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Entendendo o texto: estrutura narrativa.

Leia com atenção o conto a seguir.


O homem nu
Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher:


– Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a
conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
– Explique isso ao homem – ponderou a mulher.
– Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice; gosto de cumprir rigorosamente as minhas
obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar
que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar – amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a
mulher já se trancará lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e
abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela
para um lado e para o outro a antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo
padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal
seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo
vento.
Aterrorizado, precipitou se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando
ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro um ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas
ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos
dedos.
– Maria! Abre aí, Maria. Sou eu – chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir
lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares esperou que o elevador passasse, e
voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho do pão:
– Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de
baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão,
parecia executar um ballet grotesco e mal-ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele
sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir o a porta e
entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais de um lanço de escada. Ele
respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do
elevador se fecha e ele começa a descer.
– Ah , isso é que não! - fez o homem nu sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia
mesmo ser algum vizinho conhecido... percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez
para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka,
instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
– Isso é que não – repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu a com força entre os andares, obrigando-o a parar.
Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois
experimentou apertar o botão de seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de
mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a
parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
– Maria! Abre esta porta! – gritava, desta vez, esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela.
Ouviu que outra porta se abriu atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e
tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha apartamento vizinho:
– Bom dia, minha senhora – disse ele, confuso. – Imagine que eu...
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A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
– Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar radiopatrulha:
– Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
– É um tarado!
– Olha, que horror!
– Não olha não! Já para dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um
foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois,
restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
– Deve se a polícia – disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.

ANALISANDO O TEXTO

Podemos aproveitar o conto que acabamos de ler, para aprender a refinar um pouco nossa
leitura das histórias ficcionais, percebendo com mais atenção seus principais elementos. Esse
refinamento nos abre os olhos para detalhes importantes da construção das narrativas e isso nos dá
a condição de curtir ainda mais as "histórias que nossa imaginação cria".
Os elementos que nos interessam aqui são os seguintes:
• narrador;
• as personagens;
• enredo;
• espaço;
• tempo.

O NARRADOR
Observe, em primeiro lugar, que há sempre uma voz que conta a história. Em outras palavras,
toda a história tem um narrador. Algumas vezes, ele é uma das personagens e a história é narrada
em primeira pessoa (eu): ela é encontrada pelo olhar de quem a " viveu" ou de quem a "presenciou".
No caso de o homem nu, o narrador é uma terceira pessoa; alguém de fora da história. Ela é
contada, então, por um narrador que tudo sabe, tudo vê e tudo ouve. Nesse conto, o narrador, além
de acompanhar todos os passos do personagem dentro e fora do apartamento, ouviu até a conversa
que o marido e a mulher tiveram tão logo acordaram.
Numa narrativa de ficção, nunca devemos confundir o narrador da história e o autor do texto.
No caso de O homem, o autor (a pessoa concreta que escreveu o texto) é Fernando Sabino, um
escritor brasileiro contemporâneo, Mas quem conta a história é um narrador que fala em terceira
pessoa, um alguém que tudo sabe, tudo vê, tudo ouve.
O narrador é um elemento interno da narrativa, ou seja, ele é também um ser ficcional, uma
invenção do autor. Num certo sentido, o autor assume uma máscara de contador de história. Ou a
máscara antiqüíssima, que já aparecia nas primeiras narrativas de que temos notícia na história da
humanidade, de um alguém que tudo sabe, tudo vê, tudo ouve. Ou a máscara de uma das
personagens da história.
O narrador diferenciado do autor é, assim, um dos elementos mais interessantes do ato de
contar uma história. Ninguém fica restrito a contar só o que viveu; ou só aquilo a que tem acesso
direto. Ao contrário: podemos vestir qualquer máscara e contar uma história por meio de qualquer
voz.
Além de poder assumir a voz do narrador que tudo sabe, tudo vê, tudo ouve (e que pode até
entrar na cabeça dos personagens e saber o que eles estão pensando e sentindo), as possibilidades
narrativas são incontáveis. Vejamos alguns exemplos: Um autor adulto pode narrar uma história pelo
olhar de uma criança; ou uma autora pode escrever uma história em que o narrador é do sexo
masculino; ou um autor religioso pode criar uma história em que o narrador é um ateu convicto; ou
um autor do século XXI pode criar uma história narrada por alguém do século XXV (a chamada ficção
científica); ou um escritor pode inventar uma narrativa em que o narrador é uma pessoa que acaba
de morrer e começa, então, a contar a história de sua vida (como faz Machado de Assis em seu
romance Memórias póstumas de Brás Cubas). E assim por diante. Ao ler uma história qualquer; ou
ao inventar uma dessas histórias, precisamos estar atentos, portanto, a quem está narrando. É um
dos elementos que compõem a trama da narrativa.
No cinema, muitas vezes, a história vai se desenrolando à nossa frente com se ela se
contasse a si mesma, como se ela não tivesse narrador. Mas isso é só uma estratégia narrativa.

