Adalberto Ricardo Pessoa

SINCRONICIDADE E REALIDADE TRANSPSÍQUICA
Um estudo de algumas relações entre a Psicologia Junguiana e a Física Moderna

FACIS/IBEHE São Paulo 2005

Adalberto Ricardo Pessoa

SINCRONICIDADE E REALIDADE TRANSPSÍQUICA
Um estudo de algumas relações entre a Psicologia Junguiana e a Física Moderna

Monografia apresentada à FACIS/IBEHE como exigência parcial para a obtenção do título de especialista em Psicologia Junguiana

FACIS/IBEHE São Paulo 2005

Não apenas as descobertas da parapsicologia, mas minhas próprias reflexões teóricas... levaram-me a certos postulados que tocam o reino da física nuclear e o conceito do espaço-tempo contínuo. E isso abre toda a questão da realidade transpsíquica imediatamente na base da psique. Carl Gustav Jung

Sumário

Resumo ................................................................................................................ pág. 05 Introdução ............................................................................................................ pág. 06 Capítulo 1 – Conceitos Fundamentais.................................................................. pág. 08 Capítulo 2 – O conceito de Sincronicidade ......................................................... pág. 17 Capítulo 3 – Realidade Transpsíquica ................................................................. pág. 25 Capítulo 4 – Realidade Transpsíquica e Percepções Transcerebrais .................. Conclusão ............................................................................................................ pág. 39 pág. 45

Bibliografia .......................................................................................................... pág. 51

Resumo
O objetivo desse estudo é traçar relações entre o conceito de sincronicidade e a concepção de Jung sobre o que ele denominou de Realidade Transpsíquica. Esse trabalho também pode ser compreendido como uma pesquisa sobre algumas relações entre a Psicologia Junguiana e a Física Moderna. O conceito de realidade transpsíquica foi apenas sugerido por Jung, e pouco trabalhado pelos pós-junguianos, mas parece se tratar de um conceito fundamental por estar envolvido com uma dimensão muito particular que estrutura simultaneamente a realidade psíquica e a realidade física ou material, levantando questões não apenas de natureza psicológica, mas até mesmo cosmológicas. No contexto da teoria da sincronicidade, e apoiada por descobertas da Física Moderna, esse trabalho constitui um questionamento sobre um paradigma de ciência que inclui a psique e a consciência humana no estudo dos fenômenos e a da própria realidade. Além disso, como veremos, há indícios que parecem apontar para a comprovação experimental e matemática do fenômeno sincronístico, exatamente como Jung chegou a profetizar em suas obras. Esse trabalho se conclui com a sugestão de uma cosmologia que compreende um elemento providencial de significação na ordem (ou na aparente desordem) do universo, e assim descreve uma visão da realidade muito diferente da adotada pelo senso comum ou pela visão clássica.

Essa monografia também pode ser considerada um estudo sobre algumas relações entre psicologia analítica e física moderna.Introdução O objetivo desse estudo é a pesquisa das relações entre os conceitos junguianos de sincronicidade e realidade transpsíquica. por envolver uma reflexão sobre a organização estrutural do próprio universo. ao questionar a natureza essencial da própria realidade. o tema ao mesmo tempo em que se apóia em conceitos da psicologia. mas apenas levantar reflexões em um campo fértil de estudo que engloba (explicita ou implicitamente) diferentes disciplinas – psicologia. é inesgotável. A motivação por trás dessa pesquisa envolve o questionamento sobre uma visão de ser humano e universo que considere um fator de significação por trás daquilo que aparentemente se comporta como um fenômeno caótico ou casual. esse trabalho esboça algumas especulações sobre a natureza espiritual que o conceito de realidade transpsíquica pode incorporar. à parte. Logicamente. embora o aprofundamento desse tipo de questão justificaria. extrapola os seus limites. No âmbito metafísico. Do ponto de vista metodológico. física. bem como pertencente ao âmbito metafísico. e de uma certa linha de teóricos da física abertos a questões metafísicas . que em si. Trata-se de um questionamento que pode ser considerado como pertencente ao âmbito cosmológico. além de tratar-se de um assunto de interesse de diferentes áreas da ciência contemporânea. filosofia. essa monografia pode ser caracterizada como uma pesquisa teórica derivada do estudo comparativo de textos extraídos da literatura analítica em psicologia. Em qualquer caso. a ambição não é esgotar essa temática. entre outras – que são exigidas quando queremos entender o fenômeno da sincronicidade com profundidade. um trabalho de pesquisa.

evidenciando que por trás da aparente simplicidade de fenômenos casuais intermitentes. pois quando fenomenologicamente penetramos no conhecimento do universo. de nossa alma. penetramos também no conhecimento de nossa psique. porém penetrante. Essa monografia representa. . um convite a essa viagem interior. Essa pesquisa pode assim. então. Esse estudo possui a sua importância coletiva e social ao oferecer uma pequena contribuição para refletir questões existenciais que têm acompanhado a humanidade há séculos. pode haver um universo de possibilidades dinamicamente estruturantes que denunciam que a realidade se organiza de uma forma muito diferente do que comumente (ou classicamente) pensamos. em muitos aspectos se assemelham e/ou complementam a cosmovisão junguiana subjacente à teoria da sincronicidade e da realidade transpsíquica. O modelo de pensamento sistêmico e a ampla visão moderna.como Fritjof Capra. holística e transpessoal desses autores. representar uma contribuição sutil. ou em outras palavras. Danah Zohar e Amit Goswami. O inverso também é verdadeiro. de nós mesmos. ao nosso processo individual e coletivo de autoconhecimento. assim.

não há consciência sem discriminação de opostos3. bem como definições de outras áreas de conhecimento que possam ser importantes nessa dissertação. Segundo a concepção junguiana da psique. p. 401. são inconscientes1. Tipos Psicológicos. Além disso. relacionados de tal forma com o eu que lhes caiba a qualidade de conscientes. Segundo as palavras de Jung. II) Ego ou “Eu” O ego é o centro da consciência. porém não percebidas pelo mesmo. ou o complexo central no campo da consciência4. Ibidem. 402. p. a consciência individual é uma superestrutura que tem por base e origem o inconsciente. 57. estes não estão todos necessariamente vinculados ao eu (ego).Capítulo 1 – Conceitos Fundamentais Serão definidos a partir de agora alguns conceitos da teoria analítica que serão relacionados à temática predominante desse trabalho de pesquisa. 1 2 Carl Gustav JUNG. p. 4 Ibid. isto é. Jung distingue conceitualmente consciência de psique. Relações com o ego. . Existe uma boa quantidade de complexos psíquicos que não estão necessariamente vinculados ao eu 2. enquanto puderem assim ser entendidas pelo ego. 3 Daryl SHARP.. Léxico Junguiano. I) A consciência A consciência pode ser definida como função ou atividade que mantém a relação entre os conteúdos psíquicos e o ego. sendo que esta engloba tanto a consciência quanto o inconsciente: Consciência não é a mesma coisa que psique. pois a psique representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos. 48.

ao atingir o desconhecido. porém. ao mesmo tempo. quais sejam precisamente os arquétipos” 10. mas o si-mesmo é o sujeito do meu todo. uma vez que ela pode estender-se indefinidamente. p. 87. 95. centro dos campos de consciência 8. mas apenas um complexo entre outros complexos. 10 Carl Gustav JUNG. p. .Entendo o “eu” como um complexo de representações que constitui para mim o centro de meu campo de consciência e que me parece ter grande continuidade e identidade consigo mesmo. confundido com o conhecimento do self (si-mesmo). Jung observou que o conhecimento da personalidade egóica é. muitas vezes. Este último é constituído por tudo aquilo que ignoramos. pode achar que conhece a si mesma de maneira completa. vasto e inexaurível. destituídos da qualidade de consciência7. A Natureza da psique. 354. p. Léxico Junguiano. A esse respeito Jung expõe: Teoricamemte é impossível fixar limites no campo da consciência. 406. ele sempre atinge seus limites. 8 Carl Gustav JUNG. Tipos Psicológicos. também da psique inconsciente. Enquanto eu for apenas o centro do meu campo consciente. Por isso distingo entre eu e si-mesmo. Neste sentido o si-mesmo seria uma grandeza (ideal) que encerraria dentro dele o eu5. 57. Por isso. 9 Daryl SHARP. p. O inconsciente é. O inconsciente é “a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerra as formas ou categorias que as regulam. O eu é o sujeito apenas da minha consciência. Sonhos. e desconhecido pelo sujeito 6. p. por aquilo que não tem qualquer relação com o eu. Daryl SHARP. Assim. o ego conhece apenas seus próprios conteúdos. Empiricamente. O complexo do eu é tanto um conteúdo quanto uma condição da consciência. 86. III) O Inconsciente O inconsciente é a totalidade dos fenômenos psíquicos. não é idêntico ao todo da minha psique. 5 6 Carl Gustav JUNG.. p. e não o material psíquico real provindo do inconsciente. mas inclui os conteúdos que podem ou que irão se tornar conscientes 9. Memória. pois um elemento psíquico me é consciente enquanto estiver relacionado com o complexo do eu. Léxico Junguiano. uma pessoa que possua alguma consciência de sua identidade de ego. Reflexões. 7 Ibid. falo também de complexo do eu. quando na verdade. Na verdade é mais do que o desconhecido ou o depósito de pensamentos e emoções conscientes que foram reprimidos.

tudo isto são conteúdos do inconsciente 12. 426. Léxico Junguiano. que não é capaz de se tornar consciente. Como Freud. o subliminalmente percebido. Dicionário crítico de análise junguiana. mas de que atualmente estou esquecido.. pensado e sentido – e ao lado desses. recordo. todas as coisas futuras que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão à consciência. e do qual apenas temos algum conhecimento indireto. 14 Carl Gustav JUNG. Jung propôs uma classificação geral que distingue um inconsciente pessoal que engloba todas as aquisições da existência pessoal – o esquecido. p. A Natureza da psique. Assim definido. a existências de outros conteúdos que não provêm das aquisições pessoais. suas leis e funções próprias 13. pesquisamos o relacionamento entre matéria e espírito11. Jung usa o termo inconsciente tanto para descrever conteúdos psíquicos que estão fora do campo de acesso do ego. mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral. A função compensatória do inconsciente se manifesta com tanto maior clareza quanto mais unilateral for a atitude consciente. Como afirma Jung. Tipos Psicológicos. p. tudo o que sinto. e disso dá muitos exemplos a patologia14. Jung define a existência de um relacionamento funcional compensatório entre a consciência e o inconsciente porque. Jung aponta a necessidade de se acrescentar ao conceito de inconsciente o sistema psicóide. como para delimitar um lugar psíquico com seu caráter. 87. o reprimido. mas minha mente consciente não considera. portanto todos aqueles conteúdos que não poderiam faltar no cenário consciente. o processo inconsciente traz à luz material subliminal constelado pela situação da consciência. 123. p. da 11 12 Daryl SHARP.Além disso. . 104. Carl Gustav JUNG. ou seja. se tudo fosse consciente. Com relação à natureza dos conteúdos do inconsciente. penso. quando por exemplo. de acordo com a experiência. o inconsciente retrata um estado de coisas extremamente fluido: tudo o que eu sei.. . tudo aquilo que um dia eu estava consciente. desejo e faço involuntariamente e sem prestar atenção. 13 Andrew SAMUELS. mas em que não estou pensando no momento. p. tudo o que meus sentidos percebem.

