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O Dilema do Gordo: Comer ou Não Comer? E outros textos

O Dilema do Gordo: Comer ou Não Comer? E outros textos

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Ensaios e crônicas sobre o comportamento humano e fatos comum no nosso dia-a-dia.Veja a relação deles abaixo:
Ensaios e crônicas sobre o comportamento humano e fatos comum no nosso dia-a-dia.Veja a relação deles abaixo:

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O DILEMA DO GORDO: COMER OU NÃO COMER?

e outros contos
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA www.galenoalvarenga.com.br

Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que pode ser adquirida através do site do autor. Visite www.galenoalvarenga.com.br e saiba mais sobre: Publicações do Autor Transtornos Mentais Testes Psicológicos Medicamentos Galeria de Pinturas de Pacientes Vídeos / Programas de TV com participação de Galeno Alvarenga
Tags: Comportamento / Condutas, Crenças antigas / Mitos / Superstições, Doenças Mentais (transtornos), Drogas / Medicamentos / Remédios, Educação e Conhecimento, Emoções Sentimentos Controle, Estresses Problemas e Adversidades, Família e Casamento, Festas populares e Lazeres, Informação Linguagem e comunicação, Livros Online Grátis, Livros Psicologia, Livros Psiquiatria, Pintura dos esquizofrênicos, Política: Políticos e Corrupção, Problemas Familiares, Sociedade: Valores e Cultura, Uso de Drogas (Consumo)

GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

O DILEMA DO GORDO:

COMER COMER? e outros contos
OU NÃO

BELO HORIZONTE - 2009

COpyRIGht © by GALENO pROCÓpIO M. ALVARENGA
Supervisão Gráfica Sofia Lopes Edição Independente do Autor Galeno Procópio M. Alvarenga Imagens capa e contracapa Galeno Procópio M. Alvarenga Diagramação Marcos de Oliveira Lara Capa Max Guedes (Estagiário) Revisão Maria Isabel da Silva Lopes Impressão Sografe Contato c/ o Autor galenoalvarenga@terra.com.br www.galenoalvarenga.com.br A473 Alvarenga, Galeno Procópio de Mendonça O dilema do gordo: comer ou não comer? E outros contos / Galeno Procópio de Mendonça Alvarenga. – Belo Horizonte: Ed. do autor, 2009. 215 p. ISBN 978-85-907543-6-7 1.Literatura brasileira – Crônicas e ensaios. I. Título. CDD: B869.85 CDU: 869.0(81)-82 Elaborada por: Maria Aparecida Costa Duarte CRB/6-1047

AgrAdecimentos
Meus agradecimentos à Maria Isabel da Silva Lopes, minha prezada amiga, revisora e conselheira. Maria Isabel não só leu meus seis livros, como também sugeriu, com profissionalismo e competência, reparos de possíveis erros relativos à estrutura do texto (redação, digitação, etc.), Além de ter proposto, com sabedoria, algumas modificações quanto ao conteúdo, num e em outro lugar. Meu muito obrigado pela sua enorme colaboração.

sUmÁrio

o dilema do gordo: comer ou não comer? .............................9 diga não sem se sentir culpado .............................................13 diante de uma provocação ....................................................17 Passando um telegrama .........................................................21 o sequestro da camisa listrada ...............................................25 os fatos podiam ter sido outros ............................................31 A prisão domiciliar nas grandes cidades ........................................37 Fanfarra para um homem comum .........................................43 os agitados e os sossegados...................................................47 obsessivos e compulsivos ......................................................49 tenha coragem de ter medo ..................................................53 A triste história dos deprimidos .............................................59 tome seu tranquilizante e Viva feliz ......................................63 sono, insônia e pílulas ...........................................................65 Prelúdio para um casamento morto .......................................71 A difícil arte do casamento ....................................................75 os descasados .......................................................................79 o casamento do neurótico ....................................................85 Brigas de casais: Agressão ou excitação sexual?.......................87 marido violento: este incompreendido .................................89 incesto emocional .................................................................93 solitários mas não isolados ....................................................97 o amor nas canções populares.............................................101 duas mulheres: num dia qualquer ......................................109 Benditas sejam as queixas ....................................................113

Homem x mulher ...............................................................117 As mulheres: o silêncio das inocentes..................................125 separação e perícia: Advertências .........................................137 o terapeuta amador ............................................................141 o chantagista emocional .....................................................145 Pedófilo: o monstro de duas faces...............................................151 conheça o estuprador .........................................................153 suicídio pela provocação de seu assassinato .........................155 Uma alegoria do fórum .......................................................159 Por um natal diferente ........................................................171 “gays”, loucos, ateus e velhos .............................................175 A sentença final ...................................................................177 A pintura dos esquizofrênicos .............................................183 no embalo das últimas férias ...............................................187 A boa terapia do carnaval ....................................................193 A última lembrança .............................................................197 mergulho no passado: Uma história verdadeira ..................199

o diLemA do gordo: comer oU nÃo comer?
Comer ou não comer? As mães empanturram os filhos de alimentos, enquanto isso, elas mesmas vão às academias, fazem regimes e caminhadas, compram o último “best-seller” para emagrecer, tomam drogas e mais drogas para tirar o apetite, para urinar e eliminar uma boa parte dos alimentos que ingeriram. Essas mesmas mães compram para os filhos pudins, chocolates, sorvetes e mais uma infinidade de guloseimas. Mas elas mesmas tomam hormônios para acelerar o metabolismo, fumam e tomam café com adoçante, na esperança de ingerir menos calorias. Ao lado dessa contradição alimentar familiar, os meios de divulgação, tais como TVs, rádios, jornais, revistas, despejam em cima do alerta e fiel consumidor os mais recentes produtos alimentícios, todos eles atraentes, charmosos, deliciosos e de alto teor calórico. Somos, sem querer, sócios contribuintes das multinacionais, saboreando seus produtos e pagando-os a preços módicos. Se a robusta criança tiver uma mãe muito desocupada, de modo que lhe sobre bastante tempo para cuidar da alimentação do seu querido filho, e se este tiver mais algum tempinho para saborear, degustar, deglutir e “incorporar” as propagandas das multinacionais, a primeira fase, a essencial da formação do futuro obeso, acha-se terminada. Seu destino provavelmente está selado e ele estará “frito”, no mundo maravilhoso dos alimentos.

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Do mesmo modo que Konrad Lorenz descreveu o fenômeno da “impressão” - observado com as crias que ficam “marcadas”, passando a seguir o animal que estiver ao seu lado durante certos momentos dos primeiros dias do desenvolvimento, - também a criança, criada no ambiente dos alimentos, desenvolverá percepções e valorizações hipertrofiadas acerca de alimentos. Seu ideal passará a ser, fundamentalmente, o alimento. Nos bate-papos informais, o obeso fatalmente fará incursões sobre a “boa mesa”. Seus pensamentos e suas conversas giram sempre em torno de carnes, pudins e sorvetes: “Comi uma lasanha extraordinária, você precisa ira lá. A sobremesa: um sorvete com creme e suspiro. Uma delícia!” Ele se acha preso, tanto biológica como psicologicamente, ao mundo dos alimentos, preferencialmente aqueles em que predominam os hidratos de carbono e as gorduras. Sabe-se que nosso organismo é mais atraído por alimentos saborosos e nutritivos. Assim, uma carne cheirosa e gordurosa nos atrai mais do que belas folhas da alface bem temperadas. Costuma-se falar em obesidade quando o peso da pessoa se acha 20% acima do considerado normal para ela. Entretanto, para alguns, obeso é quem acha que é. A obesidade já teve a sua glória e seus cultores, pois fazia parte dos valores difundidos pelas classes privilegiadas. Hoje, seu prestígio está em declínio. “Malhada” pelos poderosos, passou a ser mais comum entre as mulheres de classe sócioeconômica mais baixa, por causa da alimentação dessas ser rica em hidratos de carbono. A maioria dos autores concorda que a obesidade é consequência de diversas causas. Parece ser mais grave quando começa na infância, mas pode surgir na adolescência, na vida adulta e até após a maturidade, quando algumas mulheres se tornam obesas após os 50 anos. Tal fato é menos frequente entre os homens. A maior parte dos grandes obesos, uma vez iniciado um regime e ter emagrecido alguns quilos, sente-se como se estivesse passando fome. Em outras palavras, quando um obeso se submete ao regime e seu peso ainda não alcançou o chamado “peso normal”, biologicamente ele se encontra como os indivíduos que estão passando fome.

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Alguns autores argumentam que o peso corporal de um dado indivíduo é autorregulado, alcançando cada pessoa um nível aproximadamente constante, ou seja, um ponto fixo em torno do qual o peso oscila. Nos obesos este ponto fixo é elevado, acima do peso constante dos “normais” de desenvolvimento físico semelhante. O obeso tem um maior acúmulo de gorduras nas células, ou tem maior número dessas células, um excesso adquirido geralmente na infância. É comum apresentar os dois fatores ao mesmo tempo. Em outras palavras, tanto o teor de gordura como o número das células gordurosas alcança, no obeso, valores superiores aos de um indivíduo não-obeso. Ao emagrecer sob regime, não haverá redução do número de células, mas tão somente de teor de gordura celular, o qual, portanto, ficará abaixo de seu valor normal para aquela pessoa. Consequentemente, em condições normais, isto é, sem regime, a gordura celular tende a aumentar até atingir seu ponto fixo, o que ocasionará novo aumento de peso. Nos obesos há uma alteração entre o “crédito” e o “débito”, de modo que neles sempre haverá uma “sobra”, se comparados à maioria dos indivíduos. Segundo esse modelo, um indivíduo normal e que tem o seu ponto fixo em torno de 60 quilos, tenderá sempre a manter-se em torno desse peso. Caso ele enfrente situações anormais, internas ou externas, (por exemplo doenças, alimentação em excesso ou escassa), durante um certo período seu peso irá diminuir ou aumentar de acordo com a situação. Entretanto, tão logo a situação se normalize, o peso voltará a ficar em torno dos 60 quilos anteriores. O obeso, tendo o seu ponto fixo, por exemplo, em torno dos 120 quilos, tenderá a manter-se também em torno desse peso, em condições normais. A obesidade, como qualquer problema médico, está longe de ser entendida em sua totalidade. Por esse modelo do “ponto fixo”, observações e experiências realizadas em animais e homens puderam ser compreendidas. Em cativeiro, os animais engordam ao receber uma superalimentação, no entanto, quando são deixados de lado, livres, sem serem forçados àquela alimentação, retornam ao peso ante-

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rior à engorda. Diversas observações semelhantes foram feitas, principalmente com pessoas que, por diversas circunstâncias, receberam escassa quantidade de alimentos. Essas, após o emagrecimento, retornaram ao peso do seu ponto fixo. De acordo com esse modelo, as drogas comumente usadas para combater o apetite - os anorexígenos - inicialmente fazem descer o ponto fixo do indivíduo para um nível mais baixo e só secundariamente diminuem o apetite. Lamentavelmente, após a retirada da droga, o ponto fixo se eleva novamente, aumentando o apetite e, consequentemente, o peso aumenta, alcançando o nível de equilíbrio anterior daquele indivíduo. A atividade física constitui, talvez, a única técnica eficiente para aqueles indivíduos que, considerados de risco, ou seja, com ponto fixo corporal elevado, manterem peso normal. A atividade física queima calorias, diminui o apetite e, por último, eleva o metabolismo basal, não só durante o exercício, mas também horas após este. Portanto, a pessoa ativa fisicamente está continuamente “gastando” mais calorias do que precisa para manter as funções fisiológicas do organismo em condições de não-exercício. Por outro lado, para azar dos obesos, o regime alimentar nos indivíduos de vida sedentária baixa o metabolismo, ou seja, “economiza” a perda de calorias. Os resultados são óbvios, à medida que o peso diminui no indivíduo de vida sedentária, a sua taxa de metabolismo cai também, com consequente estabilização do peso.

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digA nÃo sem se sentir cULPAdo
Quem diz sim a um pedido de aval, para não magoar o outro, pode depois amargar o pagamento da dívida. O passageiro que deixa os centavos com o trocador, com medo de reclamar ou de ser ridicularizado, está deixando algo mais além do dinheiro: pode se sentir um “fraco”, ou covarde. O consumidor que levou o sapato, por não ter coragem de dizer não ao vendedor, não o usará com prazer, mas com raiva ou desgosto. A visita desagradável que chegou sem avisar poderia estragar a tarde de domingo, em outro momento poderia ser até agradável. Provavelmente, quem experimentou tais acontecimentos vai reclamar tanto de si mesmo, como dos outros. Entretanto é provável que nada faça para modificar sua conduta e influir favoravelmente no curso dos acontecimentos. Quase sempre esses nem mesmo tentaram modificar seu comportamento, visando a atingir objetivos que lhe dariam prazer, maior autoestima e também um relacionamento mais agradável com o visitante de horas indesejáveis. As situações embaraçosas e, às vezes, humilhantes, das quais as pessoas se queixam, são frequentes e na verdade atingem todos os seres humanos. O que fazer diante de situações semelhantes àquelas que foram descritas acima? Resumidamente existem três maneiras de agir:

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1) Aceitar as imposições, lastimar-se e queixar-se da má educação das pessoas. 2) Brigar, xingar e agredir quem tentou a manipulação. 3) Ser afirmativo, sem ser agressivo ou queixoso, defender clara e calmamente seus direitos. Vamos a um exemplo: Aníbal está em uma fila, pacientemente, há vários minutos quando um homem entra, sem pedir, à sua frente. Conforme o exposto, Aníbal poderá: 1º - Nada fazer e reclamar para si mesmo ou com o companheiro do lado a respeito do abuso do intruso. Provavelmente Aníbal se sentirá irritado, envergonhado da sua passividade e com queda da sua autoestima, por estar sendo enganado. 2º - Aníbal, em altos brados dirige impropérios ao furador de fila, iniciando uma briga, o que passa a constituir um novo problema a ser resolvido. Nesse caso, possivelmente, talvez a respiração fique ofegante, o coração bata mais depressa e, pior ainda, a discussão possa caminhar até chegar às “vias de fato”, dependendo da reação do outro. 3º - Num tom de voz firme, mas normal, Aníbal dirá ao intruso que aquilo é uma fila, que deve ser respeitada e que ele, o furador de fila, deve sair dali e procurar seu lugar lá atrás. Nesse caso, sua ação foi exclusivamente para dar solução ao problema surgido e não para criar outro. É possível que Aníbal se sinta ligeiramente emocionado, mas satisfeito consigo mesmo, ao defender o seu direito. Posteriormente, ele se sentirá melhor ainda. Situação semelhante é a do passageiro que não obtém nem o troco nem a resposta do trocador, ao passar na roleta do ônibus. O passageiro pode: 1º - Ir embora sem receber o seu troco e ficar deprimido por sua conduta apática. 2º - Brigar com o trocador e eventualmente com o motorista, até com algum passageiro que ache absurdo ele exigir algumas moedas de troco. 3º - Finalmente exigir uma resposta adequada do trocador, não temendo a pressão dele e de outros que querem passar na roleta.

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Para cada uma dessas três condutas, encontra-se subentendida uma crença ou uma concepção da melhor maneira de se conviver com outras pessoas. No primeiro caso, isto é, a passividade como tônica do comportamento, indicará uma suposição de que nunca se deve, em nenhuma situação, desagradar às pessoas. O foco da conduta está em não criar problemas no relacionamento com os outros, seja lá quem for. No segundo caso, quando há briga, o indivíduo percebe a ação do intruso como um abuso, uma agressão e, não imaginando outra opção, agride também. Neste caso, ele criou um segundo problema, sem resolver o primeiro. E finalmente, no terceiro caso, quando a pessoa exprime sua opinião firme e objetiva, sem rodeios, o centro da conduta se situa em si mesma e não no bem-estar e manutenção da relação. Neste caso o indivíduo acha natural alguém tentar furar a fila, como também acha adequado ele defender seu lugar e, por isso, o faz de maneira conveniente. Como não tem poder sobre a conduta dos outros, sabe que alguns agem diferente dele. Não se pretende aqui defender como correta nenhuma das três posturas descritas. Não é raro um indivíduo ser afirmativo em um lugar e não o ser em outro. Uma pessoa pode ser firme e objetiva no seu trabalho, passiva em casa e agressiva no futebol de fim de semana. Também pode ser agressiva em uma ocasião, com uma determinada pessoa, e ser passiva, fraca, em outro momento, com a mesma pessoa. Você, leitor, escolhe a melhor conduta para si, em cada momento, em cada lugar e com cada pessoa, de acordo com o seu estilo pessoal. Provavelmente, não será conveniente sermos agressivos ou afirmativos quando nos defrontamos com um assaltante, de revólver em punho, exigindo o nosso dinheiro ou tênis. Neste caso, sejamos passivos e fracos, do contrário podemos tornar-nos defuntos.

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diAnte de UmA ProVocAçÃo
Todos nós enfrentamos, com alguma frequência, provocações produzidas por nossos inimigos, amigos e até por pessoas indiferentes a nós. As provocações são expressas das mais variadas formas: críticas diretas e indiretas, insultos com ou sem palavrões, ameaças físicas ou verbais, ironias, zombarias diversas, demonstrações de força ou de poder e outras variedades de agressões. O insultante tem como objetivo essencial provocar uma resposta negativa na pessoa-alvo, caracterizada por medo, raiva, desapontamento, sentimento de inferioridade ou de revide. Em outras palavras, o agressor espera uma resposta padronizada, ditada pelo modelo social, semelhante à manifestada por ele, o provocador. Fico perplexo, em meu consultório, ao ouvir queixas dos meus clientes quanto às mais diferentes formas de se revidar uma agressão. Quase todos os agredidos - pasmem, caros leitores - dão exatamente as respostas desejadas pelo autor da ação. Respondem ao insulto com uma carga emocional negativa, com grande sofrimento físico e mesmo com alguma confusão mental. Na realidade, o agredido faz exatamente o “jogo” desejado pelo agressor. Não sei explicar precisamente por que isso ocorre. Acredito que essa rigidez de resposta, essa falta de jogo de cintura tem origem cultural: foi aprendida como um valor a ser seguido. Costumo sugerir aos meus clientes revidarem à agressão com respostas diferentes das usuais e presumidas, recorrendo a “lances” inesperados, como sor-

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rir para o agressor, olhá-lo sem nada dizer. Percebo, então, da parte deles, uma reação de quase indignação, pois, ao agir deste modo, de acordo com seus valores, estariam fazendo um papel de idiotas. A regra seguida é: “se sou agredido, devo ou preciso reagir da mesma maneira”. Quase nunca passa pelas mente das pessoas que é exatamente isso que o provocador deseja de nós: sentirmos raiva, como ele provavelmente está sentindo, ficarmos frustrados, enfim, sofrermos como nosso incitador. O indivíduo pensa frequentemente que perderá seu amor próprio caso não reaja ao insulto, atacando o provocador através das mesmas técnicas utilizadas por ele. Ora, na verdade, se quisermos agradar ao nosso agressor, nada mais correto do que agir dessa maneira, pois assim o estamos recompensando. Porém, se o nosso desejo for o oposto, isto é, não entrar no seu “jogo”, o mais indicado será fazer exatamente o contrário do desejado e habitual. Imaginemos uma cena comum de rua, onde o nosso carro é “fechado” e recebemos de lambuja alguns palavrões da nossa sexualidade ou de nossa progenitora. O que deseja o prezado motorista desafiador? Nada mais, nada menos, do que uma resposta à altura, expressada com os mesmos gestos, os mesmos tons de voz e até com os mesmos nomes feios. Imaginemos então um agredido não “ligado” na arte de brigar no trânsito, muito mais ativo do que reativo e mais dirigido por si mesmo do que pelos estranhos, ou seja, com respostas próprias e não controladas pelas pessoas que encontra. Ao dar uma resposta totalmente diversa da aguardada, nosso amigo colocará o brigão totalmente confuso. A pessoa pode, em lugar de revidar à agressão, apenas sorrir (ou não mudar a fisionomia), observar as notáveis contrações faciais do agressor, seguir o seu caminho sem nada dizer, ou até mesmo pedir-lhe desculpas, num tom de voz doce, por ter impedido o brigador de obter a primazia desejada. Existem outras respostas semelhantes. Tais respostas, diferentes das comumente aguardadas, quebrarão certamente a segurança do agressor, já que ele não esperava por aquela conduta e ao se deparar com o novo “lance”, não saberá como dar continuidade ao jogo.

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Em resumo, aprenda a se livrar de antiquadas maneiras de agir usadas apenas por serem familiares e socialmente valorizadas, mas que são, na verdade, improdutivas, dolorosas e perigosas, levando a pessoa a ser, no momento da querela, dirigida pelo agressor, pelo indivíduo do qual gostaria de estar bem distante, talvez até vê-lo morto.

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PAssAndo Um teLegrAmA
- 0880........ - O número discado está errado - 0880.... - Para telegramas fonados disque 1, para envios de sedex disque 2, para... disque 3, para outros serviços disque 9 - 1... - Para telegramas fonados disque 1; para envios de sedex disque 2, para... disque 3... - Os correios agradecem sua ligação. Em que posso servi-lo senhor? - Desejo passar um telegrama. - É internacional, nacional, estadual ou municipal? - Municipal, Belo Horizonte. - Qual o DDD? - 31, Belo Horizonte. - Com quem eu falo? - Gabriel Marques. - Qual o DDD? - 31, Belo Horizonte. - Qual seu nome completo? - Gabriel Garcia Marques. - Gabrela é com K? - Não! É Gabriel com G, GABRIEL

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- Qual o endereço completo de quem está passando o telegrama? - Rua da Esperança número 1000. - É apartamento? - Sim, no. 380. - Qual o cep? - 48902-007. - Qual cidade? - Belo Horizonte, já falei! - É nacional? - Sim, claro. - Qual o DDD? - 31. - E o número desse telefone? - Já disse! O telefone que estou falando 3001-2288. - Para quem está passando? - Maria Filomena da Paixão. - Qual a rua? - Rua dos Sofredores, no.1. - Bairro e cep? - Céu Azul, cep 12345-678. - Qual cidade? - BELO HORIZONTE, já disse. - Meu senhor, temos que perguntar de novo! - Certo. - Qual seu telefone, cep e DDD? - Já disse várias vezes. - Temos que confirmar. Faz parte do serviço, da nossa tarefa. - O telefone é 3001-2288, o cep 48902-007. - Qual seu nome senhor? - Gabriel Garcia Marques. - Com K? - Não! Com G! quantas vezes terei que repetir! - O senhor quer confirmação? - Não!

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- Quer marcar a data da entrega? - Hoje! A formatura é hoje. - Quer mandar flores? - Só na minha morte, uma coroa. - Quer mandar cantores? - Não. - Qual a mensagem? - Parabéns, votos de felicidades na profissão. - Quem assina? - Eu. - Nome? - Gabriel Garcia Marques. - Qual cidade? - Aqui, Belo Horizonte. - Queira, meu senhor, por favor, repetir o seu cep, DDD, número deste telefone, endereço completo: rua, número e bairro. - Já disse. - Mas é uma formalidade: é preciso repetir, para que eu confirme. - NÃO! Desisto! Anule o telegrama! Fica mais fácil comparecer à baderna da formatura do que....

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o seQUestro dA cAmisA ListrAdA
Fim de semana. Nos sábados e domingos, como sempre, há muitos e muitos anos, visto minha velha e surrada camisa branca com oito listras horizontais, finas, azuis e amarelas. Eu percebia que ela estava ficando desbotada, alguns orifícios começaram a aparecer e, além disso, foi abrindo uma grande abertura junto ao meu peito, bem ao lado do coração. Compreendia que, com a idade e também com muito trabalho, ela não mais suportava os “embates da vida”. Aos poucos, para o meu pesar, foram nascendo diversas feridas em sua pele, que não mais cicatrizavam, por mais que ela fosse levada ao “hospital” para receber alguns pontos. Numa segunda-feira triste de outubro, perto do aniversário de minha camisa, a antiga lavadeira, grávida de nove meses, entrou de licença. A nova lavadeira, uma moça dengosa e alta, decidida e afirmativa, logo após tocar o interfone, passando por mim quase sem cumprimentar, subiu as escadas rapidamente dirigindo-se até a lavanderia para começar o novo trabalho na minha residência. A lavadeira antiga conhecia e amava, como eu, minha camisa. Tinha por ela uma ternura especial. Eu sabia, mas não demonstrava, que ela a protegia. Era lavada e passada com mais cuidado e carinho, estava fraca, doente e, além disso, era mais “idosa” que as outras. Eu, como a antiga lavadeira, sabia dos problemas de saúde da camisa listrada e, por isso mesmo, a vestia com cuidado, em momentos especiais e calmos, não só para que ela percebesse sua utilidade, mantivesse

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sua autoestima e autoeficácia, mas também para que ela, sem se sentir abandonada e esquecida, exercitasse e convivesse um pouco com o mundo externo à gaveta. Eu e ela, nos fins de semana, recordávamos, abraçados, os fatos bons e ruins vividos juntos. Preocupado com a nova lavadeira, atento às possíveis reações dela para com a minha amada camisa, estava apreensivo, receava que, sem conhecê-la, ela pudesse maltratá-la, ou, no mínimo, não dar à camisa a atenção merecida. Há muito a camisa listrada fazia parte da família, tinha ligações estreitas comigo, minhas filhas e parentes mais chegados. Sabia que para a nova lavadeira a camisa não tinha história e, sem história, ela nada significava, pois nenhum fato vivido pela camisa se ligava a outros eventos existentes na vida da lavadeira. Não era uma camisa bonita de chamar a atenção e nem metida a sebo. Era simpática, nem larga nem apertada, abraçava-me com a suavidade e meiguice de quem conhece e ama o companheiro. Ela encostava-se ao meu tórax com carinho, sem apertar-me. Tocava-me suavemente quando precisava e às vezes massageava minha pele sofrida e carente. Conhecia, como ninguém, meu corpo quente e amigo. A camisa era calma e tolerante, não agredia abertamente, gostava mais de uma ironia suave, um sorriso ou de um elogio gozador. Minha camisa era superdiscreta e confiável. Eu e ela guardávamos nossos segredos diante de experiências vivenciadas juntos, que não podiam, ou não deviam, ser contadas pra qualquer um. Mas nossa relação não era constituída apenas de segredos. Minha camisa, ajudando-me, testemunhou e partilhou de diversos acontecimentos bons e ruins, alegres e tristes. Foi cobrindo meu corpo que ela, amedrontada, enredada no meu peito, viu nascer minha primeira filha. Anos depois a segunda, lá na Maternidade Otaviano Neves. Participando dos mesmos eventos, pouco a pouco passamos a gostar e odiar as mesmas coisas. Na maioria das vezes, ela me dava sorte, levando-me a usá-la diante de situações especiais e complicadas. Sabia respeitar uma e outra cerimônia, pois sempre foi bem educada e civilizada. Mas a camisa listrada não participou apenas dos fatos bons, ela acompanhou-me

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também, com toda a dedicação e sensibilidade, durante as situações tristes vividas por mim: a doença, morte e velórios de parentes próximos e amigos. Como ela acabou fazendo parte de minha vida e das minhas conversas, muitas e muitas vezes, nos meus papos com amigos, me referia a ela, contando seus modos, idiossincrasias, gostos e até mesmo julgamentos. Quando me referia à camisa para outras pessoas, ou também nas conversas solitárias comigo mesmo, batizei-a com uma frase, não com um só vocábulo. Chamava-a de “a camisa branca de listras horizontais”. Sei que era um nome muito simples, pensei até em chamá-la de “A Globo”. Desisti: ela não gostou do nome. Quando eu lhe contei meu desejo, ela confidenciou-me, educadamente, que “A Globo” era um nome muito sofisticado e ela preferia ser chamada pelo apelido, pois já se acostumara a ele. Quando convidada, acompanhava-me sem se irritar para qualquer lugar. Além disso, não tinha ciúme, pois não insistia em continuar abraçada ao meu corpo quando era chegado o momento de largar-me por instantes ou dias, para dar lugar a uma ou outra camisa, às vezes mais bonita e faceira que ela. Costumava me dar conselhos: “Cuidado! Não vista aquela vermelha. Não lhe fará bem”. Eu não sabia e nem perguntava os motivos de sua preocupação. Era uma camisa de verdade. Sentindo o prazer de seu tecido alisando meu corpo cansado e envelhecido, juntos e isolados do mundo, somente eu e ela, olhávamos nos fins de semana, no sossego e calma do terraço, a cidade esfumaçada, agitada e distante, lá longe. Sábado, como sempre acontecia nos fins de semana, fui à sua procura na gaveta onde ela me esperava limpa e cheirosa, pronta para o abraço gostoso e singelo daquele dia especial. Tranquilo, imaginando o encontro carinhoso das tardes de sábado, o momento de aconchegar-se em torno do meu corpo, abri a gaveta sorridente e alegre. Assustei-me! Ao procurá-la, não a encontrei! Tornei a procurá-la. Nada! Comecei a ficar em pânico. Onde estará minha camisa branca de listras horizontais? Será? Imaginei o pior. Abri afoitamente uma por

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uma as gavetas onde encontrei outras e outras companheiras: azuis, brancas, vermelhas, listradas diversas, mais largas, apertadas, de mangas compridas e curtas, velhas e novas, mas todas sem a história dela, uma história especial e única. Ela não estava em lugar algum. Dois dias depois, afinal, chega a segunda-feira. Espero inquieto, olhando pela vidraça, a lavadeira nova e malvada. Toca o interfone. Junto à porta de entrada, aguardo sua entrada. Altiva, pisando duro, ela cruza a porta, espichando o pescoço e olhando para cima. Bruscamente, irritado com sua postura de superior ou indiferença, perguntei-lhe se se lembrava da camisa. Soberba e insensível, a lavadeira, ignorando minha angústia enquanto subia, com passos largos e antipáticos, a escada em direção à lavanderia, resmungou de forma quase inaudível: - Uma camisa toda esburacada... feia e velha, desbotada, que não mais prestava para nada, esgarçada... Ao virar o rosto em minha direção, via-se claramente que seu olhar era de deboche. Ela criticava-me por me preocupar com artigo tão inútil. Fiquei com vontade de pular em seu pescoço grosso e, ao mesmo tempo, estava confuso por demonstrar, abertamente, minha preocupação por um artigo tão desprezível para ela. Por outro lado, sentia culpa e raiva de mim mesmo por estar envergonhado por demonstrar, diante da lavadeira, meu amor à camisa. Após respirar fundo, com muito custo, tomei coragem e decidi falar grosso: - Sim, ela mesma! Gostava muito dela! Falei o mais claro que pude, ao perder a vergonha de demonstrar meu afeto à camisa. Meus sentimentos de culpa acabaram-se e continuei, quase gritando: - Onde você a colocou? - Sei, não, senhor. Não prestava pra mais nada.... não sei se pus no lixo, ou se a rasguei para limpar a pia. Nem pra isso ela servia. O pano era ruim. De repente, voltando a caminhar, arrematou: - Por quê? O senhor usava aquilo? Falou zombando, dando um risinho maroto.

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Saí rápido, antes que perdesse a cabeça. Fui até o cesto de lixo, sonhando poder encontrá-la. Nada! Não estava lá. Desci as escadas correndo. Eram nove e cinco e o caminhão de lixo passava mais ou menos nesse horário. Quem sabe? Não havia mais lixo, tudo estava vazio, não havia mais a camisa branca de listras horizontais, mais nada! Solucei, desolado. Assim foi decretada a morte, o fim de minha querida camisa. Ela não mais foi encontrada, nem para ser enterrada, cremada ou guardados suas restos finais, como lembrança de nossas relações e história. Uma camisa que fez parte de minha vida, simbolizando fatos que presenciei e vivenciei. Para minha nova lavadeira, a amada camisa nada significava, era apenas um pano velho e inútil, que merecia ser rasgado, um trapo sem valor, uma qualquer, uma porcaria que não provocava lembranças de nenhuma espécie, nem boas nem más. Para mim, a camisa era parte de minha vida, recuperava memórias alegres e tristes, conversava comigo coisas que só nós dois sabíamos: as dificuldades e brigas que tive, as esperanças, tudo isso e muito mais. Ela significava, só para mim, lutas, vitórias e derrotas, uma bandeira representando várias fases e aspectos de minha autobiografia. A lavadeira, sem ter criado nenhum vínculo com a camisa, a classificou como um tecido desbotado e furado, uma fazenda rasgada e envelhecida, sem valor, um pano que não tinha nada para contar e nada simbolizava. Coitada de minha camisa, seu fascínio foi ignorado por quem não a conhecia. Percebida por um ângulo genérico – pano – e não por um singular – uma camisa com uma história – ela foi desvalorizada. A lavadeira a olhou sob um ponto de vista diferente do meu, a considerava sob um aspecto imediato, prático e simples. Sob essa visão, a camisa não possuía uma identidade própria, não tinha valor e significado. Por tudo isso, para a lavadeira minha amada camisa merecia ir para o lixo, pois não servia nem para lavar a pia. Pobre de mim! Perdi um pouco do meu passado, de minha memória. Quanta dor!

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os FAtos PodiAm ter sido oUtros
Todos nós sonhamos com a possibilidade, impossível por sinal, de conseguir mudar alguns fatos anteriores de nossa vida, que aconteceram e foram transformados em outros. O que você e todos nós não faríamos, para transformar certas ações feitas, em outras, pois após realizá-las você se arrependeu amargamente? O povo fala: “ninguém é perfeito”. Assim sendo todos nós já, anteriormente, fizemos nossas bobagens, diversas delas durante nossa passagem pela terra. Alguns sentem-se terrivelmente arrependidos de terem largado os estudos e queixam-se de que ninguém nada fez para dissuadi-los disso. Outros lamentam um casamento muito cedo, que estragou todos os seus outros planos. Há ainda os que se arrependeram de ter mantido uma amizade por muitos anos, quando o melhor teria sido mandar “para o inferno” o “amigo urso” de longa data. Muitos, por fim, amaldiçoam a hora fatídica do trágico encontro que resultou numa gravidez, um filho nascido num momento terrível de sua vida e que jogou por terra todas suas belas fantasias. A psicologia costuma chamar esses arrependimentos de “pensamento contrafactual”, que nada mais é do que o nosso desejo de mudar o que aconteceu no passado. Como o mundo corre, independente do que queremos, muitas vezes um pequeno, simples e tolo fato não pensado, não desejado e nem necessário, surge e muda para sempre nossas vidas. Um escorregão numa casca de banana dará origem a um novo e árduo caminho, sem que nada mais possa ser feito. Fica destruída para sempre uma

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trajetória delineada e amada anteriormente. Pensando nos meus escorregões, nas minha burradas pela vida afora, lembrei-me do meu encontro ocasional com Adamastor. Esse meu amigo de infância tinha uma vida traçada para ser uma pessoa feliz. Alegre, bonito, rico, conheceu a filha do colchoeiro. Após certos fatos, a princípio sem importância, foi abrindo um caminho para uma vida distante, penso que sem que ele quisesse, da outra que imaginava que ia ter. Eu caminhava, a mando do cardiologista, fazendo o cooper, quando encontrei-me com ele. Achei-o envelhecido. Fiz os descontos, pois sei que nós sempre achamos o outro mais acabado do que nós mesmos. Como nos acostumamos a ver no espelho todos os dias, acostumamo-nos com cada sinal terrível da idade, da velhice, que só não atinge aos que morrem cedo. Fiquei tão preocupado com a idade, que ia me esquecendo do Adamastor. Fomos colegas no colégio e também do futebol de várzea. Nem eu nem ele fomos craques, nem de futebol, nem de estudos, pois estudávamos para passar e jogávamos para nos divertir. Entretanto não éramos os piores da sala ou do time. Um dia, um dia como os outros, quando Adamastor era ainda jovem... Esqueci de dizer que ele era um dos poucos do grupo de amigos, cuja família tinha algum dinheiro. Falava-se, entre nós, que seu pai era fazendeiro rico no norte de Minas. Nas nossas conversas, e assim era todo o grupo, ninguém contava sua vida familiar e os segredos para ninguém. Essa regra implícita era adotada por todos. Não havia proibições explícitas, mas uma norma que todos acatavam, respeitavam e que não podia ser burlada. Havia certos fatos que, se fossem ventilados, iriam ferir os amigos do futebol. Assim é que nosso glorioso goleiro tinha uma irmã que, já naquela época, era uma “massagista” ocasional. O Cidinho, que morreu de tanto beber, tinha uma irmã que “’fazia vida” abertamente. Havia indícios, não discutidos, que sua mãe também seguia a mesma profissão, apesar da idade. A mãe de Cidinho não trabalhava, e, possivelmente, vivia de parcos trocados ganhos de homens amigos que a visitavam, à noite, no seu velho barraco da vila Maria Brasilina,

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iluminado com luz de querosene. Nunca discutíamos esses assuntos, apesar de que todos os conheciam. Voltando ao Adamastor. Este, quando era ainda ginasiano, foi fisgado pela filha do colchoeiro. Lucélia era uma bela morena, ou mulata, isso não importa. Era desejada por todo o grupo, nunca para namorar, apenas para se fazer um excelente programa. Espantamo-nos quando vimos Adamastor de mãos dadas com Lucélia diante de todos. Orgulhoso do que fazia, de fato, gerava inveja. Pensei, inicialmente, que devia ser uma paquera sem maiores consequências. Fiquei pensando como é que ele havia conseguido ganhar a disputa com os companheiros de grupo. Mas as pequenas diferenças foram, pouco a pouco, trazendo grandes diferenças à vida do Adamastor. A vida dele foi mudando à medida que sua paixão pela filha do colchoeiro aumentava. Primeiramente ele abandonou os encontros com os companheiros e, mais tarde, largou o futebol. Depois abandonou os estudos e, a cada dia mais, sua vida girava exclusivamente em torno de Lucélia. Esta também mudou. Já não era a jovem livre e alegre de outros tempos.Tornou-se uma donzela séria, não mais dava bola para ninguém do bairro. Após um curto período de dedicação exclusiva e de muita paixão, Adamastor deu mais um pequeno escorregão, provavelmente não desejado e não programado. Um pequeno fato existente sem os cuidados necessários transformou de vez a vida de Adamastor, produzindo “uma grande diferença”. O inevitável ocorreu, Lucélia foi deflorada. Como era chamado na época, Adamastor “fez mal” a Lucélia. Nesse tempo, diferente dos tempos modernos, o costume obrigava o suposto autor a casar-se com sua “vítima”. Neste caso que relato, havia dúvidas quanto ao autor denunciado, ou seja, o réu. Sua boa vida foi decepada para sempre. Adamastor, que nunca havia trabalhado, passou a fazê-lo. Ele, que sempre tinha algum dinheirinho sobrando para comprar um doce ou ir ao cinema, teve que economizar. Os fatos negativos, como uma pequena bola de neve, foram se acumulando. Sem alternativa, e em sérias dificuldades financeiras, Adamastor mudou-se da pensão razoável onde morava, para

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o barraco existente nos fundos da colchoaria do seu sogro e que era apenas um quartinho para dormir. O banheiro era fora da quarto e não havia cozinha e nem sala. Adamastor passava parte do dia ao lado da esposa grávida. Esta, uma vez assim, foi despedida do emprego de vendedora das Lojas Americanas. Nas folgas dos cuidados dispensados à esposa, vendia doces a domicílio para as famílias amigas, fabricados por ele e sua mulher, e à noite era porteiro da Associação Comercial. Tentou voltar aos estudos, mas foi impossível e os largou para sempre. Foi abandonando, progressivamente, outras metas anteriormente planejadas e tidas como certas para ele. Incentivado sempre pelo seu pai, sonhou em ser advogado na área criminal, ser famoso, rico, participar de júris com criminosos conhecidos, aparecer nas notícias dos jornais, ter diversas mulheres apaixonadas por ele. O mundo imaginado e esperado foi sendo substituído por um mundo frio, feio, monótono, pobre, chato, sem sabor, poderoso e exigente. Adamastor foi sucumbindo às pressões dos fatos que o obrigaram a ganhar dinheiro para pagar as dívidas. A cuidar dos filhos que foram nascendo, que tinham dor de barriga, tosse, diarreia, choravam, riam, pedindo companhia. Da mulher que o vigiava, desconfiava dele e gastava o que não podia. Da família dela, com problemas de alcoolismo, de seu pai e da hipertensão da sogra. Os sonhos foram desaparecendo, dando lugar à realidade de todo o dia. Adamastor transformou-se num escravo das exigências do cotidiano, num ser dedicado exclusivamente a resolver, prontamente, os entraves constantes de sua vida. Não tinha mais tempo e nem mesmo capacidade para pensar acerca de si mesmo. Foi, aos poucos, deixando de lado o que sonhara e vivendo as exigências do mundo externo. Cada vez mais o mundo imaginado tinha menos importância do que o outro, o dos outros e dos eventos. Seus desejos e sonhos, aos poucos, foram ficando encostados, vivendo apenas na memória passada. Ele começou a dedicar-se integralmente à manutenção da relação iniciada com um namoro aparentemente sem consequências.

