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A Geografia Do Batuque

A Geografia Do Batuque

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Orıxás Odé e Otim: São um casal de Orixás jovens, não-crianças como os Ibejis,

porém, não-adultos como os demais. Como o próprio nome da língua yorubah diz, Odé é

caçador, sendo a entidade masculina e tendo Otim como sua companheira. Segundo a

lenda, Odé caça, mas fica com pena dos animais que abateu, então os dá para Otim, que

muito gulosa, os devora no ato. Por isso dizem ser Otim uma jovem gordinha, e como é o

Orixá Adjuntó de Odé, a maioria de seus filhos tende a serem rechonchudos. Dificilmente

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Odé tem outro Adjuntó que não Otim, mas há Bacias que também cultuam Oxum Epandá

como Adjuntó também de Odé. Não se costuma entregar o Orí de um filho-de-santo para

Otim, permanecendo sempre esta como Orixá Adjuntó, sendo sempre Odé o Orixá de

“cabeça” da pessoa, salvo quando “casa-se” com Oxum, podendo, neste raro caso, ser Ele o

Orixá Adjuntó. Pessoalmente não conheço pessoas que sejam filhos de Otim, tampouco vi

este Orixá manifestado em alguma cerimônia religiosa; porém, alguns irmãos de religião

me relataram existir tais filhos de Otim. Como estes Orixás são cultuados como sendo

jovens, não há neste caso uma subdivisão como no caso dos Barás e dos Xangôs.

Odé, filho mais jovem de Yemanjá, destemido e curioso como os jovens,

acompanhado de Otim, embrenhou-se na mata em longas expedições, desbravando

horizontes nunca antes visitados. Por isso é tido como o Orixá da prosperidade, pois se

Bará é o Orixá que “abre os caminhos”, Odé é quem sabe onde estes caminhos irão chegar,

tendo assim como o restante do Orumalé, fundamental importância no Batuque. Odé e

Otim também regem a fertilidade e a reprodução de toda a fauna. Têm como símbolos: o

arco e flecha e o cântaro. Seu local de culto, além da praia, é a mata, preferencialmente o

interior desta, sendo a fauna regida por este Orixá. Suas cores são o azul escuro, e a soma

do Azul escuro com o branco (as consagradas a Otim). Seu dia da semana é a quarta-feira, e

seu sincretismo afro-católico: São Sebastião (Odé) e Santa Efigênia (Otim).

Orixá Ossanha: é o senhor das folhas. A este Orixá pertencem todas as folhas e

ervas utilizadas no culto. A lenda diz que foi Oyá que abanou a saia e fez com que os

ventos espalhassem as folhas, para que, desta forma, os demais Orixás pudessem apoderar-

se de algumas, mas que, de maneira geral, pertencem mesmo é a Ossanha. Também se

conta que este Orixá teve uma das pernas amputadas, por isso na maioria das vezes, quando

manifestado, ele dança e se movimenta numa só perna. Logicamente que Ossanha rege a

flora, e devido ao poder de cura das plantas, sendo ele o detentor do conhecimento sobre a

eficácia de cada uma delas, é um dos Orixás “médicos” do Orumalé. Estando ligados a

Ossanha além da homeopatia, o conhecimento de cura das doenças ligadas ao esqueleto

ósseo humano. As oferendas a Ossanha devem ser entregues no interior da mata, sendo o

coqueiro a árvore consagrada a este Orixá. Como se torna cada vez mais difícil encontrar

áreas de mata dentro da cidade, é muito comum depositarem suas oferendas em áreas

gramadas junto a coqueiros ou palmeiras, (praças, por exemplo), ou até mesmo junto a

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figueiras, que é uma árvore consagrada a outro Orixá “médico”, mas que mesmo assim, é

aceito de bom grado por Ossanha. Suas cores são a soma do verde e do amarelo, e a mistura

destas, que resulta em um verde bem clarinho. Seu dia da semana é a sexta-feira e o seu

sincretismo afro-católico, São José.

Orixá Obá é um Orixá guerreiro assim como Oyá. A lenda diz que este Orixá não

possui uma das orelhas (que ela própria a teria decepado), pois ludibriada por Oxum, teria

oferecido sua orelha em um Amalá10

, para conquistar o amor de Xangô, cujo Orixá ambas

disputavam. Logicamente que Xangô a repudiou, casando-se então com Oxum. Quando

manifestada, é facilmente identificada, pois costuma dançar com uma das mãos tapando a

orelha que decepou. É um Orixá que não costuma possuir “cavalos de santo”11

homens.

