Desde os primórdios da linguagem, o homem ousou viver em dois mundos.

Aquele habitado pela realidade e aquele habitado pelo impossível. Para alcançar esse último, o homem inventou as histórias. Contadas ou escritas, baseadas no real ou construídas a partir do imaginário fantasioso, elas sempre permitiram ao homem sonhar. Além de ajudá-lo a buscar a imortalidade através de palavras que perdurar além de sua morte. Mas, quando lemos um conto maravilhoso – com os tipícos herói e vilões - estamos vendo apenas um lado do que aconteceu. É da natureza humana se fixar em apenas um ponto de vista. Lemos então sobre o herói, cheio de virtudes, que busca através de sua jornada redimir alguma perda ou falta em sua vida e sobre o vilão, mal personificado, ele vêm cheio de artimanhas para atrapalhar ao máximo o herói, para alcançar... Sua motivação é obscura. Não conhecemos verdadeiramente esse personagem, cujo papel no conto maravilhoso costuma ser de ferramenta. É o vilão que cria curvas na estrada percorrida pelo herói. Ele é o peso que contrabalanceia o herói e torna possível que o herói saia vitorioso no final. Não devemos nos reter nessa simplicidade, no entanto. Mergulhar no lado que permaneceu obscuro pode ser muitas vezes difícil, mas permite conhecer aspectos completamente novos de uma história. Foi o que Gregory Maguire fez. O autor norteamericano pegou o livro O Mágico de Oz (The Wonderful Wizard of Oz) e deu-nos uma nova perspectiva sobre uma personagem há muito tempo conhecida, mas escassamente explorada: a Bruxa Malvada do Oeste (Wicked Witch of the West). É sobre este seu livro, Maligna (Wicked), que pretendo discorrer, analisando-o sobre o enfoque das estruturas narrativas de Propp e das funções narrativas de Bremond. Além disso, mergulharemos um pouco na psicologia dessa personagem tão complexa. Ela não é isenta de culpa, mas a bruxa foi mais do que apenas uma vilã.

Tabela de conteúdo
[esconder]
• •

1 Conto moderno 2 Narrativa o 2.1 Análise da narrativa o 2.2 Analisando a análise 3 Elphaba, a Bruxa Malvada do Oeste o 3.1 Construção de um vilão o 3.2 Desconstrução de um vilão  3.2.1 Lurline x Kumbricia  3.2.2 Mito da Santa Aelphaba o 3.3 Mergulhando na psicologia de uma alma torturada

4 Referências [editar]

Algo certo é que todos os povos. destacando-se por sua unidade de tempo e de ação. Caracteriza-se como narração de um episódio. uma jornada para longe de casa. A linguagem pode. com começo. portanto.o mesmo teor descrito por Vladimir Propp nas suas estruturas narrativas. Talvez nem tanto na forma. também. A ação se torna ainda mais reduzida. mas no conteúdo . diálogos. contos cômicos. etc. contos de mistério e terror. Isso pode ser facilmente verificado se olharmos Sherazade. nos contos maravilhosos modernos. Muitos deles anônimos. algo remanescente do clássico. resultado de uma nova narrativa que se foi construindo nas últimas décadas. O conto contemporâneo. Talvez nenhum exemplo seja melhor do que Shrek (2001). Apesar dessa diferença. O conto mais clássico se organiza numa cadeia de acontecimentos. eles foram preservados pela tradição. Política. desenvolveram seus contos. . que tem as estruturas e os papeis básicos de um conto: herói. escorregando do domínio coletivo da linguagem para o universo do estilo individual de um certo escritor”. para a descoberta de um sentido do nãodito. contos psicológicos. corrupção. drogas. linguagem que fala de prodígios fantásticos. contos minimalistas. a exploração de um tempo interior e psicológico. foram surgindo. contos religiosos. literária. personagens. sexo.Conto moderno O hábito de ouvir e de contar histórias acompanha a humanidade em sua trajetória no espaço e no tempo. contadora das histórias em Mil e uma noites – e. meio e fim. com o objetivo de conduzir o leitor para além do dito. O que é conto. Ação. “O conto como forma simples. responsável pela compilação dos contos mais conhecidos no final da Idade. no entanto. expressão do maravilhoso. contos fantásticos. Contos de humor. uma única ação. é possível perceber. pela denúncia do que não se quer ver. contos estruturados de acordo com as técnicas da narrativa são alguns tipos. adjuvante. substituiu a estrutura clássica pela construção de um texto curto. chocar pela rudeza. uma maneira de manter os valores e costumes de sua época. em todas as épocas. contos realistas. Novas modalidades de contos. contos sombrios. um final triunfante. oralmente transmitido de gerações a gerações e o conto adquirindo uma formulação artística. de ajudar a explicar a história e até iluminar as noites. surgem monólogos. princesa. vilão. de Luiza de Maria apresenta várias dessas modalidades.

