UNIVERSIDADE DE ÉVORA

DISCIPLINA DE ECOLOGIA DA PRODUÇÃO AGRO-PECUÁRIA

AQUACULTURA: SISTEMA DE PRODUÇÃO ANIMAL EM EQUILÍBRIO COM O MEIO AMBIENTE

Ricardo Silva nº 12489

Eng. Zootécnica

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Índice
Introdução 1. O que é a aquacultura 2. A aquacultura no Mundo 3. Panorama nacional 4. Tipos de aquacultura 5. Tipo de viveiros 6. Poluição 7. Desperdícios da aquacultura e a sua determinação 7.1. Poluição química 7.2. Poluentes inorgânicos 7.3. Poluentes orgânicos 7.3.1. Hidrocarbonetos e substâncias tensio-activas 7.3.2. Pesticidas 7.4. Substâncias organo-metálicas 8. Métodos e sistemas de vigilância 8.1. Compostos orgânicos 8.2. Contaminação inorgânica 9. Fenómenos anóxicos 10 Bloom fitoplanctónico Conclusão Bibliografia 1 2 4 6 8 9 11 13 18 19 20 21 21 22 23 23 24 24 25 27 29

ÉVORA

2002/2003

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INTRODUÇÃO
O presente trabalho insere-se na disciplina de Ecologia da Produção AgroPecuária, disciplina do 9º semestre da licenciatura em Engenharia Zootécnica. O tema do trabalho debruça-se sobre uma área da produção animal que tem conseguido uma evolução assinalável nos últimos tempos, e que se posiciona como essencial no futuro, de modo a fazer face, por um lado ao crescente aumento demográfico a nível mundial e, por outro, à diminuição dos bancos de pesca um pouco por todo o mundo. Neste trabalho é feita uma descrição sumária da aquacultura no mundo e em Portugal, assim como dos factores de poluição que a partir das explorações píscicolas põem em causa a qualidade da água, não só dos efluentes como também da água em que ocorre todo o processo produtivo. Também é feita a descrição dos principais fenómenos que se observam normalmente em explorações aquícolas devido à acção da poluição.

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Estas alterações introduzidas por várias indústrias previamente instaladas e pelos efluentes urbanos não tratados. Também fenómenos de variação climática global afectam gravemente a pesca. 1997). A FAO (1997) avaliou 17 práticas pesqueiras em todo o mundo e concluiu que 4 estão comercialmente destruídas e 9 estão em sério risco. Tanto os estoques de peixes como os de crustáceos e moluscos estão em declínio. conduzindo ao colapso de alguns mananciais. substituindo pescado e plantas provenientes dos estoques naturais. atingiu 120. com o propósito de uma produção animal ou vegetal útil ao Homem. crustáceos. Estas estatísticas demonstram também que a taxa anual de crescimento da aquacultura nos últimos anos aumentou de aproximadamente 5% em 1990-1991 para cerca de 14% em 1994-1995.6%.7 milhões de toneladas (Rana. esta expansão terá de ter em conta os potenciais de poluição que este tipo de actividade produtiva apresenta. Este crescimento é devido. tendo já hoje uma elevada capacidade de produção em espaços reduzidos. em grande parte. pelo desenvolvimento da aquacultura na China que continua como líder mundial neste sector com uma taxa de crescimento anual de 13. existe a 2 . são tidas igualmente como um sério obstáculo ao desenvolvimento da própria aquacultura. Além disso. torna-se evidente que para aumentar a produtividade nos cultivos e abastecer a crescente procura mundial. A produção aquícola fornece um suprimento aceitável. cobre todas as actividades significativas para o estudo e controlo do ecossistema aquático. produzidas pela aquacultura. A aquacultura surge assim como uma actividade de expansão obrigatória. ambos consequência de um aumento demográfico incontrolado. a produção mundial total de peixes. O QUE É A AQUACULTURA? A aquacultura (ou aquicultura). há que encarar os avanços possíveis em função da capacidade de sustentação do meio. para que se possa efectuar sem qualquer agravamento das alterações ambientais já existentes. levando em consideração que as áreas disponíveis para cultivo não podem ser grandemente aumentadas.1. No entanto. No entanto. moluscos e plantas aquáticas. Apesar deste quadro nada favorável. Actualmente assiste-se a um agravamento da poluição marinha e da sobrepesca.

e tal facto resulta fundamentalmente. com o mínimo de impacto sobre o meio. Em suma. Em Portugal o panorama é idêntico. existe ainda uma enorme lacuna no conhecimento deste tipo de produção animal. Por outro lado. Embora a aquacultura seja uma actividade extremamente interessante e com grandes potencialidades.necessidade de um avanço nos métodos de produção actualmente utilizados e da introdução de novas tecnologias. formação profissional e apoio laboratorial adequados. de uma não cooperação com o ensino. deve procurar a maior eficiência. a tecnologia. permite que a gestão das aquaculturas existentes seja feita um pouco à margem da lei. dos controlos sanitários a fazer e do tipo de alevins a utilizar. do tipo de alimento a consumir. a falta de divulgação e interesse por esta actividade. verificando-se a 3 . tanto do ponto de vista biológico como do ponto de vista dos sistemas de produção. Gráfico 1: Consumo de peixe per capita em 1998 (INE) Os sistemas de aquacultura a serem instalados devem ser sustentáveis em termos da sua utilização. investigação científica.

