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15 - As Várias Possibilidades de Leitura de um Texto

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Published by: Alexandre Marinho on Apr 27, 2011
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Capitulo 12 As várias de leitura de um texto Leia o texto abaixo : possibilidades

animais. No entanto, certos termos, como “invejosa”, “disse”, bem como a vontade de igualar-se ao boi são elementos próprios do ser humano, aplicam-se ao homem. Há então no texto uma reiteração do traço semântico (de significado)/humano/. Essa reiteração obriga a ler a fábula como uma história de gente. No plano humano, a rã não é a rã, mas o homem invejoso que faz tudo para igualar-se a quem ele inveja.

Uma rã viu um boi que tinha uma boa estatura. Ela, que era pequena, invejosa, começou a inflar-se para igualarse ao boi em tamanho. Depois de algum tempo, disse: Olhe-me, minha irmã, já é o bastante? Estou do tamanho do boi? De jeito nenhum. E agora? De modo algum. Olhe-me agora. Você nem se aproxima dele. O animal invejoso inflou-se tanto que estourou. (Adaptação de fábula de LA FONTAINE, Fábulas.)

O primeiro problema que a leitura dessa fábula coloca é o seguinte: trata-se de uma história de animais ou de homens? O leitor responderia imediatamente: de homens, é claro. Mas como é que ele sabe disso? A resposta poderia ser: a escola sempre ensinou que as fábulas põem a nu certos comportamentos humanos. Mas como os estudiosos chegaram a essa conclusão? Os personagens são as duas rãs e o boi, que são

Os elementos com o traço /humano/ são os desencadeadores de um plano de leitura não integrado ao plano de leitura inicialmente proposto. Com efeito, os termos “rã” e “boi” propõem iniçialmente um plano de leitura: uma história de bichos. Entretanto, à medida que vamos lendo o texto, os elementos que contêm traço /humano/ não permitem mais que se leia a fábula como história de animais, pois desencadeiam um novo plano de leitura: a fábula passa a ser lida como história de homens. A recorrência de traços semânticos estabelece a leitura que deve ser feita do texto. Essa leitura não provém dos delírios interpretativos do leitor, mas está inscrita como virtualidade (possibilidade) no texto. Lido de maneira fragmentária, um texto pode dar a impressão de um aglomerado de noções desconexas, ao qual o leitor pode atribuir o sentido que quiser. Sem dúvida, há várias possibilidades de interpretar um texto, mas há limites. Certas interpretações se tornarão

Deve percorrer o texto inteiro. tentando localizar todas as recorrências. ambos opostos entre si. isto é. Levando em conta esses dados. Mas que deve fazer o leitor para perceber essa reiteração? Deve tentar agrupar os elementos significativos (figuras ou temas) que se somam ou se confirmam num mesmo plano do significado. do presente. entre outros fatores. assim magro. 1974. o seguinte poema de Cecília Meireles: que nem se mostra. pela reiteração. da perda da energia vital. Tomemos. ele os tinha com características opostas. p.Em que espelho ficou perdida a minha face? (Cecília Meireles: poesia. no verso 9: “Eu não dei por esta mudança”. as figuras do eixo 1 agrupam-se em função do significado da estaticidade. a repetição. Essa recorrência determina o plano de leitura do texto. a coerência entre seus vários elementos. nem o lábio amargo 5 Eu não tinha estas mãos sem força. assim triste. 19-20. define dois planos distintos: um. outro. As mesmas figuras podem ser interpretadas segundo mais de um plano de leitura. da forma como segue: Como se vê. Agir. Por Darcy Damasceno. riem estes olhos tão vazios. do passado. todas as figuras e temas que conduzem a um mesmo bloco de significação. Essa coerência é garantida. ao dizer que não tinha este rosto e estas mãos com as características do momento presente. no passado. assim calmo. Eu não dei por esta mudança. Ao dizer. Há textos que permitem mais de uma leitura. Rio de Janeiro. pode-se imaginar o poema dividido em dois eixos. tão paradas e frias e mortas: eu não tinha este coração . tão certa. a redundância. Retrato Eu não tinha este rosto de hoje. faz pressupor que. a título de exemplificação.) Nos versos 1 e 5. 10 tão simples. tão fácil: .inaceitáveis se levarmos em conta a conexão. a recorrência de traços semânticos ao longo do discurso. o autor.

