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Sempre há uma luz... A viagem de um roqueiro ao além. Sérgio Lúis.

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Sempre há uma Luz Copyright © 2001 by Sérgio Luís Agradecimentos A Deus, a Jesus e à Espiritualidade (ou Espírito Santo), sem os quais

nada é possível; Em especial, aos espíritos: Francisco e Luiz Sérgio, que assistiram Ruggeri Rubens nesta obra. Ao Editor José Carlos (e toda Equipe DPL). Ao Espírito Ruggeri pelas horas de intercâmbio. Com ele aprendi um pouco mais sobre amar. (Algum dia, quem sabe, caro amigo, o mundo passará a ser nosso!)... Às artistas Fátima Sena e Juliana Morosowiski, pelas magnificas pinturas, c edidas gentilmente para esta obra. Do Autor Ao leitor que nos prestigia e conosco, igualmente, haure energias para con tinuar a caminhada; A todos que direta ou indiretamente, têm contribuído na divulgação dos livr os e da Doutrina Espírita. Deus é fantastico, nos permitindo conhecer as pessoas, não por estarem sob um pálio, mas por sua essência. Todos os direitos reservados pela: DPL - EDITORA E DISTRIBUIDOR A DE LIVROS LTDA. Rua Cinco de Julho, 59 - São Paulo - SP Cep. o4281-ooo Fone/Fax: (11) 5o61-8955 Endereço para correspondência: Caixa Postal 42467 - CEP o42 18-97o - SP Internet: www.dpl.com.br. E-mail: dpl@dpl.com.br Palavras aos Médiuns O Apóstolo João, na Epístola, Cap. 4, 2-3, nos adverte que não devemos acr editar em todos os espíritos, perscrutando se vêm de Deus. O que se pode deduzir logicamente de tal assertiva? Primeiro, que existem Espíritos! Segundo, que eles sempre nos trazem algu

ma mensagem, notícia ou revelação, manifestando-se independente de local, pessoa, classe social ou crença religiosa. Terceiro, não se pode tomar a mensagem apostolar ao pé-da-letra, pois na verdade, todos os espíritos vêm de Deus! . .sejam e les superiores ou inferiores. Somos filhos de um mesmo Pai, criados simples e ignorantes , logo, todos viemos de Deus. Quarto, alguns deles podem estar eivados de embuste, maledicência e aparente bondade, nada produzindo de bom, razão pela qual o Apóstolo nos advertiu contra esses, em particular. Como médiuns e por dever Cristão de caridade, no mínimo, devemos recebe-l os, ouvi-los e, se necessário for, tentar reencaminhá -lo na senda da com preensão de suas reais situações, com preces e esclarecimentos. (E não é isso que se faz nas reuniões mediúnicas sérias?) Sempre eles nos trazem alguma coisa a ser aprendida, seja quando retratam a pureza angélica, seja quando mostram aberta e honestamente, como chega ram até esse grau de entendimento e evolução. Aqueles que não partilham desse entendimento, no mínimo, deveriam rever s uas posições ao julgar uma mensagem, pois a todo instante o Cristo nos te m concitado a exercitarmos o perdão, misericórdia e a piedade, como forma de elevação. Há, decerto, os que só desejam palavras de rara beleza dos bons Espíritos. Mas os Espíritos sofredores têm muito o que nos ensinar, sim! Nos mostram que foram ao campo de batalha da vida e, por erros ou ignorância, desceram aos tormento s conscienciais. Como nada é absoluto (Só o Creador), por misericórdia, en fim, conseguiram divisar algum dia, um pouco do sol que nasce para todos... e só não enxerg a quem não quer! E isso não é maravilhoso? Sinal de que nenhuma ovelha do Pai se perderá...! Está lá no Cap. 28: seria injusto colocar os sofredores e arrependidos na c ategoria dos maus espíritos. Podem alguns ter sido maus, mas a partir do mo mento em que reconhecem suas faltas e as lamentam; são apenas infelizes, alguns até mes mo começam a gozar de uma felicidade relativa. (E.S.E*) Quem poderá contradizer que a Doutrina Espírita, principalmente, o próprio Evangelho Segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno, não tiveram a partic ipação de espíritos sofredores? Confiramos, nesse último compêndio... nada menos que 3 a 4 ca pítulos com depoimentos dessa classe de Espíritos, de riquíssimo valor mo

ral, pois que visam a nos alertar a não cometer os mesmos erros. A mediunidade não implica necessariamente relações habituais com Espíritos Superiores; é simples aptidão para servir de instrumento mais ou menos út il aos Espíritos em geral. E o bom médium não é aquele que se comunica facilmente, mas aq uele que é simpático aos bons Espíritos (Cap. 24 os bons não tem necessi dade de médicos E.S.E) Ruggeri Rubens é um pseudônimo, similar aos de André Luiz, Irmão X, Emma nuel e tantos outros. Os Espíritos têm pudor de suas obras, palavras do bondoso Espírito de São Vicente de Paula (Paris, 1858 E.S.E, Cap. 13). Se essa entidade tivesse se revelado como a celebridade musical que o marc ou por duas décadas (cuja obra continuará a ser apreciada ao longo dos ano s vindouros); se houvesse trazido ao leitor sistemas absurdos e imponderáveis; se houves se mesmo abjurado o Pai, Jesus e a Espiritualidade; se não corroborasse co m as informações que temos visto, ouvido e lido acerca do que nos aguardam no pós-vida, eu mesmo diria, com convicção, que este livro seria uma falácia grosseira. Todavia, o leitor (em maioria) tem provado o contrário! Tanto que nos per mitiu chegar a uma 2 edição. Recebemos inúmeras cartas/e-mails, onde as p essoas que leram esta obra afirmam que encontraram no contexto redenção, misericórdia, espera nça, caridade, fé... luz. Gostaria de reiterar o brado que expressei na 1a edição, não como forma d e esvaziar os bancos das salas de cursos mediúnicos, pois quem não conhec e a mediunidade, precisa conhecê-la. Mas que não se dê maior valor ao academismo, onde as pessoas se tornam vazias mesmo aprendendo, estimulando em maior grau a inteligência. E preciso lembrar que os principais objetivos a serem atingidos são: caridade , disciplina e amor, e somente os conquistaremos com o labor ativo no bem. Portanto, deixamos os quartos de estudo, não significa abandoná-los, pois o p róprio Kardec nos disse: ... instruí-vos, mas antes, ressaltou com propriedad e: Espíritas, amai-vos.., caindo no mundo semeando todo o bem que pudermos, pois é lá que está o infortúnio, dor, miséria., lá é que está o mal a ser curado, que é a ignorância!

E deixamos que os sãos, que não precisam de médico, continuem a sonhar c om dias melhores. Que ninguém se iluda! Jamais seremos bons, fortes e renovados se não tomar mos o arado e a charrua evangélica para arar. Os que têm suas qualidades, habilidades e inteligência, que as utilizem em qualquer ramo de atividades que exerçam... contanto que ajam! A Espiritualidade espera que cada um se predisponha. Eis o alerta incessante . Sinceramente. Sérgio Luís Sumário Prefácio 13 O fim, foi por onde comecei 17 O livro dos meus dias 23 A Estação dos Jasmins 29 No reino underground 39 O teatro de marionetes 45 Algo me dizia: se entregar era uma covardia! 55 E quando tudo parecia perdido 65 O passado ensinando o presente 83 A dor maior: não saber sentí-la! 91 Renascido das cinzas 1o1 De volta ao império 111 As nossas vidas serão para sempre 119 O caminho? Só há um 131 O amor.., você e algo mais 137 Prefácio Meus queridos amigos, que as bênçãos do Todo-Poderoso recaiam sobre vós, ora viajores dessa astronave chamada Terra, construída por mercê e bond ade dO Justo, para conduzir-nos ao paraíso da renovação prometida. Feliz, por estar mais uma vez agindo em prol dos desígnios dAquele que nos supre as necessidades, eis que me regozijo pelo labor desinteressado, ser vindo-vos ao lado do prestimoso companheiro Francisco, em auxílio a tão querida alma, com quem pude compartilhar amizade terrena, outrora. Trata-se de Ruggeri Rubens, pseudônimo que preferiu adotar esse amigo, d

oravante, como meio de precaução e simplicidade. Numa linguagem corrediça, sem maiores dificuldades para o entendimento, pôde ele, com a permissão dos preceptores de Maria nossa Mãezinha Santíssima gerar mais uma fonte de bênçãos, a jorrar límp ida água montanha abaixo, no intuito de saciar a sede de milhões de criatu ras que o amaram. Assim como atingiu os píncaros do sucesso, conheceu, identicamente, o refl exo que os abusos proporcionam; destarte não tenha isso retirado o brilhan tismo de sua tarefa, por conflitos pessoais. Suas letras e músicas, no presente e no porvir, são e ainda serão ouvidas p or longo tempo, acalentando e renovando as esperanças de jovens de todas as idades. Certamente, e esse o nosso propósito tais ‘jovens eternos, após conhecerem este legado post mortem que ora se delineia, proveniente daquele que foi se u ‘ídolo, em reflexão mais adequada, preferirão sorver o líquido da renovação oriundo desta fonte, preterindo os ‘refrigerantes efêmeros da materialidade, o que os agrupará em legiões de esclarecidos, rumo à fraternidade sem mesclas ou discriminaç ões. As mensagens aqui depositadas, nos convidam à compreensão de que, somen te alinhando o preconceito frívolo, conseguiremos transformar as sociedades em oásis de harmonia e felicidade. Neste singelo trabalho, Ruggeri tem por simplória, mas valorosa missão, re lembrar que os pesares são construções da ignorância e pequenez moral, onde somente o atendimento às Leis Divinas, com preendi da pela razão e exercidas na prática da caridade, aliadas ao único meio de atingir a perfeição: a reforma íntima, tornar-nos-ão criaturas desatreladas dos grilhões de pungentes dores. Por isso in sistimo tanto nessa tecla! O mundo mudou e progrediu (materialmente falando); as pessoas também, ma s por sermos os mesmos espíritos do pretérito ainda em aprendizado, assistimos ao resultado do plantio de outrora. o Nos diálo gos, conservamos a maneira de expressão de cada que não mudou, e nunca mudará, é essa verdade infinita e preexistente per sonagem, com seu modo próprio de usar os tempos verbais, as chamada: amor . pessoas gramaticais e os pronomes pessoais. Tal preceito, vivido e sofrido (ou não), nos fará vencedores da

maior e mais árdua de todas as batalhas: a moral,... contra nossas más tendências! Superados tais embates, no limiar dos tempos vindouros, algum dia, congregados no seio do amantíssimo Pai Celestial, poderemos caminhar livres, sem temores ou discriminações e dizer abertamente: Eu te amo! . . .Nós nos amamos! E é isso que essa pérola singela objetiva que sopesemos nos atuais estágios de nossa caminhada evolutiva, perguntando a si mesmo: o que estou fazendo por mim, pelo meu próximo... por Deus?! No âmago de cada um que se decida, sincera e persistentemente, a enfrentar esse ferrenho combate, aí estarão todas as respostas. Estejais certos, amigos, aí, aqui ou em qualquer lugar. estaremos lado-a-lado, rogando à Suprema Providência que vos fortaleça, na incessante cata de soluções, sem olvidar que há uma só bússola para encontrá-las: o Evangelho prático! Portanto, soltemos as amarras da materialidade e icemos as velas da boa-vontade, em busca de sermos amor... sem esmorecer... sem desistir! Muita paz a todos, é o desejo do amigo e irmão, Luiz Sérgio de Carvalho (Mensagem psicografada em 3o/5/2ooo, no encerramento do livro.)

O fim,foi por onde comecei... Tentei na vida escrever minha trajetória, fazendo-o com o giz da matéria ou com os pedaços de tijolos do meu orgulho irreverente. Esqueci como os verd adeiros artistas de Deus, escreveram suas histórias. Suas obras foram traçadas pela habilidade da caridade, o verniz do amor e a tinta indelével da experiência, nas telas das vidas, em constante ascensão para a perfeição eterna. Caminhávamos entre inúmeros corpos inertes e sepultados de pessoas. Vi inú meros, muitos deles ladeados por seus ocupantes de outrora, os espíritos, que já nem se davam conta de que não mais pertenciam à matéria. Nosso destino era certo. Estávamos à procura de alguém. Fôramos instruídos para termos cautela, acurando a visão, o que era dificílimo em meio à den sa bruma que se formava. Em breves minutos chegamos ao destino, um imenso cemitério. Já não basta

sse o aspecto lúgubre das lápides, que mais se assemelhavam a guetos, pu demos denotar o canto forte, entremeado pelas emoções e choros descon-certantes de muitos. Súbito, nos deparamos com jovens, adultos e velhos, irmanados num só sent imento: o pesar. Lamentavam o trespasse de alguém ilustre e querido. Perguntei ao meu instrutor: Saulo, o que viemos fazer aqui? Por que nos foi indicada tal incursão nesta s paragens? Prestimoso e impassível, o amigo asseverou: Viemos libertar alguém. Um dos nossos... Um dos nossos precisa ser liberto? inquiri. Sim. E por que não poderia? Não somos, por ventura, infalíveis.. somos? Assim pensei. Saulo esboçou um sorriso breve, tocando-me levemente no ombro, para torna r à seriedade costumeira. Espírito adiantado, estávamos nós a segui-lo em aprendizado. Seria muito útil nossa ida àquela estação do último adeus, para os encarnados. Di sso nos instruíram antes de sairmos do nosso posto. Mas, quem é essa pessoa que está sendo enterrada, Saulo? -- Irrequieto e curioso como um camundongo, apressei-me em saber o que o corria, à revelia de meu conhecimento de mero aprendiz. Enterrado não; cremado! Por hora, urge que façamos silêncio mental, subst ituindo nossas atitudes íntimas pelo mais absoluto condicionamento da prec e edificante. Temos que transpor uma barreira viciosa, virulenta e caudalosa, até chegarm os ao nosso destino. Por minutos, tentei desvencilhar-me da curiosidade, o que atrapalhou, sobr emaneira, o equilíbrio psíquico que o momento exigia. Vendo-me desconcertado, Saulo pôs sua destra, já luminescente, em minha fronte, enregelando meu universo mental. Acalmei-me, para só então poder desferir pensamentos mais tênues e seguros. Só pensava em Jesus e na amada Maria Santíssima, p or quem tinha enorme devoção, desde as lides carnais. Mais alguns instantes decorridos, ingressávamos em uma sala que, para nós, parecia um castelo medieval. Interessante verificar aquela sobreposição d e imagens das paredes materiais, contrapostas por camadas mais sutis de nossa dimensão, à imitação de pedras. Era mesmo um castelo! Vieram até nós dois guardiães, conhecidos de Saulo. Esses o cumprimentar am. Fizemos o possível, Saulo. disse um deles. Agora é com vocês...! Que Deus

os ilumine e fortaleça. Saulo, serenamente, convidou-nos à prece concentrada e sin Muita pessoas encarnadas permaneciam do lado de fora do ambiente em que estáva mos. Não raro, eram ouvidos gritos dentre a multidão, como se tivessem p erdido para sempre algum parente muito caro. No interior do lugar em que nos postávamos, momentaneamente em prece, havia poucos encarnados, mas uma considerável aglomeração de desencarn ados das mais variadas formas e estirpes, uns, mais hediondos, saracoteavam em danças sensuais, bailando ao som dos hinos entoados pelos demais. Comemoravam e brandiam impropérios, pilhérias ou palavras desconexas. Não podendo me deter em maiores observações, inic iamos a tarefa que nos havia sido confiada. Saulo chamou Raul, nosso orientador imediato, perito em desencames oriun dos de doenças terminais. Raul, faz-se necessário que penetremos na câmara crematória para efetuar o desligamento do moço. Decerto, Saulo. Foi para isso que viemos. Contudo, ressalto, o ambiente est á horrível. Sinto inúmeras noures* contrárias ao nosso intento. É como se v iessem de muito longe., fora daqui. Sabemos, meu filho. Contudo, confiemos na Providência Divina que nos trou xe até aqui e, certamente, nos fará triunfar. Assegurou o impoluto guia. Sem demora, Raul, juntamente com Luzia, uma especialista em cirurgia at ômica e sedação energética, aproximaram-se daquele a quem viemos resgat ar. Seguimo-los em prece contínua. Já ladeando o esquife, onde jazia o corpo e o espírito de nosso resgatando, para minha surpresa pude ver quem era. Assustei-me, e teria me desequilibr ado dado à visão do recém-desencarnado, se não fosse o concurso dos demais companheir os, face à minha inexperiência de neófito em tais trabalhos. Jesus Cristo! Mas, é o R.. R..! Sim, ele mesmo! Garantiu-me Raul. Todavia, seu espanto em nada o ajudar á. Mais mal lhe fará do que bem. Renove-se, equilibrando sua mente, pois somente a nossa retidão de propósitos será o passaporte desta criatura para outras paragens de sossego e refazimen to. Esclareceu-me, sensato. Perdoem-me! proferi acanhadamente. Refiz-me e, para minha surpresa maior, o invólucro mortuário já estava sen

do colocado no forno crematório. Vão queimá-lo...? inquiri sussurrando. Mantenha-se calmo! Lembre-se do Mestre, conserve a prece! Atalhou Már io, um outro companheiro. Algum tempo depois, abriram-se os gases iniciando-se a combustão na forna lha. Meu Deus! supliquei em pensamento ajudai-nos a conseguirmos tirá-lo daí ! Não desejo que sofra. Só pensava no seu bem-estar. Queria-lhe muito bem. Adorava suas músicas quando em vida. Não queria que sofresse, assim como nunca suportei ver n inguém sofrer. Imaginava que sendo queimado, seu espírito sentiria os reflexos por estar ligado ao c orpo de carne, mas, relevando esses detalhes temerosos de minha mentalidade ainda tão arraigada à terra, abandonei tal atitude para rogar ao Pai Todo-Poderoso por ele. Decorridos alguns instantes, sentimos uma forte torrente energética invadir o ambiente, sem que eu soubesse a origem. Segundo minha crença pessoal, pareceu-me que somente Saulo tinha a absolu ta certeza de que teríamos êxito. Repentinamente, outra condensação de energia balsamizante envolveu toda a câmara crematória, espraiando tons esverdeados. Não demorou muito. Saulo, Raul e Luzia trouxeram o combalido espírito, co nhecido de muitos, detestado por alguns, amado pela maioria. Como eu fiquei feliz! O moço estava envolvido por uma nuvem gasosa e pardacenta, tal qual um i nvólucro protetor, um campo de forças. Pronto, meus amigos. Conseguimos! Dora em diante, agradeçamos ao Senhor da Vida, que nos permitiu retirar do sofrimento alma tão cara aos encarn ados e aos nossos propósitos, falida, mas merecedora de nossa atenção por atos de outrora. Saulo, contagiado pela felicidade, pediu a Raul para fazer a prece de agrad ecimento pelo objetivo alcançado. Deus, nosso Pai... amor e vida. Elevamos hosanas à vossa bondade infinita , sem a qual seríamos apenas marionetes num teatro de sortilégios. Vosso a mor preciso e justo, faz-nos crer que somos todos eleitos, sem discriminações, bastando para tanto que nos coloc uemos à mercê de vossa misericórdia, por interméd io dos atos dignos e elevados. Vede a condição de nosso querido irmão de tantas lutas, perdoando-lhe os erros e, quiçá, devolvendo-lhe a oportunidade de reapren der na escola

da vida, a engatinhar ao vosso rumo, como criança espiritual que ainda so mos todos. Fazei com que creiamos mais ainda em vossos desígnios, onde pr evalecem o perdão, a magnitude do amor, a interação com o cosmo do bem, a virtude imorredour a, que nos propicia a vossa paciência eterna. Obrigado, Senhor, muito obr igado! Admirado com a atitude do irmão e amigo, vi Raul resplandecer com luz, qu e nos envolvia a todos. Em breve, volitamos* para local distante do sítio de despedidas, conduzindo o nosso assistido. Graças a Deus! Um aprendiz de mensageiro. Nota do Médium (N.M.) Volitação Mecanismo de locomoção do espírito libert o la matéria. Ato de elevarse, percorrendo distâncias. O livro dos meus dias Algum dia, eu falei que iria escrever um livro quando tivesse mais idade. A s circunstâncias me fizeram mudar de idéia, e muitos me ajudaram nisso. Não reparem, a gente sempre pode mudar nossos rumos. R.R. Naqueles instantes fatídicos, se antes via aqueles a quem amava, deixei de vê-los. Meus olhos ceifaram-se e eu me sentia cada vez mais só. Seria mais uma noite de sono, à custa de drogas que me inebriavam o corpo, drogas que nunca me tornaram mais feliz, mas sim, dependente do carinho daqueles que me ama vam verdadeiramente. Adormecido, entreguei-me aos braços de Morfeu, O silêncio se fez e nada mais pude enxergar do quarto onde me encontrava. Tudo parecia calmo, mas em meu íntimo, uma fiel sensação de intranqüilida de, inquietação e medo. As dores haviam cessado. Lógico, iria dormir! pensava. O enfermeiro aplicou algum calmante Calculei. Certamente, era o seu efeito. Insistia em manter-me acordado e pensar no que fizera de minha vida. Vivi-a . Interessante; eu achava que dormia, talvez sonhava, não sabia ao certo. A única certeza que tinha ó que iria descansar. Uma voz. Escutei uma voz, a título de sussurro. Longe, muito longe. Não conseguindo distinguir os termos e expressões.

Deve ser o meu médico.., enfermeiros, ou quem sabe, papai...! calculei em pensamento. Passei a sonhar em furor com cenas de minha vida, intercaladas com inúmera s imagens desconexas. Filmes? Havia assistido a muitos. Scorcese, Pasollin i, Bertolucci, Fellini, De Palma.., todos! Assisti. O cinema...! Que maravilha! Amara-o. A expressão do homem comum, a criatividade, o pensamento. E essas imagen s dagora? retratos da vida? Minha vida...? sim, . . .minha vida. tudo passava em minha telinha íntima, meu home theather. Que filme rápido! Alta rotatividade... mas, eu compreendo tudo. O ator principal era eu. Que engraçado! Eu, ator? Nunca fui bom ator. Pess oas amadas, pessoas detestadas. Odiadas... Não posso ser o ator de mim me smo, eu escrevi as peças. Sou o regente, o produtor dos atos, o criador deles., ator não! Olha só, estou vestido em roupas engraçadas! Não é meu jeans, nem minha camiseta usual. Não gosto de roupas assim. São gozadas. Dariam uma boa capa de CD. Um pretório romano? Sim, eu sou um deles... Um cavaleiro! Que garbo. Que imponência! Homem lindo, escudo fantástico! Levanta o elmo. Jesus! Ele sou eu... o cavaleiro sou eu! Um templário! Sou eu!... Guerra, lutas e morticínio, e o ator sou eu. Filme esquisito! É mesmo um so nho... ou será um pesadelo? Fogo! Eu estou no fogo... minha carne está ardendo, a dor... a dor incont rolável! Deus! Eu agi em vosso nome, por que estes, que estão à minha volt a querem me queimar? Eu sou um de vossos guerreiros.., não! Não... o que fizeram de min ha carne...? ela queima... cinzas., somente cinzas! Onde está Deus? Que estou dizendo? É só um sonho. Acordarei. Logo mamãe estará aqui. M andei chamá-la. Tenho dinheiro agora e posso mandar buscá-la. Graças a Deus, não há mais fogo. Só cinzas. O que restou do ator... o que restou de mim? Jacques, Geoffrcy, Henry, Somiers... amigos! Que saudade! Onde estarão v ocês? Amo-os todos! Nossa causa não foi perdida. Venceremos um dia. Ah! Que p ena! Mudou a fita. Estou em outro ato. Continuo atuando. Sou o ator nova mente. Mais cenas desconexas. Por favor, querem passar essa fita mais devagar! Mas, que droga de cinema! Vou exigir o meu dinheiro de volta na saída. Recomeçou. Agora creio que vão passar algo decente. Que tal uma fita com

o De Palma? Estou a fim de divertir-me. Nossa! Agora escrevo. Sempre gostei de escrever, letras, peças... Muitas peças. O amor, escrevo sobre ele, sobre a decepção daqueles que o experime ntam, dramas, sofrimento dos seres humanos. Como sofremos! Por que Deus nos deixa sofr er? Retratos de vida., somos nós... sofremos por amor. .. ou será por não saber amar? Quem perguntou isso? O que é então o amor? Estou à procura do amor. Escrevo indecorosidades. Libido exacerbada, dese jo, paixão! Aqueles que leram meus romances... eu os levei a sonhar... qu em não sonha é morto! Mas... eu estou sonhando. Vendo filmes de minha vida. Eu, o ator. Será que estou morto? Tolices, mortos não sonham. Meus amigos... me diziam que vivemos. Sonhos são expansões da alma. Besteira! Meus amigos lêem tolices demais. Li muito sobre isso... mas, são tolices! Coisas de futurólogos, visionários, profetas. Jesus era um profeta. .. Temo que meus amigos tenham razão. Não digo isso pra muitas pessoas. Isso não é hora para falar dessas coisas. O filme continua e o espetáculo não pode par ar. Por favor não me atrapalhem! Novamente escrevo. Dramas, pitadas de romance, textos picantes, sensualid ade, o amor indiscriminado. Amar não depende de sexo, cor, credo, raça, convicção política... nada! Am ar é amar, e pronto! Ouço vozes. Agora o meu filme tem trilha sonora. Mel horou. Muitas vozes. Jovens! Que beleza, cantam as minhas músicas, mas o filme não cessa. Que insanida de! Estarei louco? Recomeçou. Uma bela mulher. Amo-a; ela me ama, fugimos... estou apaixonado. Reenco ntrei o meu amor. Escândalos! Superaremos isso, meu amor. Estarei contigo além da eternidade, se ela exis tir, meu amor! - O que digo? Eu sinto que ela existe. Eu acredito intima- mente que existe. Estou morrendo novamente. A tosse que não cessa, o sangue que escorre. Não me deixa morrer, meu amor! Tudo se apagou. Onde estão os meus livros? Escrevi-os. Guardem meus artigos! Será que es crevi meu testamento...? O que estou dizendo?. Ah! Que bom! Já não estou mais morto, agora estou no papel de umjovem, bonito, 17 ou talvez, 18 anos. Meu pai e eu conversamos e ele me passa u m encargo:

Lute, filho meu, lute! Salve a nossa pátria do Fascismo. É a besta do apocali pse! Lute! A guerra, a besta do apocalipse. Foi o Fascismo e o Nazismo! Meu pai tinha razão, eles vão destruir o mundo. Não permitirei. Sou jovem, tenho forças e inteligência. Sei ler e escrever. Alistar-me-ei no exército. Meu pai me proíbe. O exérci to é do Duce Fascista maldito! Abaixo o Duce! Morte ao infame! Meus pais! São feitos prisioneiros dos Nazistas. .. Irmãs violentadas, irmã os mortos; Fuzilados! Odeio o Fascismo! Enviados da morte., bestas! Sou um cavaleiro também. Vou lutar pela honra do meus país. Tomazzo,jovem e forte, meu amigo de infância, veio lutar comigo. Amigo mio! Faremos um bom par de soldados pela liberdade. Tomazzo, figlio de D io! Lindo e formoso. Ele me ama. Estou apaixonado. Lutaremos lado a lado, at é a morte! Não! Tomazzo, tenha cuidado! Não vá por aí... ! Pai, cui El morreu. Morremos. Foi embora...! Tomazzo se foi. A razão de meu viver. E essa música que não para! Já cantei muito para vocês, agora me deixem e m paz! Quero assistir a meus filmes, sossegado! Estou com febre novamente, sinto meu corpo arder. Preciso de medicamentos! Chamem papai! Me injetem algo! Nã o posso ter convulsões. Eu preciso voltar ao estúdio. Meus amigos me esperam. Meus projetos não p odem parar. Me deixem em paz! . . .no momento, quero assistir às minhas f itas. Agora eu sou eu mesmo. Sinto muito, mas não posso deixar de ser assim. Pen so, falo e rio, brinco e amo. Sou assim, um ser ambulante, o vil metal, a p edra bruta e cantar é o que sei fazer. Não queiram que eu seja diferente. Eu os amo! M eus pais... adoro esse lugar... Os meus amigos preferem ser tolos, eu não. Quero ser alguém, ser amado, gosto da vida. Ah! Eu odeio esse colégio! Esses tolos me escar necem, só porque sou diferente! Vou escrever novamente. Quem sabe algum d ia seja um jornalista. Tenho que mudar a cabeça desse país de hipócritas! Tenho que mudar o mun do!!! Não suporto essa palhaçada... fazem o povo de escravos! Eu não sou um fantoche! Me entendem? Tenho cabeça, inteligência para pens ar e disposição para o trabalho. Já escrevi ao mundo antes e o mundo me a ceitou. Agora, vou cantar para ele. Me aceitarão novamente. Sinto-me um excluído, um pária social, um abortado! Plugo

o meu violão e faço um som, é assim que viverei: fazendo música! Vocês me excluíram, mas eu me vingo. São os Fascistas que querem o poder. Aqui também... aqui é o Brasil... o país do futuro. Mas eu me vingo., cantar será minha forma de dar o troco! Li isso em algum lugar. Tenho lido muita coisa. Vou compor. Sou diferent e dos outros amigos. Eles adoram falar de garotas. Mas, eu procuro alguém . Esse alguém não está nelas. Um amor. Bem que eu tento amar. Mamãe, sou diferente! Não me forcem a barra! Não briguem comigo. Estou em busca de algo: o amor, não importa de onde ele venha, não me interess a em quem vou encontrá-lo. Sou um ariano, sacam? Vejo os palcos. Luzes, câmeras... muita ação! Novamente sou ator de mim, . . .agora sou eu. Canto, danço, as pessoas aplaudem, dado! Não...! riem, pulam, se embriagam, é a maravilha da arte. São lindos! Juventude ma ravilhosa, fantástica geração que ainda ingere enlatados americanos. Você s são a esperança do país. Não deixem que eles afoguem os seus sonhos! Permitam -se ir e vir, livremente. Deixem que o amor penetre em suas entranhas. Amem-se. Me amem! Vocês precisam me amar... Meus amigos... meu amor... e essa maldita febre que não passa! Por favor, me dêem uma luz aqui! Está ficando escuro demais. Estou tonto. Onde está você, ‘papai? Ah! Finalmente, estão me remexendo. Sinto agora que me levam para algum lugar. Talvez para o hospital. Acho que tive uma recaída. Mas, que dro ga! Acabou o filme. Está tudo tão escuro! Eu bem que imaginei que a sobrecarga energét ica de uma cidade como o Rio iria provocar um black out. O calor está aum entando! Alguém me chama: Ruggeri! Ruggeri! Meu filho... acorde... venha comigo. Precisamos sair da qui. Já não podes mais ficar. Acorde, meu filho, vem comigo! Conheço essa voz. É a mesma que falava comigo nas horas mais dificeis, na hora de compor minhas canções, nas fossas... Sim, sei quem você é. É minha mente que fala comigo? Ruggeri, precisas ver o mar. Gostas tanto dele. Para amainar tua febre, ten s que vir comigo. Vamos à praia? Sim, quero ir à praia, o ar marinho me fará bem. Tudo se apagou em definitivo. Não vejo mais nada, como se tivesse deixado d e existir...

oOo Isso foi no princípio, ou no recomeço da minha caminhada. Entreguei-me à v ida ou à falta dela. Permiti me deixar escorrer pela sarjeta da doença, qu e me carcomeu a vontade de prosseguir, mas esse não foi o principal motivo. O monstro d o desânimo cresceu, tomou forma, até me dominar completamente. E eu que j ulgava ter forças, que me achava imbatível, sucumbi. Assim o permiti. Estava cansado de viver. Literalmente, desisti. O destemido e irreverente vocalista, entregou-se aos inimigos: à inércia e à falta de fé. A Estação dos Jasmins Shangri-la, Xanadu, Canaã, Éden... tudo é verdade! Epor que não? Eu estou n um paraíso, onde se vive, se trabalha, se respira, pois todos se respeitam. O preço: boa-vontade, caridade, tolerância, paciência, reforma interior. Mas, ainda não é o céu... esse é mais longe. Alguns se questionam: Como pode um devasso alcançar o paraíso? Meus ami gos, o paraíso estará onde nos sentirmos felizes., e eu não sou um devas so. Cometi alguns erros, que algum dia os resgatareL Há quem imagine que devamos resgatar tudo pela dor. Percebi que não posso carregar opeso da cruz, daqueles que sentem, no masoquismo, a razão de suas trajetórias. Eu prefiro resgatar me us débitos pelo amor que estou aprendendo a sentir R.R. Sem que me desse conta do espaço ou do tempo avançado, eis que recordo terem me levado a um lugarzinho aconchegante, parecido com um pequeno s ítio em meio a densa camada de nuvens escuras. Um lugar bastante arborizado, que me fez lembra r Brasília e suas avenidas largas. Contava com uma casa avarandada, típic a de fazendolas, ladeada por imensos e fartos jardins. Em frente à mesma, uma única fonte jorrava água límpida em abundância. Estava péssimo, tonto, com náuseas constantes e muita febre. Parecera hav er acordado de um pesadelo. Inúmeras pessoas trajadas com vestimentas de fino tecido, mas de muita si

mplicidade, iam e vinham. Algumas, ou quase todas que me olhavam surpresas, sorriam ou aplaudiam, parecendo me conhecere m. Oi, Ruggeri, tudo legal? disse-me uma linda jovenzinha de cabelos longos, estou muito feliz por você estar de volta. Espero que goste da estadia. E nviou-me uma beijoca. Olhei-a atônito, apesar de estranhos, me pareciam familiares, exalavam fel icidade e eu não me sentia assim. Em contrário, encontrava-me conturbado, cheio de dúvidas, além da horrível sensação de degradação fisica. Me conhecem devido à fama! É só isso... Imaginei. À medida que ingressávamos mais naquele lugar, pude notar que estava envol to numa espécie de cúpula, interligada a aparelhos, por onde respirava-se ar puro, coisa que há muito não o fazia muito bem. Era um casulo maleável, moldava o meu corpo em toda a sua extensão, o qual sequer o sentia direito, por encontra r-me entorpecido. Recordei-me de um filme do Jonh Travolta, o menino da bolha. Finalmente, à porta da sede do lugar, três pessoas sorridentes, vieram nos receber, pois além de mim, encapsulado, havia os que me trouxeram. Um deles, o que me pareceu ser o mais maduro, aproximou-se: Bom dia, Ruggeri! O homem não me era estranho. Alto, cabelos grisalhos, usava bigode à ita liana. Um outro, mais moço, também usando um bigodinho, demonstrava bast ante simpatia. Esse eu não o vira antes; atinava que já o conhecia. Mas, de onde? Dentre eles , uma senhora muito bonita, aparentando um 5o anos, tez limpa, quase sem r ugas, contemplava-me com lágrimas no rosto. O baixinho, mais moço, veio até mim e disse: Salve! Quanta satisfação em vê-lo. Nós o esperávamos ansiosos. Fico muito f eliz. Meu ídolo está aqui. Mais tarde, certamente, pedirei um autógrafo a v ocê. brincou. Os que estavam em derredor bateram palmas. Confesso que não os entendi. Eu era um doente, não estava nos palcos, sequer podia cantar para eles, aque la patota de gente feliz. Impotente estava, apesar de tanto calor humano. Chorei. O mais velho deles arrematou: Figlio mio, que Deus te abençoe! Sabemos que tuas lágrimas são de incompr eensão. Talvez não entendas o que se passa contigo, a doença, a perda da v ida, a falta

dos familiares e amigos, dos amores... talvez, sequer calcules a importância que tens para nós e par a muitos. Quiseste o amor. Procuraste. Mas, ele sempre esteve contigo, sem que fosse necessário ir até os confins do mundo para encontrá-lo. Quanto pedimos por ti. O homem choramingava comigo. Arrematou: Pensas: quem sou eu? Quem são es ses que me acolhem? Que lugar mais maluco de gente simpática...! Mas, todos somos amigos, irm ãos, filhos de Deus. Do Deus que distribuiu o amor pelo universo, que depositou a semente dessa virtude em cada um de nós. Por isso, incessantemente, O buscamos. Queremos ser iguais a Ele qu e nos criou: o amor. Sinta-te em casa figlio, este é o teu lar! Só pedimos que não te deix es arrastar por pensamentos negativos de degradação, desamparo ou de autofl agelação. Isso já passou! Doravante, é seguir em frente, continuando a tarefa que foi c restada pela própria inércia, diante da vida que te sorria. Aproveita a oport unidade para prosseguir, sem olhar para trás. E quando menos esperar, verás que o am or se instalou em ti. O amor não está nas pessoas, não está restrito ao cora ção ou ao desejo, não se confunde com o sentimento entre criaturas, que é limitado. É a mplo, genérico, universal, divisível, tolerante, paciente, supera a tudo e a todas as situações adversas, perdoa, tudo crê, tudo faz, tudo suporta... lembra de tu as letras? Tu o disseste através de tuas canções. Só não soubeste como prati cá-lo, como senti-lo em sua inteireza. A essa altura da explanação eujá estava perdido em copiosas lágrimas, perp lexo diante das palavras daquele homem tão bonito. De sua boca parecia jor rar luz; igualmente do seu peito. E eu só pude chorar. Não desgastes tuas energias, que estão escassas, com aflições. Tudo o que c onseguires reunir, doravante, será de vital importância ao teu restabelecime nto. Urge, por agora, que compreendas que és necessitado de cuidados, de refazimento e para isso estamos aqui. Dispõe de todos nós. Não calculas o quanto foste ajudado. Não te preocupes com teus pais, amigos, protestos... isso ficou no mundo. Repousa. A estrada à tua frente é novo caminho à redenção das lições esquec idas. Se antes buscavas a melhoria do teu povo, numa luta desigual contra a injustiça

e a tola vaidade dos poderes da terra, em diante, terás que arregimentar novos amigos, pela compreensão de que só poderemos mudar o mundo através da concórdia, da retidão de sentimentos, do esclarecimento e da reforma interior. Nisso, estaremos sempre unidos. Formamos uma imensa legião de afinizados com o bem. Oramos muito por ti, Ruggeri. Tens muitos amigos, dado à tua limpidez de expressão, si nceridade e determinação. Teu idealismo é também o nosso, muito embora tr abalhemos com outras armas, mas hoje, por mercê Daquele que nos assiste, podemos compartilhar o reencontro neste oásis de paz. Estás na Estação dos Jasmins, ao norte do Rio de Janeiro. Chamo-me Donato. Este aqui é o Luiz Sérgio, e esta é a adorável Amália. O baixinho interveio apertando-me a mão. Muito prazer, cara, sou seu fã! De vez em quando, tento dedilhar em minh a viola algumas de suas canções. Já prometi a mim mesmo e aos amigos que faria um curso, para executar bem o meu instrumento, só que não me restou tempo ainda. Há sempre muito trabalho a fazer. Eu chego lá! Sorri para ele. Sujeito espirituoso. Amália apresentou-me àqueles que me trouxeram. Ruggeri, este é Saulo, o instrutor da pequena expedição que o trouxe. Raul , é especialista em desligamentos. Suas e Caio o ajudaram como auxiliares. Esta é Luzia, técnica em anestesiologista fluídica, que o manteve mais ou menos livre do sofrimento. Pisquei-lhe o olho e ela retribuiu-me com um cálido sorriso. Ingressamos todos na casa. Donato me olhava enternecido. Quem seria ele? imaginava. Curioso, apesar de pequena vista de fora, seu interior assemelhava-se a imen so hospital, cheio de corredores, salas, luzes e muita gente transitando. Ve io à mente um filme a que assistira há tempos. Tinha uma casa assim. Era grande por fora, mas quem nela entrava parecia haver ingressado em outras dimensões. Mais adiante, Suas e Caio transpuseram-me para uma maca, conectando mais alguns tubos a um aparelho tipo hospitalar, que in fioucom um gás tênue e inodoro. Deduzi ser oxigênio puro. Enquanto isso, Amál ia preparava uma banheira, similar às de hidromassagem, entornando líquid os de diversas cores, que escorriam por pequeninas tubulações, até se misturarem, quando o líquido, então, tornava-se violáceo. Por favor, tragam-no. Coloquem-no na man-jedoura, levemente, assim chamo u Amália o repositório onde eu iria ficar, solicitando aos que operaciona

lizavam com ela. Senti um pouco de medo, embora, aos poucos, me enchesse de confianç a. Não acreditava que eles pudessem me fazer qualquer mal. Depositaram-m e lentamente, e à medida que fui submergindo, a gelidez da seiva me causou inquietação, pelo contato do líquido com o plasma tênue da bolha e , por conseguinte, minha pele. Destarte a sensação de desconforto, quando Amália abriu uma pequena torneirinha, deixando escoar o que me pareceu éter, por incolor e de cheiro forte, o que era até então desagradável, foi substituído por indizív el sensação de paz. Adormeci, então, mas conservava a consciência. Sabia que estava vivo. Afi nal, eu estava pensando. Idêntica sensação quando se dorme após um farto almoço, pesado, profundo, mas é como se estivesse acordado. Num torpor indefinível, fui mantido armazenado na bolha por longo perío do, parecendo estar dormindo, mas percebendo os movimentos dos transeun tes do lugar que, mesmo sem vê-los, ouvia-lhes os murmúrios ao longe e os sons do ambiente. Despertei, tendo à frente alguns dos que me receberam naquele lugar. Bom dia, meu filho! Como te sentes? inquiriu-me Donato, transmitindo-me paz. Similarmente, seguiam-no em idênticos gestos, Amália e Luiz Sérgio. Oi, chapa! Tudo legal? Lembra-se de nós? Somos os astronautas...! falou o rapaz de menor estatura. Amália acariciou-me a fronte por sobre a fibra da bolha. Chamou uma enfer meira e pediu que me fizesse uma espécie de limpeza. Após me retirar pacientemente do envoltório, eu me encontrava recoberto por um muco tênue, semelhante aos que se vêem nos bebês, após os partos. Quis esboçar algum questionamento, embora não pude sse, face a um tubo inserto na cavidade bucal, quando Luiz Sérgio atalhou -me: Ah, não, não! Ainda é cedo para falar algo. Primeiro, necessitamos levá-lo a um especialista no assunto. Você ainda traz seqüelas de sua estadia terren a. Estadia terrena? indaguei mentalmente. Parecendo ler os meus pensamentos, Donato me tirou dúvidas. Ruggeri, é preciso que saibas de tudo como aconteceu. Há oito meses terre nos atrás, chegaste a esta Estação que nada mais é do que um posto de eme rgência avançado. Em tuas indagações mentais percebi tua apreensão e questionamentos. Não se

turbe o teu íntimo. Aos poucos tudo será esclarecido. Por que me transferiram de hospital? Será que a conta não foi paga? Posso r eclamar junto a meus parentes. Papai pode fazê-lo...! Indaguei, tentando m e expressar com os órgãos da fala. Calma! Tudo a seu tempo. As impressões da doença e do desgaste fisico ai nda lhe inibem as possibilidades de movimentação normal. Amália, prosseguiu: Meu querido, aqui tivemos a honra de recebê-lo. Na realidade você foi tran sferido, não só de hospital, mas de plano de vida. A Estação dos Jasmins nã o é na Terra, e sim no plano espiritual, ou seja, do outro lado da vida, como falam os enc arnados. Senti um choque! Então eu já partira do mundo e não soubera?! Comecei a inquietar-me e me debater na cama em que me acondicionaram. Amália, pe rcebendo-me o desespero, colocou a mão direita, que mais parecia uma pluma de algodão, sobre minha fronte, trazendo-me paz. Aos poucos fui relaxando. Sejá havia feito a pass agem, não haveria motivos para inconformações. Obrigado. Você é um doce. Você também! respondeu-me. Estava confuso quanto àquele tipo de comunicação. Eles me ouviam o pensa mento, muito embora os visse falar. Seriam extraterrestres? Calculei. Ruggeri, hora de fazer um pequeno passeio. Disse-me Luiz. Colocaram-me em uma cadeira que não tinha rodas, mas que deslizava. Coisa semelhante só vira em filmes de ficção científica. Luiz Sérgio empurrava a cadeira, ladeado por Donato. Conversava abertamen te, mostrando-me as belezas daquele oásis de paz. Vi muitos jovens e cria nças brincando; até mesmo animais. Era belo! Adorava crianças. Mais adiante, chegamos a um lugarzinho fantástico. Um campo de flores da s mais variadas cores, exalava perfumes desconhecidos que me preenchiam a alma, e o vento cálido percorria levemente por todo o lugar. Um carinho da natureza! Dava pa ra perceber que eu tinha corpo, eu o via e a brisa o tocava. - Vê como é bela misericórdia de Deus, meu filho? Expressou-se Donato, enquanto eu me detinha em imaginar se estaria mesmo morto. Ei, amigo, não pense bobagens, ok? Tem muita coisa bela aqui para se ver. Se pensas que está morto, como ser inteligente que é, comece a pensar: por

que será que estou aqui, vendo essas coisas, se estivesse realmente morto? Acalme-se ! Você agora está no lugar de Sócrates. Naquela época, na Grécia, ele prete ndia chegar ao outro lado da vida, para poder provar aos outros aquilo que ele pregava. alertou-me, Luiz Sérgio. Como percebera que podia conversar com ambos pelo pensamento, pois não h avia sido retirado o tubo que me impedia de gesticular a mandíbula, cont inuei em minhas divagações interrogativas. Quer dizer que realmente, estou no além? Está. Só precisa refazer-se e acreditar que suas capacidades e aptidões não foram perdidas, pelo fato do trespasse de uma dimensão para outra. Como assim? O que fazia antes de vir para cá? questionou-me. Cantava, dançava, compunha, fazia rockandroll... amava... E por que acredita que não pode mais fazer isso? Vocês disseram sutilmente que morri.., isso é tudo? Creio que não, Ruggeri. Se fosse tudo, não estaríamos com você aqui. Exist em milhares de pessoas que partem da terra todos os dias, enquanto inúmero s nela reingressam. Dentre esses milhares ou milhões, existem aqueles que acreditam que são al guma coisa ou querem ser. Ao contrário, você quis deixar de ser alguma coi sa. Se permitiu cair no vazio da incerteza, da descrença, do abandono de si mesmo, Niilica mente* ...coisas que sempre combateu na vida terrena. Já pensou o que acha riam de você agora, vendo-o neste estado, porque você mesmo assim o quer? O que perceb emos, amigo, é que por auto-piedade, crê ser um derrotado, a pior pessoa do mundo, um falido, um marginalizado, sem crédito para que o amem... Confesso que fiquei indignado com a explanação do homenzinho. Quem seria ele para dizer o que fui e o que não fui, ou que poderia deixar de ser? E ra dono de mim, tinha o meu próprio caminho, não aceitava que me dissessem o que deveria s aber, porque eu era eu. Filho. Até quando vai se deixar conduzir pelas torrentes do orgulho destr uidor? Quanto lutamos por você! Quanto procurei alertá -lo Agora, tem a op ortunidade de refazer-se para a vida, dando continuidade aos projetos dantes abandonados. Eu não pedi para que ninguém me socorresse! Nem sei nem quem você é..

. não preciso de ninguém, ouviram? Não preciso de ninguém! Deixem-me e m paz! Quero minha família de volta, meu filho, meus amigos e parentes... minha vida ! Descontrolei-me por completo. Enervei-me a ponto de tudo à minha volta transformar-se em ambiente fumegante e nevoento. Aqueles que antes me l adeavam, não mais os vi. Onde foram todos? E a estância, por que desapareceu? Amália, onde esta ria? Ingressei numa espécie de turbilhão, similar ao centro de um furacão, onde tudo era um caos desconcertante. Fiquei estonteado e perdi a noção de tempo e espaço. Donato? Luiz... Amália, Luzia, onde vocês estão? Vociferei desesperado, pois o tubo já não estava mais em minha boca. * N.M. Nililcainente: palavra derivada de Niilismo. Niilismo Doutrina se gundo a qual nada existe de absoluto. Descrença absoluta. Redução ao nada . Aniquilamento total. Minha voz ecoou e, então, pude sentir que alguém se aproximava à minha re taguarda; passos pesados, entrecortados por risadas medonhas. Olhem só quem está de volta., não acredito! O chefe vai adorar saber disso. Volvendo-me, para saber quem eram os emissores das gargalhadas estentóricas , divisei seres estranhos, esfarrapados, de carantonhas terríficas, alguns até desfigurados. Monstruosos! Um calafrio percorreu minha espinha. Comecei a perceber que readquirira algumas de minhas funções fisicas, antes inertes. Não pude me mover como pretendia. Na verdade, a vontade era correr dali, mas só consegui me arrastar, deficien temente. Onde vai o nosso ídolo? Disse um dos macabros seres. - Quem são vocês? O que querem de mim?... deixem-me em paz! manifesteime meio tatibitate. Calma, cara! Não vamos te fazer mal. Só queremos curtir rock, saca? Você vai fazer um show para nós e de graça, entendeu? falou-me o mais imponent e deles. Se querem curtir rock, procurem algum metaleiro, pois eu não canto heavy-metal. Não se preocupe, cara, você faz o show e nós te liberamos. intercedeu um deles que se assemelhava a um cadáver mumificado. Saiam daqui! Me deixem em paz! Muito engraçado, cara! Você foge de nós, nos abandona por aqueles emplum adinhos da luz e agora que está aqui de volta, demonstrando que nos ador a também, quer fugir

novamente? Nem pensar! Você é nosso! Não sou de ninguém! Quero que me libertem já! . . .tenho vontade própria e não dependo de vocês para nada! É isso que você não percebe, meu! Teu orgulho é nosso alimento. Bem que p recisas de nós. Se não fosse por nossa turma, você estaria numa fuma agor a. arrematou o mais degradante deles. Mais uma vez estava confuso. Por que num momento estava em ambiente de tr anqüilidade, de imorredoura paz e, noutro instante, via-me atado àquele l ugar infernal, escuro, lodoso e frio, habitado por criaturas bestiais? Fui conduzido por eles a uma metrópole tenebrosa, assemelhada a uma cidad e, com casas, apartamentos, tudo de uma agitação desconcertante. Mulheres , crianças, velhos, rapazes, se debatiam numa babel sem limites. Orgias diversas em plena rua , bebedeiras, inúmeros pares em conjunção amorosa, verdadeira Broadway do s infernos. Para minha surpresa, chegamos a um teatro muito grande, iluminado por tochas e cercado de fumarolas que exalavam um odor fétido. No frontispício, eis que estava escrito o meu nome: Grande show com Ruggeri e sua banda. Que loucura! Estaria m esmo ficando louco? Ora, num lugar que era um paraíso; noutro momento, num covil só descrito em narrativas dantescas. Rompera os limites da insanidade. Inúmeras pessoas estavam à frente da construção negra, e quando me viram bateram palmas, agitando pedaços de paus. Outros, com lu mes acesos, uivavam numa coreografia impressionante, i guisa de selvagen s. Alguns se drogavam, outros brigavam entre si. Meu Deus!, pensei Em que fui me meter?! Tirai-me lesse pesadelo...! No reino underground Quando somos pequenos, temos medo do escuro, de bruxas, do lobisomem, de fantasmas. Devíamos ter medo de nós mesmos, pois somos nós que nos projetamos para baixo. A nossa vontade é uma terrível arma. Mal direcionada, provoca a destruição . Bem orientada, torna-se uma fonte inesgotável de criação e benfazeja. Do ravante, escolho a segunda opção. Todos temos esse direito; o de escolha. R.R. Levaram-me e fui obrigado a cantar para uma multidão que, mais parecendo to rcida futebolística, atirava-me toda sorte de objetos, frutos e até lama. T

oda vez que tentava dizer-lhes de minha indignação, algum malfeitor me cutucava, amea çando atin ‘-me com um porrete cravejado de saliências pontiagudas. Se falardes alguma coisa além de ant panco com isso! Esbravejava o ai z e m tom in Já exausto, um presumível cice: resolveu silenciar. Caros amigos! Conforme havia prometido, trouxe aqui o nosso ídolo Rugger i Rubens. Viram? Promessa é dívida e nessas plagas, aquilo que prometo l evo a cabo. Gostaram do show? Querem mais...? bem, deixemos para a semana que vem. O cara, co mo vêem, não passa muito bem. Parece que a estadia lá na casa do Cordeir o não foi lá essas coisas. Viram, bem que os avisei? Pois bem, teremos hoje mais uma surpres a. Traremos, daqui a algumas horas, um grupo metaleiro. É uma banda de ar raso e vai estremecer tudo por aqui! Além disso, conforme também prometi, virão grupos de vicia dos, dos quais vossas senhorias poderão se banquetear. À medida que aquele homem grotesco ia falando, eu tentava delinear o que r ealmente estava acontecendo. Que estava morto, disso eujá soubera. Deixara a terra e o mundo dos vivos. Mas, se o mundo dos vivos não era ali, qual a necessida de daquele mestre de cerimônias prometer a vinda de terrenos, ou seja, viv os para aquela festa? Isso significava que os supostos vivos da terra poderiam fre qüentar também aquele lugar. Se o podiam, como isso se daria? Minhas elucu brações foram interrompidas por um sujeito alto e feio, vestido com uma espécie de pele de animal, lembrando um Pitecantropus desses que vemos em livros de Histór ia geral. Diz aí, cara...! - cumprimentou-me com uma voz roufenha. Eu te trouxe uma dose de tranquilão. Experimenta só! Saía daqui! Deixe-me em paz! Retruquei alterado, empurrando-o. Estava e njoado e passava mal com o cheiro acre do lugar. O mestre de cerimônias, ao ver a cena, determinou que me retirassem do pa lco e me levassem ao que parecia ser um camarim. Lá chegando, quase desmaiei de susto ao encontrar um famoso vocalista de uma banda paulista. Ruggeri! O que você está fazendo aqui, rapaz? Pensei que você tivesse ido com os caras do Cordeiro. Cordeiro? inquiri. Sim. Foi o que me disseram aqui. Isso gerou uma indignação geral na moçada

. Veja lá o que você apronta! Eles têm leis severas. Por pouca coisa te co nfinariam numa furna-prisão. Lá o sofrimento é grande! Mas, o que você está me dizendo? Que história é essa de furna? E o que faz aqui? Venho sempre. Aqui é meu reduto, somos livres, gosto das badernas que ap rontamos. Além do mais, me adoram, assim como a você. Às vezes sinto até certa inveja, mas não me importo. Tenho os meus ifis também. Quanto às furnas, são lugares de sofrimento onde eles encarceram os recalcitrantes e nervosinhhos. Cuid ado para não provocar a ira de Sodom. - Você não lembra? Vinha aqui de vez em quando...?! Antes de você bater as botas, ele prometeu à galera que o traria para fazer um show. Ele é dono desse lugar horrendo? É o próprio deus daqui. Foi aquele que anunciou o seu show agora há pouco. Tudo passa por sua mãos. Ele promete, ele cumpre! É idolatrado por todos, tem leis justas e as promove através de fiéis servidores. Isso aqui é o underground, meu c aro, o submundo! Pensei que fosse o inferno! Que inferno? Isso aqui é um paraíso! Não percebeu ainda? Temos tudo de qu e precisamos: fama, luxo, mulheres, bebidas, drogas, sexo... tudo! Aqui nã o há limites. Cara, eujá saí disso...! Você é um iludido! Tenta se iludir. Pertence a Sodom! Todos os que amam o vício pertencem a ele. Não pertenço a ninguém! Bradei revoltado. Pertence sim...! bem mais do que você pensa. É tanto que voltou para cá. Difi cil se libertar dos grilhões, amigo, muito dificil... Eu sei que posso me libertar, farei de tudo. Advirto-o: muito cuidado. Por mim, fico de bico calado. Mas, esse lugar te m ouvidos e olhos.., muito cuidado! Me fala mais alguma coisa sobre isso aqui. É bom que você veja com os seus próprios olhos. Mais tarde virá uma banda de metaleiros da crosta, que faz muito sucesso no Brasil e no mundo. É ro ck, meu velho, do bom e do melhor...! E o que isso tem demais? Também fazíamos rock e tenho certeza que da me lhor qualidade. Há gosto ‘prá tudo! Aqui, valem os gostos e Sodom tenta supri-los a todos.