A AQUACULTURA NO MUNDO A ideia de cultivar em águas continentais e no mar não é recente: achados arqueológicos de tanques de armazenamento da era pré-histórica foram encontrados no Hawai. a única saída possível para restabelecer os volumes de pescado nos mares será a 4 . Este desenvolvimento deve ser levado a cabo de forma ambientalmente correcta por várias razões importantes: para preservar a necessária qualidade da água e a estabilidade do ecossistema. enquanto que o 1º tratado de piscicultura atribuído a Fan-Li (China). Devido ao sistema de pesca sem qualquer preocupação pelas reservas mundiais. Para poder mitigar o seu possível impacto. introdução de antibióticos mais eficientes e menos remanescentes. métodos naturais de controlo de parasitas. A cultura intensiva e semi-intensiva de peixes marinhos está a aumentar rapidamente no Sul da Europa. redução da quantidade de antibióticos utilizada mantendo simultaneamente uma produção elevada. nomeadamente em Portugal. dada a produção aquícola ainda não ocupar um lugar importante na indústria piscícola. O domínio completo de todo o ciclo de criação foi atingido muito cedo no caso de dois peixes de água doce: o da carpa é conhecido desde a Idade Média e o da truta desde o século XIX. que a curto prazo se esgotarão. data de 475 antes de Cristo. No nosso país a este nível ainda não se põem estes problemas de maneira premente. em especial no que concerne aos efeitos do principal input exógeno. deve-se ser capaz de o avaliar apropriadamente. o alimento artificial.aplicação de substâncias proibidas devido aos seus efeitos secundários e prejudiciais para o peixe e homem. Na actualidade a aquacultura tem uma função na estratégia de repovoamento dos bancos de peixe. etc. manter o equilíbrio entre as diferentes actividades que fazem uso da zona costeira e garantir o sucesso da própria maricultura. 2. Foram alcançados resultados importantes: melhoria das rações para peixes conduzindo a uma redução dos desperdícios. É importante notar que a preocupação ambiental está por exemplo já bem estabelecida no Norte da Europa e que a investigação consistente do impacto da maricultura acompanhou o desenvolvimento da produção de salmão.

0 15.1 21.3 10.5 29.4 86.9 93.7 78.6 24.3 7.7 93.9 28.6 30.9 96.1 93.4 91.3 32.3 12.4 8.redução das quotas de pesca associada ao repovoamento.1 18.8 120.6 28.7 15.0 84.8 84.4 6. O caso mais espectacular é o do repovoamento do salmão efectuado pelos japoneses.7 29.2 92. No nosso país têm sido as duas primeiras espécies as que têm apresentado uma evolução da produção mais significativa.0 23.6 116.1 86.6 5. canadianos e americanos no Oceano Pacifico.6 14.3 7.4 20.3 93.5 17.1 13.5 5.5 5.8 112.7 26.0 18.2 19.5 94.1 7.8 28.0 10.7 15.5 26.8 16.2 79.9 125.8 93.6 25. da dourada e do camarão no Japão.4 84. Após engorda efectuada a nível dos sistemas aquícolas. Também são alvo de repovoamento espécies mais sedentárias como é o caso do esturjão na Europa.9 15.2 8. os juvenis são depositados no seu meio natural.6 5. e em menor grau do lavagante em França.8 32. As condições ambientais são muito distintas das conhecidas para 5 .9 5.2 14.1 11.4 16.3 30.1 97.8 91.1 90.9 117.4 86.3 86. sendo a sua recaptura efectuada pelos pescadores.7 8.7 12. Produção Em Terra Captura Aquacultura Total No Mar Captura Aquacultura Total Total captura Total aquacultura Total pescas no mundo Utilização Consumo Humano Rações e Óleo População (biliões) Fornecimento per capita de peixe (kg) 1994 1995 1996 1997 1998 1999 (milhões de toneladas) 6.3 23.8 122.4 Tabela 1: Produção e utilização das pescas no mundo (FAO) No Sul da Europa a cultura intensiva de peixes marinhos é uma actividade muito mais recente. Presentemente são produzidas três espécies principais: robalo.8 92.2 97. dourada e rodovalho.3 90.

desde a simples policultura extensiva de engorda de alevins e juvenis em áreas delimitadas e em condições próximas das do meio natural. que a produção de espécies piscícolas em cativeiro.a cultura de salmão no norte da Europa: a intensidade luminosa. Foi nas águas doces e especialmente através da cultura da truta. com a publicação do regulamento de pesca nas águas interiores. evoluíu no sentido da monocultura e do regime intensivo. Geralmente a baixa dispersão e as elevadas temperaturas de Verão também constituem pontos fracos para a aquacultura em relação ao ambiente. a temperatura e a salinidade são mais elevadas. Actualmente. salgadas e salobras. nomeadamente a partir de 1962. até à aquacultura intensiva ou industrial. PANORAMA NACIONAL Considerando Portugal Continental. feita em tanques ou em gaiolas 6 . Gráfico 2: Produção da aquacultura no mundo m 1998 (INE) 3. a transparência. a zona costeira está mais densamente ocupada no Sul da Europa aparecendo conflitos de espaço com outras actividades do sector terciário para a área costeira. a actividade aquícola pratica-se nas águas doces. Além disso. compreende diversas variantes. mas estes parâmetros ainda não foram realmente investigados. a prática da aquacultura em Portugal.

visando sobretudo a pesca desportiva. o da ostricultura foi revitalizado com a implantação. ainda hoje. na zona de Sagres. Os regimes extensivos têm sido impostos pelas autoridades responsáveis pelo ambiente em áreas protegidas. mas também. desde 1890. Inicialmente foi cultivada para o povoamento de lagos e de rios. A truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) é cultivada em água doce. como a maior piscicultura industrial do país (500-600 ton/ano). continua a ser produzida nos moldes tradicionais em parques localizados na Ria Formosa. com a alegação de que as rações comerciais poderiam contribuir para elevar os níveis de poluição. entre nós. Quanto à moluscicultura. O sector caracteriza-se por um ainda pequeno volume de produção. Em Portugal. principalmente de enguia europeia (Anguilla anguilla). em que a engorda dos alevins é efectuada através de alimentos naturais ou de rações. a aquacultura em águas continentais é hoje. Mais tarde passou também a ser cultivada para o consumo. como é o caso do linguado (Solea senegalensis). como o pargo (Pagrus pagrus) e o sargo (Diplodus spp. assim como sparídeos. devido à predominância de explorações artesanais e pelo regime de produção extensivo. a cultura de trutas (sobretudo a truta arco-iris) e a cultura de enguias. Se por um lado o sector da moluscicultura pouco tem evoluido. Outras culturas têm sido objecto de crescente interesse em Portugal.). Esta unidade mantém-se. Por outro lado. Além da truticultura e da anguicultura acima referidas. 7 . de um empreendimento de engorda de Crassostrea gigas. a tradicional apetência do nosso povo para o consumo de pescado em fresco tem feito com que as actividades que dominam a aquacultura estejam ligadas aos bivalves e moluscos e principalmente para exportação. tendo sido construída em 1968 a primeira piscicultura privada. no nosso país também se pratica a cultura do robalo (Dicentrarchus labrax) e da dourada (Sparus aurata). em Paredes de Coura. fundamentalmente. baseada quase exclusivamente na produção da ameijoa boa (Ruditapes decussatus).flutuante. sendo a sua produção afectada sobretudo pela poluição de origem antropogénica durante o período de Verão. não só como a maior truticultura.