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Mesmo quando o narrador é aparentemente imperceptível, ele está ali. Somos conduzidos, digamos
assim, por "seu olho e sua mão". Nada surge do nada: a mão e o olho do narrador organiza a
sequência das cenas, selecionam os ângulos com que elas nos são apresentadas, vão liberando
informações para os espectadores mas não para as personagens (em alguns momentos, o narrador
nos faz saber mais do que as personagens). E assim por diante.
Essa estratégia narrativa aparece também no teatro e na telenovela (pelo "parentesco" que
há entre estas três modalidades de narrar); e igualmente nos contos e romances.

AS PERSONAGENS

Chamamos de personagens as pessoas que estão envolvidas na história; os seres que


realizam ou sofrem as ações narradas. No caso do conto que lemos, são personagens: o marido, a
mulher, a empregada, a velha do apartamento vizinho, outros vizinhos e o cobrador da televisão.
Observe dois aspectos interessantes:
a) são todas personagens anônimas (só aparece o nome da mulher) e de quem ficamos sabendo
muito pouco. Em certo sentido, o evento em si é mais importante do que as personagens. Estas são
pessoas "iguais a nós" e, por isso, não precisam ser caracterizadas com mais detalhes;

b) cada personagem tem um papel ou uma função diferente na história. O marido pode ser
considerado a personagem principal, o protagonista do episódio: ele é que estava querendo fugir
do cobrador da televisão; e é com ele que acontece o incidente que sustenta todo o conto. A sua
mulher exerce um papel de coadjuvante: é com ela que o marido combina a estratégia de iludir o
cobrador; e que, em razão disso, permanece em silêncio no interior do apartamento, complicando a
situação do marido. Por fim, as outras personagens são secundárias, no sentido de que elas
aparecem apenas para agravar a situação da personagem principal.
Embora boa parte das personagem das histórias que a nossa imaginação cria seja "pessoas",
isto é, "seres humanos", podemos criar histórias em que outros seres apareçam como personagens.
E aqui a lista é infinita. Podem ser personagens destas nossas histórias: outros animais, seres
extraterrestres, robôs, máquinas e objetos, flores e outros elementos da natureza, entidades
mitológicas ( deuses e semideuses), seres sobrenaturais ( anjos e demônios), entes mágicos ( fadas,
bruxas, duendes) e assim por diante.
Essa profusão de possibilidades tem a ver com ilimitado da nossa imaginação. Há histórias,
por exemplo, que ocorrem "no tempo em que os bichos falavam ". Ora, entrando neste mundo
ficcional, vamos nos orientar pela suas coordenadas, pela sua lógica própria ( e não estritamente
pela lógica do nosso mundo). Assim, um cachorro falando com um gato; ou um cavalo troca de
ideias como o ser humano não será absurdo neste mundo inventado. Do mesmo modo, um filme de
ficção científica, não será absurdo um robô cheio de sentimentos ou um computador tiranizando
uma sociedade.
Observe que estes outros seres, embora não humanos, têm características humanas. Isto é,
ao criar a história como eles, nós lhe atribuímos propriedades humanas: eles falam, pensam, sentem
e agem como nós. Dizem até que é impossível imaginar personagens sem alguma característica
humana. Observe, por exemplo, que nos filmes de ficção científica costumam aparecer os mais
exóticos seres, mas sempre com algum traço humano. Quer dizer: nós nos projetamos nos seres do
nosso imaginário; e eles, por mais exóticos que sejam, são o espelho em que está refletido com
nosso próprio mundo.
Uma última observação importante: não devemos confundir as pessoas ficcionais com
pessoas reais. Quer dizer: nós nunca encontraremos, por exemplos, Gabriela (personagem do
romance Gabriela, cravo e canela, escrito por Jorge Amado) ou Capitu (personagem do romance
Dom Casmurro, de Machado de Assis) caminhando pela rua, esperando o ônibus ou sentada no
cinema.
Você já deve ter ouvido falar de casos em que pessoas chegam a agredir, na rua, atores de
telenovelas que estão representando uma personagem muito má. Elas estão, de fato, confundindo
ficção e realidade. E isso é um sinal de espectador/ leitor ingênuo: é ingenuidade acreditar que as
personagens de ficção têm vida real, fora da história. Por mais que as personagens possam ser
semelhantes a pessoas reais, ainda assim são dois mundos distintos. Mesmo que a personagem do
romance a do filme seja – digamos – o imperador Dom Pedro I, uma pessoa que existiu
efetivamente, não é ele como tal que estará ali, mas é uma recriação ficcional.