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Naquela tarde, abandonei meu cooper para ouvir o desabafo de Adamastor. Eu, que não havia casado, tinha dificuldade de entender sua prisão dentro de uma família, senti que, ao ouvi-lo, com paciência e até piedade, deixava de lado minha caminhada das tardes. Pensava em como escapei várias vezes dessa vida de que sempre tive medo, ao vê-lo relatar, com voz embargada, seu arrependimento, suas amarguras e a sua vida há muito inútil e sem rumo, sua vontade de nunca ter feito aquilo. Mas notei uma certa satisfação no seu semblante de ter uma família para abrigá-lo à noite. Voltei para casa para curtir minha liberdade sem ter seus problemas e, talvez também, sem ter o que fazer...

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A PrisÃo domiciLiAr nAs grAndes cidAdes
Uma parte da população das grandes cidades encontra-se presa. A chamada classe média talvez nem saiba que ela própria decretou sua prisão domiciliar. Certas famílias pagaram um pouco mais caro para habitar prisões de segurança máxima, mais novas e talvez mais bonitas. Uma vez morando nelas, não podem colocar a cabeça fora ou andar tranquilamente pelas ruas e, em muitos locais, só podem sair de casa através da fuga. Para escapar do possível assalto, antes de sair de casa, o cidadão examina, pela câmera ou a fresta do portão, com extremo cuidado para não ser visto, se há alguém suspeito por perto. Só então ele entra no automóvel que se encontra na garagem. Estando a rua sem riscos aparentes, o carro bem fechado, o motorista, muito atento, aciona o “controlador da prisão”, abrindo, com ansiedade, o portão que vai expô-lo aos perigos da rua ameaçadora. O carro sai em disparada, escapa como pode, antes que seu proprietário seja roubado, assaltado ou assassinado. Algumas famílias mais precavidas e privilegiadas, residentes em casas – elas são mais perigosas - contratam vigilantes permanentes que espreitam, dia e noite, tanto os possíveis assaltantes, como os movimentos dos donos da casa: suas idas e vindas, a hora em que chegam e saem de casa e também do banheiro, que hora dormem e quando acordaram à noite para fazer pipi. Assim, consegue-se uma segurança e controle quase total. Troca-se o possível e ocasional assalto, pela continuada observação e interpretação da conduta da família

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pelo vigia. Algumas famílias aprisionam-se em pequenos apartamentos cercados por grandes edifícios, onde o sol só aparece por poucos minutos. A ideia enfatizada pela sociedade, transmitida como conselho para todos os “detentos” é: “Tenha cuidado ao andar pelas ruas, principalmente parar e caminhar devagar. Ao sair - a não ser que desejem perder o seu suado dinheiro ou mesmo a sua preciosa e, às vezes, inútil vida – você deverá, rapidamente, entrar numa outra prisão semelhante como cinemas, barzinhos, teatros ou lojas comerciais. Nesses há menos perigo de ser assaltado “. Uma vez no mundo selvagem das ruas e praças, ficamos frente a frente com os perseguidores, que são diversos: os temidos pivetes, estupradores, trombadinhas, vendedores, assaltantes, mendigos, camelôs, maloqueiros, perguntadores suspeitos e desconhecidos que desejam contar-nos sua vida, veículos em disparada, pregadores religiosos, objetos, cuspe e fezes lançados dos prédios, propagandistas ambulantes, sequestradores, vigaristas, etc. Mas há também, às vezes, perseguidores-fantasmas que habitam nossa mente, como os assaltantes inexistentes, elevadores que vão cair, bombas que explodirão, gente nos observando ou livros com ideias estranhas escritas por pessoas que pensam diferente de nós. As grandes cidades impõem suas regras, aniquilando o indivíduo, se esse se descuidar. Quase sempre, sem querer, o perseguido colabora com o perseguidor, seja ele fantasma ou real. Uma boa parte dos habitantes não só se submete à estrutura desumana das metrópoles, como, com frequência, ainda a aplaude, engrandece e se orgulha de fazer parte dela. É difícil saber se a nossa posição ou a nossa atitude está nos favorecendo ou se estamos ajudando o “inimigo” desconhecido. O jogo é extremamente complexo. Torna-se cada dia mais difícil driblar todos esses obstáculos. Uma boa parte da população desistiu da luta, não mais a enfrenta, sucumbiu, presa ao jogo do adversário. Esses não mais sabem onde querem chegar, para onde vão. Encontram-se sem rumo e, como disse o gato

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para Alice, no livro “Alice no País das Maravilhas”: - “Se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve”. Passando pela rodoviária, num desses fins de tarde de sexta-feira confusos e irritantes, observei um homem assentado numa das cadeiras da sala de embarque. Vagarosamente ele preparava um cigarro de palha. Ao seu lado, havia uma mala amarela simples. Ele parecia estar indiferente ao tumulto à sua volta. Tive inveja dele. Não pude, na minha correria, deixar de fantasiar: “daqui a pouco ele estará no ônibus que o levará à sua cidadezinha, talvez até seja Santa Maria de Itabira. Ele terá no ônibus tempo para conversar calmamente consigo mesmo, de pensar o que quiser, fazer ou não fazer várias coisas que sua mente mandar. Talvez viva numa cidade calma, vendo, todos os dias, o verde do campo, observe vacas pastando e possa ouvir uma chuva tranquilizadora. Lá, bem longe daqui, poderá andar e falar com calma. Lá não há pressa, seu relógio de pulso é um enfeite, seus compromissos não têm horas rigidamente marcadas, podem ser adiados até para dias ou semanas depois. Na sua casa as portas e as janelas ficam abertas, à tardinha, ele e sua mulher debruçam-se no peitoril e observam os amigos passando, todos conhecidos, e a todos ele cumprimenta sem discriminar ricos, pobres, negros, mulheres ou crianças. De quando em quando, poderá ir até o quintal saborear uma manga e oferecê-la, de graça, ao vizinho e amigo. Poderá sair à rua sem medo de fantasmas, parar em qualquer esquina, entrar e sair de onde desejar. Quando a noite chegar, ele dormirá tranquilo sem pensar em ladrões, sem ser incomodado por algazarras e barulho de freadas no asfalto. Ouvirá sonolento em sua cama, de quando em quando, o berro de um bezerro recém-nascido ou, mais distante, o latido dos cães. Acordará com a claridade do sol, o cantar dos galos e não com ruídos barulhentos dos ônibus, caminhões e carros. Fui despertado do meu devaneio ao presenciar um carro, na avenida Paraná, jogando um senhor no asfalto. Meu sonho acabou... Eu me permiti essas divagações para lembrar-me, e também, quem

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sabe, ao leitor, que talvez haja alguma maneira diferente de viver. Quis retratar um contraste. Peço desculpas por ter talvez imaginado um paraíso diante do inferno onde moramos, mas acredito que devem existir modos mais humanos para construir a difícil e trabalhosa arte de viver, além da do cárcere privado. Parece-me que a massificação impede essa criatividade, forçando todos a serem semelhantes, normais e uniformizadas, de tal forma que a maioria das famílias, nas grandes cidades, segue um mesmo modelo. Os mais velhos, coitados, esses quase não mais saem de casa. Suas vidas restringem-se a comer, dormir, ver TV e, principalmente, tomar de manhã, à tarde e à noite grandes quantidades de comprimidos para as suas dores diversas, outras para o “coração” e para dormir. Os de meiaidade trabalham incessantemente e, nas folgas que existirem, divertem-se sem parar após se embriagarem. Os jovens, trabalhando, estudando ou não fazendo nada, seguem a última moda de qualquer ídolo fabricado e, com eles se identificando, sentem-se alguém. As crianças obedecem: as de maior poder aquisitivo estudam nos “melhores” colégios, fazem mediocremente ginástica, dançam balé ou tocam algum instrumento. Nas folgas, assistem aos programas chatos para crianças e outros da mesma espécie. As de menor poder econômico tentam imitar, sem grande sucesso, algumas mazelas das crianças ricas. Talvez dentro dos cárceres privados viva uma família “feliz”. Todos estão cercados por vizinhos, colegas e companheiros que fazem as mesmas coisas, pensam do mesmo modo e têm os mesmos valores, de acordo com as classes a que eles julgam pertencer. Passeiam e tiram férias, nos locais “em voga”, conforme sua posição social. Isolados, mas unidos fisicamente, cada um desses indivíduos, nos seus apartamentos, pobres ou ricos, ou nas mansões, todos, como autômatos e sem o saber, fazem as mesmas coisas: contam as mesmas histórias, cantam a mesma letra da música, leem os livros mais vendidos e assistem e discutem, emocionados, à última novela. Cada um desses espetáculos é mais comentado e mais vivido do que os fatos de

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suas próprias vidas, que, possivelmente, há muito se perderam. Sua consciência, excelente crítico que é, filtra e censura toda e qualquer ideia estranha que possa fazer desabar a sólida estrutura mental e ideológica construída pelo grupo que o cerca. Os que pensam, vivem e se comportam diferentemente são discriminados como tolos, jecas, bregas ou outros termos pejorativos. Assim, o equilíbrio é mantido.

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FAnFArrA PArA Um Homem comUm
Na manhã daquele feriado vazio, ao ler as propagandas anunciando a fantástica liquidação, os olhos do adorador de produtos brilharam diante das belas e coloridas imagens. Agindo como mãos protetoras e estimulantes, ícones potencialmente maravilhosos socorreram o desvalido consumidor, transportando-o para o porto amigo, seguro e conhecido. Reanimado após desvencilhar-se do tédio das manhãs sem trabalho, ele assimilou energias novas para suportar sua vida sem importância. A injeção mágica, aplicada à distância pelo executivo ou dono, introduziu no organismo plástico e débil significados importantes. Animado, realizadas as anotações necessárias, o consumidor telefonou para os mais chegados, relatando as vantagens da liquidação, as ofertas imbatíveis e as compras planejadas. Tudo devia ser feito o mais rápido possível: eram apenas 500 calcinhas para milhares de compradores. Nem só disso vive o consumidor aflito e bem treinado pelos Pavlovs, Skinners e Watsons dos tempos modernos. Ele carrega consigo outros interesses, tão importantes como as compras planejadas com entusiasmo. Uma vez ou outra, sem tirar sua mente das propagandas, como aperitivo, ele penetra com avidez e a fundo na vida íntima de alguns de seus deuses preferidos. Devorando cada detalhe, fungando, tendo os olhos bem abertos, ele esforça-se para encontrar, fora de si, um modelo inspirador para sua desvalida vida. Detecta e memori-

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za, com um imenso entusiasmo - que não tem para si mesmo - cada atributo insignificante da vida do ídolo que possa lhe servir de guia. Ludibriado, aplaude o poder e o exibicionismo distante de seus proprietários, donos disfarçados de amigos. Ele sonha em participar de uma realidade distante que jamais encontrará. Condicionado de modo eficaz pelos adestradores, como cobaia mansa, domesticada e resignada, pateticamente come gato por lebre, imaginando poder se transformar no inacessível modelo jovem, bonito e elegante, usando a loção para a barba anunciada, lavando o rosto manchado de cimento e ferrugem com o sabonete cheiroso propagado. Treinado e educado para jamais criticar os poderosos, chefes, ídolos e santos, e também sendo proibido de ter consciência do seu estado desprezível, esse ser humano infeliz, possivelmente foi contido muito cedo e reprimido por um pai ou uma mãe nervosa e mandona, que instituiu um modelo de obediência total, sem questionamentos e sem críticas. Essa potente marca, imprimida precocemente, dominou o frágil cérebro do nosso amigo para o resto da vida. Hoje seus pais estão muito longe, entretanto, seus rígidos princípios e os sinais indeléveis continuam ordenando com precisão ao filho obediente o modo de agir frente a outros adultos com poderes supostamente semelhantes aos possuídos pelos seus antigos proprietários. Obedecer, obedecer sem saber o porquê, esta foi a regra fixada. Submisso, sai à procura de chefes, políticos, colegas, namoradas, sogras, ídolos do futebol, amantes ocasionais, companheiros da condução, padres e pastores, vizinhos e colegas de trabalho, analistas e cartomantes: qualquer um serve de inspiração para lhe dar conselhos acerca do que fazer, em qualquer área, em qualquer ocasião. Quando escapa dessas ligações, sobrando-lhe algum tempinho, esse indivíduo diverte-se no salão de dança, na festinha familiar, no “shopping”, no casamento do sobrinho, conforme determina a lei do cidadão bem comportado e ordeiro. “Coitado: ele não sabe o que faz”. Bem domesticado pelo meio ambiente cultural, semelhante à “casa dos pais”, controlado e gratificado por todos os lados na apren-

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dizagem estímulo-resposta e pelos malabaristas dos símbolos - gritarias, mulheres e homens jovens e bonitos, frases e mais frases - ele permanece iludido e puro, trabalhando muito e recebendo pouco, em troca de sorrisos e de frases enganadoras, com intenções, quase sempre, opostas às expressadas. A técnica maldita alastrou-se como gripe asiática: fez o cão salivar diante da sirene, confundindo-a com o bife de carne de primeira. A prática perniciosa da venda da burla e ilusão ultrapassou as inocentes propagandas de calcinhas, cremes dentais e cerveja. A “propaganda enganosa” invadiu abertamente boa parte da assistência médica e odontológica - tratamentos espetaculares e caros – alastrou-se como fogo na palha, alcançando as igrejas com suas pregações acerca das salvações milagrosas, representações teatrais, obediência total e dízimos. Germinou com rapidez, dominando praticamente toda a propaganda política e o esporte. Vivemos no mundo da trapaça, vale mais o que simula melhor ser o que não é. Estamos todos presos, cada vez mais afastados do mundo real, talvez, definitivamente perdidos, nessa atmosfera fantástica da propaganda, da venda de ilusões e do virtual. Sem terreno firme para pisarmos, estamos sem “lenço e sem documentos”, atolados no palavrório enganador. Por falta de ensino e experiência, o azarado não aprendeu a distinguir os símbolos (sons e letras) do concreto (da linguiça), pois ainda não se encontram à venda processadores mentais sofisticados, vendidos em 24 suaves prestações, capazes de traduzir os símbolos em coisas e eventos concretos, transformar o mapa em território. Coitado: satisfeito, continuará engolindo os sons e discursos dos outros, ou melhor, seus dejetos, em lugar de vomitá-los, convencido de estar devorando canjiquinha, costelinha de porco, feijão, batatas fritas, queijo e couve mineira.

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os AgitAdos e os sossegAdos
Maria ama seu sossego, seu lar e, às vezes, até sua solidão. João ama a vida agitada, a rua, os botecos, as festas, as novas conquistas e, principalmente, as novidades. Maria não se arrisca, evita novas amizades, cumpre o que promete, é medrosa, séria, minuciosa e pontual. João é boêmio, irresponsável, teatral, alegre, impulsivo, agitado, otimista, simpático e adora o perigo. Maria odeia brigas e discussões. João adora polêmicas e confusões. Maria não bebe e detesta cigarros. João fuma, gosta de um trago e, às vezes, experimenta um “baseado” ou cheira o “pó”. Maria, que era virgem, conheceu João e nunca mais amou ninguém. João, que começou sua vida sexual aos treze anos, amou e ama várias Marias ao mesmo tempo. Maria, cheia de incertezas, pensou muito antes de se casar. João, seguro e despreocupado, casou com Maria sem pestanejar. Todos imaginaram que o casamento não duraria. Mas, após 23 anos de casados, eles continuam juntos e se completam na sua relação assimétrica, pois Maria é dependente, tolerante e presa às suas convicções. Ela conserva, custe o que custar, o casamento que João nunca levou a sério. João é sociável, irascível, ativo, inconstante, dominante, extravagante, desordenado, assertivo, desinibido, gastador e aventureiro. Maria é fria, reflexiva, rígida, inibida, ordenada, cautelosa, tensa, leal, não-empática, envergonhada, preocupada crônica, detesta novidades e sofre sem reclamar.

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Afirmamos que João e Maria são diferentes com respeito ao “ótimo nível de excitação”. Todos os animais, incluindo o homem, têm um certo nível de estimulação interna que os faz sentir bem, ou seja, “estar numa boa”. Quando o indivíduo afasta-se desse nível ótimo, por estar sendo pouco ou estar demasiadamente estimulado, ele sente-se mal e instintivamente busca, através de ações, aumentar ou diminuir sua estimulação, visando a restaurar o seu bem-estar anterior. Entre os modelos explicativos para esses comportamentos encontram-se os do psiquiatra Eysenk (extroversão, introversão), o de Zuckerman (busca de sensações) e o de Cloninger (procura de novidade e fuga do dano). Alguns se autoestimulam tocando campainhas, chutando latas, gritando e brigando, fazendo os pneus “cantarem”, sem medo ou ansiedade, ou seja, prazerosamente. Tornam-se ansiosos nas situações rotineiras da vida, nas sem risco. Esses indivíduos praticam a “roleta russa”, voam em asadelta, mostram os bumbuns publicamente, assaltam, queimam mendigos, matam garçons e índios. Através dessas ações recebem seu “suprimento de energia”, aumentam seu baixo nível de excitação interna. Ligam-se aos partidos políticos radicais da direita ou da esquerda e, nas religiões, são fanáticos. Agridem e matam em defesa de seu deus. O outro grupo, o da Maria, foge das novidades, das grandes emoções, dos sofrimentos e problemas. Para se sentirem bem, precisam trabalhar num ambiente calmo e sem barulho. Seu cérebro está continuamente estimulado, excitado. Na escola são sérios e honestos, até demais, evitam as bagunças e a “cola”, não perdem o ano e têm poucos amigos. São cautelosos na política, “ficam em cima do muro” e seguem um modelo mais tradicional de conduta religiosa. Mas não se assuste, caro leitor, nós somos semelhantes à maioria das pessoas, uma mistura dos dois estilos descritos, podendo ter mais características de um ou de outro modelo. Faço votos para que não seja um extremista.

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oBsessiVos e comPULsiVos
Milton é uma pessoa estranha. Ele nunca pisa nos frisos que costumam separar os lances dos passeios. Se entra por uma porta em uma loja, de forma alguma sai pela mesma porta. Convidei-o para lanchar comigo. Ele lavou as mãos e sem enxugá-las na toalha, balançou-as no ar, exclamando sem graça: - Economizo a toalha. E olhando para as mãos, balbuciou: - Está ventando. Elas secam depressa. Milton tinha medo de toalhas alheias. Após o café, bebemos um vinho. Como se sabe, este propicia o escoamento, sem violência, das fantasias que encobrem os caprichos secretos dos homens. Suavemente seus pensamentos e imagens esquisitas desabrocharam, mostrando uma mistura confusa de valores contraditórios, na luta pelo domínio das ações. Medrosamente, as fantasias singulares abandonaram o esconderijo seguro, para fluírem deslocadas, leves, modificadas, algumas até belas, através de sua voz abafada e nervosa. Sem êxito, procurava as palavras capazes de descrever as situações incomuns do seu mundo: - É... guardo pensamentos estranhos. De uns tempos para cá passei a achar que estou sujo. É um sujo diferente, que não sai com água e sabão, nem é um sujo moral. Não sei lhe explicar direito. Milton, angustiado, procurava os termos. Os conceitos usados nas experiências do dia-a-dia não descrevem com precisão as imagens

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carregadas de emoções. Ele buscou as metáforas. Também essas são pobres para expressar as fantasias, emoções e ideias extravagantes do nosso mundo íntimo. Talvez precisássemos inventar palavras especiais para essas descrições. Milton, tossindo nervosamente, os olhos lacrimejando, prosseguia: - Após imaginar-me sujo, achei que meu corpo sujaria tudo o que tocasse. Assim parei de ir à missa e fugi de todos os frequentadores da igreja. Ah!... Nos domingos aumenta meu sofrimento. Moro perto da igreja, observo, de minha janela, as pessoas entrando e saindo da missa. Sei que é doideira minha, mas enxergo claramente um pó feito de resíduos de hóstias, finíssimo e brilhante sob o sol, dançando ao sabor do vento quente, saindo da roupa dos fiéis. Essa maldita poeira sobe e, lentamente, invade todo meu corpo. Sinto-me, nesse encontro, como se fosse uma lesma repugnante, andando, roçando, penetrando e sujando o corpo sagrado de Cristo. Envolvido pelo pó sagrado, não sei o que fazer. Impotente e desesperado, corro para o chuveiro, numa tentativa tola e vã de limpar-me. O contato da água deslizando morna no meu corpo trêmulo, por mais de uma hora, acalma-me, mas o sujo permanece preso por longo tempo. Debaixo do chuveiro, sou atormentado pela obrigação de contar, minuciosamente, as juntas dos azulejos. Já fiz isso milhares de vezes. Consolei-o como pude, enquanto procurava inspiração no vinho. Disse-lhe que ele apresentava uma ideia obsessiva, isto é, uma ideia intrusa, que invade a nossa consciência sem que a gente a deseje. O seu ato, evitando pisar nos frisos do passeio, é uma compulsão: a pessoa sente-se obrigada a realizar um ritual tolo, sem objetivo definido. Expliquei-lhe que esse comportamento é normal, quando ocorre num grau moderado. Para alegrá-lo, comentei que esse sintoma aparece com mais frequência nas pessoas de nível intelectual e cultural mais elevado. Sabia que dar um nome para o seu relato era pouco. Milton sentiu-se mais seguro. É curioso constatar que as pessoas se julgam protegidas com conceitos, mesmo quando eles não representam uma entidade. Ele prosseguiu:

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- Quase todos os meus irmãos são assim. Uma das irmãs assiste a várias missas aos domingos, por julgar que não se manteve suficientemente atenta nas missas anteriores. A missa, segundo ela, só é válida se assistida sem nenhuma distração. À noite, cansada e culpada, caminha encurvada pelas ruas retornando para casa amargurada, lamentando o pecado cometido. Tenho um irmão que lava as mãos sem parar; isso acabou ferindo suas mãos de tanto serem lavadas. Uma tia, para sair de casa, obriga-se a realizar um ritual esquisito: veste roupas diferentes por quatro vezes, calça e tira três vezes os sapatos velhos, coloca duas vezes os brincos e, por fim, lava as mãos. Só assim ela sente-se aliviada. Minha mãe não dorme sem antes verificar se o gás está desligado ou se a porta está trancada. Antes de se deitar faz um teste para verificar se realmente ela está trancada, mas logo que se deita, imagina que, sem querer, pode ter destrancado a porta ao examiná-la. Assim a inspeção continua noite adentro, parece-me que não dorme. Contei-lhe, para ser empático, casos de clientes. Uma se sentia obrigada a contar as letras da primeira página do jornal. Terminando, imaginava que o número achado podia estar errado e assim novas contagens eram feitas. Um cliente, ao chegar no portão de sua casa, marcava um carro que se aproximava e corria para chegar no topo da escada antes do carro passar em frente da moradia. Outro, ao conversar informalmente com pessoas que considerava importantes, enxergava imagens de cenas sexuais estranhas e sujas com o interlocutor. Milton não ouviu o que lhe contei. Prosseguia sua narração com a voz arrastada de semiembriagado: - Se estou num cinema, imagino-me gritando ou xingando algum palavrão. Num enterro, vejo-me dando gargalhadas, fico suando de desespero. Tenho um sobrinho que adoro, vislumbro-me degolando-o. Com frequência enxergo-me jogando minha avó, que está paralítica, pela escada abaixo. Ao sair de casa, imagino-me sem roupa em plena rua. Outras vezes obrigo-me a fazer somas, subtrações, multiplicações ou divisões com os algarismos das placas dos automóveis. Rapidamente, seja lá que algarismo for, faço as contas necessárias para encontrar

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o número mágico 24, e, instintivamente, xingo-me: “veado, veado”. Eu nunca fui ou desejei ser ”gay “. A noite estava longe, os carros não mais faziam barulho, um vento frio de maio exigia mais agasalhos. Milton continuava excitado pelo efeito do vinho e das recordações que saíam agora mais fáceis. Suas representações mentais, presas no porão, fabricadas com esmero, desfilavam livremente. Indiferente ao frio, Milton falava. Enquanto isso seus dedos curtos, de pontas achatadas, reuniam os farelos de pão caídos na mesa em montículos, para, em seguida, desmanchá-los num ritual inútil. O dia amanhecia, era mais um domingo triste para o meu amigo. Pensei na hóstia, na poeira, no sofrimento criado pelas figuras distorcidas. Despediu-se com um sorriso cansado e envergonhado. Estendeu com asco sua mão em direção à minha. Desceu as escadas, batendo as pontas dos dedos nos canos que cercam o corrimão da escada. Deitei-me, pensando: “Será que fechei a porta da geladeira?”. Levantei-me para verificar.

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tenHA corAgem de ter medo
Medo: - O medo é universal, atinge todos os homens e os animais chamados de irracionais. Dele ninguém escapa. Trata-se de uma emoção caracterizada por uma apreensão, com comprometimento físico, mental e social. O indivíduo que nele se encontra, apresenta falta de ar, palpitações, tremores, músculos fracos, dificuldade para pensar, falar e agir, pois sua criatividade diminui. A pessoa torna-se “abobada” no momento, agindo aquém de suas possibilidades normais. Alguns ficam paralisados durante a crise de medo. A palavra medo tem sido usada num sentido muito geral, abrangendo uma série de quadros que têm origens, significados, evoluções e tratamentos diferentes. O uso do termo “medo” no sentido geral produz confusões e discussões, pois muitas vezes os envolvidos nestas falam de entidades diferentes. Tentarei esclarecer algumas dúvidas. Psicológica e mesmo filosoficamente, o termo “medo” tem sido usado no sentido restrito como uma emoção negativa ou desagradável, com as características já descritas, ocorrendo em todos os animais quando estes se sentem ameaçados por um perigo real ou imaginado. A conduta natural diante do medo será o animal ou o homem fugir do fator causador deste e, caso tenha sucesso, haverá o término da emoção desagradável. Alguns exemplos: percebo algo caminhando nos meus pés descalços, olho e vejo que se trata de um escorpião. Sinto medo e cuidadosa e rapidamente livro-me dele. Ao atravessar uma rua, vejo surgir inespe-

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radamente um carro em disparada, corro e me salvo do acidente ao alcançar o passeio. Termina o meu medo. Fobia: - Há um tipo de “medo” que tradicionalmente tem recebido por parte dos psiquiatras o nome de “fobia”. Nesta, a reação emocional é semelhante à descrita para o medo, mas o objeto provocador da emoção é praticamente inofensivo ou neutro. Um indivíduo percebe algo caminhando em seus pés descalços, vira-se e vendo que se trata de uma barata, corre e grita apavorado. A barata, por si só, não é um inseto ameaçador. Na fobia, o medo é subjetivo, isto é, fabricado pela mente de quem o tem a partir de um estímulo determinado, que é interpretado pelo fóbico como ameaçador. O fóbico, muitas vezes, utiliza as palavras nojento, asqueroso e outras, para classificar e justificar a emoção sentida. Tanto na fobia como no medo o indivíduo tenta escapar da ameaça ou do perigo real ou subjetivo. Doença do Pânico: - Na psiquiatria existe uma doença que tem recebido o nome de “Doença do Pânico”. Trata-se de um quadro clínico “parente” do medo e da fobia, mas com alguma diferença. O fator que desencadeia a reação emocional de pavor no pânico, com frequência não exige estímulo externo denominado ameaçador. A pessoa acometida da doença do pânico pode acordar à noite, (sem estar sonhando), ou estar vendo um programa na TV e, repentinamente, sentir, de forma intensa e duradoura, as reações descritas acima para o medo, com sensação de que morrerá. Não havendo objeto externo identificável, ele não poderá fugir. Poderá, posteriormente, ficar condicionado, isto é, passar mal diante de situações ou objetos que eram neutros (não produziam emoções), mas como a crise foi desencadeada num certo lugar (sala de TV, usando uma camisa azul), a pessoa passa a sentir-se mal nessas circunstâncias. São comuns frases como: “Não posso passar no centro da cidade, me provoca um malestar”, “Quando escuto essa música fico triste”, etc. Em todos esses casos, ocorreu o condicionamento da pessoa. O contrário existe: ficar animado ou alegre diante de um fato ou lugar.

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Ansiedade: - O quarto grupo, com as características do “medo”, atinge todos os mortais. A ansiedade faz parte de todos os quadros clínicos, tanto da psiquiatria como da chamada, erroneamente, medicina orgânica. Quase sempre, quando se utiliza o termo popular “nervosismo”, estamos nos referindo à ansiedade no sentido que descreverei. O estudo da ansiedade não é propriedade apenas dos médicos, psicólogos e sociólogos, mas também dos filósofos, poetas, literatos, ou seja, de toda a humanidade. Ansiedade é um estado emocional, agudo ou crônico, de apreensão, diante do possível resultado negativo de uma viagem, de um negócio, do namoro, de não dormir esta noite, etc. Ansiedade, liberdade e cultura de massa - Esta ansiedade que aqui discuto se liga, intimamente, ao conceito de “liberdade para” no sentido de Erich Fromm. O indivíduo, através de sua consciência, visualiza uma possibilidade de ação ou de mudança, na qual ele passa de um estado já atingido e bem protegido para um desconhecido, ainda não alcançado, incerto ou não-familiar. Ao contrário do medo no qual o indivíduo foge, neste tipo de ansiedade a pessoa a procura, enfrenta ou caminha junto dela, para alcançar o propósito idealizado, para se sentir tranquilo. É uma emoção exclusiva do homem: envolve consciência, hipóteses e previsões para agir ou não. Trata-se de uma ansiedade produtiva, isto é, leva a pessoa ao crescimento. A outra ansiedade, a improdutiva, leva a pessoa à “não-ação”, provocará uma ansiedade neurótica ou patológica, ligada ao sentimento de culpa pela não-realização, pelo não-crescimento ou expansão de si. Desejo esclarecer o leitor que, em alguns momentos, a “não-ação” pode constituir um propósito da pessoa na sua expansão. A criança procura, a qualquer preço, andar, apesar do risco de cair, para desenvolver-se e suplantar uma fase da sua jornada. Mais tarde, quando entra no pré-primário, ao desligar-se de sua família, fica ansiosa, chora, mas cresce ao se expandir e vivenciar novos modos de ser. O primeiro emprego, o primeiro namorado, o afastamento da família protetora, todas constituem crises de readaptações, nas quais a pes-

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soa passa de uma fase mais pobre de desenvolvimento, para uma mais complexa. Esta irá exigir-lhe maior habilidade e competência. Quanto mais o indivíduo for capaz de suportar essas ansiedades, mais ele se desenvolverá. Muitas pessoas ainda pensam acerca das emoções como especulavam os grandes filósofos anteriores ao século XVII. Spinoza acreditava que a ansiedade podia ser abolida por meio do raciocínio lógico – a supremacia da razão – ou da matemática. Para ele e outros, a ansiedade e o medo eram emoções negativas e vergonhosas. Esta falsa crença tem provocado consequências graves: a eliminação da ansiedade produtiva paralisa o crescimento individual. Ao escapar da ansiedade produtiva a pessoa sofrerá, inevitavelmente, a ação da ansiedade neurótica devido ao não-crescimento do indivíduo. Os governos totalitários, a mídia em geral, as religiões e outros hipnotizadores, frequentemente procuram narcotizar e paralisar os indivíduos. Para isso esforçam-se para transformá-los em “grupos de felizes”, incentivando-os a realizarem, unidos, ações tolas e infantis. Esses grupos tendem a aniquilar os sistemas individuais, em proveito de um sistema grupal criado por dirigentes fora do grupo. As pessoas têm duas alternativas com respeito às suas vidas: crescerem, suportando uma carga de ansiedade ao se projetarem para o ainda desconhecido, isto é, para um futuro incerto do vir-a-ser, ou permanecerem estáveis, sem se arriscarem ou sem propósitos próprios. Nesta segunda opção, livram-se da ansiedade criadora ou sadia, mas passam a apresentar sentimentos de culpa e tédio. Têm sido criadas crenças e religiões diversas, ídolos, heróis, mitos naturais e artificiais, para apaziguar e narcotizar esta multidão de necessitados de uma orientação externa, já que não desenvolveram uma interna. A ação da cultura fabricada tem fornecido paz e calma ao indivíduo contra o sentimento de nulidade, mas, ao mesmo tempo, impede o aparecimento da ansiedade produtiva, ou seja, do impulso que força o indivíduo ao crescimento. Ao decretar sua morte como sistema individual, dando-lhe uma orientação externa, nossa cultura

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produz no alegre indivíduo uma emoção inocente, pueril, por fazer parte de um sistema maior, que nunca é questionado, aceito com fé, por pertencer a este ou àquele grupo: “Sou membro do fã-clube de Emilinha”, “Sou médico”, “Sou torcedor do Atlético”, “Sou sócio do PIC”, “Lavo-me com o sabonete Y, o que me faz ser igual aos artistas de Hollywood”, “Moro na zona sul da cidade, janto nos melhores restaurantes e viajo pela...”. Os mitos são seguidos cândida e fielmente por grande parte da classe média. Esta, uma vez hipnotizada, acompanha as mais estranhas sugestões e prescrições dos seus donos. Aquele que ousa escapar do cabresto é marginalizado do grupo ideológico, ou mesmo internado como louco nos hospícios. O seguimento hipnótico das ideologias míticas, consumidas por quase todos atrás dos modismos, das últimas novidades, da última casa noturna aberta, buscando a relação sexual mais moderna e com a mais recente aquisição da boate, confere-lhe o direito de seguir sua trajetória no mundo, sem culpa e ansiedade, sem reclamar e questionar. A massa que se submete ao novo modelo do penteado seguirá, talvez um pouco mais animada, o novo político salvador de vidas perdidas.

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A triste HistóriA dos dePrimidos
“Ando cansado... às vezes penso até que o melhor seria morrer. Não tenho fome, a comida é sem gosto. Já emagreci 6 quilos neste mês. Acordo muitas vezes durante a noite e a partir das 4 horas não durmo mais. Como é difícil sair da cama... aliás, tudo está difícil, como tomar banho e fazer a barba. Não acho graça em nada... olho para meus filhos e choro. Morro de dó deles, por terem de enfrentar este mundo horrível. Não tem nada bom, tudo é chato. Não tenho mais forças. Se pego um jornal para ler, ou se olho uma novela na TV, não entendo nada e nem sei contar o que foi que eu vi... nem o que foi que eu li... Não cuidei direito da minha família. Falhei em tudo. Sou um fracassado. O que eu sinto, não gostaria que o meu pior inimigo sentisse. Cometi muitos erros na minha vida... eu me arrependo muito deles. Acho que não vou conseguir sair dessa... só tenho vontade de ficar deitado, de não fazer nada. De ficar sozinho. É horrível.” Sua voz é fraca e penosamente lenta. Há um grande intervalo entre cada som que ele pronuncia. Suas roupas estão mal cuidadas, largas, desleixadas, até sujas. Falta-lhe um botão na camisa e existe um abotoado no lugar errado. Seus ombros curvados para frente tentam esconder o rosto fino. A barba grisalha está por fazer. A face é de tristeza, pálida, com grandes sulcos laterais. Duas olheiras sustentam um olhar sem expressão. Os cabelos, também grisalhos, mal penteados, mal cuidados e grandes para a sua pequena testa. Os óculos têm um dos vidros partidos e um das hastes amarradas com uma linha que

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um dia foi branca. Nas pontas dos dedos finos, unhas grandes, sujas e amareladas pelos cigarros constantemente acesos. Apesar do calor, nota-se, por baixo de sua camisa, uma camiseta de malha e, por cima daquela, um paletó roto e largo. Seus dentes talvez há muito não sejam escovados e no bigode ralo acha-se o que restou da última refeição. Pouco fala e, quando o faz, parece aborrecido e cansado de estar ali, defronte a mim, para relatar suas misérias. Às vezes seus olhos se umedecem, lágrimas lentamente começam a escorrer, mas ele discretamente passa o punho do paletó sobre os olhos e os enxuga, engolindo, através de sua garganta seca, alguma lágrima que desceu. Tudo é vagaroso e penoso. O paciente transmite dor e solidão. Seu desespero, tão profundo quanto sua amargura e tristeza, contamina a minha mente, também às vezes triste e confusa por conviver, há anos, dia-a-dia, com o absurdo e incompreensível sofrimento humano. Eis aí, em resumo, uma tagarelice acerca de um dos meus pacientes. Tagarelice, sim, pois nós não conseguimos captar os sofrimentos de ninguém: apenas os imaginamos, lembrando os nossos próprios sofrimentos. Assim também a minha vivência com esses pacientes é minha propriedade, aprisionada em minha mente e impossível de ser transmitida ao leitor de um modo adequado. Quando se trata de experiências emocionais, com pouca, ou melhor, com nenhuma lógica, a comunicação torna-se realmente impossível. Todos nós já convivemos com a nossa depressão, seja por horas, dias, meses ou anos. A maior parte de nós tanto entramos, como saímos da depressão, com relativa facilidade, utilizando os nossos recursos próprios, quase sempre de maneira automática. Assim, vamos supor uma moça que perde o namorado e, compreensivelmente, fica deprimida. Ela poderia arranjar um outro namorado e esquecer o anterior, ou buscar outras atividades para substituir a ausência dele. Poderá criticar o ex-namorado, taxando-o de estúpido e ignorante, e com isso sentir até um certo alívio pelo rompimento, ou usar várias outras técnicas disponíveis para cada um de nós. Rapidamente a nossa amiga estará bem e suas emoções normalizadas.

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Vamos supor, agora, em outro extremo, uma pessoa que não utilizou seus recursos para combater a depressão. Nesse caso, a nossa amiga, ao perder o namorado, vai, pouco a pouco ou rapidamente, caminhando para aquele estado e várias partes dos seus sistemas acabam sendo atingidos, contaminados. Ela pode, por exemplo, faltar ao serviço, perder o sono, alimentar-se mal, passar a não se cuidar, agredir as pessoas ao seu redor afastando-as do seu convívio, etc. Desse modo, diversas atividades saudáveis vão deixando de ser fonte de alegria, transformando-se em problemas difíceis de resolver, ou em processos dolorosos. Cada novo problema que aparece, ou cada disfunção ocorrida, necessariamente aumenta a impotência de nossa amiga, vai-lhe criando uma imagem cada vez mais negativa de si mesma e, simultaneamente, uma fantasia altamente pessimista acerca do mundo ao seu redor e dos meios de abordá-lo. Formou-se uma cadeia cada vez mais difícil de ser quebrada. Poucos são os aspectos positivos em sua vida e estes vão inexoravelmente sendo minados e transformados também em sofrimento e problemas. Nesse ponto a nossa amiga encontra-se já mergulhada em sua depressão, totalmente dependente de outras pessoas e não mais dos seus próprios recursos. Para o deprimido, o mundo é mau, e ele, não tendo meios para enfrentá-lo, acha-se sem saída. Com essa convicção, surgem frequentemente as ideias ou a ação de suicidar-se. A obsessão é escapar do sofrimento, ainda que seja necessário sacrificar a própria vida. Podem surgir na mente do deprimido fantasias que o levam a querer exterminar toda a família, para livrá-la do mundo de desgraças em que vive. Também não é incomum o suicídio indireto, causado pela provocação da própria morte por outra pessoa ou por um acidente fatal. Nessa fase é ainda frequente o uso exagerado de bebidas ou calmantes que têm a mesma função, isto é, tornar as próprias desgraças e as de seu mundo mais toleráveis. O deprimido é, portanto, uma pessoa que perdeu a capacidade de manter uma adaptação biopsicossocial equilibrada dentro da normalidade, ao enfrentar os múltiplos fatores ou miniacontecimentos

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de seu cotidiano (fracassos, perdas, doenças, desapontamentos, etc.). Seu sistema individual não retorna ao equilíbrio anterior, com a consequente normalização, após cada problema. A depressão é um transtorno emocional ou do afeto, como o próprio nome indica, mas que pode ter repercussões graves e sérias no relacionamento social, acarretando perturbações cognitivas, psicomotoras, psicofisiológicas e ainda facilita a instalação da maioria, senão de todas as doenças orgânicas, pela diminuição das defesas imunitárias. A esta altura, convém lembrar que algumas depressões parecem originar-se primariamente de distúrbios bioquímicos, enquanto em outras as causas iniciais são transtornos psicológicos e sociais, ocorrendo, posteriormente, as modificações bioquímicas. Uma vez mergulhado na depressão, o paciente não crê que possa escapar dela. Entretanto, ao receber tratamento adequado, suas chances de recuperação são grandes. Alguns poucos casos evoluem para a depressão crônica, apesar dos tratamentos. Para alguns, o ataque de pânico, o alcoolismo, a dependência às drogas, as dores crônicas e outras formas de conduta desadaptada dos jovens seriam equivalentes de uma crise depressiva. Para terminar, a depressão é a doença mais frequente no consultório psiquiátrico: atinge cerca de 50% dos pacientes que nos procuram. A maioria dos que dela padece, não vai ao médico.

