartos heliotérmicos têm uma estreita faixa de temperatura de preferência. muitos lagartos que habitam as florestas não podem se aquecer porque eles habitam ambientes sombreados. Adaptações ao Frio Muitos ectotérmicos estão bioquímica e fisiologicamente adaptados para sobreviver e até mesmo funcionar normalmente em baixas temperaturas ambientais. por exemplo. O lagarto tropical Anolis cristatellus é um oportunista termal.

o estado de super-resfriamento é destruído. isso ocorre pela presença de moléculas de soluto. Os ectotérmicos podem potencializar o congelamento pelo aumento da concentração osmótica de seus fluidos corpóreos. Desta forma. Estratégias anti-congelamento Vários ectotérmicos. ao contrário. que seria de aproximadamente -1. todavia. Os animais marinhos são mais propensos ao congelamento. Ectotérmicos aquáticos podem experimentar apenas condições brandas de congelamento. pois o ponto de congelamento dos tecidos é geralmente entre -0. Ectotérmicos terrestres. são particularmente mais susceptíveis ao congelamento porque a temperatura do ar pode cair abaixo de zero (-20 a -500C). Esses solutos são açucares ou alcoóis de açúcar. permanecem superresfriados. 1992). eles podem congelar a mesma ou a temperatura maior que a água do mar.Metablismo contato com temperaturas congelantes. o superresfriamento será uma boa estratégia apenas quando o risco de entrar em contato com Julho/2010 Pág. se um pedaço de água congelada a −1. desde que a água doce ou água do mar congele entre 00C a -20C. Estes compostos podem também apresentar um efeito crioprotetor – eles protegem a membrana e as enzimas contra a desnaturação pelo frio e o ferimento provocado pelo gelo (Withers. Depressão osmótica do ponto de congelamento A água doce congela a 00C. a menos que a formação de gelo se inicie por meio da nucleação. ou permitindo que os fluidos super-resfriem abaixo do ponto de congelamento normal (Withers. Alguns ectotérmicos acumulam altas concentrações de solutos específicos para diminuir o ponto de congelamento entre 1 a 10°C. A normal concentração dos fluidos corpóreos confere uma proteção muito limitada contra o congelamento em água doce. As soluções apresentam uma depressão do ponto de congelamento.60C a -0.9° C for colocada próxima ao peixe. Por exemplo. evitam se congelar diminuindo o ponto de congelamento dos fluidos do seu corpo abaixo da temperatura média do ambiente. e o peixe congela e morre. tais como os artrópodes polares e o peixe icefish. pois seus tecidos são geralmente não hiper-osmótico e. Existe uma variedade de estratégias que permitem aos animais ectotérmicos sobreviverem em condições congelantes (Withers. 241 . desta forma o ponto de congelamento fica abaixo da temperatura ambiente. portanto. 1992).7 0C. 1992). Super-resfriamento Um animal pode ficar exposto a uma temperatura consideravelmente abaixo do ponto no qual seus líquidos corpóreos possivelmente congelariam.86°C.

Os peixes parecem incapazes de suportá-la e a maior parte dos vertebrados superiores não tolera o congelamento sob condições naturais (Schmidt-Nielsen e Duke. tais como a rã leopardo comum. O anticongelativo impede a adição de moléculas de água ao cristal. O glicerol freqüentemente ocorre em alta concentração em insetos hibernantes e é muito eficaz no aumento da tolerância ao frio (Schmidt-Nielsen e Duke. 1970). Isso pode significar a diferença entre a vida e a morte para um animal que fica inesperadamente exposto a uma noite muito fria. 1971). o glicerol encontra-se ausente. se nucleados. Proteínas anti-congelamento A substância responsável pela redução no ponto de congelamento tornou-se conhecida como uma substancia "anticongelativa". sem que congelassem (Lowe e col. somente alguns vertebrados suportam a formação pronunciada de gelo. É uma glicoproteína que atua impedindo a adição de moléculas de água à matriz de cristais de gelo e. 1982). Hyla versicolor. Nesta estação esses animais apresentam 3% de glicerol em seus fluidos corpóreos . em rãs que não toleram o congelamento. Trematomus (DeVries.6°C foram super-resfriados até -8°C. Répteis e anfíbios. começariam a congelar a -0. Ela foi originariamente identificada e sua composição elucidada no sangue de um peixe antártico. Exceções são encontradas entre alguns anfíbios que enfrentam o inverno no solo. há toda uma preparação para o inverno. apresenta um congelamento parcial e controlado. além disso. (Schmidt-Nielsen e Duke. 1996). portanto. 1996). pois se liga a superfície do mesmo e assim bloqueia o seu subseqüente crescimento (DeVries. 1996). o super-resfriamento pode ser essencial para os animais intolerantes ao congelamento que não conseguem buscar um refúgio mais quente. Essa rã suporta o inverno em um habitat aquático. 242 Julho/2010 . A rã.. Tal super-resfriamento é de fato de grande importância para a sobrevivência de muitos animais. Rana pipiens.possivelmente se o animal estivesse no verão ele seria muito menos tolerante ao congelamento. Outras rãs tolerantes Pág. cujos fluidos corpóreos. Tolerância ao congelamento Embora uma tolerância natural ao congelamento e a formação de gelo sejam fundamentais para a sobrevivência de muitos insetos no inverno. antes de encontrar um esconderijo para proteção contra os rigores do inverno. por exemplo. Um componente particularmente efetivo na redução do ponto de congelamento e também do de super-resfriamento é o glicerol. por outro lado. o seu desenvolvimento. ao passo que a rã no solo tem contato com temperaturas que rapidamente declinam abaixo de zero. mas.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” agentes nucleadores for muito baixo. Durante uma noite ocasionalmente fria.

ou podem usar de adaptações bioquímicas de tolerância para altas temperaturas corpóreas. Por conseguinte. Nenhum dos animais ou plantas é capaz de sobreviver a temperaturas próximas do ponto de ebulição. A segunda estratégia é o aumento da temperatura crítica máxima (TCM) (Withers. Rana sylvatica. por conseguinte.Metablismo ao congelamento.Efeitos da temperatura nas estruturas das membranas. Temperatura Crítica Máxima O limite máximo térmico para as células vivas é o ponto de ebulição da água (100°C à pressão atmosférica normal). 1985). . não pode ser determinada com exatidão. . na qual ocorrem 50% de mortalidade. não está disponível para os animais aquáticos. rapidamente elevam seus níveis glicêmicos como resposta ao início da formação de gelo. A temperatura letal. a perda de água por evaporação pode dissipar uma quantidade considerável de energia e baixar a temperatura Julho/2010 Pág. -Efeitos de temperaturas diferentes (Q10) em reações metabólicas interdependentes. como a rã madeira. 1985) Ao se discutir tolerância a temperaturas extremas. isto é geralmente consistente com o grupo taxonômico. pois o tempo de exposição é de grande importância. 1996): . 1996). mas algumas bactérias termofílicas podem se desenvolver a temperaturas acima de 100°C (Brock. Resfriamento por evaporação A evaporação dissipa a energia da água. A primeira estratégia da termorregulação só pode ser conseguida através de resfriamento evaporativo.Inativação térmica das enzimas a um ritmo que supera o da formação.Suprimento inadequado de oxigênio. mas pode haver considerável variabilidade de acordo com os habitats e com o ambiente termal (Schmidt-Nielsen e Duke. A maioria dos invertebrados e vertebrados possui TCM acima de 30°C e alguns superam os 40°C. coagulação térmica. . 1992).Desnaturação das proteínas. Adaptações a ambientes quentes Ectotérmicos expostos a temperaturas elevadas podem tentar regular a sua temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. deve distinguir entre as quais um organismo pode sobreviver e aquelas nas quais pode completar todo o seu ciclo de vida. Alguns fatores que contribuem para a morte por excesso de temperatura são os seguintes (Schmidt-Nielsen e Duke. e isso parece aumentar a tolerância das mesmas ao congelamento (Storey e Storey. 243 .

enquanto a Phyllomedusa impermeabiliza a epiderme com uma camada de cera (Withers. (5) Permitem aos ectotérmicos acesso a nichos ecológicos não disponíveis aos endotérmicos. Alguns animais ectotérmicos possuem mecanismos para manter sua pele úmida durante a evaporação. As rãs Chiromantis e Phyllomedusa têm significativamente menor perda de água por evaporação do que outros sapos. O lagarto Dipsosaurus dissipa totalmente sua produção metabólica de energia pela respiração ofegante a uma temperatura do ar (Ta) maior que 40ºC. A Chiromantis apresenta glândulas cutâneas mucosas para elevar a perda de água da evaporação. Por exemplo. embora não seja capaz de reduzir significativamente a temperatura corpórea abaixo da Ta.7ºC. Por exemplo. alguns anfíbios espalham com as patas substâncias lipídicas de glândulas dérmicas para prevenir a desidratação da pele.9ºC abaixo da temperatura do ar e a temperatura do cérebro em cerca de 2.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” corpórea. e um alto fluxo sanguíneo cutâneo mantém o nível de hidratação da pele. 244 Julho/2010 . 1992). Ectotérmicos terrestres tendem a reduzir a evaporação cutânea para evitar a desidratação rápida. (4) A eficiência da conversão de energia assimilada em biomassa costuma ser mais eficiente em ectotérmicos do que em endotérmicos. 1992). A influência da temperatura nos sistema locomotor dos vertebrados ectotérmicos Pág. O grau de resfriamento evaporativo depende da umidade relativa do ambiente e da temperatura (Withers. a sua temperatura corpórea é semelhante à temperatura do ar. Ambas Chiromantis e Phyllomedusa podem aumentar drasticamente a perda de água. quando submetidas a altas temperaturas e precisamente regulam a temperatura corpórea abaixo da temperatura do ar. (3) O corpo possui um formato (alongado. achatado dorso-ventralmente ou achatado lateralmente) que aumenta a relação superfície/massa. Correlações ecológicas em ser ectotérmico (1) São capazes de habitar áreas de grande estresse ambiental. conseqüentemente. 1992). (2) Possuem tamanho corpóreo pequeno. o que faz com que tenham menor necessidade energética. através do ofego. O lagarto Sauromalus pode reduzir a temperatura corpórea em aproximadamente 0. alguns animais terrestres relativamente impermeáveis são capazes de melhorar o resfriamento evaporativo regulando a temperatura corpórea a altas temperaturas do ar para aumentar significativamente sua perda de água cutânea ou respiratória (Withers.

a maioria das atividades fisiológicas são depende da temperatura do corpo. Arnold e Bennett. 2001). Sabemos que vários fatores (abióticos e bióticos) podem influenciar nos padrões de comportamentos nos animais. Nos estudos feitos por Arnold e Bennett (1984) foi observado que serpentes se tornam mais agressivas. Oliveira e Martins.. Estudos com serpentes sugerem que também neste grupo há modulação do comportamento defensivo induzido pela temperatura corpórea. Entre os fatores abióticos. Considerações finais Desta forma podemos observar que nos animais ectotérmicos. Hertz e col. ou tornam-se mais agressivos e menos propensos á fuga quando a temperatura corpórea é baixa (Hertz e col. Huey e col. Schieffelin e Queiroz. quando apresentam baixas temperaturas corpóreas. a temperatura pode influenciar diretamente o seu metabolismo e conseqüentemente na sua atividade (Lillywhite 1987). Muitos processos bioquímicos e fisiológicos são a base do padrão comportamental e são dependentes da temperatura (Bartholomew. 1982. De acordo com Shine e col. sendo que a mesma está diretamente relacionada com a temperatura do ambiente. 1964. a temperatura pode influenciar na magnitude e tipo das respostas comportamentais apresentadas. 1983). 1984) e serpentes (Herckrotte.. Julho/2010 Pág. 1983). Outros estudos com lagartos mostraram que algumas espécies mudam seus displays defensivos com a temperatura ambiental (Hertz e col.. Mudanças no comportamento defensivo. 1983. com maior exposição da cabeça e com maiores tentativas de bote. 1982). Hertz e col. 1984. 1991) e serpentes (Herckrotte. Além dos efeitos sobre a locomoção de vertebrados ectotérmicos. Mori e Burghardt. têm sido reportadas em vertebrados ectotérmicos tão diversos como lagartos (Rand.. 2002). repelir ou escapar do predador. 245 .. pois a temperatura irá determinar a habilidade do animal para detectar. e col. 1982. (2000). 1982). 1991. 1967. 2002).. salamandras (Brodie Jr. anfíbios anuros (Gomes e col. 1994. induzidas pela temperatura.Metablismo O desempenho locomotor tem sido considerado um bom indicador quantitativo de adequação biológica (fitness) em estudos sobre influência da temperatura no desempenho comportamental de lagartos (Bennett 1980. a temperatura do corpo pode ser uma das mais importantes influências no comportamento anti-predador em vertebrados ectotérmicos. Keogh e DeSerto. Crowley e Pietruszka..1967. Crowley e Pietruszka.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 246 Julho/2010 .

de Fisiologia. 2007). A conservação de energia térmica nos mamíferos ocorre principalmente por vasoconstrição periférica e piloereção. “Ana” o quê? Carolina da Silveira Scarpellini Lab.. Os mecanismos de ganho. Como já mencionado no capítulo 1. a UCP1.). geralmente a Tc de ectotérmicos (peixes. ratos. 2002) e no tecido adiposo marrom de mamíferos placentários (humanos. Entretanto. 1998. anfíbios. 2005). os dependentes e os independentes de tremor da musculatura esquelética (Bícego e col. o tecido adiposo marrom é bastante vascularizado e apresenta alta densidade de mitocôndrias.com Conforme visto no capítulo anterior. podem ser subdividos em: conservação e produção de energia térmica. derivados da degradação dos triglicerídeos dos adipócitos.. a maioria das espécies endotérmicas – aves e mamíferos – praticamente não tem sua Tc alterada diante de uma ampla faixa de flutuação da Ta (Bícego e col. Este último. Como já discutido anteriormente. morcegos... Os mecanismos autonômicos podem ser divididos em duas grandes categorias: os de ganho e os de perda de energia térmica (Branco e col. A produção de energia térmica resultante do metabolismo basal constitui a conhecida “termogênese obrigatória”... 2005). praticamente toda a energia é liberada na forma de calor (Branco e col.. Os prótons retornam para a matriz mitocondrial através da enzima ATP sintase.. Os endotérmicos regulam a Tc por meio de mecanismos termorreguladores autonômicos além daqueles comportamentais já apresentados também pelos ectotérmicos. 2007).. Assim. resultando na formação de ATP. 247 . Branco e col. Nas mitocôndrias das células em geral. A produção de energia térmica independente de tremor pode ser originada no músculo esquelético de aves (Bicudo e col. répteis e alguns invertebrados) varia conforme a temperatura ambiente. 2005). como não há trabalho mecânico. também chamada Julho/2010 Pág. enquanto que os mecanismos de produção de energia térmica incluem aqueles resultantes do metabolismo basal.Metablismo Termorregulação em endotérmicos: febre e anapirexia. a oxidação dos substratos resulta em um gradiente de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz mitocondrial. por sua vez. Neste tecido os ácidos graxos. Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal UNESP/Jaboticabal carolinascarpellini@gmail. recém-nascidos e aclimatados ao frio (Mackowiak. é de especial importância para os animais de pequeno tamanho. O tremor consiste em movimentos involuntários da musculatura esquelética sem que haja alteração na posição do corpo. servem como substrato para oxidação na mitocôndria. localizado próximo às escápulas e aos rins. uma vez que todos os processos metabólicos de um organismo resultam na liberação de energia sob a forma de calor.

248 Julho/2010 . A seta contínua que atravessa a proteína desacopladora (termogenina) indica o caminho dos prótons durante a dissipação de energia térmica na termôgenese sem tremor (Modificado de Nelson e col. é encontrada na membrana interna das mitocôndrias e providencia uma via alternativa para o fluxo de prótons independente da ATP sintase. Os mecanismos comportamentais estão relacionados ao contato com superfícies mais quentes ou mais frias ou à adoção de posturas corporais que facilitem ou evitem a troca de energia térmica entre o animal e o ambiente.Representação do fluxo de prótons entre o espaço intermembrana e a matriz em uma mitocôndria. Um comportamento muito comum em ratos é espalhar saliva sobre os pêlos quando expostos a um ambiente quente. 1). A exposição da língua ao ar favorece a evaporação da água da saliva e contrui para a dissipação da energia térmica corpórea (Randall.. os mecanismos de perda de energia térmica são basicamente: vasodilatação periférica. ovelhas e aves). 2007). gatos. como visto também para ectotérmicos. A seta tracejada representa a via pela qual os íons atravessam a membrana interna durante a síntese de ATP. sudorese (único meio de perder energia quando a Ta é maior que a Tc e é extremamente importante para humanos.. o que promove uma perda evaporativa de energia térmica nesses animais (Bícego e col. A ofegação se dá pela inspiração do ar atmosférico através das vias aéreas e a expiração através da abertura oral. contribuindo para o aquecimento dos animais (Fig. logo grande parte da energia da oxidação dos ácidos graxos é dissipada como energia térmica. 2004). Por fim.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Termogenina. 1997). No sistema nervoso central (SNC) de vertebrados há uma região chave no controle dos mecanismos termorreguladores. principalmente autonômicos. Figura 1. denominada área pré- Pág. equinos e bovinos) e ofegação (importante para cães.

Quando o animal apresenta uma Tc considerada típica para sua espécie.harvard.Esquema de um corte sagital do encéfalo humano mostrando a localização da APO.jpg).. Para a manutenção da eutermia. Estados térmicos Os endotérmicos podem apresentar cinco estados térmicos: eutermia. quando nem os mecanismos de produção nem os de perda de energia térmica são Julho/2010 Pág. ocorre uma redução na perda e um aumento na produção de energia térmica com consequente manutenção da Tc (Matsuda e col. estimulam a perda e inibem a produção de energia térmica levando à manutenção da Tc. Ainda. Bícego e col. 2001). além de termointegradora. 1992. a APO contém neurônios sensíveis ao aumento de temperatura que. quando esses neurônios são inibidos pela queda nas temperaturas ambiente e/ou local. hipertermia. diz-se que ele está em eutermia. hipotermia. isto é. A APO situa-se na transição entre o diencéfalo e o telencéfalo (Fig. 1998. Figura 2. Quando a eutermia é mantida apenas por meio do metabolismo basal. 2007). Boulant. quando ativados pelos termorreceptores cutâneos e espinais ou pela alteração local da temperatura. o animal pode ou não empregar energia além daquela já consumida pelo metabolismo basal. segundo o modelo proposto por Hammel (1965) e modificado posteriormente por Boulant (2006). febre e anapirexia (Gordon.Metablismo óptica do hipotálamo anterior (APO). Por outro lado.med. 2) e é considerada termossensível (pois detecta as alterações térmicas locais). já que recebe informações térmicas de várias regiões do organismo por meio dos termorreceptores cutâneos e/ou espinais. (http://healthysleep.. 249 .edu/_i/198.

Essa redistribuição se dá pela redução da perfusão para os tecidos não vitais ou para aqueles que recebem mais sangue que o necessário considerando o metabolismo local. a energia extra é empregada para manter a eutermia. tontura. encontra-se entre 28 e 30ºC (Blatteis. a ZTN para humanos adultos nus. Figura 3. dor de cabeça. que são consequências de falhas do sistema termorregulador em manter a eutermia (Fig. consumo de O2. 3). VO2. Por exemplo. 250 Julho/2010 . na hipertermia severa.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ativados. Entretando. temperatura crítica superior. A hipertermia severa resulta em edema nos membros inferiores. · Na hipertermia moderada. a vasodilatação não compromete a oferta de sangue para outros tecidos porque há uma redistribuição do débito cardíaco. A linha contínua representa as variações da Tc em relação à Ta. ZTN é a faixa de Ta na qual não há gasto extra de energia para que a eutermia seja mantida. TCI. se a Ta aumenta ou reduz extremamente. 2005). resultando nos estados de hiper ou hipotermia. geralmente. TCS. nem mesmo a ativação dos mecanismos de perda ou de produção de energia térmica é suficiente para a manutenção da eutermia e a Tc acaba acompanhando tais alterações.. hipotermia e hipertermia. Tc: temperatura corporal. exaustão. Dessa forma. a Tc em eutermia para humanos é aproximadamente 37ºC (lembrando que esse valor muda ao longo de 24 horas) e. Assim.Esquema de três estados térmicos: eutermia. a vasodilatação pode ser tão intensa que conflita com os mecanismos de regulação da pressão arterial causando o chamado heat stroke. Já a hipotermia severa pode causar redução na velocidade de Pág. ou choque térmico. 1998). vômito e diarréia (Branco e col. Porém. A linha tracejada representa as ·variações de VO2 em relação à Ta. temperatura crítica inferior. diz-se que o animal está dentro da zona termoneutra (ZTN) ou zona de conforto térmico da sua espécie. respectivamente. quando a Ta ultrapassa pouco o limite crítico inferior ou superior da ZTN.

1998). pois é controlada por sinais encefálicos que ativam os mecanismos de ganho de energia térmica. nestes casos. amnésia. 1994). Deve ser lembrado que valores de Tc muito altos e por muito tempo não são benéficos. aves (D'Alecy e Kluger. enquanto em um ambiente com Ta alta.. 1991) e. Macari e col. O limiar da Tc a partir do qual a febre é considerada perigosa para a sobrevivência do indivíduo ainda é algo muito discutível entre os pesquisadores: alguns consideram 39ºC. 1976). pois podem causar desidratação. Bicego-Nahas e col. Para o desenvolvimento da febre em um ambiente com Ta baixa.1975. decréscimo da frequência respiratória. 2002). dentre outros prejuízos.. é necessária intensa produção de energia térmica além de redução na sua perda. anfíbios (Kluger. geralmente resultante do contato com agentes inflamatórios ou infecciosos. Veremos a seguir quais são essas situações e porque. mecanismos de ganho de energia térmica são ativados induzindo o aumento da Tc (Kluger. Maloney e Gray. convulsões. Na febre. porém devido a falhas no sistema termorregulador. Nesse contexto. Febre A febre. durante a anapirexia. por outro lado. Don e col.Metablismo condução dos impulsos nervosos culminando em comprometimento da coordenação motora. 1977.. lesões no encéfalo.. delírio. 2005). apenas uma diminuição da perda de energia térmica pode ser suficiente para elevar a Tc aos níveis febris. é um aumento regulado da Tc. chamados de pirogênios exógenos e tem sido descrita em todos os grupos de vertebrados: mamíferos (Kluger. enquanto outros afirmam que febres de até 41ºC não são perigosas para humanos (Branco e col. Steiner e Branco.. 1990. 2001. O aumento na produção de energia térmica. Note que os mecanismos ativados durante a febre são opostos àqueles ativados durante a hipertermia. A hipertermia. idosos e subnutridos. 2000) e peixes (Reynolds e col. podendo levar o indivíduo ao coma. a febre ou a anapirexia são mais benéficas ao organismo que a eutermia. mecanismos de perda de energia térmica são ativados reduzindo a Tc (Gordon. 1993. há situações em que é mais vantajoso para o organismo um aumento ou uma queda regulada da Tc do que a manutenção da eutermia. dentre outros. alucinação. é mais dependente da Ta: em uma Ta baixa a hipertermia dificilmente ocorrerá. 1991). 251 . diferentemente do que ocorre na hipertermia que também é um aumento da Tc. como mencionado anteriormente.. A resposta febril é uma reação complexa. O mesmo vale para os mecanismos ativados durante a anapirexia e a hipotermia. implica no aumento da taxa metabólica e isso pode representar um perigo extra para indivíduos com substratos metabólicos limitados como recémnascidos. Os outros estados térmicos (febre e anapirexia) referem-se a alterações reguladas da Tc. além de Julho/2010 Pág. em decorrência do desenvolvimento da febre. répteis (Hallman e col.

1998).. No caso da febre. Kluger e col. muitos estudos apontam o aumento da atividade do sistema imune (Fig. 4). 1991). Como em ectotérmicos a Tc é muito semelhante à Ta e a termorregulação se dá essencialmente por mecanismos comportamentais. como já abordado. desenvolvendo assim a chamada febre comportamental (Fig. quando os ectotérmicos infectados são colocados em um gradiente térmico que possibilite a “escolha” da Ta mais confortável. 5) e a queda na sobrevida dos agentes patogênicos como alguns dos benefícios do aumento regulado da Tc (Kluger. 1995. 1991. Dessa forma.. Pág.Esquema de um gradiente térmico. que por ser conservada ao longo de tantos anos. Kluger e col. Marnila e col. De fato. O animal é colocado no centro do aparato e pode direcionar-se para o local com temperatura mais confortável. 252 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” alguns invertebrados (Kluger. A ampla ocorrência da febre sugere que ela surgiu há muito tempo na escala filogenética e. 1998). uma forma de inferir a Tc dos animais é mensurar a Ta selecionada pelos animais. 1991. o animal desloca-se para o lado com Ta mais alta.. deve conferir benefícios aos organismos (Kluger. Figura 4. eles direcionam-se e permanecem no lado mais quente do gradiente.

diferentemente da hipotermia que ativa mecanismos de ganho de energia. os benefícios conferidos pela febre podem ser evidenciados (1) pelo aumento da sobrevida de animais infectados e febris (mamíferos . Em contrapartida. Após o contato do organismo com os pirogênios exógenos (geralmente microorganismos invasores).. IL-6 e endotelina-1) que desencadeiam febre independente da liberação de PGE2 (Zampronio e col. 253 . Por fim. Essa nomenclatura (anapirexia). Julho/2010 Pág.. 1994. segundo o “Glossário de termos para Fisiologia Térmica”.. lagartos. Os antipiréticos são definidos como aqueles agentes que reduzem a resposta febril. estes são fagocitados por células do sistema imune.. TNF-α. Anapirexia Anapirexia. 1997a. IL-6. mas não alteram a Tc no estado de eutermia (Branco e col. IFN-α) que atuam como pirogênios endógenos e induzem a síntese e a liberação de prostaglandina (PG). 1996). principalmente a PGE2 que atua na APO ativando os mecanismos de ganho e inibindo os de perda de energia térmica (Kluger. Matsuda e col.. é uma condição patológica na qual há um decréscimo regulado da Tc devido à ativação de mecanismos de perda de energia térmica. Blatteis e Sehic.Efeito da Tc sobre a fagocitose (Modificado de Wenisch e col.Metablismo Figura 5. 2005). peixes e grilos) em comparação àqueles infectados não febris e (2) pelo aumento da mortalidade de animais (lagartos e coelhos) infectados quando tratados com fármacos antipiréticos (Branco e col. Acredita-se que a febre seja gerada por um balanço entre a ação dos pirogênios e dos antipiréticos. 2005).b).. Fabricio e col. 1991. Os fagócitos produzem citocinas (IL-1ß. apesar de bem definida.inclusive humanos -. 1998). estudos demonstraram que em ratos há alguns pirogênios endógenos (MIP-1. 1992.

Gordon e Fogelson. 1992). Malvin e Wood. 1985. a forma usada para diminuir a Tc do paciente é a hipotermia forçada que também proporciona benefícios. 1997. acidentes vasculares encefálicos. 1995. alguns animais enfrentam condições de hipóxia (baixa pressão parcial de O2) ao longo da vida. um aumento na sobrevida de ratos. Todas essas respostas associadas à anapirexia conferem benefícios ao animal hipóxico. facilitando assim a recuperação do indivíduo. dentre outros (Bao e col. Kline e col. a queda da Tc pode ser evidenciada quando ectotérmicos hipóxicos são colocados em um gradiente de temperatura e selecionam regiões mais frias do que selecionariam em situações de normóxia (Hicks e Wood.. 1981. camundongos. ocorre atenuação da hiperventilação e do débito cardíaco causados pela hipóxia e inibição da termogênese. De modo semelhante ao que ocorre na febre comportamental. que é observada ao longo de toda a escala filogenética dos vertebrados e em organismos unicelulares. Então. como em casos de hemorragia. 1992. o que facilita a captação desse gás na superfície respiratória (Mortola e Gautier. Wood e Stabenau. mesmo que localizado e passageiro. pois diminuem respostas altamente custosas. 2001). 1995. anemia. Dessa forma. Sendo assim. Wood. 2001. traumatismos cranianos. isquemia. Steiner e Branco. Reissmann e col. Barros e col. 2002). No entanto. consequentemente. além de aumento na afinidade da hemoglobina pelo O2. que é o aumento da resposta metabólica do paciente Pág. 2000. 1997.. 2002).. ou anapirexia.. entretanto. 2001. isso vem sendo aplicado na clínica (Schwab e col. 2001). 254 Julho/2010 . Com todos esses benefícios associados à queda da Tc.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” ainda gera alguns conflitos quanto ao seu uso (Romanovsky 2004). De fato. respiratórias e/ou metabólicas. etc) ou por insuficiências cardíacas. Hicks e Wood. mas particularmente neste capítulo estas divergências não serão levadas em conta. como é o caso do Paramecium caudatum (Steiner e Branco. 1996. seria de se esperar que reduzir a Tc de um paciente em situações nas quais o O2 constitui um fator limitante.. 1985.. Malvin e Wood. O oxigênio (O2) é crucial para o metabolismo oxidativo e. Gordon. Durante a anapirexia. cirurgias cardíacas e traumas cranianos. Holzer e col. é evidente que um aporte adequado de O2 é essencial para a sobrevivência dos animais e que um déficit de O2. mas apresenta uma desvantagem em relação à anapireixa. 1991. altas atitudes. Gordon. como os animais sobrevivem a tais situações? Uma das respostas adaptativas mais conhecidas parece ser a queda regulada da Tc. 1998). contribuiria para minimizar os efeitos da hipóxia. Gautier. para a produção de energia na forma de ATP. 2004).. lagartos e até mesmo no Paramecium é observado quando tais organismos são expostos à hipóxia e têm suas Tcs reduzidas (Artru e Michenfelder. seja por exposição ambiental (tocas. 1997. envenenamento. contribuindo para uma depressão no metabolismo e facilitando a captação de O2 nos pulmões. 1995. pode causar prejuízos irreversíveis (López-Barneo e col. Wood.

Em suma. 2009). Apesar da vasta observação da anapirexia hipóxica nos vertebrados e no Paramecium caudatum e da sua importância clínica. nestes animais a queda da Tc não é induzida por uma diminuição da disponibilidade de oxigênio ambiental. Dentre estes estão a dopamina.. a serotonina. 255 . é importante ressaltar que os animais podem apresentar Tcs diferentes (febre e anapirexia) do estado de eutermia sem que isso represente um descontrole ou uma falha nos sistemas controladores. evidentemente. a anapirexia. 2009). 2002a.. Paro e col. levando à queda da Tc. a anapirexia parece ser resultado de um balanço entre agentes indutores e inibidores da queda da Tc. assim como acontece na febre. Ainda. 2002b). o óxido nítrico e os receptores opióides kappa atuando especificamente na APO induzindo a queda da Tc (Steiner e col.. estão envolvidos no retorno da Tc ao estado eutérmico após o término da hipóxia (Scarpellini e col.. ou seja. respectivamente. para a economia energética e para o aumento da sobrevivência dos animais frente a condições ambientais desfavoráveis (Carey e col. aumentando os níveis intracelulares de GMPc e AMPc. os mecanismos envolvidos nesta resposta ainda são pouco conhecidos e apenas nas últimas décadas alguns de seus mediadores/modularores foram descritos. 2005. na APO. mas parece ocorrer como parte de uma inibição coordenada de todas as variáveis fisiológicas contribuindo assim. E. Entretanto. contribuindo para um aumento da sua sobrevivência durante determinadas situações. serotonina. geralmente tais alterações na Tc conferem benefícios aos animais. tais como infecção e hipóxia. Por outro lado. Steiner e col. Julho/2010 Pág. devem ocorrer dentro de limites em que o animal não sofra com extremos das duas condições.. O modelo sugere que os agentes indutores da anapirexia (óxido nítrico. a adenosina e o monóxido de carbono (Barros e Branco. também na APO. (2002a) propuseram um modelo para a indução da anapirexia dependente dos sistemas intracelulares de segundos mensageiros. os receptores mi e delta. A hipóxia é o estímulo anapirético mais estudado. para serem benéficas. ocorre no desenvolvimento da febre (Steiner e col. induzindo uma menor produção de energia térmica e uma maior perda desta. os quais são altamente custosos e que não é desejável numa situação hipóxica (Gordon.Metablismo por meio da ativação dos mecanismos de ganho de energia térmica. É interessante ressaltar que a redução dos níveis de GMPc e AMPc. 2003).. que essas alterações. o efeito contrário ao que acontece na indução da anapirexia. Como pode ser notado.. 2001) parecem atuar em alguma outra região no SNC para induzir e inibir. GMP cíclico (GMPc) e AMP cíclico (AMPc). Deve ser lembrado. 2001). Gargaglioni e col. dopamina e talvez os agonistas endógenos dos receptores opióides kappa) atuem nos neurônios sensíveis ao aumento de temperatura da APO. mas uma queda regulada da temperatura corporal também é observada em animais que apresentam o fenômeno de depressão metabólica durante a dormência sazonal. 2000. Scarpellini e col.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 256 Julho/2010 .

A habilidade de deprimir a taxa metabólica de repouso é de ampla ocorrência nos animais e pode estar associada à dormência sazonal. peixes e caramujos. embaixo da camada de gelo que se forma nos lagos durante o inverno.. ou dissociada da dormência sazonal. que possibilitam. sobrevivam à escassez de água. sem acesso ao ar atmosférico. por meio de um sistema temporizador interno e da percepção de sinais ambientais cíclicos. Tartarugas sobrevivem longos períodos em anóxia. a depressão metabólica estende o tempo de sobrevivência dos organismos por reduzir a demanda de energia e a velocidade de utilização das reservas de substratos. Animais que apresentam dormência sazonal exibem uma série de ajustes comportamentais e metabólicos meses antes da fase desfavorável. tais como fotoperíodo. a taxa metabólica simplesmente não pode ser detectada. incluindo anuros. Seja em condições anóxicas ou na presença de oxigênio. A dormência sazonal é caracterizada pela presença de dois componentes principais: o jejum e a depressão metabólica. Na maioria dos casos. temperatura e umidade. mas com apenas algumas horas de duração. uma condição denominada criptobiose (Storey e Storey. dentre outros eventos. sono e anidrobiose. ou ótimas. como mencionado acima. como nos casos de estivação e hibernação. de ampla ocorrência nos animais e considerada um dos exemplos de flexibilidade fenotípica mais fascinantes. Beija-flores e alguns pequenos mamíferos apresentam torpor diário. Carey e col. A depressão metabólica é. a taxa metabólica é reduzida para 5–40% da taxa metabólica de repouso. para determinadas funções. A estivação possibilita que muitos animais. como no torpor diário. Ciclo Anual Julho/2010 Pág. 2003). mas alguns organismos como esporos e cistos sofrem depressão metabólica ainda maior e. em muitos casos. 257 . 2004.fisioib@usp. que está associado à fase do dia na qual a disponibilidade de alimento é reduzida.br Diversos animais desenvolveram a habilidade de ‘prever’ uma fase em que as condições ambientais tornam-se desfavoráveis. o armazenamento de substratos energéticos que serão utilizados para a produção de energia durante os meses de dormência. Já a hibernação geralmente está associada aos efeitos combinados de temperaturas reduzidas e escassez de alimento. portanto. um estado de hipometabolismo semelhante à hibernação.Metablismo Metabolismo energético em câmera lenta: mecanismos de depressão metabólica sazonal Lilian Cristina da Silveira Laboratório de Metabolismo e Energética lilian.

como na maioria dos casos de hibernação e estivação. Lesões cerebrais que produzem obesidade em ratos de laboratório também aumentam a massa corpórea em hibernantes. uma forma de estocagem vantajosa do ponto de vista energético uma vez que a oxidação de ácidos graxos fornece mais energia por grama de substrato que carboidratos. 2005). os animais iniciam uma série de ajustes comportamentais e fisiológicos que possibilitam. E uma diminuição da TMB já no meio do verão. Desta maneira. da taxa metabólica basal e da ingestão de alimentos estão ligeiramente dessincronizados. provavelmente por um mecanismo central. 2004). fornecendo um indício da robustez desta resposta sazonal. Esquilos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Antecipação Um dos aspectos mais característicos da dormência sazonal é a antecipação do fenômeno. Os eventos de deposição/mobilização de lipídios. dentre outras respostas. 258 Julho/2010 . estes ciclos parecem ser rigidamente controlados. o armazenamento de substratos. As alterações da adiposidade em animais hibernantes não são simplesmente resultado de aumento da ingestão alimentar e/ou diminuição da taxa metabólica. 2000. ou ambos. Meses antes do estresse ambiental. indicando uma possível insensibilidade à insulina nos adipócitos (Dark. 2005). 1974). A massa corpórea máxima é atingida no final do verão ou início do outono. Quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. que resultam em aumento/diminuição da massa adiposa. antes que a ingestão de alimentos diminua.. 2005). Tem sido proposto que este sinal é dado principalmente pela leptina. possibilita o ajuste da adiposidade do animal ao momento de seu ciclo anual de atividades. mas ciclos semelhantes de deposição/mobilização de lipídios ocorrem em ectotérmicos (Souza e col. mas principalmente de uma mudança programada do nível ideal de adiposidade (Dark. quando a secreção de insulina (hormônio lipogênico) também é máxima e os níveis de absorção de glicose são mínimos. possibilita um aumento da massa corpórea dado pelo acúmulo de gordura. seja na forma de alimento em suas tocas ou tornando-se obesos. por exemplo. dobram sua massa corpórea e triplicam a massa adiposa durante a fase de preparação para a dormência (Dark. A diminuição da ingestão alimentar ocorre bem antes que a massa corpórea atinja seu máximo. a energia é estocada principalmente na forma de lipídios. mas o ciclo anual de deposição de gordura persiste (Barnes e Mrosovsky. um hormônio peptídico amplamente conhecido por sua atuação no controle da adiposidade em mamíferos não hibernantes (Ahima e Flier. desta forma. Dark. Tais fenômenos são bem caracterizados em mamíferos. A leptina é produzida principalmente pelo TAB e sua concentração plasmática é normalmente correlacionada ao nível de Pág. que deve utilizar-se de um sinal proveniente do tecido adiposo branco (TAB) que informa a quantidade total de reservas e. 2005).