Como gozo de certa liberdade e não preciso ser vigiado, vou te levar para conhecer a cidade. Já vi parte dela... Sodom? Quem é esse sujeito? Nem tudo, nem tudo... O conhecido vocalista, a quem chamarei de Rodes, me levara pelos arrabalde s da cidade fantasmagórica, um reino de toda sorte de desajustes, violênci a, droga e o sexo sem precedentes. Fui conduzido numa espécie de veículo muito pareci do com as motocas da terra, e o meu colega possuía uma. Num certo ponto do trajeto, paramos defronte a uma boate parcamente ilumi nada por archotes medievais. Na entrada, brutamontes escuros faziam a tri agem daqueles que poderiam nela ingressar. Não diferenciava em nada dos inferninhos, tão co stumeiramente conhecidos e freqüentados. Perguntei-lhe: Que lugar é esse? - Você não percebeu ainda? Essa é uma cópia da X.., famosa boate do Rio de Janeiro. Aqui freqüenta a alta roda da society, filhinhos-depapai, dondocas , atores, GLS.., figuras importantes, entende Cara? Mas, isso aqui não chega nem aos pés do que é a tal boate a que se refere. Lógico! Estamos no outro lado da vida, sacou? Afinal, você ainda é vivo? Claro, bicho! Só que à noite a gente dá uma passeadinha, entende? A gente é livre prá ir aonde quiser, daí rola o que sentirmos vontade. Se gosto de be bidas, vou aos bares, se quero um free-base, procuro a galera esperta. Se amo o sexo ô ... o sexo! , venho a essa cidade maravilhosa, saca? Me leva embora daqui. Estou me sentindo mal. IJé, SÓ por que passou um tempinho com os caras do Cordeirojá virou santo , é? Se fosse santo, acredito, não estaria aqui. Sem me dar conta direito do lugar, fiquei apalermado quando vi ao meu lado pessoas conhecidíssimas do meio artístico. Todos me felicitavam por estar naquela. Alguns até se assustaram: Puxa cara, você não havia moi-rido?, diziam, até parec endo que não estavam mortos. Outros me ofereciam bebidas, cigarros e até d rogas de variadas espécies, muitas das quais sequer conhecia. Recusei tudo! Minha vo ntade era sair dali. Não me saíam da mente o sorriso de Amália, a tagarelic e do Luiz e

o olhar aconchegante de Donato. Rodes, me vendo apreensivo e disperso, levou-me para fora. Não se assuste, cara. Você parece que viu fantasma! Para alguns deles, voc ê é um. Relaxa! Arrematou gargalhando. Em que confusão me metera! Um lugar estarrecedor, pessoas degradantes. Al go fizera para merecer aquilo. Não podia crer que, existindo Deus, pudess e Ele permitir tal coisa. Mas o que eu estava dizendo a mim mesmo? Quando em vida atire i-me a desvarios parecidos... o que pensar agora? Quedei-me decepcionado . Chorei. Antes de estar ali, apesar de ter noção pelas leituras, não tinha a certeza e xata de que as coisas seriam assim. Os livros que li, os comentários que ouvi de amigos que acreditavam no além-vida, tudo me parecia algo distante da realidade, p referindo acatar tais conhecimentos como meras conjecturas filosóficas. Ô Ruggeri, vai dar uma de maricas agora, vai? Chorando, meu?! O que voc ê acha que a turma vai pensar de mim, estando ao seu lado? debochou. Eu só quero sair dessa. Me leva embora! Está bem, está bem... seja feita a vossa vontade, majestade! ironizou mais uma vez. Saímos. Mais adiante ele me levou a lugar, essen-cialmente, de homossexuais. Creio que você, agora, vai se sentir em casa. Gracejou Rodes, chacoteando. Que você pensa estar fazendo? Acha que sou palhaço? Por que não respeita minhas limitações? Ué! Você não buscava a tal liberdade de ser quem era? O que tem vir a um lugar com que se afiniza? Sem muitos argumentos, calei-me. No fundo ele tinha razão. Concordei em e ntrar com ele para conhecer o ambiente. Tão grande foi a minha decepção ao ver gente que eu conhecia lá, naquele lu gar. E o que é pior, muitos deles assumindo formas teratóides*. * N.M Teratóide - Semelhante a monstro. Mas, isso aqui é uma espécie de baile à fantasia? Perguntei a Rodes, que ca iu no soalho rolando de tanto rir. Só você para me alegrar, Ruggeri. Claro que não, amigo! Essas são as form as que queremos ter por aqui. Como eu te disse aqui somos quem queremos ser. Existem monstros aqui! Isso é algum filme, sonho ou pesadelo? Não esquenta! Não é pesadelo não. Somos nós, mesmo! Você acha que somo s tão bonitos quanto parecemos? Já experimentou se olhar no espelho? Ante a pergunta dele, senti vontade de ver como estava. Fui conduzido até

um banheiro, onde tudo era ornado com objetos e imagens eróticas. Chegan do ao espelho, me coloquei defronte a ele, vagarosamente, temendo encontrar mais uma de cepção. Confesso que fiquei enojado de minha imagem. Horrivelmente maltrapilho, nariz deformado, veias sanguinolentas à mostra, caquético, cabeça embalo nada, cabelos em desalinho, olheiras profundas e corpo cadavérico, senti pena de mim mesmo . Viu só, cara? Aqui somos quem somos. Só que você não se controla ainda, mas vai aprender. Eu já consegui, portanto, dou a mim a for ma que quiser. Basta não ter pena de si, encarar de frente que você é algué m que pode ser muito feliz, saca? Na verdade, eu sou este aqui... olha! Fiquei observando-o e, após alguns minutos ele metamorfoseara o corpo. A ssistindo à transformação de Rodes, vomitei de nojo. Ele se transmudara em um mitológico fauno, predominando em si a sensualidade. Desmaiei, tamanho o meu estado de debilidade. O teatro de marionetes Foi uma música! No auge de minha acidez de jovem irreverente, ela foi um dos meios de criticar o sistema. Hoje, não critico n ada! Me calo e prefiro só observar Aprende-se muito com isso. tudo era verídico. Qual não seria a minha felicidade, se viesse a ter convicção, naqueles mome ntos, de que tudo aquilo não passara da mais lídima ilusão?! Fui colocado num cubículo escuro e úmido, cujo bolor era insuportável. Falt ando-me ar, respirava com dificuldade. Bati à porta e gritei por socorro. A lguém do lado de fora, disse para me calar ou iria sofrer represálias. Reiterei minha súpl ica e, por fim, resolveram abrir aporta. Fui recebido por um homem muito bru to, que me esmurrou a face por vezes. Calai-te! Quem pensais que sois? Aqui não és melhor do que um verme. Cala i-te! Obedecerás a Sodom. A ele deveis deferência e farás o que ele vos m andar. És escravo, e escravos não têm direito! Entendestes? Diante da reação inusitada do assecla de Sodom, achei prudente não revidar ou falar mais nada. Fui conduzido para o que seria o show esperado da noi te. Tive novas surpresas. A banda que iria

tocar para os infernais, era a mesma famosa entre os vivos. Fazem sucesso na terra e aqui? Meu Deus! Pensei. Senti medo, pois quan do estava na Estação dos Jasmins liam os meus pensamentos. Temia que o f izessem ali também. Falar ou pensar em Deus naquelas paragens era motivo de escárnio. Você tem sorte, cara, muita sorte! intrometeu-se o burlesco soldado de So dom Não é todo mundo que recolhido pelos agentes do Cordeiro, tem a regal ia de escapar de lá, ficando impune por estas bandas, entendeu cara? Meditei sobre o termo que ele disse: escapar? Quem escaparia do Cordeiro e quem seria o Cordeiro? Posso fazer uma pergunta? O que é? . . .Desembucha! Quem é o Cordeiro e por que alguém escaparia dele, como você falou? Levei outra bofetada e o brutamontes me segurou pelas vestes, explicandome em sussurro: Não se pode falar Nele aqui, compreendeu? Mas, eu vou dizer para você. O Cordeiro é o tal Jesus. arrematou cuspindo de lado. Por que o temem? Não faz sentido. Jesus foi exemplo de bem-viver. Qual a razão pela qual alguém fugiria de sua proteção? Melhor que eu tivesse ficado calado. O ser grotesco esmurrou -m mais vezes . Insolente! Quem és para falar em bem-aventuranças? Achais que estamos aqui vivendo para o bem? Não queremos viver no bem, queremos o prazer t otal! Somos donos dos nossos destinos, entendeu? Tu mesmo fugistes dele. Deveis saber o porq uê! Como ousais me perguntar? Sabeis a resposta. Preferistes estar aqui, n ão foi? A opção foi tua!... tua! Berrou. Iria me bater mais, não fosse a interferência de Rodes que se aproximou sin alizando para o meu agressor que, parecendo respeitá -lo afastou-se. Rodes reergueu-me e saímos para distante dali. O que diabos pensa estar fazendo, mano? Sabes quem é ele? perguntou-me. Não faço a menor idéia. Não dou a mínima... É o braço direito de Sodom. Gedar é poderoso! Tem enorme influência por aqui. Abaixo de Sodom, é ele quem manda, por peita... Não o respeitam, . . .o temem! Me parece que você ele resSim, o temem. Ainda bem que me confirmou. Temor não é respeito! aduzi. Temor ou não, você deve se manter calado. Aceite tudo o que te disserem. Quanto a mim, faço as vontades de Sodom, por isso me dá crédito e sou resp

eitado. Ele me falou que sou escravo. É um tolo! Não sou escravo de ninguém! Você é um iludido! Já te disse isso. Somos todos escravos, mano. O vício n os escraviza. Se o vício nos torna escravos, deveríamos ser escravos do vício e não de S odom, não acha? Sim, sim, mas o vício tem seus comandos. Gente que se aproveita para ma nietar e sugar aqueles que se lhes assemelham. De onde você acha que vem a lenda dos vampiros? De onde você acha que provêm a violência e a baderna que está solta no m eio do mundo, senão desses comandos? Conto de carochinha. Tolices! É? Pois, venha aqui que eu vou lhe mostrar uma coisa. Segurando-me pelo braço, Rodes conduziu-me ao teatro onde se desenrolava o show terrifico. Multidões se aglomeravam, uns por cima dos outros em in tensa algaravia. Gente de toda espécie, se é que poderia chamar aquela chusma de gente. Zu mbis, desses que vemos em filmes, seria o qualificativo mais adequado. Hi pnotizados. Logo, trouxeram mais pessoas em pior estado. Seres de olhar esgazeado, veias à mostra, rostos deformados, corpos esqueléticos; semelhavam-se às imagens do holocausto judeu. Quem são, Rodes? inquiri. São encarnados. Gente que é trazida da crosta. Veja o que acontece... Em breve, os que chegaram foram, literalmente, envolvidos pelos demais ass istentes do espetáculo. isso todos o temem. - Mas, o que isso? manifestei-me indignado. Não vê?! Você é burro? Estão chupando o sangue deles? Que nojento! indigneiNão é o sangue, meu, é energia! É a força que habita neles, entendeu? Voc ê parece um energúmeno! Vê se entende as coisas! mudeei. E pensar que fugi de um oásis de tranqüilidade... que foi que disse? Ah... nada, nada. Só estava pensando mais alto. Deduzi que não liam pensamentos assim como Donato e os outros da estância , portanto, teria espaço para arquitetar um meio de sair daquela prisão d e dementados. Enquanto isso a música ou banilheira desconexa, rolava solta embalando a tertúlia dos vampiros. Lembrei-me de uma de minhas canções.

Observei, no sentido de aprender algo mais. Pude notar que das caixas de som saíam flocos enegrecidos e pontiagudos, que interpenetravam as pessoa s e evoluíam no ambiente; verdadeiros ouriços-do-mar esvoaçantes. Que são aquelas bolhas pretas, Rodes? É o som, cara! O som! A música dos metaleiros tinha um efeito arrasador. Penetrava os que a esc utavam de maneira violenta e degradante. Envolvia-nos abruptamente, como dardos venenosos. Senti o mundo girar à minha volta, fluindo intensa cefaléia. À minha frente, não vi mais o teatro repleto de loucos, mas uma espécie de estádio... um im enso estádio, onde estavam reunidas milhares de pessoas ensandecidas, pelas imagens que vinham lá da arena. Era o Coliseu!., e lá embaixo, expostos em estacas, de zenas de seres humanos ainda vivos. A turba gritava: Queimem! Queimem!, e eu era um d eles. Uma mulher disse: Veja como esses imundos queimam! E agora, onde estará o deus deles? Rodes me sacolejou e eu não vi mais as imagens horripilantes. Era como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, no presente desconexo e num passado, distantemente oculto pelas brumas do esquecimen to. Mais tarde, quando tudo havia se consumado, Rodes veio se despedir de mi m. Cara, já vou indo. O dia já está quase amanhecendo e tenho que voltar para a minha prisão temporária. Prisão temporária...? Do que estais falando? Do meu corpo, cara, do meu corpinho dez, sacou? Você é que não tem mais um... E o que será de mim? Vão me maltratar mais ainda? Esquenta não! Já dei um toque para o Gedar. Ele vai te tratar melhor. Aman hã estarei aqui. Mas, vê se não apronta mais uma. Fica calado. Aprende! Tentarei. Tentarei... Rodes se foi. Indivizível sensação de abandono me dominou. Já conseguindo traçar pequenas passadas, escorei-me pelas paredes até uma varanda próxi ma do salão principal, onde houvera a festa macabra. Fitei o horizonte, que não se fazia delinear, pois o sol, timida- mente oc ulto sob espessas nuvens plúmbeas, mal figurava na manhã que despontava. A o longe, chumaços negros, partindo da cidadela, se dispersavam pela atmosfera como supersôni

cos em vôo célere. Quase desmaiei de susto quando alguém me tocou no ombro, resgatando-me das minhas reflexões. Eles estão voltando... aduziu o estranho. Eles? Quem são eles? Do que se refere? Aquelas bolas negras... são seres humanos. Habitantes da crosta. Estão reto rnando aos seus corpos carnais. Fiquei perplexo com a informação. A visão que tive mais se assemelhava a vespas, que fugiam espavoridas de algum invasor de sua colmeia. É isso mesmo! Eles se parecem com vespas. confirmou -me os pensamento s. Por um momento, senti que aquela criatura podia ler minha mente, me afastan do dela. Pretendendo partir dali, me disse ele, então: Você foge de si mesmo! Lembre-se: há sempre uma luz... há sempre um ca minho! A frase daquele homem fez com que meditasse. Já a escutara, mas onde? Ao recordar, ia tecer algum comentário, quando percebi que ele desaparecera, por encanto. Um calafrio indolor percorreu-me o corpo. Deus! Quem seria aquele homem? calculei mentalmente. Há sempre uma luz. , essas palavras., eu as escrevi. Foi numa de minhas letras. Por um momento lembrei-me de Luiz Sérgio. A voz era muito parecida. Não. Não pode ser ele. O que faria aqui num antro desses? Ele é um bom suje ito. Não viria aqui por nada. articulei tais palavras em voz alta. Tudo estava silencioso demais. Tornei à varanda. Suspirei choroso, record ando-me dos que me receberam na estância. Donato disse que muito fizera., pedira por mim. Chamava-me de filho. Qu e cara legal! Parecia mesmo um pai. Começo a sentir saudades daquelas pe ssoas. Como voltar para lá? Permaneci em saudosas reminiscências por longo tempo, até ser interrompi do pelo Sodom, em pessoa. E então Ruggeri, gostou da festa? Viu como sou boa praça? Sempre cumpro o que prometo. Sodom,,.! Seu nome tem a ver com devassidão, correto? Sim. Sou o rei da d evassidão! É disso que as pessoas gostam. Vê como o mundo está hoje? Graças a mim, em parte. Tenho poder e sou fortalecido por aqueles que amam e vivenciam a devassidão, Você foi um deles, seu desgraçado! As vezes o odeio! Comprometeste-te comigo. Assegurou-me que tudo faria pa ra me trazer mais ovelhas, Em troca, receberia fama, dinheiro e tudo o ma is que desejasses.

Ah, não? Pois, venha comigo. Sodom me conduziu ao que seriam seus aposentos, tudo ornado de muito lu xo, ladeado por eunucos e mulheres seminuas, que tinham o aspecto de mo rtos-vivos. A cama do anfitrião era enorme, o lugar repleto de inúmeras velas, invadido por um odor fétido de roupa m ofada. Convidou-me, então, a uma espécie de sala de projeções, chamando e m seguida um de seus lacaios; cochichou-lhe algo que não pude ouvir. Em poucos instantes, o escravo trouxe uma pequena caixa, idêntica aos disquetes de computador que conhecemos na terra, só que mais grosso, entregando-lhe. Agora, venha até aqui. pus-me mais perto dele. Sente-se. Quer tomar algo? Aceitei o convite para não me tornar inoportuno; temia repri mendas Sempre tive ojeriza à violência. Sodom inseriu o disquete num aparelhinho, de onde provieram imagens e sons. Ao vê-las, perturbei-me, pois eram imagens minhas, de m inha vida, onde até meus pensamentos foram gravados, demonstrando minha intimidade devassada. Tudo estava ali: noites de orgias, as sessões de auto-adicção, emissões ment ais, meus momentos de dor, crise, raiva ou solidão.., tudo estava lá! O que isso? indaguei enfurecido, saltando da cadeira. - Isso é você, não percebe? Sei que sou eu, mas como tem tudo isso gravado? Que direito tinha em fazer isso? Temos nossos recursos. Somos os olhos ocultos. Vou congelar esta imagem aqui para que veja melhor: interrompeu o filme, rebobinando-o até certa p arte. Observe o que colocamos na base de sua espinha... Atentei para os detalhes e comecei a chorar. As imagens revelavam que alg umas criaturas implantaram um objeto, similar a um transmissor, no meu co rpo. Esse aparelho que implantamos em ti é descoberta recente. Nos dá a noção exata do que fazem vocês, enquanto encarnados. Onde estiverem saberemos de seus passos, atos e até pensamentos mais secretos. É tecnologia, meu caro! Antes, tínha mos que desig nar espiões para segui-los. Agora, tudo é mais fácil e podemos monitorá-los ao longe, daqui de nossas centrais. Muitos imaginam que fazem as coisas às ocultas, caindo no esquecimento. Enganam-se! Tudo é maquinalmente gravado por nossos

espiões mecânicos. Você era um dos nossos monitorados. Somos uma imen sa grei. Como pensa que chegou à fama?... o nome da tua banda?... achas que foi você quem idealiz ou tudo? Originou-se de um sentido bíblico., lembra-se da passagem do Cor deiro sendo tentado no deserto? Vocês...? Exato, meu caro! Inspiração minha. Sou um gênio! Tínhamos um trato e você o quebrou. Suas músicas, que deveriam ser nossas, conduziriam os jovens, repticiamente, ao desespero, desencanto, vício, suicídio! Você falhou! Só poucos idiotas caír am feito ratos... tolos... fracotes! A maioria captou o lado altruísta de suas canções. Mas, que droga! esmurrou a mesa. Por que você não cumpriu o que prome teu, seu desgraçado? Quem mandou bancar o bonzinho? Eu não fazia idéia desse compromisso. Quer dizer... não me lembrava dele. Tinha sede de viver, de alcançar o sucesso para combater a injustiça, os co rruptores, a violência., e... Besteira! Você deve tudo a mim, hipócrita! Teria cumprido melhor sua mis são se não tivesse dado ouvidos ao maldito Donatello. Ao proferir a última frase, Sodom mexeu com meus brios. Será que falava de Donato! O conheceria? Quem é Donatello? Ah, não me diga que não sabe? É o seu maldito inspirador. Sua letras eram eivadas das sugestões dele. Não podíamos nos aproximar de ti, quando ele e os malditos lanceiros* estavam por perto. Eu os odeio! Donato...! Então é verdade, ele existe! calculei, balbuciando em seguida: * N.M. - Equipes de benfeitores espirituais disseminadas em grupos de traba lho, destinados à proteção dos trabalhos socorristas no plano astral ou int ercedendo junto aos encarnados. Plêiades de espírilos orientados e dirigidos por Maria de Na zaré. Já que não posso fazer mais nada, quais são os vossos planos para mim, do ravante? Vai servir-me, ora essa! Vai cantar para os meus filhos. Embale-os! Logo, terei novos planos para você. Daremos um jeito de você tornar à terra e faz er sucesso novamente. Diabos! Vamos ter que esperar mais alguns anos... Se falhar nov amente, desta vez não terei piedade! Não sei por que não o mando às furnas ...!

Continuou a mostrar-me mais cenas de minha vida, enquanto se embriagava c om uma aguardente de cor escura. Fiquei extasiado diante da exatidão das cenas e da tecnologia do underground. As imagens e sons eram meus, fui filmado, gravado, maniet ado, vampirizado, torturado! A causa? Eu! Eu fui a causa de meu próprio d esastre. Inverti os papéis, cometi enganos, traí sutilmente a minha própria consciência, se m o perceber. Fiquei a recordar da Estação e dos que nela me acolheram, se m nada exigirem de mim. Senti-me indigno de tal socorro. Deprimido, ingeri sofregamente a bebida que me ofereceu Sodom, tomando -a em demasia. À medida que bebericava, tentava articular uma forma de sair daquela pris ão. Lembrei-me do espírito que me aparecera na sacada. Ele me falou que f ugia de mim mesmo, mas que a solução estaria em mim também. Logo, ébrio. esvaiu-se de mim a razão, e não pude tecer nenhuma consider ação plausível. Adormecera sem ter a mínima noção do que me aconteceria em seguida. Algo me dizia: se entregar era uma covardia! Quando já não divisava mais nenhuma esperança, eu disse a mim mesmo: Cara, é ofim! Mas, o meu eu invisível, dizia: Deixa de bobagem, filho, há sempre uma luz...! e eu nunca falei disso pra ninguém. Esse eu pretensioso, era ele: Donatello, o meu guia! Não fiquem tristes, cada um tem o seu... ou os seus. Dificil é darlhes ouvidos, pois sempre nos mostram a trilha da razão e por essa, nem sempre optamos. R.R. Acordei no quarto de Sodom, em meio a densas almofadas acetinadas e alguns eunucos me olhavam, enquanto outros me alisavam o cor po em gesticulações erótícas. Que é? Nunca me viram? espantei-os aos sopapos. Estava muito aborrecido e com uma bruta cefaleia; então pedi a um deles para me trazer água. Aqui só temos bebida, se quiser... Não... não. Estou com muita dor de cabeça. Não existem farmácias nessa dr oga de lugar? Retirei-me deambulando, enquanto riam de mim. Logo, cheguei à parte ext erna dos aposentos de Sodom, uma varanda enorme ornada com plantas horr orosas. Sentei-me em um sofá esfarrapado. Devia ser do todo-poderoso; talvez, para apreciar o seu

reino lúgubre. Fiquei observando a lamentável paisagem, denegrida pela ausência de beleza . Quão diferente era da Estação dos Jasmins, aquilo sim, um paraíso, pequeno, simples, onde se podia respirar paz e ar puro, a calentado por amizades descompromissadas. Sentira aversão ao beber o líquido que me ofereceram; enjoado, eu o pus pa ra fora, excretando todos os miasmas. Algo mudara em mim. Noutra situação, deprimido, certamente, tenderia a co ntinuar enchendo a cara, muito embora não me trouxesse solução alguma, pa ra a vital questão do momento: sair dali e reencontrar a Estação que me acolhera antes. Mais calmo, lucubrando acerca do que acontecera e do que podia me lembrar , acerca do fenômeno trespasse, pouco me recordei, salvo a última cena qu e vira do quarto onde permanecera enfermo, das pessoas que me rodeavam e das dores da alm a, apesar de tantos medicamentos. Após, veio a lembrança da Estação e da calorosa recepção que me deram; pessoas estranhas, decerto, mas muito amáveis, cuidaram de mim como se fossem amigos, parentes... pais ou filhos. O coração contraiu-se de saudades ao virem à mente os amigos que encontra ra: Donato, Amália, Luzia, Luiz Sérgio e outros. Quão diferente a recepçã o do reino de Sodom, nele só encontrando surpresas desagradáveis, além da terrível sensação de pr isão, coisa que sempre detestei em vida. Parecia até antagônico falar assim, pois sentia-me vivo, pensava, tinha dores, sensações e os sentimentos afloravam, logo, esta va vivo, realmente vivo! Sempre há um caminho! Um pensamento estranho povoou meus pensamento s, entrecortando minha intimidade mental. Mas, qual...? indaguei. A solução está em você mesmo; busque-a! Mas, quem está falando? Ouço com a mente...? argumentei. O que você mais deseja na vida? continuei a ouvir; O amor.., ser feliz.., livre .., sair daqui.., o que mais? A liberdade tem seu preço... Qual? Diga-me qual. Estou disposto a pagá-lo. Disciplina. Caí em gostosa gargalhada. Mas, quem é você? isso é uma palavra de uma das minhas canções. Palavra solta e sem sentido, caso não praticada... O que quer dizer? Se te desordenas sentimentalmente e pensas que é um

derrotado, certamente, há de sê-lo. Se velas pela felicidade interior e retidão de sentimentos, decerto, hás de libertar-se das algemas que o prendem à dor. Somos projeção do que pensamos... doutrinas orientais? A doutrina está nos livros, mas a liberdade está no âmago, no desejo, no se ntimento, no coração, que se torna puro pela caridade prática e compreensão das leis eternas... Por que devo falar com minha mente? Por que desejou assim, lembra-se?. Mas, eu não quero ficar feito maluco, falando com minha própria mente. P arece loucura; sinto-me um pancrácio! Deseja então encerrar o nosso diálogo? Não, não é iSSO... é que... estou confuso. É só...! Onde está a sua cefaléia? Não sei. No momento, não sei... acho que se foi. Você ainda está com a dor de cabeça ou, por momentos, esqueceu dela? Ac hou mais interessante falar comigo? Comigo? E por ventura falo com alguém? O que achas? Ora, responda-me você! Quero respostas... estou de saco cheio de tanto mist ério! Quero sair daqui...! Não. Você não o quer. Se identifica com isso aqui. Por isso, insiste em ficar. Ora, vá às favas! Revoltado, levantei-me e chutei tudo o que encontrei pela frente. Desesperad o, chorei feito criança contrariada. Após muito tempo e com as vestes ensopadas de lágrimas, deitado no chão da sacada, visualizei as malditas plantas murchas e os vasos espalhados pelo local. Peguei uma delas e premi-a, manchando minhas mãos com sua contextura gosmenta . Eu não quero mais ficar aqui... murmurei, quero ir embora! Desejo ir para a Estação dos Jasmins. Quero paz, compreensão, carinho, serenidade., por fa vor, Deus, não me abandone!!! Após alguns minutos de silêncio interminável, a voz de minha mente voltou a falar comigo. Ele nunca o abandonou; você sim. Acho que tem razão., O abandonei. E sua vontade, ainda está firme? Sim, quero ir embora!