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tome seU trAnQUiLiZAnte e ViVA FeLiZ
Diga adeus à ansiedade. Os grandes laboratórios farmacêuticos interessados no faturamento construíram a crença de que podemos e devemos viver sem ansiedade. Esta falsa ideia foi assimilada por alguns médicos e pelo público em geral, promovendo a ida dos ansiosos aos consultórios, em busca do remédio milagroso. Entretanto a ansiedade pode ser uma emoção saudável e necessária a uma boa adaptação do indivíduo ao meio, sendo, muitas vezes, um aviso do organismo, indicando que algo precisa ser feito para modificar a vida. Os tranquilizantes têm sido usados há milênios. O primeiro deles, e que continua a ser consumido, é o álcool. Atualmente, cada dia mais, diversos outros calmantes são lançados no mercado para alegria dos consumidores aflitos. Uma estatística da Organização Mundial de Saúde, publicada há alguns anos, mostrou um consumo anual de 500 milhões de psicotrópicos no Brasil. Desses, 70% eram ansiolíticos, ou seja, medicamentos para diminuir a ansiedade, apreensão, tensão ou medo. Muitas pessoas só dormem após tomarem seu sedativo preferido e, para suportar o dia desagradável que virá, ingerem mais outro calmante diurno. Alguns usam os tranquilizantes para viajar de avião, dançar, namorar, transar, dar aulas, casar, isto é, as atividades que podem acarretar um certo grau de intranquilidade. Os ansiolíticos são ingeridos puros ou misturados com bebidas, usados junto a moderadores de apetite, as drogas anticolinérgicas (os

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chamados antidistônicos). Alguns estão embutidos nos medicamentos antidepressivos, fortificantes, vitaminas, diuréticos, etc. As bulas acerca dos calmantes geralmente são mentirosas, descrevem muito mais os “bons” resultados do que os “maus”. Muitas não relatam a dependência após um curto período de uso, a diminuição da capacidade psicomotora, o aumenta do cansaço, a diminuição da memória, a piora dos sintomas após a sua interrupção (ansiedade rebote) e o risco de seu uso nos idosos e crianças. Uma curiosidade: os que têm menos conhecimentos acerca de seus “excelentes efeitos terapêuticos”, como os pacientes mais humildes dos ambulatórios, beneficiamse pouco com seu uso. Como a população brasileira tem estado intranquila com respeito ao futuro do país, conclamo o governo a distribuir essas drogas milagrosas para todos nós, em lugar de gastar dinheiro com alimentos, moradias, empregos e assistência médica. Com o povo calmo, os governantes poderiam usufruir o encantamento do poder. Cada cidadão teria direito de uma a três doses diárias, conforme sua ansiedade. Este, uma vez embriagado com o efeito do calmante, não mais faria greve, não mais amolaria o pobre governo com reclamações tolas e injustas. Ingerindo sua dose diária de ansiolíticos as pessoas viveriam e morreriam calmas, talvez, quem sabe, até felizes.

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sono, insôniA e PíLULAs
Das 8.760 horas de um ano, o homem dedica perto de 3.000 ao sono e dorme aproximadamente 24 anos de sua existência. Você, que está lendo esse artigo, já teve vários sonhos, pesadelos e algumas vezes falou enquanto dormia. Quando criança, ou mesmo depois de adulto, urinou na cama e pode ter perambulado pela casa durante seu sono. Alguns dias deitou-se e demorou a adormecer; diversas vezes acordou durante a noite ou cedo demais, sem desejar, e durante alguns dias de sua existência, você trabalhou sonolento. Talvez use, ou já usou, medicamentos, na falsa esperança de que eles o ajudariam a dormir. Você sabe o que é o sono? Cerca de 12 a 15 por cento da população dos países industrializados tem sérios distúrbios do sono, outros 20 a 25 por cento da população apresentam distúrbios ocasionais de insônia. A partir das ondas cerebrais, que são detectadas quando um eletroencefalograma (EEG) é registrado durante o sono, verifica-se o aparecimento de ondas sincronizadas (sono NREM), também denominado de sono ortodoxo, e de ondas não-sincronizadas (sono REM), ou sono paradoxal. O termo “REM” decorre do inglês (“rapid eye movements”), indicando que nesse sono ocorrem movimentos rápidos dos olhos. O sono NREM (sem movimentos rápidos dos olhos), compreende três fases: 1, 2 e 3 (delta). Nosso sono inicia-se com um sono mais leve e prossegue até alcançar a etapa mais profunda. Ao adormecer,

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surgem as fases do sono, nas sequências 1-2- 3 (delta) e novamente 2, que são entremeadas pela fase REM (fase dos sonhos). A fase 1 é o período de transição da vigília ao sono. O sono delta - sono profundo - é o período do comportamento extravagante, quando as pessoas falam dormindo, se sentam e começam a ter longas conversas consigo mesmo e os sonâmbulos levantamse e passam a andar pela casa. É também o período da noite em que as crianças, às vezes, urinam na cama, ou apresentam o estranho problema chamado terror noturno (por exemplo, gritar enquanto dorme). Ao começar o sono REM, o corpo se acha totalmente relaxado. Se alguém arrastar a pessoa para fora da cama e tentar colocá-la de pé, ela cairá. O corpo não se move absolutamente, percebendo-se apenas a oscilação ocular. Caso se trate de um homem, ele tem uma ereção peniana automática, caso se trate de mulher, os tecidos vaginais enchem-se de sangue. No interior do corpo, os batimentos cardíacos e a pressão arterial sobem, a respiração torna-se irregular, e poderosos hormônios invadem a corrente sanguínea, liberados de certos órgãos, tais como das glândulas suprarrenais. Todos os tipos de cenas e imagens fantásticas passam pela mente da pessoa, pois é nesse período que se tem a maioria dos sonhos e pesadelos. Cada ciclo completo de sono NREM, somado ao REM, tem uma duração aproximada de 90 minutos cada. Durante uma noite inteira de sono, ocorrem 4 e 5 ciclos, de cerca de 90 minutos cada. Nos ciclos posteriores, no fim da noite, quase não se observa mais a fase delta. Nos idosos, a fase 1 do sono NREM, que é o sono mais superficial, cresce muito, em detrimento do sono delta ou sono profundo. Nessa faixa etária também, diminui geralmente o número de horas realmente dormidas, que cai para 5 a 6 horas por noite. Em outras palavras, o idoso normal dorme menos tempo, sonha menos e seu sono é mais superficial e, além disso, frequentemente apresenta sonolência diurna. As necessidades de horas de sono, além de variar com a idade, variam de pessoa para pessoa. Assim alguns necessitam de 10 a 12 horas, outros, de 3 a 4, alguns poucos, de apenas 1 hora de sono por noite. Uma pessoa apresenta insônia se sua dificuldade para dormir

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interfere cronicamente com uma eficiente função durante o dia, independente do número de horas dormidas. Portanto, o que caracteriza a insônia é o malestar ou sonolência diurna e não o número de horas dormidas durante a noite. Cada indivíduo deve estabelecer as suas necessidades diárias de sono, a partir de suas próprias experiências com diferentes números de horas de sono. Alguns clientes se queixam do oposto da insônia, ou seja, da hipersônia - sono exagerado. Quando essa ocorre, é possível que a pessoa esteja dormindo um número de horas inferior à sua real necessidade, mas também podem estar ocorrendo certos problemas médicos tais como o do hipotireoidismo, transtornos psiquiátricos (depressão), ou ainda perturbações específicas próprias do sono (apneia do sono, narcolépsia). Esses transtornos levam a pessoa a não dormir normalmente, ainda que eles achem que dormiram satisfatoriamente. O que às vezes torna-se intrigante são as insônias de causas comportamentais ou situacionais. Algumas são bastante óbvias. Sabe-se, por exemplo, que o primeiro sono da noite em local estranho é, em geral, insatisfatório. As pessoas que moram perto de aeroportos, ou de estradas e ruas muito movimentadas, talvez não durmam tão bem como quem vive numa tranquila localidade do campo, ou num bairro silencioso. Vários estudos revelam que, embora as pessoas que partilham da mesma cama e tenham, em geral, uma boa vida sexual, muitas vezes dormiriam melhor se estivessem em camas separadas, particularmente se uma delas tem sono agitado. Partilhar a cama com alguém pode significar também partilhar a insônia. Finalmente, a pessoa pode, ocasionalmente, ser vítima do que é conhecido como “Insônia da Noite de Domingo”. Esta resulta em geral da alteração na escala horária dos fins de semana, quando se vai para a cama e se levanta mais tarde. Algumas pessoas, mesmo adormecidas, permanecem pensando intensamente, dando a impressão de estarem acordadas, mesmo quando, objetivamente, através do eletroencefalograma, se perceba que estejam no sono NREM. Também pode ocorrer que certos insones apresentam tempo excessivo de sono na fase 1, isto é, na fase superficial, dando-lhes a impressão de estarem dormindo pouco.

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As mais diversas e curiosas particularidades acerca da melhor maneira de dormir, para uma dada pessoa, são encontradas. Alguns necessitam silêncio absoluto, enquanto que para outros o sono é melhor quando ouvem uma música, ou quando a TV estiver ligada. Para alguns o melhor sonífero é um certo tipo de leitura. Certas pessoas só dormem com as janelas abertas. Muitos, ao se dirigirem para a cama, imaginam que não vão dormir e acabam não dormindo. O exercício físico realizado no fim da tarde ou início da noite, parece influenciar o sono: há aumento de ondas deltas - enquanto que realizado em excesso, pouco antes de se deitar, prejudica o sono. É mais fácil acordar uma pessoa quando esta se encontra na fase 1 do que na fase 2, ou no sono REM, e há ainda mais dificuldade de despertá-la na fase delta. Uns preferem a cama dura, outros, a macia. Não se dorme bem nas temperaturas muito baixas ou muito altas. Dorme-se mal acima de 24 graus, nessa temperatura a pessoa acorda e movimenta-se mais vezes à noite e há um decréscimo do sono REM e do delta. Tudo indica que o sono melhora, se a pessoa alimentar-se com uma refeição leve à noite. Alguns médicos decidem o que fazer diante de uma queixa de insônia dos seus clientes em cinco minutos, prescrevendo-lhes um comprimido para dormir. Isto é grave, pois parte dos pacientes que se queixam de insônia não a têm, quando se lhes faz exame mais minucioso. Outros que realmente têm insônia, podem estar apresentando distúrbios psiquiátricos ou médicos não tratáveis com hipnóticos ou ansiolíticos. A negligência em relação às drogas ingeridas diariamente pode também afetar o sono, caso a pessoa não perceba que está abusando delas. A cafeína existente no café, alguns chás e em vários refrigerantes, é provavelmente uma das mais ignoradas causas de insônias e, no que se refere ao sono, seus efeitos são, sem dúvida, pouco lembrados. Dependendo da sensibilidade ao efeito excitante dessa droga, uma xícara de café é capaz de estimular o cérebro até sete horas depois de ingerida.

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Se você fuma muito, isto é, dois maços, ou mais, de cigarros por dia, talvez o vício da nicotina o esteja mantendo acordado à noite. Os pesquisadores descobriram que alguns fumantes, após dormirem cerca de quatro horas, passam por uma necessidade de nicotina tão forte que acordam ansiosos por um cigarro. Outra droga que perturba o sono é o álcool. Um pequeno “drinque”, ingerido para “chamar o sono”, perde pouco a pouco o seu efeito, e é preciso beber cada vez mais para conseguir o mesmo resultado. Em grande quantidade - após uma verdadeira bebedeira, ou no caso extremo de um alcoólatra - o álcool é capaz de arruinar o sono normal durante dias ou semanas. Em qualquer quantidade, o álcool anula os períodos REM do sono, conduzindo, assim, a descanso pouco profundo. Quando se deixa de beber, todo o sono REM reprimido volta, trazendo consigo um acúmulos de sonhos e pesadelos. Os comprimidos para dormir são capazes de transformar uma insônia comum, banal, diária, num verdadeiro monstro. A razão é que essas pílulas talvez provoquem, exatamente, o problema que estão destinadas a curar. Tomadas todas as noites funcionam apenas por algum tempo, em geral duas semanas. Tomando-se pílulas durante muito tempo, a insônia e a qualidade do pouco sono existente se tornará pior do que no tempo em que não se tomava comprimido algum. Como nação de sofredores, possuímos o que equivale a uma fé religiosa no poder das drágeas. Tomamos comprimidos e cápsulas para tudo, desde ansiedade, dores nas costas, resfriados, depressão, fadiga, ressaca, azia, dores de estômago, etc., até, naturalmente, para a insônia. Se uma pílula não funciona, não perdemos a fé e a trocamos por outra. O poder de tal confiança é extraordinário e permanece muito misterioso. O grau de eficácia de um remédio depende, em parte, do seu conteúdo químico. A droga tem que ter o seu atrativo para a pessoa. É preciso que o paciente acredite nela, razão pela qual algumas das medicações de efeitos mais mortais são envoltas em alegres cápsulas de gelatina vermelha, amarela e verde, lembrando saborosas balas.

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Drágea alguma proporciona uma noite de sono inteiramente normal. Todas as vendidas com ou sem receita médica são depressoras do sistema nervoso central, maneira médica de dizer que funcionam indo direto ao cérebro e deixando semiconsciente a pessoa. Reduzem os batimentos cardíacos, a pressão arterial, o ritmo respiratório, os reflexos e o tono muscular, inibindo também parte do sono, em geral o ciclo REM. De alguns anos para cá os estudiosos do sono têm “receitado” para a insônia uma substância chamada triptofano. Trata-se de uma proteína natural encontrada em diversos alimentos, desde a manteiga de amendoim até o bife. Triptofano, ou L-triptofano, conforme é às vezes chamado, fornece a matéria-prima do elemento químico cerebral, a serotonina, que conforme os pesquisadores, é um dos ingredientes mais necessários à ativação dos centros do sono. Você, leitor, poderá economizar seu dinheiro indo direto à fonte para obter uma dose de triptofano. Entre os comestíveis com alto teor de proteínas figuram: atum, fígado, carne, costelas de porco, galinha, peru, amendoim, feijão e laticínios, como queijo, requeijão e aquele antigo remédio caseiro para a insônia, muito usado pelas nossas mães, um copo de leite morno. Todos são encontrados, não nas farmácias, mas nos supermercados. Se você não estiver com fome, pode tentar outro recurso: basta procurar no seu armarinho de remédios: a aspirina e a dipirona devem estar lá. Alguns insones descobriram que elas têm o efeito de um suave comprimido para dormir. Não force seu sono, a raiva é um poderoso despertador interno. Para dormir, é necessário não pensar em dormir. Para terminar, Bom Sono e Bons Sonhos.

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PreLúdio PArA Um cAsAmento morto
Todos nós já convivemos com casais que estão no último round de uma luta de muitos assaltos, na busca de uma separação. O que ouvimos são quase sempre as mesmas histórias, semelhantes a várias outras, ou seja, repletas de acusações mútuas, com vários lances teatrais e quase sempre enfadonhas. Nunca ouvimos do cônjuge nosso amigo um relato onde ele se diz culpado, pois o errado é sempre o outro. As brigas do casamento já não são mais como antigamente, quando poucas separações ocorridas eram devidas às “traições” diversas ou ao abandono do lar, geralmente por parte do homem. Hoje elas se dão, em grande parte, pela disputa do poder. Luta-se pelo direito de dar ordens. Antigamente, o poder, quando exercido pelas mulheres, o era às escondidas, pois aceitava-se como normal os homens mandarem. O prelúdio da separação é caracterizado por discussões contínuas, algumas vezes acompanhadas de agressões físicas. Os temas debatidos, que na verdade servem de “aperitivos” para a entrada das agressões pessoais, são vários: o horário de se chegar a casa, a demora para se aprontar, o sabor ruim da comida. As diversas disputas revelam os valores antagônicos do casal, como as queixas quanto à escassez ou ao excesso das relações sexuais, a saída ou não de casa para fazer visitas ou passeios. Várias condutas dos cônjuges servem para precipitar ressentimentos como: o marido fica vendo o jornal na TV, enquanto a esposa

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deseja conversar, a mulher quer a casa bem arranjada e o marido a suja e nem liga, um deseja ficar abraçado ao outro e este, que detesta, sente-se como estivesse assentado em espinhos. Também os diversos projetos familiares tendem a promover brigas: quando e onde ir nas próximas férias, onde passar os fins de semana, como educar os filhos ou os netos, qual a melhor hora de se levantar ou de se deitar, quem fará as compras. Nos momentos finais de um casamento, tudo serve para despertar antipatias, discussões e despertar antigas irritações transitoriamente adormecidas. Essas últimas surgem por motivos fúteis, tais como o modo de andar, mastigar, ir ao banheiro, dormir, roncar, dirigir, assentar-se e tossir, do outro cônjuge. E como elas ficam insuportáveis. Tudo mudou. Antes, no período do namoro e paixão, as preferências de cada um eram admiradas e encantadoras. Agora, no tempo das disputas, ela passam a ser ridículas como gostar de assobiar, soprar o café para esfriá-lo, fazer ginástica, tomar cerveja, ouvir música caipira, andar de ônibus ou fazer compras na rua dos Caetés. Os diálogos de um casamento em fase final têm características singulares. Quando um cônjuge pergunta algo ao outro, ele não quer ouvir respostas objetivas ou possíveis, quer descobrir pretextos para criticar, arrumar uma briga, a partir da “deixa” dada pelo parceiro. Assim, a água retorna ao rio, reinicia-se a velha e conhecida briga interrompida por motivos alheios aos dois. Muitos desses diálogos são, de fato, metadiálogos, isto é, discute-se acerca dos próprios diálogos e não de algo externo à fala, como nos exemplos: “você sempre me agride” ou “você está sempre me acusando”. A comunicação é sobre a própria briga. Esta, quase sempre, coloca mais lenha na fogueira. O casal lembra com saudades os velhos tempos quando havia complementaridade nas conversas. Antes, quando um fazia um comentário a respeito do dia, afirmando que esse estava lindo, o companheiro, sorrindo, concordava usando um tom de voz calmo e melodioso, achando a observação pertinente e poética. Nos prelúdios do casamento morto, a mesma declaração desencadeará uma série de agressões, muito diferente dos comentários carinhosos de antigamen-

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te: “Você sempre teve um gosto estranho, o dia hoje está horrível!” Num ambiente desses, torna-se penosa e incerta a vida a dois. O ataque poderá surgir a qualquer momento, nenhum deles sabe quando e como ele virá e essa incerteza produz insegurança e desconfiança. As mensagens trocadas no fim do casamento são com frequência ambíguas, como nos casos do marido que, com uma voz áspera e usando palavrões, afirma para a esposa que a ama muito, não podendo viver sem a sua companhia. Ou no caso da esposa que prepara um delicioso e requintado jantar para o aniversário do marido mas, ao mesmo tempo, mostra uma cara amarrada e de enfado na presença dele com o que está fazendo. As tensões, ao crescerem dia após dia, levam os dois, muitas vezes, ao desespero, pois as feridas surgidas pela discussões violentas, produzem marcas que não desaparecem nunca mais. Ao mesmo tempo, a possibilidade de virem a se separar e terem que reiniciar uma vida longe um do outro, assusta os dois. No final de um casamento, cada um, sozinho, passa grande parte do tempo pensando acerca da vida ruim que está levando. Alguns, depois de muitas e muitas brigas, exaustos acabam por desistir de continuar a luta: renunciam às agressões e também ao amor. Isolam-se, cada um no seu canto, sob o mesmo teto, dormindo muitas vezes na mesma cama. Desfazem de todos os modos possíveis as comunicações que poderiam despertar antigas rixas. Nesses casos, aos olhos dos outros, eles passam a viver felizes para sempre. Comemoram todas as bodas possíveis e, impotentes, ficam esperando a morte os separar, pois enquanto viveram, eles não tiveram fôlego suficiente para isso.

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A diFíciL Arte do cAsAmento
Acerca do casamento todos nós podemos falar, mesmo os que nunca se casaram nem mesmo pensaram casar-se, pois tudo o que se diz é certo e ao mesmo tempo não o é. Sabemos muito acerca do casamento, porém não sabemos realmente muitas coisas. Todos nós, até os peritos em casamento, falham ao falar sobre este tema. Uma pessoa se casa por dois motivos básicos: o primeiro - e a cada dia torna-se o principal - é a busca da própria satisfação e a do seu cônjuge, através do encontro com o outro. Busca-se uma “complementação” do que lhe falta, ou seja, uma preenchimento de si mesmo. Um nutre o outro do alimento biopsicossocial. Em segundo lugar, casa-se para procriar, mas, diga-se de passagem, aumenta o número de casais sem filhos. O casamento, infelizmente, contém muitos ingredientes para não dar certo e é necessário muito esforço, habilidade e flexibilidade, para que conduza a melhores condições de vida. Vejamos alguns destes ingredientes frequentes em todos casamentos, variando apenas quanto ao grau: a) Passam a morar juntas duas pessoas de sexo diferente, geralmente com suposições falsas a respeito de si mesmas. Para isso basta analisar as ideias “machistas” ou as “feministas”, para perceber os estereótipos imputados aos homens e às mulheres; b) Unem-se duas pessoas provenientes de organizações familiares diferentes, com atitudes, valores, percepções, modos de relações, ideologias e religiões diferentes. Um gosta de uma coisa que o outro detesta: um côn-

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juge aprecia ficar abraçado ao outro, quando junto. Isso lhe fornece segurança e amparo. Por outro lado o outro cônjuge tem pavor desse agarramento, é como estar deitado numa cama coberta de cascalho. A diferença entre os cônjuges é a riqueza e a miséria do casamento. Quando quero crescer ou aprender, procuro conversar ou ler algo que possua ideias diferentes das minhas, do contrário nada aprenderia. Biologicamente, há sérios riscos de casamentos entre iguais, podendo esses conduzir à hipertrofia de defeitos físicos. Do mesmo modo, cognitivamente, se interagirmos com iguais, poderemos, sem perceber, regredir ao ouvir e seguir opiniões e julgamentos iguais aos nossos, uma soma de nossas mazelas, pontos cegos ou condutas ingênuas. Já o casamento de pessoas diferentes, tanto no sentido estrito como no lato, pode ser um contato reparador, que nos desperta e nos faz descobrir mundos nunca imaginados. Anteriormente a “grande família” - avós, tios, primos - vivia como um clã e seus membros interagiam uns com os outros com muita frequência. Atualmente, cada família vive quase isolada, mantendo apenas contatos esporádicos e superficiais com os parentes. Como consequência, enquanto nossos antepassados podiam observar de perto diferentes modelos de vida, hoje os nossos filhos possuem, quando muito, apenas os pais, e mesmo esses muitas vezes pouco contato têm com os filhos. Nos velhos tempos os filhos presenciavam o trabalho dos pais e vivenciavam suas satisfações e insatisfações diárias. Hoje os filhos só veem o pai e mãe à noite, quando isto ocorre. Muitas crianças são educadas apenas pelas mães ou babás, sem a presença de modelos masculinos. Os casamentos são, em grande parte dos casos, entre duas pessoas inseguras, medrosas, com pouco conhecimento de si mesmas e fazendo pouco uso de suas potencialidades, percebendo, avaliando e atuando mal nos eventos de seu mundo. Por isso, a escolha de um companheiro, não como ele é, mas como se julga, imagina e deseja que seja, baseado em suas aspirações. Espera-se, na ligação, um suporte ou direção externa que leve a alcançar uma “boa vida”, ou uma felicidade que não foi conseguida através do esforço próprio. Julga-

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se que o poder de uma “vida feliz” encontra-se no outro e exige-se deste a felicidade não conseguida em si mesmo. “Só serei feliz junto a você”, “Não aguento viver sem você”. Essas são frases comuns entre pessoas enamoradas. Nada mais falso. Não se pensa o que um poderá fazer para ajudar o outro, pensase no seu oposto, ou seja, como serei ajudado já que não tenho o que dar. Está claro que após o casamento os dois percebem o que ocorreu: ambos estavam enganados. Assim, as exigências começam, pouco a pouco surgem os desgostos, as brigas, as agressões, o desespero, as ameaças e, ao mesmo tempo, a dificuldade de sair disso tudo. As agressões costumam ser sutilíssimas, já que os cônjuges conhecem muito bem os pontos fracos e as feridas do outro. No casamento de pessoas mais amadurecidas, a escolha é mais bem feita, as diferenças mais respeitadas, cultivadas e até incentivadas, pois aprende-se com elas. Como não é fácil conviver com diferenças, os cônjuges amadurecidos estão sempre se modificando, utilizando novas técnicas e métodos de lidar com pequenos aborrecimentos e crises que inevitavelmente ocorrem, mas que são superados pela comunicação entre eles. Essa é feita de maneira clara e objetiva, sem rodeios e sem medo. Fundamentalmente, se os casais são amadurecidos, cada cônjuge consegue reajustar-se ao novo relacionamento, criando um sistema de vida conjugal sem que este determine a extinção dos sistemas individuais. Com o nascimento dos filhos, nova adaptação torna-se necessária, já que os cônjuges terão também de participar do sistema parental. No casamento de pessoas inseguras o sistema individual de cada cônjuge, que já não era claro e eficiente, vai se esvaindo no sistema conjugal e é muitas vezes enterrado para sempre, no sistema parental que poderá surgir. Para finalizar, podemos distinguir dois tipos diferentes de casamento: o “arranjado” e o procurado. O casamento “arranjado”, que era o predominante em épocas passadas, baseia-se na premissa básica de que “o amor vem depois”. É o casamento de desiguais, assimétrico, onde o casal comumente tem grande número de filhos,

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tendo como objetivo manter o poder social e econômico. Pouca importância é dada à relação entre os cônjuges e por isso o número de separações é pequeno. Casamentos deste tipo ainda são frequentes nos grupos de maior poder político e econômico e em pequenas cidades do interior. No casamento procurado, a crença básica é a de que o amor vem primeiro e a ênfase é dada à relação entre os cônjuges que supostamente são iguais: em direitos e deveres. Geralmente são casamentos com poucos filhos e o poder econômico não é muito relevante. Casa-se para complementar um ao outro e para troca de prazeres e o número de separações neste tipo de casamento é mais frequente. Estamos vivendo um período de transição com aumento do número de casamentos procurados ou livres. Mas em ambos os tipos citados, os cônjuges estão presos aos padrões e valores sociais mesmo quando suas escolhas são “livres”. Assim um rapaz “escolhe livremente” uma moça que tem a sua cor, cultura, valores e educação, frequenta os mesmos lugares, comunga a mesma religião, o mesmo partido político e assim por diante. Ou seja, o indivíduo “escolhe” um tipo de companheira já escolhida previamente pela sua cultura, seguindo os valores que foram impressos em sua mente sem sua crítica. Poucos conseguem escapar desse domínio simbólico e descobrir outros caminhos possíveis.

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os descAsAdos
Após o dilema, casar ou não casar, se o indivíduo optou pelo casamento, surge um novo dilema: descasar ou não. Isto, para aqueles que têm à sua disposição, no seu mundo mental, essa opção. Alguns creem que, uma vez casados, seu casamento está “garantido”, ou seja, que não há necessidade do esforço de cada cônjuge para mantê-lo durante a crise que o casal atravessar. No outro extremo, encontram-se aqueles para os quais a separação constitui a principal, ou mesmo a única arma para a mais simples crise. Estes últimos, diante de qualquer desavença, argumentam: “É melhor nos separarmos”, “Vou procurar o advogado” ou ainda, “Se você fizer novamente esse arroz, eu saio de casa”. Qualquer casamento tem, inevitavelmente, inúmeras crises. Essas, bem aproveitadas, podem conduzir à produção de um casamento funcional e sadio, como meios para readaptações, que forçosamente terão de sofrer os indivíduos quando se casam. Cada um dos cônjuges possuía, antes de se casar-se, um modelo de vida próprio, diferente do sistema conjugal formado pelo casamento. Ocorre o mesmo quando uma pessoa que se acha desempregada, começa a trabalhar, ou vice-versa. Ela necessitará adaptar-se ao novo esquema de vida e isto é feito com algum sofrimento, apreensão e perda de conduta e valores importantes que possuía. Busca-se no casamento uma melhoria de qualidade de vida do indivíduo. Se isto não ocorre, o casamento fracassou e medidas devem ser tomadas para melhorá-lo ou terminá-lo, caso a melhoria não seja alcançada após diversas tentativas disponíveis ao casal.

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Imaginemos um casal que, tendo tentado todos os recursos à sua disposição e, não obtendo resultados, decida separar-se. O problema é semelhante quanto ao casar ou não casar. Antes o problema se constituía em romper um sistema de vida de solteiro, para passar a fazer parte de um sistema conjugal. Agora os cônjuges já comprometidos num sistema conjugal e, se tiverem filhos, também no parental, retornarão ao sistema individual após o rompimento do casamento. Mas não é fácil romper um sistema de vida e entrar em outro, quando o indivíduo já se encontra amoldado, principalmente se o casamento durou muitos anos e, mais difícil ainda, se o casal teve muitos e bons momentos. Não é raro que após a separação, os cônjuges, derrotados e amargurados, retornem à casa paterna, tornando-se novamente “filhos” e não mais “marido” ou “mulher”. Quando acontece a separação, o casamento já estava provavelmente “doente” há muito tempo. Algumas separações iniciam-se antes mesmo do casamento ocorrer. Quando as brigas continuadas pelos mesmos temas entre namorados ou cônjuges inicia-se, cada um culpa o outro pelo ocorrido e, geralmente, recebem dos amigos e familiares - juízes parciais - uma sentença favorável. Cada um, na interpretação do respectivo amigo, está certo e o culpado é sempre o outro. “Como ele mudou”. “Era tão diferente quando começamos a namorar”. “Virou um monstro insuportável, notei isso ainda na lua de mel. Cada cônjuge busca apoio nas pessoas que têm o seu próprio modelo e isto reforça a falsa crença no “erro do outro”, aumentando e cristalizando as desavenças e o abismo entre o casal, onde cada um, seguido por seu exército, dá origem à guerra conjugal. Esta batalha é reforçada com a ajuda de tropas alienígenas, isto é, advogados, psiquiatras e outros assessores. Tudo isso ocorre em virtude de uma cegueira coletiva acerca da propalada ideia de “causa de um só lado”. Em toda relação, a conduta de cada um dos indivíduos é resultado de sua própria conduta e do comportamento do outro. Em outras palavras, se um deles muda, a conduta de seu companheiro fatalmente mudará.

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Os dois têm, em suas mãos, os lances necessários para mudar a conduta do “outro”, simplesmente agindo de maneira diferente do esperado, ou seja, em desacordo com o sistema estabelecido, desenhado, estruturado e compartilhado por ambos os cônjuges e não por apenas um deles. Minha mãe já há muito dizia: “Quando um não quer, dois não brigam”. Está aí, de forma simples, toda a sabedoria da causalidade circular ou do poder de ambos, em contraposição à linear, ou seja, do poder de apenas um dos indivíduos. Se sairmos do “jogo” a disputa terminará ou, se desejarmos, fazendo uma provocação, a briga ocorrerá. Uma vez separados, a tendência normal dos descasados é a de se manterem ainda casados, seja através da continuação dos encontros ou das brigas, seja através do “casamento” com os filhos, ou até arranjando apressadamente um novo casamento. Neste último caso, o fracasso do novo casamento é quase a regra, pois quando estamos nos afogando, qualquer “galho” parece-nos ótimo para segurar. Um pouco mais tarde, verificamos que o “galho” salvador é fraco e não servirá para nos apoiar. Caso o modelo mental do cônjuge não lhe permita viver só, ao procurar os seus familiares estará perdendo a oportunidade de “curtir” uma solidão, que, uma vez bem cultivada, poderá lhe permitir ser criativo ou recompor sua vida. O medo ao desconhecido, viver sem o cônjuge, poderá ser uma forma de crescimento individual, pois constitui um novo modo de vida e é, talvez, o principal obstáculo à separação, quando o casamento está se deteriorando. Outros fatores criam pressões para a não separação: a antiga crença no compromisso “até que a morte nos separe”, a admiração por aqueles que, mesmo vivendo mal, não ousam separar-se, o valor atribuído pela sociedade à vida conjugal, reputado como superior à vida de solteiro, a ideia de que um homem bem-sucedido deve estar casado, os problemas financeiros futuros, a dificuldade de educar os filhos sozinhos e, por último, o sofrimento do afastamento da família. Esses motivos provavelmente constituem as principais barreiras contra a separação, que podem levar os cônjuges à depressão, assassinato, suicídio, ao surgimento de várias doenças orgânicas graves, mas também ao crescimento individual.

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De qualquer modo, os primeiros meses ou anos da separação são quase sempre dolorosos. O que fazer para escapar aos seus aspectos negativos e alcançar os positivos? Teoricamente é simples. Todo sistema humano é aberto e por isso transforma e é transformado pelos sistemas vizinhos. Todo indivíduo acha-se ligado com vínculos humanos, ora mais fortes, ora mais fracos. O sistema conjugal e parental constituem, entre outros, sistemas com ligações fortes para a maioria dos humanos. Mas existem outros sistemas também fortes que o descasado poderá procurar: o de sua família, o trabalho, o lazer, os amigos, a saúde física e mental, o econômico, o criativo, artístico e outros. Rompendo-se, pela separação, o sistema conjugal e comumente o parental para os homens, o indivíduo provocará uma piora na sua vida caso abandone também, ou diminua, o envolvimento com os demais sistemas como, por exemplo, afastando-se ou desinteressando-se do seu trabalho, dos amigos, família, lazer, etc. Por outro lado, se o descasado hipertrofiar ou incrementar suas energias nos vários outros sistemas que haviam sido cortados devido ao casamento, ou ligar-se a outros sistemas gratificantes que não haviam ainda sido vivenciados, a separação será mais suportável, agradável e podendo, até mesmo, ser benéfica para os dois cônjuges e para os filhos. Torna-se necessário que além da separação física, o ex-cônjuge a obtenha também no plano psicológico. Para isto ele criará um novo “mapa” do mundo sem a inclusão do antigo cônjuge, sem esperar nada dele como a compreensão, agradecimentos, exigências, agressões, conduta moral ou imoral e assim por diante. Se possível, não mais falar bem ou mal acerca do outro cônjuge, mantendo apenas o relacionamento, caso seja preciso, estritamente necessário. Não procurar mais saber de sua vida íntima, nem reviver as cenas agradáveis e as amargas do casamento que terminou. Não mais tentar provar para si e para os outros quem foi o réu e quem foi a vítima. Em resumo, para separar-se e construir bem uma nova vida, o indivíduo necessita separar-se também psiquicamente, do contrário continuará a ser um mal casado até morrer.

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Portanto, procure encontrar, ao se separar, sua própria identidade, sem a contaminação do antigo sistema conjugal não mais existente. Adquira sua autonomia, goze e usufrua de seus benefícios e tire de sua cabeça os antigos problemas do casamento e da separação. Em resumo: enterre um casamento morto.

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o cAsAmento do neUrótico
Há uma aceitação geral de se fazer um exame pré-nupcial para verificar a saúde física dos cônjuges, entretanto jamais ouvimos falar que os namorados se submeteram a um exame psicológico para verificarem suas capacidades ou competências para viverem juntos com alguém ou serem pais. Observações acerca do casamento fracassado mostram que uma piora na conduta em um dos cônjuges, piora o comportamento do outro, que por sua vez piora o primeiro e assim sucessivamente, e numa espiral, vai perturbando os dois e aumentando os distúrbios conjugais. A sociedade ainda não assimilou o uso do exame mental para os futuros cônjuges. Uma pesquisa feita nos USA mostrou fatos interessantes e úteis para os que estão desejosos de se casarem ou de morarem juntos. Independente do sexo dos entrevistados, através das escalas, foi mostrado que a qualidade do casamento estava influenciada negativamente pelo neuroticismo dos cônjuges. Resumidamente, as pessoas apresentando o traço “Neuroticismo”, também chamado de “Emoção Negativa”, que será descrito a seguir, tinham mais dificuldades no casamento. 1) Ansiedade (propensão ao medo, tensão, preocupação, nervosismo); 2) Depressão (alto nível de tristeza, solidão e desesperança); 3) Raiva (propensão a episódios de irritabilidade e frustração); 4) Autoconsciência aumentada (mais sujeito a ficar envergonhado, desajeitado e com sentimentos de inferioridade);

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5) Culpa (experiência frequente de culpa, autocensura devido a falhas ou erros); 6) Super-sensibilidade (sensitivo às críticas e ao ridículo); 7) Insatisfeito consigo (vê a si próprio como cheio de defeitos); 8) Super-reatividade aos estresses (facilmente sofre com acontecimento próximo do normal); 8) Labilidade Emocional (experimenta, repentinamente, mudanças marcadas de humor); 9) Avaliação Negativa (tende a ver os acontecimentos como ameaçadores e problemáticos); 10) Queixas Somáticas (apresentam sintomas corporais perturbadores). Outros estudos mostram que o psicotismo (pessoas mais fechadas, desconfiadas, isoladas, estranhas, delirantes) contribui mais ainda para o mau casamento. Alguns estudos enfatizam o fator impulsividade - de um ou dos dois cônjuges - como um importante fator do mau casamento. Essa característica aparece principalmente nos indivíduos com transtorno de personalidade antissocial (egocêntrico, explorador, desonesto, insensível). Uma pesquisa focalizou, como fator de prognóstico do mau casamento, dois tipos do “lugar de controle dos cônjuges”. Um tipo apresenta o controle interno, isto é, uma tendência a examinar seu próprio comportamento como causador de seu bem ou malestar. Um segundo tipo tem o lugar de controle externo, isto é, explica e coloca nas outras pessoas ou nas condições do ambiente as razões dos seus problemas, fracassos e dissabores. De acordo com essas ideias, os com lugar de controle interno são mais propensos a serem melhores cônjuges do que os com lugar de controle externo. Você, caro leitor, com essas ideias, examinará seu namorado e, se tiver um tempinho, você mesmo, para decidir o que fazer, caso avalie o seu mundo através do “controle interno”.

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BrigAs de cAsAis: AgressÃo oU eXcitAçÃo seXUAL?
Alguns casais usam com naturalidade as agressões físicas como forma de resolverem brigas domésticas. Curiosamente, apesar da raiva de ambos durante as desavenças, automaticamente eles aplicam certas regras para suavizar a agressão. Entre as “leis” do permitido e do proibido durante as lutas, encontram-se: “é proibido atacar pelas costas”, “o lugar de chutar deve ser olhado com atenção”, “deve-se ter extremo cuidado para não lesar as partes “nobres” como os seios, testículos, pênis, olhos, estômago”, “os chutes ou coices são permitidos em resposta a determinadas agressões verbais mais graves, mas não às leves”: “não se pode usar objetos para agredir”, “deve-se evitar as brigas diante dos filhos”, “se o companheiro estiver deprimido, gripado e com diarreia, ele deve ser respeitado, não podendo ser agredido nesse dia”. Os homens envolvidos nesse tipo de briga agem com suas mulheres durante estas lutas excitantes como se estivessem educando um filho. Ora a seguram, impedindo-a de se movimentar, ora a seguram para que essa não saia à rua, ou para impedi-la de lhe atirar um objeto. Sua agressão é mais simbólica que real – muito diferente do agressor típico - mais para mostrar à companheira seu maior poder físico que para feri-la. Sendo assim, os maridos só batem nos lugares apropriados, usando apenas um pouco da força, com a palma das mãos, visando controlar a agressão passageira da companheira/adversária.

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As mulheres que participam dessas brigas geralmente atiram objetos, quebram outros, rasgam as roupas do marido, xingam palavrões, gritam para chamar a atenção ou para pedir socorro aos vizinhos. Esse tipo de briga é frequentemente mostrado nas novelas da televisão. Uma particularidade desses casais nos quais ambos são agressores é que os dois são assertivos, isto é, nenhum tem medo do outro. Esses agressores, marido e mulher, estão sempre prontos para responderem às provocações recebidas. É comum o uso do álcool por um, ou por ambos os cônjuges, situando-se em torno de 50% dos casos. As brigas se dão geralmente durante discussões acerca de questões simples. Essas vão aumentando de intensidade, pouco a pouco, passando por períodos de uso de termos chulos até chegar às agressões físicas. O interessante dessas brigas está no fato de que, muitas vezes, elas fazem nascer um certo grau de excitação sexual, o que pode ser uma razão automática ou involuntária de sua provocação. A excitação sexual talvez seja despertada pela respiração ofegante de cada contendor, pelo roçar dos corpos quentes e lubrificados pelo suor, pela dança dos agressores exibindo movimentos rápidos e também lentos. Toda a cena provoca a lembrança do ato sexual, realizado frequentemente no mesmo local onde, no momento, está ocorrendo a briga. Estudiosos do assunto afirmam ser a agressão física um excitante para o organismo para a realização de diversas ações, entre elas a sexual. Por tudo isso, estas brigas terminam muitas vezes com os cônjuges rolando agradavelmente na cama “entre tapas e beijos”, com o aparecimento do prazer, da liberação de endorfinas endógenas e de oxitocina, bem como o retorno à suave paz. Estes comportamentos violentos continuam enquanto o casal estiver morando junto, aumentando sua frequência nos períodos de piora nas relações. Uma vez afastados um do outro por separações, as agressões terminam. Mas quase sempre voltam com um novo casamento, mostrando que esses cônjuges apresentam um padrão de agressão física ao lidar com certos problemas existentes, o qual pode ser interrompido temporariamente, quando não há um cônjuge apropriado, ou seja, pronto a aceitar o desafio e a entrar numa briga simbólica de amigo-inimigo.

