Você está na página 1de 4

1

TEXTOS CIENTÍFICOS
SOCIEDADE MINEIRA DE PEDIATRIA

Anorexia e Bulimia: Transtornos alimentares?

Cristiane de Freitas Cunha


Presidente do Comitê de Adolescência da SMP

A clínica da anorexia-bulimia nos instiga a refletir sobre a nossa prática e sobre as


articulações teóricas que a sustentam. Na reinvenção da clínica, na passagem da clínica médica
para a clínica do sujeito, trabalhamos com alguns conceitos:

 O homem como um ser não natural, atravessado pela linguagem.


 O corpo irredutível ao organismo.
 A alimentação como um ato da Cultura.
 O sintoma considerado não como desvio de uma função, mas como índice fundamental da
verdade reprimida do sujeito.
 A anorexia-bulimia como posição do sujeito. Como uma paixão do sujeito. Paixão pelo
objeto-comida, paixão pelo vazio.

Trata-se, de uma medicina baseada em valores, como um contraponto à medicina


baseada em evidências, tal como nos falou Eric Laurent, em uma conferência na Faculdade de
Medicina da UFMG em agosto de 2007. Nessa prática, o médico não faz o papel do delegado.
Como deu uma moça, no Barreiro Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo
água de pia, benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado regional
chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o
hospício de doidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de
sonda. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo, acho foi bom. (Guimarães Rosa).

O médico se interroga. O médico se angustia. Na verdade, isso está na lógica das


coisas, ou seja, da relação que vocês têm com seus pacientes (Lacan). O médico contém seu
furor sanandis. Ele não prescreve comida. Ele suporta um vazio, um desenrolar do tempo do
sujeito. Ele acredita na capacidade de invenção do sujeito. O médico também reinventa o seu
papel de médico, abandonar o registro do poder, da potência, de querer curar a qualquer custo.
Lasegue, no fim do século XIX, já observava que as anoréxicas eram as médicas de si mesmas.
Ai de quem quiser curá-las!
Repetimos com Roberto Assis: não se trata disso, de transtorno alimentar, mas de uma
resposta do sujeito. Os pacientes nos dizem isso. Um aluno da Medicina do Adolescente pediu

Av. João Pinheiro, 161 – Centro – Belo Horizonte – MG CEP 30130-180


Telefone: (31) 3224-0857 smp@smp.org.br www.smp.org.br
2
TEXTOS CIENTÍFICOS
SOCIEDADE MINEIRA DE PEDIATRIA

para uma paciente de dez anos de idade, obesa, que comia biscoitos escondida no banheiro,
que escrevesse sobre seu hábito alimentar; ela voltou com um caderninho, e disse que havia
escrito sobre seus sentimentos... Uma paciente bulímica fala do redemoinho na sua cabeça, não
no estômago.
Mais um conceito que usamos, derivado dos escritos de Massimo Recalcati: a anorexia
e a bulimia são duas faces da mesma moeda. A anorexia é a língua materna, a bulimia é um
dialeto. A anorexia representa o ideal, a bulimia, o fracasso e a busca desse ideal. Na fala de
uma paciente: sou bulímica, mas prefiro ser anoréxica.

O universal e o singular, a rede e a fita

Chamamos de sujeito ao efeito que desloca o indivíduo da espécie, o


particular do universal, o caso da regra. (Miller).

Há critérios para o diagnóstico de anorexia e de bulimia no CID 10 e no DSM IV. Os


critérios destes manuais são pertinentes para o diagnóstico, mas não nos orientam na clínica,
na direção da cura. Qual o uso que fazemos dos manuais? Certamente, as classificações
simplificam o uso dos fármacos.
Mas os pacientes também se aderem às classificações. Eles chegam identificados aos
os diagnósticos dos manuais: sou anoréxico, sou bulímico. Ou nos perguntam o que têm, qual
o nome da angústia. Uma moça chegou ao NIAB pedindo ajuda, havia cortado a fita vermelha
que a identificava como membro de uma comunidade virtual de anoréxicas. Uma paciente foi
levada ao Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia do Hospital das Clínicas da UFMG
(NIAB) como o lugar para os últimos casos.
As classificações têm um caráter provisório e fundam a exceção. Sempre há um resto,
inclassificável. É essa clínica do resto que nos interessa, do singular, do sujeito.