outros termos que não se integram a um certo plano de leitura proposto e por isso são desencadeadores de outro tão paradas. e cálidas. não se poderia interpretá-la como uma história de gente. eu não tinha este coração eu tinha outro coração. que se manifestava. tão dinâmicas. da posse da vitalidade plena. “amargo”. tão irrequieto. o texto que admite assim magro tão cheio várias leituras contém em si indicadores dessas várias nem estes olhos tão vazios. de (explicitamente) (implicitamente) interpretação seja correta nem que o leitor possa dar ao Eu não tinha este rosto de hoje. Há Eu não tinha estas mãos sem força. assim triste. o leitura.o que se pressupõe no eixo 2 agrupa-se em torno do significado do dinamismo. No poema em pauta. São relacionadores de dois ou mais planos de leitura. estamos perto de depreender o tema do texto. por exemplo. e vivas. No seu interior aparecem figuras ou temas que têm mais de um significado e que. “que nem se mostra”. Ao dizer “Eu não dei por esta mudança”. nem o lábio amargo e o lábio doce apontam para mais de um plano de leitura. O texto admite ao menos duas leituras: o desgaste material das coisas com o fluxo inexorável do tempo e o desgaste psíquico do ser humano com o passar do tempo. e mortas. que é indicado por termos como “magro”. da alegria de viver. Eu tinha aquele rosto de outrora o texto sentido que lhe aprouver. e olhos tão expressivospossibilidades. o poeta manifesta a sua perplexidade diante do contraste entre o que era e o que veio a ser. “frias”. é a decepção diante da consciência súbita e inevitável do envelhecimento. e frias. /humano/. admitir que qualquer implica. do entusiasmo. Quando se agrupam as figuras a partir de um elemento significativo. mas como o desgaste psíquico. Esses termos são os desencadeadores desse plano de Esse texto pode ser lido como o envelhecimento físico. Eu tinha aquelas mãos com energia. outras figuras. tão alegre. Na fábula “A rã e o boi”. por isso. se não houvesse figuras com o traço que nem se mostra. E em que dispositivos podemos nos apoiar para controlar assim calmo. obrigam a ler o texto não como simples desgaste físico. . Entretanto. como “triste”. uma certa interpretação e impedir que ela seja pura invenção do leitor? Sem dúvida. que se manifesta como a perda da energia. No entanto. dizer que um texto pode permitir várias leituras não Significados que remetem ao presente Significados que remetem ao passadomodo algum. plano. etc.

O leitor cauteloso deve abandonar as interpretações que não encontrem apoio em elementos do texto. Rio de Janeiro. O ferro fundido é é só derramá-lo Não há nele a e o cara-a-cara de uma forja. foi a forma que fez. Flores criadas numa outra língua. termos que não se encaixam nesse primeiro plano . Há. enquanto naquela o ferro adquire a forma da forma(ô). Conhece a Giralda em Sevilha? Num primeiro plano de leitura. 5 Só trabalho em ferro forjado que é quando se trabalha ferro. então. dobro-o. queda-de-braço 10 Existe grande diferença do ferro forjado ao fundido.” MELO NETO. domo-o. 31-2. é a mão do ferreiro que dá a forma. TEXTO COMENTADO O ferrageiro de Carmona Um ferrageiro de Carmona que me informava de um balcão: Aquilo? É de ferro fundido. até o onde quero. Nada têm das flores de forma moldadas pelas das campinas 25 Dou-lhe aqui humilde receita ao senhor que dizem ser poeta: o ferro não deve fundir-se nem deve a voz ter diarréia. que podemos denominar trabalho com o ferro. não a mão. dá-lhe a forma que quer. p. Nova Fronteira. 1987. mas ao que pode até ser flor se flor parece a quem o diga. na forma. corpo a corpo com ele. Crime na caile Relator. 15 é uma distância tão enorme que não pode medir-se a gritos. na segunda. observa-se que há duas maneiras de trabalhá-lo: a fundição e o forjamento. Reparou nas flores de ferro 20 dos quatro jarros das esquinas? Pois aquilo é ferro forjado. o ferreiro realmente trabalha o ferro num corpo a corpo com ele. sem luta. João Cabral de. 30 não até uma flor já sabida. Forjar: domar o ferro à força. De certo subiu lá em cima. Nessa. a forma(ô) faz o ferro adquirir uma forma. Na primeira. no texto.

