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Memórias de infância em Maringá: transformações urbanas e permanências - Ailton Jose Morelli

Memórias de infância em Maringá: transformações urbanas e permanências - Ailton Jose Morelli

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Publicado porAilton Morelli
O objetivo desta pesquisa é a análise das memórias de infância durante a
urbanização da cidade de Maringá, entre 1970 e 1990. A cidade de Maringá foi
fundada no final da década de 1940, integrando a colonização do Norte do
Paraná. Nas duas décadas seguintes, as características da cidade ficaram
mais definidas. Maringá tornou-se centro de distribuição de bens e de
prestação de serviços para a região, contando com investimentos empresariais
e escritórios regionais de vários órgãos do governo estadual. Além disso, com
o avanço do plantio de soja e outros produtos agrícolas, a produção de café
deixou de ser a principal fonte econômica da cidade. Até o início da década de
1970, houve um crescimento demográfico expressivo, registrando-se cerca de
130 mil habitantes. Em 1967, foi elaborado, sob orientação do governo
estadual, o Plano Diretor de Desenvolvimento que constatou a adiantada
urbanização da região central de Maringá e a necessidade de ações públicas
urgentes nas áreas periféricas. Para analisar como esse processo,
desenvolvido entre 1970 e 1990, foi vivido pelas crianças da época, o uso de
fontes orais demonstrou ser o mais indicado. As entrevistas foram realizadas
com pessoas que moraram em Maringá no período analisado, nascidas entre
1960 e 1980. Seguiu-se uma distribuição geográfica de suas moradias,
estratégia que permitiu uma visão mais ampla da cidade, inclusive da periferia.
A abrangência das perguntas possibilitou uma análise da relação dos
entrevistados com o seu cotidiano: moradia, alimentação, brincadeiras,
trabalho, relações de vizinhança e dos adultos com as crianças; e com a cidade
e os serviços oferecidos: saúde, educação, lazer, transporte, entre outros. O
trabalho com as fontes orais, além de analisar como o processo complexo de
urbanização da cidade ficou registrado na memória dos depoentes, ainda
permitiu o aprofundamento na questão da formação da memória da infância
nos adultos.
O objetivo desta pesquisa é a análise das memórias de infância durante a
urbanização da cidade de Maringá, entre 1970 e 1990. A cidade de Maringá foi
fundada no final da década de 1940, integrando a colonização do Norte do
Paraná. Nas duas décadas seguintes, as características da cidade ficaram
mais definidas. Maringá tornou-se centro de distribuição de bens e de
prestação de serviços para a região, contando com investimentos empresariais
e escritórios regionais de vários órgãos do governo estadual. Além disso, com
o avanço do plantio de soja e outros produtos agrícolas, a produção de café
deixou de ser a principal fonte econômica da cidade. Até o início da década de
1970, houve um crescimento demográfico expressivo, registrando-se cerca de
130 mil habitantes. Em 1967, foi elaborado, sob orientação do governo
estadual, o Plano Diretor de Desenvolvimento que constatou a adiantada
urbanização da região central de Maringá e a necessidade de ações públicas
urgentes nas áreas periféricas. Para analisar como esse processo,
desenvolvido entre 1970 e 1990, foi vivido pelas crianças da época, o uso de
fontes orais demonstrou ser o mais indicado. As entrevistas foram realizadas
com pessoas que moraram em Maringá no período analisado, nascidas entre
1960 e 1980. Seguiu-se uma distribuição geográfica de suas moradias,
estratégia que permitiu uma visão mais ampla da cidade, inclusive da periferia.
A abrangência das perguntas possibilitou uma análise da relação dos
entrevistados com o seu cotidiano: moradia, alimentação, brincadeiras,
trabalho, relações de vizinhança e dos adultos com as crianças; e com a cidade
e os serviços oferecidos: saúde, educação, lazer, transporte, entre outros. O
trabalho com as fontes orais, além de analisar como o processo complexo de
urbanização da cidade ficou registrado na memória dos depoentes, ainda
permitiu o aprofundamento na questão da formação da memória da infância
nos adultos.