Niewiarowski e col. 2000). antes estudados somente em mamíferos.. acompanhadas por uma diminuição da temperatura corpórea. elevação da temperatura corpórea e diminuição da ingestão de alimentos. Em endotérmicos.. notoriamente um hormônio cujo efeito inclui aumento do gasto energético. Vários trabalhos fornecem evidências da existência de um peptídeo com função e estrutura semelhantes às da leptina em ectotérmicos (Johnson e col. Já em marmotas Marmota flaviventris. 2006). as concentrações plasmáticas de leptina são positivamente relacionadas com o aumento da massa adiposa e tamanho do adipócito. quando a quantidade de reservas lipídicas é máxima (Spanovich e col.. 2004). Neste caso. 2000. têm sido investigados em outros grupos. estes animais parecem ter desenvolvido um estado de resistência à leptina (Florant e col. a secreção de leptina. a temperatura corpórea cai a valores tão baixos quanto 0ºC e os animais ingressam em um estado de hipotermia voluntária. Neste animal.. os níveis circulantes de leptina são menores no outono. que apresenta dormência sazonal. Neste mesmo animal.. os efeitos e a estrutura da leptina. ou seja. parece estar dissociada da adiposidade durante a hibernação. enquanto que não hibernantes expostos a temperaturas Julho/2010 Pág. No morcego Myotis lucifugus. A administração diária de leptina durante 15 dias no lagarto Sceloporus undulatus resulta em efeitos similares aos observados em ratos. Entretanto. das frequências cardíaca e respiratória. embora a massa corpórea não tenha sofrido alterações significativas quando comparados ao grupo controle (Niewiarowski e col. 2000. 2001. os poucos estudos que investigam a ação da leptina em hibernantes tem sido contraditórios e sugerem a existência de diferentes padrões de secreção ao longo do ciclo sazonal. Paolucci e col. A entrada em hibernação é caracterizada por uma rápida e acentuada diminuição da taxa metabólica.. 2006)... Os níveis plasmáticos de leptina elevam-se antes do aumento da massa adiposa e diminuem à medida que a massa adiposa alcança seu máximo. a fim de se esquivarem do efeito anorexigênico da leptina e alcançarem a adiposidade necessária para sustentar a demanda de energia na dormência. Spanovich e col. 2000). 259 . durante a pré-hibernação. Este peptídeo de 16kDa age no hipotálamo diminuindo a ingestão alimentar e aumentando a lipólise (Ahima e Flier. 2000). assim como foi observado no morcego Myotis lucifugus (Kronfeld-schor e col. a relação usual entre o nível de adiposidade e a secreção de leptina não é observada.. permitindo a diminuição da taxa metabólica durante a fase de armazenamento e dormência (Kronfeld-schor e col. Recentemente. Dormência Quando o nível de adiposidade adequado é atingido e o animal está pronto para iniciar a fase de hibernação ele progressivamente diminui a atividade e procura seu abrigo onde permanecerá até a primavera. 2000).Metablismo adiposidade do animal.

Dado que a manutenção do gradiente de íons através das membranas é um processo dependente de energia. portanto. Durante a depressão metabólica. a taxa de filtração glomerular e a formação de urina são muito reduzidos ou cessam completamente durante o hipometabolismo. Pág. de maneira que poucas alterações são observadas na osmolaridade e na concentração de eletrólitos no plasma (Carey e col. que supre a atividade de enzimas como a Na+. em grande parte.. reforça a importância dos ajustes que ocorrem antes da fase de hibernação (Storey.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” entre 10 e 25°C tipicamente sofrem falência cardíaca (Driedzic e Gesser. 2004). 1994. bastaria encontrar um mecanismo para a ativação da expressão deste conjunto de genes para que a indução do hipometabolismo em não hibernantes se tornasse possível (Quadro 1). estes processos são retomados durante os despertares periódicos. o que sugere que os mecanismos celulares de resposta ao estresse são semelhantes em hibernantes e não hibernantes e. a uma temperatura corpórea muito menor e contra uma resistência periférica maior do que durante a fase ativa do animal (Fahlman e col. um maior consumo em relação à produção de ATP resulta em despolarização de membranas e em uma cascata de eventos que culminam na morte celular. Outros animais encontraram soluções diferentes para lidar com resíduos: formação de produtos finais voláteis. hibernantes durante a fase ativa são tão suscetíveis a estes efeitos quanto não hibernantes. o fluxo sanguíneo renal. Nos mamíferos. 2007). ao efeito assimétrico da temperatura nas taxas das reações. Durante toda fase de dormência o coração deve continuar a bombear sangue. 260 Julho/2010 . 2003). Com base neste pressuposto. alguns processos fisiológicos diminuem. muitas vezes. sugerem que o fenótipo hibernante não seria resultado da expressão de genes exclusivos de hibernantes. Ruf e Arnold. estocagem de lactato nas carapaças de tartarugas e acúmulo da uréia resultante do catabolismo de proteínas a fim de aumentar a resistência à dissecação durante a estivação (Storey e Storey. 2004. O efeito letal da hipotermia nas células de mamíferos não hibernantes deve-se. Storey. 2000).. Curiosamente. que resulta em um desacoplamento entre a produção e o consumo de energia. somada à constatação de que a habilidade de hibernar é amplamente observada nos mamíferos e pode ser considerada uma característica ancestral e uma propriedade básica da sua fisiologia. Pequenos mamíferos em torpor reduzem a freqüência cardíaca de 200-300 para 3-5 batimentos por minuto. Esta semelhança..K+-ATPase. enquanto outros são totalmente interrompidos. embora. mas sim da expressão diferenciada de genes comuns a todos os mamíferos (Heldmaier e col. 2004). Diferentemente da função cardíaca. 200).

. Dado o elevado custo dos processos de digestão. tiveram seu consumo de oxigênio diminuído em 90% seguido por uma queda da temperatura corpórea para 2 ºC acima da temperatura ambiente (~15 ºC). 1). a depressão metabólica é acompanhada por uma redução de 37% da massa do intestino médio. 2003). Em hibernantes clássicos como os esquilos. O trato gastrointestinal apresenta um intenso metabolismo. ajustes paralelos nos processos consumidores de energia. alguns endotérmicos e ectotérmicos. Na dormência sazonal de lagartos teiú jovens. 2007). assim como ocorre nas células dos hibernantes. Na depressão metabólica sazonal. observa-se uma pronunciada atrofia do intestino.Metablismo Quadro 1: Da ficção científica para a clínica médica: indução de depressão metabólica Mark B. de fato. Esta idéia ganhou novo fôlego em 2005. preservando a viabilidade celular.. 261 . Provavelmente. Os mecanismos moleculares que preservam a viabilidade dos órgãos em hibernantes a temperaturas próximas a 0º e em condições de restrição energética. um inibidor específico e reversível da enzima mitocondrial citocromo c oxidase (CCO). seguida por um aumento de três vezes da massa total do órgão após o despertar e a retomada da alimentação (Nascimento e col. 2005)... embora a capacidade funcional do órgão seja preservada. 2005) e o jejum prolongado envolve alterações na estrutura e função deste órgão. são de grande interesse para pesquisadores que buscam melhorar e estender o tempo de preservação de órgãos destinados a transplantes. o que traria imensos benefícios para a medicina em uma variedade de condições. Seattle A indução de um estado hipometabólico em humanos já foi considerada em diversas obras de ficção científica e. absorção e assimilação de alimentos (ação dinâmica específica). estes animais retomaram sua taxa metabólica e temperatura normais quando colocados novamente em contato com o ambiente (Blackstone e col. Lêmures de Madagascar podem hibernar a temperaturas corpóreas acima de 20ºC e o lagarto teiú hiberna a uma temperatura corpórea Julho/2010 Pág. 2003). a depressão metabólica é alcançada através do efeito termodinâmico das baixas temperaturas no inverno combinado à inibição ativa do metabolismo através de diversos mecanismos de regulação (Carey e col. acompanharam a inibição do metabolismo mitocondrial nestes camundongos. parece que a ciência está cada vez mais próxima de tornar esta idéia real. Após 6 h de exposição ao H2S. garantindo que o animal esteja apto a digerir e absorver nutrientes após o despertar (Carey e col. Roth Fred Hutchinson Cancer Research Center. apresentam depressão metabólica em temperaturas relativamente altas (Fig. atingindo cerca de 20-30% do metabolismo basal em mamíferos (Tracy e Diamond. quando o pesquisador Mark Roth divulgou que camundongos expostos a gás sulfídrico (H2S). a interrupção da alimentação também contribui de maneira significativa para a economia energética do animal. Por outro lado.

Hibernação interrompida por episódios de despertar e hibernação contínua Em pequenos mamíferos. Souza e col. 2004). 72% da energia consumida durante a hibernação é gasta nos despertares (17%) e durante os períodos de eutermia (57%) (Heldmaier e col. geralmente.. Na marmota. alguns anfíbios e répteis. a b Figura 1. há uma maior contribuição de mecanismos intrínsecos de inibição metabólica e um efeito menos significativo da temperatura (Heldmaier e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” de cerca de 17ºC. 262 Julho/2010 . Este padrão de hibernação interrompida por episódios de despertar consome substancialmente mais energia quando comparado à hibernação contínua. apresentando uma redução de cerca de 80% do metabolismo.. b) Primata lêmure Microcebus murinus...a) Lagarto teiú Tupinambis merianae. Knight e col. A importância biológica dos episódios de despertar ainda não é conhecida. 2000). interrompidas por despertares periódicos que. Pág. 2004. nos quais os animais acordam. apresentada por outros animais. 2002.. duram menos de 24 horas. elevam a temperatura corpórea para aproximadamente 37ºC e restabelecem todas as funções fisiológicas (Fig. mas tem sido sugerido que sejam importantes no reconhecimento de patógenos e iniciação de resposta imune além de reposição de RNAm e proteínas degradados durante o hipometabolismo (Prendergast e col. Nestes casos. a hibernação consiste de fases de torpor que duram de uma a três semanas. por exemplo. 2). 2004).

. (Modificado de Heldmaier e col. 2005). Quando o aminoácido modificado está localizado em uma região da proteína que é crítica para a sua estrutura tridimensional. 263 . quando os animais despertam da fase de dormência. o rápido reaquecimento durante o despertar (3).Metablismo Figura 2– Registro contínuo da taxa metabólica (TM) e da temperatura corpórea (Tc) na marmota (Marmota marmota). proteínas responsáveis pela transcrição gênica. com ventilações seguidas por períodos de apnéia que podem durar de alguns minutos a uma hora ou mais (à direita). Um mecanismo bastante conservado filogeneticamente e que parece ser responsável por grande parte dos ajustes na depressão metabólica é a fosforilação reversível. várias enzimas glicolíticas. evidenciando o hipometabolismo e hipotermia durante a entrada em hibernação (1). Na primavera. e a eutermia (4). como visto em capítulos anteriores. 2004). Neste momento.. as reservas remanescentes de carboidratos são utilizadas e algum grau de oxidação de proteínas faz-se necessário. A ventilação é reduzida em uníssono com a queda da taxa metabólica e assume um padrão episódico. possibilitando o rápido restabelecimento das funções metabólicas no despertar. 2003. essencial ao aumento de atividade metabólica dos tecidos dependentes de glicose (Carey e col. e na remoção desses grupos. Em diversas condições fisiológicas. que consiste na ligação de grupos fosfato a resíduos de aminoácidos específicos de uma proteína. síntese e Julho/2010 Pág. Souza e col. catalisada por proteínas quinases. ocorrem efeitos marcantes que modificam algumas de suas propriedades ou a sua interação com outras proteínas ou estruturas subcelulares. a elevação da temperatura corpórea envolve o aumento da produção de calor no tecido adiposo marrom através da oxidação de ácidos graxos e ciclagem fútil de elétrons através de proteínas desacopladoras (UCPs) da membrana mitocondrial interna. provendo aminoácidos para a síntese de glicose. Despertar O armazenamento de lipídios é crítico não somente para a sobrevivência do animal durante a fase de dormência.. a taxa metabólica eleva-se antes que a ingestão de alimentos seja restabelecida e ocorre uma diminuição da massa corpórea mesmo após o início da alimentação (Dark. Mecanismos de depressão metabólica: inibição dos processos que produzem e consomem energia nas células Fosforilação reversível Os mecanismos moleculares de depressão metabólica devem ser reversíveis. mas também para que o despertar seja bem sucedido. a manutenção do hipometabolismo durante a hibernação (2). catalisada por proteínas fosfatases. 2004). Em alguns mamíferos hibernantes. Ta representa temperatura ambiente. receptores e transportadores de membrana.

O primeiro relato do papel da fosforilação reversível nos ajustes ao hipometabolismo veio de estudos com moluscos marinhos. o que resulta em uma diminuição da porcentagem ativa da PDH e. Para ilustrar como esta regulação acontece. De uma maneira geral. no nível da expressão gênica. Observa-se. que exibe uma forte inibição em vários órgãos de todos os hibernantes já estudados. por regulação alostérica e/ou fosforilação reversível. Durante a fase de dormência. nos quais a fosforilação da piruvato quinase causou diminuição da atividade desta enzima e do fluxo pela via glicolítica (Storey e Storey. principalmente. carboidratos são o principal substrato para a produção de ATP. Este complexo enzimático. como mudanças no tipo de substrato energético preferencial e de catabólitos acumulados. da formação de acetilCoA a partir de piruvato. 2003). ratos submetidos a jejum apresentam maior expressão da PDK4 em diversos tecidos. o catabolismo de carboidratos é regulado no nível das enzimas glicogênio fosforilase. fosfofrutoquinase-I e II e piruvato quinase. um tecido dependente de glicose. Expressão Gênica A mudança do tipo de substrato preferencial é regulada.3). 264 Julho/2010 . Tais ajustes nas vias catabólicas são alcançados. 2004). é convertido em uma forma menos ativa quando sofre uma fosforilação catalisada pela enzima piruvato desidrogenase quinase (PDK) (Storey. tem sido demonstrado que o ponto de regulação mais importante é a piruvato-desidrogenase (PDH). já quando a oferta de O2 no ambiente não é limitante. como na maioria dos casos de hibernação e estivação. há uma tendência geral à inibição do catabolismo de carboidratos e maior contribuição dos ácidos graxos como combustível energético (Carey e col. além de ajustes específicos. em parte. entretanto. que a regulação destas enzimas durante o hipometabolismo ocorre de maneira mais sistemática durante a depressão metabólica anaeróbia. Em condições anóxicas. levando à supressão da oxidação de carboidratos em uma condição onde a Pág. Na depressão metabólica há uma inibição coordenada de processos que produzem e consomem energia nas células. vejamos o que acontece no coração de esquilos terrícolas durante a hibernação (Fig. 1990). Estes ajustes favorecem: a diminuição do uso de carboidratos. preservados para utilização pelo cérebro. Nos casos de depressão metabólica aeróbia. que atua convertendo o piruvato proveniente da glicólise a acetil-CoA e regula desta forma a entrada dos carboidratos na via de fosforilação oxidativa.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” degradação de proteínas e regulação do ciclo celular são reguladas por fosforilação reversível (Storey. há um aumento da expressão e síntese da isoforma 4 da PDK (PDK4). hexoquinase. 2004). Curiosamente. uma ênfase na utilização de ácidos graxos e a diminuição da taxa metabólica do animal. sugerindo que a resposta observada em animais hibernantes pode ser padrão em mamíferos. pela regulação de enzimas reguladoras de taxa de reação. consequentemente..

Assumindo que o equilíbrio redox e o balanço entre as concentrações de adenilatos (carga energética) não se alteram durante a transição do estado ativo para o estado dormente.. A quantidade de lipase pancreática. A diminuição da expressão da enzima acetil-CoA carboxilase. uma enzima envolvida na hidrólise de triglicerídeos e geralmente expressa no pâncreas. 2000). inibe a síntese e favorece a oxidação de ácidos graxos ao diminuir a formação de malonil-CoA. de Julho/2010 Pág. a inibição do fluxo de substratos através do Ciclo de Krebs seria dada por regulação da concentração de enzimas mitocondriais. um inibidor da enzima responsável pelo transporte de ácidos graxos para dentro da mitocôndria (carnitina palmitoil transferase – CPT). assim como da lípase hormônio sensível. Paralelamente.Metablismo oxidação de lipídios deve ser priorizada (Wu e col. no coração do hibernante. Confirmando esta idéia. 265 . A regulação da atividade de enzimas mitocondriais também desempenha importante papel na depressão das taxas do metabolismo oxidativo (Storey e Storey. que catalisa a formação de malonil-CoA a partir de acetil-CoA. 2002). 2004). como a citrato sintase. e /ou pela regulação de enzimas que suprem a via com os intermediários que constituem substratos em diferentes etapas de reação (Storey. há um aumento da expressão da lipase pancreática. Figura 3 – Modelo de regulação proposto para a mudança do tipo de substrato preferencial. primeiro passo da síntese de ácidos graxos. alterações na expressão de enzimas envolvidas na oxidação e síntese de ácidos graxos também foram observadas durante o hipometabolismo. também se encontra aumentada no tecido adiposo branco dos esquilos durante a hibernação o que favorece uma maior liberação de ácidos graxos no plasma (Van Breukelen e Martin. 2004).

a inibição da síntese protéica parece acontecer principalmente através da fosforilação reversível de proteínas da maquinaria de tradução e de alterações no estado de agregação dos polissomos. TG. dada a inibição da síntese de proteínas. As setas em vermelho indicam aumento ou diminuição na concentração ou atividade e o ajuste correspondente nas taxas de oxidação de AG e de carboidratos. linhas sólidas indicam a regulação predominante e as linhas pontilhadas indicam vias menos atuantes. As linhas com cabeça de seta indicam ativação e as linhas terminadas em elipse indicam inibição. Síntese e degradação de proteínas Outro processo que envolve alto custo energético e que constitui um alvo na depressão metabólica é a síntese protéica. diminui a formação de produtos nitrogenados e os custos de seu processamento. 266 Julho/2010 . lípase hormônio sensível (Modificado de Carey e col. 2004). os autores propuseram que a composição lipídica das membranas desempenha papel determinante na intensidade metabólica de uma espécie através de sua influência sobre a atividade destas enzimas. triglicerídeos. embora ainda sejam poucos os trabalhos que confirmam esta hipótese que é baseada em uma teoria intensamente debatida na literatura por Hulbert e col. Portanto. HSL. aumentando a meia vida destas moléculas. Em alguns moluscos e mamíferos hibernantes. 1997). Uma vez que a fração substancial do metabolismo está relacionada com a função de enzimas associadas às membranas de suas células. Paralelamente. A síntese protéica pode ser inibida como uma conseqüência da inibição da transcrição gênica através de uma diminuição dos níveis de RNAm ou diretamente através da fosforilação reversível de proteínas ribossomais e consequente inibição da maquinaria de tradução. estocagem e excreção (Storey e Storey. que funciona como fator de transcrição de genes envolvidos no metabolismo de lipídios.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” carboidratos para ácidos graxos. 2003). a quantidade de RNAm sofre pouca alteração nas células em depressão metabólica e esta aparente extensão da meia-vida do RNAm levou os autores a proporem o termo “RNAm latente”. Composição lipídica das membranas Estudos envolvendo comparações intra-específicas da composição lipídica de membrana sugerem que seria um importante alvo de regulação em estados de depressão metabólica. durante a hibernação em mamíferos. De Pág. (2000) na última década. ativado por ácidos graxos. o que além de contribuir para a economia energética. PPARα é um receptor nuclear.. a degradação também parece ser inibida durante o hipometabolismo. Foram indicados os efeitos da concentração plasmática de insulina e ácidos graxos (AG) na expressão gênica da isoforma 4 da enzima piruvato quinase desidrogenase (PDK4) e na oxidação de carboidratos e ácidos graxos no coração dos animais durante a atividade de outono e dormência de inverno. As atividades de síntese protéica e transcrição gênica utilizam 25%-30% e 1%-10% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown.

taxa metabólica massa específica maior que animais maiores (Hulbert e Else.. aparentemente envolvem um aumento do conteúdo de ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) que mantém a fluidez das membranas e preserva a função de proteínas de membrana em órgãos vitais (Gibbs. tanto passivo através de canais iônicos. 2007). alterações na composição da membrana mitocondrial interna do hepatopâncreas. foram sugeridas com base na redução de cerca de 80% do conteúdo de cardiolipina durante o estado hipometabólico e tais alterações estariam relacionadas à redução de proporções similares da atividade da CCO (Stuart e col. animais menores possuem membranas mais insaturadas e. Na marmota. ao contrário dos severos efeitos da hipotermia sobre a função cardíaca em mamíferos não hibernantes. quanto pelo transporte ativo. 1987). A fosforilação reversível e as alterações da composição lipídica das membranas têm sido sugeridas como os principais mecanismos que afetam a Julho/2010 Pág. dados não publicados). evidências sugerem que o ajuste não ocorre no ventrículo cardíaco de lagartos teiú. Em um caramujo terrestre estivante. próximos à região polar. para a depressão metabólica e sobrevivência dos animais durante a dormência (Carey e col. o que possibilita grande economia energética (Hochachka e Guppy. de forma significativa. um hibernante herbívoro. 1997) e a inibição deste processo contribui. embora a atividade da Na+. utiliza 19%-28% do ATP produzido nos tecidos de mamíferos no estado basal (Rolfe e Brown. consequentemente. Esquilos em torpor apresentam uma diminuição da porcentagem de ácidos graxos saturados (SFAs) e aumento de PUFAs nas membranas dos cardiomiócitos. 1998).K+-ATPase. Adicionalmente. há uma diminuição do movimento dos íons em ambas as direções.K+-ATPase ainda esteja diminuída em comparação com as taxas em animais ativos (Charnock e col. 267 . durante a depressão metabólica. Face à redução das taxas de produção de energia. Curiosamente.Metablismo maneira geral. A manutenção de gradientes iônicos adequados através das membranas é critica para a viabilidade celular e. Tais alterações estariam relacionadas ao controle dos níveis de Ca++ e à ausência de arritmia cardíaca durante a queda da temperatura corpórea e o torpor. além de outras diferenças na morfologia e função do órgão desses animais (Silveira.. Hulbert. alterações sutis em ácidos graxos específicos dos fosfolipídeos parecem desempenhar um papel importante na regulação metabólica durante a dormência sazonal. provavelmente em resposta à queda da temperatura corpórea. dissociadas de efeitos da temperatura. a inibição de processos celulares que a consomem é crucial para que um novo estado de equilíbrio seja alcançado. observando-se um aumento da razão entre os PUFAs n6 e n3 nos cardiomiócitos (Ruf e Arnold. 2008). provavelmente em virtude da dormência nestes animais ocorrer em temperaturas relativamente elevadas e à ausência de despertares periódicos durante o estado hipometabólico. 2003). A atividade da Na+. 2000. as adaptações à temperatura em peixes e outros ectotérmicos que vivem em ambientes frios.. 1980). 1998).

Adicionalmente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” atividade desta proteína. rins e fígado (Balaban e Bader. a inibição destes vários processos. cuja atividade é mais intensamente deprimida no estado dormente. Por exemplo. 268 Julho/2010 . Acredita-se que exista uma ‘hierarquia’ entre os processos consumidores de energia nas células de mamíferos.K+-ATPase no tecido cardíaco de esquilos mantém-se inalterada durante a hibernação. Pág. MacDonald e Storey. embora esteja significativamente reduzida no músculo esquelético. 1984. a atividade da Na+. o que evidencia a importância da manutenção do gradiente iônico através das membranas (Buttgereit e Brand. No conjunto. com a síntese de proteínas e RNA sendo mais sensíveis a variações no suprimento de energia do que no bombeamento de íons. possibilitando a sobrevivência dos animais durante a fase de dormência. o grau de inibição em diferentes órgãos e tecidos parece ser variável. resulta na diminuição do gasto energético e da velocidade de utilização das reservas de substratos endógenos. 1999). Considerações Finais A depressão metabólica não se manifesta com a mesma magnitude em todos os mecanismos e processos no interior das células ou em todos os órgãos e tecidos do animal. 1995).

1a). quando o alimento é abundante e o requerimento energético é baixo. os comportamentos relacionados à defesa territorial. Por outro lado. o organismo depende das fontes internas (tecido adiposo) e externas (estoques de alimentos) de nutrientes. Neste período em que o trato digestório está vazio. Assim. o processo reprodutivo também ocasiona alterações no metabolismo energético dos animais. 2004). Desta forma. os mecanismos fisiológicos tendem a favorecer aqueles processos que garantem apenas a sobrevivência do indivíduo. incluindo crescimento. termorregulação e reprodução (Fig. pois a reprodução é muito custosa energeticamente e pode ser retardada quando a sobrevivência do indivíduo está em risco (Scheneider. Essa habilidade para controlar a disponibilidade de energia interna e externa parece ser central para a ligação entre a reprodução e o balanço energético. anapirexia. 2004). a habilidade de armazenar quantidades significativas de energia no organismo e mecanismos que inibem o comportamento de ingestão devem ter permitido aos animais a realização de outras atividades que garantissem o sucesso reprodutivo (Scheneider. e permite que os animais priorizem suas opções comportamentais de acordo com as flutuações nas condições energéticas e reprodutivas (Scheneider. cópula e cuidado parental recebem uma alta prioridade. os processos fisiológicos que promovem os comportamentos de forrageamento. armazenamento e ingestão recebem prioridade (Fig. 2004).com Introdução Além dos processos fisiológicos e comportamentais apresentados até aqui (termorregulação.1b). 269 . Sendo assim. e a energia excedente é armazenada (Scheneider. quando a energia é escassa. sendo importante entender a ligação entre a fisiologia do balanço energético e o sucesso reprodutivo. manutenção. 2004). Como já discutido. Julho/2010 Pág. Durante a evolução dos animais. febre. mas a disponibilidade de alimento e a demanda energética flutuam na maioria dos habitats. corte. a energia é disponível para todos os processos necessários para sobrevivência do indivíduo e da população. hibernação e dormência). as células requerem um contínuo fornecimento de energia para biossíntese e metabolismo. Deste modo. e grande parte dos organismos cessa a alimentação quando iniciam os comportamentos que perpetuam a espécie.Metablismo Custos e benefícios da reprodução: papel dos lipídios Aline Dal’Olio Gomes Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos eniladal@gmail. os mecanismos que controlam o balanço energético são integrados com aqueles que controlam a reprodução.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

A
Alimento abundante

Crescimentoo

+

Baixa demanda energética

=

↑Energia

Manutenção Reprodução

B Alimento escasso

+

Alta demanda energética

=

Crescimento

↓Energia
Manutenção

Figura 1: Relação entre o balanço energético e a reprodução.

Custos da reprodução
Os processos envolvidos na reprodução que contribuem para o aumento da demanda energética incluem: esteroidogênese; desenvolvimento gonadal (vitelogênese e espermatogênese/espermiogênese); comportamentos reprodutivos (defesa de território, corte, acasalamento, migração) e cuidado parental. Deste modo, para que haja um sucesso reprodutivo, os animais precisam estar preparados fisiologicamente, e para isso é necessário que acumulem grande quantidade de reservas energéticas. Em geral, a reprodução é energeticamente custosa para ambos os sexos, mas a magnitude do gasto e sua relação com o sucesso reprodutivo diferem entre machos e fêmeas. Os machos alocam relativamente pouca energia para a produção de gametas e, então podem se reproduzir com sucesso com um investimento de energia menor, que é direcionado para corte e cópula. Em contraste, as fêmeas de muitas espécies apresentam altos custos na atividade reprodutiva independente da fecundidade (como migração, cuidado parental), e necessitam de uma reserva energética substancial antes de iniciar a atividade reprodutiva (Aubret e col., 2002). Diferentes padrões da relação entre a captação de reservas energéticas e a reprodução podem ser observados entre os vertebrados. Os peixes, principalmente migratórios como o salmão, não se alimentam durante a migração reprodutiva, assim toda a energia necessária para o desenvolvimento gonadal e para atividade de natação são provenientes das reservas energéticas obtidas anteriormente ao período reprodutivo (Lucas e Baras, 2001).

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Em espécies de anfíbios de zona temperada, que apresentam reprodução explosiva durante o verão, os animais devem acumular energia suficiente para sobreviver durante a dormência no inverno e ainda suportar as atividades reprodutivas ao despertar, como vocalização, defesa de território, corte e cópula (Wells, 2007). Os machos de Rana temporaria e Bufo bufo, geralmente não se alimentam ao longo de todo esse período reprodutivo (Jorgensen, 1992). Contudo, em espécies com períodos reprodutivos prolongados e relativamente baixa taxa de vocalização, pode ocorrer apenas uma diminuição da ingestão de alimentos, sendo o gasto energético suplementado através da alimentação (Wells, 2007). Adicionalmente, machos de Scinax mantêm a alimentação durante toda a estação reprodutiva, sugerindo o aumento do suporte energético para a vocalização (Carvalho e col., 2008). Algumas espécies aumentam a ingestão de alimentos durante o período de intenso cuidado parental, considerando que outras aumentam tanto a captação quanto o armazenamento em antecipação ao nascimento da prole (Wade e Schneider, 1992). Em muitas espécies de aves, a necessidade energética da nova prole requer aumento do forrageamento e da alimentação por ambos os pais em ordem deles produzirem um fornecimento suficiente do leite do papo (Schneider, 2004). Em mamíferos, a lactação e o comportamento termorregulatório do cuidado parental são energeticamente custosos às fêmeas. Assim, anteriormente ao nascimento da prole, as fêmeas de alguns mamíferos se alimentam muito e armazenam o excesso de nutrientes, que são posteriormente direcionados a alta demanda energética da lactação. Contrariamente a isso, algumas espécies apresentam uma pequena ingestão de alimentos ao longo da gravidez, enquanto os estoques de alimentos aumentam durante esta fase, para serem consumidos durante a lactação (Bronson, 1989). Há ainda espécies nas quais a ingestão de alimento e o armazenamento precedem a estação reprodutiva: elefantes marinhos e pinguins imperador apresentam um período de massiva alimentação que ocorre 3 meses antes do período de jejum, competição pela corte e reprodução (Anderson e Fedak, 1987; Groscolas, 1990).

Papel dos lipídios e ácidos graxos na reprodução
Durante o processo de vitelogênese, o fígado é estimulado pelo hormônio estradiol a sintetizar a vitelogenina, uma fosfoglicolipoproteína, que dentre seus diferentes componentes é formada por ácidos graxos que são mobilizados das reservas de lipídios (tecido adiposo, músculo e/ou fígado) e incorporporados nos oócitos por pinocitose (Fig. 2). Desta forma, a qualidade e a quantidade dos lipídios e também de ácidos graxos podem variar com o status reprodutivo.

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VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa”

Ovário

Estradiol

Lipídios Vitelogenina

Tec. adiposo

Fígado
Proteína

Músculo
Figura 2: Vitelogênese nos vertebrados.

Lipídios como fonte energética
De modo geral, para os vertebrados, os lipídios são a principal fonte de reserva energética, sendo geralmente armazenados no fígado, tecido adiposo e/ou músculos. O fígado, juntamente com o tecido adiposo, são órgãos de armazenamento que apresentam importante papel na reprodução (Sheridan, 1994). Além disso, o tecido adiposo serve como reserva energética durante a hibernação e estivação; e está também envolvido na vitelogênese de espécies ovíparas que produzem muitos ovos, e no desenvolvimento intrauterino de embriões (Jared e col., 1999). Deste modo, o acúmulo de lipídios nos diferentes tecidos é altamente dependente da qualidade nutricional, bem como da estação do ano e do status de desenvolvimento e reprodução (Sheridan, 1994), motivo pelo qual a concentração de lipídios armazenados se altera significativamente ao longo do tempo entre os indivíduos e populações, em resposta às necessidades energéticas (Meffe e Snelson, 1993; Moreira e col., 2002). Love (1980) discutiu o processo de mobilização lipídica durante o ciclo reprodutivo entre espécies de peixes estudadas até aquele momento. Em algumas, como por exemplo, Gadus morhua, ocorreu um aumento de lipídio hepático nas fases iniciais da vitelogênese seguido de uma redução nestes teores na fase que antecede a desova. Em outras, como Coreogonus clupeanorfis, conforme avança o período reprodutivo, declinam os teores de lipídio hepático e muscular. Trabalhos mais recentes mostraram que, em fêmeas, com a chegada da fase vitelogênica ocorreu a mobilização de lipídios hepático e muscular para as gônadas (Oreochromis niloticus, El-Sayed e col., 1984; Trisopterus lucus, Merayo, 1996). Ao contrário disso, em machos e fêmeas de Diplodus sargus ocorreu um aumento de lipídios

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em todos os órgãos de reserva analisados (fígado, músculo e gônadas) durante a fase reprodutiva (Pérez e col., 2007). Para os anfíbios, os corpos gordurosos parecem ter um papel muito importante na reprodução, variando com as alterações sazonais e os ciclos reprodutivos. No anuro Bufo arenarum, este tecido está relacionado ao aumento de massa ovariana (Penhos, 1953). O mesmo é observado para Rana sculenta, em que a variação do peso e a composição química dos corpos gordurosos estão relacionados com a atividade sexual (Roca e col., 1970), e para Rana cyanophlyctis, na qual foi encontrado uma diminuição do peso dos corpos gordurosos com o aumento dos ovários (Pancharatna e Saidapur, 1985). Nas fêmeas de uma espécie de cecília vivípara, Typhlonectes compressicauda, foi observado um aumento em todos os órgãos de reserva (tecido adiposo e fígado) no início da estação chuvosa, que parece estar relacionado com a vitelogênese e o preparo para a gravidez (Exbrayat, 1988). Contudo, os machos de Anuros e Gymnophiona mostram que os órgãos podem ser considerados como reserva polivalente, podendo ser utilizado em muitas circunstâncias (Exbrayat e Hraoui-Bloquet, 2006). Para os répteis, os corpos gordurosos também representam o principal estoque de lipídios (Scott e col., 1995, Sheridan, 1994), contudo, os lipídios do fígado contribuem para o crescimento folicular (Bonnet e col., 1994) e os lipídios do músculo podem ser usados quando as fontes energéticas do tecido adiposo são limitadas (Derickson, 1976). As fêmeas reprodutivas de serpentes viperinas Natrix maura, têm mais lipídios no fígado do que as fêmeas pós-reprodutvas (Fig. 3), suportando a importância deste órgão na produção de vitelogenina. Além disso, comparações feitas entre as cobras pré e pós-reprodutivas nessa mesma espécie, indicaram que os corpos gordurosos foram a principal fonte de lipídios para a reprodução em machos e fêmeas (Fig. 3). O padrão de variação de lipídios nos machos foi similar à disponibilidade de alimento, indicando que as serpentes aumentaram a atividade de forrageamento e as reservas lipídicas de acordo com a maior disponibilidade de presas. Contudo, de maio a junho, as reservas de lipídios diminuíram mesmo com o aumento de presas, o que sugere que durante este período a taxa de investimento energético foi alta devido à atividade reprodutiva (espermatogênese). Em contraste, os lipídios nas fêmeas não foram correlacionados com a disponibilidade alimentar, pois durante a vitelogênese as reservas de lipídios diminuíram mesmo com um aumento na disponibilidade de alimento. Durante este período, as fêmeas mobilizaram tanto os lipídios armazenados quanto os lipídios obtidos diretamente da dieta para a síntese de vitelogenina (Santos e Llorente, 2004).

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C. gordurosos Fígado Músculo Músculo

% de lipídios no tecido seco

Figura 3: Alocação de lipídios dos órgãos de reserva em machos e fêmeas pré e pós-reprodutivos (NRM e NRF, respectivamente) e machos e fêmeas reprodutivos (RM e RF, respectivamente) de serpentes viperinas Natriz maura (Modificadode Santos e Llorente, 2004).

Muitas medidas do metabolismo lipídico variam significativamente com a estação reprodutiva ativa dos lagartos tree (Urosaurus ornatus), especificamente a massa dos corpos gordurosos, o conteúdo de lipídios totais hepáticos, a atividade da enzima diacilglicerol aciltransferase (enzima responsável por ligar uma molécula de acetil-Coenzima A no diacilglicerol formando um triacilglicerol) no fígado e corpos gordurosos, e a concentração de ácidos graxos livres circulantes (Lacy e col., 2002). Estes resultados são consistentes com muitos dados existentes em que machos e fêmeas exibem ciclos de armazenamento e depleção de lipídios coincidente com os eventos reprodutivos, como a vitelogênese, gravidez, defesa territorial e corte (Castilla e col., 1992; Derickson, 1976). Como podemos observar o local e a forma de armazenamento, variam conforme a espécie estudada. Em geral, os lipídios são armazenados nos tecidos de reserva na forma de triacilgliceróis e as diferenças encontradas no local de armazenamento podem refletir a história de vida dos animais (Sheridan, 1988).

Ácidos graxos
Os lipídios, em sua maioria, são compostos por ácidos graxos (AG), que são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de 4 a 36 átomos de carbono. Em alguns, esta cadeia é totalmente saturada e em outros contém uma insaturação (monoinsaturado; MUFA) ou mais insaturações (polinsaturado; PUFA) (Nelson e Cox, 2005). De modo geral, os lipídios podem ser classificados em neutros (triacilgliceróis - TG) e polares (fosfolipídios FL). Sabe-se que 90% da composição dos triacilgliceróis, principal substrato energético,

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corresponde

aos

ácidos

graxos,

compostos

principalmente

por

saturados

e

monoinsaturados. Nos fosfolipídios, 70 a 80% da sua composição é de ácidos graxos e na sua maioria polinsaturados, formando a bicamada lipídica que é responsável pelo controle da fluidez das membranas biológicas (Bell e col., 1986). Os ácidos graxos polinsaturados participam de importantes funções biológicas, como crescimento, regulação da resposta imune e ainda as alterações fisiológicas dos animais frente a um estresse ambiental (Bell e cols., 1995). Adicionalmente, os PUFAs participam também dos processos reprodutivos dos vertebrados, influenciando na concentração de hormônios esteróides gonadais, vitelogênese, na manutenção da estrutura de membrana dos espermatozóides, na qualidade dos ovos, desova e sobrevivência larval (Izquierdo e col., 2001; Wathes e col. 2007). Contudo, a composição desses ácidos graxos pode variar muito em relação à dieta dos pais e às condições do ambiente. Desta forma, quando as dietas maternas são deficientes, a transferência de ácidos graxos para as gônadas se torna insuficiente para um desenvolvimento oocitário adequado, reduzindo a qualidade dos gametas e da progênie (Adams, 1999).