Como os conteúdos do inconsciente coletivo exigem o envolvimento de elementos do inconsciente pessoal para sua manifestação no comportamento. Entretanto. por outro lado essas duas camadas do inconsciente não devem ser entendidas como divisões estanques. Se essa divisão é válida teoricamente. 17 Daryl SHARP.estrutura cerebral herdada: são as conexões mitológicas. . IV) Inconsciente Pessoal O inconsciente pessoal é a camada pessoal ou individual do inconsciente que contém memórias perdidas. os motivos e imagens que podem nascer de novo. mais profunda do que o inconsciente pessoal. os instintos e os arquétipos18. finalmente.. conteúdos que ainda não estão maduros para a consciência 17. uma camada mais profunda da psique. Dicionário crítico de análise junguiana. V) Inconsciente Coletivo O inconsciente coletivo é uma camada estrutural da psique humana. 90. Andrew SAMUELS. sem tradição ou migração históricas. p. os dois tipos de inconscientes são. portanto. onde encontramos os instintos e os arquétipos. são conceitos funcionais na prática. a qualquer tempo e lugar. 18 Ibid. indivisíveis16. Também é designada como psique objetiva. Jung denominou esses conteúdos como pertencentes ao inconsciente coletivo 15. p. Léxico Junguiano. ou seja. idéias dolorosas reprimidas. Segundo Jung. 105. 89. 15 16 Ibid. que contém elementos herdados. p. Também é designada como psique subjetiva. percepções subliminares (percepções dos sentidos que não são suficientemente fortes a ponto de atingir a consciência) e.

Eu o chamo coletivo porque. Jung esclarece que. 205. p. portanto. Jung – O Mapa da Alma. Segundo a concepção junguiana. mas da possibilidade herdada das idéias. condição onipresente. ser conscientes.28. o seu aspecto psíquico. Sonhos. ao contrário do inconsciente pessoal. São herdados junto com a estrutura cerebral – constituem. p. Murray STEIN. mas de conteúdos que são universais e aparecem regularmente. É necessário sublinhar o fato de que os arquétipos não têm conteúdo determinado. os arquétipos são sistemas de prontidão para a ação e. foram herdadas. p. Não se tratam de idéias herdadas. da mesma forma que tudo o que se torna conteúdo da consciência. Os conteúdos do inconsciente coletivo constituem como uma condição ou base da psique em si mesma. pois... imutável. Poder-se-ia talvez comparar sua forma 19 20 Carl Gustav JUNG. o inconsciente coletivo. mais ou menos únicos e que não se repetem. imagens e emoções 22. Os arquétipos se apresentam como idéias e imagens.. juntos. de fato. Nesta camada “mais profunda” da psique encontramos os arquétipos. Uma imagem primordial só tem um conteúdo determinado a partir do momento em que se torna consciente e é. pensamento ou comportamento que podem ser encontrados nos seres humanos em todos os tempos e lugares 20. Memória. os elementos primordiais e estruturais da psique 21. assim como os instintos e os impulsos que levam à execução de ações comandadas por uma necessidade. faz-se dele uma espécie de “representação” inconsciente. em outros termos. Reflexões. Os conteúdos do inconsciente pessoal são parte integrante da personalidade individual e poderiam. 29. 21 Daryl SHARP. mas não por uma motivação consciente. eles só são determinados em sua forma e assim mesmo em grau limitado. . 28. p. VI) Psique A psique é a totalidade de todos os processos psicológicos.. se assim se pode dizer. É muito comum o mal-entendido de considerar o arquétipo como algo que possui um conteúdo determinado. não é constituído de conteúdos individuais. ao mesmo tempo. e constituem junto com os instintos. 355. preenchida pelo material da experiência consciente. Léxico Junguiano. tanto conscientes quanto inconscientes. 22 Ibid. idêntica a si própria em toda parte19. VII) Arquétipos São padrões potenciais inatos de imaginação. encontramos também no inconsciente propriedades que não foram adquiridas individualmente. Os instintos e os arquétipos constituem.

Sonhos. p. 352.ao sistema axial de um cristal que preconfigura. se bem que não tenha por si mesmo qualquer existência material. O conceito de arquétipo deriva da observação reiterada de que os mitos e os contos da literatura universal encerram temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda parte. p. nos sonhos. nos fascinam. mas de tal modo que podem ser reconhecidas somente pelos efeitos que produzem. fatores e motivos que ordenam os elementos psíquicos em determinadas imagens. denomino representações arquetípicas. escapa à representação. 353. p. Assim.. Esta só se verifica quando os íons e moléculas se agrupam de uma suposta maneira. mais são acompanhadas de tonalidades afetivas vívidas . As representações não são herdadas. Encontramos esses mesmos temas nas fantasias. VIII) Complexos Complexos são grupos de idéias ou imagens carregadas emocionalmente. O arquétipo em si mesmo é vazio. Nas palavras de Jung. Jung observa que. 25 Carl Gustav JUNG. num outro sistema de imagens25. Ibid. . São sempre relativamente autônomos. Reflexões. apenas suas formas o são 23. Elas nos impressionam. portanto. Ao seu redor orbitam idéias que lhe estão associadas por um vínculo energético. portanto. é um elemento puramente formal.. apenas uma facultas praeformandi (possibilidade de preformação). 353. Não devemos entregar-nos à ilusão de que finalmente poderemos explicar um arquétipo e assim “liquidá-lo”. de natureza emocional. por definição. se ativam). quando os complexos se constelam (ou sejam. Quanto mais nítidas. A essas imagens e correspondências típicas. Memória. Os arquétipos são. a estrutura cristalina na água-mãe. No “centro” de um complexo está um arquétipo ou imagem arquetípica. Têm sua origem no arquétipo que. A melhor tentativa de explicação não será mais do que uma tradução relativamente bem-sucedida. Sonhos. de algum modo. nos influenciam. Memória. Reflexões. 352. em si mesmo. caracterizadas como arquetípicas. forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada e pode. manifestar-se espontaneamente sempre e por toda parte24. fazem-se acompanhar invariavelmente pelo afeto. tanto que 23 24 Carl Gustav JUNG.. forma de representação dada a priori. nas idéias delirantes e ilusões dos indivíduos que vivem atualmente.

p. Jung salientou bastante isso. não são negativos. HALL. Ou seja. formadas em torno de um núcleo central de significado que. mas apenas o pólo oposto normal da felicidade. em sonhos ou em experiências emocionais muito comoventes que o ego desenvolvido pode experimentar os verdadeiros alicerces arquetípicos dos complexos. Hall27 define complexo da seguinte maneira: “cada complexo é um grupo de imagens relacionadas entre si. p. 28 O autor explica que desde o momento da primeira tomada de consciência. ou nos possuem26. é arquetípico”28. É o grau de consciência ou inconsciência de um complexo que o define como patológico ou normal. A finalidade da análise ou da terapia não é livrar-nos dos complexos – como se isso fosse possível – mas apenas minimizar seus efeitos negativos. permitindo a compreensão do papel que exercem nos padrões de comportamento e nas 26 27 Carl Gustav JUNG. é simplesmente a soma de suas próprias experiências pessoais passadas. 38. segundo Jung. mas sim que são os complexos que nos têm.Jung afirmava que não somos exatamente nós que temos complexos. ter complexos não significa necessariamente possuir uma neurose. Com freqüência. em si mesmo não é sinônimo de doença. de modo que o ego adulto sente que o conteúdo consciente. e o fato de alguns complexos serem dolorosos não implica na determinação de uma perturbação patológica. Léxico Junguiano. Assim. subjetivo. Jung e a Interpretação dos sonhos. p. 30. em sua essência. Porém. quando achamos que não o temos (ou que o mesmo não nos possuiu). . os complexos em si mesmos. A Natureza da psique. James A. O sofrimento. um complexo só se torna patológico. do mesmo modo que os átomos e as moléculas são os componentes invisíveis dos objetos físicos. embora o imaginário popular aparentemente tenha assimilado o conceito de complexo apenas em seu aspecto patológico. 18. 29 Daryl SHARP. essas possibilidades arquetípicas da psique se enchem de experiência pessoal. Diferente do que o senso comum pensa. pela tomada de consciência de sua existência e de seus mecanismos. é somente em análise. os complexos são os blocos de construção da psique e a fonte de todas as emoções humanas29.

portanto. podem vir a ser. são funções da vontade (isto é. Processos psíquicos que. o instinto pode ser definido como “um impulso involuntário para certas atividades”31. e. podendo esta nascer diretamente de fonte orgânica. fisicamente baseada. define instinto como “uma fonte inata.96. a coação pode vir de estímulos internos ou externos que soltam o mecanismo psíquico do instinto ou de fatores orgânicos que estão fora da esfera das relações psíquicas de causalidade. por sua vez. com a restrição de que o resultado obtido ultrapasse o efeito intencionado pela vontade34. p. Léxico Junguiano. Este fenômeno ocorre sempre que a esfera da consciência é restringida pela repressão de conteúdos incompatíveis ou quando. . Nesse contexto. em circunstâncias usuais. processos instintivos quando se lhes fornece energia inconsciente. 428. 32 Murray STEIN. e não através de sua negação ou repressão30. De qualquer forma. 38. os afetos são vistos tanto como processos instintivos como sentimentais (ou pertinentes à função sentimento). Jung entendeu por instinto. “uma coação para certas atividades” 33.. por causa 30 31 Daryl SHARP. Tipos Psicológicos. Jung – O Mapa da Alma. Ibid. Vemos que para o autor. submetidos totalmente ao controle da consciência). 33 Carl Gustav JUNG. extrapsíquica. p. ou Todo fenômeno psíquico que ocorre sem a participação intencional da vontade. em circunstâncias anormais. p. 428..reações emocionais. Jung complementa que. 34 Ibid. p. 429. sob o conceito de instinto estão todos os processos psíquicos cuja a energia a consciência não controla. 206. um complexo só pode ser realmente superado se for vivido em sua plenitude. 39. neste caso. IX) Instintos Para Daryl Sharp. e assim. mas por simples coação dinâmica. de energia psíquica (ou libido) que é formada e estruturada na psique por uma imagem arquetípica”32. p. ou ser condicionada essencialmente por energias simplesmente liberadas pela intenção voluntária. Stein.

. quando. pela psique como um todo. Jung incluiu o impulso religioso e a busca de significado. sexualidade. ou seja. Em geral são modificados. O ímpeto para a atividade manifesta-se em viagens. . nunca aparecem como coações. enquanto a sexualidade. na medida em que são civilizados e em algum grau controlados. 97. Como reflexão. atividade. reflexão e criatividade. o que explica porque a sua energia puramente biológica pode ser tão facilmente desviada para outros canais de expressão. Só o fazem quando lhes advém uma energia estranha 35. Léxico Junguiano. ou mais precisamente. 97. p. mas automáticos.de fadiga. p. A fome é um instinto primário de autopreservação. no gosto pela mudança. de maneira restritamente biológica e fixa. No ser humano. Não gostaria de denominar de instintivos. em circunstâncias normais. pois. cuja descrição foi focalizada especialmente ao impulso para criar a arte 37. influenciados ou transformados pela consciência. sobrevêm intoxicações ou processos cerebrais patológicos em geral. Jung identificou cinco principais grupos de fatores instintivos: fome. 429. Daryl SHARP. é particularmente vulnerável ao processo de psiquificação. como é sublinhado consistentemente pelos textos e autores psicanalíticos. Normalmente também não se comportam como instintivos porque. um “abaissement du niveau mental” (Janet). 37 Ibid. que a segue de perto. o instinto não se manifesta de forma “pura”. em uma palavra. A criatividade era uma classe à parte para Jung. a consciência já não controla ou ainda não controla os processos mais acentuados. X) Self ou Si-Mesmo 35 36 Carl Gustav JUNG. Tipos Psicológicos. aqueles processos que uma vez foram conscientes num indivíduo e que se automatizaram com o tempo. como em um animal em estado “selvagem”. A esse processo Jung denominou processo de psiquificação36. na inquietação e no jogo. p.