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mArido VioLento: este incomPreendido
O homem que agride sua companheira tem sido interpretado de diversos modos: cada interpretador usa um ou vários modelos ou teorias explanatórias. Um e outro grupo defende apaixonadamente seu ponto de vista acerca do homem violento, convencido de sua veracidade. Entretanto, seus opositores também têm suas certezas. Vejamos algumas interpretações deste ser ainda não compreendido. 1 - A antiga psicologia dinâmica freudiana, hoje moribunda e em extinção, interpretava o agressor da esposa como sendo sádico. O ato de bater, para esse modelo, daria um alívio e prazer ao agressor. Já sua companheira, permitindo ser agredida, era classificada como masoquista - a que gosta de apanhar. 2 - A Psicologia da Relação Objetal interpreta tanto o violento como a vítima que aceita as agressões como possuidores de personalidades patológicas. Os dois grupos estariam catalogados como Transtornos da Personalidade Antissocial, “Borderline” e Narcisista. Além disso, para essa teoria, estes agressores foram abusados e espancados na infância. 3 - A Psicologia Cognitiva Comportamental explica a agressão desses homens como proveniente de distorções perceptuais e de sua tendência a atribuir causalidades incorretas à conduta da esposa. A raiva deriva da pessoa ter, desde cedo, seu “processador de informações” defeituoso. O seu possuidor seleciona e enfatiza apenas

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os eventos provocadores de raiva, generalizando estes e, por outro lado, negligenciando as informações não agressivas. O possuidor desse “defeito” interpretativo fica sensível somente às ações “negativas” da companheira. 4 - A Biologia estuda as disfunções orgânicas do agressor provenientes de distúrbios hormonais, lesões cerebrais, defeito nos neurotransmissores, baixa de glicose, etc. Estas disfunções podem ser exacerbadas pelas drogas ou álcool. Entre os sinais genéticos, anatômicos e bioquímicos que têm sido associados às agressões dos maridos estão o baixo teor de serotonina, as infecções cerebrais, um sistema nervoso autônomo pouco reativo, o sexo masculino, a juventude e a baixa inteligência. 5 - A Teoria dos Sistemas explica a agressão como decorrente de interações disfuncionais entre os familiares do agressor. Esta agressão é cultivada pelo agressor e pela vítima. Uma briga pode ser uma forma de preservar condutas que estão sendo úteis à manutenção do grupo familiar, permitindo a cada um dos membros desempenhar um papel aceito pelos demais familiares. 6 - O Modelo Ético-Religioso coloca o marido violento como responsável por sua agressão. Possuindo o “livrearbítrio”, este tem condições de distinguir o “certo” do “errado”. O agressor deve ser punido por seus atos ao agir erradamente devido à sua “maldade” interna. Através de punições, penitências e rezas, o agressor poderá ser perdoado e se converter. 7 - O Modelo da Lei examina se o marido agressor infringiu, ou não, o permitido pela lei. Desse modo, ele deve ser julgado de acordo com o que consta na legislação em vigor. Deverá ser absolvido ou punido, dependendo do exame das provas arroladas tanto em sua defesa, como na acusação. É a parte formal que interessa e não os fatos em si. 8 - As feministas, por fim, veem o agressor como um produto das instituições sociais que não criaram uma igualdade entre homens e mulheres. Existe a agressão masculina devido a uma longa história do domínio dos homens sobre as mulheres, muitas vezes constru-

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ída ou apoiada pelas próprias mulheres. Criado com privilégios, o homem acredita no seu direito de julgar e punir as mulheres que o desafiam. Diante de tantas explicações, pergunto-me, qual é a certa? Não tenho resposta.

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incesto emocionAL
Algumas famílias escolhem – aleatoriamente - um filho, apenas um, para ser o “tutor” da família. A partir desse recrutamento os esforços desse filho não mais serão dirigidos para suas necessidades de criança, mas sim para ações adultas destinadas a unir, proteger e estabilizar a família desajustada. Os meninos educados desse modo receberam, de alguns psicólogos, o nome “Personalidade Atlas” - deus grego condenado a suportar o céu nos ombros para impedi-lo de amassar a Terra. Os estudos mostram que muitas dessas famílias são dominadas por uma mãe poderosa, egocêntrica, emocionalmente instável e pronta para xingar e explodir sob qualquer pretexto. Estas mães têm sido diagnosticadas pelos psiquiatras como possuidoras de um transtorno de personalidade ”limítrofe” (borderline), onde se inclui a irritação, impulsividade, tentativas de suicídio, autolesão, sentimento crônico de vazio, pavor de ser abandonada, além de terem um sentido da realidade diferente do das outras pessoas. Essas mães esperam, e exigem, que o resto da família aceite e apoie seu ponto de vista acerca de tudo o que ocorre à sua volta. Só ela tem razão, os outros estão sempre errados. Responde com explosões de ira às frustrações e decepções e, quase sempre, acusa os familiares ou parentes de fazerem “pouco caso” dela. É nesse ninho disfuncional que desenvolve o filho, ou filha, destinado a suportar, apaziguar e resolver as misérias e “loucuras” ali exibidas a todo momento. Sua resposta precisa ser rápida e capaz de pôr fim às exigências extravagantes da mãe egocêntrica e possessa. A

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culpa da vida desestruturada e sem objetivo dos pais é colocada no infeliz e tolerante filho escolhido. Ele é forçado a participar e tomar partido nas brigas tolas dos pais: em qual programa a TV deve estar ligada, ou quanto tempo cada um deve ficar no banheiro. O filho altruísta, nessas ocasiões, é acusado por ambos de estar tomando o lado de um ou de outro deles. Este sofredor deverá ouvir as histórias chatas dos pais, consolá-los com palavras vazias e adocicadas, franzir a testa e mudar o tom de voz para demonstrar preocupação com as queixas acerca da saúde, da estabilidade e da sobrevivência deles. Como guardião da imagem da família falida, o escolhido, ainda muito cedo, deve se engajar em atividades designadas para eliminar, camuflar ou, no mínimo, diminuir os danos exibidos pela família. Muitos desses pais exigem sua ajuda em situações delicadas como tomar a responsabilidade em falcatruas e obrigar um dos irmãos a tomar decisões cruciais. Geralmente a escolha é feita cedo. Pouco a pouco esse filho passa a exercer o papel de “pai e mãe” da família, participando dos diversos problemas que seriam próprios dos progenitores. Ele opina acerca do que a mãe terá de fazer ao descobrir que o pai tem uma amante, a cuidar do alcoolismo da mãe. Esse papel é exercido com frequência pelas crianças cujas mães são alcoólatras. É esse filho que vai buscar soluções para pagar as dívidas da família, opinar e decidir se os pais devem ou não se separar, ou, ainda, se devem voltar a morar juntos. Alguns pais consultam o filho acerca de terem ou não mais um filho, ou se seria melhor praticar um aborto. Também esse infeliz poderá dizer ao pai, inventando uma mentira, que sua mãe foi fazer compras, quando esta, de fato, estava com o namorado. Muito cedo aprendem a cozinhar, limpar, comprar e cuidar dos irmãos mais novos, inclusive impedindo-os de ver a mãe cambalear ou desmaiar. Fazendo o papel de “mãe” da mãe, elas ajudam-na a comer, fazer sua higiene ou a ir-se deitar. Com o tempo, essa tarefa passa a ser realizada rotineiramente. Além de cuidar dos pais, essa criança mantém em segredo as informações negativas da família. Estas “escolhidas”, olhadas externamente, são elogiadas pelos pais,

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parentes e amigos, percebidas como perfeitas, cooperativas e “devotadas” aos pais. Isso as anima a continuar nesse caminho ingrato. A criança escolhida para ser o “provedor”, pode exercer também a função de “esposo substituto” para o cônjuge desesperançado, solitário e infeliz. Caberá a ela fornecer ao cônjuge o apoio emocional e companhia que deveria vir do outro esposo. Para alguns autores essas crianças são vítimas de “incesto emocional”, uma forma séria de abuso por ser a criança seduzida a fazer um papel familiar que não compete a ela e nem é esperado culturalmente. Altamente treinados para esse trabalho de ajuda, mais tarde esses “pacientes” preocupados e sensíveis aos problemas dos outros, não de si mesmo, provavelmente encontrarão outros exploradores e, explorados por esses, irão ocupar posições de responsabilidade, continuando a fazer o que aprenderam precocemente: ajudar as pessoas a qualquer preço. Casam-se, muitas vezes, com mulheres tendo o mesmo perfil de sua mãe e cuidam delas para sempre. Estes santos ou altruístas fanáticos, que viveram orientados pelos problemas alheios e não pelos próprios, morrerão, possivelmente infelizes e arrependidos, por não terem escolhido, há muito, um caminho diferente do trilhado.

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soLitÁrios mAs nÃo isoLAdos
A literatura popular tem defendido a ideia de que morar com outras pessoas é benéfico para a saúde. Muitos psicólogos endossaram essa afirmação, acrescentando que os indivíduos isolados teriam mais transtornos da personalidade e, muitas vezes, precisariam de tratamentos. É comum entre as pessoas interpretarem o isolamento social, ou falta de ligações com outros, como sendo um “problema”, ou mesmo loucura do indivíduo. Certas pesquisas têm afirmado que o isolamento conduz à solidão, e que os isolados apresentam uma autoestima mais baixa, avaliam a vida negativamente, morrem mais cedo de doenças como infarto, aterosclerose, etc. e também têm taxas mais elevadas de alcoolismo e suicídios. Portanto, a crença existente e defendida por muitos é que morar com alguém faz bem à saúde, servindo de profilático ou antídoto contra os sofrimentos. Felizmente, para o bem de todos, sempre há os que pensam diferente. Assim, outras pesquisas negam as crenças acima. Muitos podem, intencionalmente, cultivar a privacidade, desejar ou abraçar a liberdade que só o isolado pode ter. Essas pessoas podem estar sós, mas não solitárias. O contrário pode acontecer, muitos casados estão mais solitários do que muitos solteiros e separados. Os casamentos, muitas vezes, dificultam as relações fora das familiares. Para esse modelo, viver lado a lado com alguém não significa maior proteção à saúde e o contato mais restrito com outros pode significar escolha, não doença ou defeito da personalidade.

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Todos nós, constantemente, efetuamos comparações entre o que esperamos, ou desejamos, e o que está acontecendo de fato. Ao compararmos, automática e inconscientemente, examinamos se o número e a qualidade das relações que possuímos nos satisfazem ou não. De outro modo, se elas estão ou não conforme nossos projetos, se há acordo entre o desejado e o realizado, isto é, entre o plano e o ocorrido, tornamo-nos tranquilos e satisfeitos, caso contrário há desequilíbrio e insatisfação. Assim, a desarmonia surge quando os contatos existentes ou são poucos ou exagerados, conforme o idealizado pelo indivíduo, ou ainda, quando eles são de “má qualidade”. Havendo divergência entre o esperado e o acontecido, manifesta-se o sofrimento, o malestar emocional e intelectual. Uma vez alertados por essas bússolas internas, buscamos soluções para reverter a descompensação existente e, caso tenhamos sucesso, voltamos ao ponto de equilíbrio imaginado e experimentado pelo organismo como agradável. Em resumo: podemos tomar medidas, tanto para aumentar, como para diminuir nossos contatos e também para melhorar sua qualidade. Na esfera biológica, um fenômeno chamado de homeostase corporal, funcionando automaticamente, promove adaptações frequentes dos desequilíbrios internos do organismo. Procuramos beber água quando perdemos líquidos devido à transpiração excessiva ou vômitos, por exemplo. Na área das relações humanas, os transtornos, como são mais complexos que a sede, necessitam de estratégias mais sofisticadas. Primeiro, precisamos focalizar com clareza nossos projetos. Isso é difícil e por vezes não somos capazes de precisá-los. Segundo, avaliamos o meio ambiente para detectar nele a possibilidade, ou não, de fornecer-nos o planejado, como, por exemplo, o desejo de conviver com uma pessoa, mas esta pode nada querer conosco. Terceiro, orientados pelo projeto, selecionamos, dentre várias possibilidades e estratégias, uma capaz de levar-nos onde desejamos chegar. Quarto, ao atuarmos no meio ambiente escolhido e ao examinarmos com o nosso mapa avaliador interno, os resultados obtidos nos serão revelados conforme a qualidade das emoções sentidas – agradáveis e desagradáveis - e da adequação ao plano. Se tudo correr bem, a pessoa mantém as relações como estão fluindo.

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Portanto, o que determina o bem-estar e a satisfação da pessoa, ou seu sofrimento e insatisfação, é o acordo ou o desacordo entre o contato desejado e o existente. Concluindo: muitos se sentem isolados, mesmo tendo muitas ligações. Outros se julgam ligados, com poucos contatos. O critério é subjetivo e não depende apenas do número real de ligações. Alguns autores classificaram em quatro grupos as pessoas quanto à satisfação, ou não, com respeito aos contatos existentes: 1 - Ligado Satisfeito”; nesse caso o número de contatos é o desejado; 2 - “Ligado Insatisfeito”, o número existente de contatos é objetivamente alto, mas não corresponde ao padrão esperado e planejado pelo indivíduo; 3 - “Solitário Satisfeito”, o número de contatos é reduzido objetivamente, mas corresponde aos ideais da pessoa, ou seja, está de acordo com seu desejo; 4 - “Solitário Insatisfeito”, o número de contatos é pequeno e as pessoas desejam mais.

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o Amor nAs cAnçÕes PoPULAres
As letras das canções dos índios Sirono da Bolívia, um grupo nômade que vivia faminto, não descreviam o amor. Seus cantos, assentados nos seus sonhos e pensamentos, representam principalmente os alimentos. No Brasil, apesar da fome, as letras das canções populares ainda relatam, em sua maioria, as paixões, ou mais corretamente, as dores da separação. O mundo do amor descrito pelos poetas, não representa a relação amorosa concreta, dura e crua, vivida por todos nós. Focaliza, preferencialmente, um amor idealizado, ou seja, uma relação amorosa lírica e fantástica, algumas vezes, adocicada e piegas. Muitos ouvintes das canções populares não diferenciam a representação particular, criada pelo autor, da realidade do mundo frio e indiferente em que vive. Do mesmo modo que certos telespectadores às vezes agridem um ator, confundindo-o com o personagem representado por ele transitoriamente, alguns ouvintes das canções passam a se comportar conforme a descrição do letrista, misturando o amor construído pelo poeta, com o amor real do dia-a-dia. Nesse caso, os fãs dessas canções podem terminar seus dias “cantando suas mágoas” e “carpindo suas dores sozinhos”. O público, que desde criança ouviu e gostou de canções populares, pode automaticamente assimilar e agir conforme o modelo lírico de amor descrito nas canções. Estes ouvintes, propensos a deixar de lado o doloroso mundo real, facilmente passam a habitar, por

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instantes ou por toda a vida, o paraíso perdido do devaneio, da nostalgia sonhadora preparado cuidadosamente segundo certos clichês sentimentais fabricados com esmero. Os símbolos poéticos encerrados nas letras tendem a produzir emoções, ou já vividas, ou algumas nunca experimentadas. Nesse último caso as letras poderão servir de orientação para que seus adeptos tornem-se mais bem - ou mal - preparados para enfrentar situações futuras. Por outro lado, os símbolos podem também reorganizar experiências já vividas, tornando a pessoa mais consciente delas. Ora, quando as representações simbólicas nos fornecem uma informação errônea da vida, como é frequente nas canções de amor, o dominado e empolgado por elas ficará mal preparado para enfrentar situações semelhantes ao usar um modelo inadequado da realidade. Sabemos que a maioria das frustrações – talvez todas - e dos sofrimentos que enfrentamos, provêm do uso de falsas expectativas assentadas em concepções irrealísticas. Isto não significa, é claro, que as idealizações são nocivas por si mesmas. Elas constituem um produto inevitável e necessário dos processos cognitivos e comportamentais humanos de abstração e simbolização e sem estas seríamos reduzidos a meros animais irracionais. Entretanto devemos notar que existe uma diferença grande entre os efeitos possíveis do uso dos símbolos ideais “possíveis” e dos “impossíveis”. Os ideais amorosos, representados em muitas canções populares são, geralmente, aspirações de relações “impossíveis”. Várias letras desenterram sonhos de amores irreais, inculcados muito cedo através de histórias infantis como a do príncipe que se apaixona e se casa com a moça pobre e desleixada. Isto, como sabemos, parece só ocorrer na ficção. Além disso, certos símbolos contidos nas letras podem introduzir, nos mais distraídos, emoções desagradáveis e paralisantes, algumas tolas e açucaradas demais. As considerações acima discutidas surgiram através do exame de diversas letras de canções populares brasileiras, contidas no livro “Saudades Seresteiras”, catalogadas por Alexandre Júlio Coutinho

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Pimenta. O livro contém aproximadamente 350 letras de músicas populares típicas. Examinei, para exemplificar minha composição, apenas músicas populares muito divulgadas e de grande aceitação entre o público eclético. Algumas canções populares sugerem a existência de pessoas possuidoras de poderes extraordinários para o amante apaixonado: “Você é isso/uma beleza imensa/Toda a recompensa/De um amor sem fim...” “Teu amor na treva é um astro, no silêncio, uma canção./É brisa nas calmarias, é abrigo no tufão”. “Alguém como tu/Assim como tu/Eu preciso encontrar./De olhar como o teu/ que me faça sonhar”. “Sonhei com esse alguém noites e noites sem cessar/ Encontrei esse alguém como tanto eu queria”. “Minha vida era um palco iluminado/Eu vivia vestido de doirado”. No simbolismo das canções, o mundo mágico do amor é conquistado facilmente. Basta o enamorado exibir encantamento certo, existente no seu desejo de dedicar sua vida – muitas vezes rotineira e vazia - ao ser amado, para alcançar o relacionamento desejado, independente de outros importantes fatores. Assim, dentro do descrito, para ser amado não é preciso ter nada, nem nada oferecer, basta “amar”, isto é, agir, a qualquer preço, acreditando no conceito mágico idealizado de que o “amor, como a fé, rompe todas as barreiras e conquista tudo”. Essa descrição singela do amor fácil não mostra que, uma vez encontrado o rapaz ou a moça idealizada, a pessoa está apenas iniciando um caminho difícil e penoso, onde diversas adaptações e readaptações serão necessárias para se ter um êxito próximo do esperado, nos raros casos onde este ocorre. Afirma-se nas canções o contrário: escolhido e encontrado o ideal, todos os problemas estarão resolvidos: “No calor do teu carinho/Sou menino passarinho/Com vontade de voar”.

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Ah! se tu soubesses/Como eu sou tão carinhoso/E o muito e muito/Que te quero/...Vem sentir o calor/Dos lábios meus/À procura dos teus/...E só assim, então/ Serei feliz, bem feliz”. “Eu sei que vou-te amar/por toda a minha vida eu vou-te amar”. “Moça, moça eu te prometo/Eu me viro do avesso, só pra te agradar”. “Ó linda imagem de mulher que me seduz/Ah! se eu pudesse tu estarias num altar/És a rainha dos meus sonhos, és a luz/És malandrinha não precisas trabalhar”. “Eu sem você/sou só desamor/Um barco sem mar/um campo sem flor/...Sem você, meu amor, eu não sou ninguém”. Lamentavelmente, apesar do encantamento e do esforço de ambos para viverem no paraíso, nem tudo são flores: o amante confiou demais na honradez e fidelidade da amada e, tristemente, descobre que foi traído, dando origem ao desengano e ao protesto amargo: “Mentira, foi tudo mentira/você não me amou”. “Nada tu ouviste/E logo partiste/Para os braços de outro amor/ Eu fiquei chorando/Minha mágoa cantando/Sou a estátua perenal da dor...” “E em nome de Jesus/ Um grande amor você jurou/Jurou, mas não cumpriu/Fingiu e me enganou”. “Elvira, escuta os meus gemidos/que aos teus ouvidos irão chegar/não sejas traidora tem dó de mim” “Você sabe o que é ter um amor,/Meu senhor?.../Ter loucura por uma mulher/E depois encontrar esse amor/meu senhor?.../Ao lado de um tipo qualquer”. O apaixonado, através do amor patético, tentou, por todos os meios, encobrir seus complicados problemas existenciais. Ocultando as misérias de sua vida, ele sonhou ter alcançado o Éden, entretanto foi cair no inferno. O mundo belo e feliz do amor apaixonado se despedaçou sob o impacto de alguns fatos singelos, feios e normais da vida. O sonhador apaixonado se desespera e percebe, “com o coração amargurado”, que “o sonho se findou”:

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“Tornei-me um ébrio, na bebida, busco esquecer/Aquela ingrata que eu amava, e que me abandonou”. “Não falem dessa mulher perto de mim/Não falem pra não lembrar minha dor”. “Balada triste que me faz lembrar alguém/Alguém que existe e que outrora foi meu bem... não há mais nada! foi um sonho que findou”. “Porém nesse abandono interminável/No espinho de tão negra solidão”. “No rancho fundo/Bem pra lá do fim do mundo/Nunca mais houve alegria/Nem de noite nem de dia”. “No alto do campanário uma cruz simboliza o passado/ De um amor que já morreu, deixando um coração amargurado”. “A saudade mata a gente, morena/A saudade é dor pungente morena”. Entretanto, apesar dos desenganos, o amante teimoso tenta desviver o passado e reacende sua esperança. Lamentando e chorando seu destino ingrato, relembra a figura idolatrada do seu amor, esperando seu retorno: “Pise machucando com jeitinho/Este coração que ainda é seu”. “Começaria tudo outra vez/Se preciso fosse, meu amor”. “Que eu voltei pra me humilhar/Ai, mas não faz mal”. “Hoje eu vivo tão sozinho, ao relento, sem carinho/Na esperança mais atroz,/De que cantando em noite linda/Esta ingrata, volte ainda, escutando a minha voz”. “Boneca eu te quero, com todos os vícios/Com todo pecado, com tudo afinal”. “Eu sei que vou sofrer/A eterna desventura de viver/ À espera de viver ao lado teu/Por toda a minha vida”. “Volta! dá lenitivo à minha dor”. “Aceito os teus erros, pecados e vícios/Porque na minha vida meu vício é você”. “Você bem que podia me aparecer /Nesses mesmos lugares/ Na noite, nos bares/Onde anda você”.

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“Sorris da minha dor, mas eu te quero ainda/Escravo eterno teu farei o que quiseres”. Mas seu esforço foi em vão, “tudo foi um sonho”, apenas um desejo, a amada ficou mesmo nos braços do outro, que era um “tipo qualquer”. A partir daí, condoído de si, o amante enterra-se na autopiedade, na autodepreciação e esforça-se para esquecer a amada ingrata: “Sem você, meu amor, eu não sou ninguém”. “Neste mundo eu choro a dor/Por uma paixão sem fim/...Esta dor que me consome/Não posso viver/Quero morrer/Vou partir para bem longe daqui/Já que a sorte não quis/ Me fazer feliz “. “Esta saudade, este vazio/Esta vontade de chorar.../ Ai, se eu pudesse esqueceria”. O amante construiu uma ligação amorosa em termos idealísticos, sem as barreiras impostas dolorosamente pela realidade dos fatos. Apesar de sua crença forte, “o mundo caiu” e o sofrimento aumentou, dando origem à loucura. A amada que não lhe sai da mente, não retorna, por mais que ele suplique ajoelhado não altar dos flagelados. O mundo real descortinado torna-se insuportável. Resta-lhe, como salvação, o caminho da fantasia. O enamorado desesperado embarca na nave suprassimbólica, realizando uma viagem ao mundo da loucura. Lá visualiza fantasias substitutas ocupando o lugar das inacessíveis. As suas alucinações e delírios florescem livremente, pois inexistem obstáculos formados pela realidade indiferente e poderosa. Pouco a pouco, suas percepções misturam-se com as fantasias, costuradas no tecido fino da teia fabricada por esperanças e sonhos. Surge uma nova composição, nasce um novo ser, semelhante à amada idealizada, mas dotado de poderes sobrenaturais: “Cansado de tanto amar/Eu quis um dia criar/Na minha imaginação/Uma mulher diferente”. “Bom dia tristeza/Se chegue tristeza/Se sente comigo/Beba do meu copo”.

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“Eu vi uma vitrine de cristal/Uma boneca encantadora/No bazar das ilusões, no reino das fascinações/...../Como se fossem de verdade/ Mãos ideais os braços divinais/O corpo algo sem par/Uma perfeita Vênus”. “A vida para mim não vale nada/Desde o dia em que a malvada/O coração me estraçalhou/Às vezes pela estrada enluarada/Julgo ouvir uma toada/Que ela cantava para mim”. “Eu amanheço pensando em ti/Eu anoiteço pensando em ti, nos cigarros que eu fumo/Te vejo nas espirais/Nos livros que eu tento ler/ Em cada frase tu estás”. Esta parece-me ser a representação a respeito da relação amorosa transmitida por várias canções populares. Mas esse modelo não foi o que encontrei nos meus encontros amorosos. Provavelmente, porém, para serem aceitas e se tornarem populares não apenas no nome, elas precisam ser irrealistas e devem trabalhar com o falso. Os poetas, sabiamente, atentos à nossa miséria, percebendo nossa sofrida convivência diária com a incômoda realidade privada dos encantos do mundo imaginário, para nosso deleite, criaram esse “lenitivo para nossas dores”, pois, como sabemos, ninguém é de ferro...

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dUAs mULHeres: nUm diA QUALQUer
— Maria, o gás acabou? — Está no fim, D. Marta. — Telefone para saber o preço do botijão. — O grande custa R$ 147,00 e o pequeno R$ 35,00. — O quê? Que absurdo, Maria! O grande tem um pouco mais de três vezes o gás dos pequenos. Nesse caso, vale a pena comprar três dos pequenos, fica mais barato. — Mas, D. Marta, os pequenos acabam mais depressa. Um pequeno não dura nada! — Ora, Maria, se reunirmos três dos pequenos, eles vão durar mais ou menos o mesmo tempo de um grande. — Não, D. Marta. O grande dura três meses aqui em casa, o pequeno não dura nem quinze dias. — Não tem jeito, Maria. Se o grande é um pouco mais de três vezes maior, ele deve durar o mesmo tanto de três e meio botijões pequenos. É a lógica. — Eu não entendo de lógica, não. Mas sei, pois sou a cozinheira, que o botijão pequeno dura muito pouco. A senhora não se lembra que, antes de colocarmos os grandes, tinha todo dia de trocar o botijão? A senhora é cabeleireira, sabe fazer penteados, mas não sabe quanto tempo dura um botijão de gás. Todas as minhas colegas falam a mesma coisa, nenhuma gosta de botijão pequeno. A gente começa a cozinhar e o gás acaba.

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— Maria, escute: um pacote de arroz de cinco quilos não dura a mesma coisa que cinco pacotes de um quilo? — Não sei, não! Gás é diferente, arroz não pega fogo, nem sobe no ar, ele serve pra gente comer. Quem come gás ou planta gás? O botijão de gás grande tem mais gás e é muito mais pesado. Um entregador de gás carrega um pequeno com facilidade, mas o grande, nem pensar, é carregado no carrinho. Quando o homem veio colocar o botijão grande, ele estava tão pesado que amassou o dedo dele, saiu muito sangue. Ele ficou com ódio, o outro ainda riu dele. Se fosse um pequeno, ele levantava com um dedo. Lá perto de casa tem um homem que carrega o botijão de gás nos dentes, amarrado no arame. — Está falando de outras coisas, raciocinando errado. — A senhora não compreende, porque nunca mexeu na cozinha. Se eu colocar na mesa um bolo grande, ele não vai durar mais do que se colocar muitos pequenos? — Depende de quantos pequenos. Se for um número de bolos com o mesmo peso do bolo grande, os pequenos vão durar o mesmo tempo que o bolo grande. — Nunca! Quando faço um bolo pequeno, ele acaba logo. O bolo grande fica vários dias sem acabar, mais do que o de vários bolinhos. Acaba sendo jogado fora, de tanto durar. — É porque, ficando velho, as pessoas não o comem. — Agora a senhora viu que eu tenho razão! O bolo dura mais porque, quando é grande, dura mais, igual ao gás. Se a senhora caminhar três léguas, o tempo gasto vai ser o mesmo do que a soma dos tempos de caminhar uma légua três vezes. Uma légua lá na roça a gente caminha em 1 hora, mas três léguas, nem Tonico, meu primo, que caminha o dia inteiro atrás de vaca no pasto, não consegue caminhar em três horas, ele vai gastar muito mais e lá todo mundo fala que não tem ninguém que caminha mais depressa do que Tonico. A senhora, se fosse caminhar três léguas, era capaz de demorar umas 6 horas, ou nem conseguir chegar no final da caminhada. Se a senhora colocar três lâmpadas de 50 watts, elas vão clarear a sala igual a uma de 150 watts? É uma graça. Por que a senhora colocou na sala uma lâmpada forte, em vez de três pequenas?

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— Mas, Maria, caminhar e luz são diferentes. — Eu sei que é diferente, mas, ao mesmo tempo, é igual. No primeiro caso é o gás, no outro, o bolo, no outro, ainda, a légua e a luz. Pois bem, o gás a gente não vê, mas pega fogo e serve para cozinhar, o bolo a gente faz usando o gás e come, e a légua a gente não vê também, como o gás, mas passa por ela, a atravessa, sabe que ela existe sem nunca tê-la visto, e a luz, bem, luz eu não sei o que é, mas se ela não existisse a gente não ia enxergar nada. Mas todas essas coisas são iguais também, pois para comer o bolo, para gastar o gás, para ir de um lugar ao outro e para a luz clarear, principalmente a da lamparina lá da roça - as da cidade são diferentes - gasta-se um certo tempo. Começamos num momento e terminamos num outro momento, diferente do início. E aí é que está, a gente sempre gasta mais tempo com as coisas maiores, mais compridas que as mais curtas. — Isso eu sei, Maria, eu estou falando de proporções. Se uma coisa é proporcional à outra, elas gastam o mesmo tempo. — A senhora é mesmo cabeça dura. O caso do bolo, da caminhada, da luz não deu para perceber? — Mas nesse caso entram outros fatores que modificam o tempo final. Você está raciocinando errado, usando metáforas para concluir e isso sempre é perigoso, falando de uma coisa e explicando essa com os termos de uma outra. Para explicar um acontecimento, é necessário explicá-lo com palavras que têm seu significado apenas na situação examinada. Assim, se você tentar explicar uma coisa através de uma palavra retirada de uma outra explicação dá tudo errado e o resultado é essa confusão que você está fazendo. Você não pode explicar o tempo de duração do gás através do tempo gasto na caminhada. Assim, no caso da caminhada, entram outros fatores que modificam o tempo final. É difícil para você entender. — A senhora é muito engraçada. As patroas todas que conheci são assim. Parecem-se com o pastor lá da igreja onde frequento. Quando lhe perguntei por que eu não podia abraçar meu namorado antes do casamento, e podia depois, ele começou a falar de valores, normas, pecado, uma porção de coisas, que não entendi nada. Acho que

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ele também não entende o que explica. As patroas fazem o mesmo, quando perdem uma discussão começam a falar palavras difíceis, pois com elas escondem o que não sabem. Deixe pra lá. Compre o botijão pequeno e depois a senhora vai falar: “Maria, você está gastando gás demais!” Sempre é a gente que fica com a culpa, a corda arrebenta para o lado mais fraco. Nunca muda!

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BenditAs seJAm As QUeiXAs
“Que calor terrível”, “Detesto esta cidade”, “Essa seleção é a pior que já vi”. Frases como essas nós ouvimos a todos os momentos e em todos os lugares. Entretanto, só raramente ouvimos o seu oposto, como “Gosto desta cidade” ou o “Brasil vai bem”, e assim por diante. Queixar-se é um dos grandes passatempos de nossa população. É fácil, barato, familiar e acessível a qualquer um e, além disso, não exige nenhuma responsabilidade. Ao queixarmo-nos, sentimos piedade de nós mesmos e, quem sabe, talvez possamos ganhar, na outra vida, um lugar no céu por termos cumprido tão bem essa penitência na Terra. A função principal da queixa parece ser apenas um hábito para preencher o tempo, apesar de que, à primeira vista, é difícil aceitar essa ideia. Vou tentar esclarecer: a todo momento encontramo-nos uns com os outros e temos que falar alguma coisa. A conversa, para não morrer, precisa ser continuamente inventada, pois não fica bem ficarmos calados uns diante dos outros. Esse papo é diferente do que temos quando vamos a um banco, por exemplo, fazer um depósito ou retirar algum dinheiro. Nesse último caso há um objetivo claro, a conversa gira em torno dele e, retirado o dinheiro, encerra-se a comunicação. Uma parte de nossa conversação é formulada como no caso do banco, entretanto, mesmos nessas conversas, diálogos paralelos são inventados para preencher e sustentar o assunto principal.

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Quando, por acaso, encontramos algum conhecido, não há nada de objetivo e lógico para ser dito. O assunto fica por conta da criatividade dos envolvidos. A conversa termina quando acaba a imaginação, ou seja, quando nenhum dos dois descobre mais nada a ser falado. É bastante comum, ao encontrarmos o antigo amigo, perguntarmos: “Tudo bem?” e ele responde: “Tudo bem. E você, tudo bem? Nova resposta: “Tudo bem.” Se continuar nesse papo furado, a conversa pode emperrar e o encontro ser rapidamente desfeito. Mas poderíamos prolongar a conversa, por exemplo: “Tudo bem nada. Hoje cedo ao levantar-me, senti uma pontada no peito... E as queixas começam, a conversa flui, rica em dados. O nosso modo de expressar é muito rico em palavras e frases, que apenas servem para preencher espaços vazios. Possivelmente a maior parte de nossas conversas encaixam-se nesse tipo. Nessas, de fato, nada estamos falando no sentido objetivo ou produtivo da linguagem, apenas, prazerosamente, emitindo sons para nosso interlocutor, que faz o mesmo, como os meninos que estão começando a falar: eles ficam ouvindo os sons que eles próprios pronunciam. A sons emitidos pelas crianças e o papo furado dos adultos podem durar horas, mais ainda se estivermos num bar tomando uma cerveja. Ora, nas conversas de todos os dias, cada indivíduo tem várias palavras ou frases disponíveis, prontas para serem usadas, fáceis de saírem. Quanto mais o indivíduo usa essas frases - ou apenas palavras - já arrumadas, analisadas e sem risco de serem usadas, mais elas estarão prontas para saírem para o ar, seja qual for a situação vivida. Temos também o hábito de falarmos muito mais acerca de nossos “pontos de vista” do que acerca de fatos objetivos. Em lugar de descrever alguns lances do jogo assistido, o narrador fala: - O jogo foi ótimo, mas, na verdade, na minha opinião acho que Mariano devia ter entrado mais cedo. Esse técnico não presta. Entendeu? Se tivesse entrado... Os termos, “ótimo” e “presta” são julgamentos que formam uma opinião sobre o jogo ou a conduta de um bom técnico, não é uma descrição de eventos. Assim, quase sempre diante de qualquer aconteci-

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mento, emitimos muito mais a nossa opinião – os achismos - acerca dos fatos, ou nossa interpretação, e pouco ou nada da nossa percepção dos mesmos e frequentemente a interpretação tem pouco a ver com os fatos ocorridos. Provavelmente, em um grau maior ou menor, todos nós agimos assim. Desde cedo nossos educadores, de geração em geração, fizeram queixas e mais queixas acerca de tudo e de todos, criticaram mais do que elogiaram, assim é natural e esperado que os discípulos, aprendendo a lição, também passem a agir da mesma maneira automaticamente. Só muito raramente espera-se que um pai ou uma mãe fale que a temperatura do seu filho está normal, ou também que ele está disposto. Mas com certeza falará que o menino quebrou um copo, que está com uma febre altíssima ou, ainda, que é um desastrado, pois derramou água na mesa. Assim, se nosso filho chora, nós o chamamos de “chorão”. Ao classificá-lo de “chorão”, formamos uma ideia que pode ficar cristalizada acerca dele e, possivelmente, estamos criando um “mito familiar” e, como todo mito, esse irá dirigir nossos pensamentos e condutas para o infeliz filho. A partir daí, ele poderá ser tratado como se fosse sempre chorão e o imaginamos como agora chorando, mas que antes não estava e, possivelmente, depois também não estará. Além disso, preso ao “mito do chorão, não percebemos o choro como um fato natural, decorrente de acontecimentos que o levaram ao choro. O termo ou rótulo “chorão”, neste caso, é uma estimativa ética e, portanto, o comportamento é visto como inaceitável. Do mesmo modo os estigmas tais como “bobo”, “feio”, “gordo” e muitos outros, quase sempre são usados como juízos de valor e não para descrever fatos. Quando o modelo de pensamento, como nos exemplos, é a interpretação da realidade sobre a forma de queixas, a visão do mundo distorcida e preconceituosa poderá ser bemvinda pela facilidade de ser expressa, sintonizada, captada e entendida pelo interlocutor, por ser este um modo usual de conceber o mundo. Por tudo isso, viva essa conversa, as queixas, pois são esses instrumentos que mais “ligam” as pessoas umas às outras.

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As situações positivas, por outro lado, para serem percebidas e faladas, necessitam ser muito importantes, salientes ou acontecerem numa frequência muito grande: passou no concurso onde tinha 1.000 candidatos por vaga, estuda todos os dias até tarde da noite. As frases de elogios ou de percepção de fatos positivos, por serem escassamente usadas, não ficam disponíveis em nossa memória, ao contrário das negativas ou as queixas, que nos são mais familiares. Os médicos sobrevivem em virtude das queixas dos pacientes. Os advogados, juízes e promotores passam a vida ouvindo queixas de um lado e outro. Políticos são eleitos prometendo resolver as queixas dos eleitores e, por fim, nós nos ligamos à maioria das pessoas através dos elos mágicos das queixas. São elas que nos unem. Podemos concluir que uma conversa acerca de queixas fluirá com facilidade, todos nós temos estoques disponíveis delas prontas para entrar em ação. Por tudo isso, bendita seja a queixa, a principal razão da atual estrutura social.

