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O que é filosofia?1 quanto vagos.

O importante é o seguinte: tanto Husserl


como Hegel entendem a filosofia, primeiro, como ciência
(este, pois, é o conceito superior), e, em seguida,
Ernst Tugendhat
distinguem-na das demais ciências quanto (1) ao
conteúdo e (2) ao método. Quanto ao conteúdo: ela é,
I como diz Husserl, universal; de algum modo ela visa o
todo. Quanto ao método: o ponto de vista da
Apesar de todas as dúvidas quanto à possibilidade fundamentação é radicalizado.
de se chegar a um acordo relativo a um conceito unitário Se voltarmos bem atrás na história, até Platão e
de filosofia, devo agora fazer uma tentativa de esboçar o Aristóteles, encontraremos em Aristóteles, nos dois
que se quer dizer com esta palavra. É inevitável que nem primeiros capítulos da Metafísica, uma determinação
todos possam se pôr de acordo acerca do mesmo. O bastante semelhante: uma ciência mais alta que as
critério decisivo deve ser aqui que o máximo possível do demais e, [8] isso deve significar uma ciência que
que historicamente se considerou filosofia caia sob tal contenha na mais alta medida as propriedades
conceito. O que é então filosofia? características das ciências: universalidade e
Talvez a maneira menos capciosa possível de fundamentação.
proceder consista em partir de algumas determinações Façamos, contudo, mais uma amostragem: Kant.
do conceito de filosofia fornecidas por reconhecidamente Aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas. Kant
grandes filósofos. Uma maneira muito concisa de fazê-lo faz, na Crítica da Razão Pura (B 866), uma distinção entre
encontramos em Husserl (Meditações Cartesianas): a um “conceito da escola” (Schulbegriff) e um “conceito do
filosofia é designada como uma “ciência universal a mundo” (Weltbegriff) de filosofia. O “conceito da escola”
partir de uma fundamentação absoluta”. Uma diz: a filosofia é “o sistema (...) dos conhecimentos
determinação semelhante encontramos em Hegel no racionais a partir de conceitos”. O que isso deve
começo de sua Enciclopédia, embora em Hegel tanto o significar não é, sem mais, compreensível. Devo retornar
conceito de universalidade quanto o de fundamentação a esse tema na próxima seção. De todo o modo, Kant
absoluta sejam entendidos de forma bastante diferente quer com isso caracterizar o lado metódico da filosofia,
de Husserl. Faz perfeitamente sentido deixar a princípio acerca do qual até aqui ouvimos dizer que está de uma
os conceitos que ocorrem em tal determinação um tanto forma especial voltado para a fundamentação. No que
diz respeito ao chamado conceito do mundo, Kant
1 O presente artigo corresponde às duas primeiras aulas do curso
esclarece que entende por essa expressão “o que
“Vorlesungen über Methode der Philosophie” ministrado pelo Prof. interessa necessariamente a todos”. Com base nessa
E. Tugendhat na Universidade Livre de Berlim em 1982. O texto é elucidação ele diz que a filosofia, segundo o “conceito do
inédito e a tradução do alemão para o português, de responsabilidade mundo”, é a “ciência dos fins últimos da razão humana”.
de Maria Clara Dias, foi feita a partir do manuscrito, não revisado,
Ao invés dos fins últimos da razão humana, Kant
cedido pelo autor. – In: M. C. Dias (org.), O que é filosofia? Ouro Preto:
IFAC/UFOP, 1996, p. 7-33. poderia também simplesmente ter falado dos fins
últimos do ser humano, e o que ele considerava como grandes filósofos também sempre tiveram em vista em
fins últimos poderia ser compreendido sob o título da suas auto-reflexões, e poderíamos exprimir isso da
felicidade e da moral, e estes últimos, por sua vez, seguinte maneira: se a filosofia, distintamente das outras
poderiam ser colocados o sob o título do bem. A filosofia ciências, deve visar o todo, então por esse todo já se tem
de acordo com o conceito do mundo refere-se, portanto, sempre em vista o todo entendido em termos práticos, de
àquilo que é bom para nós; ela é agora distinguida das nossa autocompreensão e de nossa compreensão do
outras ciências na medida em que estas, em termos mundo. Poder-se-ia, portanto, entender o “conceito do
práticos, podem apenas fornecer o meio para um fim mundo” de filosofia em Kant como tendo o objetivo
dado, ao passo que certamente podemos também ter em particular de lembrar que, ao se falar aqui do todo, ou,
vista algo como um saber acerca daquilo que é bom para como em Aristóteles, do mais universal, não se deve
nós, não enquanto meio, mas como fim. O que Kant tem entendê-lo em termos simplesmente teoréticos - como
em vista aqui como tema da filosofia é algo que pode ser seria o caso se falássemos do mundo como o domínio
também descrito, no jargão atual, como a questão acerca total das experiências teóricas - mas, sim, precisamente
do sentido da vida. Com a expressão “o sentido da vida” também em termos práticos. Também em termos
se quer dizer aproximadamente também o que podemos práticos ou, quem sabe, até mesmo em termos
descrever como o seu fim ou finalidade (Zweck). Kant faz primeiramente (primär) práticos? Para Kant havia um
referência aqui explicitamente também ao significado primado do prático. O mesmo já ocorria também para
corrente da palavra filosofia, segundo o qual Platão, que foi o ponto de partida de Aristóteles. Aquele
descrevemos como filósofo alguém que sabe viver saber especial que é almejado pela filosofia e que não é
corretamente, e isso quer dizer também: alguém que é um saber de uma ciência particular é, para Platão, não
capaz de aconselhar corretamente, pois isso pressupõe: apenas também, mas, sobretudo, referido ao bem.
alguém que saiba o que é bom. Kant retoma com isso O que se segue de tudo isso para o conceito de
explicitamente um sentido que a palavra “sophia” já filosofia? O mais razoável, parece-me aqui, é admitir a
possuía com os gregos. indicação de Wittgenstein de que muitos conceitos
Como se relaciona, então, essa determinação do devem ser compreendidos no sentido das “semelhanças
tema da filosofia com a que encontramos anteriormente de família”. Como exemplo Wittgenstein toma o conceito
em Husserl, Hegel e Aristóteles, aquela, portanto, de “jogo”. É necessário que todos os jogos possuam algo
segundo a qual a filosofia deve, de alguma maneira, em comum? Ele responde: não:
visar o todo? Para Husserl e Hegel o bem também
pertence essencialmente a esse todo. E também “Vemos uma complicada rede de semelhanças que se
Aristóteles reflete explicitamente, no começo da envolvem e se cruzam... Não posso caracterizar melhor
Metafísica, sobre o fato de que o bem também deve tais semelhanças do que através da expressão
pertencer enquanto princípio (Grund) supremo do agir ‘semelhança de família’; pois assim se envolvem e
aos princípios supremos. Poder-se-ia, pois, dizer: a [9] cruzam as diversas semelhanças que existem entre os
caracterização kantiana apenas torna explícito o que os membros de uma família: estatura, traços fisionômicos,
cor de olhos, o andar, o temperamento etc. - E digo: os determinado saber. Mas existem naturalmente diferentes
“jogos” formam uma família. formas de saber e de ciências que não são descritas como
E do mesmo modo, as espécies de número, por exemplo, filosóficas. O que, então, há de privilegiar a filosofia no
formam uma família. Por que chamamos algo de domínio do saber? Para isso acabamos de ver três
“número”? Ora, talvez porque tenha um parentesco -
determinações: (1) que o saber se refira de algum modo
direto - com muitas coisas que até agora foram chamadas
de número; por isso, pode-se dizer, essa coisa adquire um
ao todo ou que seja especialmente geral, universal; (2)
parentesco indireto com outras que chamamos também que se trate de um modo privilegiado de fundamentação;
assim. E estendemos nosso conceito de número do (3) que o saber se refira ao bem. Do modo como o
mesmo modo que, para tecer um fio, torcemos fibra por conceito de filosofia é introduzido em Husserl e Hegel e
fibra. E a robustez do fio não está no fato de que uma já também em Aristóteles, não precisaríamos falar aqui
fibra o percorre em toda sua longitude, mas sim em que em semelhanças de família. Ao contrário, nesses filósofos
muitas fibras estão trançadas umas com as outras.”2 as duas regiões do saber universal e do saber
privilegiadamente fundamentado coincidem e
Também acerca das diversas concepções de filosofia compreendem, como uma sub-região, a do bem. Mas se
pode-se dizer que elas constituem uma família. Vocês agora, de acordo com Kant e Platão, o saber do bem deve
poderiam temer que isso nos conduza a uma imprecisão, ser a determinação primária, surge aqui então um ponto
mas não é o caso. Devemos considerar os conceitos de central que não aparece na elucidação precedente.