Ovíparos x Vivíparos
Os lipídios que compõem o vitelo são compostos principalmente por fosfolipídios e triacilgliceróis, e a sua proporção pode variar entre as espécies. Fêmeas de lagartos ovíparos possuem de 26 a 34% de lipídios no vitelo (Speake e Thompson, 2000). Proporções similares de lipídios (20%) são encontradas na composição da vitelogenina de peixes (Yaron e Sivan, 2006). Contudo, o vitelo de aves é composto por 40 a 65% de lipídios (Jones e col., 1998). A maioria dos fosfolipídios presentes no vitelo são ricos em PUFAs e suportam o crescimento tecidual dos embriões, enquanto os triacilgliceróis são utilizados como reserva energética para o desenvolvimento embrionário (Yaron e Sivan, 2006). O perfil de PUFAs do vitelo pode ser afetado pela composição da dieta materna, e também é dependente de fatores metabólicos, os quais diferem entre as espécies (Speake e Thompson, 2000). Os ovos colocados pelas espécies ovíparas devem conter todos os nutrientes requeridos para sustentar o desenvolvimento completo do embrião até a eclosão. Contudo, a evolução da viviparidade, apresentou a oportunidade para as mães reduzirem o investimento no ovo, como um abastecimento compensatório de nutrientes ao embrião via placenta durante a gestação. Sendo assim, os ovos de espécies ovíparas de aves, tartarugas e jacarés possuem altas proporções de triacilglicerol (80-86%) e apenas 9-12% de fosfolipídios. Contrariamente a isso, os ovos de espécies vivíparas possuem uma proporção de TG de 6570%, considerando que a proporção de fosfolipídos é de 18-23% (Speake e Thompson, 2000).

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Há uma clara distinção no perfil das classes de lipídios do vitelo entre espécies ovíparas e vivíparas. Esta reorganização do perfil de lipídios do vitelo contribui para uma redução no investimento materno de energia durante a maturação oocitária (Speake e Thompson, 2000). Espécies vivíparas possuem menos triacilgliceróis no vitelo que espécies ovíparas, pois a energia, presumivelmente na forma de ácidos graxos livres, pode ser provida para o embrião através da placenta durante o desenvolvimento, uma vez que todo o requerimento lipídico para espécies ovíparas deve estar contido no vitelo do ovo no tempo da ovulação (Thompson e Speake, 2006).

Fecundidade
A composição de ácidos graxos dos ovários é altamente afetada pelo conteúdo de ácidos graxos da dieta, o qual influencia significativamente a qualidade dos ovos. A porcentagem de PUFAs aumenta com o aumento desses AGs na dieta dos reprodutores (Izquierdo e col., 2001). Estudos realizados com uma espécie de peixe, Siganus guttatus, mostraram que a elevação do conteúdo lipídico na dieta dos reprodutores resultou em um aumento na fecundidade e eclosão das larvas (Duray e col., 1994). Altas porcentagens importantes de PUFAs (como ácido eicosapentanóico, EPA-C20:5n3 e ácido araquidônico, AA-C20:4n6) são encontradas também nos ovos de anuros e lagartos insetívoros, refletindo a importância da dieta dos reprodutores (Huang e col., 2003).

Fertilização
Dietas contendo concentrações de EPA e DHA (C22:6n3, ácido docosahexanóico) mostram uma correlação com a reprodução de algumas espécie de peixes (FernándezPalacios e col., 1997). A composição de ácidos graxos dos espermatozóides depende do conteúdo de AGs essenciais na dieta dos reprodutores de espécies de truta arco-íris (Watanabe e col., 1984) e seabass (Asturiano, 2001). É possível que a motilidade dos espermatozóides durante a fertilização seja afetada. Particularmente em salmonídeos, em que a criopreservação dos espermatozóides é utilizada, a composição de ácidos graxos nos espermatozóides pode ser um fator que determina a integridade da membrana após o descongelamento (Izquierdo e col., 2001). A alta porcentagem de DHA encontrada nos testículos de peixes é similar aos espermatozóides de humanos e, assim como nos mamíferos, a concentração de DHA em peixes pode ser positivamente correlacionada com a densidade, número de espermatozóides móveis e a motilidade (Jeong e col., 2002). O comportamento de membrana pode ser importante no controle da fusão dos espermatozóides com o óvulo (Bell e col., 1999).

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Contudo, há grande diferença entre aves e mamíferos com respeito à composição de AGs dos fosfolipídios dos espermatozóides. Os espermatozóides de mamíferos, como em peixes, são caracterizados por altas proporções de PUFAs da série n3, principalmente DHA, em aves, ao contrário, predomina os PUFAs da série n6. Essa diferença no perfil de AG parece representar uma adaptação à temperatura, já que as aves apresentam uma temperatura corpórea maior do que a de mamíferos (41°C/37°C). Além disso, os testículos dos mamíferos estão mantidos a uma temperatura mais baixa do que o resto do corpo, devido a externalização da cavidade testicular. Desta forma, os espermatozóides das aves devem se desenvolver e funcionar em um ambiente consideravelmente mais quente que o experimentado por mamíferos. O principal PUFA dos espermatozóides das aves, o C22:4n6, possui o mesmo comprimento de cadeia do DHA (C22:6n3), o principal PUFA dos espermatozóides de peixes e mamíferos, mas com 2 insaturações a menos. Essa diferença no grau de insaturação pode representar a manutenção de propriedades biofísicas das membranas dos espermatozóides nas diferentes temperaturas (Kelso e col., 1997).

Esteroidogênese
Os PUFAs são importantes também na síntese de eicosanóides (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos), podendo interferir na esteroidogênese gonadal em peixes (Izquierdo e col., 2001) e mamíferos (Wathes e col., 2007). O EPA é conhecido por ser o precursor das prostaglandinas (PG) da série III, considerando que o AA é o precursor das prostaglandinas da série II. In vitro, o AA estimula a produção de testosterona no testículo de goldfish através da conversão a PGE2. Ao contrário, o EPA e DHA bloqueiam a ação esteroidogênica do AA e PGE2 (Wade e col., 1994). Assim, o tempo de espermiação pode ser retardado e subsequentemente a taxa de fertilização reduzida pela depressão da esteroidogênese causada pela deficiência de AG. Adicionalmente, o AA pode regular a transcrição do gene que expressa a proteína Star, responsável pelo transporte do colesterol da membrana externa da mitocôndria para a interna, onde se localizam a maioria das enzimas envolvidas na esteroidogênese (Wang e col., 2000). Além disso, algumas PGs produzidas por fêmeas de golfish parecem estimular o comportamento sexual dos machos e sincronizar machos e fêmeas para a desova (Sorensen e col., 1988).

Desenvolvimento embrionário e larval
A comparação entreos ovos de animais marinhos e de água doce mostrou que o AA e a razão DHA/EPA nos fosfolipídios dos ovos são positivamente correlacionados com a simetria e a viabilidade dos ovos. Como já mencionado, estes ácidos graxos participam de

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um papel estrutural importante como componentes dos fosfolipídios das biomembranas e estão associados aos processos de fluidez. O tecido neural, especialmente dos olhos, pode formar relativamente grande proporção da massa corporal total de embriões e larvas, assim o requerimento de DHA nos estágios embrionários e larval pode ser crítico para a função do sistema neural e visual (Furuita e col., 2000). Estudos com mamíferos indicam que uma deficiência na dieta em DHA traz prejuízos para a visão. O ácido araquidônico (C20:4n6) é também um importante constituinte dos fosfolipídios de tecidos embrionários, principalmente cérebro, coração e fígado, devido a síntese de eicosanóides (Speake e Thompson, 2000). A necessidade do desenvolvimento dos tecidos para AA e DHA pode ser cumprida diretamente pela transferência destes ácidos graxos do vitelo, ou alternativamente, por sua síntese feita pelos embriões a partir de seus precursores (Speake e Thompson, 2000). Assim, os AGs podem ser oxidados para a produção de energia, mas o requerimento para síntese de fosfolipídios em tecidos em desenvolvimento são mais seletivos.

Conclusão
Como visto até agora, a estreita relação entre o balanço energético dos animais e os processos fisiológicos, nesse caso a reprodução, garante a sobrevivência dos indivíduos e a perpetuação da espécie. Contudo, alterações do habitat podem resultar em diminuição ou eliminação de muitos recursos alimentares para os animais, alterando assim, toda a composição de lipídios, e ácidos graxos, o que pode resultar em uma redução na qualidade dos gametas dos pais e da sua prole. Dentro do cenário global das mudanças ambientais ocasionadas por ações antrópicas, é fundamental que estudos de conservação sejam feitos, envolvendo a influência do balanço energético nos processos fisiológicos, principalmente no funcionamento do sistema reprodutivo, para garantir a sobrevivência das espécies.

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A ecofisiologia no cenário das mudanças climáticas globais
Lye Otani Laboratório de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva lye@usp.br

Relações energéticas no contexto ecológico
O orçamento energético dos animais e suas diversas relações com o ambiente são muito utilizados como base de teorias ecológicas que visam explicar a diversidade da história evolutiva observada nos vertebrados (McNab, 1992). O orçamento energético de um animal é constituído basicamente dos processos e mecanismos de obtenção e dispêndio, os quais são influenciados e regulados por diversos fatores. A obtenção de energia nos animais ocorre através da ingestão, digestão, assimilação e metabolização do alimento (Nagy e Negus, 1993; Robbins, 1993; Speakman, 2000). Apesar do processo ser aparentemente simples, a obtenção de energia para manutenção do equilíbrio energético é limitado por fatores intrínsecos e extrínsecos ao animal (Fig. 1). No ambiente natural, os animais devem lidar
Figura 1. Ilustração da aquisição e gasto de energia. O modelo mostra alguns gargalos de que energia limitam e a assimilação alguns

primeiramente

com

a

sazonalidade

e

disponibilidade do alimento, além disso, sua qualidade também influenciará na quantidade de energia disponível para ser assimilada. Essa assimilação de energia, por sua vez, é controlada por uma série de limites intrínsecos do animal (Castle e Wunder, 1995; Toloza e col., 1991; Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002;

processos que demandam um maior gasto energético (Modificado de Weiner, 1992).

Karasov e col., 2004). A cada passo dentro do processo de alimentação, desde a manipulação do alimento até o processo de excreção existem uma série de gargalos onde ocorre uma perda de energia (Speakman, 2000; Bacigalupe e Bozinovic, 2002; Speakman e Król, 2005). Esses gargalos são importantes uma vez que estão diretamente ligados à ecologia animal, influenciando na taxa alimentar, no tempo de forrageamento e nas diversas

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atividades envolvidas com o dispêndio de energia, que são importantes para estabelecer o papel do animal no ecossistema (Karasov, 1990). Os processos e mecanismos relacionados ao despêndio de energia são importantes na determinação da sobrevivência e sucesso reprodutivo dos animais dentro do seu contexto ecológico. Como visto nos capítulos anteriores, as diversas atividades que contribuem para o gasto energético (e.g. reprodução, termorregulação, forrageamento, locomoção, estresse, produção de tecidos, entre outros) estão extremamente ligados aos diversos fatores ambientais, tanto bióticos como abióticos que compõe o ecossistema ao qual o animal está inserido (Weiner, 1992, McNab, 1992). Toda essa cadeia de relações envolvidas no orçamento energético animal determina o potencial dos diferentes grupos sistemáticos para produzir ajustes comportamentais, morfológicos e/ou fisiológicos para a manutenção do seu equilíbrio energético, ao longo de gradientes ecológicos espaciais e temporais. Assim, a diversidade e os padrões de distribuição dos diversos táxons de animais estão relacionados com esse potencial de ajuste, no entanto, qualquer alteração dentro dessa grande cadeia pode mudar drasticamente esse cenário (Bennett, 1987; Feder, 1987; Spicer e Gaston, 1999). De fato, constantes mudanças ambientais, sejam naturais ou causadas pelo homem, afetam as relações energéticas do ecossistema, possibilitando a evolução e extinção das espécies.

Extinções e perda da biodiversidade no mundo atual
O ambiente está em constante alteração desde o surgimento do planeta. Essas alterações, como visto anteriormente, afetam o balanço energético dos seres vivos levando a uma série de processos evolutivos que moldam a distribuição e os padrões das inúmeras espécies (Hughes e col., 1997; Crowley e col., 1988; Myers e Knoll, 2001). Juntamente com esses ciclos evolutivos são observados processos naturais de extinção, tais processos foram registrados em diversas épocas ao longo da história do planeta (Fig. 2). No entanto, com o surgimento do ser humano há 100 mil anos, e principalmente com a Revolução Industrial, o consumo e o desperdício dos recursos naturais tem levado espécies e comunidades inteiras ao ponto de extinção (Williams e Fraústo da Silva, 2005). Assim, além das variações ambientais naturais, os seres vivos agora têm que lidar com as alterações ambientais causadas pelas atividades humanas (Carey, 2005). Uma das alterações mais antiga e mundialmente problemática causada pelo homem é a perda e a subseqüente fragmentação de hábitats (Miller e Cale, 2000; Primack e Rodriques, 2001). Como resultado do desmatamento, a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos acarretam em alterações nas comunidades biológicas de maneira complexa, englobando diversos fatores concomitantemente (Fahring

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. Tocher e col.. Vitousek e col. parasitismo (Dukes e Mooney. Rodrigues. Essa capacidade de tolerância se deve a fisiologia e a capacidade para manter o balanço energético e o equilíbrio interno (homeostase) face às novas condições (Calow. Navas e Otani. 2005).. incluindo as matrizes devastadas entre eles (Laurance e Yensen 1991... Bierregaard e col. as diferenças fisiológicas e sua plasticidade observada entre as espécies animais nos possibilita entender e prever quais serão os organismo mais afetados e quais serão os beneficiados com esse novo ambiente. 1997). Carey. 281 . além do surgimento e dispersão de novas patologias estão intimamente relacionadas com os limites fisiológicos dessas novas espécies em adaptar-se às condições ambientais criadas pelo ser humano. Drinnan. 1998. A dispersão e a invasão de diversas espécies exóticas de animais e plantas em todo o planeta. 1997. umidade e vento. Primack e Rodrigues. 2005). 2005). 1989. redução da diversidade genética. uma vez que há a instalação de espécies invasoras e as comunidades nativas estão mais vulneráveis (Daszak e col. são exemplos de fatores nos possibilitam entender como os efeitos da fragmentação atuam sobre essas populações (Pearman. 2001). Kolar e Lodge. 1994. Julho/2010 Pág. por exemplo: competição. Como conseqüência da instalação dessas espécies invasoras no novo ecossistema..Metablismo e Merriam. 1996. temperatura. Zachariassen e col. 1996). 2001.. Daszak e col. as espécies que conseguem se estabelecer nesse novo ambiente devem ser capazes de responder rapidamente a essas alterações de hábitats. 1999). 2007). Sob a óptica da fisiologia comparada e abordando as relações energéticas. 1996. evidenciadas pelo efeito de borda (Kapos. a fragmentação modifica as condições de luz. influenciando diretamente os microhábitats. predação. Galindo-Leal e Câmara. 1994. 2000. o uso do hábitat e a habilidade de interagir com as mudanças em seu ambiente.. o que as tornam mais susceptíveis à depressão endogâmica. Desse modo. A habilidade de se deslocar e os seus padrões de deslocamento.. Gascon e col. 1991. A proliferação de patologias e/ou surgimento de novas doenças é uma das principais conseqüências das ações conjuntas das diversas alterações ambientais. e a outros problemas associados com o isolamento e o tamanho populacional (Fahring e Merriam. 1992. 1991. juntamente com a ecologia. 1999. A principal consequência da fragmentação ambiental é a redução da dispersão das populações. Zuidema e col. Além da redução populacional. podemos observar um desequilíbrio nas relações ecológicas através das alterações no hábitat e o surgimento de novas interações ecológicas que antes não eram observadas. 2001. Zuidema e col.

a incidência de luz e a concentração de gases (Primack e Rodrigues. como por exemplo. Pág. as quais modificam outras características da água. No ar. os poluentes podem promover a formação de ácidos. sendo prejudicial a saúde pública e ambiental.Panorama geral das extinções em massa ao longo da história geológica de nosso planeta (Modificado de Otani e Patrício. é resultante da liberação de produtos químicos tóxicos e esgotos urbanos. por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2 . Tais poluentes comprometem fontes de alimento e água potável. por sua vez. 2001). Esses poluentes podem contaminar a água o solo e o ar. A vulnerabilidade das comunidades e o crescente surgimento de novas patologias evidenciam o desequilíbrio energético do ecossistema. além de desencadear um desequilíbrio neste ecossistema. essenciais para qualquer organismo vivo. 282 Julho/2010 . Essa vulnerabilidade dos ecossistemas. 2010). A poluição da água. também pode ser potencializada pela introdução de poluentes resultantes das diversas atividades antrópicas. Alguns desses compostos propiciam a proliferação de determinadas espécies.

No Brasil. 1990. 1995. a produção de lixo por ano chega a cerca de 90 milhões de toneladas (IBGE. bem como a viabilidade das populações em um determinado ambiente. France e Collins.. 2007 – AR4). Sampaio e col. 1992. também. 283 . podemos observar um aumento da precipitação nas regiões sudeste e centro-oeste do Brasil e o aumento do nível relativo do mar. 2002). Como conseqüências dessas ações. fica evidente que a fisiologia comparada tem um papel fundamental dentro da Biologia da Conservação. a biologia da conservação propõe complementar as diversas disciplinas aplicadas e entender os efeitos da atividade Julho/2010 Pág. 2008). da ordem de 4 mm nos últimos 50 anos (Marengo. por conseguinte. das queimadas (Sampaio e col. Wells. Entre os anos de 1970 a 2004 houve um aumento na emissão anual de CO2 de aproximadamente 80%. 1988). favorecendo. 1989. Mackenzie e El-Ashry. 2007. Diante desse cenário. Angilletta e col. Mangum e Hochachka. alteram o pH do solo e de corpos d’água. através do conhecimento sobre a história natural das espécies. Buckeridge. 2001. aquelas espécies capazes de se adaptar às novas condições (Bazzaz e Fajer. 2008). atingindo 38 gigatoneladas em 2004 (IPCC. 2008). 2007. Essa reestruturação radical dos biomas terá conseqüências dramáticas nas comunidades biológicas. é a melhor maneira de proteger e manejar as comunidades biológicas (Gilpin e Soulé. e de suas relações com as pressões de seleção torna-se essencial para se compreender os padrões atuais de distribuição da diversidade animal (Pough. Tais conseqüências já podem ser observadas em algumas espécies de corais que necessitam de uma determinada luminosidade. De natureza multidisciplinar. 2009). reduzindo e até dizimando populações de animais (Beebee e col. 2005). ao estabelecer os limites ambientais que garantem o equilíbrio energético dos indivíduos. Tal equilíbrio é. 2008). A análise integrada da variação fisiológica. 2008).Metablismo que por sua vez.. Fisiologia comparada e a conservação biológica Entender as relações biológicas com o ambiente. É valido ressaltar que essas alterações não afetarão apenas os organismos terrestres. Além de alterações na temperatura. e a principal fonte de CO2 é proveniente das mudanças no uso do solo e da terra e. em diferentes níveis de abordagem. observamos a elevação de 0. temperatura e correntes de água (Carey.75% da temperatura média no Brasil (Marengo. comunidades marinhas são afetadas pela alteração da temperatura e da elevação do nível do mar.. mais uma vez.. 1993) e plantas (Hinrichsen.. Blaustein e Wake. podendo ser extintas. 1987. indispensável para a eficiência reprodutiva das espécies. Sampaio e col. É provável que as espécies de distribuição mais restrita e de pouca habilidade de dispersão sejam mais afetadas por essas mudanças. 1998.. 1986). As respostas climáticas frente à degradação ambiental podem acarretar em alterações e redistribuição dos grandes biomas brasileiros (Sampaio e col.

como por exemplo: a biotelemetria. Zachariassen e col. 2006). além de servirem como base de planos de manejo e acompanhamento dos resultados provenientes desses procedimentos (Wikelski e Cooke. Os índices de condição corpórea também podem fornecer importantes informações sobre o estado nutricional e o equilíbrio energético das mais diversas espécies de animais e são facilmente obtidos a partir de vários métodos..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” humana nas espécies. 2000). 2001). 2005. 1991. Carey. Os padrões e processos do ecossistema podem ser influenciados. Diante da introdução dos poluentes. se possível. 1995). assunto que será abordado mais especificamente em capítulos posteriores. Em peixes foi observado que pesticidas podem Pág. Diversas técnicas para avaliar o equilíbrio energético dos animais podem ser utilizadas em laboratório e em campo. 2006. os princípios. somos capazes de entender como as modificações do ambiente relatadas anteriormente podem afetar os diversos aspectos da fisiologia metabólica dos animais (Calow. O estudo do balanço energético provido pela fisiologia comparativa nos possibilita estabelecer relações de causa-e-efeito entre os agentes estressores e as respostas obtidas nos diversos níveis de organização biológica (Clements. comunidades e ecossistemas. 2005. 2002. 2007). temperatura corpórea. detectando alterações comportamentais e fisiológicas (freqüência cardíaca. e os mecanismos por traz desses padrões podem ser entendidos através de estudos da fisiologia comparativa (Carey. 1999. a fisiologia comparada nos possibilita detectar o nível de estresse enfrentado pelos organismos e diagnosticar o nível de alteração ambiental. a quantificação de produção de CO2 através de isótopos (Speakman. mesmo que indiretamente. 1999. pelas ligações energéticas entre o individuo e o ecossistema (Parmelee. 1997.. Costa e Gales. 1998. 2000. reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional (Primack e Rodrigues. Carlisle. além das técnicas de respirometria já abordadas no capítulo 2 desta unidade. DeAngelis. Wikelski e Cooke. Beyers e col. Através desses métodos apresentados pela fisiologia comparativa. Wikelski e Cooke. Navas e Otani. 2006). batimento caudal. Hopkins e col. taxa opercular. além de desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e. 284 Julho/2010 . Zachariassen e col.. Dentro desta perspectiva. A fisiologia da conservação tem sido amplamente explorada dentro do cenário da ecotoxicologia. inclusive métodos não-invasivos (Stevenson e Woods.... 2006). 1991. da asa ou de outros apêndices) em tempo real. A aptidão de sobrevivência e reprodução dos diversos organismos vivos estão relacionados à variação ambiental. 1995. Nagy e col. Carey. conceitos e métodos utilizados na área da fisiologia são de extrema importância para o entendimento dos declínios populacionais e para a conservação ambiental (Koeman. Barbieri e col. 2005). 2003). A grande maioria dos trabalhos nesta área é realizada com organismos aquáticos e será discutida com mais profundidade na Unidade de Ecotoxicologia. 19991. 19991.

1999. é valido ressaltar que os poluentes não são os únicos fatores que afetam o equilíbrio energético dos animais. Rowe e col. 2004). 2005. os dados da fisiologia comparada também são muito importantes para a construção de modelos que propõem prever futuras distribuições geográficas das espécies juntamente com simulações de mudanças climáticas e ambientais. Em suma.. por exemplo. Rowe e col.. Wikelski e Cooke. Uma vez que há uma alteração nessa equação de obtenção e consumo de energia. 2007). Dentro do panorama da diminuição da fragmentação e redução do hábitat. 1998). Zuidema e col. de planos para monitoramento dos ambientes alterados (Carey... 2001). a maioria dos trabalhos ligando a fisiologia da conservação com a energética estão relacionados aos efeitos dos pesticidas (Calow. 1998.Metablismo afetar a homeostase dos animais levando a alterações de comportamento alimentar. Poluentes também têm sido relacionados a mudanças na demanda energética e associados ao declínio das populações de anfíbios (Carey e Bryant. Tais características fisiológicas podem atuar na seleção natural dentro do contexto da fragmentação ambiental. 2006). 2007). Costa e Sinervo. Calow. possibilitando o desenvolvimento de planos de manejos apropriados para cada táxon e. 2005.. 1995. 2004). mais a longo prazo. O aumento de extinções localizadas ligados a diminuição do tamanho do hábitat e o aumento do isolamento dos organismos também podem estar relacionados com as relações energéticas dos animais (Fahring e Merriam. 1998. a fisiologia comparativa nos propicia entender como o desempenho locomotor pode estar relacionado com a capacidade de dispersão (Navas e Otani. Rowe e col. Além disso. Apesar da grande importância do equilíbrio energético para a conservação. 2006). Somero. metabolismo de repouso e regeneração de tecidos (Beyers e col. Porém. 2003. esses mecanismos podem acarretar em conseqüências graves para a aptidão dos indivíduos e também na viabilidade das populações (Navas e Otani. Drinnan. 285 . capacidade natatória. 1991. Neckel-Oliveira e Gascon.. 1991.. 2000. Através desses dados. 1994. podemos detectar quais os principais organismos mais vulneráveis para cada fator estressor (Mangum e Hochachka. 1996. 2002). Barbieri e col. podemos concluir que os estudos provenientes da fisiologia da conservação nos possibilitam entender o modo como as alterações ambientais causadas pelo homem podem afetar as diferentes espécies. 2007) ou até entender como alterações hormonais causadas por essas mudanças podem prejudicar o ciclo reprodutivo (Suorsa e col. taxa de crescimento. determinando a estrutura das comunidades presentes em cada fragmento (Navas e Otani. Julho/2010 Pág.

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interagindo multidirecionalmente para garantir a homeostase do organismo. estão. em invertebrados (Unidade 7). que causam efeitos direta ou indiretamente em células alvos. Neste capítulo. focando não apenas nos fatores ambientais naturais. visto que. Os sistemas biológicos: nervoso. . em especial a neuroendocrinologia.Unidade 5 Neuroendocrinologia comparada Renato Massaaki Honji Lab. a neurociência ou neurobiologia refere-se a todos os estudos ligados ao sistema nervoso. como por exemplo: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G).br O que é neurociência ou neurobiologia? E endocrinologia? E neuroendocrinologia? Como visto na Unidade 3. Adicionalmente. Neste contexto. mas também nos efeitos dos compostos orgânicos de origem antrópica (disruptores endócrinos). endócrino e imune. Em relação à neuroendocrinologia. agem em conjunto para integrar as informações ambientais com a fisiologia e ecologia (endocrinologia ambiental). distantes do seu centro de origem. vários eixos biológicos são identificados e pesquisados na área de neuroendocrinologia. a importância dos estudos em fisiologia comparada. destacando-se as principais vias de comunicação entre os diferentes eixos biológicos e entre os diferentes grupos de vertebrados. vários organismos apresentam substâncias secretadas por células. Esses compostos químicos (poluentes) que podem interagir com o sistema endócrino serão discutidos na Unidade 6. fisiológica e anatomicamente interligados. veremos. ciência que pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. Desta forma. o hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) e o eixo imune-pineal. ao longo deste capítulo. uma breve descrição sobre o conceito de endocrinologia será abordada. apresentando principalmente a endocrinologia comparada em vertebrados. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. será intensamente discutida neste capítulo. os sistemas nervosos e endócrinos.

323 pág. 305 Pág. 301 Capítulo 26 Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 27 Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. Eduardo Koji Tamura e Sanseray Cruz-Machado Bibliografia pág. 300 Julho/2010 . 337 pág. 348 pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Lista de abreviações pág. Renata Guimarães Moreira Capítulo 28 Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Revisado por Dr. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Revisado pelar Dra.

301 .5 diiodotirosina FSH – hormônio folículo estimulante GABA – ácido gama-aminobutílico GH – hormônio de crescimento ou hormônio somatotrópico GHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento Gln – glutamina Glu – ácido glutâmico Gly – glisina GnIH – hormônio inibidor de gonadotropinas GnRH – hormônio liberador de gonadotropinas gpGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de guinea pig Gpr54 – receptor acoplado à proteína G (54) GtHs – gonadotropinas H-H – hipotálamo-hipófise H-H-A – hipotálamo-hipófise-adrenal H-H-G – hipotálamo-hipófise-gônadas H-H-T – hipotálamo-hipófise-tireóide HIOMT – enzima hidroxiindol-O-metiltransferase Julho/2010 Pág.Neuroendocrinologia Comparada Lista de abreviações AA-NAT – enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase Ach – acetilcolina ACTH – hormônio adrenocorticotrópico ADH – hormônio antidiurético AH – adeno-hipófise Ala – alanina ARC – núcleo arqueado Arg – arginina Asn – asparagina Asp – ácido aspártico AVT – arginina vasotocina cfGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de catfish cGnRH-II – hormônio liberador de gonadotropinas de chicken-II CRH – hormônio liberador de corticotropina CRH-like – similar ao hormônio liberador de corticotropina Cys – cisteína DA – dopamina DIT – 3.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” His – histidina IGF – fator de crescimento insulínico IL– interleucina Ile – isoleucina IST – isotocina kiss1/GPR54 – kisspeptina/receptor acoplado à proteína G (54) Leu – leucina LH – hormônio luteinizante LPH – lipotropinas LPS – lipopolissacarideos Lys – lisina MCH – hormônio concentrador de melanina ME – eminência média Met – metionina mGHRH – hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos mGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de mamíferos MIS – hormônio indutor da maturação final e ovulação MSH – hormônio melanotrópico MST – mesotocina NH – neuro-hipófise NO – óxido nítrico NSQ – núcleo supraquiasmático OC – quiasma óptico PD – pars distalis Phe – fenilalanina PI – pars intermedia PIF – fator inibidor da prolactina pjGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de peixe rei PN – pars nervosa POA – area pré-óptica POMC – proopiomelanocortina PPD – proximal pars distalis PRF – fator liberador de prolactina PRL – prolactina Pro – prolina PT – pars tuberalis PVN – núcleo paraventricular Pág. 302 Julho/2010 .

303 .Neuroendocrinologia Comparada RHs – hormônios liberadores RIHs – hormônios inibidores RPD – rostral pars distalis sbGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de seabream Ser – serina sGnRH – hormônio liberador de gonadotropinas de salmão SHAM – animais falso-operados SL – somatolactina SNC – sistema nervoso central SON – núcleo supra-óptico SS – somatostatina T3 – triiodotironina T4 – tiroxina Tgb – tiroglobulina Thr – treonina TNF – fator de necrose tumoral TPO – tiróide peroxidase TRH – hormônio liberador de tireotropina Trp – triptofano TSH – hormônio estimulador da tireóide Tyr – tirosina Val – valina VGX – vagotomia bilateral cervical α7nAchR – receptor nicotínico de acetilcolina α7 Julho/2010 Pág.

304 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

O estudo da neuroendocrinologia em mamíferos. ou glândulas de “secreção interna”. processos ou respostas fisiológicas de diferentes animais (escala evolutiva) ou de uma simples espécie. Adicionalmente. que estão submetidas a diferentes condições. este conceito foi estabelecido depois da segunda Guerra Mundial. as substâncias sintetizadas pelo sistema nervoso eram denominadas de fatores. especialmente em relação ao conceito de que o encéfalo controla as funções hipofisárias está bem estabelecido na literatura (Guyton e Hall. Segundo Zohar e colaboradores (2010). 1954). com os estudos propondo que fatores liberados pelo encéfalo eram transportados pela corrente sanguínea até a glândula hipofisária (conhecida também como pituitária) e estimularia a liberação de substâncias por esta glândula (Donovan e Harris. o entendimento do sistema endócrino.. é um dos caminhos essenciais para que se possa entender como os mecanismos bioreguladores e sistemas evoluíram nos animais e como eles operam para manter a vasta gama de espécies viventes. sejam elas: naturais ou artificiais (Withers. 2007). Considerando que a fisiologia é o estudo dos processos biológicos que permitem a vida existir e funcionar. 305 . assim como os estudos das glândulas endócrinas começaram a ser pesquisados a cerca de 100 anos atrás (Norris. pode ser caracterizada pela interseção entre a neurobiologia e a endocrinologia. 1992. Endocrinologia e neuroendocrinologia: um pouco de história As glândulas endócrinas. Já a neuroendocrinologia. conhecida como fisiologia. 2006). também denominados de hormônios. é o estudo da modulação exercida pelo cérebro sobre o sistema endócrino e vice-versa. sua estrutura Julho/2010 Pág. ou seja. 2007). a fisiologia animal comparada tem um foco nas comparações e contrastes dos mecanismos. Um dos principais objetivos deste capítulo é ilustrar a diversidade de processos neuroendócrinos empregados por diferentes grupos de animais (principalmente em relação às diferenças observadas nos sistemas fisiológicos entre os mamíferos e os peixes). Inicialmente.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: análise comparativa entre o encéfalo e a hipófise de peixes e mamíferos Renato Massaaki Honji Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos honjijp@usp. Esses produtos de secreção.br A endocrinologia é uma área específica de uma das disciplinas mais amplas da biologia. Norris. 2010). o estudo dos efeitos exercido pelo sistema endócrino sobre o cérebro (Zohar e col. até que. secretam os produtos sintetizados em seu interior na corrente sanguínea e essas moléculas funcionam como sinais químicos nos organismos.

1992. ou seja. ou neuro-hipófise (NH). cerebelo. Norris. pois. Neste sentido. Para melhor compreensão do eixo H-H. 2002). 1998. Nas diferentes regiões (núcleos) hipotalâmicos Pág. esta pode ser dividida em: hipófise anterior. 1973). e tronco encefálico. Guyton e Hall. um dos principais núcleos responsável pela coordenação da glândula hipofisária. Anatomicamente. 1992. numerosos hormônios são sintetizados. Fisiologicamente. Norris. o encéfalo de mamíferos compreende às seguintes regiões: cérebro. Em relação à hipófise. De uma forma geral. 2007). em peixes. Outros estudos posteriores a esta época. apesar de grandes progressos na área de neuroendocrinologia em peixes. as relações anatômicas e fisiológicas deste eixo são elaboradas e sutis. Guyton e Hall. Hipotálamo em mamíferos O hipotálamo desempenha um papel fundamental na regulação da hipófise e pode ser considerado como uma estação central de transmissão. o mais dominante de todo o sistema neuroendócrino. e hipófise posterior. vários tópicos ainda permanece incertos. 2006. apresentaram pela primeira vez. mesencéfalo (localizado mais cranialmente) e ponte (localizado entre ambos. 2007). Fisiologicamente. integração e no redirecionamento de sinais. e as primeiras informações sobre a relação do hipotálamo e hipófise neste grupo de animais eram realizadas experimentos. Já em peixes. ou adeno-hipófise (AH). Estes estudos foram considerados os pioneiros em neuroendocrinologia da reprodução em peixes. 2006. a seguir cada parte deste eixo é considerada separadamente. este eixo pode ser considerado o componente mais complexo e. desconectadas do encéfalo (Olivereau e Ball. que também pode ser subdividido em: bulbo (localizado mais caudalmente). 2006. atuando na recepção. 1998. bulbo e mesencáfalo) (Hansen e Koeppen. 2007). passados aproximadamente 35 anos. analisando essas atividades celulares da glândula hipofisária.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” química específica seja conhecida e passaram a ser denominadas de hormônios (Guyton e Hall. forneceremos uma visão geral sobre as principais características do eixo hipotálamo-hipófise (H-H) em mamíferos. sendo que. Neuroendocrinologia em mamíferos O conceito de que o encéfalo coordena às funções hipofisárias em mamíferos está bem descrito na literatura especializada (Revisões: Withers. em alguns casos. 1966). que pode ser subdividido em: telencéfalo e diencéfalo. é o hipotálamo (Withers. estimulavam as células hipofisárias em carpas (Cyprinius carpio) (Breton e Weil. 2007). Norris. que extratos encefálicos. 306 Julho/2010 . neuroendocrinologia é um assunto mais recente. Norris. Berne e Levy. armazenados e liberados pela hipófise (Berne e Levy. olhando apenas a atividade das células hipofisárias isoladamente.

entretanto. 2004).. 1983). Tabela 1. Originalmente. Hormônios e fatores hipotalâmicos (modificado de Berne e Levy. é o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) (Schally e col. no entanto. o mecanismo de ação e apresentar algumas interações fisiológicas. Lethimonier e col. alguns anos depois. Burgus e col. os nomes dos peptídeos hipotalâmicos baseiam-se nos hormônios hipofisários. 1972). 1971. Devido à diversidade de hormônios hipotalâmicos e a complexidade da fisiologia hormonal. Esta molécula é sintetizada em neurônios específicos do encéfalo e alcança a glândula hipofisária.. este decapeptídeo foi originalmente caracterizado em tecidos nervosos de mamíferos (Matsuo e col. 1998). abordaremos apenas um exemplo hormonal para ilustrar toda essa diversidade. Adicionalmente. o GnRH é identificado em todos os vertebrados. 2002. 1998).Neuroendocrinologia Comparada são identificados conjuntos de hormônios liberadores e inibidores que se dirigem à hipófise. o principal representante do primeiro passo na cascata de hormônio que participa diretamente na coordenação da atividade reprodutiva em animais.. múltiplas formas de GnRH têm sido identificadas em Julho/2010 Pág. Levando-se em consideração apenas a reprodução. estimulando as células gonadotrópicas (GtHs) via sistema porta em tetrápodes ou por inervação direta das GtHs em peixes teleósteos (Parhar.. foram identificadas outras variantes de GnRH em outros vertebrados (Sherwood e col. Acreditava-se que o GnRH de mamíferos era a única forma da molécula.. é influenciada por estes peptídeos (Berne e Levy. de lampreias a mamíferos (Guilgur e col. 307 . cuja estimulação/secreção. A tabela 1 fornece uma lista de hormônios hipotalâmicos atualmente conhecidos. 2006).. 1973). Desde então. regulando a síntese e a liberação de outros hormônios.