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Homem X mULHer
Quando tinha meus sete anos de idade, lá pelos meus lados, um parente, após anos de casamento, procurou o sogro para lhe fazer a entrega da esposa e dos onze filhos. Alegou falta de recursos para cuidar da família. Sem rendas, não tinha como sustentá-los. Relatos como esse eu assisti por diversas vezes, mais tarde, quando adulto. Entretanto, jamais ouvi histórias como essa onde o “entregado” ou “devolvido” fosse a esposa, ou seja, a mãe dos filhos. Sabemos que algumas mulheres também agem como meu parente, mas são poucas. É muito mais raro uma mulher abandonar os filhos, como é difícil também qualquer fêmea de aves ou de mamíferos – animais mais desenvolvidos do ponto de vista evolucionário - largar suas crias, devido a algum perigo ou estresse. O comum é a fêmea-mãe lutar contra os predadores, usando de toda sua força e técnica possível. Os répteis, diferentemente, não cuidam das crias e caso possam e tiverem fome, os comem. Fiz essa pequena introdução para entrar mais a fundo nesse tema. A ciência tem mostrado que as mulheres se ligam mais, são mais afiliadas, formam mais grupos com seus companheiros, filhos, amigas, do que o homem. Cada vez mais se descobrem as razões disso, suas vantagens e desvantagens para as crias e para as mães, do ponto de vista da evolução. Pesquisas recentes sugerem que as mulheres ligamse mais devido à produção de certas substâncias, entre estas a oxitocina e determinados opióides endógenos – não fiquem assustados

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com esses nomes, pois isso não tem importância para a compreensão geral. Essas substâncias são liberadas pelo organismo feminino – de fêmeas de muitas espécies - em quantidade muito maior do que a do homem (machos em geral). Agora, o mais importante, uma vez na circulação elas aliviam muitos efeitos maléficos dos estresses. Vou explicar melhor: quando enfrentamos um problema, aparece o estresse, maior ou menor conforme o fato desencadeado e a pessoa que o enfrenta. Ora os problemas ocorrem a todo momento, por exemplo, uma chuva indesejável, a porta que não quer abrir, o computador que emperra, a namorada que arruma outro, o dinheiro que faltou, o ônibus que não veio a tempo, o trombadinha que enfiou sua mão desconhecida muito próximo de minhas partes íntimas, um local que alguns poucos, e bem escolhidos, têm acesso, etc. Portanto os estresses – um evento indesejável ou trabalhoso e complexo – nos atinge a todo instante, basta estar vivo. Há uma teoria antiga – Cannon, 1932 – que tem sido seguida sem críticas pela maioria dos pesquisadores. Ela afirma o seguinte: diante do estresse, ou lutamos ou fugimos. O meu objetivo aqui é mostrar que essa ideia não é totalmente correta. Esse padrão de conduta acontece mais com os homens, isto é, com os machos e muito pouco com as mulheres. Em outra palavras, há outras estratégias para enfrentarmos os estresses. Uma vez atingido pelo estresse, o nosso organismo, bem como o dos animais, produz diferentes quantidades e qualidades de substâncias químicas que têm por função adaptar o indivíduo ameaçado ao perigo existente, por exemplo, um assalto. Esse automatismo do organismo visa manter o equilíbrio do organismo atingido, preservar sua estabilidade com tudo funcionando a contento, apesar do perigo, do sofrimento ou do estresse. Como disse Cannon, é comum agredirmos (lutar ou fugir) o “provocador”, para destruir o causador ou aliviarmos nossa tensão. Um estresse frequente são outros organismos vivos, no nosso caso, outras pessoas. Assim, se percebo, ou imagino, que elas representam um perigo para mim, procuro fugir delas ou atacá-las, para conduzir

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meu organismo a um estado corporal agradável, de harmonia com o ambiente interno e externo. Esse esforço implica secreção de substâncias para que o novo quadro (luta ou fuga) se instale, às vezes repentinamente. Entretanto, a produção das substâncias químicas que nos ajudam a enfrentar a situação desagradável, provocam, por outro lado, outros danos ao organismo: aumento da glicose, da pressão arterial, dos batimentos cardíacos, tonteiras, contrações musculares, vômitos, náuseas, calafrios, desmaios, insônia, inapetência e uma série de outros sintomas devido à produção de hormônio do hipotálamo, que age sobre a hipófise. Esta, por sua vez, age sobre a glândula suprarrenal e a medula suprarrenal, que produz a famosa adrenalina e a menos famosa noradrenalina. Se o estresse continuar por muito tempo, a memória piora, o organismo fica mais sujeito a contrair infecções, pois os efeitos em cascata atingem também o sistema imunitário e uma série de outros transtornos, entre eles a depressão. Mas esse não é o tema principal do meu artigo. Quero mostrar as diferenças entre mulheres e homens, entre os machos e as fêmeas, diante do estresse. A sobrevivência de um indivíduo, bem como da espécie, dependerá da resposta mais “sábia” do organismo biológico ou interno. Deve ser lembrado que o organismo, de modo geral, reage sem pensar, ele não tem “inteligência”, age automaticamente, visando escapar do que está atrapalhando sua paz, sua homeostase. Até mesmo o alimento que ingerimos, por mais delicioso que seja, irá perturbar a paz ou equilíbrio do organismo. Uma vez invadido pelo arroz com feijão, o organismo terá que transformar o invasor e outros possíveis corpos estranhos do alimento. Isso dá trabalho, movimenta uma série de fatores complicadíssimos até que tudo retorne ao normal, à paz. Pois bem, diante da ameaça – do estresse - o organismo tenta, como pode, resolver o problema que surgiu e, como disse, não é só fugindo ou matando. Sabe-se hoje que a maioria das pesquisas realizadas para se chegar a essa afirmação, foram feitas com animais machos ou com homens. Estudos realizados com fêmeas em geral, e também com mulheres,

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mostraram que o paradigma não se aplicava a elas, como sempre se acreditou. A observação é simples. Diante dos filhotes ou filhos, famintos ou sem emprego, diante da ninhada de pintos ameaçada pelo gavião de penacho, diante da serpente pronta para abocanhar os ratinhos no ninho, as mães, em lugar de fugirem, ajuntam-se aos filhotes, pintos, ratos, crianças, etc. procurando, através dessa ligação, não só salvá-los do perigo, mas também salvar-se, escapar do estresse, de um modo diferente do que fugir ou atacar. É sabido que os grupos tornam mais difíceis os ataques do predador. O grupo confunde, faz o animal perder o rumo por ter dificuldade de perseguir um determinado. Também o barulho de muitos (choros, pios ou guinchos) perturba o atacante. Um fato surpreendente encontrado nas pesquisas recentes foi o de que a conduta das fêmeas, sua aproximação e ligação – estudada há anos por John Bolbby e outros mais – levam o organismo a produzir certas substâncias químicas, entre elas a oxitocina e os opióides endógenos, que reduzem a potência fisiológica e comportamental do estresse. Isso mesmo, a ação de não fugir, apenas defender-se, unindose ao grupo, é um fator importantíssimo, pois ele não só protege a prole, como aumenta a produção dessas substâncias químicas, diminuindo o sofrimento provocado pelo estresses. Um fato interessante é que essas substâncias são ansiolíticos, isto é, tornam o organismo mais calmo do que quando ele simplesmente foge ou briga, capacita-o a pensar melhor, estudar outras estratégias possíveis, em lugar de agir impulsivamente sem raciocinar. Sabe-se que as mulheres vivem em torno de 7.5 anos mais que os homens. Uma hipótese é a de que isso se deve a essa conduta das mulheres que, menos tensas devido à produção dessas substâncias químicas, sofrem menos os efeitos ou a potência dos estresses do diaa-dia que, por sua vez, diminuirão os efeitos, a curto e principalmente a longo prazo. Coitado dos homens, nosso organismo produz mais testosterona, o chamado de hormônio masculino, que tem, como uma de suas ações, a de agredir. Observem os homens: são eles que diante de fa-

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tos de pouca importância batem, matam, suicidam-se, bebem, usam drogas, etc. Além disso, a conduta masculina diante dos estresses, ao contrário do que ocorre com a maioria das mulheres, é o isolamento, a fuga dos contatos. Os homens formam menos grupos de apoio, de amizade duradoura. Poucos têm amigos íntimos, o que é quase a regra entre as mulheres. As pesquisas mostram que esse envolvimento das mulheres com outras, na maioria das vezes ocorre desde a infância, continuando entre as adolescentes e adultas. Nos grupos de meninos, as ligações são geralmente frágeis desde cedo. As mulheres têm uma maior produção de oxitocina. Esta substância é produzida em maior quantidade pelos organismos femininos e é ela que durante o parto faz aumentar as contrações uterinas. Também durante o orgasmo há aumento da oxitoxina nos dois sexos. Esta substância aumenta também quando encontramos uma pessoa da qual gostamos muito. Os opióides endógenos agem igualmente como calmantes – semelhante à morfina – sendo produzidos durante exercícios físicos e também, quando estamos diante de situações que muito nos agradam uma pessoa que nos interessa, um bom livro, uma boa música, um lugar que achamos bonito, uma oração para quem professa uma religião, etc. Como vimos, as ações dessas duas substâncias são semelhantes. Lamentavelmente não adianta aos homens copiarem a técnica das mulheres, pois seu organismo não foi feito para isso. A oxitocina e os opióides, durante os estresses, só têm um efeito duradouro nos organismos das fêmeas. Isso se deve à produção nesses organismos de grandes quantidades de estrógenos, ou seja, do hormônio chamado feminino. A oxitocina e os opióides atuam através dos estrógenos. De outro modo, no homem, com sua testosterona, o efeito não aparece, pois as pesquisas mostram que esta impede no homem a solidariedade natural das fêmeas. Uma das ações do hormônio masculino é a agressão para a defesa do território, da fêmea, do alimento, etc. Diversos estudos, que não citarei aqui, realizaram experiências com fêmeas e machos, injetando-lhes uma ou outra substância, ou também injetando inibidores dessas substâncias. Foram percebidas

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mudanças nas condutas das fêmeas para manter-se, ou não, ao lado os filhotes durante o estresse, quando as substâncias diminuíram ou foram bloqueadas. As mulheres, muito mais do que os homens, diante do sofrimento formam grupos de apoio, de solidariedade, que, uma vez construídos, as protegem do sofrimento que combatem. Os toques, os abraços, o contato físico e espiritual, comuns durante as grandes tragédias, aliviam os que assim agem, servindo como poderosos e duradouros calmantes – do mesmo modo que ficamos bem e calmos quando encontramos um grande amigo, reencontramos uma pessoa muito querida. As substâncias que são produzidas durante o estresse, ACTH, hormônios da hipófise, da glândula adrenal etc., diminuem a produção delas quando há ligação da pessoa com outras sentidas como companheiras, devido à produção de oxitocina e de opióides endógenos. Com isso, há uma diminuição das ações colaterais indesejáveis. Portanto, o contato físico, o encontro, a formação do grupo, o toque sutil ou não, o cheiro, voz, beleza e simpatia, são poderosos remédios contra o mal que enfrentamos constantemente. Infelizmente, porém, o mesmo grupo que aquece e protege, o mesmo cônjuge que produz oxitocina e opióides em nossos organismo pode, também, num outro momento, ser o provocador de estresses terríveis. As separações produzem o fim de determinados prazeres, do mesmo modo as brigas e as mortes. Desencontros diários podem ser difíceis ou impossíveis de serem transpostos. Portanto, cuidado, mulheres! A fonte de prazer, a união que tanto bem nos faz e nos protege até contra as doenças e morte, pode também nos levar ao sofrimento ou à morte precoce. Cerca de 20% a 50% das mulheres são abusadas em casa pelo companheiro que ela escolheu para abrandar seus sofrimentos. Não é fácil viver, de um e de outro modo, sempre surgirão riscos e perigos sérios. As mulheres, talvez felizardas, muito mais que os homens formam durante suas vidas ligações íntimas que permanecem: mãe/filha, irmãs/irmãs/amigas. Diante do sofrimento, não há a mesma tendência dos homens, como existe nas mulheres em geral, de unir-se.

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Os homens tendem a se isolar diante dos estresses. Deve ser levado em conta que os fatores sociais e culturais têm uma enorme importância também nesse comportamento, mas o papel dessas substâncias serve como intermediário nesse complexo comportamento que diferencia as mulheres dos homens. Em outras palavras, a Biologia não é um destino, mas uma tendência central que influencia e interage com o social, cultural e os fatores emocionais e cognitivos, resultando numa conduta substancialmente flexível. Diversos grupos de animais mais evoluídos agem também desse modo. Assim, macacas de certas raças, controladas por um só macho de maior status e força física, muitas vezes se unem contra o domínio desse macho autoritário, obrigando-o a ceder diante de um abuso a uma fêmea determinada.

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As mULHeres: o siLÊncio dAs inocentes
2.2 Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; 2.3 Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja; (...) 2.4 De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. São Paulo: Efésios, 5: 22 - 24 Infelizmente o apóstolo Paulo continua tendo muitos seguidores. Discursos como os de Paulo encontram-se disseminados nas famílias, escolas, mídias, religiões, artes e leis. Por isso, aprende-se cedo a discutível crença da inferioridade da mulher, uma afirmação sem apoio empírico. Esse tipo de julgamento desvaloriza os papeis, as condutas e o próprio gênero feminino e, uma vez ensinado e aprendido, domina a mente de todos. A separação dos seres humanos em dois grupos, masculino e feminino, por ser um fenômeno complexo, uma vez utilizada, contagia inúmeros aspectos da vida diária. A história do homem tem sido governada por falsas ideias. As ideologias transformam as pessoas em vítimas ou escravas das crenças difundidas. O APRENDIZADO DA SUBMISSÃO A criança, após o nascimento, é domesticada pelos sistemas de crenças existentes na cultura onde vive. São os pais que, por sua vez, aprenderam dos seus pais, os transmissores das ideias. Como deposi-

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tários e difusores dos fundamentos do raciocínio, entre eles, os nãoigualitários acerca do sexo, os pais tendem a escolher para suas filhas “meigas”, nomes suaves como Dulce, Cândida ou Felicidade. Para os meninos “rudes”, nomes de sábios, atletas ou artistas: Homero, Romário ou Fernando. Embora na fase pré-verbal a criança ainda não seja capaz de nomear o próprio sexo, bem como o dos outros, ela aprende a diferenciá-lo, observando as reações e as comunicações afetivas expressadas pelos pais, parentes e outros. Ora eles sorriem, ora fazem comentários de aprovação quando os filhos entram em atividades julgadas adequadas. Ao contrário, exibem emoções indicativas de rejeição, quando as atividades são julgadas impróprias. A atitude dos pais diante dos filhos, sancionando ou reprovando uma ou outra conduta, indicam e prescrevem as condutas desejadas e, junto com o comportamento, as emoções a ele ligadas, agradáveis ou desagradáveis, conforme executam uma ou outra ação. Frases como: “Oh! Há um menino no quarto.”, dita por um pai vendo a filha chutar bola, serve como uma crítica para a menina, indicando-lhe não ser aquele um brinquedo adequado. Outras atividades vão sendo executadas e testadas, gratificadas ou punidas, conforme a categorização cultural e as emoções expressas durante sua realização. Iluminados pelo mesmo simbolismo, os quartos são decorados de forma diversa para um e outro sexo. O menino usará calça azul e a menina vestido rosa. Os cabelos têm também estilos e tamanhos capazes de distinguir um do outro. Aos poucos, o estereótipo é materializado através de ações: brinquedos e materiais educacionais diferenciados. Para os meninos, máquinas, veículos, equipamentos de esporte e para as meninas, bonecas, mamadeiras, itens domésticos e flores. Os presentes “masculinos” devem orientálos para futuras profissões, os “femininos” destinam-se ao aprendizado de atividades domésticas. A agressão fica bem para meninos, não para meninas e milhares de outras orientações. Mas a construção da mulher não é tecida apenas por diferenças inocentes. A rotulação usada para separar o masculino do feminino carrega, disfarçadamente, significados mais profundos com respei-

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to aos papeis, profissões e habilidades gerais. Cedo, a criança nota que pertencer a um gênero criará grandes diferenças e, para piorar, intimamente enraizado ao conceito do permitido e do proibido, a cultura quase sempre enaltece as condutas masculinas e menospreza as femininas. A CONSTRUÇÃO DA SUBMISSÃO De todos os lados, sem percebermos, somos bombardeados por condutas-modelos - nítidas e frequentes demais - indicativas da maneira “correta” de se comportar conforme nosso gênero. Esse aprendizado, assimilado sem digerir, ao modelar a personalidade infantil carrega internamente inúmeros e imperceptíveis apelos à ordem masculina/feminina: hipóteses, afirmações e modos de agir. Nas novelas e nas propagandas de TV, os estereótipos existentes afloram a todo momento, quase sempre engrandecendo, sem preocupação pedagógica, os papeis e valores tradicionais existentes na cultura do dia-adia. Os homens são mostrados como dirigentes sérios e importantes, bem ajustados, enérgicos, habilidosos e ambiciosos. As mulheres são “usadas”, muitas vezes, para embelezar o ambiente, ou como anfitriãs, apresentadoras, animadoras, sedutoras e emotivas, sempre cuidando de alguém, ocupando posições desvalorizadas socialmente, tais como babás, donas de casa e outras. Junto aos amigos, os estilos de conduta continuam sendo modelados e confirmados. Cada companheiro elogia ou critica o outro ao escolher a atividade apropriada ou inapropriada segundo o credo. Deve ser lembrado que esse grupo não forma um conjunto isolado, pois encontra-se preso aos pais, à Igreja, professores e, principalmente, aos companheiros, isto é, ao grupo de referência. As pregações da Igreja têm sido tradicionalmente marcadas por afirmações indicando uma “enorme diferença entre homens e mulheres”. Além da postura antifeminista explícita - condenação de mulheres por falhas à decência, sobretudo em matéria de trajes - a Igreja tem mantido e divulgado, do alto de sua sabedoria e poder, uma visão

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negativa acerca das mulheres, da feminilidade e, através dos séculos, tem inculcado, explicitamente uma moral dominada por valores patriarcais. Um último problema: se, por um lado, algumas ações desempenhadas pelas mulheres são aparentemente aplaudidas e elogiadas, como o trabalho de cozinha, a costura, a limpeza, a maternidade, o ensino ou o secretariado, por outro, mais implicitamente, as mesmas atividades são depreciadas pela voz popular em geral. Nota-se que, nas entrelinhas, aparece um sentimento velado, inconsciente, sugerindo “a menor importância” dessas atividades que são “trabalhos simples” e “pouco significativos.” Entretanto, boa parte das atividades “masculinas” são explicitamente elogiadas, valorizadas e cobiçadas pelo povo em geral: executivos, jogadores, pilotos, banqueiros, gerentes. PROCESSADOR COGNITIVO E CATEGORIZAÇÃO O processador cognitivo de informações da criança vai sendo construído através do armazenamento de ideias e emoções ligadas aos acontecimentos: não só as experiências diretas vividas, mas também as sensações e observações sentidas acerca das condutas dos pais, amigos, professores, artistas da TV etc. A criança vai aprendendo a categorizar tanto a elas próprias, como também aos outros meninos ou meninas, retendo informações substanciais acerca das peculiaridades e papeis próprios de cada sexo. A partir dessas informações gerais, básicas, ela extrai orientações concretas para sua própria conduta e crítica dos outros. Aos poucos, a criança torna-se apta para deduzir e sentir, através de suas auto-observações e autocríticas, sentimentos de prazer e orgulho, ou de sofrimento e humilhação, por possuir, ou não, esta ou aquela característica. Inexoravelmente ela descobre que os papeis importantes na sociedade estão reservados para os homens, pois é fácil notar que eles são os principais dirigentes políticos, espirituais e financeiros. Além disso, na sua própria casa, quem manda e quem decide, além de ser mais respeitado, inclusive por sua mãe, é seu pai.

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GRUPOS IDEOLÓGICOS Os principais grupos ideológicos de nossa sociedade, começando com os familiares, cooperam para o mesmo fim: a pregação, explícita e implícita, da inferioridade da mulher. Em todos os lugares, diariamente, as crianças são educadas, treinadas e ajustadas para assimilarem essas crenças delirantes. Os grupos inoculadores de crenças, unidos pelo discurso pró-masculino, fazem parte de uma forte e poderosa rede, avaliando e aprovando as regras da conduta. A obediência à palavra, através dos tempos, tem sido uma tendência natural do homem, tomando o mapa pelo território, a palavra pela coisa, a ideia pela realidade. As ideologias, além de doutrinárias, de explicarem dogmaticamente tudo, também assimilam os fatos observados e mesmo experimentados, fazendo-os desaparecer quando eles poderiam ser úteis para contestar e destruir a fala utilizada. De outro modo, as ideologias, para sobreviverem, precisam rejeitar os fatos. As falsas suposições, ao invadirem a mente humana, contaminam, como um vírus, todo o modo de pensar e de sentir. Do mesmo modo que, para respirarmos, precisamos do oxigênio fornecido pelas plantas, para compreender o ambiente externo e o nosso próprio eu, bem como para prescrever ações e imaginar seus resultados, precisamos de símbolos, ideias e mitos, todos construídos pela cultura. Essa sopa complexa de conceitos, tanto pode fornecer o oxigênio para criarmos ideias adequadas, como também gases tóxicos, tornando-nos incapazes de pensar adequadamente. Nosso espírito acha-se mergulhado nesse caldo espesso. Selecionamos e extraímos dele os significados para avaliar os “fatos do mundo” e, entre outros saberes, as conjeturas do que é, e do que não é, correto e valorizado para as mulheres e homens. Como consequência, nossas interpretações do meio ambiente, nossas decisões do que fazer, querendo ou não, bem ou mal, estão assentadas nas crenças semeadas, aprendidas e cultivadas, com muita fé, pela cultura onde vivemos. Como muito bem alguém se expressou: “E impossível compreender algo que seja exterior e contrário ao tecido da interpretação permitida.”

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As noções transmitidas, ligadas aos fatos vivenciados, uma vez impressas e estruturadas passam a controlar o modo de processar informações focalizadas no momento por cada pessoa. É através dessas hipóteses aprendidas, e não comprovadas, que a mente da mulher julga a si própria, as outras mulheres, os homens e as relações entre eles. Muitas vezes, privadas de outros “programas mentais” diferentes do imprimido, para decifrar o observado, a mulher irá se avaliar - e não poderia ser diferente - conforme regras rígidas e simples armazenadas em sua memória, prontas para serem detonadas: isso é certo, aquilo é errado. A submissão da mulher torna-se, pela educação e condicionamento continuado, não um ato de escolha consciente e livre, mas sim uma obediência às pressões exercidas por forçar internas; um poder inscrito duradouramente sob forma de esquemas de percepções, de disposições, de como admirar, respeitar, amar etc. Em consequência, automaticamente, a pessoa torna-se sensível e reativa, ou insensível e não reativa, a certos eventos. Ela reage prontamente a um ou outro estímulo e não reage a outros. Em qualquer lugar, em qualquer tempo, a mulher – como também o homem – pensa e age comandada pela sua memória autobiográfica. Para alguns, sua consciência, nada mais é do que o aprendido, na maioria das vezes sem o desejar, trilhões de experiências armazenadas e disponíveis são usadas no momento da avaliação e da ação. É mais fácil reagir ou escapar de uma ordem externa, do que libertar-se da “prisão perpétua”, de uma imposição que vem de dentro. Apesar de não existirem escolhas livres, pois só podemos pensar com o que temos internamente, muitos imaginam que agem de uma maneira ou de outra devido à sua “liberdade” de escolha. Nada mais enganador, as bases do raciocínio foram semeadas por mãos alheias apesar de serem percebidas como pressões para agir de um determinado modo. Isso torna extremamente difícil, ou impossível, lutar contra essas ideias espúrias que, uma vez assimiladas e incorporadas em nossa mente, passam a fazer parte da estrutura mental do infectado, levando seu portador a não mais saber qual parte pertence ao vírus e qual pertence a ele próprio.

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O indivíduo contaminado e dominado pelas ideias alheias, passa a defendê-las, identificando-se com a crença do invasor, mesmo quando os princípios assimilados atuam contra o desenvolvimento de suas potencialidades. De um modo geral, acostumadas desce cedo a conviver com esse sistema assimilador defeituoso, elas tendem a rejeitar possíveis contestações às crenças que habitam sua mente e que as escravizam, bem como toda verificação empírico-lógica apresentada externamente. Entretanto, elas não são totalmente fechadas ao mundo exterior. Têm necessidade de alimentar-se de verificações e confirmações das crenças adquiridas, selecionando somente os elementos ou acontecimentos que as confirmam. Para isso, os eventos são filtrados pelo assimilador mental e cuidadosamente submetidos a uma peneirada, retendo apenas os resíduos possíveis de serem assimilados pelo mapa defeituoso, isto é, os fatos que confirmam a inferioridade. Em consequência, o Eu da pessoa que executa as atividades percebidas pelo sistema de pressupostos da cultura como “inferiores” – funções pouco desejadas e de menor importância social - fatalmente irá se classificar como membro do grupo dos menos capazes, dos rejeitados e sem regalias. A maioria das mulheres, sem nem mesmo atinar para esse aprisionamento claro e visível demais, vasto e duradouro demais, imaginam tudo naturalmente como fazendo parte do gênero feminino biológico como a altura, o tamanho dos músculos, a distribuição de pelos, o tipo de mamas, etc., características físicas sem possibilidade de serem mudadas. Imersa nesse cipoal de conceitos restritivos, a mulher ficou impedida de tentar, ou mesmo imaginar, investir em atividades consideradas apropriadas para os homens. Derrotadas e submissas, muitas vezes acreditando pouco na sua própria capacidade, assim vive a maioria das mulheres desse planeta. Muitas, apesar de degradadas pelas afirmações tendenciosas, continuam defendendo e lutando, até à morte, pelas prerrogativas masculinas que as dominam e as massacram.

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A ILUSÃO DO PRIVILÉGIO MASCULINO O privilégio masculino não deixa de ser, em parte, enganoso. Os homens, como as mulheres, também estão dominados pelas crenças culturais a respeito do próprio sexo e do das mulheres. As regras de como se comportar pressiona o homem a confirmar, em toda e qualquer circunstância, as prescrições embutidas nas normas existentes a respeito do seu gênero, isto é, de sua virilidade. O “homem verdadeiro”, o macho, é aquele que comporta-se procurando, a todo custo, honrar a masculinidade idealizada pelo grupo de referência pois, só assim, ele alcançará a glória, a distinção entre seus pares e ouvirá o elogio esperado com ansiedade: “este sim, é que é um homem.” A maioria não se apercebe da representação dominante na qual está inserido: ser homem implica uma maneira de andar – como se isso fosse natural – aprumar o corpo, erguer a cabeça, pisar duro, mostrar uma atitude e uma maneira de pensar e agir, bem como possuir uma ética e crença adequada ao seu sexo masculino. A “estrutura masculina” assimilada funciona como uma pressão que impele o homem viril para um destino que ele não escolheu. Este impulso invisível e astuto, sentido como inevitável, obriga seu possuidor a agir, sem raciocinar, conforme os cânones impostos e, uma vez acomodada no ninho propício, transforma-se num ente superior incorporado ao organismo. A ideia-mãe, dando crias, ou seja, formando novas opiniões correlacionadas, funciona como um destino, uma inclinação que deve ser cumprida a qualquer preço. A identidade desejada, inscrita em sua alma, só será alcançada por aquele que obedecer, cega e fielmente, a ordem superior. A submissão à doutrina transforma-se no ideal supremo. O sistema de exigências, torna-se um hábito, comandando a forma de viver da pessoa. Para provar a “masculinidade”, exibir e exercitar o comando interno da virilidade, inúmeros ritos foram instituídos pelo sistema de crenças, convertendo-se em atos, criando corpo: calouradas bem como outras festividades existentes entre escolares e militares. Estupros coletivos - variante da visita em grupo às casas de prostituição,

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comuns antigamente, brigas de torcidas, quebra-quebras, pichações em lugares perigosos, esportes de alto risco, assassinatos em defesa da honra, etc. A demonstração de “coragem”, sinalizadora da virilidade, é exigida em diversos grupos masculinos: policiais e forças armadas, principalmente as corporações de elite, bandos de delinquentes, trabalhadores em diversos grupos, etc. Em todos eles, incentiva-se o enfrentamento do perigo e critica-se o uso da prudência. Nesses casos, a bravura e a nobreza somente são admiradas, caso a pessoa enfrente a possibilidade de sofrer acidentes. O que mais chama a atenção em todas essas condutas próprias dos “machos”, é que elas apoiam-se, paradoxalmente, no medo de perder a autoestima e a estima dos outros, caso não consiga, ou não seja capaz, de se comportar conforme as normas impostas. O ato de “coragem” manifesta-se, provocado pelo medo, de ser tachado de covarde, mulherzinha, efeminado ou veado, gerando insegurança na mente do acusado. Portanto, diversas condutas masculinas promovidas para demonstrar “coragem”, assentam-se no receio de ir contra a opinião generalizada do grupo, em ter que agir da forma estabelecida pelo domínio simbólico, pois só assim provará para os outros e será proclamado viril. Agindo de forma diferente poderá ser excluído do mundo dos homens fortes, sem fraquezas, dos chamados de “duros”, como certos assassinos, torturadores, alguns patrões e professores. ARDIL PARA ESTABILIZAR A SOCIEDADE: OS PAPÉIS Para que haja harmonia social, é preciso nivelar, isto é, conduzir para um ponto comum a forma de pensar das pessoas. Para que haja a reprodução da força de trabalho há necessidade, não apenas da reprodução da qualificação profissional, mas também, e ao mesmo tempo, que haja a reprodução da submissão às regras da ordem estabelecida. Não haveria ordem e harmonia nas ações caso não houvesse um entendimento e acordo com respeito à ideologia dominante: é preciso que todos compreendem e aceitem, com naturalidade, as informações culturais simples, entre elas quem deve e pode mandar, quem deve e precisa obedecer.

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Da mesma forma, para que haja “harmonia social” entre os sexos “superior” e o “inferior”, torna-se necessário que os símbolos usados pelo “superior” - manipulador do domínio e da repressão (Estado, Direito e Polícia) possam ser entendidos pelo “inferior” dominado povo em geral - se possível, com simplicidade e orgulho. É preciso que o discurso não-igualitário, instituído de cima para baixo por um grupo, seja assimilado e entendido pelo outro grupo sem restrições. Somente se a maioria da população for contaminada pela ideologia dominante, adotando-a como fazendo parte do seu ser, haverá paz e só assim será possível a convivência pacífica entre os grupos de cima e os de baixo e vice-versa, fazendo com que cada classe cumpra as tarefas sociais a ela destinada, “livre e conscientemente”. De um lado, o grupo dos dominados, de outro, o dos dominadores e auxiliares do domínio como os administradores, os sacerdotes da ideologia dominante, os promulgadores como os funcionários encarregados da propaganda, etc. Para existir a paz perfeita, todos devem usar, com prazer e naturalidade, a mesma linguagem, concordar com os pontos básicos, para “o bem das pessoa, família, povo, nação e tradição”. Além disso, os pontos contraditórios ou injustos devem ser encobertos e idealizados como benéficos e justos, pois só assim o governo alcançará sua principal meta: manter a ordem social. A ordem social não poderia ser mantida apenas com a divisão simples de um grupo superior e outro inferior. Haveria sublevação da ordem pública, caso existisse apenas a afirmação da inferioridade da mulher. Era preciso criar, além dessa “ordem”, um outro sistema de crenças, circundando o primeiro, para que as mulheres e outros estigmatizados, pudessem, não só aceitar pacificamente seu papel, mas também, “valorizar” a inferioridade. Com esmero e sabedoria, astutamente foram inventados sistemas de crenças de níveis logicamente mais elevados - que englobam outros - estabelecendo a paz entre “superiores” e “inferiores”. Para isso a sociedade dominante construiu a valorização espectral, fictícia, de atributos e papéis dos dois sexos. Maquiavelicamente, para que certas profissões ou ações pudessem ser seguidas sem revolta,

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até mesmo com certo orgulho e prazer e, logicamente, não surgisse a baderna, criou-se uma ideia-chave: um novo mito, um novo domínio simbólico, ramo do sistema geral, enfatizando, com muita fé, a valorização de todo e qualquer trabalho, seja lá qual for. Essa ideia, inicialmente absurda, foi sendo divulgada e defendida pelos dirigentes e ouvidas com certa incredulidade por todos. Entretanto, aos poucos, a mentira foi se transformando em “verdade” simbólica, evidentemente, não real. Os órgãos superiores unidos, Estado, Igreja, Lei e Escola, defenderam e exaltaram a “verdade” nascida da ficção: “todo trabalho é nobre”. Aos poucos, o engodo foi crescendo, passando a ter vida própria, dando troncos, ramos e folhas. Bem firme, a ficção foi se tornando cada vez mais verdadeira. Todo trabalho passou a ser elevado, glorificado, todos trabalhadores passaram a ser abençoados por Deus e, como consequência, seu executor passou a sentir orgulho de realizar, para o próprio bem, e principalmente dos Senhores, todo e qualquer trabalho. Não faz muito tempo, o trabalho era visto como penoso e até degradante, principalmente os chamados “trabalhos braçais”. Agora, os tempos mudaram, o trabalho submisso, as profissões penosas e tidas com inferiores, as atividades cansativas e sujas foram adquirindo status de majestosas, ilustres, quase divinas para as classes “humildes” e, desse modo, aceitas com grande orgulho por seus executores. Para atiçar a mente do leitor, repito aqui frases frequentemente repetidas: “O trabalho enobrece o espírito”, “Todo trabalho é nobre e digno”, “Não há diferença entre a atividade do lixeiro e do senador” e diversos outros slogans do mesmo gênero que hipnotizaram todos nós. Uma vez inventado, imposto e aceito o novo valor supremo, foi possível a criação de diversas outras afirmações derivadas da premissa inicial, tais como: “ser um bom escravo é vantajoso”, “é glorioso servir a um homem importante como o Dr. X”. Ficou fácil, para a maioria das mulheres, ansiosamente buscar, com orgulho, ser uma ótima funcionária de qualquer expoente, carregar às costas uma série

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de atividades cansativas, trabalhar 30 horas por dia para o bem da empresa, em atividades pouco ou nada valorizadas. A mente do povo, uma vez invadida por esses conceitos, magicamente, por encanto, aquietou-se. A paz reinou nesse mundo de Deus, onde cada um trabalha em louvor à ideia dominante, não em benefício de seu próprio e singular bem-estar. Dominados por essa auréola ofuscante, incapazes de refutá-la, com orgulho repetimos: “Ela largou os estudos e o emprego para poder amamentar o filho.” Cada frase desse tipo não só tranquiliza o agente e executor, como também lhe fornece, muita vezes, uma alegria e orgulho em realizar tarefas quase penosas. Acalma o dominado, adoça a boca do servidor servil. Por outro lado, o dominador, como o pai agressivo, o mau patrão, o professor intolerante, o governo injusto, o ditador assassino, todos esses, em lugar de serem agredidos pelos subordinados, recebem obediência, honrarias, medalhas e gratidão dos dedicados servos, prontos para servir. Contaminado por essas ideias, começo a acreditar que alguns nasceram para mandar e outros para obedecer. Será?

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sePArAçÃo e PeríciA: AdVertÊnciAs
Fim do casamento. O juiz normalmente determina que a guarda dos filhos menores fique sob a responsabilidade da mãe destes. Este modelo de custódia dos filhos tem sido aceito sem maiores discussões, por quase todos os que se separam. Excepcionalmente, alguns cônjuges investem contra essa regra. As alegações, para tentar impedir que o cônjuge “inimigo” fique com a custódia dos filhos, ou até mesmo faça visitas a eles, são as mais diversas. Há outras regras de custódia do filho, entre elas a “custódia compartilhada” recentemente divulgada pela mídia. O advogado, ao ouvir as queixas apaixonadas e agressivas do cliente, imagina ser o outro cônjuge um louco ou crápula. A descrição, fruto de percepções distorcidas, mescladas a fortes emoções, procura criar uma história plausível para impressionar o juiz, o advogado e, por que não, a si mesmo. Espera-se, com a história fantástica, justificar as ações ora adotadas, conquistar a simpatia dos amigos e, se possível, receber uma sentença favorável do juiz. Tenta-se de tudo para alcançar o pretendido, inclusive a destruição, parcial ou total, do ex-amado, que, diga-se de passagem, nada mais é do que o pai ou mãe dos filhos e que será, no futuro, um provável sócio e colaborador na educação destes. Não é raro ver o advogado ficar “decepcionado”, ao conversar com o “monstro”. Por mais que investigue, não descobre o esquisito

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parceiro descrito pela história contada pelo cliente enfurecido. O advogado, ao relatar a impressão favorável, muitas vezes é dispensado pelo cliente, que imagina: “Foi comprado, ou talvez conquistado?” Outras vezes, afirma: “É fingido, parece anjo, mas na verdade é um demônio... você verá.” O cônjuge, contaminado por emoções violentas e conflitantes, mergulhado até a alma nessa briga composta de amor e ódio, tenta destruir o “inimigo” de todas as formas possíveis, acusando-o de louco, impotente ou homossexual. Os insultos, visando a impedir que o acusado tenha direito à guarda dos filhos ou de lhes fazer visitas a esses, não terminam aí. O acusador enfurecido tem outros nomes para seu atual inimigo: alcoólatra, drogado, paranóide, incestuoso, irresponsável, pródigo e agressor físico. Já assisti a tudo, existem outras acusações mais sutis e estranhas, mas as citadas são as mais divulgadas. Os juízes, diante das acusações acima descritas, podem pedir ajuda técnica aos psicólogos e psiquiatras para melhor fundamentarem seus pareceres. Esses profissionais, chamados a opinarem como peritos, são lançados na disputa, devendo julgar se o suposto “paciente” é, na realidade, o que a acusação afirma: um louco ou coisa semelhante. Caso o “defeito” for constatado, o “réu” poderá ficar impedido da guarda dos filhos, de visitá-lo e, até mesmo, de se separar. Recebendo o diagnóstico psiquiátrico, o cônjuge, ao ser denominado “louco” e, consequentemente, estigmatizado pela sociedade, sofrerá as sanções da lei, inclusive, dependendo do rótulo recebido, tornar-se ”incapaz de gerir sua pessoa e seus bens”. Em virtude das consequências sérias para a vida do “acusado”, torna-se obrigatório que os psiquiatras e psicólogos esclareçam aos magistrados, advogados e à opinião pública em geral, sua ignorância e incerteza acerca do comportamento humano e, como consequência, de seus diagnósticos e pareceres feitos com muito amor e dedicação. Só o charlatão, o inculto e o profissional desonesto afirmam ter certeza acerca dos resultados de seus exames. O perito sério e competente não pode simular uma falsa impressão de segurança nos seus achados, pois

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esta certeza não existe em nenhuma ciência, nem nas chamadas “exatas” – hoje não tão exatas assim - muito menos na área psicológica. O perito chamado deve verificar, com extremo cuidado - para não piorar o que já se encontra deteriorado - se o examinado tem ou não capacidade para cuidar do filho ou de se separar. Ele é chamado para opinar sobre isto. Sua missão fundamental não é verificar se existe um transtorno e fornecer um rótulo psiquiátrico para o magistrado, mas se o problema - se existente - é crônico ou intermitente, sutil ou óbvio, quais estresses existem e quais podem estar favorecendo o aparecimento do quadro clínico atual, bem como era a personalidade anterior do examinado. Precisa examinar a existência ou não de outros fatores tais como: se ele tem ou não a ajuda de parentes ou amigos, se tem ou não consciência de seus problemas, se ele está seguindo algum tratamento e qual o efeito que a doença tem tido, ou poderá ter, sobre a criança em discussão, se é que possa ter algum. O melhor guia para um comportamento futuro é o comportamento passado do indiciado. Ao verificar a existência de sintomas e sinais é necessário examinar se estes são compreensíveis – adequados - ou não, para a situação vivida. Assim, a Classificação Mundial de Doenças Mentais, o CID 10, e a americana, DSM IV, trazem, como exemplos de grandes estresses, entre outros, a separação conjugal, o afastamento dos filhos, as perdas financeiras, os problemas com a justiça e a mudança de domicílio. Como se vê, todos esses fatores ocorrem, em maior ou em menor grau, durante as separações conjugais. Portanto, qualquer exame psiquiátrico realizado durante essa luta, fatalmente vai detectar sintomas e sinais psicológicos característicos de algumas doenças mentais, que não apareceriam, caso não existissem os problemas que estão sendo vivenciados no momento pelo indivíduo.

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o terAPeUtA AmAdor
Todas as pessoas acreditam que é bom “ter um amigo em quem se possa confiar”, para contar os problemas e ouvir algumas palavras de ajuda e compreensão num momento de dificuldades. É realmente muito bom quando o ouvinte se limita a ouvir e evita dar palpites, pois conselhos ruins em momentos decisivos, podem destruir planos, vidas e trazer sofrimento. É preciso ter algum cuidado com os terapeutas de botequim. Assim como nem todas as terapias conduzem ao sucesso, muitos conselhos são desastrosos, apesar de todas as boas intenções contidas neles. Grande parte da conversa entre os amigos e respectivos conselhos envolve situações de pouca importância. Quando a indecisão se refere a uma ida ao cinema ou quanto a um restaurante, qualquer que seja o resultado, praticamente não haverá mudança na vida daquela pessoa. Mas nem sempre é assim. Os conselhos são dados também para situações de extrema importância para a vida de quem os recebe e, dependendo dos interlocutores, é seguido e pode ser fatal. A separação decidida com facilidade numa mesa de bar, sob o efeito liberalizante do álcool, pode ser catastrófica para a vida de quem se separou e sem nenhum prejuízo para o conselheiro. Às vezes, até com algum lucro. Um exemplo de conselho perigoso é o tipo “deixe-o sozinho, quem fala em suicídio não se suicida”, que é dado com frequência.

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Nesses casos o resultado pode ser a morte, já que essa crença popular não corresponde sempre à realidade. Inúmeros outros conselhos semelhantes são dados sem avaliação dos resultados, Nesses casos, o conselho dado de graça fica caro para a pessoa. É fácil aconselhar alguém a largar o emprego ou o namorado. Afinal, o outro sempre o fará porque quis e, portanto, sem nenhuma responsabilidade para o conselheiro. O difícil é conversar com a pessoa, indicando-lhe caminhos para que possa se ajustar melhor no trabalho, ou encontrar um relacionamento mais produtivo com seu namorado ou esposa. Uma conversa com um amigo que está disposto a ouvir com simpatia e solidariedade as queixas, tranquiliza o queixoso na maioria dos casos. O desabafo, por si só, diante de pessoa compreensiva e de confiança, traz alívio para quem fala. Por outro lado, emitir conselhos que vão mudar a vida do amigo, sem ter informações completas acerca dos problemas e recursos para resolvê-los, é uma atitude temerária. É claro que quem reclama teve alguma participação no fato que o leva a reclamar. Ninguém é somente vítima. Frequentemente, ao procurar um conselho, quem reclama busca ouvir o que queria. Um aspecto importante é o de que, quase sempre, o queixoso procura vários conselheiros e adota, automaticamente, a orientação mais parecida – ou igualzinha - à sua própria. Eles, nós todos, procuramos um apoio às nossas ideias e crenças, desse modo, os conselheiros foram, na verdade, selecionados entre os mais semelhantes ao cliente amador. Assim, o esposo ou a mocinha desencantada com o companheiro tende a buscar a ajuda da mãe ou do melhor amigo, reclamando: “É um absurdo o que ele me fez”, “Ela não podia ter me tratado daquela maneira”, “Ele devia ter-me dito”. Os terapeutas, quase sem exceção, irão escutar e comentar o ocorrido, defendendo o queixoso, dandolhe razão, tudo isso sem examinar o contexto e os antecedentes do fato. O consulente sai da “consulta” confiante. As frases indicam uma crença falsa acerca do poder de nossos desejos sobre a conduta das pessoa. Isso não existe. A pessoa deseja que o outro aja de modo diferente, mude, sem seus esforços.

