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Para gostar de contos

Eliane Robert Moraes

Como definir o conto? Segundo Machado de Assis, a tarefa não é nada simples: "trata-se de
um gênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade". As palavras do autor de Dom
Casmurro, escritas em 1873, condensam uma opinião partilhada por diversos críticos e
escritores que, ao enfrentar essa questão, acabam confirmando a dificuldade de propor uma
definição categórica do conto. A exemplo de Mário de Andrade, aqueles que se aventuram a
procurar tal resposta chegam invariavelmente a uma conclusão: trata-se de um gênero
"indefinível, insondável, irredutível a receitas".

Talvez a melhor forma de se compreender o conto seja mesmo por meio de sua leitura. Ao
entrar em contato direto com as obras dos grandes contistas que marcaram a história da
literatura, o leitor logo percebe que, se o gênero carece de definição, isso decorre tanto de
sua fabulosa diversidade formal quanto de sua riqueza temática. Essa é, com certeza, a
primeira impressão que se tem na leitura do volume 11 da coleção "Para Gostar de Ler",
intitulado Contos Universais.

De Cervantes a Kafka: toda a diversidade do conto

A coletânea reúne alguns dos maiores mestres do gênero, a começar pelo espanhol Miguel
de Cervantes. Considerado o pai do romance moderno, o criador do Dom Quixote é o mais
antigo escritor apresentado no livro: suas Novelas Exemplares, das quais faz parte a
divertida trama de "O casamento enganoso", foram publicadas pela primeira vez em 1613 e
também estão na origem do conto moderno.

Não menos importante é o filósofo francês Voltaire, que nasceu quase 150 anos depois de
Cervantes. A exemplo de "O carregador caolho" e "Memnon ou a sensatez humana", suas
histórias breves remetem à tradição do "conto filosófico", que se consolidou ao longo do
século XVIII. Sendo Voltaire o maior expoente dessa linhagem, não é de estranhar que esses
contos se proponham tanto a enredos de tom romanesco quanto a reflexões de fundo
filosófico, bem ao gosto de seus contemporâneos.

Já o século XIX - que o argentino Jorge Luís Borges, outro contista notável, definiu como a
época mais literária da história ocidental - caracterizou-se pelo vigor criativo das
experiências que buscavam renovar o gênero. Prova disso está nas obras dos três escritores
oitocentistas que aparecem nesta coletânea - Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe e Anton
P. Tchekhov -, todos eles celebrizados por suas narrativas curtas.

O francês Guy de Maupassant, autor de "Meu tio Jules" e "Alexandre", tornou-se uma
referência do gênero pela limpidez de seus textos, que o consagraram como um mestre do
realismo. A atmosfera singela de seus contos contrasta com o clima sobrenatural das tramas
de "O retrato oval" e "O coração delator", assinados pelo americano Edgar Allan Poe. A
produção do criador das Histórias Extraordinárias foi fundamental para a sensibilidade
literária, influenciando autores do porte do francês Charles Baudelaire. O mesmo se pode
dizer das histórias do russo Anton P. Tchekhov: marcadas por uma melancolia contida, elas
não poupam críticas à mediocridade burguesa, como comprovam "O bilhete premiado" e "A
mulher do farmacêutico".

Herdeira dessa tríade, uma nova geração de talentosos contistas surpreendeu a todos na
passagem do século XIX para o XX. Entre os nomes mais expressivos, encontra-se o
americano Jack London, que realizou a proeza de conjugar a aventura à filosofia em sua
ficção. O resultado é uma obra ao mesmo tempo ágil e reflexiva, como testemunham os
enredos de "A história de Keesh" e "A sabedoria da trilha". Em outra direção, mas com igual
maestria, os contos de Franz Kafka interrogam o absurdo da condição humana no mundo
moderno. Nascido em Praga, o escritor nos legou uma série de narrativas breves, como "A
ponte" ou "Um artista da fome", cuja capacidade de inquietar o pensamento só faz aumentar
com a passagem do tempo.

