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Aluno: João Carlos Anderson Bemfica

PARTES NO PROCESSO DO TRABALHO

Parte processual pode ser conceituada como aquela que busca a prestação jurisdicional
do Estado ou que a tem requerida contra si (autor e réu). No entanto, nem sempre os
sujeitos do conflito coincidem com os sujeitos do processo, pois em alguns casos quem
comete o dano pode não ser o demandado, como no caso de um empregado que sofre
dano causado por um gerente da empresa e ajuíza a ação diretamente contra o
empregador, em virtude de sua responsabilidade objetiva. Observe-se, ademais, que o
conceito de partes revela-se insuficiente, uma vez que descarta como tais outras figuras
que aparecem durante o processo.

Diferentemente do processo civil, no processo do trabalho as partes são denominadas


como reclamante e reclamado. Além dessas, outras denominações foram criadas, como
suscitante (autor) e suscitado (réu) nos casos de dissídio coletivo.

A capacidade é um ponto salutar dentro do tema partes do processo, pois se deve,


inicialmente, diferenciar o que é capacidade processual, capacidade de ser parte e
capacidade postulatória.

Capacidade de ser parte significa a possibilidade da pessoa, física ou jurídica, se


apresentar em juízo, ocupando um dos pólos do processo. Para que se configure a
capacidade de ser parte é suficiente que a pessoa seja dotada de personalidade civil
(iniciada com a vida para pessoas físicas ou com a inscrição dos atos constitutivos no
respectivo registro para as pessoas jurídicas).

A capacidade de estar em juízo (capacidade processual) é adquirida por aquele que é


considerado capaz para a prática dos atos da vida civil e de administrar seus bens.
Diante disso, não serão dotadas da capacidade processual as pessoas arroladas nos
artigos 3º e 4º do Código Civil, não obstante possuam capacidade de ser parte.

De acordo com o art. 792 da CLT, a capacidade processual plena dos trabalhadores
(capacidade para estar em juízo sem a assistência ou representação) se inicia aos 18
anos. Firmando essa tese, o art. 793 estabelece que as reclamações trabalhistas dos
menores de dezoito anos serão realizadas por seus representantes legais e, na falta
destes, pelo Ministério Público do Trabalho, pelo sindicato, pelo Ministério Público
Estadual ou, finalmente, por um curador especial nomeado em juízo.

Obs.: os casos de emancipação do elencados no art. 5º, parágrafo único do Código Civil
deve ser observado no processo do trabalho. Portanto, se o trabalhador se enquadrar em
qualquer das causas de emancipação será considerado maior, não devendo ser-lhe
aplicado o art. 439 da CLT (proibição de dar quitação pelo recebimento da indenização
devida sem assistência de responsável legal), mas a prescrição prevista no art. 440 da
CLT ainda permanece aplicável.
Capacidade postulatória é tida como a privativa de advogado inscrito na OAB e consiste
na manifestação processual por um advogado devidamente qualificado. Contudo, o
processo do trabalho possui como uma de suas peculiaridades a entrega dessa
capacidade às partes, configurando o chamado jus postulandi.

Entende-se por jus postulandi o poder atribuído às partes (empregados e empregadores)


de reclamar pessoalmente (ou por seus representantes ou por seus sindicatos de classe)
perante a Justiça do Trabalho e acompanhar suas reclamações até o final da ação (art.
791, CLT), estabelecendo-se como um princípio do processo do trabalho. Desta feita,
conforme esse princípio, reclamante e reclamado poderão atuar perante a Justiça do
Trabalho, em todas as suas instâncias, independentemente da presença de advogados.

Obs.: se houver necessidade de encaminhar recurso para o Supremo Tribunal


Federal ou Superior Tribunal de Justiça, é preciso lembrar que é necessária a
subscrição do recurso por advogado, sob pena de não conhecimento do apelo.

O TST vem modificando seu pensamento no que se refere ao Recurso de Revista, uma
vez que, ainda de forma discreta, o Tribunal vem defendendo que o Recurso de Revista
deveria ser também subscrito por advogado regularmente inscrito nos quadros da
Ordem, visto que possui natureza extraordinária.

Ainda sobre o jus postulandi, é interessante observar que à época da promulgação da


Constituição Federal, muito se questionou sobre a recepção do art. 791 da CLT, em
virtude do art. 133 da Constituição que estabelece a figura do advogado como
indispensável à administração da justiça. Os questionamentos foram agravados quando
foi editado o Estatuto da OAB (lei 8.906/94). Contudo, a ADI 1127-8 estabeleceu que a
presença do advogado não é obrigatória, entre outros casos, na Justiça do Trabalho,
confirmando que o art. 791 da CLT está em pleno vigor, subsistindo o jus postulandi
mesmo depois da promulgação da Constituição Federal de 1988.