O ENREDO

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Toda narrativa envolve ação, movimento. E a sequência de eventos constituiu o enredo. Em
geral o que dá o movimento, o que precipita o enredo é a ruptura de um estado de "normalidade".
Um fato que, como se diz, muda o rumo dos acontecimentos. Instaurado o problema, ficamos à
espera da solução, do desfecho.
No conto que lemos, observe que tudo transcorre dentro de uma certa "normalidade" até que
o vento fecha a porta e deixa o homem nu no lado de fora. E aí ficamos na expectativa de novos
acontecimentos e da solução do problema em que um incidente banal criou para o personagem
principal.
Nem sempre a narração apresenta os eventos numa seqüência temporal (cronológica), isto é,
nem sempre os eventos são apresentados numa progressão do primeiro ao último, como no conto
que lemos. Por isso, é útil trabalhar aqui com uma distinção técnica entre a história (isto é, a
sequência temporal dos eventos) e a trama (a sequência em que o narrador apresenta os eventos).
O narrador pode dispor os eventos nas mais diferentes ordens. Ele pode, por exemplo,
apresentar os acontecimentos em sua ordem inversa (e aí, ficamos na expectativa para saber que
fato anterior causou a situação vivida agora pelo personagem). Pode ainda narrar em idas e vindas,
isto é, ir apresentando uma situação atual, intercalando nela fatos ocorridos no passado e é a
progressiva combinação de ambos os eixos que vai compondo o desfecho do problema que sustenta
o enredo.
Nem sempre o enredo tem um desfecho claro como no conto que lemos. Muitas vezes uma
possível solução fica no ar e cabe a nós, leitores/espectadores, ficar imaginando possíveis soluções.
O cinema tem explorado este filão. Ao deixar em aberto o fim de um filme, abre-se a possibilidade
de produzir vários outros novos filmes em sequência. Lembramos, por exemplo, de Alien, o oitavo
passageiro e suas duas sequências: Aliens, o resgate e Alien 3. Estas foram possíveis justamente
porque o ser extraterrestre causador de horror e mortes não foi eliminado no fim do primeiro filme.