Como se pode perceber, essa coletânea condensa a própria história do conto, narrada a partir
de sua vigorosa diversidade. Por certo, depois de percorrer cada uma das histórias dos
Contos Universais, o leitor confirmará a impossibilidade de se propor uma definição
fechada a um gênero literário tão múltiplo. Diante dessa indefinição, porém, resta uma
certeza inabalável: impossível mesmo é não gostar desses contos.

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Eliane Robert Moraes é crítica literária e professora de Estética e Literatura na PUC de São Paulo. Escreveu diversos livros sobre o imaginário
literário, como O Corpo Impossível (Iluminuras/Fapesp, 2002), e publicou pela Ática o paradidático Revolta de colonos imigrantes.

Detalhes do livro Contos Universais - PGL 11

CONTO

Do lat. comentum, in. (invenção, ficção, plano, projecto), ligado ao v. contueor, eris (olhar
atentamente para, contemplar, ver, divisar). Narração oral ou escrita (verdadeira ou fabulosa);
obra literária de ficção, narração sintética e monocrónica de um fato da vida. Podemos afirmar
que o contar é tão antigo quanto a vida em comunidade, pois é inerente à natureza humana, o
falar, a necessidade, de comunicarmos ao outro o que sentimos, descobrimos, queremos
desejamos, etc. Como o é também a curiosidade de ouvir, conhecer, sabermos dos outros. E
cada qual contando e ouvindo de acordo com sua imaginação, fantasia, temperamento. Fácil é
imaginarmos que, em tempos primitivos, foi das diferenças de temperamento ou fantasia dos
que falavam, que foram surgindo aqueles que fabulavam. Isto é, os “contadores”, aqueles que
(por particular magia da voz e da imaginação) fabulavam os fatos ou acontecimentos e davam-
lhes uma forma-de-dizer sedutora que seus ouvintes passavam a repetir e que se transformava
na versão dominante, no conto que, de geração para geração, era narrado e transformado em
detalhes ou variantes, pois como diz o ditado: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”.
Juan Valera (1824-1905), notável escritor e erudito humanista
espanhol, analisando a omnipresença do conto na tradição de todos os
povos da antiguidade (mesmo naqueles que desconhecem poesia épica,
filosofia ou legalização), justifica o fenónemo como resultante da
necessidade humana de conhecer e de comunicar-se: “O pouco comum
(e difícil) que era a comunicação dos homens de uma região com
outras; as vagas notícias sobre a geografia e o perigo das
peregrinações por mar e por terra, deram origem a multidões de
histórias, que se transformarem em contos ou novelas. Gigantes
enormes e descomedidos, ogros que viviam de carne humana, pigmeus
que combatiam contra gruas, entes fantásticos, ciclopes de um só olho,
faunos e sátiros e centauros; repúblicas e reinos que não se sabe onde
se localizam ou que afundaram no seio dos mares, tudo isto foi
aparecendo e dando assunto a mil narrativas orais, muitas das quais
foram escritas depois e criaram a tradição dos contos.” (apud Sainz
Robles).
A verdade é que essa “tradição” está fundamentada em copiosas
colecções de contos exemplares ou licenciosos, contos maravilhosos e
contos alegóricos ou contos satíricos; miscelâneas de fábublas orientais
e esópicas, apólogos, parábolas, alegorias, sermões, anedotas satíricas
ou picantes que surgiram na Idade Média (séc. X-XV) e constituem hoje
uma verdadeira floresta de livros e textos, recolhidos de uma milenar
tradição oral, cuja origem primeira foi localizada na Índia, milénios antes
