Análise Crítica do Filme O Enigma de Kaspar Hauser

Talita Rosetti

Enredo
O filme “O enigma de Kaspar Hauser”, do diretor alemão Werner Herzog, desdobra-se na história de um jovem que, desde o seu nascimento, foi mantido em cativeiro e assim foi, portanto, privado do convívio social e do mundo exterior, até que fora libertado e encontrado, por volta de sua adolescência, em uma praça de Nuremberg. Sem ainda ter desenvolvido completamente os movimentos das pernas e da fala, Kaspar Hauser trazia consigo poucos objetos, dentre eles um bilhete de origem anônima dirigido ao capitão de cavalaria da cidade, onde ligeiramente foi contada a trajetória de vida do jovem Hauser. Ao saber apenas pedir que o tornasse cavaleiro como fora seu pai, Kaspar Hauser logo foi identificado como ser grotesco e diferente do meio sociocultural daquela região e época. Assim como muitos o ajudaram, muitos também o viam de maneira arredia. Tratado como um interessante absurdo, foi centro de pesquisas, mas também espetáculo de circo, já que naquela época, o modelo de circo que existia girava em torno da exposição de casos anômalos, diferentes, idiossincráticos. Ainda que todos soubessem das limitações que sua vida anterior, da falta de práxis e das noções de regras sociais, os esforços em transformar esse novo cidadão da cidade não foram poucos ou pequenos. Após ser abrigado por um professor que cuidava da sua socialização, Kaspar Hauser começou a aprender a falar, a andar, a tocar instrumentos entre outras atividades. A partir dessas novas experiências e observações, Kaspar passa a ter novos questionamentos sobre as coisas mundanas. A triste história de Kaspar Hauser teve fim quando foi assassinado com um objeto cortante no peito pouco tempo depois de sua aparição. Assim como sua origem e real identidade, a pessoa que o manteve em cativeiro quando criança e seu assassino não foram desvendados, permanecendo um enigma e fazendo com que novas hipóteses e estudos sejam gerados através de sua figura.

uma fusão vivenciada. e isso o deixava confuso. Ignorado esse lado que fazia Kaspar desconhecer as coisas ou ter novas lógicas sobre elas. mas não era capaz de identificar totalmente o conceito. As tentativas de ensinar Kaspar a falar pareciam ter sucesso ao passo que ele conseguia repetir e fazer novas construções frasais. noção de distância. via coisas que nem sempre entendia como eram feitas. quando chega a Nuremberg. mas nem sempre aprendia o que elas significavam. já que sabia a parte acústica. muitas vezes. Aprendia palavras.Kaspar Hauser. escutar. foi possível notar claramente que a linguagem despida das práticas sociais não se revela de maneira completa e totalmente funcional. Entretanto. durante o filme. Por sofrer uma enorme privação desenvolvimentista durante maior parte de sua vida. é que Kaspar não conseguia desenvolver totalmente novas questões somente através da linguagem e da comunicação porque sua concepção das coisas não amadurecia com a mesma velocidade que aprendia novas palavras e conceitos. Através do filme de Kaspar Hauser. fruto de uma tensão dialética que ocorre entre percepção e conceito” (p. Da mesma forma. percepção e linguagem. É a construção da representação. sua construção de signo lingüístico permanecia. uma das tentativas de fazer de Kaspar um ser civilizado foi através da linguagem. por exemplo. sentir e perceber. Não basta adquirir linguagem se não existir nenhuma relação dela com a sociedade lingüística que se está . Kaspar Hauser não compreendia as concepções que a sociedade esperava dele porque lhe faltavam os processos sociais de aprendizagem necessários para que fosse possível apreender certas noções. o que se percebe.18). incompleta. A explicação deste fato dá-se em FERREIRA (2007) quando diz que “o ato próprio de conhecer é uma síntese vivida pelo ser humano entre a percepção do objeto de conhecimento e o conceito que é criado sobre esse objeto. por exemplo. como as abstratas e as culturais. nesse ato. que se torna. de espaço. Não tinha. de altura. Kaspar retribui os olhares curiosos dos moradores da região sua própria feição de espanto e estranheza diante daquilo que não estava habituado a ver. Era exigida de Kaspar uma representação que sua natureza desconhecia.