A direção da cura

Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em
que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a
idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o
remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos
saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem,

Av. João Pinheiro, 161 – Centro – Belo Horizonte – MG CEP 30130-180


Telefone: (31) 3224-0857 smp@smp.org.br www.smp.org.br
3
TEXTOS CIENTÍFICOS
SOCIEDADE MINEIRA DE PEDIATRIA

creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem
complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum
poder, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível. (Barthes).
Trabalhamos na prática da medicina clínica, uma prática de resistência. Trata-se de
ouvir a história da moléstia atual, o que molesta o sujeito, o sofrimento, a angústia. Tratar o
doente, não a doença.
Nas primeiras entrevistas, nos perguntamos se há efetivamente um fenômeno
anoréxico-bulímico. Muitos pacientes tristes, sem fome, são encaminhados ao NIAB. E
quando esse fenômeno está presente, o que no sujeito está velado por ele?
Tentamos saber sobre o desencadeamento do quadro. Às vezes, o início dos sintomas
alimentares coincide com o despertar da adolescência. Os acontecimentos de corpo, que
marcam a puberdade, e acontecem à revelia do sujeito. Fala de uma paciente: Eu sou perfeita,
meu único defeito é a menstruação, que escapa do controle. A possibilidade do encontro
amoroso. Mais uma fala, de uma paciente anoréxica, discorrendo sobre sua admiração por
Joana d’Arc: Ela lutou contra a puberdade!
Há uma demanda de tratamento? Há uma urgência clínica ou psíquica? Na direção da
cura, temos que saber qual é o estatuto do Outro para esse sujeito.
Na neurose, a recusa anoréxica pode servir para salvar o desejo. Uma paciente que não
quer do Outro a comida, o que o Outro tem. Quer o amor, a dádiva do que não se tem.
Mas a anorexia e a bulimia também podem ser um tratamento, uma tentativa de
estabilização na clínica da psicose. Há um rechaço do Outro e o aniquilamento do desejo, do
sujeito. O fenômeno anoréxico-bulímico pode representar a eclipse do sujeito. A fala de uma
paciente bulímica: Quando como, saio fora de mim. Podemos pensar que o obeso não mente
quando diz: Eu não como nada. E se pergunta: Por que eu engordo? A contenção do nosso
furor curandis pode evitar a precipitação de uma psicose.
Um outro cuidado. Muitas vezes, vemos que o desencadeamento do quadro anoréxico-
bulímico coincide com o imperativo do médico diante do obeso: Fecha a boca! Qual a posição
do sujeito obeso? Que uso ele faz da sua obesidade? Isto só saberemos se ele abrir a boca.
Comemos com o Outro. O Discurso da Cozinha é uma invenção humana, um adorno do vazio.
O que escapa à linguagem é um resto.
Podemos saber tudo sobre anorexia e bulimia, mas nada sabemos sobre o paciente
diante de nós. A vida não é entendível. (Guimarães Rosa).

Av. João Pinheiro, 161 – Centro – Belo Horizonte – MG CEP 30130-180


Telefone: (31) 3224-0857 smp@smp.org.br www.smp.org.br
4
TEXTOS CIENTÍFICOS
SOCIEDADE MINEIRA DE PEDIATRIA

Referências bibliográficas
1- ROSA, J.G. Grande Sertão: Veredas. Riode Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
2- BARTHES, R. Aula. São Paulo: Cultrix, 1978.
3- LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005.
4- MILLER, J.A. El Ruiseñor de Lacan. In: MILLER J.A. (ed.), Del Edipo a la Sexuación.
Buenos Aires: Paidós, 2005: 245-265
5- RECALCATI, M. La última cena: anorexia y bulimia. Buenos Aires: Ediciones del
Cifrado, 2004.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA PARA CITAÇÃO:


Cunha CF. Anorexia e Bulimia: Transtornos alimentares? Textos científicos Sociedade Mineira de Pediatria.
www.smp.org.br. Publicado na Internet em 19/04/2008

Av. João Pinheiro, 161 – Centro – Belo Horizonte – MG CEP 30130-180


Telefone: (31) 3224-0857 smp@smp.org.br www.smp.org.br