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A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA na educação

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A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIA: CONTRIBUTOS PARA UMA REORIENTAÇÃO EPISTEMOLÓGICA

João Praia
1

António Cachapuz
2

Daniel Gil-Pérez
3

Resumo: O presente artigo desenvolve-se em torno do estatuto epistemológico da hipótese e da experimentação, numa perspectiva de transposição para o campo da Educação em Ciência. Não se trata de olhar aquela vertente pela estrita óptica dos epistemólogos, mas centrar a nossa atenção na busca e apropriação crítica de elementos fundamentadores de uma teorização para a Educação em Ciência, por sua vez também necessária para orientar práticas educacionais. Unitermos: epistemologia, hipótese, experiência científica, educação em ciência. Abstract: In this paper we study the epistemological status of hypotheses and experimentation, not for the sake of epistemology but in order to better orient science teachers education and theirs teaching. Keywords: epistemology, hypothesis, experimentation, science education.

Introdução
Este trabalho situa-se no quadro de um conjunto de três artigos articulados entre si, a serem publicados na revista Educação & Ciência, e têm em vista discutir problemáticas ligadas à epistemologia do trabalho científico. O primeiro "Por uma imagem não deformada do trabalho científico", foi já editado e desenvolveu-se em torno de uma crítica fundamentada às concepções, mais habituais, dos professores sobre tal trabalho, apresentando uma extensa bibliografia capaz de ajudar a melhorar e organizar a sua formação. O segundo encontra-se no prelo e refere-se à observação e à teoria científicas, bem como à sua complexa relação, sendo aí focadas incidências para uma adequada atuação do professor em nível das estratégias de ensino. O presente artigo, o terceiro, é uma tentativa de resposta às questões e às dificuldades encontradas nas práticas letivas, devido a posições epistemológica marcadamente positivistas, no que diz respeito ao estatuto da hipótese e da experimentação. Na unidade enunciada nos três artigos, o que se procura é contribuir para uma viragem na Educação em Ciência mais congruente com posições epistemológicas contemporâneas.

A hipótese em ciência
Numa perspectiva de pendor empirista a hipótese tem um papel apagado e inserese num processo de verificação em que o exame exaustivo dos fatos é determinante para a sua elaboração. No entanto, na perspectiva racionalista contemporânea, que aqui interessa salientar, a hipótese intervem ativamente, desempenhando um importante papel na construção do conhecimento científico. 253
Ciência & Educação, v. 8, n. 2, p. 253-262, 2002
1

Professor Associado, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, Portugal (e-mail: jfpraia@fc.up.pt)
2

Professor Catedrático, Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa, Universidade de Aveiro, Portugal (e-mail: cachapuz@dte.ua.pt)
3

Professor Catedrático, Departamento de Didáctica de lãs Ciências Experimenales, Universidade de Valencia, Espanha. (e-mail: Daniel.gil@uv.es)

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Ainda que nos interesse aqui discutir mais o contexto da prova e menos o da descoberta, ou o modo como são geradas, o que se pode aventar é que se trata de um processo complexo que pode ter origem na imaginação fértil, inspiradora, porventura em idéias especulativas, às qual subjaz um fundo reflexivo. A Enciclopédia Einaudi (1992) diz-nos que "aquilo que hoje em dia, no discurso científico classificamos de hipótese, apenas pode ser considerado como uma paragem provisória do pensamento, seja por conjecturar um facto descrito de modo a ser susceptível de ser estabelecido ou refutado no quadro dos termos que o definem, seja por propor um conceito que justifique provisoriamente a sua coerência e eficácia no raciocínio explicativo dos fenômenos observados ou provocados". Entretanto, para nós, o que está em causa é, neste momento, a questão da prática científica e de que forma é que ela nos ajuda e dá ensinamentos para o ensino das ciências. Assim, a prática científica pode ser vista como um processo composto de três fases: a criação, validação e incorporação de conhecimentos, que correspondem à geração de hipóteses, aos tes-

tes a que a hipótese(s) é sujeita e ao processo social de aceitação e registro do conhecimento científico (Hodson 1988). Contudo, parece importante fazer a distinção clara entre estas fases no trabalho científico em educação em ciência, pois pode ajudar os alunos a clarificar o propósito e o sentido da própria atividade reflexiva que estão a levar a cabo. Torna-se desejável que haja clarificação entre as duas situações – a criação da hipótese científica e a sua validação – para que possam compreender a complexidade daquela atividade, saber os caminhos que ela envolve e, neste caso, compreender a questão da validade dos testes de confirmação negativa ou de confirmação positiva a que a(s) hipótese(s) está (estão) sujeita(s). A hipótese tem um papel de articulação e de diálogo entre as teorias, as observações e as experimentações, servindo de guia à própria investigação. Condiciona fortemente os dados a obter num percurso descontínuo, ainda que balizado por um fundo teórico que lhe dá plausibilidade, intervindo ativamente nas explicações posteriores dos resultados. Uma vez formulada a hipótese torna-se necessário, em seguida, a sua confirmação. Duas vias são possíveis. A confirmação positiva e a negativa. No entanto, há que ter presente que o processo de confirmação positiva nada nos diz sobre a verdade da hipótese, já que esta pode ser falsa mas confirmada. Porém, uma sistemática e persistente confirmação positiva pode ajudar a tornar o trabalho científico mais apoiado e fazer progredir o programa de investigação a ele associado. Numa perspectiva do tipo popperiana, como nos refere Maskill & Wallis (1982) tenta-se, através do método hipotético-dedutivo, "aproximar" a ciência dos cientistas da ciência praticada na sala de aula. Assim: a) o problema é percebido e compreendido como uma descontinuidade em relação a uma teoria explicativa; b) propõe-se, então, uma outra possível solução que é uma hipótese; c) e deduzem-se proposições testáveis a partir da hipótese enunciada; d) que, através de experiências e observações, cuidadosamente seguidas, conduzem a tentativas de falsificação; e) cuja escolha criteriosa se faz a partir da sua relação, em diálogo, com as teorias. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 254

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Trata-se de uma perspectiva que exige dos alunos grande capacidade criativa, assim como um bom fundo teórico e espírito crítico. Se é certo que o professor tem que providenciar essa excelente formação teórica, incitar a diferença e o pensamento divergente, para levar a descobrir o que não é esperado, não é menos certo que a exigência conceptual a par de processos científicos de elevada complexidade tornam as situações de aula algo difícil. Para se mobilizar tais competências, capacidades e atitudes com eficiência, torna-se necessário conhecer bem o contexto em que se opera e, neste sentido, o domínio dos conteúdos científicos é um requisito fulcral para que tal possa acontecer. As pessoas pensam e lidam de forma mais eficiente nos e com os problemas cujo contexto e conteúdo conhecem melhor, lhes são particularmente familiares. O conhecimento científico é um constante jogo de hipóteses e expectativas lógicas, um constante vaivém entre o que pode ser e o que "é", uma permanente discussão e argumentação/contrargumentação entre a teoria e as observações e as experimentações realizadas. No âmbito desta perspectiva Bady (1979) realizou um estudo sobre a compreensão dos alunos acerca da "lógica da testagem de hipóteses", em diversas escolas com alunos de diferentes anos de escolaridade. O autor verificou que poucos alunos pareceram entender a lógica dos testes da hipótese e que menos da metade dos alunos de escolas superiores conseguiram entender que as hipóteses podem ser testadas por tentativas de falsificação. Uma conclusão do estudo, talvez a mais importante, aponta para que "os alunos que acreditam que as hipóteses podem ser testadas e provadas por verificação, parecem ter uma visão simplista e ingenuamente absoluta da natureza das hipóteses científicas e da teoria. De fato, uma pessoa que não perceba que as hipóteses científicas não podem ser logicamente provadas, mas apenas desaprovadas, não percebe verdadeiramente a natureza da ciência". A irrefutabilidade deixa de ser um sinal, como tantas vezes é percebido pelos professores, de superioridade e, segundo esta perspectiva, reside aqui o carácter dinâmico, a possibilidade do conhecimento científico se desenvolver. Um outro elemento que será necessário introduzir na discussão será o da luta "con-

por sua vez.. Está em causa. os fazer variar e. intencional e sistemática. Em todo o caso.. tem vida própria" (Haching 1992).. Este processo tem de ser partilhado pelos pares. eventualmente. a ciência requer a obtenção de dados com significado. precedida e integrada num projeto que a orienta. indica porque é que as descrições dos dados observáveis são. tentam reduzir a experimentação a uma manipulação de variáveis. Porém. no mundo natural esses fenômenos justapõem-se de maneira complexa. estando atento aos obstáculos que se colocam à aprendizagem. Isto exige-lhe um esforço do ponto de vista conceptual. a pensar sobre o porquê delas. antes de tudo. também a evidência factual. 2002 Page 4 A experiência científica Na prática científica moderna. a sujeito ativo na construção do seu próprio saber – de conhecimento. como prova física. para em seguida olhar melhor as suas implicações no trabalho escolar. em conjunto. como simples manipulação de variáveis. considerá-lo como inevitável. incentivar os alunos a consciencializarem as suas dificuldades. O investigador faz. para alguns parâmetros. por eles equacionados. Ora. discuti-lo. que enquanto o empirismo deduz leis de experiências. 8. Da reflexão dos resultados a que ela conduz pode. A assumção de que a educabilidade da inteligência é possível abre amplas perspectivas à elaboração. os empiristas e os indutivistas. é o primeiro meio de estabelecer a credibilidade de uma teoria. De uma forma geral. é porque possui uma hipótese articulada com o fenômeno em estudo.tra a desconfiança progressiva na capacidade intelectual do aluno. uma mudança no papel do aluno. de estratégias metodológicas dirigidas ao desenvolvimento de competências do pensar" (Santos & Praia 1992). ou seja. não ignorando o papel do trabalho cooperativo e da "comunidade científica de alunos" que. uma importância particular. quer conteudal quer processual.. sem perda do rigor intelectual. nesta perspectiva. "A experimentação. que depois de interpretados levam a generalização (indução). advir um outro saber a problematizar. v. Ele deve procurar. de momento. Porém. n. a experiência científica surge-nos. mas sempre guiado por uma hipótese "lógica" que submete à experimentação. A experiência não é uma atividade monolítica.. ironicamente. depois dos resultados obtidos. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 255 Ciência & Educação. deduzindo leis (teorias) a partir dela própria ou da sua sistemática reprodução. em geral. p. Numa perspectiva empirista. Ela é determinante na obtenção de um conjunto de dados. isto é incompatível com a elucidação das leis como regularidades empíricas e. pois. para quem todo o conhecimento vem da experiência. se o investigador supõe. o racionalismo deduz experiências de leis" (Santos & Praia 1992). bem como muitas capacidades. muitos tipos de compreensão. as posições epistemológicas empirista e racionalista. Bachelard acentua. a experimentação exige uma grande e cuidada preparação teórica e técnica. Passamos a rever. sendo o seu propósito testar hipóteses. procuram soluções para os problemas colocados e. a informação epistemológica relevante e necessária ( Chalmers 1989). mas no sentido da retificação dos erros contidos nessas hipóteses. neste contexto. "Já está ultrapassada a idéia da experiência como serva da teoria. que só é superável num ambiente escolar em que o professor caminha. mesmo. Assim. com algum pormenor. Outra idéia que importa refere-se à necessidade de reagir contra a tendência para considerar o erro como evidente. a partir dos quais se elabora o conhecimento científico. produzida pela experiência. em seguida. questionar as suas razões para que nós possamos aproximar da verdade possível. a par das dificuldades do aluno. é necessário. intencionalmente. 253-262. deve ajudá-los e darlhes confiança para que se possam exprimir num clima de liberdade. sim. é freqüentemente suposto que os fenômenos naturais são regidos por leis universais. a experimentação científica não deve funcionar no sentido da confirmação positiva das hipóteses. este passa de receptor sobretudo de conteúdos científicos. Porém. Para Popper. A experiência . consoante a perspectiva é empirista ou racionalista . mas uma atividade que envolve muitas idéias. um inventário empírico de parâmetros susceptíveis de ter influência no fenômeno estudado para. bastante inapropriadas para construir conhecimentos básicos. também. 2. estabelecer uma lei que lhes dê sentido e coerência. sendo a intervenção experimental necessária como meio capaz de fazer ressaltar e trazer ao de cima. O investigador nunca experimenta ao acaso. quase sempre. metodológico e atitudinal (Gil Perez 1993) mais consentâneo com a preconizada metodologia científica atual. não tem de seguir uma estratégia idêntica relativa ao pensar sobre as respostas a dar aos problemas. tende a ser conduzida para o mundo real ou para "mundos possíveis". Contudo.