. exceto em Octopus vulgaris (Iwakoshi e col. 1993). faltam a cauda C-terminal e apresentam mudanças em alguns aminoácidos altamente conservados (Blomenröhr e col. que por sua vez. 1998). Guilgur e colaboradores (2006) e Zhang e colaboradores (2008). as diferentes formas de GnRHs exercem diversas ações intracelulares através de ligações específicas com os receptores acoplados à proteína-G (família Gq/11). além disso. 2004). 2) (Weltzien e col. relacionada com a liberação das GtHs pela hipófise (Gorbman e Sower. 1984) e em mamíferos (White e col. Segundo Sherwood e Adams (2005). Os receptores de mGnRH diferem de outros receptores acoplados a proteína-G. 2002). podem exercer um controle por feedback no hipotálamo (Berne e Levy.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” espécies representativas de todas as classes de vertebrados (Tab. duas formas de GnRH têm sido identificadas no sistema nervoso de uma única espécie. em aves (Miyamoto e col. em répteis (Lovejoy e col.. 2008). estimula as células gonadotrópicas a produzirem os hormônios gonadotrópicos. elevação do segundo mensageiro. geram alterações nas concentrações dos hormônios das glândulas periféricas. a liberação de GnRH. 308 Julho/2010 . A modulação (inibição e/ou estimulação) dos neurônios de GnRH está sob a influência de substâncias carreadas pela corrente sanguínea (feedback).. essa outra forma de GnRH identificada foi o mGnRH (mamíferos) ou gpGnRH (guinea pig) (Dubois e col. 2). são caracterizadas 25 diferentes formas moleculares de GnRH em várias espécies de vertebrados e invertebrados (14 formas em vertebrados e 11 formas em invertebrados). em peixes teleósteos (Sherwood e Adams. ou seja. 04. Em mamíferos. pois.. em anfíbios (Conlon e col. todas as formas são decapeptídeos.. foram identificadas múltiplas variantes de GnRH em agnatas (Sower e col. 09 e 10 são perfeitamente conservados ao longo da evolução (Tab. uma vez que.. e estes. 1993). os aminoácidos número 01. 2002. que possuem doze aminoácidos e. 1998). cuja função ainda é especulativa e uma outra forma.. 2006. 2006)... 2005). É importante salientar. Guilgur e col. como por exemplo. Pág.. 2005). Whitlock. também sugere-se que existam diferentes formas de receptores para GnRH. a ativação da fosfolipase C. 2003). entretanto. Tsai.. 1991a). mas em geral. Em geral. 2005). 2004.. ativação da proteína kinase C e mobilização do cálcio (Blomenröhr e col.. em elasmobrânquios (Lovejoy e col. 2002) e Aplysia californica (Zhang e col. que as diferentes formas de GnRH são comumente conhecidas pelo nome da espécie em que foi primeiramente isolada (Weltzien e col.. o cGnRH-II (chicken-II) localizado em áreas do cérebro médio (midbrain). 1991b). Essa variedade de formas de GnRH.

estariam atuando nesta modulação do GnRH. a kisspeptina. 1997). ao fotoperíodo (alternância de claro e escuro). semelhantes. Adicionalmente.. Os aminoácidos grifados em azul são diferentes da forma de GnRH de mamíferos. entre outros. (2006). Estrutura das 25 formas de hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) conhecidas.. Adaptado de: Iwakoshi e col. Alguns exemplos de interações de sinais neuronais são: alterações das características ambientais. (2005). Sherwood e Adams. que se convergem para os neurônios hipotalâmicos. mudanças de temperatura. que estimula a glândula pineal a sintetizar a melatonina. 2006). outras complexas interações de sinais neuronais. o ciclo de claro e escuro (dia/noite). As formas de GnRH grifadas em cinza. pode atuar na modulação do GnRH (Ekströn e Meissl. (2002). influenciando na síntese e liberação de GnRH (Takei e Loretz. Guilgur e col. uma nova proteína descoberta recentemente e o seu receptor Julho/2010 Pág. 309 . que por sua vez. tem sido identificadas em peixes.Neuroendocrinologia Comparada Tabela 2. são convertidos em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo.

como observado para os hormônios hipotalâmicos. as diferentes formas (quando for aplicado). de grande importância para a regulação das funções hipofisárias. a adeno-hipófise (AH). 1998. Estes são alguns exemplos de interações fisiológicas observadas nos animais. A proposta desta introdução foi mostrar o histórico dos hormônios hipotalâmicos. 2004). 1998). ou hipófise anterior. Os hormônios hipofisários em mamíferos. Berne e Levy. e entre essas duas partes. i. Hipófise em mamíferos Como dito anteriormente. sistema este. a sua natureza química. as células tireotrópicas. Em geral. 1992. a neuro-hipófise (NH). cinco tipos celulares são possíveis de identificar: as células corticotrópicas. foi identificado um novo dodecapeptídeo hipotalâmico que age diretamente sobre a hipófise. as funções dos hormônios Pág. Desta forma.e. as possíveis células alvos. Desta forma. denominado de hormônio inibidor de gonadotropinas (GnIH) (Tsutsui e Osugi. a NH. Já na AH. pois através deste sistema. 2007). Berne e Levy. que sintetizam a adrenocorticotropina (ACTH) e a β-lipotropina.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (GPR54). o mecanismo de ação. que sintetizam a prolactina (PRL) (Guyton e Hall. ou hipófise posterior. Embriologicamente. os neuro-hormônios sintetizados no hipotálamo podem ser levados diretamente a AH. as células gonadotrópicas que sintetizam o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo estimulante (FSH). controlando as funções de suas células. Norris. o mecanismo de modulação (inibição e/ou estimulação) e suas interações fisiológicas com outros eixos biológicos. 2006). 2008). se origina do assoalho do diencéfalo e constitui a porção nervosa da hipófise e a AH se origina do ectoderma do teto da cavidade oral primitiva (Junqueira e Carneiro. a complexidade fisiológica observada nos neurônios hipotalâmicos. e agora. são eles: o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina. quando foram descobertos. chamado de pars intermedia (Guyton e Hall. dois hormônios são sintetizados por neurônios no hipotálamo. as células somatotrópicas que produzem o hormônio de crescimento (GH) e as células lactotrópicas. sendo maior e mais funcional em outros vertebrados. Guyton e Hall. 2006. há uma zona intermediária. a hipófise pode ser dividida em duas porções distintas. 2009). 2006. A tabela 3 fornece uma lista de hormônios hipofisários atualmente conhecidos. e também estão diretamente relacionado com a secreção de GnRH (Colledge. e são armazenados e liberados pela NH. ambos são regulados pelos esteróides gonadais. foi discutida resumidamente. que produzem a tireotropina (TSH). inibindo a liberação de GtHs. veremos como agem estas substâncias quando são liberadas no sistema porta hipofisário (presente em mamíferos e ausente em peixes teleósteos). E ainda no ano 2000. Esta zona intermediária é pouco desenvolvida em mamíferos (humanos). 310 Julho/2010 . são bem conhecidos na literatura especializada (Revisões: Withers.

que são hormônios glicoprotéicos. T4 e a triiodotironina. 2006. é um hormônio. formado primariamente nos núcleos supra-ópticos (são polipeptídeos). relacionados com o metabolismo (controle do metabolismo de proteínas. O TSH. atuando principalmente nas gônadas. cuja função consiste em regular o crescimento e o metabolismo da tireóide e a secreção de seus respectivos hormônios (a tiroxina. Em relação à AH. 1998). os hormônios mais importantes de sua glândula alvo são os corticosteróides. Berne e Levy. O ACTH é estimulado pelo hormônio liberador de corticotropina (CRH).). a permeabilidade dos ductos à água aumenta muito. conservando assim a água no corpo e produzindo uma urina muito concentrada. é um hormônio glicoprotéico. estão diretamente relacionadas com a reprodução animal. sintetizado pelas células tireotrópicas. tem a função primária de conservar a água corporal e regular a tonicidade de líquidos corporais. a ausência de ADH impede a reabsorção significativa de água pelos ductos coletores (excreção diminuída de água pelos rins) e na presença de ADH. que sintetizam o FSH e o LH.Neuroendocrinologia Comparada hipofisários podem ser sintetizadas da seguinte forma: o ADH.1. sintetizado pelo hipotálamo. mas também apresenta um papel nas contrações do útero. T3). o hormônio ACTH. por sua vez. progesterona e estradiol) e como descrito acima (item 2. Já a ocitocina. é estimulado pelo hormônio liberador de tireotropina (TRH). O hormônio TSH. as GtHs são estimuladas pelo GnRH Julho/2010 Pág. Tabela 3. As células gonadotrópicas. 1998). é formada primariamente nos núcleos paraventriculares (são polipeptídeos) e o papel principal consiste em ejetar o leite da glândula mamária no processo de lactação. 311 . estimulando a síntese dos esteróides gonadais (testosterona. também conhecido como arginina-vasopressina. carboidratos e gorduras) e com o estresse nos animais. cuja função fisiológica consiste em regular o crescimento e a secreção do córtex supra-renal. Hormônios hipofisários atualmente conhecidos (modificado de Berne e Levy. produzido pelas células corticotrópicas. ou seja. ou seja. relacionado também com o metabolismo corporal. especialmente ao final da gestação (Guyton e Hall.

Para maiores informações sobre os hormônios hipofisários em mamíferos. em humanos. ambos sintetizados em núcleos hipotalâmicos. A combinação das tabelas 1 e 3. A PRL é estimulada pelo fator liberador de prolactina (PRF) e inibido pelo fator inibidor da prolactina (PIF). mas também sofre influência negativamente pela SS e positivamente pelo TRH. O GH e a PRL. são hormônios cuja função fisiológica consiste respectivamente em: estimular o crescimento e o desenvolvimento somático pós-natais e ajuda a manter a massa corporal magra e a massa óssea normais em adultos. Modificado de Berne e Levy. O GH é estimulado pelo hormônio liberador do hormônio de crescimento (GHRH) e inibido pela somatostatina (SS).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (sintetizado no hipotálamo). Neuroendocrinologia em peixes Em geral. já a PRL. uma abordagem geral em peixes se faz Pág. ver as revisões de: Guyton e Hall. (2006) e Berne e Levy. a neuroendocrinologia em peixes. 312 Julho/2010 . (1998) e Guyton e Hall. incluindo especificamente. Figura 1. mobilização dos ácidos graxos e diminuição da taxa de utilização da glicose. (2006). é um assunto recente se compararmos este tema com os mamíferos. (1998). Adicionalmente. a figura 1 sintetiza os principais pontos abordados no eixo H-H em mamíferos. Neste caso. sumarizando o eixo hipotálamo-hipófise em mamíferos. além de atuar no metabolismo. o aumento da síntese protéica. participa na estimulação do desenvolvimento das mamas e na produção de leite.

com esse grande número de espécies existentes. 2003). ou seja. Hochachka e Somero. ZavalaCamin. seja nas formas de “piracema” ou naquelas longas migrações entre os mares e os rios e vice-versa. 1999.. que são acompanhadas por grandes alterações osmóticas e metabólicas (Wooton. 1990). 2006. esse sucesso do grupo é atribuído a uma série de adaptações fisiológicas. Moyle e Cech. 58% são marinhos. 2003. 2004). desenvolvimento de diferentes órgãos especializados para a fertilização interna (gonopódio. 313 . 1990. Todos estes mecanismos apresentados acima sofrem influência direta ou indiretamente do eixo hipotálamo-hipófise e levando-se em consideração o mesmo exemplo apresentado acima para o hipotálamo em mamíferos (item 2. 2002. comportamentais entre outras características relacionadas aos processos de respiração. Em relação à sua distribuição. 1969. os peixes são ótimos exemplos da complexidade reprodutiva. além das diferentes formas de construções de ninhos e a migração reprodutiva. por exemplo). 2004). Vazzoler. 41% são dulciaqüícolas e 1% vivem entre esses dois ambientes. Moyle e Cech. Wooton. a desova total ou a desova parcelada). Em relação à reprodução. flutuação. Os peixes em geral são os representantes mais numerosos e diversos entre os vertebrados. osmorregulação. morfológicas. 1996. Hipotálamo em peixes O conceito de que o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) é um neuropeptídeo hipotalâmico essencial na cascata de hormônios que coordena a fisiologia Julho/2010 Pág. Zavala-Camin. Moyle e Cech. essas espécies realizam migrações entre o ambiente marinho e o ambiente de água doce (Wooton. Lowe-McConnell. 1990.Neuroendocrinologia Comparada necessária para posteriormente entendermos as diferenças observadas neste diverso grupo de vertebrados e compará-los com o grupo dos mamíferos. anatômicas. apresentaremos as diferenças observadas no hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH) entre peixes e mamíferos. 1998). percepção sensorial e reprodução (Hoar. as diferentes formas de liberação dos gametas para a fertilização externa (como por exemplo. ocorrendo desde as altas altitudes até as fossas submarinas dos oceanos. Desta maneira. Além da importância como fonte alternativa de alimento. com as diferentes formas anatômicas observados nas gônadas entre as espécies.). contando com aproximadamente 50% deste grupo (Nelson. os peixes também constituem uma rica fonte de material biológico que podem ser utilizados como modelos para entender os controles dos processos biológicos (Blázquez e col. São conhecidas cerca de 28000 espécies viventes de peixes que ocupam os mais diversos ambientes aquáticos.1. nutrição. a constantes descobertas de novas espécies e a distribuição mundial. as diferentes formas de cuidado com a prole (guardadores e não guardadores de ovos e larvas). 2003.

que em teleósteo. Zohar e col. sendo que. foram identificado apenas o cfGnRH (catfish) e o cGnRH-II (chicken II) (Bogerd e col. sGnRH (salmon) e uma terceira forma que pode ser considerada específica (Weltzien e col. Pandolfi e col. 2006.. 1995. 2010).. Sugere-se que o cGnRH-II atue como um neuromodulador e/ou possui um papel fundamental no comportamento reprodutivo. ocorre via inervação direta das células gonadotrópicas (Lethimonier e col. em Siluriformes. 314 Julho/2010 .. ainda são discutidas na literatura especializada. Ainda em relação a diferentes formas de GnRH... Pág. ao contrário dos mamíferos. Com isto. Pandolfi e col. Guilgur e col. 1997). Zohar e col. para Perciformes (Cichlidae) o sbGnRH (Pandolfi e col. o GnRH é um link essencial na integração dos estímulos externos e internos que controlam a reprodução em todos os animais. 2004.. em algumas espécies de teleósteos. como por exemplo... 2006... González-Martínez e col. ou seja. 2006... Em geral para Characiformes (Characidae) a terceira forma de GnRH encontrada foi o sbGnRH (seabream) (Powell e col. o “midbrain”) e na região posterior do diencéfalo (o sinencéfalo) e a terceira forma é expressa principalmente pelos neurônios pré-ópticos (telencéfalo ventral).. também é aplicado aos peixes teleósteos (Weltzien e col. Dubois e col. 2010). 2005). A presença destas diferentes formas de GnRH identificadas em várias espécies de teleósteos levanta a questão sobre a precisa função das múltiplas formas de GnRH e o controle da reprodução e de outros processos fisiológicos. Já a segunda ou terceira forma. as diferentes formas de GnRH são identificadas em diferentes regiões do encéfalo e adicionalmente. 2004. 2005).. Entretanto. sugere-se que esteja relacionada com a liberação das GtHs na adenohipófise dependendo da espécie a ser considerada (Dubois e col.. o comportamento reprodutivo. Zandbergen e col. Guilgur e col. entre outras formas (Lethimonier e col. 2005. 2006). 2002)... Guilgur e col. As diferentes funções destas diversas formas de GnRHs encontradas em peixes. 2004. em peixes teleósteos... Guilgur e col. para Cyprinidontiformes (Atherinopsidae) o pjGnRH (peixe rei) (Somoza e col. 2004. 2002). no qual. sendo: cGnRH-II (chicken II).. para a maioria das espécies de peixes foram encontradas três formas. Guilgur e col. 2010).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reprodutiva. 2003. 2004. como por exemplo. em várias espécies foram descritas múltiplas formas de GnRH.. apenas 2 formas de GnRH foram identificadas. 1994. Zohar e col. O GnRH é sintetizado em áreas específicas do encéfalo de peixes e estimula a produção de GtHs na AH. o cGnRH-II pelos neurônios localizados no tegumento do mesencéfalo (anterior. hipotálamo basal e glândula hipofisária (ver revisões de: Gorbman e Sower. está relacionada especificamente com a reprodução. 2002. o sGnRH é expresso por neurônios do gânglio nervoso terminal. 2006). os neurônios sintetizadores de GnRH apresentam distribuição neuro-anatômica diferenciada. 2005).. como por exemplo. Neste contexto. tem sido observado diferentes origens embriológicas destes neurônios que sintetizam e secretam este hormônio (Dubois e col. ou seja. 2002.. Sherwood e Adams.

sendo que. como por exemplo. levantando-se outra questão a respeito de qual (ou quais) formas estão presentes na hipófise e qual (is) estimula (m) a produção de GtHs na AH (Powell e col. uma análise descritiva na hipófise de peixes teleósteos se faz necessária. As espécies da Ordem Siluriformes são bons modelos biológicos por apresentarem diferenças dentro deste grupo de peixes teleósteos em relação aos demais grupos. no catfish africano. Weltzien e col. 1997).... foram identificadas estas duas formas de GnRH. possuem a mesma origem embriológica que os mamíferos (Junqueira e Carneiro. nos teleósteos Julho/2010 Pág. apenas duas formas de GnRH foram identificadas. 1994.. Adicionalmente.. 1997). o que veremos a seguir. não necessariamente as duas formas de GnRH são liberadas na hipófise e controlam a síntese e liberação de gonadotropinas. assim como em mamíferos. apenas o cGnRH-II foi identificado no encéfalo e não foi observado na hipófise (é importante salientar que o cGnRH-II é identificado em todas as espécies de teleósteos) e com isso.Neuroendocrinologia Comparada Em peixes teleósteos não é observado um sistema porta hipotálamo-hipofisário (como em mamíferos) e com isso. neste grupo. sugere-se que as duas formas de GnRH observadas em catfish africano estejam relacionadas com a liberação de apenas uma gonadotropina. Hipófise em peixes A hipófise em peixes.. pois. Portanto. 2004.. 1995. Neste contexto. 2004). 2006). Goos e col. Agulleiro e col. 1993) e de encéfalo (Bogerd e col... pelo menos uma das formas de GnRH encontrada no encéfalo não foi detectável na hipófise. na região da NH. Neste sentido. são encontradas as terminações axonais dos neurônios hipotalâmicos. Entretanto. 1994. a distribuição diferencial das diferentes formas de GnRHs sugerem diferentes funções para estes diferentes peptídeos (Goos e col. ainda não é bem compreendida. e provavelmente. alguns estudos apontam que. em vários teleósteos. 1995. Somoza e col. Em relação aos hormônios hipofisários. Desta forma. 1992) de catfish africano. 2001). Dubois e col. 315 . em geral. em extratos de hipófise (Schulz e col. por exemplo. entretanto. os GnRHs estão presentes nos extratos de encéfalo e de hipófise.. e em alguns estudos indicam a presença de apenas uma gonadotropina (Schulz e col.. como mencionado anteriormente (cGnRH-II e cfGnRH). a identificação exata das formas de GnRH e a distribuição é de suma importância para entender os primeiros passos no controle da reprodução de peixes teleósteos. peixes teleósteos não apresentam sistema porta hipotálamo-hipófise e a morfologia da NH e AH é exclusiva em teleósteos (Zandbergen e col. A identificação da presença de uma ou duas gonadotropinas em Siluriformes. as fibras nervosas de GnRH terminam próximas as células gonadotrópicas da AH e como consequência. é dividida em duas regiões distintas: a adeno-hipófise (tecido glandular endócrino) e a neuro-hipófise (origem nervosa). identificadas de acordo com os diferentes tipos celulares.

que todos esses hormônios.. Weltzien e col. exceto a somatolactina. 2006. Proopiomelanocortina (POMC) é um precursor protéico de vários hormônios. Takei e Loretz. 2004. Neste caso.. As células produtoras de tireotropina (TSH) e as células produtoras de hormônio de crescimento (GH). 1990.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” nessa região são liberadas os neuro-hormônios. Kawauchi. Cinquetti e Dramis. Já a RPD contém as células produtoras de prolactina (PRL) e as células produtoras de hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). 2003.. a adrenocoticotropina (ACTH). no que diz respeito ao arranjo e localização topográfica das células. comumente chamadas de FSH (hormônio folículo estimulante) e de LH (folículo luteinizante). 2006. melanotropina (MSH) e β-endorfina (Kawauchi e Sower. os hormônios adeno-hipofisários podem ser agrupados conforme sua similaridade estrutural e funcional em 3 famílias: a família derivada de proopiomelanocortina. 2006). a isotocina (IST) e o hormônio concentrador de melanina (MCH). na PPD localizam-se as células produtoras de gonadotropinas (GtHs).. no metabolismo. em teleósteos. 2001. Weltzien e col. como por exemplo. nos aspecto Pág. inervação dessa hipófise e a identificação e localização dos diferentes tipos celulares encontradas na região da AH (Weltzien e col. a arginina – vasotocina (AVT). que abrange a adrenocorticotropina (ACTH) e a melanotropina (MSH). como por exemplo. que contém gonadotropinas (GtH) e tireotropina (TSH) (Agulleiro e col. Kawauchi e Sower. 2000). 2004... e em peixes. as funções fisiológicas dos hormônios hipofisários são semelhantes ao apresentado para mamíferos e. O papel fisiológico de ACTH é estimular a síntese e liberação de cortisol no tecido inter-renal de teleósteos (Segura-Noguera e col. a família prolactina/somatotropina. características tintoriais dessas células e distribuição dos ramos da NH (Laiz-Carrión e col. Na PI encontram-se as células produtoras de melanotropina (MSH) e as células produtoras de somatolactina (SL). segundo Kawauchi e Sower (2006). 1999. conhecidas como células somatotrópicas. Essas regiões são denominadas de: “pars intermedia” (PI). como por exemplo. Em geral. a AH em peixes é subdividida em três regiões distintas. É importante salientar. 2006). 1996. Cala e col. 2006). os estudos sobre o controle neuroendócrino das funções hipofisárias em teleósteos requerem o conhecimento da morfologia da hipófise. 1996). sendo que. Duarte e col. 2003. 316 Julho/2010 . 2004). também são identificadas na região PPD. 2006). Batten e col. que inclui prolactina (PRL). estão presentes nos outros vertebrados (Ono e col. Adicionalmente. serão discutidas apenas as diferenças observadas entre estes dois grupos de vertebrados. hormônio de crescimento (GH) e somatolactina (SL). Apesar de a NH estar diretamente relacionada com a reprodução. portanto. e a família dos hormônios glicoprotéicos.. o principal hormônio desta glândula é o cortisol. entre outros neuropeptídeos (Acher. Kawauchi e Sower.. “rostral pars distalis” (RPD) e “proximal pars distalis” (PPD). 2006.. Kaneko. este hormônio atua em vários processos fisiológicos..

2000... 1998). Kawauchi e Sower. como por exemplo: no metabolismo. como por exemplo. Finalmente. 2003. As células produtoras de somatolactina (SL). 1997. reprodução e metabolismo (Segura-Noguera e col. os últimos hormônios hipofisários a serem discutidos neste capítulo. 2003).. O hormônio GH tem um papel fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento em teleósteos. 2003. 2006).. tanto em relação ao estímulo para a reprodução como no bloqueio do mesmo.. as possíveis funções fisiológicas deste hormônio seriam: pode estar envolvido na metamorfose em Pleuronectiformes (Schreiber e Specker. que o papel fisiológico da PRL em teleósteos. Rand-Weaver e colaboradores (1991). o FSH e o LH. Johnson e col. Vissio e col. foi observado que o hormônio tireoidiano (T3) intensifica o efeito estimulatório do GnRH em Salmo trutta (Mylonas e col. Mancera e Fuentes. 1995. Adicionalmente. Apesar de ser um hormônio descoberto a mais ou menos 20 anos atrás. 1996. Algumas evidências indicam que a SL esteja envolvida em vários processos fisiológicos... além de estar envolvido em outros processos fisiológicos. Em relação ao MSH. 1994) e em outros trabalhos sugerem que os hormônios tireoidianos agem sinergisticamente com as gonadrotopinas (Sullivan e col. ainda continua desconhecido. Sabe-se ainda. 1993. Agulleiro e col. Kawauchi e Sower. 1996). foram primeiramente descritas por Ono e colaboradores (1990). Cala e col. 2002. Kaneko. 2006). osmorregulação. 2003)..Neuroendocrinologia Comparada relacionados ao estresse e na osmorregulação (Segura-Noguera e col.. o papel fisiológico desse hormônio em teleósteos é estimular a dispersão dos grânulos de pigmentos nos melanócitos. Mayer e col. ou seja. 2006). 2006. também conhecidas como PIPAScells. Mousa e Mousa. 1999). 2000. 1996).. na reprodução (Olivereau e RandWeaver... 2003) e indiretamente na reprodução. Kawauchi e Sower. no desenvolvimento embriológico (Laiz-Carrión e col. 1989 apud Mylonas e col. pois. Kawauchi e Sower. 2000.. produzindo assim uma rápida mudança de coloração no peixe (Cala e col.. no desenvolvimento ontogenético (larval) (Laiz-Carrión e col.. alguns estudos indicam que a PRL esteja envolvida também na reprodução e nos aspectos relacionados ao estresse (Cala e col. está relacionado principalmente com a osmorregulação (Segura-Noguera e col. Kawauchi e Sower.. o verdadeiro papel fisiológico da SL em peixes. abordaremos especificamente o eixo H-HG em peixes e as possíveis relações com o ambiente externo. 1994. desta forma. Kakizawa e col. 1997. na regulação ácido-básica e na osmorregulação (Kakizawa e col. Kaneko.. Em relação ao TSH. Forsyth e Wallis. Estes hormônios exercem um papel fisiológico muito importante na reprodução de peixes.. e até o momento este hormônio só foi encontrado em peixes (Kaneko. 1996.. 1992. 2006). 1993. são as GtHs. Forsyth e Wallis. Cala e col. 2006). Kaneko. 317 . 2006. 2000) e na produção de esteróides sexuais (Planas e col. 2002. nos aspectos relacionados ao estresse (Rand-Weaver e col.. 2003. Julho/2010 Pág. 1994).

. em peixes. que a secreção da melatonina é realizada durante a fase escura e acredita-se que este hormônio seja um dos principais responsáveis pelos efeitos do fotoperíodo sobre o sistema endócrino (Kah e col. 2010): a partir do momento em que a idade e o peso mínimo são atingidos para o início da reprodução. 2010. 1998. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. Levavi-Sivan e col. sendo que em geral. O papel do fotoperíodo na influência sazonal do ciclo reprodutivo em peixes teleósteos é bem estabelecido na literatura.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em peixes e sua relação com o ambiente externo A reprodução em peixes. 2010). é controlada endogenamente por um sistema endócrino. este preciso link entre as mensagens do fotoperíodo e os efeitos sobre o sistema neuroendócrino em peixes.. os mecanismos fisiológicos envolvidos nesta modulação ainda não são bem compreendidos. pluviosidade entre outros). liberação e fertilização dos gametas. 2010. foram registrados. sabe-se também. esteróides gonadais e hormônios moduladores do processo reprodutivo entre outras substâncias (Takei e Loretz. reiniciando o ciclo. pineal. Em várias espécies de teleósteos. entretanto. que crescem e se tornam adultos. negativos ou nenhum efeito da melatonina sobre a maturação gonadal. 2) (Blázquez e col. alterações ambientais como o fotoperíodo. a fisiologia da reprodução em peixes pode ser sintetizada da seguinte forma (Fig.. maturação. Zohar e col. que as convertem em sinais eletroquímicos e são transmitidos via neurônios sensoriais até o hipotálamo. 318 Julho/2010 . são captadas através dos olhos. possivelmente as chuvas. Em geral. Por outro lado. 2006. 2006). Zohar e col. 1999. Adicionalmente.. a desova e a fertilização ocorrem no ambiente externo (Rocha e Rocha. 2004. Esse processo ocorre naturalmente com o desenvolvimento das gônadas. Pág. Weltzien e col.. Falcón e col. 2010). precisam ser investigados mais profundamente. a temperatura e.... que sintetiza e libera gonadotropinas. fotoperíodo. Levavi-Sivan e col. apesar de ser modulada por fatores ambientais (temperatura. Os ovos fertilizados originam embriões e posteriormente larvas. efeitos positivos. narinas e receptores cutâneos.

Imagens: Renato Massaaki Honji.Neuroendocrinologia Comparada Figura 2. Representação esquemática dos principais fatores relacionados com o controle neuroendócrino da reprodução em peixes teleósteos (explicações no decorrer do texto). Julho/2010 Pág. Rafael Henrique Nóbrega e Leonardo Gastón Guilgur. 319 .

Cyr e Eales. principalmente em relação aos disruptores endócrinos na neuroendocrinologia. que via corrente sanguínea chega às camadas foliculares dos oócitos em desenvolvimento e na camada teca. ocorre um aumento nos níveis plasmáticos de 17-estradiol e testosterona e esse aumento inibe a síntese de FSH (feedback negativo) e juntamente com a ação do GnRH estimulam a secreção do hormônio luteinizante (LH) nas fases finais da vitelogênese. podendo ser expresso em situações adversas. entretanto. na exposição dos indivíduos aos poluentes com ação estrogênica (Moncaut e col.20-dihidroxy-4-pregnen-3-one ou 17α. esses hormônios gonadais os mais importantes no desenvolvimento do testículo e das características sexuais secundárias nos machos (Grier. 1996. como por exemplo. estimulando a síntese da glicolipofosfoproteína (vitelogenina) que. Os machos de teleósteos também possuem o gene para vitelogenina. dependendo da espécie considerada (Peter e Yu. 1993. como precursora do vitelo tem sido intensamente pesquisada nas últimas décadas. que é um processo pelo qual o citoplasma do oócito acumula substâncias de reservas para posterior utilização pela larva.20-21-trihidroxy-4pregnen-3-one pela enzima 20-hidroxiesteróide-desidrogenase. também via corrente sanguínea. 2003). Este assunto será descrito intensamente no capítulo de ecotoxicologia. O hormônio 17-20-dihidroxy-4-pregnen-3-one é conhecido como o hormônio indutor da maturação final e da ovulação (MIS) na maioria dos peixes. que é transportada à camada granulosa e convertida a 17α. que estimula as células gonadotrópicas na hipófise a sintetizar e liberar o hormônio folículo estimulante (FSH). 320 Julho/2010 . desde a síntese do 17-estradiol como produto de ação no fígado até estudos com enfoques ambientais. na fase de vitelogênese. Assim. 2004.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Os fatores ambientais citados estimulam o hipotálamo a sintetizar e liberar o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). 2003). é “sequestrada” pelo oócito por micropinocitose (processo dependente de FSH). converte o colesterol em testosterona. testosterona e 11-cetotestosterona produzidos pelas células de Leydig no tecido intersticial dos testículos. Nagahama. na qual é aromatizada a 17-estradiol pela enzima aromatase.. FSH e LH estimulam a esteroidogênese testicular e a espermatogênese.. sendo os andrógenos. Nos machos. 2006). 2000. também sob influência do FSH. Garcia-López e col. O LH estimula a camada teca do folículo a produzir 17-hidroxiprogesterona. Pág. O 17-estradiol age no fígado (via corrente sanguínea). Haider. promovendo o crescimento do oócito e incorporação de vitelo. o mesmo não é expresso devido ao baixo nível de estradiol circulante.. os disruptores endócrinos que são fatores externos que podem afetar o sistema endócrino e assim toda a fisiologia reprodutiva (GoksØyr e col. como por exemplo. 1997). o controle da síntese de esteróides é semelhante ao das fêmeas. Esta é transportada à camada granulosa. sendo. A detecção da vitelogenina.

2). principalmente nos aspectos relacionados à fisiologia reprodutiva. principalmente em relação ao eixo hipotálamo-hipófise-gônadas são escassos mesmo em espécies de clima temperado. Neste caso. principalmente pelo eixo hipotálamo-hipófise-gônadas como dito anteriormente (Fig. 2010). em operações de cultivo. por serem reofílicas (peixes de piracema). considerando-se que as espécies de peixes de piracema. procedimento necessário para a maioria das espécies ícticas tropicais.. premissa básica para um futuro trabalho de repovoamento da espécie. De uma forma em geral. 2) são necessárias para dar continuidade ao processo de maturação gonadal (Zohar e Mylonas. o chamado sistema kiss1/GPR54 (Zohar e col. para que não ocorra o risco de uma espécie ser extinta sem nem mesmo ter sido estudada a sua fisiologia reprodutiva.Neuroendocrinologia Comparada Recentemente. ainda pouco esclarecida. que a construção de reservatórios nos rios brasileiros causa grandes impactos no ciclo de vida dos peixes reofílicos. tornam as pesquisas envolvendo o eixo H-H-G de suma importância. que apresentam resultados obtidos em relação ao sistema kiss1/GPR54 em peixes. Os estudos sobre a disfunção endócrina de peixes em cativeiro. 2001). mas altera-se de alguma forma. Julho/2010 Pág. foi descoberto mais um sistema neuroendócrino que possui íntima relação com a regulação da reprodução e da puberdade em vertebrados. apresentam um bloqueio na reprodução. Zohar e colaboradores (2010). Portanto. estas múltiplas e complexas interações hormonais existentes entre os vários sistemas (sensoriais e reprodutivos) durante a reprodução dos peixes é controlada endogenamente pelo sistema neuroendócrino. quando são impedidas de migrar. os efeitos dos poluentes (disruptores endócrinos) na neuroendocrinologia dos animais. 2010). 321 . sabe-se que todo esse controle ocorre quando os peixes encontram-se no ambiente natural. confirmam a existência deste sistema em vertebrados considerados mais basais durante a evolução deste grupo. e raros em teleósteos de clima tropical. quando espécies migradoras são transferidas para o cativeiro. Taranger e col. e o fato de que muitas espécies de peixes encontram-se em vias de extinção. fica evidente. veremos no capítulo 32.. 2010. intervenções hormonais exógenas em diferentes níveis do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (Fig. os peixes não conseguem eliminar os seus gametas. Adicionalmente. pois neste ambiente confinado. estes estudos contribuem para uma ação urgente de conhecimento da fisiologia reprodutiva dessas espécies. estudos adicionais sobre este novo sistema neuroendócrino em espécies de peixes que apresentam distintas estratégias reprodutivas é necessário (Zohar e col. pois. Por outro lado. Adicionalmente..

322 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

. gerando também assim. Esta placa se invagina para formar um tubo oco. O evento da encefalização gerou em todos os vertebrados um órgão que é o centro de controle do organismo. répteis e aves. composto por três vesículas primárias. Breve descrição do desenvolvimento do sistema nervoso em vertebrados O sistema nervoso central dos vertebrados surge. 323 . no tamanho. alguns aspectos da anatomia e dos efeitos fisiológicos de hormônios produzidos pelo eixo hipotálamo-hipófise e a influência destes em outros sistemas. o sistema nervoso e o sistema endócrino são os maiores responsáveis pela coordenação dos ajustes das atividades de cada sistema fisiológico que compõe um organismo vertebrado. um ritmo biológico. respondendo a diferentes estímulos para a realização dos processos vitais. Este processo evolutivo. Neste contexto. Julho/2010 Pág. eventos futuros (Hickman e col. no presente capítulo serão apresentados. Desta forma. na fase embrionária. 2004).br Considerando-se a evolução do sistema nervoso dos vertebrados pode-se dizer que a tendência mais importante foi o aumento na complexidade. sendo o encéfalo considerado também um importante órgão produtor de hormônios (Schmidt-Nielsen.Neuroendocrinologia Comparada Neuroendocrinologia comparada: o encéfalo e a hipófise de anfíbios. Outra consequência da encefalização foi a capacidade de formar associações entre eventos passados. sendo este centro o integrador de todas as funções fisiológicas. incluindo as respostas rápidas às informações do ambiente interno e externo. A parte contínua do tubo neural. chamado tubo neural. pelo menos em humanos. 2002). que é conhecida como placa medular. Ao contrário. presentes e. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos amnarcizo@usp. na conformação e na capacidade funcional do encéfalo. A extremidade anterior deste tubo se alarga e cresce muito mais rapidamente do que o restante e dá origem a um encéfalo primitivo. estão ao mesmo tempo em funcionamento. de forma comparativa entre os grupos de vertebrados: anfíbios. répteis e aves Amanda de Moraes Narcizo Lab. mesencéfalo e rombencéfalo. Os diversos sistemas que formam o organismo não funcionam de modo independente. também denominado encefalização. levou a consolidação de diversas capacidades funcionais. a alta capacidade de armazenar informações e um aumento na complexidade e flexibilidade do comportamento destes animais. de uma faixa dorsal ectodérmica. No sentido antero-posterior estas vesículas são denominadas prosencéfalo.

e em um cérebro grande que recobre o diencéfalo e os lobos ópticos (Orr. No local onde estas duas estruturas se encontram. nas aves o telencéfalo se desenvolve em pequenos lobos olfativos. 2000. Portanto. e o hipotálamo (ventral). descritas de forma geral para os vertebrados sendo. O diencéfalo diferencia-se em três regiões: o epitálamo (dorsal). o pálio é composto por tecido não nervoso e o mesencéfalo é o centro da atividade encefálica neste grupo de animais. Em todos os vertebrados. o mesencéfalo não se divide.. neste momento. não surpreende que o pálio. 2000). O epitálamo é derivado do Pág. foi como o cérebro de grupos mais primitivos. uma das grandes e notáveis mudanças associada à importância do desempenho do papel biológico destas duas estruturas. certas fibras de cada nervo óptico cruzam para o lado oposto formando o quiasma óptico (Orr. 324 Julho/2010 . Nos peixes o telencéfalo se desenvolve em lobos olfativos grandes. formando o total de cinco vesículas encefálicas. Na classe dos répteis ocorre um destacado aumento dos hemisférios cerebrais devido à invasão de células cinzentas no pálio. 2004). Mesmo nos vertebrados mais primitivos como os ciclóstomos (lampreias e peixesbruxa) a vesícula anterior e a posterior se subdividem em duas partes. seja o centro da atividade encefálica também nestes outros dois grupos derivados. Assim. Nos anfíbios o centro da atividade encefálica permanece na região dorsal do mesencéfalo. o tálamo (central). e pela primeira vez em vertebrados. As diferenciações do diencéfalo serão. Hickman e col. como o dos peixes e anfíbios.. o prosencéfalo divide-se em telencéfalo e diencéfalo. Como as aves e os mamíferos têm seu ancestral nesta classe de animais. e o rombencéfalo divide-se em metencéfalo e mielencéfalo (Orr. Sobre este mesmo aspecto. da origem à medula espinhal e grande parte do restante do sistema nervoso (Orr. Hickman e col. 2000). 2004). Assim. se expandiu para formar uma estrutura profundamente sulcada e enormemente emaranhada na linhagem que leva aos mamíferos (Hickman e col. destacando sua principal função sensorial e os hemisférios cerebrais são formados por uma massa ganglionar basal conhecida como corpo estriado e por uma fina camada epitelial dorsal chamada de pálio. o telencéfalo dá origem aos lobos olfativos e ao cérebro. abordadas as particularidades dos grupos de interesse de discussão deste capítulo. 2000. das paredes do diencéfalo surgem os pedúnculos ópticos e as camadas sensoriais e pigmentares da retina. onde as células cinzentas se encontram numa região chamada teto. posteriormente.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” posterior ao rombencéfalo. no entanto a importância destas duas novas estruturas varia marcadamente na escala filogenética. sugerindo alguma relação pelo olfato notavelmente pobre neste grupo de animais. Este evento está diretamente relacionado à mudança do centro nervoso do mesencéfalo para o cérebro. 2004). sendo agora esta estrutura denominada de neopálio. Assim. células nervosas são encontradas invadindo o pálio (região do telencéfalo) resultando em aumento dos hemisférios cerebrais.. invadido por substância cinzenta.