[10] filosofia como uma família de conceitos, porque caso Podemos, então, prosseguir e, sem rodeios, separar as
contrário, dogmaticamente, não poderíamos mais regiões que até aqui, em larga medida, ainda coincidiam.
designar como filosofia o que várias pessoas designam É, por exemplo, plausível deixar que se recubram a
como tal. Naturalmente não queremos também ter um região do saber universal e a da fundamentação
conceito indeterminado de filosofia, que abarque todo o privilegiada? Tomemos como exemplo uma concepção
possível e assim também oculte possíveis encruzilhadas. de filosofia como a de Heidegger. Para ele a questão
O que importa é antes tornar clara a relação das fundamental da filosofia é a questão do ser, isto condiz
diferentes concepções entre si. A maneira mais simples com o modelo visto até agora, na medida em que o ser já
de apresentar as coisas é como se tivéssemos diante de é também, segundo Aristóteles, o mais universal. Por
nós um mapa no qual inscrevemos determinadas outro lado, Heidegger abandonou a idéia de uma
províncias que se recobrem parcialmente. Ao invés de fundamentação absoluta. Só podemos, portanto,
falar, como Wittgenstein, de fibras, falarei pois em inscrever sua concepção em nosso mapa, se as regiões da
regiões. Ao continente, por assim dizer, no qual tudo se universalidade e a da fundamentação privilegiada não
passa, chamarei saber. Todas as caracterizações estiverem mais simplesmente sobrepostas. Do mesmo
fornecidas até agora concordam que a filosofia seja um modo, podemos agora também levar em conta a
determinado saber, ou melhor, a aspiração a um possibilidade de que alguém assuma uma concepção de
filosofia que se refira ao bem, mas que não esteja
2 L. Wittgenstein, Philosophische Untersuchungen, 66/7. necessariamente associada nem a uma orientação para o
todo, nem para uma fundamentação privilegiada. saber. Mas o que positivamente significaria isto?
Naturalmente todo filósofo que entenda sua Aqui uma referência a Hegel pode prosseguir nos
concepção de filosofia, seja mais estreitamente, como ajudando. Para Hegel três saberes se referem ao absoluto,
indicado ou de uma outra maneira qualquer, seja mais logo, ao todo, quais sejam: a arte, a religião e a filosofia.
amplamente, tem razões para tais delimitações. Dessas A filosofia se distingue dos outros dois precisamente
razões não tratarei agora. [11] Contento-me pelo fato de referir-se ao absoluto, no meio constituído
simplesmente em apresentar o ponto de partida para a pelo pensamento, ou precisamente pelo saber. Hegel
produção de um mapa que fixe o teor descritivo de cada tomou com isso uma decisão conceitual que não deixa o
determinação conceitual em sua relação com as demais, conceito de filosofia estender-se além do conceito de
de tal sorte que as partes possam, antes de mais nada, saber, mas que ao mesmo tempo implica que uma das
chegar a um acordo acerca do conteúdo de suas regiões que deve ser igualmente definitória para o
concepções. conceito de filosofia avance além da fronteira do saber
Coloca-se agora a questão se devemos separar ainda para dentro do domínio da arte e da religião. “O que
mais os resultados até agora obtidos. Tudo o que importa?” - poder-se-ia retrucar. “Vemos exatamente
obtivemos até agora repousa sobre o pressuposto de que esse parentesco e podemos ao mesmo tempo estabelecer
se trate sempre de um saber, ou melhor, de uma ciência. que só denominamos filosofia a relação ao todo quando
Não deveríamos, contudo, levar em conta a possibilidade ela se situa no meio constituído pelo saber ou pela
de que existam também concepções de filosofia que não opinião.” Devemos, contudo, estar preparados para a
a consideram como uma ciência? Isto significaria, então, possibilidade de não haver um limite nítido entre as
que não mais inscreveríamos todo o complexo de nossas regiões que delimitamos mutuamente. Por que não
três regiões parcialmente coincidentes no continente do deveríamos deixar aberta a possibilidade de uma
saber, mas faríamos com que ele avançasse, em parte, filosofia poética ou uma filosofia religiosa, tanto mais
para dentro do oceano que banha esse continente. que, de fato, têm ocorrido na história semelhantes
Teríamos, assim, levado em conta a possibilidade de criações? Para manter aberta a possibilidade dessas
poder também chamar filosofia um empreendimento que delimitações contidas nas concepções tradicionais de
estivesse de algum modo relacionado ao todo, ou ao filosofia, devemos deixar aberto também um outro lado:
bem, ou a ambos, porém não mais sob a forma do saber. é perfeitamente [12] pensável que não haja, o limite
Falar de uma fundamentação privilegiada fora da nítido, pressuposto nas determinações feitas até aqui
dimensão do saber não teria sentido algum, pois falar em entre a filosofia e as ciências particulares.3 Disso tratarei
fundamentação remete, com efeito, essencialmente a um na seção seguinte. Mas, no que concerne agora à
saber ou opinar e isso, tal como é compreendido, seria,
fora dessa região, desprovido de qualquer sentido. Resta,
no entanto, a possibilidade de que ao menos duas das 3A frase correspondente do manuscrito alemão é a seguinte: “es ist ja
durchaus denkbar, dass es nicht die in den bisherigen Bestimmungen
regiões até aqui mencionadas: a referência ao todo e a
vorausgesetzte scharfe Grenze zwischen der Philosophie und den
referência ao bem, não mais sejam entendidas como Einzelwissenschaften gibt” (nota do tradutor).
fronteira com a religião e a arte, penso que existem fortes o que distingue a ambas da arte. O critério lingüístico do
razões para não a deixar aberta. Em todo caso, é “tomar algo por verdadeiro” é o fato de se exprimir em
importante dar-se conta do que está em questão aqui. enunciados (Aussagesätze). Distinguimos enunciados de
A problemática no tocante à religião e à arte tem outras frases, como por exemplo, frases imperativas ou
que ser tratada, sem dúvida alguma, separadamente. frases optativas, por estarem associados a uma pretensão
Começarei pela religião. A religião e o mito, por um lado, de verdade. O suporte gramatical normal de uma frase
e filosofia, por outro, estão de fato muito próximo um do declarativa é a chamada frase indicativa, uma frase
outro, mas exatamente por isso eles me parecem através da qual dizemos: é assim e assim, e com cada um
incompatíveis. Depois que todas as determinações destes “é assim” exprime-se uma pretensão de verdade.
conceituais que mencionei até aqui caíram de certo modo Ora, é característico de um enunciado e do “tomar algo
no vazio, não tendo ficado de modo algum visível por como verdade” nele expresso que possamos indagar por
que se deva abraçar um empreendimento assim definido, sua fundamentação, [13] ou legitimação. Isso está
denominado filosofia, esbarramos então com a questão relacionado com a sua pretensão de verdade. A
da motivação, que também está ligada à gênese histórica fundamentação é precisamente o que legitima a
da filosofia. Aquilo que denominamos filosofia e ao qual pretensão de verdade.
se referem as determinações conceituais mencionadas até Com isso, chego a um complexo de problemas que
agora surge, como se sabe, na Grécia dos séculos VI e V ainda nos ocupará consideravelmente, em seus detalhes.
a.C., em um processo de emancipação a partir do mito e Conforme a pessoa que toma algo por verdadeiro e
da religião. Como constitutivo do mito e da religião profere um enunciado correspondente também possa
pode-se certamente considerar o que gostaria de fundamentá-lo suficientemente ou não, dizemos que a
designar como crença, sendo que entendo crença, não no pessoa em questão não apenas opina, mas sobe o que
sentido, que é na religião igualmente importante, de ter toma por verdadeiro. Eu acho, por exemplo, que há um
confiança,4 mas, sim, no sentido de um “tomar por camundongo na cozinha. “Você acha apenas ou sabe
verdadeiro”5 específico, a saber: um assentimento que disso?” podem retrucar. Eu posso então responder:
não pode ser recolocado em questão.6 O “tomar algo por “Bem, saber eu não sei, há apenas alguns indícios disso, e
verdadeiro” é o que a crença e a ciência têm em comum e também que haja tais indícios, sei disso apenas por
minha mulher, e ela pode ter mentido ou ter-se
4 No alemão há uma única palavra para designar crença e fé, a saber: enganado.” Mas posso também responder: “Claro, eu
Glaube. O que Tugendhat aqui designou como crença no sentido “de mesmo vi o camundongo, não apenas acho, mas sei
ter confiança” é o que em português designamos como fé. (N.tr).
5 Fürwahrhalten (literalmente: “tomar por verdadeiro”) é o termo
disso”. Neste caso a percepção é acrescentada como um
correspondente em alemão para o termo latino assensus, em fundamento. Ou eu posso dizer: “Embora não tenha
português: assentimento, a saber: o assentimento dado à pretensão de visto o camundongo, os indícios deixam bem claro que
verdade erguida para uma proposição no juízo ou asserção. (N.tr.) não poderiam ser causados por nada senão um
6 Nicht zu hinterfragend, literalmente: que não admite um
camundongo”; neste caso o fundamento é indireto, mas
questionamento regressivo. (N.tr)
ao mesmo tempo suficiente, e eu direi: “É claro que não
apenas acho isso, eu sei.” Esse estado de coisas religiosamente. Em contraposição, comporta-se
fundamental pode ser descrito também dizendo que filosoficamente, em face dos mesmos conteúdos, quem
todo enunciado, segundo o seu sentido, pode ser não aceita como fundamentação última a fundamentação
verdadeiro ou falso, caso contrário não seria informativo. oriunda de uma instância particular que diz ser assim,
E ligado a isso está o fato de estar sempre envolto em mas insiste em que este conteúdo (tanto quanto todos os
uma aura de possíveis dúvidas. O que fazemos quando outros que são afirmados como verdadeiros), quando
fundamentamos uma opinião ou uma proposição (Satz) é não deve ser colocado em dúvida, deve poder ser
eliminar a dúvida, e por isso dizemos então que ao fundamentado por nós mesmos. Esbarramos aqui na
menos pensamos não poder mais duvidar, que estamos relação entre esclarecimento e emancipação que Kant
certos dela, que a sabemos. destacou em seu pequeno escrito: O Que é Esclarecimento?