O ESPAÇO

Toda narrativa se dá num certo “cenário”, isto é, as ações se desdobram num certo espaço.
No caso do conto que lemos, o enredo começo no interior do apartamento, mas seu ponto alto
ocorre fora do apartamento (na área em frente às portas, no elevador, num lanço de escada). Trata-
se de um espaço público e, por isso, fundamental para movimentar a história, justamente porque é
um espaço em que as convenções sociais não admitem pessoas nuas. O espaço não é, portanto,
apenas um elemento acessório da narrativa. Ele participava ativamente da sua construção.
Ao ambientar o enredo, o narrador pode dar mais destaque ao espaço físico (digamos, a ação
ocorre à beira-mar ou no campo) ou ao espaço social (a ação está ambientada num bairro pobre ou
num bairro rico; numa cidade grande ou num vilarejo; nas ruas ou no interior das casas). Ou, ainda,
ao espaço psicológico (a ação vai se desdobrando principalmente na consciência da personagem –
que vai vivenciando em seu interior os efeitos dos eventos).

O TEMPO

Toda narrativa tem uma duração, ocorre num certo segmento de tempo. No conto que
lemos, ficamos sabendo que tudo aconteceu no início da manha. Não teremos indicação precisa de
quanto tempo durou o episódio todo, mas fica claro que tudo foi muito rápido. Coisa talvez de uma
hora ou até menos.
O tempo da narrativa envolve várias dimensões: os acontecimentos podem ser narrados de
forma mais ou menos rápida; em diferentes ordens temporais (cronológicas ou não); cobrindo
períodos longos ou curtos de tempo; localizados em diferentes épocas e assim por diante.
O tempo e o espaço costumam estar correlacionados no interior de uma narrativa. Pense num
filme de tribunal. As cenas vão ocorrer na sala do júri, mas também nos corredores, nas escadas,
nos banheiros ou na porta principal do edifício. Claro que as cenas na sala do júri serão mais longas,
enquanto as outras serão mais curtas e rápidas. Isso pela razão óbvia de que espaços como
corredores, escadas, portas e banheiros são lugares de passagem, são espaços em que ficamos
pouco tempo, enquanto um julgamento é um evento que se estende no tempo: a sala do júri será,
portanto, um espaço correlacionado com ações mais demoradas.
Ao longo do tempo físico, vamos observar em muitas narrativas o chamado tempo
psicológico, isto é, como os personagens vivenciam subjetivamente o tempo dos acontecimentos.
Como todos sabemos por experiência própria, dois acontecimentos que tem a mesma duração física
(digamos, 50 minutos) podem ser percebidos subjetivamente de modo muito diferente: enquanto
não sentimos um passar, um outro parece interminável. Essa experiência comum é muitas vezes é
explorada na narrativa.

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Como cai na prova.

