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CADERNOS

DE PSICOLOGIA

Adoção

Agosto/2004
Índice

O que constitui a família? 4

Adoção e Homossexualidade 13

Adoção e redes de apoio social 28

Sobre responsabilidade e previsibilidade 34

Café com adoção 40

2
Apresentação
Esperamos com esta publicação oferecer mais uma via de
interlocução com aqueles que se consideram próximos às questões
pertinentes à infância e à adolescência. O tema ‘adoção’ foi escolhido
para o primeiro número, uma vez que responde por muito do trabalho
realizado por nós. Nossa intenção é de que a cada caderno possamos
abordar um tema, convidar autores, estabelecer um diálogo que seja
profícuo e de amplo alcance. Ao mesmo tempo, trata-se também de um
modo de dar mostras do trabalho realizado, bem como de um certo
saber produzido.

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O que constitui a família? O exemplo da adoção[1]
Nazir Hamad[2]

Falar de adoção coloca de saída a questão do que constitui a


família para um sujeito humano. Essa questão parece tanto mais
incontornável quanto o campo da adoção engloba não só a família
biológica e a família substituta, mas também a criança - na medida em
que é precisamente a dinâmica desse encontro que nos interessa.
Simplificando, eu diria que esse encontro implica cada um da
maneira seguinte: o casal estéril demanda a adoção de uma criança a
fim de aceder ao estatuto de pai e mãe e de construir uma família. A
criança aparece então como a condição necessária para um casal se
estruturar como família.
A criança, por sua vez, e segundo sua idade, é adotável, objeto de
adoção, ou busca uma família para si, uma família que a acolha, que a
ame e que lhe ofereça seu estatuto de criança na família. Entretanto, a
criança em busca de uma família não abandona jamais sua família
biológica. A criança a tem nela, de tal modo, que nenhum outro é
autorizado a ocupar esse lugar.
Aliás, quando se tem a ocasião de encontrar e trabalhar com filhos
adotivos, não é raro os ouvir falar de verdadeiros e falsos pais. “A
verdadeira” e “a falsa família” são duas expressões freqüentemente
utilizadas por eles para marcar os limites entre a família biológica e a
família substituta. “Não é como uma verdadeira família. A verdadeira
família... O verdadeiro pai... A verdadeira mãe...”.
Mas, de fato, o que é verdadeiro ou falso quando se fala de uma
família? Existirão orientações confiáveis, universais, que permitam a
cada um julgar se as pessoas que o rodeiam são membros de sua

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família ou não? Eis aqui eixos de trabalho que proponho para mostrar a
vocês de que modo isso funciona no nível do casal e da criança ligados
pela adoção.
Se fosse admitido que a ligação de sangue é um valor
incontornável na construção dos laços familiares, o verdadeiro pai e a
verdadeira mãe seriam os pais genitores. Mas se é admitida essa base
de partida, por que, no caso do abandono, os verdadeiros pais não
assegurariam mais essa função reconhecida pelo corpo social e
legitimada por essa marca indelével, a marca do patrimônio genético? E
por que ainda um outro casal se reconheceria enquanto que pai e mãe
de um filho que não colocou no mundo?
Os candidatos à adoção demandam uma criança “ainda não
crescida” para fazer dela seu próprio filho. Essa demanda é formulada
de várias maneiras e a cada vez a criança é convocada de viva voz para
responder ao fantasma mais secreto dos requerentes. “Nós queremos
uma criança pequena; os maiores possuem já seu caráter”. De outro
modo, se a criança pode lhes pertencer, seu caráter, ou, mais
precisamente, ela enquanto sujeito lhes escapará. A adoção vista sob
esse ângulo aparece como uma operação singular no curso da qual uma
criança sem caráter é criada à imagem da família adotiva e legitimada
por outrem acerca do nome patronímico.
Todavia, sujeitar uma criança ao desejo de um adulto não é
específico das crianças adotivas. É o caso de todo filho quer seja adotivo
ou biológico. É justamente o que Freud chama de criança imaginária,
sustentação do narcisismo dos pais. Em outros termos, o filho quer seja
adotivo ou não é chamado a realizar isso que os pais não puderam
conseguir, e, nesse sentido, lhe é incumbido de suturar as feridas
narcíseas que a realidade lhes inflige. Ao contrário, o que há de
específico no filho adotivo é que a realidade de sua história infligiu-lhe já
essa ferida devido a seu abandono. O abandono retorna freqüentemente
sobre a língua dos filhos separados prematuramente de seus pais.

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Existem nesses casos quem se atribua a culpa e continue por muito
tempo a crer que se foram abandonados é porque alguma coisa neles
seria a causa dessa rejeição. Quantas vezes eu não ouvi explicações do
tipo: “Eles queriam um menino, mas tiveram uma menina”. Ou ainda
muito mais grave: “Eu devia estar muito doente quando nasci”. Atribuir-
se a culpa é uma maneira de salvar os pais biológicos. Assim, eles fazem
como se esse ato fosse o signo de infelicidade dos genitores antes que o
signo de sua culpabilidade. O fato de que a criança queira salvar os pais
biológicos e não dramatizar o abandono revela que estes últimos
continuam a estar presentes e que ela não deu início ao trabalho de luto
de sua figura ideal.
Na falta de luto desses pais, a criança permanece filho adotivo. É
isso que eu pude constatar com pacientes adultos que me procuraram
ou que se apresentaram como sendo filhos adotivos. Eles fazem como
se o tempo não tivesse passado desde o momento de seu abandono e
como se a criança não tivesse jamais crescido neles. O luto da origem
tem pouca chance de se fazer, e por mais forte razão quando os
candidatos à adoção são constrangidos a tornarem-se pais. Em seu
constrangimento, eles mal alcançam a amplitude do trauma causado
pela ruptura precoce que a criança sofreu. E desse modo, lhes é difícil
permanecer bem dispostos na perspectiva do filho adotivo quando este
manifesta uma reação de reserva ou de rejeição ao encontro.
É preciso um tipo de renúncia para poder se doar. Isso se aplica a
todos os níveis do encontro entre os homens. Aliás, é uma reprovação
corrente na vida de um casal. “Querida você não se entrega o bastante”,
ouvimos dizer freqüentemente à guisa de explicação para todo tipo de
mal-entendidos conjugais. Mas, para se doar, para adotar seus novos
pais, a criança tem de início um trabalho a fazer com o abandono real,
aquele da história de seu nascimento. Para fazer isso, a criança tem
necessidade do apoio daqueles que lhe são próximos, de seus novos
tutores, daqueles que sabem respeitar sua dor, seu luto, seu amor e seu

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ódio ante tudo que se apresentou. A adoção recíproca se faz dia-a-dia,
não sem dificuldades. Aliás, é inimaginável que a adoção se faça sem
constrangimentos que coloquem os desejos de criança dos diversos
parceiros diante de rudes provas.
As dificuldades ligadas à adoção seriam inevitáveis então? Eu
temo muito que sim. Uma das primeiras constatações que nós fazemos
quando recebemos casais candidatos à adoção é o profundo mal-
entendido que subentende sua solicitação. Os casais afirmam que
refletiram muito conjuntamente, que eles são unidos e que eles se
sentem igualmente concernidos pela criança e pelo seu futuro. O
homem e a mulher têm tendência a apagarem-se atrás da entidade
sociológica do casal para homogeneizar seus desejos e seus fantasmas.
Ao ouvi-los, tem-se a impressão de que mais nada separa um homem de
uma mulher. Isso, infelizmente, é desprovido de fundamento na adoção.
Pois quando a esterilidade se revela instransponível, e quando todas as
tentativas de inseminação artificial são infrutíferas, homem e mulher se
colocam na espera de uma criança de modo parecido: “Nós lhes damos
uma criança”. A mulher não espera mais esse filho de seu marido e o
homem não proporciona um filho à sua esposa. “Querido, dê-me um
filho!” não é mais essa demanda urgente que o corpo de uma mulher,
que o desejo de uma mulher, endereça a um homem, o qual ela deseja
fazer o pai de seu filho. Homem e mulher não fazem desse filho “um
filho de ti”, pois em todo caso, a criança se fez sem eles. Eles fazem
uma criança “contigo”.
No entanto, a experiência ensinou-me que a problemática no seio
de um casal apresenta-se diferentemente conforme o homem ou a
mulher seja estéril. Eu me lembro de ter feito uma observação ingênua a
médicos e a técnicos de um laboratório de inseminação, referente à
maneira como o esperma de um homem é selecionado. Solicita-se ao
homem de ir fechar-se em uma sala própria a essa prática e de retornar
com seu esperma. Isso me parecia absolutamente desumano, até

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mesmo humilhante. Eu perguntei a meus interlocutores por que as
coisas não se organizavam de modo que o homem e a mulher pudessem
se amar verdadeiramente e fazer desse ato de doação do esperma um
verdadeiro ato de amor. A resposta que eu obtive jamais me havia
ocorrido antes. Eu aprendi que a atitude da mulher não era tão
benevolente quando o homem era estéril. As equipes haviam constatado
que as mulheres recusavam acompanhar seus cônjuges quando eram
eles que eram estéreis. Essa disposição singular da mulher com relação
a seu companheiro estéril é um elemento suplementar que tende a
confundir, na vivência do homem, a esterilidade com impotência.
O que se apresenta, no curso de diversas entrevistas psicológicas,
como sendo um casal homogêneo não resiste muito tempo à prova da
chegada da criança. A um só tempo, a criança real se destaca da criança
fantasmática e o casal se afasta para deixar emergir a diferença dos
sexos. A criança real separa o homem da mulher na medida em que ela
reatualiza, coloca em jogo para cada um, os fantasmas em relação com
seus cenários sexuais infantis. O casal aprende por sua vez que um
casal não existe, malgrado tudo o que se projeta como fantasma
referente à identidade vista ou à potência do amor. Cada um vai se
encontrar regido por seu próprio fantasma, por sua verdade inconsciente
e pelo sentimento de dívida que se experimenta ao olhar do outro ao
qual não se pôde dar uma criança biológica. A criança real vai
questionar a realidade do desejo de criança para cada um e, por
conseqüência, ela leva cada um a se determinar quanto a seu lugar
junto ao outro cônjuge e quanto à sua função junto à criança. São
inúmeros os casais que se desfazem após a chegada de uma criança
que era, todavia, tão esperada.
A criança, por sua vez, apresenta uma problemática particular cujo
nó se resume aos pontos que desenvolvo a seguir.
Eu sempre achei espantoso ver chegar um adulto em meu
consultório de analista e de ouvi-lo se apresentar como sendo uma

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criança adotada. Acontecia como se “criança adotada” não tivesse o
direito de crescer ou de se libertar do que parece ser uma marca ou um
título de propriedade.
É ainda espantoso ouvi-lo evocar um antes e um depois para
significar que o destino que devia ser o seu no quadro de sua família
biológica não é mais o mesmo em sua vivência atual. Esse adulto põe as
coisas em termos de uma troca radical na ordem de sua vida que não
cessa de misturar as pistas para ele. É uma questão que retorna
freqüentemente e que soa verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Há um
destino outro que era o meu e, se for assim, de qual direito se teria sido
privado. Colocada desse modo, a questão me parece compreensível,
mas ao considerá-la por um outro ângulo, pode-se dizer que seu destino
atual, a vida vivida no dia-a-dia, não é senão uma falsa pista e isso
poderia implicar a possibilidade de um retorno a fim de reencontrar o
momento original. Dito de outro modo, se meu destino fosse outro, isso
significa que qualquer que fosse, eu não seria responsável pelas
conseqüências dessa mudança que haveria modificado a orientação de
minha vida.
Ouve-se assim falar de verdadeiro e falso sem a possibilidade para
a criança de resolver ou de se referir a um julgamento que encontre seu
lugar. Entre duas pretensões que são ainda vivas para o adulto, Salomão
mostra-se ausente. Em outras palavras, se existem pais de nascimento e
pais de adoção, de que modo se organizar com a dívida? Nós sabemos
que em condições normais, a dívida da perspectiva dos pais se paga
através dos filhos. Eu chamo isso de dívida simbólica: dar aos pais, aos
nossos pais, pequenas crianças que perpetuem o nome e o patrimônio
genético. Então, trata-se da mesma dívida da perspectiva dos pais
adotivos? O que se pode dar em troca do seu amor, de sua bondade, de
sua presença quando os outros se deixam marcar por seus defeitos?
Como quitar a dívida da perspectiva desses pais que sabem indicar que
eles não são os pais biológicos? Eu chamo essa dívida, a dívida

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imaginária, uma dívida que por sua persistência gera tanto a
culpabilidade quanto o ódio daqueles que nos amam.
Se existem aí dois que ocupam o mesmo lugar com cada um os
mistérios de sua presença ou de sua ausência, a demanda de um não
faz senão tornar brilhante o mistério da ausência do outro. Partindo
dessa constatação, o drama de Édipo torna-se indissociável de sua
exposição. Um tal postulado nos autoriza colocar a hipótese de um real
que se vive como historicidade e de uma divisão que opera para o
sujeito entre dois tempos postos como sendo igualmente históricos.
O mistério da origem para a criança adotiva parece deter-se na
questão da geração perdida. É impossível para elas retomar o percurso
das gerações para constituir, como para todo indivíduo, a árvore
genealógica. A filiação para elas pode tomar por sua vez essa volta
particular que consiste em buscar traços de semelhança no rosto das
pessoas pertencentes à geração dos pais perdidos na esperança secreta
de reencontrar os pais biológicos.
Quando tal é o caso, o luto desses pais tarda a fazer-se tanto mais
que ocorre ao “filho adotivo” identificar-se ao dejeto justamente a fim de
justificar seu abandono. Não é pouco freqüente ouvir alguém comentar
que se foi abandonado, é porque houve certamente uma razão para que
os pais biológicos tomassem essa atitude. “Eles gostariam talvez de um
menino”, ou ainda, “eu devia ser particularmente feio de ver”.
E, todavia, isso acontece muito freqüentemente. Uma criança
nascida de um casal se reconhece em outro casal e se faz também
reconhecer como sendo o filho que eles esperavam. O que faz a família
quando é esse o caso? Existe uma função que transcende aquela de um
pai biológico que cessa de ser pai para seu filho biológico, e aquela de
um pai adotivo, que se reconhece nessa mesma criança? Lacan introduz
a noção de Nome do Pai para nomear justamente o que nos inscreve
além da natureza da ligação que nos liga a nossos pais, numa linhagem.