É o centro regulador da psique. p. só pode ser consciente em parte. Como conceito empírico designa o âmbito total de todos os fenômenos psíquicos no homem. O Universo uma casca de noz. 358. por 38 39 Carl Gustav JUNG. Mas não devemos nutrir a esperança de chegar a uma consciência aproximada do si-mesmo. Mas na medida em que esta. O si-mesmo é também a meta da vida. que também somos. Daryl SHARP. e ao mesmo tempo o poder transpessoal que transcende o ego 39. que existe em um ponto em um dado tempo”. Abrange a psique consciente e a inconsciente. o ainda não experimentado)40. p. Expressa a unidade e totalidade da personalidade global. ao contrário da partícula. o conceito de SiMesmo engloba o experimentável e o não-experimentável (ou. 358. como o eu é o centro da consciência. Léxico Junguiano. O si-mesmo é o centro e também a circunferência completa que compreende ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente: é o centro dessa totalidade. Memória. 142. o termo “campo de força” se refere “ao meio pelo qual uma força comunica sua influência”. 443. Tipos Psicológicos. 42 Stephen HAWKING. Reflexões. 442. O si-mesmo é uma realidade “sobre-ordenada” ao eu consciente.. Sonhos. Segundo palavras de Jung.O Self é o arquétipo central da ordem. p. devido à sua participação inconsciente. p. 202. Memória. que também faz parte integrante da totalidade do si-mesmo. Capra se refere ao campo como uma condição ou uma “perturbação” no espaço. . que apresenta o potencial de produzir uma força de influência (de atração ou de repulsão. XI) Campo Stephen Hawking42 define campo “como algo que existe por todo o espaço e tempo. Sonhos. constituindo por esse fato uma personalidade mais ampla. por mais consideráveis e extensas que sejam as paisagens interiores e os setores apreendidos pela consciência. 40 Carl Gustav JUNG. não desaparecerá a massa imprecisa e uma soma desconhecida de inconsciência. Reflexões. Ainda segundo o autor. pois é a expressão mais completa dessas combinações do destino que se chama: indivíduo 41. da totalidade do homem 38. p.. 41 Carl Gustav JUNG.

e os campos da matéria. na biologia discorre-se sobre os campos mórficos e morfogenéticos. O Tao da Física. Na psicologia emprega-se o termo campo mental ou campo da mente para designar o “campo de percepção onde surgem os pensamentos. p. Esse conceito gerou noções paralelas em outras disciplinas. O universo autoconsciente. sentimentos. como um complexo na zona de influência da consciência. Assim. 43 44 Fritjof CAPRA. Nesse sentido. Definimos o ego como um complexo central no campo da consciência. p. o campo é uma região de influência física. 317. Amit GOSWAMI. como os campos gravitacional e eletromagnético. Sabemos que a física atual reconhece vários tipos de campos fundamentais. ou seja. etc”44. .52.exemplo)43.

que tem lugar fora do campo de percepção do observador. tal conexão é simplesmente inconcebível. especialmente distante. Aqui. que ocorreu longe do seu campo consciente de visão. . distante no tempo e ainda não presente.89. do grande incêndio de Estocolmo. Esse caso foi testemunhado pelo famoso filósofo Immanuel Kant. e só possível de ser verificado posteriormente (um exemplo clássico é a histórica visão tida por Swedenborg. Tais fenômenos aparecem quando fenômenos interiores (sonhos. onde não há nenhuma evidência de uma conexão causal entre o estado psíquico e o acontecimento externo e onde. visões. podemos ter como exemplo. p. e foi identificado posteriormente. premonições) parecem ter uma correspondência na 45 46 Carl Gustav JUNG. e que só pode ser verificado também posteriormente. Sincronicidade.Capítulo 2 – O conceito de Sincronicidade Jung agrupa três classes possíveis de fenômenos que podem ser designados como pertencentes ao conceito de sincronicidade 45: 1) Coincidência de um estado psíquico do observador com um acontecimento objetivo externo e simultâneo. portanto. 2) Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente (mais ou menos simultâneo). Sincronicidade. para exprimir uma coincidência significativa ou uma correspondência entre um acontecimento psíquico e um acontecimento físico não ligados por uma relação causal. ou seja. 3) Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento futuro. foi um termo criado por Jung. considerando-se a relativização psíquica do espaço e do tempo. como um bem atestado caso parapsicológico de clarividência 46). que corresponde ao estado ou conteúdo psíquico. portanto. os sonhos premonitórios.

. Reflexões. Ambas parecem ter relação com processos arquetípicos do inconsciente 47. Memórias. Mas. havia também muitas outras figuras destacadas da Física Moderna que habitavam Zurique na primeira metade do século XX e realizavam conferências ou davam aulas na Universidade Politécnica onde Jung era professor de psicologia na década de 1930. e a imagem interior ou a premonição se mostra “verdadeira”. Sonhos.358. algo que apenas modernamente está começando a mudar. Murray STEIN. tanto em seu começo. Além de Einstein. Mesmo no círculo junguiano.realidade exterior. Havia a clara impressão de que a natureza da realidade física estava sendo fundamentalmente repensada e Jung começou desde cedo a meditar sobre as semelhanças entre a física moderna e a psicologia analítica. e que ainda tem de ser contada na íntegra. 179. 47 48 Carl Gustav Jung. Jung é lembrado como “discípulo” de Freud. É através de seu contato pessoal com o físico Albert Einstein que Jung tem sua “primeira e vaga suspeita” sobre a existência do fenômeno da sincronicidade. existencialistas e orientais é mais estudada. Segundo Stein 48. As relações entre Jung e os grandes gênios da física fazem parte de uma história pouco conhecida. as influências de filosofias fenomenológicas. Jung – O Mapa da Alma. e é a sua associação com a física moderna que fornece o contexto histórico apropriado para a sua teorização sobre o mesmo. Muitas vezes. o fato é que físicos famosos desempenharam um papel na formação da teoria da sincronicidade. O termo também designa correspondências entre sonhos e idéias análogas ou idênticas que ocorrem em lugares diferentes. como na sua conclusão. e seria quase impossível ignorar o estimulante fermento criado por esses intelectos. do que as influências que ele recebeu da Física Moderna. ou associado a influências de “teorias místicas”. Zurique era um autêntico viveiro da física moderna nas primeiras décadas do século XX. p. sem que a causalidade possa explicar umas e outras manifestações. p.

O livro continha um ensaio de Jung intitulado “Sincronicidade: um princípio de conexões acausais”.. o conceito de sincronicidade é a sua construção mais rigorosamente científica e. Segundo Stein. A teoria da sincronicidade ajusta-se à visão de Jung do si-mesmo como uma característica de radical transcendência sobre a consciência e a psique como um todo. . p. e desafia as linhas de fronteira comumente traçadas para separar as faculdades de psicologia. das tradições orientais. 180.. encontramos as influências da parapsicologia. e um outro de Pauli com o título “A influência de idéias arquetípicas nas teorias científicas de Kepler”. sobre o pensamento de Jung. poucos psicólogos se sentem à vontade em todas as áreas requeridas para abranger essa teoria em toda a sua plenitude – psicologia. p. Wolfgang Pauli. e dos métodos mânticos (como por exemplo. ao mesmo tempo. Os mestres universitários mostram-se sumamente cautelosos em dar um passo além dos limites das especialidades de seus respectivos departamentos. 189. Aqui.. física. biologia. esse conceito encerra em si. Dessa forma. as bases para a elaboração de um novo paradigma científico49. Assim.Jung foi o pioneiro em estabelecer a comunicação entre as duas ciências – a Psicologia e a Física Moderna. Em sua ousadia e rigor científico uniu-se com o físico quântico e ganhador do prêmio Nobel. Ibid. Os textos de Jung exploram a ordem significativa em eventos aparentemente aleatórios e assinalam que as imagens psíquicas e os acontecimentos objetivos estão 49 50 Murray STEIN. representa uma síntese da influência de diversas disciplinas metafísicas. Por outro lado. as pesquisas de Jung em campos de conhecimento totalmente inusitados ao status quo do modelo científico tradicional. mais do que rigorosamente científico. Jung – O Mapa da Alma. o conceito de sincronicidade literalmente lança. e em 1952 publicaram em colaboração mútua o trabalho A interpretação da natureza e da psique. a Astrologia). filosofia e espiritualidade50. É um nível intelectual que poucos pensadores modernos podem nutrir a esperança de alcançar. como veremos posteriormente. física e metafísica. do estudo comparativo das religiões. .

a sincronicidade é um fenômeno que parece estar ligado primariamente a certas condições (micro)físicas. princípio que se poderia acrescentar como quarto alimento à tríade espaço. p. tempo e causalidade. embora não ocorram em virtude de uma cadeia causal de eventos precedentes. cujas teorias a respeito de medicina. Os textos clássicos chineses não perguntam o que causa alguma coisa. Jung. Von Franz a esse respeito realiza o seguinte comentário: Assim que se percebeu que certos tipos de acontecimentos “gostam” de se agrupar em determinados momentos. p. visível aos sentidos físicos). então. Jung apresenta uma idéia de grande importância e projeção: a inclusão da sincronicidade. a existência de um princípio necessário à atividade cognitiva de nossa razão. por vezes. tempo e causalidade. num paradigma que pode oferecer uma completa descrição da realidade. Da mesma forma que estes fatores são necessários. Jung. 211. ao lado das noções de espaço. então. O homem e seus símbolos. com certa regularidade e freqüência nos procedimentos mânticos intuitivos. tal como é experimentada pelos seres humanos e medida por cientistas. e o tempo e a causalidade são psiquicamente relativos – assim também o fator sincronístico só é válido condicionalmente 52. Carl Gustav JUNG. Ocorrem de forma experimental. filosofia e mesmo de construção são baseadas em uma “ciência” de coincidências significativas. . Na parte final de seu ensaio..organizados. 76. mas não absolutos – a maioria dos conteúdos psíquicos não está ligada ao espaço. aponta que acontecimentos acidentais têm uma tendência a formar grupos aperiódicos. mas sim que fato “gosta” de ocorrer juntamente com um outro51. ou aos processos do inconsciente (bem como também a alguns aspectos ecológicos e evolutivos do domínio da biologia).. Sincronicidade. e cujo domínio universal se acha abalado apenas em certas ordens de grandeza interiores. 51 52 Carl Gustav JUNG. complementa que ao contrário da causalidade que impera despoticamente sobre a imagem do mundo macrofísico (ou seja. Segundo suas palavras. o fator sincronístico postula . segundo Jung. começamos a entender a atitude dos chineses. em configurações claramente definidas.