no filme da DreamWorks e no livro que o inspirou. Generalizando. então você percebe que o verdadeiro fim é o percurso" . Para isso. Sendo um conto moderno. Elphaba é rapidamente rejeitada pela cor de sua pele e outras peculiaridades não consideradas normais.Mesmo que esses papéis tenham sido. Elphaba parece aprender desde pequena a se defender dos outros. "Quando você se lança numa jornada e o fim parece cada vez mais distante. deixando um pouco de lado os personagens. altamente modificados ou invertidos. é necessário conhecer sobre o trabalho de Propp e Claude Bremond. isso é feito através de duas cenas: uma da bruxa já crescida e outra de seu nascimento. No final deste . no entanto. Para isso servirá esta análise. Munchkinlanders. Inquisitiva e quieta. Em contos de ficção. vamos mergulhar na estrutura narrativa do conto. Maligna pode não seguir sempre a seqüência proposta pelo fundamentalista russo. Há diversas distribuições possíveis para esses elementos. desenvolvendo sobre a personalidade inata da criança. [editar] Análise da narrativa O conto começa com a apresentação de uma situação inicial. O resto da primeira parte do livro. A segunda cena introduz a bruxa como uma personagem esférica. já que mostra a bruxa vigiando Dorothy e seus amigos na Estrada de Tijolos Amarelos. A primeira liga esta narrativa ao livro que a inspirou. as narrativas são acompanhadas de alguns elementos que podem ser considerados básicos. para verificar as semelhanças e as diferenças presentes na narrativa. Essa introdução permite que o leitor conheça os personagens e o contexto de suas vidas. O Mágico de Oz. relatar uma acontecimento. [editar] Narrativa Narrar é contar uma história. os personagens são mais do que essenciais. cenário e personagens.Karlfried Graf Dürckheim Nesta parte da análise do livro Maligna. descrever uma situação. Em Maligna. E também mostra as influências externas que agem sobre ela: uma mãe ausente e um pai obcecado com religião. como narrador. aprofunda essa situação inicial da personagem. Nascida de uma família meio desestruturada.

