Análise Crítica do Filme O Enigma de Kaspar Hauser

Talita Rosetti

Enredo
O filme “O enigma de Kaspar Hauser”, do diretor alemão Werner Herzog, desdobra-se na história de um jovem que, desde o seu nascimento, foi mantido em cativeiro e assim foi, portanto, privado do convívio social e do mundo exterior, até que fora libertado e encontrado, por volta de sua adolescência, em uma praça de Nuremberg. Sem ainda ter desenvolvido completamente os movimentos das pernas e da fala, Kaspar Hauser trazia consigo poucos objetos, dentre eles um bilhete de origem anônima dirigido ao capitão de cavalaria da cidade, onde ligeiramente foi contada a trajetória de vida do jovem Hauser. Ao saber apenas pedir que o tornasse cavaleiro como fora seu pai, Kaspar Hauser logo foi identificado como ser grotesco e diferente do meio sociocultural daquela região e época. Assim como muitos o ajudaram, muitos também o viam de maneira arredia. Tratado como um interessante absurdo, foi centro de pesquisas, mas também espetáculo de circo, já que naquela época, o modelo de circo que existia girava em torno da exposição de casos anômalos, diferentes, idiossincráticos. Ainda que todos soubessem das limitações que sua vida anterior, da falta de práxis e das noções de regras sociais, os esforços em transformar esse novo cidadão da cidade não foram poucos ou pequenos. Após ser abrigado por um professor que cuidava da sua socialização, Kaspar Hauser começou a aprender a falar, a andar, a tocar instrumentos entre outras atividades. A partir dessas novas experiências e observações, Kaspar passa a ter novos questionamentos sobre as coisas mundanas. A triste história de Kaspar Hauser teve fim quando foi assassinado com um objeto cortante no peito pouco tempo depois de sua aparição. Assim como sua origem e real identidade, a pessoa que o manteve em cativeiro quando criança e seu assassino não foram desvendados, permanecendo um enigma e fazendo com que novas hipóteses e estudos sejam gerados através de sua figura.

Da mesma forma. mas não era capaz de identificar totalmente o conceito. é que Kaspar não conseguia desenvolver totalmente novas questões somente através da linguagem e da comunicação porque sua concepção das coisas não amadurecia com a mesma velocidade que aprendia novas palavras e conceitos. de espaço. A explicação deste fato dá-se em FERREIRA (2007) quando diz que “o ato próprio de conhecer é uma síntese vivida pelo ser humano entre a percepção do objeto de conhecimento e o conceito que é criado sobre esse objeto. uma das tentativas de fazer de Kaspar um ser civilizado foi através da linguagem. de altura. percepção e linguagem. Kaspar Hauser não compreendia as concepções que a sociedade esperava dele porque lhe faltavam os processos sociais de aprendizagem necessários para que fosse possível apreender certas noções. Aprendia palavras. já que sabia a parte acústica. sentir e perceber. Ignorado esse lado que fazia Kaspar desconhecer as coisas ou ter novas lógicas sobre elas. e isso o deixava confuso. uma fusão vivenciada. nesse ato. mas nem sempre aprendia o que elas significavam. Não tinha. Por sofrer uma enorme privação desenvolvimentista durante maior parte de sua vida.18). Não basta adquirir linguagem se não existir nenhuma relação dela com a sociedade lingüística que se está . Era exigida de Kaspar uma representação que sua natureza desconhecia. por exemplo. foi possível notar claramente que a linguagem despida das práticas sociais não se revela de maneira completa e totalmente funcional. como as abstratas e as culturais. durante o filme. noção de distância. É a construção da representação. por exemplo. incompleta. o que se percebe. Kaspar retribui os olhares curiosos dos moradores da região sua própria feição de espanto e estranheza diante daquilo que não estava habituado a ver. muitas vezes. Através do filme de Kaspar Hauser.Kaspar Hauser. escutar. quando chega a Nuremberg. sua construção de signo lingüístico permanecia. As tentativas de ensinar Kaspar a falar pareciam ter sucesso ao passo que ele conseguia repetir e fazer novas construções frasais. Entretanto. que se torna. fruto de uma tensão dialética que ocorre entre percepção e conceito” (p. via coisas que nem sempre entendia como eram feitas.