Espaço Causalidade Sincronicidade Tempo Jung explica que a sincronicidade. está para os três outros princípios. p. Ibid. e da mesma forma que a introdução do tempo como quarta dimensão na Física Moderna implica 53 54 Ibid. a tríade da Física Clássica. seriam complementados pelo fator sincronicidade. 77. Seja como for. 76. p. Jung declara que a sincronicidade não é uma teoria filosófica. . nas palavras de Jung54. o tempo e a causalidade. O espaço. assim como a unidimensionalidade do tempo está para a tridimensionalidade do espaço..onde são subjetivamente convincentes. mas extremamente difíceis de verificar objetivamente pelo método estatístico 53.. aqui. mas um conceito empírico que postula um princípio necessário ao conhecimento. O esquema a seguir é uma representação pictórica dessa relação quaternária. convertendo-se em uma tétrada. um quatérnio que nos torna possível um “julgamento da totalidade”.

e no horizontal existe o contínuo entre causalidade e sicronicidade. a descrição mais completa da realidade inclui o entendimento de um fenômeno pela consideração de quatro fatores: onde e quando o evento aconteceu (o contínuo espaço-tempo) e o que levou a isso e qual o seu significado (o contínuo causalidade-sincronicidade). cumpre investigar os padrões arquetípicos que são evidentes numa situação constelada. 55 Murray STEIN. o qual. Se estas questões podem ser respondidas. Jung está propondo que uma descrição completa da realidade deve incluir a presença da psique humana – o observador – e o elemento de significação. A vantagem. como se tem constatado na prática. o que Jung está fazendo nesse caso é inserir a psique na descrição completa da realidade. a causalidade também não deixa de abrir uma vasta gama de opiniões. Pauli. Jung – O Mapa da Alma. Para Stein55. O eixo vertical representa o contínuo espaço-tempo. p. Se a sincronicidade pode. sem o concurso desse elemento. assim também a idéia de sincronicidade com seu caráter próprio de significado produz uma imagem do mundo de tal modo também irrepresentável. nesse sentido. e isso adiciona o elemento de significação ao paradigma científico. . a respeito do significado de acontecimentos importantes. de se acrescentar este conceito é que ele torna possível uma maneira de ver que inclui o fator psicóide em nossa descrição e no conhecimento da natureza. um significado apriorístico ou uma equivalência. ou seja. porém.o postulado de um contínuo espaço-tempo irrepresentável. o evento será entendido em sua plenitude. pois eles fornecerão os parâmetros necessários para abordar a questão da sincronicidade e a profunda significação estrutural. continua sem referência à consciência humana ou ao valor do significado. abrir espaço para uma grande quantidade de especulações e debates. 189. Assim levando em conta o diagrama de Jung e W. que poderia levar à confusão. Do lado psicológico e psicóide das coisas.

Nesse contexto Jung chega a citar – em nota de rodapé61 – a idéia do físico Sir James Jeans que acha possível que as origens dos acontecimentos no substrato para além do espaço e do tempo incluam também as nossas atividades mentais. p. David Bohm57. passim. 40-49. Scientific American Brasil. José Pedro ANDREETA. Cf. a definir mais acuradamente o par de opostos causalidade-sincronicidade. Wolfgang Pauli propôs a substituição da oposição entre espaço e tempo (que ainda estaria mais coerente com representação do antigo paradigma da Física Clássica. satisfaz de um lado aos postulados da Física Moderna e. que compreende a dimensão do espaço como separada ou distinta do tempo). E recentemente. passim. aos postulados da Psicologia. CHALMERS. Esta proposta levou Jung. 63 Carl Gustav JUNG. Voltando ao esquema quaternário sugerido por Jung. o professor Dr. . por ser importante para debatermos a noção da existência de uma realidade transpsíquica. Sincronicidade. 59 Cf. propôs uma hipótese semelhante60. p.Essa concepção parece estar presente nas idéias de autores contemporâneos da Física Moderna como Fritjof Capra56. Amit GOSWAMI. e Amit Goswami58. p. do outro. David BOHM. físico livre-docente da USP. um importante artigo da respeitada revista Scientific American. passim. 58 Cf. José Pedro Andreeta. No Brasil. A representação quaternária elaborada pela colaboração mútua de Jung e Pauli. passim. e ficou da seguinte maneira63: 56 57 Cf. 62 Essa consideração será retomada posteriormente. pela relação (conservação da) energia – contínuo espaço-tempo. com vistas a estabelecer uma certa ligação entre os dois conceitos heterogêneos. segue essa mesma linha de pensamento59. Fritjof CAPRA. 60 David J. 61 Carl Gustav JUNG. 79. considerando os dados da Física Moderna. de sorte que o curso dos acontecimentos futuros depende em parte dessa atividade mental 62. 78. Sincronicidade.

denominados arquétipos. mas que na verdade repousam em fatores organizadores. . Jung enfatiza a exclusão de uma explicação causalista para a sincronicidade. Podem até ser associados a processos causais. “porque os arquétipos não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica. p.. “se associarmos a sincronicidade ou os arquétipos ao contingente. 80. Segundo Jung. ou seja. contudo estão continuamente ultrapassando os seus próprios limites. Jung começa a traçar relações entre a Psicologia Profunda e 64 65 Ibid.Energia indestrutível Conexão inconstante através da contingência ou da equivalência ou “significação” (Sincronicidade) Contínuo espaço-tempo Conexão constante através do efeito (causalidade) Ao propor esse esquema. mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico)”64. Segundo Jung. a sincronicidade consiste em equivalências aparentemente “casuais”. Segundo o seu esquema. só podem ser conhecidos e determinados de maneira aproximativa (ou probabilística. procedimento este que Jung denominou de transgressividade. Sincronicidade. ou serem “portados” por eles. Assim. este último assume o aspecto específico de uma modalidade que tem o significado funcional de um fator constitutivo do mundo”65. 80. p. ao expor o conceito de sincronicidade nesses termos. os arquétipos são indefinidos. de natureza psicóide. Carl Gustav JUNG. na terminologia da Física).

sua origem. .uma área da Física denominada Cosmologia (a ciência que estuda o universo como um todo. constituição. estrutura e organização). É nesse contexto que poderemos tratar da noção de realidade transpsíquica.

que concordava com esse ponto de vista. Ibid.. Esse conceito parece ter surgido das reflexões de Jung sobre as profundas implicações da noção de sincronicidade.Capítulo 3 – Realidade Transpsíquica A noção de uma realidade transpsíquica foi uma idéia proposta por Jung. . e principalmente a física moderna. alem de sua inusitada penetração em campos de conhecimento como a parapsicologia. A autora conclui. Nele todos os limites aceitos entre o conhecedor e o conhecido são rompidos.. 137. trabalhando com Jung. p. Jung via a parapsicologia como uma ponte natural entre a física e a psicologia. alguma extensão natural do fenômeno da mecânica quântica que ajudara a descobrir 66. esperava que. expunham a idéia de que existe um cosmos absolutamente sem espaço e sem tempo em que se manifestam a alma (ou psique) e o universo material. uma das poucas autoras a discorrer sobre a temática da realidade transpsíquica no campo da física e da parapsicologia. enquanto um conceito técnico da teoria analítica. e Pauli. de categorias humanas perceptivas ou de nossas supostas leis da causalidade. os trabalhos de Jung e Pauli. . e a mente e a matéria são vistas como extensão uma da outra 67. p. de maneira direta. Lembremos que com a esperança de desenvolver uma exposição mais rigorosa de suas próprias intuições psicológicas. porém pouco trabalhada por ele ou pelos pós-junguianos. abrindo todo um leque de questões sobre o que ele chama de uma “realidade transpsíquica na base da psique”. 137. Jung tomou como referência em física moderna o prêmio Nobel Wolfgang Pauli.. 138. independente da vontade humana. Através da barreira do tempo. no nível da realidade cotidiana. Ainda segundo essa autora. 66 67 Danah ZOHAR. Isso torna difícil entender o que Jung queria dizer ao utilizar o termo realidade transpsíquica. Para Zohar. poderia encontrar um caminho para expressar em maior escala. um físico quântico. Pauli argumentava que esse cosmos tinha sua própria ordem.

A probabilidade matemática calculada de acerto é de 1:5. onde o passado. O grupo de pesquisa de Rhine usou um baralho de 25 cartas. sobre ESP (extra-sensory-perception).000. A descrição dos seus experimentos é a seguinte: em cada série de experimentos retiravam-se aleatoriamente as cartas do baralho. Através da barreira do tempo. divididas em 5 grupos de 5. em numerosas tentativas. Sua tarefa era adivinhar o desenho de cada uma das cartas retiradas. p. apoiado por seus estudos de parapsicologia. cruz. há uma unidade sem tempo.5 acima da probabilidade matemática. Podemos especular que Jung chegou a tais conclusões. p. mas de modo que o sujeito (ou pessoa testada) não pudesse ver as cartas que iam sendo retiradas. Rhine e seus colaboradores.5 é só de 1/250. 137. retângulo. em grande medida. e onde a matéria e a psique não passam de manifestações de uma única realidade68. Na verdade. Sabemos que mesmo atualmente. 1. para Jung a prova decisiva da existência de combinações de acontecimentos acausais foi apresentada de maneira científica adequada. Sincronicidade.Jung chamou a esta um tanto mística e absoluta de “realidade transpsíquica”. Em um caso excepcional. mas o resultado médio obtido com um número muito grande de cartas foi de 6. E também argumentava que ali. num reino além da nossa psique consciente. embora ele tenha achado que esses autores não conseguiram reconhecer as conclusões de longo alcance que se deveriam extrair de suas descobertas69. . que é de 5 acertos). 800 vezes seguidas.10. Carl Gustav JUNG. círculo. e a probabilidade de um desvio casual de 1. apenas com os experimentos parapsicológicos de J. um jovem que.5 acertos em 25 cartas (ou seja. o presente e o futuro se fundem. 138. Alguns indivíduos alcançaram o dobro ou mais de acertos. duas linhas onduladas). B. cada um dos quais com um desenho próprio (estrela. nenhum argumento crítico irrefutável foi apresentado contra esses experimentos. com suas divisões entre mente e matéria e suas percepções causais manifestadas no espaço e no tempo. alcançou a média de 10 68 69 Danah ZOHAR.

também com resultados positivos 71. . Os resultados individuais. Carl Gustav JUNG. a uma distância de mais de 960 léguas. o número 70 71 Ibid. a superação da distância e a difusão (da energia ou suposta força) no espaço deveriam causar uma diminuição do efeito final resultante. o que corresponde a uma probabilidade de 1/298. sem afetar os resultados. o resultado foi de 11. e quando as duas salas estavam afastadas uma da outra. de uma vez acertou todas as 25 cartas. Ou seja. Sincronicidade.. p. desde uns poucos metros até 4. Por outro lado.223. onde segundo cálculos físicos e matemáticos reconhecidos. Por exemplo. parecem variar de acordo com os dotes específicos de cada sujeito experimental. em alguns sujeitos experimentais. do número provável).023. foi de 9. Jung observou desses dados empíricos e experimentais que.000 léguas).11. realizadas com resultados positivos. em até 350 quilômetros. como se observou.11.953. quando o sujeito experimental estava numa sala vizinha. porque do contrário.1 acertos em 25 cartas. Em outra série de tentativas.4 acertos. na Iugoslávia (cerca de 4. o resultado médio de numerosas tentativas foi de 10. Rhine mencionou as experiências de Usher e Burt. quando ambos se achavam na mesma sala.7.acertos em cada 25 cartas (o dobro. estatisticamente o resultado sempre esteve próximo do dobro do número provável. fizeram-se também experimentações entre Durham (Carolina do Norte) e Zagreb. p.12570. portanto. Com a ajuda de relógios sincronizados. se a distância em princípio não tem influência no resultado. foram realizados experimentos variando a distância entre o experimentador e a pessoa testada. foi de 12 em 25. isso é prova de que o objeto aqui em estudo não pode ser um fenômeno de força ou energia.000 léguas.876. quando aumentada a distância entre o experimentador e o sujeito experimental.