diálogo nem sempre simples. como tem que ser sempre olhado à luz dos seus quadros interpretativos 4 . a outras hipóteses. problematiza – . Também. mas histórico-culturais. deve traduzir-se em sugestões de propostas de atividades de ensino-aprendizagem. No sentido de assinalarmos incidências da reflexão epistemológica da ciência no trabalho experimental escolar. que comporta uma diversidade de caminhos. Há pois que harmonizar estas duas dimensões". ético-morais. já que. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 256 Page 5 O que mais importa numa perspectiva empirista. se toma em conta a(s) teoria(s). Hodson (1990) considera que o trabalho experimental tal como é conduzido em muitas escolas é de concepção pobre. a experiência surge-nos não problemática. não se analisa e reflete no significado da experiência e tão só no que é previsível que aconteça. políticos. A transposição didática. uma das riquezas heurísticas da experimentação. a submete a um interrogatório. mas carregadas de valores. como tentativa da sua retificação e questionamento – ela interroga. (re)orientam e (re)centram a atividade de pesquisa. n. que procura funcionar. como empreendimento humano que toma opções e tomadas de posição não neutrais.científica fundamenta. Reside aqui. muitos professores acreditam que o trabalho experimental ensina os estudantes sobre o que é a A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 257 Ciência & Educação. Os resultados da experiência surgem como esperados e mesmo óbvios. Os seus resultados são lidos como elementos (possíveis) de construção de modelos interpretativos do mundo e não cópias (e muito menos fiéis) do real. também. todo o conhecimento e só no final da(s) experiência(s) se faz questão. pelo que as estratégias a adotar têm que ter legitimidade quer filosófica quer pedagógica. conduzindo. a teoria tem um papel primordial na avaliação dos resultados obtidos. ela afigura-se-nos como uma alternativa útil aos . de respostas não definitivas. o confronto entre o teórico (o idealizado) e a prática (o realizado) se interligam. Cachapuz (1992) diz-nos que "uma sala de aula não é um laboratório de investigação. 253-262. Para ele.. A experiência científica é orientada e mesmo valorizada pelo enquadramento teórico do sujeito. mas de reflexão sistemático. É a experiência que põe à prova a teoria e não o inverso. ou seja. também aqui. dados estes dotados de exterioridade. p.. a experiência científica deve ser guiada por uma hipótese. ao sujeitarmos a experiência científica a uma tentativa de questionamento estamos convidando os alunos a desenvolveremse cognitivamente. 8. para paradoxalmente a confirmar. que em diálogo com ela. entendemos que numa situação de testagem. Muitas vezes a constatação dos resultados experimentais levam a ignorar-se a hipótese que funciona como suposição transitória de valor epistemológico duvidoso. não relevando os aspectos mais complexos e difíceis da pesquisa. em muitos casos na atualidade. olhada pelo lado didático.. A experiência científica valoriza. enquanto programa de investigação progressivo. quase só a confirmação positiva do já previsto e obtido a partir dos dados observacionais. religiosos . de criatividade e mesmo de invenção. muitas vezes. um papel primordial que importa não esquecer. ou seja. v. em que o resultado não só não está de antemão conseguido. Numa perspectiva racionalista. 2. são os resultados finais independentemente dos processos da sua obtenção. num confronto de idéias com os seus pares. Por outro lado. Trata-se de um diálogo entre hipóteses/teorias e a própria experimentação. a experiência é tida como algo separado da hipótese e não influencia os resultados daquela. pois. sobretudo. confuso e não produtivo. ajustando-se ao contexto e à própria situação investigativa. que condicionam e. Ela como que está separada da própria teoria. A comunidade científica tem. Como poderíamos afirmar que a experimentação científica encerra múltiplos fatores não apenas tecnológicos. nem as condições teóricas e técnicas da sua produção. A experiência enquadra-se num método pouco estruturado. A experiência enquadra-se num processo não de saber-fazer. pensamos. Se a hipótese intervém ativamente nas explicações que os resultados da experiência sugerem. realizada com cautela para não cairmos em simplismos fáceis. 2002 4 Apesar da perspectiva epistemológica subjacente à questão da experimentação ser algo marcado por uma visão popperiana. muitas vezes. que valorizem o papel do aluno no sentido primeiro de o confrontar com as suas situações de erro para posteriormente as vir a retificar. Do ponto de vista didático. a questiona. em ambiente escolar. como construção e produção social do conhecimento científico.

Esta visão distorcida baseia-se em pressupostos epistemológicos.. Numa outra linha de pensamento. tecnológicos e culturais da construção e produção científica. deixam-se algumas notas sobre o sentido com que a experimentação deve ser encarada na sala de aula: i) deve ser um meio para explorar as idéias dos alunos e desenvolver a sua compreensão conceptual. . pois. ao seu forte sentido motivador. Numa perspectiva inadequada da experiência científica realizada na sala de aula. a perspectiva popperiana – ver. mas apenas se constata o que era mais do que previsível que acontecesse – a experiência realizou-se para dar determinado resultado já esperado e conhecido de antemão. O autor vai ao ponto de referir que "muito do que se faz está mal concebido e não apresenta qualquer valor educacional. ligada a uma visão heróica do cientista. como algo episódico. sem saber por que e para quê. Muitos dos objetivos que se estabelecem para o trabalho experimental escolar e que os professores quase sempre enunciam referem-se. 1993. No primeiro caso é o professor que identifica o problema. de forte pendor empirista. Têm sido uns entusiastas ao acreditar que o caminho para aprender ciência. Hodson (1992. ii) deve ser sustentado por uma base teórica prévia informadora e orientadora da análise dos resultados. orientado para fomentar a aprendizagem de conceitos e métodos da ciência. 2001. não se analisa e reflete nos resultados. No seguimento desta orientação o trabalho experimental deve ser redefinido. A prática da ciência: desenvolvimento dos conhecimentos técnicos. incluindo a eventual exploração de "experiências cruciais". Estamos. Gil Pérez et al. deixando à margem das suas aulas. entre outros. Entretanto. 2. tendo em atenção novos objetivos do ensino das ciências. quase sempre. psicológicos e didácticos que têm vindo a ser. Quanto ao segundo tipo de trabalho experimental. é uma visão que corresponde a um programa em regressão epistemológica. como volta a perguntar qual o significado do trabalho experimental. progressivamente. mais explicativas para os fenômenos naturais. Page 6 ciência e a sua metodologia. bem como ao desenvolvimento de atitudes científicas tais como a objetividade. tomando consciência das interações complexas entre ciência e sociedade. Aprendizagem das ciências: como a aquisição e o desenvolvimento de conhecimentos teóricos (conteúdos das ciências). iii) deve ser delineada pelos alunos para possibilitar um maior controle sobre a sua própria aprendizagem. que Hodson (1990) não só questiona. a abertura de espírito. a experiência científica escolar toma o sentido do fazer. O trabalho experimental é. Tal não significa que os autores do artigo partilhem. Neste sentido. postos em causa.1994) descreveu como objetivos centrais: CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 258 Page 7 1. interessa sublinhar que em muitas situações de ensino o estudo de casos históricos. éticos. sobre a investigação científica e a resolução de problemas. ou seja. que relaciona o trabalho com outros anteriores. sobretudo no que diz respeito ao aprender ciências na sala de aula de acordo com as perspectivas epistemológicas atuais. entre outros. mantêm o mito de que ele é a solução para os problemas de aprendizagem em ambiente laboratorial. Caso contrário. 3. sobre as suas dificuldades e de refletir sobre o porquê delas.professores. de todo. a considerar a ciência numa lógica que está fora da própria história do pensamento as idéias. para as ultrapassar. Tamir (1977) distingue dois tipos de trabalho experimental: os de verificação e os de investigação. ignora. nomeadamente. a ausência de juízos de valor. Para aquele investigador em Educação em Ciência os professores usam o trabalho experimental sem uma adequada reflexão. urge redefinir e reorientar a noção que os professores têm sobre o trabalho prático. os contextos sociais. tipo investigativo. neste caso. que o professor tem de conhecer e não se pode alhear. ou seja. à luz do quadro teórico e das hipóteses enunciadas. Na perspectiva que vimos falando. isto é. a experiência surge. que conduz as demonstrações (fora de um contexto de problematização) e dá instruções diretas – tipo receita. desvalorizando o sentido da própria luta por idéias mais verdadeiras. pois. Aprendizagem sobre a natureza das ciências: o desenvolvimento da natureza e dos métodos da ciência. os seus métodos e processos é "descobrir aprendendo" ou "aprender fazendo".