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A relação dos brinquedos industrializados com os brinquedos

produzidos pelos próprios depoentes é conflituosa nos depoimentos. Diante da

questão sobre brinquedos, respondiam que não os possuíam, ou que tinham

poucos, ou que naquele tempo apenas quem tinha condições comprava

brinquedo. Os brinquedos industrializados inicialmente não pareciam gerar

grandes expectativas e, sim, eram tidos como praticamente inacessíveis, algo

estranho ao seu cotidiano, apesar de também suscitarem desejos. É um

período de mudança nas relações do comércio voltado para o público infantil, e

se os depoimentos demonstram que existia o contato com os brinquedos

comprados, mostram, também, que os mesmos eram de difícil acesso.

A relação com os brinquedos é uma situação à parte. Em geral,

representa momentos: um ou outro brinquedo que marcou a vida do depoente,

poucos em geral. Para alguns, a lembrança sequer existe:

Mara: Brinquedos nós não tinha, brinquedo que fosse assim,

brinquedo que a gente pedia pro pai, pedisse pro pai, falava pai

eu queria comprar um brinquedo que ele fosse compra não!

158

No caso a seguir a relação com esses brinquedos é confusa. As

afirmações de Nádia são inicialmente contundentes quanto ao fato de não

possuir brinquedos industrializados na infância. Porém, aos poucos, os

brinquedos foram sendo lembrados. É difícil avaliar o grau de relação com os

brinquedos industrializados. Existiram, Nádia e os irmãos os ganharam tanto de

parentes como do patrão de seu pai, mas a forma como são descritos e

avaliados no depoimento demonstra total estranheza, ou seja, era como se não

fizessem parte de seu mundo:

Nádia: não se tinha muito brinquedo eu não tinha, não tive

quase brinquedo eu me lembro que quando a gente morava no

sítio quando era do doutor Aristides, levava brinquedo pra

gente uma vez por ano, então eu lembro de uma buneca azul

que tinha uma, uma mamadeirinha grudada na mão. É eu

lembro que eu ganhei isso, mas ganhei outras coisas, eu acho

que não me lembro, os meus irmãos ganhavam carrinhos... é o

meu pai não comprava brinquedo. Aí depois quando eu fui

mora com a minha vó em 78, 77, 78 né, é não foi em 78 isso, é

a minha vó sempre teve uma buneca bem grande assim que

ela colocava na parede, não sei se mania de italiano, mas tinha

uma buneca. Então quando, uma vez eu ganhei uma buneca

que ela trocou, aquela buneca tava muito velha, ela comprou

uma nova, e me deu a buneca com umas roupinhas que elas

mesmos, que ela e minhas tias faziam, mas isso a minha vó,

mãe da minha mãe, não aqueles que moraram ali du ladu do

sítio do meu pai, e isso foi lá em Borrazopolis, ééééhem, que

mais de brinquedo é escola, não me lembro de brinquedo...

Ééé num num lembro, brincava muito de elástico, que a gente

tinha era o elástico todo remendado que a mãe dava a gente

arremendava, pra faze o elástico do tamanho, pra leva pra

brinca na escola, ah era isso que a gente levava pra escola o

159

elástico ii ah acho que é isso, não lembro de mais nada, se eu

lembra eu vou falando. Mas assim brinquedo comprado não,

não tinha [...] quando eu morei em Borrazópolis eu tinha um

pouco mais de brinquedo, porque tinha dois tios aí irmãos da

minha mãe, uma tia e um tio, que eram solteiros então me

davam alguma coisa e minhas tias que ainda não tinham tido

filhos, casadas, mas não tinham filhos ainda me davam algum

brinquedo, então eu brincava, eu tinha, eu ganhei um jogo de

panelinhas com os fogãozinhos, aquilo pra mim era os dois

brinquedos que eu me lembro, da buneca azul que eu ganhei

do Doutor Aristides quando eu era ainda bem pequenininha e

em 78 quando eu ganhei aquele joguinho dii cuzinha, que era

dii plástico assim, mas devia ser assim uma coisa caríssima,

caríssima, porque eu só ganhei, porque alguém pidiu pra eu

faze alguma coisa assim sabe ee por algum motivo minha tia

me prometeu aquilo, eu devo ter pedido eu não sei. Mas eu só

sei que era uma coisa muito cara, difícil assim, eu tinha, mas

era diferente sabe. hummm humm, era isso não se brincava

muito não tinha buneca, não tinha ursinho de pelúcia, aliás

ursinho de pelúcia eu acho que eu nunca tive.