Quer? Desejo ardentemente. Peça a Deus... Ele não vai me escutar. Sou um farrapo! Quem escutaria um viciado derrot ado? Então mentia quando me disse que tinha a vontade firme,. Não, não, não menti! Por favor.., falo a verdade! A pior mentira é aquela em que mentimos para nós mesmo. O que quer dizer com isso? Que você se sente um farrapo e essa é a sua verdade, momentânea. Estou começando a entender você. Se eu me sentisse um bravo, talvez saís se daqui, não é mesmo? Não é bem isso. Deus não quer guerreiros e sim, mansos e pacíficos., por i sso mandou-nos Jesus, o exemplo... Jesus, um grande avatar,. o maior deles,, não era um guerreiro, nem líder po lítico... quem Ele era então? O exemplo! De amor, mansuetude, quietude, paz, sinceridade, verdade, ben eficência, poder que não macula, que não mata e não fere, que não dissimu la, que ameniza, que pacifica,,, que é luz! Sempre há uma luz? Sim, há sempre uma luz... tanto é que os insetos a procuram. Parei de dial ogar com o que parecia ser minha mente e pus-me a meditar. Insetos., insetos buscam a luz. Ela está sempre no mesmo lugar, na fonte e a tinge distâncias, o inseto é quem a busca... buscá-la!. Acho que sei o que v ocê quer dizer, agora. Devo buscar a luz, tal como os insetos? Isso! Fez progressos. Só que depende de você., há uma opção dentre três: procurar a luz como guerreiro ou como inseto, ou simplesmente, não procurá -la. O que prefere? No momento, creio estar mais para inseto do que para guerreiro. Estes são f ortes, poderosos, arrogantes, garbosos, mas... Os insetos também são fortes e poderosos. Já imaginou o que uma formig a do seu tamanho faria no mundo dos homens? Gargalhei, descompromissadamente; a situação parecia uma brincadeira de c riança. Você me faz rir. - Isso lhe faz bem? Sim, sim... enorme bem. Ultimamente não tenho podido rir. Que tal começar a pensar assim doravante: ser um inseto

sorridente! Gracejei abertamente: Um inseto sorridente? Acha que levo jeito? Posso tentar... Tentar ou querer? Tentar...? Não, não., bem...: querer! Decida-se! O inseto sorridente tem asas, pode voar e realiza a vontade de Deus. O guerreiro, com sua armadura cumpriria essa vontade? Poderia ele voa r ou realizar a vontade de Deus? O que lhe parece mais viável? Ser o inseto, é lógico! Ainda quer ser um inseto? Envolvi-me. O que minha mente me dizia era coerente. Buscava a saída, mas tudo me levava a crer que a escapada estava na minha força de decisão. A quele eco mental não me dizia o que fazer, mas me conduzia a raciocinar para tanto. Era uma questão de decisão. Você ainda está ai? Indaguei. Mais progressos. Agora já me trata como a pessoa. Claro, estou aqui. Já se decidiu? Senti um desejo. E qual é? Se você é você, quero vê-lo. Quer mesmo me ver? - Quero! Senti firmeza! Além de mim, gostaria de ver mais alguém neste momento, ou seja, alguém que queira muito bem? Meu filho! No momento isso não é possível; ele ainda está encarnado. Pense em outra pessoa. Fui buscar no meu íntimo alguém que me trouxera felicidade, ultimamente. Viajei no espaço dos meus sentimentos e decidi. Quero ver Amália e seu sorriso. É linda! Ela está muito ocupada, neste instante. Se incomodaria de pensar em outra pessoa? Sem pestanejar, disse-lhe: Conhece-a? Bom, então eu quero ver aquele sujeito de ontem; apesar de mei o esquisito, percebi algo de bom nele. Pareceu -me um cara legal. Ok! Você o desejou... Gelei e tremi feito animal acuado. Estava num mundo diferente, utópico em princípio, para mim de ficção. Julgava-o mundo do faz-de-conta. Tudo me

era novo, absurdo, fantástico! Conversara com o que julgava ser a minha própria projeção ínt ima. O que poderia resultar disso? Mil e uma dúvidas assombraram-me, mas eu tinha que experimentar! Necessitava fugir dali. Fiquei estático, vagueando com os olhos irrequietamente, a fim de detectar alguma presença. Tão absorto, na ânsia de ver o meu amigo oculto, sem que notasse, eis que ele surgiu às minhas costas, dando-me um tapinha. Era o mesmo homem q ue vira na noite anterior. Você! Não acredito! Como tem passado, São Tomé? disse-me. Você estava aqui o tempo todo? Sim. Por que não o vi? Deus está em toda em parte, nem por isso O vê. Embora não sendo Deus, m as tendo-O descoberto em mim, eis que posso estar onde quero e me é perm itido. Jesus nos disse: o espírito sopra onde quer. Se não me vistes, foi porque não o quise stes, ou não vos colocastes em condições para tanto, mas a partir do moment o em que teve vontade, e isso vos foi permitido, viu-me. Quem é você? Sinto que o conheço. Só descubro a charada, quando me deres o teu autógrafo. Sou seu fli! A voz, a impostação, os trejeitos ao falar, a solicitude e o carinho... só pod ia mesmo ser o: .. .Luiz Sérgio! Você está horrível! Por que está assim? É uma fantasia? a garrei-o em desespero. E como acha que estou vendo você? Não me parece nenhuma alegoria da Beij a-Flor. brincou. Ergui-o do chão, efusivamente, beijando-lhe a face por diversas vezes. Note i que não se indignou. Você é um cara estranho aleguei. Por não ter rejeitado você? Sim. Normalmente as pessoas, principalmente aquelas que não conheço bem , teriam me criticado, me empurrado ou me olhado de outra maneira. Sabe como é, né... ?! O preconceito? Sim.., o preconceito. Precisamos conversar muito, não é Ruggeri? Luiz, como faço para sair daqui? Já destes um primeiro passo, amigo. Agora é ter paciência. O inseto com as

as, recorda-se? Isso é filosofia, meu. Preciso de realidade. Algo palpável, entende? -A melhor filosofia é aquela que compreendemos, pelo exercício prático de seus postulados. Ainda assim, ressoa como filosofia. Só não saístes daqui ainda, porque pensa que a filosofia lhe é externa. Ac has que acumulastes muitos conhecimentos e isso, supões, fez de você um sáb io, um tanto dono de si; por tal razão, reluta em pensar como um inseto, um pequeno e ins ignificante inseto. Orgulho? Você o disse... Tens razão! Sempre fui muito orgulhoso. Comece a pensar como um inseto. Guerreiros têm vontade própria, mas os in setos... .. .Fazem a vontade de quem os criou?! Exato! ripostou-me. Me ensine a ser um inseto, então! Sua última frase foi um primeiro passo, mas eu... não... sou... Deus. Decerto, Luiz Sérgio não era Deus, nem a luz, e como insetos, eu teria que achá-los, fazendo a vontade de quem nos criou. Só não podia voar como faz em os insetos, talvez porque o orgulho me destituíra das asas da humildade. Caí em prantos aos pés de Luiz que, segurando minhas mãos, arrematou: Ruggeri, por favor, não me envaideça! Eu não sou um altar e muito menos o vosso confessor. Nem na terra há quem detenha tamanha autoridade! O que aprendemos basicamente num catecismo? Não entendi Nossos professores, quando crianças., o que nos ensinavam quando quisés semos conversar com Deus? Que deveríamos nos recolher, ajoelhar e unir nossas mãos...? Ótimo, amigo, faça-o! Não precisas de mim para isso. Esta conversa é de filho para Pai. Abras o coração! Sejais cúmplice dAquele que o ama. Eu sou apenas um inseto., como vós. Ele, só Ele é a própria ...luz! Permanecendo ajoelhado, olhando para o que seria o firmamento daquele mun do paralelo, orei, como nunca havia feito, suplicando perdão a Deus por t odos os erros cometidos, rogando-lhe piedade, pois era uma alma piegas e sofredora, que só almeja va paz, buscando compreender como se amava verdadeiramente. Uma sensação gostosa percorreu todo o meu corpo, ao mesmo passo em que

uma fenda iluminada se abria à minha frente, me envolvendo, quase a pon to de cegar-me temporariamente. Mãos invisíveis me tocaram o corpo, abraçando-me com segurança. Pela entonação celestina, ouvi então a mais bela frase que poderia um simple s e desprezível inseto escutar: Sê bem-vindo, meu filho! E quando tudo parecia perdido... O dia após a noite. A calmaria após aprocela. Dormir para acordar Sofrer para valorizar Doar para receber Amar para ser amado. Morre r para renascer. Perder-separa reencontrar-se. A chave da felicidade estar á em reconhecermos que, quando a dor é iminente, o lenitivo virá logo em seguida. R.R. Quando acordei, estava sobre uma cama macia, de lençóis acolhedores, num quarto pequeno, asseado e que cheirava a pinho do campo. Um delicioso e tênue bafejo do ar matinal, penetrava pela janela, esvoaçando as cortinas finíssimas de tom a zul celeste. Ao lado do leito, umajarra contendo algum tipo de liquido, um prato de sop a e um livrinho. Curioso, cheguei mais perto para observá -lo me reclinand o lentamente e ainda com dificuldade. Estava fatigado, o corpo pesava bastante e a cabeça parecia rodopiar. A vida em muitos reis, era o título do livreto de cabeceira, cuja capa pareci a constituir-se de um material holográfico de raríssima beleza. De uma coisa estava certo. Voltara ao paraíso e a felicidade invadiu-me a alma fustigada pela ard orosa experiência. Alguém bateu na porta. - Bom dia! Que manhã mais linda! Como tem passado o nosso amigo? -Bem, pelo menos não me vejo no inferno em que estive. Que frase tão pesada! Que tal dizer: na escola em que esteve? Chamar aquele lugar de escola é tachar ouro por breu... Não seja tão pessimista, Ruggeri. O pessimismo estraga nossas vidas, embot a nosso hálito mental e transforma as palavras em espinhos acutíssimos. Filosofias? Não. Verdades! Calei-me diante de tão bela jovem. A força de seu verbo, para mim, era sin al de que devia silenciar não dizendo nenhuma asnice. Desde que partira da Terra, no mundo

encontrado, tudo transpirava justeza. O que se dizia, pensava ou se fazia, tin ha reflexos visíveis e imediatos. Onde estou? perguntei. Onde desejaria estar? Em qualquer lugar que me trouxesse paz. Aqui estais em paz? Por que, ultimamente, as pessoas têm me perguntado tan ta coisas? Porque as respostas estão em você. És o universo de nós. Já vi esse filme antes; creio. Sim. Um filme cujo videocassete está sob vosso controle. Podes rebobinar a fita o quanto quiserdes. Certamente, verificando inúmeros erros que passa ram despercebidos, poderás arquitetar um futuro melhor, definindo novos rumos. Sabe muito sobre minha vida? Oh! Por favor, não que eu queira ser indelicada, mas nada que não possamo s trocar idéias. Queremos apenas ajudá-lo. Queremos? Quem queremos? Aqueles que o amam. E se vai perguntar quem o ama, vou lhe dizer que es tá na hora do seu medicamento. Finalizou, apresentando-me um copo com u m líquido verde-piscina. Que é isso? Melhor deixar de tantas perguntas, Ruggeri Rubens. Garanto, não é nenhu ma poção venenosa. Arrematou a moça, em jovial tom de brincadeira. Ainda não sei quem és. Ó, como sou deseducada. Perdoe-me! Chamo-me Ana Cláudia. Sou a enfermei ra responsável por esta ala. Tudo o que precisardes, pode me contatar. Ala? Isso aqui é um hospital? Como então posso contactá -la se não exist e nenhuma campainha? Use a mental. Pense e logo saberemos. Ficção científica? Que barato! Não, novamente...; realidade! Agora, queira tomar o seu remédio, por favor . Está certo! Do jeito que me olhou, espero que não me enguia. Brinquei e g argalhamos juntos. Ana Cláudia, gostaria de fazer mais uma pergunta; posso? Ah! Essas crianças...! Quer saber onde anda Luiz Sérgio, Donato, Amália e companhia, não é mesmo? Nossa! Quando vou aprender a fazer essas coisas? Refere-se à linguagem do pensamento? Calma. Tudo a seu tempo. Precisa r ecuperar-se primeiro. Veio de uma experiência não muito agradável, embor a proveitosa. Colheste lições valiosas que, mais tarde, saberás aquilatar-lhes o valor. Quanto aos

vossos amigos, espere mais um pouco. Descanse apenas. Ordens são ordens! Está bem. Isso! Vá se disciplinando. Logo, saberá para onde vai. Há sempre um caminh o a ser seguido, com disciplina, é claro. .É, há sempre uma luz! complementei. Ana abriu um sorriso fantástico. Seus dentes alvinitentes reluziam, como n eons de estupenda luminescência. Você é um anjo? Me vê com asas, Ruggeri? Quem tem um carisma desses não precisa de asas. Mais uma vez olhou-me com ternura, afagou-me os cabelos e, pausadament e, premeu-me suavemente contra o colchão emplumado, recobriu-me e beij ou-me a fronte, pausadamente. Deus te abençoe. disse-lhe. Já me abençoou em poder servi-lo. Ela saiu devagar, olhando-me. Segundo ela, Deus a havia abençoado por serv ir-me. Já à porta, despertou-me a curiosidade e perguntei-lhe: Ana, você me ama? Fixou-me o olhar nítido e mais uma vez sorriu, obtemperando: Preciso dizer? Não. O seu sorriso pagou o preço que exigi. Amar não tem preço e não é preciso que se diga. Pense nisso, doravante... Contemplei a sua lenta saída do quarto. Ela estava com a razão. Amar não ti nha preço algum; antes, tola exigência minha (e pensar que exigi isso do me u pai). É gratuito, não exige, não cobra. apenas dá, doa, beneficia, acalenta. Vi a sinceridade n o olhar de Ana, apesar de só conhecê-la naquele quarto de hospital espiritual . Tive vontade de perguntar-lhe se me conhecia de algum lugar ou época, mas tem endo que meus questionamentos pudessem estar eivados de pieguice, revire i-me na cama e acabei dormindo profundamente. Sonhei. Vi-me em uma floresta densa, em qualquer lugar da Europa ocidental, pelo aspecto e paisagem. Apreensivo, ansioso, esperava alguém. Um jovem, um lindo mancebo surgiu. Abracei-o. Eu era uma mulher! Transmiti-lhe minha ansiedade e ele procura va me consolar. Aceitai os fatos! disse-me. Eu a amo, mas não posso ficar convosco. Não é possível! Tenho mulher e filhos. Enquanto vida tiver é a eles que devo doa r-me, entendais!

O que exigis de mim não é possível. Não queirais forçar uma situação na q ual não seremos felizes. Podeis me amar mesmo assim? megera. Não! Quero-o para mim! Não admito perdê-lo para aquela És incompreensiva! Não entendeis, se ficar convosco vou destruir a vida d e Helen e das crianças? Não pensais nelas? Eu também as amo. Vil! Mentis-te para mim. Nunca soube delas. Agora, coloca-as como obstác ulos à nossa felicidade, após haver me seduzido. Não. Perdoa-me, se delas não vos falei! Precisava de alguém que me compre endesse, me ajudasse a suportar as dificuldades... -Aí me procurastes, seduziu-me e eu, tola, engravidei... Ah! Eu vos odeio! Fui iludida. Se pudesse escolher jamais teria nascido mulher. Somos escravi zadas pela lascívia de Vocês, homens! Porcos! Valem-se de nossas fraquezas para nos re duzir a trapos. E agora, o que faço da minha vida e do filho que espero de ti? Es casado, tens filhos. E eu, o que será de mim? No mínimo uma prostituta! Quem, nes sa sociedade, me aceitaria como mulher? E meus pais, escorraçar-me-ão do lar em que cresci...! Mas, o que posso fazer...? Nada! Nada! Volteis para vossa megera. Vivais com ela e sejais muito feliz ! Sentia-me traída e angustiada. Meu único desejo era me retirar da vida. Mai s tarde, diante de um espelho, observei minha beleza física. De que me adia ntava? pensava: Não tenho o que quero! Enganada, traída, humilhada por ser mulher solteira e com filho..!. Não havia outra saída. Meus pais não me aceitariam no lar. Resolvi então pôr um fim a tudo. Procurei algo que me ferisse de morte. Uma adaga...? Não! Repugnava armas brancas. Não encontrando nada que pu desse aplacar minha dor moral, de maneira rápida, então busquei uma elevação próxima. Si m, seria o ideal! Cairia no vazio e me despedaçaria nos rochedos pontiagud os, lá embaixo... sem dores, sem máculas. Desesperada, projetei-me no penhasco, sentindo o h orror de ver o chão se aproximar, veloz e implacável. Despertei do pesadelo num salto. Estava banhado em suor. Para meu alento, eis que Donato estava ao meu lado. Figlio mio... tivestes um sonho ruim? Meu Deus! Sonhei que era uma mulher! Uma mulher! Vê se pode?! Parece-vos um absurdo?

Sim. Eu não sou mulher, sou homem! Meu caro, as impressões do mundo nos são fortes. Quando estamos na carne , julgamo-floS senhores da sapiência, muito embora, em verdade, estejamo s muito aquém de dominar todos os conhecimentos. Já ouvi algo parecido... IssO mesmo! Nem tudo sabe a nossa vã filosofia, por William Shakespeare Les tes isso? Eras um leitor voraz, sábio, contudo, entre a sapiência adquirida pela leitura que nos angaria conhecimentos, e a realidade daquilo que ainda está oculto, há grande distância, cuja Ponte só é construída pelo abandono de certos pr econceitos, no entendimento de que não somos maiores do que as leis e o amor que a tUdo nos rege. É preciso que compreendamos que, como espíritos imortais não somos homens ou mulheres, características tão peculiare ao globo em que vivemos, tão necess árias para a função reprodutiva e trocas energéticas através do lídimo ato sexual. Somos espíritos essência de Deus, inteligências, faíscas do eterno amor universal Então, a partir dos conceitos sexo, distinção entre sexos, macho e fêmea, do minante e dominado, tecemos uma teia milenar de Preconceitos, cujas presas somos nós mesmo, quando reingressamos nas jornadas terrenas das experiências, e o veneno aracnídeo flOcuamoS em nossa convivência com as demais criaturas, sofrendo o reflex o daquilo que ajudamos a construir ou destruir. É a lei do retorno! Jesus quando veio à terra, muito embora isso tenha sido a lém das linhas dos atuais códices religiosos, por políticas conveniefltes por tava-se como homem, vestia-se como tal, sua voz era grave, mas a sua essência era espiritual, mansa, pacífica, transformando a palavra em ação, um verdadeir o Cordeiro! Não era homem ou miliber, era Jesus, o Mestre! Dois mil anos após sua vinda, q ue nos importa se podia Ele procriar ou não, ser macho ou fêmea, ter posse s ou ser um mendigo, dormir em um colchão de plumas como esse que vos recebe o corpo, moment aneamente, ou se tinha raízes de árvores como recosto? Nada disso impor ta. Valeram e continuarão valendo as qualidades do Seu coração angélico, irmanado com a vontade do Eterno. Será que me fiz compreender? Pelo que depreendo, quer me dizer que posso ter sido mulher, como admitem livros kardecistas e doutrinas orientalistas?

Em livros espíritas, livros espiritualistas ou não, quem fomos ou deixamos de ser, nada disso terá importância sem as qualidades do coração O que mai s vale é o amor, independente do que somos. No mundo preocupamo-nos em ter, não em ser, daí vêm nossos desajustes, Sonhastes sendo uma mulher, mas nem po r isso te sentes como Uma. À procura de sermos amor, a exemplo de Jesus, embora imperfeitos, muitas vezes nos atemos em identidades, seja como hom ens, seja como mulheres. O espírito é quem deseja e isso tem causado inco ntáveis males, porque as pessoas não se conformam com o que são. E o preconceito human o quanto à sexualidade, tem causado profundas seqüelas morais em quem é aturdido por essas insatisfações. De fato! Suportei muita barra por causa do preconceito tolo. Teremos muitas oportunidades de conversar sobre isso. Todavia, por agora, quero que venhas comigo. Precisamos ir à nossa oração coletiva, e urge qu e nos apressemos. As palavras do novo amigo ficaram ressoando em minha mente. Sabia que, de alguma forma, ele estava certo. Ouvira ou lera, ou quem sabe, vivenciara t ais experiências, tudo muito nítido naquele sonho. Cada vez mais, certificava-me de que est ava mais vivo do que nunca, até com direito a sonhar com um passado ainda envolto em brumas. Donato conhecia do que se passou comigo. Era isso que me dava a entender, embora me causasse certa inquietação, porque eu não sabia, ou não record ava do passado com clareza. Ele percebeu minha circunspecção. Recordei de vovô, por qu em muito tinha deferência. A saudade invadiu-me a alma e a lembrança do s meus me assaltaram de chofre. Incontido, perguntei: Por que quando estamos vivos não temos recordações desse tipo? Como não? E certos sonhos que temos? É mérito, filho. Mérito! Deus, onipot ente,justo e soberano, sabe de nossas dificuldades, medos e apreensões. Tu aprendestes sobre essas coisas antes de retornar à carne, todavia, o esquecimento tempor ário de nossa preexistência e tornagens terrenas vivenciadas, não o permitiu divisar todas as respostas. Devemos busca-la na falna das experiências das quais, muitas delas, escolhemos por nossa própria decisão, quando nos é permitido

. Contudo, ante as provas ou atribulações requestadas, enuviados pelos clamores do mundo, que são muitos e fortíssimos, caímos, tolhidos pela nossa fraqueza e insen satez. Nosso livre-arbítrio é o timão dos destinos. Quanto a dizeres que não lembravas desses fatos, aparentemente novos, tais cenas estavam gravadas em teus arquivos perispirituais que faz sede em todos, como verdadeiras centrais de dados das nossas existências pregressas. De quando em vez, tu mesmo tivestes tais so nhos, embora o peso da carne os tenha distorcido OU dificultado a lembranç a integral. É verdade! Eujá sonhei algo parecido. Mas, para mim era só um sonho, ente nde? Muitas vezes, os sonhos são realidades que nos incomo dam e por isso deixa mos para trás, verdadeiros faróis norteadores dos erros cometidos, a fim d e que não os cometamos novamente. Similarmente, algumas sensações que temos em rela ção a certas pessoas, demonstrandonos simpatia ou antipatia, ou mesmo nosso próprio comportamento nos dão chance para divisar quem fomos, somos e temos a reconstruir a fim de sermos Prosseguimos lentamente, pois eu ainda caminhava com dificuldades, tent ando compreender os ensinamentos de Donato. Nos idos da década de 50, quando estavas pleiteando retomar à carne, ainda nesta Estância, esco-lhestes algumas provas, dentre as quais a de conduzir a juventude da tua pátria ao curso da serenidade, retidão e resgate de valores, no proces so coletivo de reestruturação, do que deveria ser a pátria do evangelho. A mú sica seria um dos meios de fazê-lo. Um dos meios? Então tudo o que fiz era parte de um projeto? Sim. Permita-me adverti-lo, teremos outras Oportunidades para tecer mais d etalhes sobre o assunto. Nem havia me dado conta de que havíamos chegado ao nosso destino. Entr amos em um enorme auditório, onde se ouvia a Ave Maria de Bach, suavem ente entoada por um coro de inúmeros jovens e crianças. O salão estava repleto de espíritos c omo eu, em refazimento, outros como Donato, exprimindo uma luminosidade s uave, e pouquís-simos verdadeiros sóis com halos de ampliadas cores. Anjos!!! Após a prece coletiva, caminhamos por entre ala-medas cercadas de densa vegetação, que exalava odores agradáveis chegan

do a confundir minha parca captação olfativa, destruída pelas drogas na ma téria. Tais alamedas traçava-nos o roteiro como imenso labirinto. Por um m omento, recordei-me de um filme do gordo e o magro. Engraçado! Ri bastante, sem que isso in comodasse o meu acompanhante. Chegamos, enfim, a um outro salão construído na base de uma serra. Seu por tal era esculpido na própria montanha. De fora, a caverna que parecia escu ra e desabitada, era habitada, iluminada e tinha ventilação equivalente ao ambiente externo, quando nela ingressamos. Donato, que lugar é este? Trouxe-o aqui para que observe. Neste local são reunidos inúmeros mendigos espirituais, na verdadeira acepção do termo, pois que trazidos de furnas e vales de sofrimento, aqui encontram a recomposição para que, posteriormente, sejam encaminhados a outros postos mais adequados, a fim de continuarem suasjo rnadas evolutivas. Aqui ainda é o hospital? Sim, filho. Mesmo nas mais densas regiões onde a luz espiritual não espar ge seus raios, eis que nosso Pai Amantíssimo provê o socorro adequado a qu em necessita, razão pela qual, ninguém, nem mesmo o mais abjeto dos seres, está ao desa mparo. Recordemos as regiões abissais de nosso planeta. Mesmo na densa es curidão, seres luminescentes vagueiam em busca da vida. Sabe, fiquei pensando ultimamente, por qual razão me socorreram... Lembra-te da parábola do filho pródigo? Vagamente. Respondi-lhe. ... filho, tu sempre estavas comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviv eu, estava perdido e foi encontrado, disse-nos Jesus, em Lucas, 15: 3 1-32, relatando a conversa entre um pai e seu filho diligente, o qual se indignara com o geni tor por matar um novilho, para festejar o retorno do seu outro irmão, que há muito se desfizera do lar. - Sou como o filho pródigo? Tu o disseste! Sentenciou abraçando-me. - Para nós, retornastes à casa do Pai e fizemos bodas por isso; entendeis agora? Seguindo os conselhos do meu orientador, passei a fitar aquelas dezenas de criaturas espalhadas pela imensa gruta, ladeadas por outro número de auxili ares que se

portavam como desvelados enfermeiros, médicos ou terapeutas. Pobres diabos! pensei em relação aos sofredores. De onde teriam vindo? São filhos do vício, da depressão, da solidão, da amargura, da dor. Estão p or toda parte, acrescentou Donato. e não são pedintes de rua ou favelados. Pertencem às mais variadas classes sociais de nosso planeta, muitos dos quais tiveram excelentes oportunidades em suas vidas, de servir, de amar, de respeitar, de reparar erros. Contudo, projetando-se para o egocentrismo, ao descrerem da socie dade e discordando dos moldes em que viviam, optaram por ingressar no mu ndo negro e desigual do Niilismo, secundado pelos vícios, culminando em suicídios voluntários ou involuntários. Dentre eles, alcoólicos, toxicômanos, anoréxicos, abúlicos, cancerosos e outros, engrossando este exército de farrapos humanos que tu vês. Sinto-me um deles! Choraminguei. Fostes, e continuaria a sê-lo, não fosse o crédito angariado em vidas pretéri tas, onde exercitastes o bem, e a vossa vontade de acordar para a realidade es piritual. Não entendo bem isso. Como é essa história de vidas passadas? Lembra-te do sonho que tivestes? Sim. Em realidade, não fora sonho. Vivenciastes mesmo tudo Quer dizer que já fui mesmo... mulher? Sei que não é muito fácil para aceitardes. Isso reforça que nem sempre o acú mulo intelectual está na razão direta da conquista espiritual. E tanto que es tudastes filosofias, tinhas ampla gama de cultura em vossos arquivos mentais. Destar te, mal consegues compreender as dificuldades por que passastes. Já vos dis se que, ser ou não ser, não é a questão. A essência está em nos sentirmos como somos. L utar é o dilema! Eis o grande mistério. Pode explicar melhor? Quando reencarnado em um corpo feminino, há muitos séculos, sentias, vi vias e amavas como tal. isso ocorreu numa época em que o preconceito est ava acima do senso mais racional do hodierno, embora ainda hoje existente, acerca da matern idade sem o casamento, O filho que geraria pelo congresso carnal com aqu ele homem, que também viu, resultar-lhe-ia em imensas agruras, por isso fostes em busca dele a fim de minimiZá-las, julgando que nele encontrarias apoio e guarida. Rejeitada, pois que

ele tinha uma outra família já constituída, e sabedora de que não poderias m ais desfrutar de seu amor exclusivo, o qual acreditáveis eterno e duradouro, resolvestes pôr fim à vossa vida. Suicidou-se, o que é uma transgressão grave às leis d ivinas, também arrastando um ser que te era muito caro. Daí em diante, pass astes encarnação após encarnação não desejando mais habitar corpos de mulher. Mas a paixã o pelo vosso amado não cessou após o desencarne. Mesmo perturbado, vosso espírito o perseguiu vida após vida, embora em corpos diferentes. Peço-vos que não estendamos mais no assunto. Aos poucos compreenderás melhor tudo o que vos falei. Lembre-se, doravante, que o espírito não tem sexos determinados. Esses são estado s transitórios, escolas de aprendizado e reeducação, no progresso da alma e rrante em busca da perfeição, muitas vezes à escolha do espírito reencarnante e noutras vez es, por imposição da Justiça soberana, em contraposição às inúmeras transgr essões realizadas no terreno sexual. O que meu instrutor dizia fazia sentido, contudo, meu raciocínio ainda não aceitava os fatos como me eram expostos. Fui desperto por um tapinha amig o nas costas. Oi, meu chapa, tudo legal?! Luiz, que surpresa! Que está fazendo aqui parado, meu irmão? Trocando idéias com o amigo Donato. O quê?! Filosofando enquanto outros sofrem? Amigo, não estamos na Grécia e você não é Dionísio*. Há muito o que fazer! Obtemperou humoroso e so rridente. N.M. Dionísio a) Deus grego simbolismo da alegria e do vinho. b) Nome d e um áhio grego que viveu antes de Cristo, e que saía às ruas de Atenas em busca de homens sábios. E o que posso fazer num ambiente desses onde só vejo pesares? - Lembra-se do inseto? Sim, mas o que um inseto magro, debilitado e despreparado pode fazer num hospital desses, onde existem catedráticos tão cônscios e diligentes? Um inseto não poderia fazer muito, mas um ser humano pensante, com braços , pernas, amor para dar e mente para guiá-lo na trilha do bem, quem sabe, tudo não possa?! Fiquei atônito. O quê fazer? Não sabia nada sobre socorro ao próximo. Da