de Cristo, e dali derramou-se por todo o mundo conhecido.
Traçar o panorama exato das origens, peregrinação, multiplicação
e difusão do conto no mundo, é tarefa impossível, pois como género
literário dos mais antigos, ele é indissociável da vida. Como esta, o
conto foge a qualquer definição absoluta ou tentativa de classificação
inquestionável. A intrincada rede de reorganizações, classificações,
definições e hipóteses construídas, através dos séculos, por milhares de
estudiosos, apenas nos permite detectar algumas linhas de conexão
entre as épocas, pontuadas por livros e autores que, de maneira
indiscutível, se transformaram em marcos históricos do percurso do
conto como género literário. Tentaremos um quadro geral dessas “linhas
de conexão” e “marcos históricos”, selecionadas por uma perspectiva
que se pretende actual.
O conto literário europeu (e por extensão, o americano) é de
origem oriental, ou mais precisamente, hindu. Há concordância entre os
mais importantes estudiosos e pesquisadores que pelo menos duas
colecções de contos orientais estão na origem (ou serviram de
paradigma) das narrativas que fizeram o encanto dos ocidentais
europeus durante a Idade Média e a Renascença. Essas duas colecções-
fontes são: o Pantschatantra (Os Cincos Livros) e o Hitopadexa (A
Instrução Útil), surgidas séculos antes de Cristo.
Ambas pertencem ao grande caudal da literatura hindu, escrita em sânscrito (idioma
sagrado da Índia) e existente bem antes do aparecimento de Buda (nascido no séc. V. aC.).
Literatura da qual, os sacerdotes da nova religião, escolheram alguns episódios exemplares
(contos, apólogos, lendas ...) para difundiram na Índia e na China os preceitos budistas. Com o
passar dos séculos, e já despidos do seu conteúdo ou intencionalidade religosos, tais contos se
espalharam pelo mundo, em versões chinesas, persas, árabes, gregas, latinas, etc.
O mundo do Pantschatantra e do Hitopadexa é o do maravilhoso ilimitado que desfaz as
fronteiras entre real e imaginado, e onde homens e animais convivem em perfeita igualdade. Os
assuntos, que vão do quotidiano mais simples ao fantástico mais inverossímel, alimentaram a
imaginação da humanidade durante séculos. A estrutura formal dessas colectâneas é labiríntica:
os episódios penetram uns nos outros e se embaralham. Como se diz em Mar de Histórias: “Os
contos estão entrelaçados: a primeira história não acabou, e uma personagens começa a narrar
outra, na qual por sua vez, outras se acham encravadas. Acotovelam-se nesse estranho
labirinto, as figuras mais singulares: a mulher que deu à luz uma cobra; o passáro de duas
cabeças que perece por causa de uma briga entre elas, o chacal azul que renegou seus irmãos
de raça, as serpentes indiscretas que, numa desavença, imprudentemente revelam cada uma o
segredo da outra, em presença de uma mulher ...” (A. Buarque & P. Rónai). A esses episódios,
acrescentamos o célebre conto de critica aos sonhos altos demais: o “Bramane e a escudela de
farinha” que, em cada nação, ganhou uma nova versão: “O Monge e o jarro de manteiga “
(Calila e Dimna); “Perrette, a leiteira e o jarro de leite” (La Fontaine); “Mofina Mendes e o jarro
de azeite” (Gil Vicente), “Dona Truhana” (Conde Lucanor), “Elza, a sábia” (Irmãos Grimm) etc.
Conto exemplar que até hoje vem sendo reinventado sob as mais diferentes formas.
Dessas duas colecções famosas derivaram outras três: Calila e Dimna, Sendebar e
Barlaam y Josafat que engrossaram o caudal de narrativas que fizeram germinar o conto ou a