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Numa família ou numa repartição pública, alguma coisa nos grupos envolvidos determina os que terão o papel de “queixadores” e os de “terapeutas”. Esses indagam: “As minhas amigas me procuram para queixarem-se”, “Gosto muito de Cláudia, ela me entende” ou “Marília me procura só para lamentar-se”. Por azar, nem sempre aquilo que deseja a pessoa que busca o conselho, é o melhor para si. Em briga de casal, o cônjuge procura a ajuda dos familiares e amigos que percebem e integram o mesmo sistema de pensamento dele. Geralmente, esses não o modificam, nem tentam melhorar seu relacionamento conjugal. A queixa principal não é examinada em seus diversos detalhes, o conselho é fornecido sem avaliar as consequências, sem examinar o papel do queixoso no problema e sem o preparar para adaptar-se ou resolver as situações problemáticas existentes. Desse modo, a falsa “ajuda” perpetua as desavenças. Por último e isso pode ser grave: quem faz as confidências fica comprometido com quem as ouve. Se o cônjuge pretende separar-se da mulher e fala muito mal dela, fica difícil depois explicar ao conselheiro a reconciliação ocorrida mais tarde, como também fazer um comentário favorável à mulher, em presença de quem escutou os impropérios dirigidos a ela. Por tudo isso, cuidado com os terapeutas de botequim, com os amadores.

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o cHAntAgistA emocionAL
Todos nós já convivemos com pessoas que chegamos a amar e, possivelmente, hoje odiamos. Relacionamo-nos com um tipo de indivíduo que num primeiro encontro mostrou-se agradável, simpático, e deu-nos a impressão de estar interessado por nossos problemas e de ser honesto. Com o passar do tempo, o percebemos como o oposto do que sua “máscara de saúde” aparentava. Os psiquiatras classificam esses indivíduos como possuidores de um “transtorno da personalidade antissocial”. São figuras humanas interessantes, constituindo 70% dos habitantes das penitenciárias, portanto, muitos deles estão soltos. É preciso muito cuidado com eles, pois podem infernizar nossa vida. Aparecem mais frequentemente entre os homens, embora muitas mulheres sejam antissociais. Alguns autores afirmam que 4% da população apresenta essa conduta, para outros, a proporção é maior. O direito denomina essas pessoas de “criminosos”, “estelionatários” e outros termos. O povo avalia negativamente esses indivíduos, chamando-os de “cara-de-pau”, “marginais”, “sem-caráter”, “sem-vergonha”, “safados”, “desonestos”. Falantes e animados, dão a impressão de pessoas felizes e bemajustadas. São artistas, exibindo uma falsa autenticidade, segurança e ótima saúde mental que, de fato, não possuem. Atenciosos e sem inibições, cativam rapidamente a todos, principalmente às mulheres, que se apaixonam com frequência por eles e muitas vezes passam a dedicar-lhes suas vidas.

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É atraído por ações perigosas e detesta ambientes tranquilos. Ele agride as pessoas quando frustrado, age apressadamente diante de situações problemáticas, pois não tolera refletir ou adiar ações. O antissocial é indisciplinado e geralmente incapaz de seguir objetivos a longo prazo, bons ou maus, isso não importa. Nas suas conquistas, pode ocorrer que já num primeiro encontro o antissocial declare todo seu amor e paixão à ingênua mocinha. Propõe-lhe um casamento ou uma vida a dois maravilhosa, pois está “caído” por ela. Em seguida, pede-lhe um empréstimo, pois terá de viajar na manhã seguinte para realizar um grande negócio, mas, como foi assaltado há poucos instantes, ficou sem dinheiro e também sem seus preciosos talões de cheques. Às vezes o “golpe” é mais lento. Há um início de namoro, com grande intimidade com sua parceira e familiares dela. Fica amigo de todos, conversa muito, conta casos interessantes e alegres, mostrase prestativo, frequenta a casa da namorada, passa a almoçar, jantar e até dormir lá. Para justificar o seu modo de vida, histórias fantásticas são relatadas à família. Essas, à medida que se descobre sua falsidade, são trocadas por outras mais fantásticas ainda. Ele não está trabalhando porque tirou férias de uma grande empresa, onde é diretor-presidente. Terminadas as suas “férias”, ele está planejando um vultoso negócio para a companhia e por isso foi dispensado de ir trabalhar. Que pena! De repente, fizeram-lhe uma injustiça: ele foi demitido. Mas não foi nada, pois ganhará uma grande indenização e antes de largar o trabalho, já terá sido contratado para novo emprego, por sinal muito melhor do que o anterior. Sem endereço nem telefone, sua família é uma incógnita, até seu nome costuma ser falso. Enganando a namorada, ele pode chegar ao casamento. Após este se consumar, surgem as brigas, as agressões físicas, as exigências de dinheiro e, com frequência, a infidelidade conjugal aberta: leva mulheres para dentro de casa, “transa” com a vizinha, com a cunhada ou com a melhor amiga do casal.

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Não mostra nenhum senso de responsabilidade conjugal. O casamento quase sempre dura pouco, acabando com o abandono da mulher e dos filhos. Nosso “herói” desaparece, arruma uma nova parceira para explorar. De quando em quando, retorna à antiga mulher, fazendo proposta de reconciliação, num tom de voz aparentemente emocionado, com olhos cheios de lágrimas. Nesses momentos, aparentando sinceridade, jura seu amor e arrependimento por tê-la abandonado. Afirma que nunca mais vai ocorrer o que aconteceu. Entretanto, as promessas duram pouco: só até à primeira frustração ou à primeira sedução fora de casa. Em sua mente nunca há culpa, ele nunca aprende com seus comportamentos inapropriados, pois não sofre com isso. Não é leal a ninguém, nem com nenhum grupo ou ideias. Não consegue julgar adequadamente nenhum de seus atos, nem os dos outros, pois não é atingido pelo sofrimento alheio. Explica, com sua lógica deturpada, toda e qualquer conduta sua, mesmo a mais imoral. Agressivo e impulsivo, não tolera ser frustrado. É um indivíduo geralmente incapaz de seguir qualquer objetivo a longo prazo, bom ou mau, isso não importa. Alguns estudiosos desses “doentes” afirmam que eles buscam, durante suas vidas, um caminho capaz de transformá-las em fracasso. Assim, se cometem uma falta ou um crime, arriscam-se, comentam, enfim, fornecem pistas para serem descobertos. (evidentemente, eles não são “bons” criminosos.) Ele não é um “louco” no sentido literal da palavra, mas é capaz de, após matar os pais para conseguir dinheiro para suas farras, pedir ao júri clemência por ser órfão. Após conseguir donativos para um asilo inexistente, afirmar que sua atitude ajudou àqueles que deram esmolas, pois os doadores ficaram aliviados e felizes por estarem ajudando os velhinhos pobres. À primeira vista eles parecem brilhantes, com inteligência superior, seja no trabalho, seja no estudo ou nas relações sociais. Mas, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde fracassarão, serão demitidos do emprego, afastados dos amigos e perderão tudo aquilo que, para os “normais”, é caro.

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Os antissociais estão em todas as partes: são encontrados nas favelas, nos bairros pobres, nas cidades do interior, nas grandes capitais, nos palacetes e até nos palácios governamentais. Diga-se de passagem, não são raros também entre os políticos. Alguns são presos por dar cheques sem fundos, roubar, montar firmas ou clínicas fantasmas, ludibriar seus clientes e assim por diante. Outros aprendem - às vezes bem - a utilizar-se de um vocabulário altamente sofisticado e eloquente, para manipular os outros em seu benefício. Utilizam também com esmero recursos histriônicos para comunicar sentimentos falsos. Esses, os mais socializados, escapam do cerco policial, chegando a ser vereadores, médicos, psicólogos, advogados, deputados, pastores, padres ou até mesmo governadores e presidentes da república. Sua conversa fácil e sua crença em inverdades, ditas com entusiasmo, seduzem o incauto que o procura ou o elege, projetando nele o seu Deus. Diante do leigo, ou mesmo do psiquiatra, ele parece normal. Durante a entrevista, nada revela de loucura, incapacidade ou deficiência mental. É sua história de vida, examinada e contada pelos acompanhantes, que fornecerá as pistas para percebermos que estamos diante de um indivíduo com perturbação da personalidade do tipo antissocial: um “doente” na sociedade. Entre as quadrilhas mais sofisticadas, as com um grau mínimo de organização, os antissociais não são aceitos, pois lhes falta, não só a disciplina, com também alguma ligação afetiva com o grupo de crime necessária ao êxito do empreendimento. A maioria deles não comete crimes suficientemente grandes para serem presos por longos períodos. Portanto, até com respeito ao crime, eles não são sérios. A carreira do antissocial geralmente começa cedo, ao roubar as merendas dos colegas ou faltar às aulas, agredir companheiros ou professores, ou ainda fugir de casa. Inicia relações sexuais precocemente. Bebe, ainda na infância, com grande prazer. Não se liga a grupos por muito tempo. Maltrata ou mata pequenos animais, agride sem piedade ou motivo os companheiros mais fracos, explora-os como pode. Mas sempre acha que tem razão.

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Com o aumento de seu poder, ao crescer apodera-se do carro do pai, estraga-o, faz farras e, quando recriminado, justifica-se, aparentando total sinceridade. Representando arrependimento, jura que vai mudar sua conduta, garante que aquilo nunca mais vai acontecer. Na primeira oportunidade, porém, ele retorna ao mesmo comportamento e novo juramento é feito, sempre do mesmo jeito, demonstrando as mesmas emoções falsas de antes. Mente a propósito de tudo, em qualquer lugar, com qualquer pessoa, e muitas vezes sem nenhuma razão. Se apanhado na mentira dará sua “palavra” de honra” de que não mais faltará com a verdade e firmará, nesse sentido, um “pacto de cavalheiro”. Entretanto, para nosso azar, os castigos, as críticas, as prisões e os internamentos geralmente não produzem efeito a longo prazo. Sua escalada continua: uso de bebidas, drogas, acidentes graves, roubos, abandono de emprego, brigas, cheques sem fundo, mentiras e mais mentiras. Os pais, desesperados, tentam ajudá-lo, montando um comércio, que é “depenado” em pouco tempo. Mandam-no para a fazenda do tio e lá ele planta maconha. Internam-no na casa de saúde e ali ele vende suas roupas, compra drogas, suborna o guarda e foge. Pedem a sua prisão. Nesta, ele se mostra como um cordeiro, e ao ganhar confiança, na primeira oportunidade burla a própria polícia. Nunca pensa a longo prazo, sendo total seu imediatismo. Não se pode contar com o antissocial, pois ele engana, rouba, falsifica, adultera e mente. Cultiva um grande desprezo pelas normas da sociedade, pelas dificuldades dos outros, sejam elas emocionais, financeiras, físicas ou sociais. Não se envergonha do que fez ou faz. Sua vida é cheia de proezas, que levariam a maioria dos homens à depressão ou mesmo ao suicídio. Entretanto, no antissocial não se exterioriza nenhum ato que possa indicar remorso ou humilhação. Nele não foram introjetados os nossos valores, sejam morais, sejam estéticos. Os mais espertos aprendem o desejado pelas pessoas. Conseguem transmitir ao povo a sua máscara de saudável honestidade e honradez através de um discurso contendo tudo aquilo que o povo

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deseja ouvir e alcançar. Depois, sozinhos ou com seus companheiros do mesmo caráter, tomando seu uísque escocês, riem e zombam daqueles que, inocentemente, depositaram confiança neles. Cuidado! Eles estão em toda parte!

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PedóFiLo: o monstro de dUAs FAces
A imprensa, equivocadamente, traçou o perfil dos pedófilos através do modelo dos criminosos da Bélgica. Esses nada mais são do que criminosos comuns que entraram nessa área, como poderiam estar em qualquer outra, para explorar pessoas. As famílias que imaginam os pedófilos, efebófilos e hebófilos (abusadores sexuais de crianças, púberes e adolescentes), conforme as informações da imprensa, fracassarão na proteção de seus filhos. Os pedófilos, bem como os efebófilos e hebófilos examinados e descritos pelos psiquiatras, são diferentes. Na maioria das vezes nem matam, nem ferem sua vítima, como rotineiramente fazem os estupradores. São homens medrosos, incapazes de raptar, estuprar ou usar força física. Sua técnica é outra: exploram a impotência, a ingenuidade das crianças e dos pais, ou a curiosidade dos adolescentes, prontos para buscarem ações de risco e novidade. Sendo fraco e incapaz de construir ligações afetivas maduras com adultos, aproveita-se dos inocentes. Muitos foram abusados sexualmente quando crianças. A maioria não tem orgasmo quando abraça e acaricia suas vítimas. Alguns masturbam-se após o contato físico. O pedófilo age muitas vezes na residência da vítima, na frente de todos que supõem tratar-se de carinhos ou brincadeiras. Muitos desses “apreciadores e amantes das crianças” são tios, primos, cunhados, vizinhos ou amigos da vítima ou dos seus familiares. Pode ser o entusiasmado professor do colégio, o técnico de futebol, basquete ou voleibol juvenil ou infantil, o pediatra ou dentista de crianças, o

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pipoqueiro da esquina, ou ainda o padre ou o pastor do bairro. Não se assustem, muitos são os próprios pais da vítima. O pedófilo aprecia abraçar demorada e apertadamente o corpo da vítima, acariciar com falsa ternura seu corpo, olhá-la com cupidez, conversar animadamente sobre sexo, mostrar filmes pornôs, tomar banho junto e frequentar praias de nudismo. Durante minha prática psiquiátrica, examinei não mais do que uma dezena deles. Esses foram à consulta, forçados pela lei ou por familiares, quando descobertos. Entre esses, um rapaz visitante frequente nas portas dos colégios em busca de púberes masculinos. Para seu azar, ele usou um radiotransmissor para conversar com suas presas, sendo preso. Um comerciante pedófilo pedia às meninas que passavam diante de sua loja, para apanhar um objeto colocado previamente numa prateleira alta. Seu truque era segurar a criança por trás para levantá-la e fazê-la roçar no seu corpo. No dia da consulta parou seu carro numa rua e, olhando para uma criança que brincava no passeio, masturbou-se. Um professor de educação física do interior, devido à sua “honradez e dedicação”, era encarregado pelos pais de “proteger” os filhos nas viagens a BH para consultas médicas ou passar férias. Um executivo foi pego por sua segunda esposa, quando acariciava o frágil corpo de sua enteada de cinco anos. Excitava-se, observando crianças banharem-se nas piscinas, vendo revistas contendo modelos infantis, assistindo programas para crianças na TV e filmes de Walt Disney. Um dos seus prazeres preferidos era dar banho na filha de um ano. Possivelmente todos estes clientes, se ainda vivos, continuam praticando essas ações, pois trata-se de um padrão de conduta difícil ou impossível de ser extinta. Apenas os homens têm sido acusados de pedófilos, mas existem mulheres pedófilas. A conduta de mães brincando com os filhos foi observada por peritos. 10% das mães estimulavam de forma imprópria as crianças: agarramentos e esfregões nos órgãos genitais. Os pais viam isso como demonstração de amor.

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conHeçA o estUPrAdor
Os estudos acerca da personalidade do estuprador têm mostrado aspectos de interesse para o entendimento de sua conduta sob o ângulo da psiquiatria. O estuprador geralmente é diagnosticado como tendo um Transtorno da Personalidade Antissocial (irresponsabilidade social, busca de risco, explorador, propensão ao uso de álcool e drogas, etc.). A sua bioquímica cerebral mostra, entre outros, um déficit no neurotransmissor serotonina. Os estudos mostram que uma diminuição dessa substância no cérebro tem sido associada com atos impulsivos, impensados, agressivos, suicidas, etc. O cérebro do estuprador parece ser internamente pouco ativado, levando-o a procurar mais estímulos externos para se sentir bem. Os estupradores, em grande parte, mostram-se agitados, inquietos e explosivos. Tem sido relatado que a inteligência do estuprador é mais baixa que a média da população. Essa deficiência mental tem sido atribuída a fatores genéticos ou a lesões cerebrais sofridas durante a vida pré ou pós-natal. Eles têm, principalmente, menor compreensão verbal e social. Com frequência, fazem uso de álcool e de drogas, agravando a sua já reduzida capacidade de lutar contra seus impulsos. Ainda cedo, os estupradores podem apresentar condutas desadaptadas como a crueldade com os animais, o uso de armas e má adaptação escolar. Na história de vida deles é frequente a enurese noturna (urinar na cama), incêndios e alcoolismo dos pais. Alguns es-

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tupradores podem fazer 150 vítimas durante sua vida, caso não sejam presos ou mortos. Cerca de 70% deles já praticaram outros crimes como assaltos, roubos e homicídios. Diversos estudos mostram que o padrão criminoso incorporado na infância desses indivíduos não será extinto com punições carcerárias. Como se sabe, todo e qualquer castigo usado comumente não pune o padrão aprendido, pune somente o indivíduo que praticou o crime. O estuprador, muitas vezes, ataca sua vítima com armas. Pesquisas mostram que certas pessoas tornam-se mais agressivas ao lidar ou mesmo visualizar armas. A maioria dos estupradores é formada de jovens. Cerca de 61% deles têm menos de 21 anos. Sabe-se que os jovens, principalmente do sexo masculino, praticam mais atos antissociais. Um outro fator de importância é a maior taxa de testosterona nessa idade, e esta parece atuar diminuindo a taxa de serotonina cerebral e, consequentemente, aumentando a impulsividade. Muitos deles, durante o ato criminoso, têm, ao mesmo tempo, raiva e medo. Daí sua conduta confusa, na qual se misturam agressões e investida sexual. Durante o ataque, o estuprador normalmente ameaça a vida ou a integridade da vítima ou dos familiares. Além disso, não é raro ele ejacular, defecar ou urinar na face ou corpo da vítima. Às vezes, introduz objetos no ânus ou na vagina desta. As vítimas dos estupradores vão, segundo os dados, desde os 15 meses até os 82 anos, sendo que a maioria delas encontram-se entre 10 a 29 anos. A estatura da vítima é geralmente menor que a do estuprador. Apenas cerca de 4% das vítimas facilitaram o estupro, o que é uma taxa baixa quando comparada com as pessoas assassinadas. Nestas, a percentagem chega a 22%. Apenas uma em cada quatro vítimas dos estupradores dá queixa à polícia. Para outros autores, uma em dez. Para terminar, a maior parte dos estupros ocorre dentro da própria casa da vítima e cerca de 7% dos estupradores são parentes.

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sUicídio PeLA ProVocAçÃo de seU AssAssinAto
Tenho lidado com um tipo de paciente muito especial e pouco conhecido da literatura psiquiátrica: o que, desejando morrer, procurou o suicídio, provocando seu próprio assassinato, ou seja, sem coragem de usar uma arma contra si próprio, provocou outras pessoas para ser agredido ou morto. Em 588 homicídios estudados por M.E. Wolfgang, nos Estados Unidos, 26 por cento deles, ou seja, 150, foram de vítimas que provocaram sua própria morte. Outras formas de agressões, provocadas por pessoas que procuram ser vítimas, são bastante comuns, como facadas, porretadas, pedradas, estiletadas e brigas de trânsito. Nos 150 casos de auto-homicídio estudados, todas as vítimas começaram a agressão, geralmente portando uma arma letal e assim, teoricamente, deveriam correr menos risco de vida que o adversário, mas foram mortas, o que era provavelmente o objetivo inicial delas. Não pagar uma dívida, trair o cônjuge e deixar pistas evidentes, utilizar palavrões em briga de trânsito e de bar, principalmente com pessoas mais fortes ou ostensivamente agressivas ou armadas, são os caminhos das pessoas que procuram o auto-homicídio. As mulheres casadas que procuram o auto-homicídio, às vezes o fazem através de traições sucessivas, deixando pistas cada vez mais evidentes. N.F., de 40 anos, com curso superior, após vários encontros com diferentes homens, sem nenhum cuidado para escondê-los, acabou por contar tudo ao marido durante uma briga, quando agrediu-

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o, afirmando: “Seu corno, você não me manda, eu saio com outros homens, nas suas barbas”. Neste momento ele sacou uma arma e atirou, mas felizmente não a matou. Durante uma entrevista psiquiátrica foi constatado que ela não tinha prazer sexual, a não ser com o marido. Os maridos podem buscar o mesmo tipo de morte, agredindo suas esposas, como o caso de homens que chegam em casa bêbados, espancam as mulheres com muita violência, quebram os móveis e depois vão tranquilamente dormir. Alguns conseguem realmente morrer. Os alcoólatras formam um grupo de alto risco de suicídio, logo atrás da depressão grave. Parentes destes pacientes se sentem perplexos por não entender por que o “Joãozinho gosta de uma briga”, ou o “Joaquim chega quase todo dia todo machucado”. Geralmente este tipo de problema não leva ninguém ao médico. T.J., carpinteiro de 29 anos, solteiro, após receber alta de um hospital, onde quase morreu após tentativa de suicídio, contou-me que no dia em que resolveu morrer procurou em seu bairro, na periferia da cidade, uma pessoa reconhecidamente agressiva, brigona e que usualmente andava armada. Fez tudo para brigar com esse cavalheiro. “Como não consegui”, relatou ele, “fui para casa e tomei uma mão cheia de comprimidos para morrer”. A crônica policial está repleta de mortes sem justificativa aparente. Os advogados lidam com esse problema até com certa dificuldade para explicar ao juiz os motivos de um assassinato com essas características. Desconhecendo o passado dessas vítimas, eles têm de criar defesas do tipo “legítima defesa da honra”, “matou por amor”, “assassinato cometido sob grande e incontrolável tensão”. Talvez nem mesmo as pessoas envolvidas possam compreender e explicar corretamente o que aconteceu. Há alguns anos atrás, elaborou-se uma taxonomia psicológica de causas de óbito, ao criticar as quatro formas clássicas da morte, que são o acidente, o suicídio, o homicídio e a morte natural. No primeiro caso, acidente, uma pessoa pode morrer sem que exista nenhuma ação consciente ou voluntária sua, como no assassinato e acidentes ortodoxos, ou por uma doença onde o paciente em nada participou.

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No segundo caso - suicídio - que nos interessa neste artigo, o indivíduo que morreu, colaborou para que sua morte ocorresse. Neste grupo podem ser incluídos também as mortes em que o indivíduo não toma os remédios indicados; continua fumando após o infarto; para de comer até morrer, arrisca-se em demasia em qualquer atividade perigosa, como dirigir em alta velocidade ou nadar em locais de alto risco e desconhecidos. Ora, se utilizarmos o mesmo modelo de raciocínio e em lugar de pensarmos em causas de morte, pensarmos em causas de danos, de lesões corporais, vários incidentes e acidentes incompreensíveis passarão a ser melhor compreendidos por serem com frequência autoprovocados, mesmo que a agressão parta de outra pessoa. Assim como existe o suicídio externamente, existe também o acidente, em que a vítima provoca uma pessoa para agredi-la. Em outras palavras, toda ação individual em um par ou conjunto de pessoas nunca é isolada, sendo dependente e dirigida ao outro, em resposta a um maior ou menor estímulo de outra parte. Se definirmos um problema como um tipo de comportamento que é parte de uma sequência de atos entre duas ou várias pessoas, percebemos que lesões corporais provocadas por surras ou outros tipos de agressões, como facadas e tiros - assim como o “auto-homicídio”, - são rótulos para uma sequência ou cristalização dessas numa organização social. Constitui um novo modo de pensar em direito imaginar que um fato ou sistema pode ser um “contrato” – automático e inconsciente - entre pessoas, consequentemente adaptativos para as suas relações em um sistema disfuncional. Como por exemplo, um indivíduo que provoca e responde ao outro, sua resposta pode ser uma provocação e, em círculo, um iria provocando o outro até o infinito, caso não ocorresse o crime. É claro que, em muitos casos, a provocação está mais acentuada em um dos membros, basta nos lembrarmos de qualquer briga no trânsito, ou crimes comumente ocorridos em bares.

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Se o crime - mesmo cometido de repente e no calor de uma briga - é o ponto culminante de séries de acontecimentos, para analisá-lo é preciso conhecer os fatos que compõem a cadeia psicológica dos eventos, que são muito diferentes do assassinato ou das lesões corporais ortodoxos. Mesmo que o réu e a vítima se tenham encontrado pela primeira vez, é possível que ambos tenham um passado psicológico semelhante. Segundo alguns teóricos, a vítima busca provocar muitas pessoas, na caça ao seu algoz. Certo dia, ela o acha justamente naquele que se encaixa no seu desejo, ou seja, o complementar, matando-o. Para exemplificar, uma mulher fraca é surrada por seu marido corpulento e agressivo. O que esta mulher andou fazendo para permitir, precipitar ou desencadear a agressão deste brutamontes? Nada? Pode ocorrer, mas é pouco provável. Esta mulher deve ter participado, num grau maior ou menor, na agressividade sofrida. Não a defenda antes de seguir o raciocínio abaixo. Em primeiro lugar ela geralmente é também ativa, pois casou-se com ele – ou passou a namorá-lo – quando esse, provavelmente, já demonstrara esta conduta em outras ocasiões. Desde o início não se defendeu adequadamente de agressões passadas e, provavelmente, se julga inferior ao homem por não ter músculos fortes. Além disso, deve-o ter criticado por palavras e gestos perigosos para aquele agressor em potencial. Necessita queixar-se aos filhos ou aos amigos de “que é uma vítima”, ou de outro modo, precisa sofrer, para acusar seu marido. Sua vida, naturalmente, está ruim, sem motivações e prazeres, portanto, qualquer situação excitante - apanhar – é menos ruim do que nada. Várias outras “razões” poderiam ser pensadas para compreender as agressões àquela pessoa em particular, não para justificá-las. Se admitirmos que uma família é um sistema devemos aceitar a premissa de que o comportamento se repetirá. Assim, sempre que uma pessoa casada apresenta um sintoma grave - agressão - esse sintoma tem uma função no casamento e se o sintoma desaparecer, ocorrerão consequências neste. De acordo com este modelo psicológico – não jurídico - não existe réu e vítima. Ambos são vítimas, com funções diferentes. Infelizmente se complementam de uma maneira desastrada e com alto grau de sofrimento para ambos.

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UmA ALegoriA do FórUm
Fui obrigado, pela lei, a ir ao Fórum. Havia muito tempo, graças a Deus, que lá não pisava. Um amigo com disputas acerca da guarda do filho implorou minha ajuda. Diante de sua súplica, semiforçado, não consegui negar-lhe o pedido. Cheguei. Logo na entrada, na grande escada que dá ao saguão, dei de cara com a Lei em sua plenitude. Ali incorporei em meu espírito o ambiente sério, muito diferente das bagunças dos hospitais onde trabalhei: Raul Soares e das Clínicas, além do terrível e inesquecível Pronto-Socorro das correrias, gritos, desespero, lamentos e morte rondando cada canto. No Fórum tudo é diferente: ali respiramos a Lei, a ordem, a limpeza, o modo correto de agir, a norma, a voz baixa, a calma severa e autoritária, o ordenado e sem escolha, o que tem de ser cumprido. Lá exala e assimila-se a Lei, querendo, ou não. Entrar no fórum é entrar na igreja, nos templos sagrados, de respeito e veneração. Logo na entrada nota-se a face grave do porteiro, dos réus, vítimas, testemunhas e também a minha. Talvez, até dos juízes. Peço desculpas por minha ousadia ou atrevimento: julgar os julgadores. Ali ninguém ri, não se brinca no Fórum. As pessoas não falam, sussurram perto, coladas aos ouvidos atentos e interessados do ouvinte, pois há sempre o temor de que alguém ouça o que não pode ser escutado. Baila no ar o pavor de ser percebido e punido como desrespeitador da Casa Sagrada, da Lei, e sendo lei, não pode ser discutida, por ser, por definição, o vigente, a regra, a norma, em resumo, o certo.

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Suando, representando toda a humildade exigida naquele ambiente severo, perguntei ao porteiro onde era a sala onde deveria depor. Para meu espanto, fui tratado com respeito, cordialidade e até bondade ou piedade. Não sei. Imaginava o contrário, que o porteiro, por razões que eu desconhecia, poderia me mandar prender, no mínimo me repreender por desacato. Talvez o porteiro, conhecedor dos que ali vão, tenha decifrado meu embaraço, tivesse pena de mim. Naquele dia estava de bom humor e decidiu ser caridoso para o dócil, submisso e fraco indivíduo que era eu. Agradeci respeitosamente sua gentileza e o mais rápido possível, para não incomodá-lo, caminhei apressado em direção à sala do magistrado. Eu estava atrasado dois minutos. Isso me incomodou absurdamente. Aproximei-me do lugar indicado. A porta da sala onde deveria depor parecia estar aberta. Perguntei-me ansioso: ”Estariam me esperando?” Seria ameaçado, talvez preso, pelo desembargador, juiz, promotor, defensor público ou mesmo pelo oficial de justiça, por não obedecer ao horário estipulado e, portanto, à Lei ? Esperando o pior – sempre imagino a prisão que nunca chega – mas fingindo, só fingindo, ser valente, apesar de um pouco abobado, comecei a fantasiar as desculpas que daria: o trânsito ruim, uma batida, uma doença na família. Entretanto, meu cérebro criticou-me logo: “Você acha mesmo que irá tapear um juiz com argumentos tão vulgares? Desculpas, diante deles, só usando respostas de altíssimo nível e estas você não possui”. Derrotado, pouco antes de entrar na arena, imaginando o pior, caminhei de cabeça baixa em direção à Vara de Família. Disfarçadamente, para não chamar a atenção, olhava pelos cantos dos olhos para um lado e outro, examinando a conduta de cada um, sem que ninguém notasse meus cuidados. Tentava decifrar o que as pessoas pensavam, suas intenções, principalmente, as relacionadas ao meu atraso de dois minutos. Afinal, cheguei onde queria. Lá dentro algumas pessoas conversavam despreocupadamente. Uma senhora olhou-me. Virei o pescoço o mais possível para trás, como se estivesse procurando alguém. Infelizmente, não havia ninguém às minhas costas. Examinou-me, jul-

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gando-me com os olhos severos da justiça. Devia estar recriminandome por ter entrado sem ser permitido naquele lugar solene. Tremi! Imaginei: “Agora serei punido”. Dava ou não dava mais alguns passos em direção à mesa do juiz, ou voltava rápido para a saída? Imaginei fingir ter entrado ali por engano, por estar procurando o banheiro. Ela olhou-me fixamente, nada pronunciou: criticava-me. Não precisava ser muito esperto para imaginar o que se passava em sua mente: “Como você, uma simples testemunha, chega dois minutos atrasado, sem atestado médico na mão, sem muletas e sem nenhum outro documento válido e sério para justificar sua inobservância dos preceitos legais e regulamentares desse lugar sério?” Fiquei paralisado! Imóvel como fazem os animais fracos diante dos mais fortes. Era minha única saída, demonstrar, olhando para seus pés, minha posição: a mais inferior possível, uma barata tonta que, se ela quisesse, podia amassar num piscar de olhos. Aprendi cedo a respirar profundamente diante do medo. Lembrando da receita antiga, comecei a respirar fundo. Nesse momento a mulher, tirando seus olhos dos meus, focalizou um processo que havia caído ao chão. Eu continuava gelado, paralisado, não conseguia sair do lugar onde estava. Pensava em dar meia volta e fugir rápido daquele lugar perigoso. Ainda sem me movimentar, talvez hipnotizado pelo ambiente e, principalmente, pelos olhos inquiridores da mulher, como um boi no matadouro, cambaleando, fui me aproximando dela. Tremia. Ela notava, escancaradamente, meu medo. Sabia que todos ali têm pavor. Segura de seus poderes levantou ao máximo seu tronco e cabeça, procurando observar-me de cima para baixo. Mas não conseguiu. Eu continuava mais alto, por mais que ela espichasse o pescoço e eu abaixasse meu tronco. Apesar dessa inferioridade sem importância para o lugar, desafiando-me, por sua vez caminhou em minha direção. Assim aconteceu o encontro. A princípio ela agiu, fingindo despreocupação. Virou a cabeça para um lado, como se não tivesse me visto, entretanto, só quanto chegou mais perto, ela levantou a cabeça e os ombros o mais que pôde. Tentava mostrar sua força e poder, coisas que eu, naquele mo-

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mento, não possuía. Mesmo ela sendo mais baixa do que eu, ao chegar mais perto deu-me a impressão de ser imensa, um gigante. Fixou seus olhos nos meus, olhos de pedra fria e brilhante. De repente, perguntou-me com a voz firme e áspera do Fórum: — O que faz aqui? Fiquei tonto. Sem sair do lugar, também não sabia o que dizer. Tossi, engasgado. Meus olhos espantados quase saíram das órbitas. Limpei o suor que escorria da testa, aumentando o meu tempo para pensar o que ia responder ou fazer. Não sabia que decisão tomaria, talvez correr, imaginei. Com sua face de estátua bem esculpida, ela continuou olhando-me: repreendia-me com severidade pela falta cometida, exigindo de mim uma resposta rápida, uma falta que não sabia qual era, apesar dos meus esforços para descobri-la. Imaginava que no Fórum qualquer ação podia ser examinada como ato ilegal - como ocorre frequentemente nos computadores ou seja, errado, por conseguinte sujeita a penalidade, entre estas, a prisão. Com muito custo, consegui balbuciar meia dúzia de palavras confusas. Tentava, sem sucesso, representar e imitar a fala que supunha ser a usada no Fórum, a aceita por ela. Mas podia estar errado. Saiu uma frase desprovida de conteúdo, como som de CD que começa muito baixo, inaudível. Uma vez tendo abaixado a cabeça ao máximo, usei, para mostrar que não a estava desafiando, um olhar, tom de voz e postura típica dos subordinados derrotados, implorando a clemência do rei. Se tivesse coragem, me deitaria no chão, dando as costas para ela, com o bumbum virado para cima, para mostrar minha impotência e derrota. Esperava uma frase simples e direta: “Quem é você?”, ou ainda, “O que faz aqui?” Mas nada disso aconteceu. Ela, séria e antipática, quase sem gesticular, sem mudar a mímica e o tom de voz, resmungou duramente: — Saia! Sorri sem graça. Sair? Para onde? Perguntei-me. Será que ela percebeu minha intenção escondida de lhe mentir, decifrou através de minha postura, gestos, que eu ia dar uma desculpa mentirosa, dizendo, por exemplo, que entrara por estar procurando um banheiro?

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Tudo parecia possível naquele momento. Ela devia ser treinada para descobrir intenções escondidas dos réus, mesmo eu não sendo, naquele dia, um réu, mas poderia me tornar. Dentro da Lei tudo é possível. Além do mais, como iria mentir, que entrara ali imaginando ser o banheiro? Seria ridículo, pois lá no Fórum tudo é amplo e limpo, até o banheiro expressa limpeza, ordem, decência e seriedade. Imagino que diante de minha submissão total ao seu poder, a senhora de cara fechada decodificou minha fraqueza, a ausência de perigo e, num lampejo de caridade, teve dó de mim, como o porteiro. Segurando a respiração, abaixei mais ainda minha cabeça que, naquele instante, tinha atingido o mais baixo grau de curvatura possível. Nesse instante, ela perguntou-me, ao mesmo tempo que exigia minha saída rápida da sala: — O que deseja? Só aí consegui fazer algumas perguntas esfarrapadas, quase incompreensíveis. Ela explicou-me que a audiência onde testemunharia estava atrasada, iria demorar mais duas ou três horas. Respirei aliviado e consegui levantar novamente a cabeça sem sentir-me culpado como fizera antes. Mais calmo, ainda bem, percebi que escapara. Ainda não seria dessa vez que seria preso por estar atrasado, por desacato à Ordem e à Lei pronunciada pelos magistrados. A Lei dura e severa não seria aplicada em mim, pelo menos naquele instante. Com tempo de sobra, assentei-me nos bancos colocados do lado de fora do gabinete do magistrado, limpei o suor que escorria da face, ainda contendo restos do pavor anterior. Assentado, ali fiquei matutando, sem coisa melhor para imaginar ou fazer. Olhava e examinava os participantes daquele teatro sério, causador de tantos horrores e sofrimentos. Ao meu lado, assentavam-se duas mulheres. Calmo, fui capaz de prestar atenção ao ambiente e não aos meus delírios. Descobri, pela conversa que rolava, que uma senhora esperava a audiência de separação, a outra veio pedir aumento de pensão. Depois, chegou um homem cabisbaixo, lutava para tentar ver o filho, não visitado há um ano.

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Não pude deixar de observar os jovens advogados. Todos eles carregavam o celular, que tocava sempre nos lugares onde havia mais pessoas reunidas. Todos, empertigados dentro do terno novo, caminhavam duros, não olhavam para ninguém durante a travessia dos longos corredores escuros e tétricos do Fórum. Por outro lado, as advogadas ou estagiárias, todas simpáticas, vestiam terninhos escuros, combinando com o restante do fórum onde tudo é austero e cinza, sinalizando ausência de brincadeira. Os advogados mais idosos, exibindo, sem escondêlos, os abdomens proeminentes, cumprimentam os amigos, possivelmente também os inimigos, com largos sorrisos próprios dos homens seguros de si. Aprendi muitas lições naquela casa de sabedoria e respeito. Nas duas horas e meia que ali fiquei, esperando meu momento de entrar em cena, pude decifrar certos códigos escondidos. A maneira de ser e de se comportar dessa elite diferia bastante dos que, como eu, ali estavam forçados pelas circunstâncias. Notei que os cumprimentos feitos aos “Homens do Direito”, juízes e advogados antigos e famosos, exigem do “cumprimentador” uma maior reverência, isto é, os menos poderosos abaixam mais a cabeça, conforme o prestígio e poder do colega. Distraído por momentos, deixei de lado a decodificação dos códigos de postura dos participantes da Lei, ao ver passar pelo corredor uma mulher loura, de cabelos curtos e superanelados. Ela usava calças escuras, justas, tão apertadas que possibilitavam ao observador tenso e faminto, imaginar, com nitidez, o conteúdo existente na cinquentona conservada. Por fora, roupas de couro. Ou seriam de outro tecido? Internamente, músculos, peles, etc. bem acondicionadas. Fiquei com inveja dela: ousava desafiar, com seu corpo e roupa sexy, aquele ambiente severo. Quem seria? Namorada de um magistrado? Rapidamente critiquei-me por imaginar essa bobagem. Como a loura exuberante, surgiu diante de mim uma menina que aparentava ter três anos de idade. Ela brincava com o que encontrava, não percebia a austeridade do local ou o sofrimento de sua

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mãe, que chorava enquanto esperava a audiência de conciliação. A menina assustou-se com o caminhar desencontrado do passante, com dificuldade para andar. Ficou parada por minutos, mas, em seguida, reiniciou sua agitação. Perto da menina assentou-se uma madame envelhecida, mostrando ainda restos de dignidade e cuidado, que lutavam para não desaparecer. Ela demonstrava, com as empregadas suas testemunhas, naquele instante, uma supergentileza forçada: todas elas estavam ali para depor contra o ex-marido da patroa. Observei uma adolescente que usava um calçado novo que a incomodava e que a obrigava a abrir as pernas para se equilibrar. Automaticamente, não sei por que, ao mesmo tempo em que a observava, lembrei-me, cheio de saudades nostálgicas, dos meus vinte anos. Ela caminhava de um lado a outro, desajeitadamente, antes de ser inquirida. Mais longe, testemunhas sonolentas bocejavam cansadas com o calor e, aos poucos, iam inalando a fumaça dos passantes nervosos. A minha hora não chegava. A loura alta e de belo corpo retornou e caminhava séria sem olhar para ninguém. Ela sabia, sem virar o rosto para as pessoas sentadas, que todos ali, principalmente os homens, sem coisa melhor a fazer, olhavam quase só para seu corpo esbelto e alto, não tanto para o rosto, que não era lá essas coisas. Esse era até feio, o bonito era do umbigo para baixo. Tudo ali me distraía e me devolvia um pouco da serenidade e humanidade perdidas. Comecei a perceber que o Fórum não era tão ruim como imaginara. Lembrei-me que, ao chegar em casa, comentaria com minha cozinheira - que nos dias de folga visitava a Rodoviária e o Parque Municipal – que o Fórum poderia ser, também, conforme a observação do frequentador, agradável, pois além de ter muita gente, lá existiam lugares para sentar e nos distrair após os primeiros momentos de pavor. Além disso, possuía bons banheiros, melhores do que os da Rodoviária, e não era preciso pagar nada para usá-los. Continuava a pensar e esperar o encontro não desejado. Observei, andando preguiçosamente, pessoas humildes com seus vestidos coloridos usados nos dias especiais como a ida à igre-

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ja. Hoje saíram do guarda-roupa para visitarem um lugar diferente, depois, em casa, bem escovados, eles seriam novamente guardados, esperando um novo encontro. O grupo conversa, fala do futebol, da vizinha que apanhou do marido, do aborto que a Matilde fez, do atropelamento. Assim esquecem os sofrimentos que virão diante do veredicto do juiz. Trescala no ar uma vaga mistura de cheiro de fumaça e dos odores provenientes do suor produzido pelas axilas tensas dos participantes. Diante do inesperado e inevitável, sem o que fazer, todos, ao mesmo tempo, lançam mão da fé infinita em Deus, um pouco menos na sabedoria e perícia dos advogados escolhidos. Esses, infelizmente, nunca são tão bons como o antigo que morreu ou sumiu. Todos sonham com a sentença milagrosa do magistrado, de ser o escolhido e aceito pelo juiz, esperando dele a punição, a mais severa possível, para o ex-cônjuge, para o inimigo que fora, anteriormente e na maior parte das vezes, uma pessoas amada. Advogadas cinquentonas desfilavam: usavam cabelos à “lá exprimeira dama do país”, curtos e lisos e um pequeno puxado quase na testa. Elas discutiam entre si os processos complicados e originais. A menina cantava as músicas dos Mamonas Assassinas sem saber o significado da morte. Enquanto esperava, chupava balas e mais balas. A loura desfilava mais uma vez para o prazer dos presentes. Será que ela era paga pelo poder judiciário para tranquilizar os ansiosos clientes que ali iam? Sem muita fé, imaginei essa hipótese. Sem coisa melhor para fazer, sem ninguém para conversar ou mesmo olhar, automaticamente pergunto-me: “Quem sabe a loura boazuda possa estar interessada em mim?! A fantasia imaginada agradame, assim, continuo pensando: “Será que ela me viu? Não sei. Não posso encontrá-la agora, estou esperando a audiência. O que fazer? Se a encontrar, terei más recordações e tédio. Ela me fará lembrar o inferno! O melhor é tirá-la de minha cabeça de imediato”. Dois policiais passam apressados. Observo-os. Arrancam, à força, a loura de meus pensamentos. Eles têm os olhos preocupados, todos olham. Carrinhos de supermercado circulam cheios de proces-

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sos, carregam alegrias e tristezas. Minha memória tirana recupera lembranças desagradáveis: “Há anos estive na Vara de Família, a mesma que irei hoje. Naquele tempo longínquo eu era o réu. Depois de anos, ainda não consegui entender por quê? Hoje, felizmente, estou fora do processo, sou apenas - com muita honra - uma testemunha que vai dialogar, pelo telefone, com o Juiz de Dakota do Sul dos USA. A Justiça americana quer saber se meu ex-cliente tem, ou não, capacidade para cuidar do filho gerado com sua ex-esposa, uma americana”. O vai-e-vem continua, todos apressados, menos eu e os companheiros dos bancos. Há um entra-e-sai continuado nos banheiros. “Por que essa procura?”, pergunto-me. “Para fazer xixi? Não, não era”. Fui até lá para verificar o que as pessoas iam de fato fazer ali. Descobri que a maioria vai ali, por instantes, para escapar do ambiente estressante do corredor, ficar um ou dois minutos longe do tumulto, lavar o rosto, molhar as mãos. Às vezes, só isso basta. Todos isolados, ninguém olha para ninguém, é um território neutro, o oásis, onde é possível, por instantes, fugir das salas e corredores impregnados, por todos os lados, pela Lei. O advogado do meu amigo, após duas horas de espera, descobriu-me. O encontro com Dakota do Sul aproxima-se. — O senhor é o Dr. Galeno? — Sim. — Meu nome é Altamiro Dias, sou advogado do doutor André. O senhor será chamado daqui a pouco. O Juiz está em audiência. A nossa será a próxima. O senhor sabe o que vai falar? Alguma instrução? — Não há necessidade. Represento bem o que penso. Não há dúvida... O advogado despediu-se com um sorriso, um sorriso de lagarto, que não me permitiu interpretar qual era sua intenção. Estaria me criticando? Critico a mim mesmo: “Nada, sou desconfiado demais”. Espero, enquanto passa a loura com seu perfume. O aroma penetra nas minhas narinas, atinge minhas lembranças, recordações agradáveis, calmas, contrastando com as percepções do Fórum.