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E é justamente essa função, quando ela marca a criança, que faz família
para ela junto a seus responsáveis.

O que é então uma família?


Eu me interrogo freqüentemente sobre a natureza desse contrato
que liga seres entre eles sem se fundar sobre referências habitualmente
evocadas para definir a entidade familiar clássica. Trata-se de um nó
fundado sobre a ligação do sangue ou de um pequeno grupo constituído
segundo as obrigações que as leis de alianças regulam, mas de um
contrato moral que o corpo social oficializa pela outorga do patronímico
dos pais adotivos. E, todavia, isso funciona. Isso funciona de tal modo
que pouco importa a idade de chegada da criança na família adotiva, o
interdito do incesto opera como ele o faria em uma família biológica.
Convém, aliás, falar de contrato quando essa escolha é guiada
pelo desejo inconsciente dos sujeitos concernidos? Esse contrato pode
ser entendido como se fala de contrato entre o analista, por exemplo, e
seu analisando. Na análise, trata-se de uma demanda, uma demanda de
amor para simplificar, e essa demanda empresta o caminho do analista
porque lhe é necessário um endereço no aqui e agora para abrir esse
endereço no lugar do Outro, aquele ao qual se deve seu estado de ser
falante. Esse Outro em psicanálise é a linguagem. Ele nos engaja na
medida em que quando nos endereçamos a ele, não fazemos mais do
que ouvir nossa própria mensagem. É preciso um suposto saber - o
analista não nos aborda com seu saber pré-concebido, o saber na
psicanálise é um saber inconsciente do analisando - para que os fios da
história subjetiva do sujeito se coloquem a se cruzar e se recruzar para
constituir a trama familiar.
Se o adulto, em sua abordagem da psicanálise, faz apelo ao
suposto saber convocando-o a vir suprir sua falta a ser, a criança, em
troca, está nessa relação com os pais. Conforme sua idade, ela está
numa relação com o Outro, aqui a mãe da mais remota infância, seja na

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transferência familiar ou no que Freud chama “neurose de
transferência”. Os pais, quer sejam adotivos ou não, estão aí para
receber essa transferência, e, por conseqüência, tomar sobre eles a
angústia que tende a desestabilizar seu mundo afetivo; ou para bloquear
o desvio de sua veleidade de comunicação em direção à linguagem
outra que aquela da fala, o sintoma, por exemplo. Para o adulto, em sua
transferência, o tempo, ou os pedaços do passado, surge para se impor
inadequadamente em relação à realidade; enquanto que a criança, com
sua família, inscreve em uma historicidade o tempo que se coloca a se
desenvolver para ela graças à presença e à ausência de seus pais, e,
sobretudo, graças a seus significantes cuja vocação é de serem
conquistados por ela a fim de tornarem-se seus.
De que contrato se trata? De um contrato simples que não tem
legitimidade senão no fato de que um indivíduo vem em direção a nós
porque ele nos supõe um saber sobre sua falta a ser, seu mal-estar. Ele
nos concede sua confiança e seu amor e, sobretudo, ele se autoriza
falar. O engajamento do analista consiste em fazer compreender ao
analisando que jamais dormirão juntos; que ele poderá dizer tudo que
lhe passe pela cabeça sem sofrer represálias de qualquer natureza que
seja da parte do outro parceiro, e que ele não buscará jamais tirar
proveito de sua fraqueza, de sua confiança ou de sua dependência
psíquica ou afetiva.
Quando se interroga uma criança em vistas de sua adoção, ou
simplesmente de sua educação, trata-se sempre de que existe uma
demanda de amor a levar em conta. Os pais adotivos querem um filho
que eles já amam. A criança também tem uma demanda de amor, ela
quer pais e é preciso crer que eles já a amem. Amar desse modo não é
senão a expressão consciente do que a demanda implica sobre o plano
inconsciente. Isso nós só podemos conhecer no só-depois. É por isso que
a adoção se faz dia-a-dia. Esperando-se, a criança será respeitada e
protegida, seu corpo e sua intimidade serão colocados ao abrigo de

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todos os golpes, sua história será restituída sem julgamento de valor
nem justificação que só serviriam para tornar as coisas opacas.
No entanto, existem ao menos duas diferenças de peso entre o
que é próprio à análise e o que é da ordem da família. Uma família é
tudo menos neutra. As relações inter ou intrapessoais são de tal modo
carregadas de afeto e de tensão narcísea que os lugares permanecem
raramente onde eles são supostos estar. Pais e filhos, homem e mulher,
diferença de gerações e de sexos, são noções que se revelam ao mesmo
tempo fluídas e instáveis. Esse estado de coisas tende a desestabilizar a
estrutura familiar e submeter seus membros a duras provas. A segunda
diferença é aquela que confronta a criança ao fato de que ela tem
relação com pais desejantes e sexualmente ativos e que ela é, desde a
mais tenra idade, confrontada a essa realidade que não cessará de lhe
interrogar e de determinar sua estrutura.
Essas duas diferenças não são apenas elementos normativos no
processo de neurotização do sujeito humano. Elas poderiam também
fazer com que os diversos estatutos da criança e dos pais se recusassem
à sobreposição e, por conseqüência, ao amalgamento.
Se a demanda de adoção se justifica nisso que se chama o desejo
de criança, o lugar que ocupa esse desejo poderia determinar a natureza
da evolução da estrutura familiar. Se o desejo é desejo por uma criança
todos aqueles que se orientam a um título ou a outro para a ação
educativa, terapêutica ou médica de crianças estariam habitados por
esse desejo.
O desejo de criança não é a necessidade de criança. O desejo de
criança é inerente ao desejo que se tem pelo parceiro do outro sexo e do
qual se deseja fazer dele o pai ou a mãe da criança a vir. A necessidade
de criança não é condicionada pelo lugar privilegiado que o outro sexo
ocupa em nosso desejo, ela pode ser reduzida a um estado secundário
na medida em que sua contribuição é inevitável na concepção de uma
criança. Quantas vezes não vimos situações particulares em que uma

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mulher concebe uma criança com um homem sem dar ao genitor a
menor chance de aceder ao estatuto de pai de seu filho. O contrário é
verdadeiro também. Um homem que não faz apelo a uma mulher senão
como mãe portadora.
O desejo de criança é inseparável do que eu poderia qualificar de
encontro entre dois desejos:
Desejar uma criança de uma mulher, aquela que um homem ama.
Desejar uma criança de um homem, aquele que uma mulher ama.
Trata-se do encontro desses dois desejos na medida em que disso
se fala, e onde, graças a essa palavra, uma criança encontra sua origem.
A criança guardará a marca do modo como o desejo dos pais lhe será
instilado, traços sobre os quais virão se inserir seus próprios
significantes.
Se tal é o caso na chegada ao mundo do filho biológico, o filho
adotivo obedece também a essa mesma regra. Há, todavia, em primeiro
lugar, a necessidade para os pais estéreis de fazer o luto da transmissão
genética. Se adotar é o signo de que esse trabalho foi feito, ele não é
senão um simples signo. É a criança da realidade que terá a rude tarefa
de limpar o caminho. Depende dela negociar seu lugar junto aos pais
que poderiam se revelar não ser senão pais simbólicos pouco inclinados
à perda da criança imaginária. O filho adotivo coloca menos o narcisismo
dos pais em causa porque ele é geneticamente outro. Dito de modo
diferente, se ele se revela aquém da espera de seus pais, é porque se
trata de criança cuja origem genética provém de um outro casal. Os pais
adotivos poderiam rejeitar a responsabilidade de suas dificuldades com
seus genitores e recusarem assim de se reconhecerem na criança, a
qual poderia posar como problema. Eles se preservam assim
narcisicamente e permanecem estranhos às manifestações de vida da
criança. Pais simbólicos e criança imaginária se retratam de algum modo
por recusar a criança real.

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Mas, permanecer “estranho” às dificuldades da criança implica os
pais adotivos num segundo plano também significante. Quando a carne
de minha carne falha em seu efeito de racalcamento, o estrangeiro, o
filho adotivo ou os pais adotivos, poderiam escapar ao interdito que
impede a atração sexual para os membros do círculo familiar. Não é
preciso compreender a fuga de Édipo no mito como um efeito da
persistência de seu desejo sexual por seus pais? A clínica com crianças
adotivas nos confirma por vezes essa hipótese. Eu me contentaria de
reproduzir desse homem de 35 anos, decepcionado com sua família
adotiva: “Eu me digo por vezes que eu tive a sorte de ter tido uma mãe
adotiva muito feia. Eu me pergunto se eu teria podido resistir à tentação
se ela fosse bela”.
Para concluir, eu diria que o luto da gravidez, da criança narcísea e
do filho do pai, aparece como um trabalho a empreender para que o luto
de seu desejo possa reverter a fim de que a criança real possa se
introduzir lá onde a criança imaginária teria tendência a ocupar todo o
espaço.
O que quer que seja, a criança deve encontrar seu caminho e
“obrigar” seus pais a fazer o luto de seu próprio filho narcíseo único
modo para ela de existir e de ser imperfeito. “Obrigar”, significa que seu
desejo abre aos pais a possibilidade do acolhimento sem investimento
narcíseo excessivo e sem excesso de rejeição.

[1]
Texto inédito solicitado ao autor em 2003, por ocasião de sua
participação no evento sobre adoção organizado pela Divisão de
Psicologia da 1ª Vara da Infância e da Juventude. Tradução: José César
Coimbra. A base do argumento é o livro de sua autoria A criança adotiva
e suas famílias, publicado pela Cia de Freud em 2002.
[2]
Psicanalista francês com larga experiência no campo da adoção.
Trabalhou por mais de vinte anos na ASE – Aide Sociale à l´enfance.

15
Acaba de publicar na França La langue et la frontière. Double
appartenance et polyglottisme, Editora Denoël.

Adoção e Homossexualidade: notas sobre o


discurso de quem tem voz
Anna Paula Uziel1

Este artigo se refere aos dados obtidos na pesquisa realizada para


a tese de doutorado intitulada Família e homossexualidade: velhas
questões, novos problemas2. À época foram analisados 8 processos de
adoção e habilitação para adoção cujos requerentes declaravam-se
homossexuais. Além da análise dos processos, foram feitas entrevistas
com operadores do Direito e técnicos envolvidos na rotina da adoção. O
objetivo era compreender de que forma o poder judiciário concebia
família e como reagia com composição "pais homossexuais".
Cabe salientar que dos 8 requerentes, 7 eram homens. Esta
discrepância deve-se, supõe-se, à invisibilidade da homossexualidade
feminina, acrescida da naturalidade em que se encontra a maternidade
e a estranheza que causa a paternidade fora da conjugalidade,
sobretudo se for uma opção e não uma peça do destino. Significa dizer
que pouco se pergunta ou se suspeita a respeito da orientação sexual
quando da procura por uma mulher pela adoção, o inverso do que
acontece com um homem sozinho que chega à Vara da Infância e da
Juventude com o intuito de adotar uma criança.

1
Psicóloga, Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora do CLAM/IMS.
E-mail: uzielap@alternex.com.br
2
Tese de doutorado em Ciências Sociais, defendida na Unicamp em 2002.

16
Apesar de atualmente ser mais comum os homens manifestarem
seu desejo de estar próximo a seus filhos, a tradição que entende que a
mulher é mais afeita a cuidados e, portanto, é mais indicada para cuidar
de uma criança ainda é bastante pregnante. Na mesma linha, perpetua-
se a idéia de que a completude da feminilidade está na maternidade,
naturalizando esta prática.
De todo jeito, convém afirmar que uma vez tematizada, a
homossexualidade não passa despercebida em nenhum processo. Ainda
que na comarca analisada não seja motivo para inabilitação, sempre que
aparece os profissionais envolvidos utilizam a orientação homossexual
como um dado a analisar.
Pretende-se, com este breve texto, levantar as principais questões
sobre as quais técnicos e operadores do Direito se debruçaram para
refletir sobre o pedido de adoção feito por requerentes homossexuais no
início do terceiro milênio.

O que é a família, afinal? De como a homossexualidade se


introduz
A família nuclear, modelo inspirador da sociedade ocidental é,
cada vez mais, uma experiência minoritária. Se a família aparece como
a mais natural das categorias sociais, é porque ela funciona como
esquema classificatório e princípio de construção do mundo social, bem
como um valor a ser preservado. A família é constituída como entidade
unida, integrada, unitária, estável, constante, indiferente à flutuação dos
sentimentos individuais (Bourdieu, 1993). Há um trabalho simbólico
capaz de transformar o que poderia ser obrigação de amar em
disposição para tal, dotando cada membro do grupo de generosidade,
solidariedade, capacidade de doação, de ajuda. O sentimento familiar
precisa ser constantemente re-investido para que esta ficção possa se
perpetuar, é necessária uma adesão à existência deste grupo.

17
"É preciso encontrar as palavras para descrever as
relações de parentesco. Para os etnólogos, o termo
parentesco designa um conjunto de regras que formam
um sistema que concerne filiação e aliança e rege a
transmissão de estatuto e bem, o modo de residência
etc3" (Segalen, 1991: 234).

Lembra Bourdieu (1993) que para que esta realidade que


denominamos família seja possível, é necessária a reunião de condições
sociais que não são uniformemente distribuídas e tampouco universais,
ainda que a naturalização as faça parecer óbvias.
O movimento homossexual foi fundamental para mudar os rumos
da epidemia de AIDS no Brasil e no mundo. Se por um lado a
compreensão da síndrome como câncer gay contribuiu para maior
segregação, por outro, introduziu a homossexualidade no cenário social.
Somente a partir deste momento passou a ser possível discutir direitos
dos homossexuais, até então destituídos da condição de cidadãos. A
AIDS punha em questão, por outro lado, a noção de promiscuidade e
apontava para a pluralidade de parceiros na estruturação de relações
homossexuais, surpreendendo alguns com a existência de conjugalidade
estável e monogâmica, padrões mais compatíveis com o ideal de
família.
Segundo Foucault (1979, 1989), a família é um fenômeno recente
e a conjugalidade hoje serve para estruturar a vida dos sujeitos. Neste
sentido, o debate sobre a pertinência, significados e conseqüências de
se desejar constituir uma família legalmente aparece na literatura e nos
discursos da militância homossexual. Se para alguns autores pleitear a
constituição de família poderia significar submissão a um padrão
heterossexual, como demonstra Schiltz (1998), para outros é a
possibilidade de reconhecimento e valorização de uma situação que já
existe, embora seja constantemente colocada à margem da sociedade.
3
Tradução livre de: “reste à trouver les mots pour décrire ces relations de parenté. Pour les ethnologues, le
terme de parenté désigne un ensemble de règles qui font système, concernant la filiation et l’alliance, et
régissant la transmission des status et des biens, le mode de résidence etc".

