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Análise Crítica do Filme - O enigma de Kaspar Hauser

Análise Crítica do Filme - O enigma de Kaspar Hauser

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"A história de Kaspar Hauser serve de reflexão para muitos campos da ciência. É possível extrair desse ocorrido questões essenciais como a cultura, a organização social, o relacionamento ou a rejeição que determinado grupo realiza, a questão mental, a percepção, a representação, alguns princípios baseados em determinadas doutrinas (como o positivismo nessa questão), entre outros. É, sem dúvidas, um corpus interessantíssimo para os alunos de Letras, História, Geografia, Sociologia, entre outros cursos das ciências humanas."
"A história de Kaspar Hauser serve de reflexão para muitos campos da ciência. É possível extrair desse ocorrido questões essenciais como a cultura, a organização social, o relacionamento ou a rejeição que determinado grupo realiza, a questão mental, a percepção, a representação, alguns princípios baseados em determinadas doutrinas (como o positivismo nessa questão), entre outros. É, sem dúvidas, um corpus interessantíssimo para os alunos de Letras, História, Geografia, Sociologia, entre outros cursos das ciências humanas."

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Published by: Talita on May 01, 2011
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Análise Crítica do Filme O Enigma de Kaspar Hauser

Talita Rosetti

Enredo
O filme “O enigma de Kaspar Hauser”, do diretor alemão Werner Herzog, desdobra-se na história de um jovem que, desde o seu nascimento, foi mantido em cativeiro e assim foi, portanto, privado do convívio social e do mundo exterior, até que fora libertado e encontrado, por volta de sua adolescência, em uma praça de Nuremberg. Sem ainda ter desenvolvido completamente os movimentos das pernas e da fala, Kaspar Hauser trazia consigo poucos objetos, dentre eles um bilhete de origem anônima dirigido ao capitão de cavalaria da cidade, onde ligeiramente foi contada a trajetória de vida do jovem Hauser. Ao saber apenas pedir que o tornasse cavaleiro como fora seu pai, Kaspar Hauser logo foi identificado como ser grotesco e diferente do meio sociocultural daquela região e época. Assim como muitos o ajudaram, muitos também o viam de maneira arredia. Tratado como um interessante absurdo, foi centro de pesquisas, mas também espetáculo de circo, já que naquela época, o modelo de circo que existia girava em torno da exposição de casos anômalos, diferentes, idiossincráticos. Ainda que todos soubessem das limitações que sua vida anterior, da falta de práxis e das noções de regras sociais, os esforços em transformar esse novo cidadão da cidade não foram poucos ou pequenos. Após ser abrigado por um professor que cuidava da sua socialização, Kaspar Hauser começou a aprender a falar, a andar, a tocar instrumentos entre outras atividades. A partir dessas novas experiências e observações, Kaspar passa a ter novos questionamentos sobre as coisas mundanas. A triste história de Kaspar Hauser teve fim quando foi assassinado com um objeto cortante no peito pouco tempo depois de sua aparição. Assim como sua origem e real identidade, a pessoa que o manteve em cativeiro quando criança e seu assassino não foram desvendados, permanecendo um enigma e fazendo com que novas hipóteses e estudos sejam gerados através de sua figura.

mas nem sempre aprendia o que elas significavam. É a construção da representação. Não basta adquirir linguagem se não existir nenhuma relação dela com a sociedade lingüística que se está . incompleta. As tentativas de ensinar Kaspar a falar pareciam ter sucesso ao passo que ele conseguia repetir e fazer novas construções frasais. noção de distância. de espaço. uma fusão vivenciada. sentir e perceber.18). o que se percebe. nesse ato. sua construção de signo lingüístico permanecia. é que Kaspar não conseguia desenvolver totalmente novas questões somente através da linguagem e da comunicação porque sua concepção das coisas não amadurecia com a mesma velocidade que aprendia novas palavras e conceitos. por exemplo. Através do filme de Kaspar Hauser. Não tinha. A explicação deste fato dá-se em FERREIRA (2007) quando diz que “o ato próprio de conhecer é uma síntese vivida pelo ser humano entre a percepção do objeto de conhecimento e o conceito que é criado sobre esse objeto. quando chega a Nuremberg. e isso o deixava confuso. foi possível notar claramente que a linguagem despida das práticas sociais não se revela de maneira completa e totalmente funcional. de altura. Ignorado esse lado que fazia Kaspar desconhecer as coisas ou ter novas lógicas sobre elas. Da mesma forma. por exemplo. Kaspar retribui os olhares curiosos dos moradores da região sua própria feição de espanto e estranheza diante daquilo que não estava habituado a ver. Era exigida de Kaspar uma representação que sua natureza desconhecia. via coisas que nem sempre entendia como eram feitas. uma das tentativas de fazer de Kaspar um ser civilizado foi através da linguagem. Kaspar Hauser não compreendia as concepções que a sociedade esperava dele porque lhe faltavam os processos sociais de aprendizagem necessários para que fosse possível apreender certas noções. Aprendia palavras. Entretanto. como as abstratas e as culturais. muitas vezes. mas não era capaz de identificar totalmente o conceito. fruto de uma tensão dialética que ocorre entre percepção e conceito” (p. durante o filme.Kaspar Hauser. escutar. percepção e linguagem. que se torna. Por sofrer uma enorme privação desenvolvimentista durante maior parte de sua vida. já que sabia a parte acústica.