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Formo imagens diversas: louras e morenas, de corpos brancos e negros, belos, cheirosos, movimentando-se e carregados de desejos. A loura real vai aos poucos sumindo no corredor da direita, bela, imponente e distante. Será que ela me notou? Não sei! Acho que não. Também, para quê? Retorno ao mundo real: a mulher envelhecida, triste, sozinha, cercada pelas serviçais, discute a estratégia: — Vocês devem dizer o que conversamos. Tomem cuidado! Não digam nada a respeito das minhas saídas, dos meus xingamentos. — Devo contar que certo dia sua raiva foi tanta, que a senhora cortou o terno dele com a tesoura? — Não! Que isso! De modo algum. Fale só que ele me deu um tapa... um tapa na cara. À toa. Que já bateu até nas crianças. — Mas os meninos gostam muito dele, D. Teresa. — Gostam nada! Fingimento! Têm medo dele! Falem isso, ouviram? A secretária do juiz descobre-me e chama-me apressada. Entro e sou recebido pelo juiz da Vara de Família: — É o Dr. Galeno? Sem esperar minha resposta, apressou-se: Sou o Juiz da Vara de Família, já sabe como será a audiência. __ Sim, explicaram-me... __ Ótimo, o Juiz dos Estados Unidos já está ao telefone para o inquirir. Pode começar a conversa... enquanto isso eu continuo aqui ao lado, cuidando desse caso. Qualquer problema, entre e fale comigo. — Certo. Obrigado. — Alô! — Hello, - desculpe-me, falou uma voz feminina, com um sotaque bem brasileiro, que continuou: - Estou diante do Juiz Michael Thompson, do Estado de Utah, ele fará as perguntas ao senhor através de mim, sou tradutora juramentada. Certo? — All right. Perdão, Ok, desculpe-me. Certo, pode perguntar. — Seu nome completo, profissão, idade, local de nascimento, estado civil, número de filhos, residência, telefone... As perguntas foram se desenrolando. Eu, assustado, imaginei que havia caído numa cilada: era o réu, e não sabia.

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— O senhor foi psiquiatra do Doutor André? — Fui dele e da esposa... Tenho, ou melhor, trouxe comigo algumas anotações... — O senhor então confirma o laudo que tenho em mãos e, segundo consta, foi assinado pelo senhor. Para certificar-se, irei lê-lo na íntegra... — Certo! Eu o redigi e assinei. — Qual deles o senhor acha que tem mais qualificações para ficar com a criança? Ele tem alguma doença mental que o impeça de cuidar, ou mesmo visitar o filho? — Não! Nem ele nem ela. Ambos têm condições de ficar com o filho. — Os dois? — Sim. Os dois. O ideal seria os dois ajudarem na educação do filho... A conversa continuou por mais quarenta minutos dessa maneira. Como o juiz americano devia estar falando muito perto do fone, eu o ouvia antes da tradutora traduzir e me perguntar. Com frequência conseguia ouvir e entender a pergunta antes de ouvir a tradução, isso facilitava minhas respostas, pois tinha mais tempo para pensar. Mas minha maldita cabeça, ao mesmo tempo, pensava no casamento, nos juízes de família, nos advogados e no fórum. As perguntas e as minhas respostas obrigavam-me a recordar e representar em minha consciência lembranças retiradas dos meus arquivos particulares, da memória autobiográfica cheias de recordações dolorosas: “o que leva uma pessoa a querer ser advogado, e, muito mais, a ser juiz. Eles todos devem ser loucos para poder tolerar, todo dia, toda a vida, brigas e mais brigas de irados, embusteiros, vítimas ingênuas e impotentes. Um dia nesse lugar foi insuportável. Pobre dos juízes, advogados e outros da mesma família, que ali atuam o dia inteiro, anos após anos. Mas, e eu, que sou psiquiatra? Somos todos loucos! Quem sabe, toda a humanidade?” Tudo me entediava. Esgotava-me. Não podia ser agradável trabalhar naquele ambiente tenso, carregado e, mais ainda, ter que decidir constantemente acerca dos outros, de vidas confusas.

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Era preciso inventar uma nova forma de casamento. A maioria das mulheres gosta de homens, como a maioria dos homens gosta e vive à procura de mulheres. Entretanto, quase todos os seres humanos não suportam viver juntos por muito tempo. Por que será? — Any more questions? - a tradutora perguntou ao juiz. — No. Ela despediu-se de mim, antes enviou-me os agradecimentos do juiz americano e pediu-me que passasse, em seguida, o telefone para o juiz de Belo Horizonte. Antes de terminar, despediu-se, dizendo: — A Justiça Americana agradece sua colaboração. Quase caí de costas. Fiquei confuso. Limpei a garganta apertada ao ouvir a frase final, uma frase que não saía de minha cabeça: “Ajudei a justiça, a Justiça Americana”. O tédio abandonou-me. Valeu a pena ter ido ali! Quanta alegria! Esse final foi sensacional! Nunca na vida supus ser capaz de ajudar o governo americano, ainda mais eu, que jamais gostei muito dos governos daquelas bandas. Que importante me tornei no final! Viva!” Passei o fone para o Juiz e fui para casa saltitando, estava feliz e sorrindo. A frase final da tradutora juramentada me fez esquecer e enterrar para sempre a loura boazuda.

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Por Um nAtAL diFerente
O Natal está chegando. As vitrines estão mais coloridas, algumas ruas mais claras. A TV mostra o mundo encantado de objetos outrora não imaginados, hoje imprescindíveis. A algazarra e a abundância de estímulos sedutores produz o “Espírito de Natal”. Imagens e símbolos, caprichosamente inventados, estimulam a imaginação para sugerir felicidade e fraternidade entre as pessoas. Mas, por trás dessas representações - não muito bem escondidas - há um incitamento para comprar compulsiva e desnecessariamente. Nas ruas molhadas e sujas rastejam seres cansados, comandados por ordens invisíveis, debaixo de máscaras de robô e disfarçando as faces amargas e derrotadas. Como um pelotão bem treinado e obediente, homens conquistados carregam pacotes coloridos contendo sofrimento, submissão e busca de significado para a vida. Oro para que o Natal se torne diferente: menos compras, mais reflexão. Também imagino mudá-lo para um outro dia: 14 de dezembro ou 9 de novembro. Um dia comum, sem significado para maioria das pessoas, sem recordações dolorosas, nem lembranças alegres, que jamais se repetirão. Preciso atravessar mais esse Natal. Não tenho saída. Lá longe, muito longe, quando tudo em volta era majestoso para meus olhos amedrontados, assimilei algumas ideias e valores. Ensinaramme a adotar os ensinamentos e a participar dos rituais religiosos que comemoram o nascimento de Cristo. O menino de Itabira acreditou, sono-

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lento, no propagado: igualdade entre as pessoas, justiça social e liberdade para escolher. A criança perdida continua acorrentada nesses ensinamentos, talvez antiquados. Ele ainda acredita em tudo que Cristo pregou há dois milênios. O menino não acordou, nem sei se um dia acordará. A reunião familiar vai encenar a peça que vai ser representada. As faces estampam preocupação com o bom desempenho. Cada figurante, treinado com esmero, interpretará o papel a ele conferido no velho “script”. Bem condicionados, um será o personagem principal, o outro, ator coadjuvante. Papeis rígidos, impressos cedo, garantem a boa ordem e organização da família conforme os padrões e os dogmas existentes. Encarcerados, ignorando a prisão, cada ator lutará, com naturalidade e alegria, para não sair do determinado, nem desapontar os assistentes vigilantes. Se ele se desvencilhar, por momentos, dos laços que o prendem, prontamente será forçado a reassumir o papel a ele destinado. A ceia, preparada e comentada dias antes, chega farta. Pratos variados, vistosos, coloridos como os presentes: sedutores, na realidade frios e desbotados. Sinto saudade da couve, do bife com batatas fritas, do arroz fumegante e viçoso. Observo a cena. Observo o observador que analisa. Critico, desesperado, meus pensamentos doentios: preferir a comida simples à sofisticada, gostar de uma terça-feira comum ou da conversa sossegada. Por que não sou igual a todos? Como deve ser bom tolerar, ou melhor, gostar, do Natal atual. Que desgraça carrego na alma! “Senhor todo poderoso, Jesus, filho de Deus, nesse dia em que comemoramos Seu nascimento, ajude-me. Permita-me pensar como meus irmãos. Amarre-me para sempre junto ao rebanho ordeiro. Só assim poderei viver em paz com todos. Liberte-me da loucura de criticar os sadios, os tranquilos e felizes. Almejo transformar-me numa cópia, sem retoques, dos que me rodeiam. Senhor, auxilie-me. Sonho em poder enxergar o céu azul e não cinzento, achar o Natal feliz e não um dia de sofrimentos. Já procurei ajuda terrena: psiquiatra, pai de santo, padre e pastor. Nenhum me compreendeu! Todos pensam da mesma forma! O que me fez ficar assim?”

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Imagino que outros, como eu, devam existir. Mas como e onde encontrá-los? Por serem malucos, diferem também de mim. Os loucos, ou os “anormais”, não formam um grupo coeso, são estranhos uns com os outros, cada um com sua mania, uma colcha de retalhos ou um bando de desagregados. Finalizo o desabafo, sabendo que ele foi tecido num dia inadequado. Essa é a minha sina: expresso o que penso na hora errada, o manifestado é impróprio para os ouvintes e para o tema. Peço desculpas por carregar esse vício maligno. Assim fui construído. Mas, para escapar de ser internado num hospício, no alegre e festivo dia de Natal, fazendo um esforço sobrenatural, desejo a vocês, leitores amigos, bondosos e tolerantes: Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

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“gAYs”, LoUcos, AteUs e VeLHos
O leitor poderá pensar que não há relação entre os conceitos acima citados. Há sim. Todos são pessoas estigmatizadas pela nossa sociedade. Poderíamos acrescentar outros: os negros, altos, obesos, paraplégicos, aidéticos, leprosos, carecas, baixinhos e muitos outros. Os gregos criaram o termo “estigma” para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou de ruim nos seus possuidores. Os sinais mostravam que o portador era um escravo, um criminoso ou um traidor. Uma vez portador do sinal, esta pessoa deveria ser evitada, principalmente nos locais públicos, pelos não-possuidores dos sinais. Hoje as “marcas” dos estigmatizados têm outros simbolismos. Os homens sempre classificaram os objetos, os animais ou eles próprios. Ao categorizar, imaginamos estar reunindo indivíduos ou coisas semelhantes e assim classificamos o cão, o homem, a pedra, a pulga e o pássaro. Para reunirmos tudo num grupo, isolamos uma ou mais características dos sujeitos observados - sem valorizar outros - e acreditamos que as características enfatizadas indicam a semelhança. Assim feito, damos certos nomes para os membros reunidos e passamos a imaginá-los como semelhantes e os tratamos como tais. Portanto, estigmatizar nada mais é do que classificar pessoas, selecionar certas semelhanças entre elas. Entretanto, é diferente das classificações neutras, ao imaginarmos que os indivíduos selecionados (obesos, carecas, idosos, negros, etc.) são piores do que os sele-

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cionadores. É diferente das classificações científicas, pois aqui identificamos um atributo que é imaginado pelo rotulador como negativo. Os cientistas não desvalorizam uma pedra por ter ou não certa dureza, cor ou brilho. Entretanto, os preconceituosos ou estigmatizadores percebem a gordura em excesso, a cor da pele, a orientação sexual, a idade ou crença religiosa como negativa, ruim, não-desejada ou não-estimada. Uma vez inventado o perfil do estigmatizado, o rotulador imagina ser ele, por não possuir o fator depreciado, melhor do que a outra pessoa. Tudo muito simples. Existem vários estigmas como os físicos (cegos, surdos, paraplégicos, etc.), de comportamento (fraco, desonesto, louco, drogado, desempregado, homossexual, político radical) e ainda de raça, nação e religião. Os estigmatizados, conforme o dogma dos preconceituosos, carregam traços negativos estimuladores de sua atenção. Uma vez elaborada a classificação, o classificador não mais valoriza, ou não percebe, os outros atributos da pessoa que iriam invalidar a classificação feita. Para dar uma falsa credibilidade às ideias tendenciosas, os preconceituosos, demagogicamente, constroem uma teoria ou ideologia tentando dar suporte ou explicar a “inferioridade” do estigmatizado e, além disso, alertar as pessoas contra o perigo do contato com estes: “É um louco. E os loucos são perigosos, pois não sabem o que fazem. Conheço um que matou seu pai”. “É um negro, eles são preguiçosos por natureza”. “É ateu. Os que não acreditam em Deus, têm ideias estranhas. Para eles tudo é normal, pois não temem nada”. Essas pseudoteorias, passadas de boca em boca, lamentavelmente são aceitas, compartilhadas e tidas como verdadeiras por uma grande parte da população.

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A sentençA FinAL
Arnaldo, depois de muito esperar, chega diante do urologista. - O PSA deu alto dessa vez, afirmou Dr. Luciano, olhando fixamente para o resultado de exame. - É... o que fazer? - respondeu Arnaldo, olhando para o piso. - É... o recurso é uma biópsia. - Não tem nada pior. Já me submeti a uma. É péssimo. - O exame agora é menos doloroso. Procure Dr. Carlos, é perto. - Tudo bem. Depois entro em contato com você. - Boa tarde. - Até a próxima. No Laboratório: - Boa tarde. - Boa tarde. - Veio marcar um exame? - Tenho um pedido para realizar um exame de biópsia de próstata. - Deixe-me ver. Só tem para o dia 7 de maio. - Não tem antes? - Não! Tá tudo cheio. - Precisa de uma autorização. - Onde é? - Aqui perto, basta seguir a avenida. - Eu sei.

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- Leve e leia essas instruções: “Um dia antes do exame tomar um comprimido de lactopurga e o antibiótico duas vezes ao dia. No dia continuar com o antibiótico e usar às 8:30 h esse produto aqui. Chegar às 11:00h, o exame será feito às 11:30. Além disso deve vir acompanhado.” - Moro só. Sou solteiro. Não recebo ajuda de outros, - respondeu Arnaldo, irado. - Arrume um amigo. - Não tenho amigos disponíveis para quarta-feira às 11 h. - Hum... - Até quarta-feira. Na empresa de seguro de saúde: - Onde pego uma autorização? - Aqui está sua senha, número 476. Você será chamado pelo número exibido na placa. - Demora? - Nada! No máximo uma hora. - Número 476. - Sou eu, Arnaldo. - Entregue-me seu pedido, carteirinha e identidade. Será chamado novamente, não demora. Aqui mesmo, nesse lugar, chamarei pelo nome. Algum tempo depois: - Foi autorizado um exame. O outro não faz parte de seu plano de saúde, terá que pagar. - Certo. Obrigado. Boa tarde. - De nada. Boa tarde. No local do exame: andar térreo. - Pago aqui ou no sexto andar? - No sexto andar

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No sexto andar: - O senhor já foi atendido? - Não. Estou com esse exame marcado. - Deixe-me ver. Tem a carteirinha e a identidade? - Sim, estão aqui. - Um deles está liberado, o outro o senhor terá que pagar. Onde está seu acompanhante? - Não tenho acompanhante. Moro só. Pago agora? - Espere um pouco. Irei chamá-lo daqui a pouco. Um pouco depois: - Senhor Arnaldo. Por favor, chegue aqui. Vai pagar com cheque ou dinheiro? - Cheque. Quero um recibo. - Aqui está. Pode sair, entrar no corredor à esquerda e esperar. - É o que mais fiz. Mais tarde: - O cliente das 11:30 já chegou? - Sou eu. - Boa tarde, acompanhe-me até essa sala. - Espere um pouco. Vou tirar sua pressão e lhe dar um medicamento para relaxar. - Não quero muito remédio. Estou só! Portanto, não quero fazer o exame dormindo, pois depois irei embora sozinho. - Irei falar com o médico. - Certo. Um pouco depois: - O doutor concordou. Tome a metade. - Essa metade está grande. Quero a outra metade, ela é menor. - Tudo bem. Vou examinar sua pressão. - Deve estar alta. Você já fez um exame destes? Não é agradável. - Hum... daqui a pouco virei chamá-lo. Caso deseje, pode dormir um pouco aqui. - Irei pensar enquanto espero.

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Vinte minutos depois: - Está bem? Precisa de ajuda? - Não. - Acompanhe-me até a sala do doutor. - Certo. Na sala do Dr. Carlos: - Boa tarde. - Boa tarde, Arnaldo. Está bem? - Sim e não. - Deite ali, disse indicando a maca. - Pode tirar a camisa e pendure-a ali. - Certo. - Abaixe as calças. - O exame deve durar meia hora. É um pouco desagradável, mas será o menos doloroso possível. - Hum-hum. - Está doendo? Estou tirando 16 amostras de tecido. Não parece existir nada grave. Uma possível hipertrofia prostática benigna. De qualquer forma, será o exame dos tecidos que dirá a palavra final. - É... não tem outro modo. - Tudo pronto. Está bem? Consegue se levantar? - Sim. Ligeiramente tonto, mas sou capaz de andar. - Sente-se um pouco, enquanto termino a redação do resultado do exame que realizei e lhe entrego o pedido da biópsia. Não demoro. - Certo. - Aqui está, como lhe falei, parece não ser câncer. O laboratório fica aqui perto. Está bem? Aqui estão os cortes colocados em oito vidros. - Entendi. Estou bem, já estive pior. Espero não cair pelas ruas. Até logo. - Até logo.

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No laboratório: - Boa tarde. - Boa tarde. - Estou com esse material aqui do Dr. Carlos. - A carteira e a identidade, por favor. - Aqui estão - O exame ficará pronto dia 14, às 17 h. - Certo. Obrigado. Dia 14, às 17 horas: - Vim pegar um resultado de exame. - Qual o seu nome? - Arnaldo Valente - Está aqui. - Obrigado. - De nada. Boa tarde. No consultório do urologista: - Boa tarde - Boa tarde. Tenho uma consulta para as 17:15 horas - Seu nome? - Arnaldo. - Certo, está anotado aqui. - Obrigado. Penso: “Abro, ou não, o resultado? Neste instante sai um cliente e o médico dirige-se a mim. - Pode entrar, Arnaldo. - Trouxe o exame? - Sim, ia abri-lo, mas não deu tempo. Você me chamou quando ia abrir o envelope. Está aqui. A sentença final. - Hum, hum... é interessante. Sua próstata está enorme. - Já sabia, estranhamente ela não me atrapalha quase nada. E o resultado? Um pouco nervoso Arnaldo continuou: - Tenho, ou não, câncer?

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- Nada! Somente hipertrofia benigna, como eu suspeitava no exame de toque. - Bem que desconfiava. Era difícil pensar em estar doente. Há muito não me sinto tão bem e produtivo. Seria bom ser canceroso desse jeito. E agora? - Volte daqui a um ano. Não há nada a fazer. Se precisar, volte antes. - Espero não precisar, Dr. Luciano. Até o dia 14 de maio do ao que vem.. . - Até lá, Arnaldo...

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A PintUrA dos esQUiZoFrÊnicos
O interesse médico pela produção artística dos doentes mentais, principalmente dos esquizofrênicos, começou no século passado e adquiriu maior interesse após o aparecimento da obra clássica do psiquiatra Prinzhorn. A partir daí, vários autores passaram a analisar e a interpretar o conteúdo e a forma daquelas obras. A maioria dos doentes mentais não possui aptidões para a pintura ou qualquer outro tipo de arte, pois é sabido que a esquizofrenia deteriora a capacidade do indivíduo. Raros esquizofrênicos desenharam ou pintaram antes de adoecerem, embora, muitos deles, em suas casas ou nos hospitais, passem uma boa parte do tempo desenhando ou escrevendo. Entretanto, poucos desenvolvem algum trabalho digno de receber o nome de artístico, pois suas “obras” não passam, na maioria das vezes, de simples rabiscos ou desenhos esquemáticos sem nenhum sentido estético. Não se pode falar de arte psicopatológica propriamente dita, quando um artista já consagrado adoece, sem, entretanto, alterar a essência de sua produção. Por outro lado, quando um pintor se torna esquizofrênico e os seus dons artísticos são afetados, ele pode continuar a produzir após a instalação da doença mas, nesse caso, suas produções empobrecem. O aparecimento de ideias delirantes e alucinações, que caracterizam a esquizofrenia num determinado indivíduo, nada tem a ver com o nascimento de um dom artístico. Nenhuma doença mental produz uma capacidade criadora no homem, pois essa

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depende do talento individual. Durante muito tempo falou-se acerca da relação do gênio com a loucura. Não existe tal relação. Não se constrói um gênio, enlouquecendo um homem normal, mas, sim, se destrói um gênio, tornando-o louco. Apenas em raríssimos casos a doença mental pode servir como fator desencadeante e desinibidor para despertar uma aptidão até então adormecida. No esquizofrênico encontram-se alterados, entre outros, os seguintes aspectos do indivíduo: o conteúdo e a forma do pensamento, a percepção, daí o aparecimento de várias alucinações, a afetividade, que se torna muitas vezes embotada, apagada ou inadequada, certa dificuldade ou estranheza ao lidar com o próprio Eu, muita dificuldade em tomar qualquer iniciativa, uma tendência para isolar-se do mundo exterior e, por último, uma perturbação do comportamento psicomotor, com a diminuição da reatividade ao meio ambiente e redução dos movimentos espontâneos. Todo esse quadro conduz, inevitavelmente, a uma diminuição da compreensão e da interpretação da realidade. A pintura do esquizofrênico, tanto no que diz respeito ao seu conteúdo, quanto à sua forma, não se acha ligada a normas ou regras coletivas de nenhuma espécie. Como ele, normalmente, não se comunica de maneira convencional, sua arte pode ser considerada, em um grau elevado, um murmúrio consigo mesmo. Em alguns poucos casos, suas mensagens comoventes são dirigidas aos mortos, a Deus, a Jesus Cristo ou ao seu médico assistente. A sua produção artística misteriosa pode chegar mesmo a uma total confusão, convertendo-se numa linguagem indecifrável. Sua arte é, frequentemente, um grito dirigido a ninguém, ou um monólogo estridente lançado num vazio trágico. Os quadros desses pacientes mostram, ao lado de alucinações pavorosas, motivos plácidos, inexpressivos ou até mesmo alegres. Enquanto que a “pintura primitiva” e o desenho infantil constituem, na maioria dos casos, um produto de elaboração do ambiente, a arte dos esquizofrênicos reproduz, não uma natureza externa, mas apenas percepções distorcidas de vivências sombrias e sofridas, que é o seu mundo interno, onde se guardam diversas alucinações e delírios, que pouco ou nada têm a ver com a realidade dos “normais”. Sua pintura

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deforma e simplifica a anatomia. Os espaços vazios da tela são preenchidos compulsivamente com pontos, roscas, figuras geométricas, letras ou números. A pintura dos esquizofrênicos, não tendo um público determinado, é dirigida a uma plateia imaginária, diferente, portanto, da pintura do artista sadio, ou mesmo da arte dos chamados “povos primitivos”, onde o destinatário é uma comunidade humana real. Os que passaram a pintar após adoecerem são, no sentido exato da palavra, autodidatas. Por habitar um mundo estranho, impenetrável e particular, bastante diferente do “geral”, os seus diversos símbolos permanecem geralmente obscuros e incompreensíveis para todos nós. Dentro do seu “autismo” expressam a sua arte, mediante o lápis ou o pincel, de uma forma inteiramente espontânea e livre, sem preconceitos e sem seguir regras acadêmicas de nenhuma espécie. Essas pinturas possuem, exatamente pelo fato de estarem desligadas de todo o modelo convencional e de todo o preconceito de estilo, uma intensidade emocional diferente, pura, simples e bela, muitas vezes com uma grandeza de forma que as eleva a um nível artístico superior. O seu aspecto é recriado livremente e neste não existe perspectiva linear. Para ele não há profundidade, os corpos não são desenhados mostrando a ilusão do volume real. Eles, na sua pintura, não representam as sombras produzidas pelos corpos, ao contrário de uma representação naturalística que não pode prescindir delas pois, sem estas, os objetos parecem flutuar. Na verdade, nas nossas representações interiores, ou seja, quando visualizamos uma paisagem, previamente sabemos se o objeto está pousado na terra ou flutuando no espaço, portanto, na nossa imaginação, não existem sombras determinadas pela luz. O esquizofrênico não reproduz o que vê fora de si, mas, sim, o que percebe dentro. Ele não se preocupa em criar a ilusão da matéria e nem se preocupa com a precisão de detalhes. As cores usadas não têm correspondência com as existentes na realidade externa. Quando ele as usa, estas servem mais como um meio de desenhar e não para retratar as cores naturais existentes no “mundo real”, que não são respeitadas por ele. As cores, utilizadas

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com ampla liberdade, são aplicadas geralmente de forma pura ou pouco misturadas. Como sua produção é rápida, ela serve para dar vazão às ideias que lhe ocorrem em abundância. O esquizofrênico não dispõe de tempo para preparar as cores das aquarelas, do óleo ou misturá-las. A escolha destas, de preferência as fortes, é ditada principalmente pelo seu valor afetivo, isto é, daquela que ele mais gosta no momento da criação, e só em segundo lugar, pelo objeto a ser representado. Os desenhos dos esquizofrênicos, simplificados, deformados e repletos de formas repetidas, são estáticos e mesmo petrificados e raramente mostram movimentos. Além disso, as diversas figuras estão aglutinadas ou condensadas, contendo os vários elementos incoerentes reunidos em uma só imagem. O contorno linear, muito ressaltado, torna as superfícies bem delimitadas pelo traço, geralmente feito sem retoques ou correções. O símbolo adquire, na pintura do esquizofrênico, o valor da coisa significada. Nota-se, portanto, que a pintura do esquizofrênico se opõe às exigências do naturalismo, no que diz respeito à ilusão do espaço, do volume e da matéria, assim quanto à precisão do desenho, à exatidão da anatomia e à cor do objeto. Apesar de ter perdido todo o caráter anatômico ou naturalista, a forma criada pelo esquizofrênico expressa um conteúdo singular e atraente e com frequência emociona os não doentes por sua beleza diferente. A sua pintura permite, através de uma expressão artística altamente espontânea, a exibição de valores eternos do homem. A mensagem poética e mágica contida nas suas pinturas torna possível o difícil e amargo encontro entre os “sãos” e os “doentes”. Provavelmente, as imagens que habitam o “porão” dos indivíduos sadios e dos doentes mentais são as mesmas. Essa semelhança de símbolos, que não aparece claramente quando olhamos através dos andares mais altos, permite a comunicação dos doentes com os sadios. Desse modo, a pintura dos esquizofrênicos consegue tocar e transmitir, a todos que a contemplam sem preconceitos, as mais diversas e profundas emoções que residem no âmago de nossas almas. Por tudo isso, elas merecem ser vistas.

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no emBALo dAs úLtimAs FÉriAs
Tempo de férias. Uma boa parte da população sai do seu canto e se dirige para os mais diversos locais. A escolha dependerá de diversos fatores: do tempo, do dinheiro disponível, do hábito e gosto de cada um e até da moda atual. Assim, uns vão para a Europa ou Ásia, e outros para Baldim ou Betim. As praias são locais frequentemente procurados. Conforme a época escolhe-se uma, em outro momento será outra, a anterior já não mais agrada. Guarapari teve o seu período áureo e também Búzios, Cabo Frio, Marataízes, Porto Seguro e outras tiveram boas cotações no mercado de consumo. Até Copacabana já foi considerada a praia ideal para as férias. Alguns preferem acampar, outros visitar cidades do interior ou estações de água, alguns viajar para o nordeste ou para o sul do País. De qualquer forma é preciso “tirar férias”. Essa é a regra e quase todos aceitam essa prescrição. Não conheço leis, portanto não sei quando e por que elas passaram a ser exigidas legalmente. Não sei também a justificativa dessa exigência. À primeira vista, a resposta é óbvia: “todos precisam descansar após um ano de trabalho.” Deveria essa resposta ser aceita tranquilamente? Em tempos não muitos remotos, as férias não eram respeitadas com tanta intransigência, a não ser nas escolas. Em minhas andanças pelo interior, tenho verificado que muitos dos que ali vivem nunca tiraram férias e nem pensam, ou sabem, que há necessidade delas.

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Por outro lado, aqui na capital, o respeito às férias é sagrado. As pessoas, na sua maioria, invariavelmente gozam suas férias no mínimo uma vez por ano. No meu entender, salvo engano, esse período acaba se tornando uma época de tensão e sofrimento, não de descanso e paz como deveria ser. Numa linguagem mais atual, um estresse para todos. Uma de minhas clientes, dona-de-casa, disse-me que suas férias nada mais são do que “uma mudança de residência” e, conforme suas palavras, “de uma casa confortável para uma sem conforto”. Uma outra cliente contou-me que é um período difícil, já que nas férias ela fica em contato permanente com o seu marido e como os dois não têm muitos assuntos para manter “o bate-papo” o dia inteiro, terminam por se sentir tensos. Tal fato não ocorre nos períodos de trabalho, pois neste os encontros entre os cônjuges são menos frequentes e a conversa do dia-a-dia flui normalmente, como os relatos acerca das notas dos filhos ou da nova empregada contratada. Alguns casais já resolveram esse problema. O marido fica trabalhando e visita a família em férias nos fins de semana. Assim, tudo corre bem... Um amigo meu, Arnaldo, ganhando pouco, como a maioria da população, sempre acreditou que ele e sua família precisam desse merecido “descanso”, custe o que custar. Nesse fim de ano, contoume as suas últimas férias. Ele possui um fusca, uma mulher e três “diabinhos”. Em novembro - as férias são tiradas em janeiro em Nova Almeida - ele começou a se preparar e a falar acerca do grande acontecimento com os amigos e os familiares, sobre o que faria na praia, o que ia levar, o que iria comer e beber. Era seu único assunto. Para começar, antes da viagem Arnaldo gastou o seu décimo terceiro salário com a revisão do fusca, embalagens térmicas, calções, esteiras, maiôs, anzóis, óleos para bronzear, filtros para se proteger do sol e o aluguel do apartamento. Tudo passou a ser feito com um enorme entusiasmo. Afinal, depois de longa espera, chegou o dia da saída. Aperta dali, empurra daqui, troca-se de lugar, até empanturrar o velho fusca, que parte buzinando rumo ao litoral. Na viagem, a patrulha o cerca e interrompe a viagem por “excesso de bagagem”. Após muita conversa, com muito custo, após desembolsar uma propina

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para o guarda, Arnaldo pôde continuar a viagem. Um pneu furou e sua mulher e um dos filhos enjoaram e vomitaram para todos os lados. Mas tudo isso foi suportado com alegria, pois Arnaldo e sua família estavam de férias. O apartamento, pouco maior do que o fusca, estava mal cheiroso, seus móveis quebrados e velhos. Ao chegar, ele teve de esperar por algumas horas a saída do inquilino anterior, que ainda não havia deixado o apartamento. Mas tudo bem, alegria geral, pois é tempo de férias. A família arrumou como pôde o apartamento para torná-lo habitável por quinze dias. A alimentação foi sacrificada pelo preço alto, pois estava tudo caro e ninguém queria gastar tempo cozinhando. Afinal de contas, era preciso aproveitar mais as férias, pois ninguém é de ferro. O sol quente cozinhou no primeiro dia a pele branca e gordurosa do meu amigo, o que impossibilitou Arnaldo de tomar sol por três dias e de dormir satisfatoriamente devido às dores do corpo. A mistura do sol e a dieta de peixe - peixe na praia fica mais em conta - provocou uma erupção alérgica na mulher de Arnaldo, aumentando seu nervosismo constante e por isso atrapalhou o merecido descanso de todos. Mas a gente acostuma-se com tudo e ele e sua família, não fugindo à regra, pouco a pouco e com algumas dificuldades, adaptaram-se para poder “curtir” as esperadas férias. Mas quando isso ocorreu, já estava na hora de voltar. Nova viagem, com os mesmos problemas da ida. Afinal, felizmente, ele e sua família respiram aliviados pois chegaram vivos a Belo Horizonte. Felizmente, sim, pois na estrada tiveram que contornar três corpos presos no meio das ferragens, barracas e panelas espalhadas e, como se sabe, isso pode acontecer a qualquer um. Mas Arnaldo continua otimista, está satisfeito e já fala, não tão entusiasmado como em novembro, nas próximas férias que passará em Nova Almeida. Para ele, o apogeu da satisfação ocorre quando, ao voltar ao banco onde trabalha, encontra sua colega Lindalva, que lhe pergunta com um sorriso de inveja:

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- Arnaldo, que cor linda! Você está queimadinho, onde você andou? E ele, enchendo o peito, cheio de orgulho e felicidade, responde: - Estava curtindo uma praia. Retomo meu pensamento acerca das pessoas que não tiram férias, nem sentem necessidade de tirá-las. Perguntei a uma pessoa que nunca tirou férias, o que ela pensava delas e há quanto tempo não as tirava. A resposta foi rápida: - Nunca! E não tenho vontade de ir nem ao Rio, nem a São Paulo e nem mesmo aos Estados Unidos. Assustei-me e tentei decifrar os motivos dessa grande diferença de atitudes. De um lado, aqueles que, como Arnaldo, adoram e consideram indispensáveis as férias, do outro, os que nunca pensam nelas, ainda quando têm poder para tirá-las quando bem entenderem. Nossa mente não suporta divergências, daí minha tentativa de procurar conciliar essas duas opiniões contrárias. Pensei, quem sabe, Zé Estácio, o morador do interior, tenha em seu trabalho uma grande fonte de prazer, de criatividade e de realização, assim como um contato global e frequente com o universo ao seu redor. Tudo isso lhe permite prescindir das férias, já que sua atividade é agradável e revigorante. Por outro lado, a atividade de Arnaldo é monótona - caixa de banco - estafante, exigindo-lhe uma atenção constante. Além disso, os horários são rígidos e o contato com o mundo ao seu redor é limitadíssimo, tornando seu trabalho alienante e estático. Parece-me que Arnaldo precisa sempre tirar férias, de qualquer tipo, em qualquer lugar, talvez até num hospital psiquiátrico, o que não é incomum entre os bancários devido ao estresse continuado. Só através das férias ele conseguirá retornar e interagir com um universo mais natural. Zé Estácio, porém, vive no campo, em contato constante com a natureza plena e real. Lá não há pressa, nem nossos horários rígidos. Ele pode perceber e sentir os acontecimentos que o rodeiam, desfrutar com calma cada cena do seu amplo mundo, indo desde o nascer até o pôr do sol. Poderá assistir ao vivo - participando

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dela - a uma tempestade brutal ou uma chuva mansa, um animal que nasce e um passarinho iniciando o seu primeiro voo. Zé Estácio não almeja férias, pois ele, talvez, já viva nelas permanentemente. Você, leitor, crie outras hipóteses, pois a minha pode estar errada, mas é a que tenho no momento.

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A BoA terAPiA do cArnAVAL
O carnaval chegou mais uma vez. Parece-me estranho que alguém possa esperá-lo e desejá-lo com ansiedade. De qualquer modo o carnaval ainda tem o seu público, cultores e admiradores. Há diversos carnavais para os mais diferentes públicos, pois existem até para aqueles que desejam ignorá-lo e para os que o detestam. Para este grupo, o carnaval será época de viajar para algum lugar onde esse não exista, ou a oportunidade de colocar em dia o que estava atrasado. Para outros, nesse período, nada se faz e, se sobrar um tempinho, bebe-se. Um dos grupos carnavalescos que tem crescido é dos “voyeurs”, isto é, daqueles que se deliciam apenas com as imagens do carnaval, ou melhor, dos carnavalescos, nas ruas ou nas televisões. Entre esses, há os que assistem e gravam os desfiles das escolas de sambas, os que veem, excitados, as imagens dos bailes de carnaval, apesar de que, muitas vezes, criticam a pouca vergonha dos exibicionistas. Para o grupo dos “voyeurs”, a dança propriamente dita tem pouca importância, assim como as fantasias, letras e músicas. Tudo isso constitui o cenário onde a cena principal ocorrerá. As câmaras de TVs mostram supostas cenas de sexo implícito ou, às vezes, explícito. Os protagonistas dessas pseudo-orgias quase sempre são mulheres, fazendo uso de alguns ingredientes básicos e necessários: a maioria de meiaidade, de pé num palanque, mesa ou cadeira, requebram, imitando certas expressões faciais estudadas e típicas de cenas de sexo, tendo, frequentemente, os seios à mostra.