novelística européia. Acrescente-se, ainda, como colecção--fonte, As Mil e Uma Noites (espécie
de desaguadouro das narrativas orientais das mais diversas origens), cuja versão árabe do séc.
VIII (que serviu de texto para a tradução francesa de Gallan, no início do séc. XVIII foi uma das
maiores influências recebidas pela novelística ocidental europeia.
Claro está que entre essas colectâneas inaugurais, surgidas antes
de Cristo, e a produção ocidental europeia, tal como a conhecemos hoje,
houve, a partir da Idade Média, uma série de colecções que, em cada
nação, adaptando ou reinventando as primeiras, se tornaram, por sua
vez, as principais fontes de difusão dos contos nas nações modernas do
ocidente. Citando as mais importantes: O Conde Lucanor de Juan
Manuel (Espanha - séc. XIV), Contos de Canterbury de Geoffrey Chaucer
(Inglaterra - séc. XIV); Decameron de Boccaccio (Itália - séc. XIV) e
outros de repercussão mais restrita. Em todos eles, a exemplaridade
vai par e passo com a sabedoria prática, o anedótico, o picaresco, a
malícia apenas sugerida ou transformada em vulgaridade picante, por
vezes obscena. Em todos eles, destaca-se também o aperfeiçoamento
ou o burilamento da língua em que falavam ou escreviam, num
momento em que as novas línguas adquiriam sua feição definitiva.
Desses “marcos históricos”, brotaram dezenas de outras
colectâneas, em que se misturavam contos, apólogos, fábulas,
alegorias, lendas ... e que, por duas vias (a tradição oral, popular e a
tradição escrita, erudita) geraram o desmesurado acervo da novelística
medieval e renascentista europeia (séc. X-XV), hoje transformada, para
nós, em Tradição ou Folclore ... que o nosso século empenha-se em
redescobrir ou reinventar.
Desde as origens, o conto é definido, formalmente, pela brevidade
: uma narrativa curta e linear, envolvendo poucas personagens;
concentrada em uma única acção, de curta duração temporal e situada
num só espaço. Dessa necessidade de brevidade, deriva a grande arte
do conto que, mais que qualquer outro género em prosa, exige que o
escritor seja um verdadeiro alquimista na manipulação da palavra.
Por muitas que tenham sido as discordâncias entra escritores e teóricos acerca da forma
“conto” (Mário de Andrade chegou a dizer: “É conto tudo o que o escritor chamar de conto.”),
um dado persiste como indiscutível, ao analisarmos em conjunto aqueles consagrados pelos
tempos: a brevidade ou densidade dramática e sedução de linguagem. Enquanto o romance se
constrói com várias células dramáticas, pois procura expressar a vida humana em seu todo
complexo, através de um conflito individual, o conto expressa apenas uma “fatia”, um
“momento” dessa vida, um fragmento expressivo de todo. É dessa intencionalidade que surge a
técnica de construção de conto: concentração de elementos (e não, expansão, como acontece no
romance); uma só célula dramática, um único eixo temático, um único conflito. Os quatro
elementos básicos que entram em sua composição (personagens, factos, ambiente e tempo),
são iguais ao romance, as apresentam-se condensados, conduzidos sem desvios para o desfecho
final. O conto exige, acima de tudo, a arte da alusão, da sugestão ... daí o ter-se transformado
na forma predileta das narrativas fantásticas e de suspense.
Se partirmos das origens da literatura portuguesa, nos séculos medievais, veremos que os
registos históricos apontam a circulação de “contos” de tradição oral (reunidos por Teófilo Braga