Mesmo que o Mágico de Oz seja considerado um antagonista. mas herói. alías. Por esse motivo . ela não tem acesso a Biblioteca da Faculdade dos Garotos. A dúvida. O encontro com o Mágico é indireto – ele se esconde atrás de uma montagem de ossos dançantes e efeitos especiais – e realmente frustrante. portanto. para propor que as três garotas viessem a se tornar cúmplices do Mágico de Oz. estudante também. De Morrible.a diferente perspectiva adotada . fonte de vários problemas para ela. parte o interrogatório e o ardil. ou seja. Elphaba. Envolvida com o trabalho do Doutor Dillamond. Elemento importante que será revisitado mais adiante. está na Universidade de Shiz. para saber mais sobre a pesquisa de Dillamond e o quanto Elphaba sabia sobre essa pesquisa.Elphaba não é considerada vilã. um adjuvante. Seu amigo Boq. Elphaba não se deixa abalar por essa adversidade e acha um meio de burlar a regra – eis a transgressão.ato. é inevitável sua interligação com a narrativa de Elphaba (Claude Bremond). muito mais completa que a das Garotas. É nesse ponto de sua vida que encontra a primeira proibição imposta pela sociedade tradicionalista. concorda em fazer a pesquisa sobre o assunto que a garota verde precisa e depois trazer a informação ou o próprio livro até ela durante encontros clandestinos. Glinda e Elphaba. Ao mesmo tempo em que elas são independentes. mesmo que um tanto insuficientemente. Glinda e até Elphaba no desenrolar da narrativa a partir deste ponto. Elphaba não revela informação alguma. Um. Como mulher. Longa viagem e longa espera. Elphaba precisa de um personagem que contrabalanceie a narrativa. Após o funeral da Ama de Glinda. A clara tentativa de manipulação enfurece tanto a garota verde. A segunda parte introduz Galinda e Dillamond. Ele não está interessando em . onde o Mágico de Oz reside. É a personificação palpável das dificuldades enfrentadas. Parceira do Mágico. Morrible tenta manipular as três por dois motivos. Boq é. irá perturbar a paz de Elphaba até sua morte: será que suas vidas teriam sido influenciadas pelo feitiço da vilã? É possível. que têm suas narrativas paralelas. Como heroína. já que é o único ponto que todas as outras têm em comum. pode ser considerada como espinha dorsal de todas as outras. Elphaba é a única com a capacidade de lutar. com quem Elphaba tem contato direto. já crescida. no entanto. o vilão dessa narrativa é Madame Morrible. Dois. Com o uso de magia e coerção. identificar um pouco de cumplicidade inocente de Nessa. um vilão. nesse caso. ela é um alvo mais fácil porque é uma vilã concreta. contra o controle da vilã. que ela decide partir para a Cidade de Esmeraldas. a diretora reúne Nessa. Essa última. um novo elemento da narrativa é apresentado: um afastamento intensificado – a morte de sua mãe.

Vassoura em mãos e Liir a tiracolo. Há uma perseguição nisso. Ele irá se comportar como mediador não com sua presença. Morrible acabara de morrer de velhice... Elphaba. Sua ação resulta na perda de tudo que Elphaba conhecia. A surpresa está na volta. Elphaba só irá retomar a narrativa quando partir em nova jornada. Esse prejuízo dá movimento a narrativa. movimento anti-Mágico e assim o faz. Há combate na narrativa. está ausente nesta narrativa. ao mesmo tempo em que encaminha Elphaba numa jornada por justiça. todos desconhecem sua origem. procura Morrible para terminar a tarefa do passado. Dorothy não pode ser considerada uma heroína nesta versão. A ausência do amado irá resultar em uma suspensão da narrativa. O tempo passado em Kiamo Ko não move a narrativa do ponto de vista das funções. principalmente pela conseqüente morte de Fiyero. para manter a bruxa sob controle. então. ela irá receber um novo adjuvante – uma vassoura -. Quebrando o molde das estruturas de Propp. A família real foi levada embora pelos soldados do Mágico de Oz. Alías. Elphaba retorna ao Vinkus e o Mágico manda Dorothy para matá-la. temos um dano. mas distorcido. Elphaba e o Mágico de Oz se enfrentam pessoalmente durante a segunda visita da bruxa a Munchkinland. como foi em O Mágico de Oz. De uma maneira implícita. Da narrativa que se desenrola dentro da Cidade de Esmeraldas. a personagem da velha é muito misteriosa. mesmo que ele seja psicológico.ajudar ninguém e comanda a volta de Elphaba para a universidade. A figura do falso herói. Dorothy não veio matá-la de fato. passados no Convento da Santa Glinda. mas chega tarde demais. Honesta sobre suas intenções . Portanto. mas não consegue realizá-la. Antes disso. e pode ser considerada uma mediadora em mais do que uma situação. Elphaba enfrenta a prova. Não há reparação alguma. como Elphaba irá aprender mais tarde. barganham e fica clara a animosidade entre os dois. no entanto. Ela aparece onde é necessária. Ela promete unir-se a Resistência. mas na sua ausência. outro combate frustrante. A tarefa de Elphaba é matar Morrible. Pelo menos não até o deslocamento de Elphaba do oeste para o leste. uma mediação e uma decisão do herói. sua posição como futura governante de Munchkinland e sua liberdade. Ou. e será analisado mais adiante. ao menos parece. Elphaba desloca-se para o Vinkus a procura de perdão. de Yackle. mas nada é resolvido. Há um estigma. apenas pedir perdão. tão pouco se aproxima da figura do vilão. quando a bruxa vai visitar a irmã. O reencontro de Elphaba com Fiyero é mais difícil de categorizar. Sua família. destaca-se o trabalho de Elphaba na Resistência. Em silêncio e fora de atividade por sete anos. Uma manobra política. Isso irá descarrilar a vida da jovem ainda mais. muito presente em contos maravilhosos. Não consegue sequer confessar sua falta. O plano máximo é queda do Mágico de Oz e cada membro é designado uma prova.