Texto para as questões 1,2,3,4


Declaração
Devia começar, como o sabe de cor e salteado a maioria dos leitores, que é sem dúvida
nenhuma muito entendida na matéria, por uma declaração em forma.
Mas em amor, assim como em tudo, a primeira saída é o mais difícil. Todas as vezes que esta
idéia vinha à cabeça do pobre rapaz, passava-lhe uma nuvem escura por diante dos olhos e
banhava-se-lhe o corpo em suor. Muitas semanas levou a compor, a estudar o que havia de dizer a
Luizinha quando aparecesse o momento decisivo. Achava com facilidade milhares de idéias
brilhantes: porém, mal tinha assentado em que diria isto ou aquilo, já isto ou aquilo lhe não parecia
bom. Por várias vezes, tivera ocasião favorável para desempenhar a sua tarefa, pois estivera a sós
com Luizinha; porém, nessas ocasiões, nada havia que pudesse vencer um tremor nas pernas que se
apoderava dele, e que não lhe permitia levantar-se do lugar onde estava, e um engasgo que lhe
sobrevinha, e que o impedia de articular uma só palavra. Enfim, depois de muitas lutas consigo
mesmo para vencer o acanhamento, tomou um dia a resolução de acabar com o medo, dizer-lhe a
primeira coisa que lhe viesse à boca.
Luizinha estava no vão de uma janela a espiar para a rua pela rótula: Leonardo aproximou-se
tremendo, pé ante pé, parou e ficou imóvel como uma estátua atrás dela que, entretida para fora,
de nada tinha dado fé. Esteve assim por longo tempo calculando se devia falar em pé ou se devia
ajoelhar-se. Depois fez um movimento como se quisesse tocar no ombro de Luizinha, mas retirou
depressa a mão. Pareceu-lhe que por aí não ia bem; quis antes puxar-lhe pelo vestido, e ia já
levantando a mão quando também se arrependeu. Durante todos esses movimentos o pobre rapaz
suava a não poder mais. Enfim, um incidente veio tirá-lo da dificuldade.
Ouvindo passos no corredor, entendeu que alguém se aproximava, e tomado de terror por se
ver apanhado naquela posição, deu repentinamente dois passos para trás, e soltou um - ah! - muito
engasgado. Luizinha, voltando-se, deu com ele diante de si, e recuando espremeu-se de costas
contra a rótula: veio-lhe também outro - ah! - porém não lhe passou da garganta e conseguiu
apenas fazer uma careta.
A bulha dos passos cessou sem que ninguém chegasse à sala; os dois levaram algum tempo
naquela mesma posição, até que Leonardo, por um supremo esforço, rompeu o silêncio, e com voz
trêmula e em tom o mais sem graça que se possa imaginar perguntou desenxabidamente:
– A senhora... sabe... uma coisa?
E riu-se com uma risada forçada, pálida e tola.
Luizinha não respondeu. Ele repetiu no mesmo tom:
– Então... a senhora... sabe ou... não sabe?
E tornou a rir-se do mesmo modo. Luizinha conservou-se muda.
– A senhora bem sabe... é porque não quer dizer...
Nada de resposta.
– Se a senhora não ficasse zangada... eu dizia...
Silêncio.
– Está bom... Eu digo sempre... mas a senhora fica ou não fica zangada?
Luizinha fez um gesto de quem estava impacientada.
– Pois então eu digo... a senhora não sabe... eu... eu lhe quero... muito bem...
Luizinha fez-se cor de uma cereja; e fazendo meia volta à direita, foi dando as costas ao
Leonardo e caminhando pelo corredor. Era tempo, pois alguém se aproximava.
Leonardo viu-a ir-se, um pouco estupefato pela resposta que ela lhe dera, porém, não de todo
descontente: seu olhar de amante percebera que o que se acabava de passar não tinha sido
totalmente desagradável a Luizinha.
Quando ela desapareceu, soltou o rapaz um suspiro de desabafo e assentou-se, pois se
achava tão fatigado como se tivesse acabado de lutar braço a braço com um gigante.
(Manuel Antônio de Almeida. "Memórias de um Sargento de Milícias".)

01- O foco do narrador do conto se apresenta em 3ª pessoa, acompanhando os sentimentos vividos


por Leonardo. O trecho que indica um juízo de valor expresso pelo narrador acerca da situação
vivida pelo personagem é:
a) "... Mas em amor, assim como em tudo, a primeira saída é o mais difícil..." (2º par.)

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b) "... Esteve assim por longo tempo calculando se devia falar em pé ou devia ajoelhar-se ..."
(3º par.)
c) "... A bulha dos passos cessou sem que ninguém chegasse à sala...". (5º par.)
d) " ... Luizinha conservou-se muda..." (10º par.)
e) "... Era tempo, pois alguém se aproximava..." (18º par.)
02 - O vocábulo "Enfim", utilizado na última frase do segundo parágrafo, apresenta valor semântico:
a) conclusivo.
b) explicativo.
c) concessivo.
d) contrastivo.
e) comparativo.
03 - Para exemplificar o dilema vivido por Leonardo, o autor, no 2º parágrafo, baseia-se em:
a) atos impetuosos.
b) comportamentos coincidentes.
c) urgências contundentes.
d) explicações inesperadas.
e) atitudes contraditórias.
04 - O diálogo que se estabelece entre Leonardo e Luizinha não se efetiva. Leonardo, entretanto,
parece ignorar, imaginando realizar o processo comunicativo. O trecho que indica esta atitude de
Leonardo é:
a) "... A senhora... sabe... uma coisa?..." (6º par.)
b) "... então... a senhora... sabe ou... não sabe?..." (9º par.)
c) "... Se a senhora não ficasse zangada..." (13º par.)
d) "... Está bom... eu digo sempre..." (15º par.)
e) "... eu... eu lhe quero... muito bem..." (17ºpar.)

