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Análise Sit. Norte 1ª

Análise Sit. Norte 1ª

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Análise Situacional – 1ª Parte

Setembro 2010

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Av. do Contorno, 8000- Sl. 1701- SAnto Agostinho 30.110-056 - Belo Horizonte Minas Gerais | Brasil Tel.: + 55 31   3291 7833 echoice@energychoice.com.br enery@energychoice.com.br

Coordenador geral | Eduardo Nery Gestor | Ricardo Carvalho Projeto: Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro Coordenadores dos Módulos História e Etnografia Meio Ambiente Natural Meio Ambiente Modificado Economia Social | Elisiana Alves | Luciano Cota | Milton Casério | Nildred Martins | Karen Menezes e Samantha Nery Rede Social | Ênio Silva Sistema Físico e Infraestrutura | Milton Casério Político Administrativo, Municipal e Regional | Eduardo Nery Sistema de Informação | Rosângela Milagres Cartografia | Miguel Felippe Coordenadoras de Módulo Avaliação Situacional dos Mercados | Samantha Nery Karen Menezes Aquarelas | Elisiana Alves
Canavial (Campos dos Goytacazes I) Barco na Praia (São João da Barra) Capela (Campos dos Goytacazes II) A Lagoa Feia (Campos dos Goytacazes - Quissamã) Plataforma Iluminada (Macaé III) Navio com Containers (Macaé I) Lagoa de Iquipari (São João da Barra) Jongo I (Quissamã) Navio com Containers ( Macaé IV) Plataforma (Macaé V) Boi Pintadinho (Itaperuna)

APRESENTAÇÃO Os vultosos investimentos que estão sendo e serão realizados na Região Norte Fluminense associados à Bacia de Campos constituem um forte elemento indutor do seu desenvolvimento, se adequadamente geridos segundo os preceitos da sustentabilidade econômica social e ambiental. Neste sentido, a elaboração de um plano de desenvolvimento sustentável, de longo prazo, certamente trará, depois de concluído, um diferencial estratégico competitivo para os gestores públicos, empreendedores privados e do terceiro setor e, igualmente, para toda a sociedade que vive nessa Região e na Noroeste, sua vizinha integrada. Assim, o projeto do Planejamento Estratégico do Norte e Noroeste Fluminense representa, portanto, o refinamento de um olhar focalizado no desenvolvimento continuado, baseandose no fato de que a sua implementação, como resultado dos esforços dos diversos agentes socioeconômicos regionais e do Estado do Rio de Janeiro, entre outros, representa um conjunto de ações e programas coordenados, devidamente priorizados, comprometidos com a criação e crescimento de um estado de bem estar para sua sociedade. O seu escopo principal abrange inclusive a identificação de outras potencialidades dessas Regiões, além das já conhecidas, qual sejam o pólo petrolífero, o pólo de extração mineral e os tradicionais pólos de agricultura. O desenvolvimento sustentável será produzido de forma conseqüente, sobre o conhecimento e a exploração dos fatores diferenciais que caracterizam e que as suas localidades e populações podem promover. A metodologia utilizada no projeto, conforme a especificação consistente de seu termo de referência, foi testada e amadurecida, com sucesso, em outros estados da federação, e os seus resultados responderão as seguintes indagações: onde estamos em relação ao restante da sociedade? e, onde queremos chegar numa visão de futuro, dos próximos 25 anos? Como produto, ao final de sua realização, estará disponível uma carteira de projetos estruturantes e articulados de curto, médio e longo prazos, capazes de induzir e promover o processo de desenvolvimento regional. Essa carteira será incorporada ao Sistema de informação de Gestão Estratégica do Estado do Rio de Janeiro, SIGE- RIO, onde tornar-se-á acessível, via Internet, para os interessados em sua implementação, Para sua viabilização, a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão se articulou com a Petrobras, por meio da unidade de Negócio de Exploração e Produção da Bacia de Campos (UM-BC), a qual vem desenvolvendo um conjunto de ações regionais relevantes através do seu Programa de Desenvolvimento Social de Macaé e Região, PRODESMAR, especificamente constituído com o objetivo de aprimorar o planejamento e as ações de desenvolvimento, em bases sustentáveis, para as Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, afetadas direta e indiretamente pelas atividades do setor petrolífero. Desse entendimento, como uma decisão de responsabilidade social da empresa, a Petrobrás assumiu a responsabilidade pelo aporte financeiro para a execução desse projeto, cuja gestão está a cargo da SEPLAG, Rio de Janeiro, em um prazo de dez meses, conclusão programada para setembro de 2010, em quatro etapas, sequenciadas, que também produzirão resultados, parciais, da maior significação, para os processos de tomada de decisão sobre o desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense e os seus reflexos na economia do Estado do Rio de Janeiro. Francisco Antônio Caldas Andrade Pinto
Subsecretário Geral
Rio de Janeiro, março de 2010
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Governo do Estado do Rio de Janeiro Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão - SEPLAG
Sérgio Ruy Barbosa Guerra Martins Secretário de Estado
Subsecretário Geral de Planejamento e Gestão - SUBGEP Francisco Antonio Caldas Andrade Pinto

Av. Erasmo Braga, 118 - Centro 20.020-000 - Rio de Janeiro/RJ Brasil

Edição Final
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

EXPLICAÇÃO INICIAL O Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro foi desenvolvidoo em quatro etapas consecutivas, num total de dez meses. A Etapa 1, denominada Análise Situacional, foi realizada em quatro meses e teve como produtos, os seguintes relatórios: • Análise Situacional da Região Norte do Estado do Rio de Janeiro, Volume 1, em 2 tomos, o qual está estruturado em nove capítulos com os seguintes conteúdos história, etnografia, meio ambiente natural, meio ambiente modificado, economia(1), sistema social(1), rede social, sistema físico e infraestrutura, sistema político-administrativo municipal e regional(1), nos quais os capítulos sinalizados com (1) são individualizados por Região Norte ou Noroeste, os demais sendo comuns a ambas as Regiões; Análise Situacional da Região Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, Volume 2, em 2 tomos, estruturado de maneira análoga ao anterior; Relatório Análise da Relação Situacional de Mercados que trata especificamente dos da inclusão da população no sistema socioeconômico regional, tendo como temas centrais a estrutura social, o trabalho, a renda e a democracia econômica, designado Volume 3; e Cenários Prospectivos, designado como Volume 4.