Retornemos ‘então ao “tomar por verdade” Vocês talvez conheçam a famosa passagem com a qual o
especificamente religioso. Eu o caracterizei antes como artigo começa:
crença. A palavra crença é ambígua. Algumas vezes a
empregamos praticamente no mesmo sentido que “O esclarecimento é a saída das pessoas de sua
opinar; eu poderia então ter dito: “Creio que há um menoridade, da qual é ele próprio culpado. A
camundongo em minha cozinha”. Mas quando falamos menoridade é a incapacidade de servir-se do
de uma crença religiosa não temos em mente apenas, entendimento sem o governo de outrem. O homem é o
próprio culpado dessa menoridade quando a causa da
como há pouco, uma opinião não suficientemente
mesma não está na falta de entendimento, mas na falta de
fundamentada, de tal sorte que ela, como em geral ocorre decisão e de coragem para se servir do entendimento sem
com as demais opiniões, nos convida a colocá-la em o governo de outrem. Sapere aude! Tem coragem de
dúvida, mas, sim, uma opinião que em si poderia servir-te de teu próprio entendimento, é, pois, o lema do
colocada em questão, mas acerca da qual não se admite esclarecimento”.
dúvida. Nós nos fiamos nela como se já constituísse um
saber, um saber baseado na autoridade. O que se crê Com o conceito de menoridade acertamos bem no
neste sentido vale como fundamentado, porque é alvo o estado de coisas acima descrito. O conceito
apresentado como verdadeiro por uma autoridade da jurídico de menoridade segundo o qual as pessoas
qual não é lícito duvidar. Pode-se chamar a essas abaixo de uma determinada idade não são consideradas
autoridades intangíveis de sagradas. O contraste de que juridicamente capazes, necessitando de um tutor, remete
precisamos aqui entre a religião e a filosofia não consiste para o conceito psicológico de menoridade utilizado por
em que a religião se refira a algo de divino; o contraste Kant, que é, portanto, suposto quando não consideramos
não reside no conteúdo daquilo que é tomado por que alguém tenha desenvolvido entendimento e
verdadeiro, mas, sim, na maneira de tomar por capacidade de julgar suficientes para que possa tomar
verdadeiro. Quem toma determinadas coisas por por si próprio as decisões de sua vida e, isso quer dizer:
verdadeiras porque foram transmitidas por uma tradição com autonomia. Como uma menoridade, da qual somos
ou [14] revelação sagrada intangível comporta-se nós mesmos culpados descreve Kant aquela forma de
menoridade que não advêm de incapacidade, mas, como característica geral da sociedade humana antes da
diz Kant em seguida, do comodismo. Ora, enquanto o ocorrência do esclarecimento que sua coesão seja
conceito jurídico de emancipação pressupõe apenas que mantida por um saber-entre-aspas que está de algum
alguém tenha a capacidade de incluir, em suas reflexões, modo referido ao todo do mundo e, ao mesmo tempo, ao
as conseqüências que o rompimento das normas bem. Esse saber-entre-aspas tem o caráter anteriormente
jurídicas acarretam para ele, o conceito fundamental de mencionado da crença. Trata-se, pois, de um “tomar por
emancipação psicológica, que está relacionado à idéia do verdadeiro” que na prática atua como um saber.
esclarecimento é mais abrangente, porque ele pressupõe Julgamos poder confiar nele sem questionamento, mas,
que o indivíduo esteja em condições de, e preparado distintamente daquilo que cotidianamente chamamos de
para, colocar em questão também a fundamentação saber, ele não se apóia em uma fundamentação, mas,
intrínseca (innere Begründetheit) das normas dadas de sim, em uma autoridade. Não é um saber que tenha
antemão, quer se trate de normas jurídicas, quer morais, passado pela dúvida; ao contrário, a dúvida não é
e isso quer dizer: não aceitá-los como válidos ou bons consentida. Ela é indevida, pecaminosa. O
com base em autoridades aceitas de antemão. O que esclarecimento é então o rompimento com esta sujeição à
Kant aqui descreve como esclarecimento caracteriza autoridade; ele é, pois, a proclamação da autonomia
precisamente o ocorrido na Grécia nos séculos VI e V intelectual dos homens, e isso significa concretamente o
a.C., quando o que então foi denominado filosofia se seguinte: já que aparentemente não podemos existir sem
destacou em face da atitude mítico-religiosa. Em sua de algum modo saber como nos relacionar ao todo e ao
coletânea Conjectures and Refutations, Karl Popper bem, somos levados agora a reivindicar também para o
ressaltou, no artigo sobre os pré-socráticos, ao meu ver saber acerca daquilo que até então se encontrava sob a
com razão, como característica da [15] primeira escola de guarda da crença exatamente os critérios de
filosofia em Mileto, que ela justamente não era uma fundamentação que sempre valeram para o saber
escola no sentido usual do termo até então, a saber: no cotidiano. E agora se diz: ou podemos também alcançar
sentido da transmissão de uma sabedoria, mas no um saber autônomo, fundamentado, a respeito desses
sentido de um processo de crítica e exame. O que, em estados de coisas fundamentais, ou compreenderemos
termos de conteúdo, nos foi deixado por esses primeiros que tal saber era um saber aparente, e aí teremos de ver
filósofos são teses que dizem respeito sobretudo à como será possível seguir vivendo sem esse saber; um
estrutura da totalidade da natureza, e a isso retorno consciente à menoridade não existe, há quando
provavelmente desde muito cedo se associavam também muito um retorno inconsciente. O que naquela época
questões que dizem respeito ao Direito e à Moral. Esta é surgiu entre os gregos é o que chamamos
a questão, anteriormente mencionada, acerca do bem, e retrospectivamente de ciências particulares e também o
essa questão passou então a ser central, no século VI, que chamamos de filosofia em sentido estrito. De ambos
com os chamados sofistas, logo com o esclarecimento os lados vê-se radicalizado e universalizado o que já era
grego propriamente dito e com Sócrates. A situação também cotidianamente chamado de saber nas
histórica parece ser, pois, a seguinte: parece ser uma sociedades míticas. Um tal processo de radicalização e
universalização apresenta as seguintes caraterísticas: (1) correta seria então, como foi dito, ver como se pode viver
o saber passa a ser buscado de maneira sistemática e com base nesse reconhecimento.
independentemente de contextos tecno-práticos Ao tratar da delimitação com a religião, eu havia
particulares; (2) a passagem pela dúvida é explicitamente partido da questão se devemos estabelecer para a
buscada, ou seja, o aspecto crítico já pertencente ao filosofia que esta deva ser um saber. As reflexões que
sentido cotidiano do saber é reconhecido agora como percorri até agora mostram que, de todo o modo,
fundamental para a aquisição sistemática de saber; (3) devemos qualificar essa determinação da filosofia como
essa idéia do saber vê-se agora também estendida ao [16] saber, principalmente quando se é de opinião que a
domínio da crença. O surgimento daquilo que chamamos fronteira com a crença não deve ser deixada aberta. A
ciência em geral, portanto, das assim chamadas ciências delimitação com a crença mostrou que não é possível
particulares e dessa ciência especial, a filosofia, apreender o que é o característico da ciência dizendo
aconteceu, pois, de forma mais ou menos simultânea. apenas que se trata de um saber. O que temos em mente
O que no começo da história da filosofia não estava é bem mais a aspiração crítica ao saber, a pergunta pela
claro, mas hoje se tornou mais claro, é que a filosofia se fundamentação, ou como Sócrates classicamente
encontra propriamente em um domínio intermediário formulou, a capacidade do lógon didónai - em latim
peculiar. Quanto ao conteúdo, está mais voltada para o traduzido por rationem reddere, prestar contas, ou seja, a
que pertencia ao domínio da crença; mas, quanto à sua capacidade de realmente fundamentar o que se supõe
forma está tão orientada para o saber natural como as saber. É esse aspecto, o qual, é verdade, já se encontra no
ciências particulares. E a questão é, pois, saber se, acerca conceito natural de saber, que se desloca para o centro no
dos temas especificamente filosóficos, que se encontram interesse explícito pelo saber, saber que está dado com a
além das ciências particulares, é de todo possível chegar formação de algo como uma ciência. Isso deve ser
a um saber. A dúvida se, afinal, pode haver um saber destacado porque acabamos de ver que também a crença
acerca do todo e do bem, e isso quer dizer, se de todo pode ser descrita como um saber-entre-aspas; porque a
pode haver um saber especificamente filosófico, tem crença, embora não possa prestar contas com autonomia
desde sempre acompanhado a filosofia. Poder-se-ia daquilo que se crê, na prática atua como um saber. Desse
pensar que esta possibilidade, que talvez aqui não haja modo, a diferença decisiva com relação à crença só se
nada para se conhecer, fosse uma razão adicional para deixa manifestar expondo-se à dúvida, e a isso está agora
deixar aberta a fronteira com o mito. Mas creio que isso também relacionado o fato de que a dúvida possa se
seria um equívoco. Acabo, precisamente, de dizer que revelar insuperável.