18
Na França, pesquisas revelam que 50% do homossexuais coabitam
com o/a companheiro/a e desses, entre 40 e 50% desejam ter filhos.
Pesquisas realizadas em outros países da Europa e dos Estados Unidos
estendem esta margem para 60% (Leroy-Forgeot, 1999). No Brasil não
há estatísticas semelhantes que nos forneçam essas informações.
Em 1996, em Paris, a Associação de pais e futuros pais gays e
lésbicas (APGL) cunhou-se o termo “homoparental” para definir esta
categoria. Ainda que neste país não se faça pesquisas enfatizando a
orientação homossexual dos pais, por isso ser já a resposta sobre uma
possível pergunta, sobre se existe alguma particularidade na família
formada por pais homossexuais, a existência do termo aponta para
alguma construção neste sentido. Seu uso varia desde uma luta política,
marcação de posição, estratégia, até a idéia de que de fato há algo de
distinto nesta constituição.
Em 1999 a França aprovou o PACS (Pacte Civil de Solidarité), lei
que reconhece a relação de conjugalidade entre pessoas de mesmo
sexo ou de sexos diferentes, concedendo e garantindo direitos e
deveres. Esta lei vem no bojo do que vinha acontecendo nos anos 90
em diversos países, depois que parceiros de muitos anos perdiam o
patrimônio construído com alguém do mesmo sexo, porque a legislação
não contemplava este modelo de conjugalidade.
Embora o PACS não tenha como foco relações de filiação e, por
isso, não trate especificamente de adoção ou reprodução assistida, a
passagem da relação conjugal para a constituição de família tem sido
rápida, quando se trata de discutir e negociar direitos e reconhecimento.
O debate na França, que transbordava da Assembléia Nacional e
invadia a imprensa, atraiu sociólogos e psicanalistas. Na Psicanálise, de
um lado, Anatrella (2001) e Hamad (2002) colecionam argumentos
contrários à adoção por homossexuais, ainda que com argumentos
distintos. O primeiro acusa o PACS de se utilizar da relação de
concubinato para escamotear a intenção de institucionalizar a relação

19
homossexual. Ambos apostam na identificação entre homossexualidade
e negação da diferença dos sexos, ponto de vista combatido por Tort
(1999). Para Hamad, não seria a homossexualidade o problema ou o
impedimento para a concessão da adoção, mas o possível ódio ao outro
sexo e a "renegação da diferença dos sexos" (2002: 40). Roudinesco
(2003) explica que a formação da família por pessoas do mesmo sexo
como transgressão à ordem procriadora que repousou durante muito
tempo no princípio do logos separador e da diferença entre os sexos.
A grande questão é se os pais do mesmo sexo serão capazes de
oferecer a seus filhos o conhecimento dos dois sexos, preocupação de
Théry (2000) que se atualiza no senso comum através do temor de um
casal homossexual influenciar na orientação sexual dos filhos.
Outro ponto polêmico entre os psicanalistas diz respeito à
formação da identidade da criança (Hamad, 2002). A falta concreta do
outro sexo se confunde com o debate acerca da função paterna a
desempenhar, pondo a criança em risco.
O sistema de parentalidade está baseado na filiação e na aliança
(Cadoret, 1999;Théry, 1998). Esta afirmação nos faz compreender por
que a adoção plena, as famílias recompostas, as famílias que utilizam
tecnologias reprodutivas, enfim, as diferentes formas de constituição de
família recaem sempre no modelo tradicional calcado na diferença entre
os sexos, exigindo que o casal parental seja composto por pessoas de
sexos distintos e, além disso, que o lugar de pai e de mãe seja ocupado
sempre de forma exclusiva.

Vozes e ecos: o que dizem técnicos e operadores do Direito


Em primeiro lugar convém lembrar que as observações, os
comentários e as afirmações feitas tiveram época e lugar. As
entrevistas foram realizadas em 2000 e 2001, com alguns técnicos e
operadores do Direito, cujas identidades não são reveladas.

20
Não se pretende, de forma alguma, generalizar as concepções
presentes nos fragmentos utilizados como ilustrações, tampouco
condenar cada um que se reconheça a determinados pensamentos e
concepções, exigindo coerência4.
Para além do imposto pela legislação, é a compreensão que os
técnicos e os operadores do Direito têm sobre este fenômeno, adoção,
que vai ordenar suas práticas. A maior ou menor liberdade e
desprendimento para refletir sobre o assunto e vincular ou desvincular
suas opiniões da letra da lei deve-se ao estilo de cada um, somado às
interferências que poderíamos também nomear de "deformação
profissional".
Embora a palavra final seja do juiz, os pareceres dos técnicos são
levados em consideração na avaliação do caso. Neste sentido, a postura
que adotam, a leitura sobre a pertinência, o risco, o sentido ou não que
tem se fazer a pergunta sobre se homossexuais podem ser pais
influenciam as outras etapas do processo. A cientificidade esperada do
discurso dos técnicos é a garantia de que se tem necessidade para
tomar uma posição que pode ser entendida como conservadora ou para
arriscar, ousar e conceber família como não necessariamente
estruturada por pessoas de sexos diferentes. Os técnicos pareceram
estar bem cientes da responsabilidade a eles delegada e a expectativa
no sentido de dosar o que é preciso considerar.
Flexibilidade, capacidade de lidar com situações difíceis,
disponibilidade afetiva, capacidade de estabelecer vínculos, a idéia de
projeto, que reflete a possibilidade de o sujeito incorporar uma
perspectiva de futuro ao seu desejo, são aspectos valorizados em
processos de adoção em geral, e valem também para os casos em que
homossexuais são requerentes.

4
Neste sentido, gostaria de agradecer aqueles que se dispuseram a colaborar com a pesquisa, dispondo de seu
tempo e enriquecendo meu trabalho com suas idéias e questionamentos. Agradeço também a oportunidade de
ter realizado a pesquisa nesta comarca.

21
Quando questionados sobre o que seria impeditivo para um
parecer favorável, os técnicos evitam chavões e tomam cuidado com
explicações que possam parecer preconceituosas, classistas,
condenáveis. Mostram-se atentos às necessidades de uma criança, e
por isso evitam critérios que incorram em injustiças ou cerceiem a
possibilidade de arranjos que escapem ao tradicional.
Três são as formas de se pensar família partindo da adoção:
transformação do casal em família, se forem entendidas como entidades
distintas; a construção dessa família a partir do encontro entre duas
pessoas ou a construção a partir da disponibilidade de alguém em
constituir uma família.
"O que transforma o casal em família é a ampliação
da rede, somado ao desejo de continuidade. Ter vontade
de trocar com outras pessoas, ser importante para outras
pessoas..." (P45).

Com esta afirmação, a psicóloga trabalha com a idéia da inserção


de novos elementos, não se restringe à existência de uma criança. No
entanto, esta fala de uma assistente social informa uma compreensão
distinta.

"Mas o que a gente busca na visita6 é verificar um


pouco a dinâmica familiar. Nesse caso específico de
habilitação para a adoção, como são casais sozinhos, a
gente não tem a possibilidade de ver a dinâmica porque
faltam os filhos..." (AS1)

5
Para manter sigilo sobre os profissionais entrevistados, foi adotado o seguinte código: a letra P para os
psicólogos, AS para assistentes sociais, J para juízes, MP para promotores e DP para defensores públicos.
Seguido das letras há números, para que o leitor possa identificar quando é o mesmo profissional e constituir,
se for de seu interesse, um perfil daquele profissional
6
Ela refere-se aqui à visita domiciliar, realizada pelo serviço social, tanto no processo de habilitação, quanto
na adoção pronta.

22
Interessante notar a contradição que esta situação, com esta
interpretação, pode gerar, dada a necessidade de se avaliar o
funcionamento da dinâmica familiar para a concessão de um parecer
favorável e, por outro lado, a impossibilidade do mesmo, por não haver
o objeto da observação.
Uma outra assistente social considera como família o espaço que
vai acolher a criança.
"Eu vejo pelas pessoas que chegam aqui querendo
adotar uma criança. Algumas chegam aqui até com essa
perspectiva, que está faltando alguma coisa na família.
Mas ela é a família que a criança vai ingressar. É aquele
espaço, daquela relação daqueles dois, que é o espaço
familiar daquela criança" (AS4).

Irigaray (1996) refere-se a um debate na França em que duas


posições antagônicas se confrontaram. Opondo-se a sua idéia de que
uma família começa quando duas pessoas, em geral um homem e uma
mulher, decidem viver juntas de forma durável, no intuito de fundar um
lar, um participante de um colóquio sobre família afirmava que a família
começa a três. Admitir esse terceiro é concordar com a submissão dos
três a imperativos externos sobre a garantia de manutenção da
sociedade.
Para uma defensora pública da comarca do Rio de Janeiro, não há
distinção entre casal e família.
"Quando se casa já é um novo núcleo familiar.
Quando se formou um novo núcleo familiar, mesmo que
ele seja composto só pelo casal, não tenha filhos, já foi
constituída uma nova família" (DP1).

Acompanhando o discurso de um membro da equipe de


psicólogos, pareceu-me pertinente concluir que já existe uma família,
mesmo sem filhos, ao que ele prontamente respondeu, ainda que sem
conseguir dar mais detalhes: incompleta.

23
"Incompletude, seja da família como eles entendem,
às vezes eles falam assim, que existe uma certa pressão
da sociedade ou alguma coisa como um projeto do casal,
geralmente, que não conseguiu efetivar, então a criança
completaria. Esse discurso da completude ou da
incompletude me aparece muito mais ligado aos casais.
Nos solteiros eu vejo muito assim: quer desempenhar uma
função, um papel de pai, ou função de mãe" (P2).

Por mais que não seja possível dizer que operadores do Direito e
técnicos desta Vara estejam respondendo a um modelo único de família,
parece que em linhas gerais esperam dois adultos – de sexos diferentes
– para a compreensão do grupo como família, somado à existência de
uma criança. Reforça-se este dado com a fala de lamento deste juiz:
O Estatuto se contenta com uma família
monoparental" (J2).
De menor valor, mas ainda uma família, inclusive porque a
Constituição Federal a reconhece.
Ainda que na maior parte dos casos a família homoparental se
encaixe na monoparental, a orientação homossexual do requerente
sobressai, convidando a um novo olhar sobre este arranjo. A
justificativa para se levar em conta a orientação sexual do sujeito
aparece em função da necessidade de compreensão da dinâmica
familiar, apesar deste registro não ser feito no caso de casais de sexo
diferente. Não fica claro por que conversar sobre a homossexualidade.
"Ele não está impedido de exercer papel de mãe, de
pai (...) de acolher aquela criança na família. Agora, essa
questão do homossexualismo vai entrar na dinâmica do
atendimento? Vai, porque ela é parte da vida do outro,
compõe o jeito dele de ser. " (AS4).

É a (homo)sexualidade que está em questão, mesmo que a


dinâmica familiar precise ser tematizada e apareça em todos os casos
de adoção e habilitação para adoção. Nunca á dada tanta ênfase sobre
a percepção que o sujeito tem de si.

24
"Até na hora da gente habilitar uma pessoa sozinha
ou uma pessoa homossexual, a gente nunca vai por esse
lado da preferência sexual porque isso não é um
parâmetro" (AS2).

No entanto, a orientação homossexual não passa desapercebida.


"Aqui eu diria que a equipe tem uma postura
progressista. Não sei se são progressistas interiormente,
mas tem o politicamente correto impondo isso aí. Então a
principio ninguém diz que vai inabilitar uma pessoa
porque é homossexual. " (AS3)

"No início eu não pensava assim, mas agora de tanto


as pessoas falarem, quando você vai pra entrevista acaba
passando. Você pensa assim: será que a pessoa é
homossexual? Não que isso seja um problema em si, mas
é um item... Se aparece um casal, não necessariamente
eu vou pensar isso" (P2).

No entanto, afirmam Descoutures e De Singly (2000) que a


orientação sexual dos pais é uma variável secundária e que conta pouco
na educação das crianças.
"... nem sei se você tem esse direito de perguntar se
se é homossexual" (AS2).
Apesar das dúvidas, sempre que a suspeita encontra uma via de
acesso à confirmação, esta é ativada. Corroborando esta afirmação, ao
responder sobre a "suspeita" que evocam requerentes sozinhos, uma
assistente social responde:
"A própria dinâmica do atendimento às vezes te leva
a perceber que de repente aquela pessoa tem uma outra
opção, ou não pensa em ter companheiro, ou nunca
pensou em ter filhos biológicos. Aí pode te levar" (AS4).

A homossexualidade, reconhecida cada vez mais na sociedade,


não atingiu ainda legitimidade quando o assunto é família, como vimos
discutindo até o momento, seja através da literatura, seja nos processos.
"Existe uma discriminação social com o
homossexual, a sociedade não é uma sociedade que
aceite facilmente o homossexualismo. Acho que

25
principalmente dentro do contexto do homossexualismo
eu acho que a mulher ainda é mais discriminada" (AS1).

"Eu não vou negar pra você que tem essa coisa de
preconceito. Por que que esse cara quer adotar um
menino? Eu acho que tem, mas a gente procura discutir
muito para que isso suma" (AS2).

Há, nesta observação, uma referência implícita a abuso sexual.


Um juiz, no entanto, amplia e destaca as possíveis conseqüências do
preconceito:
"Nós ainda vivemos numa sociedade preconceituosa
e muitas vezes a pessoa que tem uma preferência sexual
ela sofre discriminações que podem até abalar sua
estrutura emocional. E uma vez tendo sua estrutura
emocional abalada, ela pode, por conseqüência, ter até
sua habilitação indeferida. Isso não decorre do fato dele
ser homossexual, e sim do fato dele não ter uma estrutura
emocional adequada" (J2).