tem incidências não só em nível lógico como também em nível sociológico. O que nos parece de sublinhar é. A concluir Muito do que acabamos de referir traduz-se em dificuldades e fatores. pode ser usada para uma possível escolha de teorias em competição... susceptíveis de determinar uma atuação cuidadosa do professor. pode ser útil didaticamente. torna-se necessário planificar a aprendizagem a partir do tratamento de situações problemáticas abertas. mas proposto por um grupo de alunos. das comumente chamadas "experiências para ver". as interrogações. como refere Beviá (1994). distingue três elementos principais: o consenso dos pares. a questão da hipótese que a experiência põe à prova: a confirmação positiva ou negativa. sobre as características do trabalho científico. a argumentação e o consenso dos pares constituem elementos de racionalidade científica que importa desenvolver conjuntamente – alunos e professores – partilhando e vivendo dificuldades inerentes à própria prática científica. conjuntamente. de forte pendor racionalista crítico de raiz popperiana. v. ajudar a simular aspectos sociológicos. assim. que atribuam ao estudo e à reflexão um espaço indispensável para compreender as dificuldades e a complexidade que se reveste um tal processo de construção da ciência. O que pode estar em causa é. n. instrumento didático de grande utilidade. o desafio dos dogmas e a combinação única entre a arrogância e a humildade. O desenvolvimento intergrupal e intragrupal.quando está em jogo o conceito de testagem. uma propriedade do conhecimento científico. possibilitando aos alunos a percepção da variedade de processos implicados na atividade científica. as dúvidas. entretanto. Essas atividades. A crítica. as deficiências. 2. Maria de Sousa (1992). investigadora em ciência. o problema da indução está presente em muitas das abordagens que os professores fazem. Deste modo estará criado nos grupos de trabalho um clima propício para fazer emergir. desta forma. na sala de aula. fazem-se apressadas generalizações a partir de uma ou duas experiências. que não seja indicado pelo professor. também por isso. de certo. pode. em particular da experiência científica refere que ele se situa em "uma esfera muito alargada e dinâmica. da discussão argumentativa. a consciência das limitações teóricas. ao falar-nos das características do trabalho científico. nomeadamente através do confronto com os conceitos e teorias aceitas em ciência. No V epistemológico de Gowin. A experimentação. experiências intencionalmente orientadas para levar a resultados não esperados e referência a resultados que vêm da literatura. gerando as vivências que permitem aos alunos refletir. Esta abordagem já não é hoje aceita. quer pela observação neutral. p. O confronto é mais vasto. significativa e com sentido de cidadania. concebendo a ciência como uma simples descoberta. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 259 Ciência & Educação. também de valores e atitudes inerentes ao processo científico escolar. Há que considerar outras possíveis alternativas mais enriquecedoras como sejam contra-exemplos. pois. No seu artigo intitulado Procedimentos experimentais: sobre cozinheiroschefes e cientistas. as incoerências.. 2002 Page 8 Conforme referem Gil Pérez (1993) e Beviá (1994). no quadro de uma sempre prudente analogia com a comunidade científica.. tal exercício escolar permite uma aprendizagem efetiva. nem abalam uma teoria que está a ser discutida. Importa sublinhar que uma ou duas experiências não dão resposta definitiva ao problema. sobretudo. exigindo-lhe uma aprofundada formação . Entretanto. particularmente interessantes. Por outro lado. mesmo à luz de pressupostos epistemológicos de natureza e de sentido inequivocamente positivista. susceptíveis de interessar os alunos a desenvolver um plano experimental coerente. não estando presentes as suas relações com o lado direito (metodológico). como muitos professores pensam. Por outro lado. Em síntese: a relação entre a experimentação e a teoria é bem mais complexa do que muitos professores pensam e é. no sentido de ultrapassarem a aceitação fácil de um empirismo clássico e ingênuo. Importa que os professores compreendam e se consciencializem da importância do elemento cognitivo. a uma aprendizagem capaz de mudar as próprias representações de ciência. entre outras. que raramente ela é equacionada e pensada. a repetibilidade não é. ignorar o papel do sujeito na construção do conhecimento. Trata-se. mantida em movimento pela interação contínua entre conjectura e refutação". Não se pode. neste sentido. é quase sempre considerado apenas o lado esquerdo (conceptual). 253-262. podem ser guiadas pelo docente. levando a generalizações fáceis e demasiado simplistas. a necessária mudança de atitude dos professores. quer pela confirmação experimental escolar positiva. Desta maneira. 8.

CHALMERS. porém. Madrid: Siglo Veintiuno de España. v.. uma formação de professores que se quer "completa".). em causa. 197-212. Referir ainda que a simplicidade com que os problemas e os fenômenos são apresentados (atente-se ao nível etário) obrigam o professor a retomá-los mais adiante e. Sedeño y P. Referências bibliográficas BEVIÁ. o mesmo é dizer que tais tarefas devem ser um desafio. CACHAPUZ. enquanto recursos fundamentais para o exercício de práticas de sala de aula mais consentâneas com o que se preconiza numa perspectiva de ensino por pesquisa (Cachapuz. quer outros. Enseñanza de las Ciencias. Congresso Las Didácticas Específicas en la Formación del Profesorado. Eds. p. Estas devem desenvolver-se na "zona de desenvolvimento próximo". coerentemente. CACHAPUZ. A.). ainda que sejam fatores positivos. Casa da Moeda. A espectacularidade dos fenômenos. In: Formação de Professores de Ciências. chama-se a atenção para a tentação de uma excessiva motivação para experimentar e que o professor. 2001). trads. 2. 1994. A. A transposição didática. Perspectivas de Ensino. D. 1992.científica que não passa unicamente. F. Santiago de Compostela. A. pode desvalorizar razões epistemológicas e didáticas que deviam ser orientadoras e determinantes da ação. 2. Pode mesmo invertê-la e torná-la sociologicamente perversa. v. 349-385.. se venha a transformar em mudança. Só assim seremos capazes de gerar. & JORGE. vídeo. p. sempre que possível. isto é. Contribución de la historia y de la filosofía de las ciencias al desarrollo de un modelo de enseñanza/aprendizaje como investigación. podem não ajudar a potenciar a aprendizagem desejada.. persistentemente. quer através de registros.. ou seja. Uma chamada de atenção para tornar claro que o professor tem de ter cuidados muito particulares com o processo de aprendizagem e. a ligá-los a outros para os articular de forma a que o currículo em espiral seja possível. tentativamente. Didáctica de las Ciencias Experimentales. materiais didáticos. Método-Teoria. por possuir uns tantos conhecimentos adquiridos na formação inicial. Actas. A. A conceptualização. Centro de Estudos de Educação em Ciência. Porto. A. Trata-se. Mañez. Praia & Jorge. Servem pelas interrogações que suscitam e pela busca de explicações mais verdadeiras. 1992. de usar a formação como um processo de pesquisa efetuando investigação com os professores. 1989. F. 1995. J. Por fim. GIL PÉREZ. v. . CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 260 Page 9 em favor de razões de pedagogia geral. desmotivação e de impossibilidade de resolução. crítica y creativa.. aliada à sua apresentação. com um grau de dificuldade susceptível de se constituirem em incentivo e não de fonte de desânimo. J. In: Alambique. introduz na aula de laboratório. L. em particular motivacionais que fazem perder o sentido das primeiras. Dias de Carvalho (Org.. Porto: Porto Editora. nomeadamente. L. 11. que articule epistemologia e didática e que releve conjuntamente teoria e prática. é mais bem conseguida e a compreensão das idéias estruturantes torna-se o fio condutor das propostas de ação didática do professor. n. A. In: Novas Metodologias em Educação. PRAIA. exige uma formação contínua que segue um percurso de desenvolvimento pessoal e profissional exigentes. com as atividades que promove. Ed. nº1. CACHAPUZ. bem intencionadamente. F. Los trabalos prácticos de Ciencias Naturales como actividad reflexiva. ENCICLOPÉDIA EINAUDI. com vista a que tal produção de saberes seja reinvestida na inovação para que esta. 1993. Filosofia da Ciência e Ensino da Química: repensar o papel do trabalho experimental. 21. P. Montero Mesa e Vaz Jeremias. Tomo II. feita de reflexão e consubstanciada na própia ação didática. como uma unidade intrínseca. O Ensino das Ciências para a excelência da aprendizagem. em particular. 1. a que não é alheio o ritmo e o tempo de aprendizagem. 2001. Está. longe disso. As experiências de aprendizagem que o professor promove são meios que devem ser considerados como instrumentos para melhorar a explicação que se dá para os fenômenos e não podem ser consideradas como fins em si mesmas. Lisboa: Imprensa Nacional.). 47-56. Qué es esa cosa llamada ciencia? (E. 357-363. porque argumentativamente mais apoiadas. M. Cachapuz (Org.

256. 73. R.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. 63. J.Casa da Moeda. HODSON.. 253-262.. 2001. In: A Ciência como Cultura. MONTORO. d) não acreditaria. 7-34. 1. teorias e leis 5. Percurso de mudança na Didáctica das Ciências. n. Sevilha: Diada Editoras. c) acreditaria. 224. v.. Filosofia de da Ciência y Educación Científica. Sua fundamentação epistemológica.GIL PÉREZ. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.. Re-thinking old ways: towards a more critical approach to pratical work in School Science. n. D. . J.. 1977. Série Universitária). 33-40. HODSON.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. 12. HACKING. In: Ciência como Cultura. é muito absurdo pra ser verdade. Procedimentos experimentais: sobre cozinheiros-chefes e cientistas. Cañal (Compil. p.Hipóteses. 3. P. SOUSA. Garcia & P. 8. você: a) acreditaria na minha palavra. ALÍS. M. 5-21. p. v. I. n. G. Lisboa: Imprensa Nacional . A. 85. v. p. Por uma imagem não deformada do trabalho científico. How are the laboratories used ? Journal of Research in Science Teaching. I. D. 551-554. 103-118. In: Ensino das Ciências e Formação de Professores. 1994.).O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. D. A. F. 142. 1992. D.). 1992.O peru indutivista 4. n. Refazer o mundo. Enseñanza de las Ciencias. HODSON. 4. & PRAIA. 14. v. F. J. v. v.Redefining and reorienting pratical work in school science. 1992. p. n.Conclusão Introdução Se eu lhe dissesse que o tempo passa mais devagar no primeiro andar de um prédio do que no último. M. J. v. 1990. School Science Review. Hacia un enfoque más crítico del trabajo de laboratorio. Gil (Org. School Science Review. Projecto MUTARE / Universidade de Aveiro. F. TAMIR.. n. p. p. n. Artigo recebido em março de 2002 e selecionado para publicação em novembro de 2002. 1988. HODSON. Ciência & Educação. In: Constructivismo y Enseñanza de las Ciencias. A critical look at pratical work in school Science. SANTOS. 2. 2. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 261 Ciência & Educação. & WALLIS. E. 70. p.Falhas no método científico? 8. CACHAPUZ. Studies in Science Education. 91-102. K. afinal eu devo saber o que digo para estar escrevendo um artigo. 1993. R. School Science Review. 299-313. Scientific thinking in the classroom. v. E. MASKILL. 1992. 7. não há nada na Bíblia sobre isso.Introdução 2. um amigo seu já teve essa sensação antes. D. & PRAIA. n. 22. C. b) não acreditaria. 1982. 311-316. Porlán. 125-153. 264: 65-78. (Estudos Gerais. 2002 Page 10 HODSON. D.