Obs.: Embora ainda não pacífico na doutrina, alguns doutrinadores defendem que nos
casos que envolvam ação trabalhista ligada à relação de trabalho não subordinado, as
partes deverão estar representadas por seus advogados, não sendo aplicado o art. 791 da
CLT, que fica restrito a empregados e empregadores.

Impende destacar, ainda, que a representação não pode ser confundida com a
substituição processual nem com a assistência. Enquanto que na representação, o
representante atua no processo em nome alheio e na defesa de direito alheio, podendo
ser convencional ou legal, a substituição processual consiste em uma atuação em juízo
em nome próprio, buscando garantir direito alheio, desde que autorizado em lei,
conforme o art. 6º do CPC. Ressalte-se que a assistência pode ter diversos significados,
podendo se concretizar de forma interventiva, litisconsorcial, judiciária e judicial.

É preciso destacar que em relação à assistência judicial dos relativamente incapazes, a


diferença da representação consiste no fato de que na assistência o assistente apenas
supre a deficiência da declaração de vontade do assistido, mas não a substitui, não sendo
cabível ao assistente fazer qualquer acordo em nome do assistido, mas apenas ratificar
ou não a declaração de vontade deste. Ou seja, na assistência as declarações de vontade
do assistente e do assistido são necessárias, enquanto que na representação a declaração
de vontade do representante é suficiente.
Obs.: até aos 16 anos, o menor trabalhador será representado por seus pais ou tutores,
ou seja, por seus representantes legais; dos 16 aos 18 anos será apenas assistido por seus
representantes legais.

A CLT, em muitos momentos, confunde os conceitos de representação e assistência. No


art. 843, § 2º da CLT, por exemplo, o legislador usou o termo representar quando, na
verdade, deveria ter utilizado a expressão substituir.

Nos casos de ação reclamatória com pluralidade de autores ou ações com substituição
processual os empregados poderão se fazer presentes através do sindicato profissional,
até por limitações estruturais. O empregador também poderá ser representado pelo
agente ou por qualquer preposto que tenha conhecimento do fato, vinculando o
preponente às suas declarações. Sobre o tema, o TST editou a Súmula 377 que reafirma
a possibilidade de representação do empregador pelo preposto, mas determinou que este
deve ser necessariamente empregado da empresa. Aduz a Súmula:

TST. Súmula 377 – Preposto – Exigência da condição de empregado. Exceto


quanto à reclamação de empregado domestico, o preposto deve ser
necessariamente empregado do reclamado. Inteligência do art. 843, § 1º da CLT.

A Lei Complementar 123/06 instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da


Empresa de Pequeno Porte e determina a possibilidade de substituição ou representação
do empregador dessas empresas, perante a Justiça do Trabalho, por terceiros que
conheçam os fatos, mesmo que não possuam vínculo trabalhista ou societário. Nos
demais casos, a presença de preposto que não seja empregado da empresa poderá dar
margem à declaração de revelia e confissão fática da empresa. Além disso, o Código de
Ética da OAB proíbe que o advogado funcione no mesmo processo como preposto e
advogado da empresa. O empregador doméstico, todavia, pode se fazer representar por
qualquer pessoa da família.

Quanto ao empregado, se este não tiver condições de comparecer à audiência (por


doença ou algum outro motivo relevante) poderá outro empregado da mesma profissão
ou sindicato profissional comparecer à audiência, com o objetivo de demonstrar a
impossibilidade de comparecimento do trabalhador e, com isso, evitar a extinção do
processo sem resolução do mérito (arquivamento da reclamação trabalhista, art. 843, §
2º da CLT).

Obs.: se a notificação for realizada por edital e o processo correr à revelia, não haverá
nomeação de curador especial para o revel, sendo inaplicável o art. 9º, II do CPC, uma
vez que a CLT estabelece que apenas na hipótese do art. 793 (reclamação trabalhista
promovida por menor de 18 anos sem representante legal) será possível a nomeação de
curador especial.

Quanto à figura do grupo econômico, se houver litisconsórcio passivo de empresas que


integram o mesmo grupo econômico, cada empresa deverá ser representada por um
preposto, e não apenas um para representar todas as empresas do grupo. Ainda sobre
representação, a Orientação Jurisprudencial 349 da SDI-I/TST estabelece que a juntada
de nova procuração aos autos, sem nada falar sobre os poderes conferidos ao antigo
advogado, implica revogação tácita do mandato anterior.
Diante do exposto, no âmbito da Justiça do Trabalho as partes possuem capacidade
postulatória, sendo dotadas do jus postulandi, mas podem ser representadas por
advogado, desde que regularmente constituído nos autos mediante instrumento de
mandato.