a garota de Kansas não tenta pegar para si as ações do herói. [editar] Analisando a análise . não faria sentido conceder ao vilão a mesma cortesia.Frank Herbert Prêmio e castigo andam de mãos dadas no desfecho desta narrativa. Elphaba. e morre. Como morte foi salvação para Elphaba. da loucura dos últimos anos e de uma batalha que ela considerava já perdida. No caso de Elphaba. Por acidente. neste ponto retorna a figura do Príncipe Fiyero.desde o primeiro momento em que encontra a Bruxa. Dorothy joga água na Bruxa. também de maneira indireta e desviada. No entanto. É a descoberta. é o alcance de uma liberdade há muito esperada. É possível identificar um tipo de perseguição. é uma solução definitiva para Elphaba. A morte da nossa heroína seria considerada tragédia em qualquer outra circunstância. aprender irrefutavelmente que você é mortal. Isso o instiga a deixar Oz. E. Partindo disso. Ela pára de adiar aquilo que considera inevitável: sua morte. a perda dessa esperança. perseguem-na dolorosamente. A dúvida. que é alérgica." . e a esperança. morte como prêmio. Seu foco é muito mais o desmascaramento do Espantalho do que a chegada de Dorothy. é conhecer o fim do terror. “Eu te salvarei!” "Suspeitar de sua própria mortalidade é conhecer o início do terror. envia vários empecilhos para os viajantes. que Elphaba era sua filha. quando fica claro que o Espantalho não é mais do que um simples espantalho. pelo Mágico. motivada pela crença – um tanto infundada – de que o Espantalho que acompanha Dorothy seria Fiyero disfarçado. Talvez a dor dessa verdade supere o seu extermínio iminente pela Resistência. também está longe de ser falsa heroína. Liberdade da angústia de sua vida. ainda podemos identificar castigo no sentido pretendido por Propp. que invadiria o castelo no mesmo dia.

razão que explique qualquer ação. A dificuldade imposta ao herói. Exatamente esse novo contexto cultural que distorce algumas das funções clássicas. Ele é mais do que um personagem complementar. Não foi difícil. como verificado na análise da narrativa acima. A narrativa literária recente e a narrativa cinematográfica buscam com certo ardor uma verossimilhança com a realidade e isso se traduz pelo cuidado maior que é empregado no detalhamento nas características de cada personagem. significa que ela negligencia os seres humanos. os personagens principais eram categorizados em dois lados antagônicos. a Bruxa Malvada do Oeste Apesar de Gregory Maguire ter pego um vilão e ter dado a ele – ou neste caso. Só que. que deveriam diferenciá-la dos outros personagens. Essas partes são mini-narrativas estáticas. Há motivação para tudo. ela não é uma heroína típica. confundem-se com defeitos. o livro Maligna traz grandes partes que não são previstas pelas funções de Vladimir Propp. contudo. Segue uma análise mais profunda do seu personagem. Elphaba é basicamente uma heroína. O dom de magia e profecia levaram-na a loucura. no entanto. O mundo deixa de ser visto de maneira maniqueísta.Mais um romance do que um conto. para quem ela devota todo o seu carinho e atenção. A pós-modernidade. o “bem” e o “mal”. A devoção que ela tem por sua causa afastou-a de seus amigos. Suas virtudes. eles não possuiriam profundidade psicológica e esfericidade. que ajudam a desenvolver os personagens e sem as quais. reiterando a importância de personagens no bom desenvolvimento da história. [editar] Construção de um vilão Vilão sempre foi uma figura clássica do conto maravilhoso. ela – uma chance de contar a história do seu ponto de vista. aplicar as funções de Propp sobre a narrativa geral e é possível considerar essa análise um sucesso. Complexidade essa que também é necessária para a narrativa geral. não pode ser ignorada e sua influência sobre a narrativa pode ser considerada a maior culpada pelas ‘distorções’ de algumas funções clássicas de Propp. O apego que Elphaba tem com os animais e Animais. O vilão . Tradicionalmente. [editar] Elphaba. Não mais. o enfrentamento desse problema e uma resolução final. Muitos pontos da narrativa dos contos ainda vivem na maneira como a narrativa moderna de Maligna foi construída.