Na comarca pesquisada, a adoção por homossexuais gera muito


mais indagações do que pareceres desfavoráveis. No entanto, a
dificuldade de lidar com essa situação aparece como sendo do outro: a
sociedade que não aceita, o risco do que pode provocar na criança...
"Esse peso social talvez na cabeça de uma criança
seja difícil de trabalhar, se não tiver um apoio" (AS1).

Outro aspecto que prende a atenção dos técnicos é a forma como


o requerente lida com sua orientação sexual. Embora seja uma
observação abstrata, parece enfocar dois aspectos: se a
homossexualidade fica estampada, se é uma pessoa que estaria no
perfil da "bicha", e se tem comportamentos de misoginia ou androginia,
pelo risco que representa a interdição da convivência com o outro sexo.
"'O homossexual' é uma entidade muito abstrata, eu
acredito que haja modos... a opção sexual pode passar por
motivos diversos, então é interessante saber como a
pessoa define essa opção. Porque isso também vai dizer o
modo como essa pessoa vai se relacionar com o sexo

26
oposto e isso pode ser importante no modo como essa
criança vai se inserir nesse desejo" (P2).

Embora no Brasil não haja, até momento, estudos sobre


homoparentalidade, em função da pouca clareza da necessidade da
questão, questionamentos existem.
"será que um homossexual não vai poder ser um
bom pai? Pode. Será que um casal [heterossexual] serão
bons pais? Nem sempre" (AS2).

A preocupação seria, nestes termos, sem razão:


"Temos acompanhado essas adoções e não tem
havido nenhum problema, pelo contrário, só ganhos para
essas crianças, só vitórias, só êxitos, só desenvolvimento
sadio pra elas. " (J1).

Esta observação de um membro da defensoria pública


"A opção sexual de uma pessoa, a pessoa é livre pra
escolher sua opção. Isso não quer dizer que não seja uma
pessoa capaz de dar todo um carinho e amor e um lar
para uma criança, por causa da sua opção sexual, não
interfere" (DP1)

foi interrompida por uma atendente que ouvia a conversa,


reforçando o que vinha sendo dito, com o seguinte comentário: "são
pessoas super diligentes, cuidadosas. Às vezes até mais que a própria
mulher".
Interessante esta comparação. A homossexualidade é entendida
como masculina e o parâmetro é feminino, visto se tratar de educação
de crianças, reforçando o status quo.
Esse não lugar ocupado pelo homossexual, o “homem feminino”,
ao mesmo tempo que o marginaliza, o favorece pela proximidade com
as vantagens oferecidas pela mulher.
Para o Ministério Público não parece tão claro não haver dúvidas e
mesmo problemas.
[sobre o requerente homossexual] " O fato de uma
pessoa adotar uma criança não vejo problema nenhum,

27
agora o fato de ser um homossexual, aí tem que analisar o
caso específico da criança. A princípio não é um óbice,
mas tem que estudar o caso concreto pra não fazer
discriminação com as pessoas que vêm pleitear isso"
(MP1).
Apesar de afirmar não haver óbice, há uma ressalva com relação
ao cuidado com a criança, por conta da homossexualidade.
Pollack (1995) afirma que os pais homossexuais, além das
preocupações emocionais, financeiras, e legais, devem enfrentar ainda a
homofobia e a ausência de igualdade de direitos perante a lei.
"Quando o homem se propõe a assumir sozinho os
cuidados de uma criança, eu acho que desperta um pouco
de suspeita sim. O lado feminino dele está mais aguçado"
(AS1).

O cuidado de uma criança ainda está bastante vinculado à figura


da mãe, o que faz com que se atribua ou se busque identificar
características femininas no homem que pretende exercer sozinho a
parentalidade, como aparece em alguns processos. No entanto, quando
uma mulher aparece sozinha, parece que a "naturalidade" da
maternidade se sobressai, a orientação sexual não entra em questão.
Outro ponto que detém a atenção dos profissionais envolvidos diz
respeito a existência de um casal. Mesmo os juízes que não tratam a
homossexualidade como impedimento para a adoção, não reconhecem
o casal homossexual como entidade familiar.
"Ou seja, a adoção tem que ser por entidade
familiar, é por isso que adoção por homossexuais não
pode. (...) Uma é a mãe e outra é a tia, não é um
referencial paterno, não dá pra fazer esse tipo de
construção, só se o garoto for um alucinado, vir um
homem no lugar de uma mulher" (J2).

Descoutures e De Singly (2000) frisam que não se deve tentar


transformar os personagens do casal do mesmo sexo em pai e mãe, mas
pai e companheiro do pai e mãe e companheira da mãe.

28
A união entre duas pessoas do mesmo sexo não apaga a diferença
entre os sexos, ponto discutido anteriormente, nem confunde as
crianças que convivem com um casal de homens ou de mulheres. As
referências para reconhecer a diferença estão à disposição na
sociedade. Mais que isso, se a Psicologia contribui, explicando que se
trata de uma função e não propriamente de uma pessoa em si, não
importa o sexo, mas o que desempenha na formação da subjetividade
do sujeito.
Estes fragmentos exemplificam o que Butler (2000) anunciou:
embora as pessoas não tenham nada contra a homossexualidade,
acreditam que o casamento é exclusividade heterossexual.
Apesar das mudanças, ainda há, disseminada na sociedade, uma
estranheza em relação ao desejo de homossexuais por ter filhos,
apontando uma certa incoerência entre homossexualidade e
parentalidade. Tem-se, no exemplo ofertado por uma assistente social,
apesar de ser contrário à opinião dela, a tradução desse estranhamento.
"um homossexual que quer ter um filho é a mesma
coisa de quem é vegetariano e come bife de soja achando
que está comendo carne. Isso não é real. O bife de soja
não é real, mas o filho adotivo também não é real como o
filho biológico, ele é adotivo" (AS2).

Embora a explicação se centre no filho adotivo, fica claro que a


inadequação é em função da homossexualidade. Segundo Pollack
(1995), o aumento do número de homossexuais querendo ter filhos
torna mais óbvio que seus desejos têm a mesma raiz dos
heterossexuais: criar uma criança e formar uma família.

"Posicionar-se como pai/mãe potencial sendo


homossexual leva a uma primeira redefinição de si
mesmo, redefinição extremamente complicada por ser,
até o momento, paradoxal. " (Cadoret, 2000:170).

Essa aparente contradição entre homossexualidade e


parentalidade traz, como aponta Cadoret, conseqüências não apenas

29
para os sujeitos diretamente envolvidos, como para a família mais
extensa. E a passagem para a idade adulta, ainda vista na nossa
sociedade com o estatuto de pai ou mãe, não se daria.
Outro ponto interessante faz refletir sobre a realidade brasileira:
uma inversão se apresenta, gerando uma combinação entre as crianças
"mais difíceis"7 e os candidatos a pais que menos correspondem ao
modelo de família desejado e bem visto pela sociedade. Imediatamente
surge o argumento do "mal menor".
"Mas também é interessante que essa criança fique
jogada na rua?" (AS2)
" se você for falar de criança mais velha com
problema, muda o critério. Realmente o critério muda,
você fica mais exigente com as pessoas que querem
bebês. É uma coisa complicada, porque criança mais
velha é a criança mais difícil e você tem a pessoa menos
preparada às vezes pra lidar com a criança mais difícil,
mas ainda é preferível você pensar que essa criança vai
ter uma família do que ela vai ficar na instituição o resto
da vida até sair. Seria um mal menor" (P4).

Se o homossexual pertence a essa categoria de pessoas que


podem gerar dúvidas nos técnicos, é pequena a chance de adotar um
bebê. Um dos argumentos é o fato de proporcionar, de início, uma vida
que já não é a melhor, a mais adequada; já se contribui por princípio
para a constituição de uma família que vai sofrer preconceitos, novo
problema a incidir sobre as mesmas crianças que já têm o sofrimento
como elemento de sua história.
A existência dos filhos de homossexuais, que é fato na sociedade
ocidental atual, remete à discussão sobre sua origem. A orientação
homossexual revela, não como a cor da pele, mas de alguma forma
claramente, que aquela criança não veio daquele encontro de corpos.
Neste raciocínio, a inexistência do vínculo de sangue talvez seja mais

7
Identifica-se como "crianças mais difíceis" as mais velhas, portanto menos procuradas pelas famílias
substitutas, as que sofreram algum tipo de maus tratos físicos, sexuais ou as que foram devolvidas. Esta é
uma categoria utilizada por psicólogos e assistentes sociais.

30
facilmente tematizada, uma vez que as parcerias são com pessoas do
mesmo sexo, ou seja, parcerias não reprodutivas. Se a revelação do
segredo é uma preocupação dos técnicos, especialmente da Psicologia,
talvez nesses casos seja mais fácil. Essa criança tem, necessariamente,
uma outra história.

"É impossível entrar nesta lógica da imitação,


quando nos encontramos diante de dois homens ou duas
mulheres" (Iacub, 1999: 40)8.

Talvez seja exatamente a impossibilidade de sustentar a ficção o


que mais incomoda na constituição da família homossexual (Cadoret,
1999). Significaria também recusar a diferença entre os sexos como
necessária à geração de crianças e raiz da constituição familiar.
Um outro incômodo trazido pela homossexualidade dos
requerentes é a identificação entre homossexualidade – sobretudo a
masculina – e promiscuidade.
"quem é promíscuo não pode ser bom pai? Não sei,
mas você tem que passar alguns valores, você tem que
ter alguns valores" (AS2)9.
Instabilidade e promiscuidade seriam excludentes em relação à
família. Identificadas como características dos homossexuais, dificultam
ainda mais imaginar um arranjo familiar que inclua crianças em seus
lares.
Embora a diferença entre um homossexual e um casal
homossexual na convivência com a criança não tenha aparecido no
primeiro roteiro da entrevista, teve que ser incluído, por aparecer em
situações informais, reuniões ou mesmo nas primeiras entrevistas.
8
"C'est impossible de rentrer dans cette logique imitative lorsque l'on se trouve face à deux hommes ou à
deux femmes".
9
Ao tratar do tema, esta assistente social faz uma analogia a um caso de uma prostituta que deixa os filhos em
um abrigo, por não ter condições de cuidar deles, mas não deixa de visitá-los semanalmente: "A gente se
perguntou nesse caso: será que por ela ser prostituta ela não é uma boa mãe? Até porque ela tentou proteger
esses filhos botando num lugar, quando ela vai vê-los ela não vai com aquela vestimenta de trabalho". As
crianças moram em outra cidade e ainda: " Quando ela vai buscar os filhos na escola ela não se insinua para
os homens, ela tem outro comportamento quando chega lá".

31
"Eu não sei se dependendo da maneira como você
cria uma criança, essa relação de afeto se torna tão forte
que é importante. Você deixa de ter essa caracterização
homem e mulher. Dentro do que essa dupla vai passar de
afetividade às vezes é tão importante que a criança vai
querer ter o nome daqueles dois ou daquelas duas. A coisa
da afetividade mesmo" (AS2).

Com essa observação, que complementa o que estava sendo


discutido, a técnica retira a orientação sexual do foco e aponta a relação
de afeto proporcionada à criança como o ponto a ser considerado, como
o que ocorre em todos os processos heterossexuais, que não têm a
orientação sexual destacada. O bem estar da criança vai ser avaliado
com os mesmos critérios dos outros casos.
Um dos grandes temores é que a parentalidade homossexual
cause danos para a criança e uma das fantasias é o abuso sexual, no
caso de homens que preferem adotar um menino.
"pergunta-se por que a escolha de um menino.
Chama a atenção, mas as questões têm que estar
articuladas a outras, sozinhas caracterizam preconceito.
Algumas questões chamam a atenção porque fogem ao
padrão... " (P1)

Ainda no campo dos receios, embora não veja problemas na


constituição de uma família por pessoas do mesmo sexo, esta assistente
social afirma:
"Se pode ter problemas tão sérios na relação de um
casal com a criança, que leve ao homossexualismo" (AS4).
Aqui a homossexualidade aparece claramente como problema e
fruto de algum distúrbio na criação da criança. Embora tenha aparecido
desta forma somente uma vez, essa formulação pode estar por trás de
vários dos depoimentos obtidos de profissionais diferentes. No mínimo
porque a homoparentalidade é tematizada sempre.

32
Conclusões
Como é possível notar, a relação entre parentalidade e
homossexualidade gera vários temas e reflexões. As análises dos
processos, que compõem com os pontos levantados pelas entrevistas
um capítulo da tese, complementam o que foi discutido, já que revelam
também interpretações, perguntas, respostas de técnicos e operadores
do Direito na sua relação com o usuário.
Os temores em relação à homossexualidade, as dúvidas na melhor
composição familiar para as crianças, a fragilidade do próprio conceito
de família, o destaque da "feminilidade" do candidato à adoção não são
empecilhos para reflexões interessantes e posturas ousadas no poder
judiciário.
Os preconceitos presentes nestes fragmentos e a dificuldade em
sustentar posições, favoráveis ou desfavoráveis em relação à adoção
por homossexuais refletem o pensamento da sociedade como um todo e
apontam para as necessidades recentes de reflexão acerca de teorias e
posturas que fazem parte da formação desses profissionais.
A interação entre os diferentes campos de saber pelos quais
passam os processos pode significar o desafio que temos a frente para
enfrentar. Para isso, parece fundamental começar a por em questão o
familiar, os conceitos com os quais em geral não entramos em conflito,
idéias que possuem um acordo silencioso sobre a qual universo fazem
referência.
Generalizações ou a afirmação de que cada caso é um caso, se por
um lado podem demonstrar um temor ou uma dificuldade em
aprofundar o tema, por outro pode significar um aparente cuidado.
Ambos podem levar a um distanciamento dos temas que fazem com que
refletir sobre parentalidade e homossexualidade sejam tão importantes
neste momento.

33
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34
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novos problemas. Tese de doutorado em Ciências Sociais, Unicamp.