construir reatores nucleares. teorias e leis 5. nas palavras do físico Richard Feynmann. Porque seria diferente com a ciência? Pois por incrível que pareça. os preconceitos. Mas ao longo da partida. Porém ainda que nossa metáfora seja didática.O peru indutivista 4. A Ciência é a esfera da atividade humana responsável por investigar o mundo ao nosso redor. mas sabe que a diferença em questão é tão pequena que só pode ser sentida por relógios de altíssima precisão. ela não é completa.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. que há mais de 2500 anos foram os primeiros a investigar o mundo de maneira racional e sistemática. Nós.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. pois o conhecimento obtido por ela será usado para medicar pessoas.O método científico e as pseudociências ou "O dragão . métodos de investigação precisos que descartem as ilusões dos sentidos. Pois nela o ET assiste passivamente ao desenrolar dos lances na partida e propõe hipóteses que somente tem como verificar esperando que se repitam.Hipóteses. interessado em conhecer nossos costumes. Na tarefa de descobrir a verdade. pensaria ao ver um zagueiro aplicando uma tesoura na altura do pescoço de um outro jogador. ou melhor. Afinal quando seu carro não pega pela manhã e você desconfia que a bateria está descarregada. não tem mais do que 500 anos. achavam que a natureza só poderia ser compreendida pelo uso da razão e do intelecto e por isso desdenhavam a experiência. permanece num estado de stand by crédulo?). e muito intrigado ao ver como alguns jogadores ficam tão sensíveis quando ela se aproxima demais daquelas redes localizadas nas extremidades do campo. pois segundo Shakeaspeare "há mais no céu e na Terra do que sonha nossa vã filosofia"? (ou seja. Os filósofos gregos. Claro que isto pode parecer um tanto óbvio. dentro de sua esfera de atuação. podemos interagir com ela realizando experimentos. assim como você. Certamente no início da partida o ET ficaria bastante confuso. vendo todas aquelas pessoas correndo atrás de uma bola. provavelmente testa sua hipótese tentando acender os faróis ou medindo o potencial da bateria com um multímetro. A ciência precisa de um método científico. O filósofo Parmênides (510 a. a idéia de realizar um experimento para testar uma hipótese é bastante nova. Parmênides concluiu que se tinhamos a impressão de que as coisas se moviam e o tempo passava era somente porque vivíamos num mundo ilusório (uma versão antediluviana do filme Matrix). Mais importante do que a sua resposta à pergunta é a questão que se origina dela: quais os critérios que você usa para decidir no que acredita ou não? Você sempre aceita a palavra das autoridades no assunto? (mesmo daqueles que se auto-intitularam autoridades?) Baseia suas crenças no "bom senso comum"? (e acredita que o seu senso é bom e comum?) Acredita no que a maioria das pessoas acredita (afinal alguns milhões de pessoas não podem estar erradas)? Confia suas crenças a respeito da natureza a livros sagrados de alguma religião? Não acredita em nada mas também não é muito rápido em duvidar. pois você conhece a Teoria da Relatividade de Einstein que diz que o tempo passa mais devagar próximo a campos gravitacionais. "Entender a natureza é como aprender a jogar xadrez somente assistindo a partida". Entendendo o mundo como uma partida de futebol Vamos nos permitir alguma liberdade criativa e imaginar que um alienígena recém chegado à Terra. Neste papel. O peru indutivista 1. manipular geneticamente alimentos e seres humanos. ela se depara o tempo todo com alegações sobre as quais deve decidir se "acredita" ou não. não somos meros expectadores da natureza mas participamos dela. por outro lado. É quase certo que após algum tempo observando a partida e depois de vários palpites errados.) é um exemplo de como os gregos estavam dispostos a levar a lógica e a razão até as últimas consequências: ao negar a existência do tempo e do vazio e portanto do movimento.e) acreditaria. decide ir ao Maracanã assistir a uma partida de futebol. "ou talvez o objetivo seja matar o humanóide que carrega a bola". ele talvez pensasse após assistir um infeliz chute de fora da área.Introdução 2. as crenças pessoais (religiosas ou não). as superstições de todo o tipo. Pois nós somos como este alienígena. Estamos imersos no grande "jogo" da natureza tentando entender suas "regras": será que tudo o que sobe desce? Porque as coisas têm cor? Será que a posição que os corpos celestes ocupavam no instante de nosso nascimento podem afetar nossa personalidade? Em outras palavras. o visitante extraterrestre fosse capaz de compreender a maior parte das regras do nosso futebol. Mas é claro que a responsabilidade da ciência é muito maior do que a sua.C. a ciência precisa de critérios claros. ele provavelmente formularia algumas hipóteses sobre o jogo: "será que o objetivo é enviar a bola o mais distante possível?". a partida é sempre interrompida quando a bola sai dos limites traçados no campo). tentar contactar vida extraterrestre e muitas outras atividades que têm profundo impacto na raça humana. percebendo que alguns lances se repetem e têm sempre o mesmo desfecho (por exemplo.

E quando é provado que uma determinada teoria está errada. mas depois de perceber que esta experiência se repete por um considerável período de tempo. se por meio de algum experimento real ou imaginário for possível provar sua falsidade. Note entretanto que a indução é totalmente apoiada na repetição da experiência e na crença na imutabilidade dos processos naturais. como denominava o filósofo Karl Popper. para o peru indutivista. A partir desta regra geral. Ou nas palavras de Einstein (usadas num contexto ligeiramente diferente): "Deus é sutil mas não maldoso". ela passa a buscar observações que a falsifiquem. Assim.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. Esta forma de raciocínio lógico que extrai uma verdade geral a partir da observação de um grupo particular é chamada de indução. Assim como nosso alienígena visitante não podia ter certeza de que os jogadores no Maracanã não estavam simplemente correndo ao acaso atrás da bola. pode-se estabelecer uma regra geral: "todo ser humano é mortal". tem sido assim desde que o homem é capaz de se lembrar e tem sido assim em todos os lugares do universo aonde o homem já foi capaz de estender sua visão. teorias e leis 5. mil.muito importante .na minha garagem" 7. apenas teorias que ainda não foram derrubadas. estabelecida pela observação do mesmo resultado repetidas vezes.O peru indutivista 4. Infelizmente. ou desta lei natural. o método científico parte do princípio da imutabilidade dos processos da natureza ou "o princípio da uniformidade da natureza". que apresentou o conceito de falsificabilidade. Sobre isso Bertrand Russel nos traz o seguinte exemplo: imagine um peru que recebe sua ração todos os dias do ano. exatamente às 9:00h da manhã. para existir. para tentar compreender o jogo da natureza é preciso acreditar que há regras para serem compreendidas. milhões? Como saberemos se temos um número suficiente de observações e .Falhas no método científico? 8. A hipótese "Deus existe" não é uma hipótese que possa ser julgada pela ciência pois não existe nenhuma experiência imaginável que possa provar que "Deus NÃO existe". o frio esquenta e o quente esfria. este peru finalmente conclui por indução a regra geral: "sou sempre alimentado às 9:00 da manhã!".O método científico e as . Assim..Introdução 2. o objetivo dos cientistas não é defender ostatus quo ou proteger as leis científicas contra contestações. mas não existem teorias comprovadas. Quanto mais uma teoria sobrevive a esta busca.e já que todos os seres humanos são mortais então Fulano é mortal. você já ouviu falar de Einstein. faça chuva ou faça sol. uma limitação. Qual a vantagem disto? Isto leva uma mudança de atitude.. toda vez que encostamos algo quente em algo frio. no dia de Natal a regra não se revela verdadeira.. ou que as regras não mudariam do primeiro para o segundo tempo. Mas alguém que prove que Newton estava errado. Ao observar que todo homem e toda mulher cedo ou tarde morrem.Hipóteses. O método indutivo apresenta.em condições suficientemente variadas para alegar que aquela regra é realmente universal? Este problema foi contornado por Karl Popper. No início o peru é cauteloso. nós também não podemos ter certeza de que a natureza possua uma ordem e que esta ordem seja imutável. não? ipóteses. surge a pergunta: quantas observações são suficientes para justificar a regra? Cem. Mas nada garante à ciência que vá continuar sendo assim amanhã ou que seja assim em algum confim desconhecido do universo. maior a nossa confiança em sua veracidade. porque é nessas situações que a ciência progride. Por outro lado as hipóteses "O tempo passa mais rapidamente nos lugares altos" e "O futuro pode ser previsto pela posição dos astros nos céu" são falsicáveis e portanto estão dentro do escopo da ciência. ao contrário do que muitos pensam.Conclusão Antes de mais nada.. isto é a melhor coisa que pode acontecer. Se estabelecemos uma regra geral a partir de um determinado número de observações. pode-se então deduzir (dedução é a forma de raciocínio que extrai uma verdade particular de uma verdade geral) que se Fulano é um ser humano . teorias e leis 1. Em vez da ciência se basear nas observações que reforçam uma teoria. todos os dias da semana inclusive sábados domingos e feriados. portanto.. Admitindo a existência de uma ordem universal e imutável torna-se possível prever o comportamento da natureza e este é o mais importante passo do método científico no que concerne à experiência física. Temos apenas fortes evidências disto: por exemplo. segundo o qual uma hipótese só é considerada científica se for falsicávelou seja. Seu objetivo é justamente tentar contestar estas leis! Um cientista que tenha realizado cinqüenta milhões de experiências comprovando a teoria de Newton não foi muito útil.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3.