filho de Fiyero. ela acredita na causa pelo qual luta e tem objetivos morais e honráveis.e sua presença restringe-se a primeira metade da narrativa do livro. os fracos e fortes.a heroína . Como a narrativa é centrada em Elphaba. Impossível categorizá-la a uma única definição. macacos voadores para capturá-los e muito artifício para conseguir o que ela mais deseja – os sapatos da Bruxa do Leste.oferece um verdadeiro oposto ao herói e é essencial para o desenrolar da narrativa. marginalizado. Afinal. Todavia. se enfrenta com ela e é vencida. Dorothy experiência a vilania da Bruxa em primeira pessoa. Talvez mais próxima de um anti-herói. um entendimento segundo o qual não o fazemos dessa maneira. Suas ações isolam-na ainda mais. a bruxa. dependendo do ponto de vista empregado para julgar suas motivações. [editar] Desconstrução de um vilão . as aceitações e rejeições e os heróis e vilões. Elphaba se rebela contra o governo. nos abre novas portas de compreensão e nos oferece novos pontos de vista sobre essa vilã. nenhum outro antagonista do livro personifica o mal da maneira como a bruxa o faz. Ela é uma tirana que escravizou todo o povo do leste e inimiga do Mágico de Oz. que Dorothy agora usa. Fica mais fácil compreender o mundo quando podemos traduzir a realidade em categorias bem delimitadas e absolutas. não escritas. o vilão se apresenta como antagonista à figura do herói. Não exatamente uma vilã. um mal necessário. Talvez ainda uma anti-vilã. há uma quantidade de regras subentendidas. um costume. Em um conto. nada é assim tão simples. comete adultério. Ela não é o único empecilho na jornada de Dorothy . O motivo? Talvez nenhuma explicação seja melhor do que o simples imperativo de dualidade que tanto assombra os seres humanos. para Maguire. assume a culpa pela morte de Morrible e persegue Dorothy. em entrevista) O Mágico de Oz nos apresenta um vilão. A Bruxa Malvada tem tudo que se esperaria de uma vilã. É literalmente. a Bruxa Malvada do Oeste. mesmo que sua inabilidade se traduza em ações mais comumente associadas a um vilão. Maligna. portanto. sua anti-sociabilidade e sua fé na absoluta inutilidade da religião e da não-existência de sua própria alma. Elphaba é uma heroína cheia de defeitos. O livro. Mas. “O fato é que. Muitas vilanias são cometidas ou associadas à personagem. Na viagem da menina até o castelo da bruxa. Os vencedores e vencidos. é considerada responsável pelo desaparecimento da família real do Leste. Características como sua aparência estranha – pele verde -. São as informações dadas a Dorothy.” (Joseph Campbell. Há um ethos ali. numa cultura que tenha se mantido homogênea por algum tempo. Animais mandados para atacá-los. essa personagem passa a ser heroína. prejudica a heroína. é responsável pela morte de Manek. Esse personagem vive fora das regras que a sociedade considera éticas e é. pelas quais as pessoas se guiam. ou narrativa.