Adoção e redes de apoio social

Lidia Levy e
Patrícia Glycerio R. Pinho12

Questionamentos acerca das dificuldades na adoção realizada


por pais solteiros e a crença de que esta circunstância, considerada
isoladamente, estaria na origem de futuros distúrbios apresentados
1
Doutora em Psicologia PUC-RIO / Coordenadora de graduação do Departamento de
psicologia PUC. Membro da SPID e SPC-RJ tel. 31141184 llevy@psi.puc-rio.br
2
Psicóloga, 1ª VIJ RJ, npsicologia@tj.rj.gov.br

35
pela criança adotada, perpassam o discurso de um número significativo
de pessoas. Costuma-se preconizar futuros problemas emocionais para
crianças e adolescentes que não tiveram um pai presente em suas
vidas. Tais crenças parecem desconsiderar que pais despreparados
emocionalmente para a adoção existem tanto no grupo dos casados
quanto no dos solteiros, da mesma forma que não é difícil
encontrarmos pais biológicos com dificuldades em assumir a
parentalidade.
Atualmente, entretanto, cada vez mais a mulher é a provedora do
lar, arcando sozinha com a educação dos filhos. Muitas destas
mulheres candidatam-se a uma adoção quando, tendo atingido uma
faixa etária na qual a possibilidade de uma gestação é ínfima, tomam a
decisão pela maternidade, independentemente da expectativa de
conjugalidade. Em trabalho anterior (Levy e Féres-Carneiro, 2002),
constatamos que algumas mulheres desejavam constituir uma família
desde a juventude, mas por não terem encontrado um companheiro
investiram grande parte de sua energia no trabalho, alcançando uma
estabilidade profissional, que talvez não fosse sua meta prioritária.
Outras buscaram a realização profissional desde a juventude mais do
que uma realização no casamento e na maternidade. Nos dois casos,
ao chegarem à segunda metade da vida expressavam o desejo de
resgatar o que não haviam podido realizar e investiam
emocionalmente na perspectiva de uma filiação adotiva.
Da mesma forma que existem argumentos favoráveis e
desfavoráveis à adoção de crianças por pais solteiros, diversos estudos
encontram evidências de ajustamento da criança a este modelo de
família. Partimos do pressuposto de que famílias monoparentais podem
propiciar aos seus filhos referências estáveis tanto quanto as “famílias
tradicionais”, importando basicamente a motivação presente na
escolha deste tipo de filiação e o lugar destinado à criança no

36
imaginário dos pais, sejam eles casados, solteiros, viúvos ou
divorciados.
Após pesquisarmos as motivações de requerentes em processos de
adoção (Levy,1999), começamos a entrevistar aqueles que haviam
adotado isoladamente uma criança, na 1a Vara da Infância e da
Juventude do Rio de Janeiro, e estavam convivendo com ela já há algum
tempo. Nosso objetivo era observar os sucessos e fracassos, encontros
e desencontros presentes nestas relações e, a partir daí, poder
contribuir para um trabalho preventivo que beneficiasse futuros
adotantes.
Neste artigo3 estaremos destacando a importância de uma rede
de apoio social e afetiva nos casos de adoções monoparentais. Ou seja,
a presença de sistemas e de pessoas significativas, com as quais a
criança mantenha relações afetivas, o apoio dado pela família extensa,
por amigos e pela comunidade.
Muitos pais adotivos entrevistados declararam a importância do
apoio que receberam não só de familiares, mas de amigos e vizinhos.
Trechos de alguns discursos ilustram o valor dado à existência desta
rede:

- “Não tinha comprado nada ainda quando meu filho chegou. Os


vizinhos foram fantásticos, quando voltei a casa estava cheia de
amigos e parentes com todo um enxoval”.

- “Quando me telefonaram do Paraná, meus colegas de trabalho


ficaram emocionados e me deram toda a força quando larguei tudo
para viajar. Para minha surpresa, ao chegar no aeroporto de Curitiba,
meu irmão que mora em São Paulo, já estava lá me esperando para me
ajudar”.
3
Participaram da pesquisa Laura Araújo Geszti e Sumaya V. M. Braum, alunas de
graduação em Psicologia da PUC-Rio.

37
- “ No álbum de recordações de minha filha inclui as cartas de boas
vindas enviadas por meus amigos.... Meu tio assumiu a função de avô
e, apesar de ter outros netos, estabeleceu com ela uma relação
especial, fazendo questão de pagar sua natação”.

Neste último caso citado, as cartas não eram apenas cartas de


boas vindas, eram depoimentos que expressavam um acolhimento
carinhoso da criança e um reconhecimento daquela mulher como mãe.
Assim como crianças colocadas em família substituta necessitam
um continente seguro e afetivo que acolha suas inseguranças e
ofereça um espaço para a elaboração de perdas e da experiência de
abandono, também aqueles que se dispõem a formar uma família
monoparental precisam sentir-se apoiados e contidos em seus receios e
inseguranças.
As redes funcionam, no caso das famílias monoparentais,
suprindo em parte as funções da figura parental ausente. Atualmente,
discute-se as chamadas “novas configurações familiares” e entre elas,
as famílias monoparentais. Entretanto, uma das questões a ser
levantada, e que merece discussão, diz respeito à constatação de que
mesmo com as transformações ocorridas nas formas tradicionais de
família, mesmo com os novos arranjos feitos, a função materna e a
função paterna continuam indispensáveis ao desenvolvimento do ser
humano. Funções que não estão estritamente ligadas aos pais
biológicos ou ao sexo daqueles que as desempenham. A função
materna é uma atitude de apoio anaclítico que não é exclusiva do sexo
feminino, e a função socializante e interditora que se atribui ao pai
pode ser veiculada por ambos os pais e por outras figuras significativas.
Malpique (1990), em interessante trabalho sobre a ausência do
pai, constata ser indispensável a presença de um pai real ou seu
substituto, que possibilite à criança reconhecer a falta e interdite uma

38
relação fusional com a mãe. A autora acrescenta que, se o valor
simbólico que o Pai representa for transmitido pela mãe e pela
sociedade, a sua ausência real pode ser superada. Cita, ainda,
numerosos estudos antropológicos em que a figura paterna, no seu
significado e como modelo de identificação, foi representada por uma
série de figuras como o irmão mais velho, os tios, os velhos, os
antepassados, os defuntos, os sacerdotes, os deuses. O grupo social e
seus representantes são capazes de oferecer modelos de identificação
à criança ao longo de seu desenvolvimento. Em sua opinião, a
socialização do indivíduo é cada vez mais resultado de uma intervenção
da sociedade através de suas instituições e menos da ação familiar. A
presença do pai real é agente fundamental da triangulação, porém as
diferentes culturas dispõem, mesmo na sua ausência, de meios
simbólicos (linguagem, instituições, regras sociais, etc.) que asseguram
a função paterna.
Assim sendo, os sistemas de apoio, formados em torno da mulher
que adota uma criança, impedem o isolamento da díade mãe-filho e
assumem uma função de socialização da criança. Da mesma forma,
também para os homens que adotam a rede de apoio é fundamental.
Um dos casos de adoção por um homem solteiro, por nós atendido na
1a. Vara, ilustra esta necessidade. O adotante ressentia-se da rejeição
que seu filho sofrera por parte de seus familiares e afirmava que havia
sido importantíssima a dedicação de duas empregadas, que se
revezaram para ajudá-lo e estabeleceram com a criança fortes vínculos
afetivos.
Em outra adoção realizada por um homem solteiro, foi ressaltada
a participação de três irmãs, especialmente no período de adaptação,
tendo em vista que a criança havia sido adotada com poucos meses de
vida. O próprio pai temia não ser capaz de cuidar adequadamente de
um bebê e solicitara a adoção de uma criança mais velha. No entanto,

39
ao receber um recém-nascido pôde contar com a colaboração da
família e sentir-se fortalecido para exercer o projeto que tanto ansiava.
Entre as entrevistas realizadas destacamos dois casos. O primeiro
ilustra dificuldades decorrentes da ausência de uma rede social de
apoio. Trata-se de uma mulher cuja família extensa morava em outro
Estado, e não havia demonstrado qualquer entusiasmo diante da
chegada das duas crianças que ela acabara de adotar. Em seu discurso,
era nítido o ressentimento e a postura defensiva que adotara diante da
atitude de seus familiares.

“ Em minha família todos são independentes e nos encontramos


apenas no Natal”.

Esta “independência” fez com que percebesse a inexistência de


pessoas a sua volta com as quais pudesse compartilhar suas angústias
e incertezas diante do novo papel social. Em função disto, ao ser
chamada para a entrevista, mostrou-se ávida pela possibilidade de
trocar informações e desejosa de ter reconhecido seu potencial para o
desempenho da função materna.
O segundo caso revela um interessante confronto entre um
aspecto que poderia ser considerado desfavorável e que, entretanto,
apresentou-se especialmente funcional.
Convidamos a mãe adotiva de uma menina hoje com oito anos,
adotada aos três anos, a comparecer a uma entrevista de follow up. Já
no telefonema, fomos informados que a menina tem sido o melhor
presente que recebeu na vida. Na sala de espera, encontramos um
“casal” com a criança. Convidados a entrar, descobrimos tratar-se do
irmão da mãe adotiva. Ambos haviam se aposentado pouco antes da
chegada da menina e dedicam-se exclusivamente a ela.

40
“Fazemos tudo com ela. Levamos e buscamos da escola,
participamos dos passeios, auxiliando os professores com as crianças e
nossa casa está sempre cheia de amigos de nossa filha, que já disseram
que gostariam de ter uma mãe como a dela, que brinca e participa de
tudo”.

Inicialmente questionamos se chamá-los de mãe e pai não


estabeleceria uma confusão para a criança em torno dos papéis
familiares. Esta hipótese foi gradativamente descartada ao ouvirmos da
menina, o desejo de que cada um viesse a estabelecer relações
amorosas e ampliassem a família.

“Ela vive dizendo para o pai: Você está paquerando aquela moça,
não está? Ou então chama minha atenção, quando algum homem olha
para mim, querendo saber se eu estaria interessada”.

Um outro fator que pode ter contribuído para a adequação desta


configuração familiar foi a naturalidade com que as informações sobre
a adoção circularam, inclusive entre as pessoas que com eles passaram
a conviver.
A menina diz orgulhar-se dos “pais” e sua adaptação ao esquema
familiar é tão absoluta que mãe e filha mostram com satisfação o
retrato da menina aos 3 anos e o da mãe na mesma idade, sendo de
fato, incrível a semelhança.
O tio, desde 1974, costumava fazer contribuições para alguns
abrigos que visitava regularmente. A partir da adoção, os dois irmãos
se incluíram na equipe de voluntários que ajudavam a escola e desta
forma, através da menina, mantiveram uma vida social ativa e
puderam propiciar a esta uma inserção social mais ampla. Não eram
apenas dois adultos solitários tentando se compensar a partir de uma
criança, mas pessoas com uma vida ativa na comunidade a qual

41
pertenciam. Ajudavam a comunidade e foram ajudados por eles. Neste
sistema de trocas, uma família com características pouco
convencionais, mas funcional, foi constituída.
Nas famílias adotivas monoparentais, pela ausência de um
companheiro com quem possam trocar suas experiências, uma rede de
apoio social torna-se fundamental. Ela vem preencher a necessidade de
acolhimento e vem ratificar a aceitação da filiação pelo contexto social
e legitimá-los nos lugares de pai ou mãe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Levy, Lidia. Um estudo exploratório sobre adoção. In: Revista do Centro
de Estudos e Pesquisas da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de
Janeiro, 1999.
Levy, Lidia e Féres-Carneiro, Terezinha. Famílias monoparentais
femininas: um estudo sobre a motivação das mulheres que adotam. In:
Interação em Psicologia, Paraná, V.6, n.2, 2002.
Malpique, Celeste. A ausência do pai. Porto, Edições Afrontamento,
1990

42
Sobre responsabilidade e previsibilidade: algumas
reflexões sobre o papel do psicólogo no trabalho com
adoção

José Eduardo Menescal Saraiva1

O trabalho com adoção tem se constituído como dos mais


complexos e por vezes difíceis para as equipes técnicas responsáveis,
impondo a assistentes sociais e psicólogos impasses e explicitando a
esses profissionais, freqüentemente, os limites de sua atuação. Além
disso, é nesse setor, o de adoção, em que igualmente se explicitam as
demandas da instituição judiciária – notadamente, dos operadores
jurídicos – quanto às possibilidades de atuação do psicólogo, tornando
claras as expectativas algumas vezes ideais com relação àquilo que de
fato pode o profissional de Psicologia realizar.
Podemos situar a previsibilidade como uma das principais
expectativas quanto às possibilidades de atuação do profissional de
Psicologia, efeito da idéia – difundida pelos próprios psicólogos e efeito
da pretensão cientificista que acometeu tal disciplina em sua
constituição – de que podemos identificar (e, portanto prever)
tendências futuras nos sujeitos que avaliamos. No trabalho com adoção,
tal idealidade torna-se particularmente delicada, em última análise, por

1
Mestre em Psicologia (PUC-Rio). Psicólogo do Poder Judiciário do Estado do Rio de
Janeiro.

43
alijar dos sujeitos envolvidos a responsabilidade pela determinação de
suas próprias vidas. Dito de outra forma, corresponder a essa demanda,
como psicólogo, significa tomar os indivíduos como coisas a serem
avaliadas e preditas.
Refiro-me particularmente a um dado às vezes negligenciado pelo
trabalho do psicólogo: o valor da palavra empenhada. Em contextos
como o de adoção, é essencial que os sujeitos envolvidos impliquem-se
com suas próprias escolhas, para que possam inclusive ser
responsabilizados por elas. Isso é particularmente delicado e relevante
quando pensamos nas chamadas devoluções em adoção, extremamente
traumáticas para as crianças rejeitadas. Essas reflexões, no entanto – e
é importante ressaltar –, não anulam a necessidade de o psicólogo
apontar e intervir quando observar que essa responsabilidade de ordem
subjetiva não faz parte de determinada demanda de adoção nem
encontra-se presente nos sujeitos nela envolvidos.
Gostaria de ilustrar essas idéias através da apresentação de um
caso, vivido no trabalho de adoção na 1ª Vara da Infância e da
Juventude do Estado do Rio de Janeiro. Considero esse caso
particularmente interessante por condensar várias e relevantes
questões, que espero delinear a seguir, envolvendo colocação em
família substituta.
Maria e Paolo2 são um casal de italianos que veio ao Brasil na
intenção de adotar até três crianças. A CEJA3 lhes apresenta quatro
irmãos, devido à sugestão do ECA no sentido de não separar grupos de
irmãos. São eles: Ana, Marina, Pedro e João, de nove, seis, quatro e três
anos de idade, respectivamente. Após alguns dias de convivência – o
chamado Estágio de Convivência, nas adoções internacionais, costuma
acontecer de forma muito rápida pela própria necessidade dos
2
Todos os nomes utilizados neste trabalho são fictícios.
3
Comissão Estadual Judiciária de Adoção, órgão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio
de Janeiro responsável pela adoção internacional.