em Livros Populares Portugueses, 1881), vindos da grande fonte oriental, já referida. Só no séc.
XVI, aparece o primeiro contista português, Gonçalo Fernandes Trancoso, autor da colectãnea
Contos e Histórias Proveito e Exemplo (1575), trinta e nove narrativas (com raízes no
Decameron de Boccaccio) que tiveram larga popularidade nos séculos XVII e XVIII. Inclusive,
essa colectânea foi uma das grandes fontes de histórias para crianças que, hoje, fazem parte do
acervo da Literatura Infantil Clássica em Portugal e no Brasil (note-se que no Nordeste
brasileiro, até hoje, quaiquer histórias populares são chamadas de “Histórias de Trancoso”):
A Era Clássica (séc. XVII e XVIII), época de fermentação de ideias e transformações
estruturais e não, de sínteses, não foi propícia ao cultivo do conto. As formas que então
circularam, como histórias curtas, foram os apólogos ou textos exemplares de Manuel Bernardes
(Nova Floresta, Mistérios da Virgem ...) e de Sóror Maria do Céu (Aves Ilustradas, 1734).
A Era Romântica (séc. XIX) foi marcada pelo género romance
(aquele que dava uma visão global da Sociedade que então se
consolidava. Em sua primeira fase (1ª- metade do séc. XIX), o
romantismo conheceu alguns romancistas que também escreveram
contos, no geral de natureza histórica ou eram embriões de romances,
isto é, não correspondiam à visão-de-mundo fragmentada e sintética
que seria própria do género. (Alexandre Herculano, Lendas e
Narrativas, 1851; Rebelo da Silva, Contos e Lendas, 1873 e Trindade
Coelho, Meus Amores, 1891).
Com a geração Realista (2ª. Metade do séc. XIX) o conto alcança
prestígio na prosa dramática de Fialho de Almeida (Contos, 1881 e A
Cidade do vício, 1882). Raul Brandão estreia como escritor naturalista,
com Impressões e Paisagens, 1890. No geral, o grande número de
contos realistas publicados não chegou a bom nível literário, pois como
parecia um “género fácil” atraiu um sem número de principiantes que
tenham ter acesso à carreira de escritores. Inclusive Eça de Queirós
publica contos que, ou são pequenos romances (Singularidades de Uma
Rapariga Loura, 1873) ou são embriões de romance (Civilização, 1874)
transformado depois no romance A Cidade e as Serras, publ. post.).
No início do século (anos 10/20) surgem simultaneamente
diferentes escritas de contos: a forma oscilante entre lirismo e realismo
(Carlos Malheiro Dias, A Vencida, 1907; António Patrício, Serão
Inquieto, 1910; Manuel Teixeira Mendes, Gente Simples, 1909); a forma
oscilante entre civilização e regionalismo (Aquilino Ribeiro, Jardim das
Tormentas, 1913; Adelaide Félix, Miragens Torvas, 1921 e Personae,
1926), a experimental cubista ou futurista (Almada Negreiros, Frisos,
1915, Saltimbancos, 1916 e K4 Quadrado Azul, 1917). Nesse período, a
narrativa romanesca, sob a influência do Simbolismo/Decadentismo,
começa a esgarçar-se, como trama, mas não chega à síntese exigida
pelo conto (Raul Brandão, Húmus, 1917 e Mário de Sá-Carneiro,
Princípio, 1912 e Céu em Fogo, 1915).
Em finais dos anos 20 (coincidindo com o surgimento da revista
Presença, 1927-1940) o género conto entra em ascensão. Contos
centrados na vida comum, quotidiana, “filtrada” por um eu-narrado
consciente do sem-sentido da existência ou tocado pela força indomável
na vida natural. Nessa linha, destacam-se: Irene Lisboa (Contarelos,
1926; Uma Mão cheia de nada e Outra de coisa nenhuma, 1955; Queres
ouvir? Eu Conto, 1958); Braquinho da Fonseca, (Zonas, 1931; Caminhos
Magnéticos, 1938; Rio Turvo, 1945 e Bandeira Preta, 1956); Miguel