que inclui a glândula pineal. contém vários núcleos neurossecretores que são fontes de neuro-hormônios envolvidos com a regulação da função hipofisária. O mielencéfalo forma o bulbo do encéfalo. Estas relações primitivas do encéfalo. 2006). mas também no dos anfíbios. Guyton e Hall. 2004). Este compreende a principal estação de retransmissão de sinais entre a porção superior e inferior do cérebro. Adicionalmente. como comentado anteriormente. Norris. Assim.. além de estar associado a várias estruturas glandulares e sensoriais. ela está funcionalmente ligada a ele por um sistema circulatório chamado sistema porta-hipofisário. 2004). Norris. 2000. É também da região ventral do diencéfalo que se origina o pedúnculo da hipófise ou infundíbulo. atuando como um centro de impulsos olfativos e visuais. que tem função na recepção visual. oriundo do piso do diencéfalo. No entanto. 2007. dorsalmente. Hickman e col. a hipófise se origina da fusão do infundíbulo com a bolsa de Rathke durante o desenvolvimento embrionário. na anatomia funcional. A maior parte do diencéfalo se torna o tálamo. 2000. é extremamente importante em todos os vertebrados já que é o centro de muitas atividades vitais como a respiração. nem o tamanho do das aves e dos mamíferos (Orr. que esta característica tenha relação com os movimentos notavelmente vagarosos deste grupo. conhecido também por pars nervosa ou neurohipófise (Orr. Hickman e col. como os tubarões. O cerebelo dos répteis é geralmente maior que dos anfíbios. O mesencéfalo sofre uma mudança relativamente pequena no grupo dos vertebrados. 2000. o mesencéfalo desenvolve-se em duas proeminências conhecidas como lobos ópticos. 2000. apesar de extremamente fundamentais. O hipotálamo. em alguns casos. Em peixes também é o centro de controle da linha lateral e do ouvido interno (Orr.. 2004). da ectoderme dorsal da cavidade oral primitiva de uma região denominada bolsa de Rathke. o batimento cardíaco e o metabolismo. atuando como o centro de coordenação nervosa. O metencéfalo. e o lobo posterior. na fase embrionária. foram. 2000. 325 .Neuroendocrinologia Comparada teto do diencéfalo e dá origem ao complexo endócrino epifisário. amplificadas e em outros Julho/2010 Pág. Na parte dorsal. Nas aves os lobos ópticos são excepcionalmente grandes e esta característica parece ter relação com a visão aguçada que este grupo apresenta (Orr. possui maior importância principalmente no grupo dos peixes. dá origem ao cerebelo. com exceção dos teleósteos. o lobo anterior da hipófise (adenohipófise) é derivado.. Hickman e col. como visto no capítulo anterior (Orr. E apesar de a adenohipófise não possuir qualquer ligação anatômica com o encéfalo. no entanto não atinge o tamanho do cerebelo de alguns peixes. Estes aspectos são importantes do ponto vista evolutivo visto que o desenvolvimento das três vesículas encefálicas apresenta relações funcionais. sendo este um centro de coordenação muscular e equilíbrio.. incluindo as funções de percepção do ambiente externo. O cerebelo nos anfíbios é muito pequeno e é discutido. Hickman e col. 2007). 2004.

pars tuberalis (PT) e pars intermedia (PI). uma vez que o sistema neuroendócrino entre os tetrápodes exibe muitas características encontradas neste grupo de vertebrados (Fig. 2007). núcleos arqueados (ARC). Considerações anatômicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. pelo sistema de vasos sanguíneos passando pela pars tuberalis (PT). primeiramente. será aqui apresentado um esquema morfológico generalizado do eixo hipotálamo-hipófise de mamíferos. e núcleos paraventriculares (PVN). 2004).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” reduzidas e/ou mantidas ao longo da contínua evolução conforme as prioridades sensitivas eram moldadas pelo habitat do animal e pelo seu modo de vida (Hickman e col. A eminência média (ME) e pars nervosa (PN) são áreas neurohemais separadas. A adenohipófise é um epitélio de estrutura glandular que pode ser dividida em três regiões anatômicas: pars distalis (PD). núcleos supra-ópticos (SON).. Figura 1. Posteriormente estes conhecimentos foram empregados a vertebrados não mamíferos. o hipotálamo a pars distalis (PD) onde os hormônios hipotalâmicos estimulam ou inibem a liberação dos hormônios trópicos. aos hormônios e funções foi. répteis e aves Pelo sistema neuroendócrino ter sido mais bem estudado na classe dos mamíferos. 1) (Norris. atribuída a este grupo. Estas regiões podem ser distinguidas tanto pelos tipos celulares quanto pelas relações anatômicas Pág. A pars nervosa armazena os nonapeptídeos produzidos no hipotálamo e é suprida por outro sistema de vasos sanguíneos. Eixo hipotálamo-hipófise generalizado de mamíferos. O hipotálamo contém vários centros neurossecretores incluindo a área pré-óptica (POA). A ME conecta. 2007). núcleo supraquiasmático (NSQ). Por isso para discutir alguns aspectos anatômicos entre anfíbios. répteis e aves. (OC) representa o quiasma óptico e (PI) significa pars intermédia (Modificado de Norris. a nomenclatura aplicada às estruturas. 326 Julho/2010 .

como dito anteriormente. Diferentemente do que foi descrito para teleósteos no capítulo anterior. O sistema de vasos da pars nervosa se conecta diretamente com o sistema de drenagem venosa. e duas gonadotropinas (GtHs) produzidas pelo mesmo tipo celular. estes são nos grupos de vertebrados aqui discutidos. Quanto ao hipotálamo. Norris. Adicionalmente a adenohipófise libera lipotropinas (LPH) e endorfinas.Neuroendocrinologia Comparada com a neurohipófise. como: o hormônio liberador de tireotropina (TRH). 327 . 2007). sendo comumente em células distintas. 2007). Das subdivisões da adenohipófise pode-se dizer que a pars tuberalis é constituída por uma fina camada celular da adenohipófise e está em contato com a eminência média. o fator liberador de prolactina (PRF) e a dopamina (DA). 2006. e a pars nervosa (PN). núcleos arqueados (ARC) e núcleos paraventriculares (PVN) controlam o funcionamento da PD. é derivada de tecido nervoso e nela podem ser identificadas duas regiões: a eminência média (ME). 2007). a prolactina (PRL). hormônio de crescimento (GH). estas são: o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). a pars intermedia nestes grupos de vertebrados apresenta um único tipo celular sendo responsável pela produção do hormônio melanotrópico (MSH) e a pars distalis possui cinco tipos celulares sendo responsáveis pela produção de seis hormônios trópicos: hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). região posterior. o hormônio liberador de gonadotropinas (GnRH). Estudos recentes têm demonstrado que a PT tem um importante papel de conexão endócrina entre a glândula pineal e a secreção de prolactina (PRL) pelas células da pars distalis (Norris. Um sistema vascular denominado sistema porta hipotálamo-hipofisário se desenvolve entre a eminência média da neurohipófise e a pars distalis da adenohipófise. e que o sistema porta passa por ela. Já a neurohipófise. por exemplo. Julho/2010 Pág. não tendo associação com o sistema porta hipotálamo-hipofisário. a arginina-vasotocina (AVT) e mesotocina (MST). hormônio estimulador da tireóide (TSH). É através deste sistema que. embora não listados como hormônios trópicos. e então os hormônios trópicos da mesma fluem para o sistema venoso alcançando a circulação geral do organismo. estes peptídeos podem exercer função endócrina ligando-se a receptores opióides no sistema nervoso (Guyton e Hall. o hormônio liberador de corticotropina (CRH). Núcleos neurossecretores incluindo núcleo supraquiasmático (NSQ). o sangue contendo os hormônios liberadores hipotalâmicos flui para a pars distalis. Outros hormônios hipotalâmicos. Os axônios destes núcleos atravessam a ME chegando na PN. mais anterior. percorrem através do sistema porta hipotálamo-hipofisário e se ligam a receptores em diferentes tipos celulares liberando hormônios trópicos na adenohipófise (Norris. seus núcleos neurossecretores da área pré-óptica produzem neuro-hormônios que são armazenados na neurohipófise.

Ao contrário. regulam outras glândulas endócrinas. atuando em células específicas regulam a secreção dos hormônios trópicos. Ainda não há uma explicação para o desaparecimento da PT nos Squamatas. Chelonia e Crocodilia. é pouco vascularizada apresentando inervações diretas por neurônios dos núcleos hipotalâmicos. modulado por variáveis ambientais e pelo sistema nervoso. 2007). 328 Julho/2010 . é discutido que este sistema de regionalização da ME e PD poderia representar um mecanismo mais eficiente de entrega dos neuro-hormônios hipotalâmicos a específicos tipos celulares na PD (Norris. Nas aves. geral pode-se dizer que não é encontrada inervação direta do hipotálamo na adenohipófise sendo esta característica mantida para os grupos derivados. e por isso a hipófise deste grupo de vertebrados apresenta grande diversidade anatômica. promove a síntese de hormônios liberadores (RHs . que terminam ou na ME (encontrando com o sistema porta) ou no interior do infundíbulo na PN. a pars tuberalis aparece pela primeira vez na filogenia dos vertebrados e a pars intermedia. Pág. entretanto. e de forma resumida. a glândula tireóide que em resposta libera seus hormônios na corrente sanguínea e assim. como os pombos e o pardal de coroa branca. a eminência média é separada em anterior e posterior sendo que cada uma destas regiões possui seu próprio sistema porta com a PD. este sistema funciona da seguinte maneira: o hipotálamo. Esses hormônios trópicos atingem certas glândulas endócrinas periféricas. a PI é reduzida ou ausente em lagartos e algumas cobras. além de exercerem um efeito de controle negativo sobre o hipotálamo e a hipófise. neste grupo. répteis e aves Como dito anteriormente. A figura 2 apresenta os hormônios produzidos neste eixo. De forma.Releasing Hormones) ou hormônios inibidores (RIHs Release-Inhibiting Hormones) em seus neurônios neurossecretores. a PT é completamente ausente. enquanto a pars intermedia é bem desenvolvida em quelônios e crocodilos e em algumas cobras. A pars tuberalis é bem desenvolvida em Rhynchocephalia. Em algumas aves. 2007). Os répteis ocupam uma posição central na evolução dos tetrápodes. Considerações fisiológicas do eixo hipotálamo-hipófise: anfíbios. que por sua vez. aves e mamíferos. como exemplo. mas é bem reduzida e algumas vezes ausente em lagartos. podendo ser encontrados animais com características anatômicas similares a anfíbios e também similares a aves e mamíferos. Através de seus prolongamentos axônicos. a pars intermedia é ausente em todos os indivíduos adultos de todas as espécies.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em anfíbios. Em serpentes adultas. afetam células específicas não endócrinas. répteis e aves (Norris. os hormônios produzidos no hipotálamo chegam até a hipófise e. o sistema neuroendócrino é constituído pelo eixo hipotálamo-hipófise. em anfíbios. Não se sabe ao certo quão frequente este sistema duplo é encontrado em outras aves. diferentemente de todos os tetrápodes. de forma geral.

a hipófise e o alvo endócrino específico. 2007). GH) Hormônio melanotrópico (MSH) Alvos não endócrinos Alvos não endócrinos Alvos endócrinos Efeito Efeito Hormônios Efeito Tecidos alvos Figura 2. A atividade do hipotálamo é influenciada por vários fatores ambientais via sistema nervoso central. modulam a liberação dos hormônios hipotalâmicos (RHs/RIHs) e adenohipofisários. discutido no capítulo anterior. estes são armazenados na ME e liberados (sistema porta hipofisário) na PD e PI (PI ausente em aves) onde regulam a liberação dos hormônios trópicos.Neuroendocrinologia Comparada Fatores ambientais Feed back alça longa Encéfalo Argininavasotocina (AVT) Hipotálamo Eminência média Pars intermedia Mesotocina (MST) Pars nervosa Pars distalis AVT MST Hormônios Somatotrópico (GH) e Prolactina (PRL) Feed back alça curta Hormônios Trópicos (TSH. mas principalmente alvos endócrinos que respondem liberando hormônios que tem efeitos em células-alvo específicas. 329 . LH. FSH. por sua vez. Julho/2010 Pág. que são armazenados na PN até que sejam liberadas no sistema de vasos sanguíneos (Modificado de Norris. ACTH. O hipotálamo secreta RHs e RIHs. mesotocina e arginina-vasotocina. Estes. O hipotálamo também secreta nonapeptídeos. Existem vários eixos distintos envolvendo o hipotálamo. Os hormônios trópicos afetam alguns alvos não endócrinos. Sistema neuroendócrino dos vertebrados: anfíbios répteis e aves. que será abordado no capítulo seguinte e o eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (H-H-T). o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A). os eixos que mais recebem a atenção dos pesquisadores são: o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G). que terá um pouco mais de destaque neste capítulo. E entre tantos fatores produzidos por este sistema integrativo.

3). Uma tirosina iodada tem 2 iodetos ligados nas posições 3 e 5 do anel fenólico. conhecida como deiodinase. pouco solúveis em água. outras moléculas do mesmo hormônio são ligadas nas proteínas plasmáticas. 2009). Normalmente. portanto. as células-alvo para os hormônios tireoidianos estão equipadas com uma enzima específica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Hormônios da tireóide Os hormônios da tireóide são derivados de duas moléculas de tirosina iodadas. 2007). Os hormônios da tireóide entram na célula alvo onde migram para o núcleo e se ligam a receptores específicos. resultando na molécula chamada de T4. mesmo com esta natureza existe um mecanismo de transporte específico para melhorar a circulação destes hormônios da tireóide pelas membranas celulares. formado pelo hormônio e o receptor nuclear. triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). e da mesma forma como os esteróides. Normalmente. O mecanismo molecular da ação dos hormônios da tireóide é similar ao mecanismo de ação descrito para estrógenos. a tirosina é incorporada por uma proteína conhecida por tiroglobulina (Tgb) e então iodada pela enzima tireóide peroxidase (TPO). Várias e diferentes proteínas séricas são capazes de se ligar e transportar os hormônios da tireóide.. Os hormônios tireoidianos são hidrofóbicos e. que realiza essa conversão (Brown. têm sua produção estimulada Pág. os receptores têm maior afinidade para o T3 do que para os T4 (Fig. Primeiramente. atravessam facilmente as membranas celulares. Sechman e col. Na circulação os hormônios da tireóide são transportados ligados a proteínas plasmáticas sendo estas ligações facilmente reversíveis. 1952. Os hormônios da tireóide. Brown e Cai. Adicionalmente. o T3 é mais ativo. Norris. 330 Julho/2010 . 2006. por difusão ou por transporte mediado por carreador. 2007. A tiroglobulina acoplada a molécula T4 é hidrolizada na tireóide e o hormônio T4 é liberado na corrente sanguínea. Duas DITs são unidas pela TPO removendo o anel fenólico de uma DIT e ligando um grupo hidroxila de um grupo fenólico de outra DIT. No entanto. Essa molécula é chamada de 3. 2007). ou DIT. respectivamente. que esta ligação é desfeita pela entrada do hormônio na célula. Kistler e col. 1975. ser metabolizados no fígado e rins. O resultado desta estrutura química é uma tironina com 4 iodetos ligados.. Assim.. promove o início da transcrição gênica resultando na síntese de proteínas (Guyton e Hall. e somente aproximadamente 1% destes hormônios são transportados livremente no plasma podendo entrar no tecido alvo. mais relevante na fisiologia dos vertebrados (Gross e Pitt-Rivers.5 diiodotirosina. 2006). O dímero. o T4 é a tironina mais circulante e é convertida a T3 com a remoção de um iodeto de seu anel externo pela tireóide deiodinase antes de ser liberada da glândula tireóide (Norris. 2005). apoiando a hipótese de que a conversão de T4 para T3 é requisito para a ação do hormônio da tireóide. nos vertebrados. Receptores nucleares para os hormônios da tireóide têm sido isolados e caracterizados em todos os grupos de vertebrados (Helbing e col.

Ação do hormônio da tireóide em células-alvo. 2006. Yaoita e Nakajima. 2006). sendo esta a resposta da célula-alvo dos hormônios tireoidianos (Modificado de Guyton e Hall. Brown e col.. 1997. 2003. o sistema imune (Rollins-Smith. estando envolvidas no aparecimento de membros e desaparecimento da cauda (Nishikawa e Yoshizato. na regulação do metabolismo (Norris. 2005). o Julho/2010 Pág. sendo extensivamente estudadas neste contexto biológico. 2007). 1998). reorganizando a pele (Yoshizato. desempenham função importante na metamorfose. 331 . Figura 3. 1986. na formação do sistema nervoso. 2006). que interage com o receptor do hormônio tireoidiano. Alguns estudos têm mostrado que o hormônio CRH também age como o TSH estimulando a produção de tireotropinas em vertebrados não mamíferos (Groef e col. Isso faz com que aumente ou diminua a transcrição dos genes que levam a formação de proteínas. ligado como um heterodímero com um receptor de retinóide X. 1996). Norris. o sistema respiratório. Em vertebrados.. as tireotropinas têm atuação no desenvolvimento embrionário. desenvolvendo as criptas viliais. Tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) facilmente difundem através da membrana celular. o fígado. Nakajima e Yaoita. o encéfalo e a medula espinhal. Em anfíbios.Neuroendocrinologia Comparada pelo TSH produzido na adenohipófise sob influência do hormônio hipotalâmico TRH (Guyton e Hall. 2007). bem como na reestruturação de órgãos. o trato digestório. Grande parte da T4 é desiodada para formar T3.

a somatostatina (SS). e aves. com exceção dos Squamatas que foi encontrado somente o hormônio FSH. répteis e aves é menos específica que o observado para mamíferos. Desde então. O LH induz a ovulação.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” sistema hematopoiético. A liberação do TSH em anfíbios. tem sido identificados cada vez mais mecanismos e relações de influência destes hormônios tireoidianos no desenvolvimento de vertebrados (Brown e Cai. Sechman e colaboradores (2009) mostraram em estudos realizados com galinhas que hormônios da tireóide estão envolvidos na regulação do eixo H-H-G nos processos associados com o crescimento e maturação do folículo ovariano. primeiramente testosterona. Sechman e col. além da influência no metabolismo. entre outros trabalhos. Shi (2000) escreveu um livro dedicado exclusivamente a metamorfose em anfíbios. sauvagina e urotensina I (Norris. 2009). nos machos. répteis. produzindo os esteróides sexuais femininos: a progesterona e o estrogênio. 1988. mGHRH (hormônio liberador de hormônio de crescimento de mamíferos). Hormônios hipofisários As gonadotropinas (FSH e LH) e tireotropina (TSH) são hormônios glicoprotéicos compostos por duas subunidades a α (alfa) e a β (beta). destacando a similaridade destas moléculas e suas ações. sendo estabelecida uma relação negativa entre a concentração plasmática do hormônio tireóideano e a função ovariana durante a maturação sexual (Sechman e col. É bem estabelecido que em aves que se reproduzem sazonalmente os hormônios T3 e T4 desempenhem um importante papel na regulação das mudanças gonadais fotoperiódicas (Follet e Nicholls. O LH. 2007). O primeiro experimento em anfíbios foi realizado por Gross e Pitt-Rivers em 1925 quando a glândula tireóide de um girino foi retirada e a metamorfose foi inibida. 1999.. Em frangos. 2007). e o efeito do TRH nos dois hormônios trópicos é inibido por outro hormônio hipotalâmico. Foi visto que o LH de sapo-boi estimula a tireóide de aves e répteis. mantendo também sua influência no eixo gonadal (Norris. Estes três hormônios são encontrados em anfíbios. uma vez que sua liberação tem sido estimulada inclusive por hormônios exógenos como mGnRH (hormônio liberador de gonadotropina de mamíferos). promove a produção dos esteróides sexuais masculinos. Nos répteis e aves os hormônios T3 e T4 possuem importante papel na troca de escamas e penas. 2007). sendo a subunidade α comum para estes três hormônios e a β específica. Pág. Wilson e Reinert. Neste processo vários estudos têm evidenciado o aumento da concentração dos hormônios sexuais no plasma e a diminuição da concentração de T3. O FSH promove a produção do óvulo e a secreção de estrógenos nas fêmeas e nos machos auxilia na produção dos espermatozóides. 332 Julho/2010 . e peptídeos como CRH-like (similar ao hormônio liberador de corticotropina). o TRH pode estimular a produção e liberação de TSH bem como de GH. 2000)..

nos processos reprodutivos. O único hormônio da adenohipófise produzido pela pars intermedia é o hormônio estimulador de melanócitos (MSH). nos vertebrados apresenta cerca de 300 atuações distintas. O hormônio do crescimento age diretamente no crescimento e no metabolismo e indiretamente na produção de um hormônio polipeptídico. também pela produção de hormônios corticosteróides. como cuidado parental. em anfíbios e répteis. em experimentos com Lacerta além de a PRL estimular o crescimento também estimulou o apetite neste grupo de animais. O MSH é Julho/2010 Pág. Além disso. causando o escurecimento da pele. estimula a nutrição. o fator de crescimento insuliníco (IGF). e também é responsável pelo comportamento agitado destas aves no período que antecede a migração. além de seu papel mais tradicional. Em pombos. Nas aves a PRL apresenta vários papeis na reprodução. também controla os equilíbrios hídrico e eletrolítico. este hormônio tem ação direta sobre o tecido epitelial promovendo a dispersão do pigmento melanina no interior dos melanócitos. A prolactina. o comportamento. Tem sido mostrado que a PRL desempenha ação de promoção de crescimento em larvas de anfíbios. a PRL estimula a produção de um leite que é regurgitado para a alimentação da prole (Norris. em alguns anfíbios como os Anuros a PRL tem agido nas larvas como um hormônio anti-metamórfico. 333 . tendo importante papel na pré-engorda das aves migratórias. sendo importante na formação de novos vasos sanguíneos e. especialmente nos novos tecidos dos jovens vertebrados. ou somatomedina produzida pelo fígado. Ainda sobre os aspectos reprodutivos e comportamentais a PRL tem sido associada ao comportamento de cuidado parental em machos. Os mecanismos de ação e função do ACTH entre os tetrápodes são muito similares. realizando assim a transferência de calor. diferentemente dos outros hormônios trópicos a prolactina age diretamente em tecidos alvo e não através do estímulo de outros hormônios.Neuroendocrinologia Comparada A prolactina (PRL) e o hormônio do crescimento (GH) são hormônios protéicos e pertencem à mesma família de hormônios por apresentarem similaridades estruturais. Assim como em peixes. A síntese do ACTH é estimulada pelo hormônio hipotalâmico CRH e tem ação nas células corticotrópicas na glândula adrenal. no metabolismo. influenciando no metabolismo de proteínas e lipídeos e carboidratos. O GH desempenha um papel vital no controle do crescimento do corpo através de seu efeito estimulador na mitose celular. é um mediador químico do sistema imunológico. no entanto. e em mamíferos com a produção de leite. 2007). e na síntese do RNA mensageiro e de proteínas. Além disso. o desenvolvimento e crescimento. o metabolismo. incluindo o desenvolvimento de uma porção ventral depenada e altamente vascularizada durante a incubação dos ovos. Há uma grande similaridade nas propriedades físicas do GH de anfíbios e mamíferos sugerindo uma considerável conservação deste hormônio na evolução dos tetrápodes. Em répteis este hormônio foi pouco estudado.

N-C-P-K-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Sui formes Marsupiai s Não mamíferos Moluscos gastrópodes. 334 Julho/2010 . respectivamente. Choy e Watkins. 2007). 1986. homólogos à ocitocina e a arginina-vasopressina encontrados em mamíferos.I-R. Sequência de aminoácidos C-Y-F-Q-N-C-P-R-G-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-K-G-NH2 C-F-F-R-N-C-P-K-G-NH2 C-Y. aves. 1996). especialmente nos anfíbios Anuros. a proopiomelanocortina (POMC) (Norris.I-R. Os dois hormônios sintetizados na pars nervosa são a mesotocina e a argininavasotocina. são muito semelhantes quimicamente. segundos após a sua liberação (Licht e col. Entre estes dois os hormônios da PN.Hormônios animais nonapeptídeos (Modificado de Norris. anfíbios. mas sua função fisiológica neste grupo ainda é incerta. Tabela 1.I-T.S-N-C-P-LG-NH 2 C-Y-I-N-N-C-P-L G-NH2 C-Y-I-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-S-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-F-N-N-C-P-VG-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-VG-NH2 C-F-V-Q-N-C-P-TG-NH 2 C-Y-F-Q-N-C-P-I-G-NH 2 Grupos de animais Mamíferos Peixes pulmonados. 1984. Estes hormônios estão entre os de ação mais rápida. A coloração nesta classe de vertebrados parece estar sob a influência e/ou controle de fatores vindos do eixo reprodutivo (GtHs e esteróides gonadais). 2007). 1987. sanguessugas Gafanhotos répteis. alguns marsupiais Pei xes ósseos Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Eslamobrânquios Anne lida – minhoca Octopoda A arginina-vasotocina é um hormônio de controle hídrico. O MSH e o ACTH são derivados de uma molécula precursora que é transcrita e traduzida a partir de um único gene. nos quais age para a conservação da água promovendo o aumento da Pág. pois sendo compostos por nove aminoácidos diferenciam-se por apenas dois. 1995.. e da tireóide. Nojiri e col. pois são capazes de produzir uma resposta. a arginina-vasotocina tem a distribuição filogenética mais ampla. acreditando-se ser ele o hormônio original a partir do qual os demais nonapeptídeos evoluíram (Tab.N-C-P-R-G-NH2 C-F. 1). Estes hormônios são. Peptídeos similares a vasopressina Name Arginine vasopressin Lysine vasopressin Phenypressin Arginine vasotocin Lysine conopressin In sect diuretic hormone Peptídeos similares a Ocitocina Name Oxytocin Mesotocin Isotocin Aspargtocin Asvatocin Glumitocin Phasvatocin Valitocin Annectocin Cephal otocin Sequência de aminoácidos C-Y-I-Q-N-C-P-L G-NH 2 C-Y-I-Q-N-C-P-I-G-NH 2 C-Y-I. Acher.N-C-P-K-G-NH2 C-L. Acher e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” produzido nas células da pars distalis das aves já que o lobo intermediário é ausente...

Para estas três classes de vertebrados tem sido descrita a influência da arginina-vasotocina e da mesotocina no comportamento sexual reprodutivo. Norris. tendo o hipotálamo e a hipófise como mediadores fundamentais. 2007). Conclusão O que foi exposto evidencia que a complexidade do sistema neuroendócrino nos vertebrados e a diversidade de respostas fisiológicas e seus efeitos em um organismo é reflexo da integração de todos os sistemas fisiológicos. 335 . mais estudos a respeito dos efeitos destes hormônios hipotalâmicos e hipofisários nestes grupos de vertebrados são necessários para que as modulações de respostas fisiológicas sejam mais bem elucidadas também do ponto de vista evolutivo. estimulando a reabsorção da água na urina. Julho/2010 Pág. pouco se sabe a respeito das funções endócrinas da mesotocina nos vertebrados (Hollis e col. na bexiga urinária e diminuindo o fluxo urinário. A ação da arginina-vasotocina é mais claramente compreendida nos anfíbios. 2005. e parece desempenhar um certo papel na conservação da água também nas aves e répteis.Neuroendocrinologia Comparada permeabilidade da superfície epitelial (a fim de promover a absorção a partir do meio).. Além disso.

336 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

porém. se organizam de forma a permitir a integridade e funcionalidade do sistema do qual fazem parte.br No decorrer da evolução dos organismos. existe uma maquinaria de alta complexidade que garante a transmissão. Os primeiros passos Os antigos anciões gregos acreditavam na influência do cérebro sob a integridade do organismo.mpf@usp. De maneira geral.Neuroendocrinologia Comparada Sistema neuroimunoendócrino Marina Marçola Laboratório de Cronofarmacologia marina. Sua função é a de reconhecer agentes estranhos e montar a resposta apropriada para combatê-los. formar os órgãos. o processamento e a armazenagem da informação. tais como. Já o sistema imune desempenha o papel de defesa do organismo. Cabe a ele receber inúmeras informações das diferentes partes do corpo e integrá-las para determinar a melhor resposta a ser dada para o estímulo recebido. Evidentemente que há muito que se descobrir da particularidade de cada um deles. ritmos biológicos entre outros. Essa crença perdurou por séculos até a descoberta dos antibióticos. crescimento corpóreo. velocidade de reações celulares e transporte de substâncias para o interior das células. você teve mais informações sobre a anatomia e funcionamento do sistema nervoso. sobretudo as funções metabólicas. Juntamente com o sistema nervoso. apesar de manterem suas especificidades. 337 . garantindo a homeostase do organismo (Guyton e Hall. Para que isso ocorra. No Unidade 3 (Neurociências). mas também interagem e modulem entre si. Nesse sentido. dizendo que o estado da mente interferia no decurso da doença. quando se dizia que o tratamento da doença se resumia na eliminação do ‘corpo estranho’ causador da infecção ou inflamação. percebe-se que a organização celular tende a atingir um grau de especificidade permitindo o agrupamento de células capazes de desempenhar funções específicas e assim. o sistema nervoso é responsável pelo controle das demais funções do organismo. o sistema endócrino também é responsável pelo controle de várias funções do organismo. Estes por sua vez. Está também associado ao controle da reprodução. Essa forma organizacional nos permite uma visualização e compreensão anatômica e fisiológica desses sistemas. A Ciência até hoje conseguiu desvendar e descrever os sistemas no decorrer da evolução dos organismos. atualmente tem-se direcionado a compreender a interligação entre eles. enquadram-se os novos estudos direcionados à compreensão do chamado Sistema Neuroimunoendócrino. 2006). Julho/2010 Pág. garantindo que não só operem na sua particularidade.

(1977) mostram que durante a montagem de uma resposta imune são observadas mudanças no decurso temporal de secreção de alguns hormônios (Fig. ultimamente tem-se retornado aos princípios antigos. As células desses sistemas estão equipadas com uma maquinaria capaz de reconhecer sinais mútuos permitindo que essa comunicação multidirecional ocorra. Animais controles. Besedovsky e Sorkin. Animais tratados com salina (barras brancas) não sofreram alterações (Modificado de Besedovsky e Sorkin. Hoje.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Porém. Chesnokova e Melmed. endócrino e imune estão fisiológica e anatomicamente interligados. sugerindo uma comunicação entre esses sistemas. 338 Julho/2010 . Células imunes produzem citocinas que são reconhecidas pelo sistema nervoso o qual é capaz de regular imediatamente essa resposta. 1997. 1B). injetados com glóbulos vermelhos de ratos. Já na década de 1970. Comunicação bidirecional: resposta imune e sistema nervoso central Durante uma resposta inflamatória. (B) A injeção de 5x109 células vermelhas de ovelha aumentou os disparos de neurônios do hipotálamo no quinto dia após o tratamento com o antígeno. Essa comunicação ocorre por sinalização nervosa ou por vias humorais (Sternberg e Gold. mas Pág. 2002). (A) A injeção de 4x109 células vermelhas de ovelhas em ratos aumentou a secreção de corticosterona a partir do quinto dia após o tratamento. Figura 1. células do sistema imune são capazes de produzir e liberar citocinas que sinalizam não apenas células do sistema imune. e novas descobertas abrem precedentes que comprovam a integração do sistema nervoso e endócrino com a efetivação e eficiência da resposta imune (Sternberg e Gold. 1977). não apresentaram mudanças significativas na secreção de corticosterona (barras brancas). já se sabe que os sistemas nervoso. 1A) e na atividade elétrica de neurônios da porção ventromedial do hipotálamo de ratos (Fig. 1997).

1997). células e mediadores do sistema imune são capazes de sinalizar para diversas regiões do organismo. durante um processo inflamatório ela se torna mais acessível. tais como as células endoteliais. 2006). a produzirem mediadores secundários. citocinas produzidas pelo sistema imune são capazes de sinalizar diretamente células do SNC (Sternberg e Gold. seja via sanguínea ou linfática. Além desse contato direto. que revestem o vaso sanguíneo. Além disso. no entanto esse privilégio não acontece de maneira absoluta (Galea e col. garante um grau de privilégio ao SNC. Julho/2010 Pág. tais citocinas estimulam células próximas à barreira. essa barreira impede a passagem de certas substâncias da corrente sanguínea para estruturas do SNC. 2002. 1997. a barreira hematoencefálica sofre uma alteração que permite a passagem de certas citocinas que sinalizam diretamente células do SNC. Fisiologicamente. porém. Assim. como as células endoteliais. essas citocinas são capazes de estimular outras células que estejam fora do SNC e próximas à barreira. 339 . como NO e prostaglandina. 2). De fato..Neuroendocrinologia Comparada também células de outros tecidos e sistemas. os quais agem sobre as células no SNC (modificado de Sternberg e Gold. Figura 2. a produzirem mediadores que atingem facilmente o SNC. Chesnokova e Melmed. Galea e col. tais como prostanglandinas e óxido nítrico (NO) (Fig. 2006). permitindo uma maior comunicação entre elementos da periferia com elementos centrais.. além de outros mecanismos. Frente a uma resposta inflamatória. Por ser um sistema difuso. a barreira hematoencefálica. Até recentemente acreditava-se que o sistema nervoso central (SNC) era provido de um privilégio que não permitia o recebimento e reconhecimento de sinalizações imunológicas.

340 Julho/2010 . Recentemente. Rosas-Ballina e Tracey. como o nervo vago.. Outras evidências sugerem que algumas regiões neurais expressam citocinas e seus respectivos receptores (Chesnokova e Melmed. Por outro lado. Resumidamente. 2009). essa via de resposta é conhecida como via colinérgica anti-inflamatória (Rosas-Ballina e Tracey. 4. Fibras do nervo vago possuem receptores para interleucina-1 (IL-1). como por exemplo. mediador inflamatório produzido por células imunes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” As citocinas são capazes de estimular diretamente nervos periféricos. 2009). levando o sinal rapidamente (na ordem de milissegundos) para o SNC (Sternberg e Gold. percebe-se a existência de um reflexo nervoso que modula a resposta imune. Os dados acima descritos corroboram com a idéia de que o SNC está equipado a receber as sinalizações provindas de uma resposta imune e que isso pode ser feito de forma rápida e eficaz. Borovikova e col. A fim de prevenir danos teciduais durante a resposta inflamatória. 2009). 3. as chamadas pró-inflamatórias. e o estímulo elétrico in vivo deste nervo são capazes de diminuir a liberação de citocinas que favorecem a resposta imune. principal neurotransmissor do nervo vago. Fig. Borovikova e colaboradores (2000) demonstraram que a acetilcolina in vitro. cujo reconhecimento traduz uma sinalização imediata para o SNC (Thayer e Sternberg. Assim sendo. A resposta enviada pelo SNC através de um arco eferente é um exemplo de inibição da produção de mediadores pró-inflamatórios (Fig. como também é capaz de responder prontamente a tais estímulos. 2002) e células progenitoras neurais possuem receptores de reconhecimento de padrões moleculares que desencadeiam uma resposta imunológica (Rolls e col. 1997). 2007). Pág. o fator de necrose tumoral (TNF. existe um arco aferente estimulado por citocinas que leva o sinal inflamatório para o SNC.. 2000). o SNC não apenas recebe. mediadores anti-inflamatórios são importantes para impedir uma resposta exacerbada.

induzido por LPS (15mg/kg). SHAM: animais falso-operados. conhecida pela sua atuação nos mecanismos de estresse.Neuroendocrinologia Comparada Figura 3. os hormônios se encarregam de fazer essa comunicação de forma sistêmica. modificado de Borovikova e col. o qual estimula a liberação do hormônio adrenocorticotropina (ACTH) pela glândula hipofisária. 5. o hipotálamo e outras regiões produzem o hormônio liberador de corticotropina (CRH). Este estimula a glândula adrenal a liberar corticosterona em ratos. VGX: animais submetidos a vagotomia bilateral cervical (D-F. 2000). visto que a liberação de acetilcolina é feita nas terminações nervosas que inervam órgãos e células imunes (Thayer e Sternberg.. Sternberg e Gold. uma vez que caem na corrente sanguínea. Comunicação multidirecional: sistema imune e sistema neuroendócrino Enquanto que a regulação nervosa da resposta imune ocorre de forma local e regional. e cortisol em humanos. Eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (H-H-A): o estresse e a resposta imune O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (H-H-A) é o mais conhecido comunicador entre sistema neuroendócrino e sistema imune. A produção de mediadores pró-inflamatórios por macrófagos estimulados com lipopolissacarídeo (LPS. 100ng/ml) foi inibida pela incubação com acetilcolina nas concentrações indicadas acima (A-C). 2009). a corticosterona inibe a produção de CRH (Fig. Julho/2010 Pág. 1997). 341 . Como feedback negativo. Sucintamente. A estimulação do nervo vago reduziu a concentração de fator de necrose tumoral (TNF) no soro e fígado e o desenvolvimento de choque endotóxico.

modificado de: Pavlov e Tracey. Frente a um estímulo inflamatório. tem-se um efeito de impedir a exacerbação da resposta imune. Essas citocinas estimulam neurônios aferentes do nervo vago que sinalizam o SNC. provavelmente via ativação de receptor (Sorrells e Sapolsky. espera-se que a resposta imune seja amenizada devido aos efeitos anti-inflamatórios da corticosterona. Durante uma situação de estresse. inibir ou reduzir a expressão de inúmeras citocinas pró-inflamatórias assim como de seus respectivos receptores (Sorrells e Sapolsky. porém a corticosterona também pode mediar alguns desses efeitos. 2007). Esse efeito pró-inflamatório gerado em casos de estresse agudo pode ser decorrente da atuação de catecolaminas. impedindo uma exacerbação da resposta e conseqüente dano tecidual. Tal comunicação é denominada via colinérgica anti-inflamatória (A. Classicamente. 2009). A corticosterona tem propriedades anti-inflamatórias e age diretamente em diversos alvos imunes. 2006). Este hormônio é capaz de inibir a proliferação de linfócitos. células imunes produzem citocinas que agem na tentativa de solucionar o problema. Essa sinalização leva a inibição de fatores de transcrição responsáveis pela síntese de citocinas pró-inflamatórias (B. Isso acontece quando um estímulo estressor ocorre logo antes do desafio inflamatório. Este.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 4. estimular a apoptose de neutrófilos e eosinófilos. modificado de Rosas-Ballina e Tracey. 2007). estudos recentes têm demonstrado que em certas situações de estresse a resposta inflamatória é favorecida. quando o estresse é crônico. caso contrário. Porém. por meio de um reflexo eferente modula a função imune. Pág. a corticosterona é conhecida pelos seus efeitos antiinflamatórios. 342 Julho/2010 . As células imunes são reguladas a partir do reconhecimento de acetilcolina (Ach) pelos receptores (α7nAchR).

a corticosterona age sobre a resposta imune como um mediador anti-inflamatório (modificado de Sternberg e Gold. a corticosterona inibe a produção de CRH pelo hipotálamo. 2003). 1997). o pico de produção dessa indolamina ocorre durante a fase escura. classicamente. É um hormônio produzido de forma rítmica pela glândula pineal. a superestimulação do eixo H-H-A leva a uma imunossupressão. A melatonina é uma indolamina sintetizada a partir da serotonina. Figura 5. libera CRH que estimula a produção de ACTH pela glândula pituitária. Eixo imune-pineal: efeitos da melatonina no sistema imune Outro modulador neuroendócrino e inflamatório é a melatonina. mas também é um dos principais comunicadores entre o sistema neuroendócrino e o sistema imune. De maneira geral. O núcleo supraquiasmático (NSQ) Julho/2010 Pág. uma vez que a exposição à citocinas durante o desenvolvimento intrauterino ou neonatal altera a funcionalidade de eixos endócrinos. Este age sobre a glândula adrenal a qual produz coricosterona (cortisol). Além de principal mediador do estresse. através de uma acetilação catalizada pela enzima aril-alquilamina-N-acetiltransferase (AA-NAT) e pela metilação da N-acetilserotonina pela enzima hidroxiindol-O-metiltransferase (HIOMT) (Simmoneaux e Ribelayga. O eixo H-H-A está associado aos processos de estresse. O hipotálamo quando estimulado. 343 .Neuroendocrinologia Comparada A produção de citocinas está também relacionada ao desenvolvimento e amadurecimento do sistema endócrino. Além disso. sobretudo o H-H-A. aumentando a suscetibilidade à infecção (Chesnokova e Melmed. 2002). Como uma resposta de feedback negativo.

