O caráter ideológico da microeconomia A Economia nunca fora mais condicionada por juízos de valor como então.

Cobria-se, então, de uma carapaça científica respeitável. É inegável, porém, que seu surgimento está intimamente ligado à situação incômoda, do ponto de vista ideológico, em que Marx havia colocado o capitalismo, apoiando-se na teoria clássica do valor trabalho. A abordagem macroeconômica A teoria econômica neoclássica permaneceu com sua posição indisputada entre os economistas ortodoxos capitalistas desde os anos setenta do século passado até os anos trinta deste século. O trabalho original da Escola Austríaca, de Jevons a Walras, este com sua extraordinária análise de equilíbrio geral, foi sendo burilado, precisado. Mas os economistas haviam desenvolvido uma estrutura teórica de tal forma sólida e coerente, dentro dos pressupostos em que se baseava, que se tornava extremamente difícil escapar àquela rede de malhas de aço. E, no entanto, para muitos, a teoria econômica não era insatisfatória. Seu caráter alienado da realidade ia se tornando cada vez mais evidente. Foi preciso que a grande depressão dos anos trinta destruísse as ilusões daquele mundo criado pelos economistas neoclássicos, e que surgisse uma economista genial como Keynes, que aliava um profundo conhecimento da teoria neoclássica a uma grande coragem, e uma enorme capacidade de análise teórica a uma vivência do mundo econômico e financeiro e a uma decidida intenção de encontrar meios de política econômica para nele intervir - foi preciso essa conjugação de fatores para que afinal a economia neoclássica entrasse em colapso. Com Keynes a ênfase da análise econômica passa da micro para a macroeconomia. Ao invés de iniciar a análise partindo do comportamento dos agentes econômicos individuais ± os produtores e os consumidores - Keynes faz a análise do processo econômico partindo de conceitos econômicos agregados; a renda nacional e seus componentes, o consumo, o investimento, as despesas do governo, as importações e as exportações. Todos os conceitos acima enumerados, assim como outros também estudados pela economia keynesiana, como a poupança, os salários

juros e lucros, são agregados. São o resultado da somatória da produção de todos os produtores, do consumo de todos os consumidores, dos investimentos de todos os investidores, e assim por diante. Por isso a macroeconomia é às vezes chamada de Economia Agregada. Isto não quer dizer porém que foi Keynes quem "inventou" a macroeconomia. Já havia uma macroeconomia clássica e neoclássica. Apenas não era dada especial ênfase a ela, perdida que estava no meio da análise microeconômica. Qual era esta macroeconomia contra a qual Keynes se levantou com tanto ardor, violência e sucesso, em sua Teoria Geral? Keynes, em seus escritos, atacava especialmente, chamando de clássico, um economista marshalliano neoclássico seu contemporâneo - Pigou. A distinção entre clássicos e neoclássicos não é importante em macroeconomia, enquanto que é fundamental em microeconomia, porque a grande diferença entre as duas escolas está na teoria do valor. Ora, na microeconomia a teoria do valor é o problema central, enquanto que para a macroeconomia ele é secundário. Keynes pouco se preocupou com ele. Talvez percebesse o caráter metafísico e dogmático dessa teoria. Para a microeconomia o problema do valor é fundamental porque se trata de uma teoria dos preços, e o que se pretende é que a teoria do valor dê a moldura, dê a explicação básica para o problema da determinação dos preços. Já para a macroeconomia, a preocupação é com o nível geral de preços. O problema de determinação dos preços de cada mercadoria torna-se secundário. Explica-se, assim, a não existência de divergência básicas dos clássicos e neoclássicos em relação à macroeconomia, e justifica-se que os coloquemos todos em um mesmo barco, que chamaremos de macroeconomia Clássica, para depois compará-la com a macroeconomia keynesiana.1

A macroeconomia clássica
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Devemos esclarecer que o emprego das expressões Micro e macroeconomia são recentes. Só passaram a ser usadas quando, depois do surgimento da análise econômica agregada de Keynes, verificou-se a necessidade de contrapor esta análise à anterior, que partia dos agentes econômicos isolados.

Veremos que este pressuposto permite a garantia do pleno emprego sem qualquer intervenção do governo. de Say. o que há de mais misterioso e indefinido do que a "lei natural"?). a qual era. concluía que. de subconsumo ou superprodução. O resultado de todo este processo era o pleno emprego no longo prazo. . E assim. a impossibilidade de haver crises de longa duração. Além deste pressuposto geral. agora discuti-las. tem bases ideológicas nítidas. fruto do racionalismo dos séculos XVIII e XIX. as quais. indefinidas.A macroeconomia clássica. a conclusão exigida pela filosofia da lei natural ficava assegurada. sendo a velocidade da moeda constante. produzirão sempre os melhores resultados possíveis. se forem deixadas a funcionar livremente. o que dá no mesmo. a produção voltaria a aumentar. parte do pressuposto fundamental de que o mundo econômico é governado por leis naturais. e o pleno emprego seria restabelecido. é importante para a macroeconomia clássica. O primeiro pressuposto. No momento em que uma queda momentânea na procura agregada levasse à redução da atividade econômica e ao desemprego. determinada pela oferta de poupança e a procura de investimentos. da existência de preços flexíveis. a procura aumentaria. ou. Não vamos. não obstante seu caráter quase místico de crença e de mistério (afinal. Além destes dois modelos. a produção variava em relação inversa e proporcional aos preços. segundo a qual a oferta cria sua própria procura. partindo da equação de trocas. os salários (o preço do trabalho) seriam reduzidos. São por demais conhecidas as relações do naturalismo com a emergência da burguesia e com seu interesse por uma política econômica baseada no laissez-faire. como toda a teoria econômica clássica. Esta fé na "lei natural". Estes dois pressupostos permitiam o desenvolvimento dos dois modelos centrais da macroeconomia clássica: a "lei do mercado". os preços das mercadorias produzidas com o respectivo trabalho cairiam. porém. por sua vez. a macroeconomia clássica fazia estas duas variáveis dependerem de taxa de juros. a macroeconomia clássica partia ainda de dois pressupostos importantes: o de que os preços e salários eram sempre flexíveis e o de que a moeda não era utilizada com fins de ente entesouramento. para equilibrar a poupança e o investimento. embora não absolutamente essencial. e dada uma determinada quantidade de moeda. que. a teoria quantitativa da moeda.

Há economistas que limitam o uso deste termo para os casos em que os indivíduos guardam dinheiro em forma líquida dentro de sua casa. em uma relação de comportamento. por sua simplicidade. porém. porém. Nesses termos. a moeda é fundamentalmente um meio de troca. Nós. como um meio de reserva de ativos líquidos. implica em relações de causa e efeito. portanto. foi contra ela que Keynes acertou suas baterias mais poderosas. em um cofre. existiria apenas um motivo para a procura de moeda: o motivo transacional. Trata-se de uma identidade indiscutível. além das nossas necessidades transacionais e de precaução. escondido em qualquer parte.2 2 Na verdade. sem que haja tomadores de empréstimos ou debaixo do colchão. incluindo o dinheiro que mantemos em forma líquida nos bancos. O outro possível uso do dinheiro. o entesouramento identifica-se com a moeda resultante da procura especulativa de moeda de Keynes. Já a equação de trocas é simplesmente um truísmo.O segundo pressuposto da macroeconomia clássica é o de que a moeda não é utilizada para entesouramento. mas foi especialmente desenvolvida por Irving Fischer. A moeda para os clássicos é uma unidade de conta e um meio de troca. Está no substrato de todo o pensamento clássico. não confundi-las. era considerado irracional. era considerado inexistente. Segundo os clássicos. nos bancos. portanto. A Teoria Quantitativa da Moeda A teoria quantitativa da moeda está baseada na equação das trocas. o entesouramento na retirada do dinheiro de circulação. . portanto. Conservando o dinheiro em forma líquida. em forma de depósitos à vista. seguindo a tendência mais recente. o capitalista estaria perdendo os juros que poderia ganhar se houvesse aplicado seu dinheiro em ativos fixos ou em títulos. A primeira é uma teoria. implicando. todavia. Os homens só teriam interesse em mantê-la em seu poder na medida em que dela necessitassem para realizar suas transações. É importante. embaixo do colchão. A respeito da expressão "entesouramento" cumpre aqui um esclarecimento. e portanto seu conseqüente entesouramento. estamos aqui usando o termo entesouramento em um sentido mais amplo. O entesouramento. que examinaremos mais adiante. É uma teoria tentadora. Além de servir para se somarem mercadorias diferentes.

Nesses termos. a não ser incidentalmente. capital. os quais dependeriam da produtividade marginal do trabalho. No momento transitório em que houvesse desemprego. dos recursos naturais e do nível de desenvolvimento tecnológico. da oferta. era importante definir a função de produção. a variável tempo não é considerada. ou seja.3 A Determinação dos Salários A forma pela qual o pleno emprego é assegurado no sistema clássico merece mais alguns esclarecimentos. teríamos uma indicação de que os salários estariam artificialmente altos. Ora. a produção é função do emprego.A Determinação da Renda e dos Preços Temos como corolário da lei de Say e da teoria quantitativa da moeda a teoria clássica de determinação da renda. ou seja. que é própria tanto da macroeconomia clássica quanto da keynesiana. uma vez que tenhamos Y. dentro do qual a quantidade de capital. O Pleno Emprego Podemos agora completar nossa análise. A renda. Para os clássicos a procura agregada era determinada pela oferta agregada. o fator tempo em consideração. ou seja. a função da oferta agregada. dependeria da função de produção do respectivo sistema econômico. de forma que. a dimensão e o número das fábricas são fixos. Esta dependeria da quantidade de trabalho empregada. Não leva. recursos naturais disponíveis e desenvolvimento tecnológico são considerados constantes. dentro de esquema marshalliano de curto prazo. e a renda ou produção passa a ser função do emprego. teremos o volume de emprego. é estática. aliás. Opera. de forma que estes começariam automaticamente a declinar devido 3 No curto prazo. se esta relação é verdadeira. . portanto. Diretamente dependeria do nível dos salários. conforme Keynes depois estabeleceria. O nível de emprego seria determinado pela renda apenas indiretamente. dentro de uma perspectiva estática. como a keynesiana. da derivada da renda em relação ao trabalhador. portanto. Desta forma. Já vimos que a macroeconomia clássica. Logo. quantidade de capital. a sua contrapartida também o é. nos termos da lei de Say. Esta não dependeria da procura agregada.

Investimento e Poupança Falta-nos apenas um elo para completarmos o modelo macroeconômico clássico: a relação entre poupança e o investimento e a decorrente função consumo. Seu pai. Este processo continuaria até que todos os trabalhadores fossem empregados. aumentaria a renda real. chefe da biblioteca da Universidade de Cambridge. Distinguiuse sempre como excelente aluno. determinando também o consumo. aos 14 anos. filha de um pastor metodista. John Naville Keynes. Y. Keynes foi assim educado no seio de uma família de intelectuais. Logo. com o objetivo inicial de estudar Matemática. ao que parece tendo sido decisivo nesse sentido o interesse que Alfred Marshall . levam-nos à conclusão da impossibilidade de subconsumo ou superprodução. Seu livro. Já vimos que a lei de Say e a teoria quantitativa da moeda. era uma senhora inteligente e encantadora. Sua mãe. As empresas. Nasceu em 1883. Scope and Method od Political Economy (1891) foi muitas vezes reeditado.Biografia John Maynard Keynes era descendente de tradicional família inglesa. e é considerado um dos melhores tratados sobre metodologia econômica até hoje escritos. portanto. Como conseqüência do excesso da oferta de trabalho baixariam os salários nominais e reais. Com o aumento do número de empregados. da Universidadede Cambridge. foi um lógico e um economista de alto nível. interessou-se pela Economia. dentro da hipótese da ausência de entesouramento e. voltando-se à situação normal de pleno emprego. aumentariam o número de empregados (já que a curva de procura de empregados não sofrera alteração). que seria o mecanismo equilibrador entre a poupança e o investimento. havendo para isso ganho uma bolsa de estudos. Passou em seguida para o King's College. O problema era resolvido pelos clássicos através da taxa de juros. Florence Ada Keynes. John Maynard Keynes . em vista disto.à pressão dos trabalhadores desempregados. da inexistência de variações na velocidade da moeda. Realizou seus estudos secundários em Eton. todavia. que estariam agora dispostos a trabalhar por um menor salário.

o Economic Journal. Durante esta época de universidade. a economia marshalliana. Keynes jamais foi um economista matemático.o Grupo de Bloomsburg . e foi sempre um diretor atuante. em 1911. É aprovado. Apenas um senão em sua carreira acadêmica: não era um aluno brilhante de Matemática. apesar da displicência com que encara o concurso. Também na universidade Keynes revelou-se excelente aluno. não foi apenas acadêmico em Cambridge. Em seu tempo a matemática econômica e a econometria estavam em pleno desenvolvimento. porém. Keynes foi nomeado membro da "Royal Comission on Indian Currency and Finance". uma economista neoclássico. Keynes publica em 1913 seu primeiro livro. implicando em simplificações excessivas da realidade. Indian Currency and Finance. Ensina. A microeconomia ou a teoria dos preços constituía o núcleo da teoria econômica. Em 1909 está de volta para Cambridge onde aceita uma cátedra de economia. porém. Permanece então dois anos no "India Office" (1906-1908). Terminado o curso universitário. o livro V dos Principles eram o centro de seus ensinamentos. rodeia-se de um grupo de intelectuais de primeira linha . perdia em riqueza e profundidade. Nessa época. Keynes presta concurso para o serviço diplomático. foi nomeado diretor da mais prestigiosa revista acadêmica de Economia. Como fruto de sua experiência no "India Office". Keynes seria. Tinha 28 anos e apenas dois de magistério quando. então. Keynes preferiu. o chefe indisputado dos economistas ingleses de seu tempo.demonstrou por ele. sempre evitar os recursos matemáticos. . Discípulo de Marshall. como a grande maioria dos economistas da época. E durante mais de vinte anos. se o raciocínio econômico ganhava em precisão e clareza com a matemática. e demite-se do serviço público. Manteve esta posição até quase sua morte. Não se adapta a este trabalho. embora fosse esta área de especialização inicialmente escolhida. Marshall era o papa da escola neoclássica. Seu êxito.entre os quais salientaram-se Lytton Strachey e Leonard Woolf. talvez porque visse que. Keynes ganhou prestígio como economista rapidamente. e influenciou profundamente Keynes.

Depois de demitir-se de seu cargo no Tesouro. Poderia ser introduzida a qualquer momento. e. que se perdia em refinamentos teóricos. que obteve excelente repercussão nos meios acadêmicos. a política econômica estava sempre sendo levada em consideração. e deixava em segundo ou terceiro plano os problemas de política econômica. em 1925. Em 1919. se casado com uma famosa bailarina da época. escreveu o livro de denúncia que o tornou célebre ± Economic Consequences of the Peace (1919). Serviu também em várias comissões de aconselhamento econômico do governo. nem em ciência pura. Keynes voltou a ensinar em Cambridge. e sua total inviabilidade econômica. estabelecia as bases para uma futura retaliação alemã. em sua qualidade de conselheiro do Tesouro. Keynes teve sua competência reconhecida. as atividades intelectuais e as práticas. Fundou. Durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando fazia teoria pura. Toda a obra de Keynes foi voltada para a política econômica. foi nomeado o principal representante do Tesouro na Conferência de Paz de Paris. Foi também um autêntico protetor das artes. Em pouco tempo. Em vista disto. desempenhou um papel importante na definição da política financeira britânica. . Não bastavam a Keynes. Keynes era um homem fascinado pelo mundo e com ele comprometido. não havia necessidade de intervenção. tendo. não poderia ter deixado de reagir contra a teoria econômica de sua época. Não acreditava no intelectual de gabinete. demitiu-se de seu cargo no Tesouro.É significativo observar que nesse livro. porém. não podiam ser vislumbradas as teses da General Theory. para contenta-se apenas com sua vida acadêmica. Em 1915. a teoria microeconômica marshalliana. com suas implicações de humilhação nacional para a Alemanha. é chamado para trabalhar no Tesouro (Ministério da Fazenda) britânico. Podia assim ter um contato direto com os problemas financeiros da época. Além disso. Nesses termos. Keynes percebeu claramente que o tratado. desligada de objetivos operacionalmente realizáveis. com grande rapidez e paixão. já que. mas desde o início revelava-se a preocupação de Keynes com a teoria monetária e os problemas macroeconômicos. onde permaneceria até o fim de sua vida e formaria uma escola. constituir-se-ia em um entrave ao desenvolvimento de toda a Europa. dentro das premissas do liberalismo. Não era homem. que terminaria com o célebre e malfadado Tratado de Versalhes. dirigiu e financiou o "Cambridge's Art Theater" e o "London's Camargo Ballet". porém.

Em 1922 publicou A Revision of the Treaty. . partindo da análise da moeda. e aconselhou que o volume dessas obras fosse aumentado. tendo realizado pesquisas históricas e escritotrabalhos nesse campo. era ainda a obra de um economista neoclássico. Era bom entendedor de pintura. ainda que particularmente preocupado com os problemas de política monetária. e nos últimos anos de sua vida foi eleito administrador da "National Art Gallery". Keynes procura neste livro abranger de forma ampla toda a economia. Já estava pondo em prática suas teorias. Economista monetário que era. The End of LaissezFaire. Mas. Este tratado. Era decididamente incansável. ao qual já nos referimos. então em curso. Interessava-se por literatura.Lydia Lopokova. E toda essa atividade era realizada enquanto publicava livros e escrevia artigos. Nele já estavam contidas em embrião algumas das idéias com as quais seis anos mais tarde revolucionaria o pensamento econômico. possuía ampla cultura e permanente preocupação com os problemas filosóficos. já seria suficiente para consagrar Keynes como economista. provavelmente viu no estudo da teoria da probabilidade uma oportunidade para usar a Matemática mais adequada e satisfatoriamente. cuja tese é evidente no título. entrevistou-se com o Presidente Roosevelt. fundamentalmente. Treatise on Money. Em 1930 Keynes sente-se suficientemente seguro para publicar um livro longo e ambicioso. examinou de perto o grande programa de obras públicas do New Deal. Em 1923 publica A Tract on Monetary Reform. Nesses termos. em que examinava a economia inglesa do após-guerra e realizava uma série de recomendações de caráter monetário. Em 1934 Keynes viajou para os Estados Unidos. sempre acreditando que a base do processo econômico capitalista estava no dinheiro. tendo sofrido várias críticas em alguns pontos. e embora não gostasse de abusar de seus conhecimentos matemáticos em seu raciocínio econômico. sua mais importante escapada do campo da Economia. Em 1926 publica um panfleto. embora desigual. Seu estudo universitário básico fora em Matemática. Em 1921 publica A Treatise on Probability.

se confundia frequentemente. todavia. o conteúdo da Teoria Geral. garantiriam pleno emprego. Keynes não era marxista. Era um modelo matematicamente rigoroso. Esta obra seria antes de mais nada uma denúncia do laissez-faire. acreditava no sistema capitalista. sai publicada a General Theory of Employment. John Maynard Keynes. e distribuição ótima da renda entre os proprietários dos fatores de produção. O irrealismo desta visão. fruto da imaginação e da inteligência de economistas brilhantes. Na verdade. E foi em meio aos anos trinta que um economista inglês. na verdade. Pelo contrário. que revolucionaria a teoria econômica. era sob muitos aspectos mais uma peça de sistema ideológico alienado e conservador de justificativa do liberalismo econômico. Interest and Money (1936). As Contribuições de Jonh Maynard Keynes Contra a visão idealista e alienada da economia. cujas linhas gerais acabamos de traçar muito rapidamente nos parágrafos anteriores. maximização da satisfação dos consumidores e dos lucros dos produtores ( os quais. ou mais precisamente. sequer socialista. porém. tornava-se cada vez mais patente. publica um livro General Theory of Employmwent. iria levantar-se a figura do grande economista que marcaria e dividiria a história do pensamento econômico do Século XX: John Maynard Keynes. dentro do qual fora educado. . Interest and Money. eficiência máxima da produção. A macroeconomia clássica. em que as forças do mercado. mas não correspondia à realidade nem fornecia instrumentos eficientes de política econômica para nela intervir. em 1936. que até então se inscrevera entre os mais eminentes economistas clássicos de seu tempo. com a qual. neoclássica. através de seus mecanismos automáticos de auto-ajustamento. embora ainda em termos muito reduzidos. A grande depressão dos anos trinta deste século tornou esse irrealismo gritante. sofria das mesmas limitações da análise microeconômica. corresponderiam apenas ao lucro normal). A macroeconomia clássica transportava-nos para um mundo perfeito. do laissez-faire. Examinemos agora um pouco mais detidamente. Nele consubstanciava-se a revolução keynesiana.Finalmente.

na medida em que utilizam o pensamento keynesiano ou marxista em maior ou menor grau. Não era o capitalismo que era condenado. Keynes foi um economista ortodoxo. o consumo. ao invés de partir da análise do comportamento individual dos agentes microeconômicos . investidores. não toma a produção total como um dado e o pleno emprego como uma decorrência inerente ao sistema. Keynes nos apresenta uma teoria macroeconômica relativamente dinâmica. A teoria Geral Keynesiana Na Teoria Geral. embora rompendo em alguns pontos importantes com a teoria econômica do seu tempo. o investimento. Keynes admitia um grau de intervenção do Estado que a longo prazo poderia implicar no desaparecimento do sistema capitalista. É certo que a política para salvar o capitalismo era suficientemente ousada para praticamente propor a socialização dos investimentos. como era a teoria neoclássica. O comportamento de consumidores. porém. seu controle pelo governo. cujas incógnitas fundamentais são o volume da produção e o nível de emprego decorrente. mas diretamente em função dos agregados econômicos acima enumerados.A crítica de Keynes tem um sentido completamente diverso.os consumidores e os produtores. especuladores continua a ser analisado. a poupança. E a teoria monetária. colocando como incógnitas a alocação dos fatores de produção entre as diversas possíveis aplicações. portanto. dentro de uma economia monetária. O máximo que se poderia dizer. ao contrário da teoria microeconômica anterior. mas o laissez-faire. a ponto de sua contribuição de neokeynesianos ou neomarxistas. e a conseqüente remuneração dos fatores. Keynes adota uma abordagem macroeconômica. partindo diretamente do estudo dos agregados econômicos básicos: a renda. Além disso. é que para salvar o sistema capitalista. Keynes apresenta-nos uma análise pessimista do sistema econômico capitalista. é plenamente . através do mecanismo dos preços. Ao invés de uma teoria estritamente estática e otimista. Sua teoria é uma teoria macroeconômica. que. que na microeconomia constituía-se em um capítulo à parte da teoria macroeconômica. Não visava condenar o capitalismo. Basicamente. mas apontar suas fraquezas e indicar os remédios adequados. que.

todo o centro da análise econômica clássica era de base microeconômica. que não variam. De outro lado. (3) uma variável dependente intermediária. Há assim uma tendência permanente ao subconsumo. A macroeconomia clássica. por motivos institucionais (organização sindical.integrada à macroeconomia keynesiana. tornar-se-ia horizontal. no ponto da armadilha da liquidez. e que os investimentos não conseguem cobrir. então. principalmente de bens de consumo. Na verdade. que depende da oferta e da procura de moeda. De um lado porque. aumentando os investimentos. causada pela propensão marginal a consumir inferior à unidade. porque uma redução nos salários implicaria em uma redução da procura efetiva. integrando. a taxa de juros. lembra que esta redução não seria viável se já estivéssemos. e a possibilidade do emprego manter-se de forma indefinida. chegaram àquele modelo. cresceria o valor real do dinheiro e cairia a taxa de juros. porém. Resulta daí a depressão crônica do sistema capitalista. ao mesmo tempo. Para a macroeconomia keynesiana a solução clássica para o desemprego via redução dos salários nominais não é aceitável. Trata-se da chamada armadilha keynesiana da liquidez. a procura de moeda seria perfeitamente elástica em relação à taxa de juros. Keynes inaugura a abordagem macroeconômica. Isto significa que a curva de procura de moeda. como seria provável. Keynes tira as seguintes conclusões em sua Teoria Geral: Os investimentos. A partir de um certo nível (baixo) da taxa de juros. e (5) algumas identidades fundamentais. que examinamos anteriormente. (2) variáveis independentes. (4) as variáveis dependentes finais. Contra isto argumentaram seus críticos clássicos que esta redução da procura efetiva não ocorreria porque. não aumentam em grau suficiente para cobrir a crescente taxa de poupança. . Por outro lado. Desta análise.). é uma construção dos economistas posteriores a Keynes que. que é agravada pela distribuição desigual da renda. a teoria monetária. etc. lendo nas linhas e entrelinhas dos autores clássicos. paralela à abcissa onde se mede a quantidade de moeda. Keynes. os salários nominais são inflexíveis para baixo. a partir desse ponto. que se dividem em funções de comportamento e decisões do governo. tem um nível mínimo abaixo do qual não cai. que já vimos serem o fator essencialmente dinâmico do modelo keynesiano. com a baixa dos salários. A macroeconomia conta com (1) dados.

já que seria tão mais simples adotar uma política monetária de expansão do crédito. Trata-se de uma análise de curto prazo e estática. realmente. de caráter inflacionário. preferivelmente. centralizava-se a política econômica de Keynes. Estes deveriam. é de caráter mais político do que econômico.Keynes admite apenas uma certa redução dos salários reais. seria tolice adotar tal política tão arriscada. porque coloca a produção. tendente a fazer baixar a taxa de juros. o governo deveria estimular os investimentos privados. o nível da renda e do emprego. O objetivo seria simplesmente aumentar o emprego. dependendo do tipo de imposto que fosse rebaixado. Mas nos momentos de crise. Seu argumento final. que seria indicada nos momentos de crise. Keynes estabeleceu uma série de pontos para uma teoria dinâmica. ser úteis. Mas o objetivo precípuo da redução dos impostos seria deixar mais recursos à disposição para investimento. reduzindo os impostos. e não diminuiriam correspondentemente seus gastos de consumo. Keynes propunha a realização de grandes investimentos públicos. uma teoria do desenvolvimento econômico. como principais incógnitas.. os assalariados aceitariam até um certo ponto este tipo de redução dos salários. e principalmente uma política fiscal de aumento dos investimentos públicos e de redução dos impostos. Não é tão estática quanto a microeconomia neoclássica. porém. Para contrabalançar a insuficiência do investimento privado. Além disso. e que não estivéssemos no ponto da armadilha da liquidez. . a análise macroeconômica keynesiana. devido à armadilha da liquidez. contra a baixa de salários nominais. já que a política monetária. Na política fiscal. seja investindo produtiva ou improdutivamente. Esta redução poderia também estimular o consumo. Observa ele que. construir pirâmides ou abrir buracos para em seguida fechá-los. Os investimentos improdutivos tinham inclusive a vantagem de não implicar em produção futura de bens de consumo. mesmo que institucionalmente fosse viável a redução dos salários.. que teriam que ser consumidos. Através de um processo de ilusão monetária. produtivos. seria ineficiente nos momentos mais agudos de crise. Além dos investimentos públicos. provocada por uma política monetária flexível. seria também uma solução.

porém. suficiente. com o recurso de gráficos e de um sistema de equações. Porque é preciso salientar que a Teoria Geral estava longe de ser um livro de leitura fácil. Nossa finalidade atual. Mesmo os economistas marxistas obtiveram no pensamento de Keynes parte de inspiração e de crítica. algumas tentando minimizar o caráter original de sua contribuição. contida nos Principles. jornalista. em torno das idéias nela expostas constituiu-se imediatamente uma escola de brilhantes economistas. Tornou-se LordKeynes. A Teoria Geral obteve imediatamente uma enorme repercussão. Nesse mesmo ano foi elevado à nobreza. Keynes sofre um primeiro ataque do coração e é obrigado a diminuir o ritmo de sua atividade. Nestes termos. Keynes continuava com febril atividade de economista. desde a publicação da General Theory até o início da Segunda Guerra Mundial. no momento. Assim que saiu. de Keynes. nova. Muitos dos discípulos de Marshall. Isto não o impede.Depois da Teoria Geral Ficam assim traçadas as linhas fundamentais da macroeconomia keynesiana. a General Theory foi também alvo de críticas. financista e mecenas das artes. Nestes termos. não se conformaram com a crítica. Além disso. porém. Propunha um sistema de empréstimo compulsório. Especialmente em relação às novas gerações de economistas. Era então o mais respeitado economista britânico. ocupado em defender-se de seus críticos e em explicar o verdadeiro sentido de sua teoria. Era uma idéia ousada. a ser pago após a guerra. Para seu real conhecimento seria necessária uma exposição muito mais extensa. em que examina o problema do financiamento da guerra que se iniciava. às vezes feroz. Foi alvo de grandes elogios. How to Pay the War (1940). Aquelas que não se tornaram estritamente keynesianas foram profundamente influenciadas por Keynes. todos sofreram a influência de suas idéias. é apenas a de darmos uma idéia introdutória do sentido geral da revolução keynesiana. Em 1937. novas perspectivas de desenvolvimento se abriram para a ciência econômica. Em 1942 tornouse diretor do Banco da Inglaterra. Em 1940 Keynes voltara a trabalhar no Tesouro. porém. Embora suas . este resumo parece-nos. esta recuperou o contato com a realidade e voltou a ser operacional. ao estilo de Keynes e não foi aplicada. barão de Tilton. porém. outras procurando negar a correção de sua análise. de publicar um novo livro. que pretendiam que toda ciência econômica estava. Keynes passou a maior parte do seu tempo. de uma forma ou de outra.

Permanece. sempre voltado para a realidade do mundo. motivada por mais um ataque do coração. Qualquer uma dessas três medidas teria sempre efeitos negativos. como um marco da visão. porém . todavia. foi afinal adotada. o plano apresentado por Keynes não foi aceito. ainda baseado no ouro e nas moedas-reservas. A alternativa norte-americana. preferiram um plano mais conservador. ou restrições às imputações. mas como o economista mais importante da primeira . o Bancor. consubstanciada no Fundo Monetário Internacional. criada por um Banco Central Mundial. nem por isso deixaram de ser ouvidas.idéias nem sempre fossem postas em execução. Apresentou um projeto revolucionário para resolver o problema do financiamento do comércio internacional. De qualquer forma. não como mais um economista que trouxe contribuições significativas para a análise econômica. Dessa forma.aquela que inscreveu o nome de Keynes na história do pensamento econômico. Este fato ficou patente na última grande intervenção de Keynes. iria lhes trazer. deflação interna. em 1946. a Conferência de Bretton Woods. Os Estados Unidos era naquela época. como representante do Reino Unido. na Inglaterra. que o plano Keynes previa. Com isto Keynes pretendia que os países que se encontrassem em recessão econômica e déficit de seu balanço de pagamentos não fossem obrigados a adotar qualquer uma das três medidas tradicionais: desvalorização da moeda. Sua obra fundamental. um país sem problemas com seu balanço de pagamentos. fazendo-se apenas algumas concessões ao Plano Keynes. A criação dessa moeda internacional implicaria em um extraordinário aumento das reservas financeiras internacionais e em uma grande flexibilidade no sistema financeiro internacional. O plano de Keynes era excessivamente inovador. e por um período de três décadas já vinha sendo. Realizou-se então. a partir dos anos cinqüenta. porém. nos Estados Unidos. O ouro e as moedasreservas nacionais (o dólar e a libra) seriam substituídos por uma moeda internacional. Certamente não previam as dificuldades que o déficit constante de seu balanço de pagamentos. Aproximava-se o fim da guerra e era preciso organizar as finanças internacionais para o após guerra. Keynes. e nela procurando intervir. e poderiam ser evitadas através de um sistema de financiamento internacional amplo e flexível. por serem excessivamente revolucionárias. destinada a organizar as finanças internacionais para o após-guerra que se avizinhava. foi a principal figura da reunião. antes de sua morte.

a poupança.uma revolução que sem destruir toda a análise econômica pré-existente. com suas profundas desigualdades de renda. abriu-lhe novas perspectivas. Vimos que este é um ponto central da teoria keynesiana. os dois mais importantes precursores de Keynes foram Malthus e Hobson. inclusive. sem 4 Keynes destruiu essa crença. a poupança deixou de ser mera virtude. que se conservasse uma classe de capitalistas. Só os ricos.metade do século XX. o desemprego. Para os economistas clássicos em geral. quanto maior a poupança. embora fruto do pensamento de um economista educado na mais pura tradição neoclássica. Keynes chegou. renovou-a. via de regra. Já vimos que esta obra. excessiva. não sendo adequadamente contrabalançada por investimentos. sem que os investimentos fossem capazes de contrabalançá-los (dado o entesouramento e a armadilha da liquidez).foi a Teoria Geral. uma virtude. um problema central da teoria econômica. . recolocou-a em contato com o mundo. marshalliana. assim. e dela aurindo muitos de seus conceitos fundamentais. os capitalistas. que não têm sua contrapartida em investimentos. uma das bases da justificação teórica do sistema capitalista. pelo excesso de poupanças. se houvesse procura de investimentos suficiente. portanto. Era importante. enquanto que a propensão marginal a consumir inferior à vaidade fazia com que a poupança crescesse sempre. tinham condições de praticar a virtude da poupança. É claro que. melhor. Com sua teoria. se os consumidores decidirem poupar mais. Os precursores do subconsumo Além de Kahn e dos economistas suecos. a formular o chamado paradoxo da poupança. o intervalo entre a renda e o consumo crescia sempre. Estas desigualdades eram justificadas em nome da poupança. através do qual se demonstra que. O subconsumo tornava-se. constitui-se em uma revolução . para que a poupança e o desenvolvimento econômico pudessem ser mantidos. que abriu novas perspectivas para a ciência econômica . Esta teoria era. inclusive. na medida em que ela era.4 Mas como as oportunidades de investimentos não apresentavam qualquer tendência regular a crescer. que permitia a realização dos investimentos cada vez maiores (sendo o investimento a mola do progresso econômico) era considerada um bem. As crises econômicas. Ambos precederam Keynes na análise do subconsumo. são causados pelo subconsumo.

e implicaria em diminuição de renda. teve seus principais precursores em Malthus e Hobson. por isso. depois de ocorrido o processo econômico. não pareciam tão sensíveis à taxa de juros como pretendiam seus colegas economistas. então. Nada indicava que a oferta criava sua própria procura. paradoxalmente. embora de forma parcial. igualar-se-á ao investimento em um nível mais baixo (porque. Sua oposição à economia marshalliana. aumentando sua poupança desejada. Malthus. a poupança é sempre igual ao investimento). os consumidores diminuirão uma parte da procura agregada. Malthus via que a teoria econômica vigente não encontrava correspondência na realidade. Uma redução do consumo seria resultado de uma redução da procura agregada. e. a qual nem sempre dominava . Da mesma forma que Keynes. com a decorrente redução da renda. por sua vez. salienta-se uma distribuição mais eqüitativa da renda. Após as guerras napoleônicas. é preciso não esquecer. quando Say e Ricardo davam a lei de mercados por perfeita e indiscutível.que haja uma contrapartida da parte dos investimentos. já em 1820. Em lugar dessa teoria iniciou o desenvolvimento de uma teoria alternativa. a Inglaterra entrara em um profundo e prolongado estado de depressão. A poupança. O consumo e a poupança. será necessário que a renda caia e a poupança. O consumo seria função da procura agregada. o resultado paradoxal será que acabarão poupando menos e não mais. um economista não-ortodoxo. Nesses termos. com o aumento de estoques invendáveis. para que a economia volte ao equilíbrio. Ao contrário. que não era necessariamente contrabalançada pelo investimento. que a taxa de juros equilibrasse automaticamente poupança e investimento. que não se coadunava com as teorias otimistas baseadas na lei de Say. deixava de ser uma virtude intrínseca. acabou-se por reduzi-la. Esta análise. pretendia que nem toda a poupança transformava-se necessariamente em investimento. sem que em contrapartida haja um aumento do investimento (a não ser temporariamente. porém. que são considerados investimentos). ex post. podia ser a principal causa de depressões. da qual dependeria o consumo e a poupança. Negou. começou-se pretendendo aumentar a poupança. Entre as medidas que Malthus recomendava para estimular o consumo. baseada no conceito de procura agregada efetiva. o consumo. E esta foi a tese central de John Hobson (1858-1946). que jamais foi aceito por seus contemporâneos como um economista respeitável. Isto acontece porque. Com a diminuição da procura agregada.

foi Marx autor de uma crítica geral da teoria econômica ortodoxa. É indiscutível. Em face a essas idéias. enquanto que Marx foi muito mais do que isto: foi um economista. um sociólogo e um filósofo. Tornou-se. como por sua teoria do que hoje poderíamos chamar de procura agregada efetiva. poupassem excessivamente. talvez imediatamente por não estar amarrado aos rígidos esquemas marshallianos. pôde usar com mais liberdade sua poderosa imaginação. E antecipou a Keynes tanto por sua visão da economia em termos agregados. porém. Keynes era apenas um economista. assim. Não obstante. Afirmava Hobson que o problema central do sistema capitalista era a desigual distribuição da renda. não nos parece adequado considerar Marx um precursor de Keynes. na qual se baseou Lenin para desenvolver sua própria teoria. Outros economistas poderiam ser citados como precursores de Keynes. investiam suas poupanças para em seguida produzir mais bens de consumo. Este jamais compreendeu o significado da contribuição de Marx. não era suficiente para contrabalançar as elevadas poupanças dos ricos. Na medida em que os capitalistas. que recebiam a maior parte da renda. através do qual as poupanças excedentes dos capitalistas eram investidas no exterior e não implicavam em aumento da oferta de bens no mercado interno. tendo aberto novas perspectivas para análise econômica. ao lado de Malthus. e com muito mais amplitude do que a do grande economista inglês. cuja validade não cabe agora discutir. Era um herético e chegou mesmo a glosar este fato em um livro escrito um pouco antes de sua morte. E como já o observamos.perfeitamente. A produção excedia a capacidade de consumo. que poupavam. cuja obra provavelmente nunca estudou a fundo14. talvez. A solução encontrada para este problema era o imperialismo. de o principal precursor de Keynes neste setor. Marx pretendia destruí-lo. em relação à sua renda. Melhor do que estudar Marx . valeu-lhe a reprovação geral.Marx. famoso com sua tese sobre o imperialismo. Um autor. Entretanto. Isto porque. de forma que a economia estava constantemente ameaçada de depressão. que sob muitos aspectos sua análise era correta. parece-nos que os já mencionados nos dão uma idéia do trabalho intelectual existente antes de surgir a Teoria Geral. O grande consumo percentual (propensão média a consumir) dos pobres. ainda devesse ser citado . Este fato fazia com que os ricos. antes de Keynes. Relacionada com sua tese sobre o imperialismo é sua teoria sobre o subconsumo. que lhe valeu o título. porém. não é difícil imaginar porque Hobson foi considerado um herético. enquanto Keynes pretendia apenas aperfeiçoar o sistema capitalista. macroeconômicos. Neste contexto. Além disso. agravava-se a crise.

Fizemos uma exposição extremamente resumida da teoria keynesiana. com muito mais detalhe (embora ainda resumidamente) a macroeconomia clássica. VI . Finalmente. muito rapidamente. o desemprego era um acidente. em 1936. dentro do sistema keynesiano. um método histórico. procurando situar no tempo a contribuição de Keynes. cristalizando-se afinal na análise marshalliana neoclássica.como um precursor de Keynes seria comparar as contribuições dos dois pensadores. tem lugar a chamada "revolução keynesiana". que não obstante o enfoque macroeconômico da análise clássica e neoclássica (que. baseado na lei de Say e na teoria quantitativa da moeda. fizemos . verificar no que conflitam e no que se completam. para isto. o emprego e o nível de preços. por exemplo. Apresentamos as variáveis fundamentais do modelo e verificamos como estas variáveis se interrelacionam. podemos discernir na mesma linha uma análise macroeconômica. Com este livro. Em seu contexto. de forma a determinar a renda. depois passamos a chamar simplesmente de análise clássica). Demonstramos então como. seguindo a linha de Keynes. Mostramos. como a teoria econômica concentrou-se inicialmente na análise microeconômica. Vimos. em seguida. à qual não correspondia. a classificação das principais áreas de estudo da ciência econômica. Damos especial ênfase à distinção entre micro e macroeconomia. Estudamos inicialmente. Desenvolvemos. e resumimos a política econômica proposta por Keynes para corrigir as situações de depressão. Nosso objetivo foi preparar o estudante para esta fascinante incursão na teoria keynesiana. o equilíbrio é compatível com uma situação crônica de desemprego. sempre sob um ponto de vista histórico.CONCLUSÃO E RESUMO Concluímos assim esta rápida análise introdutória da macroeconomia keynesiana. Uma introdução à macroeconomia keynesiana importa necessariamente em um estudo mais cuidadoso da Teoria Geral. que coloca a análise econômica de novo em contato com a realidade. até o surgimento de sua Teoria Geral. Contra ela surgiu a crítica de Keynes. Adotemos. Estudamos rapidamente o conteúdo básico da contribuição keynesiana. Esta análise era essencialmente otimista e alienada da realidade. Examinamos então as linhas gerais da evolução do pensamento de Keynes. Estudamos então as principais características do modelo macroeconômico clássico.

sua obra é ao mesmo tempo viva e atual e já se transformou em um marco decisivo na história do . todavia. muitos dos quais escaparam a Keynes. como. Com sua obra a ciência econômica recebeu um enorme impulso. uma visão histórica e sociológica do processo econômico. faltava-lhe. Simplesmente salientam que a economia. Além disso. Keynes não escapou à regra geral. Foi ele. Sua teoria econômica. o economista mais importante da primeira metade do século XX. Dificilmente se aplica a 41 um país subdesenvolvido. É preciso. no início deste trabalho salientamos o caráter historicamente condicionado da ciência econômica. Por exemplo: a linha mais importante de evolução da teoria econômica atual . na medida em que é uma ciência social. onde o sistema financeiro é incipiente15. envolve indiretamente uma multidão de aspectos não estritamente econômicos. porém. que aqui apenas esboçamos. cujo funcionamento econômico analisou. aliás. está em grande parte baseada na análise de Keynes. Não se preocupou Keynes em situar o sistema capitalista. não pretendem em absoluto negar seu imenso significado para a evolução do pensamento econômico. do início do século XX.uma rápida revista da contribuição dos precursores de Keynes. destina-se aos países capitalistas desenvolvidos. mas também a todas as análises e pesquisas econômicas que foram diretamente ou indiretamente inspiradas por suas idéias. se é verdade que limitam até um certo ponto a contribuição de Keynes. Com este tipo de abordagem. Enquanto apenas economista. não só devido à sua própria contribuição. em que a análise econômica emerge do processo histórico em que ela está inserida. onde o comportamento do tipo do homo economicus não prevalece. a quase todos os grandes economistas. onde o mercado não é integrado. abrindo-lhe novas perspectivas. Foi um economista inglês. sem dúvida uma formulação genial. que sempre e sem rebuços colocou seu pensamento a serviço de seu país e do sistema capitalista nele vigente. não superestimar a contribuição de Keynes. Não se interessou também em examinar as condicionantes sociais e tecnológicas que agem sobre o comportamento econômico dos indivíduos. dentro de uma perspectiva histórica. embora fosse Keynes um homem culto e participante. esperamos ter conseguido definir as linhas gerais do pensamento do economista que revolucionou a teoria econômica. Estas restrições. certamente.a teoria do desenvolvimento econômico -. Tudo isto é certo. mas.

pensamento econômico. 15 .

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