onde por mais simples se entende aquela que usa o menor número de suposições ou que introduzam o menor número de entidades novas na ciência. Afinal quando se faz o menor número de suposições possíveis é menos provável que se descubra mais tarde que uma delas estava errada. ou seja. Não caia nesse truque retórico. Se a hipótese se confirma um grande número de vezes ela deve estar correta. obtidas por um grande número de pesquisadores independentes ela pode ser promovida à lei ou ajudar a compor uma teoria. É curioso que por que as palavras "teoria" e "lei" tem significados tão diferentes no cotidiano as pessoas leigas tendem a achar que as teorias são menos formais ou menos válidas do que as leis. que num ambiente controlado possa quantificar o fenômeno. para a ciência. O que muda é só o escopo e abrangência de cada uma. é um estatuto que explica de forma simples e concisa (por isso geralmente é enunciada de maneira matemática) um fato bem estabelecido pela ciência. este experimento só será considerado válido se puder ser reproduzido por outras pessoas mantendo-se as mesmas condições. e se for possível explicar o mesmo fenômeno e prever os mesmosresultados utilizando hipóteses diferentes? Neste caso a ciência prefere adotar a hipótese mais simples. A partir daí deve-se testar a hipótese. mais importante. Independentemente do resultado. Se a hipótese não se confirma ela deve ser reformulada e novamente testada.pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. com hipóteses amplamente testadas e validadas. conforme você já deve ter percebido. utilizar a hipótese para prever novos fenômenos. não sua validade. Os defensores do criacionismo (aquele movimento que defende que a Terra foi criada por Deus em 6 dias literais) dizem que a Teoria da Evolução é "apenas uma teoria" e como tal não poderia ser ensinada nas escolas. Quando uma hipótese já reúne um número considerável de evidências. Se a hipótese se confirma uma vez ela pode estar correta. utilizar a hipótese para verificar o fenômeno que ela explica e. ou um grupo de fenômenos semelhantes. Uma teoria é tão consistente quanto uma lei. Já a Teoria da Gravitação é muito mais ampla e complexa e faz uso da Lei da Gravidade para explicar os fenômenos relacionados à atração gravitacional.Falhas no método científico? 8. Com base na observação e apoiado pelo pensamento indutivo formula-se uma hipótese que. Voltemos às hipóteses: mas e quando diversas hipóteses servem para explicar o mesmo fenômeno? Ou seja. Por exemplo a Lei da Gravidade é bem curtinha e simples: ela diz que os corpos se atraem com uma força proporcional às massas de cada um e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Algumas das leis da física são a Lei da Gravidade ou as três Leis de Newton que você já aprendeu na escola. Uma Lei da Natureza é o mais longe que podemos chegar com o método científico mas ela não constitui uma verdade definitiva. nada mais é do que uma crença que se desconfia que seja verdadeira. Uma lei. como veremos a seguir. . Este método é chamado de Navalha de Ockham. Já uma teoria é um conjunto de explicações sobre um certo tipo de fenômeno.Conclusão Vimos que o método científico começa com a observação da natureza. Para testar a hipótese será quase sempre necessário umexperimento.

ou seja. enraizada em sua própria definição. é que garante a investigação constante e vigilante do conhecimento humano. nada mais é portanto que um estado de repouso do conhecimento (o que não deixa de ser um pensamento um tanto pessimista). Vejamos um exemplo: você está na cidade de Belo Horizonte e ao passar pela ladeira conhecida por Ladeira do Amendoim percebe um fenômeno interessante: quando seu carro é deixado em repouso nesta ladeira. Veja a Lei da Gravidade por exemplo.puxando o carro para cima. ou seja. Uma lei física é um estatuto do qual temos uma forte sensação que seja verdadeiro e que até o momento não foi contradita por nenhuma experiência humana. Qualquer uma das quatro hipóteses (ou outra que se possa imaginar) poderá ser considerada e deverá ser testada. mas não evidente no momento. etc . se você examinar o fenômeno até o fim chegará a conclusão que a hipótese (4) é a verdadeira.O método científico e a Ladeira do Amendoim O que chamamos de leis da natureza não são leis no sentido usual da palavra. astral. espectral. Se por um lado este estado das coisas assegura aos cientistas que nenhuma verdade estará livre de contestação. como as leis legisladas em nosso mundo. (2) existe alguma força conhecida pela ciência. Bem. já pensando nas manchetes dos jornais. Alguém se equilibra sobre uma corda estendida entre dois arranha-céus e logo se diz que ele está "desafiando a lei da gravidade" (quando na verdade não poderia fazer o que faz se não fosse por ela). Uma lei física. o que um investigador munido do método científico não poderá fazer é desconsiderar o fato observado com o argumento de que "a lei da gravidade é uma lei da natureza bem estabelecida e acima de qualquer dúvida". ou uma verdade científica. a disposição das ladeiras próximas a Ladeira do Amendoim e a dela própria criam a ilusão de que o carro está subindo quando na verdade ele desce normalmente. De qualquer maneira esta postura do método científico. como em qualquer outra ladeira do mundo. (4) a observação de que o carro sobe não é verdadeira. por exemplo). não conhecida pela ciência: mágica. telepática. . telúrica. A Lei da gravidade está a salvo (por enquanto). por parte de quem realizou a experiência. As leis da física não podem ser "desafiadas". ao invés de descer sob a ação de seu peso ele anda para cima! Estarão os carros na Ladeira do Amendoim desafiando a lei da gravidade? Se você se propõe a investigar o fenômeno provavelmente pensará em pelo menos quatro hipóteses para explicar o fenômeno: (1) existe algum tipo de força sobrenatural. O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" Um amigo lhe diz que descobriu um dragão na garagem da casa dele. houve um erro na interpretação dos dados. (3) a lei da gravidade está errada ou não se aplica a este local do planeta e deve portanto ser revista. isso é incrível! Vamos lá vê-lo!" você diz entusiasmado. por outro nos impede de assumir qualquer conhecimento como final e definitivo. "Uau. atuando sobre o carro (uma força magnética vinda de algum depósito de minerais.

Claro. Porém Tycho não acreditava no modelo heliocêntrico proposto por Copérnico e utilizou suas observações para formular um novo modelo geocêntrico do universo (que se tornou muito popular). Não pense que dragões indetectáveis são exclusividade dos pseudocientistas. mas outros começaram a desconfiar que não haveria éter nenhum para ser detectado. e daí?").. alguns cientistas tentam assim mesmo detectar este dragão. partículas atômicas e subatômicas."Bem. instrumentos exóticos capazes de medir a "energia" de dragões. para a ciência pelo menos. Até o final do século XIX os físicos acreditavam na existência de uma substância chamada éter que preencheria o vácuo e que seria o meio no qual se propagariam a luz e as ondas gravitacionais. soltar fogo ele solta! Se bem que o fogo é invisível também. Você começa a perder a paciência e. dirão (ao que Carl Sagan acrescentaria: "riram do Bozo também. Foi preciso que seu discípulo e assistente." "Tá. variações no espaçotempo . técnicas ancestrais milenares de detecção de dragões (provavelmente orientais). quasares. afinal você sabe que um dragão invisível é ainda mais incrível que um dragão qualquer. ordinárias nem extraordinárias. alguns anos mais tarde utilizasse os mesmos dados mas orientado por uma crença . Germes. mágicos conseguem reproduzir tudo o que as pessoas dizem fazer usando a energia dos dragões. isso também não vai dar. obtidas através de um rigoroso método científico que suportem a existência do Dragão Invisível. Isso o tornava por definição extremamente dificil de ser detectado. também houve vários casos de pesquisadores que fizeram de fato descobertas revolucionárias mas não souberam reconhecê-las. imaginar pessoas que preveêm o futuro inspirados por dragões indetectáveis. e encara o seu ceticismo como má-vontade em crer neste maravilhoso dragão-invisível-incorpóreo-que-cospe-fogo-frio. revelação em sonhos. Esta história é uma adaptação livre de um trecho do livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" de Carl Sagan e ilustra o típico pensamento pseudocientífico. ele é finalmente esquecido. preferindo interpretar suas conclusões de uma maneira "convencional". De fato você não precisa ir muito mais longe para.. Por isso. Falhas no método científico? Assim como já houve diversos cientistas que pensaram ter feito uma nova e revolucionária descoberta e mais tarde verificaram que seus dados não eram corretos." "Incorpóreo?!!" "Sim. até o ano de 1960. Todas as evidências de sua existência ou são contestáveis ou não vêm de fontes confiáveis ou podem ser explicadas por fatos já bem conhecidos pela ciência. a gente usa um visor de infravermelho pra ver este fogo invisível. Em 1881 Michelson e Morley idealizaram uma cuidadosa. incorpóreo.. Por fim as previsões feitas por pessoas "guiadas" pelos dragões são menos acertadas na média do que as previsões feitas por profissionais e o número de curas feitas pela tal energia do dragão é equivalente ao das curas espontâneas ou por placebo. Investigar portanto é preciso. Tycho Brahe ficou famoso por coletar os mais precisos dados astronômicos que já haviam sido colhidos até a sua época." "Você fala sério?!". além de um pouco preocupado com a sanidade do seu amigo. afinal descobrir que dragões podem estar escondidos em garagens pelo mundo e que podem ser usados para curar e prever o futuro é uma descoberta extraordinária demais para ser ignorada. não tem problema.pode-se citar inúmeros exemplos de fenômenos que num determinado momento da história não foram ou não poderiam ser detectados pelas técnicas e instrumentos disponíveis mas que não deixaram de existir por isso. Mas mais importante do que isso: não é só porque a ciência não é capaz de detectar o dragão que ele não existe." "!!" Você propõe mais uma dúzia de maneiras de detectar o dragão e seu amigo refuta todas elas dizendo que com este dragão não vai funcionar. quando foi definitivamente descartado. A conclusão é que por mais que a ciência investigue o fenômeno não há evidências." "Mas o fogo deste dragão é um fogo frio. muito embora ninguém ainda o tivesse detectado. isso não vai ser possível porque ele é invisível. Johannes Kepler. A ciência já teve que lidar com seus "dragões". porém nada foi observado. experiência para tentar "capturar" o éter. Ele só aparece para algumas pessoas "escolhidas" e nunca diante de câmeras.. O éter continuou a ser perseguido utilizando-se técnicas mais avançadas e instrumentos mais precisos. que está à temperatura ambiente. usando a mesma analogia. ou que dizem curar usando a energia destes seres. Alguns imaginaram falhas na experiência. Estas pessoas provavelmente acusarão os cientistas que não querem crer na existência de seus dragões de estreiteza de pensamento ou dirão que eles se negam a encarar as evidências porque temem que elas abalem sua forma ortodoxa de pensar. etc.. e hoje famosa." "Ahhh? Tinta? Bom. Muitos torcerão um pouquinho a história e se compararão a Galileo e a Colombo que foram perseguidos por desafiarem o pensamento científico estabelecido: "Riram de Galileo e de Colombo e riem de nós". Este éter deveria ser de tal natureza que não interferisse no movimento da Terra através dele e que permanecesse inalterado e imóvel ao ser atravessado pela luz. Mas este dragão tem um problema de timidez. sempre com os mesmos resultados. E depois tiramos umas fotos. uso da intuição. fica imaginando qual a diferença entre um dragão que não pode ser detectado de nenhuma maneira e dragão nenhum:"Então como você sabe que há realmente um dragão lá?!" Seu amigo responde a esta pergunta com explicações confusas que misturam capacidade de se comunicar telepaticamente com o dragão. pois este dragão é incorpóreo."A gente joga tinta nele então. tipo um fantasma ou um ectoplasma. não vai dar pra sentir. mas seu momentâneo desapontamento é logo substítuido por uma excitação ainda maior.." "Mas este dragão solta fogo? Pelo menos isso?" "Sim.