í, percebera que precisava aprender a lidar com aqueles que se me asseme lhavam. Desfazendo-me das presenças de Luiz Sérgio e Donato, caminhei vagarosamente por entre os leitos. Vi criaturas desfiguradas, sofridas, doridas, chagadas. Penalizei-m e e comecei a chorar. Ajoelhei-me cobrindo o rosto com as mãos, como se não quisesse e ncarar a face oculta de Deus, ali presente na forma daquelas almas em está gio de dor. Após alguns minutos de interiorização, ao olhar para o chão, embaixo de uma da s camas, percebi que nela havia um esfregão e um balde, contendo uma espé cie de detergente de aroma agradabilíssimo. Elevando a minha visão, notei que um pobre de sgraçado havia vomitado um líquido escuro e pegajoso. Ao seu lado, uma médica impunha-lhe as mãos, enquanto outro dedicado esculápio, ungia-lhe a fronte com uma pasta que desprendia uma emanação azulada, que depois viera a saber, er a um medicamento* amplamente divulgado entre os encarnados, cuja origem é do plano espiritual. Como se limpa isso aqui? inquiri. A médica respondeu-me que, geralmente, o faziam com o esfregão, após em bebê-lo no líquido que dormitava no balde próximo. Mesmo fraco, desvenc ilhando-me de quaisquer barreiras, pus-me a limpar o chão. Lembrei do Jimmi Hendrix** e de como e le teria * N.M. - Medicamento espiritual Referéncia â pomada ‘Vovó Pedro , utiliz ada em curas; ** N.M. -- Jimmi Hendrix O mais fàmoso guitarrista do mundo, desencarna do na década de 70, vítima das drogas. sobrevivido, se alguém houvesse limpado o vômito dele. Assobiei uma de m inhas músicas. Enquanto o fazia, Luiz se aproximou. Ai, campeão! Esse é o Ruggeri que eu conheço, determinado, obstinado., um verdadeiro guerreiro! Sorri, parando somente para contemplar o enfermo que estava sobre a maca. Seu rosto...! Algo naquele rosto me era familiar. Sem saber como, a imag em do convalescente desapareceu de minha frente, para dar lugar a cenas cinematográficas, talv ez de um passado longínquo, tornando as palavras de Sérgio muito distantes para mim. Via-me ornado em densa armadura, montado em um lindo cavalo marrom com mancha s brancas. Desfilava com elegância, e por onde eu passava as pessoas m e reverenciavam. Era

alguém respeitado. Um imenso castelo medieval à minha frente, bandeiras, soldados, pessoas c omuns; uma fortaleza! A língua era a francesa. Nunca gostei muito da Fran ça, mas estava lá. Era eu! As imagens eram confusas, iam e vinham à mente. De repente um símbolo, talvez um brasão. Sou forte, muito forte! Traição! Fui traído por alguém muito importante que se dizia amigo. Fizeram-me prisioneiro, enjaulando-me como um animal feroz. Bradei impropériOs. Um julgamento! Fui acusado injustamente e sentenciaram-me à morte. Por q uê? Defendia uma causa, a de Nosso Senhor Jesus Cristo. Patifes! Traíra m-me! Vocifero contra o tribunal de falácias. A fogueira. Preparam-nos fogueiras. Meus amigos, também vão morrer. Meu gr ão-mestre... por quê? Não fez mal a ninguém. Pessoa reta, justa, leal e ca ridosa. Malditos!.., brada ele. Concita-nos a termos coragem. Tenham fé, meus irmãos; Deus es tá do nosso lado!. Ele ameaça os detratores. Que homem fascinante! Morrerei feliz, meu mestre. Foi uma honra ter servido ao vosso lado!... O fogo, o fogo, nos consome. Meu Deus! Cessai a minha dor... por amor... ces sai a nossa dor...! gritei desesperado. Quando despertei do pesadelo, estava sentado do lado de fora da maca, lade ado por Luiz Sérgio. E então, como te Sentes agora, cavaleiro? Jesus Cristo! O que aconteceu? É o que chamamos de retrocognição ou regressões de memória espontâneas que de espontâneas têm muito pouco. Nossa mente é a depositária de nossa s experiências, desde a monera até o anjo. É uma espécie de computador do eterno, compre ende? Claro. Faz sentido. Por isso parecia que eu estava sonhando acordado?! Viv i isso também? Há muitos séculos, meu amigo, e séculos são moléculas de segundos para o át omo do infinito, portanto, já passou, tranquilizes O fato de haver sido um cavaleiro da Ordem do Templo de Cristo, lhe rendeu certos dissabores, mas lhe granjeou bonita canção. Por que acontece de relembrar coisas assim? Não ocorre sempre, meu caro. Somente quando há necessidade. Dispositivos intrínsecos são acionados por situações, nossos guias ou mesmo nosso es tado emotivo que

a isso aspira, gerando e reativando mecanismos que nos relegam à reprise de tais vivências. Eu mesmo, quando retornei à pátria maior, passei por idênt icas situações. Não tão rápido quanto você. Ainda não vislumbrei a necessidade disso, agora. Eu estava só querendo ajud ar...! Você tem bom coração, amigo. Embora imperfeito, como nós aqui, tens a bon dade e a honestidade em vosso íntimo. Isso gera efeitos positivos para qu em deseja alcançar o eterno amor. Como te encontras em processo de refazimento vez por outra relembras algo do passado, porque anseias por tanto, a fim de que, compree ndendo o pretérito, vos conformeis no presente, arquitetando melhoro futuro. Se observar melho r, verás que está sendo de grande Utilidade. E por que isso não acontecia enquanto eu estava na terra? Como não? Vai me dizer que esqueceu os sonhos, intuições ou mesmos pensa mentos vividos há tão pouco tempo? E algumas letras de tuas músicas?! Po r ventura não estão revestidas de alguns tópicos que já pudestes divisar após estar aqui? Luiz, Donato me chama de figlio, vez por outra. Traduzindo-se do italiano, é filho. Trata-me com carinho, tão característico de quem é pai. Ou de quem já foi! Aduzil Luiz Isso é efeito da simpatia, amigo. Donato é um espírito vivido, e como nós, antiquíssimo. Soube aproveitar melhor o t empo para amar, indistin-tamente, o seu próximo e com isso crescer moralmente. Você foi a razão de séculos de dedicação em seu auxílio. Quer dizer, meu anjo-de-guarda? Encarnado e desencarnado! Como nem sempre correspondemos aos avisos, co nselhos, proteção e orientação de nossos tutores mais avançados na senda moral da experiência infinita, queremos infringir, refazer, adulterar, provocar; enfim, donos da r azão, desejamos ser os irreverentes, os do contra, tudo e todos. Daí, nos dam os mal e criamos uma distância enorme entre nós e eles, que tanto nos amam. Lutar é a derrota! É necessário que entendamos que a vida é um projeto, uma for ça, uma maré, um afluente que nos conduz ao mar do aprendizado. Quando forçamos a barr a contra o que está disposto, sofremos; tal é a lei! - Fiz muita besteira, não foi? Fizemos, Ruggeri, fizemos! E como não há mais tempo para lamentarmos omissões ou atos inconscientes, resta-nos menos tempo a

inda para retomar o caminho extraviado, muito embora tenhamos a eternida de pela frente. Nossa parcela de culpa pelo mundo cstar assim é evidente, meu velho. Portanto, ca be-nos refazer conceitos e tracejar planos para novas empreitadas. Que tal entabularmos juntos nossas cartas náuticas? É uma boa idéia! Preciso de orientação e não sei como caminhar. Pensava que sabia muito da vida. Julgava-me acima dos meus amigos, parentes... até mesmo dos meus pais, embora procurasse respeitá-los na medida em que não me anulassem. Acreditava numa força que a tudo movia, a quem chamamos de Deus. Li muit a coisa a respeito. De tanto ler, acabei confuso, pois meus sentimentos eram uma verdadeira babel, entende? Queria o amor, mas creio que não soube amar. Depravei-me ! As palavras de Luiz eram sensatas. Curioso, prossegui: Desprezaste-te, este é o termo certo! A ignorância nos leva a cometer abuso s indizíveis. Valorizamos o que nos é externo, inclusive as pessoas e coisa s. Achamos que o amor está no próximo, nas paixões efêmeras ou nas coisas da matéria. Na verdade, se ele não estiver em nós, tudo o que vem do exterior nos parec erá insuficiente para nos suprir o equilíbrio, daí caímos no vazio, solidão, nos perdendo e m conjecturas absurdas, idealizando modelos de vida que não temos capacida de para ser ou manter, formulando relacionamentos que apenas forjam uma aparência do no sso verdadeiro eu interior. Logo, vem a depressão e somos abraçados pela s suas conseqüências funestas. Por que não encontrei você antes, cara? Se o conhecesse teria evitado inúmer os deslizes... Não se engane, Ruggeri, certamente não seria a mesma coisa. Eras uma estre la, camarada, vivendo numa constelação fictícia, onde só tinham acesso os parentes e afins. Mesmo que inadmitindo, mesmo tentando desfazer essa imagem que não eras ‘star, mas as pessoas assim o transformavam. Então, o resto seria o rest o, compreende? Ademais, diante de suas complicações interiores, decerto, logo ter-me-ia por paixão . Não podemos deixar de acrescentar o fato das experiências que vivenciou até bem pouco. Por isso lhe digo sem medo de errar, que tudo ocorreu no momento certo, po is a providência divina a tudo organiza. Não ouviu falar que não cai uma s

ó folha ao solo sem a vontade de nosso Pai? Você está certo. Uma coisa que não percebeu. A busca desesperada para compreender a sua si tuação atual, fê-lo distanciar-se da depressão e solidão em que vivias. Na tua fraqueza, reunistes forças, sozinho, para suplantar a dor. Na adversidade, procurastes a luz... Tive a ajuda de muitos...! Corrijo! Sempre tivestes tal ajuda... só não soubestes como dar atenção. Qua ndo desejastes, fervorosa e racionalmente, conseguistes o transporte do lodo da incúria humana, para o paraíso celeste da paz num piscar de olhos; e não entenda paraíso como o lugar que estamos! Deus ajuda a quem deseja sinceramente s er ajudado. Por isso muitos se equivocam quando crêem que estão salvos por abraçarem religiões ou seitas, quando a verdadeira salvação está na compr eensão de que só ascenderemos aos altiplanos do reino do Senhor, quando n os propusermos a crescer interiormente, fazendo renascer o Pai que vive em nós. É preciso q uerer, Ruggeri. Você o quis...! Agora, siga em frente!!! Compreendendo as palavras do bondoso amigo, abracei-o e chorei copiosamen te, desta vez, eivado de indecifrável emoção por assimilar que estava nos braços de Deus; da majestade a quem anatematizara como anti-cristão romano; em nome de quem lutara como cavaleiro da Ordem do Templo em tempos imemoriais; d o Pai que me abria as portas de Seu castelo celeste, desta vez, para servi-lO de outra forma... se m os metais, relâmpagos ou trovões, brasões ou ouro, mas com a razão e o cor ação. Luiz me convidou, amavelmente, a retornarmos ao labor do ambiente hospital ar. Sem pestanejar, tomei o esfregão e o balde e dispus-me a limpar poças biliares dos enfermos. Fi-lo me sentindo muito bem, compreendendo que não existem ele itos, há os que estacionam e os que desejam crescer espiritualmente e só o conseguem reformulando seus conceitos, que destroem os preconceitos estabelecidos, por aprendizad os deficientes ou mal compreendidos. O passado ensinando o presente

O egoísta só olha para trás, quando para visualizar o que plantou em riquezas e poder, mas nem sempre tem coerência e a coragem para colher o que semeou. A história nos ensina algo muito simples: que não devemos ser os mesmos de ontem! R.R. Os meus dias eram ganhos com trabalho, naquela instituição de amor frate rno. As pessoas não tinham descanso, laborando avidamente em busca de am enizar o sofrimento alheio. No meu caso, ainda sob a influência da matéria, sofria com minhas e nergias desequilibradas e as de outros enfermos, sentia fome, sede, vontade de dormir ou dores que iam e vinham de vez em quando. Um certo dia, estando ao lado de uma equipe que transferira, há pouco, um a pessoa praticamente dementada pelo uso excessivo de drogas, cheguei a p assar muito mal. Tonto, desfaleci, sendo acudido por uma enfermeira chamada Ruth que veio em meu auxílio. Ruggeri, acalme-se! Logo estarás bem. O que se passa? sinto-me mal...! meu Deus, não quero isso novamente! Calma, calma... tenha confiança! Logo a dor vai passar. reiterou, acolhen do-me junto ao colo. Vomitara muito, entremeado pelas náuseas abundantes. Mais calmo, observando a sujeira que havia provocado, desejei saber por qu e acontecera, afinal vinha labutando naquele hospital há meses, no sentido de minha reestruturação. Há tempos, não me sentia tão ruim, sobrevindo o temor de regredir a estados anteriores. Não se exalte, meu bem! Estais amparado. Suas reações nada mais são do qu e expurgo, lento e gradual, de resíduos tóxicos psico-materiais, acumulados em anos de abusos contra si. Estando aqui, aux iliando aqueles em pior estado, aos poucos és beneficiado pelo ambiente e energias balsâmicas circulantes o que, de vez em quando, o fará excretar tais venenos Compreend a, é necessário! Pensei que fosse morrer...! Só se for novamente! aduziu com humor, esboçando um sorriso mágico. Por hoje deve licenciarse. Chamarei Antônio, para que o conduza a seus aposen tos. Antes, levá-lo-á a um dos recantos da Estação a fim de refazer-se. Antônio era um moço muito bonito, alto, forte e musculoso. Fiquei encanta do. Prestimoso conduziume a um lugar distante de onde estávamos, dando a perceber que a

Estação dos Jasmins era composta de territórios, para mim ainda inexplorados. Tudo bem agora, Ruggeri? Quero que conheça a cascata do refazimento Gosto da natureza... Esta cascata é especial e por uma razão muito simples. O que nos parece só água, na verdade é misto de elementos químicos eterizados, provenientes d e uma colônia que está acima de nós, de onde recebemos o apoio energético e assistencial, necessários à convalescência dos enfermos do espírito. Onde realmente fica esta Estância? inquiri, sequioso por saber. Sediada nas regiões umbralinas, ou seja, próximas à crosta terrestre berço de energias turbulentas e nocivas, provenientes dos encarnados e desencarn ados que se comungam. Comparemos para melhor assimilação. A Estação dos Jasmins, d igamos, é uma espécie de laboratório submarino, uma enfermaria no meio da guerra mental dos humanos, cujo oceano é a atmosfera psíquica do globo. Então estamos dentro do inferno escatológico? Não como pensam as religiões terrenas. Infernos conscienciais e individua is que, somados por identidade de sentimentos ou paixões, tornam-se congl omerado de sofrimento. Veja se me faço compreender. Quando estavas no reino de Sodom, julgavate no inferno, não é mesmo? Assim imaginava. Pois bem, estando aqui se sente num verdadeiro paraíso, de certa forma, lo nge dos pesares daquele lugar de aprendizado, não é? Contudo, vossa estadi a lá dependeu de uma sintonia que só vós pudestes imprimir. Pensando ou sentido que esta vas num inferno, para lá se projetou. E uma questão de ser. A Consciência culpada reflete predis-posições que nos imantam a regiões onde se agrupam mentes, que refl etem anseios idênticos. Consciência liberta nos eleva aos nimbos da paz e felicidade. Se julgas que aqui é um bom lugar, o que não diria se estivesses nas regiões sup eriores, despidas do pesar e amargor, peculiares à terra e às regiões espirit uais circunvizinhas?! Que beleza! Então o éden existe em cada um de nós? Porém, não é à custa de compreensão que o atin-gimos. É preciso malhar, como se diz na linguagem terrena, para conquistar essa depuração. Só o fa zemos quando submetidos às provas e à escola reencarnatória. Há alguns espíritos que es tacionam aqui mesmo, desencarnados, fundeados por séculos a fio à mercê de

sua própria inferioridade, submetidos aos mais vexatórios estados de degradação espi ritual, ou porque não compreendem o rumo que devam tomar, ou por não que rerem evoluir. Outros, aqui mesmo, conseguem crescer no entendimento e auxílio aos desígnios do Pai, só reencarnando para resgatar da dor aqueles que lhes foram caros. Até mesmo Sodom, algum dia, reconhecerá os erros cometidos e, cansado, procurará, como muito s, a libertação. Assim como eu o fiz? Exato! Sabes me explicar por que, mesmo tendo atravessado aquele vale de infernai s, pude ser socorrido e, com uma certa facilidade, estar compreendendo as lições que me são passadas? Primeiro, permita-me retificar a sua posição quanto aos habitantes dos vale s. Infernais é um adjetivo inadequado, pesado, até! Diria: ignorantes morais . Os seres tornam-se infernais, como o disse, por completa ignorância, orgulho ou vaidade, porjulgarem-se superiores ou até mesmo superlativos em relação a Deus que nos criou. Sublevam-se a ponto de quererem conduzir os destinos das massas de espíritos, que ora se arvoram em torno do planeta, contra as leis preexist entes emanadas do Alto. Como exemplo, a história nos tem revelado inúmeros líderes que t omaram o poder no mundo, a fim de conduzi-lo ao desregramento à guerra e toda sorte de misérias, registrados no tempo. Fizemos parte disso? Podeis estar certo. Senão diretamente, como comparsas, mas indiretamente, como mandatários ou subalternos de tais mentes doentias, E mesmo que não o tenhamos feito, contribuímos para os desastres sociais individuais ou coletivos hoje, colhend o os reflexos de nossos atos de outrora. Daí por que assistimos, e até nos in confor mamos os desníveis sociais, miséria, desemprego, caos político, regimes dit atoriais, grandes cartéis, opressão trabalhista e outros fenômenos Corrosiv os a regerem o comportamento humano. Pena que ainda não aprendemos a nos unir, sem vi olência ou gravames, para combatermos pelo exemplo, tais situações adver sas criadas por nós mesmos, Perguntamos comumente: Quem criou isso ou aquilo? Quem o autor

de tais correntes de pensamentos? Quem o político, o sociólogo, o estad ista., quem? Ninguém, Ruggeri, Senão nós mesmos. Engolimos, no hodierno, o fruto semeado no pr etérito. Temos o que merecemos, disso tenhais certeza, Você acha que o mundo tem jeito? E o que dizer de Moisés, Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi e tant os outros? Não mudaram, Senão o mundo, mas milhões de seres, com o exemp lo? Por que não podemos nós fazer o mesmo? Já tivemos inúmeras oportunidades de contribu ir para a melhoria do globo. Ensimesmados, pusemos tudo a pique! Nossa e golatria exagerada, nos fez perder terreno para nossa própria insensatez. Como você é belo, Antônio. Em nossos círculos, daria um ótimo líder. Fal a como se tivesse intendência dos mecanismos sociais de renovação em mass a. Qual nada! Não sou ninguém. Após reconhecer meus erros, tive que recome çar do zero. Como eu disse, tivemos Oportunidade, Sob o efeito tonificante das cascatas que lavavam o meu ser, para mim de á gua límpida e geladinha, apesar das explicações de Antônio, pus-me a avali ar em silêncio as palavras dele. Estava no meio de gente bonita, principalmente homens, jovens e vigorosos, mas não sentia tão forte a propensão à sensualidade. Curioso quanto ao fato , resolvi então perguntar-lhe, o qual não se acanhou em esclarecer-me. Repito: tivemos nossas oportunidades, amigo. Quando em outra vida, fui o brigado, pela situação de miséria em que vivíamos, a abrigar-me sob o reg ime monástico. A clausura, me fez efeito contrário aos meus propósitos. Espírito materiali sta e ávido pelo mundanismo, por não encontrá-lo no interior dos muros da a badia, despertei para os companheiros do mesmo sexo. Latejava em meu íntimo a sede da bes tialidade. Como tudo era proibido, penitenciava-me, julgando que o diabo se apoderara de meu ser. Supliciava-me constantemente sob o guante doloroso do chicote c om argolas, que laceravam minha carne impura nas madrugadas reclusas. Tã o grande a minha dor íntima sob o peso da culpa, que extirpei o que julgava ser o mal, fazen do a ablação de meu membro sexual. Isso custou-me dores atrozes e clausura, em dias de isolamento do restante dos monges. Como se isso não bastasse, a sede de s exo não cessara e, enlouquecido, supliquei ao prior que me exorcizasse o

demônio. Não vendo outra solução e para que eu não contagiasse os demais, não vislumbrou ele o utra alternativa senão mandar-me às fogueiras inquisitoriais, sob a acusaçã o de que estava possuído por súcubos*. Padeci por quase um século nas trevas, amealhado a c orrentes de espíritos sexólatras, agonizando e sendo submetido a torturas i ndizíveis, sob o assédio de verdadeiros vampiros sexuais. Esse o resultado do meu des vio. Após muito penar, um dia, cansado de tanto sofrer, busquei na prece a solução para os meus desatinos, encontrando o amparo de meus guias, que me resgataram daquele angustioso pesar. Aos poucos, refazendo-me lentamente, consegui descobrir que minha propensão sexual fôra estimulada por almas credoras do passado distante qu e, não conseguindo perdoar-me os deslizes, por tê-las * N.M. Súcubos Espíritos femininos que, segundo a crença popular vinha copular Com os homens durante as madrugadas. Obsessores de natureza sexu al. compungido ao sexo desregrado e à falência moral, por esse mesmo motivo, assediaram-me por Séculos de perseguições assomado ao fato de que, inde vidamente, pelo abuso sexual, destrambelhei importantes centros de forças energéticas, que nos g eram o equilíbrio psiCoSSomático A clausura monástica me foi recurso de fu ga, todavia, ifleficaz Nossa! Isso daria um livro se escrito fosse. E como Conseguiu escapar a ess a perseguição? Pelo que vejo, nem a morte conseguiu livrá-lo. A morte não põe termo ao ódio semeado ou dívidas contraídas, quando não e xiste o perdão recíproco. A culpa me trouxe à razão, o que é muito raro. Reconhecidos os erros e as infrações contra os espíritos que estagiaram em corpos dos Sexo s feminino e masculino, pedi a Deus OPOrtunidades de reparação. Em outro século seguinte, nascera com aleijões. Noutro instante, já mais d esbastado pelo sofrimento reparador pude receber as almas que desviara no campo sexual, como filhas. Prestei-lhes amor e dedicação, ao lado de Companheiras que co mparti lharam as dificuldades nas romagens terrenas e, por fim, o restabel ecimento. Uma delas é Luzia. Ah, sim, a anestesiologista Meu Deus, que drama! Será que a minha trajetóri a foi assim? Não consigo lembrar de muita coisa, salvo que já fui jurista i mperial romano,

mulher e cavaleiro templário. Me parece que todos vocês sabem de si e dos outros. Lêem as mentes... Ler a mente é conquista. Tudo aqui se conquista Todavia, devemos também respeitar a individualidade e a privacidade de cada um. Mesmo podendo le r os pensamentos, não nos é permitido devassar o íntimo dos seres, escancarando suas portas. Temos nossas limitações. Quanto às suas reminiscências creio,já sabeis de m uita coisa em pouco tempo. Gostaria de poder descobrir mais. De vez em quando, sonho com imagens, cenas que talvez Possam também pertencer a esse passado enigmático. Isso faz parte de nossas vidas, Ruggeri, é algo inerente a nós, enquanto se res eternizados. Não forceis situações porém, deixeis que aconteça naturalme nte. A Deus cabe a permissão de descortinarmos o véu de outrora. Você ainda não me explicou por que não sinto propensão ao devaneio, pera nte os representantes do mesmo sexo. Fui um tanto depravado nesse aspecto . Cada caso é diferente. Cada ser é um universo e nenhuma situação é igual a outra. Não posso responder quanto a isso, pelo mínimo que já pude conhec er, contudo, posso adiantar-lhe que se procuramos lugares ou pessoas viciadas, irmanado s, tornamo-nos usinas de energias desconcertantes que vão tomando forma, c or, gosto, sons, vida e nos causando sensações escravizantes; lógico, quando as desviamos p ara finalidades nada elevadas, como é o caso da paixão e a sensualidade de sregrada; as conse-qüências são penosas. Pelo que sei, procurastes em vida lugares lúg ubres, visitados por encarnados e desencarnados com as mesmas aspirações. O que poderia esperar de uma sintonia desse tipo? Aqui, mais afastado da matéria, embora combalido por venenos organo-espirituais, provenientes dos abusos contra o vosso corpo fisico, não se poderia esperar resultado diverso, do que ser arrastado por to rrentes de viciações tão pecoliares e de maior força, num planeta de provas e expiações como a Terra, onde ainda predominam os instintos mais tenazes. Fiz-me co mpreender? Sim. Ainda assim gostaria de identificar a sede de meus desequilíbrios. Luiz Sérgio me contou que tivestes retrocognições de memória! É vero! rimos juntos.

Saibamos esperar. Nem tudo está ao nosso alcance ou é segundo nossa vont ade. Tentando desvendar certos mistérios, talvez apressemos um iminente d esequilíbrio. Bem, agora gostaria de convidá-lo ao agradecimento. Ah, como sou ingrato e descuidado. Claro! Muito obrigado por tudo. Você não entendeu, Ruggeri. Não é a mim que deveis agradecer, mas ao Su premo Provedor de todas as nossas necessidades. Deus...! É vero! Complementoume, Gargalhamos abraçados. Pensei algo, tão forte que Antônio OUViU o meu rumor mental, retrucando -me. Eu também o amo, Ruggeri! Deus nos ilumine e nos faça sentir nas fibras m ais íntimas que o amor não tem preconceitos e não é eimero. Ó Pai amantís simo, nos ampare e nos fortaleça o ânimo, abrindo-nos a consciência a fim de discernirmos q ue o verdadeiro amor é descartado das necessidades sexuais e que cabe a nó s, enquanto seres eternos, buscarmos a sua sublimação, tornandonos altruístas e fraternos. Somente nos conscientizando efetivaremos em nós Vossa morada, quão univer sos ilimitados que, algum dia, nos integraremos à grandeza de Vossa plenitude, culminando na verdadeira felicidade., a felicidade tão Sonhada. Obrigado, Senhor! Mu ito obrigado. Abandonamos aquele sitio de paz, deixando para trás a cachoeirinha de águ a benta e seu agradável som primaveril Aos Poucos descortinava aquilo que passara séculos procurando: o amor. A dor maior: não saber senti-la! Só dói quando queremos sentir dor entendem? Quando eu regredi no tempo, sempre estava acompanhado por alguém (não façam isso sozinhos!). Para mim foi necessário, porque eu busquei a dor. Queria saber algo do passado, mesmo inconscientemente. Senti bastante, mas entendi o porquê das minhas dúvidas , a causa da minha indecisão, o motivo do meu sofrimento. Aqui tenho aprendido: aquilo que mais tememos nos outros é o que mais e ncontramos como provas ou expiações. Só dói quando queremos!