2004) e células do colostro humano (Pontes e col. Durante a montagem da resposta inflamatória. tais como TNF. como macrófagos da cavidade peritoneal (Martins e col. Essa produção ocorre de forma não rítmica ao longo do dia em medula óssea (Tan e col. em concentrações compatíveis com sua produção noturna: reduz a adesão de neutrófilos e o aumento de permeabilidade vascular induzido por leucotrieno B4 (Lotufo e col. 2001) e a atividade da sintase de óxido nítrico constitutiva (Silva e col. a produção de melatonina pela glândula pineal é inibida por mediadores pró-inflamatórios.. Existe também a produção extra-pineal de melatonina. Hoje já se sabe que a glândula pineal está equipada para o reconhecimento desta citocina (CruzMachado e col. tais como a glândula pineal. No entanto. no prelo).. sobretudo da camada endotelial. que consiste na ação endócrina e parácrina da melatonina sobre a resposta inflamatória. 2006. o organismo deve responder prontamente independente da hora do dia. a melatonina é sinalizadora da intensidade e duração do escuro. Markus e colaboradores. linfócitos humanos (CarriloVicco e col.. como dito anteriormente. A melatonina noturna e a corticosterona podem estar agindo nesse conjunto de mediadores. durante a fase inicial da montagem de uma resposta inflamatória. Estudos recentes demonstram que a melatonina é capaz de agir sobre alguns aspectos imunológicos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” recebe a informação fótica provinda da retina e funciona como um relógio central.. Dentre suas propriedades cronobiológicas. portanto pela sinalização de ritmos sazonais e circadianos (Simmoneaux e Ribelayga. Porém a integridade vascular. sendo responsável. 2007). Fisiologicamente. trato gastrintestinal de ratos (Bubenik e col. Assim.. sobretudo na camada endotelial.. O ritmo diário de melatonina no sangue. placenta humana (Lanoix e col. Levando em consideração a produção rítmica desses hormônios.. A partir dele. 344 Julho/2010 . rim e baço de roedores e primatas (MenendezPelaez e col. 2006).. é mantida por diversos mediadores que impedem a transmigração desnecessária desses leucócitos para o tecido. 2007). 2007). ocorre exclusivamente devido ao ritmo de produção da glândula pineal (Markus e col.. 1993).. 2008) e células imunocompetentes. é importante que o organismo tenha um mecanismo de resposta imune que não dependa das variações rítmicas. As demais fontes de produção estão envolvidas em ações locais e sua produção tônica pode elevar de forma indiscriminada os níveis plasmáticos tanto de dia quanto de noite. permitindo a montagem de uma resposta rápida e eficiente (Markus e col... Considerando o paradigma acima. onde é observado um aumento de cerca de 100 vezes durante a noite. fígado. 2003). (2007) descreveram o chamado eixo imune-pineal. o rolamento e adesão de neutrófilos à camada endotelial (Lotufo e col. 2007). 1999).. 2004). leucócitos circulantes estão equipados para agir caso necessário. a resposta inflamatória deve Pág. projeções são lançadas para outros osciladores periféricos. 1992).

Além do mais..Neuroendocrinologia Comparada ser controlada para que não haja danos teciduais. Markus e col. 345 . Figura 6. a melatonina noturna age sobre o endotélio inibindo a transmigração de células imunes para o tecido. células imunocompetentes localizadas próximo ao local da injúria são capazes de produzir melatonina em altas concentrações agindo de forma parácrina nas células das proximidades e colaborando com uma montagem anti-inflamatória da resposta (Fig. Em um segundo momento. O Eixo Imune-Pineal descreve a relação da resposta imune com as propriedades da melatonina. visto que é capaz de reduzir a síntese de NO (Tamura e col.. visando uma resposta mais apropriada frente a uma injúria (Fernandes e col. demonstraram que a produção extra-pineal de melatonina desempenha um papel protetor contra danos teciduais. 2009). No entanto. 2007). A corticosterona é capaz de aumentar a síntese de melatonina. Estudos in vitro. o organismo precisa responder prontamente ao estímulo inflamatório independente da hora do dia. células imunocompetentes presentes no local da injúria produzem melatonina que age localmente na tentativa de solucionar o problema (modificado de Markus e col.. Fisiologicamente. 6. citocinas próinflamatórias (TNF) agem sobre a glândula pineal inibindo a síntese de melatonina. Em um segundo momento. 2007).. existe uma alça que interliga as glândulas adrenal e pineal. Na primeira fase da resposta inflamatória. Julho/2010 Pág. 2009).

o hipotálamo produz o hormônio liberador de gonadodropina (GnRH) que age sobre a porção anterior da hipófise. a qual produz e libera o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). 2009). 2006). e. Tomaszewska-Zaremba e Herman. De maneira geral.3 – Eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-H-G): Os hormônios reprodutivos e o sistema imune Para garantir a perpetuação da espécie. Durante a gravidez é necessário uma associação íntima entre estes aspectos. a inibição nos níveis de GnRH e LH durante uma resposta inflamatória pode estar associada ao aumento no nível de corticosterona. 346 Julho/2010 . 3. considerando a integridade dos organismos. Como visto anteriormente. 2005). tais como baço e timo. regulado por diversos órgãos e mediadores endócrinos (ver capítulos acima). essas situações são revertidas. A remoção cirúrgica ou a perda da funcionalidade da pineal acomete a manutenção de diversos órgãos imunes. tais como testosterona ou progesterona. caracterizada como eixo hipotálamo-hipófise-gônadas (H-HG). neurotransmissores.. Existem poucos estudos que interligam os hormônios sexuais com a resposta imune. Resumidamente. como uma doença. Tomaszewska-Zaremba e Herman. 2009). os quais completam a alça de feedback negativo inibindo a produção dos hormônios hipotalâmicos e hipofisários (Guyton e Hall. 7. durante uma resposta inflamatória ocorre a ativação do eixo H-H-A aumentando a liberação de corticosterona. seu papel funcional é comprometido. Já o segundo é a capacidade de garantir sua própria sobrevivência frente a um processo que o ameaça. Para manter a gestação até o final do seu período Pág. Em casos de reposição da melatonina. catecolaminas.. óxido nítrico e prostaglandinas na inibição desses hormônios ainda é contraditório (Fig. Cabe ao sistema imune garantir esse aspecto. e isso é garantido pelo sistema reprodutor. hipófise e gônadas. dois aspectos de relevância devem ser tomados em conta. O tamanho desses órgãos é reduzido nesses dois casos. 2001. O efeito de TNF e IL6. visto que a capacidade proliferativa de diversas células imunes é recuperada (Carrillo-Vicco e col. assim como opióides. A regulação endócrina do eixo reprodutivo é feita por hormônios produzidos pelo hipotálamo. estes são responsáveis pela produção de hormônios nas gônadas sexuais. Outro aspecto importante na intermodulação entre o eixo reprodutivo e o sistema imune é a manutenção do período gestacional. por outro lado as atividades reprodutivas são inibidas. portanto. Dessa forma.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra relação da melatonina está relacionada à manutenção funcional de certos órgãos imunes. O primeiro é a capacidade do indivíduo de deixar descendentes que carreguem seu código genético. à liberação de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias como IL-1β. existe uma correlação entre a incapacidade reprodutiva durante um processo infeccioso (Morale e col.

caso isso não ocorra. Concluindo Vimos que para a manutenção da integridade do organismo é necessário que os sistemas estejam interligados entre si garantindo uma regulação recíproca que visa a continuidade do equilíbrio homeostático. 2001). Quando essa harmonia é rompida é importante que todo o organismo esteja apto a reconhecer os sinais e respondê-los de maneira organizada e eficiente. Durante uma resposta inflamatória as atividade reprodutivas são inibidas devido a diminuição nos níveis de GnRH e LH. catecolamindas. a probabilidade de um aborto é aumentada. 347 . assim como o reconhecimento do estímulo inflamatório (LPS) diretamente pelo SNC podem estar associados à modulação dos hormônios sexuais. 2009). Estudos têm relacionado a participação da progesterona na regulação da resposta imune durante a gestação (Morale e col. porém ainda não estão muito bem descritos (modificado de Tomaszewska-Zaremba e Herman. Endócrino e Imune se organizam e comunicam mutuamente para garantir o perfeito funcionamento do organismo. GABA. óxido nítrico (NO) e prostaglandinas. Figura 7..Neuroendocrinologia Comparada correto é necessário que haja uma supressão do sistema imune para que o feto não seja rejeitado antes do tempo. Estudos indicam que o reconhecimento de citocinas como IL-1β por estruturas do SNC é o responsável. a ação de opióides. Por outro lado. Neste contexto vimos que os sistemas Nervoso. Ainda não está muito esclarecido com é feito essa inibição. Julho/2010 Pág.

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358 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

além de disfunções sobre o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas de teleósteos nas vias de síntese hormonal sistêmica e neural. destacam-se o transporte de Cd e Cu nas brânquias de crustáceos e a interface com os ecossistemas marinho e estuarino. Mn. . a ecotoxicologia é a “Ciência que estuda os efeitos das substâncias naturais ou sintéticas sobre os organismos vivos. a interferência do Al e Mn como possíveis agentes causadores de desequilíbrio metabólico e as implicações para a sobrevivência e reprodução. populações e comunidades. tais como Al. Cu e Cd. Neste módulo serão abordadas as consequências fisiológicas tanto para invertebrados como para vertebrados. resultantes da exposição a alguns metais. que constituem a biosfera. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. Entre os principais efeitos apresentados.br Em sua definição clássica. incluindo assim a interação das substâncias com o meio nos quais os organismos vivem num contexto integrado”.Unidade 6 Ecotoxicologia Aquática Tiago Gabriel Correia Lab. Zn.

360 Julho/2010 .Rocha Oliveira Vieira Revisado pela Dra Renata Guimarães Moreira Capítulo 32 Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais pág. 407 pág. 371 Pág.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Capítulo 29 Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto pág. 381 pág. 395 Tiago Gabriel Correia Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Bibliografia pág. 361 Capítulo 30 Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Revisado pela Dra Flavia Pinheiro Zanotto Capítulo 31 Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap.

Os metais não essenciais. principalmente no fígado e rins. onde apresentam entre 50-75% do total de acúmulo do metal.tabela. onde o descarte de lixo vem crescendo a cada ano. além de dejetos industriais descartados no meio ambiente. são distinguidos entre essenciais e não essenciais. Metais essenciais. acessado em 02/05/2010).oxigenio. por sua vez. Ele pode atingir cursos de água e até mesmo manguezais.com. o cádmio é considerado um metal de transição devido à sua distribuição eletrônica. tendem a assegurar uma concentração fixa do metal dentro de um tecido particular. apesar de muitos autores descrevê-lo como um metal pesado. 361 . marinhos e animais de água doce apresentam a maioria do cádmio acumulado em fígado. geralmente. dúctil à temperatura ambiente. possuindo distribuição eletrônica terminada em 5s2 4d10. Por isso. rim e glândulas digestivas.com O cádmio Os metais. como o cobre e zinco. 2001). sendo encontrado em pilhas e baterias. 1975). O cádmio é um poluente ambiental que aumentou sua importância nos últimos anos devido a industrialização. Dessa forma.40 gramas e número atômico 48. Ele é um dos metais que frequentemente ocorre combinado com o zinco em uma taxa de zinco/cádmio de 1 para 100. não reagindo com o oxigênio do ar e. de maneira geral. a população é contaminada por este metal através da exposição a águas e alimentos contaminados (Jeong e col. não são regulados. não possuindo uma função fisiológica conhecida. devido aos seus processos de detoxificação (Fasset. estão associados com mecanismos bioquímicos. a concentração interna varia de tecido para tecido de acordo com a exposição (Turoczy e col. dentro de limites. ao fumo e à falta efetiva de terapias para a contaminação por cádmio. Suas características típicas são uma coloração branco ou acinzentado. 2000). animais terrestres.Ecotoxicologia Aquática Metal não essencial: o cádmio e seus efeitos Priscila Ortega Laboratório de Fisiologia Comparada priortega218@gmail.. está associado ao zinco. levando em consideração sua massa atômica e todos os seus efeitos nocivos nas células e tecidos em que pode se acumular (http://www. como o cádmio e o mercúrio. então. que. Este metal é tóxico.. sendo um raro elemento que pode ser encontrado acumulado no corpo. Em geral. Julho/2010 Pág. É um bom condutor de calor e eletricidade. Sua massa atômica é de 112.

br/PreVestibu. o cádmio pode substituir o zinco e cobre (por possuírem a mesma valência) como co-fatores ou em funções enzimáticas. marinho.mundofisico. mesmo em ambientes com contaminação por metais pesados. Ele ainda induz a produção de metalotioneínas. Assim. tendo aproximadamente o mesmo raio iônico (0. estando presentes em diversos hábitats: estuarino. seguida por sua eliminação pela Pág.... o cádmio poderia competir com o íon pelos canais de cálcio para entrar nas células. tegumento. Ele pertence ao grupo II B da Tabela Periódica. hepatopâncreas e glândula antenal (análogo ao rim). Ao longo da evolução destes organismos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 1: Localização do elemento químico cádmio na Tabela Periódica (www. proteínas sequestradoras de metais... dulcícola e terrestre. 1999. com valência +2. Os crustáceos Os crustáceos pertencem a um grupo diversificado de organismo. acessado em 02/05/2010). os crustáceos possuem uma variedade de formas de detoxificação celular que reduzem a concentração de metais potencialmente tóxicos encontrados no ambiente. Isso faz com que esse grupo apresente sucesso adaptativo em ambientes tão diversos. Além disso. Essas formas incluem: (1) mecanismos fisiológicos regulatórios que equilibram taxas de excreção e ingestão de metais do ambiente (Ahearn e col. para a regulação e passagem de moléculas e íons entre o meio externo e a hemolinfa (Ahearn e col. (2) mecanismos de sequestro intracelular de metais que envolvem locais de união de alta afinidade com proteínas de baixo peso molecular conhecidas como metalotioneínas.joinville.udesc. 362 Julho/2010 . Monteilh-Zoller e col. 1999). surgiram adaptações especializadas das células epiteliais encontradas nas brânquias. Assim.. 1999).92 Å) do íon cálcio.

. Efeitos tóxicos podem ser encontrados com a acumulação do excesso do metal. pode acumular em tecidos de acordo com a concentração externa do metal. O acúmulo de mercúrio e zinco em alguns tecidos aumenta com o tamanho do caranguejo.. Em espécies particulares.Ecotoxicologia Aquática membrana lisossomal (Ahearn e col. Quando animais de espécies diferentes são comparados. atualmente. nota-se uma diferença significativa na concentração de metal detectada. podem ser capturados e acumulados em invertebrados marinhos através da água ou dieta contaminada (Nuñez-Nogueira e Rainbow. 363 . Acumulação de cádmio em tecidos de crustáceos O cádmio. 1995). 2001). mas aparentemente o sexo dos animais não parece ter importância (Turoczy e col. Por ser moluscos bivalves. como o cádmio.. causando toxicidade inclusive em baixas concentrações (Playle e col. pois são filtradores. e (3) processos de sequestros intracelulares de metais envolvendo vacúolos específicos contendo grânulos metálicos fosfóricos ou sulfurosos que subsequentemente são eliminados por exocitose (Ahearn e col. como é o caso de alterações na resposta imune de mexilhões resultante da exposição ao cádmio. 2005). não sendo evidenciada qualquer regulação interna em animais. desempenham um papel principal na defesa do organismo. Seu sistema imune pode representar o estado de sua saúde. indicando que o acúmulo do metal depende do tipo de dieta do animal (Turoczy e col.. Julho/2010 Pág.. é sobre acúmulo do metal no hepatopâncreas de crustáceos. Os antígenos estimulam a migração de hemócitos. As células imunes. 1993). o tamanho. principalmente hemócitos. Altas concentrações de cobre. o tamanho dos animais e o tipo de tecido são fatores significantes para o acúmulo de metal. o sexo do animal e o tipo de tecido. 2004). a concentração do metal depende de fatores como a espécie de crustáceo estudada. 2000). Outros aspectos importantes devem ser citados.. os mexilhões são organismos indicadores de poluição do ambiente. por não apresentar qualquer função fisiológica conhecida.. possuindo sistema circulatório aberto exposto às flutuações do ambiente e a fatores contaminantes. metais não essenciais. Contudo. seguido pela fagocitose e degradação intracelular do patógeno por enzimas líticas ou pela produção de metabólitos reagentes ao oxigênio (Coles e col. tornando-se metabolicamente disponível e agindo na destruição de processos celulares (Harris e Santos. refletindo o grau de poluição a que está submetido. O que se sabe. 2001). a dieta. enquanto que altas concentrações de cádmio são encontradas no hepatopâncreas. Este acúmulo se dá em maior quantidade quando comparado com as brânquias. 1999). a localização. mercúrio e zinco são encontrados no tecido muscular. Por isso. sendo encontradas altas concentrações destes metais principalmente na carapaça.

Assim. e col. Desse modo. Exceto o cádmio. alguns sistemas fisiológicos desenvolvem uma “resistência” à presença de metais tóxicos (Harris e Santos. com a permanência dos animais em ambientes poluídos. Acredita-se que o contato com o metal se dá através da alimentação e da entrada de água. 1995). principalmente crustáceos. as brânquias.. ao entrar em contato com altas concentrações do metal. Já em Oncorhynchus mykiss. o número de hemócitos circulantes aumenta. Vários estudos mostram que altas concentrações de cádmio podem ser letais para vários animais. As respostas tóxicas dos metais geralmente envolvem aspectos geoquímicos. Assim. podem sofrer danos morfológicos resultando em deficiência respiratória e osmoregulatória. Estudos focam na retirada de cádmio do meio aquático e sua acumulação. assim como em células de brânquias. com a exposição ao cádmio. afetando a biodisponibilidade para os animais expostos (Matsuo. Transporte de cádmio Poucos estudos foram realizados com as células do hepatopâncreas de crustáceos. por isso. como órgão responsável pela respiração. seus processos regulatórios são ajustados para conter os efeitos do metal e para manter a homeostase.. A tabela a seguir retrata os tecidos que sofrem acumulação por metais e a ordem de crescimento deste acúmulo em diferentes caranguejos estudados previamente. especialmente na respiração e osmoregulação. Pág. regulação ácido-base. Isto leva a um aumento na produção de radicais superóxidos pelos hemócitos. mas pouco se sabe sobre seu transporte celular. peixes expostos a metais pesados podem apresentar suas brânquias danificadas e afetar as suas funções respiratórias e regulação iônica.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Assim. Este excesso de radicais superóxidos acarreta na intoxicação da própria célula (Coles e col . que desempenha um importante papel na morte intra e extracelular de patógenos invasivos na célula. possibilitando a ocorrência de efeitos fisiológicos adversos. regulação osmótica e iônica. 2000). 2005). a interação do cádmio com as células ainda é pouco conhecida. longas aclimatações em ambientes com exposição ao cobre podem resultar na restauração da atividade da Na/K ATPase (Harris e Santos. pois a competição e a complexação desses metais pode interferir com a quantidade de metal livre disponível na água. 2000). 364 Julho/2010 .

. observou-se que o cádmio é retirado do meio via canais de cálcio localizados na membrana apical das brânquias (Bondgaard e Bjerregaard. junções ou entradas transcelulares. Em anfípodas. 2004). Em peixes. Em crustáceos. e col. Já no caranguejo Carcinus maenas em pós-muda. 365 . Além disso. como o Na/Ca.. Outro aspecto importante é que o cádmio poderia passar pelo epitélio através das difusões paracelulares. 2001).. a aparente retirada de metal ocorre através das brânquias. além de Julho/2010 Pág. Isso sugere que o cádmio pode entrar nas células epiteliais por trocadores de cálcio. 2005).. Silvestre e colaboradores (2004) estudaram no caranguejo Eriocheir sinensis o influxo de cádmio em brânquias perfundidas. O cádmio causa alterações na homeostase do cálcio. cátions metálicos se acoplam às brânquias e determinam a toxicidade do metal (Matsuo.. observa-se que o cálcio compete com o cádmio e o influxo deste último aumenta com a retirada de cálcio do meio externo. A retirada de sódio do meio parece inibir a entrada de cádmio em brânquias perfundidas de caranguejos (Silvestre e col. envolvendo competições entre os dois íons pelo canal de entrada do cálcio. 2005).Ecotoxicologia Aquática Tabela 1: Resumo dos estudos realizados com diferentes concentrações de metais acumulados nos tecidos em caranguejos (modificado de Turoczy e col. aumentando a toxicidade do cádmio. 2005). e col. o cádmio diminui o influxo de sódio. provavelmente contido nas células de cloreto das brânquias dos peixes (Matsuo..

a acumulação e efeitos tóxicos do cádmio parecem aumentar em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio. as respostas metabólicas e fisiológicas à exposição de cádmio são altamente afetadas pelas condições dos animais experimentais e pelo estágio do ciclo da muda. 1996). Acredita-se que o influxo de Cd é dependente da salinidade. 2005). enquanto a acumulação de cádmio em tecidos e no exoesqueleto em Carcinus maenas se mostra inversamente relacionado com a salinidade Pág. Isso se dá devido à competição entre o cádmio e cálcio por sítios de ligação. e col.. No entanto. trocadores Na/Ca e via Ca-ATPase. Interação do cádmio com a salinidade Vários estudos realizados com peixes e invertebrados marinhos demonstram um alto grau de variabilidade na entrada e acumulação de metais. além das taxas de entrada e retorno de íons que aumenta em caranguejos expostos em meios diluídos (Zanders e Rojas. embora não haja estudos em nível celular para o transporte de cádmio utilizando-se de inibidores específicos para cada tipo de transportador. porém há resultados contraditórios. o cádmio parece entrar em células de crustáceos e peixes via canais para cálcio. Em resumo. Em crustáceos. 366 Julho/2010 . Figura 2: Possível transporte de cádmio em células estriadas de crustáceos eurialinos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” interromper a homeostase de cálcio através da inibição de canais Ca-ATPase basolaterais nestas mesmas células (Matsuo. Por exemplo.

cálcio e sódio. e a inibição dessa enzima poderia potencialmente afetar a regulação de múltiplos íons de maneira indireta. enzima responsável pelas trocas gasosas. principalmente em animais que estão em meios diluídos. muitos estudos mostraram que a acumulação e os efeitos tóxicos do cádmio aumentam em ambientes com baixas salinidades ou baixos níveis de cálcio (Zanders e Rojas. A anidrase carbônica é uma enzima central nos processos integrativos de transporte iônico e osmorregulação em crustáceos eurialinos. 1996). Julho/2010 Pág. em geral. encontram-se caranguejos em localidades marinhas que apresentam alta acumulação de taxas do metal na hemolinfa em relação a aqueles situados em estuários (Zanders e Rojas. A tabela abaixo demonstra concentrações de cádmio encontradas em diferentes salinidades. resultando no acúmulo do metal em órgãos em salinidades menores. a quantidade de Cd livre no meio aumenta. No entanto. Tabela 2: Concentração de cádmio em vários tecidos de caranguejos aclimatados em diferentes salinidades (125 ou 25) e expostos a diversas concentrações de cádmio (modificado de Zanders e Rojas. 1996). Como o cádmio compete com o cálcio por sítios de associação.Ecotoxicologia Aquática externa ou concentrações de cálcio. Quando há diminuição de salinidade. Estes metais. 1996). são fortes inibidores da anidrase carbônica. em baixas concentrações de cálcio há a maior entrada de cádmio. tornando-o mais tóxico por não se complexar com íons de cloreto que ficam indisponíveis em baixa salinidade. 367 . comprovando a competição entre os íons cádmio.

proteinúria e glicosúria em mulheres que viveram muito tempo em lugares contaminados. como a resistência à corrosão. A doença foi denominada de Itai-Itai devido à severas dores nos ossos. causando. 1975). É conhecido que a necrose testicular induzida por cádmio é comum em várias espécies de animais como roedores. Em testículos. estudos bioquímicos e toxicológicos mostraram que pequenas quantidades de cádmio absorvidas normalmente tendem a ser retidas por longos períodos. peixes. Estudos feitos a partir de autopsias mostram uma grande taxa de acúmulo de cádmio. associados a baixas ingestões de cálcio. 1975). zinco e cobre conduziram a um aumento no interesse da toxicologia do cádmio e de como este poderia desempenhar um papel importante na hipertensão (Fasset.. 2005).. ou do complexo zinco/cádmio em pessoas com hipertensão (Fasset. resultando em um aumento da acumulação celular e toxicidade. talvez o zinco. conduziram ao aumento da produção do metal após 1910 (Fasset. o cádmio pode ter uma possível relação com a hipertensão.. estresse da gravidez e lactação (Fasset. Porém. Ratos e coelhos que foram tratados com cádmio também desenvolveram um quadro de hipertensão. muitas pesquisas envolvendo formações de complexos e ligantes foram desenvolvidas para se tentar entender a dinâmica do metal. e várias interações entre cádmio. 368 Julho/2010 . Concluiu-se que a doença teria sido causada por um grande aumento na exposição ao cádmio e possíveis outros metais contaminando a água e arroz. A descoberta de ligantes protéicos específicos no fígado e rim. fígado e testículos. Assim. 1975). sapos. entre outros. Assim. A doença era caracterizada por osteomalacia. esses Pág. Nos rins. Exposição de trabalhadores à fumaça de óxidos foi reconhecida por ser a causa de agudas e. os principais estudos envolvendo mamíferos foram feitos com ratos e camundongos. 2005). Desse modo. às vezes. vitamina D. 1975).. particularmente no rim. Seus efeitos foram encontrados nos rins. O reconhecimento de propriedades metalúrgicas disponíveis para o Cd. A atenção foi voltada para doenças renais e enfisemas em trabalhadores expostos ao pó de óxido de cádmio por longos períodos em fábricas de baterias. físicos japoneses estudaram uma única doença que afetava mulheres idosas. o cádmio pode ser transportado de forma oportunista para o interior de suas células endoteliais vasculares. fatais edemas pulmonares. talvez. o cádmio seria transportado de forma oportunista para o interior de células endoteliais vasculares do testículo resultando no aumento da acumulação e toxicidade do íon nas células (Dalton e col. Dados sugerem que o gene Cdm produz o ZIP8 responsável pelo transporte de íons como manganês e.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Interação do cádmio com órgãos de mamíferos Atualmente tem-se considerado o cádmio como um contaminante ambiental. os eventos. Nesta época. Atualmente. e formação de células cancerosas (Dalton e col. Os eventos celulares que precedem a toxicidade testicular induzida por cádmio indicam que células endoteliais vasculares são danificadas primeiramente.

e col. pois isto poderia estar relacionado com o fumo. Já os efeitos crônicos da toxicidade por cádmio manifestam primeiramente como inflamações granulomatoses. quando níveis de cádmio acumulado no córtex renal alcançam taxas de 200 ppm (Fasset.. o sexo e patologias renais (Fasset... As junções gap são comunicações intercelulares que regulam a homeostase celular através da passagem de moléculas solúveis em água de baixo peso molecular. 2000). 2000). Além disso. sendo importantes na regulação da proliferação celular. hiperplasia nodular e apoptose (Jeong. que forma a rede de microfilamentos das células e são altamente associadas com as junções gap. Atualmente. a idade. 2000). Essa alteração ou até mesmo inibição das junções gap pode acarretar o desenvolvimento de tumores. Assim.. e col. ou seja. destruição das junções ou até mesmo na sua internalização (Jeong e col. o principais danos nos rins se dão nos túbulos renais associados com numerosos tumores em animais de laboratórios e humanos (Jeong.Ecotoxicologia Aquática resultados não foram confirmados já que outras pesquisas evidenciaram que o cádmio poderia não participar da hipertensão. e col. uma modificação na proliferação e morte celular. assim. o cádmio pode induzir uma disfunção na homeostase tecidual. Julho/2010 Pág. 1975). desenvolvimento embriônico e carcinogênese (Jeong.. No fígado. 2000).. Os danos morfológicos refletem nos altos níveis de enzimas serosas do fígado como: alanina aminotransferase (ALT) aspartato aminotransferase (AST) e sorbitol dehidrogenase (SDH). Os danos causados no fígado através da exposição aguda ao cádmio são caracterizados por apoptose e necrose. Elas consistem na reunião de proteínas conhecidas como conexinas. Ela é considerada por ser o primeiro sinal de disfunção nos túbulos renais.. o cádmio pode causar o rompimento da actina do citoesqueleto. Isto resulta na mudança estrutural das junções intercelulares. Isso indica que as junções gap são alteradas ou inibidas pelo acúmulo de cádmio. diferenciação e morte.. A exposição crônica de cádmio também induz a morte celular (apoptose) e a proliferação celular (regeneração celular e hiperplasia nodular).. Outro aspecto relacionado com a patologia renal é a proteinúria. 2000). 1975). proliferação celular. O rompimento da homeostase do tecido pelo cádmio sugere que as junções gap são alteradas pelo cádmio (Jeong e col. O fígado é um dos principais órgãos alvos da toxicidade do cádmio. o cádmio induz a morte celular (apoptose e necrose) e a proliferação celular (regeneração celular) através da exposição aguda. 369 .

370 Julho/2010 .VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág.

2000). Sua ubiqüidade é “governada” por suas habilidades de formar uma gama grande de coordenadas geométricas e estados de redox. formando componentes integrantes de proteínas envolvidas em todos os aspectos das funções biológicas. Nas águas não poluidas. 1999).. 2000). depende do grau de adaptação de animais aquáticos à água salgada.. Metais de transição (Cu. Mn) são essenciais para a saúde da maioria dos organismos. onde as brânquias de truta arco íris podem apresentar aumento de 10% no acúmulo de cobre em intervalo de poucas horas de exposição e simultaneamente há registro de aumento da concentração de cobre no sangue destes animais (Campbell e col.br Introdução Durante a evolução. Metais traço acumulados requerem detoxificação fisiológica. mas todos eles possuem potencial para causar efeitos ecotoxicológicos (Rainbow. 1999). Foi concluído que metais traço dissolvidos podem também ser tomados de acordo com o habitat e por último. No entanto.. Co. 2006). que permitem a Julho/2010 Pág. a situação é muito diferente em águas poluídas com cobre. tipicamente pela ligação com grânulos inorgânicos de alta afinidade. Zn.Ecotoxicologia Aquática Transporte de Metais Essenciais em Organismos Aquáticos: o cobre e o zinco Marina Granado Laboratório de Fisiologia Comparada de Crustáceos marinagranado@usp. organismos aquáticos e terrestres desenvolveram diversas estratégias para manutenção do equilíbrio das relações de íons de metais presentes e viáveis no meio ambiente. salobra ou doce (Rainbow. os animais obtêm muito do cobre necessário pela absorção através da alimentação e consequentemente a tomada de cobre pelas brânquias é a de menor contribuição para o total de cobre presente no organismo como um todo (Campbell e col. quanto através da dieta. incluindo os definidos como metais pesados. oriundos da atividade industrial e mineira são descartados nas águas costeiras e estuarinas em diversos locais. Muitos metais traço atuam como metais essenciais no metabolismo. 371 . 2000). como metalotioneína ou ferritina (Rainbow. frequentemente com base fosfato. ou por ligação com uma proteína detoxificadora. As células selecionam íons necessários para o desenvolvimento e excluem aqueles que não o são e posteriormente mantém a concentração interna dos íons em situação ótima (Perales-Vela e col. 2000). Fe. Metais são tomados e acumulados por organismos aquáticos. Se. Metais traço. Os derivados descartados antropogenicamente podem acumular em sedimentos locais (até 5 vezes mais do que na água) e os invertebrados que habitam tais sedimentos estão potencialmente expostos às altas concentrações de metais (Harris e Santos. tanto através do meio em que vivem.

2000). hepatopâncreas. que é análoga aos rins (Alcorlo e col. http://resweb. “limpeza” de radicais livres. músculo e intestino. Possui ainda a capacidade de concentrar metais oriundos da hemolinfa e do trato digestório e estocá-los em vacúolos intracelulares das células F e R e este é o maior órgão de detoxificação ao lado da glândula antenal.Vista ventral de um crustáceo. 372 Julho/2010 . Brânquias Pág. onde é visualizado estômago. absorção e estoque de alimento como tambem detoxificação e estoque de metais pesados. estabilidade protéica. bem como transcrição de DNA (Bury e col. protegendo os caminhos bioquímicos do organismo dos químicos provenientes do ambiente (Rainbow. 2006).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” esses elementos a interação com muitas entidades celulares. neste texto (Rainbow.edu/sdunbar/students/epidermis_removed.jpg (04/05/2010). atuando ambiguamente na respiração celular. A cutícula impermeável atua como um local para enquanto que grandes malacostracas podem restringir a permeabilidade para regiões selecionadas. e ação de diversas enzimas celulares. Abaixo da cutícula. a membrana celular do epitélio consiste numa barreira para entrada de metais. Pequenos crustáceos são tipicamente permeáveis como um todo.. como funciona para entrada de químicos para qualquer célula. transporte de oxigênio. A superfície dos crustáceos é coberta por uma cutícula secretada pelas células do epitélio exterior. como as brânquias. 2003). 2000).llu. absorção passiva de metais pesados para o corpo do crustáceo e não serão considerados Hepatopâncreas O hepatopâncreas está envolvido numa variedade de processos fisiológicos que incluem secreção de suco digestivo.. Figura 1 .

Em animais marinhos. as brânquias são imediatamente expostas ao ambiente externo e consiste no primeiro órgão exposto aos poluentes quando a água está contaminada (Wu e Chen. Sendo a primeira proteção nos animais aquáticos. 2000). as brânquias são cruciais para respiração.jpg (04/05/2010).jpg/250pxTuna_Gills_cut_out.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Tuna_Gills_cut_out. Membrana celular A membrana celular é uma bicamada de lipídeos. Figura 1: Brânquias de um peixe retiradas por completo.wikimedia. Julho/2010 Pág.. as brânquias são um órgão muito importante para a manutenção da vida. como as trocas de oxigênio e íons nas brânquias. Dessa maneira. A membrana celular também contem diversas proteínas e estas são essenciais para passagem através da membrana de moléculas hidrofóbicas e íons. essas alterações afetam a fisiologia do animal. Os prejuízos estruturais ocorridos devido à presença de cobre inclui a “demolição” das estruturas celulares e anormalidades das barreiras de absorção e transporte. 373 .2004). incluindo metais traço (Rainbow. O epitélio branquial é basicamente uma camada única de células e a habilidade adaptativa para se “recuperar” dos danos causados pelos metais pesados é restrita (Yang e col. excreção.Ecotoxicologia Aquática As brânquias representam um órgão vital para organismos aquáticos com função indispensável no transporte iônico. Para muitos animais aquáticos. 2007). http://upload. com grupos hidrofóbicos direcionados para o lado interno e grupo hidrofílico para o lado externo da camada. balanço acido-base e regulação iônica e osmótica (Wu e Chen. 2004).

374 Julho/2010 . Já no citosol. (d) endocitose. (b) transporte através de canais de proteínas onde os íons de metal são transportados por gradientes hidrofílicos.. onde há o engolfamento de partículas e sua transferência para vesículas intracelulares. 2005).. 2008. Várias possibilidades de rotas têm sido propostas para o transporte de metais traço através da membrana citoplasmática. cádmio e cobre. Modificado de: Freire e col. o ion metal precisa ser apropriado quimicamente para entrar pelo canal da membrana ou ligado em proteínas da membrana. Geralmente são considerados biodisponíveis quando estão na forma livre e na forma hidratada. bem aqui! Diversos estudos com tecido epitelial indicaram que a membrana plasmática.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Figura 2: Desenho esquemático de um filamento branquial de crustáceo. tanto quanto atuam no transporte de cálcio. mitocondrial e lisossomal possuem proteínas que atuam no transporte de cálcio e de metais pesados como zinco. Não entendi Essas duas últimas rotas são provavelmente de menor importância para a tomada típica de metais pesados da solução Pág. Desse modo existem mecanismos regulatórios da atividade intracelular que pode ser interrompida ou até mesmo abolida na presença de concentração significativa de metais pesados (Mandal e col. o metal se liga a uma proteína e é carreado cineticamente. (Rainbow. 2000). (c) difusão passiva do metal lipossolúvel (não polar) através da bicamada lipídica. Fora da membrana apical. São 4 rotas principais: (a) transporte mediado por carreadores onde o metal se liga à membrana que possui uma proteína e é transportado através da membrana.

