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Literatura Pernambucana – 2011.

SONETOS DE ARIANO SUASSUNA1

1. SONETO DE BABILÔNIA E SERTÃO 3. O MUNDO - O Reino da Acauhan


Com tema de Tupan-Sete Com tema de Abaeté Medeiros

Aqui, o Corvo azul da Suspeição Neste Riacho, em sua beira Estranha,


apodrece nas frutas violetas, na Areia fulva, à margem pedregosa,
e a Febre-escusa, a Rosa-da-infecção, coa-se a luz do Inferno, a Luz verdosa
canta aos Tigres de verde e malhas-pretas. e brilha o dorso Azul desta Piranha.

Lá, no pêlo de cobre do Alazão, Estará morta. A água inda lhe banha
o Bilro-de-ouro fia a Lã-vermelha. as entranhas, a Escama sulfurosa:
Um Pio-de-metal é o Gavião Conchas castanhas cercam-lhe a mucosa
e são mansas as Cabras e as Ovelhas. e a Noite, nessa luz, desce e se estanha.

Aqui, o lodo mancha o Gato-Pardo: Em torno, este Sertão, cavalo macho!


a Lua esverdeada sai do Mangue Que segredo me diz este Riacho?
e apodrece, no Medo, o Desbarato. Que as águas cor de chumbo vão ao Mar?

Lá, é fogo e limalha a Estrela-esparsa: De onde vem essa Luz? O Inferno pinga!
o Sol-da-morte luz no sol do Sangue, Não há lua que vença esta Catinga
mas cresce a Solidão e sonha a Garça. e, morto o Sol, a terra vai sonhar!

2. NASCIMENTO - A Viagem 4. O REINO - A morte


Com tema de Fernando Pessoa Com tema de Janice Japiassu

Meu sangue, do pragal das Altas Beiras, Aqui morava um Rei, quando eu menino:
boiou no Mar vermelhas Caravelas: vestia ouro e Castanho no gibão.
À Nau Catarineta e à Barca Bela Pedra da Sorte sobre o meu Destino,
late o Potro castanho de asas Negras. pulsava, junto ao meu, seu Coração.

E aportou, Rosas de ouro, azul Chaveira, Para mim, seu cantar era divino,
Onça-malhada a violar Cadelas, quando, ao som da Viola e do bordão,
depôs sextantes, Astrolábios, velas, cantava, com voz rouca, o Desatino,
no planalto da Pedra sertaneja. o sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Hoje, jogral Cigano e tresmalhado, Mas mataram meu Pai. Desde esse dia
vaqueiro de seu Couro cravejado, eu me vi como cego sem meu Guia,
com Medalhas de prata a faiscar, que se foi para o Sol, transfigurado.

bebendo o Sol de fogo e o Mundo oco, Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
meu coração é um almirante louco ele a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
que abandonou a profissão do Mar. Espada de ouro em Pasto ensangüentado.

1
A seqüência numérica é a mesma do CD A poesia
viva de Ariano Suassuna, com música de Antônio
Madureira, gravado pela Ancestral com apoio do
SESC. Comparando-se ao livro
ILUMINOGRAVURAS, há pequenas divergências
quanto a termos/expressões dos poemas.

A Poesia Viva de Ariano Suassuna 1


Vida-Nova Brasileira - Sonetos com Mote Alheio
Literatura Pernambucana – 2011.1

5. A VIDA - A Estrada 7. O AMOR E O DESEJO


Com tema de Augusto dos Anjos Com tema de Augusto dos Anjos

No relógio do Céu, o Sol-ponteiro Eis afinal a Rosa, a encruzilhada


sangra a Cabra no estranho sol chumboso. onde moras, ó Ruiva, ó meu desejo!
A Pedra lasca o Mundo sem repouso, Emerges a meu sangue malfazejo,
a chama da Espingarda fere o Aceiro. onça do Sonho, Fronte coroada!

No carrascal do Céu, azul braseiro, Ao garço olhar, à vista entrecerrada,


refulge o Girassol rubro e fogoso. um sorriso esboçado mas sem pejo.
Como morrer na sombra do meu Pouso? Teu pescoço é um cisne sertanejo,
Como enfrentar as flechas desse Arqueiro? teus peitos são estrelas desplumadas.

Lá fora, o incêndio: o roxo lampadário Em baixo, a Dália ruiva, aberta ao dardo;


das Macambiras rubras e auri-pardas a Fonte, a rosa, a púrpura, a Coroa!
vai arcanjos e Tronos requeimando. e brilha, ao fogo desta chama parda,

Queima o vento, o Sertão incendiário! a Coroa-de-frade, a Rosa-Cardo,


Andam Monstros sóbrios pela Estrada abandonada às Onças, às leoas,
e, pela Estrada, entre esses Monstros, ando! e ao Cio escuso das Panteras magras.