R.R. Nas primeiras horas da manhã de um belo dia, saimos eu e Antônio em direç ão a outra localidade, ainda nos limites da Estância que, segundo o meu a companhante, era uma espécie de grande redoma energética, em meio ao denso mar de energia s revoltas da Terra. Logo, chegamos ao paraíso da recuperação; assim cha mavam o lugar. Era um lindo campo de relva verdíssima, florido por crisântemos de diversas cores, bastante arborizado, onde muitos seres deitados sobre a relva, rece biam transfusões energéticas fornecidas por Outros espíritos terapeutas, pela natureza, o sol, o ar, a água e, como não poderia deixar de ser, pelos vegetais. Instrumentistas executavam árias de arrepiar profun-damente a alma, tão b elas canções que me deixei emocionar. Segurei meu peito fortemente ao ser envolvido pela música, tão divinamente articulada. Mãos hábeis tinham o condão de enterne cer e acalentar os presentes. Os instrumentos espargiam luzes, tenuíssimas luminosidades a dispersarem..se em evoluções multicores Enquanto isso, médicos abnegado s exerciam o controle da situação de cada paciente. Chorei muito, intensa mente, a ponto de me sentir obrigado a buscar o gramado úmido como apoio. Não te aflijas, Ruggeri! esclareceume Antônio o que sentes é muito natura l nestas plagas. Aqui são trazidos aqueles que perderam a consciência, des armonizados com o cosmo interior. São criaturas que se arvoraram em destruidores de si , os quais perdendo as esperanças de suas vidas, suicidaram-se vorazmente, entregando-se a toda sorte de vícios. Eles desistiran! Sabeis o que é isso? Talvez seja por isso que estou me sentindo estranho. Não posso deixar de ver ificar: sou um deles, ora! O que mais degrada o mundo mental destes irmãos é a perda da auto-estima , a ausência de perdão incondicional de si mesmos. E o que o perdão tem a haver com tudo isso? Tudo. Venha comigo. Tentarei explicar melhor. Andamos por entre inúmeros seres. Alguns apresentavam-se em estado deplo rável. Outros, sequer tinham a forma humana, mais parecendo geléias. Veja o nosso querido Américo. Em vida terrena, homem saudável, família ri ca e tradicional, tinha uma sensibilidade aflorada. Na juventude dedicouse aos estudos e à pintura. Mais crescido porfiou pelos caminhos da música, meio de expre ssionismo preferido de seu ser. Contudo, era infeliz. E por quê? Achava qu

e o que procurava estava fora de si. Buscou isso parte de sua vida. Tudo o que fazia, rendialhe o necessário para sobreviver. A família ajudava. Tornou-se independente . Mas, com o tempo, imaginando que a sua felicidade estava nos prazeres mundanos, opto u pelos caminhos escusos do álcool, drogas e sexo desregrado, neles almej ando afogar os anseios incontidos. Foram anos de conduta anormal. Gastou suas reservas vita is em devaneios. Resultado: não achou a tal felicidade e terá que lutar por ela de outra maneira, caminhando dolorosamente por experiências mais longas, em Séculos de reencarnes obrigatórios de restruturação psicofisica. Todos, sem exceção, ao reencarnarmos, ou seja, retomarmos corpos fisico s, só o podemos graças a um outro corpo, espécie de roupagem meio materi al, a que chamamos perispírito, modelado segundo nossa vontade, quando mais evoluídos ou segu ndo os desígnios da Lei de causa e efeito, contabilizada automaticamente, nossas virtudes, vícios e defeitos, resultantes das diversas incursões terrenas. Esse molde, organizado de acordo com as necessidades de cada um, é dotado de uma cota energética a que os hindus antigos já conheciam por prãna. Reencarnados, nossos ato s, pensamentos e palavras vão remodelando ou degradando esse corpo semim aterial, conseqüentemente, refazendo ou esgotando essa cota de energia. Quem se atira em vícios de qu alquer ordem, por exemplo, solapa o perispírito de tal maneira que, desgas tado, transforma-se no que vemos à nossa frente, o exemplo: Américo. Meu Deus! E por que não sabemos disso? Por que não nos contam tais cois as? Existem literaturas e ensinamentos antigos e recentes que nos deram essas informações, amigo. Todavia, o preconceito, o descaso e a prepotência, tã o humanas, não nos permitiram assimilar tais fatos. Ainda hoje alguns preferem qualificá-la s de heresia, enveredando pela crença de que a religião, o batismo ou a beat ificação salvam a alma do inferno consciencial. Entendo, ... a luz da verdade é o que nos causa espanto... o descaso é o que nos aprisiona.., a estupidez é o que nos destrói!... mas, por que não tenho o meu perispírito desgastado como o deste moço?

Tudo é relativo à soma de fatores que presidem a vida individual. A contab ilidade divina funciona tal qual mecanismo automático, inerente aos seres, onde as transmutações se processam de maneira justa, ou seja, de maneira que ninguém será punid o por Deus, mas por si mesmo. Cada ato, mentalização, palavra que emitimo s, gera resultados bons ou maus, positivos ou negativos, construtivos ou destruidores, que nos impulsionam aos páramos celestiais ou nos arrastam aos suplícios da culpa. O seu caso não é diferente. Ocorre que fostes generoso, amigo e leal. Suas intenções lh e rendiam atos de compaixão. E isso lhe originou fortaleza e créditos pessoa is. Que reservas são essas de que falas? Contemplei penalizado a forma de Américo. Não sabia que poderíamos nos d egradar a tal ponto. Subitamente, chegou próximo de nós o Luiz Sérgio, c om sua alegria contagiante: Buon giorno! Bom dia, gozador. Estava com saudades. - Disse-lhe com efusividade Abra çounos Que bom que estão aqui. O que fazem? Trouxe Ruggeri para conhecer um pouco mais sobre a Estação dos Jasmins. Arrematou Atôjo, Cara, estou pasmo! expresse i-rne embasbacado Isso ainda não é tudo, Ruggeri, Dá para perceber como você é feliz e não sa bia? Gesticulei Positivamente para ele, com os olhos marejados. Gostaria de dar um passeio? perguntou Luiz. Concordei. Após nos despedirmos de Antôjo, Luiz me levou a um dos extre mos da Estância. Ruggeri, como o seu processo de aprendizado e adaptação está sendo promis sor, recebi permissão de ir com você a um lugar que, certamente, será de muita importância. Desejaria ir comigo? Se for para o meu equilíbrio sim. Além do mais, adoro a tua companhiia. Luiz me abraçou e disse para fechar os olhos, colocando sua destra em torn o da minha cabeça, sugerindo que pensasse em algo que me traduzisse felici dade. Pensei no meu filho. Luis entabulou uma prece, e em breve não senti mais o chão que pisávamos Disse-me para ter coragem e que não me importasse com nada, por momentos. Obe deci prontamente Senti o vento forte abanar meu rosto, parecendo que est ávamos, literalmente,

voando. Embora a curiosidade, não ousei abrir os olhos. Para minha surpresa, quando abri os olhos, eStá Vamos num lugar tão calm o quanto o que havíamos deixado para trás, pousados Cara, que legal! Voamos? Você tem asas? Onde estamos? Não tenho asas, mas aprendi a impulsionar uma força interior que me permi te, como espírito eterno e liberto temporariamente do veículo Lamal, alçar vôos pelo espaço cósmico. A isso chamamos volitaç ão. Coisa de hindus? Não; coisa do espírito, Ruggeri Rubens. Você também será capaz; dissc. E questão de treino, mente firme e tempo. Perguntou -me onde estamos. Dece rto não reconhecerias. Pedistes aos vossos parentes, antes de desencarnar, que te espalhassem aqui. Cara... não me diga...! Eles cumpriram mesmo minha vontade? Sim. Ajoelhei-me, olhando para todos os lados, apalpando fortemente a terra, be rrando feito criança em prantos, como se quisesse me encontrar naquele cam po. Luiz, impassível, me observava. Olhava para ele, me sentindo entre pesaroso e feliz. Seus ol hos brilhavam e percebi que deixou escorrer uma densa lágrima de seu olho esquerdo. Disse-me: Haja o que houver, eu amo você! Mal terminara a frase, senti tudo girar à minha volta. Parecia que o mund o houvera desabado sobre mim. Vi-me participando de cenas, desta vez, emp avonado em roupas típicas do século XIX. Era um homem. Por momentos, que não sei precisar o tempo, contemplei minh a trajetória no que me parecia uma de minhas vi das pretéritas. Apaixonei-me por uma mulher casada, o que gerou polêmicas. Amei -a ela, não podia ser... ! ela era ele, o homem do passado a quen-i eu amei e por ele, deixei a vida num suicídio. Meu Deus! Que loucura! Estava ficando louco. Só podia ser is so: louco! Nossas vidas foram conturbadas. Recebi muitas críticas. Indigna do, resolvi vingar-me da sociedade medíocre e hipócrita. Escrevi romances. Em minha verve de ind ignado social, a pena foi a arma de minhas catarses. Tentei mostrar que o amor não tinha barreiras, muito embora, segui-ido a minha visão. Podemos amar, amar e a mar, e daí? Eu amei ... nos amamos.., que têm com isso? Deixem-me em paz ! Sou livre para amar. Reencontrei o meu amor. Em corpo de mulher.., mas reencontrei. Caí

doente.., problemas.., todos me abandonaram. Sinto dores. Sangue! Vou mo rrer... estou morrendo... e essa tosse que nã para! Cheguei ao fim daquela vida. Não! Estou perdendo v ocê flovamente Não., me deixe...! Ruggeri! Tudo bem? alertou-me Luiz Sérgio, sentado ao meu lado. Tocou me o ombro e afagou-me os cabelos. Cara, que viagem! Não precisei nem das drogas para isso. Estarei ficando l ouco? Diga-me, estou pirado? Já devia saber que isso aconteceria outras vezes. Foi avisado. Precisa apre nder a enfrentar isso com mais naturalidade, apesar de saber que é dificil. Quando trespassamos para este plano, imaginamos que tudo não passa de sonho., ou pesadelo, Comi go não foi diferente. as, o que tem vivenciado até agora é a sua história p essoal, os seus arquivos., seus filmes. Você é o ator, e tenha certeza, as drogas nunca foram nem nunca serão necessárias à liberdade dos espíritos de Deus, O que vistes foi a mais pura realidade do que fostes em lempos idos. À mercê da bondade do Pai, reencontrastes um dos elos perdidos, um amor de outrora, um espírit o com quem te identificavas em sintonia, Que importaram os corpos? Os espíritos eram os mesmos. Tu e e le, ele e tu.., VÓS! Que lições podeis captar disso? Que o mais importante é a força do amor...? Sim. Aprende depressa. E sabe por quê? Por que já portavas tais noções, por isso a sensação do que já sabia. Todavia, o orgulho, a vaidade e a vã pret ensão de que és infalível, mesmo que digas em contrário, o tem tolhido na percepção de h orizontes mais largos. Quantas e quantas vezes o teu guia, Donato, te acons elhou, orientou, inspirou e vos dirigiu ao encontro de tais Verdades? Nessa última reencarna ção, da qual regressastes há pouco, por mercê de Nosso Pai, deixastes o cor po carnal muito cedo, Teria mais 22 anos pela frente de cota vital, não fossem os abusos, De spejastes em ti terríveis venenos, mentais ou fisicos, destruindoo teu templ o sagrado de aprendizado: o corpo, O reajustamento com ele, o espírito, fazia-se nece ssário. Quando de Outros reencontros, os abusos sexuais ou de outras ordens , lhes refletiram uma convivência desarniônica Juntos, como homens, embora amando-se de lon gas datas, quiseram, identicamente, transgredir leis universais que regem a sexualidade

dos encarnados, transmudando o que poderia ser um amor altruísta, em perversão degradada pela sensualidade, o que não aconteceu no século pass ado, quando voltaram juntos mais uma vez, sendo que vós assumiStes a toga de um famoso escritor brasileiro e ele, a vossa amada companheira. Busquei amá-lo, mas não respeitei os limites de nossas con Amar na mais lídima acepção do termo, não implica infringir leis naturais. Os di ferentes sexos são estados momentâneos, contingências que Deus, justo Cread or, ofertou-nos para a propagação da espécie, permuta salutar de energias e reorganizaçã o dos seres. Homem e homem, mulher e mulher, podem pois se amarem, contu do, respeitando os limites, as regras, as leis, a disciplina, estatuídos pelo Eterno, para a feli cidade mútua. Fora isso, incorremos no abuso e todo abuso terá o retorno contr ário. - Nada de sermos licenciosos sexualmente? Complementastes bem. Desde tempos imemoriais, o homem arvora-se em senho r de si, relegando as leis divinas a planos de preterição. A fisica nos m ostra que cada corpo ocupa um lugar no espaço. Demonstra-nos que tudo gira comandado po r leis, tal como a gravidade, por exemplo. A química nos prova que deter minados sentimentos causam-nos reações orgânicas, fusões ou emulações de hormônios. As leis e spirituais nos dizem que os afins se atraem, sendo isso uma das formas do que podemos chamar de amor. Logo, deduziremos que os seres humanos, porquanto espíritos que sã o, podem se atrair, gostar um do outro, amar-se até, mas respeitando os lim ites do natural, caminhando pela retidão de fronteiras que não é dado ao homem transpor, so b pena da infringência de dispositivos naturais que estão aí por todo o sempre. Agi errado... Meditei um pouco. Luiz Sérgio me trouxera onde pedi que espalhassem as ci nzas do meu corpo cremado. Ali se extinguira Ruggeri Rubens, o fenômeno, o mito, a estrela; a ilusão acabara... Deparei-me, após, com o resultado funesto daquilo que construí, apesar de sempre ter em mente que fora autêntico, polemizador, irreverente e sem pre conceitos. Vivi o que preguei, utilizei minha imagem para influenciar multidões, mas, o qu e realmente havia legado às pessoas? Qual a verdadeira imagem que tiveram do que fui? Algo de bom,

de mal, o quê? E minha transgressão aos limites de que falara Luiz Sérgi o? Não teria causado uma reação antagônica de efeitos devastadores em muitas pessoas? Pelo que vira até então, o amor que eu buscara estava, mais uma vez, distante de mi m e aquele espírito a quem tanto procurei, não mais estava a meu lado. Onde estaria então? Em você, meu querido! Somente em você. A resposta esteve sempre contigo. Como seres falíveis e imperfeitos, ainda conduzimos o relacionamento in ter-pessoal com uma liberdade travestida em aprisionamento. É tanto que dizemos a todo mundo : esta é minha mulher, este é meu marido, aquela é minha namorada, esse é o meu namorado. Posse! Prisão! Grilhões! É isso a que relegamos noSSos irmãos de jornada . Queremos impor, limitar, cativar sufocando. Eis o amor que conhecemos tão bem. Não o amor que liberta, que compreende, que perdoa, que supera, que vivifica... esta mos em outra realidade. Quando eu disse que o amor estava em você, é porq ue somente Você poderá liberar a quem procura, da prisão do passado. Como assim? Embaraceime Naquela existência, como renomado membro literário, o romance entre ambos foi motivo de escândalos. Ela era casada e não terias o direito de tirá-la do convívio do lar em que vivia, salvo se eles, os cônjuges, o desfizessem por litígio judicial ou acordo mútuo. Mesmo assim, ambos resolveram infringir os padrõe s sociais da época, e vossa irreverência em muito contribuiu para tanto. Queria-a, não i mportava os conceitos ou limites. Aprisionavaa pela tua força de sentimento Existem prisões de sentimentos, sabia? Portanto, é por essa razão que ainda hoje tentas agril hoar esse espirito à força de teu amor possessivo. Comece a pensar em libertá -lo e libertar-se. Entenda-me, não o julgo, apenas o esclareço. Mas, como? Quem é ele? onde está...? Não sei o que fazer, Luiz, eu só que ro encontrar o amor! Alguns crescem mais rápido que outros, Ruggeri, e é nessa ciranda que no s projetamos para a eternidade, em ascensão ou estacionários. Aqueles que avançam, dão suporte aos retrógrados. Os mais abnegados, até descem de sua escalada para resgatar os amores que fica ram no limo da inércia, tal é a piedade. Continuo sem compreender...

Queres respostas, é isso. Elas estão dentro de você. O amor está dentro de ti... liberte-o., liberte-se! As lágrimas fluíam em cascatas de emotividade. As palavras de Luiz Sérgio , apropriadas ao meu esclarecimento fizeram-me, enfim, enxergar alguns er ros que cometera. A medida que falara, eu vira quadros mentais de minhas ignomínias para co m aquele espírito, a quem alcunhara de ele. Fora minha mulher, ultimament e, para que eu a amasse, daquela vez, tentando reeducar meus instintos e sentimentos, inde pendente de sexo. Creio que desejas que eu sinta algo mais do que posso assimilar. Nada demais, meu querido Ruggeri. É tão simples. Você tem muito amor par a ofertar. Veja o que tem feito nesse tempo em que trabalhou junto aos en fermos; quanto ajudastes sem nada exigir?! Eis aí a chave do mistério: é dando que recebemo s... Calei-me para receber o ensinamento que fora do apóstolo da Umbria*. .Realmente, só tenho recebido satisfação até agora. Então, meu amigo, nada te exigimos em troca, a não ser presenciarmos o teu reequilíbrio. Enveredando por essa estrada de luz, aos poucos libertar-te-á s dessa prisão amorosa, onde uma única criatura valeu tantos sacrificios de tua parte. Ess e amor, que todos nós convidamos você a sentir, é o universo! Luiz me abraçou e choramos juntos. A luz da fraternidade percorrera profu ndamente o meu ser, depositando no meu coração sofrido pela estupidez pró pria, a semente da esperança no amanhã. * N.M. Referência à São Francisco de Assis, natural da região da Úmbria Itá lia Renascido das cinzas Não nascemos para semente, tal o adágio. É verdade! Entre morrer e nasce r nada há de segredo nisso. A cada segundo nasce ou morre alguém no mund o. Ter consciência de que só levamos como bagagem aquilo que aprendemos no exercício do be m ou do mal, e o que sentimos por dentro em relação a isso, é o que faz a diferença para Deus. R.R. Sentados sobre a relva, ainda umedecida pelo orvalho noturno, ficamos em diálogo por algum tempo. Num dado momento, inquiri a Luiz Sé

rgio: Amigo, além da regressão que tive, por que me trouxe até aqui? A lembrança em nada mudaria o vosso íntimo, se não atingisse em cheio o â mago de seu espírito eterno. Aquilo foi o passado. Mas agora, aqui sentad os neste campo, consegues detectar algo de ti no presente? Olhei à minha volta. Tentei refletir sobre o que dissera o companheiro, mas não consegui enxergar nada de mim ali. É óbvio, Ruggeri! O que fostes não está mais aqui. Cinzas de um pretérito quase imperfeito. Partículas da poeira do que foi vosso corpo já foram reab sorvidas pela mãe terra. Do pó viemos... ao pó retornaremos em relação ao que é da matéri a, tal é a lei! Tudo se transforma na natureza, nada se perde. Filosofias, b em o sei. Contudo, a melhor filosofia é aquela que podemos compreender e exercitar pela sua prática. Como não há mais tempo em filosofarmos para o vento, ei s que é chegado o momento de praticar, buscando a compreensão pelo exercício da melhor fil osofia: amar! O que sentes é o vazio que deixastes para trás. Nada há mais do que foi Ruggeri, senão o legado que essa personagem deixou na mente e corações de milhões. Doravante, o que cristalizastes, assimilado por cada um de acordo com su as possibilidades, é terreno que não mais te pertence. Querias ser um cantor de rock e a conseqü ência de tal proeza, se fizesse sucesso, inevitavelmente, seria a fama, a riq ueza, a glória, que também o relegariam ao mar da solidão acompanhada. Por mais q ue tivesses amigos, parentes e o laurel do sucesso, o íntimo reclamava co mo ser humano. Icone, milhares de ifis depositavam em ti suas aspirações e temores, revelad as em tuas letras, em idêntica simbiose. Logo, fostes o depositário de múlti plos anseios, assomados aos teus ainda não resolvidos. Entende o que quero dizer? Gesticulei positivamente. Ele continuou. Não sendo o bastante, por não solucionado o pretérito de amarguras e trau mas sofridos, empreendestes em vós a decisão de nunca mais reencarnar com o mulher. Querias ser homem, mas dentro de ti existia ainda uma ferida não curada. Passastes séculos querendo reencontrar o vosso amor, perdido na noite dos tempos. A tua sedição trouxe desequilíbrios incontáveis. Mesmo assim, a sabedoria divina se valeu

de tuas aflições para tirar frutos incomparáveis. Como escritor, também de ixastes obras fantásticas que buscaram quebrantar a rudeza dos corações humanos, e niss o podemos deslumbrar a grandeza de Deus. Até na adversidade se pode extra ir a beleza. Sem que soubésseis, fostes um agente do Criador a frutificar os pães da vida. Quem fui então? Por que não me lembro com nitidez? Isso não importa mais, Ruggeri! Quem somos nós, quem deixamos de ser, q uais nossas posições, o que fizemos de bom ou de ruim., isso realmente n ão importa. De que vale sabermos se fomos reis ou plebeus, se não semeamos o bem? Decer to, de quando em vez, Deus nos permite entrevermos algo, mas devemos tir ar lições. Em tão pouco tempo, rasgos de memória já te deram chaves a alguns dos teus proble mas. Já fostes contra e a favor de Deus como pretor e cavaleiro templário; encontrastes a sede de vossos desequilíbrios atuais, consubstanciada na estadia desastrad a como ente feminino, sabes que fostes escritor e que tuas obras, ainda hoje , têm influência no seio das sociedades e, por fim, vês agora que não és mais um astro do rock e que para reencontrares tua felicidade hás de obser var o passado, continuando doravante numa nova senda de trabalho, suplican do ao Pai para resgatar possíveis erros e ‘desenganos que disseminou, libertando-se, por f im, das amarras do amor possessivo, dando lugar ao amor fraterno... o verda deiro! Fiz algo de errado, enquanto astro do rock? Pensei estar fazendo um bem pa ra a sociedade e para a minha geração. Indubitavelmente, meu chapa! Fizestes muito bem. Desde os anos 60 com o movimento dos Beattles, instalou-se uma revolução mundial para a refo rma do mundo, coroada não pela realeza, mas por súditos simples que se transformaram em reis. Da í, quantos e quantos não surgiram em nome desse estigma, dessa idéia? Toda via, existe o lado negro do ser humano: o inconseqüente! Alguns vêm com a sublime missã o de suportar nas costas os erros e desacertos dos homens. Não raro, falh am. E por quê? Porque é dificil suportar a carga emocional oriunda de milhões de seres de strambelhados, tal como um rebanho que necessita de condutores. O artista, principalmente o músico, tem uma insofismável tarefa de ser o condutor de rebanhos, de trib os e quando ele não tem o sustentáculo moral e espiritual que lhe fortaleça

o reino íntimo, despenca desastradamente no abismo da ilusão. Têm surgido tantos e tantos p astores! Suas condutas, seu modo de vestir, seus trejeitos e até suas ideol ogias, transformaram o comportamento de seus súditos. Há um detalhe que precisa ser mencionad o. Como na essência o ser humano ainda é atrasado moralmente, lógico, ap ega-se ao lado pemicioso, ao que é degradante, ao que o destrói. Mirando-se no exemplo dos Beatles, com eles vieram as metamorfoses sociais, a quebra de costumes arcaicos e o rebentar de preconceitos mendazes. Mas vieram também os exemplos dos vícios, a introd ução das drogas no seio da música, onde para se obter o nirvana na arte d e compor, era preciso recorrer ao uso de tóxicos e álcool. Com os Rolling Stones, veio a frase: Sexo, drogas e rockandroll, num brado convocador, cujo lema era a li bertinagem sem mesclas, O que mais poderíamos esperar de uma turba de jovens que mal saíam da adolescência, na época, verem seus ídolos proclamarem que o cer to era isso: sexo desregrado e ilimitado, uso de morfina, LSD e rock na cabeça? O que se pod eria esperar, diga-me? Preservei o Silêncio, Luiz Sérgio estava com a razão. Tive minha cota de responsabilidade nesse processo, Chorava enquanto ele falava. Sentia-me u m menino sendo repreendido pelo pai. E tal não bastasse, como uma onda, outros jovens enfurna ram-se em suas g aragens, compondo tocando e se drogando, para imitar os seus ídolos, pois , segundo acreditavam iriam revolucionar o mundo como eles, os mestres, o fizeram. Logo, a juve ntude se atirou em busca dos sonhos de fama e sucesso, pensando mais nele s do que no mundo. Hoje, os que iniciaram os movimentos estão envelhecidos, muitos deles já n em se drogam e os filhos do sucesso estão sós, desnorteados. Outros ídolos até mesmo nem mais Ouvem rockandroll, por saturados Se olhassem para trás, veriam o rastro de desolação que deixaram pelo caminho, Assim como existem dita dores, maus governantes, políticos desonestos, temos, de forma idêntica, músicos e artistas inconsci entes desconhecendo que são verdadeiras antenas ligadas com o eterno, a cap tar-lhe não só sinais de bons pensamentos e filosofias produtivas, mas idéias ou egré goras* viciadas que estão em volta do planeta, como imenso mar de desvari

os. Não podemos duvidar que enquanto existem aqueles que lutam pelo equilíbrio da imensa massa humana, há os que dela sobrevivem e auferem suas Posições de mand o, às custas da ignorância daqueles que os nutrem, Fiz muito mal... Não é bem assim. Como artista, lado sensível do espírito humano, tinhas um a missão, tracejada ainda aqui no plano espiritual, antes de reencamardes S ua tarefa consistia em fazer com que a juventude preservasse a integridade moral, pa ra Suportar a tempestade que ainda deverá assolar as nações. Falo da tempe stade moral, pois o que resta em nosso país e no mundo é a estrita falta de ética e frater nidade, o jovem unido, Consciente e esclarecido dificilmente será derrotado E sse o espírito de tua missão. As letras iniciais de tua carreira foram marcos indeléveis, ir reverentes concitadoras A Espiritualidade valeu-se delas para destilar luzes de ensinamentos através de ti, revestidas em tom de juvenília. O soldado diante da refrega, porém, é passível de falência. Não suportando, daí vieram as drogas, a bebid a, o fumo e a solidão. Fiz errado em declarar-me homossexual em público?! Não vi erro nisso. Adolf Hitler professava que estava agindo segundo a vontade de Deus! Decla rar aos outros ser homossexual, não foi bem a questão. O problema residiu no atirar-se à perversão do que não é natural, como símbolo de liberdade. A liberdade exige respeito que, quase sempre, não sabemos preservar. Amar ou não am ar alguém, seja homem ou mulher, não estabelece limites, salvo os das leis naturais. Após século s de machismo e dominação ‘macho sobre a fêmea da espécie, nem a mulher so ube se libertar ainda, quanto mais os espíritos essencialmente femininos em corpos de mulh er e vice-versa. Complicou! Espíritos essencialmente femininos...? O seu caso, por exemplo. Tens a essência da candura feminina desde muit os séculos, por uma fixação psicológica num determinado ponto, num deter minado sofrimento. Mas por sofrer pela incúria dos homens, resolvestes, a partir disso, não ma is adotar corpos femininos. Quer dizer, fostes de encontro ao muro de um pr econceito vosso, que lhe moldou reencarnações de desequilíbrios. Mesmo assim, continuaste

s à procura do amor perdido, em corpos masculinos. Muitos, por problemas de traumas, perversões, abusos, dificuldades de relacionamentos, obsessões e outros fatores psicos sociais, se debatem em dores atrozes, pela inconformação com seus estados atuais de aprendizado. Ou seja, quem desrespeitou os limites para com o sexo oposto, agora se vê e m estágios probatórios, sentindo propensão a buscar espíritos afins que, mu itas vezes, estão residindo temporariamente em templos do mesmo sexo, falando do seu caso, em particular. Enquanto encarnado, declarando-se homem, tinha uma propensão às figuras do mesmo sexo. Não estando resolvido, ou melhor, não aceitando a tua condiç ão, querias encontrar o amor, aqui, ali, acolá... não importava; queria o a mor. Destarte os esforços, convido-o, doravante, a observar melhor a bondade divina. H abitando a casa que nos é oferecida, usemos, cuidemos, mas não abusemos. O que vemos daqui do plano espiritual, é que muitos que se encontram em idênticas situações, querem se atirar à depravação sexual, confundindo o sexo com o amor. Liberdade não está nisso, está no amor verdadeiro. Pa ra amarmos pessoas do mesmo sexo não precisamos ir de encontro à natureza intrínseca. Exempl o disso, eu o amo e nem por isso o desejo sexualmente Jesus amava os após tolos e nem por isso fez sexo com eles. Só o amor, o puro e inquebranj amor, é o elo de liga ção entre os seres, e não pelo fato de freqüentarmos bares ou lugares destin ados somente a GLSs*, que vamos conseguir mudar a cabeça do mundo, lavando as mentes do preconceito devasta- dor, que só nos retarda a caminhada, Começo a entendêlo, e vi que não me portei muito bem mesmo! Por Deus, não me veja como juiz. Só almejo que entendais que o mote de no ssa conversa reside no respeito às leis naturais, sem abusos, sem excessos . A transformação do ser se dá quando ele Consegue entender isso. Não podemos atingir a lib ertação de nossos vícios sexuais, simplesmente nos enclausurando em monas térios, ocultos por hábitos templários ou cousa que o valha. É preciso ir ao combate, ao bo m combate contra nossas viciações, entregandonos à prática da caridade, que nos tornará, com o tempo, seres mais seguros de si pelo amor que edifica e transforma . Não há como vencer o vício, se não tivermos boa vontade em nos modific armos. Não há como

atingir a plenitude e reencontrar o verdadeiro amor, se o procuramos nos ou tros. Você tem muito amor, Ruggeri, basta-te somente que o distribua, não d e forma distorcida, buscando os baixios da vida, onde o epicurismo é a fonte de toda a desgraça . Sublimar eis a forma de o conseguir. E eu que pensei que fazia tudo certo. Percebo que minha libertinagem não s e confunde com a liberdade. E por isso que fui parar naquele lugar de treva s, não é? Lugar que cultivamos, inconscientemente quando imersos no escafandro da c arne. Passamos uma vida inteira nos ocultando na cortina fisica. Qualquer liberdade que temos como espíritos, procu N.M G.L.S. Simbolo atual para grupos socialme nte discriminados Significa: Gays, Lésbicas e Simpc#jzan (es 1o7 ramos os lugares e as pessoas que se nos assemelham em sentimentos, pensa mentos ou ideais. Assim, quando partimos da terra, finalmente, nossos sem elhantes espirituais nos caçam e nos aprisionam, nesses lugares que louvamos durante nossas e xistências. Lembra-se das milhares de bolas escuras que vimos no reino d e Sodom? Sim, lembro... Aqueles eram encarnados que, diariamente, ao cair da madrugada, desprendia m-se dos corpos que repousavam nos leitos terrenos, enquanto seus espírito s, donos de si, buscavam avidamente os undergrounds no plano espiritual. Falei bonito o in glês, professor? Caímos em gostosas risadas, muito embora meu coração estivesse ainda opr imido, pelas sementes que atirei no mundo. Abracei-o sem temores. Começava a sentir o que ele dizia. O amor não se confundia com o instinto; estava muito além disso. Luiz era alguém que nunca ouvira falar em vida, muito embora tivesse a nítida impressão de conhecê-lo de longas datas. Fu i socorrido por pessoas que julgava também não conhecer, mas que, indepen dente de agradecimentos ou retornos, cuidaram de mim desveladamente. Residia aí a pureza que, até então, não conseguira apreender. Vi a necessidade de reformular-me, para s air da modorra espiritual de outrora. Luiz, gostaria de te pedir um favor. Pode chutar que eu defendo! Não me abandonem! Preciso de vocês todos.