Até 1903 Blondlot já havia publicado mais de 10 trabalhos sobre sua descoberta. estudando os recentemente descobertos raios X. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias.ânsia em comprovar o que consideram ser a verdade. Será que o fato do cientista ser falível torna a ciência falível? Sim e não. O próprio método científico se encarrega de eliminar os julgamentos pessoais e impede que a longo prazo dogmas sejam formados. mas uma base que todo ser humano precisa ter para exercer sua cidadania. e pessoas como se sabe.diferente. dando origem a uma família de mais de 140 línguas. De fato. Quanto . tudo o que é vivo muda com a marcha do tempo. gerando seres defeituosos (infelizmente poucos nascem podendo portar garras de adamantium). por exemplo. Ou "avis" em lituano e sânscrito. Blondlot repetiu a experiência. armas de fogo surgiram bem depois da diferenciação destas línguas e cada uma teve que inventar uma palavra própria. sabemos por registros históricos que o "avô" do inglês britânico moderno foi levado dali para a Inglaterra por anglo-saxões que a invadiram nos séculos V e VI. Fatos e medidas precisam ser interpretados pelas pessoas que conduzem os experimentos. "fusil" em francês. espalhou-se pela América do Norte. este dialeto foi gradualmente se espalhando e se modificando. Nos primeiros anos do século XX. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar. Ciente tanto de sua responsabilidade quanto da falibilidade dos cientistas. e entender o rigor com que examina alegações extraordinárias é apenas uma parte desta discussão. Ou nas palavras de Einstein: "Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. Por isso em 1904 o cientista americano Robert Wood foi enviado ao laboratório de Blondlot para tentar desvendar o mistério.por que não? . préconceitos. Compreender o método que a ciência usa para construir o conhecimento humano. A Teoria da Evolução de Darwin é uma das teorias mais belas e simples da ciência. Basicamente ela diz que a vida nem sempre foi como é hoje: animais. a palavra ovelha. tal qual uma letra ou uma palavra trocada acidentalmente em um enorme livro. Os raios N produzidos por um filamento aquecido de platina deveriam atingir um prisma e difratarem-se de encontro a uma tela produzindo bandas luminosas. "owis" em grego e "oi" em irlandês. são naturalmente susceptíveis a julgamentos pessoais. A distribuição geográfica de grupos linguísticos também nos fornece dicas a respeito de movimentos populacionais. Mas se Tycho Brahe viu pouco em seus próprios dados o cientista francês Rene Blondlot enxergou demais (literalmente). Para seu espanto. Mas a língua inglesa tem vários "parentes" próximos – o alemão. mas nenhum outro cientista ainda tinha conseguido reproduzir suas experiências nem vislumbrar o menor sinal dos raios N. Blondlot. plantas.000 atrás. Austrália e outros países e. Um fato só é aceito pela ciência depois de exaustivamente reproduzido por cientistas em todo o mundo (a história dos raios N também serve para ilustrar este ponto)." Conclusão Em um momento em que há um projeto de lei propondo a regulamentação de uma arte divinatória de 5000 anos atrás. Blondlot continuou enxergando as bandas luminosas originadas pelos raios N! Não é preciso dizer que logo depois disso toda a história dos raios N foi desacreditada e esquecida. Como disse o cientista Henri Poincaré "Um punhado de fatos não é mais ciência do um punhado de tijolos é uma casa". etc. o holandês. Isto sugere que aquela tribo já conhecia e domesticava ovelhas e isto é confirmado por evidências arqueológicas. Estas mudanças acontecem por acaso. mas umas poucas delas podem gerar seres mais bem adaptados ao meio em que vivem. Praticamente todas as línguas européias (incluindo. O inglês. na forma de pequenas mutações acidentais no código genético. É esta pois a beleza da ciência. o nosso português e também o grego) são descendentes de um dialeto falado por uma tribo que vivia onde atualmente fica a Ucrânia. por volta de 6.. "ruzhyo" em russo e assim por diante. Obviamente . análises tendenciosas e . obviamente. Por outro lado. porém quando Wood observou a tela não foi capaz de ver nenhuma das bandas luminosas que Blondlot alegava ver. A grande maioria das mutações é nociva. a discussão sobre o alcance e validade da ciência é mais atual e necessária do que nunca. com mais facilidade para encontrar comida. Nesse meio tempo. Todas estas palavras têm obviamente uma origem comum que pode ser rastreada até o dialeto original da família Indo-Européia. "ovis" em latim. conhecida como Indo-Européia. Um cientista não espalha os fatos sobre a mesa e espera que a verdade emane deles espontaneamente. se defender de predadores. A partir daí podemos deduzir que o inglês nasceu nesta região.. de onde se espalhou pelo resto do mundo. ou "gun" em inglês. A moral da história aqui é que os fatos não falam por si mesmos. "oveja" em espanhol. E daí? O histórico da evolução de uma família de línguas nos dá pistas para descobrir em que épocas certos desenvolvimentos culturais e tecnológicos ocorreram. as línguas escandinavas e outros – todos amontoados no noroeste da Europa e o mais próximo deles é um dialeto falado em uma pequena parte da costa holandesa e alemã. se não conhecessemos sua origem. onde se encontra atualmente o maior número de falantes dessa língua. a ciência não se fia na autoridade de nenhum pesquisador e nem em pesquisas isoladas. o mesmo não pode ser feito para arma de fogo. pensou ter descoberto uma nova forma de radiação que chamou de raios N. para não só comprovar o modelo heliocêntrico como ainda estabelecer as Três Leis de Kepler do movimento planetário. "ovtsa" em russo. bactérias. mas desta vez Wood secretamente retirou o prisma da montagem. poderíamos achar que ele havia nascido nos Estados Unidos. Veja por exemplo.

Como na natureza. os engenheiros intervieram apenas para montar os motores nas peças de plástico expelidas pela máquina. mas uns poucos deles melhoravam as metas da geração anterior e eram selecionados para continuar se reproduzindo. anunciaram um programa de computador destinado a projetar evolutivamente robôs que caminham. No processo. Pode-se imaginar o dia em que programas de computador vão estar escrevendo outros programas de computador. a companhia fundada por Reil. para fazer um personagem virtual como Hulk ou o Gollum de "O Senhor dos Anéis" andar. o computador produziu . comem . E por que não começar a criar vida artificial "real"? Em 2000 dois engenheiros. Para acelerar um pouco as coisas. Computação genética serve ao cinema mais do que apenas como inspiração para seus roteiros. mas os melhores dentre eles davam origem a descendentes com ligeiras modificações aleatórias. O dia em que isto acontecer a Microsoft quer estar lá. Hod Lipson e Jordan Pollack do MIT. exatamente como acontece na natureza. Você pode assistir o vídeo de um ser digital aprendendo a andar no site da Natural Motion. Os seres da primeira geração mal saíam do lugar. com um pedaço de código a mais ou fora de lugar. a maior parte destas modificações produzia seres ainda mais inaptos. não à toa ela é uma das patrocinadoras do projeto. um programa de computador "habitado" por organismos virtuais que evoluem. Softwares que evoluem fazem parte de um ramo emergente da computação chamada Computação Genética (Genetic Programming ou GP em inglês) e não servem apenas para que os pesquisadores entendam melhor os mecanismos do darwinismo. logo desabavam desajeitadamente. O problema é que a evolução demora demais para acontecer. que se reproduzem (como aqueles vírus que vivem atacando o Windows). da Universidade de Oxford. A medida que evoluem. Estes organismos virtuais são pequenos programas. dentro de seus computadores. Ao se reproduzir. os personagens virtuais haviam aprendido a andar com desenvoltura. os programas que habitam Avida se tornam mais complexos e mais capazes de resolver os problemas propostos.mas em raras ocasiões uma mutação pode melhorar o pequeno programa tornando-o mais rápido. Hoje. acasalar e passar seus genes beneficamente modificados para sua prole. um organismo pode gerar um descendente mutante. uma espécie mutante pode diferir completamente da espécie original tornando-se mais comum e mais bem sucedida que as outras. Se você quiser conferir e cultivar sua própria colônia de organismos digitais pode acessar o site do Digital Life Laboratory e baixar gratuitamente a última versão do Avida. um programador visual precisa desenhar seu movimento passo a passo ou mapear a coreografia de uma pessoa real equipada com sensores. incluindo o código fonte do programa. vida de vida em bom português mesmo). A maior parte destas mutações dá origem a bugs . É interessante notar que sem a natureza para imitar.programas defeituosos . Cerca de 600 gerações depois os robôs mais bem sucedidos foram construídos em plástico moldado em uma máquina de prototipagem (uma impressora em 3D). Por que não colocar a evolução para trabalhar e deixar o personagem aprender a andar sozinho? Foi isso o que fez o pesquisador Torsten Reil. não mais que alguns minutos de processamento.números binários são sua comida predileta e realizam tarefas na forma de pequenos algoritmos. correr ou saltar. mais curto ou mais elaborado e portanto mais capaz de se alimentar e se reproduzir.mais adaptado mais chances de sobreviver. Além de envolver uma formidável quantidade de trabalho o método não é nada versátil. Como sempre os robôs mais aptos evoluíam introduzindo pequenas modificações no código de seus descendentes. os pesquisadores Christoph Adami e Charles Ofria do Instituto Tecnológico da Califórnia criaram o projeto Avida (A de "artificial" em inglês. um programador apenas determinará as tarefas a serem executadas e o programa evoluirá até se tornar capaz de executá-las. Ele criou centenas de pequenos seres digitais com a mesma liberdade de movimentos que os humanos e estabeleceu a meta que eles deveriam atingir a cada geração: a maior distância percorrida sem cair. enquanto os menos aptos acabavam extintos. Várias gerações depois (um instante apenas no tempo da CPU). Vinte ciclos depois. em linguagem C++. se o roteiro for modificado todo o procedimento precisa ser refeito. por isso é muito difícil de ser observada e testada. como mamutes e dinossauros. trechos de código. Até aqui os programadores estiveram criando vida artificial virtual.