000. Carl Gustav JUNG. em última análise. realizados por Rhine. o sujeito experimental deve lançar dados. Por isto. os resultados da experimentação com o fator tempo apontam para uma relatividade psíquica do tempo. ou melhor. o que equivaleria a dizer que os acontecimentos desta natureza não podem ser considerados sob o ponto de vista da causalidade. Jung argumentou que mais notável ainda é o fato de a variável tempo. uma vez que todas as observações se baseiam. Se já nas experimentações com o fator espaço éramos obrigados a constatar que a energia não diminuía com a distância. em princípio. e ao mesmo tempo desejar que uma 72 73 ibid. O resultado desta experiência apresentou uma probabilidade de 1/400. Sincronicidade. pode ser reduzida a zero por alguma disposição psíquica72. Jung assim conclui. sobre corpos em movimento 73. isto é. em determinadas circunstâncias.. não ser um fator negativo. Para Jung. Jung ainda cita os experimentos PK (psicocinéticos) com dados. por uma disposição psíquica que é capaz de eliminar também o fator espaço.12. Jung concluiu que a distância é fisicamente variável e. pois a causalidade pressupõe a existência do espaço e do tempo. visto que se trata de percepções de acontecimentos que ainda não ocorreram. devemos renunciar a todos os tipos de explicação em termos de energia. a leitura antecipada de uma série de cartas a serem tiradas no futuro produz um número de acertos que (também) ultrapassa os limites da probabilidade. Nesse caso. Em tais circunstâncias parece que o fator tempo foi eliminado por uma função psíquica. nas experimentações com o fator tempo é totalmente impossível pensar sequer em uma relação energética qualquer entre a percepção e o acontecimento futuro.10 . p. o experimento era o seguinte: mandava-se o sujeito adivinhar previamente a carta que iria ser retirada no futuro próximo ou distante. A distância no tempo foi aumentada de alguns minutos até duas semanas.de acertos deveria ser inversamente proporcional ao quadrado da distância. o que significa uma probabilidade considerável de que haja um fator independente do tempo. p. Como isto não aconteceu. Aqui.

Assim. e tanto mais vezes. o corpo em movimento deve possuir também uma relatividade ou deve estar sujeito a ela. Por causa dessa simultaneidade. Por sua vez. Jung escolheu o termo sincronicidade para designar um fator hipotético de explicação equivalente à causalidade. para Jung. Os resultados foram positivos. com o inconsciente. Além disso. de um lado. nos indica que os corpos em movimento podem ser influenciados também psiquicamente. o que exclui a idéia de transmissão de força. A experimentação com o tempo nos mostra que o fator tempo (pelo menos na dimensão futuro) pode ser relativizado psiquicamente. forçoso é admitir. o postulado da energia é inaplicável no experimento de Rhine. bem como a aplicação da lei da causalidade. resumindo: o experimento espacial parece mostrar que a psique pode eliminar o fator espaço até certo ponto.das faces com um número específico (por exemplo. com uma crítica ao nosso conceito de tempo e lugar e. Além disso. o três) apareça o maior número possível de vezes. é impossível imaginar como um acontecimento futuro seja capaz de influir num outro acontecimento já no presente. e que só se dará no futuro. quanto maior era o número de dados utilizados de uma só vez. Assim. como se pode prever a partir da relatividade psíquica do espaço e do tempo. Jung . Jung concluiu com os experimentos psicocinéticos de Rhine que se o espaço e o tempo são fatores psiquicamente relativos. a título provisório. do outro lado. A experimentação com os dados. como atualmente é impossível qualquer explicação causal. que houve acasos improváveis ou coincidências significativas de natureza acausal. parece mais indicado dizer que a explicação deve começar. seria absurdo admitir que uma situação ainda não existente. possa transferir-se como fenômeno energético para um receptor do presente. Para Jung. ou em outros termos. pelo menos.

ou da pura atividade da psique. mas sim. ou ainda. já não é algo de miraculoso. então sua relativização por uma condição psíquica. 74 75 Carl Gustav JUNG. conceitos de origem essencialmente psíquica. fossem “produzidos” pela consciência. Nesse ponto. Jung assevera que essa possibilidade ocorre. formando coordenadas que servem de parâmetro para descrever e medir o comportamento dos corpos em movimento. Jung conclui que. p. Jung complementa.14. p. como afirma o próprio autor. “em si. por exemplo. . por si. Sincronicidade. p. Contudo. 87. como se dependessem de condições psíquicas. quando a psique observa não o corpo exterior. Ou seja. para Jung. mas sim da pura imaginação. em qualquer caso. o espaço e o tempo consistem em nada”75. se o espaço e o tempo são propriedades aparentes dos corpos em movimento. revelam a estrutura do inconsciente que as produz. O tempo e o espaço são. por assim dizer. Ele salienta. São conceitos hipostasiados.considera a sincronicidade como uma relatividade do tempo e do espaço condicionada psiquicamente74. “elasticamente” em relação à psique. 76 Carl Gustav JUNG. Ibid. mas situa-se dentro dos limites da possibilidade76.14. das associações de idéias (ou complexos) que. criadas pelas necessidades intelectuais do observador. aparentemente à vontade: podem ser reduzidos mais ou menos a zero. Segundo Jung. Sincronicidade. que as respostas dos sujeitos nos experimentos de Rhine. nas experiências parapsicológicas de Rhine o tempo e o espaço se comportam. ou como se não existissem por si mesmos.. não são produtos das cartas materiais. mas a si própria. o que é equivalente a hipótese de Kant que os considera como categorias a priori. podendo ser reduzidos. nascidos da atividade discriminatória da consciência.

Zohar comenta que a teoria da sincronicidade baseia-se na existência de coincidências significativas. Tais significados compartilhados poderiam ocasionalmente reunir-se no nível da realidade cotidiana (apresentando-se como “coincidência”. uma das quais estabelece o contato direto com o corpo e o mundo físico. Stein define psicóide como “um adjetivo referente às fronteiras da psique.. e para Jung o “significado” era a palavra-chave que proporcionava a dinâmica do fenômeno sincronístico. Segundo a compreensão dessa física quântica. são os fatores decisivos da psique inconsciente. Para finalizarmos a compreensão do conceito de realidade transpsíquica. e não pode ser percebida nem observada diretamente. porém.. os arquétipos. (2) o conceito de Unus Mundus e (3) e a idéia da existência de um conhecimento absoluto do inconsciente. embora não seja necessário haver nenhum relacionamento ortodoxo causal entre esses fatores. representa uma “psique” idêntica em todos os indivíduos. Este último..14. Através da barreira do tempo. e a outra com o domínio do 77 78 Ibid. p. no nível da realidade transpsíquica. porque “mais abaixo”. dos arquétipos e do Self 78. os que constituem a estrutura do inconsciente coletivo. 138. por esta razão eu a chamei de psicóide77. Isso relaciona o conceito de realidade transpsíquica e a teoria da sincronicidade à teoria do inconsciente coletivo. os pensamentos ou acontecimentos que possuem algum significado comum (e possíveis correlações de acontecimentos “externos” que compartilhem algum sentido nesse campo de significado) são atraídos um para o outro quase como imãs.. . todos os significados compartilhados se encontram ligados sincronisticamente. ao contrário dos fenômenos psíquicos perceptíveis. onde todas as mentes estão “ligadas” na mesma fonte. p. telepatia ou precognição). Danah ZOHAR. precisamos compreender três outros conceitos que lhes são implicados: (1) a natureza psicóide dos arquétipos.

são passíveis de transferência. A sincronicidade fala da profunda e oculta ordem e unidade entre tudo o que existe. podem surgir na consciência quer oriundos do interior da matriz psíquica.. quer do mundo à nossa volta – ou de ambos simultaneamente. Como o arquétipo per se é psicóide e não se encontra rigorosamente dentro dos limites fixados pelas fronteiras da psique. Para Stein. não estão limitados à esfera psíquica. da Astronomia e da Filosofia. Jung. a curiosidade acerca das fronteiras da psique levou Jung a formular uma teoria que procura articular um único sistema unificado que abrange matéria e espírito e lança uma ponte entre tempo e eternidade 80. . o conceito de sincronicidade de C. 81 Ibid. Jung – O Mapa da Alma. mas também em acontecimentos não-psicologicamente 79 80 Murray STEIN. Assim. Jung enquanto um metafísico (uma identidade que ele teria procurado negar em si mesmo. segundo Stein. G. a Psicologia também passa a oferecer a sua contribuição à Cosmologia. G. stricto sensu. pelo menos por um certo tempo)81. C. que é a ciência do funcionamento do Universo. Para o autor. p. p. Os arquétipos. Em sua transferibilidade. e decompõe a dicotomia sujeito-objeto. Ibid. p. a compensação psicológica pode ocorrer não só em sonhos.´espírito`”79. representa uma linha de pesquisa sobre o Self. e também revela. que demarca um ponto de transgressão da fronteira entre psique e não-psique. segundo Jung.176. a teoria da sincronicidade é considerada uma extensão da teoria do Self à Cosmologia. Com o conceito de sincronicidade. Nesse sentido..177. no entanto. possuem uma profunda conexão com a vida psicológica. ou seja. e hoje é uma área de especialização intermediária da Física. são chamados de sincronísticos. psicológicos e. 206. serve de ponte entre os mundo interior e exterior. Quando ocorrem ao mesmo tempo. Os fenômenos de sincronicidade exemplificados não são.

então relutamos em admitir que ele possa existir também fora de nossa psique.. a compensação pode chegar. Segundo a linha de raciocínio de Jung. p. A sincronicidade postula um significado aprioristicamente relacionado com a consciência humana e que parece existir fora do homem. É o que acontece no exemplo clássico da paciente com o sonho do escaravelho. Sincronicidade. baseando-se na hipótese da unidade de toda a 82 83 Murray STEIN. a psique não é algo que começa e termina somente em seres humanos e em isolamento do cosmos82.178. Observamos que a obra de C. do mundo exterior. as chamadas formas. Mas. Esse fenômeno também não seria uma novidade para o pensamento oriental. Segundo suas palavras. em que um besouro entra no consultório pela janela. de que as coisas são cópias. a teoria da sincronicidade mostra que isso pode acontecer. a qual admite a existência de imagens ou modelos transcendentais das coisas empíricas. em outras palavras: o seu tertium comparationis é o sentido. mas era como que uma evidência em si mesma 84. no momento em que ela relatava o referido sonho a Jung. Jung sobre a sincronicidade acrescenta à sua teoria psicológica a noção de que existe um alto grau de continuidade entre a psique e o mundo. 84 Carl Gustav JUNG.178. Assim. Ibid. p. 67. Esta concepção não somente não apresenta nenhuma dificuldade para os tempos antigos. se não se pode explicar causalmente a coincidência ou “conexão cruzada” significativa de certos acontecimentos. às vezes. p. A tese de Jung é a de que há uma dimensão na qual a psique e o mundo interagem intimamente e se refletem reciprocamente83.controlados. então o princípio de ligação consiste na equivalência de sentidos dos acontecimentos paralelos. Jung conta que dois sábios chineses no século XII. de tal modo que imagens psíquicas podem revelar também verdades sobre a realidade no espelho refletor da consciência humana. Ou seja. Como estamos tão acostumados a considerar o “sentido” como um processo ou um conteúdo psíquico. Semelhante hipótese ocorre sobretudo na filosofia de Platão. Jung – O Mapa da Alma. G.68 .