6. A MULHER E O REINO 8. O MUNDO DO SERTÃO


Soneto decassilábico com estrambote Com tema do nosso armorial
alexandrino
Com tema do Barroco brasileiro Diante de mim, as malhas amarelas
do Mundo, onça castanha e desmedida.
Ó Romã do pomar, Relva esmeralda, No campo rubro, a Asna azul da vida:
olhos de Ouro e de azul, minha Alazã! à cruz de Azul, o Mal se desmantela.
Ária em forma de Sol, fruto de prata
Meu chão e meu anel , o Sol da manhã! Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal partidas.
Ó meu sono, meu sangue, Dom, coragem, E a Marca negra, esquerda, inesquecida,
água das pedras, Rosa e belveder! corta a Prata das folhas e fivelas.
Meu candieiro aceso da Miragem,
meu mito e meu poder - minha Mulher! E enquanto o Fogo clama, à Pedra rija,
que até o fim serei desnorteado,
Dizem que tudo passa e o Tempo duro que até no Pardo o cego desespera,
tudo esfarela: o Sangue há de morrer!
Mas quando a luz me diz que esse Ouro puro o Cavalo castanho, na cornija,
tenta alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
se acaba por finar e corromper, ladrando entre as Esfinges e a Pantera.
meu Sangue brada contra a Maldição
que há de pulsar Amor na escuridão!

– pulsar o seu Amor até na Escuridão!

A Poesia Viva de Ariano Suassuna 2


Vida-Nova Brasileira - Sonetos com Mote Alheio
Literatura Pernambucana – 2011.1

9. À ONÇA DO SOL E À ONÇA DO MUNDO 15. LÁPIDE


Com tema de Augusto dos Anjos Com tema de Virgílio, o Latino,
e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo
10. O SONO E O MITO
Com tema de Abaeté Medeiros Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
11. A LEOA - O Amor e o Tempo fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
Com tema de Augusto dos Anjos com a Espora de ouro, até matá-lo.

12. O CAMPO Um dos meus filhos deve cavalgá-lo


Com tema do Barroco brasileiro numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
13. O AMOR E A MORTE chapas de Cobre, sinos e badalos.
Com tema de Augusto dos Anjos
Assim, com o Raio e o cobre percutido,
Sobre essa estrada ilumineira e parda tropel de cascos, sangue do Castanho,
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra. talvez se finja o som de Ouro fundido
Tua nudez na minha se desdobra
- ó Corça branca, ó ruiva Leoparda. que, em vão - Sangue insensato e vagabundo -
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
O Anjo sopra a corneta e se retarda: à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da Javarda.
16. A MORTE - O Sol de Deus
Vê: um dia, a bigorna desses Paços Com tema de Renato Carneiro Campos
cortará no martelo o som dos aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos. Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
E a Morte, em trajos pretos e amarelos, Saberei porque a teia do Destino
brandirá, contra nós, doidos Cutelos não houve quem cortasse ou desatasse.
e as Asas rubras dos Dragões antigos.
Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
14. A MOÇA CAETANA - A Morte Sertaneja Verei feita em topázio a luz da Tarde,
Com tema de Deborah Brennand pedra do Sono e cetro do Assassino.

Eu vi a Morte, a moça Caetana, Ela virá, Mulher, aflando as asas,


com o manto negro, rubro e amarelo. com os dentes de cristal, feitos de brasas,
Vi o inocente olhar, puro e perverso, e há de sagrar-me a vista o Gavião.
e os dentes de Coral da desumana.
Mas sei, também, que só assim verei
Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel, a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
os peitos fascinantes e esquisitos. assentado em seu trono do Sertão.
Na mão direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.
REFERÊNCIAS
Na fronte, uma coroa e o Gavião.
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes SUASSUNA, Ariano. Iluminogravuras.
que, ruflando nas pedras do Sertão, SESC/Pernambuco, agosto/2000.
SUASSUNA, Ariano. A Poesia Viva de
pairavam sobre Urtigas causticantes, Ariano Suassuna. SESC/Recife: Ancestral,
caules de prata, espinhos estrelados s/d, 1 CD. Acompanha livreto com 16 sonetos.
e os cachos do meu Sangue iluminado.

A Poesia Viva de Ariano Suassuna 3


Vida-Nova Brasileira - Sonetos com Mote Alheio