Em sistemas de mamíferos o cobre é transportado por subfamílias P-ATPases e a CuATPase tem uma sequência de ligantes de metal que é análoga entre bactérias e seres humanos.gif) (04/05/10) Cobre A natureza redox do cobre é utilizada em um grande número de processos enzimáticos. as propriedades redox do cobre podem causar rapidamente a geração de oxigênio reativo quando os níveis celulares de cobre são elevados (Grosell e Wood.mec.2002). A tomada de cobre pelas brânquias envolve diversas etapas: (a) ligação inicial do cobre com a superfície branquial. 2007). implicando desse modo que seja a mesma sequência conservada para os peixes Julho/2010 Pág. No entanto. 375 . demonstrando o glicocálice. incluindo muitas das enzimas necessárias para o crescimento e desenvolvimento. No entanto. celular e tecidual (Yang e col.es/biosfera/alumno/2bachillerato/La_celula/imagenes/membrana_pl asmatica_bort. (b) movimento do cobre através da membrana apical e entrada nas células branquiais. proteínas transmembranas. (d) movimentação do cobre vindo das células para o sangue (Campbell e col.. 1999). incluindo a catalização pelo citocromo c mitocondrial.. o qual faz do cobre um elemento essencial para as células aeróbicas dos organismos. o excesso de cobre é toxico e causa efeitos biológicos adversos em níveis molecular.Ecotoxicologia Aquática Figura 4: Esquema da membrana celular. O cobre é um dos nutrientes essenciais necessários para a síntese de hemocianina nos crustáceos.cnice. O cobre é requerido para funções biológicas normais de diversas proteínas. (c) “trafego” intracelular de cobre para a membrana basolateral. (http://recursos. lados hidrofílico e hidrofóbico.

um dos caminhos de tomada. o aumento da excreção de água é associado com a concomitante perda de íons como sódio e cloreto na urina (Rainbow. estudos toxicológicos mostram que elevadas concentrações de cobre na água pode levar ao aumento de cobre. O sódio claramente inibe a tomada de cobre e o inverso também é verdadeiro e uma resposta similar foi descrita para o zinco (Grosell e Wood. particularmente nas brânquias e no fígado. posteriormente potencializando a entrada de metais. em relação ao meio. sugerindo que as brânquias possam servir como rota de tomada de cobre (Grosell e Wood. Isso sugere que a rota sensível ao sódio pode ser modulada pelo status interno de sódio. (Rainbow. em adição aos níveis aquáticos de sódio (Grosell e Wood. 2000).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Campbell e col. O crustáceo responde tipicamente ao aumento da entrada osmótica de água pelo aumento da produção urinária e a urina é isotônica em relação à hemolinfa. e desse modo. No entanto. Desse modo. 2000). 2000). 1999). localizada basolateralmente é a principal responsável pela tomada de cobre da água (Campbell e col. então a água entra osmoticamente (Rainbow. sendo sensível ao sódio. a homeostase de cobre nas brânquias tem sido observado até recentemente. 1999).2002). uma redução na salinidade poderá causar aumento da tomada de cálcio. (b) segunda pela tomada continua de cobre . Kamunde (2001 e 2002) demonstrou duas rotas diferentes para tomada de cobre pelas brânquias: (a) na base da competição da tomada de cobre pela baixa concentração de sódio no ambiente e a sensibilidade da proporção da tomada de cobre por bafilomicina A1.2002). 2000).. Esse tipo de tomada esta potencialmente sob controle fisiológico Alguns crustáceos podem ainda alterar a permeabilidade em resposta No caso do crustáceo estuarino ser exposto à baixa salinidade. uma vez que na presença de altas concentrações de sódio no ambiente (1-20mmol/L).2002). como cobre e zinco via rotas de tomada de cálcio. Mudanças na salinidade não só causam alterações físico-químicas no meio como também pode haver efeito na fisiologia do crustáceo (Rainbow. os fluidos corpóreos são hiperosmóticos à baixa salinidade. 2000). sendo insensível ao sódio (Grosell e Wood. Enquanto que o requerimento de cobre em peixes é claramente obtido pela dieta através da ingestão. A completa inibição da tomada de cobre pela aplicação de 50umol/L de vanadato sugere que P-ATPase.2002). e talvez assim fazer mudanças nas proporções da tomada de metais Pág. 376 Julho/2010 .. Dependendo da concentração de sódio no ambiente. a tomada de cobre através da rota sensível ao sódio é de 2 a 5 vezes maior que através da rota insensível ao sódio. aparenta ser através de canal apical de sódio. (Rainbow.

De acordo com o tempo de exposição. Diversos estudos recentes em truta cor de arco íris Julho/2010 Pág. Em ambientes poluídos. Zinco O zinco é homeostaticamente regulado.. Geralmente. 377 . No entanto. os peixes são continuadamente expostos ao ambiente rico em zinco. É conhecido que a exposição de crustáceos às águas poluídas resulta em prejuizos branquiais que pode resultar em danos para a função respiratória.Ecotoxicologia Aquática Essa regulação da tomada de cobre é aparentemente mediada por um ou mais carreadores de cobre específicos. as metalotioneínas atuam na detoxificação de metal. a concentração de metalotioneína em organismos aquáticos é baixa.. Por ser um micronutriente importante para os organismos aquáticos incluindo os peixes.2005). O transporte de zinco e cálcio através das brânquias ocorre através de uma competição simples e há correlação evidente de que as células cloreto participam da tomada de zinco. 2000). 2007). retornando ao normal após 8 horas na maioria dos casos (Rodriguez e col. em todos os casos. Para a fase aquosa do zinco. ATPase basolateral ou em ambos (Wood. Então.1992).2002).. Em peixes. 2007). a glicemia atingiu pico após 3 horas do inicio da exposição. Os mecanismos de regulação do zinco são aparentemente diferentes. em contraste à tomada que ocorre pelo canal apical de sódio primariamente envolvido na manutenção da homeostase de sódio (Grosell e Wood. o que reflete a redução da tomada branquial de zinco identificado como parte importante do mecanismo de aclimatação (McGerr e col. 1998). 2007). talvez em um nível mais preciso do que o cobre.2002). tanto pela água quanto pela dieta. as brânquias e o intestino são os melhores “pontos” de absorção (Zhang e Wang.2005). De todas as concentrações testadas de metais essenciais. Estudos anteriores mostram que a tomada de zinco através da dieta é a rota predominante de acúmulo do metal oriundo do ambiente em peixes marinhos (Zhang e Wang. mas pode ser tóxico por interferir na tomada de cálcio e no seu metabolismo quando o zinco estiver em concentrações que excedam o normal (Rodriguez e col. cobre e zinco produzem hipercalcemia. como acúmulo interno negligenciável.. Ainda é desconhecido onde esta competição ocorre: nos canais apicais. Um mecanismo similar do transporte de cobre através da membrana basolateral pode estar envolvida na regulação da tomada de cobre (vanadato Cu-ATPase) (Grosell e Wood. a síntese pode ser aumentada quando animais estão expostos à altas concentrações de metais. o zinco pode ser assimilado através da fase aquosa ou da dieta. é possível que os danos branquiais resultem em prejuízos para a osmorregulação (Spicer e col. seqüestro e regulação (Yang e col. Como as brânquias de crustáceos também estão envolvidas na osmorregulação e ionorregulação..

aumento da quantidade de células para repor células efetoras e para que haja processo de detoxificação. poderão acumular quantidades significativas de zinco e este será retido com o passar do tempo. por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” tem indicado que as mudanças nas tomadas de metal e nos processos fisiológicos ocorrem após exposição ao zinco (Zhang e Wang. Tudo isso gera custo substancial e essencial para a sobrevivência do animal. onde as lagostas utilizam como habitat (Engel e col. Já a longo prazo. O metabolismo de zinco nas lagostas e no siri azul são similares e aparentam ser regulados. mudanças compensatórias. O zinco também é abundante nos sedimentos. 2001). incluindo controle do fluxo metabólico. 2006). A água contaminada com cobre e zinco também interfere na função respiratória das brânquias dos crustáceos. 2004). Foi observado também a redução do consumo de oxigênio e performance cardíaca. indução da supressão de enzimas e seleção natural das enzimas variantes.. e assim na diminuição da performance respiratória.. Embora em algumas espécies possam ocorrer altas concentrações de metal e ainda manter continuo e funcional o processo fisiológico pode ocorrer uma alteração nos processos de excreção e formas de detoxificação (Harris e Santos. consistem num processo de competição entre as espécies para que haja continuidade na reprodução e desenvolvimento no ambiente contaminado (Harris e Santos. 2000). é uma espécie que apresenta diversos caminhos/rotas para bioacumulação de metais e outros poluentes. 2000). incluindo reparação dos danos celulares. mas se as lagostas forem alimentadas com altas concentrações de zinco através das ostras. 2000). ingestão de água e sedimentos e o consumo de organismos já com acúmulo de metais (MoralesHernandéz e col. resultando na redução da transferência de gases e na sua eficiência. Existe um custo fisiológico para reestabelecer as condições normais. absorvendo pela superfície branquial. 378 Julho/2010 . Pág. 2000). A Na/K-ATPase branquial demonstra a redução sugerida da exposição aguda ao cobre em Carcinus maenas e esta redução é acompanhada por uma severa depleção do sódio na hemolinfa (Harris e Santos.2005). A lagosta.. É nítido que animais que habitam áreas cronicamente poluídas fazem ajustes em seus processos regulatórios para contra-atacar esses efeitos dos metais e assim manter a homeostase (Harris e Santos. Estes organismos podem “captar” metais do sedimento onde habitam e da dieta que consomem (Perales-Vela e col. A alta disponibilidade de comida proveniente de esgoto pode ser uma razão para a presença de espécies bênticas (tais como moluscos e lagostas) e presença de peixes nos sedimentos.

é comum encontrar altos níveis de metais no exoesqueleto. uma proteína de ligação rica em cisteina que tem além de tudo propriedade detoxificante e pode ser sintetizada quando se torna necessário. 2002). Elevações do nível de cálcio na água geralmente protegem contra metais. quando os níveis de metal estão muito altos. desde que utilizem a mesma via de tomada (Niyogi e Wood. 2006). da poluição por metais pesados (Yang e col. Cálcio em interação com os metais cobre e zinco Há evidências de que a concentração de cálcio afeta a tomada de cobre e zinco no caranguejo Carcinus maenas. Resultados indicam que a exposição ao ambiente aquático rico em cobre leva à mudanças nas microestruturas das brânquias e do hepatopâncreas de Eriocheir sinensis em termos de dose resposta (Yang e col. a permeabilidade intertegumental que diminui conforme o gradiente de salinidade vai do ambiente marinho para o estuarino e para água doce e a tomada do metal acompanha este “decaimento” (Rainbow. 2000). Na membrana basolateral. 2006). 2006). Mas por outro lado. transporte por canais de proteínas... ou seja. É razoável assumir que o aumento do influxo de zinco branquial ocorra devido ao aumento do influxo do cálcio. 2006). Além disso. respondendo a mudanças na osmolalidade do meio (Rainbow. difusão passiva de metais lipossolúveis e endocitose (Alcorlo e col.1992). 2007).Há ainda uma resposta fisiológica adicional nos crustáceos que podem afetar a tomada de metais traço. a tomada de zinco pelo decápoda Palaemon elegans não aparenta ser seguido por nenhuma rota de outros íons.. A tomada em nível da membrana celular é governada por um transportador específico. independentemente do efeito da salinidade e a tomada de cobre e zinco pelo anfípoda Gammarus pulex é ao menos parcialmente explicado pela tomada do metal via rota de cálcio. o zinco não aparenta ser transportados pela Ca-ATPase porque a inibição é tanto competitiva quanto não competitiva e o zinco também não é transportado por mecanismos dependentes de sódio (Marshall. 2007). gerando inibição ou redução da entrada de metais como cobre e zinco nos peixes (Wood. a metalotioneína.. A metalotioneína tem como proposta ser usada como biomarcador para o estudo da evolução Julho/2010 Pág. mas tem sido postulado que este fato é principalmente relacionado mais com adsorção do que bioacúmulo (Alcorlo e col. 2000). 379 . Em organismos expostos a metais pesados.Ecotoxicologia Aquática Alsop e Wood (1999) demonstraram que o cálcio presente na água reduz a tomada de zinco (em 3 horas) e isso também foi demonstrado por Barrom e Albeke (2000) em trutas (Niyogi e Wood.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Pág. 380 Julho/2010 .

sendo assim para avaliar os impactos dos poluentes na qualidade ambiental é fundamental que se avalie os efeitos que estas substâncias causam nos organismos vivos destes ecossistemas (Wells e col. nutrição. antagônicos. No ambiente aquático. 2006.Rocha Oliveira Vieira Lab. pois dados como estes não refletem os efeitos reais causados a biota (Barsiene e col. de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos vroliveira@usp. de potenciação ou adição (Zagatto e Bertoletti. 2006). respostas endócrinas às mudanças ambientais e alterações em padrões imunes. frente a alterações antrópicas no meio ambiente. A influência humana nos sistemas naturais tem aumentado continuamente. 381 . metabólicas e/ou bioquímicas (Araújo. relações térmicas. 2006). levando os organismos muitas vezes a ficarem expostos a efeitos subletais que provocam consequências imprevisíveis como alterações nas funções celulares. O monitoramento e a avaliação do risco dos ambientes impactados não podem ser baseados exclusivamente em análises químicas de amostras ambientais. as ações antrópicas são muito evidentes. indicando que muitas substâncias tóxicas podem interagir com o organismo como um todo (Wikelski e Cooke. estes parâmetros podem ser utilizados como biomarcadores. 2006. Mozeto e Zagatto. que possam causar ou contribuir para um declínio populacional. sendo que.br A fisiologia comparativa está intimamente relacionada à biologia da conservação. Neste estudo está incluído o organismo e suas interações com o meio ambiente tais como: metabolismo. A diversidade e complexidade destes poluentes resultam em diversos efeitos biológicos e estes efeitos estão relacionados com a composição química de cada poluente despejado no ambiente aquático.). 1998). Os estudos em ecotoxicologia vêm se baseando nas avaliações de riscos ambientais ou ERA (Ecological or environmental risk assessment) causados por poluentes a fim de definir os efeitos adversos sobre os ecossistemas utilizando metodologias científicas Julho/2010 Pág.Ecotoxicologia Aquática Efeitos da toxicidade de metais no metabolismo de organismos aquáticos Vanessa Ap. 2001). sendo assim. justificando a importância de investigar os aspectos antrópicos que causam estresse em animais em seus sistemas naturais. As águas continentais encontram-se contaminadas por uma grande variedade de poluentes cujas fontes principais são os efluentes líquidos de origem doméstica e industrial. dentre estes estão os poluentes das classes dos metais e considerando que há mais de um contaminante presente nas águas pode haver interação entre eles com possíveis efeitos sinergéticos. a fisiologia da conservação é definida como o estudo de respostas fisiológicas de organismos.

tais como sua forma química. muitos fatores afetam os efeitos dos metais pesados. são importantes no metabolismo. associada a efluentes líquidos de origem doméstica e industrial que muitas vezes não recebem o tratamento adequado. 1999.. 2005. cobre (Cu) e manganês (Mn). 1998. além disso. 1999).. via de entrada no organismo. existem metais como chumbo (Pb).. no litoral e rios próximos a centros urbanos. Wannaz e col. 2002) mas... cádmio (Cd) e mercúrio (Hg). (Chen e col. o efeito pode ter ido além do ponto onde possa ser revertido através de ações de correção ou redução dos riscos (Oost e col. e são frequentemente transportados ativamente através das membranas (Tamás e Wysocki 2001. McGeer e col.. considerado micronutriente essencial. Celik e Oehlenschager. idade e espécie do animal (Kostial e col.. 2003). 2000) atuando como cofator enzimático em vários processos biológicos.. em baixas concentrações. muitas vezes. estão presentes em baixa concentrações nos ambientes aquáticos (Ash e Stone. 1997. 1997). 2006). porém os efeitos deletérios sobre as populações. Van Ho e col. são difíceis de detectar dado que muitos desses efeitos tendem a se manifestar apenas após longos períodos de tempo e quando finalmente tornar-se claro. além de estar envolvido no processo de transferência de elétrons na cadeia respiratória (Watanabe e col. em altas concentrações pode vir a ser prejudicial ao organismo.. Metais Os metais. Pág. oxidase e superóxido dismutase (Watanabe e col. por outro lado. 2003). Alguns metais. Neste capítulo veremos alguns dos metais que se tornam tóxicos quando em excesso e os efeitos dessa toxicidade observados em alguns grupos de animais aquáticos.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Depledge e Fossi. 1994). 1978.. Camakaris e col. participando de processos fisiológicos. Apesar disso. 1997. 2004) e à poluição. 382 Julho/2010 . zinco (Zn). são os chamados metais essenciais.. Órgãos como fígado. MadsenMoller. os metais podem ser encontrados em concentrações muito mais elevadas. normalmente. provavelmente devido à entrada de sistemas fluviais (Morillo e col. que não são essenciais aos organismos e podem alterar o estado fisiológico. Nessa classe destacam-se os metais ferro (Fe). em elevadas concentrações podem se tornar tóxicos.. 1991) Metais essenciais : sua importância no organismo Cobre O cobre é um metal de transição. cérebro e coração contêm quantidades consideráveis de cobre (Watanabe e col. ele é um fator requerido para a função celular (Karan e col. Camakaris e col. 2004) em reações redox em enzimas tais como citocromo. duração da exposição..

1990. age também como transportador de oxigênio na hemoglobina (Maham e Arlin. regulação de glicose no sangue e energia celular. em seu estado divalente. apesar de ser um dos mais abundantes na crosta terrestre. isomerases e ligases. 1987). replicação celular e do reparo e crescimento dos tecidos (Murakami e Hirano. pode acarretar na sua solubilização e capacidade de se ligar a diversas macromoléculas (Lydersen. Segundo Teien (2006) o pH tem um forte controle na especiação de Julho/2010 Pág. PO-. descarboxilase e manganês superóxido desmutase. Além desta importante função como co-fator enzimático o manganês também está envolvido na função do sistema imune. tem papel fundamental em vários processos biológicos como no metabolismo de aminoácidos. catalases e peroxidades. Freeland-Graves e Llanes. transferases. digestão e mecanismos de defesa contra radicais livres (Keen e col.1994). Em baixas concentrações são importantes no processo de neurotransmissão e ainda participam da estrutura (Smart. no entanto. O. mas em associação com outros compostos como. este metal mostra-se altamente tóxico principalmente ao sistema nervoso (Archibald e Tyree. fosfoenolpiruvato. glutamina sintetase. Zinco O zinco participa do metabolismo de ácidos nucléicos. 1990a). Alguns autores citam a participação deste metal na função das metaloenzimas como arginase. liases. além disso. seu excesso pode ocasionar aumento na produção de radicais livres (Schuartsman. Após ser transportado nas células e oxidado intracelularmente por reação com superóxidos a um estado trivalente. H. lipídios. reprodução. 1985). O alumínio não é muito solúvel em água. de receptores excitatórios de glutamato. Metais não essenciais Alumínio O alumínio é um metal não essencial e muito tóxico ao organismo. 383 . OH-. 1995). SO-. há muitas enzimas que são manganês-dependente incluindo as oxidoredutases. F-.. hidrolases. por exemplo. dos citocromos. Si. Lydersen. no entanto são tóxicos quando em altas concentrações Ferro O ferro faz parte de muitos processos enzimáticos de óxido-redução. 2004). as concentrações deste metal em águas doces são notavelmente baixas.1999. 2008).Ecotoxicologia Aquática Mangânes O manganês. proteínas e carboidratos.

1989) A absorção intestinal e pulmonar são as principais rotas de entrada de metal no organismo. 1984). Wilkinson e Campbell.. 2008). este metal se acumula nos rins. A Transferência de metais pesados através das membranas tem sido estudada em vários tipos celulares. 1980. os mecanismos envolvidos freqüentemente apresentam propriedades características de cada célula e devido à sua elevada afinidade por proteínas e muitas outras moléculas biológicas. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” metais podendo determinar a hidrólise. Chumbo As concentrações de chumbo geralmente são baixas em águas continentais. Apesar de muitas semelhanças. No intestino a absorção envolve células apicais e basolaterais das membranas e Pág. e o alumínio na forma de hidróxido. via captação de partículas em suspensão (ingestão) e através do consumo de alimentos contaminados. penetrando facilmente pela superfície branquial (Shi e Haug. 1977). 1986). 1993). Mercúrio O mercúrio é um dos metais mais tóxicos aos seres vivos. Cádmio O cádmio é um metal não essencial e geralmente tóxico para os organismos. 2006). Mecanismos de toxicidade e avaliação Os produtos químicos hidrofóbicos podem acumular-se nos organismos aquáticos através de diferentes mecanismos: via captação direta da água através da pele ou brânquias. fígado e cérebro e geralmente seu grau de toxicidade varia com o tempo de exposição a que o organismo é submetido (Bastos e Nefussi. agregação. torna-se rico em cargas positivas. 384 Julho/2010 . cada uma com seu grau de toxicidade (Guzzi e La Porta. os metais pesados não existem no sistemas biológicos na forma livre ou desvinculado (Bevan Foulkes. A porta de entrada destes compostos nos peixes é através das brânquias. precipitação e competição de prótons por locais de ligação disponível (Smith. este metal afeta a estrutura de ácidos nucléicos e atividade de muitas enzimas e neurotransmissores (Cooper e Manalis. pode ser encontrado em três formas: elementar. pois os fosfolipídios e as glicoproteínas conferem à membrana externa das brânquias sítios de carga negativa (Wold e Selset. A forma inorgânica é a fonte mais significativa de contaminação aquática e seus efeitos estão diretamente relacionados a respostas adversas do sistema nervoso central (Senger e col. inorgânico e orgânico.

a entrada de vários metais.. 1986). glutationa e bicarbonato (Foulkes. devem ser considerados como um critério de risco em si. As membranas dos eritrócitos diferem das membranas de outras células por sua permeabilidade a anions. os testes de ecotoxicidade de acumulação do poluente. Já no epitélio alveolar o contato com metais é acompanhado por efeitos potencialmente negativos. tais como. e Cu é facilitada por formar complexos aniônicos com carbonato. (1997) onde descreveram que Cádmio inibe a entrada de Cálcio na célula. desde molecular ao ecossistema como um todo (Who. 1978). Julho/2010 Pág.. e o transporte do lúmen se deve a afinidade por proteínas de ligação de metais. 1988). especialmente porque a absorção do metal através do epitélio alveolar é muito mais eficiente do que através da parede intestinal (Friberg e col. células tanto apical quanto basolateral da membrana participam da absorção. grupos hidroxil e íons de cloro (Simons. uma possível explicação é que no epitélio alveolar a dinâmica de movimentação de metais pela membrana é maior nos fluidos intestinais devido às menores concentrações de ligantes metal-obrigatório. essa interação é sensível a temperatura devido a fluidez de membrana (Foulkes. os metais podem se ligar a pequenas moléculas como cisteína. 1994). 1993). Um biomarcador pode ser definido como uma resposta biológica. Blazka and Shaikh (1991) demonstraram que nos hepatócitos os metais entram na célula via canais de cálcio. Além disso. 385 . Zn. Cd. A maior parte de chumbo e cádmio circula no sangue carreado por eritrócitos. assim como no intestino. as metalotioneínas (Foulkes e McMullen. Pb.. Os biomarcadores de exposição irão refletir a distribuição da substância química em todo o organismo e essa distribuição pode ser rastreada através de vários níveis biológicos. a interação entre Cádmio e cálcio foi descrita por Souza e col. o que pode estar relacionado com exposição ou efeitos tóxicos de substâncias químicas ambientais e podem ser usados para avaliar os sinais do organismo como um alerta dos riscos ambientais (Peakall e col. Mesmo sem a detecção aguda ou crônica dos efeitos. Os túbulos renais também podem ser uma porta de entrada para os metais. uma vez que alguns efeitos só podem ser reconhecidos em uma fase mais tardia. estas células acumulam eficientemente estes metais. 1987).Ecotoxicologia Aquática celulares. Alternativamente a este processo. 1985). bicarnonato. Os metais circulantes no plasma são filtrados e reabsorvidos por metalotioneínas.

betacaroteno. Em ecossistemas aquáticos o oxigênio dissolvido e a temperatura são variáveis ambientais que influenciam os processos oxidativos (Parihar e col. Numerosos antioxidantes de baixo peso molecular como a glutationa reduzida (GSH). 1992. finalmente. Lopez-Torres e col. este pode ser definido pela toxicidade gerada pelo oxigênio molecular através das espécies reativas de oxigênio (ROS) referindo-se a produtos intermediários do oxigênio (ROIs) ou ainda radicais livres ou oxiradicais (Di Giulio e col. possivelmente levando a inativação enzimática. rico em cisteína. Proteínas de estresse e Metalotioneínas As proteínas de estresse (também chamadas de proteínas de choque térmico ou HSP) constituem um conjunto de proteínas abundantes envolvidas na proteção e reparação da célula contra o estresse e condições prejudiciais como baixas e altas temperaturas.. que funcionam na regulação de metais essenciais como Cu e Zn e na desintoxicação destes e outros metais não essenciais como Cd e Hg (Roesijadi e Robinson. 2000) Pág. condições oxidativas. peroxidação lipídica (LPO). 1993). As atividades das enzimas antioxidantes.. pode ocorrer por aumento da concentração intracelular de metal (Thiele. São potentes oxidantes capazes de reagir com macromoléculas celulares. alfatocopherol (Vitamina E) e ubiquinol10 também tem sido descrito com função de desintoxicação (Stegeman e col. a morte celular (Winston e Di Giulio. peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxil (OH-). vitamina B. que inibem a formação dos oxiradicais como a superóxido dismutase (SOD). catalase (CAT). A indução da síntese de MT é dependente da espécie em questão. Um grupo especial de proteínas de estresse de baixo peso molecular. ácido ascórbico (vitamina C). danos ao DNA e. metais e xenobióticos (Sanders. 386 Julho/2010 . que são altamente sintetizadas quando o organismo é submetido a estresse físico e químico e na privação de glicose e oxigênio respectivamente (Stegeman e col..VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Principais marcadores biológicos ou Biomarcadores Estresse oxidativo Muitos poluentes exercem toxicidade promovendo o estresse oxidativo. são as metalotioneínas (MTs). Os produtos da redução do O2 molecular são o radical superóxido (O2-). 1997). luz ultravioleta.. 1991). 1993). peroxidase glutationa-dependente (GPOX) e glutationa redutase (GRED) defendem os organismos contra ROS e são criticamente importantes na desintoxicação. 1994). 1989a).. 1992). São compostas por dois grandes grupos: as HSPs e as GRP (proteínas reguladoras de glicose). e alguns estudos mostram que glicocorticóides e hormônios peptídicos também promovem sua indução (Gerpe e col. anóxia.. 1992).

como as transaminases... no sangue pode ser indicativa de ruptura das membranas celulares em certos órgãos (Moss e col. A presença de enzimas específicas. Kasprzak..O impacto dos compostos xenobióticos na reprodução e na regulação hormonal tem atraído crescente interesse nos últimos anos pois diante de todos os efeitos causados pela toxicidade de metais. deve-se considerar que a permanência de uma espécie em um ecossistema não está somente relacionada com a sua Julho/2010 Pág. mas a própria célula contém mecanismos antioxidantes para prevenção da peroxidação e uma variedade de mecanismos que mantém a integridade da membrana e a homeostase (Vigo-Pelfrey. como os sais de ferro. 1990. como revisto por Vos e col.1993). Fe3+ + HO. 1995). Metais e seus complexos implicam na peroxidação de lipídios e subsequentemente na Outros potenciais marcadores biológicos Parâmetros hematológicos . 1990. além disso. 387 . outros organismos também podem ser considerados como promissores neste campo de pesquisa (Wester e col.. Os metais. 1986). Membranas peroxidadas tornam-se rígidas e perdem a permeabilidade e os produtos resultantes podem provocar mutações no DNA e alterações nos padrões de expressão gênica (Marnett. podem ser sensíveis a determinados tipos de poluentes. Parâmetros reprodutivos e endócrinos. Parâmetros imunológicos . Muitos anticorpos e células mediadoras do sistema imune podem ser deprimido por determinados poluentes.Alguns parâmetros hematológicos são potenciais biomarcadores. na presença de peróxido de hidrogênio pode produzir HO (Schaich. Dix e Aikens. 2010). 1994). 1999) e os efeitos acumulativos deste processo podem implicar em numerosas condições patológicas (Steinberg. especialmente reações catalisadas por metais de transição. hemoglobina. O processo é iniciado principalmente por radicais hidroxil. Embora a maioria das pesquisas sobre o sistema imune foi realizada em espécies de mamíferos. proteína e glicose. 1992): Fe2+ + H2O2 promoção da carcinogênese. os níveis de hormônios esteróides sanguíneos ou proteínas normalmente induzidos por esses poluentes podem ser indicativos para determinados efeitos toxicológicos (Correia e col. como hematócrito.. outros parâmetros hematológicos. 1997).+ HO .Ecotoxicologia Aquática Peroxidação de lipídios Os fosfolipídios de membrana de organismos aeróbios estão continuamente sujeitos a oxidação por fontes tanto endógenas quanto exógenas. Apesar de serem menos específica.Um grande número de substâncias químicas ambientais tem o potencial de prejudicar os componentes do sistema imunológico. O processo de peroxidação é uma reação em cadeia especialmente para os ácidos graxos polinsaturados que são mais sensíveis a ação de ROS devido à dupla ligação de carbonos. (Sole e col. (1989).

. quando comparada com as enzimas envolvidas no metabolismo de compostos constitutivos (Melancon e col. 1992. pode ser caracterizado como uma conversão enzimática de compostos xenobióticos em uma forma mais solúvel em água. uma vez que uma diminuição na taxa reprodutiva das espécies pode. Vermeulen. 1996).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” capacidade de adaptação e sobrevivência.. da duração da sua atividade e do tempo que este composto permanecerá no organismo (Timbrell. que conduzem a passagem pela membrana provocando danos celulares e/ou efeitos genotóxicos que posteriormente. um importante determinante da atividade de um composto. o composto ou os seus metabólitos. 1991). 1990). a biotransformação ou metabolismo.. Pratap e Wendelaar Bonga. pode levar ao desenvolvimento e progressão de doenças. 1998. Essas reações são catalisadas por enzimas monooxygenases microssomais. 1985). O metabolismo é. localizadas principalmente no retículo endoplasmático. 1992).. 388 Julho/2010 . 1990). Mecanismos de defesa a poluentes Os organismos possuem eficientes formas de defesa a um agente externo. II e III. A Fase I é uma alteração de oxidação. O principal local de desintoxicação é o fígado através de um mecanismo enzimático subdividido em fases I. que transformam os compostos em produtos hidrofílicos facilitando Pág. mas também na capacidade se reproduzir na presença destes poluentes (Kime. Parâmetros neuromusculares . liga-se a macromoléculas celulares. citocromo e NADPH citocromo P450 redutase. A determinação dos efeitos adversos causados por um composto pode ser realizado através de análises dos substratos metabólicos ou através de alterações histológicas nos tecidos (Ricard.. 1996). Os efeitos tóxicos podem se manifestar quando. redução ou hidrólise da molécula original. ameaçar a sobrevivência de um grande número de espécies alterando todo um ecossistema (Spies e col. 1995). Parâmetros genotóxicos : A exposição dos um organismo a substâncias químicas genotóxicas pode induzir um cascata de eventos como alterações estruturais e/ou dano no DNA e posterior expressão do gene mutante e doenças resultantes de danos genéticos (Shugart e col. A detecção e quantificação de vários eventos neste sentido podem ser utilizados como biomarcadores de exposição.Estudos recentes demonstram que baixos níveis de contaminantes no meio aquático podem alterar as funções neuromuscular agindo sobre a ação da acetilcolinesterase (AChE) (Payne e col. portanto. Na Maioria das vezes esses processos envolvem enzimas que possuem um grau relativamente baixo de especificidade de substrato. que pode ser excretado do organismo mais facilmente (Lech e Vodicnik. Parâmetros fisiológicos e morfológicos: As alterações na fisiologia e as consequências desses efeitos também podem ser utilizados como biomarcadores. a longo prazo.

uma destas estratégias é o aminoácido cisteína que contém um grupo sulfidril que se liga ao sítio ativo do metal. 1995). 1999) Diante destas características as algas absorvem os poluentes do ambiente aquático e biotransformam em compostos orgânicos tornando-os menos tóxicos... 1995. 2006). As Microalgas empregam uma variedade de estratégias bioquímicas para reduzir a toxicidade de metais e para manter a homeostase no citoplasma (Perales-Vela e col. além da ocorrência natural e abundante. frequentemente um grupo químico polar. Van Ho e col. um açúcar ou aminoácido... esses organismos fotossintetizantes estão sendo utilizados para programas de biomonitoramento de xenobióticos (Conti and Cecchetti. 2003) Efeitos dos metais nos organismos aquáticos Fitoplâncton Algas são os organismos aquáticos que acumulam metais mais facilmente. e outra alternativa são as metalotioneínas (Klaassen e col. estes organismos tem sido utilizados como biorremediadores no tratamento de metais pesados e poluentes orgânicos (Munoz e col. 2003) . Cu e Zn (Roncarati. Macroalgas (Conti and Cecchetti. 2006) são ferramentas importantes para monitorar mudanças fisiológicas na presença de metais pesados. A fase II envolve a conjugação do xenobiótico a um ligante endógeno.. 2003. 1995). 2003) e microalgas (Tripathi e col.. 2006) e sugere-se a utilização destas algas como bioindicadores de poluição aquática e de respostas fisiológicas a xenobióticos (Witton and Kelly... não permitindo que cheguem a níveis tróficos superiores (Pflugmacher e col. 1999). peptidases. Conti e col. As enzimas da fase III. são frequentemente transportados ativamente pelas membranas (Tamás e Wysocki. estudos recentes com Ulva laetevirens and Gracilaria verrucosa tem demonstrado uma alta afinidade por bioacumular Cd.. hidrolases e â-liases catalisam o catabolismo dos metabólitos conjugados para formar produtos mais facilmente excretáveis.Ecotoxicologia Aquática a excreção. 2003). Invertebrados Julho/2010 Pág. mas este processo ainda não está muito bem definido (Oost e col. 2002) e esses transportadores podem ser portas de entrada para metais tóxicos (Zalups e Ahmad. As enzimas desta fase catalisam essas conjugações facilitando a excreção por adição de mais grupos polares como a glutationa e ácido glucorônico (Commandeur e col. 389 . Adicionalmente a isto. 2001.. Mulder e col. estes.. 2007). (Bucheli e Fent. esse grupamento contém peptídeos como a glutationa que são responsáveis pelo seqüestro do metal nas células. 1990)..

Olafson e col. pois estes animais estão no topo da cadeia alimentar e servem de alimentos para outros animais. 1990.. 1993). perda de eletrólitos. Neste estudo também foi observado um diâmetro aumentado destas células e um aumento das concentrações de cobre nas brânquias e no plasma. 2001). (2000) demonstraram que a exposição crônica ao cobre aumentou a atividade da Na+K+ATPase branquial. no consumo de oxigênio que por sua vez.. 2000. McGeer e col. inflamação (edema e inchaço) e em alguns casos Pág.. Em moluscos e crustáceos as glândulas digestivas. hipóxia e hipercapnia. Em ostras e mexilhões a dinâmica de acúmulo é diferente (Arco-íris. reduziu o desempenho natatório (McGeer e col. Vários autores observaram ainda nas brânquias. galloprovincialis) a quantidade de MT sintetizada foi mais acentuada que na espécie de ostra (R. M. 1984.. Partearroyo e col. implicando em um maior custo energético para a osmorregulação. houve um aumento no metabolismo aeróbico. Além disso. 1985). O alumínio.(Howells e col. 1992.. por exemplo. 1996.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Invertebrados respondem diferentemente a exposição de metais. Há numerosos estudos que indicam mudanças estruturais induzidas por toxicantes e outros poluentes presente na água (Ferguson e col. 1992). 1992. 390 Julho/2010 . 1979a. galloprovincialis.... 2003). decussatus) que foram expostos a uma mesma concentração de Cd por um mesmo período de tempo (Bebianno e Langston. principalmente Na+ e Cl. Handy. edulis. 2008) e a contaminação em peixes por metais tóxicos deve ser considerada muito relevante. e as brânquias são freqüentemente afetadas por estas substâncias devido a grande área da sua superfície e espessura deste tecido (Mallat. e observou-se que em ambas as espécies de mexilhões (M. estoque e excreção de metais e possuem alta capacidade de síntese de MTs. por sua vez.. Rosseland e col. Peixes Os peixes são amplamente utilizados no biomonitoramento da poluição aquática (Zhou e col. M. R. como conseqüência. 1998) são os tecidos que estão diretamente envolvidos com o contato. podem-se citar alterações nas funções respiratórias e ionoregulatórias devido aos danos em órgãos alvos como as brânquias. Neste grupo a faringe é o principal sítio pelo qual os poluentes aquáticos entram. altos níveis de cobre diminuem o crescimento e prejudicam a conversão alimentar em peixes (Marr e col. decussatus). Bebianno e col. em um estudo com três espécies de bivalve (M. Além disso. Estudos demonstraram que efeitos adversos foram observados em peixes expostos ao cobre. edulis.b) e brânquias (Mouneyrac e col.. Pelgrom e col. 1990). 1991.. Schlenk & Benson. provoca acidose plasmática. foi observada uma relação linear entre a concentração do metal e a síntese de MT.. hepatopâncreas (Viarengo e col. 1992). (1995) expuseram exemplares de Oreochromis mossambicus a diferentes concentrações de Cu e observaram um aumento no número de células de cloreto conforme se aumentava a concentração do metal.

esta dependente de dose. onde este metal parece inibir o complexo I... 1995).1998). O mangânes tem sido associado a citotoxicidade. 1993) e redução de progestágenos (Correia.. 1997). Jiraungkoorskul e col..Ecotoxicologia Aquática fusão lamelar e excessiva produção de muco (Fischer-Scherl and Hoffmann. experimentos indicaram um aumento ou uma diminuição na atividade.. 1988. Ali e col.o cádmio pode inibir a atividade dos receptores de estrogênio (Le Guevel e col.. levando ao estresse oxidativo. 2001. 1987). em Oncorhynchus mykiss houve impedimento e/ou atraso no amadurecimento de espermatogônias em espermatócitos (Karels e col. 1988). seja bloqueando os receptores hormonais ou interferindo na ação dos próprios hormônios (Mathissen e Johnson. lactato desidrogenase (LDH) e malato desidrogenase (MDH) em Channa punctatus (Sastry e col. Um dos eixos afetado por metais é o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. 391 . 1988. Outro eixo afetado por compostos metálicos é o eixo hipotálamo-hipófice-interrenal que controla a produção de cortisol e sua secreção no sangue em resposta ao estresse Julho/2010 Pág. estas substâncias são conhecidas como EDC do inglês Endocrine Disrupting Compouds. além disso. Dautremepuits e col.Várias respostas enzimáticas tem sido observada em animais expostos a contaminantes metálicos em campo e em laboratório. Em estudos com tilápias foram relatadas elevações nos níveis de cortisol (Foo & Lam. e col. entre estes efeitos podemos destacar a diminuição na síntese dos esteróides gonadais. 2010). Sanchez e col. 2000.. já citadas anteriormente. gonadotropinas e aumento nos níveis de dopamina (Karels e col. 2003. Em truta arco-íris. 2007). disfunções osmorregulatórios associado com a inibição da ATPase e dano tecidual (Radi e Matkovics.. 2000. vitelogenina. Muitas substâncias que poluem os ecossistemas podem de alguma forma alterar o sistema endócrino dos animais. A exposição dos peixes a metais pode causar aumentos de espécies de oxigênio altamente reativas (ROS). 1995). 2005). 1998) e tilápia (Pratap e Wendelaar Bonga. Wong e Wong.. já foram demonstrados os efeitos do manganês nas mitocôndrias. Outros efeitos causados pela exposição a metais estão a diminuição dos estoques de glicogênio no fígado em truta arco-íris (Ricard.1998) além de elevação e/ou diminuição dos níveis de esteróides fora do período reprodutivo e inibição da síntese de gonadotropinas.. 2004). mesmo em baixas concentrações. Os disruptores endócrinos. Goossenaerts e col. alterando as fosforilações oxidativas (Chen. espécie e via de exposição (Wong and Wong. 1990) e aumento na atividade de enzimas como a aspartato transaminase (AST) e alanina transaminase (ALT). 2000). exercem efeitos biológicos neste sistema alterando os processos de síntese e/ou degradação de hormônios. com simultâneo bloqueio sobre as gônadas de responderem à ação destes hormônios (Cooney. especialmente para células dopaminérgica (Archibald e Tyree.