Precisa de Deus! Somos apenas coadjuvantes. Tens que descobri-lO em ti. D eus é o amor e é isso que estais em busca. Nós todos... mas, não temais. E stamos juntos... eu, você., milhares, bilhões. Somos uma imensa legião, de uma megalópole chamada Terra, interessados em promover a paz e a reconciliação de espíri tos multimi-lenares. Precisamos seguir adiante. Tenhais a certeza de que eu não o deixarei em p az! Tornei-me seu obsessor. Assustei-me quando senti que não estávamos sós. Eram Donato e Amália, q ue haviam chegado furtivamente. Aquele levantou-me da relva e, em copio so pranto choramos ungidos num caloroso abraço, acompanhados por Amália e Luís Sérgio. Figlio, Deus o ilumine em sua nova jornada. Quanto tempo esperamos pacien temente, por este instante. Era preciso que você passasse por experiências , sem as quais jamais saberias valorizar as oportunidade ofertadas pelo Excelso Pai. Serei eternamente grato a ti e aos amigos que encontrei. Amália me abraç ou fortemente. Senti sua ternura por mim. Eu pedi ao Luiz que nunca me ab an-donasse mas creio que vocês também não me aban-donarão Tenhais a certeza disso! retrucou a bondosa amiga. Viemos de passado lo ngínquo e, por imposições de nossas caminhadas pessoais na evolução do esp írito, tivemos que nos separar temporariamente. Deus, O justo por excelência nos permiti u, ao longo dos séculos, estarmos sempre juntos nos apoiando, para que as montanhas não se fizessem íngremes demais. Conte com nossa amizade e amor, Ruggeri. Ia perguntar quem eram eles, mas dei conta de que Luiz havia desaparecido. Onde está o Luiz? Parece um fantasma! O dever o chamou, meu filho. Luiz é um trabalhador muito ocupado nas tare fas de auxílio à juventude do Brasil. É alma querida e valiosa na senda da disseminação do amor através da razão. Atalhou Donato. Fco a pensar que relações de simpatia teria comigo. Percebendome a curiosidade premente, Donato e Amália me convidaram a seg ui-los em breve passeio. De mãos dadas, nos elevamos do solo terrestre, e varando as nuvens, em curto espaço de tempo chegamos a uma espécie de cidadela incrustada e m meio aos cúmulos, pintados pelo cinza da época chuvosa. Ao chegarnos fomos recebidos por uma pessoa que já nos aguardava. Tive a sensação de já

conhecê-lo. Cumprimentamo-nos Este é Pádua, o dirigente da fonte da sabedoria, este aprazível local de p az e conhecimento em que ora aportamos. Esclareceume Amália. Sejam bem-vindos Ruggeri, faça desta casa o seu lar. Estaremos prontos para recebê-lo quantas vezes desejar vir aqui. Agradeci a hospitalidade. O dirigente, então, me conduziu em breve passei o de reconhecimento pela estação de alvura sublime. Tudo era tingido de b ranco como as nuvens, construções baixas, jardins, caminhos e bosques recheados de pássaros multi cores. Chegamos aum prédio muito bonito, simploriamente decorado, poucos móveis, reinando absoluto silêncio. Somente o sibilar do vento por entre as jane las quebran-tavam a quietude. Por fim, uma imensa biblioteca com milhões de títulos me foi ap resentada. Por isso aqui é conhecido como fonte da sabedoria? sussurrei. Sim, respondeu-me Pádua aqui estão colecionadas as mais valorosas obra s do conhecimento humano, captadas em séculos de vivência. Existem outras instituições similares espalhadas pelo globo. Pedi permissão para apreciar o lugar, ao que me deixaram à vontade. Passei a vista em inúmeros livros, lindos de tão bem confeccionados. Detive minh a visão em alguns livrinhos que me pareceram interessantes, pois brilhavam mais do que os out ros, como se fossem pirilampos. Eram obras espíritas e espiritualistas, mui tas das quais transcritas pelo médium Francisco Cândido Xavier, o conhecido Chico e out ros tantos. Os evangelhos espargiam luminescência áureo-azulada, destacan do-se mais ainda. Sorri de satisfação, olhando para os amigos. Eram centenas.., milhares! Continuando, encontrei livros escritos por alguém que aprendera em pouco te mpo a estimar e respeitar, por sua sensibilidade e carisma inigualáveis: Lu iz Sérgio. Apressadamente fui tirando um a um, enquanto meus preceptores esboçavam contentamento, tal como pais ao verem um filho desembrulhar presentes de aniversário. Olhei para eles enuviado em lágrimas. O baixinho é escritor! retumbei, deixando um eco na sala. Ele é escritor! E o desgraçado* não me disse nada... quando eu o pegar...! Donato, aproximando-se disse-me calmamente: Também já o fostes, figlio,..

Sentado no chão, com os livros do Luiz espalhados em derredor, inquiri: Posso voltar a ser? Creio que tenho muito a fazer., tudo a reparar. Meus De us, perdi tantas oportunidades Donato, me fitando com ternura, aduziu finalmente: Deus o ilumine em seu novo anseio, figlio. De volta ao império Minha ascendência espiritual com a Itália não tinha só o precedente consang üíneo. Lá, como pretor, há mais de 170 anos atrás, escarneci efiz baixar me u polegar para muitos que acreditavam na vida eterna, aqueles denominados de cristãos (que eles me perdoem! Não sabia o que fazia). Hoje, faço parte da vida maior, concitando-os a reaprenderem comigo o que Ele, Jesus, não conseguiu fazer com que entenda mos. Está tão claro, gente! o arco-íris tem inúmeras cores e já fui um juiz supremo. R.R. Luiz Sérgio esteve na crosta a serviço por um bom tempo, e por essa razão f iquei sem vê-lo, imensa era a saudade. Em tão pouco tempo aprendi a amar as pessoas que de mim cuidavam. Procur ei saber mais sobre o trabalho dele,e Donato me esclareceu que suas obra s, reconhecidas nacionalmente nos meios espíritas ou não, tinham o cunho de alertar as pessoas, principalm ente, os pais e jovens, acerca dos perigos incontestes das drogas, bebidas e quaisquer vícios, inclusive os morais, concitando-os à compreensão, perdão e amor mútuos. Parecia engraçado, mas essa fora também uma de minhas preocupaçõ es quando em vida, só não tive tantos cuidados na questão das drogas e do álcool. Prezava minha família, sua união, pois ela era o repositório de chegada, o porto seguro, a proteção. Conheci, após a morte, uma outra família. Donato e Amália eram verdadeiros pais, pilastras na minha tentativa de reequilíbrio. Continuei a trabalhar c om eles junto aos enfermos escravos do vício, que retornavam ao Plano Maior da vida: o mundo espiritual, que eu estava aprendendo a desvendar. Enquanto não pude revê-lo fui levado a um lugar no Nordeste do país, que não me permitiram saber, provisoriamente Lá chegando, fui levado a um Cen tro espírita para dar comunicações

Segundo os meus guias, aquilo me seria uma bênção, pois o contato mediúni co com os encarnados serviria de expurgo às toxinas que acumulei durante a vida. Fiquei fascinado com o papel que desempenhavam tão abnegadas criaturas, recebendo os espíritos sofredores de qualquer ordem, sem questionar de o nde vinham ou para onde iam, numa ciranda frenética, embora, acima de tudo, disciplinada. O Centro espírita me pareceu um pronto-socorro onde os espíritos e até mes mo os encarnados (espírito com corpo, ou almas!) eram assistidos em suas d ores. Se todos, algum dia, pudessem presenciar o que vi naquele lugar de preces e refazime nto, mudariam totalmente os conceitos sobre o além-vida, Possibilitado pel a intermediação dos médiuns, no sacrossanto exercício da mediunidade Certamente, mais adia nte, todos sem exceção, enfrentarão a realidade da passagem (Espero que nã o seja na fila de espera de um Centro espírita. Se o for, certamente serão bem recebidos, de acordo com as necessidades e predisposição de cada um, lógico!). Voltamos ao Rio. Numa ocasião, prestando socorro a um jovem recém-desen carnado pelo uso do crack, ‘Meu Deus, quanto sofrimento! ; enquanto o atendiam, eu pro curava de alguma forma ser útil, já que não sabia nada sobre transfusão energética, a que ch amavam simploriamente de passe espiritual(ou transfusão energética). Mesmo estando ali, remoía em meu ser a saudade dos parentes que deixara para trás. Nosso víncu lo não se perdera e tudo resolvera, involuntariamente, fluir naquele instan te. Tencionei procurar meus orientadores, para perguntar-lhes quando poderia f azer uma visita a meus parentes, mas acabrunhei-me, por não ser o momento oportuno. Fui chamado por Donato e me aproximei. Mostrou-me o rapaz estendido na ma ca e pediu-me para fitar-lhe nos olhos. Fi-lo, enquanto Donato empunhava sua destra sobre minha fronte (similar- mente na do enfermo), e como num toque de Midas, ingressei na casa mental do j ovem, povoada de desconcertantes imagens da existência recente. Drogas, sexo, bebidas, lupa nares, tudo o que ele cultivara estava em seus pensamentos regados com mús ica. Vi muitos CDs, a maioria de grupos metaleiros que faziam apologia do satanismo. De ntre eles, estavam os nossos CDs; ele se drogava ouvindo minhas composiç ões.

Retornei à realidade, subitamente. Donato, ele se drogava ouvindo minhas músicas! Sou culpado.., meu Deus! Não se turbe, filho. Não podes carregar tal cruz. Cada ser é um universo isolado, com um imenso poder de decisão. Cair no mundo do vício é opção in dividual. Quanto a isso não podes te culpar. Temos a liberdade de escolha, inclusive, a de ouv ir as suas músicas. Mas, eu fui exemplo para ele, para gerações...! Inevitáveis as conseqüências de sermos famosos. Os super -star são vigia dos constantemente. Mesmo que repassem mensagens de cunho elevado em suas letras, os ffis e ouvintes não se apegam somente a isso, valorizando mais o comportamento individual e tão humano do artista. Quanto a isso, não deveis vos culpar p ela infeliz opção deste ou de muitos jovens. Cada um tem o poder de propender-se ou não ao d eclínio. Sua intenção foi a de ajudar, de cativar e fazer com que a juvent ude soerguesse o ânimo para o bom combate moral, que deverá ainda assolar o país. Infeli zmente, o vosso comportamento pessoal, decorrente das chagas morais ainda expostas, influenciou muitos a seguirem passos escusos, mas porque já tinham essa tendência, cor roborados pelas forças negativas das multidões contrárias de espíritos, qu e se lhes assemelhavam. Sodom e seus asseclas, por exemplo! Como eles, existem milhões em torno do planeta, a agirem como moscas no monturo amoral. Àquela altura das narrativas de Donato, apesar do ensinamento, eu me perd ia envolvido por furacões de lembranças que estrelejavam à mente. Regredi até a Europa dos anos 40, Salerno, oeste da Itália. o país onde dan tes fora um pretor do império romano na 2a Guerra Mundial. Filho de Camponeses, meu pai defendia a resistência contra o fas cismo e o nazismo dominantes. Seu nome, Alberto Tornieri. Cenas e mais ce nas da guerra, milhares de pessoas sem vida, outras presas, e torturadas, em nome do maldito poder io alemão, Numa emboscada, os alemães capturaram guerrilheiros e meu pai era um dele s. Saltaram sobre eles como zangões. Aprisionados, meu pai foi torturado e minha família separada. Vi-me sendo espancado. Não! Detesto Violência, não!! !. Depois, num campo de concentração, um jovem das milícias italianas passa

por fora da cerca. Eu o reconheci. Era o Tomazzo, o belo Tomazzo Bertioll i, amigo de infância do colégio, o Único que não zombava de minhas deficiências fisicas. Eu o amava. Gino, o que faz aqui? Pergunto Tomazzo! Eles vão nos matar. Você é um deles? Por coação. Nada tema! Verei o que posso fazer. Não podem saber que som os amigos. Recebemos informações de que os aliados vão invadir. Em brev e os boches* estarão perdidos! Malditos fascistas! Que Deus os detenha! Espero que apodreçam no lodaçal que arquitetaram Gino, não odeie tanto. Faz mal à saúde! Virei à noite. Me espere atrás do pav ilhão 3, certo? Combinado, Tomazzo! Deus o abençoe. Espero algum dia poder lhe retribui r. É, quem sabe., temos a vida inteira pela frente. Despediu -me com um aceno. À noite, ele retornou, quando todos já estavam dormindo e somente as senti nelas nazistas rondavam, Tomazzo conseguiu nos tirar do campo. Eu, meu pai e ele fugimos. Vamos para o sul. Lá poderemos nos unir à resistência até o fim desta guerr a. Concitou-nos papai. * N.M. Boches Título pejorativo pelo qual eram conhecidos os Nazistas du rante a 2 Guerra Mundial. No trajeto, muitos procuravam fugir da possível zona de desembarque dos ali ados, pois a notícia se espalhara depressa. Um barulho ensurdecedor atordoou-nos, repentinamente. Era um bombardeiro alemão que se projetara no solo, deixando um rastilho de fumaça negra. Após cair, nos aproximamos. Fazia muito frio, tínhamos fome e havia doentes para cuidar . Meu pai resolveu que deveríamos procurar mantimentos e remédios no avi ão. Papa, é só um bombardeiro! Não há comida lá. Por favor, não vá! Na ânsia de ajudar, Tomazzo segue meu pai. Tremendo de medo, fiquei ine rme, vendo-os se aproxi-marem do aparelho em chamas. Papa, por favor, volte! roguei-lhes temendo o pior. Acenaram para mim, dando a entender que estava tudo bem. Chegando mais perto, Tomazzo desprendeu um sorriso, enquanto meu pai procurava por ví veres. Foi a última cena que vi. Tudo desapareceu numa densa bola de fogo. O avião explodira. Sua Única carga: a morte!

Despertei das reminiscências vivas aos prantos. Donato e Amália estavam j untos de mim, para meu reconforto. Mais uma vez o passado, Ruggeri? Disse-me Amália. Meneci a cabeça, positivamente. Por que isso continua a acontecer? Para que tenhas consciência de que estamos todos reunidos. Similarmente, p ara que entendais que não podeis ainda visitar os familiares terrenos. Sua aproximação, lhes causaria inquietação e reações emotivas desconcertantes, por não acredi tarem na vida além da morte, e isso lhes traria desequilíbrio. Ainda estais em fase de adaptação à nova vida: a do espírito. Tendes que aprender algumas coisas mais, compreendes? Respondeu Donato. Afinal, me interrogo dia e noite: quem é você, Luiz, e Amália, em toda essa história? Meu irrequieto figlio, tua curiosidade é avas-saladora! Pois bem, se quere s saber, digo-vos que fui uma espécie de amigo, em tuas últimas encarnações . Amália interveio. Quem achas que terá sido aquele jovem, Ruggeri, o Tomazzo? Fixei os dois e quase desfaleci. Jesus Cristo! Você está diferente, Tomazzo, nem parece o mesmo! Donato fora Tomazzo. Como espíritos podemos adotar a forma que quisermos, de acordo com no ssas necessidades. Aqui preferi permanecer como Donatello*, ou Donato, como me chamam: identidade essa de uma encarnação na Renas-cença, disse-me. E Amália, bom, essa foi a esposa com quem compartilhásteis a vida, no século XIX. Tremi diante da revelação. Amália fora o mesmo ‘Stevens, o amante do pretér ito na Inglaterra, então ajudando-me no reequilibro, doravante. Por isso se ntia tanto por ela e nem sequer desconfiava o porquê. Era necessário que aprendesse que o amor pode estar entre os seres, indepe ndente do sexo, desfazendo os estigmas negativos de outros desencontros, s éculos antes, o princípio de tuas inconformações no terreno sexual. Aduziu Amália. Jesus...! pausei mas, e o Luiz Sérgio, de onde o conheço? Donato não precisou me responder. Surgindo do nada, Luiz Sérgio abraçoume fraternalmente. Pensou que estarias livre de mim, Ruggeri Rubens? Você me lembra uma personagem de um seriado mexicano da Terra, que se mpre surgia quando o chamavam: o Chapolim Colorado.

Rimos em uníssono. Nada disso, amigo. É estar no lugar e hora exata. Quer saber de onde nos c onhecemos? Pois lhe direi sem terdes que retrotrair no tempo. Há muitos ano s, na primeira metade do século XVI, estivemos juntos em regime de monastério, na Europ a**. Foi lá que nos conhecemos. Abades? Foi lá que cometi um grande erro. Tirei a vida de alguém, pela ambição de querer ser o melhor, o que me valeu penoso resgate. Éramos amigos. Não me lembro bem... há uma névoa... Nem tudo pode ou deve ser lembrado! Em nossas vidas temos a impressão de conhecer as pessoas, o que nos revela uma amizade anterior, afinidade ou repulsão fluídica. Daí nascem as simpatias ou antipatias gratuitas, como cremos na Terra. Se eu não tivesse desencarnado antes, quem sabe, teríamos nos encontrado em B rasília! gracejou, me cutucarido a barriga e gesticulando as sobrancelhas. Seu maroto! Está me devendo explicações. És escritor e não me disse nada? Não me tenha a mal... ‘nem tudo deve ser lembrado... brincou mais uma ve z. Passado e presente, reunidos numa assembléia de luz, enquanto o sol, tímido, escondia-se no horizonte, refratando indescritível ocaso. Reencontrava amigos de priscas eras, elos que jamais se quebrantaram. Ne m mesmo a morte o conseguiu; isso porque a morte não era nada diante do amor! A cada passo dado, mais convencido ficava de que, quando tudo parecia estar perdido, sempre achava um caminho., sempre me surgia uma luz. * N.A.E. Donatello Donato Di Niccolô Di Berto Bordi (1.386 - 1.430), céle bre escultor italiano, que viveu durante a Renascença. As nossas vidas serão para sempre...! A humanidade está a um passo de chegar a invenções que desvendarão, de vez, o mundo dos espíritos, comprovadamente. No passado, muita gente foi morta por tentar catapultar o mundo para a evolução. Hoje, asfogueiras e guilhotinas cessaram, porque a ciência está ajudando o homem a sair da obtusidade material e moral. E em breve, já não existirão fanáticos e arrogantes. Contudo, o que vejo deste lado, é que,

para sermos propulsionados àfrlicidade, precisamos do exercício moral: a ca ridade. Atingida, aí não haverá quem nos segure!!! R.R. Face à minha adaptação ao novo plano em que ora transitava, recém egresso da carne, ainda necessitava dormir por algumas horas. Naquele dia, Amáli a me acordara antes do raiar do sol, convidando-me a chegar até a varanda de meu quarto, que da va para uma extensa faixa da Estância, onde se podia respirar o ar puro mat inal, sem as impregnações poluentes da crosta. Venha aqui, tenho uma surpresa. sussurrou ao meu ouvido. Ah, não me diga que é outra regressão?! Não, seu bobo... venha., é coisa boa. Ao chegar à varanda fui surpreendido por uma salva de palmas de muitos tr abalhadores da Estância, inclusive meus amigos mais diretos. Do meio da multidão me trouxeram, inesperadamente, alguém a quem tive a mizade profunda e sincera na Terra. Um batalhador pelas causas dos socialmente discriminados que, graças a Deus, obteve rep ercussão nacional, O chamarei de Bibo*. Abracei-o e choramos irmanados. Quanto tempo, que saudades! disse-me emocionado. Meu Deus., tanto que d esejei a felicidade e a encontro aqui neste lugar tão belo, junto a pessoas, a quem aprendi a amar. E você, c omo estais Bibo? Não foi fácil vencer a AIDS e muito menos a minha ignorância quanto aos as suntos espirituais. Sinto muitas dificuldades, inclusive, de locomoção. Também senti essa dificuldade. Graças a Deus e aos que me auxiliariam pude optar pela reconciliação com a eternidade. Encontrei fatos e pessoas fasc inantes. Pedi para vir aqui especialmente para agradecer-lhe, por não ter esquecido a minha causa, que era nossa, assim como pedir-lhe que engendre esforços junto aos nossos amigos, para que não deixem de prosseguir naquilo que iniciamos. Me noticiaram que você iria escrever um livro, portanto, pedi àqueles que me socorreram para estar junto a ti... quem sabe, poderia contribuir em algo. Só que me disseram: primeiro deves te recompor! . . Livro? pensei e prossegui. Quando no início, me disseram o mesmo. T enho certeza de que nossos amigos não irão abandonar a obra. Gente, mas po r que toda essa comemoração? É por causa do Bibo? questionei para a massa de obreir os que ainda aplaudia.

Donato veio em meu socorro, Ruggeri, hoje estamos comemorando três anos de sua chegada nesta estância , e pedimos aos nossos superiores para fazer-te essa Surpresa. Tá brincando? Aniversário de desencarnado é o fim! Se achas o fim, saibas que para nós, pertencentes ao Mundo Maior** da vida , é como se tivesse renascido para Deus., para nós. * NA. Possível referência a um famoso sociólogo brasileiro, desencarnado em 1997, vítima da AIDS. Lembra-se da parábola do filho pródigo? Portanto, não nos queira mal por comemorarmos o seu aniversário... Reconhecendo que fui obtusamente injusto, or ainda desconhecer nuanças tã o simples sobre o mundo dos espíritos, abracei o meu tutor e agradeci em voz alta aos demais ali reunidos. Algum tempo depois, tive que me despedir do Bibo. que haveri a de retornar com os que o trouxeram, voltando a trabalhar junto aos compa nheiros e o fiz com muito gosto, assobiando ou cantando algumas de minhas canções mais a legres. Similarmente, fiquei meditando no que poderia fazer para resgatar o passad o recente. Meu ímpeto de batalhador me inquietava. Sentia a necessidade de fazer algo mais quando estivesse recuperado. As pessoas, principalmente os jovens, precisa vam saber que continuava vivo, cheio de esperanças e que havia encontrado a felicidade e o amor tão desejados. Repassando o contato anterior com o Bibo, detive-me na frase: disseram-me que você vai escrever um livro.... A partir daquele dia, a idéia latejou e tomou corpo em minha mente. Certa feita, conversando embaixo de uma espécie de mangueira densamente copada, resolvi expor aquilo que me compungia o espírito. Falei então a Donato e Amália: Amigos, não me tenham a mal. Há vários dias venho pensando numa maneira de ser mais útil ao próximo. Sinto-me feliz trabalhando junto aos escravo s do vício e, para mim, não há retorno e maior satisfação do que isso. Contudo, gostaria de fazer além, já que não posso mais cantar. Refletindo, quero empreender e sforços no sentido de escrever algo para os terrícolas, como fez o Luiz Sérgio. Neste p ouco tempo em que estou aqui, nas horas de folga, lios livros dele além de o utros. Vi exemplos de abnegação e devotamento de espíritos e encarnados, em perfeito

conchavo. Estou ciente de que tudo é fruto de méritos. Não sei se tenho a lgum, mas creio, se Luiz conseguiu e outros tantos, talvez possa fazer o mesmo, claro, se hou ver permissão para isso. Ruggeri, ficamos felizes com vossa iniciativa. felicitou -me Donato. Esper ávamos que vos manifes-tásseis; afinal, ultimamente, a Espiritualidade Supe rior tem aberto as portas a trabalhos do tipo que pretende iniciar. O Brasil tem perdido ícones valorosos nos di versos campos da atividade expressionista, principalmente, na área da comu nicação em massa. Outros são retirados compulsoria. mente, para não se alargarem em dívidas. E m hora adequada, artistas, literatos, músicos, esportistas, e outros espírit os valorosos que partiram da Terra, darão o seu testemunho ao mundo descrente, por mei o de instrumentos que sintonizarem com suas vibrações, ou quem o sabe, re tornando à carne para cumprirem novas missões. Não tem sido fácil encontrar médiuns predis postos a dar-lhes passagem. A dúvida, os percalços materiais, a desarmoni a dos medianeiros, seus lares em desalinho, Centros espíritas sem a caridade prática e outros fatores, na maioria das vezes, são entraves que ensejam a perda do fio da m eada com os comunicantes de nosso Plano. A sintonia nem sempre é possível, destarte os esforços. Logo teremos inúmeros livros de autores espirituais, que em vid a foram muito importantes para os homens, doravante, importantíssimos para o projeto de Deus, face às suas novas descobertas. Amália intercedeu: Meu querido, Luiz Sérgio é um dos dirigentes responsáveis pela reestrutur ação consciencial do país, num movimento que pretende resgatar os valores intrínsecos e o equilíbrio dos seres através das artes, que tem como mentor intermediár io, o nosso querido Max*. E por meio dela, o homo sapiens irá aos poucos li bertar-se do jugo de suas paixões desastrosas, tornando-se homo spiritualis, eis que ch egado o momento de ingressarmos realmente na nova era, a era do espírito. Salvo as aglomerações religiosas, somente as artes e os esportes, especialmente a música, o cinema e o teatro, têm o condão de reunir, pacificamente, milhares de seres. Pena que ainda residam dentre os encarnados, aqueles que promovem a desart e, ou seja, a pseudo-arte travestida de sensualidade, regada a bebidas, dro

gas e obscenidades, promovendo a queda de valores morais que deveriam ser ressaltados. O cult o ao corpo e aos devaneios, são mais valorosos do que o devotamento à mor al. A caridade é superada pelo pantagruelismo** exacerbado * N.M. ‘Max Pseudônimo utilizado pelo espírito Adolfo Bezerra de Menez es, no princípio do século XX em suas comunicações. ** N.M. - Pantagruelismo Sistema de filosofia epicurista, onde seus adeptos só vivem para o prazer sem mesclas e a satisJàção de suas necessides insti ntivas. complementou Donato. E é por isso, figlio, que já têm surgido tantos médiun s psicopictógrafos*, desenhistas e escritores, por aí afora. Renascentistas e pós-renascentistas e ex-escritores, hoje no astral, estão difundindo cada vez mais a arte como terapia, a exercer a catarse nos humanos. Nunca se viu tantos livros doutrin ários, romanceados, científicos, escritos por seres que algum dia habitaram corpos carnais e, posteriormente, complementam suas missões falhas, crestadas ou inacabadas, em prol da humanidade, colaborando com o Arquiteto Divino. Flui a cada dia o movimento musical no seio das religiões. A arte está resgatando vidas, quebrantando os elos co m a droga, depressão, dor, restando aos que dirigem tais movimentos primarem pela unificação da s crenças, pois todos estamos sob a égide de Deus, onde a verdade é uma s ó: o Evangelho prático de Jesus, tendo por escopo a caridade, a fraternidade e o amor univer sais. A própria vida e as obras da criação, por ventura, não são verdadeiras artes eternas? Esse o plano da Espiritualidade Superior e, com as bênçãos de nosso amado governador, O Cristo, ele há de ser concretizado. Que bom saber disso. Ficaria feliz em poder ajudar. Haveria condições? Primeiro, é necessário o preparo de vossa parte. Conhecendo melhor o fenô meno do intercâmbio psicográfico, nos ocuparemos em encontrar a sintonia adequada e o treinamento. Há um precedente emocional a ser cuidado. O contato com os encarnados p oderia despertar em vós, emoções que o desconcertariam. Não só você com o também o intermediário, deverão estar sensivelmente equilibrados, a fim de não se desviarem da real finalidade do trabalho. Importantíssimo o respeito às suas limitações e às do médium que lhe ofereça passagem. Será preciso alta dose de paciência, tolerância e resignação. Terás uma equipe para trabalhar convosco, havendo todo um apar

ato para isso. Ardua e solene a tarefa... achais que podeis dar conta? Êpa...! Esbarrei na primeira parede. Onde poderia encontrar auxiliares nes se intento? * N.M. Psicopictografia Variedade mediúnica onde os espíritos pintam atra vés de médiuns. Quanto a isso não vos preocupeis. disse Amália, reconfortando-me. Deus a tudo provê, e se for para o bem da humanidade e adiantamento dela, tenha a certeza de que tudo dará certo. E importante que se prepare e aprenda a confiar na Pro vidência. Lembra-se: . . .Nenhuma... ‘...folha cai de uma árvore sem a vontade de nosso Pai , completei sua frase. Jesus! Viu só, Donato? O nosso garoto já está aprendendo as lições. Juro que fiquei espantado com minha iniciativa. Julgava ser dificil ler os p ensamentos. Sei o que pensas, filho. Intercedeu Donato Saibas que a linguagem em no sso meio é o pensamento. Articulamos nossa arcada por questões de conveni ência, vez que. nem todos os espíritos têm evolução suficiente para entender esse processo. Quero ressaltar que a impetuosidade com que falas, terás de dominá-la. Mas eu não sou evoluído! retruquei. - Podeis não ser como imaginais, mas és anti-quíssimo. Pertencemos a uma plêiade, que há milhões de anos para cá foi recambiada em exílio, por não comportarmos mais habitar no mundo em que vivíamos. Sofremos inúmeras transformações para chegarmos aqui e agora. A reencarnação foi bênção a fim de que atingíssemos o estado atual. Agrad eçamos a Deus por tudo. Sim...! Quero estudar, crescer, aprender o que me for permitido. Peço que intercedam por mim junto aos dirigentes maiores. Tenho certeza de que far ei bem a minha parte. Saibas que isso pode levar muito tempo, até que consigamos permissão. Esperarei o quanto for necessário... De fato, esperei. E enquanto a resposta não chegava, labutava avidamente; estudando por horas a fio, no tempo dedicado ao recesso laboral. Amália, o meu amor, foi um sustentáculo inconteste nessa preparação. Que pessoa fantástica! Mais dia, menos dia, a resposta chegaria. E ela veio. Luiz Sérgio, com felicidade descomunal, foi quem a trouxe.