que não se deve fazer (“o ferro não deve fundir-se”). A categoria de base com que trabalha o texto na estrutura fundamental é /imitação/ (presente no processo de fundição) versus /criação/ (presente no processo de forjamento). e por mil túneis. Essa imitação e essa criação aparecem tanto no trabalho com o ferro (primeiro plano de leitura) quanto no trabalho com a linguagem (segundo plano de leitura). o que era parede. 15 Tudo ali sofre a morte mansa do que não quebra. se desmancha. a fundição é apresentada como algo de valor negativo. O forjamento é o termo de valor positivo pois é um trabalho original (“Forjar: domar o ferro à força / não até uma flor já sabida. que deve ser concebido como a produção original dos textos. neste.. e o forjamento. / mas ao que pode até ser flor / se flor parece a quem o diga”). intestina. ela é domada e adquire a forma que o poeta quer dar-lhe. vemos que há duas maneiras de trabalhar a linguagem: a fundição. Nos dois planos de leitura. “receita ao (. E se não se gasta com choques. a linguagem (ferro) esparrama-se na forma(ô). EXERCÍCIOS Paisagens com cupim No canavial tudo se gasta pelo miolo. lento. João Cabral de. Questão 2 Anote palavras e expressões que mostram a oposição de sentido /silêncio/ versus /ruído/. Rio de Janeiro. porque nela não há originalidade (“flores de forma(ô) moldadas pelas das campinas”). mais poroso. Por fora o manchado reboco 10 vai-se afrouxando. enquanto desfaz-se. tampouco explode. Nada ali se gasta de fora. J. Questão 1 Anote as palavras que mostram a oposição semântica (de sentido) /exterioridade/versus/interioridade/. “voz”. 3. p. O texto nega a imitação e afirma a criação. ed. MELO NETO.) poeta”. mil canais. Poesias completas (19401965). . Neste. Olympio.. 5 Tudo se gasta mas de dentro: o cupim entra os poros. qual coisa que em coisa se choca. que deve ser lida como a construção de textos a partir de uma fórmula. Pode-se então denominar o segundo plano de leitura de trabalho com a linguagem. as coisas desfia e desfaz. mas de dentro. em farinha.de leitura e estabelecem um segundo plano. 149. Esses termos remetem à linguagem. Naquela. São desencadeadores de outro plano de leitura: “língua”. não pela casca. 1979.

Foi falar com o proprietário. Gostaria que o senhor me indicasse a localização do W. o tempo psicológico da estreiteza de horizontes e da impotência. (b) O homem com seu trabalho. dos sistemas sociais. mostre o que simboliza o cupim. dos seres humanos. escreveu a seguinte carta para o proprietário: “Prezado senhor: Sou a pessoa que alugou sua casa para as próximas férias. que tem um significado físico (edifício) e um significado social (família).C. (e) As causas indeterminadas de corrosão. São eles o plano físico. (banheiro). acertou com ele as bases do aluguel. o tempo histórico da estagnação. julgou que a mulher falasse da igreja chamada White Chapel (Capela Branca). (d) Todos os agentes externos que corroem as coisas. com sua falta de PROPOSTA DE REDAÇÃO Uma senhora inglesa foi passear na Alemanha. estabeleça o tema do poema. (a) O tempo físico das secas e das intempéries. e o descrevesse para mim’ O alemão. o histórico (social) e o humano. que mostra o modo como as coisas se acabam. Lá viu uma casa muito bonita e pensou em alugá-la para nela passar com a família as férias de verão. (c) A corruptibilidade das coisas materiais. não sabendo o significado da abreviatura W. Como entender a corrosão em cada um desses planos? Questão 7 O agente da corrosão é o cupim. Com base nessa depreensão errada de significado. . assinou o contrato e voltou para a Inglaterra. lembrou-se de que não havia visto banheiros na casa que alugara. Com base nas múltiplas possibilidades de leitura. Questão 4 Com base na resposta à questão anterior. redigiu uma resposta que provocou um efeito cômico. a partir de dentro ou de fora? Justifique sua resposta com elementos do texto.C. com sua inércia. Questão 5 Os termos “reboco” e “parede” indicam o termo “casa”. Já em sua casa. a corrosão (o desgaste) pode ser lida em diferentes planos. Que função têm no poema esses termos com mais de um significado? capacidade de luta. Imediatamente. Os termos “poros” e “morte” têm um valor humano e um valor não-humano.Questão 3 As coisas no canavial se acabam silenciosa ou ruidosamente. Questão 6 Levando em conta a possibilidade de várias leituras do poema.

que constituem o que se denomina sentido conotativo. procurando tirar o maior proveito possível da dupla interpretação que o texto propiciou. valores. sobrepõem-se ao significado denotativo de um termo significados paralelos. impressões.Observe que esse efeito humorístico resulta do fato de se ler uma carta que fala de igreja como se fosse uma carta que falasse de banheiro. . “ No discurso literário. Redija a carta que o alemão mandou para a inglesa.

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