Pessoalmente, nunca vi Obá manifestada em um homem. A Obá está atribuída a revolta, e

se Ogum é o dono da espada, é Obá quem rege a Lâmina em si. Portanto, é sempre este

Orixá que anuncia, junto com os Orixás “médicos”, no jogo de búzios, se uma pessoa irá

submeter-se a uma intervenção cirúrgica, por exemplo. A Obá é atribuída a praticidade, as

máquinas de uma forma geral, sendo um de seus símbolos a roda. Dizemos que “é Obá que

faz a vida do batuqueiro andar, seguir adiante”. Portanto, este Orixá rege o mundo

automobilístico, e, ao lado de Bará, os caminhos. Como Obá é guerreira, pertence ao grupo

dos Orixás ditos “frenteiros”, e os lugares onde recebe suas oferendas são o cruzeiro, a

mata e a praia. Sua cor é o rosa, seu dia da semana, a segunda-feira, e o sincretismo afro-

católico deste Orixá, Santa Catarina.

Orixá Xapanã: é um Orixá médico do batuque. A ele estão associadas as

enfermidades e pestes que costumam atacar as pessoas. É o Orixá da varíola, das doenças

de pele e da cólera. Conta a lenda que este Orixá quando nasceu era uma criança feia e

doente, com o corpo tomado de feridas; então foi abandonado à beira da praia por sua mãe

Nanã Burukú. Yemanjá que assistiu tudo teve pena da criança, a qual levou consigo para o

Oceano, curando-a de todas as suas doenças. Xapanã cresceu e se tornou mestre na arte da

cura e no conhecimento das poções utilizadas para estes fins, por isto rege os médicos e os

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Amalá é a comida preferida de Xangô, preparado a base de um pirão de farinha de mandioca, onde se
adicionam um molho de carne de peito bovina com mostarda, servido em uma gamela junto com bananas e
maçã. Pode sofrer muitas variações na sua forma de preparo, chegando a mais de trinta pratos diferentes de
Amalá.

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farmacêuticos. Costuma-se dizer que os filhos de Xapanã são exímios feiticeiros. É o

ultimo Orixá do dendê na hierarquia mítica, considerado bravo e impertinente. Todos se

levantam em sinal de respeito quando iniciam os toques de tambor homenageando este

Orixá. Seus lugares de culto são o cruzeiro e a mata, devendo nesta, sua oferenda ser

entregue em uma figueira (árvore que lhe pertence), portanto, sagrada para os batuqueiros.

Abençoadas são, as Casas de Nação que possuem uma figueira em seu terreno, pois nela

podem ser feitos muitos Axés de cura, fato que é muito raro, uma vez que se trata de uma

árvore de grande porte que ocuparia vasto espaço dentro do terreno. Suas cores são o roxo,

ou a combinação do vermelho e preto. É cultuado na Quinta-feira, mas há Lados que o

cultuam na quarta-feira, e seu sincretismo afro-católico é São Lázaro e Cristo Senhor dos

Passos (Imagem de Jesus carregando a cruz).

Orixá Oxum: é quem rege a fecundidade feminina, os recém nascidos, o ouro e, por

conseguinte, as riquezas, a fortuna. É o Orixá dos doces, das guloseimas, sendo o quindim

seu predileto. Se Oyá é o Orixá que rege as paixões, é Oxum quem rege o amor. Além da

Oxum de Ibeji, cultua-se outras três qualidades de Oxum, que vão da jovem à velha. Há

Nações que cultuam uma quinta qualidade de Oxum, denominada Olobá. É Oxum a esposa

preferida de Xangô, com quem se casou. Junto com Yemanjá e Oxalá, constitui-se o grupo

dos “Orixás do mel”, portanto não são Orixás guerreiros. Oxum é a dona das águas doces,

portanto seus lugares de culto são as praias de rios e lagos; no mato serve-se as oferendas a

Oxum junto a uma cachoeira. Tida como a mais vaidosa dos Orixás, em suas manifestações

no batuque, é comum na coreografia de sua dança, Oxum pentear seus cabelos enquanto

olha-se num espelho. Adora flores e perfumes e, durante os cânticos em sua homenagem,

este Orixá costuma colocar perfumes em todas as pessoas que estiverem presentes na festa.

Oxum é muito popular. Cultuada na data de 8 de Dezembro em Porto Alegre - RS, as

margens do Rio Guaíba, costumam ficar repletas de oferendas dedicadas a este Orixá, tendo

a secretaria de cultura da capital, inaugurado na praia de Ipanema, zona sul desta cidade,

um monumento em homenagem a Oxum. Sua cor é o amarelo, seu número, oito e o dia da

semana, sábado. O sincretismo afro-católico de Oxum são as diversas Nossas Senhoras,

sendo Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Rosário, as mais difundidas.