• •

Os trabalhos, que se referem à situação existente anterior, estão referenciados a menos quinze anos, ou seja, cobrem o período 1994 a 2009, exceção à história e cultura que remontam às origens do processo civilizatório regional, nos idos de 1532. As evoluções futuras consideram o horizonte 2035, às vezes 2040, com períodos menores intermediários, sempre que tal condição mostre significado e agregue valor. Para a execução da Etapa 1, foram adotados diferentes modos de participação da sociedade fluminense e regional, dependendo do momento em que ocorreram, a saber: Primeiro Momento • • • levantamento e compilação de dados secundários de fontes oficiais ou reconhecidas; conjunto de entrevistas com formadores de opinião líderes empresariais, municipais e associações de classe e população; visitas técnicas e levantamentos de campo nas regiões norte e noroeste fluminense com a realização de um novo conjunto de entrevistas e conversas com representantes da sociedade local e regional, incluindo prefeitos municipais.

Segundo Momento • • implantação da rede social regional e realização de oficinas de trabalho regulares em Campos dos Goytacazes e Itaperuna com os participantes que se filiaram; os resultados escritos pelos grupos, nessas oficinas, foram considerados como contribuições passando a constar do conteúdo dos relatórios;
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Terceiro Momento • • distribuição de pesquisas sistemáticas, sob a forma de questionários, para resposta por representantes das secretarias municipais das duas Regiões; nova interação direta para esclarecimento e complementação de informações para a elaboração da análise situacional.

A Etapa 2, denominada Estratégia de Desenvolvimento Regional, produziu um único relatório com o mesmo nome, possuindo um conjunto de Macroprogramas de Desenvolvimento – com seus Objetivos, Metas, Programas, Empreendimentos ou Iniciativas correspondentes -, associados a cada um dos assuntos que configuram as realidades regionais. A partir desta plataforma foram constituídas a Visão, os Eixos de Desenvolvimento Estratégicos e os Programas Estruturantes que geram, na Etapa 3, o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Norte e Noroeste Fluminense, entre outros produtos. Para a realização desta Etapa 2, houve duas baterias de reuniões e oficinas e um questionário que apresentaram ampla possibilidade de participação para representantes regionais (e membros da Rede Social) e representantes do Governo Estadual e PETROBRÁS, tendo sido obtidas contribuições importantes que alimentaram o relatório correspondente. A Etapa 3 compreende a Carteira de Projetos Iniciais correspondendo ao Programa de Desenvolvimento Regional, um relatório reunindo tudo o que se identificou deve ser feito, já classificado e priorizado tecnicamente pelos especialistas, assim como os relatórios do modelo de Regulação e Regulamentação Institucional-Legal, os Modelos de Governança e Gestão, “Funding” e a Metodologia de Acompanhamento e Desempenho a ser usada na implementação. Para a sua realização, duas novas oficinas nas duas Regiões, produziram idéias e propostas muito profícuas, que foram desenvolvidas e incorporadas aos conteúdos dos relatórios mencionados. Do Programa de Desenvolvimento Regional, citado, foram extraídos e especificados 52 Macroprojetos que serão priorizados para execução gradual. Estes Macroprojetos constituem o Relatório Carteira de Projetos, objeto da Etapa 4. As operações da Rede Social, passarão a operar em um Portal específico, desenvolvido especificamente para permitir o acompanhamento da implementação deste Plano de Desenvolvimento Sustentável Norte-Noroeste, sob a supervisão da SEPLAG. A este Portal está igualmente conectado o Sistema de Informação de Acompanhamento, SIGEP, estruturado com as bases de dados e informações usadas para o desenvolvimento deste Plano, bem como o módulo instrumental de gerenciamento da Carteira de Projetos, nos moldes especificados pela SEPLAG. Finalmente, mas da maior importância, cumpre lembrar que os relatórios deste Plano receberam, desde sua divulgação inicial, inúmeras sugestões, comentários e ajustes, que foram devidamente considerados em uma revisão completa de todo o material produzido, que foi , por conseguinte, integralmente reeditado, nesta sua versão final. Coordenação Geral
Setembro de 2010

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SUMÁRIO

1ª Parte 1. 2. 3. 4. História .............................................................................................................. Etnografia .......................................................................................................... Meio Ambiente Natural ...................................................................................... Meio Ambiente Modificado ................................................................................ 13 65 353 439

2ª Parte 5. 6. 7. 8. 9. Economia ........................................................................................................... 595 Sistema Social ................................................................................................... Rede Social ....................................................................................................... 721 869

Sistema Físico e Infraestrutura .......................................................................... 895 Sistema Político-administrativo Municipal e Regional ....................................... 997

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“ ...as formas de comportamento emergente mostram a qualidade distintiva de ficarem mais inteligentes com o tempo e de reagirem às necessidades específicas e mutantes de seu ambiente...”
in Emergência, 2001. Steven Johnson

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História
Capítulo 1

Autores: Ailton Mota de Carvalho Elisiana Alves

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SUMÁRIO

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7.

INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13 O CENÁRIO........................................................................................................... 13 COMO TUDO COMEÇOU ..................................................................................... 15 A CANA-DE-AÇUCAR NO NORTE FLUMINENSE ................................................ 18 AS PRIMEIRAS VILAS........................................................................................... 21 O MAIS NOVO CAPÍTULO: A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO............................. 23 REFERÊNCIAS...................................................................................................... 24 ANEXO .................................................................................................................. 26 ANEXO I – BREVE HISTÓRICO DOS MUNICÍPIOS ............................................. 26

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LISTAS FOTOS Foto 1 - Região Norte Fluminense, Senzala, Jean-Victor Frond ............................................ 5 Foto 2 – Região Norte Fluminense, Vista do Antigo Porto de São João da Barra, à Margem do Rio Paraíba – abril de 2002 ............................................................................................ 20

TABELAS Tabela 1 - Região Norte Fluminense, Número de Engenhos e Produção Sucroalcooleira em Campos dos Goytacazes – 1785 ......................................................................................... 21 Tabela 2 - Criação dos Municípios por Desmembramento................................................... 22

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Foto 1 - Região Norte Fluminense, Senzala, Jean-Victor Frond

Fonte: Disponível em <http://www.portalventrelivre.com/?tag=negros> Acesso em 24/08/2010 Créditos: Jean-Victor Frond
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Jean-Victor Frond (Montfaucon, França 1821 - Varredes, França 1881), fotógrafo e pintor francês, possuiu um estúdio no Rio de Janeiro entre os anos de 1858 e 1862. Foi o primeiro fotógrafo a desenvolver projeto de mapear e documentar o Brasil através da fotografia, com este objetivo manteve aberto um estúdio na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1858 e 1862. De seu projeto resultou o primeiro livro de fotografia (sob temas brasileiros) do Brasil: Brésil Pittoresque (Brazil pittoresco) Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_Frond > Acesso em 24/08/2010
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“A história é um filme; a geografia é um quadro deste filme. A sucessão dos quadros geográficos gera a evolução histórica”.
in Fronteiras da Geologia e da Geografia e a Unidade da Ciência, Everardo Backheuser RBG

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1.

INTRODUÇÃO

A Região Norte Fluminense que, para efeito deste texto, engloba tanto o Norte como noroeste Fluminense, é um objeto de estudo muito interessante sob os mais variados pontos de vista: social, econômico, cultural e político. A denominação “Norte Fluminense” tem uma tradição secular, servindo para identificar uma extensa porção do território Fluminense nas articulações entre os atores locais e os atores externos, nas diversas escalas político-administrativas, de forma não oficial, pois só veio a ser reconhecida pelo IBGE, em 1980. Até 1975, a Região denominada e reconhecida como Norte Fluminense, por todos os agentes públicos, pela sociedade civil e pelos técnicos, abrangia toda a parte setentrional do Estado do Rio de Janeiro, sem considerar a divisão atual em Norte e Noroeste. De acordo com Cruz, (2003), a representação social da Região Norte Fluminense ampliada, correspondia, até 1970, ao território abrangido por três microrregiões: Microrregião Açucareira de Campos, Microrregião de Itaperuna e Microrregião de Miracema. No Censo de 1970, esta Região era composta por 14 municípios: Campos do Goytacazes, Conceição de Macabu, Macaé, São Fidelis, São João da Barra, Bom Jesus de Itabapoana, Itaperuna, Laje do Muriaé, Natividade do Carangola, Porciúncula, Cambuci, Miracema, Itaocara e Santo Antonio de Pádua. O Norte Fluminense, como denominação oficial, só veio a aparecer a partir do Censo Agropecuário de 1975, englobando as três microrregiões citadas, mais o município de Itaocara. Seguindo ainda a cronologia do texto de Cruz, a partir de 1980 a denominação passa a ser Mesorregião Norte Fluminense, ainda formada pelas três microrregiões já mencionadas. Somente no Censo de 1991, surge a Mesorregião Noroeste Fluminense, que foi desmembrada do Norte, em 1987. Desta forma, como é próprio dos estudos regionais, temos uma situação de fato histórico, que subsiste no imaginário social e na cultura regional, que é a existência de uma grande Região, formada pelo Norte do Estado do Rio, abrangendo parte do Sul do Espírito Santo e parte da Zona da Mata Mineira. Por outro lado temos o desenho político-administrativo de divisões regionais, que, via de regra, não corresponde às tradições e à realidade geográfica e vão sendo modificadas com vários critérios com o passar dos anos, desfigurando uma história original de construção de uma identidade regional. Uma olhada sobre um mapa mundial, ou mesmo sobre um mapa do Brasil, nos fornece inúmeros exemplos desta discordância entre o espaço real e o espaço imaginário. Assim o relato de ocupação do vasto território Norte Fluminense será feito com esta visão ampliada, assumindo-se a partir de agora como Região Norte, sem a inibição que os limites oficiais impõem à análise espacial.

2.

O CENÁRIO

De uma das regiões mais desenvolvidas e inovadoras do Rio de Janeiro, a Região Norte Fluminense foi sofrendo um processo histórico de esvaziamento econômico e de perda de influência política que a coloca hoje no outro extremo da escala estadual. Sua posição geográfica é periférica em relação à Região Metropolitana e limítrofe com regiões vizinhas pouco desenvolvidas ou que sofreram processo de recessão econômica, como o sul do Espírito Santo e a Zona da Mata Mineira. A base econômica regional foi fundada durante séculos no cultivo e na industrialização da cana-de-açúcar, complementada por algumas outras atividades agrícolas como a economia cafeeira e a pecuária extensiva.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 13