algumas implicações do conceito de sincronicidade são temerárias. Essa hipótese – que irá originar a idéia que Jung denominou como o Unus Mundus . e se preocupava com a maneira como iria expor essa parte do seu pensamento aos olhos do público científico moderno. p. que como o título mesmo sugere. foi uma tentativa de elucidação das possíveis relações entre natureza e psique. Não foi à toa que Jung publicasse essa obra em conjunto com um cientista vencedor do Nobel e não com um filósofo. Por exemplo. Sincronicidade. supõe-se tradicionalmente que a psicologia se limita ao que ocorre na mente humana. 29. até o século XVIII. De toda a obra teórica de Jung. mas com a sua teoria do si-mesmo e da sincronicidade. Em outras palavras eles supõem que o mesmo Ser se exprime tanto no estado psíquico como no estado físico85.tem a vantagem de não entrar em choque com o princípio da causalidade (que como sabemos é quase universalmente aceito na ciência). Ele queria evitar ser visto como um místico ou um excêntrico. . Tanto que em 1952. ele e o Nobel de Física Wolfgang Pauli publicaram juntos o livro “A Interpretação da Natureza e a Psique”. seu estudo sobre a sincronicidade é o que está mais vulnerável a interpretações distorcidas. Para o pensamento científico ordinário. Isso obriga não há uma correção dos princípios da explicação natural. Jung conseguiu apoio para todas essas idéias na Física Moderna. um teólogo ou um mitologista. e pode ser considerado como um princípio sui generis. o pensamento filosófico admitia uma correspondência secreta ou uma conexão significativa entre os acontecimentos naturais. onde a visão de universo estava em fase de mudança e expansão de modo a acomodar a sua tese. Segundo suas observações.natureza. a psicologia 85 Carl Gustav JUNG. procuraram explicar a simultaneidade de um estado psíquico com um processo físico como uma equivalência de sentido. mas a uma ampliação dos mesmos.

tanto 86 A demonstração matemática do Teorema de Bell excede os objetivos dessa monografia. Essa visão sustenta que nosso mundo físico “. Esse “Princípio da Não-localização” (segundo o qual alguma coisa pode ser afetada na ausência de qualquer causa local) é matematicamente demonstrado na teoria quântica pelo Teorema de Bell – e parte necessariamente da natureza essencialmente indeterminada da realidade. e principalmente na atualidade. afirma que pode haver ligações e correlações entre acontecimentos muito distantes na ausência de qualquer força ou sinal intermediário. mas antes. sua resposta foi que não tem fim. por exemplo. 87 Danah ZOHAR. a teoria quântica indica que não existem coisas como partes isoladas da realidade. Para a autora. tem que se levar em conta que ele estava considerando as implicações cosmológicas da sincronicidade para a teoria do si-mesmo. A teoria quântica.. apenas com a providencial citação de sua existência. Através da barreira do tempo. “com suas nuances evidentemente místicas”. Quando estudantes perguntaram certa vez a Jung onde termina o Si-mesmo e quais as suas fronteiras. mas uma rede de relacionamentos entre elementos cujos significados se elevam de seus relacionamentos ao todo” 87. e que essa “ação à distância” será instantânea.analítica de Jung desafiou essa segmentação arbitrária.. nos contentaremos por hora. As teorias da Física Moderna na época de Jung. parecem fornecer cada vez mais elementos que ajudam a corroborar a cosmovisão oferecida por sua teoria da sincronicidade. p. apenas fenômenos muito intimamente relacionados e tão ligados entre si como se fossem inseparáveis. e por isso. que para nossos fins já é o suficiente. não é uma estrutura feita de entidades não analisáveis de existência independente. . 163. Para se entender o que ele quis dizer com esse comentário. mas também contra a Teoria da Relatividade. Segundo Zohar. é ilimitado. essa visão. vai diretamente contra não apenas o bom senso e a física clássica. como é sugerido pelas equações de onda da teoria quântica 86.

O experimento imaginário de Einstein. passim. o spin é uma propriedade interna das partículas elementares. 90 Cf. 89 Stephen HAWKING. pois para ser verdadeira. 123. Uma interpretação mais condizente com a teoria quântica é a de que o experimento poderia ser possível se considerarmos uma interligação essencial entre as partículas em questão. ao conceito comum de rotação. proposta pela teoria quântica. e mais dois pesquisadores – Boris Podolsky e Nathan Rosen – uniram-se e formularam um experimento imaginário para tentarem refutar a hipótese quântica da unidade essencial de todas as coisas no Universo. relacionada. se as equações matemáticas) do observador mostrarem que ela está girando para a direita. precisaria ser necessário haver troca de informações entre as partículas numa velocidade maior que a da luz. e vice-versa. Danah ZOHAR. A outra partícula poderia estar agora do outro lado da galáxia. apenas a confirmaram. Porém a maioria dos cientistas observou que Einstein se confundiu. . ele poderá prever que a outra partícula estará girando para a esquerda. se possa calcular a posição da outra90. Esse experimento é chamado de Paradoxo EPR. Segundo o físico Amit Goswami essa última linha de 88 Segundo Stephen Hawking. se as medições (ou seja. Einstein achava essa possibilidade.que Einstein. algo proibido pela teoria da relatividade. mas ainda assim saberíamos instantaneamente em que direção estava girando. 124. Ao invés disso. e pode ser descrito da seguinte maneira: Imagine que um átomo radioativo se desintegre e envie duas partículas em direções opostas e com spins88 opostos. p. Mas. permitindo que instantaneamente ao saber a posição de uma partícula. Rosen e Podolsky não mostra que seja possível enviar informações mais rapidamente que a luz89. como sendo ridícula. O Universo numa casca de noz. Sabe-se que um observador que olhe apenas uma partícula não consegue prever se ela estará girando para a direita ou para a esquerda. mas não idêntica.

144-170. porém sem comunicação por sinais. A partir desses postulados. ao tornar possíveis conexões. Tratar-se-ia de uma dimensão da realidade que opera num nível não-local. p. sem qualquer troca de sinais através do espaçotempo. confirmarem a realidade da possibilidade do fenômeno da Não-localidade92. e que pode influenciar eventos no espaço-tempo. A Não-localidade é um conceito que surge na Física Quântica. ao designar a possibilidade de uma influência ou comunicação instantânea. Para Goswami. 91 92 Amit GOSWAMI. passim. conceito que designa um reino da realidade que se situa paradoxalmente dentro e fora do espaço-tempo físico. p. e pelo teorema matemático do físico John Bell 91.interpretação seria comprovada pelo denominado experimento de não-localidade de Alain Aspect. O Universo Autoconsciente. normalmente. como se tratassem de uma totalidade intacta ou da existência de uma nãoseparabilidade que transcende o espaço-tempo. Jung descobriu que além do inconsciente pessoal freudiano. entre elementos quânticos. acausais) se dariam através de elos de significado. cultura. não estamos cientes da natureza não-local desses eventos. uma vez que parece ser independente de origem geográfica. Jung tinha um termo para o domínio transcendente da consciência. tem que ser não-local. Empiricamente. A Localidade é um conceito da Física Relativista de Einstein que postula a idéia de que todas as interações ou comunicações entre objetos ocorrem através de campos ou sinais que se propagam através do espaço-tempo. há um aspecto coletivo transpessoal de nosso inconsciente que tem que operar fora do espaço-tempo. 93 Amit GOSWAMI. 318. obedecendo ao limite da velocidade da luz. Amit GOSWAMI. onde reside a causa comum de todos os eventos síncronísticos – o inconsciente coletivo. Goswami propõe a existência do que ele chama de Domínio Transcendental93. O experimento Aspect e o Teorema de Bell parecem resolver o paradoxo EPR. . ou tempo. O conceito de sincronicidade complementaria que essas conexões não-locais (portanto. Foi denominado inconsciente porque. O Universo Autoconsciente. e assim. e inicialmente parece se opor à cosmovisão relativista. através do espaço-tempo.

tal como se poderia esperar pelo pensamento comum. por exemplo) uma imagem psíquica correspondente.221. p. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. Nesse caso. por mais incompreensível que isto possa parecer. Segundo Jung. forçados a 94 95 Ibid.. nós nos vemos. conceitos esses que por sua vez. afinal. essa dimensão transpsíquica ou transpessoal do nosso psiquismo ou de nossa alma. portanto.As correlações não-locais do teorema de Bell e do experimento de Aspect são coincidências acausais e seu significado – tais como os eventos de sincronicidade – segue o padrão de emergir sempre após o fato. Nesse estudo. ou seja. então o aspecto de consciência não local aqui envolvido terá que ser relacionado com o conceito de Jung relativo ao inconsciente coletivo 94. a finalidade psíquica repousa em um significado “preexistente” que só se torna problemático quando é um arranjo inconsciente.160. p. Segundo ele. . que por sua vez nos leva também à noção da existência do conceito quase metafísico que Jung denominou de Conhecimento Absoluto. de informação). estão diretamente relacionados ao conceito de inconsciente coletivo. abstendo-se de qualquer processo de transmissão de energia (e. Jung chega a essa conclusão se questionando sobre como um acontecimento distante no espaço e mesmo no tempo. um saber apriorístico do inconsciente. Andrew SAMUELS. Se essas correlações são exemplos da sincronicidade junguiana. pode produzir (em fenômenos parapsicológicos de clarividência ou sonhos precognitivos. A hipótese da teoria quântica que compreende o universo como uma unidade básica é correspondente na psicologia junguiana à noção de Unus Mundus 95. 161. Em parte. quando os observadores comparam dados. ele sugere que se deve admitir uma espécie de “conhecimento” anterior a qualquer consciência. podemos considerar que o Domínio Transcendente ao qual se refere Goswami deve corresponder. à mesma idéia ao qual Jung queria se referir ao propor a existência de uma Realidade Transpsíquica na base da psique. com toda a sua terminologia mais moderna.

admitir que há. e portanto. . mas um conhecimento inconsciente subsistente em si mesmo. então também existe em nós um conhecedor desconhecido. Se sabemos coisas que estão além da nossa possibilidade consciente de conhecimento. uma espécie de conhecimento ou ´presença` a priori de acontecimentos. de tempos em tempos. sem qualquer base causal (em qualquer caso. não é um conhecimento consciente como o conhecemos. denuncia que o inconsciente muitas vezes sabe mais do que a consciência.186. Segundo Stein. 187. é esta concepção que leva Jung aos limites extremos de suas especulações sobre a unidade da psique e do mundo. esse não é um conhecimento diretamente ligado ao eu (ego). Segundo Jung. A hipótese do Conhecimento Absoluto. um aspecto da psique que transcende as categorias de tempo e espaço e está simultaneamente presente aqui e ali. no inconsciente. nosso conceito de causalidade é incapaz de explicar os fatos). 96 Murray STEIN. a priori. Esse seria o Si-Mesmo (o Self)96. Jung – O Mapa da Alma. p.