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"Cavalo de santo" é como são chamadas as pessoas que sofrem possessão de seus Orixás de cabeça. No
batuque estas pessoas não sabem que sofreram tal possessão, e é proibido que se conte a elas tal fato, sobe
pena de sofrer severo castigo por parte dos Orixás quem infringir esta regra.

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Orixá Yemanjá é a rainha do mar. Está associada à figura materna da mãe

educadora que rege as crianças, numa idade posterior a de recém nascido, portanto, é uma

mãe severa quando seus filhos aprontam alguma bobagem. Mas como é mãe os perdoa

facilmente. Mãe dos Orixás Bará, Ogum e Odé, foi Yemanjá quem curou e criou Xapanã,

sendo que Nanã Burukú é cultuada no batuque como uma qualidade de Yemanjá velha. Na

língua Yorubah Yemanjá quer dizer “mãe dos filhos peixe”, por isso muitas vezes a figura

de Yemanjá está associada a uma sereia. Orixá de grande popularidade no Brasil e,

também, em Porto Alegre – RS, demonstrado pelo fato de a cidade ser banhada por águas

doces e realizar a popular procissão de Nossa Senhora dos Navegantes no dia 02 de

Fevereiro (feriado na capital gaúcha), que agrega um enorme numero de pessoas e barcos.

Também, são muito conhecidas as festas de Yemanjá, nas cidades de Tramandaí – RS e Rio

Grande – RS. Seu lugar de culto é a praia de mar, mas também aceita oferendas nas praias

de águas doces como os demais Orixás. Seu dia da semana é a Sexta-feira e suas cores, o

azul claro e a combinação deste com o branco. Seu número é o oito, e o sincretismo afro-

católico é Nossa Senhora dos Navegantes.

Orixá Oxalá é o patriarca dos Orixás. O maior na hierarquia mítica de culto, estando

acima dele apenas Olodum. Oxalá é considerado pai dos Orixás; portanto, pai de todos os

mortais. As decisões tomadas por este Orixá, por todos os demais devem ser acatadas

(inclusive o perdão). Logo Oxalá também vem a ser o Orixá da misericórdia, a quem todos

recorrem quando desejam obter perdão por algum erro cometido. Oxalá é calmo e

pacificador, associado à paz e à luz. Seu elemento na natureza é o Sol e seus lugares de

culto são os mesmos de Yemanjá e Oxum. Como Oxalá é o patriarca dos Orixás e pai de

todos mortais, se um filho é consagrado a este Orixá, mesmo que não seja Oxalá o “Orixá

de cabeça” deste; Oxalá tomará conta e não mais devolverá ao Orixá original, fato que não

acontece com os demais Orixás. Por exemplo, se uma pessoa for filho de Xangô, e vier a

ser acometido por uma doença grave, que lhe tragam problemas mentais e Oxalá decidir

que passará a tomar conta da cabeça deste filho, tal pessoa será consagrada a Oxalá e

provavelmente alcançará a cura. A partir de então, esta pessoa será filho de Oxalá, e não

mais, de Xangô como de início. Porém, para isso, Oxalá precisa ter requerido a cabeça

deste filho. Mas se a cabeça deste mesmo filho fosse entregue a qualquer outro Orixá,

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Xangô imputaria ao filho e ao babalorixá que cometeu tal ato, diversos castigos e

perturbações, até que obtivesse de volta o posto de “Anjo de guarda” desta pessoa.

É uma das qualidades de Oxalá, chamado de Ifá, que rege o Jogo de Búzios, que

vem a ser o instrumento pelo qual o Babalorixá ou Yalorixá se comunica com os Orixás.

Quando Oxalá se manifesta em uma festa, é logo coberto com um Alá12

, e conduzido a

sentar-se em um banquinho, próximo ao quarto-de-santo, pois é velho e locomove-se com

dificuldade, além de enxergar muito pouco. Mas há duas qualidades de Oxalá que são

jovens e, portanto, não precisam ser cobertos por Alás e acomodados em banquinhos, pois

dançam no centro da roda de batuque com os demais Orixás. Seu dia da semana é o

Domingo, dia no qual, por pertencer ao Pai maior, devemos todos descansar. Somente em

situações emergênciais se recorre aos Orixás neste dia. Seu número é o oito. Suas cores são

o branco e combinação deste com o preto e o sincretismo afro-católico é a Santíssima

Trindade, ou seja, Pai (Deus), Filho (Jesus) e Espírito Santo.

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Alá é um pano branco que simboliza a paz, o perdão, a misericórdia e a sabedoria, caracterizações que são

atribuídas a Oxalá.

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