A grande lucratividade do setor canavieiro acabou por desestimular a produção agrícola de subsistência e reduziu a tal ponto a criação de gado, que a Região passou a importar cereais e gado a partir da segunda metade do século XIX. Além da indústria açucareira, a Região se afirmava por outras atividades e eventos que a colocaram como a mais inovadora e dinâmica do Estado. Em 1866, por exemplo, era fundada a fábrica de tecidos em Campos dos Goytacazes; a cerâmica já aparecia como uma das vocações regionais; em São João da Barra se fabricavam embarcações; em 1883, Campos passa a ter energia elétrica - o primeiro serviço de iluminação pública do Brasil e da América Latina e em 1863 começou a ser construído um canal fluvial ligando Campos a Macaé. Todavia, a partir dos fins do século XIX, fatores de ordem econômica e política desestruturam este sistema, e a Região começa a perder competitividade frente a outros estados, notadamente São Paulo. Quatro fatores explicativos podem ser citados para o longo período de estagnação que permeou a Região por quase todo o século XX: i) ii) iii) iv) a abolição da escravidão; os desmembramentos territoriais do município de Campos; o fim do ciclo do café e a crise da economia do Rio de Janeiro; e a perda de competitividade da agroindústria açucareira do Norte Fluminense.

Além disto, alguns outros fatores de ordem econômica contribuíram para obstaculizar o desenvolvimento regional, como a deficiência de energia elétrica; a elevada concentração de renda (restrição do consumo); baixos índices de poupança agregada; baixa qualificação da mão-de-obra e capacidade empresarial limitada. A tradicional elite ruralista, que sempre comandou a economia e a política local, não se adaptou aos novos tempos e, vivendo de glórias passadas, sempre resistiu às inovações dos métodos produtivos e das relações de trabalho. De maneira antecipada, pode-se afirmar que estes fatores estão vigentes até hoje e que constituem uma das principais causas para a decadência econômica regional. Nem mesmo programas governamentais, como o Proálcool na segunda metade da década de 1970, tiveram efeito duradouro. A década de 1980 foi crítica para a economia brasileira como um todo e para a açucareira no Norte Fluminense especialmente, com o fechamento de inúmeras usinas, desemprego em massa e precarização das relações trabalhistas. A falta de diversificação das atividades econômicas e a elevada dependência da Região com relação ao setor sucroalcooleiro ao longo do século XX levou o Norte Fluminense a uma crise econômica sem precedentes, com graves conseqüências sociais. A partir de 1970, em decorrência dos investimentos realizados pela Petrobrás na prospecção e na exploração, a Bacia de Campos se transformou na maior produtora de petróleo do Brasil, com cerca de 85% da produção total do país. É óbvio que um advento de tal magnitude tem um poder enorme de gerar externalidades positivas e negativas na Região. Sabe-se que, de uma perspectiva teórica, a chamada indústria do petróleo contém um forte poder de promover a formação de uma cadeia produtiva, com vínculos para frente e para trás. Em outros casos, ela pode se transformar num mero “enclave regional”, sem os esperados efeitos de difusão. No caso do Norte Fluminense, a percepção geral, aliada a alguns estudos empíricos, apontam na direção de que os efeitos positivos ainda são muito pequenos, considerando-se o vulto dos empreendimentos realizados e dos impostos pagos sob a forma de “royalties”. Só para exemplificar, Campos dos Goytacazes e Macaé são os maiores beneficiários com a receita de “royalties” no Brasil.
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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Todavia esta riqueza econômica não se reflete em melhorias sociais, originando daí a idéia corrente de “uma Região com municípios ricos, mas com população pobre”. Outra vez para exemplificar, Campos e Macaé apresentam situação de muita inferioridade no que se refere ao IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) quando comparado a outros municípios de mesmo porte do Brasil. O mesmo acontece com o índice IDHMLongevidade, representado pelo indicador “esperança de vida ao nascer” no qual Campos e Macaé apresentam os piores desempenhos entre os vários municípios do Brasil. Novamente, a Região Norte parece incorrer em um equívoco econômico-histórico: uma extremada especialização e dependência de uma só atividade produtiva, lastreada em um recurso sabidamente esgotável, em médio prazo. Resta pensar sobre esta situação, resgatar erros passados, propor novas formas de desenvolvimento: mais integrado, diversificado, sustentável e justo. Integrado e justo no sentido de que todos os interessados e atores sociais participem e usufruam do crescimento, pensado de forma mais duradoura e equitativa.

3.

COMO TUDO COMEÇOU

A história do Norte Fluminense é muito rica de acontecimentos e de certa forma, se confunde com a própria história da formação do Brasil Colônia. Como se sabe, para estimular a vinda e a permanência de colonos para o Brasil, a Coroa portuguesa concedia vantagens e poderes soberanos, aos súditos que se dispusessem a arriscar sua integridade física na aventura da colonização da nova terra. Para isto o Governo Português instituiu então, o sistema de capitanias hereditárias, que consistia em dividir o litoral em 15 setores lineares, a serem doados a titulares, dotados de muito poder e regalias. A ocupação da Região Norte Fluminense começa com a doação da Capitania de São Tomé, feita por Martim Afonso de Souza a Pero Góis da Silveira, em 1534, e confirmada por D. João III, em 28 de janeiro de1536. As terras partiam das margens do rio Macaé e avançavam 30 léguas para o Norte, incluindo as terras planas e de campos habitadas pelos índios Goitacás, de onde surge a denominação de “Campos dos Goitacás”. Pero Góis iniciou a ocupação, criando uma localidade denominada “Vila da Rainha”, pelos idos de 1538, próxima à foz do Rio Itabapoana, antes conhecido como Rio Managé. Aí, segundo conta a história, foram plantadas as primeiras mudas de cana-de-açúcar no Norte Fluminense, aproveitando o rio, as matas para fornecimento de lenha para o engenho, e trazendo os primeiros escravos africanos para o trabalho, uma vez que os índios nunca se submeteram a este tipo de tarefa. Depois de anos de árduo trabalho e atacados valentemente pelos índios Goytacazes, que defendiam as suas terras, Pero de Góis e os colonos desistiram da empreitada e abandonaram o povoamento. Os documentos históricos registram que esta primeira tentativa não deu resultado, devido à resistência dos indígenas e à falta de apoio para a colonização. Passados alguns anos, seu filho, Gil de Góis tentou prosseguir com a obra do pai, mas, igualmente, foi derrotado pelos índios e pobre e desolado, resolveu devolver a capitania à Coroa, o que se deu em 1619.