Após a longa descrição, destacam-se, no depoimento, o

sentimento de nunca ter ganho um ursinho de pelúcia e a declaração de que

não tinha boneca. Em outro depoimento, a relação com os brinquedos foi

crescendo, começando por sua ausência até a situação de começar a ganhá-

los, fato que Joana considera um privilégio, por ser a mais nova da família e

contar com os presentes das irmãs:

Joana: é quando eu brincava de boneca aí não tinha boneca, aí

tinha que faze boneca mesmo, faze com espiga de milho, de

milho novo, e aí pegava a bonequinha fazia como cabelinho,

bem amarelinho bem bonitinho, fazia, minha irmã fazia pra mim

pra pode brinca, de boneca era só, não tinha mesmo boneca

160

comprada ... então assim, aqui eu não me lembro, mas aqui eu

ganhei uma boneca horrorosa de plástico, mas era tão linda,

então eu tinha aquela boneca... a primeira boneca foi horrorosa

mais eu amava, que eu só tinha aquela, buneca de feira

mesmo, inteira de plástico, inteira dura, não mexia os braços

nem as pernas... [rosa] claro, isso é muito importante (muitos

risos), o cabelo também era de plástico todo duro assim, mas

era modelo de um coquinho aqui em cima, mas era linda era a

primeira buneca, então pra ela que eu fiz a primeira ropinha,

porque também ela vinha pelada né, fazia ropinha, fazia

vestidinho, só não conseguia faze calçado, porque do resto

fazia de tudo pra ela, quando as minhas irmãs começaram a

trabalhar ai compraram algumas coisas, eu ganhei um ursinho

de pelúcia vermelho, eu ganhei uma buneca lindíssima aquela

era linda, que o nomezinho da caxa era mimosa e ela era um

mimo mesmo, essa era belíssima, essa eu tive por muitos anos

mesmo, que eu fui muito cuidadosa com ela, que ela era muito

linda, ela tinha um vestidinho de renda todo azul, uma graça, aí

eu tive mais coisas com minhas irmãs, aí uma delas o primeiro

trabalho que ela teve foi numa livraria, então ela me comprava

livros, livrinhos de historinhas comuns, dos mais baratos, que

eu também tive por muitos anos, eu lia e relia, e lia de novo é

foi foi muito perspicaz compra aqueles livrinhos pra mim.

O acesso aos brinquedos industrializados e outros produtos

voltados para a infância, quando relatado, aparece de formas distintas e por

vezes contraditórias. Tendo em mente as dificuldades de comprar bens

considerados básicos, conforme visto na discussão referente a roupas,

alimentos e móveis, a compra de brinquedos era difícil. Há referências a

brinquedos usados, como no exemplo a seguir:

Rita: é tinha os brinquedo antigamente tinha sim quando tinha

um brinquedo não era assim esses brinquedo muito caro de

161

hoje em dia, brinquedinho de plástico, tinha brinquedo assim,

uma boneca mais ou menos. Mais isso era pra quelas que

tinha mais dinhero né que tinha mais dinhero tinha boneca,

quando ela cansava daquela boneca, quele que não tinha

falava então dá a sua boneca pra mim, então era assim

repartido,

A oferta de produtos amplia-se na década de 1980. Um caso

chamou a atenção por juntar diversas características: a propaganda

direcionada ao público infantil, a possibilidade de compra por correio e a

iniciativa de adquirir seu próprio brinquedo:

Fábio: brinquedos eu fazia... teve uma vez que vi numa revista

um papagaio diferente era quadrado... eu já era grande... como

fazia espingardinha e revólver de madeira... eu fui juntando

dinheiro e pedi pelo correio... com tubos, acho a que era

plástico bem diferente quadrado... foi um sucesso...