Torga (Bichos, 1940; Contos da Montanha, 1941; O Senhor Ventura,
1943; Novos Contos da Montanha, 1944 e Vindima, 1945); José
Marmelo e Silva (O Sonho e a Aventura, 1943) e José Régio (Histórias
de Mulheres, 1946).
No período inicial do Neo-Realismo (anos 40/50 Humanismo Bramático apesar do
predomínio do romance, o conto destacou-se na obra de inúmeros romancistas, José Cardoso
Pires (Caminheiros e Outros Contos, 1949; Histórias de Amor?, 1952; Jogos de Azar, 1963, O
Burro em Pé, 1979 e A República dos Corvos, 1988) Manoel da Fonseca (A Aldeia Nova, 1942; O
Fogo e as Cinzas, 1951; Um Anjo no Trapézio, 1968 e Tempo de Solidão, 1973); Manuel Ferreira
(Grei, 1944; Morna, 1948; Morabeza, 1958 e Terra Trazida, 1972); Mário Braga (Nevoeiro,
1944; Histórias de Vila, 1958; Quatro Reis, 1957; Os Olhos e as Vozes; 1971; Serranos, 1948);
Domingos Monteiro (Contos do dia e da noite, 1952; Histórias Castelhanas, 1955; Histórias
deste Mundo e do Outro, 1961; O Dia Marcado, 1963 e Contos de Natal, 1964).
A partir dos anos 50/60 (período do realismo Contraditório, ou melhor, fusão da consciência
participante com o subjectivismo existencial), o conto, embora ainda cultivado por alguns
romancistas e novelistas, vai aos poucos perdendo seu contorno de “intriga” ou de uma “situação”
a ser narrada, para se perder na interioridade de um eu-narrador em conflito com o meio ou
perdido em seu próprio labirinto. Destacam-se nesse período: Urbano Tavares Rodrigues, (A Porta
dos Limites, 1952; Aves da Madrugada, 1959; Nus e Suplicantes, 1960, Dias Lamacentos, 1965,
Contos da Solidão, 1970 e Filipa nesse dia, 1989); José Rodrigues Miguéis (Léah e outras Histórias,
1958; Onde a Noite se acaba, 1946; Pass(ç)os confusos; 1982; Além do Quadro, 1983 e Sete
Perdida, 1995); Maria Judite Carvalho (Tanta Gente, Mariana, 1959; As Palavras Poupadas, 1961;
Paisagem sem barcos, 1963; Flores ao Telefone, 1968; Os Idólatras, 1969; Tempo de Mercês,
1973; Além do quadro, 1983 e Seta perdida, 1995); Sophia de Mello Breyner Andresen (Contos
infantis: A Menina do mar, 1958; O Rapaz de bronze, 1956; Contos Exemplares, 1962 e Histórias
da Terra e do Mar, 1984); Maria da Graça Freira (As Estrelas moram longe, 1948; Os Deuses não
respondam, 1959; As Noites de Salomão Fortunato, 1964 e O Inferno está mais perto, 1971);
Natália Nunes (A Mosca Verde e outros cotos, 1957).
A partir do Experimentalismo dos anos 60/70, a fragmentação narrativa invadiu as
formas tradicioanis do romance e novela e passou a competir com a forma sintética do conto,
para registar apenas “fatias” de vida, momentos de vivências fragmentadas. Desaparece o
sentido do “todo” ou da unidade do viver. Talvez isso explique a escassez de contistas entre os
escritores considerados de vanguarda ou pós-modernos (anos 60/90). A forma conto,
actualmente, predomina nas áreas do non-sense, do fantástico, do mágico ou do absurdo (linha
de Kafka, Borges, Cortázar ..), ou ainda, do erotismo, - áreas que têm limitada expressão na
actual literatura portuguesa, com destaque para Herberto Helder (Os Passos em Volta, 1963).
O conto surge no Brasil, nos primeiros séculos de colonização,
difundido pelos portugueses, como narrativa oral. Assim o acervo dessa
primitiva narrativa tem a mesma origem que a portuguesa; e ainda hoje
circula entre o povo, principalmente nas regiões norte-nordeste, embora
com variantes em que se cruzam influências africanas e indígenas. Via
de regra, tais “contos” são chamados de estórias de Trancoso.