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OS ÍNDIOS O índio Goitacaz é o senhor absoluto das terras no tempo da Capitania de São Thomé, depois do Paraíba do Sul. Segundo relato de Osório Peixoto em seu livro "500 anos dos Campos dos Goytacazes", goitacaz quer dizer corredor, nadador ou caranguejo, grande comedor de gentes. Possuía pele mais clara, era mais alto e robusto que os demais índios do litoral. Reunia ainda uma "força extraordinária e sabia manejar o arco com destreza". Gostava de dançar e cantar em ocasiões festivas, usando o jenipapo para a pintura do corpo e penas de aves com as quais adornava seus objetos. Viviam nus, raspando o cabelo no alto da cabeça, deixando-o comprido, formando uma longa cabeleira. Sua alimentação constava de frutos, raízes, mel e, principalmente, de caça e pesca. Eram supersticiosos quanto à água para beber, não bebendo-a de rios e lagoas, mas sim das cacimbas. Mantinham comércio com os colonizadores europeus, mas com uma peculiaridade: não se comunicavam com seus colonizadores! Deixavam seus produtos em lugar mais elevado e limpo ficando à distância, observando as trocas. Davam mel, cera, pescado, caça e frutos em troca de enxadas, foices, aguardente e miçangas. Assim como os demais povos indígenas, os Goitacazes guerreavam entre si e seus vizinhos. "Quando não se julgam fortes fogem com ligeireza comparável a dos veados”. Além do arco e da flecha faziam com perfeição trabalhos com penas de aves, multicoloridas, usando-as no corpo e nas armas e também em ocasiões festivas. Trabalhavam o barro, enterrando seus mortos em igaçabas. Faziam machados de pedra, jangadas, trabalhavam com bambu e trançavam redes de fibra e cordas. Os Goitacazes sofreram um massacre histórico. Após esse episódio praticamente desapareceram. Calcula-se que eram cerca de 12 mil. Os Goitacazes (ou Goitacás) foram homenageados por José de Alencar em seu romance 'O Guarani'. Nesta obra, o protagonista, Peri, é um índio goitacá que realiza grandes proezas, lutando contra os aimorés, o homem branco e até contra os elementos naturais, tudo para agradar e salvar sua predileta, Cecília, filha de um nobre português. Fonte: Wikipedia

Alguns anos mais tarde, em 1627, sete militares solicitaram ao governador do Rio de Janeiro, Martim Correia de Sá, que estas terras devolutas lhes fossem dadas como recompensa pelos serviços prestados nas lutas contra os invasores holandeses e contra os piratas ingleses e franceses que infestavam o litoral Norte Fluminense. Em 19 de agosto de 1627, Martim Correia de Sá concedeu-lhes, em sesmaria, as terras reclamadas que iam desde o rio Macaé, correndo a costa, até o rio Iguaçu, ao Norte do Cabo de São Tomé, e para o sertão até o cume das serras". Assim, pelo litoral, as terras iam de Macaé até quase a foz do rio Paraíba do Sul e para o interior até as serras que formavam o vale do rio Paraíba do Sul, na divisa com Minas Gerais. A intenção do governador Martim Correia de Sá era povoar a Região, abandonada, pois o comércio do pau-brasil havia se esgotado. Os famosos “Sete Capitães”, como ficaram conhecidos eram: Miguel Aires Maldonado, Miguel da Silva Riscado, Antônio Pinto Pereira, João de Castilho Pinto, Gonçalo Correia de Sá, Manuel Correia e Duarte Correia. No final do ano de 1632, os Sete Capitães reuniram-se em Cabo Frio e no dia 2 de dezembro de 1632 partiram até a aldeia de índios pacificados, localizada na foz do rio Macaé.