não vejo bem como alguém possa, conscientemente, [17] Nesse caso, o saber a ser alcançado consistiria
retornar à crença. Mas quer seja possível quer não, isso tão somente em saber que não sabemos A maioria de
em todo caso não se segue do reconhecimento de que vocês saberá que esta era a concepção que Sócrates tinha
nada sabemos sobre tais coisas no sentido natural e, da filosofia, tal como é descrita de maneira
talvez, até mesmo nada possamos saber, ou ainda, de particularmente explícita na Apologia de Platão, mais
que talvez não haja nada para se saber. A conseqüência especificamente, na defesa judicial de Sócrates. Aí,
Sócrates apresenta a tarefa de sua vida interrogando seus de fazer uma importante observação metodológica que
concidadãos (que acreditavam todos eles saber algo vale de modo muito geral para maneira de fixar os
sobre as coisas essenciais da vida) acerca dos limites de um conceito. A questão quão ampla ou quão
fundamentos de seu pretenso saber, exigindo deles lógon estreitamente empregamos uma palavra não é nunca
didónai, ficando claro todas as vezes que eles apenas uma questão acerca da verdade. Não se pode nunca
acreditavam saber, mas, como não podiam fundamentar dizer: é falso chamar isto ou aquilo de filosofia; pode-se
o que diziam, na realidade não sabiam, enquanto ele, apenas dizer: é falso chamar isto ou aquilo de filosofia, se
Sócrates, ao menos sabia que não sabia. O que é o conceito de filosofia foi fixado como tal e tal. O que
apresentado na Apologia de Platão é o embate entre a deve ser exigido é unicamente que se preste contas com
pretensão de saber filosófica autônoma e o saber exatidão do modo como se emprega uma palavra, logo,
tradicionalista baseado na crença, e o fato de que essa do modo como o conceito é fixado, e como se tem clareza
atividade de Sócrates tenha levado à sua condenação à acerca do modo pelo qual essa maneira de fixar conceitos
morte é bastante coerente, pois um Estado fundado sobre se relaciona com outras maneiras possíveis. Cada qual é
a crença se vê solapado em suas bases normativas, naturalmente livre para compreender a palavra filosofia
quando o que se crê acerca do bom e do justo passa a com tal amplitude [18] que ela não permaneça limitada
poder ser colocado em dúvida e a exigir fundamentação. ao saber fundamentado, mas possa abarcar também a
À concepção socrática está associada também a crença baseada na autoridade, e é até mesmo um fato
significação especial que Platão fornece à palavra histórico a existência, por exemplo, de filosofias cristãs.
filosofia em seus primeiros diálogos: filosofia significa Quando essa extensão não é permitida, como eu faço, é
“amor à sabedoria”, e sua tese é a de que nós, seres porque considero esta fronteira especialmente
humanos, apenas com referência ao bem podemos importante. Creio que quem a suprime passa por cima
aspirar ao saber, portanto, a sabedoria. Esta não era, por de uma decisão sem tê-la propriamente tomado. Trata-
exemplo, a concepção de Hegel; já Husserl situou-se, em se, é o que me parece, de duas atitudes
certo sentido, no meio. A idéia de uma ciência universal, fundamentalmente diferentes, e se alguém não reconhece
a partir de uma fundamentação absoluta, era para ele aqui a fronteira, isso redunda em reconhecer critérios de
uma mera idéia que não se podia realizar fundamentação para uma parte de seus enunciados e
completamente, mas da qual poderíamos nos aproximar para outra não. Talvez esta seja uma posição possível,
passo a passo. Creio que deve ter ficado plausível que mas então seria necessário ao menos ter clareza acerca do
devemos conceber nosso conceito de filosofia de maneira ponto em que a fronteira é transgredida, e por este
suficientemente abrangente, de forma a englobar todas motivo faz sentido traçá-la nitidamente. Parece-me ao
essas diferentes concepções acerca da questão se, e até menos estar claro que não há aqui, em todo caso, uma
que ponto, um saber nesse domínio é possível. transição contínua. No contexto desta preleção tenho,
Devo tirar agora uma conclusão acerca da questão contudo, ainda uma razão adicional para traçar
sobre o sentido de deixar aberta a fronteira com a nitidamente essa fronteira: nossa questão aqui diz
religião, a crença e o mito. Antes de mais nada, gostaria respeito aos possíveis métodos da filosofia e, para a
crença, é constitutivo que ela não siga método algum, ambas são modos de tomar por verdadeiro. Essa
exatamente porque ela não é um modo de conhecimento, característica [19] se manifesta lingüisticamente na
mas simplesmente toma suas verdades de uma medida em que ambas se exprimem em enunciados.
autoridade. Na medida em que, nesta preleção, quero Aqui há portanto um comportamento genuinamente
indagar pelos possíveis métodos de filosofia, quero concorrencial, que será percebido de forma mais clara em
compreender essa palavra no seu sentido mais próximo, relação aos enunciados morais. Um mesmo enunciado
qual seja, como métodos de fundamentação. Já indiquei moral, por exemplo, “não se deve matar”, pode ocorrer
que o problema especial da filosofia, diferentemente das em um texto religioso e também em um filosófico, e aqui
ciências particulares, consiste em que, logo à primeira então se defrontam, rudemente, a legitimação religiosa
vista, não está claro como se pode afinal fundamentar (Deus ordenou) e a fundamentação natural, autônoma. A
enunciados que, de alguma maneira, visam o todo e o arte, ao contrário, não consiste absolutamente em um
bem; isso, de acordo com o que foi dito, quer dizer “tomar algo por verdadeiro”, e isto se manifesta mais
precisamente indagar se nesse domínio é possível um uma vez lingüisticamente na medida em que esta não faz
saber no sentido natural. A questão se a filosofia tem um enunciados. Para as artes não-lingüísticas, isto se
método é, portanto, idêntica à questão: como se pode compreende por si mesmo. Na arte que se expressa
fundamentar enunciados filosóficos, e isso redunda na lingüisticamente, na literatura (Dichtung), é verdade que
questão: como é, de todo, possível a filosofia? Esta ocorrem enunciados, mas no gênero literário, ou em tudo
questão perderia o seu sentido se a colocássemos para a aquilo que inequivocamente mereça esse título: o
crença, simplesmente porque a crença não ergue romance, a novela, a epopéia, os enunciados não são
pretensão alguma de fundamentação. Se alguém adotar visados singelamente, mas com uma modificação na
um conceito de filosofia que abarca também enunciados - fantasia ou uma quasi modificação. O escritor não
ou seja, um “tomar algo por verdadeiro” - que não exprime com seus enunciados nenhuma opinião, ele não
erguem qualquer pretensão de fundamentação, não diz: é assim, mas descreve possibilidades. Seria,
precisaremos brigar por palavras: ele admitirá que a portanto, um equívoco acerca do que supomos ser um
questão que aqui está sendo colocada, acerca das texto literário se envolvêssemos o autor em
possibilidades de fundamentação de enunciados argumentações acerca da verdade de suas frases
filosóficos, só é relevante para aquela parte de seu enunciativas. Um escritor apresenta algo que não carece
conceito amplo de filosofia que coincide com o meu nem é passível de fundamentação. Embora também ele
conceito de filosofia em sentido estrito. tenha a.ver com questões acerca do bem viver, não faz
E o que dizer agora da fronteira com a arte? Há sobre isso nenhum enunciado e, por conseguinte, não se
pessoas que pensam que não se deve traçar entre a coloca em uma relação de concorrência com um texto
filosofia e a arte nenhuma fronteira nítida. Eu considero religioso ou filosófico. Enunciados morais podem ser
isto falso. A fronteira com a arte é muito mais clara do fundamentados religiosamente por recurso a uma
que a com a crença. A dificuldade de traçar uma autoridade; e podemos também tentar fundamentá-los
fronteira entre a filosofia e a crença consistia em que filosoficamente, portanto, naturalmente, mas não podem
ser fundamentados artisticamente, e isso, simplesmente, como Husserl ou Hegel que vão até mesmo além e
por não estar implicado no sentido da linguagem propõem uma idéia de filosofia, segundo a qual ela não
artística. Porque aqui não se encontra nenhuma relação se distingue das ciências apenas por possuir um tema
de concorrência, alguém pode tanto filosofar como especial, mas também pelo fato de fundamentar seus
escrever literatura, só não pode fazê-lo ao mesmo tempo. enunciados ou de uma maneira superior ou mais radical,
A atitude “autoritativa” e a argumentativa, a “crente” e a ou de uma outra maneira, absoluta, qualquer que seja o
filosófica se excluem mutuamente porque elas, ao menos sentido deste termo. Tomemos isso tão somente como
em parte, possuem o mesmo tema, fazem os mesmos uma tese possível. Nosso problema deve ser como a
enunciados, mas frente aos mesmos se comportam de filosofia pode fundamentar, em geral, as questões por ela
forma distinta. O artista, ao contrário, não fundamenta levantadas. Será que de todo há - assim deve ser
nada, não porque ele, tal como o crente, tenha banido a formulada a questão - métodos filosóficos específicos,
dúvida, mas porque ele tem a ver com uma matéria que portanto, modos de fundamentação específicos? Esta é a
de modo algum incita a dúvida, no sentido teórico desse questão mais geral e abarca a questão acerca da
termo. existência de modos de fundamentação filosóficos que
Talvez esse contraste seja problemático, mas, de sejam também de algum modo ainda mais rigorosos ou
todo o modo, parece-me valer para a delimitação com a superiores aos das demais ciências.