Por conta de suas peculiaridades, a Justiça do Trabalho admite o mandato tácito,


entendido como aquele em que o advogado que comparece à audiência, representa o
reclamante ou reclamado, pratica atos processuais, constando seu nome na ata de
audiência, estará apto a defender o seu cliente, embora não exista procuração nos autos.

A substituição processual ocorre quando a parte (legitimado extraordinário) pleiteia em


nome próprio direito alheio, nas hipóteses autorizadas por lei. Uma vez legitimado, o
substituto poderá praticar todos os atos processuais, salvo o direito de disposição
(transigir, renunciar ou de reconhecer o pedido) do direito material do substituído,
devendo, para tanto ter autorização expressa do substituído, pois o direito material
discutido não lhe pertence.

Sobre o tema substituição processual, destaca-se no processo do trabalho a figura do


sindicato, uma vez que seu poder de atuação foi bastante modificado com o advento da
Constituição de 1988. Antes da CF/88, o sindicato poderia atuar como substituto de seu
associado de forma restrita, em hipóteses expressamente previstas em lei, como nos arts.
195, § 2º e 872, parágrafo único, ambos da CLT.

A Constituição de 1988 estabelece que cabe ao sindicato a defesa dos direitos e


interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou
administrativas.

Inicialmente, o TST, em face do dispositivo constitucional, adotou uma posição


restritiva ao papel do sindicato como substituto processual de seus associados,
limitando-o aos casos previstos em lei (CLT). Contudo, com as repetidas interpretações
em sentido contrário do STF, o TST passou a admitir a ampla substituição processual
dos sindicatos por seus associados. Uma prova disso foi a edição da OJ 121, que
reconhece ao sindicato legitimidade para atuar como substituto processual em busca da
diferença de adicional de insalubridade do trabalhador. O reconhecimento dessa ampla
substituição processual foi bastante benéfica, pois, entre outros motivos, auxilia na
celeridade processual e evita que a justiça do trabalho profira decisões conflitantes.

Ainda segundo o STF, é possível que o sindicato atue nas ações de conhecimento, em
ações de liquidação e nas execuções de sentença trabalhista, ou seja, os sindicatos
podem defender qualquer direito do trabalhador relacionado ao vínculo empregatício.

A súmula 406 do TST estabelece que o sindicato poderá atuar como réu (substituição
processual passiva) em ação rescisória, se tiver atuado como autor do processo cuja
sentença se busca rescindir. Aduz a súmula:

Nº 406 AÇÃO RESCISÓRIA. LITISCONSÓRCIO. NECESSÁRIO NO PÓLO


PASSIVO E FACULTATIVO NO ATIVO. INEXISTENTE QUANTO AOS
SUBSTITUÍDOS PELO SINDICATO (conversão das Orientações Jurisprudenciais nºs
82 e 110 da SBDI-2) - Res. 137/2005, DJ 22, 23 e 24.08.2005
I - O litisconsórcio, na ação rescisória, é necessário em relação ao pólo passivo da
demanda, porque supõe uma comunidade de direitos ou de obrigações que não admite
solução díspar para os litisconsortes, em face da indivisibilidade do objeto. Já em
relação ao pólo ativo, o litisconsórcio é facultativo, uma vez que a aglutinação de
autores se faz por conveniência e não pela necessidade decorrente da natureza do litígio,
pois não se pode condicionar o exercício do direito individual de um dos litigantes no
processo originário à anuência dos demais para retomar a lide. (ex-OJ nº 82 da SBDI-2 -
inserida em 13.03.2002)
II - O Sindicato, substituto processual e autor da reclamação trabalhista, em cujos autos
fora proferida a decisão rescindenda, possui legitimidade para figurar como réu na ação
rescisória, sendo descabida a exigência de citação de todos os empregados substituídos,
porquanto inexistente litisconsórcio passivo necessário. (ex-OJ nº 110 da SBDI-2 - DJ
29.04.2003)

Sucessão processual, que pode ocorrer em relação ao empregado ou ao empregador,


significa a substituição das partes no curso do processo, podendo ser ato inter vivos ou
causa mortis.

A pessoa física é sucedida processualmente com a sua morte, devendo ser substituída
pelo espólio, representado pela figura do inventariante. Se o falecido for o empregado
existem duas possibilidades de sucessão:

- se o empregado não possui bens, não há inventário. Com isso, a habilitação será feita
pelos dependentes habilitados perante a Previdência Social. Se não houver, os
sucessores serão habilitados;
- se houver necessidade de inventário, o processo trabalhista fica suspenso até à
nomeação do inventariante.

Se o empregado falecer antes da propositura da ação, não se fala em sucessão


processual, já que será proposta pelos sucessores.