Permite uma densidade de stock intermédia entre a produção intensiva e extensiva. No entanto. fezes mucosas e escamas do peixe. que causam impactos muito localizados e substanciais nos lagos e áreas costeiras em que são descarregados. que tendem a sedimentar-se no fundo. estima-se (Anon. A alimentação é 8 . como calibragens e amostragens sucessivas. como o CO2 e urina. É muito comum na Dinamarca para a produção de truta e na Ásia para a produção de camarão. TIPOS DE AQUACULTURA Basicamente existem três tipos de produção: Intensiva: É feita em tanques em que a circulação da água é constante. produtos farmacêuticos e outros químicos usados Semi – intensiva: É feita em tanques de terra.4. 1996) que a aquacultura em jaula (extensiva) produz mais desperdícios por unidade de peixe produzido. A tecnologia de reprodução e crescimento têm uma atenção especial. Tem sido alvo de preocupação em ambos os casos pela qualidade dos seus efluentes. onde todos os parâmetros de produção encontram-se sob observação permanente. Os desperdícios libertados para o meio aquático constituem o maior impacto destas aquaculturas como sendo: restos de alimentos. do que a aquacultura em tanques (intensiva). entrando estes produtos directamente no meio sem perspectivas de serem tratados. existindo um elevado índice de controlo. sendo o controlo do ciclo elevado podendo chegar-se à independência total das condições naturais e à progressiva melhoria genética da população. Permite elevado stock (número de peixes por m2). Caracteriza-se pela utilização de densidades de cargas elevadas. resíduos metabólicos solúveis. e onde se fazem duas renovações totais da água por hora. Os animais são alimentados exclusivamente com alimento artificial. Para aumentar o rendimento de crescimento recorre-se frequentemente a metodologias de maneio avançadas. a alimentação é artificial é o tipo de produção que está mais sujeito a resíduos medicamentosos.

ou indirectamente através da remineralização das fezes ou da matéria orgânica 5. Neste tipo de cultura a espécie que se deseja cultivar é capturada no meio natural. ou seja. mas. Trabalhos desenvolvidos sugerem que seria necessário a intensificação da cultura para se começarem a produzir efeitos negativos a nível da fauna. um défice de alimento para o zooplâcton.natural. pelo que não se observam fenómenos de eutrofização do meio. directamente através da amónia ou outras excreções solúveis. Observam-se ainda aumentos de amónia e fósforo dissolvidos na coluna de água. e é trazida pelas marés. Permite um stock menor. De seguida realiza-se a fase de engorda. recorrendo a alimentos existentes no meio natural. Extensiva: É feita junto ao mar em tanques de terra. o alimento é trazido pelas marés. Apresenta contudo alguns impactos. afectando a qualidade da água e consequentemente toda a comunidade. Aproveita as condições naturais disponíveis e o controle do sistema de produção é quase inexistente. com consequências para a cultura de bivalves. que se acumulam num sedimento orgânico. No final desta fase esvaziam-se os tanques e/ou captura-se as espécies cultivadas. Isto significa que sendo meios em que se estabelecem cadeias tróficas equilibradas. A alimentação é natural. É o tipo de cultura mais primitivo. devido à exposição ás diversas fontes de poluição de que os sistemas de aquicultura são alvo. resulta numa remoção equilibrada dos nutrientes. mas que se reduzem a reduções de biomassa de fitoplâcton. a partir de um ano de idade. A renovação da água é feita consoante as marés. na forma juvenil ou larvar. Na maricultura podemos encontrar: 9 . TIPOS DE VIVEIROS Este considerando tem a sua importância. É um método que quando aplicado por exemplo a mexilhão ou a algas. aumento da produção primária através da estimulação da reciclagem de nutrientes. ou entra de forma passiva nos tanques utilizados. a alimentação natural é suplementada por alimentação artificial. Este sistema origina duas vias de poluição: dejectos fecais e desperdícios alimentares.

Vedações ("eclosures"): praticadas sobretudo ao longo das costas. . Neste processo estão envolvidas entidades com competência e atribuições diversas. bem como das explorações em água doce ou continentais. . sistema em que se cultiva no mesmo espaço físico apenas uma espécie. piscícolas ou interiores. em que o alimento é exclusivamente natural e o regime de cultura intensivo que é predominantemente artificial e o semi-intensivo. que estabelece os princípios orientadores da actividade das culturas marinhas e salobras. Na aquacultura de água doce: .Gaiolas. que transpõe para o direito interno as directivas 78/659/CEE e 79/923/CEE. para a emissão de documentos essenciais à classificação 10 . estão definidos os dois sistemas de produção praticados: a monocultura. constituídas por redes. . os meios utilizados para obter uma qualidade de água apropriada para a produção aquícola de acordo com os regulamentos comunitários está regida pelo decreto de lei 74/90 de 7 de Março. são igualmente definidos os regimes de exploração prevalecentes: o regime de cultura extensivo. Ainda no mesmo diploma. no qual se cria mais de uma espécie. As regras para os sistemas de produção e regimes de exploração das unidades de cultivo das diferentes espécies. No diploma acima mencionado. . estão definidas pela respectiva legislação (Decreto de lei nº 261/89 de Agosto). ribeiras. sendo classificadas em conquícolas.Tanques ou outros dispositivos artificiais. no qual se adiciona ao alimento natural um suplemento artificial. E a policultura.Águas naturais como lagos. A descrição sobre a qualidade da água. Estão aí definidas as várias categorias de águas em função dos seus usos específicos..Gaiolas.Tanques de água salgada.