Chegando o correio do além...! Meus parabéns, Ruggeri, você venceu! Diss e e efusivo. Tá me gozando!?... não brinca, vai! É sério! Seu pleito foi acolhido pelo Conselho. Iniciaremos semana que vem . A felicidade não cabia em mim. Ajoelhei-me, e de mãos postadas orei como se fosse uma criança, agradecendo a Deus pela oportunidade de refazer a m inha trilha de desacertos. Saltitei de alegria e fui correndo avisar os amigos. Depois, mai s calmo, agradeci ao Luiz. Senti que ele havia sido influente nos acontecime ntos. Pode parar, amiguinho! Aqui não existe pistolão, nem ‘lei do Gérson. ironi zou desafetado. Afinal, o que motivou o Conselho a aceitar minha proposta? Afinal., isso realmente importa, Ruggeri Rubens? Não.. acho que não. E não me agradeça; apenas trabalhe feito mula de carga! Esse é o agradeci mento que deveis não a mim, mas a Jesus, a Deus! replicou em tom mais sério. Donato me falou que poderiam existir problemas de sintonia fluídica... Comecemos por eliminar problemas. Vem comigo... Luiz me conduziu a um l ugar em que, até então, nunca ingressara. Era uma espécie de laboratório onde, usualmente, não tínhamos permissão de transitar. Aqui é o laboratório experimental do Dr. Friedrich, a quem chamamos cari nhosamente de Hans. Não se impressione com ele. Vou apresentá-lo. Ao ver o cientista, não pude deixar de nutrir certa antipatia gratuita. Estran ho, desengonçado, europeu, alto, louro e de olhar irrequieto. Como vai cara, tudo legal? cumprimentei-o estendendo -lh o braço, mas el e não quis apertar minha mão. Não repare; SUSSUrrOU Luiz ao meu ouvido. ele é assim mesmo, mas é b oa pessoa. Bom, vamos ao que interessa! interferiu Friedrich, esboçando imperativo s otaque alemão. Mostrou-nos uma roupa, assemelhada a um wet suit de surfista, só que mais m aleável e quase transparente, constituído de material finíssimo, cheio de f ios interligados a uma espécie de bateria ou módulo de comando. Teceu detalhes técnicos de como funcionaria a engenhoca ou escafandro psi co-energético, como ele mesmo batizara. Confesso que tive vontade de rir daquilo. Parecia coisa de cientista maluco, mas me contive. Após os esclarecimentos, nos de

spedimos e saímos. Mal fechara a porta do laboratório, comecei a rir desbr agadamente. Qual a graça, hein? Inquiriu Luiz um tanto sério. Que cara mais estranho! Parece coisa de o médico e o monstro. O que você acharia se rissem do seu estado, quando aportou aqui naquela bo lha de fluidos? Calei-me ante o tapa moral; Luiz esclareceu-me: ... Hans é um espírito muito endividado com as ciências. Durante a 2a Gue rra fazia experimentos com prisioneiros e judeus em Treblinka*. Após desen carnado, sofreu amargores. Reconhecendo os erros, angustiado, em meio à perseguição de seu s inimigos a quem tanto martirizara, pediu a Deus oportunidade de resgatar seus débitos. Foi socorrido há pouco tempo e, desde então, tem trabalhado, incansavelmen te, a bem do próximo aqui no Brasil, onde estão reencarnadas as ‘vítimas o u algozes do pretérito, em perfeita sintonia de resgate. É desse tipo de laboratório que sairão, em futuro breve, muitos equipamentos e mecanismos que serão repass ados aos encarnados, ajudando à ciência a estreitar os laços com o universo espiritual, principa lmente na área da transcomunicação instrumental**. ** N.M. - TCI Transcomunicação Instrumental Grupos científicos que se pr opõem a estudar as comunicações de espíritos através de aparelhos eletrom agnéticos. Mas, ele foi um nazista! Como Deus pôde permitir a acolhida dele aqui? Não julgueis para não serdes julgados, Ruggeri Rubens, tal o ensinamento . Também somos devedores de outrora; estamos aqui, não estamos...? Reconhecendo a falta de humildade, criticando com gracejos e maledicência, me toquei. Desfiz-me da presença de Luiz por alguns instantes, retornando ao laboratório. Hans ia reclamar por haver ingressado no ambiente sem autorização, mas não deixei que falasse, abraçando-o fortemente. Perplexo, ele não disse nada. Falei-lhe com emoção. Me perdoe, Hans. Deus te pague! Em seguida me retirei célere, estacionando breve-mente à porta. Pude perce ber que Hans tremia, enrubes-cendo a sua tez ariana. Pensei: Deus! Os naz istas também têm sentimentos! Em outra época, tive-lhes ódio. Trouxera isso comigo na r ecente romagem terrena, mas ali, aprendera uma lição valorosa. Nossa ignor ância sobre as coisas de Deus é que nos arrasta a precipícios. Quem seria eu para julgar , como o fizera no Coliseu? Somos todos imperfeitos; era isso o que nos torn

ava iguais... e eu não compreendia tal justiça. Acenei ao cientista e disse-lhe: Em breve nos veremos, Hans. Muita gente vai ser beneficiada com os teus i nventos, inclusive eu. Deus te ilumine. Valeu! Ele me retribuiu o aceno com olhos marejados. Como inúmeros, estava ali te ntando acertar, em busca de redescobrir o verdadei amor. O tempo passou mais rápido e quase não o percebi, face às ocupações. Estu dava, trabalhava, repousava pouco, tentava ganhar tempo, o tempo que desp erdiçara me suicidando com o vício, extinguindo minha cota vital. Estava muito feliz! As digressões ao pretérito já não mais perturbavam tanto. Aliás, as recorde i por necessárias ao meu adiantamento, suportando-as, com a certeza de que o preterito seria de suma importância, pois nele, haveri a de reconstruir o Futuro. Interessante, as fases de minha última romagem terrena, como músico e com positor, se moldaram perfeitamente no trabalho da nossa banda, na razão i nversa da ordem em que as regressões, do lado de cá, surgiram, já como espírito liberto. No sso trabalho ficará marcado para as gerações futuras, que o conhecerão. Dev o isso a Deus, aos meus amigos da banda que permaneceram na Terra e aos que me assistir am invisíveis aos Olhos mortais. Na vida terrena, como se o barco de minha consciência tivesse naufragado, n adei contra a correnteza e fui açambarcado por ela. Me permiti cansar divis ar o farol da eterna luz, fenecendo à beira-mar de minha existência. Realmente, entr egara-me, quando não mais vislumbrara nenhuma possibilidade de continuar sobrevivendo. Para mim tudo havia se consumado. Experimentara do féu ao belo, mas não encontrara aquilo que estava tão pe rto Ou dentro de mim: o amor. Engraçado, precisei• morrer para reaprender a viver. Como fui pretensioso achando que fizera o máximo. Tolice! Falhara, em parte, na minha missão pois tive oportunidades ímpares do con hecimento e certas facilidades que a Jáma trouxera, essa mesma pela qual me deixara entorpecer os sentidos, projetando-me no abismo da insensatez, recaindo no vazio da s olidão acompanhada, a Pior de todas! Não conhecendo o recl sentido da fraternidade, da caridade, compaixão, dec ência, to prejáladas em minhas letras, escorreguei na depressão do Óo desc

endo pelas veredas largas do abuso em direção ao inferno consciencial, pois somente pratican do-as é que poderemos reaprender a encontrar o caminho da verdade, que no s conduzirá, em asas quiméricas, à montanha do eterno amor. Os primeiros Contatos mediúnicos foram experiências decepcionantes, muit o embora previsíveis segundo os meus orientadores. Me deparei com a descrença, orgulho, pretensão e a vaidade de alguns médiuns, uns até conhecidos e outros, ainda iniciantes, que se julgavam incapazes. Levamos meses até acharmos um aparelho que nos desse guarida, sem questi onar se eu éra um espírito-de-luz ou involuído, se um miserável ou um na babo; se provinha do inferno escatológico ou dos píncaros celestiais. No final de 1999,já tínhamos estabelecido acam-pamento em algum lugar do Nordeste; como descreveu-me Luiz Sérgio, é região de dolorosos resgates, onde espíritos milenares ainda se debatem na prestação de contas, para com a justiça de De us. Seria pois, nesse lugar de simplicidade e de gente sofrida, que haveria de recomeçar minha jornada, desta vez, sem músicas, pompas, publicidades, shows ou ime nsas galeras aplaudindo., simples, partindo do nada, no anonimato e ocult o por um alônimo! Indizível minha satisfação, quando me permitiram rever meus pais, amigos, p arentes e, por não ter ainda saúde plena, vestido com a roupa do ‘F-lans, p ara não causar prejuízos a ninguém, face à minha debilidade energética. Para equilibrar o meu arcabouço psicossomático, previamente, tive que partic ipar de reuniões mediúnicas, as quais, infelizmente, ainda se restringem aos estreitos círculos dos adeptos da Doutrina Espírita tal o preconceito, tal o desconhe cimento! com a finalidade de excretar eventuais miasmas, adquiridos pelos v ícios. Me desmanchei em emoções ao estar com meus pais, quando desprendidos de seus corpos pelo sono reparador. Tentamos convencê-los a aceitar os fato s novos, como lhes apresentamos. Talvez nem se recordem disso. Os sonhos, nem sempre são ref lexos condicionados da vida diária ou reminiscências de nossa existência atual. Como espírito, vi que podemos visitar aqueles que nos são mais caros e reencontrá-los. Mu ito devo àqueles que tudo fizeram para me tornar alguém mais feliz. Deus os abençoe! Indefinível a alegria por que passei ao abraçar meu filho. Che nostalgia!

Até me culpei por tê-lo deixado tão só, Achei que fui meio covarde, ensi mesmando-me em projetos pessoais, mesmo pressen 1 tindo a foice da morte a capinar minhas forças. Pedi perdão a ele. Minha p resença nos seus sonhos, devem ter sido como um estigma. É um grande espír ito, um renascentista de outrora, capaz de prosseguir e superar, se souber aproveitar o que recebeu e ainda recebe. Mas,... Tudo bem! ...Tudo bem! O pouco depositado em seu coração, deverá ser o suficiente para que tenha n oção exata que, apesar das barreiras do preconceito e da dor que expressei arden-temente, eu o amava, o amo e o amarei... per sempre! Peço ao Gestor do Universo que me permita interceder, doravante, por todos eles, preparando-lhes um porvir repleto de paz e tranqüilidade, ...mas di gam o que disserem eu estarei aqui, esperando por vocês . . .meus pais . . .meu filho, meus ffis, . . .e meus amigos mais caros. O caminho? Só há um... Para uns, a caminhada começou há séculos. Para outros, a partir de agora! Alguns, nem começaram ainda. Espero estar contribuindo de alguma forma com a evolução. O Mestre nos disse: bem-aventurados os que têm ouvidos para ouvir Amigos, a música do céu já começou e vocês nem estão captando. Portanto, abram os ouvidos, mas, em nome de Deus... abram também o coração e a razão. R.R Meus pais, sinto-me na obrigação de dizer-lhes que estou bem. Não é pelo f ato de que estive ou ainda me encontro debilitado, face aos abusos, que so u impedido de prosseguir. ..Ninguém vai me dobrar! Aquilo que a gente pensa ser o ruim, na verdade é o bom para nós, entendem? É que não sabemos sofrer, pois se o soubéssem os, certamente, nos sairíamos muito bem de todas as batalhas, sendo a maior delas contra a muralha da ignomínia íntima. O nome com que vocês me batizaram, foi providencial. Em realidade, renasci das cinzas, para galgar a luz ça esperança. Sei que ficarão surpresos.., indignados até. Que coisa absurda! Fiasco! Pres tidigitação dirão! Isso é previsível. Queiramos ou não, somos todos previsív

eis. O que não se prevê é aquilo que não conhecemos, ou fechamos as portas pa ra conhecer: o desconhecido! Quantas e quantas vezes já renascemos e morremos? Quem de nós poderá ca lcular? Mesmo assim, unidos pelo afeto de outrora, continuamos sempre j untos. Vocês ainda querem que Ruggeri viva? Desejam me dar um monumento? Não se ocupem com isso, pois o star, o messias da mídia, o cantor, está e esta rá vivo. As pessoas cultuam essa personagem na vã ilusão de que me perderam... mas me ganha ram! Portan to, não precisam erigir templos em minha memória, pois o amor nunca morre e o templo há de ser o coração. Aliás, meus amores, já não preciso de nada do que deixei. Até meu corpo, aquele, foi entregue ao planeta. Me perdoem se estou sendo amargo, mas muito obrigado por terem realizado a minha vontade. É que existem espíritos e seus corpos ainda vagueando no meu país material, sedentos de amor, que precisam de agasalho, leito, teto, um prato de sopa, dignidade, atenção, medicamentos e médicos, respeito!., e um simples sorris o, gente! Caso desejem me cultuar em seus corações, basta que façam o bem a quem qu er que seja, parente ou não, amigo ou não, conhecido ou não, rico ou pobr e, pessoa ou animal, Dedicando a mim ou a qualquer outro necessitado, é a mim que estarão faze ndo o bem, eu que estou vivo dentro de vocês, sabem?! Isso existe; fazer o bem a quem precisa e dedicar àqueles a quem amamos, quanto bem isso nos faz aqui! Tem mais força do que mil ladainhas. É prec e em ação! Querem conversar comigo? Falem com o coração, pensem e ajam com ele, e eu estare i convosco, mesmo não sendo Jesus, pois o espírito sopra onde quer. As pessoas até precisam disso, ver um monumento para aquele que fui, cont udo, eu não preciso mais disso, nem ramalhetes, nem velas, nem missas ou coroas. Digam a eles que se amem, que façam o bem! Quem me amou de verdade, estará assim fazendo um mundo melhor, dores, guerras, maus-tratos com as crianças e mulheres, fome, violência, preconceitos, discriminações pois eu fui isso daí: luta...! Tentei ser fort e, e ainda continuo tentando sê-lo, mas com outras armas, compreendem? É um a batalha desigual e eu peço que me ajudem. Talvez achem estranho o modo de me expressar. Depois do que passei tudo

muda, gente! Certos comezinhos passam a não ter mais sentido como antes. Vicenciando a experiência da imortalidade consciente, doravante, tornei-me um ferrenho defensor dessa causa, até que se aniquile toda a ignorância e m torno de assuntos tão rebatidos, em séculos e séculos de profetas e exemplifícação pelos grand es mestres. Olhem, algum dia haveremos de nos reencontrar pessoalmente, e aí vou cobr ar de vocês: Como é, fizeram o que eu vos pedi? Sinto muitas saudades, principalmente de você, maninha, e não é sempre qu e posso estar perto de todos. Sei que você pensa um bocado em mim. Já te vi chorando de tristeza. Não faz isso! Chorar de felicidade pelo amor que temos um pelo outro, até que dá para aguentar. Olha, eu trabalho um bocado para manter-me ereto, co nsciente; assim que posso, visito-os, abraço-os, beijo-os, converso com vocês em sonho. Engraçado! Não me vêem, me sentem. Lembram-se de mim como se eu fosse uma projeção de suas mentes desejosas de sauda des. É fantástico! Isso sim, mereceria ser reprisado pela Globo, esse laço que nunca perece: o afeto. A gente não muda por ter morrido, ainda continuo o mesmo, só que mais co nsciente do que devo fazer doravante, para não ser mais como um alienado , perambulando pelo mundo feito gado. Ainda penso e sinto como gente, como ser humano, como vivente. Ninguém faz idéia do que passei do lado de cá, por ser ignorante moral. Não h á pessoas ruins, só ignorantes; é isso, aí! Muita coisa eu nem sequer pude relatar por demais picante, descabido ou pret erível. Os guias me disseram: ...só o essencial! Meu sofrer diante de vocês não foi nada, se compa-rado às experiências mord azes pelas quais passei aqui, frutos da minha consciência intranqüila, trau matizada pelos erros de outras vidas e da que tive há pouco. nem tudo eu posso contar!!! Apesar do exíguo tempo do desencarne até aqui, posso me qualificar um sujei to feliz. Feliz, porque trabalho duro para obter merecimento. Feliz, por sa ber que posso preparar-lhes a chegada e, se créditos tiver, até mesmo recebê-los. Feliz, porque meu filho e meus amigos da banda continuam as suas trilhas pessoais. Estão todos

bem! Não se enganem, ninguém morre! Renascemos, e não há sistema ou crença que possa mudar o que estou dizendo, pois são frutos da experiência viva e p essoal. Eu experimentei, gente! Sei que desejariam obter provas, dados ocultos, intimidades que só nós sabem os, coisas que deixei, segredos, cartas escritas e assinadas com minha letra etc, mas Deus lhes relega o beneficio da dúvida a fim de que busquem, pelo livre-arb ítrio, o que mais lhes pareça certo, justo, o que mais se coadune com os pr eceitos do Evangelho deixados pelo verdadeiro Messias: Jesus. Deus não está a nosso favor, quando queremos descortinar certas coisas ocu ltas, e na forma que desejamos. E vejam que digo a verdade, pois o filho m ais elevado que Ele nos enviou, veio para servir e não para ser servido e nem tudo ele disse às claras, e sim, por parábolas. Logo, meus queridos, não podemos exigir pr ovas Dele. Cada um deve buscar a sua salvação, a sua eleição, o seu templo. Ou se acr edita ou não, entendem? Que digam, propaguem, difamem, duvidem se sou eu ou não; que me importa! Vocês, só vocês sentirão a verdade. Saberão me reconhecer nessas entrel inhas. Ruggeri fala por si, mas Jesus falou por Seu Pai: ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo, da água e do espírito, da reforma íntima e da prática d o Seu Evangelho divino. Francisco de Assis suplementou o seu Mestre: é morrendo que se vive para a vida eterna! Esquecer disso, é atirar na lixeira da inconseqüência tão valorosas pérolas, riquezas que abandonamos em troca das do luxo, do reconheciment o e da fama. Saibam, meus pais, que muitos dos emigrantes estão aqui, esperando por voc ês, algum dia, quando para cá vierem. Sono tutti felice! Meu filho, gostaria de falar-lhe abertamente, mas nem tudo posso, a fim de pr eservar o vosso futuro e livre-arbítrio. Terás valorosa estrada pela frente. Use coração, mente e capacidades para engrandecer a si, aos seus, às pesso as que sequer conhece, que estão no seu mundo ou fora dele, pois somos tod os parte de uma imensa família: o universo! Os nossos maiores inimigos têm sido as vicissitudes, essas que pesam como âncoras, submergindo-nos no lodo do egoísmo e da vaidade. Para crescer c om dignidade, conheça-se,

respeitando tuas limitações como pessoa sensível que és. E sejas muito feliz ! Estou fazendo o que posso para estar ao teu lado. Não tenho moral elevada para ser um anjo-da-guarda, mas quando a dificuldade apertar e te sentirde s sozinho ou duvidoso, pensa com o coração, aja com a razão, que alguém vai me substitui r, até que eu possa estar contigo dividindo o calvário. Ainda teremos muito prá contar. O teu mundo começa agora... apenas estai s começando. Ti voglio bene, figlio. Ti amo. Jovens, adultos, crianças, homens, mulheres, indefinidos sexualmente, bra ncos, negros ou índios, ricos ou pobres, que amaram ou repugnaram, que es cutaram ou não minhas composições, rogo a Jesus poder estar convosco mais vezes, mostra ndo que a arte do amor há de dominar vossos corações. Sem ele, nos torna mos natureza-morta no quadro ascensional para a luz. Não se deixem iludir por promessas. Só pela compreensão atingiremos a tal felicidade, quando souber-mos o que é o amor, e pudermos senti-lo nas mais íntimas fibras, realizando a vontade do Pai. Quem pensar que vai atingir o céu apenas com e smolas, ladainhas, artificios ou riquezas materiais, estará equivocando-se. O céu já não é perto daqui! Imagine daí...! Salvação, só há para aqueles que se submetem às Leis Divinas e as aplicam . Não há mérito na honraria terrena, fama, SUCeSSO ou poder. Neles só enc ontramos a dor, a solidão, a infelicidade causada pelo egoísmo, pois que, inferiores, ainda não sabemos como utilizar forças tão poderosas a bem da humanidade. O segr edo, pois, está em doar-se ao próximo, sujando as mãos, o corpo e a mente com a carid ade. Amem-se, a si e aos outros, sem o preconceito, embora respeitando os limit es de nossas realidades, aceitando o que somos, sem excessos, sem infringê ncias. Só isso fará a grande diferença, pois a verdade não tem partidos, sectarismos ou cre nças, e Deus, simplesmente, nos permite a vida; nós é que não nos permitimos ser felizes. Saibam: o vício chamado amor é a mais eficaz das drogas que pude usar até a gora. O resto é pura ilusão! Músicos, artistas, literatos, desportistas, atores... todos que lidam com o expressionismo, que possam reformWar seus conceitos de atuação em suas res

pectivas áreas. São importantes, mas não são ídolos, não são deuses! São apenas pessoas que desejam ser felizes. Não se permitam iludir pelo mérito das riquezas, pois tudo isso se torna vago diante do palco da eternidade, onde nos sentiremos insignifi cantes se não praticarmos a caridade, se não tivermos a humildade para rec onhecer que Deus só há um, e que a reforma íntima é o único passe para o time dos vencedores . A todos, resta uma esperança. Não desanimemos jamais! Existiram avatares, o maior deles: Jesus. Enquanto houver individualidade s como Donatello, Amália, Antônio, Luiz Sérgio e outros no nosso caminho, tenhamos uma certeza: o legítimo Messias estará COnOSCO, por meio deles. E quando aprendermos a ser como eles, aí teremos Deus em nós, regendo um sinfônico nascer do sol da esperança em nosso cosmo íntimo. Lembrem-se: por mais que tudo possa parecer perdido em suas vidas, quando a existência já não sorrir, quando a dor quiser ocupar devagarinho o espaç o da felicidade; quando as lágrimas sufocarem a ventura, saibam: sempre existirá uma luz... sempre existirá um caminho... e não estaremos sozinhos, acreditem! Desejo-Lhes muita paz, e se houver permissão dAquele que tudo vê, tornare i a me comunicar. Ciao! Ruggeri Rubens Quando nasce um filho nosso, a gente não tem mais intendência, nem domíni o de si. Já não somos nós e sim, eles! Não quero que meu filho fracasse, assim como não desejo que nenhuma criança ou jovein, seja derrotado pela incúria dos adultos. Jovens, não sejam os pais ! Eles viveram as experiências deles. Apenas os compreendam, pois já camínharam um po uco mais. Querem o melhor para vocês! Amem-nos, mas sejam vocês mesmos ! Respeitem os seus limites, aprendam a frenar diante das leis humanas e naturais, pois não somos anima is inconscientes. Cada um tem uma realidade diferente, uma trilha, um destino, uma luz. Procurem! R.R. O amor, você e algo mais

(per figlio mio) Não importa o que eu pense de mim, do mundo, de você. Só que entenda que não aprendi a amar, to bem, É arte difícil da qual nem sei conhecer. No silêncio do meu quarto, quando todos já não sonham, Eu me encontro aqui sonhando, pensando em te rever. Pra ser sincero eu só não quero é perder a consciência, Na luta entre o poder e o dever ser, Então perco o meu rumo por não saber me controlar Quero todos, quero o mundo, quero você e tudo o mais, Só amar sem perceber, e isso é dificil, quero crer que vou vencer; Algum dia vou olhar pra trás e ver que nós vencemos A mais dura das batalhas; Não somos heróis de nada, a não ser de nós mesmos; Perder tempo consigo é bem mais do que lição, É verdade que só se encontra no íntimo do coração; A bondade é o que desperta, somos anjos na floresta Tentando achar a luz; Quero todos, quero o mundo, quero você e tudo o mais; O inseto tem armas, mas não fere a flor que o alimenta, Assim serei contigo e com todos que me saciam, A sede incontida de amar, Minhas armas vou guardar para mim mesmo. A fim de que não fira os corações, Pois quero tudo, quero o mundo, quero você e algo mais Ruggeri Rubens (Mensagem mediúnica recebida em 24/4/2000, às 6:3o horas.) Se você gostou deste livro, transmita a outras pessoas a sua impressão. For memos essa teia de conhecimento e fraternidade, como uma grande onda. Conheça as obras básicas compiladas por Allan Kardec. Divulgue a Doutrina Espírita, para que tenhamos um mundo melhor, sem dec epções ou aflições. Muita paz!

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