Se no curso do processo falecer o empregador pessoa física, o juiz deverá intimar o


espólio, que terá também como representante o inventariante. Impende destacar que a
habilitação pode ser requerida pelo reclamante.

Obs.: se o empregador for pessoa jurídica, a sucessão processual ocorrerá nos moldes
dos arts. 10 e 448 da CLT. De acordo com a redação combinada desses artigos pode-se
deduzir que qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa, como fusão,
incorporação, cisão, transformação, entre outras, não afetará os contratos de trabalho
dos empregados, permanecendo o vínculo empregatício quanto ao novo empregador.

As partes e seus procuradores deverão observar os deveres estabelecidos nos arts. 14 e


15 do Código de Processo Civil, que terá aplicação subsidiária no processo do trabalho.
Dentre esses deveres, destacam-se que as partes devem proceder com lealdade e boa-fé
(respondendo por perdas e danos quem pleitear de má-fé como autor, réu ou
interveniente) e que não podem produzir provas, nem praticar atos inúteis ou
desnecessários à declaração ou defesa do direito. Além disso, o art. 15 deixa claro que é
vedado às partes e seus advogados utilizar expressões injuriosas nos escritos
apresentados no processo, cabendo ao juiz, de ofício ou a requerimento do ofendido,
mandar retirá-las.
Destaque-se que o art. 17 do CPC, também de aplicação subsidiária, estabelece em
vários incisos, o que se entende como litigante de má-fé, fixando o artigo seguinte multa
para aqueles que assim agirem no curso do processo.

Outra figura importante ao tratar de partes no processo do trabalho é a intervenção de


terceiros. Em regra, apenas as partes envolvidas no processo devem suportar suas
conseqüências, contudo em alguns casos, os efeitos processuais extrapolam as partes
envolvidas no processo e alcançam direitos de terceiros. Exatamente para atenuar esses
efeitos, o processo civil, aplicado subsidiariamente ao processo do trabalho, permite que
os terceiros (estranhos à relação deduzida em juízo e à relação processual)
possivelmente atingidos pelos efeitos da sentença intervenham no processo. Como
primeira hipótese de intervenção de terceiro a ser tratada, a assistência consiste no
direito de interferência do terceiro por ter interesse jurídico na vitória de uma das partes.
O assistente não intervém buscando tutela jurisdicional, mas atua como assistente de
uma das partes apenas para auxiliar na vitória da demanda.

A assistência pode ser simples ou litisconsorcial, quando constituída para auxiliar


apenas uma das partes ou quando o assistente é necessariamente titular de uma relação
jurídica com o adversário do assistido, respectivamente. Como a CLT silencia sobre a
matéria, é amplamente aceito o regramento exposto no CPC, traduzindo-se, geralmente,
na presença do sindicato em juízo para assistir o empregado.

A oposição existe quando o terceiro se julga titular de um direito ou de uma coisa


disputada por autor e réu em ação judicial. Vale dizer, que as partes brigam por um
direito que, segundo o opositor, pertence-lhe, e não a qualquer das partes. Com isso,
unem-se no pólo passivo réu e autor da relação principal. A oposição possui duas
formas: simples intervenção no processo, quando interposta antes da audiência correndo
junto à ação sendo ambas julgadas pela mesma sentença; e a de demanda autônoma
quando proposta ao mesmo tempo ou depois da audiência, seguindo o rito ordinário,
sendo julgada sem prejudicar a ação principal.

Outra hipótese de intervenção de terceiros aceita no processo do trabalho é a nomeação


à autoria. Essa hipótese de intervenção pode ser conceituada como o ato pelo qual o
possuidor ou detentor da coisa demandada nomeia ao autor, que é legítimo para estar no
pólo passivo da demanda, por ser o proprietário ou possuidor indireto da coisa litigiosa,
buscando afastar de si a conseqüência da demanda (art. 62). A nomeação à autoria é ato
obrigatório. Assim como a oposição tem sua presença no processo do trabalho como
alvo de muitas divergências, embora a maior parte da doutrina aceite.

A denunciação da lide, substituta quase fiel do chamamento à autoria presente no CPC


de 1939, consiste no ato pelo qual o autor ou o réu chamam terceiro a juízo que seja
garante de seu direito, a fim de resguardá-lo no caso de ser vencido na demanda em que
se encontram. Também é obrigatória, sob pena da perda do direito de regresso contra o
garante de direito.

O chamamento ao processo é figura de exclusiva utilização pelo réu e consiste no


chamamento deste à outra parte que deve integrar o pólo passivo com ele, por também
ser responsável pela relação jurídica em discussão. Um exemplo de chamamento
bastante presente no processo do trabalho é a relação do empreiteiro principal com
relação ao subempreiteiro.