desde o projeto até a fabricação. que o simples fato de nunca termos encontrado robôs de civilizações alienígenas tem sido usado como argumento de que ou elas não existem. em menor grau.5% de carbono o ferro se liquefaz a uma temperatura mais baixa. por mais que vasculhem o céu. em fornos fechados. não que venham de um futuro não muito distante em que as máquinas dominaram o mundo e costumam enviar. Daí a visão clássica do ferreiro antigo batendo repetidamente em uma peça de ferro sobre uma bigorna.robôs que não se parecem com nada que anda na Terra. Hmm. a idéia de robôs autoreplicantes explorando o universo por nós é tão boa. formavam uma liga que se revelou de grande utilidade – o bronze (que também podia ser feito com antimônio. o titânio funde próximo a 1. Lipson e Pollack denominam seu projeto de GOLEM. No início. algo mais parecido com formas primitivas de vida alienígena. Teríamos então o perfeito cenário de um filme de ficção científica: robôs evoluindo e se reproduzindo sem nenhuma intervenção humana. de tempos em tempos. Quando misturado com aproximadamente 3.. cobre e estanho. é preciso. Havia então duas formas de contornar esta limitação. só podíamos contar com diversos tipos de rochas e ossos. ou de orcs forjando suas espadas. mas uma grafite de melhor qualidade é usada em inúmeras outras aplicações (desde motores elétricos a reatores nucleares) e para produzí-la é necessário atingir 3. temperaturas muito maiores que essas são necessárias para a produção de um material que não é metálico – a grafite. faz sentido. só que mais como ornamentos do que em ferramentas. como ouro. considerado o pai do computador digital e o primeiro a propor máquinas autoreplicantes.500oC e modernamente isto é feito em fornos especiais que permitem controlar cuidadosamente a quantidade de carbono e outros elementos presentes. prata e.700oC. era pouco resistente. uma sigla para Genetically Organized Lifelike Electro Mechanics. e conseguimos – o ferro. Vastamente empregado na indústria aeroespacial. O próximo passo seria inventar máquinas com sensores que pudessem fazer tudo sozinhas. por que. os cientistas não ouvem nada além do "Grande Silêncio"? Esta é uma variante do Paradoxo de Fermi. mas por volta de 3. mas tão boa.. descobrimos que derretendo o cobre junto com outros metais é possível produzir combinações interessantes. tornando-se mais adaptados a cada geração e fazendo os modelos anteriores ficarem obsoletos. o cobre. através de impactos repetidos. Para transformar o minério do metal em metal puro. Compare isso com a temperatura da superfície do Sol: 6. é necessário romper a barreira dos 1. Assim pode-se produzir tipos diferentes de aço. Mas a temperatura de fusão do ferro é por volta de 1. mas que é também o nome de uma criatura mágica.. encontra-se combinado com oxigênio.. Elas nos permitem realizar tarefas que seriam impossíveis se contássemos somente com a capacidade natural de nosso corpo e sua utilidade está intimamente ligada ao material do qual é feita. nossos antepassados conseguiram atingir por volta de 1. ou não atingiram um estágio tecnológico comparável ao nosso.000oC. acima da temperatura de fusão do cobre.. como o titânio. Por acaso você pensou num velho robô exterminador T-800 sendo ultrapassado por um moderníssimo T-X em um mundo dominado pelas máquinas? Bem. em compostos que chamamos genericamente de minérios. antes de mais nada.500 a. Esse processo de impactos repetidos alternados com aquecimento também podia ser aplicado ao ferro ao qual carbono havia sido adicionado de forma a reduzir a quantidade de carbono presente a níveis abaixo de 2% – o aço. Logo que aprendemos a refinar o cobre. aquecê-lo a uma temperatura alta o suficiente para derretê-lo (é preciso também uma fonte de carbono – como madeira ou carvão – para remover o oxigênio). dono de um poderoso senso de humor. Uma fogueira aberta não é capaz disso. muitos dos mais brilhantes físicos do século XX nasceram na Hungria. Robôs autoreplicantes seriam ideais para utilização em ambientes inóspitos ao homem.500oC. Mas. Ainda que sua descoberta tenha sido um grande avanço. Um dia. o bronze apresentava limitações. chamadas de ligas. andróides exterminadores ao passado para matar o líder da resistência humana.C. chegando ao refeitório do lendário laboratório de Los Alamos bradou a frase que se tornaria famosa: "Onde eles estão?". A grafite que você usa na sua lapiseira é encontrada diretamente na natureza. respondeu: "eles estão entre nós. Outros metais utilizados modernamente tem pontos de fusão ainda maiores. surpreendentemente. Precisávamos de um metal melhor.. ainda que em uma versão primitiva. assim como a maioria dos metais. o físico húngaro Leo Szilard. Por exemplo. sem a adição de carbono aquecendo-o a uma temperatura abaixo do ponto de fusão do ferro. mas também ao grande número de geniais cientistas daquele país.1% de carbono e quantidades variáveis de níquel. Fermi acreditava firmemente na existência de vida inteligente extraterrestre mas andava um tanto frustrado por ninguém ter encontrado ainda uma pista sólida deles. especialmente outros planetas.150oC (Celsius). Se vamos encontrar robôs autoreplicantes um dia só o tempo vai dizer. A brincadeira corrente em Los Alamos de que os húngaros são na verdade marcianos disfarçados dizia respeito não apenas à estranhíssima língua húngara. Para manter sempre acesa a lembrança da responsabilidade que têm. Na verdade. Seu colega. Alguns metais também eram usados. tanto que a NASA vem há tempos estudando a possibilidade de semear a superfície da Lua e de Marte com robôs deste tipo. uma questão inicialmente elaborada pelo físico Enrico Fermi (que não chegou a pensar em robôs autoreplicantes). Outra opção era retirar as impurezas do minério sólido. os cientistas também.000oC. diferente de todas as línguas européias. arsênico ou chumbo).. como por exemplo o aço inoxidável (que tem menos de 0. outro metal de baixo ponto de fusão. Afinal. A construção e utilização de ferramentas é a principal habilidade humana responsável por nosso desenvolvimento tecnológico. se existe vida inteligente lá fora e ela é tão abundante como crêem alguns cientistas. Além de caro. entre eles John von Neumann. Mas a maior parte do cobre existente na crosta terrestre. Mas para produzir aço de melhor qualidade. Neste caso vamos torcer para que pertençam a civilizações alienígenas sociáveis. mas chamam a si mesmos de húngaros!". já que a tecnologia da época só permitia processar metais macios e encontrados na natureza em sua forma pura. além da capacidade dos fornos antigos.. que na lenda judaica subjuga o rabino que lhe deu vida. . por quê o universo não está infestado de robôs se reproduzindo exponencialmente em cada sistema solar que chegam? Por que ainda não encontramos um grande monolito negro como o de "2001 Uma Odisséia no Espaço"? Em outras palavras. cromo e outros metais).

destinado exclusivamente à pesquisa ambiental. Conhecendo-se a órbita e velocidade do satélite assim como a velocidade das ondas de rádio (igual a velocidade da luz) é possível calcular a posição do transmissor com uma precisão que varia de 150 a 1000 m. a fusão nuclear não gera lixo radioativo e utiliza combustíveis facimente encontrados. ser controladas por um campo magnético. além do que fazem os peixes no oceano. de forma a não entrar em contato direto com as paredes do reator e diminuindo a temperatura a que o material das paredes seria exposto. Em um reator. Essas partículas podem. Elas são necessárias para manter uma reação de fusão nuclear – a mesma fonte de energia que mantém as estrelas brilhando e que pode solucionar os problemas energéticos mundiais. os átomos de qualquer material são constituídos de um núcleo (com carga elétrica positiva) e um conjunto de elétrons (com carga elétrica negativa). vários exemplos de plasma podem ser encontrados em nosso cotidiano (obviamente a temperaturas muito mais baixas). é cem milhões de graus Celsius mesmo. para saber se estão nas áreas delimitadas para pesca). Ao contrário da fissão nuclear. Este é o mesmo princípio dos satéites do NOAA. a CNES. velocidade e direção das correntes oceânicas. o plasma seria confinado por um forte campo magnético. Para determinar a posição do transmissor.000oC. Em condições normais. a frequência do som é menor e ele é mais grave.Mas se você acha que estas temperaturas são altas. No plasma. estes dois componentes são separados. o satélite viajando pelo espaço "escuta" as ondas eletromagnéticas enviadas pelo transmissor. Então. os oceanógrafos podem saber o que faz o próprio oceano. no que é chamado de confinamento. Aliás. O grande desafio para os cientistas nucleares será atingir e manter as altas temperaturas necessárias à reação de fusão nuclear. Quando você está se movimentando em direção às ondas sonoras acaba atravessando um número de ondas maior do que o que passaria por você se estivesse parado (assim como uma lancha atravessa mais ondas se navega em direção a elas). formando uma grande mistura de partículas carregadas. e quanto maior a frequência do som mais agudo ele é. Hoje em dia há milhares de transmissores espalhados pelos sete mares monitorando-os e enviando zilhões de bytes de informação para os . como seria construído um reator desse tipo? Bem. A grande dificuldade é que a reação só acontece acima de 100. nessa temperatura. Assim como para Frodo e seus amigos.000. caminhões com carga sensível e até mesmo o gelo das calotas polares. como por exemplo o interior das lâmpadas fluorescentes ou nas telas dos modelos mais modernos (e caros) de televisões. aventureiros em terras inóspitas (os exploradores de hoje não são como os de antigamente). nenhum material conhecido consegue suportar estas temperaturas. da NASA e da agência espacial francesa. quanto mais ondas chegam em um determinado período de tempo maior a frequência do som que você ouve. Para entender o efeito Doppler imagine que você está em um carro em movimento e passa por um outro carro que está buzinando. só que em vez de ondas sonoras. Com transmissores ancorados ou à deriva em bóias. À medida que seu carro se aproxima o som da buzina parece mais agudo. saiba que cientistas em todo mundo estão buscando atingir temperaturas literalmente milhares de vezes maiores. Não. barcos (especialmente os pesqueiros. portanto. nível dos oceanos. animais selvagens. Quando o satélite "ouve" uma frequência igual a que o transmissor está emitindo (que ele conhece). os satélites do NOAA usam o efeito Doppler. Estes transmissores enviam ondas de rádio que são captadas por dois satélites do NOAA especialmente equipados com um sistema especial conhecido por ARGOS. O sistema ARGOS é um empreendimento conjunto do NOAA. O contrário acontece quando você se afasta da buzina: com menos ondas chegando ao seu ouvido num mesmo intervalo de tempo. para medir seu deslocamento. é sinal de que está o mais próximo possível dele. No ponto em que a buzina se encontra à menor distância possível do seu ouvido a frequência que você ouve é a mesma da buzina (a mesma que ouve todo o tempo o motorista do carro parado). Isto acontece porque as ondas sonoras emitidas pela buzina são como ondas no mar atingindo seu ouvido. utilizada nos reatores nucleares atuais. não erramos no número de zeros. imóvel num engarrafamento na contra-mão. o sucesso nessa busca pode mudar radicalmente o futuro de nossa sociedade. lá embaixo na Terra. Desta maneira. qualquer material encontra-se sob uma forma conhecida como plasma. Mas como satélites monitoram animais a centenas de quilômetros acima da Terra? Primeiramente os cientistas prendem aos animais pequenos transmissores. O principal uso do ARGOS é na pesquisa oceonográfica (que responde por mais da metade do uso do sistema) mas qualquer coisa na qual se possa fixar um minúsculo transmissor de 15 gramas pode ser monitorado: aves. os pesquisadores são capazes de determinar o movimento das marés. Para começar. enquanto que à medida que se afasta ele parece mais grave.