Texto para a questão 5


"Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de
um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode
ser. Obra de FINADO. Escrevi-a com a pena da GALHOFA e a tinta da melancolia, e não é difícil
antever o que poderá sair desse CONÚBIO. Acresce que a gente grave achará no livro umas
aparências de puro romance, ao passo que a gente FRÍVOLA não achará nele seu romance usual; ei-
lo aí fica PRIVADO da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da
opinião".

05 - Assinale a alternativa que indica o foco narrativo adotado no texto:


a) o texto é narrado em primeira pessoa pelo autor do romance
b) o texto é narrado em primeira pessoa por Brás Cubas
c) o texto é narrado em primeira pessoa por Sterne
d) o texto é narrado em primeira pessoa por Xavier de Maistre
e) o texto é narrado em terceira pessoa

Texto para as questões 6,7,8


ME RESPONDA, SARGENTO

Dez anos, sargento, apartada do João. Uma tarde, sem se despedir montou no cavalinho
pampa. Em dez anos de espera nunca deu notícia. Com a morte do meu velho, que me deixou o
sítio, quinze dias atrás lá estava eu, bem quieta, cuidando da casa e da criação, ajudada por meu
afilhado José, esse anjo de oito aninhos. Quem vai entrando sem bater palma nem pedir licença?
Maltrapilho, chapéu na mão para fazer vida comigo. Mais de espanto que saudade aceitei, bom ou
mau, eu disse, é o meu João.
Nos primeiros dias foi bonzinho. Quem não gosta de uma cabeça de homem no travesseiro?
Logo começou a beber, não me valia em nada no sítio. Eu saía bem cedo com o menino a lidar na
roça, o bichão ficava dormindo. Bocejando de chinelo e desfrutando regalias. Não quer castigar o
corpinho, um punhado de milho não joga para as galinhas. Só então, sargento, burra de mim,
descobri o mistério. Ele voltou por amor da herança. Na primeira semana vendeu o leitão mais gordo
do chiqueiro, não me deu satisfação. O sargento viu algum dinheiro? Nem eu.
Ontem chegou bêbado e de óculos escuro. Espantou o menino para o terreiro e, fechados no
quarto, bradou que eu tinha um amante, o meu afilhado bem que era filho. Antes de contar até três,
eu dissesse o nome do pai. Mais que, de joelho e mão posta, negasse o outro homem, por mim o
testemunho dos vizinhos, ele me cobriu de praga, murro, pontapé. Pegou da espingarda, me bateu