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Todas elas, com pouquíssimas exceções, fazem os mesmos gestos, dão os mesmos sorrisos e “dançam” do mesmo modo e até as “fantasias” são altamente semelhantes: coxas bronzeadas, revestidas com meias rendadas que seguram as gorduras já em excesso, e não mais firmes, minúsculas calcinhas coloridas, plumas e lantejoulas. Começa então a farsa: o repórter, com a câmara de TV, aproxima-se da dançarina, que percebe sua presença. A “atriz”, nesse instante, inicia ou exagera a representação, fingindo não estar percebendo a filmagem. Do outro lado, em casa, o atento e incauto telespectador assiste ao espetáculo, esperando ver e deliciar-se com cenas eróticas que supostamente vão se desenvolver. Entretanto, internamente, todos juntos, repórter, foliona e telespectador, sabem que nada vai, ou pode acontecer, ali do anunciado pelos gestos ou insinuações. A dançarina, a figura central da cena, repete com alguma arte a mesma dança, construída de gestos inúteis, repetitivos, mas necessários à representação do que se propõe: fingir o sexo. O telespectador, cansado da realidade, não estando fazendo sexo, talvez nem desejando fazê-lo, assiste, sonolento, às três horas da manhã, na sua cadeira preferida, à simbologia sexual, isto é, ao sexo falso. Toda a arrumação é construída para deixar claro que no salão – também na avenida - o reproduzido será somente a fantasia e não a realidade. O irreal ou a fantasia é mostrada como falsa, mas, para que os telespectadores e o público da rua possam desfrutar do espetáculo, é necessário que a cena pareça verdadeira. Sabemos que as cenas “eróticas dos bailes” e os desfiles das escolas de samba necessitam dos “voyeurs” para aplaudir e vibrar com o ilusionismo, seja do sexo nunca realizado, seja da “riqueza dos reis”, dos “marajás” e dos “mestres-salas”, das escolas que, de fato, escondem sua miséria social e econômica. Eventualmente, alguma atriz menos profissionalizada e menos treinada, esquece que está representando cenas de sexo e decide não mais mitificá-lo, mas sim torná-lo real, isto é, reviver o significante em seu sentido pleno ao abandonar a forma. Quando isso ocorre, a ingênua dançarina é rapidamente impedida de realizar o seu objetivo: sair

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do mito e entrar na realidade proibida. Esses casos são raros, pois quase todos os participantes desse jogo mítico sabem como se comportar dentro das regras estabelecidas e aceitas sem discussões. As fantasias tradicionais do carnaval de rua (as do presidente ou do prefeito, as gatinhas, os pierrots, homens vestidos de mulher), as das escolas de samba (divindades, reis, baianas, índios, escravos, artistas diversos), todas escondem uma história que se transforma em uma outra, sempre presa à anterior. De outra forma, a história mostrada elimina a lembrança primitiva da história, mas não uma existência, mantendo um sentido já estabelecido. Por exemplo, a partir da vida de Lamartine Babo, já falecido, é criada uma outra história atual a seu respeito. Alguns fatos são preservados mas, propositadamente, inventam-se outros, dando nascimento então a um Lamartine mítico, não mais real e antigo. Um novo Lamartine Babo, adaptado às exigências atuais do tempo, espaço, outros mitos, etc. Algumas vezes, o ídolo mitificado, ainda se encontra vivo durante o desfile. É o caso de Sílvio Santos e outros, mas, mesmo nesses casos, o que foi representado na narrativa do enredo foi um novo personagem, um Sílvio Santos idealizado por certos autores, diferente do real, mas construído a partir do real, ou seja, encaixado dentro do contexto, das crenças e das ideologias da escola que o representa. O público emociona-se principalmente com a história mitológica, recriada e apresentada a partir da original. A história real, geralmente já conhecida, sendo estática e comum, semelhante à história de todos nós, é por isso mesmo sem graça, enfadonha. Por outro lado, a nova história, a sobre-humana, é carregada de afetividade, cheia de simbolismos verbais - samba-enredo, fantasias, alegorias - o que, no seu conjunto, transmite uma inesperada totalidade razoavelmente interpretada pelo telespectador, previamente treinado e acostumado a assimilar informações semimíticas, isto é, não racionais. A comunicação e a apreensão de seu significado são alcançadas pelo público sem a presença do raciocínio, sem que a mensagem seja decifrada. Mas ela é sentida e isso é que importa. Ele foi ali para isso.

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A maior ou menor aproximação com a realidade descrita não tem importância. O importante é o despertar de uma emoção positiva no público. Não estou falando aqui acerca da comissão julgadora, que atua, geralmente, usando critérios mais lógicos. A “galera” faz seu julgamento intuitiva e imediatamente, apropriando-se apenas do concreto, daquilo que lhe entra pelos olhos e que, devido à sua passividade, acaba invadindo parte de seu cérebro, não a cognição. O carnaval é a hora de “brincar” e toda uma técnica é colocada à disposição das pessoas, para que elas troquem a realidade natural por uma “realidade” artificial, mais excitante e mais alegre que aquela que nos é dada pela natureza. As escolas de samba fornecem um espetáculo de beleza, poder e riqueza que, provavelmente por ser falso, é mais atraente do que os acontecimentos possíveis de serem alcançados no nosso dia-a-dia. Desse modo, as dançarinas quarentonas dos bailes de carnaval nos dão a ilusão do sexo, que pode ser mais agradável e excitante do que o próprio. Exclamamos que buscamos a verdade. Não sei! Sei que no carnaval cultivamos e realizamos a falsidade. A natureza humana real é abandonada, deixamos de lado o modo real de se fazer sexo, deixamos de produzir, para nos consumirmos, passivamente, numa ficção. Os mitos e rituais do carnaval, como os ingredientes citados, são inumeráveis, oferecidos à nossa vontade e a granel, nas ruas e nos diversos meios de divulgação: músicas barulhentas que nos impedem de pensar, danças comunitárias estafantes, bebidas, lançaperfume, bailes gay, onde alguns homens transformam-se, na superfície, em belas mulheres, fantasias de todos os tipos. Todos e tudo têm a mesma função: viver o falso, vestir a fantasia para encobrir a dura nudez real e, principalmente, alimentar os consumistas necessitados. É madrugada. Em casa ou na rua, o “voyeur”, inocentemente, sem decifrar o simbolismo do rito mítico, consome o conjunto de imagens artísticas dos símbolos apresentados, não percebendo a intenção do rito. Muitas vezes espera horas e horas o fim do ritual para retornar à cena erótica propriamente dita, que havia sido incorporada e desaparecido na dança do carnaval. Mas esta não chega nunca... Como é bom e terapêutico o carnaval.

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A úLtimA LemBrAnçA
Eu era ainda criança, quando fui acordado, naquele início de manhã do dia 18 de novembro, pelo ruído preguiçoso e monótono das gotas de chuva que, insistentes, tentavam penetrar através dos vidros da janela. Saí do meu torpor ao perceber que algo de anormal acontecia fora do quarto. Sussurros incompreensíveis alcançaram meus ouvidos. O que estaria acontecendo? Amedrontado e curioso saí rápido do leito buscando uma resposta. Assustei-me! A casa estava cheia de parentes e vizinhos, alguns chorando, abatidos, conversando entre si. Sem ainda decifrar o que se passava, conduziram-me rapidamente ao quarto onde ele estava acamado há meses. Meu dever, naquele momento, era dar-lhe o último adeus, o abraço de despedida. Os outros irmãos já tinham cumprido esse ritual. Confuso, aproximei-me do seu leito e pude observar sua respiração ofegante através das contrações desordenadas e custosas dos músculos do tórax e do pescoço que, teimosamente, tentavam levar ao seu debilitado organismo um pouco de oxigênio. Percebi, com olhos de ternura e pavor, que meu pai estava se acabando. Ele agonizava. No quarto escuro, as janelas fechadas, invadido por pessoas desesperançadas, pairava um terrível silêncio. Colocado diante dele, abraçamo-nos sem nada pronunciarmos. Automaticamente, ele respondeu à minha despedida já com grande dificuldade, colocando seus magros e fracos braços em torno do meu ombro de menino assustado. Sua respiração estava acabando.

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Meu pai continuou lutando contra a morte até às 15 horas daquele dia. Lá fora, a chuvinha miúda e cansativa transformou-se, repentinamente, numa violenta tempestade. Ventos fortes e nuvens escuras formaram-se. O silêncio existente no quarto foi quebrado quando ele se despedia desse mundo. Nesse momento, relâmpagos e trovões explodiram no ar. Em seguida caiu uma pesada chuva, bonita e triste. Emudecido no meu canto, abafado e sozinho no meio da multidão, assistia, pela primeira vez, à morte de alguém. Imaginei que meu pai estava viajando, feliz por ter a companhia da tempestade, que ele tanto amava. A partir daquele momento, minha vida mudaria para sempre sem a sua presença física.

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mergULHo no PAssAdo: UmA HistóriA VerdAdeirA
ADVERTêNCIA À GUISA DE INTRODUÇÃO Essa história me foi contada, portanto, tentarei descrevê-la da maneira como a ouvi. Por isso, todos os relatos que serão descritos abaixo são de exclusiva responsabilidade do jovem narrador. Este cursou a Faculdade de Medicina há muitos anos, como inúmeros outros médicos, se é que os colegas mais velhos ainda se lembram. As cenas selecionadas e narradas por ele, as interpretações e críticas feitas às pessoas e aos costumes da época, bem como seu ponto de vista, de que algumas vezes discordo, são percepções formadas por sua mente carregada de energia, mas ingênua que, ao começar o curso médico, ao chocar-se com o complicado mundo dos adultos, aos poucos foi perdendo as belas ilusões adquiridas na infância. Ele, como seus colegas, por acaso decidiu ser médico, por acaso nasceu e passou no vestibular num certo ano. A fatalidade existente na vida de cada um dos jovens levou-os a entrarem juntos na faculdade, permitiu a formação de um grupo coeso, anteriormente desagregado. Eu, como narrador do narrador, esforcei-me o quanto pude para descrever fielmente o que me foi contado, quase que diariamente, ao pé do ouvido, por esse jovem estudante. Preservei intactas também suas explicações acerca dos fatos ocorridos durante seu curso médico. Entretanto, observei, e vocês verão que tenho razão, que ele pró-

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prio, algumas vezes, duvidou das interpretações simbólicas que deu aos eventos. Acho natural essa sua dúvida. Nem sempre fomos amigos e concordamos em tudo. Já brigamos muitas e muitas vezes, em certas ocasiões mal nos cumprimentávamos. Examinando sua mente inquieta dia após dia, pois sempre estivemos ligados, pude notar que ele jamais ficou preso a uma ideia por muito tempo, pois estava sempre saltando de um lado a outro, à procura de um pouso acolhedor. Chamava-me a atenção sua incerteza ao tomar partido a favor ou contra um ou outro modo de pensar, pois, geralmente, ao combater ou defender uma ideia, ele próprio descobria prontamente razões contrárias às defendidas ou atacadas. Isso, segundo percebi, custoulhe por vezes o isolamento social e, ao mesmo tempo, estranhamente, uma fusão e entendimento com todos os que pensavam diferente dele. Assim é que, por sorte ou azar, não sei bem, foi levado a não fazer parte de nenhuma agremiação política, científica, cultural ou religiosa e, ao mesmo tempo, internamente, aceitava e pertencia a todos esses grupos heterogêneos. Desejo ainda comunicar-lhes que seu modo de selecionar os fatos do seu mundinho acadêmico foi fragmentário e parcial - por isso peço-lhes desculpas em nome dele - como deve ter acontecido com todos jovens, pois cada um selecionava aquilo que supunha ser “interessante e inesquecível”. Possuía muita coragem e fé em si mesmo e, ao mesmo tempo, como é comum nos valentes, pouca capacidade e competência para diferenciar o mutável do imutável. Por isso mesmo trombou decepcionado em vários muros intransponíveis. Suas características de jovem aventureiro e impetuoso, por sinal muito humanas, até me atraíam. Confesso com certo orgulho que devo a ele grande parte do que sou. Ele foi meu instrutor e crítico. Dele nasceram, bem ou mal erigidas, todas as ideias básicas ou princípios em que construí e organizei meu raciocínio atual. Vivo, até hoje, encarcerado intimamente ao núcleo desse jovem inquieto, meu preceptor diário e carregarei até o túmulo suas marcas e emoções impressas em minha mente. Entretanto, sei que algumas dessas nódoas indeléveis são muito primitivas e conscien-

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temente preferiria viver sem elas, mas elas não me abandonam. Não podia ser de outro modo. Às vezes lamento, outras vezes louvo, sua vida desassossegada, leve e curiosamente ligada a mundos tão variados. Muitas vezes imagino que poderia ser tudo tão mais simples... Será? Lastimo sua completa incapacidade para se conduzir através de um caminho sempre na mesma direção. Isso ele nunca conseguiu e talvez jamais o desejasse. Ele dirigiu sua vida em ziguezagues, ora para um lado, ora para outro. Rodopiou e capotou várias vezes, fez curvas e mais curvas, algumas imensas, em certas ocasiões, andou em círculos, sempre obstinadamente, em busca do sonhado caminho orientador. Apesar dessa procura teimosa, ele jamais encontrou uma saída nobre para escapar e descansar desse labirinto onde se aprisionou. Acredito que vocês, os simpáticos e ligados a ele como eu, o compreenderão. Talvez seus amigos e colegas tivessem lutas semelhantes e batessem nos mesmos obstáculos intransponíveis. Os inimigos, nem tanto. É possível que alguns felizardos – ou seriam azarados? - tenham encontrado prontamente o caminho acolhedor e definitivo. Ele jamais desejou isso. Como seu aluno e admirador, nesse instante seu portavoz, quero de público agradecer a todos vocês, que conviveram e ajudaram a formar a mente do meu tutor, exatamente no período mais crítico de sua vida. Ele e vocês, estudantes desse tempo longínquo, assistiram, participaram e viveram cenas e problemas semelhantes, sofreram e entristeceram-se, regozijaram-se e consolaram-se juntos. O jovem narrador estruturouse ou, quem sabe, desestruturou-se, a partir dessa união grupal singular, desse contato estreito, formado através da soma das esquisitices existentes em cada um. Foi nessa boa, ainda que imatura mãe, que ele e muitos de vocês, como crianças amedrontadas, se apoiaram e se sentiram protegidos ao buscar o carinho e a compreensão. Este grupo confortou e aliviou as “dores do mundo” que pesavam sobre sua cabeça frágil de iniciante a adulto. Este jovem ligado profundamente a esse grupo foi, e sempre será, o produto de cada um de vocês. Seus colegas amigos, cada um a seu modo, imprimiram uma marca indestrutível. Nenhum jamais escapará dessa cunhagem misteriosa.

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Talvez vocês, como ele, segundo especulei, tenham sofrido os mesmos azares do preço das transformações. Percebi que, à medida que ele foi alcançando degraus e conhecimentos mais elevados, mais amedrontado ficou. A ignorância inicial, bem como a não consciência desta, lhe dava segurança, falsa, eu sei, mas confortável, muitas vezes procurada. Ele nunca me confessou abertamente seu desejo de parar de crescer, parar com tudo, regressar de vez ao tempo da incompetência quase total, apesar dele saber que o caminho escolhido não tinha retorno. Entretanto inferia, nos seus rodeios, que é sua marca, dúvidas e mais dúvidas, algumas vezes um desejo velado de voltar ao tempo da inocência e da irresponsabilidade. Parece-me que para cada pulo dado para o crescimento, para cada estágio alcançado, mais ele se sentia aprisionado. Passou a ser controlado pelas normas da classe, pelos clientes, pela família, pelos deveres e compromissos diversos e, terrivelmente, pior ainda, pela sua consciência aumentada acerca de tudo isso. Pouco a pouco, ele foi abandonando quase tudo que amava. Os antigos e inocentes hábitos e prazeres, altamente atraentes numa época, foram trocados, com pesar, por obrigações pesadas comandadas por pressões externas. Ele passava a não mais mandar na sua vida. Confessou-me, abafado, que muitas vezes sentiu saudades da vida anterior, passando a ter inveja, nos dias de maior desespero, da vida do pássaro cantando na lavoura ou da abelha pousando nas flores. “É terrível!”, confessou-me: “Gostaria de poder, ainda que por instantes, responder diretamente ao meio, sem ser incomodado pelos pensamentos”. Todos vocês, como ele, entraram na faculdade em busca de uma sabedoria que não possuíam. Cedo, ainda na escola, ele verificou que lá não havia este conhecimento. Continuou sua procura em campo aberto, junto ao cliente e à vida cá de fora. Mas, depois de muita luta, chegou à conclusão que este ancoradouro tão esperado e sonhado não existia, apesar dele ser procurado por todos. Ora, como seria bom se existisse algo em que pudéssemos, continuamente, nos apoiar e ter certeza! Decepcionado, percebeu que não havia nada que re-

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sistisse à ação da história. As verdades encontradas serão, no futuro, mentiras, cada uma desmentida pela outra que dura algum tempo. Tudo que numa época foi imaginado ser um porto seguro, numa outra ocasião poderá ser um abismo perigoso. O jovem narrador agarrou-se a uma ideia, a outra, a várias delas, acreditando estar protegido, caso se apoiasse em várias ao mesmo tempo. Mas sempre, mais tarde, percebeu que se prendia a mitos, a ilusões, a estacas podres e ocas e novamente se sentia desprotegido, afundava-se. As verdades aprendidas na escola eram mentiras, mentiras que todos acreditavam numa época, todas anunciadas com muita fé. Agora, esse inconformado, condicionado pelo treinamento, continua teimosamente sua caminhada, como um rato que vai ao mesmo bebedouro diversas vezes à procura da água que lá não existe, atrás de uma verdade que possa servir de apoio às outras. Para viver, ele finge desconhecer essa “verdade” lógica. Mas ele, como vocês, tem que prosseguir sua caminhada em direção ao fim, e assim, penosamente, aprendeu que a verdade é vivida, ela pertence a cada um, num certo momento. Jamais poderá ser ensinada nas escolas ou nos templos. Naquele tempo, na velha escola de paredes altas e brancas e de porões escuros, os pequenos e inseguros alunos ouviam respeitosamente seus deuses do momento, afirmando suas verdades durante as aulas magistrais. Os professores eram vistos por cada um dos alunos espantados, como super-homens inatingíveis e invejáveis, possuidores de conhecimentos eternos. Hoje, tristemente, ao nos lembrarmos de suas aulas, temos pena deles, de suas prisões e de seus obstinados esforços para defenderem as ideias médicas da época, agora em desuso, perdidas no tempo, ridículas. Temos que prosseguir vivendo nessa incerteza. Reconheço que ele aprendeu, lá, hábitos e costumes que não mais servem para hoje, mas não deixo, às vezes, de ter inveja da vida que ele me contou, daquele mundo sedutor cada dia mais distante, que guardava seus encantos, prazeres, belezas e aromas simples. Aprisionado até à alma ao estudante daquela época, vivemos, eu e ele ao mesmo tempo, dois estilos de vida, às vezes em conflito.

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Toda e qualquer queixa contra suas ideias, bem como contra o ponto de vista adotado, deve ser encaminhada a ele próprio. Farei tudo para que receba as críticas que porventura vierem. O narrador atual, naquela época ainda um embrião, será um mero instrumento de suas recordações. Como suas histórias sempre me fascinaram e por isso gravei cuidadosamente boa parte de seus relatos, não foi difícil para mim reproduzi-las. Devido ao pequeno espaço, fui obrigado, embora contrariado, a cortar boa parte do anotado, que guardo carinhosamente para outras ocasiões. Selecionei somente uma pequena amostra. Peço-lhes desculpas por isso. O RELATO Manhã de novembro. Um táxi levou-me até à Estação Rodoviária, em Belo Horizonte. Assentei-me na poltrona, espichei meus velhos pés magros, ainda fortes, no suporte, deitei-me e fechei os olhos. Dentro do ônibus frio instalou-se o silêncio próprio de um grupo cansado pelo passar do tempo. A algazarra inicial durou pouco e se transformou apenas no barulho monótono do motor. Preso ao som acolhedor e tranquilizante, despertei com a melodia “Carinhoso” que estava sendo tocada no altofalante. Fechei os olhos para o presente, pouco a pouco fui hipnotizado pelo som e silêncio. Estava entrando naquele mundo que começara há muitos anos. Senti que era essa a razão da minha ida: um mergulho gostoso ao passado distante, ao curso médico feito. Sabia que, agora, isso me dava segurança e pesar, que essa volta estava supervisionada pelas nossas experimentadas mentes, pelos novos conhecimentos adquiridos. Já não éramos mais os jovens inocentes que fizeram e passaram no vestibular para Medicina. Aos poucos, entrei em transe e penetrei naquele tempo. Estávamos nas vésperas do vestibular, mais precisamente numa noite escura, feia e fria de fevereiro. Eu acabara de completar 19 anos. A chuva que caíra por todo o dia havia dado uma trégua para que

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pudéssemos sair de casa. Nesta noite realizávamos um compromisso começado há anos. Ali estávamos, jovens ambiciosos, lutando por uma vaga na Faculdade de Medicina. Tentávamos dar o passo mais audacioso na nossa vida de estudante. Todos aqueles caminhantes inquietos e tensos se punham em torno do portão principal, ainda fechado, do prédio. Dali a pouco as portas seriam abertas para a realização do vestibular. Todos tinham um só objetivo: conseguir uma vaga na escola. Nos meses que antecederam as provas, todos nós estudamos compulsivamente, durante os dias úmidos, tristes e chatos daquele ano. O céu, durante três meses, talvez temeroso e nervoso como nós acerca do risco da empreitada, solidário derramou continuadamente filetes de lágrimas frias e brilhantes nos telhados esverdeados e sujos das casas. A chuva miúda provocara nos livros e cadernos um insuportável cheiro de mofo que impregnara tudo. Apenas foram preservados nossos neurônios que precisavam, através de grande esforço, ser mantidos limpos e secos para realizarem seu papel. Eram eles que deviam armazenar ordenadamente milhares e milhares de fatos e teorias, a maioria delas inúteis e que, durante o vestibular, fariam sua última viagem, pois logo depois seriam jogadas no lixo eliminadas para sempre. Havia medo estampado nos olhos dos postulantes a um lugar. Predominavam as dúvidas. Junto ao temor imperava também uma alegria ou alívio, pois, se tivéssemos sorte, poderíamos expulsar as detestáveis matérias que invadiram e dominaram nossas mentes. Estávamos na reta final, não havia mais tempo para aprender nada. Disfarçadamente, olhava espantado e amedrontado para os meus rivais do momento: — Aquele ali tem uma grande cabeça, sinal de inteligência... uma vaga será dele. E aquela mulher morena de cabelos pretos cacheados? Bonita. Estranho... desejando entrar na Faculdade de Medicina? Será que passa? Examinava um a um os “inimigos da noite” e construía julgamentos acerca deles.

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Alguns brincavam desajeitadamente para espantar o medo, outros fumavam, mas todos tentavam camuflar a apreensão. Eram poucas as vagas para muitos candidatos. Diziam, sem muita certeza, que certos lugares já estavam reservados para alguns poucos escolhidos e apadrinhados de sempre. Abriram-se as portas e, vagarosa e preguiçosamente, os candidatos foram procurando seus lugares nas salas. Pareciam tentar, no seu passo lento, adiar o inicio da decisão. Assentei-me no lugar indicado. Tirei a velha caneta Parker 51 do bolso do surrado e largo paletó cinza, que servia para disfarçar minha magreza de 50 quilos, meus ossos fortes e estufados, cobertos por uma pele sem rugas e sedosa de atleta amador desnutrido. Tremi ao assinar a lista que passava de mão em mão. A sala era comandada por um velho professor da Faculdade, fungando sem parar através de suas largas e proeminentes narinas. Isso punha-me irritado. — Quem seria ele? Na certa um professor famoso. Será que algum dia eu, um “pé rapado” qualquer, desajeitado, poderia estar no lugar por ele ocupado e dando provas para futuros alunos? Oh! que bom seria! Três dias de provas escritas: Biologia, Física e Química. No dia da prova de Física, uma violenta tempestade caiu sobre a cidade. As luzes se apagaram e ficamos às escuras por mais de uma hora, comandados pelo velho, e agora, para minha decepção, fraco professor. Essa era a prova que eu mais estava preparado. Entretanto, com as trevas, a conversa e a cola foram gerais. Esperei que a prova fosse anulada. Não foi. Começaram aí, ainda muito cedo, minhas transformações na maneira de ver o mundo dos adultos da elite. O mundo construído e sonhado anteriormente começava a quebrar-se, e continuaria, através do confronto com a nova realidade, a despedaçar-se. Depois, começaram as provas orais. Na de Botânica, fui examinado por um velhinho simpático. Via todos os professores velhos como sábios e obesos, ao contrário dos candidatos magros, jovens e com cara de débeis mentais. Eu nada sabia acerca dessa prova, pois não havia essa matéria no curso científico. Lembro-me bem de sua voz

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cavernosa e fraca ao chamar-me. Tive pavor naquele momento. Olhava atraído para a porta de saída do grande anfiteatro onde se realizava a prova, imaginando poder passar correndo por ela o mais depressa possível. Entretanto, como um réu diante do juiz, automaticamente caminhei em direção à grande mesa, cheia de plantas e folhas soltas, atrás da qual parecia se esconder o professor, na certa esperando um deslize meu, pronto para me condenar. Olhou-me fixamente nos olhos, passou suas mãos manchadas de pintas negras sobre o bigode e disse-me, num tom que jamais decifrei: — O senhor tem um nome e sobrenome importantes... Não descobria por que ele falara. Qual a importância? Por ter coragem de tentar medicina? Por ser um nada? Mas não havia tempo para pensar. O inquérito estava apenas começando. Ele devia estar querendo distrair-me e pegar-me. Mais tarde, vim a saber que na faculdade havia professores, que nunca foram meus parentes, nem amigos, que tinham sobrenomes iguais aos meus. De fato, eu era um “João Ninguém”, fazia parte do grupo de pobres, dos filhos de viúvas, como disse muito bem um da turma. Sem nome e sem poder para ajudarme, esperava a sorte e a simpatia do velho professor. Não tive outra alternativa a não ser, engasgado e trêmulo, balbuciar: — É... certo... espero honrar meu nome. — Qual seria esse nome? - perguntei-me, confuso. Não sabia. O professor, lentamente, separou uma planta que estava dentro de um pequeno vaso e perguntou-me, com um tom de voz até aí amistoso: — Classifique essa Salvina. Acredito, até hoje, que o nome que ouvi foi esse mesmo. Nunca quis saber ao certo nada acerca desse maldito vegetal, se é que ele ainda existe. Tonto, assustado, olhei para a planta... percebia que jamais encontraria uma saída. Olhei novamente para o vaso, fingia estar pensando quando, na realidade, nada pensava. Sem saída, fixei meus olhos no vaso uma vez mais e, sem outra coisa para fazer, respondi com uma voz em falsete, lá do fundo, fazendo tudo para que ela não fosse ouvida:

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— É... é... é uma planta... aquática! - falei o final, fingindo firmeza. — O quê? Sua expressão e voz agora já não eram as de antes. Respondi rápido: — Não! Foi brincadeira, o senhor a colocou dentro d’água. Eu... A partir daí fui me arrastando no exame, já não era mais senhor dos meus atos. Passei a fazer tudo automaticamente, entreguei meu destino a qualquer Deus que porventura existisse, estivesse disponível e tivesse coragem para ajudar-me naquela hora maldita. Como a Física era o meu forte, entrei resoluto e confiante para a prova oral. Lá estava, como sempre, um velho careca, encurvado e magro, cara fechada, que mais tarde fiquei sabendo que era professor, não de física, mas de dermatologia. Coisas do passado. O exame, ou melhor, o inquérito, começou. Não concordávamos. Ele não tinha estudado nos livros de Física adotados no curso científico. Só mais tarde descobri que seus conhecimentos de “física” foram obtidos através da leitura do almanaque da Saúde da Mulher que, lamentavelmente, naquele ano, por falta absoluta de tempo, não pude ler. Ele, empertigado, com grande orgulho e sabedoria, me fez duas perguntas: — Como você sabe que uma água está fervendo na panela? O que é balança doida? As respostas não eram as óbvias e descritas nos livros de Física, eram da “física” existente na mente dele, as do almanaque. Eu devia, como adivinho, descobrir o que ele desejava e, infelizmente, não adivinhei. Dancei nesta. Acordei ao ouvir a voz calma de uma colega, que se sentara ao meu lado no ônibus. Ela, durante o vestibular, havia despertado a atenção do meu tutor logo após o término das provas, quando caminhava ao lado do Parque Municipal, esguia e vagarosamente, em direção à sua casa. A colega do ônibus, ao contar-me um caso atual, obrigou-me a retornar ao presente, à turma dos idosos, largando por minutos a turma antiga, a dos jovens, muito mais atraente e animada. Eu não imaginei que ela se tornaria minha colega, tinha cara de criança. Interessado em retornar ao ano do vestibular, ansioso pela volta, procurei, após ouvi-la, cortar delicadamente o assunto. Eu desejava

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conversar com a colega antiga. Vim ao encontro para isso, para esconder a realidade atual e encontrar a daquele tempo, quando ainda existiam vários caminhos a seguir. Agora, os acontecimentos, uma vez cristalizados pelos anos, não mais permitiam escolher novas opções, os espaços já tinham sido ocupados. Percebia claramente que nos encontros procuramos esconder, de todos os modos possíveis, a penosa realidade experimentada, os planos e sonhos imaginados na juventude, que se transformaram em decepções, em nada, vencidos que foram pelos fatos crus e dolorosos. Inspirado pelo ônibus, precisava voltar, o mais rápido possível, às narrações do jovem que vivera num tempo em que ele podia imaginar e planejar o que desejasse. Hoje, ele se acha preso à história construída por ele próprio, composta por fatos que preferiria não ter usado na edificação. Mas sentia saudade daquela época em que tinha poucos fatos para prendê-lo, hoje ele os tem de sobra. Antes, sua vida era um confronto vazio com o mundo real, com poucas e ingênuas teorias acerca dele. Hoje, aos poucos, querendo ou não, transformou-se numa outra pessoa, através das lambadas recebidas na face, produzidas pelos acontecimentos indesejáveis. Fingi dormir. A colega falava mais baixo e bondosamente calou-se, sem entender minha sonolência fingida. O vestibular terminou: agora, impacientes, esperávamos o resultado. Nada mais havia para ser feito. Passei ou não? Essa era a pergunta que ocupava as mentes ansiosas e sofridas. Foi um longo período de expectativas, que me colocaram mais tenso ainda. Evitei as conversas de sempre, pois não queria ouvir a boataria. Um dia a notícia temida e esperada: saiu a lista dos aprovados! Vagarosamente, para adiar o impacto, fui vê-la. Entrei timidamente no porão escuro e mal iluminado, local onde, naquele tempo, funcionava a secretaria da Faculdade de Medicina. Acima da entrada do porão, dos dois lados, saíam duas escadas laterais, que conduziam ao saguão, entrada principal da acanhada escola. O pequeno cômodo estava repleto dos companheiros de infortúnio que se aglomeravam em torno da única lista colocada. Uns liam em voz alta, própria dos desinibidos, os nomes dos aprovados e, por que não, com certo orgulho comentavam e conjeturavam acerca dos que não haviam passado.

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Alguns saíam do tumultuado porão, pulando e urrando alegremente, outros, ao contrário, cabisbaixos e com lágrimas nos olhos, caminhavam lentamente para o espaço vazio e acolhedor do pequeno jardim existente em frente da escola. Chegou a minha vez. Sem o desejar, fui empurrado pelos de trás, até ter a lista sob meus olhos amedrontados. Agora teria que encarar e clarear, querendo ou não, minhas dúvidas. Passei ou não? Ainda tentei evitar fixar meus olhos na lista ameaçadora e perigosa. Não tinha mais jeito. Fui lendo com o coração oprimido, a respiração ofegante, suando e quase desmaiando de terror. Passei por vários nomes, o meu nada. Continuava minha procura, não encontrava nada. Minhas esperanças estavam desaparecendo... um nome, mais outro, esse é conhecido, esse não, puxa, até fulano passou, só eu não? Absurdo! Por fim, lá embaixo na lista, quase no fim, entre os últimos, o visualizei. Eu! Passei! Urra! Segurei rápido e envergonhado minha expressão emocional repentina, que aliviava minha angústia mas, como bom itabirano e mineiro, saí do porão orgulhoso e de cabeça baixa, andando lenta e pausadamente, disfarçando meu encantamento com a mudança de status. Estava sem ar, mas aliviado. Não precisava ter vergonha de encarar a família, que me esperava em casa, e acreditou e investiu nesse jovem atirado e confuso. Mas havia ainda um pesadelo. “E agora José? A festa acabou...”, onde conseguir o dinheiro para o curso e os caros livros? Tonto como se tivesse levado uma violenta e pesada paulada na cabeça, - como levei durante um tumultuado jogo de futebol, - caminhei sem rumo e sem saber o que fazer, triste e alegre ao mesmo tempo. Também, com umas notas daquelas! Que vergonha! Andei cambaleando, bêbado, lembrei-me do dia que bebi mais do que devia, ao ser campeão de futebol juvenil no meu bairro. Peguei uma condução, qualquer uma servia, pois não sabia onde queria ir. Fui parar na Avenida Getúlio Vargas. Desci, caminhei mais e, automaticamente, voltei à Faculdade de Medicina. Vi-me, desolado, passando novamente por baixo das velhas escadas. Entrei outra vez no porão. Queria confirmar minha colocação.

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Olhei, agora mais calmo, para o quadro com a lista. Havia poucos candidatos à volta. Estava confirmado, de fato havia passado. Era verdade, mas não como esperava. Saí do porão decidido e, de repente, retornei ao que sempre havia sido, animado e corajoso. Já não era o medroso estudante do científico. Agora sabia claramente onde queria chegar. Subi rápido e confiante as escadas, pois sendo agora um primeiranista de Medicina, e não mais um candidato a este curso, tinha outros direitos: reclamar minhas notas. Liberto, convencido e encorajado por essas ideias com o novo posto alcançado, fui até o diretor da Faculdade de Medicina, tentando uma audiência com ele. O velho e cansado diretor recebeu-me pronta e gentilmente. Fui direto ao assunto: — Examinei a lista dos aprovados. Imagino que há um erro nas notas. Merecia uma outra, coisa melhor. Ele olhou-me com ternura, passou suas suaves mãos sobre meus ombros, e imediatamente deu ordens à secretária para subir minhas notas para examiná-las. De posse delas, olhou-as uma vez, mais outra vez, fixou seus olhos complacentes nos meus e disse-me espantado: — Mas você foi aprovado! Não está feliz? — Eu sei, mas vim aqui para reclamar das notas, fiz provas boas... — Ora meu filho, vá para casa, comemore com seus amigos e família seu sucesso... Envergonhado com o fracasso da missão, ainda irritado com as notas, saí apressado da sala e voltei a caminhar pelas ruas. Só cheguei a casa à noite. Dei a notícia à família. Penso que tinha a fisionomia tão sem graça, desapontada e sem alegria que não produzi - ou não percebi - entusiasmo nos familiares. Talvez eles, confiando em mim mais do que eu próprio, não esperassem outro resultado a não ser aquele. Este foi mais um das dezenas de outros aborrecimentos que enfrentaria na minha vida de estudante do curso de Medicina, que ora estava iniciando. Entretanto, como todo início, também este teve seus encantos e, ao mesmo tempo, seus desencantos. Vejo-me andando pelas ruas de Belo Horizonte durante o trote, com toda minha energia, rodeado de colegas fortes e jovens, de peles lisas e corpos magros e esbeltos. Devido à minha magreza, fui

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transformado, após uma boa dose de cachaça, em “Miss Sífilis”. Meu corpo foi enrolado em gazes, esparadrapos e tintas diversas. Outros, mais esbeltos, viraram lindas mulheres. Um colega esnobe fantasiouse de palhaço, o que lhe assentou muito bem, um outro vestiu-se de baiana desengonçada, outro de pirata, etc. Desfilamos orgulhosamente pela Avenida Afonso Pena: foi nosso dia de glória e esperança em conseguir namoradas melhores que as antigas. À noite, no DCE instalado na velha sede da Av. Afonso Pena, o Magnífico Reitor falou para o seleto grupo de garotos entusiasmados e ingênuos acerca do que é uma Universidade. Ainda embriagado pela cachaça e pelas festas, nada assimilei do que foi dito. Percebi, pela sua empolgação, que ele deve ter falado bonito. Estava, sem querer, forçado a virar adulto. Como é difícil! Ainda ouvia o tom de voz exaltado e belo das frases do Reitor, quando fui despertado pela estridente e nada melodiosa voz de um colega, avisando-nos de nossa chegada à cidade onde iríamos almoçar. Chegamos. A fome incomodava nossos organismos, mas nestes não mais habitavam os jovens famintos de antigamente. Não mais conseguimos sentir o prazer do sabor das laranjas do simpático e gago Tião Laranjeiro. Naquela época, qualquer “feijão com arroz” era ingerido com prazer e voracidade. Hoje temos diante de nós alimentos sofisticados, entretanto, procuramos em vão os jovens esfomeados de antes para saboreá-los, e não os encontramos. Na minha mente ainda morava o terrível, mas talvez bondoso para muitos, professor de anatomia, fumando, dando sua primeira aula para o curso médico, na sala comprida, escura e estreita. Subi à procura de um lugar, não havia cadeiras, e sim degraus, onde me sentei, espantado e curioso, com o “encanto do início”. O carrancudo professor ia dar a primeira aula. Havia uma expectativa geral, todos estavam atentos. Diante do professor, estendido na maca suja e enferrujada, descansava um cadáver frio, triste e magro, cheirando a formol. Ele fora levado até ali por um servil bedel que, segundo fiquei sabendo posteriormente, cantava os alunos mais bonitos, ajudando-os a escolher as melhores “peças” para estudar. Não

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fiz parte dos escolhidos. Sem decodificar acuradamente o que via, confundi o cadáver com um boneco de cera e, desse modo, almocei tranquilo naquela tarde. Só depois fiquei sabendo que o “boneco” era um ex-homem, que teve antes uma vida, um nome, uma mãe, talvez pai, alegrias e tristezas, como eu... O barulho próprio do início das refeições atraentes despertoume do sonho. Fui chamado pelos colegas, que já começavam a comer o tiragosto e a tomar vinho. Entretanto, mesmo diante do grupo, após o efeito do primeiro gole, continuei a enxergar as aulas soníferas do professor de Histologia e Embriologia, gordo, pequeno, pegajoso e monótono. Durante essas aulas, dormíamos, principalmente quando as cortinas eram fechadas para mostrar as lâminas. Um a um cada professor foi aparecendo na minha mente. O almoço estava sendo servido. Fui obrigado a abandonar o passado para retornar ao presente, pois precisava comer alguma coisa. Na sala barulhenta, com as mesas abarrotadas de iguarias, os antigos colegas comiam, contavam piadas e casos médicos. O grupo alegremente transformava o presente no passado, na juventude perdida no tempo, voltava aos sonhos que não mais podemos ter. Partimos no ônibus em direção ao nosso destino. Recostado, ajudado pela leve embriaguez ocasionada pelo vinho, avidamente regressei à faculdade... Lá estava o cadáver estendido sobre a mesa fria, tendo na sua orelha o número 33. Ele não tinha mais nome nem identidade, só um número. Agora sua residência era a sala de anatomia. Seus olhos negros embaçados, distantes, sem expressão, incrustados no seu rosto esquelético, olhavam-me com ternura e compreensão. Vendo-o todas as manhãs, recebendo ensinamentos dele, ficamos amigos, ligados intimamente. Sentíamos sua falta nos fins de semana. Sabíamos que ele estava sendo explorado, e que em troca pouco lhe era dado, talvez respeito e agradecimento internos. Identificados com ele, resolvemos batizá-lo carinhosamente com o nome de Gaspar. Assim começávamos a descobrir, com mais clareza, os desníveis sociais, o sofrimento de uns em benefício de outros, a gran-

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de ajuda do indigente para nossa aprendizagem. No salão grande, cheio de janelas altas e antigas, estavam as outras mesas. Lá descansavam corpos desconhecidos de ex-homens. Aos poucos, estava envelhecendo, vinte anos, vinte e um... Sabia que o tempo das brincadeiras, da irresponsabilidade estava acabando, faltava pouco para isso. A tristeza começava a dominar e inundar nosso corpo. No olhar de todos via-se o fantasma da formatura, como agora vemos, receosos, o da velhice. Havia pressa, e ao mesmo tempo medo, de terminar o curso. A maioria arrumou uma namorada firme no quarto ou no quinto ano, ficava noivo no sexto e casava no primeiro ano da profissão. Foi a essas mulheres jovens, animadas, corajosas, belas e atraentes que a maioria dos colegas se agarrou, como crianças apavoradas e desamparadas. Uma vez protegidos, eles tiveram forças para enfrentar o ainda desconhecido e perigoso mundo médico. Estes felizardos seguiram em frente com menos temor. Os isolados, sem ninguém para os amparar, tiveram que se apoiar nas próprias e trêmulas pernas. Com a proximidade da formatura, cada um procurava ganhar conhecimentos também fora da escola: o Hospital São Vicente de Paula, velho, com seu teto alto, frio e de grandes enfermarias, a antiga Santa Casa, com suas paredes descascadas e comidas pelas mulheres grávidas, anêmicas e desnutridas que lá eram internadas, o Instituto Raul Soares, com seu laboratório de vanguarda, alguns loucos internados e a maioria fora dele, o Hospital Militar e finalmente as diversas cadeiras da escola que abrigavam alguns com mais sorte. Eram poucas as opções. Cada um fazia o que podia para aprender. A formatura aconteceu no dia 8 de dezembro na Secretaria de Saúde. A tarde estava fria e chuvosa, relembrando o vestibular já quase esquecido. A emoção, que era enorme, talvez maior do que a do vestibular, impediu-me de memorizar o que foi discursado. Lá estavam os ex-estudantes assentados nas desconfortáveis cadeiras colocadas no palco, agora representando, para a plateia de amigos e familiares, o drama dos médicos recém-formados. Tremi ao ouvir meu nome e receber os abraços dos homenageados. Cada um no seu canto, cada um

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na sua dor e solidão. Terminávamos uma jornada, o que passou, passou. Agora caminharíamos à procura de um sonho. Até onde iríamos? Ninguém podia saber. Quais fracassariam? Ninguém sabia, ninguém falava: todos tinham medo. Mas, como sempre, “todo início tem seu encanto”. Agora a vida nos pertencia, faríamos dela o que quiséssemos, não mais seríamos julgados pelos professores. Estava novamente enganado. Agora enfrentaríamos examinadores mais severos: o cliente e a nossa terrível consciência. Agora nosso erro poderia ser fatal, sem retorno, não mais teríamos a salvadora segunda época.

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