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Iniciaram então a exploração das terras que tinham recebido em sesmaria, procurando por pastagens naturais para criação de gado, o que encontraram nas proximidades da Lagoa Feia e às margens do Rio Paraíba do Sul. Os sete desbravadores ainda realizaram outras viagens de exploração, entre 1633 e 1634, durante as quais implantaram currais e fazendas de criação de gado. Fica claro, portanto que a pecuária foi o fator pioneiro de ocupação das terras, precedendo qualquer atividade agrícola. Em 1647, os “Campos dos Goitacás ou Goitacazes” já floresciam, quando Salvador Correia de Sá e Benevides assumiu o cargo de Governador do Rio de Janeiro, iniciando um longo período de violências, revoltas e crimes na história da Região. Os “capitães” Miguel Aires Maldonado e João de Castilho Pinto se tornaram inimigos do governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides, que em vingança promoveu uma verdadeira espoliação nas terras que tinham sido doadas aos Sete Capitães. Alegando confusão na delimitação das propriedades, Salvador Correia de Sá e Benevides elaborou uma "escritura diabólica" - como afirmam os cronistas - dividindo as terras exploradas em 12 quinhões, dos quais quatro e meio foram destinados aos Sete Capitães e seus herdeiros, três ao próprio governador, três à Companhia de Jesus , um para o provedor da fazenda Pedro de Sousa Pereira (casado com Ana Correia, portanto genro de Manuel Correia, primo do governador) e meio quinhão aos monges da Ordem de São Bento. Alberto Ribeiro Lamego, o grande e ilustre estudioso da vida campista, no seu famoso livro “O Homem e o Brejo” relata assim: “Em 1648, Salvador Correia de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro, toma conhecimento dos Campos dos Goitacás. Abusando de seu poder e posição, de parceria com Jesuítas e Beneditinos, compele os capitães ainda vivos a assinarem uma escritura de composição, na qual governador e religiosos são bem aquinhoados na partilha da planície.” Os Sete Capitães, que eram os legítimos possuidores, foram assim despojados de quase 2/3 das terras que tinham recebido e explorado. A divisão só se manteve porque, de todos os sete, somente Miguel Aires Maldonado e João de Castilho Pinto demonstraram forte interesse nas terras e mantiveram forte oposição ao governador e aos religiosos. Começa assim um longo período de disputas e lutas entre os Assecas (descendentes de Correia de Sá), religiosos e colonizadores. Estes últimos, começam a se organizar para uma revolta armada, sob a liderança de uma mulher que se tornaria famosa - Benta Pereira de Souza. O rebanho criado a solta em terras mal demarcadas cresceu muito e a cana-de açúcar e os engenhos já faziam parte da paisagem da Região, por volta de 1700. Sobre todo o comércio de gado e açúcar incidiam tributos cada vez mais extorsivos, aumentando o descontentamento dos primitivos colonizadores. A desorganização social e a fervilhante inquietação que agita os Campos não se limitam à revolta do povo contra os donatários, mas cria também desavenças entre os próprios fazendeiros. Para tentar colocar ordem na situação, chega a Região, em 1740, o famigerado desembargador Manuel da Costa Mimoso, recebido com gala pelos Assecas e jesuítas. Começa uma violenta repressão, com prisões, confiscos de terras e denúncias, causando o pânico e aumentando a insatisfação dos colonizadores, sempre sob a liderança de Benta Pereira de Souza, em cuja casa, ocorriam as reuniões secretas dos revoltados. Em 1748, a situação de opressão e de revolta chega ao seu clímax e começa uma verdadeira batalha campal. De um lado a força do Governo institucional, mercenários e escravos dos senhores de engenho e do outro, a brava gente da própria terra; cansada de anos de exploração, comandada por Benta Pereira de Souza.

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Benta tinha então 73 anos e montada a cavalo com revólveres na cintura, comanda a rebelião com destemor, e derrota os inimigos, pondo-os para correr campo afora.

BENTA PEREIRA DE SOUZA Nome completo: Benta Pereira de Souza. Heroína local. Uma senhora que viveu no início do século XVIII. Nasceu em 1675 e morreu aos 75 anos, em 10 de dezembro de 1760. Filha do Padre Domingos Pereira Cerveira com Isabel de Souza. Casou-se com Pedro Manhães e com ele teve seis filhos que criou, depois de enviuvar. Era uma mulher de muitos bens e sozinha não só gerenciou a fortuna deixada pelo marido, como educou os filhos. Aos 72 anos de idade, Benta Pereira montou num cavalo e armada, liderou uma revolta contra o 3º Visconde de Asseca, Diogo Correa de Sá, donatário da capitania da Paraíba do Sul. Ela lutava não só pela liberdade de suas terras, cujas delimitações haviam sido infringidas pelos viscondes, como contra os pesados impostos requeridos pelo donatário. Criadora de gado bovino, numa terra que se transformava em um grande canavial com a exploração do açúcar, Benta Pereira, ladeada por sua filha Mariana de Souza Barreto, lutou sem descanso até conseguir a expulsão dos Assecas da capitania. Lutou pelas terras que havia herdado de seus antepassados que, por sua vez, as receberam, em 1627, das mãos do governador Martim Correa de Sá, em reconhecimento pelo corajoso desempenho destes homens nas lutas contra os guerreiros Goitacás. Fonte: Wikipedia

O Governo da Colônia reage imediata e severamente e manda para Campos, o General João de Almeida e Souza, com duzentos soldados armados com pesada artilharia. Benta Pereira, sua filha Mariana Barreto e seus heróicos companheiros são derrotados e presos, em 1751. Os revoltosos conseguem que as notícias desta revolta cheguem aos ouvidos do Rei em Lisboa, que contrariado com os acontecimentos, decide comprar a capitania, incorporando-a aos bens da Coroa e terminando assim com um século de tirania dos Correia de Sá. Nesta época, a cana-de-açúcar já começava a se transformar na grande riqueza da Região, marcando definitivamente a história regional. O “Ciclo do Açúcar” havia começado, absorvendo tudo e relegando a um plano secundário qualquer outra atividade e se transformando no grande e definitivo capítulo da história do Norte Fluminense.

4.