obra literária (Dichtung) o mesmo que para a delimitação O que quero fazer neste curso é examinar as
com a crença, a saber: que uma delimitação nítida faz diferentes noções de métodos filosóficos particulares
sentido - ao menos no contexto da questão que está quanto a sua plausibilidade. A noção de que existe um
sendo discutido nesta aula porque tanto na arte como na modo de fundamentação filosófico particular implica
crença, ainda que por razões distintas, não há uma que a filosofia paire, de alguma maneira, acima das
questão de fundamentação. ciências particulares. Quando consideramos como
[20] Aqui mais uma vez posso dizer: também aquele característica das ciências particulares, à exceção da
que tem em vista uma filosofia literária, não pode colocar matemática, serem todas elas ciências empíricas, e isso
para este tipo de filosofia a questão de como quer dizer, que elas fundamentam seus conhecimentos
fundamentar seus proferimentos, pois, se erguesse mediante a experiência, isso deveria, então, significar
enunciados com uma pretensão de fundamentação, que de alguma maneira existe um domínio de
então já se trataria de filosofia, no que chamei sentido conhecimentos aquém ou além da experiência, o que,
estrito do termo, e não de uma obra literária. Insisto, naturalmente, nos soa extraordinariamente estranho. Há
portanto, em situar a filosofia, tal como parece ter sido boas razões para suspeitar que esse domínio filosófico
quanto ao conteúdo definida por diferentes filósofos, no especial não seja senão um resíduo secularizado da
círculo do pensamento científico, com as pretensões de origem religiosa da filosofia. Por um lado, deve tratar-se
fundamentação características para o conceito natural de de um saber autonomamente fundamentado, mas, se
saber. nesse saber filosófico, por oposição à crença religiosa, o
Ora, vimos anteriormente que existem filósofos sentido natural de saber deve se fazer valer, devemos
ser, então, levados a pensar que aquilo que designamos dificuldades. Devemos também ser céticos em face dos
no sentido cotidiano como saber é sempre um saber céticos. Assim, se coloca imediatamente a questão acerca
empiricamente fundamentado. Por conseguinte, sempre do sentido dos enunciados feitos pelos próprios filósofos
houve na filosofia moderna tendências que contestavam céticos e por eles reclamados como verdadeiros. Como se
a possibilidade de um saber filosófico específico. O fundamenta, por sua vez, o enunciado de que todos os
primeiro e mais significativo filósofo a defender esse enunciados dotados de sentido se fundam na
ponto de vista foi David Hume. Há, segundo Hume, experiência? Esse enunciado não pode ser, por sua vez,
apenas duas espécies de saber legítimo: primeiro, saber considerado como uma questão empírica. Além disto,
empírico e, segundo, o matemático. A princípio, a [21] surge imediatamente a questão: o que devemos então
mesma concepção foi defendida no nosso século pelo entender por experiência? Será que a questão: “o que
positivismo lógico, ensinado no assim chamado Círculo devemos entender por empiria?” é ela própria uma
de Viena formado em torno de Schlick e Carnap, no questão empírica? Tanto Hume quanto o positivismo
início da década de trinta - os mais importantes lógico certamente fizeram suposições sobre o que
manifestos dessa escola aparecem nos dois primeiros significa examinar empiricamente um enunciado. Como
volumes da revista Erkenntnis. Por positivismo proposições empíricas mais elementares foram
compreende-se em geral que apenas o chamado saber consideradas proposições acerca de nossos chamados
positivo, e isso deve significar: saber empírico, seria um dados sensíveis. Proposições, portanto, com conteúdo do
verdadeiro saber. O novo positivismo denomina-se tipo: “agora tenho uma representação de amarelo”.
positivismo lógico porque concebe que a lógica, embora Frente a isso, defendeu-se nesse ínterim, de uma maneira
não sendo empírica, consista apenas de tautologias. A bastante geral, a concepção segundo a qual as
matemática seria, por sua vez, fundada completamente proposições empíricas elementares não são as
na Lógica. Deste modo resulta, como em Hume, que proposições de cada indivíduo sobre os conteúdos de
existem apenas duas espécies de conhecimento: o suas percepções, mas sim enunciados acerca de objetos
analítico da lógica e da matemática e o empírico das intersubjetivamente perceptíveis em um sistema espaço-
ciências da experiência. temporal objetivo. Nosso problema aqui não pode
Se quisermos nos orientar acerca da questão se consistir em examinar qual destas concepções é a correta,
existe a possibilidade de enunciados especificamente mas o que importa é ver que já a tese de que haja apenas
filosóficos e de uma espécie de fundamentação um saber lógico-matemático e um saber empírico é, em
especificamente filosófica, deveremos em certo sentido certo sentido, contraditória, posto ser ela mesma um
nos situar entre essa posição cética e a tese segundo a enunciado que não é nem lógico nem empírico e que,
qual existem fundamentos particularmente filosóficos, além disso, enseja [22] outras questões, como a questão:
tal como a encontramos na Fenomenologia de Husserl e “o que significa então experiência, e o que significa um
no Idealismo Alemão em Fichte e Hegel e, finalmente, saber fundamentado de acordo com a experiência?”.
também em Kant. A posição cética é à primeira vista Deste modo, torna-se evidente que, juntamente com o
muito sedutora, mas já em um segundo olhar surgem estabelecimento das chamadas ciências particulares, um
determinado todo é pressuposto - precisamente o todo perspectiva indicada acima também encerra suas
da experiência científica - que dessa maneira, ainda não dificuldades. Não está claro como podemos de todo
estava de modo algum presente, ao menos conservar as questões filosóficas enquanto tais se as
explicitamente, no todo dado desde sempre na vida abordamos empiricamente. Eu digo apenas: não está
mítica pré-científica. A filosofia não assume claro, não afirmo que não seja possível. Já a investigação
simplesmente, numa nova abordagem, a perspectiva empírica filosoficamente relevante carece ela mesma,
para o todo que estava dado de antemão na vida mítica, manifestamente, de uma orientação filosófica, e isso
e que, de acordo com a sua concepção, só poderia ser parece mais uma vez pressupor que haja, sim, algo como
objeto de uma crença. Algumas coisas escapam; outras, uma reflexão especificamente filosófica que se distinga
através de um modo de acesso especificamente científico, da investigação das ciências particulares.
fazem-se notar pela primeira vez e o que certamente Com isso nomeiam-se questões que se tornam
permanece, ainda que eventualmente com um novo especialmente candentes, caso se mostre que não existe
sentido, é a perspectiva para o sentido da vida, para o um domínio propriamente filosófico. Nessa direção
bem. Devemos entender com isso que o positivismo posso, nestas preleções, fornecer algumas perspectivas;
lógico não possa ser de modo algum sustentado e que primeiro, porque eu mesmo não possuo uma concepção
exista, sim, um domínio do conhecimento próprio à clara; segundo, porque a própria tarefa destas preleções,
filosofia? Isso teremos que examinar. Já agora gostaria de entendidas como lições para [23] introdução e orientação,
sugerir uma possibilidade que imediatamente nos deve consistir em uma discussão crítica das idéias
ocorre: posto que nós, seres humanos, somos, nós existentes acerca de possibilidades autônomas de uma
mesmos, objeto da ciência empírica, ocorre-nos se fundamentação filosófica distinta das ciências
também tais questões que acabo de mencionar - a particulares.
questão acerca da essência da experiência científica e,
isso quer dizer, da experiência humana em geral - não
devam, por sua vez, cair sob a competência de
determinadas ciências empíricas. A questão acerca da II
essência da experiência humana e tudo a ela relacionado
poderia ser tema da psicologia e da biologia. A questão O que procurei fazer na seção anterior foi,
acerca do bem poderia ser tema das ciências empíricas sobretudo, distinguir a filosofia da religião por um lado e
da cultura. Há atualmente até mesmo muitas pessoas por outro da arte. A necessidade dessa distinção
que consideram isso óbvio, de tal modo que, por fim, resultava de que as três, filosofia, religião e arte, de
toda necessidade de um método de fundamentação alguma forma se referem ao todo, seus meios, porém, são
propriamente filosófico seria suspensa. Eis aqui a razão distintos. A filosofia pertence à ciência, ela é, em certo
por que temos que evitar partir de uma concepção de sentido, ela mesma ciência, e isso quer dizer, está
filosofia que de antemão trace uma nítida fronteira entre referida à verdade, aliás à maneira de uma
a filosofia e as ciências particulares. Com certeza, a fundamentação. Seu meio é o questionamento e, por isso
mesmo, a dúvida e, seu procedimento, uma vez que ele semelhante designação de um domínio de objetos. Ou
consiste em indagar pela razão de ser, é argumentativo e devemos dizer acerca da filosofia que ela visa a
metódico. Seu meio é de tal forma a dúvida que totalidade, que seu domínio de objetos é precisamente o
permanece em aberto se nós na filosofia de todo saímos mundo? Mas o que estaríamos querendo dizer com “o
da dúvida, do saber de que não sabemos. O contraste mundo”? Há um filósofo moderno que [24] começou
entre a religião, por um lado, e a arte, por outro, e o exatamente com um enunciado sobre O Mundo, a saber,
pertencimento da filosofia à ciência tornam obrigatório a Wittgenstein em seu Tractatus, e a maioria dos filósofos
análise da distinção entre a filosofia e as ciências, e tal pré-socráticos procederam da mesma forma, na medida
será o tema da aula de hoje. Assim como a distinção da em que seu tema era descrito como sendo o mundo - ho
filosofia relativamente à religião e à arte está ligada à kosmos - ou, o que para eles significava o mesmo, a
proximidade da filosofia relativamente à ciência, assim natureza - he physis. Nesse conceito de “o mundo” parece
também a necessidade de distinguir a filosofia das estar contida uma opção prévia por aquilo que também
ciências está, inversamente, ligada ao aspecto que a denominamos natureza, ele também parece não abranger
filosofia, a religião e a arte têm algo em comum, a saber, sem mais o mundo dos seres humanos, e, assim se deu
o fato de que nelas de algum modo sempre se trata da que o termo “o mundo”, embora pudesse aparecer como
vida em seu todo. Deixei esse conceito do todo na vez o mais abrangente, mais uma vez não foi suficientemente
passada muito indeterminado, e ele só pode ser aclarado abrangente. Eis por que, em geral, a filosofia não tem se
tematizando-se a distinção entre a filosofia e o que muito orientado por esse termo.
significativamente chamamos de ciências particulares, e, Partamos mais uma vez dos domínios particulares
mais uma vez, devemos estar preparados para enfrentar das ciências. Poder-se-ia então perguntar: será que a
o fato de que aqui existem diferentes concepções. É ciência particular tematiza também enquanto talo
muito mais fácil dizer em que medida as ciências domínio no qual ela pesquisa? Será que a física indaga
particulares têm a ver com domínios parciais do que acerca da natureza como natureza, a história da arte
determinar o que deve se estender além desses domínios acerca da arte como arte e a matemática acerca da
particulares de modo a constituir precisamente o essência dos objetos matemáticos? Sobre essa questão
domínio da filosofia. Quando se pergunta a propósito de talvez se possa disputar, mas também há coisas como a
uma ciência particular: o que é a física, a biologia, a filosofia da natureza, a filosofia da arte, a filosofia da
sociologia, a arte, temos a possibilidade de apontar para matemática. Estamos, pois, aqui às voltas com um
um domínio de objetos, a natureza inanimada, a vida, as domínio limítrofe entre a ciência particular e filosofia.
relações sociais, os produtos da arte e sua história etc. Mas, então, poderíamos dar também um passo adiante.