teor em sais nutritivos). pode não existir qualquer fonte de poluição e no entanto a água pode apresentar matérias tóxicas que são geradas ao nível do próprio ambiente do viveiro. Nesta situação há que considerar como possíveis factores indutores e considerar os objectivos de qualidade de uma água apropriada ao cultivo Regra geral. precauções são tomadas para proteger as explorações aquícolas contra os efeitos das poluições crónicas. O aspecto mais estudado é o efeito poluidor dos produtos desperdiçados durante o processo produtivo. azoto. águas coradas. conflitos com outras formas de utilização dos recursos naturais renováveis (turismo. pesca)."bloom 11 . tendo consequentemente um carácter durável ou temporário. POLUIÇÃO O impacto da aquacultura no meio ambiente pode manifestar-se em várias perspectivas. existe também impacto a nível visual. A poluição pode resultar de um fenómeno crónico ou acidental. fósforo.e à aplicação de programas de redução da poluição. sendo no entanto difícil de prever o impacto dos resíduos acidentais. optando-se pela escolha de locais afastados dos centros urbanos e industriais. depende da sua capacidade de integrar os resíduos urbanos. Qualquer que seja a sua origem. introdução de espécies exóticas e alterações genéticas dos estoques selvagens. etc. silício. Quando os resíduos estão em quantidades demasiado elevadas para poderem ser assimilados. No entanto. Por outro lado. favorecendo os fenómenos distróficos (proliferação de algas.). os poluentes actuam sobre as explorações aquícolas de três formas distintas: Modificação das características hidrobiológicas da água: (temperatura. Em relação à qualidade da água esta. industriais e agrícolas nos grandes ciclos biogeoquímicos (carbono. oxigénio dissolvido. à realização de controlos periódicos e finalmente ao acompanhamento de programas em curso 6. os equilíbrios fundamentais dos ecossistemas são perturbados e fala-se então em alteração ou de poluição.

microorganismos patogénicos e diversas substâncias químicasque tornam estes recursos impróprios para consumo humano. O tratamento da água relativamente ao cloro e aos metais pesados raramente é possível. tendo em conta as vantagens que podem representar a proximidade de um centro urbano (comercialização). Contaminação dos tecidos animais: por biotoxinas. mesmo para os salmonídeos.fitoplanctónico") ou anóxicos . Os critérios de qualidade de uma água apropriada são mal conhecidos. As características que são geralmente consideradas para avaliar o potencial aquícola de uma água são: -oxigénio dissolvido. tendo em conta o seu custo. Os critérios de qualidade de qualidade considerados para as espécies que vivem no meio natural são de aplicação delicada Um determinado local raramente oferece uma água com todas as características ideais para a espécie em criação. Certos inconvenientes podem ser ultrapassados através de meios técnicos. as capacidades de aclimatação dos animais (que permitem aceitar os limiares mais elevados) e os efeitos de sinergia entre os poluentes (que baixam os limiares de tolerância a um determinado poluente) são na maioria das vezes desconhecidos. Acção tóxica directa de substâncias biocidas: conduzindo a perturbações fisiológicas graves ou a mortalidade massiva. A implementação de um sistema aquícola numa zona poluída pode ser considerada. -amoníaco. A solução consiste em dispor de uma instalação que permita isolar o sistema de criação dos aportes exteriores e o tratamento da poluição interna. de uma central eléctrica (água aquecida) ou de uma barragem (regulação do débito). 12 . pondo em risco a sobrevivência das espécies exploradas. que é previsível e tratável a um custo razoavelmente económico. Com efeito.

. -matéria orgânica. -CO2. É necessário controlar os parâmetros fisícos-químicos da água.amoníaco : 0. -alcalinidade. e alteração estrutural da comunidade biótica. mas igualmente desperdícios (efluentes): estes incluem alimento 13 . na actividade heterófica e na qualidade de sedimentos. -dureza. mas na maior parte negativos. -nitratos. A prática da aquacultura leva a “outputs” que incluem não só os produtos cultivados. Estes nutrientes derivam de partículas sólidas e perdas dissolvidas geradas durante o processo de produção. . sendo este grau variável. eutrofização. . principalmente quando se procede à reciclagem das águas de cultivo.1 mg/ HH3-N/L. A FAO estimou como valores limites toleráveis para o cultivo de peixe. As consequências destes desperdícios no ambiente aquático são: deplecção (esgotamento) do oxigénio. -pH. DESPERDÍCIOS DA AQUACULTURA E A SUA DETERMINAÇÃO O principal efeito da aquacultura é provocar o aumento dos níveis de nutrientes nas águas naturais. crustáceos e moluscos: .1 mg/NO2-N/L.nitratos : <100mg/NO3-N/L. Beveris (1994) refere que os impactos da aquacultura são raramente positivos.oxigénio dissolvido : > 5mg/L para os salmonídeos. Os impactos vão resultar em alterações nos níveis de fitoplâcton. 7.nitritos : 0.-nitritos. -matérias em suspensão. por vezes neutros.

Mais concretamente. estimam-se os “inputs” de matéria orgânica. 1992). Estes “outputs” consistem em sólidos orgânicos e inorgânicos. As concentrações de efluentes variam com a unidade de produção. que é libertado para a água sob a forma dissolvida de amónia.. de material particular em suspensão. Estes são importantes nutrientes para as plantas aquáticas provocando a sua proliferação. numa perspectiva de médio a longo prazo alterará as qualidades fisico-químicas da água. espécies cultivadas. Para tal. parte dele é indigestivel sendo excretado sem ser degradado. Este processo origina perdas de azoto. consideram-se de entre os micronutrientes presentes os que são considerados com maior potencial poluidor e faz-se a sua determinação. fezes e urina. 1984). O azoto e o fósforo são os nutrientes dissolvidos que originam maiores preocupações ambientais nas suas várias formas químicas. tipo de alimentação e quantidade de água utilizada. irão induzir alterações no meio. Para se fazer o estudo do impacto da actividade piscícola. estima-se: a percentagem de nutrientes que é incorporada. condições naturais do ambiente receptor. Os desperdícios por processos de transformação vários. sendo factores determinantes: o tipo de cultivo (em jaulas ou em tanques).não ingerido. diminuição do O2 dissolvido e aumento da matéria orgânica e nutrientes no sedimento e alterações na sua estrutura. A outra parte é absorvida pelo corpo e usada no processo metabólico para o crescimento tecidular. fezes e outra matéria excretada. jaulas flutuantes) constituem uma fonte continua de material alóctone para o meio. dos sedimentos e estrutura trófica da comunidade biótica (Alves. a intensidade do regime. a percentagem de perdas em nutrientes não ingeridos. dissolvidos. as repercussões da presença destes compostos seriam: 14 . Do alimento que é ingerido. de carência química e biológica do oxigénio na água. o qual. que na generalidade dos estudos se considera ser: o aumento dos teores de azoto e fósforo.ex. como o azoto e o fósforo (Beverdige et al. As aquaculturas de sistema intensivo (p. constituindo um desequilíbrio.