A CANA-DE-AÇUCAR NO NORTE FLUMINENSE

Como se sabe, a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil no século XVI, em São Vicente, migrando para o Nordeste, onde encontrou seu habitat adequado e apogeu de produção, caracterizada por três aspectos básicos, que Caio Prado Júnior cita em sua obra referencial Formação do Brasil Contemporâneo (1945): o latifúndio, a monocultura, e a utilização de trabalho escravo. Com relação à introdução da cultura canavieira na Região Norte Fluminense, existem dúvidas quanto a época exata. Porém, se aceita correntemente que foi por volta de 1538, que Pero de Góis plantou a primeiras mudas de cana no povoado de Vila da Rainha, atual município de São João da Barra, como dito anteriormente. Porém, devido aos permanentes conflitos com os índios, Pero de Góis abandona a empreitada e retorna ao Reino por volta de 1548.
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O ilustre e famoso engenheiro e historiador campista Alberto Ribeiro Lamêgo registra em seus estudos que após esta frustrada tentativa de implementação de engenhos de açúcar em São João da Barra, o plantio voltaria a ser feito e o primeiro engenho de açúcar na Região somente surgiria no século XVII, com a fundação do engenho de São Salvador, em 1652. Com a retomada da Capitania por parte da Coroa portuguesa, em parte causada pela Revolta de Benta Pereira de Souza, o cultivo da cana se alastra, substituindo a criação de gado na planície goitacá, o que coincide com a queda de produção no nordeste brasileiro, e aumento da demanda internacional. Campos dos Goytacazes se transforma no centro produtor, comercial e político de todo o Norte Fluminense, prosperando rapidamente, tanto do ponto de vista econômico como do ponto de vista político e cultural, ocupando um lugar de destaque na estrutura social e política do Estado do Rio de Janeiro. Campos dos Goytacazes supria os estados do Rio de Janeiro e da Bahia com gado, cavalos, farinha e milhares de caixas de açúcar. No final do século XVIII, a cidade, que já contava com cerca de 300 engenhos, comercializava mais de 50.000 caixas de açúcar de 50 arrobas cada. No primeiro quarto do século XIX, o número de engenhos já se aproximava dos 700. Como desdobramento desse processo, outro marco, que se destaca, foi a introdução do engenho a vapor e a criação de usinas no final do século XIX, sendo o Engenho Central de Quissamã, construído pelo Governo Imperial Brasileiro, o primeiro a entrar em funcionamento na América Latina, em 1877 (BARBOSA, 2003, p.113).

CAMPOS DOS GOYTACAZES As terras dos índios goitacás começaram a ser colonizadas pelos portugueses em 1627, com a chegada dos "Sete Capitães". Pertenceram à Capitania de São Tomé e se tornaram, cinqüenta anos depois, no dia 29 de maio, a Vila de São Salvador dos Campos. Foi elevada à categoria de cidade em 28 de março de 1835. O surgimento, em 1652 da agroindústria açucareira, com a instalação do primeiro engenho em Campos, hoje menos promissor, dava início ao progresso da Região. Em 1883, D. Pedro II inaugurou na cidade o primeiro serviço público municipal de iluminação, tornando Campos dos Goytacazes a primeira cidade da América Latina a receber iluminação pública elétrica, através de uma termelétrica a vapor, acionadora de três dínamos com potência de 52 KW, fornecendo energia para 39 lâmpadas de 2000 velas cada. Ou seja, Campos foi a primeira cidade a ter luz elétrica do Brasil. Fonte: Wikipedia

Um dos maiores entraves ao desenvolvimento da agroindústria açucareira da Região era o escoamento da produção, principalmente para a metrópole. O transporte terrestre era dificultado pelos terrenos alagadiços e pelos constantes ataques de índios e aventureiros. Recorde-se que o principal mercado para os produtos agrícolas de Campos era o Rio de Janeiro, que se consolidara como o centro econômico e político do país, com a vinda da família Real em 1808. Com o avanço do processo de industrialização da produção açucareira, a expansão do mercado de bens de consumo não duráveis - sobretudo do principal mercado consumidor de Campos, o Rio de Janeiro, a estruturação de redes eficientes de transporte colocara-se então como condição sine qua non para a expansão das atividades econômicas do Norte Fluminense. Houve, portanto, importantes avanços no que tange a transportes, tendo em vista
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principalmente, a necessidade de um fluxo regular da produção regional para os centros consumidores de outras regiões. A fase ascendente do ciclo da produção açucareira no Norte Fluminense atraiu inúmeros investimentos em atividades meio, inclusive com a participação ativa dos “barões do açúcar”. No ano de 1854, foi constituída a Companhia Macaé-Campos, a qual detinha uma pequena frota de barcos a vapor que fazia o transporte fluvial facilitando o comércio e a conexão intra-regional. O comércio inter-regional que se fazia entre Campos e o Rio de Janeiro, entre 1850 e 1870, era realizado, em grande parte, pelos barcos a vapor que, seguindo o Rio Paraíba em direção a sua foz, transportavam os produtos até o porto do município de São João da Barra. Estes produtos, por sua vez, eram transferidos para os “vapores” - embarcações de médio e grande porte que seguiam para o Rio de Janeiro por via marítima, com apoio em Macaé.
Foto 2 – Região Norte Fluminense, Vista do Antigo Porto de São João da Barra, à Margem do Rio Paraíba – abril de 2002

O município de Macaé, com o seu porto, foi durante décadas, rota natural para o escoamento da produção do Norte Fluminense, em especial a produção de carne bovina. A necessidade de desenvolvimento de transportes mais eficientes ligando Campos a Macaé era premente. Em 1863, começou o serviço de escavação de um canal cujo objetivo era a ligação, pela via fluvial, de Campos a Macaé. Em 19 de fevereiro de 1872, começou a navegação do canal, partindo para Macaé, no vapor chamado Visconde. O objetivo era facilitar o escoamento da produção, inclusive do café produzido na Região, já considerado o principal produto de exportação do país.

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O CANAL CAMPOS-MACAÉ O transporte da produção açucareira tornou-se um problema para a Região, devido ao expressivo aumento da sua produção. O escoamento era feito por carros de boi ou por via marítima, com muitos riscos e limitações, até o porto de Imbetiba, em Macaé. Por este motivo foi concebido um canal fluvial ligando a Região produtora até Macaé, ponto de escoamento, com uma largura de 15 m. e uma extensão de 106 km., o segundo maior do mundo, menor apenas que o Canal de Suez. O projeto data de 1837 e as obras duraram de 1844 até 1861. Porém sua utilidade foi efêmera, entrando em declínio a partir de 1874, devido à concorrência da estrada de ferro Macaé-Campos, inaugurada em janeiro de 1875. Fonte: Wikipedia