As bicicletas constituíam o meio de transporte dos pais ou irmãos

mais velhos. Apenas um depoente, ao falar das brincadeiras entre crianças

vizinhas, moradoras da área central, fez referência ao uso de bicicletas em

corridas pela cidade. Os depoimentos referentes aos brinquedos

industrializados possuem ritmo e envolvimento diferenciados. São como casos

especiais, relatados de modo diferente de quando os depoentes explicam como

brincavam e produziam seus brinquedos. Assim, a ausência de brinquedos não

representa um limite para as brincadeiras. Quando falam do assunto, o tom é

semelhante ao tom com que se referem às brincadeiras:

Rita: fazia bonequinha de pau, bonequinha assim de cabeça de

milho, e nóis fazia bonequinha... aí eu já construía, pedia para

minha mãe ajuda a faze o vestidinho. Minha mãe fazia ela

bordava fazia um bordado que hoje aqui não tem sabe, no

162

Paraguai tem, chama gandoti, a, ela ensinava eu faze

bordadinho assim as ropinha de boneca e as vizinhas via que

eu sabia faze os vestidinhos e ela me pedia para mim faze os

vestidinho aí, eu inventava moda , fazia colarzinho, brinquinho,

eu mesmo fazia de pauzinho de qualquer coisa.

Ana: E brincava muito de casinha. É na época se rachava

lenha, que não se tinha gás. Era tudo feita haaamm... cozido

tudo com madeira né. Ficava aquelas lasquinha. Então a gente

brincava de casinha, fazia tudo em volta, fazia o quarto, a sala,

tudo marcadinho. Depois a gente pegava aquelas louça que

quebrava né. Era os pratinho, os pratinhos, e a gente brincava

com aquilo ali. Não tinha brinquedos inteiros assim a gente não

tinha (risos) então a gente brincava o dia todo, ou subia em pé

de goiaba todo quintal tinha um pé de goiaba, um pé de

manga, di di abacate, tinha bananeira, então a gente...

Joana: e eu fazia roupinha, minha mãe me dava retalhinho de

tecido que sobrava de roupa né... e eu costurava que a minha

mãe ensino a costura, então eu costurava roupinha pra

boneca, da casa da boneca, da casinha era ótimo, montava a

casinha o fogãozinho, uma lata de óleo velha era o fogão ou

uma caixinha de sapato, uma caixinha de qualquer outra coisa

era o guarda roupa.

Nesses momentos de produção dos brinquedos é que se percebe

alguma relação dos pais com o brincar dos filhos. No geral, os relatos mostram

que eles não tinham tempo de brincar. A relação dos pais com os filhos nas

brincadeiras parece um pouco distante, pois depende das condições de vida ou

os mesmos aparecem apenas como companhia, quando é necessário levar as

crianças a uma festa ou passeio:

Ana: Que os pais trabalhavam muito, então não me lembro da

minha mãe me ensinando alguma coisa ou meu pai ensinando.

163

Nádia: não, minha mãe não. Aliás minha mãe não tinha tempo

pra essas coisas assim, não ensinava nada, o que ela fazia era

levantava, dava o café da manhã, fazia o almoço, fazia a gente

come e tal, mas assim ela num acompanhava nada disso, a

gente era bem solto, bem livre, fazia o que quisesse, assim é

claro tinha tarefas né, como eu disse pra você, tinha que cuida

do meu irmão, tinha que lava a louça, varre a casa...

Mara: Brinquedo que a minha mãe fazia boneca de mii...

espiga de milho de sabugo e os meninos sempre minha mãe

costurava então até pros meninos da vizinha, ela falava: dona

Maria guarda o carretel pra faze carrim pros menino aí pegava

um pedaço de tabuinha, fazia um pique aqui, um pique aqui,

colocava em cima do carretel e era o carrim pros meninos mas

a gente não tinha brinquedo pra nós, eu nunca me lembro de te

um brinquedo, nem doado, nem comprado, não tinha.