embora se encontrem elevadas densidades de espécies oportunistas. excepto em locais relativamente fechados como são os casos das baías. Observam-se contudo aumentos de amónia ou de oxigénio dissolvido muito localizados e de curta duração dentro ou imediatamente à volta das jaulas. onde se decompõe. designada oportunista. Em Portugal não temos experiência de problemas relacionados com a poluição de efluentes. devido a emanação de gases do fundo. caindo a maior parte para o fundo imediatamente por baixo e à volta das jaulas. onde a diversidade e riquezas específicas retomam os valores normais. 3-zona que se estende para além desta. Consequentemente. azoto e fósforo. Este fenómeno em meios mais fechados. A renovação da água é realizada a 15 . O obstáculo mais sério para o desenvolvimento e utilização de sistemas de reciclagem de águas resíduais ao nível das aquículturas é a repercussão que os poluentes poderão ter na saúde pública. geralmente restrita a 30 m das jaulas.Impacto na coluna de água: em águas marinhas o fenómeno de hipernutrificação (por incorporação de azoto e fósforo no fitoplâncton) não atinge valores apreciáveis dados os efeitos de diluição em volumes de água que são apreciáveis e as suas taxas de renovação. Impacto no sedimento: são produzidos 300 a 1000 Kg de sólidos por tonelada de produção de peixe. Destacam-se três zonas bênticas com características diferentes: 1-zona anóxica. que numa perspectiva mais alargada. no entanto. mas extensível a 200 m. Todas as zonas que permitem a aquacultura são zonas protegidas e qualquer aspecto prejudicial para a sobrevivência dos peixes e saúde pública é eliminado logo de início. Nesta zona a diversidade de organismos macrobênticos é baixa. existe pouca evidência de fenómenos de eutrofização. Pode-se dizer. geralmente dulceaquícolas leva à eutrofização do meio e “blooms” de algas. com sedimentos enriquecidos por carbono. mas completamente desprovido de macrobentos e com produção de sulfobactérias que colonizam a superfície. é notório que a aquacultura costeira contribui significativamente para os níveis de nutrientes na águas. em casos de hidrografia específica ou em unidades de cultivo mal geridas. 2-zona orgânica.

representa uma proporção pouco conhecida. na sua maior parte como compostos dissolvidos (principalmente amónia). As partículas sólidas em suspensão. as perdas azotadas branquiais e as elevadas quantidades de fósforo. Em condições normais. Os restantes três quartos são libertados para o mar. podendo representar até 9 % nos alimentos granulados (Kaushik. habitualmente fornecida pelas farinhas de peixe. quando as instalações estão localizadas em estuários ou lagos que têm uma comunicação natural com o mar. e pelos dejectos de origem fecal (alimentos não digeridos ou parcialmente digeridos). um quarto do azoto da ração consumida é incorporado pelo peixe. geralmente avaliada aproximadamente em cerca de 15-20 % do total distribuído. "Blooms" de plâncton são ocasionalmente comunicados em locais fechados.partir de efluentes sempre a montante. O alimento não consumido. O melhoramento nutricional é uma forma de alterar estes números de uma maneira ambientalmente mais aceitável. quando se trata de rios. por causa da renovação de água necessária para a cultura dos peixes. Os sólidos em suspensão de resíduos de alimentos e fezes. ou então pela simples movimentação das marés. onde apenas um quinto é retido pelos animais. os alimentos para essas espécies exigem teores elevados em proteína de elevado valor biológico. a selecção e avaliação cuidada das matérias-primas disponíveis e a melhoria significativa da utilização e disponibilidade do fósforo são áreas fundamentais a consolidar. 1990). As matérias em suspensão são veiculadas pelas partículas alimentares não ingeridas pelos peixes. A optimização da utilização da fracção proteica baixando de forma acentuada a excreção de amónia. nomeadamente através da optimização e estratégias de utilização das dietas. o impacto hidrológico na coluna de água não é fácil de identificar. Este número é diferente no que diz respeito ao fósforo. desperdiçado para o ambiente. Nos últimos anos têm vindo a ser feitos grandes esforços de investigação no sentido de diminuir o impacto da exploração intensiva de peixes sobre o meio ambiente circundante. sendo o resto evacuado principalmente como matéria particulada. são os tipos de poluição mais preocupantes provocados pelas pisciculturas. Dada a exploração quase exclusiva de espécies de peixes carnívoras. Basicamente. 16 .

1990). ao contrário dos animais terrestres que o fazem sob a forma de ureia ou ácido úrico. Kaushik. podem representar 50 % do total da poluição em aquacultura (Bergheim et al. muitos dos problemas verificados na alimentação dos peixes estavam relacionados com uma fraca qualidade física dos alimentos. Os peixes são animais que excretam os metabolitos resultantes do catabolismo proteico essencialmente sob a forma de amoníaco (70-90 %). e a processos de fabrico e práticas de alimentação inadequados. as proteínas alimentares são bem digeridas pela truta (digestibilidade superior a 80 %). Esta particularidade e o seu modo de vida aquático. De uma maneira geral. No entanto. acarreta problemas diferentes das práticas tradicionais de alimentação animal. originam um aumento dos dejectos fecais quando se utilizam matérias-primas vegetais em teores elevados (Kaushik. 1992). 1987. permite aos peixes desembaraçarem-se eficazmente dos produtos do metabolismo azotado com 17 .. granulometria. Cowey. são factores que influenciam significativamente o aumento dos dejectos piscícolas (Kaushik. 1988). etc. Este facto está relacionado com o desenvolvimento precoce nos teleósteos do equipamento enzimático necessário à degradação proteica (Kaushik. a qualidade das matérias-primas utilizadas (composição em aminoácidos essenciais. frequência e número de refeições). factores anti-nutricionais. No passado. 1992). 1991). O facto da transferência de nutrientes da dieta para os peixes ser via meio aquático. Pelo contrário. a digestibilidade da fracção glucídica apresenta uma grande variabilidade nasdiferentes espécies de peixes (Singh e Nose.geralmente imputáveis ao alimento. condiciona a sua utilização digestiva (De La Higuera e Cadernete. 1967.). Guillaume. 1992a). imputável por sua vez a oscilações da qualidade das farinhas e óleos de peixe utilizados. causam stress devido a deplecções em oxigénio. A perda de alimento devida a uma má gestão da alimentação (tabelas inadequadas. Alimentos desintegrados e não ingeridos poluem a água. influenciando o teor em matéria orgânica que afectam o crescimento e estado sanitário dos peixes (Cho. 1992a). 1986. A digestibilidade da gordura (animal e vegetal) é também geralmente elevada nos peixes (valores superiores a 90 %). A fraca actividade amilásica intestinal e a indigestibilidade da celulose em muitas espécies de peixes.