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com a coronha na cabeça. Obrigou a rezar na hora da morte e pedir louvado. Que eu abrisse a boca,
enfiou o cano, fez que apertava o gatilho. Não satisfeito, sacou da garrucha, apagou o lampião a
bala. Dois tiros na minha direção, só não acertou porque me desviei. Uma bala se enterrou na porta,
a outra furou a cortina, em três pedaços a cabeça do São Jorge.
Cansado de reinar, deitou-se vestido e de bota. Que a escrava servisse a janta na cama.
Provou uma garfada e atirou o prato, manchando de feijão toda a parede: Quero outra, esta não
prestou. Deus me acudiu, ao voltar com a bandeja ele roncava, espumando pelo dente de ouro.
Agarrei meu filho, chorando e rezando corri a noite inteira. Ficasse lá no sítio era dona morta. E
agora, sargento, que vai ser da minha vida? Que é que eu faço?
06 - Quanto ao foco narrativo, marque a opção correta.
a) A angústia do narrador intensifica-se no último parágrafo do texto.
b) A protagonista se limita a narrar os fatos sem emitir opinião.
c) A predominância do discurso indireto livre concorre para desacelerar o ritmo das ações.
d) A protagonista oculta sua condição social através da variante linguística utilizada.
07 - Sobre o tempo e o espaço, pode-se afirmar:
a) Na história contada pela mulher, a protagonista se encontra no sítio e no tempo presente.
b) A mulher e o sargento encontram-se no tempo presente, mas não no sítio.
c) A mulher e o sargento encontram-se no sítio e no tempo passado.
d) Na história contada pela mulher, o sargento se encontra no tempo passado, mas não no
sítio.
08 - A forma de monólogo assumida pelo texto
a) permite a organização não-linear da história.
b) confere mais dramaticidade ao relato.
c) contribui para a onisciência do narrador.
d) provoca resposta imprevista do sargento.
Os dois clavinotes estavam apontados em direção à estrada. A essa altura, já o sol faiscava
nos lajedos, e o ar, embora frio, era reconfortante e seco. Um sabiá veio pousar perto da caverna,
mas logo esvoaçou, ao pressentir os dois homens. Houve em seguida um rumor de folhas,
provocado por uma lagartixa em fuga.
- Já vem bem perto - disse o negro Guido, com o dedo no gatilho da arma.
O tropel fazia-se ouvir cada vez mais próximo. De repente, surgiu no topo do atalho a cabeça
de um cavalo. O velho Patuá estava calmo, ao passo que o outro dava visíveis mostras de excitação.
À vista da cabeça do cavalo, seus lábios chegaram mesmo a embranquecer, como se uma sede
atroz o tivesse assaltado.
- Será ele mesmo? - perguntou.
Foi quando o cavaleiro apareceu. Subia a estrada, descuidado, assobiando. Guido logo
reconheceu o fazendeiro Pedro Neves. Então, o que havia de incerteza no seu espírito transformou-
se imediatamente numa sensação de alívio, marcada a um só tempo de medo e crueldade. Apontou
a arma, fazendo mira, sempre com o dedo no gatilho. Viu o homem parar de assobiar, enxugar o
suor do rosto, com um lenço que de novo guardou no bolso, e acender o cigarro.
Foi quando o velho Patuá comandou:
- Fogo!
O negro procurava fazer um bom alvo, na pontaria contra o paletó de brim cáqui, onde havia
manchas de suor.
- Fogo! - repetiu o velho Patuá, num tom de irritação.
E, com o clavinote apontado para a nuca do homem, apertou o gatilho. O negro Guido acompanhou-
o. Dois tiros estrondaram, ao mesmo tempo que a caverna se enchia de fumaça. Como se uma mão
invisível os enxotasse, os pássaros voaram. Um desabrido tropel foi então ouvido: era o cavalo do
fazendeiro, que fugia com os arreios vazios. Espantado, corria doidamente estrada abaixo - as
caçambas batendo como sinos. Como sinos roucos. Estranhamente roucos.
09 - As três personagens do texto revelam, basicamente, três diferentes comportamentos:
a) ansiedade, serenidade e cautela.
b) excitação, ansiedade e ingenuidade.
c) frieza, angústia e insegurança.
d) excitação, medo e displicência.
e) ansiedade, segurança e displicência.
10 - Em relação à TRAMA dessa narrativa, pode-se afirmar que ela é
a) simples, pois a ação é comandada por personagens primitivas.
b) complexa, dada a natureza dos fatos que se entrelaçam.
c) simples, porque a ação se unifica num núcleo exclusivo.
d) complexa, devido ao aprofundamento do plano psicológico.