1985a). Já em pântanos ocorre uma ambiente naturalmente ácido devido a crescimento denso de musgo de sphagnum e altas concentrações de ácidos orgânicos (Gorham e col. 1977). Trutas arco-íris submetidas a toxicidade por Cádmio durante o desenvolvimento.. 1995). 2001. em muitas espécies este metal só é tóxico em pH abaixo de 5.. Em adição. 1978). A toxicidade por alumínio é totalmente dependente do pH da água. O alumínio divalente age como o Ca e Mg na célula (Freda & Dunson. 1991) e crônico (Hontela e col. 2001). reduzindo a permeabilidade da membrana podendo bloquear a passagem de Na+ e Cl(Gordon & Sauerheber. 2001).. O cádmio induz a síntese de HSP (Ait-Aissa e col. 2003). Anfíbios Segundo Pough (1976) de 30 a 50% das espécies de salamandras e anuros utilizam lagoas temporárias (que aparecem na primavera e secam no verão) para porem seus ovos e esse processo ocorre em tempo suficiente para ocorrer a metamorfose até a lagoa secar... Exposição a vários poluentes metálicos alteraram os níveis de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) no plasma de espécies de peixes em ensaios agudos (Sinha e col. Larvas de Pleurodeles waltl (anfíbio urodela) expostos a cádmio não sofreram modificações nos primeiros passos do desenvolvimento.b. e pode alterar os padrões interagem com os de ação destes Pág. 1997). 1991). a perda destes eletrólitos é a causa primária de morte de anfíbios (Freda & Dunson.. que são dependentes principalmente de água da chuva. 1998). níveis elevados de metais podem estar presentes nestas águas porque ácidos orgânicos têm uma alta afinidade por metais (Reuter & Perdue. mas há situações que ele se torna biodisponível em pH alto. 1998). O íons de hidrogênio e o alumínio podem inibir a enzima de eclosão presente na membrana vitelínica dos ovos de anfíbios. inibindo a ação desta enzima a membrana se torna resistente para o processo de eclosão e impermeável a água e íons (Yoshizaki. 1997 a.. apresentaram modificações na expressão de mRNA do hormônio de crescimento até os últimos estágios do desenvolvimento larval (Jones e col. Devlin e col. 1982). mas tiveram a metamorfose inibida assim como a diferenciação e desenvolvimento gonadal (Flament e col. Freda & McDonald. os metais têm demonstrado alterar outros sistemas hormonais tais como os tiroidianos e os hormônios de crescimento (Comeau e col.. 1990). os metais podem alterar o mecanismo de sinalização deste sistema e ainda alterar a síntese de esteróides pelas células interrenais (Girard e col.... 1985). é a acidificação devido ao pequeno volume e como conseqüência a biodisponibilização de alumínio (Freda e col.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Brodeur e col. Um dos grandes problemas enfrentados nestes pequenos ambientes. 2000) e estas proteínas receptores estrogênicos ou androgênicos hormônios (Pratt and Toft. 392 Julho/2010 . 1984..

mas nenhuma informação em efeitos ou limiar de concentração toxicológicos estão disponíveis. 1994) e encontraram concentrações altamente significativas de Ni. Se muitas das alterações forem observadas com uma Julho/2010 Pág. (2006). 2000 a. Dinelli e Lucchini. 2002b). 1996. e Zn no fígado.. O impacto de metais em tartarugas pode ser medido pelo acúmulo destes nos tecidos e Franzellitti e col. Mn.. semelhantemente ao que ocorre com outras espécies de répteis já analisadas.. encontraram altas concentrações de metais pesados na casca. econômica e cultural. Sakai e col. Burger e Gibbons. Fagioli e col. 2000. (2004) quantificaram as concentrações de Cd. a sociedade ainda não percebeu a importância do meio ambiente para sua sobrevivência. Cd e Cu no pulmão. músculo e tecido adiposo e de Mn e Ni no fígado. estudos com ovos de tartarugas e crocodilos demonstraram que de forma similar que a presença de altos níveis de metais aumentam a mortalidade de embriões (Nagle e col. 1998). 2000. há trabalhos com concentração de metal pesado em tecidos de tartaruga (Godley e col. Cu.. pulmão. 1999. A ciência busca minimizar esses efeitos adversos a biodiversidade tentando identificar os problemas antes que o compartimento ambiental como um todo seja afetado. valores estes comparados a tartarugas de outras áreas não contaminadas. Cd e Ni na água e Mn e Fe em bivalves conhecidos por serem base alimentar de C.. para completar. incluindo tartarugas (Caretta caretta. da região do noroeste da Itália. Ni. membrana e no conteúdo de ovos de crocodilo (Alligator sinensis) e comparou com outros estudos (Burger e Gochfeld 1991. Chelonia mydas e Trachemys scripta (Sakai e col. 393 .. A escolha destes metais pesados foi realizada com base em estudos prévios que mostraram níveis particularmente altos de Ni. As causas das agressões ao meio ambiente são de ordem política. encontradas mortas.. músculo e tecido adiposo de Caretta caretta.b).Ecotoxicologia Aquática Répteis Há poucos estudos com metais em répteis. 1999. Manolis e col.. Mn. Os países ricos consomem os recursos naturais de forma exagerada e são que mais poluem enquanto que os países pobres também mostram uma parcela de culpa por falta de oportunidades. não pode haver proteção do ambiente enquanto houver desigualdades sociais. Cu e Zn em sedimentos. E ainda. 2001. Fe. caretta (Dinelli e col. Tankere e col. 1995. Conclusão A presença de substâncias poluentes nos corpos aquáticos quando modificam as características do meio alteram toda a cadeia trófica. sugerindo a toxicidade por metais como causa da morte. Xu e col. Burger 1994) e sugere que as altas concentrações de metais presentes nos ovos é um meio que as fêmeas encontraram para tentar reduzir a carga corporal de substâncias tóxicas através da transferência para os ovos. 1998.

VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” certa antecedência. Pág. porém cabe ressaltar que este monitoramento requer conhecimentos profundos da fisiologia dos organismos utilizados. 394 Julho/2010 . talvez seja possível minimizar os efeitos deletérios causados ao meio ambiente ao se elaborar medidas mitigadoras e de proteção a estes ambientes. A utilização de bioindicadores de poluição ambiental constitui uma ferramenta eficiente para avaliação de risco de impacto ambiental.

1999). 2007).br Desreguladores endócrinos Grande parte dos ecossistemas aquáticos encontra-se contaminado por inúmeros poluentes. os quais podem causar os mais diversos tipos de impactos. má formação do trato genital. não apenas na fauna aquática. principalmente na ecotoxicologia. Há um consenso de que em sua grande maioria esses compostos antropogênicos interferem sobre a afinidade hormônio-receptor. ou EDC). É importante destacar que a palavra disruptor não existe na língua portuguesa. Dessa forma.. são freqüentes em mamíferos as alterações gonadais. fitoestrógenos e metais.Ecotoxicologia Aquática Alterações neuroendócrinas resultantes da exposição a metais Tiago Gabriel Correia Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos tigabriel@usp. pois esses parecem ser mais vulneráveis a pertubarções. 395 . Essa classe de poluentes tornou-se conhecida por desreguladores endócrinos. Observações dos efeitos da exposição aos desreguladores endócrinos (DE) em peixes e outras espécies aquáticas. ou ainda “disruptores” endócrinos. sendo. Nesse contexto. 2008). inibição da reprodução e alterações no comportamento de corte em aves e anormalidades nos órgãos reprodutivos em crocodilianos (Depledge. ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente) e é comumente utilizada na literatura. Os DE podem ser desde compostos químicos sintéticos tais como pesticidas e fertilizantes a xenoestrógenos. respectivamente. especialmente os envolvidos na reprodução. portanto um neologismo (fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova. pode-se destacar uma classe de poluente capaz de alterar as funções endócrinas. Julho/2010 Pág. nos processos de síntese hormonal (Matthiessen e Johnson. Biologicamente podem ter ação sobre os receptores dos hormônios esteróides (nos tecidos alvo) como agonistas ou antagonistas. (do inglês. resultando em estímulo ou redução/bloqueio. invertebrados e anfíbios. como por exemplo. infertilidade e tumores. endocrine disruptor compound. mas também sobre toda a cadeia trófica associada. têm contribuído para um esforço global na tentativa de estabelecer métodos para a detecção dos efeitos destes compostos sobre populações e para avaliação dos riscos ecológicos (Owen e col.

semelhantemente para invertebrados. portanto. Isto é alarmante. sendo. negligenciando representantes dos filos de invertebrados. por exemplo. levando em conta a importância ecológica dos invertebrados. portanto. apesar de apresentarem certo grau de conservação evolutiva. por exemplo. da exposição a DEs em mamíferos para vertebrados mais simples como. a saber: antiestrógenos e antiandrógenos (inibidores da esteroidogênese). Não obstante. como por exemplo.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Desafios em endocrinologia e fisiologia comparativa: a perspectiva de Hutchinson e Pickford Sob uma perspectiva ecotoxicológica. uma vez que mais de 95% das espécies animais são invertebrados e também são potenciais alvos para a desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. uma das principais preocupações globais para a fauna aquática está em torno de quatro tipos de desregulação endócrina. Eles são componentes essenciais de todos os ecossistemas e. desempenham diferentes funções fisiológicas. Enquanto um mesmo DE pode vir a afetar um mamífero de uma determinada maneira. moléculas de determinados hormônios. o mesmo nem sempre poderá ser aplicado a outros vertebrados. 2002). enquanto o papel principal de prolactina (PRL) em mamíferos é a estimulação da lactação. 1998). Diante das diferenças filogenéticas e especializações fisiológicas específicas em determinados táxons. cujo objetivo é o de avaliar possíveis efeitos de desregulação endócrina. não são contraproducentes quando comparados com a realidade observada no meio ambiente. o hormônio juvenil e hormônios ecdisteróides. a avaliação de risco ecológico e programas de monitoramento ambiental. Atualmente é prioridade para a comunidade científica e reguladora internacional. por exemplo. em peixes a PRL está envolvida na osmorregulação e em anfíbios desempenha um papel na metamorfose e crescimento (Norris. necessários testes específicos para cada composto em que exista a possibilidade de alterações endócrinas (Kendal e col. o estabelecimento de métodos de ensaio de eco-toxicidade. Alterações Neuroendócrinas em Crustáceos A maioria dos estudos ecotoxicológicos. e em última instância. 1996). 2002). 2002). Pág. perturbadores da tiróide e os compostos capazes de alterar o sistema endócrino de invertebrados. considera apenas dados para animais vertebrados. avaliar se os dados obtidos em laboratório que são essenciais. 396 Julho/2010 . para que dessa forma possam apoiar cientificamente de forma significativa e eticamente justificável orientações para testes de desregulação endócrina (Hutchinson e Pickford. ou invertebrados. peixes e anfíbios. torna-se quase impossível extrapolar dados registrados. a ameaça de desregulação endócrina deve ser totalmente avaliada para assegurar a proteção ambiental (Matthiessen e Law.

para os invertebrados. podem afetar a absorção de alimentos em microcrustáceos. como Hg. (2004). possivelmente pela inibição da secreção do hormônio da muda (ecdisona). Entre outros efeitos. pode prejudicar o pigmento da retina distal impedindo-o de migrar em direção à luz em Uca pugilator (Fingerman e col. Cd e Zn) (Depledge. no que se refere a capacidade de interferir sobre o controle endócrino da pigmentação... O Cd. chegando a afetar o processo de muda (crustáceos). tem efeito direto sobre crustáceos. o nível de glicose no sangue e causar alterações na pigmentação e na reprodução de crustáceos (Depledge. a concentração utilizada e o tempo de exposição. apresentam características que os designam como potenciais espécies sentinela (Depledge. a ovogênese de ouriços do mar e a alteração do metabolismo de esteróides na estrela do mar Asterias rubens (neste caso. 1999). além deste efeito. entretanto os efeitos fisiológicos observados dependiam de alguns outros fatores. como por exemplo. o Cd pode impedir o processo de muda em indivíduos adultos de Chasmagnathus granulatus. tais como: o metal testado. (2000) demonstram que vários metais pesados. afetando a reprodução e o crescimento. sugerem que “metais pesados”. tais como cladóceros e copépodos e dessa forma reduzir a aquisição energética. O Cd (cádmio) e o Se (selênio) são um dos metais mais deletérios. Cd e Cu induzem a hiperglicemia. Estudos com o hormônio hiperglicemiante de crustáceos CHH. possui um efeito semelhante a bisfenóis policlorados e ao naftaleno. o filo dos crustáceos possui espécies que são amplamente utilizadas neste tipo de estudo. 397 . pois pode ser absorvidos através de canais de Ca. 1999). com exceção de crustáceos e insetos. o Cd. Esses autores perceberam que o camarão Palaemon elegans mostrava uma resposta hiperglicêmica.Ecotoxicologia Aquática Alguns estudos realizados em laboratório sob condições controladas demonstram que compostos metálicos (íons ou substâncias contaminantes) podem afetar o controle hormonal da muda. a regeneração de membros. e/ou aumentar a demanda energética associada com o estresse causado por esses poluentes. Rodríguez e col. o desenvolvimento gonadal em mexilhões. Tratando-se de ecotoxicologia aquática. sendo capaz de inibir a dispersão de pigmentos dos cromatóforos da glândula do seio. (2000) concluíram que o Cd é capaz de inibir o crescimento/desenvolvimento gonadal em fêmeas de Uca pugilator (caranguejo violinista).1998). 1999). (crustacean hyperglycaemic hormone) realizados por Lorenzon e col. Julho/2010 Pág. Metais. pois além do fato de serem extremamente representativos para o ambiente aquático. 2005).. Barata e col. estes dados são escassos. ou ainda através de proteínas de membrana (Norum e col. devido a um aumento na secreção do hormônio GIH ( gonad inhibiting hormone) que regula o crescimento das gônadas. Apesar do número de trabalhos publicados na literatura sobre desregulação endócrina ter aumentado muito nos últimos anos. Uma vez absorvido.

AG: glândula androgênica. contudo são muito sensíveis a diversos Pág. B: cérebro. HEP: hepatopâncreas. de preferência apresentar dimorfismo sexual.. (Modificado de Rodrigues e col. A seleção de uma espécie de crustáceo que preencha perfeitamente todos os requisitos acima mencionados não é uma tarefa fácil. 398 Julho/2010 . dafnídeos têm tempos de geração curtos e são facilmente cultivados. outro requisito para as espécies sentinela a serem utilizadas para avaliar o impacto ecológico está no fato de que elas devem ser facilmente cultivadas em laboratório. MO: órgão mandibular. OH: hormônio ovariano. espécies sentinela precisam ser estabelecidas urgentemente para a elaboração de biomarcadores adequados ao monitoramento ambiental. Figura 1. GIH: hormônio inibidor gonadal. AGH: hormônio da glândula androgênica e VITELL: vitelogenina.Gl. de preferência. CHH: hormônio hiperglicemiante. a biologia e as mudanças sazonais do ambiente devem ser bem conhecidas e.Controle endócrino da reprodução em crustáceos . bem como no local íntegro (controle). MF: methyl farnesoato. ter um ciclo de vida curto e um sistema endócrino relativamente conhecido (Matthiessen e Johnson.XO: órgão X. SG: glândula do seio. GSH: hormônio estimulador gonadal. Além disso. T: testiculo. 2007). Algumas características básicas das espécies-sentinela consistem em: ser capturadas em locais poluídos. Por exemplo. MOIH: hormônio inibidor do órgão mandibular. A. 2007). ecologicamente importantes.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Para o filo dos crustáceos. TG: gânglio torácico.: glândula antenal. OV: ovario.

2004). o entendimento acerca dos mecanismos pelos quais tais alterações ocorrem ainda são incipientes em muitos aspectos (Thibaut e Porte. 17α. Considerando-se que poluentes (xenobióticos ou metais) podem afetar tanto os receptores para os hormônios esteróides (expressão/ transcrição) e as enzimas envolvidas na síntese dos mesmos. 399 . Julho/2010 Pág. 20 β dihidroxi-4 – prenen – 3 ona.Ecotoxicologia Aquática poluentes e seu sistema endócrino é pouco conhecido. GTH – I e GTH – II. 2007). decápodes são relativamente resistentes a muitos poluentes. Os esteróides sexuais possuem duas funções clássicas em peixes: agem como fatores morfogenéticos durante a diferenciação e maturação sexual. mas enquanto seu sistema endócrino é o mais extensivamente estudado entre os crustáceos. Portanto. por outro lado. Testosterona (T) 17 β Estradiol (E2) e os possíveis sítios de ação de poluentes A neuromodulação da reprodução em teleósteos ocorre principalmente através de duas moléculas secretadas pela proximal pars distalis da hipófise. a seleção de crustáceos sentinela que ocorram no mesmo ambiente poderá requerer mais de uma espécie para o monitoramento ambiental (Rodriguéz e col. as quais são estruturalmente similares ao FSH (hormônio folículo estimulante) e LH (hormônio luteinizante) de mamíferos. a figura 2 representa a conversão bioquímica entre os principais hormônios da reprodução em teleósteos: 17 α hidroxiprogesterona (17 OHP). respectivamente. Alterações neuroendócrinas em teleósteos Apesar do reconhecimento de que muitos xenobióticos alteram as funções reprodutivas. chamadas de gonadotropinas.. seu ciclo de vida é relativamente longo e o manejo em laboratório nem sempre é uma tarefa fácil.

respectivamente (Blazquez e col. Mn. ou seja. 1995). O sistema nervoso é um alvo sensível para uma variedade de metais e a neurotoxicidade induzida por um metal tem sido descrita em seres humanos em conexão com a poluição ambiental (Hg. está associado com deposições anormais de metais sem a exposição ambiental excessiva. Processos neurodegenerativos: Manganês e Alumínio Os metais “pesados” têm um importante papel em muitas doenças neurológicas. 400 Julho/2010 . uso de medicamentos (Li. 1998).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Outra gonadotropina. Pb. Pág. Há também um terceiro grupo de transtornos nos quais a patogênese pode ser uma extensão natural da presença dos íons metálicos (Montgomery. Um segundo grupo de doenças neurológicas. o controle neuroendócrino da reprodução também é passível de sofrer alterações por poluentes. Da mesma forma que ocorre para os hormônios esteróides. A maioria destas doenças é decorrente da exposição excessiva proveniente do ambiente. o decapeptídeo GnRH (gonadotropin releasing hormone) e a dopamina (DA). envenenamento por chumbo.. Fe). tais como a doença de Wilson. como por exemplo. são os principais neurohormônios que estimulam e inibem a liberação das gonadotropinas. todo o eixo hipotálamo – hipófise – gônadas. Cu.

401 . Pb. tais como a doença de Alzheimer. e glutamina sintetase (enzima que sintetiza glutamina do neurotransmissor glutamato). proteínas e como co-fator de várias enzimas (Prestifilippo e col.. no entanto. cerca de 80% do manganês no cérebro está contido nesta enzima (Quintanar. 2007). efeitos de drogas e outras situações em que as perdas corpóreas do metal são aumentadas (Manzo. Al e Mn são muitas vezes (mas não sempre) encontrados em excesso na autópsia do sistema nervoso obtidos de vítimas dessas desordens neurológicas. a SOD manganês (superóxido dismutase). doenças do sistema nervoso também podem ser induzidas pela deficiência de metais. Na verdade. a doença de Parkinson. Bi. e a esclerose amiotrófica. Cu e Mn são exemplos de elementos essenciais ao organismo. como por exemplo. 2007) e enzimas relacionadas ao DNA e neurotransmissores (Lima e col. Julho/2010 Pág. 2007). A exposição crônica a certos metais tem sido relacionada a fisiopatologia de algumas doenças neurodegenerativas. 2007).. lipídios. sais de ouro (Au)) e a ingestão acidental de inseticidas e raticidas contendo As ou sais de tálio (Ti) (Manzo. 2007). como também para as metaloenzimas (manganoproteínas) envolvidas no metabolismo do oxigênio e do nitrogênio (Morello e col. Tabela 1: Metais e doenças neurogenerativas em humanos Metais neurotóxicos Neurodegeneração associada a metais acumulados no cérebro Neurodegeneração associada a deficiências de metais essenciais Manganês (Mn) Cobre (Cu) Zinco (Zn) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Lítio (Li) Manganês (Mn) Tálio (Ti) Arsênio (As) Bismuto (Bi) Sais de ouro (Au) Chumbo (Pb) Mercúrio (Hg) Manganês (Mn) Alumínio (Al) Cobre (Cu) Manganês O manganês é encontrado em todos os tecidos e é fundamental para muitos processos fisiológicos. Essa deficiência pode resultar da ingestão inadequada de alimentos.Ecotoxicologia Aquática cisplatina. cuja deficiência pode levar a distúrbios neurológicos.. os dados ainda são controversos (Manzo. entretanto. por exemplo. na regulação dos processos reprodutivos. 2008). no metabolismo de carboidratos. logo Zn. 2008).

. Segundo Erickson & Aschner (2003). portanto. não se conhece um papel fisiológico no organismo (Nayak. um estressor.. assim como de Mn. 2004). como o gaba. particularmente os astrócitos. Algumas células do SNC. quando em altas concentrações torna-se tóxico para o cérebro e pode acarretar em desordens neurológicas caracterizadas inicialmente por sintomas psicóticos semelhantes à doença de Parkinson que resultam em uma síndrome conhecida por manganismo (Morello e col. desta forma este metal pode produzir efeitos fisiológicos adversos. 2007). substância negra. com sintomas similares aos que ocorrem na doença de Alzheimer. hipotálamo e núcleo subtalâmico (Erickson e col. putamen caudato. entre outras. Em países escandinavos. 1991). insuficiência renal avançada (Zatta e col. enquanto que o GABA é o mais abundante neurotransmissor inibitório. endócrinas (Campbell & Bondy. Alumínio A exposição às altas concentrações de Al. neurológicas.. entre os quais estão alterações bioquímicas. Aparentemente o efeito mais pronunciado ocorre sobre o SNC. 1988). independente da rota de absorção. ambos do fluído extracelular (Takeda e col. 2003). o glutamato e a dopamina. 2002). esqueléticas. incluindo-se aqui os Estados Unidos e Canadá (Heming & Blumhagen. Pág. regulam o metabolismo de neurotransmissores. rigidez e distonia (Gerber.. 402 Julho/2010 .. a concentração de íons e removem toxinas do espaço extracelular. mais especificamente em estruturas do gânglio basal. O manganismo está associado ao acúmulo de manganês no cérebro.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” Em relação à toxicidade do manganês. No caso do alumínio. o alumínio presente na água (rios e lagos) juntamente com os efeitos de acidez. imunológicas respiratórias cardiovasculares. 1997).. pois o glutamato é o mais freqüente neurotransmissor excitatório. hematológicas. que não se limita a estes países. Estes mesmos autores ainda apontam que alterações sobre estes neurotransmissores podem contribuir para modificações sobre o metabolismo da dopamina. despontam como os principais agentes responsáveis por este quadro (Poléo e col. pode induzir disfunções sobre estas células e conseqüentemente sobre neurotransmissores. como por exemplo. 2001). cujos sintomas são bradicinésia. 2003). um íon metálico. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Al Distúrbios reprodutivos têm sido propostos como a principal razão para o declínio de populações ícticas (Vuorinen e col. resulta em efeitos neurotóxicos sobre o sistema nervoso central (SNC) de mamíferos. a chave para as alterações neuroquímicas associadas com a neurotoxicidade do Mn são modificações nos níveis do glutamato extracelular. globus pallidus. 2002).

2007). íons de Al e de H+ podem interferir sobre a atividade de hormônios esteróides. O principal fator abiótico que influencia as diferentes espécies químicas apresentadas por este metal é o pH (Teien. pode-se dizer que o pH tem um forte controle na especiação de metais. 2002).. desde alterações nos processos de síntese nas gônadas Julho/2010 Pág. 2008). Entretanto. mas sim sob a forma mineral. a precipitação e a competição de prótons por locais de ligação disponíveis (Smith. este metal. 403 . 1996). em sua forma sulfatada (alum) é amplamente utilizado em estações de tratamento de água como coagulante de partículas sólidas e o resultante desta combinação é descartado para cursos d’água adjacentes (Hullebusch e col. 2008). pois influencia a hidrólise metálica.. As condições em que o Al torna-se mais tóxico para os organismos aquáticos e mais facilmente absorvido ocorre em pH ácido.. a polimerização. O Al não é encontrado em seu estado puro na natureza (Constantino e col. 2002). 2003).. De maneira geral. Este metal não é muito solúvel em água.. mas também das formas físico-químicas nas quais podem vir a ocorrer (Kalembiekiewics e col. a agregação. pois originalmente está presente em constituintes geológicos naturais do solo. sendo mobilizado para a coluna d’água principalmente por intermédio de eventos de precipitação ácida (Bjerknes e col. entretanto a chuva ácida (formando ácidos inorgânicos) pode solubilizar parte deste metal produzindo uma diversidade de complexos e formas físico-químicas.Ecotoxicologia Aquática O Al presente nestes rios e lagos não têm sua fonte diretamente relacionada a efluentes antrópicos. desde simples formas iônicas a polímeros. colóides e partículas. A solubilidade e a disponibilidade biológica de metais dependem não apenas da concentração. sendo o mesmo observado para o Mn (Lima e col.

2000. Na verdade. ou ainda um efeito tóxico sobre o hipotálamo em que a síntese/expressão do GnRH tenha sido suprimida/reduzida. apenas alguns poucos estudos apontam as conseqüências endócrinas da exposição ao Al em teleósteos. responsável pela conversão da 17 OHP em 17 α. alterações sobre a vitelogênese (Mugyia & Tanahashi. é conhecido para Oreochromis niloticus (tilápia) que o Al possui um efeito anti-esteroidogênico. Portanto. 2003).5 foi capaz de reduzir a concentração plasmática de 17 α – OHP . os mecanismos bioquímicos pelos quais o Al causa essa desregulação endócrina ainda são desconhecidos (Correia e col. Sabe-se que os progestágenos são produzidos sob o controle do LH (Young e col. Sabe-se também que o Al em teleósteos é capaz de inibir a síntese e/ou exportação de vitelogenina (VTG) do fígado para o plasma. Tam e col... 1995. Kime. 1988. 1991. niloticus poderia estar relacionada a um efeito tóxico na hipófise suprimindo a síntese. Vuorinen e col. proteínas quinases (PK) (Méndez e col. 2010). 1995) e alterações na maturação e desova de oócitos (Vuorinen & Vuorinen. Tam & Zang. 2010). 1996)... 2004). o controle da síntese de esteróides nos ovários de peixes é mediado pelo FSH e LH.. No entanto. também conhecida por MIS (do inglês.one (17. Como nos mamíferos.. o Al é conhecido por induzir ou inibir fosforilações anômalas pela ativação das proteínas Pág. 2003) e cAMP nas camadas foliculares (Planas e col. Berg e col... Atualmente. (1983) observaram que o Al reprimiu a síntese do hormônio da paratireóide devido a uma diminuição dos níveis de cAMP.. o conhecido efeito do Al sobre a fosforilação anormal na ativação da PK dependente de cAMP pode ser a causa dos níveis plasmáticos alterados de 17 OHP em resposta à ação do LH após a exposição ao Al (Correia e col. alterações sobre a síntese e atividade gonadotrópica (Kime. ou a expressão do LH. maturation induction steroid) não pode ser excluída (Young e col.20 P). 2005). portanto a diminuição na concentração de 17 OHP de O. a possibilidade de este metal ter estimulado a atividade da enzima 20β-hidroxiesteróide desidrogenase (20β HSD). 2005). Hwang e col. Nesse caso... Substâncias que promovem o aumento do cAMP intracelular também podem estimular a esteroidogênese (Kanamori e Nagahama. 404 Julho/2010 .. sendo esta uma via que envolve pelo menos parcialmente. porém. 20 β-diidroxi-4-pregnen – 3 . Como mencionado acima. pois a maior parte dos estudos refere-se a neurodegeneração em humanos. 1997).VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” (Mount e col. 1998. Antagonistas de cAMP podem bloquear parcialmente a ação esteroidogênica das gonadotropinas (Planas e col. 2003). Nesse contexto. devido aos conhecidos efeitos do Al e de outros metais sobre a atividade enzimática.. o efeito estimulante do LH na síntese de esteróides está relacionado à ativação de PKA/cAMP (Méndez e col. pois esse metal em pH 5. no entanto o exato mecanismo pelo qual este metal inibe a síntese de VTG não é bem compreendido. é importante notar que Morrissey e col. 1988). 1987. 1997). após exposição aguda (96 h).

o Glu é transformado em glutamina (Gln).. possivelmente nos mesmos locais que os íons essenciais ligam-se nesta molécula. esses três neurotransmissores são intimamente relacionados e. 2003). como o Zn. 2002). 2000).Ecotoxicologia Aquática quinases dependentes de cAMP (Johnson & Jope. que em sua constituição normal contém um grupo altamente fosforilado. no aumento do cGMP (guanosina monofostato cíclico). o glutamato (Glu). pois também é possível que os íons de Al possam atuar sobre os receptores de E2. o mecanismo pelo qual altera os níveis de Glu. e a VTG quando transportada no plasma. por sua vez pode ser convertida em GABA pela enzima ácido glutâmico desidrogenase (Hazell. Desregulação endócrina causada pela exposição ao Mn Vários estudos com mamíferos in vivo e in vitro têm relatado que o Mn altera os níveis de neurotransmissores como a dopamina (DA). O Al pode interferir sobre a fosforilação da VTG. deve-se levar em consideração que a desestruturação no metabolismo da DA. são reversíveis. no metabolismo de Glu e GABA. (2000) sugerem que a influência do alumínio sobre os níveis transcricionais do RNAm da VTG depende da concentração deste metal. Por exemplo. uma alteração em um deles inevitavelmente terá efeito sobre os outros. 2001). pode afetar o controle neuroendócrino da reprodução em vertebrados.. por uma enzima chamada glutamina sintetase – Mn. e a Gln. quando em altas concentrações no plasma também seja capaz de se ligar a VTG. liga-se a íons metálicos. Ca e Mg (Falchuk & Montorzi. Hwang e col. 2003) Embora seja conhecido que o Mn é um desregulador neuroendócrino. GABA e DA ainda não foi elucidado. consequentemente. inibindo dessa forma a ativação do gene da VTG pelo E2. 1997). pois a DA é um agente inibidor na síntese de hormônios hipofisários (Erickson e Aschner. Todas essas inter-relações têm complicado a interpretação dos resultados referentes aos níveis de neurotransmissores em consequência da neurotoxicidade do Mn (Erickson e Aschner. PKG (proteína Julho/2010 Pág. O Mn pode aumentar/estimular a liberação de LHRH (hormônio liberador de LH) no hipotálamo de roedores devido a sua capacidade de estimular a atividade da óxido nítrico sintetase (ONS). e o ácido gama aminobutírico (GABA) (Quintanar.Sugere-se que o Al. por conseguinte. cujos efeitos sobre a vitelogênese da mesma forma que o Al. 2007). Outro efeito do Al está na sua capacidade de impedir a transcrição do RNAm da VTG (Hwang e col.. 405 . 1987). 1998). principalmente. resultando em aumento na produção de óxido nítrico (ON) e. impedindo a formação do complexo ER-E2. a fosvitina (Mugyia e col. e apesar de que tais estudos sejam conduzidos devido a relação deste metal com neuropatias humanas. pois foi observado para o Zn e Cu (Yeo e col. Este mecanismo foi sugerido para o Al.

Os conhecidos efeitos do Mn na estimulação do controle hipotalâmico na secreção de gonadotropinas. o colesterol é convertido em pregnenolona através da atividade do complexo enzimático localizado na membrana interna das mitocôndrias. Foi demonstrado que a DA pode induzir ONS / ON (Melis e col. Postula-se que o Mn pode afetar a homeostase dos hormônios tireoidianos agindo Pág. FSH e E2 gonadal (Lee e col. No início da esteroidogênese gonadal. 2005). existem importantes diferenças quanto à sensibilidade entre sexos e o estágio de maturação (Prestifilippo e col. 1996). o GLU e as catecolaminas são importantes neurotransmissores envolvidos na liberação deste neurohormônio (Cheng.VII Curso de Inverno: “Tópicos em Fisiologia Comparativa” quinase G) e finalmente. 2007)... e com base no importante papel do ON no controle da LHRH (Rettori e col..adrenérgicos localizados em neurônios nitridérgicos. 406 Julho/2010 ... ativa receptores α 1 . 2005).. 2007. estes resultados sugerem que. 2007) deixa evidente seu potencial em impactar a reprodução em mamíferos (Pine e col. na relação LHRH/LH e na alteração/elevação dos níveis séricos de LH.. Paralelamente aos mecanismos bioquímicos envolvidos na liberação do LHRH acima mencionados. embora dados na literatura a este respeito sejam escassos ou praticamente inexistentes. o Mn (na forma MnCl2) é capaz de estimular a secreção de DA e a atividade da NOS. 2000).. que promove a clivagem da cadeia lateral do colesterol (Martyniuk e col. embora este metal possa facilitar a secreção de LHRH. Tal fato é possível pois este metal interrompe o gradiente eletroquímico através da membrana mitocondrial interna (Walsh e col. Além disso. Este ativa a ONS e leva a produção de ON (Rettori e col. 2005). O GLU estimula os terminais neuronais noradrenérgicos resultando na liberação de norepinefrina (NE). Muito pouco é conhecido sobre a relação entre o Mn e os hormônios da tireóide. sendo esta uma proteína da família das fosfoproteínas mitocondriais expressas nos tecidos adrenal e gonadal por estimulação dos hormônios ACTH. Após isso. Efeitos similares são esperados para os demais vertebrados. 1993). 2003). 1996). 2007). assim. como por exemplo. estes dados sugerem que as células de Leydig podem ser um alvo para o Mn nos testículos (Cheng e col. sugere-se que a ativação de DA / ON pode mediar a estimulação e a secreção de LHRH (Quintanar. o citocromo P450scc (side chain clivage). A exposição ao Mn (roedores machos) diminui a concentração plasmática de testosterona (T). bloqueando a esteroidogênese nas células de Leydig. LH e FSH (Stocco e Clark. 2006).. Pine e col. no aumento da liberação de LHRH (Lee e col. 1993). impedindo que o colesterol chegue como substrato para a enzima P450scc. aumentando o cálcio intracelular (Ca2+).. 1994. que por sua vez. o transporte de colesterol nas células é mediado pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory). (2005) demonstraram que o Mn é capaz de suprimir a expressão da proteína StAR. Experimentos conduzidos por Chang e col. Globalmente.

e Montes.. Newport. J. Embora a PRL seja um dos hormônios que são produzidos/controlados pela hipófise. Mandal. Crehuet. S. Baltanas. alterando a enzimas deiodinases (Soldin e Aschner.. 58.J. A dopamina é um modulador na secreção do TSH e os efeitos prejudiciais de manganês para os neurônios dopaminérgicos podem resultar em efeitos profundos sobre a síntese de hormônios tireoidianos.. não existem estudos que expliquem a relação dos hormônios que controlam a secreção de PRL.329– 334. Zhuang. ou indiretamente através de alterações no controle dopaminérgico da glândula tireóide (Soldin e Aschner.. (2000). Ash. 925. Toxicology. (2004). G. A concentração plasmática de prolactina (PRL) foi utilizada como biomarcador no índice de exposição biológica ao Mn em alguns casos específicos.. Porcher. e Tyree. 174.Ecotoxicologia Aquática diretamente sobre glândula tiróide e seus respectivos hormônios (T3 e T4)..K. (1995). G. C. 72. (2006). Neurodegeneration. C. 638–650. e Mandal. 380-390. The use of red swamp crayfish P.M. Adaptação do índice de integridade biótica usando a comunidade de peixes para o Rio Paraíba do Sul.M. Alcorlo. Physiological Biochemistry Zoology. G. 145 (23). P. 2007). Archives of Biochemestry and Biophysics.A.. 256 (2).F. Activation of the hsp70 promoter by environmental inorganic and organic chemicals: relationships with cytotoxicity and lipophilicity. (2003). (1998). 439-452. A. 300.. A. e Stone. G.. M.A. tais como a DA e o hormônio estimulante da tiróide (TRH) com a exposição ao Mn (Ellingsen e col.S. 407 . 147-157. 2003). Lipe.W. Z. e Lambre. Journal of Comparative Physiology B. para trabalhadores (soldadores) no qual foi constatada uma elevação da concentração deste hormônio (Kim e col. Brown. 2007). Ali. ainda não se dispõe de uma ferramenta eficaz para a avaliação integrada das respostas e da interação entre os hormônios e os contaminantes metálicos. 1-18. e Slikker. (1999). Os poucos dados disponíveis atualmente sugerem que o Mn pode afetar diretamente os hormônios tireoidianos. Duhart. D. Devido à complexidade das mudanças hormonais no sistema endócrino. 366. Science. F. W. A. Archibald.D.. Jr.A. 2007). Ait-Aissa. Araújo.. Duerr.M. Science of Total Environment. (1987). A question of dose.A. e Killebrew. Revista Brasileira de Biologia. R.C. Manganese poisoning and the attack of trivalent manganese upon catecholamines. como por exemplo. R. S. F. Ion transport processes of crustacean epithelial cells.. Aslamkhan... Ahearn. Arrigo. 547-558. Julho/2010 Pág. Bibliografia Ahearn. clarkia as indicator of the bioavailability of heavy metal in environmental monitoring in the river Guadiamar. G. Manganese-induced reactive oxygen species: Comparison between Mn+2 and Mn+3. P. 4 (3). C. J. Mechanisms of heavy-metal sequestration and detoxification in crustaceans: a review.. H. Otero..

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