devemos desconstruir a imagem pronta e estereotipada que nos é apresentada. feia e aparentemente má. Maligna (“Wicked” no titulo original) refere-se a vários personagens.Pode ser impossível categorizar Elphaba. Linda e poderosa. e Fiyero. nem bem inquestionável.porque a única maneira de você descrever verdadeiramente um ser humano é através de suas imperfeições" . Heroína imperfeita ou vilã frustrada? Boa ou má? Para talvez chegar a uma conclusão. E. [editar] Lurline x Kumbricia Desenho de Elphaba por Omni Lurline. estaturas ou espécies. Ela não é má. Muitos objetos complementares da narrativa ajudam a criar uma discussão que indiretamente reflete na bruxa verde. mas existe. que é negro – não é descarado. no entanto. sua figura é associada a tudo que é bom e certo. Galinda é loira. cujos poderes se igualam a Lurline. No livro. que não foram tantos quanto Galinda. Não tem medo de lutar a favor das causas que considera justas. A loira manipula situações para projetar-se na escala social e preocupa-se demais com sua imagem. Galinda vai passar o resto de seus dias tentando ser boa. Elphaba não tem preconceitos em relação a gêneros.. ". Galinda é preconceituosa com todos que não são iguais a ela.. que Maguire põe em cheque o maniqueísmo. Passou o resto de seus dias. é através dessas duas personagens. Kumbricia é uma bruxa. é a fada responsável pela criação de Oz. mas a descrição de sua personagem pelo autor é rica e deveras complexa e merece atenção. os fez sem maldade ou intenção. facetas que podem ser assim consideradas. Tem. claro. Há uma passagem em que Boq encontra um livro muito . elas encontram reflexos em Galinda e Elphaba. As duas personagens míticas são lados opostos da mesma moeda e representam uma visão maniqueísta do mundo. mas entendê-la não é. não há mal absoluto. Elphaba é morena. bonita e aparentemente boazinha. no paganismo. Ela não se encaixa nos moldes previstos pela sociedade. apesar de ter cometido muitos erros. Seu preconceito – contra Boq. tentando buscar reparação pelos seus erros.Joseph Campbell A figura de Kumbricia também é posta a prova e é difícil escapar a subseqüente referência sobre Elphaba. sua imagem é de uma mulher maquiavélica. que é um anão. sedutora e má. Adorada pelos adeptos da religião do prazer. Também não é má.

o declínio completo de seu mundo. entretanto. Em todas as cenas com Frex e Elphaba ressoa a carência de uma filha desprezada. pensar e viver. Aelphaba só queria aprender. foi uma mulher extremante linda e inteligente. É possível até estabelecer um paralelo com a santa no quesito de sua saída: a linda santa se refugiou em água e através de água. quando ressurgiu. evidenciado no tempo que Elphaba passou no Convento da Santa Glinda e o tempo que passou em Kiamo Ko antes do seqüestro da família real. que uma faceta de Kumbricia permanecesse desconhecida. . É interessante. Seu pai. conta a lenda. Nele. As duas. se refugiaram do mundo – no caso.antigo na biblioteca. ela olhou a sua volta e ficou triste pelo caos do mundo. Elphaba era uma pessoa extremamente descontente com o estado da sociedade de Oz e previu. Incapaz de viver nele. É irônico pensar que a bruxa fosse alérgica a água. Por anos. vendo que suas ações não eram compreendidas. quando o mesmo ocorre com Elphaba. Cansada de ser julgada pela aparência. Sua aparência verde e seus dentes afiados foram vistos como sinais. usando sapatos prateados e gentilmente segurando um animal afogado. ela se refugiou de baixo de uma cachoeira apenas com um cacho de uvas e seus pensamentos e lá ficou durante mil anos. Elphaba recebeu seu nome graças a essa santa. Frex. Nenhuma explicação segue a descoberta desse retrato e Elphaba repudia sua veracidade. “Ela já saiu? Ainda não. em sonhos e premonições aterrorizantes. ela foi atormentada pelo apreço que os homens tinham pela sua beleza e pelo ódio que isso inspirava nas outras mulheres. que Elphaba deixou o mundo. cercada de águas que remetem à inundação. [editar] Mergulhando na psicologia de uma alma torturada Elphaba foi rejeitada – pela sua família e pela sociedade – desde o dia em que nasceu. Mas a associação não acaba ai. [editar] Mito da Santa Aelphaba Santa Aelphaba das Cachoeiras. acreditou ser isso uma punição divina por ter sido um ministro inapto e essa interpretação influenciou o modo como ele via e tratava sua filha. ela voltou para a sua cachoeira e não saiu mais de lá. Poucos a conheceram verdadeiramente. Cada um interpretou de uma maneira. um desenho de Kumbricia. Finalmente.” As palavras finais da narrativa ligam isso com clareza.