44
envolvidos de voltar a seus países de origem –, Maria e Paolo
presenciam uma crise de “birra” por parte de Marina, ocorrida num
supermercado. A menina reagiu violentamente ao ser impedida de
pegar um pacote de biscoitos da prateleira. Como não conseguisse
contê-la, Maria a pôs do braços e lhe aplicou algumas palmadas. A cena,
que se deu no Jardim Botânico, nas imediações do prédio da Rede Globo,
foi presenciada por uma mulher que imediatamente se apresentou como
jornalista da emissora e ameaçou denunciá-los por maus tratos. Como
se fosse pouco, a suposta jornalista ainda insinuou que o casal poderia
fazer parte de uma quadrilha internacional de tráfico de crianças.
Atônitos e sem entender direito o idioma e o escarcéu em torno das
palmadas – segundo eles, tão comuns em seu país –, Maria e Paolo vêm
à 1ª VIJ para desistir da adoção de Marina, alegando ser impossível
contê-la. Apesar disso, os dois reiteram sua intenção de adotar Ana,
Pedro e João.
Esta complexa e instigante situação suscita vários e importantes
questionamentos: teriam os dois mostrado pouca disponibilidade para
entrar em contato com a história dessas crianças? Maria e Paolo teriam
condições de acolher as outras três crianças, dada a indisposição com
algo aparentemente banal – rebeldia e birra – apresentado por Marina?
Seria legítimo separar os irmãos? Até que ponto as dificuldades de Maria
e Paolo dizem respeito à resistência do casal em adotar a história –
curta, porém traumática – dessas crianças? E quanto a Marina, teria ela
o desejo de ser adotada pelo casal? Em caso de resposta negativa,
teriam as outras crianças de pagar pelo não envolvimento de sua irmã
com os postulantes? Seria legítimo separar quatro irmãos com uma
história trágica de vida? Tendo em vista que a idade dessas crianças,
particularmente das duas mais velhas, começava a inviabilizar a adoção,
mesmo para os padrões internacionais, seria legítimo mantê-los
abrigados, tornando quase nula a possibilidade de colocação em família
substituta?

45
Eis uma situação que transforma o trabalho do psicólogo no
Judiciário um constante manejo de angústia, no qual a possibilidade de
constituir certezas é, para dizer o mínimo, ilusória. Apesar da
expectativa que muitas vezes é criada em torno de nosso trabalho,
penso que o nosso papel é o de tentar pensar na melhor alternativa para
o momento.
Maria e Paolo afirmaram que sentem Ana, João e Pedro como seus
filhos; reconhecem que com eles formam de fato uma família e afirmam
sua disposição para enfrentar as situações adversas que porventura se
apresentem, agora ou no futuro. As três crianças, por sua vez, mostram-
se receptivas ao casal e motivadas à transformação que o processo de
adoção lhes trará. Isso nos permite um recorte atual da situação, e não a
capacidade de prever um futuro sucesso ou fracasso dessa vinculação.
Apenas não concordamos com a idéia de que, devido às dificuldades de
adaptação ocorridas com Marina, o casal não tenha condições de
acolher as outras três crianças.
Os problemas de adaptação que Ana, João e Pedro deverão
enfrentar devido à mudança para um país estranho, com tudo o que
acompanha tal mudança – pessoas diferentes, clima, paisagem e idioma
distintos –, são inevitáveis e até esperados. O fator diferencial na
questão será a disponibilidade de Maria e Paolo para fazer frente às
questões que surgirem; isso dependerá de seu desejo e de sua
determinação em manter o compromisso assumido e o seu lugar de pais
diante dessas crianças e das situações adversas que porventura surjam.
O presente caso representa, como toda adoção, uma concessão de
responsabilidade, presente e futura, a um indivíduo ou casal que
empenhe sua palavra e seu desejo no sentido de atribuir a uma ou mais
crianças a condição de filho (s). Se essa palavra empenhada vai se
manter ao longo do tempo e se esse vínculo se manterá ou romperá,
num futuro próximo ou distante, não podemos saber ou prever,
exatamente por dizerem respeito à vida futura dos sujeitos envolvidos.

46
No caso do casal Maria e Paolo, pudemos constatar que um vínculo filial
(ou um esboço dele) se constituiu em relação a três crianças: Ana, João
e Pedro.
A filiação, biológica ou adotiva, é sempre uma vinculação dinâmica
e frágil, de equilíbrio sempre instável, a ser diariamente constituída e
renovada, como costuma ser, aliás, todo vínculo humano. Portanto, da
mesma forma que não podemos afirmar categoricamente que o vínculo
desse casal com Ana, João e Pedro será perene e se manterá ao longo
do tempo, superando obstáculos de toda ordem, não podemos
igualmente acusar a sua precariedade em função do problema havido,
desde o princípio, com a menina Marina. Os pais, é bem verdade,
costumam se relacionar de forma diferente com diferentes filhos, e a
situação aponta, pelo menos no momento atual, para a disponibilidade
do casal em foco para com Ana, João e Pedro, o que não se deu em suas
tentativas de contato e interação com Marina. Isso não significa, no
entanto, apontar culpados ou transformar Marina numa criança especial,
‘patologizando’ seu comportamento. A criança nos pareceu ser de
inteligência vibrante, sagaz e esperta, que tenta a todo custo recuperar
aquilo que a vida lhe tomou, donde sua dificuldade de compartilhar
coisas com outras crianças e seu hábito de testar a autoridade e a
resistência dos adultos a ela vinculados, exigindo uma atenção e uma
dedicação totais, o que Paolo e Maria não conseguiram lhe proporcionar.
Mesmo com seis anos de idade e uma história trágica de vida,
Marina não está desimplicada daquilo que lhe ocorreu. O vínculo
humano não é uma construção unilateral, mas é um caminho de mão
dupla, uma interação mútua. Podemos dizer que o vínculo envolve esses
dois desejos, distintos porém complementares: acolher e ser acolhido,
aceitar e sentir-se aceito por outrem. Se essa complexa interação de
Maria e Paolo não ocorreu com Marina – por motivos que nem podemos
ter a pretensão de compreender integralmente –, ela parece ter se dado,
pelo menos até o presente momento, com seus irmãos, que abriram

47
espaço de aceitação às duas pessoas que naquele momento específico
se dispuseram a acolhê-los como filhos. Considerando a disposição
inicial de Paolo e Maria em receber no máximo três crianças –
disponibilidade essa que se modificou inicialmente em função da
intenção, compartilhada pelo casal, de não separar o grupo de irmãos –,
a problemática de interação ocorrida com Marina pode ter-lhes
reavivado sua disposição inicial, o que comprometeu ainda mais a
pretensão de acolher as quatro crianças.
O casal não se sentiu acolhido pela criança, por mais que nós, que
não participamos do processo nem vivenciamos emocionalmente a
situação, tendamos a considerar corriqueiros e banais os motivos
apresentados como justificativa. Paolo e Maria admitiram suas
limitações para lidar com uma problemática que se apresentou e foi
sentida por eles como insuportável, em parte por aquilo que a conduta
da menina lhes inspirou de aterrorizante (por ser desconhecida e por
fugir ao seu controle), em parte por considerarem tanto as necessidades
das outras três crianças envolvidas quanto seus próprios limites
enquanto sujeitos, casal e futuros pais. Trata-se aqui do reconhecimento
de um limitação, por mais censurável que isso possa num primeiro
momento nos parecer.
A grande importância da manutenção dos vínculos entre crianças
em estado de abandono faz com que o Estatuto da Criança e do
Adolescente recomende, muito apropriadamente, que grupos de irmãos
possam ser mantidos unidos em caso de colocação em família
substituta. No caso abordado aqui, devemos nos indagar acerca dos
efeitos futuros de semelhante separação e de como os três irmãos – e a
própria Marina – se sentirão diante do fato de a última ter sido apartada
deles, o que é um questionamento pertinente e inquietante, para o qual
igualmente não podemos dar respostas definitivas. Em contrapartida,
devemos também nos perguntar acerca do lugar que estaria reservado

48
a Marina diante de Ana, João e Pedro, caso a primeira,
involuntariamente, inviabilizasse a adoção de seus irmãos.
Além disso, manter os quatro irmãos unidos no abrigo ou separar
Marina dos outros três, na prática, equivalerá à mesma coisa: em
qualquer das duas situações, Marina permanecerá no abrigo. Ainda
sobre a separação dos quatro, não podemos esquecer os outros irmãos
do quarteto em questão, dos quais Ana, Marina, João e Pedro já se
encontram apartados pelas circunstâncias difíceis que caracterizaram
suas vidas. Dos outros irmãos, Marina e Ana mostraram-se vinculadas a
pelo menos um, Ronaldo, de doze anos, que fugiu do abrigo e agora
parece estar nas ruas em companhia da mãe, segundo o relato da
própria Ana.
Outro fator que não podemos desconsiderar, ainda com relação à
separação dos irmãos, é o fato de que tal separação poderá ocorrer com
o tempo, já que o acolhimento em abrigo costuma se dar por faixa etária
e não por grupamentos de irmãos, o que significa, na prática e com o
passar dos anos, separar Ana, a mais velha – e depois dela, Marina – dos
demais. Nessa perspectiva, a questão que aponto é: como poderemos
garantir que os quatro irmãos, se mantidos num abrigo, permanecerão
juntos?
Esses são alguns dos motivos pelos quais, neste caso, só
podemos contar com a disponibilidade atual desse casal. Como Paolo e
Maria reagirão às situações de tensão e de oposição com os filhos, que
ao longo dos anos se lhes apresentarão, e se os dois manterão no futuro
a palavra que empenham hoje – pela qual podem e devem ser
responsabilizados – só o tempo dirá. Advém daí a importância da
palavra empenhada, que pressupõe a responsabilidade futura para
com um compromisso permanente, firmado no presente. Precisamos
considerar essa palavra empenhada, sob pena de tratarmos os sujeitos
envolvidos como meros objetos de investigação e intervenção.

49
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTOÉ, S. (org.) Sujeito do direito, sujeito do desejo. Rio de Janeiro:


Revinter, 1999.

DOLTO, F. Quando os pais se separam. Rio de Janeiro: Jorge Zahar


Ed., 1989.

HAMAD, N. A criança adotiva e suas famílias. Rio de Janeiro:


Companhia de Freud, 2002.

50
CAFÉ COM ADOÇÃO
Patrícia Glycerio R. Pinho1
e Solange Diuana2

“As pessoas vivem e compreendem seu viver através de narrativas


socialmente construídas que dão significado e organização às suas experiências.”3

O grupo “Café com Adoção” nasceu em novembro de 2002 e


acontece mensalmente dentro de um espaço jurídico, a Primeira Vara da
Infância e Juventude do Rio de Janeiro, com reuniões abertas, gratuitas e
extraprocessuais. Destina-se a famílias constituídas através da adoção e
a pessoas que aguardam o encontro com seu filho. Este grupo é
coordenado por três psicólogas4, membros da equipe técnica, e surgiu
como tentativa de responder aos anseios da divisão de Psicologia em
acompanhar as famílias que já haviam finalizado o procedimento de
adoção neste juízo. Este acompanhamento relacionava-se à necessidade
de avaliação do trabalho realizado quando da habilitação e estágio de
convivência assim como a uma curiosidade em analisar a nova
configuração familiar estabelecida a partir da entrada da criança.
Acreditamos que o contato mais próximo entre a equipe técnica e as
famílias, num contexto de participação voluntária, retro alimenta nossa
prática e pode evitar a cristalização de alguns conflitos, contribuindo
para uma nova cultura de adoção.
A idéia de formarmos um grupo voltado para famílias constituídas
através da adoção no Rio de Janeiro, vem desde 1998, quando uma das
coordenadoras do ”Café com Adoção”, a convite do psicólogo Fernando
Freire, participou do 3º Encontro Nacional de Associações e Grupos de

1
Psicóloga da 1ª VIJ RJ; Terapeuta de Família, npsicologia@tj.rj.gov.br
2
Psicóloga; Terapeuta de Família; Professora da Universidade Santa Úrsula.
sdiuana@uol.com.br
3
Anderson, H e Goolishian, H. O cliente é o especialista in, Nova perspectiva sistêmica,
Rio de Janeiro, a2 n.3 pag.10, jan 1993
4
Maria Elena Mazetti, Patrícia Glycerio R. Pinho e Solange Diuana. Durante um período,
participou também da coordenação a psicóloga Simone Giacomo

51
Apoio à Adoção em Florianópolis. Neste encontro, foi possível perceber a
importância dos grupos e o alcance de um movimento que, naquela
ocasião, apesar de incipiente, apresentava grandes conquistas. O
contato com pais e profissionais de diferentes estados do Brasil
discutindo e propondo ações importantes para dar visibilidade ao tema e
assim criar uma nova cultura da adoção, serviu como importante fator
de motivação. Acrescente-se a isso o fato de os pais adotivos, sempre
com grande interesse, participarem de pesquisas ou depoimentos sobre
o tema, quando convidados.
Os Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) surgiram a partir da década
de 90, principalmente através da iniciativa de pais adotivos ou
profissionais da área que sentiam necessidade de trocar experiências e
informações sobre o tema. Cada grupo possui sua especificidade, com
linhas de ações diferenciadas.
Este ano, em Belo Horizonte, aconteceu o 9º Encontro Nacional de
Associações e Grupos de Apoio à Adoção (ENAPA) com um público de
aproximadamente 500 pessoas, tendo sido possível constatar a grande
adesão dos operadores do direito, confirmando a importância da
atuação dos grupos de apoio à adoção. Hoje, são mais de cem grupos
espalhados pelo Brasil.
Em vários países, como por exemplo Portugal, Itália e França,
associações de pais e / ou de filhos adotivos têm investido esforços no
sentido de proporcionar a ambos o auxílio de que venham a necessitar.
Algumas destas associações também oferecem grupos de reflexão,
voltados para a discussão das responsabilidades parentais e das
implicações da filiação adotiva. No Brasil, os GAAs têm atuado
ativamente na discussão de propostas envolvendo a adoção.
Ressaltamos a licença-maternidade para mães adotivas, a criação do
Dia Nacional da Adoção (25 de maio) e o crescimento dos GAAs como
conquistas importantes para o movimento. Neste momento, tramita no
Congresso Nacional o projeto de lei 1756 – Lei Nacional da Adoção – de

52
autoria do deputado João Matos, que trará repercussões no
entendimento da medida da adoção.
Uma atividade que vem sendo muito valorizada pelos membros do
“Café com Adoção” é a comemoração do Dia Nacional da Adoção. Para
festejá-lo, realizamos festas memoráveis onde famílias inteiras
participaram com alegria e descontração. Desde a criação do grupo,
este dia vem sendo festejado de forma ampliada, aos domingos, na
tentativa de agregar os membros da família extensa e deslocar do
âmbito privado para a esfera do público o tema da adoção. Nestas
ocasiões contamos também com a presença do Dr. Siro Darlan, juiz
titular da 1º VIJ, que incentiva e apóia nosso grupo e suas iniciativas.
Este ano, o “Café com Adoção”, juntamente com outros grupos de apoio
do estado do Rio de Janeiro, procurou mobilizar as instituições de ensino
para a importância da comemoração da data, sendo que algumas
escolas trabalharam com os alunos a importância deste dia, assim como
as diferentes formas de constituição familiar. Pensamos que em longo
prazo esta seja uma ação importante e eficaz para uma nova cultura da
adoção.
Acreditamos que pela formação da coordenação do grupo, o “Café
com Adoção” apresente um caráter terapêutico. Neste grupo as famílias
podem estabelecer um relacionamento confortável dentro de um espaço
que já foi um dia, segundo relatos, temido. Alguns pais verbalizam
claramente que se sentem muito felizes em poder voltar a este juízo,
agora ocupando um outro lugar. Não mais estão sendo “avaliados”
assim como, em sua maioria, não estão aguardando uma decisão
judicial que pode mudar as suas vidas. Participam espontaneamente da
discussão de temas de seu interesse. Neste sentido, a escolha do nome
do grupo foi muito importante para que este espaço se configurasse
desta forma. Percebemos que a palavra adoção aparecer associada ao
café, algo tão brasileiro, coloquial, e ainda o trocadilho com o doce, têm
nos ajudados a tratar o tema de forma mais leve e descontraída.

53
Desde que foi criado, o “Café com Adoção” tem passado por
pequenas modificações para atender às demandas dos participantes. Os
primeiros grupos foram planejados e realizados pela coordenação.
Planejávamos os encontros e trazíamos temas, textos, filmes, dinâmicas
de grupos e convidados. Posteriormente, acrescentamos aos nossos
encontros temas sugeridos pelos participantes e, atualmente, dividimos
os encontros em três momentos. O primeiro momento, que chamamos
de livre, dura aproximadamente 30 minutos. Em se tratando de novos
participantes, ocorre uma apresentação de cada um; caso já participem,
trazem notícias, fotos do desenvolvimento dos filhos, reportagens, livros,
falam de diferentes assuntos em grupo ou subgrupos.
O segundo momento dura aproximadamente 60 minutos, ocasião
em que desenvolvemos o tema sugerido no encontro anterior através de
diferentes dinâmicas de grupo. No terceiro momento, discutimos e
decidimos o tema a ser trabalhado no próximo encontro. O tempo
reservado para cada encontro é de duas horas, estando o café e os
biscoitos desde o início disponíveis. Alguns participantes costumam
trazer tortas para comemorar o aniversário com o grupo.
Os componentes do grupo estão demonstrando um potencial para
ações efetivas que vão além de nossos encontros. Contamos com a
criação de um site www.cafecomadocao.hpg.ig.com.br, e realizamos
uma aproximação com outros grupos de apoio à adoção do estado do
Rio de Janeiro, como O Quintal da Casa de Ana (Niterói), o de São
Gonçalo e o de Cabo Frio. Através deste site estabelecemos uma via de
comunicação com inúmeras pessoas de diferentes localidades,
respondendo a dúvidas, informações práticas e questionamentos
subjetivos.
Atualmente estamos montando uma biblioteca e uma videoteca
onde os interessados poderão ter acesso a livros e filmes que possam
lhes fornecer mais subsídios, pois uma queixa que ouvimos com
freqüência é a dificuldade em adquirir livros que falem sobre a adoção,

54
especialmente os infantis, em sua maioria não comercializados pelas
grandes livrarias.
Importante ressaltar que o grupo tem proporcionado aos
participantes um acréscimo à sua rede social. Não raro, sabemos de pais
que se telefonam, trocam dúvidas e medos, e, juntos, visitam abrigos de
crianças, chegando inclusive a combinar e realizar passeios e festas de
aniversários. Tivemos a oportunidade de ver as fotos de uma mãe, que é
enfermeira num grande hospital do Rio de Janeiro, acompanhando de
perto a cirurgia de uma criança, filha de outra mãe do grupo.
Nos dezoito encontros já realizados, podemos afirmar que o tema
mais sugerido e debatido é o da revelação da adoção. Percebemos que,
muitas vezes, quando trabalhamos outro tema, combinado no encontro
anterior, a revelação atravessa a discussão, quase se transformando na
questão central do encontro. Nestas discussões é interessante perceber
que o grupo sempre se divide. Os que já revelaram aos filhos, de modo
geral, lidam de forma mais fluida com a verdade. Em contrapartida,
existem sempre, embora em minoria, aqueles que temem a reação do
filho(a) ao entrar em contato com o assunto. Não obstante,
racionalmente compreendam que devem revelar a condição de adotado
à criança, não se sentem seguros para fazê-lo, ou preferem esperar a
criança crescer, pois, assim, poderá “entender melhor”.
É interessante notar que a capacidade de trocar experiências em
um grupo que vive a mesma temática, acalma e desmistifica. Muitas
vezes os pais acabam percebendo o quanto da ansiedade em relação à
adoção está relacionada a eles próprios e não à criança, como
inicialmente aparece em seu discurso. Esta mudança de foco da
questão sempre traz mudanças importantes ao contexto, alargando as
possibilidades de conversas. Os pais que temem revelar podem tentar
automaticamente resistir, mas eles provavelmente se sentem mais
confortados e estimulados após os relatos ouvidos de outros pais que
enfrentaram a situação tão temida por eles. É visível a mudança de

55
expressão destes participantes que, por vezes, buscam o grupo
incentivados por algum profissional, para discutirem especialmente a
revelação. Ao perceberem o grupo como aliado, encontram
ressonância para os seus medos e abrem-se para a possibilidade de
construção de novas narrativas.
Outro tema que atravessa com freqüência nossas discussões é a
questão dos limites a serem colocados para os filhos. Apesar de
atualmente este constituir-se como foco de grande discussão e
mobilização para os pais em geral, percebemos que nas famílias
constituídas através da adoção ele ganha contornos particulares.
Segundo alguns, ao imaginarem os sofrimentos/ privação/ abandono/
vivenciados pelo filho num primeiro momento, fica mais difícil colocar
alguns limites. Outro fator comumente relatado é o que sentem como
cobrança da rede social, pois ao serem mais duros com os filhos
estariam sujeitos a comentários de que só estariam agindo desta forma
porque a criança é adotada, como se os limites estivessem associados a
uma forma de maltrato. Assim como na questão da revelação,
racionalmente todos apresentam certeza da importância dos limites,
mas, no momento de cobrá-los sentem-se ainda inseguros. Percebemos
que a dificuldade de impor limites pode gerar esforços hercúleos
voltados para a manutenção do exercício parental, assim como pode
colocar a criança no lugar daquele que necessita de cuidados especiais
ou de zelos adicionais em função de um passado doloroso ou sofrido,
marcando a filiação adotiva, desde o início, como uma filiação
problemática por si só.
O grupo tem se mostrado aberto para lidar com a flutuação da
presença de seus membros. Desde a sua criação, alguns participantes
se vinculam de forma mais assídua e trazem convidados, enquanto
outros comparecem apenas quando sentem que tem uma questão a ser
trabalhada. Alguns construíram um vínculo tão estreito que sempre
avisam quando não poderão comparecer ou quando faltam,

56
posteriormente se justificam. O número de participantes por encontro
também é variável e as ausências geralmente são atribuídas ao dia e
ao horário5, pois coincidem com os do trabalho, ficando assim inviável,
para alguns, a participação mais assídua. Muitos insistem em encontros
aos sábados como uma forma de minimizar a dificuldade em
comparecer, embora este dia não se apresente como um consenso
entre os participantes.
Acolhedor e cuidadoso, o grupo tem demonstrado maturidade
quando enfrenta discordâncias de diferentes ordens. Neste sentido, é
de fundamental valia a coordenação, pois, embora a troca de
experiências seja muito valorizada, a coordenação procura manter um
nível empático, de respeito e autonomia, para que cada membro possa
se colocar buscando aprimorar seus recursos pessoais para encontrar,
de forma criativa e pessoal, a solução para as suas dificuldades.
A habilidade de dar voz ao grupo e respeitar a forma de ser de
cada família pode fazer a diferença entre a família continuar
freqüentando os encontros ou ficar isolada em seu problema.
Acreditamos que o “Café com Adoção” vem funcionado de forma a
acolher os participantes, respeitando as diferenças existentes, além de
oferecer a estes a oportunidade de aproximação com diversas
dificuldades relativas à construção da filiação. No que tange ao
relacionamento entre pais e filhos, muitos membros do grupo
verbalizam de forma enfática que todos os pais, independente da
condição adotiva, se beneficiariam muito se participassem das
temáticas discutidas. A problematização desta relação pode vir a
suscitar reflexões e alternativas que favoreçam o exercício de uma
parentalidade mais comprometida.
Um outro fator que tem funcionado de forma positiva é a
interlocução entre pais adotivos e aqueles que aguardam o encontro
5
O grupo se reúne às segundas terça-feira do mês das 16:00 às
18:00h.

57
com os filhos, onde observamos muitas vezes uma maior flexibilização
em relação ao perfil da criança a ser adotada.
O grupo mostra sinais de que vem funcionando como um porto
seguro para compartilhar vivências e trocar experiências. Em um caso
específico ocorreu a aproximação entre uma participante e uma criança
portadora de necessidades especiais que estava abrigada. Apesar da
participante não ter clareza sobre seu desejo em adotar a menina, o
grupo funcionou como incentivador para a aproximação, e a menina
obteve a prótese de que necessitava. Desse modo, o acompanhamento
dos adotantes pode significar a construção de uma disponibilidade
afetiva para ajudar crianças que necessitem de auxílio.
Independentemente do número de famílias nas reuniões,
percebermos que um percurso iniciado de forma tímida hoje tem uma
grande visibilidade não só no Rio de Janeiro como no Brasil. Temos o
firme propósito de ampliar nossas ações e de realizar projetos para
construir pontes entre as famílias e as crianças que ainda precisam de
uma família.
Por tudo que foi mencionado, entende-se que o trabalho em grupo
tem grande relevância e que pode contribuir para uma nova cultura de
adoção no Rio de Janeiro. O foco de nosso trabalho encontra-se não só
na construção da parentalidade após a adoção, mas também no
desenvolvimento de ações participativas. Acreditamos que as discussões
em grupo podem funcionar inclusive para minorar as possíveis
dificuldades familiares e a distância entre o perfil da criança abrigada e
o da desejada pelos requerentes. Este último aspecto parece-nos de
essencial relevância especialmente quando se leva em conta que
atualmente, dos 229 requerentes à adoção inscritos na 1ª Vara da
Infância e da Juventude do RJ, 94% desejam crianças entre 0 e 4 anos de
idade, preferencialmente menina e branca. 11% aceitam negros e
somente 1% destes requerentes aceitam crianças acima de 4 anos.

58
Bibliografia
Schreiner, Gabriela. Por uma cultura de adoção para a criança?
São Paulo, ed Consciencia Social, 2004.

A adoção em dois tempos1


Lídia Levy 2

Patrícia Glycerio Rodrigues Pinho3

A filiação adotiva guarda particularidades em relação à filiação


biológica. Trabalhando com requerentes em processos de adoção,
verificamos que o tempo de gestação de pais biológicos e o tempo de
espera dos pais adotivos se eqüivalem, na medida em que os dois
grupos fantasiam acerca do filho que aguardam. O nascimento do filho
biológico, tanto quanto o “encontro” com o filho adotivo são momentos
em que uma história começa a ser escrita. Se no encontro com o filho
biológico os procedimentos médicos são de certa forma privilegiados,
no caso do filho adotivo o judiciário aparece como intermediário deste
encontro.
Com o objetivo de confrontar as fantasias e receios que permeiam
o imaginário de pais adotivos antes da chegada do filho, com aqueles
existentes um ano após a inclusão da criança em uma nova dinâmica
familiar, foi realizada, em 1999, uma pesquisa ( Levy 2001) na 1a Vara
da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, através de entrevistas com
10 casais que haviam adotado uma criança. Analisamos o discurso dos

1
Este artigo foi publicado na Revista Caderno de Estudos e Pesquisas – Psicologia. Ano 7, n.18,
Dez.2003.
2
Doutora em Psicologia PUC-RIO / Coordenadora de graduação do Departamento de psicologia
PUC. Membro da SPID e SPC-RJ tel. 31141184 llevy@psi.puc-rio.br

3
Psicóloga da 1a. Vara da Infância e Juventude do RJ, Especialista em Saúde mental da Infância e
da Adolescência – IPUB .tel 2293-8297 pgrp@superig.com.br Praça Onze de Junho 403, Centro

59
pais adotivos privilegiando as informações sobre o primeiro encontro
com a criança e as modificações que daí decorreram, as dificuldades e
receios a partir da chegada da criança ao novo lar e o acolhimento
proporcionado pela família mais ampla.
Em 2002, retomamos o tema da pesquisa anterior e, de forma
aleatória selecionamos 39 processos de Habilitação para Adoção,
ajuizados na Primeira Vara da Infância e da Juventude da Comarca do
Rio de Janeiro e optamos por trabalhar apenas com os 26 casais que
haviam sido habilitados, deixando os solteiros e os inabilitados para um
outro momento.
Um diferencial importante entre os dois tempos desta pesquisa foi
a mudança no procedimento de habilitação para adoção que, até 1999,
resumia-se a entrevistas individuais com um psicólogo e entrevistas e
visita domiciliar com o assistente social. No final de 1999 ocorreram
modificações no sentido de emprestar ao procedimento um caráter mais
reflexivo, ainda que o aspecto avaliativo seja incontestável. Atualmente
são realizados três encontros em grupo com uma média de 20
participantes, coordenados por um psicólogo e um assistente social e
entrevistas individuais com cada um destes profissionais. Ao final do
procedimento o requerente recebe por parte da equipe técnica, um
parecer favorável ou desfavorável a sua inclusão no cadastro dos
adotantes.
Decidimos retomar o projeto inicial com o intuito de verificar
possíveis mudanças no perfil dos candidatos habilitados e compreender
as fantasias e dificuldades vivenciadas a partir do primeiro encontro,
bem como a aceitação da criança pela família extensa. Procuramos,
ainda, ouvir suas opiniões sobre todo o procedimento, principalmente,
aquelas que diziam respeito à importância dos encontros em grupo,
quando ainda candidatos à habilitação.
No presente trabalho, comparando o material da primeira
pesquisa com o da segunda, percebemos que alguns pontos dos

60
discursos em relação ao primeiro encontro com o filho, se repetiam com
tamanha freqüência que seria possível organizar os relatos em uma
história única reveladora da construção da maternidade/paternidade por
cada uma das famílias.