É interessante perceber que os brinquedos industrializados e os

produzidos artesanalmente não têm o mesmo valor. O bilboquê que pertenceu

ao avô, no trecho abaixo, aparece como exemplo de brinquedo, mas não

propriamente na mesma categoria de brinquedo comprado. A falta desses,

entretanto, se não representa uma restrição às brincadeiras, indica que o

desejo de possuí-los já existia nesse período:

Nádia: não, tanto que não tinha essas coisas de leva o

brinquedo pra escola, mostra. A única coisa que eu lembro que

as pessoas levavam par escola e que não tem nada a vê com

brinquedo é um pedacinho do Ovo de páscoa, depois da

pasc... nu dia seguinte da páscoa. Mas tirando isso num... mas

nada assim di brinquedo, num lembro de nada mesmo. Nem

estilingue, porque o que era brinquedo pro meus irmãos por

exemplo: estilingue, umas coisas que eu falei outro di para

você que é estrelas, uma coisa muito perigosa, papagaio éeéé

164

apareceu, mas era um só pra família toda, a minha família,

meus familiares todos, primos tal, um biobuque, biblioque que

fala? que era do meu avó, sei lá sabe. Aí os brinquedos era

aqueles elásticos que a gente fazia na mão, os saquinhos que

a gente brincava, só que a gente brincava, ora com saquinho

quando a minha mãe tinha saco de faze, mas geralmente a

gente brincava com pedrinhas né de passa.

Os brinquedos, como a boneca da avó, muitas vezes

configuravam uma tradição, uma espécie de relíquia que se guardava. A

boneca, na visão da depoente, era para criança, e ela não entende o motivo de

uma boneca ser guardada como enfeite.32

No caso dos meninos, conseguir

uma bola era o mais esperado. A bola de couro era produto para adultos, que a

usavam para jogar futebol, e os meninos raramente conseguiam brincar com

ela. No geral, tinham de se contentar com a bola de meia, ou outros produtos

que pudessem encher e que se mantivessem de forma arredondada, para

assim conseguirem jogar.

A característica de troca revela um nível de sociabilidade,

presente em várias falas. A mãe costura para as crianças vizinhas, ou a própria

menina faz a boneca, de pano ou de milho, e o vestido para a boneca da

colega. Os meninos trocam bolinhas de gude, conforme o depoimento a seguir:

Fábio: tinha aquelas bolinhas de gude de leite... aquelas

branquinhas e tinhas os boticões... essas valiam mais.. assim

ia trocando né... ganhando trocando... a moeda que ganhava

para doce ou no aniversário conseguia comprar um pião mais

bolinhas...

32

- Provavelmente uma herança da prática européia discutida por Benjamin (2002) do
interesse dos adultos por miniaturas ou outros brinquedos que as crianças apenas podiam
apreciar. As bonecas de louça, animais de cristal, ou mesmo miniaturas de trens, carros e
outros que os adultos “zelavam”.

165

Pouco relatado, mas percebido em algumas falas, o saber fazer

significa muito nessa fase. A roupinha diferente, a boneca, a espingarda de

madeira com caninho, a pipa que subia sem balançar, conhecimentos,

experiências, tudo isto representa qualidades que resultavam em adquirir

outros objetos e ganhar notoriedade entre os amigos. Sem nenhuma dúvida

trata-se de valores que estavam em conflito direto com o objeto comprado, um

tipo de consumo raro na época, mas presente na memória dos depoentes.

3.4 – O acesso aos serviços de saúde em Maringá e as soluções caseiras

A relação com os serviços de saúde era considerada distante, não

totalmente por sua inexistência, mas por não serem acessíveis à maioria da

população. Os custos representavam um dos principais empecilhos, envolviam

tanto o tratamento quanto a locomoção para o local de atendimento, pois a

rede médico-hospitalar foi instalada na área central. Além da tradição de tratar

os doentes de maneira “rápida” e mais caseira:

Clara: mas se era uma gripe forte, uma dor de ouvido, uma

coisa mais específica assim, ela sempre cuidava, nunca, num

tem essa referência médica assim, só quando era uma

situação que precisasse, e ela ligava pra pedi uma orientação

assim, mas de ta levando mais só, eu que eu me lembre na

minha vida assim, as doenças infantis assim, que passava,

166

caxumba né, a gente nunca teve nada grave, não me lembro

dessa referência ...