Sua vida não tem sentido ou valor. no entanto. Ela foge da realidade quando renuncia seu nome ou qualquer tipo de identidade e passa a ser chamada de “titia” ou “bruxa”. uma tese sobre a personagem da bruxa. Possuir um nome é ser alguém com sentimentos. não lhe permite descanso. Ao final da narrativa. Não penso que seja assim. a verdade. quando chegamos à quarta parte do livro. .Órfã de mãe desde os 7 anos. todo o processo de vida que transformou Elphaba na Bruxa Malvada do Oeste. passo a passo. sem espaço para discussão. Fica claro. A agonia que tudo isso provocou em seu ser já profundamente angustiado pela perda. pela rejeição e pelo tempo. A narrativa de Maligna é. Após anos de clausura e silêncio no Convento da Santa Glinda. no plano puramente físico. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos. de modo que nossas experiências de vida. amou Fiyero e angustiou por sua morte. Elphaba se reintroduz no mundo. Ela não deveria querer e não poderia sonhar. Talvez sua alma atormentada fique mais clara. sonhou que Fiyero ainda estivesse vivo. que a angústia que ela sente pelo isolamento e pelo sofrimento dos outros. “Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. O mundo externo se reintroduziu no mundo fechado de Elphaba e o confronto entre seus sentimentos e sua consciência deles foi uma experiência terrivelmente assustadora. portanto. Elphaba lutou com paixão pela Resistência. Maguire nos mostrou. Ou tenta. ela tinha uma alma. memórias e um futuro. “Não tenho alma”. ela afirma de maneira assertiva. Elphaba cresceu escutando os sermões do pai sobre o bem e o mal e isso a traumatizou de tal maneira. aos poucos.” (Joseph Campbell) O problema de fugir da realidade é que não podemos fugir para sempre. Como num trabalho científico. O fato é que as dores do passado não permitem sua completa inserção. Não uma vilã má. tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos. "Insanidade é a única resposta sã a uma sociedade insana" – Thomas Szasz Foi nesse estado instável que Elphaba se encontrava quando enfrentou Dorothy. tomada pela loucura. de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. Sim. Só que o fez. levou-a a insanidade. sentiu ódio por Morrible. Elphaba não admite nenhum destes. que a bruxa passa a repudiar religião. mas uma anti-heroína que foi.

Minha experiência WIKI .[editar] Referências • • • • Morfologia do Conto Maravilhoso. Joseph Campbell Entrevistas com Bill Moyers. Frank Herbert O trabalho de Thomas Szasz • • • • • • • Maria Carolina R. Pinna O Conto. Daniel Moreira S. Rodrigues . O Poder do Mito. Claude Chabrol et al. Milton Soares de Souza Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West. L. Joseph Campbell Dune. Baum Semiótica Narrativa & Textual.F. Clarmi Regis O papel social do vilão: leituras e usos sociais do vilão no cotidiano de receptores de telenovela. Propp Morfologia do Conto Maravilhoso. Gregory Maguire O Mágico de Oz. Vladimir I.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful