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FACULDADE DE DIREITO DE FRANCA

A INTRODUÇÃO AO DIREITO NOS CURSOS


JURÍDICOS

NATUREZA DE SEU OBJETO

IMPORTÂNCIA

FINALIDADES

ASPECTOS HISTÓRICOS

ASPECTOS NORMATIVOS

ASPECTOS PEDAGÓGICOS.

2011
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A INTRODUÇÃO AO DIREITO NOS CURSOS JURÍDICOS: NATUREZA,
IMPORTÂNCIA, FINALIDADES, ASPECTOS HISTÓRICOS, NORMATIVOS
E PEDAGÓGICOS.

1. NATUREZA DO OBJETO DA INTRODUÇÃO AO DIREITO

1.1. CARÁTER ENCICLOPÉDICO


A Introdução ao Direito não é uma ciência específica, mas uma disciplina de
caráter enciclopédico, pois, apresenta conhecimentos científicos de natureza jurídica,
sociológica, histórica, psicológica etc., conhecimentos filosóficos, envolvendo também,
aspectos técnicos e artísticos, que introduzem o aluno no mundo da ciência jurídica.
Não possui, no dizer de Maria Helena Diniz, “um prisma próprio para contemplar o direito,
fazendo as vezes de filosofia jurídica, quando procura expor os conceitos universais do
direito, que constituem os pressupostos necessários de quaisquer fenômenos jurídicos;
de dogmática jurídica, quando discute normas vigentes em certo tempo e lugar e aborda
os problemas da aplicação jurídica; de sociologia jurídica, quando analisa os fatos
sociais que exercem influência na seara jurídica, por intervirem na gênese e
desenvolvimento do direito; de história jurídica, quando contempla o direito em sua
dimensão temporal, considerando-o como um dado histórico-evolutivo que se desenrola
através dos tempos; de psicologia jurídica ou forense, quando coloca à disposição do
jurista e do aplicador valiosos estudos sobre a natureza do comportamento humano,
abordando problemas da psicologia normal e patológica; de política jurídica, quando
estuda a organização do Estado, envolvendo a origem, a função e a atividade do Estado
desenvolvida para a tingir os fins da coletividade. ” Não apresenta, portanto, um campo
autônomo e próprio de pesquisa, carecendo de objeto e método próprios, não sendo, pois
uma ciência na verdadeira acepção da palavra.
Em entrevista ao Jornal do Advogado, publicada em agosto de 2001, o
advogado criminalista Waldir Troncoso Peres, já falecido, assim definiu a advocacia,
realçando seus aspectos artísticos e técnicos: “a advocacia é a conjunção de uma
sensibilidade estética, de uma capacidade de ser artista, de ter a eloqüência e a força do
artista, além do conhecimento técnico”. Entendemos que tal opinião também se aplica aos
demais operadores do Direito e realça os aspectos técnicos e artísticos, que envolvem a
ciência jurídica.

1.2. CARÁTER PROPEDÊUTICO


A Introdução ao Direito é um sistema de conhecimentos essencialmente
propedêutico ao ensino dos vários ramos do saber jurídico, introduzindo gradativamente o
aluno egresso do Ensino Médio (antigo 2ºGrau), no mundo jurídico que se inicia no
primeiro ano do Curso de Direito. Cabe ao professor desta disciplina, no dizer de Miguel
Reale, compor artisticamente os dados dos diferentes ramos do saber, formando um todo
organizado e unificado, atendendo a um objetivo de natureza pedagógica, ou seja, à
unidade deste sistema de conhecimentos, logicamente ordenados.

1.3. CARÁTER EPISTEMOLÓGICO


Esse sistema de conhecimentos, recebido de múltiplas fontes de informação,
compõe uma disciplina que além de apresentar caráter enciclopédico e propedêutico é
também epistemo1ógica, por fornecer aos interessados uma visão sintética da ciência
jurídica, por estudar sistematicamente:
a) o que é o Direito, definir e delimitar com precisão os conceitos jurídicos
fundamentais utilizados pelos operadores técnicos do Direito;
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b) os pressupostos, objeto, método, natureza, etapas, limites e validade do
conhecimento jurídico-científico, especialmente nas relações que se estabelecem entre o
sujeito cognoscente e o objeto cognoscível;
c) a evolução das escolas científico-jurídicas que predominaram na história,
familiarizando o estudante com as correntes fundamentais do pensamento jurídico;
d) a verificação das relações do Direito com as demais ciências, ou seja, sua
situação no quadro geral do conhecimento.
O vocábulo “epistemologia” advém do grego epistême que significa ciência e
logos, ou seja, estudo, teoria. Assim, etimologicamente falando, Epistemologia significa
teoria da ciência vista sob o prisma filosófico.
Lalande definia Epistemologia como “o estudo crítico dos princípios, das
hipóteses e dos resultados de cada ciência”, esclarecendo que tal palavra é
freqüentemente empregada para designar toda a “Teoria do Conhecimento” ou
“Gnosiologia”.
A Epistemologia Jurídica nos informa que tanto na linguagem comum como na
linguagem técnica, o vocábulo “direito” é empregado com significações diferentes, como
demonstra as seguintes expressões:
a) O estudo do Direito requer método próprio – nesta expressão, direito
significa ciência e o estudo filosófico dessa disciplina científica (ciência jurídica) é um
estudo epistemológico. Como vimos, epistemologia é um termo de origem grega -
epístême (ciência) e logos (teoria/estudo), que etimologicamente significa “teoria ou
estudo da ciência”. Vimos anteriormente o sentido e o alcance deste termo.
Segundo a civilista Maria Helena Diniz, “a fundamentação filosófica da ciência,
é tarefa da filosofia da ciência, ou seja, da epistemologia. Nenhum ramo da ciência pode
viver sem filosofia, pois é nela que o cientista vai buscar as linhas mestras que orientam e
norteiam o saber científico. Todas as ciências estão em estreito contato com a filosofia,
uma vez que possuem princípios gerais, axiomas, supostos que não entram no objeto que
investigam, daí a necessidade de uma consideração filosófica que permita justificá-los.
Dentro desse teor de idéias, parece-nos útil salientar que uma explicação científica não é
filosófica e vice-versa. Os problemas científicos não são idênticos aos da filosofia.
Deveras, o encadeamento dos fenômenos, como a ciência os visa descobrir, deixa intacta
a questão da natureza profunda do seu objeto, de seu método, de seus pressupostos.
Uma explicação crítica sobre o conhecimento de seu método, de seu objeto de estudo, de
seus pressupostos ou postulados não nos saberia dar a ciência. Tudo isso, portanto, é
tarefa da teoria da ciência, ou seja, da epistemologia”.
Não confundir também filosofia ou ciência com doxa (do grego dóksa: opinião,
juízo), conjunto de juízos que a sociedade elabora em um determinado momento histórico
supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia
não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro
conhecimento. Segundo Leibniz (1646-1716), Doxologia se refere a uma compreensão
meramente superficial da realidade, já que se restringe a uma reprodução irrefletida de
sua aparência, como por exemplo, digo que o sol nasce ou se põe, a despeito da teoria
de Copérnico.
b) A educação é direito da criança – aqui “direito” significa o “que é devido
por justiça”, ou quando afirmo que “não é direito condenar um anormal”, estou
querendo dizer que condenar um anormal não está de conformidade com a justiça.
O estudo do Direito como justo ou valor, pertence ao campo da Axiologia
Jurídica (do grego axis: precioso, valioso e logos: estudo, teoria), significando Teoria
Crítica dos Valores Jurídicos. Frederico Nietzsche (1844-1900) cunhou e fez circular na
linguagem filosófica o termo “valor”.
Na acepção de direito com justo, como vimos, distinguimos dois sentidos,
ambos relacionados com o conceito de direito como justiça: a) direito designando o bem
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devido por justiça – Ex: O salário é direito do trabalhador (o salário é devido por justiça).
Nesse sentido, o respeito à vida é devido a todo homem, o pagamento é devido ao
vendedor, a aposentadoria é devida ao empregado, o imposto é devido ao Estado.
A definição de Santo Tomás de Aquino (1225-274), extraída de sua obra De
Justitia se refere a esse sentido: “o direito é o que é devido a outrem, segundo uma
igualdade”. Também se filia a esse sentido, o famoso conceito de Ulpiano (150-228),
constante do Digesto, parte integrante do Corpus Iuris Civilis - trabalho legislativo de
recompilação e reorganização das leis romanas, confiado a um colegiado de dez
juristas dirigido por Triboniano, empreendido por Justiniano (Imperador Romano do
Oriente – 483-565): “Justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu
direito”. “Justitia est constans et perpétua voluntas jus suum cuique tribuendi”; b)
direito com o significado de “conformidade com a justiça” – Ex: Não é direito
discriminar os índios, condenar um anormal Nesta expressão verbal quero dizer que
discriminar os índios ou condenr um anormal “não é conforme a justiça”.
Na definição de Liberatore, encontramos o direito com o significado ”de
conformidade com a justiça”: “direito é tudo o que é reto, na ordem dos costumes”.
c) O direito não permite o duelo (3ª expressão) – na 3ª expressão
apresentada, direito significa norma, lei, regra social obrigatória e tal estudo pertence
ao campo da Dogmática Jurídica, que muitos autores denominam de “Direito Objetivo”
em oposição ao “Direito Subjetivo” ou “direito-faculdade”, que é sempre uma prerrogativa
do sujeito (subjectum), denominação imprópria, porque outras acepções do direito como
justo ou fato social, são também objetivas e não apenas a lei.
Várias definições referem-se à acepção do Direito como lei e dentre elas,
citamos a de Clóvis Beviláqua, que em sua Teoria Geral do Direito Civil, conceitua o
Direito como: “uma regra social obrigatória”, a de Ihering, que considera o Direito como:
“um conjunto de normas coativamente garantidas pelo poder público”ou a de Radbruch,
que define o Direito como “o conjunto de normas gerais e positivas, que regulam a vida
social dos indivíduos”.
Direito nesta acepção de norma ou lei, indica realidades diferentes,
quando se refere ao Direito Positivo e ao Direito Natural; Direito Estatal e Direito não
estatal; Direito Público, Direito Privado e Direito Misto.
Direito Positivo – constituído pelo conjunto de normas jurídicas (legais e
consuetudinárias) vigentes, elaboradas por uma determinada sociedade, num espaço de
tempo, para reger a sua vida interna, impondo às pessoas naturais ou jurídicas, através
da força pública ou social, coação ou sanção.
Podemos conceituar o Direito Positivo como o direito efetivamente observado
em uma comunidade, ou seja, o direito efetivamente aplicado pelas autoridades do
Estado e pelas organizações internacionais, seja na forma legislada e voluntária, seja na
consuetudinária, inconsciente e indeterminada, sem autoria, paternidade.
No dizer de Paulo Dourado de Gusmão, melhor precisando sua conceituação, é
o “direito histórica e objetivamente estabelecido, efetivamente observado, ou então,
passível de ser imposto coercitivamente”, encontrado em leis, códigos, tratados
internacionais, resoluções, regulamentos, decretos, decisões dos tribunais, etc, cuja
existência não é contestada por ninguém, segundo Ripert.
Maria Helena Diniz define o Direito Positivo como o conjunto de normas
estabelecidas e garantidas pelo poder político que se impõem e regulam a vida social de
um dado povo em determinada época.
O sentido que se dá ao termo positivo não é o de valor, mas sim o de existência
material, isto é, o direito materialmente existente, regulando as relações intersubjetivas de
natureza jurídica de um determinado povo, numa determinada época. É o direito que o
Estado aplica, garante e confere coercibilidade.
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O Direito Positivo tem uma dimensão temporal, pois é promulgado, tem
vigência a partir de determinado momento histórico, perdendo-a quando revogado e
reflete valores, necessidades e ideais de seu tempo. Tem uma dimensão espacial ou
territorial, pois vige e tem eficácia em determinado espaço geográfico próprio da
autoridade que o estabelece, reconhece ou o apóia, sendo também possível a eficácia
extraterritorial. Tem também uma dimensão formal, pois é instituído por meio de fonte
formal (tratado, lei, decreto-lei, costume, precedente judicial, regulamento, etc),
obedecendo a regras de elaboração legislativa, que controlam sua própria criação
(autocontrole). Finalmente, apresenta-se hierarquizado (dimensão hierárquica) em suas
normas, desde as superiores (constitucionais), mais ricas em conteúdo e generalidade e
menos numerosas, até as inferiores, menos gerais e mais numerosas, com conteúdos
mais particularizados. Alguns juristas colocam ainda, acima de todas as normas do Direito
Positivo, os princípios gerais de direito e acima de todo o Direito Estatal, numa espécie de
super constituição a Declaração Universal dos Direitos do Homem, estabelecida pela
ONU e ratificada pelos Estados-membros.
O Direito Positivo de desdobra em Direito Objetivo e Direito Subjetivo;
Direito Público, Direito Privado e Misto.
Segundo Maria Helena Diniz, o Direito Objetivo é o complexo de normas
jurídicas que regem o comportamento humano, prescrevendo uma sanção no caso de
violação.
O Direito Objetivo restringe-se tão somente à norma escrita (direito legislado)
ou não escrita (direito costumeiro), que como vimos anteriormente, é objetivamente
representado pela norma agendi, reguladora da conduta humana intersubjetiva.
O Direito Objetivo (jus est norma agendi), ora se apresenta sob a forma
codificada (Código Civil, Código Penal etc.), ora sob a forma consolidada (Consolidação
das Leis do Trabalho – CLT), ou em leis esparsas, como também sob a forma de normas
do direito consuetudinário.
Direito Natural – constituído pelos princípios que servem de fundamento ao
Direito Positivo, tais como “deve se fazer o bem”, “dar a cada um o que lhe é devido”, “a
vida social deve ser conservada”, “os contratos devem ser observados”.
A idéia do Direito Natural vem da mais alta antiguidade, mas foram os filósofos
gregos que a formularam com maior clareza, purificando-a dos elementos religiosos que a
envolviam e a deformavam.
Os filósofos gregos (Sócrates, Platão e Aristóteles), através da observação
acurada da natureza humana, concluíram que os homens são os mesmos em todos os
tempos e lugares e obedecem às mesmas tendências e impulsos, possuindo os mesmos
apetites e emoções. Há, assim, um fundo de humanidade comum a todos os seres
humanos, que os levam a comportarem-se de maneira idêntica, a adotar as mesmas
formas de conduta em face da vida social, originando daí, leis eternas e universais.
Apesar da infinita diversidade de leis, costumes e instituições no tempo e no
espaço depreendem-se um elemento constante, alguns princípios fundamentais que
permanecem idênticos para todos os povos. Assim, acima do Direito criado pelo homem
(nomos) há um Direito Natural inerente à natureza humana (physis), que os gregos
chamavam de “justo por natureza”, em contraposição ao “justo legal” do Direito Positivo
elaborado pelos homens.
Desta forma, antigamente, entendia-se por Direito Natural, o conjunto de
princípios atribuídos a Deus, à Razão ou à “natureza das coisas”, criados para reger a
sociedade humana.
Heráclito de Éfeso, autor da tese de que tudo muda, contrariando Parmênides
que afirmava que nada muda, conciliados séculos mais tarde por Lavoisier que
estabeleceu a verdade científica de que na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se
transforma, afirmava que a verdadeira sabedoria está na obediência à lei divina comum a
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todos. Filiando-se ao pensamento de Heráclito, Sófocles, em sua Antígona faz sua
heroína insurgir-se contra um decreto de Creonte, que proibia o sepultamento de seu
irmão, acolhendo a tese das leis eternas, não escritas, acima do tempo e do espaço.
“Morto em uma batalha, acusado de traição à pátria, Polinice não pode ser sepultado por
ordem de seu tio, o rei Creonte. Desobedecendo aquela ordem, Antígone é surpreendida
quando sepultava seu irmão. Interpelada pelo tirano disse-lhe: as ordens que ditava não
eram superiores às leis não escritas e imutáveis dos deuses” (Tragédia grega de
Sófocles).
Ainda dentro do pensamento grego, o Direito Natural inspira e sobreordena o
Direito Positivo, do qual é modelo perfeito, ainda que imperfeitamente copiado, no dizer
de Platão, cuja única realidade é a idéia. Assim, Platão legou ao Direito Positivo, os
princípios do Direito Natural, através dos romanos, que assimilaram seu idealismo.
Entre os romanos, o Direito Natural passou a compreender manifestações
comuns à vida gregária, como entreviu Ulpiano, vindo posteriormente a denominar-se jus
gentium, direito que compendiava as regras aplicadas por Roma aos estrangeiros, que se
identificava com o jus naturale, conforme a expressão do jurista Gaio (século II), que
definia o jus gentium como naturalis ratio inter omnes homines constituit.
Influenciados pelos gregos, os estóicos consolidam no mundo romano a crença
de que o Direito encontra seu fundamento na natureza, repousando sobre idéias morais
inatas, pois acreditavam que o primeiro dever do homem é seguir a natureza, que
significa viver segundo a razão, uma vez que não há distinção entre lei natural e lei
racional.
Ilustrando essa posição dos estóicos, Cícero em sua obra De Officiis assim se
expressa: “Há de fato uma verdadeira lei denominada reta razão, que é conforme à
natureza, aplica-se a todos os homens, é imutável e eterna. Ela não prescreve uma
norma em Roma, outra em Atenas, nem uma regra hoje e outra diferente amanhã. Essa
lei eterna e imutável abrange todos os tempos e todos os povos”. Percebe-se que os
estóicos não faziam diferença entre as leis naturais e as que regem a conduta humana, o
que torna compreensível a concepção do jurisconsulto Ulpiano, concebendo o jus
naturale como sendo aquele que a natureza ensinou a todos os animais (quod natura
omnia animália docuit ).
Santo Agostinho entende que há dois direitos naturais, um primário, antes do
pecado original, quando o homem vivia em estado de pureza e graça e outro secundário,
depois do pecado original, quando o homem passa a viver num mundo dominado pelo
sensualismo e pelo egoísmo.
Na Idade Média (476-1453), com Santo Tomás de Aquino, o Direito Natural
adquire maior prestígio e desenvolvimento. O Doutor Angélico afirma que há, acima de
todas as leis, uma lei eterna, de essência divina, que ordena o universo e dela decorre a
lei natural, pela qual participa o homem da razão eterna. A definição tomista de lei
humana, enunciada no De Legibus, da Suma Teológica é ainda hoje cultuada –
“ordenação da razão para o bem comum, promulgada pela autoridade competente”, já
referida anteriormente.
Com o alvorecer do mundo moderno e o desmembramento da civilização
teocêntrica, o Direito Natural laicizou-se, derivando-se apenas da razão e não de Deus,
cujos princípios, descobertos pela razão, existiriam mesmo que Deus não existisse. Tal
laicismo inicia-se com Francisco de Vitória, que encontra a sua fonte na natureza das
coisas, que não pode ser alterada nem por Deus e tem continuidade com Grocio,
fundador do Direito Natural.
Miguel Reale afirma que há duas maneiras fundamentais de conceber o Direito
Natural: a transcendente e a transcendental. De acordo com a concepção transcendente,
própria dos tomistas e neotomistas há, acima do Direito Positivo e independente dele, um
conjunto de imperativos éticos, expressão não apenas da razão humana, mas também da
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razão divina. A exigência de ordem racional que Deus estabelece para o universo, que
não é um caos, mas um cosmos se estende para a vida social, devendo a lei positiva
criada pelo homem subordinar-se à lei natural, que independe do legislador terreno e se
impõe a ele como um conjunto de imperativos éticos indeclináveis.
A concepção transcendental do Direito Natural distingue-se da anterior por só
admiti-lo em função da experiência histórica. Os adeptos desta concepção, em geral,
baseiam-se em Kant, que achava que todas as formas de experiência são condicionadas
por certas formas e conceitos (categorias) que tornam a mesma experiência possível.
Filiam-se a essa posição, os jusfilósofos como Stammler e Del Vecchio.
Miguel Reale, apesar de filiar-se à teoria transcendental do Direito Natural, não
coloca o problema em meros termos lógico-formais, mas em termos axiológicos, pois
acredita que há determinados valores, que uma vez trazidos à consciência histórica, se
revelam ser “constantes éticas” inamovíveis, que,embora ainda não percebidas pelo
intelecto, já condicionavam e davam sentido à práxis humana. Miguel Reale destaca,
dentre todos esses valores, o valor primordial da pessoa humana, “cujo significado
transcende o processo histórico, através do qual a espécie toma consciência de sua
dignidade ética” (pessoa como valor fonte).
Ainda segundo Reale, “são essas constantes ou invariantes axiológicas que
formam o cerne do Direito Natural, delas se originando os princípios gerais de direito,
comuns a todos os ordenamentos jurídicos”.
Stammler é autor da conhecida teoria de um Direito Natural de conteúdo variável
– o conteúdo varia no decorrer da história, sem prejuízo de uma forma constante,
representada pela coordenação harmônica das liberdades iguais, segundo uma lei
universal de liberdade. Em sua obra “A Doutrina do Direito Justo”(1902), expôs a idéia
única de justiça aplicada às várias ordenações sociais dos diversos povos e tempos
sucessivos, produzindo múltiplos direitos justos. Sua obra científica ficou marcada pela
fórmula que o consagrou no campo do Direito Natural: “O direito justo é um Direito Natural
de conteúdo variável”.
Na mesma linha de pensamento, Del Vecchio admite a existência de um critério
absoluto, ideal, do Direito, independente de sua sanção positiva, como exigência da
consciência humana. Assim, seria absurdo considerar o Direito dependente apenas da
vontade de qualquer um, absurdo de que Cícero se deu conta ao perguntar se o
homicídio ou o furto passariam a ser justos desde o momento em que fossem declarados
como tais por qualquer legislador, tirano, etc.
Finalmente, como representantes máximos do chamado neotomismo
tradicionalista, para os quais o Direito Natural não é apenas um direito ideal, como
afirmam os positivistas, mas um direito real e válido, citaremos na França, Le Fur e
Georges Renard; na Bélgica, Jean Dabin e Jacques Leclerc; na Alemanha, Helmut Coing
e Rommen; na Itália o já citado Del Vecchio; na Espanha, Galán Y Gutierrez e no Brasil,
Benjamim de Oliveira Filho, Rui Cirne Lima, Edgard de Godói Mata Machado e os nomes
atuais de Paulino Jacques e Franco Montoro.
Em função de uma adequada racionalização do conceito de Direito Natural,
destacaremos os neotomistas franceses Le Fur e Renard, para um breve estudo.
Le Fur entende o Direito Natural como uma diretiva de justiça, de valor universal,
porém, de realização variável. Segundo Le Fur, ao lado dos seus sentidos físicos, o
homem possui cinco sentidos espirituais, a saber: sentido da verdade, do belo, do bem,
do útil e do justo. É o sentido do justo que coordena as descobertas dos demais e constrói
a noção do bem comum, que se conforma com uma ordem natural preexistente definida
por seu conteúdo, que se reduz a três normas primordiais:
- respeitar os contratos livremente feitos;
- reparar todo o prejuízo injustamente causado;
- respeitar a autoridade pública.
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Fundamentando-se em tais princípios, podemos elaborar um direito justo, no
espaço e no tempo.
Renard identifica o Direito Natural com a moral social que é o limite do Direito
Positivo. Assegurando a unidade da ordem jurídica e moral, porém, Renard defende a
perenidade das regras primárias de Direito Natural, mas a variabilidade das regras
secundárias, criando na terminologia da matéria o que ele convencionou chamar de
Direito Natural de conteúdo progressivo.
Afirma Renard a existência de dois fatores no Direito Natural: um metafísico, que
é constante, e outro histórico, que é móvel. Assim, o Direito Natural é uno e diverso como
a natureza humana e a própria sociedade. Enfim, Renard prega “um Direito Natural em
perpétuo “devenir”, um Direito Natural com conteúdo progressivo; progressivo por
assimilação dos dados históricos variáveis a uma substância racional imutável”.
Ainda segundo Renard, o Direito Natural está por toda parte, nas leis, nos
costumes, na jurisprudência, nos contratos e sua inexistência significaria a supressão do
Direito, pois, na verdade, ele é o único direito verdadeiro, sendo o Direito Positivo uma
participação dele.
O Direito Natural justifica o Direito Positivo perante a razão e o Direito Positivo
realiza o Direito Natural na sociedade.
Concluindo, podemos afirmar que no estado atual da doutrina, à parte a
concepção tradicional da Igreja, fundada na filosofia tomista, a idéia dominante é a do
Direito Natural de conteúdo variável e de função diretiva. Serve de modelo e
inspiração para o Direito Positivo, que deve sempre esforçar-se em realizá-lo, em adaptar
as relações sociais aos seus preceitos normativos; e é, por outro lado, um critério de
valoração do Direito Positivo, cujo progresso e perfeição são estimados na medida em
que se aproxima do Direito Natural. Em suma, escrevem os juristas contemporâneos,
seja qual for a idéia que dele se tenha, como “direito” ou como “moral”, como “justiça” ou
“ideologia”, não se pode negar haver um princípio moral que se sobrepõe ao
legislador, orientando-o, julgando-o, criticando-o, condenando-o, fundamentando
suas leis. Dê-se-lhe outro nome, mas não se lhe pode negar a validade, vigência e valor,
pois, acima das leis e do poder, está a dignidade humana.
Goffredo Telles Jr.aborda o Direito Natural de uma forma totalmente diferente,
afirmando que Direito Natural é o Direito que não é artificial, entendendo por Direito
Artificial o Direito falsificado, ilegítimo, misturado com o Direito legítimo. Goffredo define o
Direito Natural nos seguintes termos: “conjunto dos mandamentos autorizantes,
emanados do poder constituinte e do poder legislativo, e harmonizados com a ordenação
ética da coletividade”. Nesta linha de raciocínio, são Direitos Naturais todas as
ordenações jurídicas autênticas ou legitimadas, isto é, todas as ordenações jurídicas
harmonizadas com a ética vigente na sociedade. Desta forma, afirma Goffredo, o Direito
Natural pode também ser definido nos seguintes termos: “Direito Positivo destinado a ser
meio para a consecução dos bens soberanos do homem”
Conclui Goffredo, criticando outras posições doutrinárias, que os princípios
gerais de Direito, tidos como Direito Natural, por não serem autorizantes, não são normas
jurídicas, e não pertencem ao Direito Natural, apesar de exprimirem altíssimos princípios
da moralidade. Atualmente, segundo Goffredo, há uma clara distinção entre norma
jurídica e norma não jurídica.
Segundo Kelsen, as normas do Direito Positivo, têm a estrutura de uma
proposição hipotética condicional: Se o inquilino não pagar o aluguel, ele estará sujeito a
uma ação de despejo; se o eleitor não votar, estará sujeito a uma multa. As normas de
Direito Natural são, como vimos, proposições diferentes.
Direito Estatal – normas jurídicas obrigatórias elaboradas pelo Estado, para
reger a vida social, como por exemplo, o Código Civil, a Constituição, o Código Comercial,
as demais leis federais, estaduais e municipais, os decretos, etc... .
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Direito não-estatal – normas jurídicas obrigatórias elaboradas por diferentes
grupos sociais e destinadas a reger a vida interna desses grupos. Exemplos: estatutos,
regimentos, regulamentos e demais normas que regulamentam a vida de uma
universidade, quando elaborados por esta, constituem um direito autônomo (direito
universitário); normas e códigos esportivos que regulam, com força obrigatória, a
atividade esportiva, inclusive, através de tribunais esportivos (direito esportivo); normas
que disciplinam a atividade espiritual de milhões de criaturas católicas (direito canônico),
muçulmanas (direito muçulmano), budistas (direito budista), fazem parte do direito
religioso; normas trabalhistas derivadas de convenções coletivas, acordos e outras fontes
não estatais, exceto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que foi outorgada pelo
Presidente Getúlio Vargas (Decreto-lei 5452, de 01/05/43).
d) O Estado tem direito de legislar, cobrar impostos, etc. – nesta quarta
expressão “direito” significa a faculdade, o poder, a prerrogativa, que o Estado tem
de criar leis e cobrar imposto. O direito-faculdade ou direito-poder pertence à Teoria dos
Direito Subjetivos que se dedica a estudar a faculdade de agir de uma pessoa natural,
física (individual) ou jurídica de direito público ou privado (coletiva) – a facultas agendi, em
oposição ao direito-lei que é uma norma agendi. Exemplo: direito de usar um imóvel,
cobrar uma dívida, propor uma ação, o poder familiar exercido pelo pai ou pela mãe
(antigo pátrio poder do chefe de família), o direito de legislar ou de punir, de que o Estado
é titular.
Quando o termo “direito” é utilizado no contexto de “direito brasileiro”, “direito
civil”, estamos nos referindo à expressão “direito objetivo”, à norma agendi, externa e
independentemente de atuação subjetiva. Ao contrário, quando o termo “direito” encontra-
se impregnado de subjetivismo como nestas expressões “Elisiário tem direito às férias” ou
“Virgínia tem direito à pensão alimentícia”, estamos nos referindo ao “direito subjetivo”, à
facultas agendi (possiblidade do exercício do direito de agir).
Nesse sentido Ortolan define o direito como “a faculdade de exigir dos outros
uma ação ou inação” e Kant define o direito como “a faculdade de exercer aqueles atos,
cuja realização universalizada não impeça a coexistência dos homens”. Assim, conforme
o pensamento Kantiano, não seria possível erigir o furto em regra universal, porque
tornar-se-ía impraticável a coexistência entre os homens.
O Direito Subjetivo, segundo Goffredo Telles Jr., é a permissão, dada por
meio de norma jurídica válida, para fazer ou não fazer alguma coisa, para ter ou não ter
algo, ou, ainda, a autorização para exigir, por meio dos órgãos competentes do poder
público ou através dos processos legais, em caso de prejuízo causado por violação de
norma, o cumprimento da norma infringida ou a reparação do mal sofrido.
As permissões para casar e constituir família; adotar pessoa como filho; ter
domicílio inviolável; vender os seus pertences; usar, gozar e dispor de seus bens; exigir
pagamento do que lhe é devido; mover ação para reparação de danos sofridos; prolatar
uma sentença, na condição de juiz investido de função jurisdicional; educar seus filhos
etc.,são direitos subjetivos.
As permissões dadas por meio das normas jurídicas podem ser explícitas, se
expressas no texto da norma jurídica ou implícitas, quando as normas não se referem a
elas de modo expresso, mas regulam o seu uso, por não proibi-lo, tais como as
permissões de fazer, de não fazer, de ter e de não ter. Como exemplos de permissões
explícitas podemos citar o consentimento dado a maior de idade para praticar atos da vida
civil; a permissão aos nubentes, para estipularem, antes da celebração do matrimônio,
quanto a seus bens, o que lhes aprouver. Como exemplo de permissão implícita, a
permissão de casar, implícita nos artigos do Código Civil, que dispõem sobre as
formalidades, impedimentos, celebração, provas, nulidades e efeitos jurídicos do
matrimônio, sem mencionar explicitamente a permissão para se casar.
Goffredo Telles Jr. critica aqueles que afirmam que Direito Subjetivo é
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facultas agendi, entendendo que as faculdades humanas não são direitos, e sim
qualidades próprias do ser humano que independem de norma jurídica para a sua
existência, pois o seu uso é lícito ou ilícito, conforme for permitido ou proibido.
A atividade legiferante, própria do poder legislativo, do poder normativo dos
grupos sociais e do poder contratual dos particulares, cria a norma objetiva, de caráter
abstrato e genérico, estabelecendo uma regra de comportamento ou de organização. Tal
norma objetiva quando entra em vigor traz implicitamente no seu enunciado aquilo que
convencionamos chamar de Direito Subjetivo, pois, não há norma de Direito Subjetivo no
ordenamento jurídico. Assim, o Direito Objetivo está explicitado na norma e o Direito
Subjetivo está implicitado na mesma norma.
O Direito Subjetivo, de conformidade com sua finalidade se subdivide em:
direito-interesse – concedido ou reconhecido no interesse de seu titular, como meio de
permitir-lhe a satisfação de suas necessidades materiais ou espirituais (direito à vida, à
integridade física, à liberdade, direito de usar um imóvel ou reivindicar uma propriedade);
direito-função – instituído em benefício de outras pessoas, como o poder familiar, que é
conferido ao pai ou à mãe no interesse do filho, o direito de julgar atribuído ao juiz (função
jurisdicional) ou de legislar, próprio do legislador (função legiferante), em benefício da
coletividade.
Por fim, cumpre ressaltar que os demais aspectos e elementos do Direito
Subjetivo serão abordados numa avaliação complementar, tendo como referencial a obra
de André Franco Montoro, Introdução à Ciência do Direito, na parte dedicada à Teoria dos
Direitos Subjetivos.
e) O direito constitui um setor da vida social – nesta última expressão,
direito é considerado como fenômeno da vida coletiva, sendo estudado pela
Sociologia Jurídica.
Ao realizar o estudo de qualquer sociedade, a Sociologia distingue diversas
espécies de fatos sociais (religiosos, econômicos, artísticos, esportivos) e entre eles, o
fato jurídico.
Algumas definições de Direito abordam o termo “direito” com mais de um
significado. Sob esse aspecto, Gurvitch define o Direito como “uma tentativa para realizar
num dado meio social (fato social – Sociologia), a idéia de justiça (Justiça – Axiologia),
através de um sistema de normas imperativo-atributivas” (norma – Dogmática Jurídica).
Tobias Barreto também se coloca nesta perspectiva, quando define o direito como “o
conjunto das condições existenciais e evolucionais da sociedade (fato social –
Sociologia), coativamente asseguradas” (norma – Dogmática Jurídica).
Usamos, também, o termo “direito” com outras acepções secundárias:
Direito como reto (sentido geométrico – segmento direito)
Direito como certo (cálculo direito)
Direito como correto (homem direito – conduta moral)
Direito como oposto à esquerda (lado direito).
CONCLUSÕES
Do conceito analógico de “direito” extraímos as seguintes conclusões:
a) Direito: conceito análogo – A palavra “direito” não designa apenas uma,
mas várias realidades distintas e afins, não sendo possível formular uma única definição
de “direito”, mas sim, diferentes definições correspondentes às diversas realidades –
direito como ciência, como justo, como norma, como faculdade e como fato social. Desta
forma, concluímos que o vocábulo “direito” não é unívoco (se aplica a uma única realidade
– Ex: livro, homem), nem equívoco (se aplica a duas ou mais realidades radicalmente
diversas – Ex: lente=professor e lente=vidro refratário), mas sim análogo, pois se aplica
às diversas realidades afins situadas no mundo jurídico, que apresentam entre si, certa
semelhança. Porém, se extrapolarmos o campo jurídico e aplicarmos o termo “direito”
11
indistintamente, o mesmo se torna equívoco, em face das outras acepções secundárias
acima descritas.
b) Diferentes posições não são contraditórias – representam pontos de
vista sobre aspectos ou sentidos diferentes de um mesmo objeto e revelam, muitas vezes,
a orientação doutrinária ou filosófica de cada autor e de sua época.
c) Sentido fundamental do Direito atualmente – o atual pensamento
jurídico reconhece que o sentido fundamental do Direito, em qualquer de seus aspectos,
consiste sempre em estar a serviço da justiça, como observa Gurvitch: “as normas
jurídicas podem ser mais ou menos perfeitas, mas não serão “direito” se não estiverem
orientadas no sentido da realização da justiça”.

CONCEITO FILOSÓFICO DE DIREITO – “Direito é uma ordenação


coercível, heterônoma, bilateral-atributiva, da conduta humana, na medida do bem
comum”.
Ordenação – Todas as regras sociais ordenam a conduta, tanto as morais
como as jurídicas e as convencionais ou de trato social, procurando colocar as coisas e
os sujeitos nos seus devidos lugares, estabelecendo o equilíbrio e realizando uma
convivência ordenada.
Coercível – Força organizada pelo Estado no sentido de compelir o cidadão
ao cumprimento da norma (coercibilidade). Essa força só é chamada a agir quando é
necessário, ou seja, quando o cidadão é inadimplente e neste caso a força coage e dá
validade a uma norma jurídica, autorizando ou permitindo ao lesado,exigir do lesador que
cumpra a sua parte.
Heterônoma – Capacidade de transferir ao Estado (povo) o poder de aplicar a
força para compelir o cidadão ao cumprimento da norma. O Estado passa a ser detentor
do poder de subjugar a vontade do destinatário da norma, no interesse social.
Excepcionalmente podemos fazer justiça com as próprias mãos, que são as
excludentes ao monopólio do uso da força pelo Estado, manifestadas pelos exemplos
clássicos de legítima defesa (CP, art. 25), estado de necessidade (CP, art. 24) e o
desforço imediato (CC, art. 1.210, § 1º).
Bilateral-atributiva – Ninguém busca justiça de si para consigo mesmo. Há
duas partes, com exigibilidade recíproca.
Atributividade significa exigibilidade recíproca no comportamento entre as
partes, de direitos e obrigações. Ex: no contrato de compra e venda, quem compra deve
pagar e quem vende, deve entregar a coisa vendida.
Conduta humana – Maneiras de agir de conformidade com a norma.
Bem comum – Ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo
do bem alheio, ou seja, uma composição harmônica do bem de cada um com o bem de
todos.
O bem comum é o resultado da harmonização da liberdade, paz, justiça,
segurança, solidariedade e utilidade social feita pelo juiz ao aplicar a lei ao caso concreto.
É a ordem jurídica, pois, como ensina Goffredo Telles Jr., é o único bem que todos
participantes da sociedade política desejam necessariamente, uma vez que sem ordem
jurídica não há sociedade. Enfim, é o fim da própria vida social, por ser a ratio formalis
quae do Direito, que se obtém com a harmonização dos bens particulares com os da
comunidade.
Maria Helena Diniz define o Direito como uma ordenação heterônoma das
relações sociais baseada numa integração normativa de fatos e valores, adaptando o
conceito de Miguel Reale, onde o Direito é concebido como fato, valor e norma, na sua
famosa Teoria Tridimensional do Direito. Por esta teoria o Direito engloba fenômenos
sócio-axiológicos e normativos, como se depreende deste exemplo dado por Miguel
Reale: ao se interpretar a norma que prevê o pagamento de letra de câmbio na data de
12
seu vencimento, sob pena de protesto do título e de sua cobrança, goza o credor, desde
logo, do privilégio de promover a execução do crédito. De modo que se existe um débito
cambiário, há de ser pago, e se não for quitada a dívida, deverá haver uma sanção. Como
se vê a norma de direito cambial representa uma disposição legal que se baseia num fato
de ordem econômica e que visa a assegurar um valor – o valor do crédito – a vantagem
de um pronto pagamento com base no que é formalmente declarado na letra de câmbio.
Neste exemplo, tem-se um fato econômico que se liga a um valor de garantia para se
expressar por meio de uma norma legal que atende às relações que devem existir entre
aqueles dois elementos.
O grande poeta italiano Dante Alighieri, também apresenta o ordenamento
jurídico como fundamento inarredável da sociedade, quando afirma: “O Direito é uma
proporção real e pessoal, de homem para homem, que conservada, conserva a
sociedade; corrompida, corrompe-a”.

2. IMPORTÂNCIA DA DISCIPLINA

A importância desta disciplina essencialmente preparatória ao ensino de


vários ramos jurídicos, foi magistralmente justificada pelo eclético Victor Cousin, quando
propôs sua criação como curso preliminar de admissão ao Curso de Direito, em 1814, na
França, argumentando da seguinte forma: “quando os jovens estudantes se apresentam
em nossas escolas, a Jurisprudência é para eles um país novo do qual ignoram
completamente o mapa e a língua. Dedicam-se de início ao estudo do Direito Civil e ao do
Direito Romano, sem bem conhecer o lugar dessa parte do Direito no conjunto das
ciências jurídicas, e chega o momento em que, ou se desgostam da aridez desse estudo
especial, ou contraem o hábito dos detalhes e a antipatia pelas vistas gerais. Um tal
método de ensino é bem pouco favorável a estudos amplos e profundos. Desde muito
tempo os bons espíritos reclamam um curso preliminar que tenha por objetivo orientar de
algum modo os jovens estudantes no labirinto da Jurisprudência; que dê uma vista geral
de todas as partes da ciência jurídica, assinale o objeto distinto e especial de cada uma
delas e, ao mesmo tempo, sua recíproca dependência e o laço íntimo que as une; um
curso que estabeleça o método geral a seguir no estudo do Direito, com as modificações
particulares que cada ramo reclama; um curso, enfim, que faça conhecer as obras
importantes que marcaram o progresso da ciência. Um tal curso reabilitaria a ciência do
Direito para a juventude, pelo caráter de unidade que lhe imprimiria e exerceria uma
influência feliz sobre o trabalho dos alunos e seu desenvolvimento intelectual e moral”.
Trata-se de uma disciplina eminentemente formativa, criando no operador técnico
do Direito, uma mentalidade científica que o torna capaz de elaborar cientificamente uma
teoria jurídica.

3. FINALIDADES

3.1. FINALIDADE FUNDAMENTAL


Em função de seu caráter enciclopédico, propedêutico e epistemológico ,a
Introdução ao Direito tem por escopo fundamental, fornecer uma noção global ou
panorâmica da ciência que trata do fenômeno jurídico,propiciando uma
compreensão de conceitos jurídicos comuns a todos os componentes curriculares
do Curso de Direito, familiarizando o aluno e o jurista na terminologia técnico-
jurídica.

3.2. FINALIDADES SEGUNDO MIGUEL REALE


13
Comungando do mesmo pensamento de Victor Cousin, Miguel Reale
apresenta as seguintes finalidades da Introdução ao Direito:
Primeira finalidade: oferecer uma visão unitária e panorâmica dos
diversos campos em que se desdobra a conduta humana segundo regras do
Direito, como já havia afirmado anteriormente.
Podemos agrupar o conjunto de disciplinas jurídicas que formam o campo do
Direito, em duas grandes classes: Direito Público e Direito Privado. Mais tarde
estudaremos os fundamentos dessa divisão clássica originária do Direito Romano, como
se depreende da leitura do Digesto, onde o Direito Público era aquele emanado dos
órgãos estatais e tinha por objeto a estrutura, a atividade, a organização e o
funcionamento do Estado Romano e o Direito Privado, o que disciplinava interesses
particulares. Digesto vem do latim digestus (de digere, por em ordem, classificar), sendo o
nome que sempre se deu às compilações ou livros, que continham matéria de Direito,
distribuída e posta por ordem. É o nome que se dá a um das partes do Corpus Juris
Civilis, consolidado sob a coordenação do Imperador Romano do Oriente, Flávio Pedro
Sabácio Justiniano (483-565), onde encontramos fragmentos de notáveis jurisconsultos,
também denominada de Pandectas, que, derivado de pan (do grego pan, tudo e
déchomai, encerrar, conter), daí o sentido de “que encerra tudo”, compilação universal ou
que compreende tudo (compreensão total).
Entende-se por Corpus Juris Civilis, a reunião de várias leis promulgadas no
Governo do Imperador Romano, já citado, complementadas com a adaptação de
princípios anteriores, sistematizados num só corpo de Direito.
A corrente do pensamento que adota essa divisão é chamada dualista, e se
atribui a Ulpiano, remontando aos tempos do Direito Romano. Hans Kelsen defende a
corrente monista, afirmando que o Direito é uno e estatal. Atualmente está surgindo uma
terceira corrente, ainda não aceita pacificamente pelos doutrinadores, denominada por
alguns de trialista (público, privado e misto).
Os adeptos da corrente dualista entendem que o Direito Público regula
relações em que o Estado é parte, regendo a organização e atividade do Estado
considerado em si mesmo, em relação com outro Estado e em suas relações com
particulares, que através de seu poder soberano, tutela o interesse coletivo. Subdivide-se
em Direito Público Interno, compreendendo os seguintes ramos: Direito Constitucional,
Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Processual, Direito Penal e Direito
Público Externo, abrangendo o Direito Internacional Público e Direito Internacional
Privado.
O Direito Privado disciplina as relações entre os particulares nas quais
predomina, de modo imediato, o interesse de ordem privada, pois o homem não se
relaciona apenas com o Estado, mas também e principalmente com seus semelhantes.
Subdivide-se em Direito Privado Comum, que apresenta como ramo fundamental, o
Direito Civil, e Direito Privado Especial, tendo como ramos, o Direito Comercial e o
Direito do Trabalho.
Os defensores da corrente trialista entendem que há uma nova gama de
direitos que não são plenamente privados e nem públicos, tutelando ao mesmo tempo os
dois interesses. Um bom exemplo é o Direito do Trabalho, composto de normas cogentes,
indisponíveis, impostergáveis ou de ordem pública, que ordenam ou proíbem de um modo
absoluto, sem admitirem alternativas (piso salarial mínimo, repouso semanal obrigatório,
registro obrigatório, férias etc.), e normas disponíveis que regem as relações particulares
entre empregados e empregadores estabelecidas por via contratual, típicas do Direito
Privado. Desta forma, só o contrato se formaliza sob as luzes do Direito Privado, tudo o
mais se regendo por normas indisponíveis.
14
Pelo exposto, o Direito do Trabalho nem é inteiramente estatal, porque suas
normas não são elaboradas somente pelo Estado, mas também por entidades
representativas das classes de empregados e empregadores, nem inteiramente privado,
pela indisponibilidade das partes poderem acordar livremente. Semelhante discussão
acontece com relação ao Direito de Família, com normas cogentes e indisponíveis.
Tais discussões, segundo alguns doutrinadores estariam ligadas aos seguintes
critérios utilizados para situar um ramo do Direito no campo do Direito Público ou Direito
Privado:
a) critério da utilidade ou do interesse – utilidade ou interesse
preponderantemente do Estado, a norma jurídica será de Direito Público; utilidade ou
interesse preponderantemente dos particulares, a norma jurídica será de Direito Privado.
Esse critério não satisfaz a todos.
b) critério da forma da relação jurídica: de coordenação ou de
subordinação.
Relação jurídica de coordenação é o vínculo entre as partes que se tratam de
igual para igual, como por exemplo, entre o comprador e o vendedor.
Relação jurídica de subordinação é aquela em que uma das partes é o Governo
da sociedade política (Estado) exercendo a sua função de mando, de imperium,
provocando um desequilíbrio da balança em seu favor, como por exemplo, entre o Estado
e os contribuintes dos impostos.
Em face destes critérios Direito Público é aquele que protege utilidades ou
interesses predominantemente públicos e regula relações jurídicas de subordinação.
Direito Privado é aquele que protege utilidades ou interesses preponderantemente
privados e regula relações jurídicas de coordenação
Como os critérios não são absolutos, nem perfeitos, admitindo exceções, não
satisfazem, pois há situações em que o interesse privado, mesmo sendo da essência do
ato, cede lugar para o interesse social, como nas questões relacionadas ao Direito de
Família e nos demais ramos tidos como mistos.
Igualmente, não se pode falar em subordinação ou imperium, em relações
jurídicas que envolvam dois entes públicos da mesma hierarquia administrativa, o que
seria relação jurídica de coordenação, bem como também, há outras relações de
subordinação fora do Direito Público.
O momento histórico em que atravessa uma sociedade política é que
geralmente determina a tendência ou para a publicização ou privatização do Direito.
Concluindo, entendemos que se a norma tiver por objetivo organizar as
atividades do Estado de natureza administrativa, negocial, política e jurisdicional, ela será
de Direito Público, independentemente de ser de subordinação ou coordenação; porém,
se objetivar disciplinar as relações envolvendo particulares, será de Direito Privado e se
apresentar natureza híbrida, será de Direito Misto.
As normas originárias dos diversos ramos do saber jurídico asseguram
condições de equilíbrio à convivência humana, havendo, em cada comportamento
humano, a presença, embora indireta, do fenômeno jurídico.
As relações intersubjetivas jurídicas, por envolverem sempre dois ou mais
sujeitos, estão sempre revestidas de normatividade jurídica, confirmando a sábia lição
contida neste antigo brocardo latino: ubi societas, ibi jus (onde está a sociedade está o
direito) ou vice versa, ubi jus, ibi societas. Assim, existem tantas espécies de normas e
regras jurídicas quanto são os possíveis comportamentos e atitudes humanos e como
toda interação humana perturba os indivíduos em relação recíproca, para que a
sociedade possa conservar-se é preciso delimitar as atividades das pessoas que a
compõem, mediante normas jurídicas.
15
Pelo exposto, devemos apreciar as diversas disciplinas jurídicas no seu
conjunto unitário, pois são interdependentes, surgindo daí a multiplicidade e unidade do
Direito.
Segunda finalidade: compreender a complementaridade das disciplinas
jurídicas e o sentido unitário do fenômeno jurídico.
Podemos graduar os tipos de unidade da seguinte forma: unidade física ou
mecânica, que é mais própria dos seres homogêneos, pela ligação de elementos da
mesma ou análoga natureza, de cuja composição não resulta nenhuma ação ou função
com base nos elementos constitutivos do todo, como por exemplo, a unidade molecular
de uma pedra; unidade orgânica, onde as partes que compõem o todo estão
organicamente em harmonia e muito embora cada parte tenha a sua função própria, todas
estão voltadas para a consecução de um objetivo comum, irredutível às partes
componentes, como acontece com o funcionamento do coração, por exemplo; unidade
de fim ou finalística ou teleológica, como acontece com a Ciência Jurídica, onde as
diferentes partes do Direito não se situam uma ao lado da outra, como coisas acabadas,
estáticas ou mecânicas, mas se ordenam juridicamente com o objetivo comum de garantir
a convivência social.
Por Teleologia (do grego téleios:completo e logos: estudo, teoria) se entende
a doutrina das causas finais ou dos fins, ou em que tudo se explica pelos fins que
aparentemente se destinam.. Teleologia Jurídica é a teoria que estuda o Direito em face
de suas causas finais, como uma ordem jurídica dirigida a um fim, ou seja, à Justiça.
Observamos que a unidade física é própria dos seres brutos que se organizam
ou se estruturam no plano molecular, pois a molécula é a unidade característica dos seres
brutos. Já nos seres vivos a organização obedece a um plano celular, pois a célula é a
unidade vital do ser vivo e se constitui também numa unidade orgânica.
Os seres brutos não atingiram o plano celular, pois ficaram no plano molecular.
Se separarmos as partes de uma célula, não mais teremos matéria viva, desaparecendo a
unidade orgânica, vital dos seres vivos. Os seres vivos, desde os mais simples, como, por
exemplo, as amebas, já constituíam seres de matéria altamente desenvolvida, seres com
estrutura molecular extraordinariamente complexa.
Se analisarmos a história do desenvolvimento da matéria no universo
concluiremos, obviamente, que o aparecimento da vida e sua evolução estão intimamente
relacionados com a evolução da matéria, composta de substâncias minerais. O
surgimento das substâncias orgânicas, próprias dos seres que têm vida, com base nas
substâncias minerais, próprias dos seres brutos e a transformação do primeiro
protoplasma dando origem a vegetais e animais, são temas biológicos de grande
interesse aos pesquisadores do campo biológico. Por ora, basta lembrar que todos nós
somos descendentes da primeira célula do planeta e que por reprodução, apareceram as
demais células que se evoluíram durante um bilhão de anos, até se unirem as outras
células, formando tecidos orgânicos que se reuniram formando órgãos, sistemas e
organismos.
Os primeiros organismos vivos eram organismos microscópicos (bactérias,
algas e amebas), porém, como vimos, já complexíssimos, pois eram compostos de
imensas cadeias de moléculas que se constituíram nos primeiros representantes do reino
vegetal e animal, formando variedades incontáveis.
Os organismos animais evoluíram em duas linhas: na linha dos vertebrados,
dotados de coluna dorsal, e dos invertebrados, sem essa coluna.
Os invertebrados foram evoluindo até chegar ao inseto que é o ser vivo
soberano desta linha.
Os vertebrados evoluíram até as inúmeras espécies de animais vertebrados,
hoje existentes, chegando até os animais dotados de cérebro. O cérebro representa uma
16
enorme complexificação do sistema de comando. Com o aparecimento do cérebro, deu-
se a eclosão da consciência sobre a Terra.
Há um milhão de anos, certo vertebrado mamífero, descendente dos
antropóides, começou a executar movimentos até então desconhecidos. Tais movimentos
eram, sem dúvida, reações de conservação e adaptação. A extrema complexificação de
seu organismo deu-lhe curiosa versatilidade, pois era capaz de acumular lembranças de
fatos variados e seu sistema de comando lhe habilitava a praticar atos de escolha.
O ato de escolha é complexo e está sempre na dependência das informações
de que dispõe o ser que escolhe, ou seja, na dependência dos conhecimentos sobre o
meio ambiente e sobre si próprio. O ato de escolha consiste, afinal, no ato de eleger o que
melhor convém, em cada caso.
O ato de escolha é o ato de concluir o que deve ser feito e o ato de concluir é
o ato que chamamos de ato de raciocinar, ato de decidir, de fundamental importância para
o Direito. E assim surgiu, um novo reino, ou seja, o reino hominal e neste reino um novo
animal que raciocinava - o homem. Esse homem passou por várias fases: 1ª fase:
“homem símio” ou arcaico do tipo Pitecântropos (do grego pitekos = símio e antropos =
homem); 2ª fase: “homem primitivo” do tipo Paleântropos (do grego palaios= antigo e
antropos= homem); 3ª fase: homo sapiens, do tipo Neântropos (do grego neo=novo e
antropos = homem) como o Homem de Neandertalen (vale do Rio Dussel, afluente do rio
Reno, na Alemanha); finalmente, a 4ª fase, ou do homo sapiens sapiens, como o
Homem Cromagnense, porque seu fóssil foi encontrado em Cromagnon, localidade
francesa da Província de Dordon.
As pesquisas científicas tendem a comprovar que a matéria viva foi
engendrada da matéria bruta e que a consciência foi engendrada da matéria viva. E que a
consciência, saindo de seu estado primitivo e ainda instintivo, gradualmente se
desenvolveu em formas sempre mais organizadas de matéria viva, até se transformar em
inteligência. E que a inteligência, a princípio intuitiva, passou a inteligência racional,
própria do homem pensante. A inteligência intuitiva não é específica do homem, pois
existe em outros animais evoluídos; ela não raciocina, não explica, não propõe soluções,
mas vê e adere ao que vê; no homem, acaba adorando o que vê. Tal inteligência, no
homem arcaico e primitivo, atuava como fator de proteção, permitindo-lhe adivinhar os
perigos e estabelecer prévias condições de defesa.
Até o advento do homem, a evolução era realizada no plano físico (unidade
física ou molecular) e no plano celular (unidade orgânica). Com o aparecimento do
homem, a evolução passou a ser um movimento da própria consciência e se identifica
com a evolução do conhecimento humano, pois a história da consciência é a história do
conhecimento e da cultura.
Com a evolução da consciência humana surgiu o Direito, e com ele um
terceiro tipo de unidade, que não é a física ou orgânica, mas sim a unidade finalística ou
teleológica.
A Teleologia é o estudo especulativo das causas finais e da essência,
alcance, aplicação ou fim das normas legais.
Com o desabrochar da consciência humana, a inteligência, a princípio intuitiva,
evolui para a inteligência racional, marca específica do homem, que o faz sujeitar os
meios aos fins. Utilizando-se de sua razão, o homem ordenou as coisas de acordo com
seus interesses e chegou a criar a extraordinária civilização em que vivemos.
Com grande propriedade, Goffredo da Silva Telles Júnior faz a apologia da
razão quando afirma que “a razão é a grande responsável por todas as descobertas
humanas, desde os primeiros instrumentos de pedra até a máquina, desde a roda até os
foguetes interplanetários, desde suas incipientes noções científicas até as exatas
demonstrações da ciência moderna. A razão é, sem dúvida, a responsável pela
manutenção da vida humana sobre o nosso planeta, pela produção dos alimentos
17
indispensáveis para a humanidade, pela preservação da saúde do homem. A razão é a
responsável pelas engenhosas ordenações jurídicas, criadas para a defesa dos bens
soberanos do homem. A razão deu às coisas criadas, uma nova ordem, uma ordem
tipicamente humana, que melhor atendia aos altos interesses do ser humano. Foi a razão
que reordenou o mundo e produziu uma cultura progressiva, e esta reordenação
permanente das coisas foi a causa de um processo civilizatório ascendente.”
Com a razão, foi possível o conhecimento progressivo do homem pelo próprio
homem e através desse conhecimento o homem compreendeu que ele próprio é feito e
composto das mesmas micropartículas de que são feitos e compostos todos os corpos do
cosmos, concluindo que ele próprio é produto da evolução da matéria.
O conhecimento do mundo e de si mesmo, bem como de sua situação dentro
do universo, deu ao homem uma consciência mais clara de sua situação cósmica, uma
consciência de seu lugar na hierarquia dos seres e, portanto, uma consciência de seu
verdadeiro valor, dando-lhe também a percepção de pertencer à sociedade cósmica. A
sociedade cósmica é constituída de todas as galáxias e de todos os átomos, de todos os
corpos e de todas as energias, de todos os homens e de todas as inteligências, formando
um só todo, ordenado e harmonioso.
A verdadeira cultura, segundo GOFFREDO, é a consciência da ordem
universal, consciência da sociedade cósmica, que é a consciência do Universo e do
homem. Quanto maior esse conhecimento, mais consciência terá o homem na escolha de
seus bens e em conseqüência, mais ordem em seu comportamento, mais tranqüilidade
interior. Assim, sua existência adquire sentido teleológico, pois sabe que vive e porque
vive – vive para participar da sociedade cósmica e dela participa para aperfeiçoar-se e
poder aperfeiçoar as coisas que lhe são dadas.
Viver para conhecer, conhecer para aperfeiçoar-se: eis o lema do homem
evoluído.
Ainda parafraseando nosso ilustre jusfilósofo Goffredo, afirmamos também que
“quem faz da vida uma viagem de cultura, faz da vida uma aventura de amor, porque
conhecer é amar e amar é participar. A participação em todos os setores da vida (cultural,
econômico, político) é grande sinal dos tempos atuais, a fascinante razão de ser da vida”.
A consciência do valor cósmico do homem conduz, forçosamente, a um
respeito crescente pela pessoa humana, que se manifesta pela adesão da humanidade a
certos bens culturais soberanos, quais sejam:
* reconhecimento, por parte de todos, da humanidade existente em cada ser
humano, significando direito a tratamento condigno;
* igualdade de todos perante a lei;
* liberdade de locomoção e de manifestar o pensamento;
* direito à intimidade;
* direito à ampla defesa;
* legalidade das pessoas;
* legitimidade das leis, etc.
Os profissionais do Direito sabem que a luta atual é pela dignidade da pessoa
humana e que nosso tempo é marcado pela revolta universal contra todos os crimes,
todas as penas bárbaras, todas as torturas e suplícios, todas as guerras injustas, toda
injustiça, toda prepotência, todo aviltamento do homem. Tal revolta é a prova do
progresso espiritual da humanidade, apesar da existência de flagrantes contradições
internas em nossa civilização, porém, hoje temos também consciência de que todo
desenvolvimento é uma luta dos contrários e de que há uma condenação universal da
violência.
Após demonstrarmos a importância da racionalidade na história da
humanidade, seria conveniente e oportuno esclarecermos que a consciência não se
compõe apenas inteligência ou razão ou pensamento. O homem, além de pensar,
18
sente, quer e age, fazendo com que a consciência humana seja composta de fenômenos
cognitivos (pensamento), afetivos (emoções, sentimentos e paixões), volitivos
(vontade), psicomotores (ação) e instintivos (comportamento inaprendido).

Com base nessa diversidade de fenômenos psicológicos, surgiram várias


classificações de tais fenômenos, apenas para fins didáticos, pois inexiste fenômeno
psíquico isolado – os fenômenos psíquicos são interdependentes e simultâneos, com
predominância momentânea de uns sobre os outros.
A dimensão cognitiva da consciência representada pela inteligência compõe-
se, por sua vez de pensamento, percepção, imaginação, atenção, motivação, memória,
intuição, consciência moral e introspecção.
O pensamento compõe-se de idéia ou conceito, juízo e raciocínio. Assim,
as operações do pensamento, objeto material da Lógica, são realizadas pela combinação
de idéias, formando juízos, que se combinam, por sua vez, formando raciocínios, os quais
são expressos verbalmente pelos termos (idéias), proposições ou premissas (juízos) e
argumentos (raciocínios), fundamentando nossa argumentação jurídica, com vistas a
convencer nossos julgadores ou interlocutores.
Observem que a Lógica e a Psicologia apresentam pontos em comum
quanto ao objeto material, pois ambos se dedicam a estudar o pensamento; porém, a
Psicologia tem um objeto material mais abrangente, se preocupando não somente com o
pensamento, mas com a totalidade dos fenômenos da consciência. Entretanto, quanto ao
objeto formal, a Lógica se preocupa em analisar o produto das operações do
pensamento (verdadeiro ou falso), ao passo que a Psicologia, quanto ao objeto formal se
preocupa em descrever o pensamento (como é, como se desenvolve). Conclui-se,
portanto, que a Lógica é uma ciência normativa (como deve ser o pensamento) e a
Psicologia é uma ciência especulativa (o que é o pensamento).
Como o pensamento é fundamental para as especulações filosóficas, a Lógica
serve de introdução à Filosofia, tendo, portanto, uma função propedêutica: Lógica quer
dizer razão, raciocínio, ciência e método e é justamente disso que ela se ocupa.
Para melhor compreensão do assunto, citaremos algumas definições de
Lógica:
Aristóteles (seu fundador): “ciência da demonstração”;
Bacon: “arte das artes”;
Port-Royal: “arte de pensar”;
Kant: “ciência das leis do pensamento”.
Adotamos a seguinte definição de Lógica: “ciência da ordem em que
devemos dispor as operações de nossa inteligência para alcançarmos a verdade”.
Esta definição é completa porque demonstra o objeto material e formal da Lógica. Objeto
material: as nossas operações mentais. Objeto formal: a ordem em que devemos dispô-
las (operações mentais) para alcançarmos a verdade.
A Lógica trata da razão, considerada nos seus atos e conceitos. Ela não tem
por objeto uma realidade material, como as outras ciências. Vimos que o seu objeto
material são as nossas operações mentais e os métodos empregados pelas diversas
ciências. Ela nos ensina como se deve estudar as coisas e como raciocinar corretamente,
sendo, pois, normativa. Seu objeto não é definir “o que é”, mas “como deve ser”,
preocupando-se em estabelecer normas do pensamento correto. Bacon já dizia que da
mesma maneira que a mão é o instrumento dos instrumentos, a Lógica é a “arte das
artes”. Realmente, a Lógica é uma arte porque ao mesmo tempo em que define os
princípios universais do pensamento, estabelece as regras práticas para o conhecimento
da verdade. É arte porque dá as regras para a produção das operações do espírito e é
ciência porque dá razão a essas regras.
19
A Lógica trata da inteligência sob o ponto de vista do seu uso na elaboração
do conhecimento. Abrange duas partes, como vimos: material-conteúdo (operações do
pensamento) e formal: disposição das idéias (produto).
Através de sua normatividade, a Lógica é utilizada na construção do
conhecimento. A Lógica nos fornece os princípios que devem reger o nosso raciocínio,
daí a importância para a Filosofia que também se ocupa do raciocínio na atividade
especulativa dos filósofos. Em relação ao raciocínio é que devemos dividir a Lógica. Num
raciocínio ou em qualquer construção, consideramos duas coisas: matéria e forma.
Assim, por exemplo, numa casa é preciso distinguir os materiais e a disposição que o
arquiteto lhes dá. Se a disposição é ruim, a casa cairá, porque está mal construída; se os
materiais de construção são ruins, mesmo que a disposição seja boa, a casa não ficará
de pé, porque foi construída com material de péssima qualidade. O mesmo acontece com
o raciocínio. No raciocínio também é preciso distinguir a matéria do raciocínio (os
materiais ideais com os quais se raciocina) e a forma do raciocínio (a disposição,
segundo a qual, esses materiais são reunidos na mente, de maneira a sustentar a
construção mental). Dessa forma, a matéria do raciocínio pode ser verdadeira ou falsa e
sua forma pode ser correta ou incorreta. Por exemplo, neste silogismo categórico,
constituído por duas premissas (maior e menor) e uma conclusão, abaixo transcrito, o
raciocínio está correto quanto à forma, mas a matéria é falsa:
Nenhum homem faz o mal (premissa maior).
Ora, esse criminoso é homem (premissa menor).
Logo, esse criminoso não faz mal (conclusão).
A Lógica se ocupa, entretanto, tanto da matéria como da forma e em
conseqüência, se divide em: a) Lógica Material ou Maior – quando estabelece as
condições materiais das ciências, definindo seus métodos, também chamada
Metodologia, porque fornece a cada ciência o seu método, estabelecendo regras que
asseguram o acordo do pensamento com os objetos estudados; b) Lógica Formal ou
Menor – quando estabelece a forma correta das operações intelectuais que são
compostas de idéia ou conceito, juízo e raciocínio, recebendo as seguintes expressões
verbais: termo (idéia), proposição (juízo) e argumentação (raciocínio).
Para que o leitor possa acompanhar a seqüência lógica e unitária de nossa
explanação a respeito das finalidades da Introdução ao Direito, iniciada páginas atrás, ao
abordarmos a sua segunda finalidade, segundo Miguel Reale (compreender a
complementaridade das disciplinas jurídicas e o sentido unitário do fenômeno jurídico),
empreendemos uma longa viagem pelos caminhos da história da evolução da matéria,
partindo da matéria bruta, passando pela matéria viva (orgânica), até ao aparecimento do
primeiro ser de nossa espécie (homem). Para melhor compreendê-lo, estudamos a
evolução da consciência humana, analisando os fenômenos psicológicos que formam a
sua vida mental, enfatizando a evolução de sua racionalidade, representada pelos
fenômenos psíquicos da representatividade ou inteligência (cognição), que possibilitaram
o aparecimento do Direito e com ele a unidade teleológica.
Terceira finalidade: Complementando e retomando o estudo das finalidades
de nossa disciplina, citaremos a linguagem do Direito como sua terceira finalidade, na
esteira do pensamento de Miguel Reale. Graças à linguagem, construímos nosso saber
jurídico (ciência jurídica) e o comunicamos aos interessados por esse tipo de
conhecimento científico. Vimos também, quando estudamos os fenômenos do
psiquismo humano, que a linguagem é o processo de expressão do pensamento e a
condição básica para a elaboração e a divulgação do conhecimento humano, quer
vulgar, científico ou filosófico, concorrendo para a socialização e humanização do
homem.
A linguagem é um sistema de sinais por intermédio dos quais se
exteriorizam nossos estados afetivos e, sobretudo, nossos processos intelectuais.
20
Por sinal entendemos o fenômeno que, captado por nossos sentidos,
representa outro fenômeno, que por algum motivo, no momento não está sendo
percebido, ou em virtude de sua natureza, não pode ser diretamente percebido. A fumaça
que paira no ar é sinal de fogo, que por uma circunstância qualquer não estamos vendo
neste instante; as expressões fisionômicas (alegria, tristeza, terror, espanto) são sinais de
sentimentos; uma palavra ou uma frase são sinais de uma idéia ou de um juízo.
Os sinais podem ser naturais quando provocados por certos estados afetivos,
como é o caso do riso, das lágrimas, da palidez ou rubor do rosto e convencionais,
quando dependem de uma convenção prévia e de invenção mais ou menos arbitrária para
servirem de sinais, como é o caso das palavras faladas ou escritas.
Conforme os sentidos que recebem os sinais, a linguagem pode ser visual,
auditiva, tátil (escrita dos cegos). Já a linguagem visual abrange a linguagem mímica
(gestos), a linguagem por meio de movimentos de objetos materiais (linguagem
semafórica) e a linguagem muito importante, que é a linguagem escrita. A linguagem
auditiva, formada por diferentes sistemas de sons ou ruídos, ocorre com a linguagem oral
ou falada, que é a mais importante para o desenvolvimento humano.
Na linguagem oral os vocábulos ou palavras (sinais auditivos) constituem o
conjunto de sons articulados ou pronunciados pelo aparelho vocal ou fonador do homem.
O aparelho vocal compõe-se dos pulmões, que atuam como foles, da traquéia,
que funciona como um tubo sonoro, das cordas vocais (órgãos vibrantes) situados na
glote, e de diversos obstáculos à saída do ar, constituídos pela faringe, pelas fossas
nasais, pela língua, pelos dentes e pelos lábios.
Desde nosso nascimento, temos capacidade de vocalizar, isto é, de emitir
sons vocais, porém, para falar palavras e compreender seu significado, nós precisamos
aprender.
Alguns autores explicam a aprendizagem da linguagem pelo condicionamento
de respostas - o adulto fala o nome de um objeto ao mesmo tempo que o apresenta à
criança Em outras ocasiões em que a criança vê aquele objeto, ouve a palavra que o
designa. Ver o objeto e ouvir o som ao mesmo tempo, em diversas ocasiões, faz com que
a criança, só ao ouvir a palavra, pense no objeto, mesmo na sua ausência.
Segundo vários pesquisadores, a linguagem tem duas funções básicas:
1. Comunicação do pensamento e de nossos estados afetivos - servimo-
nos das palavras para transmitir nossas idéias, juízos, raciocínios e sentimentos a outras
pessoas.
2. Construção do pensamento - empregamos as palavras na elaboração de
nossas idéias, na formulação de nossos juízos e na construção de nossos raciocínios.
Quando pensamos, falamos com nós mesmos ou com os outros, através de uma
linguagem interna, por meio de “palavras silenciosas”.
O pensamento é grandemente auxiliado pela linguagem, porém alguns autores
afirmam que o pensamento surge antes das palavras e pode mesmo, ser independente
delas, como é o caso da criança que já pensa antes de aprender a falar, bem como do
surdo-mudo de nascença que evidentemente pensa e não fala.
O desenvolvimento da linguagem na criança é progressivo e lento até apossar-
se dos símbolos com facilidade para expressar seu pensamento e comunicar-se com o
pensamento alheio. Tal desenvolvimento lingüístico é influenciado pelas pessoas de sua
convivência permanente (pais, irmãos, colegas de brinquedo, empregados e professores).
O modo como as pessoas com quem convive recebem seus esforços despendidos para
comunicar seus pensamentos, pode ajudar ou prejudicar seu desenvolvimento verbal.
Finalmente reputamos de fundamental importância habituar a criança desde
cedo a procurar interpretar os termos que emprega na elaboração de seu pensamento. Só
assim sua inteligência poderá ser cultivada, afastando-a do psitacismo (linguagem de
21
papagaio) quando, lamentavelmente, emprega vocábulos desconhecendo seus
significados.
Sabemos que cada ciência tem o seu universo conceitual próprio, isto é,
exprime-se numa linguagem específica e a ciência jurídica se orgulha de sua
terminologia técnico-científica milenar, pois quanto mais antigo se apresenta determinado
campo de conhecimento científico, mais segura e eficiente é a comunicação científica.
Sem linguagem não há como pensar a realidade. O homem cria signos para
representar-se e representar a realidade. O mundo simbólico é o mundo construído pelo
homem.
Quarta finalidade: A quarta missão ou finalidade da Introdução ao Direito,
consiste em situar o Direito no mundo da cultura, estudando sua natureza e suas
relações com os demais campos do conhecimento. O mundo construído pelo homem
é o mundo da cultura. Cultura é a totalidade das produções humanas portadoras de
significados. Neste empreendimento, o fenômeno jurídico, parcela do universo do saber
humano, será analisado sob o prisma científico, técnico, artístico e filosófico, realçando
suas relações com as demais ciências sociais (Sociologia, Antropologia, Economia,
Psicologia, etc.), suas influências recebidas da técnica e das ciências físico-matemáticas
e seus laços com os fenômenos artísticos, religiosos e filosóficos.
Segundo Miguel Reale “cultura é o conjunto de tudo aquilo que, nos planos
material e espiritual, o homem constrói sobre a base da natureza, quer para modificá-la,
quer para modificar-se a si mesmo”.
Cultura implica idéia de valor e de fim, pois a vida humana é sempre uma
procura de valores e viver é uma realização de fins.
Quinta finalidade: Finalmente, como condição básica para a construção do
conhecimento jurídico seguro e certo temos a necessidade de utilizarmos de um método
que nos conduza a um resultado exato ou rigorosamente verificado, pois assim, como as
demais ciências, a ciência jurídica se compõe também de um sistema de
conhecimentos verificados. Desta forma, a aquisição de noções básicas do método
jurídico para melhor conhecimento, compreensão e elaboração da ciência jurídica,
constitui a quinta finalidade da Introdução ao Direito, que ao lado das demais já
explicitadas, fornecem aos alunos que se iniciam no estudo do Direito, indicadores
seguros para o início da viagem qüinqüenal pelo complexo mundo jurídico, de forma
organizada e compreensiva.
Segundo Miguel Reale, “todo conhecimento científico ou filosófico pressupõe
uma ordenação intencional da inteligência e da vontade capaz de permitir ao investigador
alcançar um resultado, dotado pelo menos de relativa certeza” (problema metodológico).
Verificamos a verdade (ou relativa certeza) de forma analítica ou sintética.
Verificação analítica – verdade (intuição intelectual) – Ex: “o todo é maior
que a parte” (não há necessidade de prova); ou verdade reconduzida por inferência a uma
verdade evidente, ou a um pressuposto admitido como certo ou válido.
Verificação sintética – as hipóteses são subordinadas ao controle da
experiência, graças a processos “experimentais” (experimentação) – a experiência é
intencionalmente programada e dirigida, como acontece no campo da Física, Química,
Biologia.O Direito, sendo uma ciência humana ou social, a aplicação de processos
experimentais é reduzidíssima, o que não significa que seja destituído de certeza.
A certeza do Direito é obtida mediante o rigor do raciocínio, a objetividade da
observação dos fatos sociais e a concordância de seus enunciados, estabelecendo
princípios e leis de tendência, e não leis de causalidade como nas ciências exatas.
A ciência do Direito, investigando positivamente a realidade social que
chamamos de “experiência jurídica”, obedece às regras da Lógica que estuda as relações
de inferência entre as proposições e a validade dessas relações e segue métodos
adequados às suas finalidades (verificações analíticas, com base na Lógica).
22
O Direito se utiliza dos seguintes métodos: indução, dedução e analogia.
Indução – parte de fatos particulares, até atingir uma conclusão de ordem
geral que explica o que há de constante e comum nos fatos particulares observados e em
outros da mesma natureza.
Dedução – parte de uma verdade sabida ou admitida para se chegar a uma
nova verdade, em virtude das leis que regem o pensamento em sua “conseqüencialidade”
essencial, desdobrando-se em:
Dedução silogística (silogismo) – dadas duas proposições (premissa maior
e premissa menor), delas resulta necessariamente uma conclusão esclarecedora. Alguns
jusfilósofos, equivocadamente reduz a aplicação do Direito ao uso sucessivo de
silogismos, afirmando, comodamente que uma sentença (juízo editado pelo juiz) é um
silogismo, cuja premissa maior seria a lei, a premissa menor, os fatos e a decisão, a
conclusão.
O ato de julgar não obedece a meras exigências lógico-formais, implicando
sempre apreciações valorativas (axiológicas) dos fatos, e não raro, um processo de
interpretação da lei, aplicável ao caso concreto, graças a um trabalho mental chamado
“dedução amplificadora”.
Dedução amplificadora – da comparação lógica entre duas ou mais
proposições podemos inferir (deduzir) uma nova verdade, que não se reduz propriamente
às proposições antecedentes.
Analogia –raciocínio baseado em razões relevantes de similitude. Assim,
quando a lei é omissa, a solução jurídica adequada deve ser buscada no processo
analógico (vide art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil – LICC), muito utilizado nos
países que adotam o sistema jurídico Common law , que se fundamenta nos precedentes
judiciais (decisões anteriores)
Hoje sabemos que a Ciência do Direito não é indutiva, nem dedutiva ou
analógica exclusivamente, mas predomina o pluralismo metodológico, onde dedução,
indução e analogia se completam. Assim, por exemplo, na elaboração das leis – momento
nomogenético – a indução predomina, através da observação dos fatos que o legislador
pretende disciplinar. Elaborada e promulgada a lei, que do ponto de vista formal ou lógico
é uma proposição hipotética condicional ou um conjunto de proposições normativas gerais
e abstratas, prevalece a dedução, pois das leis inferem-se conseqüências disciplinadoras
dos fatos sociais.
Concluindo, afirmamos que ao lado da indução, dedução e analogia, o jurista
aprecia os fatos sob o prisma de valor, isto é, valora. Assim é que, enquanto as leis das
ciências naturais são cegas para o mundo dos valores (não são boas, nem mais
prudentes, belas ou feias, justas ou injustas etc), os princípios e leis das ciências
humanas ou sociais vão além dos possíveis enlaces causais, havendo sempre uma
tomada de posição através do ato valorativo ou axiológico do cientista social.
Não há “neutralidade valorativa” no estudo dos fatos jurídicos, daí Wilhelm
Dilthey (1833-1911), filósofo, psicólogo e pedagogo alemão ter afirmado que “a natureza
se explica, enquanto a cultura se compreende”.
Segundo Miguel Reale explicar “consiste em ordenar os fatos segundo nexos
ou laços objetivos e de causalidade ou de funcionalidade”; ao passo que “compreender é
ordenar os fatos sociais ou históricos segundo suas conexões de sentido, o que quer
dizer, finalisticamente, segundo uma ordem de valores”.
As ciências da natureza explicam os fatos e estabelecem juízos de realidade,
representados pela fórmula “S é P” onde “S” quer dizer “sujeito” e “P” indica o “predicado”
da proposição. Se, por exemplo, afirmo que a terra é um planeta, estou ligando o sujeito
terra a uma determinada qualidade: a de ser planeta e não estrela ou cometa. A ligação
entre o sujeito e o predicado, sendo necessária, forma um juízo de realidade.
23
Juízo de realidade é aquele que se refere às coisas, tais como elas são de
fato (A terra é redonda. O sol é o centro de nosso sistema planetário). Tais juízos são
intelectuais e correspondem a verdades científicas.
As leis da Física, Química, estabelecem conexões necessárias entre os fatos
observados – juízos de realidade, mas não os situam segundo uma escala positiva ou
negativa de valores, nem determinam que alguma coisa seja feita como conseqüência da
verdade enunciada – a ligação é indicativa e causal.
Por outro lado, as relações que se passam entre os homens (relações
jurídicas intersubjetivas), baseiam-se em normas que enunciam algo que deves ser,
estabelecendo juízos de valor, transformando as relações em imperativas,
obrigatórias, com previsão de diversas conseqüências pela ação ou omissão, obediência
ou violação às normas, cuja fórmula e “S deve ser P” – expressão verbal “deve ser”
(ciências da cultura).
Juízo de valor é aquele que resulta de uma apreciação individual e se
refere às coisas tais como elas valem para aquele que as julga (A terra é um vale de
lágrimas. Este juiz prolatou uma sentença justa).

4. ASPECTOS HISTÓRICOS DA DISCIPLINA

Analisando o currículo jurídico no tempo e no espaço, concluímos que nossa


disciplina recebeu várias denominações, conforme as exigências da época e o enfoque
pedagógico dos legisladores. Uns preferiram denominá-la de Enciclopédia Jurídica, outros
de Filosofia do Direito, Sociologia Jurídica, Direito Natural, Introdução à Ciência do Direito,
Introdução ao Estudo do Direito e Introdução ao Direito, após a vigência da Portaria MEC
nº l886, de 30/12/94, revogada pela Resolução CNE/CES Nº 09, de 29 de setembro de
2004, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito
e no seu art. 5º não mais se refere explicitamente a esta disciplina.
No Brasil, criados os cursos jurídicos aos 11 de agosto de 1827, o primeiro
nome que teve esta disciplina (a primeira do 1º ano, cujo estudo continuava no segundo
ano), foi Direito Natural, nome impróprio, pois não expressa as formas de direito (positivo,
subjetivo, objetivo), bem como todas as partes da ciência jurídica. Entretanto, esta era a
denominação encontrada no currículo jurídico das duas primeiras faculdades de Direito,
quais sejam: Faculdade de Direito de São Paulo, mais tarde incorporada à Universidade
de São Paulo (USP), funcionando no Largo de São Francisco e a Faculdade de Direito de
Olinda (Pernambuco), transferida 26 anos depois para Recife (capital de Pernambuco),
ambas criadas na memorável data de 11 de agosto de 1827. Com a Reforma de Ensino
Rivadávia Correia, em 1912, a disciplina introdutória dos cursos jurídicos, passou a
denominar-se Enciclopédia Jurídica, que teve vida efêmera, em face da supressão pela
Reforma Maximiliano em 1915, que reputamos correta, pois Enciclopédia Jurídica,
empregada pela primeira vez por Hennius em 1638, cujas origens remontam ao século.
XVI, não se presta realmente para proporcionar uma noção geral da ciência jurídica como
um todo unitário e sistemático, não atendendo, portanto, aos imperativos de uma
disciplina de natureza propedêutica, apesar do caráter enciclopédico da mesma.
Suprimida em 1915 pela Reforma Maximiliano e sem outra disciplina
introdutória que não fosse a Filosofia do Direito, existente no Curso de Bacharelado, ora
no 1º ano, ora no 5º ano, permaneceu com essa denominação até 1931 quando, por
ocasião da Reforma Francisco Campos, foi substituída no 1º ano pela disciplina
Introdução à Ciência do Direito, continuando a vigorar em alguns cursos jurídicos a
Filosofia do Direito no 5º ano.
Alguns estudiosos do Direito defenderam a Sociologia Jurídica, ao invés da
Introdução à Ciência do Direito, para iniciação aos estudos jurídicos e dentre eles,
relembramos o nome de Rui Barbosa, que na Comissão de Instrução Pública da Câmara
24
dos Deputados, propôs a substituição da tradicional cadeira de Direito Natural pela de
Sociologia.
Apesar da inegável importância da Sociologia como ciência auxiliar do Direito,
levando legisladores a incluí-la no currículo da maioria dos cursos jurídicos, não podemos
reduzir a disciplina propedêutica do Curso de Direito apenas aos conhecimentos
científicos de natureza sociológica, razão pela qual rejeitamos a Sociologia como matéria
introdutória.
Por força da Resolução Nº 03/72, do então Conselho Federal de Educação,
atual Conselho Nacional de Educação, o título Introdução à Ciência do Direito foi
substituído por Introdução ao Estudo do Direito, embora alguns autores continuam a
nomearem suas obras no campo propedêutico do Direito de Introdução à Ciência do
Direito, explicando que a preferência por tal designação se deve ao seu rigor técnico
inquestionável.
A rigor, como vimos anteriormente, a Introdução ao Direito não é propriamente
uma ciência, sendo de fato uma enciclopédia de conhecimentos científicos, abrangendo
aspectos jurídicos, históricos, sociológicos etc e de conhecimentos filosóficos, com
implicações artísticas e técnicas, formando um sistema de conhecimentos logicamente
ordenados, artisticamente unificados (unidade), visando a um objetivo de natureza
pedagógica.
Em 30 de dezembro de 1994 o Ministério da Educação – MEC,
compreendendo a necessidade de repensar e orientar o ensino jurídico brasileiro, editou a
Portaria Ministerial n.º 1886/94, fruto do trabalho de sistematização realizado por uma
Comissão de Especialistas de Direito, fixando as diretrizes curriculares e o conteúdo
mínimo do curso jurídico.. Nesta Portaria, alterada pela Portaria Ministerial n.º 1785/2001,
de 09 de agosto de 2001, nossa disciplina recebe o nome de Introdução ao Direito.
Em 03 de abril de 2002, a Câmara de Educação Superior do Conselho
Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CES 0146/2002, que trata das Diretrizes
Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Direito, Ciências Econômicas,
Administração, Ciências Contáveis, Turismo, Hotelaria, Secretariado Executivo, Música,
Dança,Teatro e Design, que foi homologado por despacho da Ministra de Estado da
Educação interina, Maria Helena Guimarães de Castro, publicado no Diário Oficial da
União de 13 de maio de 2002. Neste Parecer, encontramos diretrizes comuns aos cursos
relatados, abrangendo Projeto Pedagógico, Organização Curricular, Estágios e Atividades
Complementares, Acompanhamento e Avaliação e Monografia ou Trabalho de Conclusão
de Curso, bem como também, diretrizes específicas por curso relatado.
Embora a Introdução ao Direito não recebesse esta denominação, estava
presente neste Parecer e na sua minuta de Resolução nos Conteúdos de Formação
Fundamental, que objetivavam integrar o estudante no campo do Direito, principal
escopo da Introdução ao Direito.
Com a revogação do ato homologatório do Parecer CNE/CES nº 146/2002,
conforme despacho do então Ministro da Educação, Cristóvão Buarque, publicado no
Diário Oficial da União, Seção 1, em 02/6/2003, voltou a vigorar a Portaria MEC nº 1886,
de 30/12/94, revogada pela atual Resolução CNE/CES nº 9, de 29/9/2004, anteriormente
citada. Como vimos, na legislação em vigor atualmente (Resolução CNE/CES nº 9/2004),
a expressão “Introdução ao Direito” não mais aparece de forma explícita, no rol das
disciplinas que compõem o Eixo de Formação Fundamental, nem no Eixo de Formação
Profissional, citado no Parecer CNE/CES nº 055/2004, aprovado em 18/02/2004 e
reconsiderado no atual Parecer CNE/CES nº 211/2004, aprovado em 08/7/2004, que
contemplava esta disciplina indevidamente, como profissionalizante.

5. ASPECTOS NORMATIVOS E PEDAGÓGICOS DA DISCIPLINA.


25
INTERESSADO: Conselho Nacional de Educação/Câmara de UF: DF
Educação Superior
ASSUNTO: Reconsideração do Parecer CNE/CES 55/2004, referente às Diretrizes
Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Direito.
RELATOR: Edson de Oliveira Nunes
PROCESSOS N.ºS: 23001.000074/2002-10, 23001.000303/2001-15 e
23001.000150/2003-60
PARECER N.º: COLEGIADO: APROVADO EM:
CNE/CES 211/2004 8/7/2004

I – RELATÓRIO

Trata o presente de pedido de reconsideração do Parecer CNE/CES nº


55/2004, encaminhado a este Conselho pela Associação Brasileira de Ensino de Direito
(ABEDi) por meio eletrônico, em 4 de março e protocolado sob o n.º 021419.2004-37.
O Parecer supra citado se refere às Diretrizes Curriculares Nacionais para o
curso de graduação em Direito, relatado pelos Conselheiros José Carlos Almeida da Silva
e Lauro Ribas Zimmer.

Mérito

No histórico do pedido de reconsideração, a ABEDi relata sua participação no


processo de construção das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para a graduação
em Direito, como consta do texto do Parecer CNE/CES 55/2004 e descreve todos os fatos
relacionados com a trajetória do debate que foi construída ao longo da elaboração das
diretrizes. Neste item, destaca-se que em face da existência e das impugnações dos
Pareceres CNE/CES 100 e 146/2002, o foco do debate entre a ABEDi e os Conselheiros ,
se concentrou em quatro itens específicos: carga horária e duração do curso; conteúdos
curriculares; monografia e estágio curricular.
Em relação ao primeiro item, se verifica que tanto na primeira reunião, com a
presença dos Conselheiros José Carlos de Almeida, Éfrem Aguiar Maranhão, Edson de
Oliveira Nunes, Arthur Roquete de Macedo e Lauro Ribas Zimmer, além do Secretário
Executivo, Raimundo Miranda, como na segunda, com a presença dos Professores Paulo
Medina e José Geral de Souza Júnior, representante da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), ficou evidenciado que a carga horária e a duração do curso seriam objeto de
regulamentação própria reforçada pela revisão do Parecer CNE/CES 100/2002, e,
portanto não incorporada a sua deliberação nas diretrizes.
Quanto ao Estágio Curricular, item mais fácil de conciliação, segundo o
documento da ABEDi, que insistia na necessidade de que ele fosse realizado no âmbito
da própria IES, o que se tornou consensual em torno de seu caráter curricular na linha da
proposta, durante a 2ª reunião.
Em referência aos Conteúdos Curriculares, foi sugerida a referida dos
objetivos antes inseridos para os do Eixo Fundamental e discutido o Eixo Profissional,
relativamente quanto à “Introdução ao Direito”, matéria pelos Conselheiros como mais
próxima de disciplina e considerada impertinente no âmbito das diretrizes. De qualquer
forma, o Conselheiro Relator da época, segundo o documento mostrou-se sensível à
necessidade de se ter em corpo comum no ensino jurídico, com ampla margem para se
ousar nos espaços possíveis.
O item Monografia foi objeto de defesa da manutenção de sua concepção,
independente do nome que viesse a lhe ser atribuída, porque no entendimento da ABEDi
há um momento concentrado em que o aluno é solicitado a demonstrar as habilidades e
competências que lhes foram fornecidas ao longo do curso.
26
Por todos estes argumentos, a ABEDi insistiu na necessidade de uma
audiência pública para estender à comunidade condições de apresentar suas opiniões, o
que foi reafirmado por ocasião do II Congresso Brasileiro de Ensino do Direito, organizado
pela própria Associação e com a presença, à época, do Conselheiro-Relator.
Assim, no final de 2003, foram realizadas duas audiências, sendo que a
primeira destinada à duração dos cursos da área de Ciências Sociais Aplicadas e, a
segunda, específica para as DCN’s do curso de Direito, optando este relator por registrar
somente os fatos relacionados à 2ª audiência, cujo tema é objeto deste Parecer. Nesta,
por ser relativa ao Direito, o debate ficou à OAB e a ABEDi.
Transcrevemos abaixo a posição da ABEDi, centrada nos seguintes itens:

“(a) elogiar a existência de elaboração de um projeto pedagógico para os


cursos jurídicos; (b) questionar o que significa a idéia de pós-graduação
‘lato sensu’ integrada, uma vez que o Eixo de Formação Concentrada
(existente na proposta de 2000 encaminhada pela Secretaria de
Educação Superior (SESu) fora suprimido; (c) sugerir que os conteúdos
fundamentais não fossem adjetivados, mas mantenham o espírito da
Portaria MEC 1.886/94; (d) instituir na necessidade de inclusão dos
conteúdos profissionalizantes, recuperado a sugestão da proposta de
2000 para reunião de ‘Processo Civil’ e ‘Processo Penal’ em um conteúdo
de ‘Processo’; (e) enfatizar a importância da monografia; e, (f) insistir na
necessidade de se trabalhar o estágio como uma etapa curricular no
âmbito da própria instituição de ensino.”

Ao término dos debates a ABEDi, em sua participação conclusiva, ressaltou a


necessidade de se instituir na construção de um estágio curricular a ser realizado na
própria IES sem se confundir com o estágio profissional, e na de realização de um
exercício concentrado em que o aluno venha a demonstrar as habilidades e competências
desenvolvidas ao longo do curso.
Segundo o documento da ABEDi, embora houvesse todo esse árduo trabalho
de construção de consensos e superação de divergências, o Parecer CNE/CES 55/2004
não traduziu as expectativas construídas pela comunidade a partir do debate, o que
justificou o presente pedido de reconsideração, a seguir explicitado na permanência dos
pontos de divergência relacionados ao item conteúdos curriculares, com somente duas
ponderações sobre a inclusão de Antropologia no Eixo de Formação Fundamental e, que
poderia ser acompanhada de uma referencia à História e à Introdução ao Direito, que já
tinha sido transformada de disciplina em matéria pela P.M 1.886/94 e que agora virou
conteúdo.
Restaram, portanto, aos dois últimos itens: Monografia e Estágio Curricular, as
divergências nas quais passaram a se concentrar as ponderações da ABEDi a favor de
sua revisão.
Segundo a ABEDi, no momento inicial do debate foram identificadas duas
disposições antagônicas: uma, favorável à monografia obrigatória e outra, contrária à sua
própria existência, que se constavam da proposta das DCN’s, elaborada pela Comissão
de Especialistas e no Parecer CNE/CES 1.070/99. Ainda, segundo o relato do documento
da ABEDi, esse antagonismo seria resolvido pelo Parecer CNE/CES 146/2002 e
respectiva proposta de Resolução, que tornava a monografia opcional para as IES.
Entretanto, com as diversas contestações apresentadas ao Parecer citado e buscando a
conciliação entre as três posições que constavam dos documentos: ausência, existente
opcional e existência obrigatória -, foi apresentada proposta baseada no reconhecimento
da necessidade de realização, preferencialmente em algum momento mais próximo do
final do curso, de um exercício pedagógico concentrado em que o aluno fosse instado a
27
exibir as habilidades e competências obtidas ao longo de sua formação, na qual se
procurou flexibilizar e admitir outras modalidades, desde que mantido o seu caráter
obrigatório. O Parecer CNE/CES 55/2004 não considerada que com a realização da
monografia, os egressos demonstração autonomia intelectual e de conhecimento, crítica,
raciocínio jurídico, etc, transferindo para a pós-graduação, onde, segundo os relatores se
justifica pelo aprofundamento de estudos autônomos e continuados, enriquecidos pela
experiência profissional e com a execução de projetos de pesquisa, tão necessários na
continua perene construção da ciência jurídica. Finalmente a ABEDi registra que concorda
com a proposta de um trabalho de curso, de caráter obrigatório.
Quanto ao Estágio Curricular, a ABEDi destaca que a P. M 1.886/94 trouxe
nesse campo avanços para o ensino jurídico, permitindo a integração dos conteúdos
teóricos com as atividades práticas, especialmente quanto à concepção do estágio
curricular como Prática e não somente como Prática Forense. Entendem, que se o
estágio for realizado fora da IES, haverá o esvaziamento do Núcleo de Prática Jurídica
(NPJ) e estabelecerá novamente impasse, segundo ela, já superado pela P.M 1.886/99 e
que diz respeito à mistura entre estágio curricular e estágio profissional. Reconhece a
importância dos convênios somente para serem utilizados parcialmente, de modo a suprir
as atividades que não são oferecidas na IES.
Finalmente, critica a constituição do Eixo de Formação Prática, constituído
essencialmente pelo estágio supervisionado, pelas atividades complementares e pelo
trabalho de curso, quando exigido.

-Considerações Finais

Tendo em vista o pedido de reconsideração em tela, as análises e debates


subseqüentes, quanto aos itens: Conteúdos Curriculares (Introdução ao Direito), Trabalho
de Curso e Estágio Supervisionado – este Relator submete à apreciação do Câmara de
Educação Superior (CES) o texto adaptado do Parecer CNE/CES 55/2004 e do Projeto de
Resolução anexo.
A Lei 9.131, sancionada em 24 de novembro de 1995, deu nova redação ao
art. 9º, § 2º, alínea “c”, da então LDB 4.024/61, conferindo à CES do Conselho Nacional
de Educação (CNE) a competência para “a elaboração do projeto de Diretrizes
Curriculares Nacionais (DNC), que orientarão os cursos de graduação, a partir das
propostas a serem enviadas pela Secretaria de Educação Superior do Ministério da
Educação ao Conselho Nacional de Educação”, tal como viria a estabelecer o inciso VII
do art. 9º da nova Lei de Diretrizes e Bases 9.394/96, publicada em Dezembro de 1996.
Para orientar a elaboração das propostas de DCN, o CNE/CES editou os
Pareceres 776/97, e 583/2001. Por seu turno, a SESu/MEC publicou o Edital 4, de 4 de
dezembro de 1997, convocando as instituições de ensino superior para que realizassem
ampla discussão com a sociedade científica, ordens e associações profissionais,
associações de classe, setor produtivo e outros envolvidos que resultassem proposta e
sugestões para a elaboração das DCN’s dos Cursos de Graduação, contribuições essas,
significativas, a serem sistematizadas pelas Comissões de Especialistas de Ensino de
cada área.
A Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação aprovou
também, Parecer CES 67, de 11 de março de 2003, contendo todo referencial para as
DCN’s dos Cursos de Graduação, inclusive para o efeito entendimento da tradição entre o
regime anterior e o instituído pela LDB 9.394/96, como preceitua o seu art. 90º, tendo, por
razões de ordem metodológica, estabelecido um paralelo entre Currículos Mínimos
Nacionais e as Diretrizes Curriculares Nacionais.
Constata-se que, quanto aos Currículos Mínimos, o Referencial enfocou a
concepção, abrangência e objetivo dos referidos currículos, fixados por curso de
28
graduação, ensejado as respectivas reformulações de grades curriculares cujo
atendimento implicava fornecer diplomas profissionais, assegurado o exercício das
prerrogativas e o direito de cada profissão. No entanto, quanto às DCN’s o Parecer
elencou os princípios que lhes embasam a formulação, disto resultando o nítido
referencial entre o regime anterior e o proposto para a nova ordem jurídica.
Ainda sobre o referencial esboçado no Parecer CNE/CES 67/2003, verifica-se
que existem diretrizes que poderiam ser consideradas comuns aos cursos de graduação,
enquanto outras atenderiam à natureza e às peculiaridades de cada curso, desde que
fossem contempladas as alíneas “a” a “g” do item II do Parecer CNE/CES 583/2001,
“litteris”:

a- Perfil do formando/egresso/profissional – conforme o curso, o projeto pedagógico


deverá orientar o currículo para um perfilprofissional desejado;
b- Competência/habilidades/atitudes.
c- Habilitações e ênfase;
d- Conteúdo curriculares.
e- Organização do curso.
f- Estágios e atividades complementares.
g- Acompanhamento e Avaliação.
É evidente que as DCN’s, longe de serem consideradas como um corpo
normativo, rígido e engessado, para não se confundirem com os antigos currículos
mínimos profissionalizantes, objetivam ao contrário “servir de referência para as
instituições na organização de seus programas de formação, permitindo flexibilidade e
priorização de áreas de conhecimento na construção dos currículos plenos. Devem
induzir à criação de diferentes formações e habilitações para cada área do conhecimento,
possibilitando ainda definirem múltiplos perfis profissionais, garantindo uma maior
diversidade de carreiras, promovendo a integração do ensino de graduação com a pós-
graduação, privilegiando, no perfil de seus formandos, as competências intelectuais que
refletiam a heterogeneidade das demandas sociais”.
Assim, as DCN’s para o curso de graduação em Direito devem refletir uma
dinâmica que atenda aos diferentes perfis de desempenho a cada momento exigido pela
sociedade, nessa “heterogeneidade das mudanças sociais”, sempre acompanhadas de
novas e mais sofisticadas tecnologias, novas e mais complexas situações jurídicas, a
exigir até contínuas revisões do projeto pedagógico do curso jurídico, que assim se
constituirá a caixa de ressonância dessas efetivas demandas, para formar profissionais do
direito adaptáveis e com a suficiente autonomia intelectual de conhecimento para que se
ajuste sempre às necessidades emergentes, revelando adequado raciocínio jurídico,
postura ética, senso de justiça e sólida formação humanística.
Considerando que outros pareceres desta Câmara já enfatizaram as
peculiaridades do currículo mínimo, no Brasil, como ponto de partida do efetivo
entendimento da transição para diretrizes curriculares nacionais em cada curso de
graduação, em face marco legal estabelecido a partir da Lei 9.131/95 e, em especial, da
LDB 9.394/96, torna-se relevante realizar uma incursão na história da educação superior
no Brasil, enfocando os diferentes momentos estruturais dos cursos de Direito, para que
se verifiquem cinco principais mudanças nesse contexto:
a) “currículo único” para todos os cursos de Direito, no Brasil, de 1827
(Império) a 1889 (início da República), e até 1962;
b) mudanças de “currículo único”, vigente no período anterior, para “currículo
mínimo” nacional e “currículo pleno”, por instituição de ensino, com a flexibilização
regional, embora permanecesse rígido o “currículo mínimo”;
29
c) de “currículo mínimo” em 1962, perpassando por 1972 com as Resoluções
3/72 e 15/73, mantendo-se as concepções simultâneas de “currículo mínimo” nacional e
“currículos plenos” institucionais;
d) “currículo mínimo” nacional e “currículo pleno” das instituições com
flexibilização para habilitações e especializações temáticas, em 1994, com a Portaria
Ministerial 1.886/94, para implantação a partir de 1996 posteriormente deferido para 1998,
ainda que a ementa da referida Portaria estivesse assim regida, com um equívoco ou
contradição em seus termos: “Fixa as diretrizes curriculares e o conteúdo mínimo do
curso jurídico”, posto que, se “diretrizes” fossem, amplas e abertas, não haveria a
exigência expressa de determinado e limitado “conteúdo mínimo do curso jurídico”
nacional, ainda que sem embargo dos “currículos plenos” das instituições; e,
e) de “currículo mínimo” / “conteúdo mínimo do curso jurídico”, para “diretrizes
curriculares nacionais” da graduação em Direito, em decorrência das Leis 9.131/95,
9.394/96 e 10.172/2001, desse conjunto normativo resultado os Pareceres CES/CNE
776/97, CES/CNE 583/2001, 146/2002 (revogado), 67/2003, Edital 4/97, e, em particular,
o Parecer CES/CNE 507/99, culminando com o presente Parecer ora submetido à
deliberação da Câmara de Educação Superior.
Promovendo-se a incursão histórica para a identificação das peculiaridades de
cada época, com repercussão no ensino jurídico brasileiro, até os dias atuais, verifique-se
que os primeiros cursos de Direito no Brasil, de 1827 a 1962, tiveram um “currículo único”,
nacional, rígido e invariável de nove cadeiras (cathedra), a ser cumprido em cinco anos,
refletindo os aspectos políticos e ideológicos do Império (com a forte influência do Direito
Natural e do Direito Público Eclesiástico), durante o qual, até a Proclamação da
República, só foi possível uma alteração curricular, em 1854, com a inclusão das cadeiras
de Direito Romano e do Direito Administrativo.
Durante o Império, portanto, com a inclusão, em 1854, das duas cadeiras
supra citadas, o currículo único para os cursos de Direito, tinha a seguinte estrutura:

1º ano – 1ª cadeira
Direito Natural
Público
Análise da Constituição do Império
Direito das Gentes
Diploma

2º ano – 1ª cadeira
Continuação das matérias do ano antecedente
2ª cadeira
Direito Público Eclesiástico

3º ano – 1ª cadeira
Direito Pátrio Civil
2ª cadeira
Direito Pátrio Criminal, com teoria do processo criminal

4º ano – 1ª cadeira
Continuação do Direito Pátrio Civil
2ª cadeira
Direito Mercantil e Marítimo

5º ano – 1ª cadeira
Economia Política
30
2ª cadeira
Teoria e prática do Processo Adotado Pelas Leis do Império

Advindo a Proclamação da República, alterações curriculares foram


introduzidas, decorrentes das modificações políticas e no campo das ciências, sob a
influencia da corrente positivista. Com efeito, não prevalecendo a orientação decorrente
do Direito Natural (o jus naturalismo) e desvinculando-se a Igreja do estado,
especialmente sob a influência do período Pombalino, extingue-se o Direito Público
Eclesiástico em 1890, logo após a Proclamação da República, criando-se também as
cadeiras de Filosofia e História do Direito e de Legislação Comparada sobre o Direito
Privado, até que, adveio, já no período Republicano, a Lei 314, de 30/10/1895, fixado em
novo currículo para os cursos de Direito, assim constituído:

1º ano – 1ª cadeira
Filosofia do Direito
2ª cadeira
Direito Romano
3ª cadeira
Direito Público Constitucional

2º ano – 1ª cadeira
Direito Civil
2ª cadeira
Direito Criminal
3ª cadeira
Direito Internacional Público e Diplomacia
4ª cadeira
Economia Política
3º ano – 1ª cadeira
Direito Civil
2ª cadeira
Direito Criminal, especialmente Direito Militar e Regime Penitenciário
3ª cadeira
Ciências das Finanças e Contabilidade do estado
4ª cadeira
Direito Comercial

4º ano – 1ª cadeira
Direito Civil
2ª cadeira
Direito Comercial (especialmente Direito Marítimo, Falência e Liquidação Judiciária)
3ª cadeira
Teoria do Processo Civil, Comercial e Criminal

4ª cadeira
Medicina Pública

5º ano – 1ª cadeira
Prática Forense
2ª cadeira
Ciência da Administração e Direito Administrativo
3ª cadeira
31
História do Direito e especialmente do Direito Nacional
4ª cadeira
Legislação Comparada sobre Direito Privado

Com algumas poucas modificações decorrentes da influência do positivismo


no período Republicano, o currículo se manteve com o mesmo núcleo fixado na Lei
314/1895 até 1962 quando o Conselho Federal de Educação avançou da concepção até
então vigente de “currículo único”, rígido, uniforme, para todos os cursos, inalterado até
em razão da Lei, para a nova concepção de “currículo mínimo” para os cursos de
graduação, incluindo-se, portanto, o bacharelado em Direito, na forma e sob as
competências previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 4.024/61.
Esses enfoques revelam, dentre outros motivos, como o curso de Direito
esteve, durante o Império e no período republicano até 1962, sob forte e incondicional
controle político-ideológico, constituindo-se “currículo único”, com as poucas alterações já
apontadas, o que explica a enraizada resistência às mudanças, somente incentivadas,
ainda que de forma tênue, a partir de 1962, com a implantação do primeiro currículo
mínimo nacional, para o curso de Direito.
O estudo comparado desses marcos legais, incluindo o advento da LDB
4.024/61, revela que, embora “currículo mínimo nacional” e “duração do curso” ainda
significassem dificuldades para alterações curriculares, as normas decorrentes da nova
LDB, ao tempo em que instituíam “currículo mínimo”, ensejavam, por seu turno, que as
instituições de ensino elaborassem seus respectivos “currículos plenos”, como forma de
se adaptarem aos reclamos regionais.
Foi, certamente, em relação aos marcos pretéritos, um avanço significativo,
em 1963, com o surgimento dos “currículos mínimos” para todo o País e “currículos
plenos” das instituições de ensino, revelando importante passo na flexibilização curricular,
ainda que mantida fixa a duração de cinco anos.
Sob a égide da LDB 4.024/61, o Conselho Federal de Educação, criado pela
citada Lei em substituição ao até então existente Conselho Nacional de Educação, emitiu
o Parecer 215, aprovado por aquele Conselho em 15/9/62 (publicada in Documenta nº 8 –
Outubro de 1962, pág. 81/83, e republicano in Documenta nº 10 – Dezembro de 1962,
pág. 16/19), propondo um currículo mínimo de Direito, bacharelado, com duração de cinco
anos, a ser implantado a partir do ano letivo de 1963, constituído das quatorze matérias
seguintes:
1. Introdução à Ciência do Direito
2. Direito Civil
3. Direito Comercial
4. Direito Judiciário (com prática forense)
5. Direito Internacional Privado
6. Direito Constitucional (incluindo noções de Teoria do Estado)
7. Direito Internacional Público
8. Direito Administrativo
9. Direito do trabalho
10. Direito penal
11. Medicina Legal
12. Direito Judiciário Penal (com prática forense)
13. Direito Financeiro e Finanças
14. Economia Política
Registre-se que o Parecer 215/62, com o respectivo projeto de resolução,
contendo o primeiro “currículo mínimo” do curso jurídico, no Brasil, em substituição ao
“currículo único”, e referencial para a elaboração de “currículo pleno” em cada instituição,
foi homologado pelo então Ministro de Educação e Cultura, Prof. Darcy Ribeiro, de
32
saudosa memória, nos termos da Portaria Ministerial de 1/12/62, publicada na Documenta
10 – Dezembro de 1962, às pág. 13/15, homologando, também, mais vinte e dois outros
“currículos mínimos” decorrentes dos respectivos pareceres ali mencionados, fixado,
assim, o “currículo mínimo” para vinte e três cursos de graduação, dentre eles o curso de
Direito, que encabeça p elenco, naquele ato.
Apesar do estímulo que se continha no novo modelo, para que as instituições
de ensino superior tivessem mais liberdade, porque a elas incumbia a formalização e
operacionalização do seu “currículo pleno”, ainda assim o currículo de Direito se manteve
rígido, com ênfase bastante tecnicista, sem a preocupação maior com a formação da
consciência e do fenômeno jurídicos, não se preocupando com os aspectos humanistas,
políticos, culturais e sociais, mantendo-se, assim, o citado tecnicismo, próprio do início e
de boa parte do período republicano anterior.
Para o entendimento das mudanças entre o regime acadêmico sob o
ordenamento jurídico anterior (Leis 4.024/61 e 5.540/68) e o instituído pela atual LDB
(9.394/96), torna-se necessário refletir sobre os fundamentos, concepção e princípios que
nortearam, no Império, o currículo de 1827, o subseqüente estabelecido pela Lei
314/1895, no início da Velha República, perdurando até 1962, quando o então Conselho
Federal de Educação emitiu o Parecer CFE 215/62, homologado pela Portaria Ministerial
de 4/12/62, e, depois, o Parecer 162/72, que ensejou a Resolução CFE 3/72, com os
acréscimos da Resolução 15/73, fixando, a cada época, currículo único e currículo mínimo
com duração do curso para o bacharelado em Direito, como forma de cotejar com o que
se preconiza para a fixação das Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Graduação
em direito, à luz da nova ordem jurídica educacional brasileira.
Esses instrumentos normativos revelam a concepção dos cursos em cada
época, como também ocorrera antes de 1961, quando ainda em funcionamento o então
Conselho Nacional de Educação, transformado, a partir da LDB 4.024/61, em Conselho
Federal de Educação, fixando-lhe competências, conforme art. 9º e seu § 1º, dentre
outros transcritos nesse parecer, sem, contudo, nesses dois momentos, elas terem sido
alteradas significativamente.
A partir da LDB supra mencionada, os seus arts. 66,68, parágrafo único, e 70,
definem o objetivo da educação superior, a importância do diploma conferindo privilégio
para o exercício das profissões e para admissão em cargos públicos, bem como a
competência do então CFE para fixar currículo mínimo e duração dos cursos que
habilitassem à obtenção do diploma, assim concebido, litteris:
Art. 66. O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das
ciências, letras e artes, e a formação de profissionais de nível universitário
Art. 68 Parágrafo único – Os diplomas que conferem privilégio para o exercício
de profissões liberais ou para a admissão em cargos públicos, ficam sujeitos ao registro
no Ministério da Educação e Cultura, podendo a lei exigir a prestação de exame e provas
de estágio perante os órgãos de fiscalização e disciplina das respectivas profissões.

(...)

Art.70. O currículo mínimo e a duração dos cursos que habilitem à obtenção


de diploma capaz de assegurar privilégio para o exercício da profissão
liberal...vetado...serão fixados pelo Conselho Federal de educação.
Parágrafo único. Vetado.
A remissão e subseqüente transcrição do “parágrafo único vetado” são
valiosas para a contextualização dos elementos de controle a que estava submetida a
educação superior, servido “as razões de veto” como alerta daquela época para nossos
dias:
Art. 70 Parágrafo único (vetado) – A modificação do currículo ou da duração
33
de qualquer desses cursos em um ou mais estabelecimentos integrantes de uma
universidade, depende de aprovação prévia do mesmo Conselho, que terá a faculdade de
revogá-la se os resultados obtidos não se mostrarem vantajosos para o ensino.
Assim as “razões do veto” do transcrito parágrafo único, contemplam, já para
aquela época, restrições ao “rigorismo formal (...) que nada contribui para a elevação dos
padrões de ensino e para a sua adaptação às condições locais”;
O art. 70 (caput) já exige currículo mínimo e anos previstos de duração fixados
pelo Conselho Federal de Educação para os cursos cuja diplomação assegure privilégios,
o que constitui o máximo de regulamentação admissível em face da autonomia
universitária. Pelo parágrafo único as exigências atingem a extremos ao impor
autorização prévia do mesmo Conselho para qualquer modificação no currículo ou na
duração dos cursos. A experiência brasileira indica que nada ganhamos com a
regulamentação rígida do ensino superior até agora vigente, pois dela só obtivemos um
rigorismo formal no atendimento das exigências da lei em que nada contribui para a
elevação dos padrões de ensino e para sua adaptação às condições locais.
O ato normativo, portanto, diferenciador ou caracterizador dos sentidos de
época ou da contextualização do processo educacional brasileiro não pode transformar-se
em um fim em si mesmo, mas deve ser concebido como o instrumento com que se
atendem às peculiaridades e, conseqüentemente, o novo tempo em que vivemos, a exigir
dos profissionais maior autonomia na sua capacidade de incursionar, com desempenhos
científicos, no ramo do saber ou na área do conhecimento onde se situa a sua graduação,
no ritmo célebre com que se processam as mudanças.
Isto significa que era plenamente possível, àquela época, cogitar-se de
currículo mínimos nacionais, com os conteúdos determinados para todo o País,
reservando-se às instituições de ensino uma margem muito limitada para agregar, na
composição do seu currículo pleno, algumas disciplinas optativas, dentre as relacionadas
pelo próprio Conselho, a fim de que, também dentre elas, o colegiado de curso e, a
seguir, os alunos escolhessem uma ou duas, segundo suas motivações ou se as
instituições de ensino pudessem oferecer ou estivessem empenhadas por fazê-lo.
De resto, na educação superior, em partícular nos cursos de Direito,
inicialmente de currículo único nacional, os currículos mínimos representaram, no período
Republicano, o perfil nacional de um determinado profissional, que se considerava
habilitado para exercer a profissão em qualquer parte do País desde que portador do
diploma registrado, decorrente da conclusão do curso de graduação reconhecido, o que
implicava em prévia constatação de que o currículo mínimo nacional estabelecido pela via
ministerial fora cumprido.
Em fase, portanto, do que dispunham os arts. 9º, § 1º, e 70, da LDB vigente,
em setembro de 1962 o Conselho Federal de Educação editou o Parecer 215/62, fixado
os currículos mínimos e duração dos cursos de graduação em Direito, homologado, como
se disse, por ato ministerial de 4/12/62 acolhendo também o projeto de resolução anexa
ao mencionado parecer.
Advindo, então, a Lei 5.540/68, foi alterado o currículo mínimo fixado em 1962,
introduzindo mudanças nos termos das Resoluções 3/72 e 15/73, com flexibilizações
relacionadas com a oferta de cursos de graduação em Direito, observadas, no entanto,
sempre, as competências do Conselho Federal de Educação, estabelecidas no art. 9º, §
1º, ainda vigente, da Lei 4.021/61, e as constantes da 5.540/68, para fixação dos
currículos mínimos nacionais e sua duração para os cursos de graduação.
Esses níveis de competência do Conselho Federal de Educação, portanto, não
se modificaram com o advento da Lei de Reforma Universitária, ao contrário, foram
reiterados como se observa dos arts. 26 e 27 da mencionada Lei 5.540/68, até porque
estava mantido o art. 9º, § 1º, da LDB 4.024/61:
Lei 5.540/68:
34
Art. 26. O Conselho Federal de Educação fixará o currículo mínimo e a duração
mínima dos cursos superiores correspondentes a profissões reguladas em lei e de outros
necessários ao desenvolvimento nacional.
Art. 27. Os diplomas expedidos por universidades federal ou estadual nas
condições do art. 15 da Lei nº 4.024, de 20 de Dezembro de 1961, correspondentes a
cursos reconhecidos pelo Conselho Federal de Educação, bem como os de cursos
credenciados de pós-graduação serão registrados na própria universidade, importando
em capacitação para o exercício profissional na área abrangida pelo respectivo currículo,
com validade em todo o Território Nacional.
§ 1º. O Ministério da Educação e Cultura designará as universidades federais
que deverão proceder ao registro de diplomas correspondentes aos cursos referidos
neste artigo, expedidos por universidades particulares ou por estabelecimentos isolados
de ensino superior, importando o registro em idênticos direitos.
§ 2º. Nas unidades da Federação em que haja universidade estadual, nas
condições referidas neste artigo, os diplomas correspondentes aos mesmos cursos,
expedidos por estabelecimentos isolados de ensino superior mantidos pelo Estado, serão
registrados nessa Universidade.
Mesmo vigente a Lei 5.540/68, o currículo mínimo anteriormente concebido,
com duração de quatro anos, perdurou, em âmbito nacional, até o advento da Resolução
CFE 3/72, decorrente do Parecer CFE 162/72, que fixou o novo currículo mínimo do curso
de graduação em Direito, com duração de quatro anos, como se detalha, por época e pelo
respectivo ato normativo, nos comentários aduzidos nos parágrafos pertinentes deste
Relatório, convindo registra que nesse ínterim foi editada a Lei 4.215/63, instituído o
exame de ordem para o exercício da profissão, ordenamento este alterado pela Lei
5.842/72, mantendo-se o disciplinamento da Resolução supra referida.
Pela Resolução CFE 3/72, decorrente do Parecer CFE 162, aprovado em
27/1/72, o currículo mínimo nacional do curso de graduação em Direito, bacharelado,
compreendia as matérias consideradas básicas e as profissionais, incluindo-se nestas a
Prática Forense, sob a forma de estágio supervisionado, Educação de Problemas
Brasileiros e Educação Física, estas duas decorrentes de legislação própria, constituição
os seguintes conjuntos curriculares obrigatórios:
A- Básicas:
1. Introdução ao Estudo do Direito
2. Economia
3. Sociologia
A- Profissionais
4. Direito Constitucional (Teoria do Estado – Sistema Constitucional Brasileiro)
5. Direito Civil (Parte Geral – Obrigações – Parte Geral e Parte Especial – Coisas –
Família – Sucessão).
6. Direito Penal (Parte Geral – Parte Especial)
7. Direito Comercial (Comerciantes – Sociedades - Títulos de Crédito – Contratos
Mercantis e Falências)
8. Direito do Trabalho (relação do Trabalho – Contratado de Trabalho – Processo
Trabalhista)
9. Direito Administrativo (Poderes Administrativos – Atos e Contratos Administrativos –
Controle de Administração Pública – Função Pública)
10. Direito Processual Civil (Teoria Geral – Organização Judiciária – Ações – Recursos –
Execuções)
11. Direito Processual Penal (Tipo de Procedimento – Recursos – Execução)
12. Prática Forense, sob a forma de estágio supervisionado.
13. Estudo de Problema Brasileiro e a prática de Educação Física, com predominância
desportiva, de acordo com legislação específica.
35
14/15. Duas opcionais dentre as seguintes:
a) Direito Internacional Público
b) Direito Internacional Privado
c) Ciências das Finanças e Direito Financeiro (Tributário e Fiscal)
d) Direito da Navegação (Marinha e Aeronáutica)
e) Direito Romano
f) Direito Agrário
g) Direito Previdenciário
h) Medicina Legal
Após o currículo mínimo nacional fixado pela Resolução CFE 3/72, foi
constituída pelo MEC, sob critério da representação regional, uma Comissão de
Especialista de Ensino Jurídico, em 1980, com a finalidade de refletir com profundidade a
organização e o funcionamento dos cursos de Direito, no País, apresentado proposta de
alteração do currículo implantado pela Resolução antes referida. É que se tornou assente,
naquele curto período de 1972 até 1980, com a instalação, pelo MEC, da Comissão de
Especialistas de Ensino Jurídico, que, por motivos diversos, o currículo até então
introduzido não contemplava as necessárias mudanças estruturas que resolvessem os
problemas em torno do ensino jurídico, no Brasil, considerado muito “legalista” e
“tecnicista”, pouco comprometido com a formação de uma consciência jurídica e do
raciocínio jurídico capazes de situara o profissional do direito com desempenhos
eficientes perante as situações sociais emergentes.
Desta forma, a Comissão de Especialistas de Ensino Jurídico constituída em
1980 pelo MEC, alterada em 1981 com a substituição de dois de seus ilustres membros,
apresentou proposta de currículo mínimo para o curso de graduação em Direito,
bacharelado, constituído de quatro grupos de matérias, sendo o primeiro grupo pré-
requisito para os três subseqüentes, como a seguir se detalha:
1. Matérias Básicas
Introdução à Ciência do Direito
Sociologia Geral
Economia
Introdução à Ciência Política
Teoria da Administração
2. Matérias de Formação Geral
Teoria Geral do Direito
Sociologia Jurídica
Filosofia do Direito
Hermenêutica Jurídica
Teoria Geral do Estado
3. Matérias de Formação Profissional
Direito Constitucional
Direito Civil
Direito Penal
Direito Comercial
Direito Administrativo
Direito Internacional
Direito Financeiro e Tributário
Direito do Trabalho Previdenciário
Direito Processual Civil
Direito Processual Penal
4. Matérias Direcionadas a Habilitações Específicas
O último grupo proposto, direcionado para habilitações específicas
constituídas de reconhecimentos especializados, deveria ser composto por disciplinas e
36
áreas de conhecimento que atendessem à realidade regional, Às possibilidades de cada
curso, à capacitação do quadro docente e à aptidões dos alunos, lembrando-se que
estava ali prevista a implantação do Laboratório Jurídico, com carga horária mínima de
600 (seiscentas) horas/atividades, a serem cumpridas em até dois anos, substituindo o
estágio curricular supervisionado e extracurricular, ensejado até a eliminação do Exame
da Ordem, previsto na Lei 4.215/63, e mantidos nas Resoluções 3/72 e 15/73.
A proposta não teve tramitação regular no CFE e no MEC, jamais tendo sido
objeto de deliberação daquele Colegiado, sobretudo porque a Resolução 3/72, apesar de
enfeixar um currículo mínimo nacional, permitia às instituições de ensino certo grau de
autonomia para definirem seus currículos plenos, desde que fossem respeitados aqueles
mínimos curriculares contidos na Resolução.
Esta situação perdurou até 1996, prorrogada para 1998, com a implantação
das “diretrizes curriculares e o conteúdo mínimo do curso jurídico” (sic), de âmbito
nacional, fixados pela Portaria 1.886/94. O disposto no art. 15 daquele ato concedia o
prazo de dois anos, contados daquela data, para o seu cumprimentos, revogando, em seu
art. 17, as disposições em contrário, especialmente as Resoluções 3/72 e 15/73, do
extinto Conselho Federal de Educação, embora a Resolução 15/73, que tratava da Prática
Forense e Organização Judiciária, já se encontrasse revogada como o advento da Lei
8.906/94 – Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil.
A Portaria 1.886/94 trouxe inovações que se constituíam avanços para o
ensino jurídico, especialmente pelo seu direcionamento à realidade social e integração
dos conteúdos com as atividades, dando dimensão teórico – prática ao currículo e
ensejado a formação do senso crítico dos alunos, além de contemplar mais flexibilidade
na composição do currículo pleno, através de disciplinas optativas e diferentes atividades
de estudos e de aprofundamento em áreas temáticas.
Dentre os avanços, poder-se-á citar a concepção do estágio curricular
supervisionado como Prática Jurídica e não simplesmente como Prática Forense; a
manutenção flexibilidade curricular, ensejando que as instituições de ensino adequassem
seus currículos plenos às demandas e peculiaridades do mercado de trabalho e das
realidades locais e regionais, ainda com a obrigatoriedade das atividades integradas das
funções ensino, pesquisa e extensão.
A Portaria Ministerial supra indicada fixou o currículo mínimo nacional do
curso jurídico e sua duração de, no mínimo, 3.300 (três mil e trezentas) horas de
atividades, integralizáveis em, pelo menos cinco anos, ampliando-se desta forma a carga
horária mínima de 2.700 (duas mil e setecentas) (Resolução 3/72) para 3.300 (três mil e
trezentas) horas/atividades e majorando a duração mínima de quatro para cinco anos e a
máxima de sete para oitos anos, parâmetros esses dentro dos quais cada instituição tem
a liberdade de estabelecer a carga horária curricular e sua duração, para os controles
acadêmicos relativo à sua integralização.
A semelhança dos atos normativos anteriores, a Portaria Ministerial também
estabeleceu, em seu art. 6º, “o conteúdo mínimo do curso jurídico, além do estágio”,
compreendendo as seguintes matérias, detalhadas denominadas, “que podem estar
contidas em uma ou mais disciplinas dos currículos plenos de cada curso” (sic), assim
distribuídas em dois grupos:
I – Matérias Fundamentais
Introdução ao Direito
Filosofia (Geral e Jurídica)
Ética (Geral e Profissional)
Sociologia (Geral e Jurídica)
Economia e
Ciência Política (com Teoria do Estado)
II – Matérias Profissionalizantes
37
Direito Constitucional
Direito Civil
Direito Administrativo
Direito Tributário
Direito Penal
Direito Processual Civil
Direito Processual Penal
Direito do Trabalho
Direito Comercial e
Direito Internacional

Convém registrar que o parágrafo único do mencionado artigo assim estabelecia:


As demais matérias e novos direitos serão incluídos nas disciplinas em
que se desdobrar o currículo pleno de cada curso, de acordo com as
peculiaridades e com a observância da interdisciplinaridade.
Além desses conteúdos, exigiu também a prática de Educação Física com
predominância desportiva (art. 7º), e permitiu que o curso, a partir do quarto ano ou do
período letivo correspondente, desde que respeitado o conteúdo mínimo nacional contido
no art. 6º transcrito, se direcionasse a “uma ou mais áreas de especialização segundo as
vocações e demandas sociais e de mercados de trabalho” (sic.art.8º), retoma assim o que
se concebia com as “habilitações específicas” nos atos normativos anteriores.
Certamente, o art. 8º continha uma respeitável proposta pedagógica, além do
caráter metodológico, na medida em que enseja o atendimento à vocações e demandas
sociais e de mercado de trabalho, equivalendo dizer que as instituições têm a liberdade e
até a responsabilidade de flexibilizar o seu currículo pleno para ensejar a formação de
profissionais do direito aptos a ajustar-se às mudanças iminentes, inclusive de caráter
regional, de forma que o operador do direito possa, além do conhecimento geral da
ciências do direito, aprofundar-se em uma determinada área ou ramo específico a que
pretenda dedicar-se preferencialmente, sob forma de estudos de “especialização”
integrados aos estudos da graduação, que podem culminar, posteriormente, com a pós-
graduação lato sensu, de acordo com os componentes do Núcleo de Especialização
temática, complementando a carga horária indispensável à citada pós-graduação.
Ocorre, porém, que essa flexibilização se esbarra em uma rigidez do currículo
mínimo nacional par a graduação do bacharel em Direito, uma vez que tal procedimento
somente é possível se for, primeiramente como um pré–requisito, “observado currículo
mínimo previsto no art. 6º” (sic), o que descaracteriza a definição de “diretrizes
curriculares” expressão essa adotada na ementa da Portaria e que não corresponde ao
que as Leis 9.131/95 e 9.394/96, com os conseqüentes Pareceres do Conselho Nacional
de Educação, entendem como “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Graduação” e
“Diretrizes Curriculares para cada Curso de Graduação” como ora se relata para o curso
de graduação em Direito, bacharelado.
Nesse sentido, o Conselho Nacional de Educação, através da Câmara de
Educação Superior, aprovou o Parecer CES 507/99, contendo a Indicação para que o
Senhor Ministro de Estado da Educação revogasse as Portarias 1.886/94 e 3/96, “para
assegurar a coerência nas Diretrizes Curriculares” sob a nova concepção preconizada
nas Leis supra referidas, pra todos os cursos de graduação, inclusive, portanto, para a
graduação em Direito, bacharelado, cuja proposta já estejam em tramitação no âmbito do
ministério e do próprio Conselho, em decorrência do Parecer CES 776/97 e do Edital
SESu/MEC 4/97.
No Parecer CES 507/99, alertara-se quanto à necessidade de que se
observasse toda a metodologia traçada pelo Edital remetido, de tal forma que a Câmara
de Educação Superior pudesse, no momento oportuno, deliberar sobre as Diretrizes
38
Curriculares para o Curso de Graduação em Diretrizes, de acordo com a nova ordem
jurídica, de forma a permitir que as instituições definam “currículos adequados, capazes
de se ajustarem à incessantes mudanças, não raro muito rápidas, a exigir respostas
efetivas e mediatas das instituições educacionais”.
Aliás, outra não é o posicionamento definido no Parecer 776/97, que se
acrescenta a seguinte orientação geral extraída do próprio Edital 4/97 para a sua
organização, enfocada no Parecer 507/99, litteris:

As Diretrizes Curriculares têm por objetivo servir de referência para as


IES na organização de seus programas de formação, permitindo uma flexibilidade
na construção dos currículos plenos e privilegiando a indicação de áreas do
conhecimento a serem consideradas, ao invés de estabelecer disciplinas e cargas
horárias definidas. As Diretrizes Curriculares devem contemplar ainda a
denominação de diferentes formações e habilitações para cada área do
conhecimento, explicitando os objetivos e as demandas existentes na sociedade.
Já à época do Parecer 507/99, a Câmara de Educação Superior enfatizou que
A Flexibilização enfocada induz maior nível de responsabilidade das
instituições de educação quando da ‘elaboração de sua proposta pedagógica
coerente com essa nova ordem e com as exigências da sociedade contemporânea’.
Nesse novo contexto, no entanto, não convivem bem a Portaria Ministerial n.º
1.886/94, com a alteração que lhe int5roduziu a Portaria n.º 3/96, como se constata
pela análise de cada dispositivo do referido ato normativo, que esposou uma visão
do currículo do curso jurídico bem diversa daquela que, cinco anos depois, resulta
da nova política educacional brasileira contida na Lei de Diretrizes e Bases n.º
9.394/96, construída sobre os pilares da nova Ordem Constitucional de 1988.
Cotejando, portanto, o currículo constante da Resolução CFE 3/72 com o
fixado pela Portaria 1.886/94, verifica-se que, em ambos os atos normativos, ficou
prevista a oferta de habilitações especificas (registradas no anverso do diploma do
bacharel em Direito), significando “intensificação de estudos em áreas correspondentes
às matérias fixadas nesta Resolução (3/72) e em outras que sejam indicadas nos
currículos plenos” (sic. art. 3º).
Desta forma, conquanto o currículo mínimo fixado para todos os cursos de
Direito no País, tanto pela Resolução 3/72, como pela Portaria Ministerial 1.886/94,
significasse evidente limite à autonomia, responsabilidade e liberdade das instituições de
ensino superior, as “habilitações específicas”, a flexibilização da duração dos cursos, no
primeiro ato, e a possibilidade dos “núcleos temáticos de especialização, sendo as
vocações e demandas sociais e de mercado de trabalho”, a partir do quarto ano, na forma
prevista no art. 8º do segundo ato, certamente revelam o esforço para inovar na
elaboração e na operacionalização do currículo pleno, a cargo de cada instituição.
Diante desse quadro, como alertara a ABEDi, em outras ocasiões, nos
subsídios encaminhados a estes Relatores e, sobretudo, no recente Congresso realizado
em Florianópolis em 2003, os obstáculos do ensino jurídico somente serão superados se
as Diretrizes Curriculares Nacionais para a graduação em Direito, bacharelado,
encontrarem do corpo docente e das administrações das instituições de ensino superior, o
total compromisso de atender aos reclamos de uma nova época, constituindo-se efetivas
respostas às novas aspirações e às novas concepções jurídicas, ajustadas às
necessidades locais, regionais, nacionais, internacionais, que estão a exigir uma
diversificação curricular, nas instituições, na proporção direta das mudanças e das
demandas regionais, atuais e emergentes.
Nesse passo, importa conceber a graduação no ensino jurídico com uma
“formação inicial” para o exercício da profissão, implicando, como reza a LDB,
continuidade e aprofundamento de estudos, sempre renovados em decorrência dos
39
avanços da ciência, da tecnologia e de novas escalas de valores, com implicações na
constituição de novas e desafiadoras situações e relações jurídicas, que justificam e
exigem especializações em diferentes áreas ou ramos jurídicos, atuais ou novos, e em
núcleos temáticos específicos.
Assim, o Direito retomara o seu papel de controle, construção e garantia do
desenvolvimento da sociedade, evitando que se repita a postura cômoda de nada inovar,
dando-se as faculdades por satisfeitas com a simples execução do currículo mínimo em
que já se transformara o “currículo pleno”, como continua ocorrendo, bastando a
realização e aprovação da monografia.
O ensino jurídico não poder comprazer-se com a emissão de diploma de
graduação para aqueles que concluíram com aproveitamento médio, regular, as matérias
ou disciplinas jurídicas estabelecidas na norma, muitas vezes cursadas mediana e
compulsoriamente, apenas porque a norma (grade curricular) o exigiu, no limite do
quantum satis para a sua creditação acadêmica.
Não raro, também, matérias e disciplinas se justificam tão somente pela
satisfação tecnicista, dogmática e personalista de grande contingente dos que atuam nos
cursos jurídicos, sem o indispensável comprometimento com a nova ordem política,
econômica , social, e com seus pluralismos políticos, jurídicos, regionais e axiológicos que
caracterizam a contemporaneidade brasileira e a comunidade das nações. Com efeito,
esse contexto está a exigir bastante autonomia intelectual e lúcido raciocínio jurídico, com
as visíveis características de cientificidade e criticidade, epistemologicamente
sedimentados, centrados também em uma escala de valor dignificante para o Brasil, para
a pessoa humana e para os cidadãos, no pluralismo anteriormente remetido.
Outra, pois, é a atual concepção dos cursos de graduação, incluindo a
graduação em Direito, bacharelado, a partir da Lei 9.394/96, incumbindo ao Conselho
Nacional de Educação, através da Câmara de Educação Superior, fixar as diretrizes
curriculares para cada curso de graduação, como, aliás, já estava estabelecido na anterior
Lei 9.131/95, mantida no art. 92 da nova LDB, antes mesmo da implantação do currículo
mínimo estabelecido pela Portaria Ministerial 1.886/94, diferida para 1996 e depois para
1998.
Aliás, alguns comentários sobre a Portaria Ministerial 1.886/94, feitos
anteriormente na Câmara de Educação Superior, quando da aprovação do Parecer
507/99 e da Indicação que o ensejou, devem ser aqui reprisados e outros, aduzidos, para
melhor reflexão, especialmente do ponto de vista jurídico.
As diretrizes curriculares, portanto, no curso de Direito, como nos demais, se
voltam e se orientam pra o devir, para o vir-a-ser, sem prejuízo da imediata inserção do
profissional no mercado de trabalho, como co-responsável pelo desenvolvimento social
brasileiro, não se podendo direcioná-las a uma situação estática ou contextual da
realidade presente.
Trata-se, pois, de um novo marco legal estabelecido a partir da LDB 9.394/96,
e confirmado pelo Plano Nacional de Educação, de acordo com a Lei 10.172/2001. Com
efeito, coerente com os princípios e finalidades constantes dos arts. 3º e 43 da LDB, sem
prejuízo de outros, o art. 9º incisos VII e VIII, se coadunam com o disposto na Lei
9.131/95, que confere, como privativa, a atribuição à Câmara de Educação Superior do
Conselho Nacional de Educação para deliberar sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais
para os Cursos de Graduação, a partir das propostas que fossem encaminhadas ao
Conselho Nacional de Educação pela Secretaria de Educação Superior.
Desta maneira, enquanto as precedentes Leis 4.024/61 e 5.540/68 atribuíram
ao então Conselho Federal de Educação competência par definir “currículos mínimos
nacionais e a duração dos cursos de graduação”, o marco legal estabelecido pelas Leis
9.131/95, 9.394/96 e 10.172/2001, apresenta nova configuração para as definições
políticas da educação brasileira, coerentes com a Carta Política promulgada em 5/10/88.
40
Para substituir os currículos mínimos obrigatórios nacionais, já neste novo
contexto legal, advieram as Diretrizes Curriculares Nacionais, lastreadas pelo pareceres
776/97, 583/2001 e 67/2003, os quais informam o presente relato em torno de todas as
propostas recebidas da SESu/MEC, dos órgãos de representação profissional e de outros
segmentos da sociedade brasileira, de cujas contribuições resultarão, em final as
Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de graduação em Direito.
Este Parecer, portanto, contempla as orientações das comissões de
Especialistas e as da SESu/MEC, as quais, na sua grande maioria, foram acolhidas e
reproduzidas na sua totalidade, não só por haver concordância com as idéias suscitadas
no conjunto do ideário concebido, mas também como forma de reconhecer e valorizar a
legitimidade do processo coletivo e participativo, que deu origem à elaboração dos
documentos sobre Diretrizes Curriculares Gerais dos Cursos de Graduação, cujas
propostas foram encaminhadas pela SESu/MEC para deliberação deste Colegiado.
Foram também as contribuições da Ordem dos Advogados do Brasil, por sua
Presidência, por seu Conselho Federal, por sua Comissão de Estudos Jurídicos, pelas
Seccionais e Sub Seccionais dos Estados, de diversas entidades públicas e privadas, em
particular da Associação Brasileira do Ensino do Direito – ABEDi, e de outras
associações correlatadas, além da profunda discussão em congressos e audiências
públicas. (grifo nosso)
Elas compõem o conjunto das propostas formuladas e permitiram a estes
Relatores analisá-las de per si nos devidos aspectos constitutivos do roteiro adotado,
culminando com a proposta de um projeto de resolução que contemple os anseios de
todos os colaboradores e a coerência em relação ao entendimento da nova concepção
educacional que contém, em seu cerne e como proposta nova, as Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Curso de Graduação em Direito.
Em segmento próprio, portanto, todas as propostas e contribuições foram
objeto de acurada reflexão, não significando desapreço algum àquelas eventualmente não
contempladas, posto que o presente Parecer deve revelar-se harmônico com os princípios
e finalidades que informam a legislação e a política educacional brasileira.
Cumpre agora, portanto, propor a Câmara de Educação Superior, o
estabelecimento das Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em
Direito, cujas especificações e detalhamento atenderam ao disposto nos Pareceres
CES/CNE 776/97, 583/2001, 67/2003 e 55/2004, especialmente quanto à metodologia
adotada, enfocando, pela ordem organização do curso, projeto pedagógico, perfil
desejado do formando, competências/habilidades/atitudes, conteúdos curriculares,
organização curricular, estágio supervisionado, atividades complementares,
acompanhamento e avaliação e trabalho de curso.

• Organização do Curso

A organização do curso de graduação em Direito, observadas as Diretrizes


Nacionais e os Pareceres desta Câmara, indicará claramente os componentes
curriculares, abrangendo o perfil do formando, as competências e habilidades, os
conteúdos curriculares e a duração do curso, o regime de oferta, as atividades
complementares, o sistema de avaliação, o estágio supervisionado e o trabalho de curso,
ambos como componentes obrigatórios da Instituição, sem prejuízo de outros aspectos
que tornem consistente o Projeto Pedagógico.

• Projeto Pedagógico

As instituições de ensino superior deverão, na elaboração do projeto


pedagógico do curso de graduação em Direito, definir, com clareza, os elementos que
41
lastreiam a própria concepção do curso, com suas peculiaridades e contextualização, o
seu currículo pleno e sua adequada operacionalização e coerente sistemática de
avaliação, destacando-se os seguintes elementos estruturais, sem prejuízo de outros:
I – concepção e objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às
sua inserções institucional, política, geográfica e social;
II – condições objetivas de oferta e a vocação do curso, incluindo
adequada e atualizada biblioteca;
III – cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso;
IV – formas de realização da interdisciplinaridade;
V – modos de integração entre teoria e prática;
VI – formas de avaliação do ensino e da aprendizagem;
VII – modos da integração entre graduação e pós-graduação, lato sensu e
stricto sensu quando houver;
VIII – atividades de pesquisa e extensão, como necessário prolongamento
da atividade de ensino e como instrumento para a iniciação científica;
IX – regulamentação das atividades relacionadas com trabalho de curso,
de inclusão obrigatória;
X – concepção e composição das atividades de estágio supervisionado,
de caráter obrigatório; ambiente e condições de realização, observado o respectivo
regulamento, bem como a implantação, estrutura e funcionamento do Núcleo de Prática
Jurídica; e
XI – concepção e modalidades das atividades complementares.

• Perfil Desejado do Formando

O curso de graduação em Direito deverá assegurar, no perfil do graduando,


sólida formação geral, humanística e axiológica, capacidade de análise, domínio de
conceitos e da terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e valorização
dos fenômenos jurídicos e sociais, aliadas a uma postura reflexiva e de visão cr´tica que
fomente a capacidade e a aptidão para a aprendizagem autônoma e dinâmica,
indispensável ao exercício da Ciência do Direito, da prestação da justiça e do
desenvolvimento da cidadania.

• Competência e Habilidades

Os cursos de graduação em Direito devem formar profissionais que revelem,


pelo menos, as seguintes competências e habilidades:
I – leitura, compreensão e elaboração de textos, atos e documentos
jurídicos ou normativos, com a devida utilização das normas técnico-jurídicas;
II – interpretação e aplicação do Direito;
III – pesquisa e utilização da legislação, da jurisprudência, da doutrina e
de outras fontes do Direito;
IV – adequada atuação técnico-jurídica, em diferentes instâncias,
administrativas ou judiciais, com a devida utilização de processos, atos e procedimentos;
V – correta utilização da terminologia jurídica ou da Ciência do Direito;
VI – utilização de raciocínio jurídico, de argumentação, de persuasão e de
reflexão crítica;
VII – julgamento e tomada de decisões; e
VIII – domínio de tecnologias e métodos para permanente compreensão e
aplicação do Direito.

• Conteúdos Curriculares
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Os cursos de graduação em Direito deverão contemplar, em seus projetos


pedagógicos e em sua organização curricular, conteúdos que revelem inter-relações com
a realidade nacional e internacional, segundo uma perspectiva histórica e contextualizada
dos diferentes fenômenos relacionados com o direito, utilizando tecnologias inovadoras, e
que atendam aos seguintes eixos interligados de formação:
I – Eixo de Formação Fundamental, que tem por objetivo integrar o
estudante no campo do Direito, estabelecendo as relações do Direito com outras áreas do
saber, abrangendo, dentre outros condizentes com o projeto pedagógico, estudos que
envolvam conteúdos essenciais sobre Antropologia, Ciência Política, Economia, Ética,
Filosofia, História, Psicologia e Sociologia;
II – Eixo de Formação Profissional, abrangendo, além do enfoque
dogmático, o conhecimento e a aplicação do Direito, observadas as peculiaridades dos
diversos ramos do Direito, de qualquer natureza, estudos sistematicamente e
contextualizados segundo a evolução das Ciências do Direito e sua aplicação às
mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais do Brasil e suas relações
internacionais, incluindo-se, dentre outros condizentes com o projeto pedagógico,
conteúdos essenciais sobre, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito
Tributário, Direito Penal, Direito Civil, Direito Empresarial, Direito do Trabalho, Direito
Internacional e Direito Processual; e
III – Eixo de Formação Prática, que objetiva a integração entre prática e
os conteúdos teóricos desenvolvidos nos demais eixos, especialmente nas atividades
relacionadas com o estágio curricular supervisionado, as atividades complementares e
trabalho de curso, de caráter obrigatório, com conteúdo desenvolvido pelas IES, em
fundação de seus Projetos Pedagógicos.

• Organização Curricular

O Projeto Pedagógico do curso de graduação em Direito se reflete,


indubitavelmente, na organização curricular, para qual a instituição de ensino superior
exercitará seu potencial inovador e criativo, com liberdade e flexibilidade, e estabelecerá
expressamente as condições para a efetiva conclusão do curso, desde que comprovados
a indispensável integralização curricular e o tempo útil fixado para o curso, de acordo com
os seguintes regimes acadêmicos que as instituições de ensino superior adotarem:
regime seriado anual; regime seriado semestral; sistema de créditos com matrícula por
disciplina ou por módulos acadêmicos, observado o pré-requisito que vier a ser
estabelecido no currículo, atendido o disposto na Resolução decorrente deste Parecer.

• Estágio Curricular Supervisionado

O Projeto Pedagógico do curso de graduação em Direito deve contemplar


objetivamente a realização de estágios curriculares supervisionados, tão importantes para
a dinâmica do currículo pleno com vistas à implementação do perfil desejado para o
formando, não os confundindo com determinadas práticas realizadas em instituições e
empresas, a título de “estágio profissional”, que mais se assemelham a uma prestação de
serviço, distanciados e das características e finalidades específicas dos estágios
curriculares supervisionados.
Voltado para desempenhos profissionais antes mesmo de se considerar
concluído o curso, é necessário que, à proporção que os resultados do estágio forem
sendo verificados, interpretados e avaliados, o estagiário esteja consciente do seu atual
perfil, naquela fase, para que ele próprio reconheça a necessidade da retificação da
aprendizagem nos conteúdos e práticas em que revelara equívocos ou insegurança de
43
domínio, importando em reprogramação da própria prática supervisionada, assegurando-
se-lhe orientação teórica prática para a melhoria do exercício profissional.
Dir-se-á, então, que estágio supervisionado é componente obrigatório
diferenciado à consolidação dos desempenhos profissionais desejados, inerentes ao perfil
do formando, devendo cada instituição, por seus colegiados próprios, aprovar o
correspondente regulamento, som suas modalidades de operacionalização.
Convém ressaltar que o estágio, na graduação em Direito, deverá ser
realizado, na própria instituição de ensino, através do Núcleo de Prática Jurídica, desde
que este seja estruturado superior acadêmico competente, podendo, em parte,
contemplar convênios com outras entidades ou instituições e escritórios de advocacia; em
serviços de assistência judiciária implantados na Instituição, nos órgãos do Poder
Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública ou ainda em departamentos
jurídicos oficiais, importando, em qualquer caso, na supervisão e elaboração dos
relatórios que deverão ser encaminhados à Coordenação de Estágio das Instituições de
ensino, para a avaliação pertinente.

• Atividades Complementares

As atividades complementares, por seu turno, devem possibilitar o


reconhecimento por avaliação, de habilidades, conhecimentos, competências e atitudes
do aluno, inclusive adquiridas fora do ambiente acadêmico, hipótese em que o aluno
alargará o seu currículo com experimentos e vivências acadêmicas, internos ou externos
ao curso.
Orientam-se, desta maneira, a estimular a prática de estudos independentes,
transversais, opcionais, de interdisciplinaridade, de permanente e contextualizada
atualização profissional específica, sobretudo nas relações com o mundo do trabalho e
com as diferentes correntes do pensamento jurídico, devendo ser estabelecidas ao longo
do curso, sob as mais diversas modalidades enriquecedoras da prática pedagógica
curricular, integrando-as às diversas peculiaridades regionais e culturais.
Nesse sentido, as atividades complementares podem incluir projetos de
pesquisa, monitoria, iniciação científica, projetos de extensão, módulos temáticos,
seminários, simpósios, congressos, conferências, além de disciplinas oferecidas por
outras instituições de ensino ou de regulamentação e supervisão do exercício profissional,
ainda que esses conteúdos não estejam previstos no currículo pleno de uma determinada
Instituição, mas nele podem ser aproveitados porque circulam em um mesmo currículo,
de forma interdisciplinar, e se integram com os demais conteúdos realizados.
Em resumo, as atividades complementares são componentes curriculares
que possibilitam o reconhecimento, por avaliação, de habilidades, conhecimentos e
competências do aluno, mesmo que adquiridas fora do ambiente escolar, incluindo a
prática de estudos e atividades independentes, transversais, opcionais, de
interdisciplinaridade, especialmente nas relações com o mundo do trabalho e com as
ações de extensão junto à comunidade.
Trata-se, portanto, de componentes curriculares enriquecedores e
implementadores do próprio no perfil do formado, sem que se confundam com estágio
curricular supervisionado.
Nesse mesmo contexto, estão as atividades de extensão, que podem e
devem ser concebidas no projeto pedagógico do curso, atentando-se para a importante
integração das atividades do curso de Direito com as experiências da vida cotidiana na
comunidade, e nos diversos órgãos e instituições relacionadas ou envolvidas com a
administração da justiça e com as atividades jurídicas.

• Acompanhamento e Avaliação
44

As Instituições de Educação Superior poderão adotar formas específicas e


alternativas de avaliação, internas e externas, sistemáticas, envolvendo todos quantos se
contenham no processo institucional e do curso, centradas em aspectos considerados
fundamentais para a identificação e consolidação do perfil do formando, estando
presentes o desempenho da relação professor x aluno, a parceria do aluno para com a
instituição e o professor e a clara percepção das implicações sócio-econômicas do seu
tempo, de sua região, da sociedade brasileira e das relações do Brasil com outros
modelos e manifestações de economia mundial.
Importante fator para a avaliação das instituições é a produção que elas
podem colocar à disposição da sociedade e de todos quantos se empenhem para o seu
desenvolvimento econômico-social, valendo-se do crescimento e no avanço da ciência e
da tecnologia. Com efeito, a produção que uma Instituição divulga, publica, socializa,
certamente será um forte e ponderável indicador para o acompanhamento e avaliação
sobre a Instituição, sobre o curso e para os alunos em particular que, durante o próprio
curso, já produzem, como reflexo da consciência que possuem quanto ao
desenvolvimento de suas potencialidades e de seu comprometimento com o
desenvolvimento político, econômico e social.
Nesse passo, destacando-se, de logo, a exigência legal no sentido de que os
planos de ensino, a serem fornecidos aos alunos antes do início do período letivo,
deverão conter, além dos conteúdos e das atividades, a metodologia do processo de
ensino-aprendizagem, os critérios de avaliação a que serão submetidos e a bibliografia
básica.

• Trabalho de Curso

É necessário que o Projeto Pedagógico do Curso de Direito contenha o


trabalho de Curso como componente curricular obrigatório, ensejado ao aluno a
oportunidade de revelar a sua apropriação, ao longo do curso, do domínio da linguagem
cientifica na ciência do direito, com a indispensável precisão terminológica da referida
ciência.
Desta maneira, o trabalho de curso deve ser entendido como um componente
curricular obrigatório da Instituição que, poderá desenvolvê-lo em diferentes modalidades,
e em caráter individual, a saber: monografia, projetos de atividades centrada em
determinadas áreas teórica-prática ou de formação profissional do curso, ou ainda
apresentação de trabalho sobre o desempenho do aluno no curso, que reúna e consolide
as experiências em atividades complementar e teórico – práticas.
A IES deverá emitir regulamentação própria aprovada pelo seu respectivo
conselho, contendo, obrigatoriamente, critérios, procedimentos e mecanismos de
avaliação, além das diretrizes técnicas relacionadas com a sua elaboração.

II – VOTO DO RELATOR

Voto favoravelmente à aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais para


o curso de Graduação em Direito, na forma deste Parecer e do Projeto de Resolução em
anexo, do qual é parte integrante.

Brasília-DF, em 8 de junho de 2004.

Conselheiro Edson de Oliveira Nunes


45
III – DECISÃO DA CÂMARA

A Câmara de Educação Superior aprova por unanimidade o voto do Relator.


Sala das Sessões, em 8 de julho de 2004.
Conselheiro Edson de Oliveira Nunes – Presidente
Conselheiro Antonio Carlos Caruso Ronca – Vice-Presidente

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO
CÂMARA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR

RESOLUÇÃO Nº 9, DE 29 DE SETEMBRO DE 2004

Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso


de Graduação em Direito e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA CÂMARA DE EDUCÇÃO SUPERIOR DO CONSELHO


NACIONAL DE EDUCAÇÃO, no uso de suas atribuições legais, com fundamento no art.
9º §2º, alínea “c”, da Lei n.º 4,024, de 20 de dezembro de 1961, com a redação dada pela
Lei n.º 9.131, de 25 de novembro de 1995, tendo em vista as diretrizes e os princípios
fixados pelo Pareceres CES/CNE n.ºs 776/97, 583/2001, e 100/2002, e as Diretrizes
Curriculares Nacionais elaboradas pela Comissão de Especialista de Ensino de Direito,
proposta ao CNE pela SESu/MEC, considerando o que consta do Parecer CES/CNE
55/2004, aprovado na sessão de 18/02/2004, reconsiderado pelo Parecer CNE/CES 211,
aprovado em 08/07/2004, homologado pelo Senhor Ministro de Estado da Educação em
23 de setembro de 2004, resolve:

Art. 1º A presente Resolução institui as Diretrizes Curriculares do Curso de


Graduação em Direito, Bacharelado, a serem observadas pelas Instituições de Educação
Superior em sua organização curricular.
Art. 2º A organização do Curso de Graduação em Direito, observadas as
Diretrizes Curriculares Nacionais se expressa através do seu projeto pedagógico,
abrangendo o perfil do formando, as competências e habilidades, os conteúdos
curriculares, o estágio curricular supervisionado, as atividades complementares, o sistema
de avaliação, o trabalho de curso como componente curricular obrigatório do curso, o
regime acadêmico de oferta, a duração do curso, sem prejuízo de outros aspectos que
tornem consistente o referido projeto pedagógico.
§1º - O Projeto Pedagógico do curso, além da clara concepção do curso de
Direito, com suas peculiaridades, seu currículo pleno e sua operacionalização, abrangerá,
sem prejuízo de outros, os seguintes elementos estruturais:

I – concepção e objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às


suas inserções institucional, política, geográfica e social;
II – condições objetivas de oferta e a vocação do curso;
III – cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso;
IV – formas de realização da interdisciplinaridade;
V – modos de integração entre teoria e prática;
VI – formas de avaliação do ensino e da aprendizagem;
VII – modos da integração entre graduação e pós-graduação, quando houver;
VIII – incentivo à pesquisa e à extensão, como necessário prolongamento da
atividade de ensino e como instrumento para a iniciação científica;
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IX – concepção e composição das atividades de estágio curricular
supervisionado, suas diferentes formas e condições de realização, bem como a forma de
implantação e a estrutura do Núcleo de Prática Jurídica;
X – concepção e composição das atividades complementares; e,
XI – inclusão obrigatória do Trabalho de Curso.
§ 2º Com base no princípio de educação continuada, as IES poderão incluir no
Projeto Pedagógico do curso, oferta de cursos de pós-graduação lato sensu, nas
respectivas modalidades, de acordo com as efetivas demandas do desempenho
profissional.
Art. 3º O curso de graduação em Direito deverá assegurar, no perfil do
graduando, sólida formação geral, humanística e axiologia, capacidade de análise,
domínio de conceitos e da terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e
valorização dos fenômenos jurídicos e sociais, aliada a uma postura reflexiva e de visão
crítica que fomente a capacidade e a aptidão para a aprendizagem autônoma e dinâmica,
indispensável ao exercício da Ciência do Direito, da prestação da justiça e do
desenvolvimento da cidadania.
Art. 4º O curso de graduação em Direito deverá possibilitar a formação
profissional que revele, pelo menos, as seguintes habilidades e competências:
I – leitura, compreensão e elaboração de textos, atos e documentos jurídicos
ou normativos, com a devida utilização das normas técnico-jurídicas;
II – interpretação e aplicação do Direito;
III – pesquisa e utilização da legislação, da jurisprudência, da doutrina e de
outras fontes do Direito;
IV – adequada atuação técnico-jurídica, em diferentes instâncias,
administrativas ou judiciais, com a devida utilização de processos, atos e procedimentos;
V – correta utilização da terminologia jurídica ou da Ciência do Direito;
VI – utilização de raciocínio jurídico, de argumentação, de persuasão e de
reflexão crítica;
VII – julgamento e tomada de decisões; e,
VIII – domínio de tecnologias e métodos para permanente compreensão e
aplicação do Direito.
Art. 5º O curso de graduação em Direito deverá contemplar, em seu Projeto
Pedagógico e em sua Organização Curricular, conteúdos e atividades que atendam aos
seguintes eixos interligados de formação:
I – Eixo de Formação Fundamental, tem por objetivo integrar o estudante no
campo, estabelecendo as relações do Direito com outras áreas do saber, abrangendo
dentre outros estudos que envolvam conteúdos essenciais sobre Antropologia, Ciência
Política, Economia, Ética, Filosofia, História, Psicologia e Sociologia.
II – Eixo de Formação Profissional, abrangendo, além do enfoque dogmático, o
conhecimento e a aplicação, observadas as peculiaridades dos diversos ramos do Direito,
de qualquer natureza, estudados sistematicamente e contextualizados segundo a
evolução da Ciência do Direito e sua aplicação às mudanças sociais, econômicas,
políticas e culturais do Brasil e suas relações internacionais, incluindo-se
necessariamente, dentre outros condizentes com o projeto pedagógico, conteúdos
essenciais sobre Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito
Penal, Direito Civil, Direito Empresarial, Direito do Trabalho, Direito Internacional e Direito
Processual; e
III – Eixo de Formação Prática objetiva a integração entre a prática e os
conteúdos teóricos desenvolvidos nos demais Eixos, especialmente nas atividades
relacionadas com o Estágio Curricular Supervisionado, Trabalho de Curso e Atividades
Complementares.
47
Art. 6º A organização curricular do curso de graduação em Direito
estabelecerá expressamente as condições para a sua efetiva conclusão e integralização
curricular de acordo com o regime acadêmico que as Instituições de Educação Superior
adotarem: regime seriado anual; regime seriado semestral; sistema de créditos com
matrícula por disciplina ou por módulos acadêmicos, com a adoção de pré-requisitos,
atendido o disposto nesta Resolução.
Art. 7º O Estágio Supervisionado é componente curricular obrigatório,
indispensável à consolidação dos desempenhos profissionais desejados, inerentes ao
perfil do formando, devendo cada instituição, por seus colegiados próprios, aprovar o
correspondente regulamento, com suas diferentes modalidades de operacionalização.
§ 1º O Estágio de que trata este artigo será realizado na própria instituição,
através do Núcleo de Prática Jurídica, que deverá estar estruturado e operacionalizado de
acordo com regulamentação própria, aprovada pelo conselho competente, podendo, em
parte, contemplar convênios com outras entidades ou instituições e escritórios de
advocacia; em serviço de assistência judiciária implantados na instituição, nos órgãos do
Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública ou ainda em
departamentos jurídicos oficiais, importando, em qualquer caso, na supervisão das
atividades e na elaboração de relatórios que deverão ser encaminhados à Coordenação
de Estágio das IES, para a avaliação pertinente.
§ 2º As atividades de Estágio poderão ser reprogramadas e reorientadas de
acordo com os resultados teórico-práticos gradualmente revelados pelo aluno, na forma
definida na regulamentação do Núcleo de Prática Jurídica, até que se possa considerá-lo
concluído, resguardando, como padrão de qualidade, os domínios indispensáveis ao
exercício das diversas carreiras contempladas pela formação jurídica.
Art. 8º As atividades complementares são componentes curriculares
enriquecedores e complementadores do perfil do formando, possibilitam o
reconhecimento, por avaliação de habilidades, conhecimento e competência do aluno,
inclusive adquirida fora do ambiente acadêmico, incluindo a prática de estudos e
atividades independentes, transversais, opcionais, de interdisciplinaridade, especialmente
nas relações com o mercado do trabalho e com as ações de extensão junto à
comunidade.
Parágrafo único. A realização de atividades complementares não se confunde
com a do Estágio Supervisionado ou com a do trabalho de Curso.
Art. 9º. As Instituições de Educação Superior deverão adotar formas
específicas e alternativas de avaliação, interna e externa, sistemáticas, envolvendo todos
quantos se contenham no processo do curso, centradas em aspectos considerados
fundamentais para a identificação do perfil do formando.
Parágrafo Único. Os planos de ensino, a serem fornecidos aos alunos antes
do início de cada período letivo, deverão conter, além dos conteúdos e das atividades, a
metodologia do processo de ensino-aprendizagem, os critérios de avaliação a que serão
submetidos e a bibliografia básica.
Art. 10. O Trabalho de Curso é componente curricular obrigatório,
desenvolvido individualmente, com conteúdo a ser fixado pelas Instituições de Educação
Superior em Função de seus Projetos Pedagógicos.
Parágrafo Único. As IES deverão emitir regulamentação própria aprovada por
Conselho competente, contendo necessariamente, critérios, procedimentos e
mecanismos de avaliação, além das diretrizes técnicas relacionadas com sua elaboração.
Art. 11. A duração e carga horária dos cursos de graduação serão
estabelecidas em Resolução da Câmara de Educação Superior.
Art. 12. As Diretrizes Curriculares Nacionais desta Resolução deverão ser
implantadas pelas Instituições de Educação Superior, obrigatoriamente, no prazo máximo
de dois anos, aos alunos ingressantes, a partir da publicação desta.
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Parágrafo Único. As IES poderão optar pela aplicação das DCN aos demais
alunos do período ou ano subseqüente à publicação.
Art. 13. Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação, ficando
revogada a Portaria Ministerial nº 1.886, de 30 de dezembro de 1994 e demais
disposições em contrário.
EDSON DE OLIVEIRA NUNES

(Publicação no DOU. nº 189, de 01/10/2004, Seção 1, páginas 17/18)

LEITURA COMPLEMENTAR

PLANO DE TRABALHO
(MONTORO, André Franco. Introdução à ciência do direito. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2005, p. 47).

O direito pode ser encarado sob duas perspectivas diferentes: como elemento de
conservação das estruturas sociais, ou como instrumento de promoção das
transformações da sociedade.
Para os que defendem a função conservadora do direito, a concepção mais
adequada a essa missão é a identificação do direito com a lei, e, por extensão, ao
contrato, como a lei entre as partes. Nesse sentido, é significativa a advertência com que
famoso professor de Paris iniciava seu curso: “Não vim ensinar o direito, vim expor o
Código Civil”.
Mas, principalmente nos países em desenvolvimento, o erro dessa posição é
patente. Fazer do direito uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o
atraso. Identificar o direito com a lei é errar duplamente, porque significa desconhecer seu
verdadeiro fundamento e condená-lo à estagnação.
Para fundamentar a missão renovadora e dinâmica do direito é preciso rever certos
conceitos de base e afirmar, na sua plenitude, o valor fundamental, que dá ao direito seu
sentido e dignidade: a justiça.
Não se trata de um conceito novo, mas permanente, que deve ser afirmado,
estudado e efetivamente aplicado, se quisermos dar ao direito sua destinação verdadeira,
que é a de ordenar a convivência e o desenvolvimento dos povos.
Nos textos clássicos de Aristóteles, Ulpiano, Cícero, S. Tomás e outros, encontramos
formulada a doutrina básica da justiça, mas adaptada a uma realidade profundamente
diferente da atual. Encontram-se aí as sementes para a elaboração ulterior de um
pensamento jurídico-filosófico, que precisa ser desenvolvido e aplicado às novas
condições da sociedade e ao direito moderno.
A esse respeito, dois erros, a nosso ver, precisam ser evitados. Primeiro, a simples
repetição daquele pensamento, como se o mundo não houvesse mudado. Segundo, a
rejeição pura e simples dessa doutrina, como se a mudança das condições sociais
destruísse as exigências fundamentais do respeito à pessoa humana.

GUIA DE ESTUDO

TEMA

A INTRODUÇÃO AO DIREITO NOS CURSOS JURÍDICOS – NATUREZA,


IMPORTÂNCIA, FINALIDADES, ASPECTOS HISTÓRICOS, NORMATIVOS E
PEDAGÓGICOS
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1. Justifique porque a disciplina Introdução ao Direito tem caráter enciclopédico.
2. Justifique porque a disciplina Introdução ao Direito tem caráter propedêutico.
3. Justifique porque a disciplina Introdução ao Direito tem caráter epistemológico.
4. Qual é o escopo fundamental da disciplina Introdução ao Direito?
5. Descreva sinteticamente os argumentos utilizados por Victor Cousin para demonstrar a
importância da Introdução ao Direito.
6. Enumere as finalidades da Introdução ao Direito segundo Miguel Reale.
7. Podemos agrupar o conjunto das disciplinas jurídicas que formam o campo do Direito
em duas grandes classes, originárias do Direito Romano. Descreva-as.
8. Critique esse antigo brocardo latino: “ubi societas, ibi jus”.
9. Por que afirmamos que as disciplinas jurídicas são complementares?
10. Descreva os tipos de unidade.
11. O que se entende por “sentido unitário do fenômeno jurídico?”
12. Como ocorreu sucintamente a história do desenvolvimento da matéria no universo?
13. Quais as principais conseqüências do aparecimento do cérebro para a ciência jurídica?
14. Descreva sucintamente as várias fases que o homem passou em seu processo
evolutivo.
15. Como se processou a evolução da consciência humana, suas formas de interagir e
pensar (inteligência)?
16. O que se entende por Teleologia e por unidade teleológica?
17. Quais os argumentos utilizados por Goffredo Telles Júnior para fazer a apologia da
razão?
18. Quais as conseqüências no campo da Cultura e da Filosofia advindas do conhecimento
do homem sobre o mundo, si próprio e de sua situação dentro do universo?
19. O que são bens culturais soberanos? Como surgiram?
20. Como deve ser a luta atual dos operadores técnicos do Direito?
21. Faça um paralelo entre a Lógica e a Psicologia tendo como referencial o objeto
material e formal.
22. O que se entende por Lógica? Qual a sua natureza?
23. Como podemos dividir a Lógica tendo por base o raciocínio?
24. O que é um silogismo?
25. O que se entende por linguagem?
26. O que é um sinal? Como podem ser classificados?
27. Como podemos classificar a linguagem com base nos sentidos que recebem os sinais?
28. Do que se compõe o aparelho vocal?
29. Como explicar a aprendizagem da linguagem pela resposta condicionada?
30. Descreva as funções básicas da linguagem.
31. Podemos pensar sem linguagem?
32. Como desenvolver a linguagem na criança?
33. Qual a terceira finalidade da Introdução ao Direito segundo Miguel Reale? Por quê?
34. Qual a quarta finalidade da Introdução ao Direito segundo Miguel Reale? Por quê?
35. Qual a quinta finalidade da Introdução ao Direito segundo Miguel Reale? Por quê?
36. Quais as denominações que a atual disciplina Introdução ao Direito recebeu ao longo
tempo?
37. Quando foram criados os cursos jurídicos no Brasil? Onde funcionaram?
38. Qual o nome da disciplina que corresponde à Introdução ao Direito nestes cursos?
39. Quais as denominações que a disciplina introdutória dos cursos jurídicos recebeu ao
longo das reformas de ensino (Reforma Rivadávia Correia, Maximiliano e Francisco
Campos)?
40. Qual a posição de Rui Barbosa quanto à disciplina introdutória dos cursos jurídicos?
Quais as objeções a esta posição?
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41. Como os dispositivos legais (Resolução nº 03/72 do então Conselho Federal de
Educação e Portaria MEC Nº 1886/94) cuidavam desta disciplina?
42. Como a disciplina introdutória dos cursos jurídicos foi tratada no Parecer CNE/CES nº
146/2002 e Resolução anexa?
43. Como a disciplina introdutória dos cursos jurídicos foi tratada no Parecer CNE/CES nº
055/2004 e Resolução anexa?
44. Como a disciplina introdutória dos cursos jurídicos está sendo tratada no Parecer
CNE/CES nº 211/2004 e Resolução CNE/CES nº 9, de 29/9/2004?