Joana: aqui sim, aqui eu já era maior, a lembrança que eu

tenho que eu já era maior, di i pra médico, di precisa de

remédio de farmácia mesmo, é mais graças a Deus a gente

tinha muita saúde, não me lembro de ninguém que tivesse

adoecido que precisasse de cuida, nummm não me recordo de

nenhum dos irmãos, mas foram alguns anos depois da nossa

chegada aqui.

Rita: aquele tempo quase as pessoas não ficavam doente, eu

não sei o que tinha né que é diferente de hoje né aquele tempo

as pessoas,

A relação com a questão da saúde fica na dependência da sorte,

“aquele tempo quase as pessoas não ficavam doente”; quando ficavam, as

lembranças indicam outras medidas, e ir ao médico, ao hospital, ao ambulatório

municipal não foram respostas diretas. As lembranças do uso desses serviços

apareceram, por exemplo, quando eram relatados acontecimentos que

culminaram em ferimentos mais graves. Essas dificuldades referendam os

estudos sobre saúde em Maringá, em conformidade com a crítica situação

nacional até meados da década de 1980.

O estudo de Marques (1994), analisando a questão da

mortalidade infantil em Maringá, constata que as políticas de saúde não

estavam adequadas à crescente demanda da população na cidade, tendência

que foi confirmada mais tarde por Scochi (1996). O índice de mortalidade

infantil tem sido considerado um dos principais na avaliação das condições

socioeconômicas mínimas da população, como afirma a autora:

167

A mortalidade infantil apresenta-se como um dos

mais sensíveis indicadores quanto aos aspectos culturais,

sociais e econômicos, isto é, a realidade mais cruel da

desigualdade entre as diversas classes sociais. (MARQUES,

1994, p. 4)

A situação de pobreza de uma considerável parcela da

população, fixa ou em trânsito – inclusive a população flutuante das cidades

vizinhas - somada à dificuldade de acesso aos bens de consumo e serviços

são fatores que levaram à situação apontada no gráfico33

a seguir:

Gráfico 1 - Coeficiente de mortalidade infantil, total, precoce e tardia – por
1.000 N.V. 1950-1975, Maringá, PR.

0

20

40

60

80

100

120

140

1

9

5

0

1

9

5

5

1

9

5

9

1

9

6

3

1

9

6

6

1

9

7

0

1

9

7

3

1

9

7

5

< 28 dias

28dias<1ano

1 ano

Fonte: MARQUES, 1994, p. 86.

33

- Como Marques argumenta, é necessário tomar cuidado com os dados estatísticos nesse
período, afinal o aumento do índice pode estar ligado à melhoria do seu registro. Porém,
os dados continuam elevados para o período. Em estudo do sistema de informação sobre
mortalidade, MATHIAS e JORGE (2002) analisaram o preenchimento das informações e
verificaram uma significativa melhora na confiabilidade dos dados entre 1979 e 1995. Com
dados mais confiáveis, a tendência indicada por Marques confirmou-se e somente no final
da década de 1980 os índices passaram indicar uma tendência de queda e permaneceu
até o momento. Trata-se, aliás, de uma tendência que passou a acompanhar os índices
paranaenses: “Em 1979 o índice foi de 56,35 para 1.000 nascidos vivos, em 1989 passou
para 33,82, em 1999 19,53, chegando a 16,46 em 2003 e 15,41 em 2004 até o atual
13,71” (Paraná Online 25/04/2008).

168

Verificamos que, nas décadas de 1960 e 1970, a mortalidade do

recém-nascido não sofreu diminuição e o índice quanto à criança na faixa

etária de 1 ou mais anos continuou aumentando.

Analisando a organização do serviço de saúde de Maringá,

verificam-se as dificuldades da população em conseguir atendimentos e,

principalmente, a falta de uma rede que permitisse ações mais profundas e

eficazes. Como verificado anteriormente, a dificuldade de acesso ao centro é

fator que contribuiu muito para o distanciamento dos serviços existentes.

A descrição da situação médico-hospitalar no PDD (1967) indica a

oferta de serviços de saúde, o que não é desprezível para uma cidade com

duas décadas de existência. Mas, aponta, também, que a rede existente era

insuficiente e mal estruturada para atender toda a demanda municipal e

regional.