Com isso, naturalmente, ainda não se disse muito, seria O que não é mais tema de qualquer ciência determinada
necessário agora dizer alguma coisa sobre a perspectiva é aquilo que é comum a todos os domínios de objetos, e
na qual semelhante domínio de objetos é tematizado, poder-se-ia dizer então que este seria o domínio temático
bem como o método, mas de qualquer modo isso já é um primeiro da filosofia. Mas será que existe tal coisa? Sim,
começo. Na filosofia não podemos sequer começar com isso parece realmente existir. Tomemos, por exemplo, o
próprio conceito de objeto. Há objetos da física, objetos todo. Desde que tomou consciência disso, ou seja, desde
da matemática, mas o que é então comum a eles, o que é a concepção abstratizante de Aristóteles, a filosofia tem
um objeto enquanto objeto? Assim, chegamos à maneira se socorrido na medida do possível com o fato de ter
pela qual Aristóteles determina aquilo que caracterizou passado a existir então as duas coisas: uma filosofia
como “filosofia primeira”. Ele não utiliza a palavra teórica que se ocupa com as determinações mais
objeto, mas sim a palavra ente (Seiendes). Tudo o que é é, universais dos entes e uma filosofia prática que está
precisamente; ou seja, é ente (seiend). A primeira questão referida ao dever.
da filosofia é, portanto, segundo Aristóteles: o que é o Façamos agora mais uma amostragem com um
ente enquanto ente, em outras palavras, o que devemos filósofo clássico. Tomemos Kant. Também em Kant se faz
entender quando se diz que algo em geral é. E Aristóteles uma distinção entre filosofia teórica e prática. Quero,
acrescenta: e também tudo o mais que pertence ao ente porém, referir-me a algo diferente, ao modo como Kant
enquanto ente. Com esse “tudo o mais” Aristóteles tem dá o salto a partir das ciências particulares. Embora, para
em mente os demais conceitos que são igualmente tão Kant, a filosofia teórica como um todo não se esgote por
universais, que não pertencem ao domínio de objetos de inteiro nessa caracterização, pode-se dizer que o que
uma ciência especial. Conceitos como, por exemplo, para Aristóteles era a questão do ente enquanto ente,
identidade ou verdade ou a oposição entre possibilidade portanto, a ontologia, se transforma na questão que se
e realidade e necessidade, ou o conceito da relação ou da formula da seguinte maneira: quais são as condições de
qualidade, ou a oposição entre o particular e o geral. É possibilidade da experiência? Neste ponto Kant ainda se
verdade, porém, que também esse equacionamento orienta muito de perto por uma ciência teórica específica,
inicial parece conter uma opção preconcebida, talvez não a saber: pela ciência natural teórica, a física. A física é
pela natureza, mas de qualquer modo certamente pelo para ele a ciência empírica sistemática por excelência. E,
que podemos chamar de mundo da teoria, o mundo agora, Kant leva a cabo em face das ciências empíricas
teórico. Parece, no entanto, faltar aqui a prática, que, um movimento de abstração semelhante ao
como vimos, devia de antemão também estar aí [25] empreendido por Aristóteles com sua questão pelo ente
incluída. Como um indício disso podemos também enquanto ente. Só que esse movimento de abstração
considerar o fato de que se fala da oposição entre o ser e experimenta agora em Kant uma virada mais subjetiva.
o dever ser. Mas, se realmente existe essa oposição, então Ele pergunta: o que significa dizer que algo pode ser um
também o conceito de ser e o de ente não seria, por sua objeto da experiência, e tal é, então, precisamente a
vez, suficientemente abrangente. A opção prévia pelo questão acerca da condição de possibilidade da
teórico nessa concepção de filosofia está naturalmente experiência em geral. No contexto da questão assim
ligada ao fato de que as ciências particulares são na sua definida reaparecem os mesmos conceitos formais que,
totalidade disciplinas teóricas. Por isso, ao nos elevarmos para Aristóteles, pertenciam à ontologia: conceitos como
abstrativamente a partir delas a uma disciplina formal possibilidade e realidade, particularidade e generalidade
geral, não chegamos a nenhum conceito de filosofia que etc.
possa fazer justiça à sua intenção original voltada para o Ora, partindo dessa determinação kantiana da
filosofia teórica ou, em todo o caso, de uma parte da nos assim a possibilidade de compreender o todo ao qual
filosofia teórica, pode-se empreender mais um passo, o a filosofia deve se referir de uma maneira que não é mais
qual se encontra em Husserl. Com efeito, pode-se dizer: a puramente teórica, mas que abarca a filosofia teórica e
experiência científica (e podemos entender por isso todas prática conjuntamente. Aqui, porém, tenho de afastar
as ciências empíricas e não apenas as ciências da dois mal-entendidos. Em primeiro lugar, permanece de
natureza) está alojada, por sua vez, no todo de nossa pé, naturalmente, a diferença entre ser e dever ser; não se
experiência pré-científica; Husserl cunhou para esse todo trata de apagar quaisquer diferenças com fundamento na
de nossa experiência pré-científica o conceito de mundo coisa, mas apenas de ter uma concepção global
da vida (Lebenswelt). Aqui reaparece, portanto, o conceito suficientemente abrangente, no interior da qual tais
de mundo, mas este é agora determinado de tal forma distinções possam então ser feitas. Em segundo lugar, a
[26] que por ele não se entende mais o todo da natureza, filosofia prática por sua vez também é, naturalmente,
mas o todo é agora entendido a partir de nós. Ele teórica. Ela é chamada prática apenas porque seu tema é
compreende o todo da natureza, mas é o todo no qual a prática. Na determinação básica de que a filosofia é
vivemos, por isso, mundo da vida, ele é visto a partir da essencialmente científica, e isso quer dizer, teórica, na
nossa perspectiva, e isso tem por conseqüência que esse qual insisti na vez passada, nada pode alterar-se.
conceito de mundo não deve mais ser primariamente Mas, com essa explicação de que o tema da filosofia
entendido num sentido teórico - o mundo no qual deve ser o mundo da vida, muito pouco ainda ficamos
vivemos não é apenas o mundo factual, mas também o sabendo, Em primeiro lugar, isso de fato, quase não
possível e, sobretudo, não apenas o teoricamente passa de uma mera palavra, e o que eu gostaria de
existente (dos theoretisch Vorhondene), mas também o mostrar no final desta aula é que, por detrás desse título,
sentido (Sinn) a partir do qual nos entendemos - ou no se escondem diferentes possibilidades de decidir se
caso limite negativo, que nos falta. O discípulo de queremos compreender a filosofia antes em uma do que
Husserl, Heidegger, retomou esse conceito de mundo ao em outra direção, Primeiro, é compreensível que se
falar de um estar-no-mundo humano (menschlichen In- pense em ligar essa nova determinação o mais próximo
der-We/t-Sein), e expôs em um curto escrito, Vom Wesen possível à determinação aristotélica da ontologia. Assim
des Grundes, publicado pouco tempo depois de Sein und como na concepção ontológica se trata do aclaramento de
Zeit, um esboço histórico do desenvolvimento do conceitos formais igualmente fundamentais como o de
conceito de mundo, mostrando que já também para os objeto ou de ente, do mesmo modo na concepção atual
primeiros filósofos pré-socráticos o conceito de cosmos também se trataria do aclaramento de semelhantes
era compreendido não apenas teórica, mas também conceitos, só que hoje podemos dizer que estes são
praticamente, e naturalmente essa nuance prática precisamente os conceitos [27] que já estão dados desde
também encontra expressão na idéia kantiana do sempre junto com a nossa vida ou, de forma mais
conceito cósmico da filosofia, mencionado na semana precisa, com o nosso compreender (Verstehen). Essa
passada. abordagem mais subjetiva permite-nos do mesmo modo
O conceito de mundo da vida de Husserl fornece- retomar os conceitos fundamentais da ontologia, só que
agora formulamos isso precisamente de modo a dizer: quisermos evitar este termo técnico pouco familiar
esses conceitos do ente, da identidade, da verdade etc. “mundo da vida”, podemos dizer: são os conceitos que
são conceitos que de algum modo já compreendemos de algum modo já compreendemos desde sempre,
desde sempre. Mas essa abordagem permite-nos agora, Naturalmente, seria um mal-entendido pensar que
justamente, expandir ao mesmo tempo a nossa base de esse conceito só passou a existir depois que Husserl
modo a acolher também os conceitos fundamentais da cunhou o termo “mundo da vida”. Esse termo permite
psicologia filosófica, da teoria da ação e da ética. tão somente introduzir num contexto um pouco mais
Partindo, por exemplo, do conceito de verdade, podemos unitário algo que tem ocorrido desde sempre na filosofia.