o princípe Albert pôde estabelecer e mapear pela primeira vez. sanguessugas. mas graças às suas cores vivas e listras brancas o peixe anêmona atende mesmo é pelo nome de peixe-palhaço. sem a ajuda de satélites nem transmissores. que incluíam sangrias.satélites do ARGOS. Com as respostas que recebeu.O ponto de vista bioquímico 4. naquele romântico tempo em que um homem podia se lançar ao estudo da ciência movido só pela curiosidade e paixão e desvinculado de financiamentos do governo (claro que neste aspecto a generosa conta bancária da família real ajudou bastante) este aristocrata lançou ao mar centenas de garrafas e esferas ocas de bronze com mensagens que pediam a quem as encontrasse que as devolvessem ao remetente contando onde as haviam encontrado. O princípe Albert I de Monaco foi um dos primeiros oceanógrafos de que se tem notícia..Pesquisa científica 5. Durante seus estudos. Este peixe recebe seu nome por viver entre os tentáculos de um venenoso animal parecido com uma planta aquática.Introdução 2.Conclusões O pai da homeopatia.A aparente eficácia 6. purgas e outros métodos que realmente causam mais mal do que bem. o nome do pequeno Nemo não veio apenas do famoso capitão do livro de Júlio Verne. o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843). o sentido de rotação das correntes marinhas no Oceano Atlântico. Mas é claro que nem sempre o estudo do oceano foi tão high-tech assim.Os princípios da homeopatia 3. Hahnemann percebeu que a administração de quinino (uma droga . O maior destaque do museu é o impressionante aquário contendo um coral vivo no qual se pode ver. Albert I morreu em 1922 com 72 anos de idade. o peixe anêmona. chamado anêmona. Sim. No final do século XIX. tinha bons motivos para ir contra as práticas médicas comuns do século XVIII. entre outras espécies. isso mesmo. Antes disso construiu em Monaco um grande museu náutico que hoje é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano.. Homeopatia por Ana Luiza Barbosa de Oliveira em 05/07/02 Os princípios da homeopatia 1.

que foram compilados em livros chamados materia medica. romântica. Este princípio é conhecido como Lei dos Infinitesimais.pessoa nervosa e muitas vezes chorona e que não gosta de fumaça de cigarro Pulstilla . Este é o princípio da similitude ou a Lei da Similitude. olhos azuis. Ele também declarou que as doenças crônicas eram uma manifestação de uma coceira reprimida (psora). igual) e pathos (doença.O ponto de vista bioquímico 4.Introdução 2.Os princípios da homeopatia 3. porém tímida. Hahnemann justificou este procedimento com uma teoria de que não são os átomos das substâncias que curam. Utilizando inicialmente doses pequenas de medicamentos. Sulfur . gentil. então estas substâncias são prescritas para pacientes asmáticos. ambiciosa e hiperativa. Muitos homeopatas afirmam também que algumas pessoas possuem uma afinidade especial com um remédio em particular (o chamado "remédio constitucional") e que serve para curar várias doenças.Conclusões . a qual numa pessoa saudável causa os mesmos sintomas apresentados pela pessoa doente. Assim. Hahnemann eventualmente concluiu o seguinte princípio terapêutico: o caminho certo para tratar uma doença é dando ao paciente uma determinada droga. Alguns exemplos destes tipos são: Ignatia . teorizando que quanto maior a diluição maior o efeito. diluídos até o ponto em que não mais exista mais uma única molécula do princípio ativo. isto é. pois ele achava que determinadas substâncias causavam. os remédios homeopáticos são "dinamizados". emotiva. seguindo esta linha de pesquisa. que são utilizados para associar os sintomas de um paciente com a droga adequada. Estes remédios são prescritos de acordo com o tipo constitucional da pessoa. doenças semelhantes curam doenças semelhantes.A aparente eficácia 6.Pesquisa científica 5. A aparente eficácia 1. Hahnemann expôs sua teoria na frase em latim similia similibus curentur (semelhante cura semelhante) ou melhor ainda.pessoa agressiva. Hahnemann posteriormente passou a empregar enormes diluições. belicosa. Estas idéias são a base da homeopatia moderna. Ele declarou ainda que as doenças eram perturbações na habilidade do corpo de se curar e que portanto eram necessárias apenas quantidades ínfimas para iniciar o processo de cura. sofrimento). que fazia o corpo curar a doença verdadeira.é uma mulher jovem com cabelo louro ou castanho claro. mas sim uma espécie de efeito indutivo causado pela presença destas moléculas durante a diluição. uma doença artificial no doente.gosta de ser independente. animal e mineral. amiga. um tipo de miasma ou espírito maligno. que foi apresentada ao mundo em 1796. quando ingeridas. Hahnemann e seus seguidores começaram a fazer experimentos com várias substâncias de origem vegetal. Por exemplo. temerosa.empregada no tratamento da malária) a um paciente saudável causava alguns dos sintomas associados à esta doença. os óxidos de enxofre SO2 e SO3 causam crises de tosse semelhante a crises de asmas. Nux Vomica . Desta forma. A palavra homeopatia vem do grego homoios (similar.

Um excelente texto sobre este assunto pode ser encontrado aqui. Placebo significa em latim "eu vou agradar".Apesar da falta de comprovação científica. o método científico é. Apesar de isto poder ser verdade para certos indivíduos. Isto é realmente válido para doenças auto-limitadas. sabe-se então que isto é realmente conseqüência de sua ação química no organismo. Existem inúmeros casos na história da ciência onde novas teorias. é um medicamento "falso". agindo por algum outro mecanismo desconhecido. Dependendo da doença em questão a fração de pacientes que apresentam melhora após a administração do placebo pode ser superior a 30%. já que a pessoa irá se curar de sua doenças sem sofrer efeitos colaterais resultantes da administração de remédios tradicionais. Ao observar esta regressão após tomar um medicamento ineficaz. Outros fatores podem influenciar a percepção da eficácia de um medicamento. Em outras palavras. que não apresentam consequências graves. o fato de uma teoria ir de encontro ao conhecimento atual em qualquer área da ciência não significa necessariamente que esta teoria esteja errada. O termo foi introduzido no século XIX para denominar remédios que eram receitados somente para agradar o paciente. inicialmente descartadas. apesar de não ter nenhuma ação específica na doença. Conclusões 1. eles estão em flagrante desacordo com o nosso conhecimento atual de física. Este é um risco assumido conscientemente por pacientes que se oferecem voluntariamente para participar de pesquisas de novos medicamentos. foram posteriormente comprovadas. química e biologia.Introdução 2. por . mesmo que nenhum medicamento seja empregado. O fato de que os remédios homeopáticos não são submetidos a testes tão rigorosos como os medicamentos tradicionais e. Desta forma. imparcial. apesar de serem empregados há mais de um século. Mais uma vez. A princípio.Conclusões Os princípios que formam a base teórica da homeopatia não têm nenhuma comprovação científica. a administração de um placebo para doenças graves pode levar a sérias conseqüências (inclusive. O efeito placebo é bem documentado. cuja função é apenas fazer o paciente acreditar que está sendo tratado. Um placebo é definido como um tratamento que causa um efeito no paciente.A aparente eficácia 6. o verdadeiro teste é a obtenção de resultados experimentais confiáveis. é eliminada qualquer influência de fatores psicológicos na evolução da doença. onde a homeopatia se enquadra. Por quê? Dois efeitos contribuem para a aparente eficácia dos remédios homeopáticos. contribui para a descrença em sua eficácia. várias condições médicas de menor gravidade (por exemplo. em sua concepção. Infelizmente. é de que os resultados que comprovam sua eficácia são descartados pela comunidade científica em razão de preconceito ou da ausência de uma atitude "aberta" a conhecimentos originados fora das linhas tradicionais de pesquisa. isto não constitui um problema. a oposição (de pelo menos parte) da comunidade homeopática a que isto seja feito. O verdadeiro teste de uma nova teoria é a sua coerência com resultados experimentais observados e sua capacidade de prever novos resultados anteriormente inesperados. Isto significa que parte dos pacientes recebe o medicamento real e o restante recebe um placebo. sendo que nem os pacientes nem os médicos que aplicam os medicamentos sabem quem está recebendo o quê. Pode-se argumentar que se o efeito de um medicamento baseia-se unicamente no efeito placebo. é concebível que os remédios homeopáticos sejam eficazes. Por outro lado. pelo contrário. ainda não foram obtidos resultados convincentes de que os remédios homeopáticos são realmente eficazes contra qualquer tipo de doença. Se o medicamento em teste apresentar resultados significativamente melhores que o placebo. uma gripe) têm uma regressão natural. Um argumento clássico a favor das chamadas terapias alternativas. Nesses testes se adota um procedimento conhecido como duplo cego. as teorias da homeopatia não atingiram nenhum destes requisitos. Outro efeito importante é conhecido como efeito placebo. principalmente. mesmo que este não tenha tido nenhuma participação no processo. em alguns casos. a pessoa frequëntemente associará a cura ao medicamento.Pesquisa científica 5. sendo empregado nos testes de avaliação de novos medicamentos. até o momento. a morte).O ponto de vista bioquímico 4. É difícil acreditar que a comunidade médica em geral descartaria qualquer tipo de tratamento cujo efeito fosse realmente comprovado. Mesmo que as teorias homeopáticas estejam erradas.Os princípios da homeopatia 3. inúmeras pessoas atestarão a eficácia dos remédios homeopáticos a partir de suas experiências pessoais. Em primeiro lugar. Entretanto.

. em virtude de seu baixíssimo custo de preparação.simples preconceito. Isto é especialmente válido para o caso dos remédios homeopáticos.

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