Diante de seu relato. Ao observador. Jung cita outros exemplos gerais. momentâneo. em que num estado semelhante de inconsciência. de algum ponto situado junto ao teto do quarto. Durante a síncope (desmaio). uma lesão craniana grave nem sempre implica a correspondente perda de consciência. a paciente tomou consciência de que.Capítulo 4 – Realidade Transpsíquica e Percepções Transcerebrais Jung relata experiências que parecem revelar a existência de processos psíquicos naquilo que comumente se considera como um “estado inconsciente”. porém a consciência não se acha extinta. ela olhava para baixo. um indivíduo sofre um acidente. p. e fica desacordado. Ocasionalmente. A paciente chegou a descrever para Jung. tem-se a impressão de que o espaço circundante 97 Carl Gustav JUNG. “em transe” e subjetivamente privada dos sentidos. sem sentir seu corpo e a posição em que jazia. . a existência por trás dela. pálida e de olhos fechados. 73. a pessoa que sofreu a lesão parece apática. Em alguns casos – argumenta Jung – contra todas as expectativas. de um belo jardim para “outro mundo”. os profissionais de saúde ficaram estarrecidos. paralisada. Jung cita um exemplo de uma paciente que vivenciara um estado de coma. abaixo dela. e podia ver tudo o que se passava no recinto. as pessoas têm uma sensação nítida e impressionante de alucinação ou levitação. sabia descrever com exatidão os movimentos e procedimentos realizados pelos médicos e enfermeiros para a reabilitar97. São casos em que a pessoa ferida tem impressão de que se eleva no ar na mesma posição em que se encontrava no momento em que recebeu o ferimento. quando. numa síncope profunda decorrente de alguma lesão cerebral. e que depois de acordada. incluindo a visão de si mesma deitada na cama. Sincronicidade. 72. por exemplo. bem como a agitação dos profissionais de saúde para reanimá-la. mas tiveram que admitir a exatidão de suas percepções.

há plena certeza de que a atividade da consciência e. Jung argumenta que. Pode-se perder a sensação do peso. são as palavras usadas – segundo Jung – para descrever esse estado98. Porém. relaxante. excitante`. sobretudo as percepções sensoriais estão suspensas. celestial. Segundo todos os pressupostos. a consciência. 71. feliz. ou (2º) se os processos psíquicos que ocorrem em nós durante a perda de consciência não são fenômenos sincronísticos que não têm nenhuma conexão causal com os processos orgânicos. Jung assevera que não é fácil explicar como que tais processos psíquicos inusitadamente intensos podem ocorrer em estado de colapso grave e ser lembrados depois. e como o paciente pode observar acontecimentos reais em seus detalhes concretos. com os olhos fechados.se eleva também. segundo todos os padrões de julgamento humano. . onde se “supõe” esteja a sede dos fenômenos conscientes. uma espécie de separação do corpo ou do córtex cerebral ou cérebro. Durante a levitação. Sincronicidade. A sensação de levitação que ocorre nestas condições. bem como a alteração do ângulo de visão e a extinção da audição e das percepções cinestésicas indicam uma mudança da localização da consciência. as idéias reproduzíveis. a disposição interior é predominantemente eufórica: ´sublime. p. Jung se questiona (1º) se não existe em nós um outro substrato nervoso ou cérebro que possa pensar e perceber. os atos de julgamento e as percepções podem continuar a existir contra todas as expectativas. 98 Carl Gustav JUNG. era de se esperar que uma anemia cerebral tão definida afetasse notavelmente ou mesmo impedisse a ocorrência de processos psíquicos tão altamente complexos. lindo. solene. estas experiências parecem mostrar que nos estados de síncope nos quais. despreocupado. 72.

Aqui nos encontramos próximos do fator formal que. como dissemos. sobretudo dada a existência da ESP. p. 74.. Onde percepções sensoriais são impossíveis. Sincronicidade.. ou percepções independentes do tempo e do espaço que não podem ser explicadas simplesmente como processos do substrato biológico. Ou seja.. na 2ª metade do século XIX.. Jung então conclui que existem provas suficientes da existência de pensamentos e percepções transcerebrais. que são segundo o meu entendimento. filosóficos e religiosos. o tempo e a causalidade. só se pode pensar em sincronicidade 99. Carl Gustav JUNG. através de fenômenos parapsíquicos conhecidos como 99 Ibid. Atualmente realizo uma série de pesquisas e estudos sobre a relação entre a chamada Doutrina Espírita e a Psicologia. Jung parece questionar que a origem de nossos conteúdos psíquicos se encontrem em nossos processos neurológicos ou cerebrais. já de início. 101 Adalberto Ricardo PESSOA. do comportamento “significativo” ou “inteligente” dos organismos inferiores desprovidos de cérebro. ao contrário. Atribuo aos corpos em movimento uma certa propriedade psicóide que como o espaço. Em outro momento Jung afirma o seguinte. Dou-me suficientemente conta de que a sincronicidade é um fator sumamente abstrato e irrepresentável. passim. Devemos renunciar inteiramente à idéia de uma psique ligada a um cérebro e lembrar-nos. 100 . 75. Em outra ocasião. nada tem a ver com a atividade cerebral. se pretendemos explicar a existência de alguma forma de consciência durante a inconsciência do estado de coma”100. codificados por Allan Kardec. complementares à visão junguiana 101. o Espiritismo é compreendido como uma complexa doutrina que tenta integrar conceitos científicos. constitui um critério de seu comportamento. Dentro da linha de pensamento que sigo. p. Não se deve excluir a priori esta última possibilidade. e afirma que “é preciso ter presente esta possibilidade. constituindo uma compilação de informações parcialmente reveladas por supostas entidades extra-físicas (espíritos). eu próprio tratei dessa temática a partir de outros sistemas de referências epistemológicos.

pelos psicólogos transpessoais. e que tratam de assuntos profundos relacionados ao homem.com. assim como todas as religiões.comunicações mediúnicas. também pesquisou sobre a relação entre psicossomática e conhecimento espírita. 105 Núbor O. p. já seria o suficiente para fundamentar um projeto de estudo ou de pesquisa de seu conteúdo. e o autor também comenta sobre a existência de uma “memória extra-cerebral. 103 Adalberto Ricardo PESSOA. A despeito do fato de que o meio acadêmico formal (especialmente na Psicologia) não considere legítimo o aspecto científico dessa doutrina. Muito além dos neurônios.br. e chegou à conclusão que o 102 Esse fato é conhecido pela maioria dos psicólogos junguianos. considera que embora o cérebro seja um órgão extraordiário. possui uma visão específica de ser humano e uma cosmovisão sobre o Universo102. O aspecto fundamental que quero destacar é que assim como Jung. psiquiatra e psicanalista Sérgio Felipe de Oliveira 106.uniespirito. acumulada no cérebro espiritual” que pode ser revelada em condições especiais105. 106 O professor Sérgio Felipe divulga seus trabalhos de pesquisa no site www. fez especialização em Neurologia e Neurocirurgia no hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e lecionou na Faculdade de Medicina de Campinas – UNICAMP – durante 30 anos. 80. que em seu livro Muito além dos neurônios – conferências e entrevistas sobre mente e Espírito. o fato é que o Espiritismo. a origem de nossos processos mentais não deve se originar em seus processos biológicos. dentro de uma paradigma epistemológico de orientação fenomenológico ou holístico 103. a existência de pensamentos e percepções transcerebrais também tem sido evidenciada por uma série de pesquisadores espíritas. passim 104 Núbor Orlando Facure é Membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo e do Brasil. Um deles é o neurologista Núbor Orlando Facure 104. onde fez doutorado. Para ele. O médico. e principalmente. ao Universo e a Deus. FACURE. e isso por si só. o cérebro é o “órgão de inserção do espírito nas coisas”. como sugeri em outra oportunidade. que realizou o seu mestrado na USP sobre o funcionamento da glândula pineal. . livredocência e tornou-se professor titular.

A Quinta Força. o pensamento é produzido por outro sistema. Em outras palavras. de fato. 123. como órgão material biológico que produz o pensamento.net. 109 Creio que vale frisar que. no nível da 107 108 Adalberto Ricardo PESSOA. ou seja. Adalberto Ricardo PESSOA. A matemática do Perispírito. Assim. processar e associar. ou no nosso Espírito. o cérebro teria a função de captar.rg3. registrar. Jung possuía o seu entendimento particular dos conceitos de Alma e Espírito. mas é este órgão que define as condições em que uma dada expressão da alma possa ou não.psicologiaespirita.pensamento não se origina. especialmente no Brasil. se manifestar107. seriam em essência. no cérebro. A minha hipótese é que a existência de pensamentos e percepções transcerebrais constituem uma evidência adicional do nível de realidade que estamos chamando de transpsíquica. tanto na teoria da sincronicidade de Jung. e o aprofundamento dessas noções justificaria um trabalho de pesquisa à parte. quanto nos estudos de medicina 109 e psicologia espírita. O professor Sérgio Felipe levanta alguns argumentos matemáticos para apoiar a sua hipótese 108. O meu objetivo é apenas salientar a importância de se refletir sobre a aparente independência dos processos psíquicos e do funcionamento do cérebro. acha possível que as origens dos acontecimentos no substrato para além do espaço e do tempo (ou seja. expressões originadas na Alma. p. . Outra evidência desse nível de realidade é a citação de Jung (já evidenciada nessa monografia) sobre a idéia do físico Sir James Jeans que. o qual ele considera designar como sendo o Espírito. não é o cérebro. Não é objetivo desse trabalho de pesquisa questionar a legitimidade do conceito de espírito nos moldes da chamada Doutrina Espírita. Para ele o cérebro é um órgão transdutor do pensamento. os conteúdos psíquicos que por sua vez. do que a psicologia. http://www. a medicina tem se mostrado mais aberta em relação aos estudos e pesquisas das “Ciências do Espírito”. filtrar.

p.. eles são. como no-lo mostra o conhecimento de acontecimentos futuros ou espacialmente distantes. o nível da realidade transpsíquica corresponderia ao conceito ou nível de realidade do perispírito. 110 111 Carl Gustav JUNG. que quase sempre se duvida de sua existência. Sincronicidade. se situa em um espaço psiquicamente relativo e num tempo correspondente. certamente muito mais freqüentes do que se pensa e se pode provar. de sorte que o curso dos acontecimentos futuros depende em parte dessa atividade mental 110.. isto é. 78. mas ainda não sabemos se ocorrem de modo tão freqüente e com tanta regularidade.realidade transpsíquica) incluam. devemos ter presente que os fenômenos sincronísticos que podem ser verificados empiricamente.. também. Por trás desse conceito – para utilizar uma terminologia junguiana – subjaz a noção arquetípica da qualidade psicóide. conhecimento não transmitido através dos órgãos dos sentidos. Para os pesquisadores espíritas. que é característico dos fenômenos sincronísticos. do ordenamento significativo que poderia lançar alguma luz sobre o paralelismo psicofísico. Esta forma de existência só pode ser transcendental porque. são tão raros.. Sincronicidade. Jung chama a atenção para a aparente raridade das ocorrências espontâneas do fenômeno sincronístico. A sincronicidade possui certas qualidades que podem ajudar-nos a esclarecer o problema corpo-alma. Ibid. Segundo suas palavras. 66. mas adianta a possibilidade de uma exceção na psicossomática. . 71. em um contínuo espaço-tempo irrepresentável111. Se esta simples conjetura um dia se confirmar. p. longe de constituírem uma regra. serve de base à hipótese do significado subsistente em si mesmo. que se possa dizer que são fatos que obedecem a determinadas leis. Segundo Jung. ou exprime sua existência. (. minha atual opinião de que a sincronicidade é um fenômeno relativamente raro será corrigida 112. que fenomenologicamente é uma zona intermediária entre o espírito e a matéria. Na realidade. 112 Carl Gustav JUNG. p. . ou melhor. É sobretudo o fato da ordem sem causa. devo acentuar mais uma vez a possibilidade de a relação entre corpo e alma ser entendida como uma relação de sincronicidade. O “conhecimento absoluto”..) Aqui. A existência de pensamentos transcerebrais também estaria relacionada a uma compreensão da psicossomática como um fenômeno de sincronicidade. as nossas atividades mentais.