Como narrativa escrita, o conto aparece na literatura brasileira, na
primeira metade do século XIX, no início do Romantismo. Escritos,
segundo o modelo europeu, por intelectuais jornalistas e publicados em
jornais e revistas (Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Salvador ...), esses
primeiros textos conquistaram de imediato o público ledor e criaram a
“febre do conto”. Joaquim Norberto, Álvares de Azevedo, Bernardo
Guimarães, Casimiro de Abreu ... foram alguns dos romancistas e
poetas românticos que se exercitaram no conto, mas sem ultrapassarem
a mediania da escrita.
O primeiro grande contista brasileiro surge no final so século XIX,
Já no período realista: Joaquim Maria Machado de Assis, também grande
romancista, cuja obra não foi ultrpassada pelo tempo, mostrando-se
hoje essencialmente contemporânea. Entre seus contos, destacam-se: O
Alienista; Teoria do Medalhão; Missa do Galo; A Chinela Turca; A
Cartomante; Uns Braços ...
Entre os contemporâneos de Machado de Assis, estão os
contistas: Aluísio de Azevedo (Demónios, 1893), Artur de Azevedo
(Contos Possíveis, 1889; Contos fora de moda, 1984; Contos Efêmeros,
1987; Contos Cariocas, 1928); Adelino Magalhães (Casos e Impressões,
1916; Visões, Cenas e Perfis, 1918; Tumulto da Vida,1920); Coelho
Neto (Sertão, 1896; Apólogos, 1904; Água de Juventa, 1905; Treva,
1906; Banzo, 1993); Júlia Lopes de Almeida (Traços e Iluminuras, 1886
e Histórias da nossa Terra, 1907); Lima Barreto (Histórias e Sonhos,
1920) e Virgílio Várzea (Mares e Campos, 1894).
No entre-séculos, com o crescente sentimento nacionalista (que
reagia contra a hegemonia da cultura eurpeia, sobre o pensamento
brasileiro) surge a corrente nativista ou sertanista que encontra no
conto sua melhor expressão para retratar a realidade brasileira nativa.
Destacam-se nessa corrente: Afonso Arinos (Pelo Sertão, 1898); Alberto
Rangel (Inferno Verde, 1908); Alcides Maya (Tapera, 1911;Alma
Bárbara, 1922); Hugo de Carvalho Ramos (Tropas e Boiadas, 1917);
Monteiro Lobato (Urupês, 1918; Cidades Mortas, 1919; Negrinha,
1920); Simões Lopes Neto (Lendas do Sul, 1913; Contos Gauchescos,
1912) e Valdomiro da Silveira (Caboclos, 1920; Nas Serras e nas
Furnas, 1931; Mixuangos, 1937 e Leréias, 1945).
A partir do Modernismo (iniciado historicamente com a Semana de
Arte Moderna em S. Paulo, 1922), o conto vai crescendo em prestígio e
já conquistando um “estilo brasileiro” (narrativa de tonus oral,
despretencioso, com o registo de linguajar quotidiano e dando acolhida
também ao linguajar deturpado dos imigrantes que alteram não só o
vocabulário, mas também a estrutura da língua portuguesa). Destacam-
se como contistas modernistas: António Alcantara Machado (Brás,
Bexiga e Barra Funda, 1927 e Laranja da China, 1928); João Alphonsus
Guimaraens (Galinha Cega, 1931 e Pesca da Baleia, 1941) e Mário de
Andrade (Os contos de Belazarte, 1934 e Contos Novos, 1947, post.).
No decorrer dos anos 20/40, à medida em que o conto cresce em
prestígio, vai ao mesmo e tempo perdendo suas característica formais
de origem: narrativa curta que regista uma situação, uma “fatia” de
vida, suficientemente expressiva para sugerir o drama humano em seu
todo. O conto-século XX vai-se tornando mero registo circunstancial de
factos do dia-a-dia e, divulgado principalmente através de revistas e
jornais, passa a ser confundido com a crónica, sendo, inclusive, tratado
como género “leve”, de entretenimento.
Nos anos 40/50, o conto volta a ser a grande expressão capaz de