Maringá era sede regional dos seguintes serviços estaduais e

federais:

Centro de Saúde Pública para o atendimento da

área urbana, a cidade é sede do 12º Distrito Sanitário da

Secretaria de Saúde Pública, cuja jurisdição atinge vinte e um

municípios... uma unidade de trabalho da Fundação de

Assistência ao Trabalhador Rural – FATR para toda a região; e

prestando atendimento à zona noroeste do Estado, está

localizada em Maringá uma sede administrativa do

Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu)

(MARINGÁ, 1967, p. 97).

Porém, a análise realizada sobre os serviços prestados indica

uma característica que se manteve até meados da década de 1980: os órgãos

169

estavam dotados de pessoal e material em quantidades que não permitiam

atingir a demanda da região, atendendo apenas uma pequena parcela dos

necessitados, principalmente quando procurados. Os objetivos desses órgãos

de desencadear um processo investigativo para avaliar a situação em toda a

região, assim como a aplicação das medidas previstas, como

encaminhamentos e distribuição de medicamentos, foram considerados

precários. A descrição da equipe do FATR é um exemplo:

Um médico, um dentista, uma educadora sanitária

e um guarda sanitário compõem a equipe da unidade de

Maringá... que presta atendimento médico, odontológico e

educação sanitária aos municípios de Floresta, Paissandu,

Sarandi e Castelo Branco, além dos distritos de Floriano e

Iguatemi (MARINGÁ, 1967, p. 111).

No combate a verminoses, consideradas uma das principais

causas de doenças na região, a avaliação não demonstra melhora: “o trabalho

é limitado exclusivamente à zona urbana, e a zona rural só é assistida à

medida que o atendimento é procurado” (MARINGÁ, 1967, p. 110). O

atendimento é considerado limitado, ainda mais devido a sua extensão para

todos os outros municípios que não possuíam serviços mínimos. Na avaliação

dos outros vinte municípios “apenas 6 contam com os serviços de unidades

sanitárias... Além de restrito, o atendimento é prestado em instalações

precárias, mal adaptadas e com deficiências de equipamento e pessoal (Idem,

1967, p 111)”.

Em suma, a situação regional e local permite perceber que a

cidade de Maringá, antes de completar duas décadas de emancipação, mesmo

170

sendo considerada detentora de um sistema médico hospitalar, apresentava

condições limitadas para atender toda a demanda existente.

É importante registrar que a cidade seguiu um processo

semelhante a grande parte dos centros brasileiros como mostra o Gráfico 2.

Maringá era detentora de uma rede particular que desde a década de 1950

ampliou-se rapidamente e no final da década de 1960 tornara-se centro de

referência para uma ampla região. A rede pública com que contava era, no

entanto, deficitária.

Gráfico 2 – Evolução do número de Hospitais públicos e privados – Brasil –
1955/1992

Fonte: IBGE, 2006, p. 228.

Importante salientar que mesmo dispondo de 10 hospitais

particulares, em 1967, o atendimento à saúde em Maringá era considerado

ainda limitado. Em relação aos leitos, a quantidade era baixa para atender todo

o município, com aproximadamente 150 mil habitantes (incluindo os distritos de

171

Sarandi, Marialva, Paissandu, Floriano, Água Boa, Iguatemi, Mandaguaçu e

Presidente Castelo Branco). O total de leitos chegava a 372, atingindo a

proporção de 403 habitantes por leito, aproximadamente metade do

considerado indicado para a época (MARINGÁ, 1967, p. 102). A relação

leito/habitante assume uma proporção ainda mais crítica quando observamos a

relação entre leitos particulares e gratuitos, destinados à camada mais pobre

da população: 50 do total de 372, sendo que nenhum era público.

Conforme a planta da rede hospitalar (planta 5), a mesma está

toda localizada no centro da cidade, com exceção da Santa Casa que foi

instalada na Vila Operária, tornando-se referência para os atendimentos da

população sem condições financeiras. Dos 50 leitos já mencionados para essa

população, 40 pertenciam à Santa Casa.

172

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