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e) simples, uma vez que a linguagem do narrador é realista.
11 - Considere as seguintes observações sobre a caracterização do ESPAÇO, nesse texto:
I. Tem função dramática, considerando-se que DISTÂNCIA e APROXIMAÇÃO são elementos
essenciais da ação.
II. É representado como um cenário pouco relevante para as ações que nele ocorrem.
III . Tem importância relativa, considerando-se que IMOBILIDADE é a marca essencial dessa
narrativa.
Está correto o que se afirma SOMENTE em
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
12 - A forma de apresentação dos fatos revela a seguinte organização temporal da narrativa:
a) cortes bruscos na sequência cronológica natural.
b) predominância da sequência cronológica natural, com alguns recuos no tempo.
c) alternância entre fatos rememorados e fatos do presente.
d) alternância entre fatos do presente e cenas antecipadas.
e) sequência cronológica natural, rigorosamente respeitada.
13 - A narração desse texto é conduzida por um narrador em terceira pessoa, o que não o impede
de registrar sua sensação pessoal diante de um fato, como na frase
a) "O tropel fazia-se ouvir cada vez mais próximo."
b) "seus lábios chegaram mesmo a embranquecer."
c) "Estranhamente roucos."
d) "Já vem bem perto."
e) "O negro Guido acompanhou-o."
São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação
atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e
invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de
barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel,
perguntando:
— Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota
dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor... (...)
E outro:
— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua
saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).
14 - O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —,
apresenta característica marcante do gênero crônica ao
a) expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de
uma coisa por meio de outra.
b) manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só
espaço.
c) contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens
psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
d) evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do
cotidiano, para manter as pessoas informadas.
e) valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que
recebe tratamento estético.

O Leão

8
A menina conduz-me diante do leão, esquecido por um circo de passagem. Não está preso,
velho e doente, em gradil de ferro. Foi solto no gramado e a tela fina de arame é escarmento ao rei
dos animais. Não mais que um caco de leão: a pernas reumáticas, a juba emaranhada e sem brilho.
Os olhos globulosos fecham-se cansados, sobre o focinho contei nove ou dez moscas, que ele não
tinha ânimo de espantar. Das grandes narinas escorriam gotas e pensei, por um momento, que
fossem lágrimas.
Observei em volta: somos todos adultos, sem contar a menina. Apenas para nós o leão
conserva o seu antigo prestígio – as crianças estão em redor dos macaquinhos. Um dos presentes
explica que o bicho tem as pernas entrevadas, a vida inteira na minúscula jaula. Derreado, não pode
sustentar-se em pé.
Chega-se um piá e, desafiando com olhar selvagem o leão, atira-lhe um punhado de cascas
de amendoim. O rei sopra pelas narinas, ainda é um leão: faz estremecer a grama a seus pés.
Um de nós protesta que deviam servi-lhe a carne em pedacinho.
- Ele não tem dente?
- Tem sim, não vê? Não tem é força de morder.
Continua o moleque a jogar amendoim na cara devastada do leão. Ele nos olha e um brilho de
compreensão nos faz baixar a cabeça: é conhecido o travo amargoso da derrota. Está velho,
artrítico, não se aguenta das pernas, mas é um leão. De repente, sacudindo a juba, põe-se a
mastigar o capim. Ora, leão come verde! Lança-lhe o guri uma pedra: acertou no olho lacrimoso e
doeu.
O leão abriu a bocarra de dentes amarelos, não era um bocejo. Entre caretas de dor, elevou-
se aos poucos nas pernas tortas. Sem sair do lugar, ficou de pé. Escancarou penosamente os beiços
moles e negros, ouviu-se a rouca buzina de fordeco antigo.
Por um instante o rugido manteve suspensos os macaquinhos e fez bater mais depressa o
coração da menina.
O leão soltou seis ou sete urros. Exausto, deixou-se cair de lado e fechou os olhos para
sempre.

15 - Dada as afirmações:
I. Fato principal: a morte do leão. Causas principais: o circo, que o abandonou, e a criança,
que o acertou com uma pedra.
II. A decadência física do leão, o assunto predominante do texto, denota animalização do ser
humano.
III. A velhice, assunto predominante do texto, conta marginalização, maus traços e
decadência física dos animais.
Inferimos que, de acordo com o texto pode (m) estar correta (s):
a) todas
b) apenas a I
c) apenas a II
d) apenas a III
e) nenhuma das afirmações

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