dizer agora: a verdade é algo a que estamos dirigidos em Se nos perguntarmos quais eram os temas dos quais se
nossos juízos, assim como nossos enunciados também ocupavam Sócrates e Platão, encontraremos
estão referidos à verdade. Coisas como julgar ou asserir repetidamente a questão: “O que é tal e tal coisa”, onde o
uma proposição são conceitos fundamentais, dos quais objeto dessas questões sobre o-que-é serão sempre
podemos dizer, assim como o conceito de verdade, que conceitos a propósito dos quais Sócrates e Platão sempre
de algum modo já os compreendemos desde sempre. acentuaram que já os compreendemos desde [28]
Mas do mesmo modo como julgar, assim também querer sempre. E em grande medida, se bem que não, de certo,
e desejar; do mesmo modo que enunciar, assim também exclusivamente, isso vale para toda a história da filosofia.
pedir e perguntar. Ou assim também conceitos como A filosofia consiste pois, em grande medida, no
consciência, autoconsciência, razão. Ou ainda: Agir, aclaramento de conceitos. Como vocês bem sabem, eu
intencional idade, responsabilidade. Há ainda os represento em nosso Instituto a filosofia analítica, e vocês
conceitos fundamentais de espaço e tempo, número e podei-iam pensar que o fato de que eu dê tanto peso ao
causalidade que já poderiam ter sido mencionado em aclaramento de conceitos decorre precisamente daí. Em
conexão com a questão kantiana quanto à condição de parte, isso pode ser correto. Mas a peculiaridade da
possibilidade da experiência. filosofia analítica é o peso que a mesma dá à linguagem
Ora, não é um mero acaso que tais conceitos no aclaramento de um conceito recorremos a linguagem
remetam em determinados contextos uns aos outros, e como o meio no qual os conceitos em geral nos são
podemos perguntar se todos eles não estão, de alguma dados. Mas, se abstraímos dessa peculiaridade, pode-se
forma ou de outra, direta ou indiretamente, relacionados aceitar para toda a tradição filosófica que nela se trata,
entre si. Por certo, muitos desses conceitos não se deixam em grande medida, do aclaramento de conceitos. Até
esclarecer sem uma referência a outros, e assim pode-se mesmo, por exemplo, uma obra como o Lógico de Hegel
falar aqui em uma rede de conceitos. tem a ver com o aclaramento de conceitos, naturalmente
Com isso, teríamos agora dado um passo a frente. segundo uma concepção bem determinada, a saber:
Interrogados sobre o tema da filosofia, já poderíamos dialética, do que seja o método adequado de aclaramento
dizer agora algo mais além dessa vaga referência ao conceitual, mas sempre, em todo o caso, aclaramento
todo. Poderíamos dizer: o tema da filosofia não os conceitual.
conceitos que pertencem ao nosso mundo da vida, e se Se isso é correto, resulta daí um peculiar contraste
entre a filosofia e as ciências. As ciências têm a ver com sempre? O que significa este “já desde [29] sempre”
fatos e, eventualmente, com regularidades, também estas (immer schon)? Surge aqui um conceito que desde o início
não passam de fatos, embora fatos gerais. desempenhou um papel de grande importância na
Lingüisticamente falando, em cada ciência se trata de filosofia: o conceito do apriori. Em Kant encontramos
proferir e fundamentar enunciados, na maioria das vezes muito explicitamente a distinção entre conceitos dados a
empíricos, mas até mesmo na matemática se trata de priori e conceitos empíricos. Conceitos empíricos são
proposições, de enunciados. A filosofia, em conceitos que construímos com base em notas
contrapartida, parece que nada tem a ver com características fornecidas pela experiência. Se, agora,
enunciados, mas apenas com o aclaramento de conceitos. porém, no que diz respeito aos conceitos a serem
Há aqui algumas exceções. O princípio da contradição, tematizados pela filosofia, deve se tratar - para me ater à
por exemplo, é um enunciado universal, e Aristóteles formulação de Kant - de conceitos pertencentes às
procurou fundamentá-lo de uma maneira determinada. condições de possibilidade da experiência, estes não
Também na filosofia kantiana encontramos podem ser, por sua vez, adquiridos empiricamente.
determinadas proposições que devem ser Conceitos como verdade ou objeto ou identidade, nós
fundamentadas, tais são as chamadas proposições não os adquirimos a partir da experiência. Mas, se assim
sintéticas a priori, como, por exemplo, a lei da é, então o aclaramento de tais conceitos levanta para nós
causalidade. Isso mostra em que consistiriam ou de fato dificuldades especiais, resultantes do fato de que ainda
consistem as proposições que a filosofia teria ou, em deveremos de alguma maneira aclara-los. Gostaria de
parte, tem por tema. Seriam uma espécie de super-leis recordar aqui as palavras de Santo Agostinho sobre o
(Supergesetze), assim como, precisamente, a lei universal tempo, retomadas em nossos dias por Wittgenstein.
da causalidade (que toda ocorrência tem uma causa) Santo Agostinho disse: “O que é o tempo? Se ninguém
seria uma super-lei em face das leis particulares da me pergunta, eu sei. Mas, se me perguntam, não sei”.
causalidade da ciência natural. Mas o que eu gostaria Isso parece paradoxal. Eu sei e, no entanto, não sei. Mas,
precisamente de dizer é que estas são exceções. Não é nesta frase, Santo Agostinho usa a palavra “saber” em
isto o que em geral acontece na filosofia. Todavia, poder- dois sentidos. O que ele quer dizer é o seguinte: já
se-ia objetar: até mesmo quando se aclaram conceitos, dispomos desde sempre de um conceito do tempo (e,
isso se realiza numa proposição qualquer. Mas esta seria, neste sentido, sei o que é o tempo), mas quando eu devo
então, antes algo como uma definição do que uma lei. Eu explicar o conceito, não “consigo (e, neste sentido, não
digo: “antes algo como uma definição”, pois não está tão sei). Isso parece de fato ocorrer com todos esses conceitos
claro assim como tais aclaramentos conceituais devam dados a priori, e é justamente nisso que eles parecem se
ser estruturalmente pensados, e eu não posso mais aqui distinguir nitidamente dos conceitos empíricos.
entrar em detalhes, sobretudo porque isso difere de Tomemos, por exemplo, o conceito de plutônio. Eis um
acordo com as concepções particulares de filosofia. conceito empírico. Eu pessoalmente, por exemplo, sei
O que então, devemos, compreender afinal por apenas que existe um tal conceito, não sou um físico.
conceitos que, como disse, já compreendemos desde Mas um físico poderia aclarar esse conceito. Se de todo
dispomos de semelhante conceito empírico, também conseguinte, exibindo concretamente um segmento da
podemos aclará-lo. Aqui, pois, deveríamos dizer, filosofia. Mas, no curto espaço de tempo de que
modificando as palavras de Santo Agostinho: Não sei o disponho, só posso apresentar uma espécie de
que é o plutônio, mas se eu soubesse e alguém me panorama.
perguntasse, então eu o saberia também no sentido Gostaria agora de chamar atenção para um outro
estrito de que poderia explicá-lo. problema que está associado a essa idéia de que a
Como tornar inteligível para nós essa distinção? Já filosofia tem a ver com o aclaramento de conceitos dados
disse que os conceitos empíricos são explicados através a priori. Com efeito, coloca-se a questão: será que há
de notas características que podem ser exibidas na mesmo alguma coisa como esse domínio no qual algo já
experiência. Quando, ao contrário, um conceito já está dado a priori? Como teríamos de pensar isto? A
pertence desde sempre à nossa compreensão, só filosofia antiga falou aqui de ideae innatae, de
podemos explicá-lo retornando de algum modo à nossa representações inatas. Para evitar mal-entendidos
compreensão, refletindo sobre a nossa compreensão. O previsíveis, Kant escreveu no início de sua introdução à
aclaramento desses conceitos, pelos quais a filosofia se Crítica da Razão Pura: “em sentido temporal, nenhum
interessa, só pode ter lugar em algo como a reflexão. Mas conhecimento em nós antecede a experiência”, mas isto
como deve ser entendida essa reflexão? Sobre esse ponto não significa que todo conhecimento provenha da
não quero me aprofundar agora, pois aqui se separam os experiência. Se pensarmos, por exemplo, no conceito de
caminhos dos diferentes métodos filosóficos. Gostaria tão número, as crianças só o aprendem quando já têm
somente de registrar os nomes de tais métodos: o método alguma idade. Mas será que elas o adquirem por
dialético, o método da intuição das essências, ou da abstração a partir da experiência? Este não parece ser o
intuição intelectual, o que quer dizer que a reflexão caso. Para Kant, a consciência enquanto tal era, em
equivaleria aqui a algo [30] como uma visão interna, e princípio, um domínio fundamentalmente pré-empírico.