Kaspar Hauser. observa-se em GEERTZ (1989). Segundo FERREIRA (2007). Ainda neste mesmo livro. ao conhecer. Durante o filme. esse tipo de ser é destituído de valores milenares. psicológicos. questionador de conceitos já cristalizados por aquela sociedade. um poder filosófico e. ganha muitas vezes. a sugestão de que a melhor maneira de se observar a cultura não é pensando nela como complemento das atividades humanas.inserido. sociais e culturais. de conhecimentos que normalmente adquirimos sem o entendimento completo. ou a utilidade das mulheres. como acessório ou ornamento. GEERTZ (1989) lança um questionamento: “o que são de fato os homens sem aquilo que a sua cultura faz deles?” (p. Kaspar Hauser. portanto. no filme. cultura e sociedade. mas algo para além disso. A figura de Kaspar Hauser pode sugerir também a imagem de um ser humano totalmente despido de valores sociais pronto para re-analisar o mundo com uma nova maneira individual e não imposta por uma sociedade prévia. “um processo civilizador milenar só poderia ocorrer em grupo. em sociedade. isso fica evidente quando Kaspar questiona a existência de Deus. o que acontece quando um indivíduo perde ou não adquire um ou alguns desses fatores? A história de Kaspar Hauser pode. compartilhar e registrar esse produto de sua atividade pensante cria cultura” (p. A linguagem perde parcela de função quando não está em contato com as representações necessárias para a compreensão e a construção do conhecimento. Naturalmente.48). mecanismos de controle que regem comportamentos e dirigem padrões. de antigos costumes.28) Em complemento a isso. talvez. tornou-se um exemplo de caos humano que age sem obedecer àquela lógica comum e que não domina e nem entende totalmente as situações e os próprios sentimentos. ser entendida como a resposta desses questionamentos. E seu produto é o que pode ser denominado de cultura. por ter vivido longe dos padrões culturais e do conjunto de símbolos significantes para aquela sociedade. Se um homem pode ser entendido como um elemento composto por relações existentes entre fatores biológicos. sendo também um conjunto extremamente necessário e essencial de regras. O homem. . A voz de Kaspar Hauser.

a representação. Por pensar diferente. quando ainda se busca uma explicação para sua existência humana através de seu cérebro. Quando o próprio Kaspar Hauser começa a tomar consciência de alguns fatos. . dos clássicos à sociedade da informação . Clifford: A interpretação das culturas. São Paulo: Atlas. um corpus interessantíssimo para os alunos de Letras. entre outros. 1989 FERREIRA. a organização social. Rio de Janeiro: Ed. Geografia. Referência Bibliográfica GEERTZ. É. o relacionamento ou a rejeição que determinado grupo realiza. agir diferente e ser questionador foi hostilizado pela sociedade positivista que não aceitava novos olhares diante de objetos já conceituados e procurava sempre respostas exatas para chegar a uma suposta evolução e civilização. quanto nas cenas após sua morte. a história de Kaspar Hauser serve de reflexão para muitos campos da ciência. Sociologia. Delson. a questão mental. História. entre outros cursos das ciências humanas. ed. alguns princípios baseados em determinadas doutrinas (como o positivismo nessa questão). sem dúvidas. a percepção. 2. No filme. 2007. Chega a concluir que sua chegada a Nuremberg foi negativa para todos.A partir disso. o auge desse racionalismo positivista fica evidenciado tanto pela repulsa que a sociedade mostra em relação a Kaspar. Guanabara. se observa um Kaspar Hauser estigmatizado pelo meio que está inserido. Assim. também nota-se deslocado. É possível extrair desse ocorrido questões essenciais como a cultura. Manual de sociologia.

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