A maior percentagem de dejectos azotados solúveis é excretada pelas brânquias. o uso profiláctico de medicamentos e período de tempo em que estes químicos se mantém activos no ambiente. - Organofosfatos. protozoários e fungos. É definida pelo factor de acumulação. agentes antibacterianos sintécticos entre outros) As preocupações ambientas do uso de químicos no ambiente aquático devem-se à toxicidade destes componentes. apesar de também serem usados agentes de limpeza. ao desenvolvimento de resistências aos componentes pelos organismos patogénicos. A importância dos poluentes químicos sobre os organismos aquáticos depende das suas propriedades ecotoxicológicas: Biodegradabilidade: limita a persistência do poluente no meio.1. Os produtos mais comuns dividem em três classes: - Desinfectantes tópicos. bactérias. aminoglosósidos. que representa a relação entre os teores no organismo e na água. Bioacumulação: caracteriza a capacidade do poluente ser armazenado nos tecidos animais e contaminar os ecossistemas através das cadeias alimentares. POLUIÇÃO QUÍMICA A maioria dos químicos usados na aquacultura são para tratamento e prevenção de doenças. são usados para o tratamento de parasitas. 7. portanto os seus efeitos físico-químicos e biológicos. favorecendo a sua integração nos ciclos biogeoquímicos. 18 .uma utilização da proteína para fins energéticos mais ou menos eficiente. Antimicrobianos (tetraciclinas.

13 a 0. 41 morreram e 19 crianças nasceram com mal formações. Entre as centenas de pessoas envenenadas. selénio. esgotos industriais e a sua toxicidade depende da sua forma química. 7. Os que têm impacto imediato ao nível da saúde pública são o mercúrio. Os compostos de mercúrio orgânico concentram-se mais nas células sanguíneas do que no plasma. e também em vários órgãos. assim como os oligo-elementos tais como o cobre. a resposta primária dá-se ao nível dos rins. fígado e rim. mercúrio. objecto de descarga de metilmercúrio (organo-mercurial). Outras manifestações de 19 . O mercúrio na sua forma orgânica é estável no organismo dos animais. O envenenamento humano pelo mercúrio devido à ingestão de peixe contaminado é do conhecimento público. As águas continham de 1 a 10 ppb de mercúrio.15 ppb. a toxicidade aguda é determinada pela concentração que conduz a 50% de mortalidade numa população experimental (CL50) exposta ao poluente durante 48 ou 96 horas (CL50. arsénico e selénio. zinco. No último caso.48 ou CL50. O mercúrio orgânico é suficientemente móvel num animal para passar qualquer mecanismo de excreção.2. Os dois mecanismos principais de envenenamento pelo cádmio são através da inalação de fumos e poeiras contendo óxido de cádmio e através de ingestão de alimentos contaminados. filhas de mães afectadas. cádmio. chumbo. POLUENTES INORGÂNICOS São essencialmente os elementos metálicos pesados. A longo prazo a exposição a pequenas concentrações culmina com o aparecimento de falha renal (disfunção tubular renal) .96). O cádmio está quimicamente relacionado com o zinco e pode substituí-lo nos sistemas biológicos. que fazem parte de metaloproteínas e enzimas. O peixe e marisco ficaram susceptíveis aos elevados níveis de mercúrio orgânico da água. principalmente cérebro.Toxicidade: define os limiares a partir dos quais as funções biológicas são perturbadas. cádmio. chumbo. O caso mais grave ocorreu na região de Minimata no Japão. No alto mar os níveis típicos de Hg são da ordem dos 0. São introduzidos na água pela erosão dos solos. efectuada por uma fábrica de plásticos.

principalmente como um inibidor enzimático. peixe e arroz. Os efeitos mais graves de poluição orgânica estão relacionados relacionados com a deplecção de oxigénio. A absorção através do tracto intestinal é da ordem dos 10%. os diversos biocidas utilizados nos tratamentos intensivos contra predadores (pesticidas). sendo o cálculo da necessidade biológica de oxigénio utilizada para medir a gravidade da poluição 20 .casos mais graves são anemia. Não se move tão rapidamente para os sistemas biológicos. 7. Existe também um mecanismo de excreção. semi-vida e função das hemácias. Isto permite ao organismo "aceitar" uma determinada quantidade de chumbo sem que sintomas sejam detectados. Diminuí a síntese do heme. O chumbo actua no ser humano. semi-vidas relativamente longas no meio ambiente e potencial risco para as aquículturas e consumidores. descalcificação óssea (osteomalácia). POLUENTES ORGÂNICOS A poluição orgânica é devida a diversas substâncias entre as quais figuram os hidrocarbonetos petrolíferos. Um grave episódio de envenenamento pelo cádmio ocorreu no Japão na região do rio Jitsu.3. lesões cerebrais e dos nervos periféricos. Elevadas concentrações de cádmio foram encontradas na água. no entanto abaixo deste limiar podem ocorrer lesões cerebrais ligeiras e efeitos teratogénicos.5 ppb. Todos estes efeitos iniciam-se a níveis sanguíneos maiores do que 0. indicando a existência de uma reserva enzimática. As manifestações clínicas observadas foram dor à mínima pressão sobre os ossos. pelo que o nível não aumenta tão dramaticamente com contínua exposição a doses baixas. o que conduz a um decréscimo do número. disfunção hepática. como acontece com o mercúrio. deformação óssea e fracturas múltiplas. O quadro clínico será de anemia microcítica. Na natureza o chumbo não está presente nos compostos orgânicos. Outros efeitos crónicos incluem lesão renal (nefrite crónica). as moléculas tensio-activas utilizadas nas limpezas. O efeito de inibição enzimática não parece apresentar um limiar. Esta forma de envenenamento pelo cádmio ficou conhecida por doença de "Itai-Itai". São caracterizadas por um uso extensivo.