eles provam que um conteúdo percebido pelo observador pode ser representado. em que a consciência humana ganha uma grande importância. Temos aqui. A constelação desse fato tem conseqüências de longo alcance. ou que o espaço é psiquicamente relativo.Conclusão Vimos que os fenômenos sincronísticos são a prova da presença simultânea de equivalências significativas em processos heterogêneos sem ligação causal. a significação da vida humana neste planeta está vinculada à nossa capacidade de conscientização. já que para Jung. o conceito de sincronicidade e suas implicações funcionam com eficácia porque são bastante fáceis de entender intuitivamente e de incorporar à vida cotidiana de cada um. por um acontecimento exterior. sentimos e vivemos. todos temos consciência de acontecimentos em que a “sorte” nos bafejou e de dias de “azar” em que tudo parece correr . ao adicionar ao mundo uma percepção reflexiva de coisas e significados. em outros termos. um novo paradigma ou conceito de ciência. Segundo o conceito de sincronicidade. Daí se conclui: ou que a psique não pode ser localizada espacialmente. sem nenhuma conexão causal. O mesmo vale para a determinação temporal da psique ou a relatividade do tempo. temos que a subida à consciência de padrões e imagens oriundas das profundezas do inconsciente coletivo psicóide fornece ao gênero humano seu propósito no universo. só uma cosmologia dessa espécie será aceitável no mundo contemporâneo. Inicialmente. essa dimensão pode ser também a base da própria realidade física que observamos. Como base para uma nova visão do mundo. Por exemplo. que culminam no conceito de uma realidade transpsíquica na base da psique. os humanos estão em uma posição que lhes permite tomarem consciência de que o cosmos tem um princípio ordenador. Em outros termos. Em função de seu caráter psicóide. ao mesmo tempo.

113 Murray STEIN. o indivíduo é um co-criador do reflexo de realidade que a história como um todo revela. portanto. Ou seja. Nesse sentido. Cada um de nós. é o portador de um fragmento de consciência de que a realidade e o tempo necessitam para ampliar o conhecimento dos motivos subjacentes que se desenrolam na história. 190. Grupos de eventos que estão relacionados através de significado e imagem. a fim de relacionar a teoria dos arquétipos com os eventos sincronísticos que transgridem as fronteiras do mundo psíquico. por outro lado. devem ser vistas em relação recíproca e unidas de forma significativa113. podem ser facilmente experimentados e verificados por qualquer pessoa. O paradigma da sincronicidade. já que a era do Iluminismo deixou especificamente para o pensamento científico. filosófico e histórico um legado de faticidade sem significação. Mas aceitar esse conceito seriamente como princípio científico nada tem de fácil. Jung viu-se forçado a ampliar a sua noção da natureza não-psíquica do arquétipo. que pode equivaler ao reconhecimento tanto do seu lado terrível quanto de sua face bela e gloriosa. é psíquico e psicológico. a implicação é que o subjacente arquétipo de ordem está organizando a mesma de tal modo a produzir algum novo avanço da consciência da própria humanidade.191. mas causalmente sem relação alguma entre si. p. por exemplo. Por um lado. um avanço no entendimento da realidade. supondo que o cosmos e a história estão dispostos pelo acaso e pelas leis causais que governam a matéria. mas sim de revolucionário. uma vez que é experimentado dentro da psique na forma de imagens e idéias. requer uma forma de pensar inteiramente nova acerca da natureza e da história. Jung – O Mapa da Alma. Se uma pessoa pretende encontrar uma significação em eventos históricos. Isso não significa progresso como os seres humanos gostariam de pensar. mas antes.mal. Cada história individual e a coletiva como um todo. .

p. O arquétipo transgride as fronteiras da psique e da causalidade. Jung – O Mapa da Alma. Jung tem o propósito de atribuir à transgressividade o significado de que as configurações que ocorrem na psique estão relacionadas com eventos e padrões situados fora da psique. Por outro lado. A minha hipótese particular é que essa significação possa ter também uma orientação evolutiva dentro do processo de individuação de cada um de nós. 192. e por milhões de sonhos em que figurou a bomba 114. na e através do contexto histórico mundial em que surgiu. cria a possibilidade de que exista um significado onde intuitivamente não o enxergamos. Em ambos os casos. 193. no caso da bomba atômica. o arquétipo do Si-mesmo (Self) é revelado na história dentro e fora da psique pelo evento de sua explosão. Para citar um exemplo. é irrepresentável em si mesmo e sua essência está fora da psique. afirma existir uma significação objetiva subjacente nas coincidências que ocorrem na psique e no mundo. representando uma sua propriedade de transgressividade.Por outro lado. ou em segundo lugar. ocorrem acidentes que nos impressionam como meramente devidos ao puro acaso. Essa possibilidade pode ter implicações importantes para o trabalho clínico psicoterápico. . especialmente quando ainda temos alguma lição existencial importante a ser realizada em nosso processo de amadurecimento pessoal. e os impressionam como intuitivamente significativas. quando por exemplo. Essa idéia da transgressividade do arquétipo desenvolve-se em duas direções: Em primeiro lugar. esse tipo de significação vai além de (transgride) a cadeia de causalidade linear. A característica comum a ambos os domínios é o arquétipo. embora seja “portado” por ambas. a começar pelo fato fundamental do terapeuta ter entrado na vida do seu paciente exatamente naquele momento crucial de seu desenvolvimento psicológico em que o fenômeno sincronístico está realizando a sua 114 Murray STEIN.

e assim.exigência evolutiva. p. mas também de modo sincronístico. ou pode haver também aí um significado? Ou suponhamos que a psique está organizada e estruturada não só causalmente. Um instinto como a sexualidade. de forma inesperada e imprevisível. Nesse momento. mas a correspondência entre a preparação psicológica interior (a qual pode ser totalmente inconsciente nesse momento) e o aparecimento exterior de uma pessoa. Jung – O Mapa da Alma. um encontro “ocasional” com uma pessoa converte-se num relacionamento para a vida inteira. Podemos nos questionar: o nosso nascimento numa determinado país. 193. o par animus-anima). . 115 Murray STEIN. organizado por um ou mais arquétipos cruciais. como é o pensamento dominante na psicologia do desenvolvimento. Isso significaria que o desenvolvimento da personalidade tem lugar por momentos de significativa coincidência (sincronicidade). fixações psicológicas ou experiências infantis). por exemplo. mas também porque um campo arquetípico está constelado num determinado momento. cidade e família é unicamente devido ao acaso e causalidade. Subentenderia também que os grupos de instintos e os arquétipos se uniram e foram ativados de modo tanto causal quanto sincronístico (significativo). A imagem constelada do arquétipo não cria o evento. assim como por uma seqüência epigenética pré-ordenada de etapas. por exemplo. poderia ser ativado não só em virtude de uma cadeia causal de eventos em seqüência (fatores genéticos. algo do mundo psicóide (ou provindo do nível da realidade transpsíquica) torna-se visível e consciente (por exemplo. O próprio terapeuta pode estar passando por um momento evolutivo paralelo com aquele significado sincronístico essencial. é sincronística 115.

segundo Jung. a coincidência significativa entre um evento psíquico. estaremos muito mais perto de uma resposta mais completa e satisfatória. Apenas recentemente ela foi reconhecida como uma disciplina científica. A sincronicidade. sendo admitida provisoriamente. essa coincidência de necessidade e oportunidade. ou seja. Esta se relaciona com a organização acausal no universo sem qualquer referência especial à psique humana. como ponto de partida para a construção de . pois ingressar no mundo arquetípico (ou transpsíquico) desses eventos gera a sensação de se estar vivendo na vontade de Deus 116. Mas. seria impossível. e um evento do mundo não-psíquico. Segundo o físico e engenheiro brasileiro Wladimyr Sanchez. O livro de Jung sobre Sincronicidade inicia-se e concentra-se sobre o que o autor designou de definição da sincronicidade em “sentido estrito”. A Cosmologia é a ciência que procura explicar a organização e funcionamento do Universo como um todo. a palavra princípio significa uma proposição que se coloca no início de uma dedução e que não é deduzida de nenhuma outra dentro do sistema considerado. um princípio 117 subjacente na lei cósmica. isso converteu-se no enunciado cosmológico de Jung.. teólogos e metafísicos. Em outras palavras. estatisticamente improvável. Isso corresponde. Jung também considera a definição mais ampla. mas se introduzirmos o fator sincronístico e a dimensão de significação. PhD e doutor em ciências. mas também sobre Cosmologia. Assim. numa concepção mais geral de sincronicidade como organização acausal no mundo. a nossa experiência 116 117 Ibid. 194. Jung não teorizou apenas sobre Psicologia. ou organização acausal é para Jung. p. ou de desejo e satisfação. Mas. antes sendo objeto de atenção apenas de filósofos.Por que acontecem tais conexões parece um mistério se refletirmos unicamente em termos de causalidade. esses mistérios inesquecíveis que estão consubstanciados em eventos sincronísticos transformam as pessoas. Num universo aleatório. como um sonho ou pensamento. então. ou pelo menos. Do ponto de vista do princípio geral de sincronicidade.

06. em sua perspectiva mais ampla. A Cosmologia de Jung fornece. causalidade e sincronicidade. Em outras palavras. constitui um caso especial de ordenamento muito mais amplo no universo. fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só. para descrever o universo. São Paulo. ou no mínimo. através do fator psicóide e da transgressividade do arquétipo. Revista Universo Espírita. Mediante o processo de psiquificação. se refere a quatro princípios: energia indestrutível. finalmente. O quatérnio de relações traçadas por Jung e Pauli. Wladmyr. fev. Maiêutica – A ciência a serviço do Espiritismo. n.humana de organização acausal. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras criativas desde dentro. ser entendidas e integradas. os seres humanos têm um papel especial a desempenhar no Universo. para Jung existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo. o mais extenso alcance de sua penetrante e unificada visão. contínuo espaço-tempo. configurações de ordem no universo tornam-se acessíveis à consciência e podem. e ele acreditava que um dia talvez pudéssemos descobrir alguma demonstração matemática que comprovasse essas identidades. 08-13. apesar de não captarmos essa integração. o experimento de Aspect e o Teorema de Bell (todos esses são demonstrações matemáticas oriundos da Física Moderna) parecem satisfazer essa expectativa. Pois o arquétipo é não só o qualquer sistema de compreensão (SANCHEZ. por assim dizer. Segundo ele. já simbolizam avanços nessa direção. p. prestando atenção à imagem e à sincronicidade. 2004) . o paradoxo EPR. A nossa consciência é capaz de refletir o cosmos e de introduzi-lo no espelho da consciência. Segundo o meu entendimento. . como vimos. Aqui vemos que a psique humana e a nossa psicologia pessoal participam da maneira mais profunda na ordem desse universo por intermédio do nível psicóide do inconsciente. ano I.

Essa é a essência do conceito de realidade transpsíquica. .modelo da psique. mas também reflete a real estrutura básica do universo.

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