PERFIL DOS REQUERENTES E DA CRIANÇA PRETENDIDA


Quanto ao perfil dos requerentes, obtivemos dados com relação:
Ao tempo de união: A maior parte dos casais (46,1%), mantinha uma
relação estável que variava entre 05 e 10 anos. No restante da
amostra encontramos 38,4% com uma convivência que variava
entre 11 e 20 anos, enquanto 11,5% há mais de 20 anos. Apenas
3,84% tinha um tempo de convivência inferior a 04 anos.
Idade: 38,4% dos requerentes homens tinham entre 31e 40 anos de
idade, 34,6% estavam na faixa de 41 a 50 anos e 26,9% tinham mais
de 50 anos. Quanto às mulheres, a maioria, 50%, está na faixa de 41
a 50 anos, 42,3% entre 31 e 40 anos, e em menor porcentagem e
igualmente empatadas, 3,84%, estão as mulheres que possuem
menos de 30 anos ou acima de 50 anos.
Escolaridade: observamos que, a maior parte dos requerentes (80%),
possui o nível superior completo, e destes 47,6% são homens e 38%
mulheres; 52,3% possuem o nível médio completo, sendo 28,5% de
mulheres e 23,8% de homens; com relação ao nível fundamental
33,3% dos requerentes não concluíram esta etapa de ensino, sendo
19% de mulheres e 14,2% de homens. Os que possuem o nível
fundamental completo formam 23,8% do grupo sendo 14,2% de
mulheres e 9,52% de homens.
Quanto ao perfil da criança desejada percebemos que a grande
maioria dos requerentes tem como preferência o sexo feminino (47,8%),
de cor branca (45,4%) e com idades entre 0 e 01 ano (40%), ou 0e 2
anos (30,7%). Assim, a grande maioria dos requerentes (69,1%) deseja
adotar crianças de até 2 anos. A procura por meninos é menor (25,9%)
bem como a procura por crianças mestiças (4,5%) e negras (9%).
Existem ainda os requerentes que aceitam indicação de crianças de
ambos os sexos (30,4%) e não possuem preferência por cor (18,18%).
Alguns requerentes optam por categorias de cor mais amplas, branco ou
mestiço (18,18%) ou, mestiço ou negro (4,5%); e também de idade 0-03
anos (3,84%), 01-03 anos (13,3%), 02-06 anos (6,6%) e acima de 05

61
anos (11,5%). Os requerentes que desejavam a adoção de crianças
acima de 5 anos são pertencentes ao projeto “Um lar para mim”,
desenvolvido pelo governo estadual com o intuito de estimular a adoção
de crianças acima de 5 anos que se encontram em instituição de abrigo.

A PARTICIPAÇÃO NO GRUPO DE HABILITAÇÃO PARA ADOÇÃO


Diante da mudança no procedimento de habilitação, os
entrevistados foram unânimes ao declarar a importância da participação
no grupo. A oportunidade de trocar experiências, de ouvir depoimentos,
em muito semelhantes aos seus próprios relatos, foi considerada
positiva, contrastando com a expectativa inicial da maioria dos
participantes.
A informação de que uma dinâmica de grupo e entrevistas com o
psicólogo faziam parte do processo de habilitação costuma provocar
reações contra a “burocracia da justiça”. A presença do psicólogo, no
momento inicial é vivida como ameaçadora, apesar de, no decorrer do
processo, a grande maioria dos requerentes concordar que as questões
discutidas foram relevantes para uma maior conscientização do
significado de uma adoção.
Talvez por isto, quando mais tarde foram chamados para
participar desta pesquisa e conversar sobre a adoção realizada, os pais
se mostraram extremamente disponíveis. O grupo de habilitação havia
sido uma experiência positiva e importante para quase a totalidade dos
participantes, com apenas uma exceção entre eles. O grupo foi
considerado como o “início da gestação”. Muitos relatam, ainda, manter
contatos entre si.

Como haviam reclamado da burocracia, imaginávamos que, ao


serem novamente chamados, já com a criança em sua companhia,
encontraríamos algumas resistências. O trabalho da pesquisa revelou,
ao contrário, uma disponibilidade para retomar o contato com o

62
psicólogo e um interesse de com ele discutir temas referentes à filiação
adotiva.
Verificamos ainda que nas entrevistas realizadas tanto em 1999,
quanto em 2002, o tema da revelação destacava-se como a questão
mais importante nas preocupações dos pais adotivos. Ao retornarem à
Divisão de Psicologia, todos desejavam conversar sobre o assunto e
expressavam suas preocupações em como deveriam agir e qual o
melhor momento para introduzir a questão.
Muitos dos entrevistados declararam que haviam estranhado não
terem sido mais chamados ao Juizado, apesar do receio de serem
confrontados com algum problema. Primeiramente existe um desejo de
contar sobre os sucessos obtidos, mostrar fotos, mostrar que está tudo
bem, como uma resposta ao que consideram ser uma confiança na
entrega da criança. A instituição ganha o status de participante do
“nascimento” do seu filho. Vêm compartilhar sua experiência e, ao
mesmo tempo, expressar as dúvidas que começam a surgir na
convivência com a criança.

O ENCONTRO COM A CRIANÇA


Fazendo um paralelo entre a gestação “adotiva” e a biológica,
encontramos algumas semelhanças e diferenças. Comparando a
dimensão de encontro, presente nestas duas formas de filiação,
Hammad (2003) acredita que ”na adoção é possível falar de um
verdadeiro encontro, que se dá de outro modo que na concepção do
filho”. Ressalta que o nascimento é um evento bastante importante,
corporal e emocionalmente, mas a dimensão do encontro nele é
provavelmente menos essencial que na adoção. Esta idéia pode ser
ilustrada na seguinte fala de uma das entrevistadas:

“Realizo duas festas para o meu filho, uma no dia de seu aniversário e
outra no dia de sua chegada à nossa casa”.

63
O primeiro encontro com um filho é sempre uma experiência
marcante. Como nos aponta Cramer: “(...) no espaço de alguns
instantes, os pais são obrigados a se unir (e por toda a vida) a um
desconhecido. (...) Atribuindo uma gama de características e
semelhanças ao bebê, os pais preenchem o vazio e transformam o
estranho em familiar, inscrevendo-o em uma filiação conhecida”.
(Cramer, 1993:5).
Diferente do que ocorre na filiação biológica, onde o impacto do
primeiro encontro com o filho não aparece como tema privilegiado no
discurso dos pais, para os pais adotivos o primeiro encontro adquire um
significado especial. Percebemos, no decorrer das entrevistas realizadas,
que cada pequeno detalhe deste encontro é tomado de significação, em
uma tentativa de inscrição da criança na cadeia de filiação. Diante deste
desconhecido, são feitas associações facilitadoras para que ele seja
percebido como filho. Assim, fatos anteriores a este encontro, como
sonhos, intuições ou acontecimentos ganham uma significação especial.
São comuns frases como as que transcrevemos a seguir:

“No dia que recebemos o telefonema do Juizado, havíamos acabado de


montar o berço do bebê, então eu soube que aquele era para ser meu
filho”.
“Ela tem um sinal nas costas que é igual ao do meu marido”
“Ela nunca sorria, mas assim que eu a segurei no colo, sorriu para
mim”.
“Fiz uma promessa para Nossa Senhora Aparecida e o nome
inicialmente recebido por minha filha era Maria Aparecida”.
“O bebê dormia da mesma foram que eu dormia quando eu era bebê”.

64
Tais relatos apontam para sinais que funcionam no imaginário
dos pais como uma garantia de que aquela criança lhes seria realmente
destinada.
Os cuidados físicos, que dão ao adotante uma imagem de
“protetor”, também são descritos como forte fator de ligação. O
seguinte depoimento é ilustrativo desta situação:

“Eu ia visitá-lo e levava os remédios, e curei uma ferida que ele tinha”.

Os entrevistados salientam que, em um primeiro momento,


perceberam a criança como “magrinha”, “doentinha” “pequenininha”,
“sorriso triste”, mas após a entrada dos pais adotivos em suas vidas “ela
se transformou”.

“M. chegou todo assado, parecia um bichinho com medo de se ligar,


agora é super agitado, minha mãe diz que fomos enganados.
Reconhece toda a família e é cheio de primos”.

Apesar de descreverem este primeiro encontro como marcante,


alguns entrevistados frisam que a convivência foi construindo a relação
de filiação. Se no primeiro encontro ficou a sensação de que aquela
criança era destinada a eles, com a convivência os laços foram sendo
fortalecidos.
Quando os pais, no primeiro encontro, não percebem algum
pequeno sinal que de alguma forma sirva de indicativo de que entre
tantas outras crianças, aquela lhes estava destinada, pode surgir algum
tipo de insegurança, como nos conta uma entrevistada.

“O primeiro encontro foi difícil porque ele não olhava para nós,
desviava olhar. Ficamos com muitas dúvidas: será que é ele mesmo?
Trouxemos então as avós e estas não tiveram a menor dúvida”.

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A aceitação da criança pela família extensa aparece em forma de
inúmeras fotografias e relato da festa realizada quando da chegada da
criança em casa e dos presentes recebidos. O apoio familiar neste
momento é de grande importância, bem como na filiação biológica.

“Quando cheguei em casa havia muitos presentes e meus familiares


organizaram uma festa para receber meu filho”.

CONSIDERAÇÔES FINAIS
Após ouvirmos dezenas de relatos, podemos organizá-los como
uma história única, embora reconhecendo suas particularidades:
“Aguardávamos ansiosamente um filho, após termos nos submetido a
tratamentos, optamos pela adoção. Já habilitados, aguardávamos na fila
e quando menos esperávamos, recebemos um telefonema e fomos
conhecer a criança. Neste dia, houve alguns desencontros, mas quando
o vimos sabíamos que era nosso filho, por este ou aquele sinal”.
Apesar de nos relatos analisados termos observado o primeiro
encontro como repleto de significações, entendemos que algumas delas
foram construídas a posteriori, através da convivência, que possibilitou o
fortalecimento dos laços de filiação.
No imaginário social a hereditariedade é a responsável pela
formação dos vínculos familiares, sendo os laços de sangue a garantia
do afeto entre pais e filhos, enquanto que os laços estabelecidos através
da adoção seriam marcados pela fragilidade. As famílias adotivas,
entretanto, têm estabelecido vínculos com os seus filhos tanto quanto as
famílias biológicas. O vínculo emocional entre pais e filhos não decorre,
portanto, do modo de concepção. Entendemos que os pais biológicos
também devem adotar seus filhos, entendendo a adoção como um ato
simbólico.

66
O amor materno como algo instintivo, embora permaneça como
um valor dentro do imaginário popular, foi uma idéia desconstruída.
Badinter (1985 ), em seu livro “O mito do amor materno” muito
contribuiu para tal, analisando como historicamente se davam as
relações mãe/filho e como o amor materno foi uma construção social
historicamente determinada. Assim, o foco da questão da filiação tem
seu eixo nas experiências compartilhadas entre pais e filhos e na relação
que vai sendo construída. Como nos ensina Hamad: “A verdadeira mãe,
Salomão a conhecia, mas se há verdadeira mãe é aquela que se
manifesta através da experiência do vivido do corpo de cada criança,
aquela que se reconhece e é reconhecida como tal” (Hamad, 2002:
145).
A grande acolhida que tivemos por parte dos entrevistados
reforçou a idéia da importância de um grupo permanente funcionando
na 1ª vara da Infância e Juventude, onde pais adotivos e pessoas
aguardando o encontro com seu filho pudessem compartilhar
experiências. Assim, em novembro de 2002, surgiu o “Café com
adoção”, um grupo aberto, extraprocessual, com encontros mensais e
gratuitos, que funciona como um grupo de apoio à adoção. Acreditamos
importante que o tema da adoção possa adquirir visibilidade e ser
abordado sem preconceitos. Percebemos que nossos encontros têm
funcionado de forma preventiva, podendo evitar que as dificuldades se
cristalizem e se tornem entraves para a resolução dos conflitos
familiares. Os grupos de apoio à adoção vêm se espalhado pelo Brasil e
têm se mostrado importante na construção de uma nova cultura de
adoção em nosso país.

BIBLIOGRAFIA
Badinter, E. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1985
Cramer, Bertrand. Profissão bebê. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

67
Hamad, Nazir. A criança adotiva e suas famílias. Rio de Janeiro:
Companhia de Freud, 2002.
Levy, Lidia. Da criança idealizada à criança real. Rio de Janeiro: Nau,
2001

68