finalmente o método de análise da linguagem: aqui a Hoje nos inclinamos a pensar esse apriori de um ponto
reflexão filosófica é compreendida como uma reflexão de vista que é, em grande medida biológico e, em parte,
sobre a maneira pela qual explico o emprego da palavra também histórico, e assim pois, em última instância, sim,
correspondente a alguém que ainda não a conhece e que empírico. Por fim, nossa consciência é ela mesma o
também não conhece nenhuma palavra de igual produto de desenvolvimentos empíricos. Contudo, do
significado. discernimento desse fato não se segue que já
Prosseguir aqui significaria dar início à colocação de disponhamos também de métodos empíricos para
questões filosóficas concretas. Estaria, pois, esclarecer esses conceitos já fornecidos (vorgegeben) a
ultrapassando o limite da mera questão: “O que é priori e que nos estão dados apenas a partir da
filosofia”, embora isso talvez não seja uma imagem perspectiva interna.
totalmente apropriada, pois se poderia dizer, é verdade, Em todo o caso, é, o mais tardar, neste ponto que
que a questão: “O que é filosofia?” só pode ser nos damos conta de que não é lícito pensar o domínio
respondida na medida em que filosofamos, por desses conceitos, que já estão dados a priori, como um
cosmos que, descansando em si mesmo, se defronta com em ultima instância, física, se relaciona com essa
a nossa experiência e com as ciências empíricas que a realidade. Um segundo exemplo: também os conceitos
investigam. Mas, então, todo o ponto de partida inicial de liberdade da vontade e responsabilidade parecem
de minha explicação da filosofia até aqui, segundo o qual estar entre os conceitos já dados a priori. Quando uma
a filosofia teria a ver com um domínio próprio que de pessoa fez algo intencionalmente, imputamos a ela o
algum modo está diante do das ciências particulares, é resultado, nós a responsabilizamos moral e
questionável. Pois parece que, com as diversas ciências juridicamente pelo que fez. Dependeria dela, é o que
empíricas em planos diversos, encontramos um dizemos, ter agido de outra maneira. Por outro lado, a
equacionamento inicial para recuperar por assim dizer psicologia tende a mostrar, a partir da perspectiva
desde fora a perspectiva [31] interna da filosofia. Isto externa, que a pessoa, em razão dos pressupostos que ela
acontece de maneira diversa com a biologia, a psicologia, traz consigo, e no ambiente em que ela cresceu, não
a lingüística e a história. Por um lado, o princípio dessa poderia ter agido senão do modo como agiu. Portanto:
recuperação é um fato, por outro lado não temos não poder agir de outro modo, necessidade na
nenhuma idéia de como ele poderia levar a romper a perspectiva externa; poder agir de outro modo,
diferença entre a perspectiva reflexiva interna e a possibilidade na perspectiva interna intersubjetiva. Um
perspectiva empírica externa. Daí surge uma série de terceiro exemplo: nossas concepções morais e legais
problemas, que são problemas entre determinados erguem a pretensão de serem em si fundamentáveis, mas
achados empíricos por um lado e achados dados a sociologia histórica parece abrir a perspectiva de que se
reflexivamente por outro, e pode-se dizer agora que são trata tão somente de epifenômenos de interesses
exatamente tais problemas que, por sua vez, devem ser econômico-materiais.
designados como filosóficos. Poder-se-ia talvez Devemos dizer que, em todos esses problemas,
apresentar tais problemas como pontos de estaria de um lado a filosofia e do outro uma ou mais
entroncamento críticos, com os quais alguns de nossos ciências empíricas? Mas como designar então a
conceitos dados a priori estão particularmente onerados. perspectiva que considera ambos os lados? Se a filosofia
São conceitos nos quais os diferentes modos de acesso ergue uma pretensão à totalidade, todos esses problemas
estão de tal modo contíguos, que daí resultam são em seu todo, com os seus dois lados, problemas
contradições a desafiar de maneira especial a reflexão filosóficos; com efeito, o critério do qual eu havia
filosófica. Quero indicar alguns exemplos. Em primeiro partido, de que a filosofia, ao contrário das ciências
lugar, o chamado problema da mente e do corpo. Um de particulares tem a ver de certo modo com o todo,
nossos conceitos dados a priori é o de consciência. Mas também se aplica quando a filosofia tem de incluir uma
não somente nenhum filósofo conseguiu dizer até agora ciência particular, mas ao mesmo tempo se estende além
o que propriamente se quer dizer com isso, como dela em seu [32] questionamento. Posto que o cientista
também se coloca a questão de como essa consciência, particular também é uma pessoa e vê a perspectiva
caso ela tenha sua sede, se podemos dizer assim, no interna, está claro que podemos dizer aqui, também
cérebro, e caso o cérebro seja uma realidade biológica e, inversamente, que as ciências particulares adentram por
sua vez contextos que são de relevância filosófica. em geral caracteriza uma situação de ação enquanto tal.
Ora, dos exemplos que acabo de mencionar, alguns Essa tendência de refletir acerca do universal, em
têm com toda certeza uma eminente importância prática. contraposição às ciências particulares, me conduziu antes
A questão da responsabilidade, por exemplo, tem efeitos à concepção de filosofia como aclaramento de conceitos
imediatos em nossa compreensão do direito penal, ela que já compreendemos desde sempre. Isso corresponde
tem ao mesmo tempo efeitos sobre a maneira de ao “conceito de filosofia da escola” em Kant. Esse
configurar a própria vida, não importando se algo como conceito trouxe-nos agora, via os problemas especiais das
a idéia da responsabilidade própria desempenhe ou não contradições entre as perspectivas interna e externa, de
um papel dentro dela. E, do mesmo modo, a questão se, volta ao mundo da vida, agora, porém, concretamente
por exemplo, consideramos nossa idéia dos direitos compreendido.
humanos como uma idéia fundada em si mesma ou Será possível delinear aqui um outro conceito de
como um simples epifenômeno de determinadas relações filosofia, que venha a ser então, um pendant moderno
socio-econômicas, tem um efeito prático eminente sobre para a filosofia kantiana numa intenção cosmopolita?
a maneira pela qual nos relacionamos moral e Gostaria de utilizar aqui um termo que nos remete
politicamente uns com os outros. Aqui, certas questões sobretudo a Karl Jaspers, o conceito da orientação no
que, à primeira vista, nos pareciam filosoficamente mundo (Weltorientierung). Poder- [33]se-ia dizer, sim, que
abstratas adquirem uma importância que remete ao deve haver um saber que nos dê uma orientação em
conceito kantiano da filosofia numa intenção nosso mundo da vida concreto, e isso quer dizer: na
cosmopolita, e isto me conduz por fim à questão se não situação-de-ação concreta que temos em comum. Esse
haveria uma outra possibilidade de compreender a saber tampouco seria um saber especial, pelo contrário,
referência à totalidade da filosofia, de tal sorte que essa ele se referiria ao todo, mas precisamente ao todo agora
referência se destacasse dos domínios das demais compreendido não abstrata, porém concretamente. O
ciências não por uma maior abstração, mas, ao contrário, ponto de partida desse saber deveria ser a referência ao
por uma maior concretude. bem e ao mal, compreendidos agora, porém, não como
Para isso, podemos refletir mais uma vez acerca do conceitos universais, mas como o que para nós é hoje
conceito de mundo da vida. O mundo da vida é nosso concretamente bom e mau. Partindo daí, indagar-se-ia
mundo subjetivo. Poder-se-ia dizer também, ele é a pelos riscos e chances concretas. O ponto de partida
situação de nosso agir. Uma situação do agir é seriam, pois, os valores, o que é bom e mau, e partindo
determinada por tudo o que nela realmente existe, mas daí, deveríamos refletir acerca da realidade concreta e
também por tudo o que nela é possível como nosso ato nossas possibilidades de ação na mesma. Isso é mais ou
de reagir a mesma. Há situações de ação individuais e menos o que deveríamos compreender por filosofia
situações de ação comuns, as individuais convertem-se como orientação no mundo. Esse conceito de filosofia
nas comuns. O conceito de mundo da vida é como uma teria que ser visto, de maneira ainda essencialmente mais
abstração das situações de ação, no sentido em que forte como um empreendimento interdisciplinar, do que
podemos precisamente chamar de mundo da vida o que aqueles entrecruzamentos de problemas, que
mencionamos acima, levantados pelas contradições da
perspectiva interna e externa. Pois como nos
orientaremos no mundo atual sem considerar o que as
ciências particulares podem nos dizer sobre isso? Por
outro lado, uma ciência particular enquanto tal está
sempre apontando para o conhecimento sistemático de
um domínio de objetos. A orientação para o que é bom e
mau, e para as possibilidades de ação, significa um outro
direcionamento. Por essa razão e também porque esse
direcionamento deve ser compreendido como um
direcionamento para o todo de nossas vidas,
compreendido de uma maneira determinada, o título
mais adequado para esse empreendimento também
parece ser o de filosofia.
Seria uma outra questão a de saber como a filosofia,
no sentido do aclaramento de conceitos que já
compreendemos desde sempre, deveria se inserir por sua
vez na filosofia entendida neste segundo sentido, como
orientação no mundo. Tudo o que disse aqui sobre esse
conceito de filosofia como orientação no mundo sinto
que são apenas indicações extremamente vagas e
insuficientes. Não tenho acerca disso nenhum conceito
claro e tampouco conheço filósofos que o tenham. Mas
seria importante tomar consciência de que aqui estaria a
verdadeira tarefa. Suponho que a maioria das pessoas
que chegam à universidade para estudar filosofia
buscam alguma coisa que tem a ver com essa idéia de
filosofia. Eis aí uma situação tipicamente filosófica, que
tenhamos de confessar que pouco sabemos sobre a
imagem que a filosofia assumiria nesse sentido que é
justamente o mais importante de todos. E o que torna tão
insatisfatória entre nós a filosofia como atividade
acadêmica consiste também no fato de que com isso
pouco nos temos preocupado.