isso fica evidente quando Kaspar questiona a existência de Deus. observa-se em GEERTZ (1989). O homem. mas algo para além disso. como acessório ou ornamento. Se um homem pode ser entendido como um elemento composto por relações existentes entre fatores biológicos. ganha muitas vezes. de antigos costumes. o que acontece quando um indivíduo perde ou não adquire um ou alguns desses fatores? A história de Kaspar Hauser pode. a sugestão de que a melhor maneira de se observar a cultura não é pensando nela como complemento das atividades humanas. . Durante o filme.inserido.48). de conhecimentos que normalmente adquirimos sem o entendimento completo. cultura e sociedade. mecanismos de controle que regem comportamentos e dirigem padrões. Ainda neste mesmo livro. por ter vivido longe dos padrões culturais e do conjunto de símbolos significantes para aquela sociedade. sendo também um conjunto extremamente necessário e essencial de regras. A linguagem perde parcela de função quando não está em contato com as representações necessárias para a compreensão e a construção do conhecimento. um poder filosófico e. Naturalmente.28) Em complemento a isso. sociais e culturais. no filme. GEERTZ (1989) lança um questionamento: “o que são de fato os homens sem aquilo que a sua cultura faz deles?” (p. A figura de Kaspar Hauser pode sugerir também a imagem de um ser humano totalmente despido de valores sociais pronto para re-analisar o mundo com uma nova maneira individual e não imposta por uma sociedade prévia. ser entendida como a resposta desses questionamentos. compartilhar e registrar esse produto de sua atividade pensante cria cultura” (p. Kaspar Hauser. Kaspar Hauser. talvez. Segundo FERREIRA (2007). tornou-se um exemplo de caos humano que age sem obedecer àquela lógica comum e que não domina e nem entende totalmente as situações e os próprios sentimentos. ao conhecer. A voz de Kaspar Hauser. “um processo civilizador milenar só poderia ocorrer em grupo. ou a utilidade das mulheres. E seu produto é o que pode ser denominado de cultura. em sociedade. questionador de conceitos já cristalizados por aquela sociedade. esse tipo de ser é destituído de valores milenares. psicológicos. portanto.

É possível extrair desse ocorrido questões essenciais como a cultura. São Paulo: Atlas. a questão mental. entre outros. dos clássicos à sociedade da informação . 2007. quanto nas cenas após sua morte. quando ainda se busca uma explicação para sua existência humana através de seu cérebro. Assim. a representação. 1989 FERREIRA. o relacionamento ou a rejeição que determinado grupo realiza. Manual de sociologia. Guanabara. 2. alguns princípios baseados em determinadas doutrinas (como o positivismo nessa questão). Por pensar diferente. Clifford: A interpretação das culturas. se observa um Kaspar Hauser estigmatizado pelo meio que está inserido. História. sem dúvidas. a história de Kaspar Hauser serve de reflexão para muitos campos da ciência. Referência Bibliográfica GEERTZ. o auge desse racionalismo positivista fica evidenciado tanto pela repulsa que a sociedade mostra em relação a Kaspar. No filme. É. ed. também nota-se deslocado. Rio de Janeiro: Ed. entre outros cursos das ciências humanas. um corpus interessantíssimo para os alunos de Letras. . Chega a concluir que sua chegada a Nuremberg foi negativa para todos.A partir disso. a percepção. Sociologia. a organização social. Geografia. agir diferente e ser questionador foi hostilizado pela sociedade positivista que não aceitava novos olhares diante de objetos já conceituados e procurava sempre respostas exatas para chegar a uma suposta evolução e civilização. Quando o próprio Kaspar Hauser começa a tomar consciência de alguns fatos. Delson.

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