pristano (C18 H38) ou o esqualeno (C30H50). favorecendo assim as aplicações localizadas.1 a 1 mg/ l) são susceptíveis de conferir um gosto e odor desagradáveis ao peixe.2. Ao baixarem a tensão superficial da água. Fracas concentrações (0.1. 21 .Insecticidas: organoclorados. na generalidade que a toxicidade cresce no sentido parafinas. menos devastadoras para a flora e a fauna adjacentes. HIDROCARBONETOS E SUBSTÂNCIAS TENSIOACTIVAS Constituem uma vasta classe de produtos.3. sendo os derivados iónicos mais tóxicos que os não-iónicos. os tensio-activos solubilizam as gorduras e diminuem os teores de oxigénio. PESTICIDAS Representam entre 300 a 400 substâncias tóxicas activas utilizadas em mais de 2000 formulações.3. alguns dos quais são constituintes normais dos tecidos como o fitano (C20H42). . De modo geral. Entre as classes de pesticidas. organofosforados. 7. para luta contra predadores de culturas. os peixes são mais sensíveis à presença de tensio-activos do que os crustáceos e moluscos. encontramos diversas funções químicas: . Admite-se. Dissolvidos ou dispersos sob a forma de emulsões. dieldrina. heptacloro) foram gradualmente sendo substítuidos por compostos menos persistentes e mais eficazes relativamente a determinado predador . olefinas e derivados aromáticos. os resíduos dos hidrocarbonetos petrolíferos são ingeridos pelos organismos aquáticos e participam no seu metabolismo lipídico. Os insecticidas clorados ( DDT. aldrina.7. sulfonas e sulfonatos.Acaricidas: carbinóis.

fotossíntese (herbícidas). . mas também a aldrina e a dieldrina). Os organo-mercuriais são representados principalmente pelo fenilmercúrio.Herbicidas: carbamato. ácidos fenoxiacéticos.4. 22 . mercúrio. fortemente tóxico para os organismos aquáticos. Este último. outrora utilizado como pesticida agrícola. Os herbicídas e pesticidas organofosforados têm de modo geral uma semi-vida curta para poderem ser transmitidos a um sistema de aquacultura.constitui a forma mais frequente de mercúrio orgânico sendo.. chumbo e o estanho a agrupamentos alifáticos e aromáticos de numerosos compostos. Os pesticidas de síntese actuam bloqueando os principais mecanismos bioquímicos. carborantes ( organo-plúmbicos ). todos os organo-metálicos são mais tóxicos para os organismos aquáticos do que os metais de que derivam podem também ser biossintetizadas por microorganismos dos sedimentos.Fungicidas: carbamatos e tiocarbamatos. e os hidrocarbonetos halogenados. facto que lhes concede um coeficiente de partição elevado nas gorduras nos organismos aquáticos. COMPOSTOS ORGANO-METÁLICOS Formados por ligação do arsénico. actividade colinesterásica (insecticidas). 7. À excepção dos compostos arseniados.etc. são altamente solúveis em lipídos e fracamente solúveis na água. tais como fosforilação oxidativa. e pelo metilmercúrio.. triazinas. Estes (principalmente o DDT e os seus metabólitos. no entanto se estiverem presentes em concentrações elevadas podem constituir um risco para a saúde e para o sucesso do cultivo. alguns dos quais produzidos industrialmente e utilizados para diversos fins: biocidas (organo-mercurais e organo. como já foi focado anteriormente. os organoclorados são os que apresentam maiores problemas para o ambiente. derivados do benzeno e do fenol.estânicos). Entre os pesticidas. tiocarbamatos. compostos de amónio quaternários.

devido à sua grande variedade e correspondente diversidade nas respostas aos diversos métodos de análise. Nos hidrocarbonetos. 8. os quais requerem equipamento relativamente sofisticado. O procedimento normal é submeter-se as amostras a um processo de "screening" (frenagem) para identificar os grupos de compostos. Na medida em que o ideal é que a amostra seja recolhida antes do produto chegar ao mercado.1 COMPOSTOS ORGÂNICOS É particularmente difícil vigiar o nível dos compostos orgânicos. A nível de pesticidas utiliza-se a cromatografia liquído-gás equipada com detector de electrões. O TBT libertado é fortemente tóxico. foram objecto de utilização intensiva para a protecção das quilhas dos barcos contra a sujidade biológica. reprodutibilidade. solubilizando-o sob a forma Hg2+ que é posteriormente metilada e acumulada nas cadeias alimentares. os requisitos para a realização da análise de determinada amostra são a simplicidade. O processo de análise deverá ser simples de modo a não requerer grande perícia técnica. particularmente os tributiletanos. é exigida velocidade na análise. pois eventuais medidas legais a tomar serão baseadas nos resultados. 23 . MÉTODOS E SISTEMAS DE VIGILÂNCIA Em geral. Os organo-estânicos. Reprodutibilidade é importante.As bactérias do sedimento têm um papel importante no ciclo do mercúrio. 8. antes de se efectuarem os testes específicos. celeridade e sensibilidade. o método mais específico é a detecção à chama de hidrogénio ligada à cromatografia liquído-gás.

O O2 introduzido na água pela fotossíntese fitoplanctónica e pelas trocas entre a superfície da água e a atmosfera é insuficiente para compensar as necessidades respiratórias e a degradação oxidativa dos compostos azotados. Alguns dos métodos para análise de metais aplicáveis em aquacultura são: . FENÓMENOS ANÓXICOS Consiste na retirada de oxigénio dissolvido na água.Análise de activação neutrónica. Resultam de um saldo deficitário em oxigénio: entre os gases dissolvidos o O2 é o que desempenha o papel mais importante para a qualidade biótica da água de cultivo. Poderá ir desde a mudança na palatibilidade do produto até uma mortalidade massiva. CONTAMINAÇÃO INORGÂNICA A seguir às preocupações com a saúde pública.8. e pelo acréscimo de respiração microbiana nos sedimentos e na coluna de água resultantes no aumento do carbono orgânico do sistema. 9.Análise da absorção atómica.2. fosforados e das matérias orgânicas carbonadas. Evidentemente. necessitando neste caso. .Espectroscopia de emissão. sendo causada por: respiração de um número elevado de animais em produção. 24 . Quase todos os compostos inorgânicos terão um grau de toxicidade. . Os limites estabelecidos pela FAO são restrições cada vez mais apertadas aos limites permitidos serão levadas a cabo em todos os casos de contaminação. o aspecto que coloca maior cuidado é o efeito que a contaminação terá na produção do sistema aquícola. efectuando um cuidadoso estudo antes de começar a operar nessa área. se presentes em concentrações suficientemente elevadas. o aquicultor terá preocupações acrescentadas se a sua instalação estiver localizada a jusante de uma mina ou indústria química. de se proteger de eventuais descargas.