compartilhar e registrar esse produto de sua atividade pensante cria cultura” (p. mecanismos de controle que regem comportamentos e dirigem padrões. Se um homem pode ser entendido como um elemento composto por relações existentes entre fatores biológicos. um poder filosófico e. a sugestão de que a melhor maneira de se observar a cultura não é pensando nela como complemento das atividades humanas. esse tipo de ser é destituído de valores milenares. ou a utilidade das mulheres. o que acontece quando um indivíduo perde ou não adquire um ou alguns desses fatores? A história de Kaspar Hauser pode.inserido. GEERTZ (1989) lança um questionamento: “o que são de fato os homens sem aquilo que a sua cultura faz deles?” (p. tornou-se um exemplo de caos humano que age sem obedecer àquela lógica comum e que não domina e nem entende totalmente as situações e os próprios sentimentos.48). . ganha muitas vezes. Durante o filme. ao conhecer. A voz de Kaspar Hauser. cultura e sociedade. como acessório ou ornamento. Kaspar Hauser. isso fica evidente quando Kaspar questiona a existência de Deus. psicológicos. ser entendida como a resposta desses questionamentos. mas algo para além disso. de conhecimentos que normalmente adquirimos sem o entendimento completo. “um processo civilizador milenar só poderia ocorrer em grupo. O homem. em sociedade. Segundo FERREIRA (2007). sociais e culturais. portanto. A figura de Kaspar Hauser pode sugerir também a imagem de um ser humano totalmente despido de valores sociais pronto para re-analisar o mundo com uma nova maneira individual e não imposta por uma sociedade prévia. Ainda neste mesmo livro. sendo também um conjunto extremamente necessário e essencial de regras. por ter vivido longe dos padrões culturais e do conjunto de símbolos significantes para aquela sociedade. Naturalmente. Kaspar Hauser. talvez. A linguagem perde parcela de função quando não está em contato com as representações necessárias para a compreensão e a construção do conhecimento. E seu produto é o que pode ser denominado de cultura.28) Em complemento a isso. questionador de conceitos já cristalizados por aquela sociedade. observa-se em GEERTZ (1989). no filme. de antigos costumes.

1989 FERREIRA. a organização social. 2007.A partir disso. a questão mental. agir diferente e ser questionador foi hostilizado pela sociedade positivista que não aceitava novos olhares diante de objetos já conceituados e procurava sempre respostas exatas para chegar a uma suposta evolução e civilização. Por pensar diferente. Manual de sociologia. Assim. Quando o próprio Kaspar Hauser começa a tomar consciência de alguns fatos. É. Clifford: A interpretação das culturas. dos clássicos à sociedade da informação . Guanabara. a percepção. o auge desse racionalismo positivista fica evidenciado tanto pela repulsa que a sociedade mostra em relação a Kaspar. entre outros. quando ainda se busca uma explicação para sua existência humana através de seu cérebro. a história de Kaspar Hauser serve de reflexão para muitos campos da ciência. quanto nas cenas após sua morte. São Paulo: Atlas. a representação. o relacionamento ou a rejeição que determinado grupo realiza. Rio de Janeiro: Ed. entre outros cursos das ciências humanas. Geografia. ed. É possível extrair desse ocorrido questões essenciais como a cultura. Delson. sem dúvidas. Chega a concluir que sua chegada a Nuremberg foi negativa para todos. No filme. se observa um Kaspar Hauser estigmatizado pelo meio que está inserido. também nota-se deslocado. um corpus interessantíssimo para os alunos de Letras. 2. . História. Sociologia. alguns princípios baseados em determinadas doutrinas (como o positivismo nessa questão). Referência Bibliográfica GEERTZ.

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