sintetizar a complexidade da vida e, agora, já em linguagem e espírito
tipicamente “brasileiros”. Nesse período surgem quatro nomes que
levam o conto (e o romance) brasileiro ao mais alto nível de eleboração
literária e temática: João Guimarães Rosa, na linha regionalista-
metafísica (Sagarana, 1946; Primeiras Estórias, 1962 ...); Clarice
Lispector, na linha existencialista (O Lustre, 1946; A Cidade Sitiada,
1949; Alguns Contos, 1952; Laços de Família, 1960; A Legião
Estrangeira, 1964; Felicidade Clandestina, 1971; A Imitação da Rosa,
1973; A Via Crucis do Copor, 1974; Onde Estiveste de Noite, 1974; A
Bela e a Fera, 1979, post.); Murilo Rubião, na linha do Realismo Mágico
ou Absurdo (O Ex. Mágico, 1947; A Estrela Vermelha, 1953; Os Dragões
e os outros Contos, 1965; O Convidado, 1974; A Casa do Girassol
Vermelho, 1978) e Lygia Fagundes Telles, na linha do humanismo
dramático (Praia Viva, 1944; O Cacto Vermelho, 1949; Histórias do
Desenconto, 1958; O Jardim Selvagem, 1965; Antes do Baile Verde,
1970; Seminário dos Ratos, 1977; Os Filhos Pródigos e Mistérios, 1981).
A produção de contos no Brasil, nestes anos 60/90 (apesar da
grande voga do romance) tem sido expressiva, seja em qualidade, seja
na diversificação de temas, estilos e problemáticas, seja como fusão das
várias propostas modernas ou pós-
-modernas com o modo-de-ser brasileiro. Destacam-se, nessa
produção: Adélia Prado, Ana Maria Martins, Bernardo Élis, Dalton
Trevisan, Edilberto Coutinho, Hermilo Borba Filho, Hilda Hilst, João
António, Julieta Godoy Ladeira, Luiz Vilela, Márcia Denser, Marcos Rey,
Marina Colasanti, Miguel Jorge, Moacyr Scliar, Nélida Piñon, Ricardo
Ramos, Victor Giudice ...
Embora com estilos e problemáticas diversas , todos eles
expessam as linhas de força que dinamizam o conto contemporâneo: a
visão fragmentada própria do nosso século, - a visão de um mundo
descentrado, onde o indivíduo perdeu o sentido último da vida e,
reduzido a si mesmo ou à força/fraqueza de sua própria palavra, busque
uma nova saida. Ou, sem saídas, só lhe restam as forças desmesuradas
do erotismo, ou então testemunhar a violência gratuita que se alastrou
pelo nosso universo em caos. Ou ainda, resgatar o Mito (que vem sendo
um dos grandes trunfos, principalmente do romance contemporâneo)...
APÓLOGO; EXEMPLO; FÁBULA; KURZGESCHICHTE; LENDA; LITERATURA ORAL; LITERATURA
POPULAR; PARÁBOLA

BIB.: A. Buarque de Holanda e Paulo Rónai, Mar de Histórias, 2 vols.


(3ª. ed., 1980); Alfredo Bosi, O Conto Brasileiro Contemporâneo , 1975;
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Moreno, Biologia do Conto , 1987; Clare Hanson, Re-Reading the Short
Story, 1989; O Conto Brasileiro e sua Crítica, 2 vols., org. por Celuta
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1987; G. Jean, Le Pouvoir des contes, 1981; H. E. Bates, The Modern
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1993; Helmut Bonheim, Narrative Modes: Techniques of the Short
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in Essentials of the Theory of Fiction, ed. por Michael J. Hoffman e
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in Essentials of the Theory of Fiction, ed. por Michael J. Hoffman e
Patrick D. Murphy (2ºed., 1996); Temístocles Linhares, 22 Diálogos
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Story: A Critical Introduction, 1983; V. Propp, Morfologia do Conto
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Nelly Novaes Coelho