que conferem a sua coloração pigmentar à água (vermelha amarela. O fitoplâncton não se encontra de forma constante ao longo de todo o ano. o qual constitui o alimento preferencial dos moluscos filtradores. Para se determinar este consumo. Estas últimas são satisfeitas quer pela matéria orgânica particulada presente no meio natural. portanto das suas necessidades energéticas.). necessitando de condições climáticas favoráveis para se desenvolver das quais a temperatura da água tem um papel determinante. utilizam-se métodos de medição directa da concentração de oxigénio na coluna de água (para os animais da cultura) e a medição do consumo de oxigénio por respiração microbiana através de cálculo das necessidades de oxigénio biológico. que depende inversamente da temperatura e da salinidade. e a diferença entre os dois resultados indica-nos as propriedades de consumo de oxigénio relativas da água.. A elevação da temperatura das águas conduz ao aumento do metabolismo dos organismos aquáticos. As necessidades 25 . atingindo um valor máximo denominado taxa de saturação. Estas eflorescências conhecidas com o nome de "bloom fitoplanctònico". branca. BLOOM FITOPLANCTÓNICO Certas condições do meio. A concentração de oxigénio inicial e final é determinada. fraca agitação das águas e forte insolação. tais como os teores de sais nutritivos elevado. quer pelos aportes nutricionais adaptadas qualitativamente e quantitativamente no caso dos sistemas de criação em meio controlado. da quantidade de matéria orgânica presente e da actividade das algas e do zooplâncton. podem conduzir à formação de elevadas densidades celulares (milhões de células/ L). Este parâmetro depende da actividade metabólica das bactérias. A matéria particulada é particularmente formada pelo fitoplâncton vegetal. 10.. são favoráveis à multiplicação rápida do fitoplâncton. verde.A sua solubilidade na água é limitada. encontradas sobretudo na Primavera.

fósforo e de silício indispensáveis ao desenvolvimento do fitoplâncton. Os sais minerais em solução e as matérias orgânicas constituem as reservas de azoto. A produção vegetal resultante da fotossíntese. A erosão dos solos. os resíduos urbanos e agrìcolas e a decomposição da matéria orgânica detritica representam as principais vias de introdução de do N e do P no meio marinho. Pelo que os sais minerais são parâmetros muito importantes para avaliar o funcionamento destes ecossistemas. a qual gera nos ecossistemas costeiros graves desequilíbrios designados pelo nome de eutrofização. fitoplâncton e algas. A sua carência é sobretudo limitante para o cultivo em mar aberto. Este fitoplâncton constitui o alimento para o zooplâncton.energéticas e a reprodução de numerosas espécies aquáticas são satisfeitas pela biomassa fitoplanctónica. Quando as quantidades introduzidas são muito elevadas provocam uma "explosão" do crescimento vegetal. 26 . sem aporte de alimento. apresenta-se sob duas formas: algas uniceluleres planctónicas de alguns micra de dimensão e algas benticas consumíveis pelos herbívoros. o qual é por sua vez consumido pelos peixes.

através de reduções na diversidade de habitat. o volume de produção da aquacultura é representado na sua maior parte por ostras e outros bivalves destinados à exportação. Estas vantagens advêm do controlo das dietas. os valores da 27 . não esquecendo dados sobre qual o destino dos afluentes e dos organismos cultivados em caso da sua contaminação e morte massiva. podem causar alterações ou reduções na biodiversividade. possivelmente sobre algumas variavéis ambientais e a capacidade de planear o calendário do processo da pré e pós colheita. condições de culturas. alimentos não digeridos e urinas da aquacultura intensiva em jaulas.CONCLUSÃO A aquacultura devido aos aspectos de maneio da exploração e fixação num determinado local possui vantagens ao nível do grande controlo exercido em termos da qualidade do produto final. em particular da cultura de animais aquáticos. é um imperativo nacional para obviar a redução das actuais capturas e acorrer à bem conhecida apetência da população portuguesa pelos produtos de origem aquática. A dinamização da aquacultura em Portugal. no início do século XX. uma rentabilidade por vezes problemática. vários autores estimam que a produção aquícola poderá igualar. principalmente de forma indirecta. Tendo-se o cuidado de estabelecer estudos vocacionados a fornecer informação detalhada dos possíveis efeitos que podem resultar para o consumidor e vida aquática adjacente. Apesar de muitos dos inconvenientes da aquacultura. quando comparado com a pesca. Fezes. Os riscos para a saúde pública de um sistema aquícola que utiliza águas residuais são muito reais e devem ser considerados com maior preocupação e cuidado em termos de vigilância e inspecção pelas autoridades sanitárias. tem-se uma simplificação das cadeias tróficas e uma redução da eficiência de reciclagem de energia e nutrientes. Como resultado final. das ameaças devido à poluição. Actualmente. Esta calendarização das operações e a uniformidade dos "outputs" permitirá às autoridades competentes exercerem um grau de controlo mais elevado sobre os sistemas de aquacultura.

a projecção de dados relativamente ao ano 2000. mostra que a produção deverá atingir 22 milhões de toneladas. tendo em conta os critérios económicos dos países produtores (e após indicadores do Banco Mundial). A aquacultura que representa 13% da produção do pescado actual. 28 . Segundo Nash (1987).pesca. passará a 25% em tonelagem. o dobro da produção de 1984.

A. A. University of Queensland... “Environmental management for aquaculture”. E. 1998 . T.Beveridge. Fisheries technical paper 374. “Desenvolvimento da aquacultura como um sistema de produção animal em equilíbrio com o meio ambiente”. “Environmental managemente of aquaculture effluent.www.. FAO.. Redding. . 1996 . Development of biological indicators and biological filters’’..www. 1998.. Inland fishery enhancements. . “Cage culture: limitations in lakes and reservoirs”.fao.com 29 .BIBLIOGRAFIA . P. Australia. Vila Real.Gomes.oceest. Stewart. Rema.pt .Jones. Kluwer Academic Publishers. A.Midlen. 1998.. London. Revista Portuguesa de Zootecnia. M.

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