O século XIX marca o período de maior prosperidade da indústria canavieira campista, com a paulatina substituição dos engenhos pelas usinas, cujos donos formavam uma oligarquia com grande poder econômico e político: os “barões e baronesas do açúcar, senhores das terras e dos escravos”. Consta que a primeira usina açucareira instalada no Brasil foi a Usina do Limão, em Campos, no ano de 1879. No final do século XVIII, a Região Norte Fluminense chegou a ter mais engenhos que a Região Nordeste do Brasil. Em 1785, eram 236 engenhos de açúcar, como mostram os dados da Tabela seguinte.
Tabela 1 - Região Norte Fluminense, Número de Engenhos e Produção Sucroalcooleira em Campos dos Goytacazes – 1785

Descrição Engenhos Engenhocas Arrobas de açúcar Medidas de aguardente
Fonte: Couto Reys, 1997

Total 236 9 128.580 55.905

Na metade do século XX, a partir da década de 1950, começa o declínio da produção sucroalcooleira campista, com uma significativa perda de expressividade da Região no âmbito macrorregional e nacional, vis-à-vis ao crescimento da produção paulista, caracterizada pelo aumento da produtividade e modernização de instalações. Na década de 1970, a produção de açúcar e álcool tem um novo alento devido aos estímulos à indústria sucroalcooleira oferecidos pelo Governo Federal por intermédio do programa Proalcool. No entanto esta recuperação durou pouco tempo e a partir de 1980 o setor entra em definitivo colapso. Para exemplificar, o número de usinas de açúcar e álcool diminuiu de 32 para 12, entre 1930 e 2000.

5.

AS PRIMEIRAS VILAS

Para tornar efetivo o processo de ocupação e controle territorial, os agraciados com as terras da coroa tinham a obrigação de criar as vilas e cidades, de preferência junto ao litoral ou dos rios, para servirem de pontos de escoamento dos produtos agrícolas. As localidades, surgidas espontaneamente, eram minoria, ou seja, regras gerais eram criadas por decisão dos donatários ou dos senhores de terras. Eram, portanto e ao mesmo tempo, centros comerciais e centros administrativos. Algumas localidades eram criadas para
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servirem de postos de vigilância, outras, surgiam em torno de alguma capela em associação com a igreja católica. Neste sentido a principal área de interesse da Região foi o local da antiga vila de São Salvador dos Campos, atual cidade de Campos dos Goytacazes, a primeira vila a ser criada em toda a Região (1673). Posteriormente foram fundadas as vilas de São João da Barra, em 1676, e mais tarde a de Macaé, em 1814. São João da Barra foi instalada para ser o principal porto da região e seus estaleiros chegaram a fabricar e exportar navios para outras regiões. Já Macaé, antiga aldeia indígena, cresceu com a atividade portuária, servindo de conexão entre a Região Campista e a cidade do Rio de Janeiro. De acordo com Reis, 1997, (apud Faria 2006), os primórdios da colonização do Norte Fluminense estão ligados, historicamente, ao processo de urbanização de Campos dos Goytacazes, “a metrópole mais rica e populosa das submetidas ao Rio de Janeiro”. Ela exerce o papel de ponto estratégico para a ocupação e organização do espaço regional, tanto para o Norte da Província do Rio como para as aglomerações de Minas Gerais que utilizavam o seu porto, na foz do rio Paraíba do Sul, ou a estrada de Campos a Niterói, para transportar as mercadorias até a cidade do Rio de Janeiro. Os quatro municípios mais antigos - Campos dos Goytacazes, São João da Barra, Macaé e São Fidelis foram sendo desmembrados, dando origem aos outros municípios que formam o Norte e Noroeste Fluminense, conforme Tabela seguinte.
Tabela 2 - Criação dos Municípios por Desmembramento Município Campos dos Goytacazes São João da Barra Macaé São Fidelis Itaperuna Santo Antonio de Pádua Itaocara Cambuci Miracema Bom Jesus de Itabapoana Natividade de Carangola Porciúncula Conceição de Macabu Laje do Muriaé Italva Cardoso Moreira Quissamã Aperibé Varre Sai São José de Ubá Carapebus São Francisco do Itabapoana Ano de Implantação 1673 1676 1814 1850 1885 1889 1890 1891 1935 1938 1947 1947 1953 1963 1986 1989 1989 1993 1993 1995 1997 1997 Região Norte Norte Norte Norte Noroeste Noroeste Noroeste Noroeste Noroeste Noroeste Noroeste Noroeste Norte Noroeste Noroeste Norte Norte Noroeste Noroeste Noroeste Norte Norte

Fonte: Faria (2006) Neste resumo histórico desta tradicional Região Norte do Rio de Janeiro, cujo capítulo mais significativo é, sem dúvida alguma, a era do açúcar, uma vez que desde o início de sua ocupação, por volta de 1538, até os dias atuais, vem moldando a economia e a cultura local, determinando a sua estrutura social e a sua vida política.
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Muito recentemente, dois novos fatores foram acrescentados a esta história regional: a criação do pólo universitário, pontificando a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Darcy Ribeiro, em 1993; e a descoberta e exploração do petróleo na Bacia de Campos, pela Petrobras, em 1974. O tempo histórico, que exige uma prudente espera para oferecer informações consistentes, ainda é muito pequeno em ambos os casos, o que não permite tirar conclusões fundamentadas. De qualquer maneira é possível registrar que a grandeza dos impactos destes grandes eventos - um de natureza cultural, e outro de natureza econômica - começa a provocar uma transformação pontual na economia e na sociedade da Região, estabelecendo um interessante contraponto com a rigidez do tradicionalismo agroaçucareiro, que ainda não conseguiu compreender e aproveitar as oportunidades oferecidas por estes dois setores com dinâmicas inovadoras.

6.

O MAIS NOVO CAPÍTULO: A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO

Bacia de Campos, denominada assim pela sua proximidade com a cidade de Campos dos Goytacazes, se estende do Espírito Santo até Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro. Os primeiros trabalhos exploratórios feitos pela Petrobras, nesta bacia, ocorreram em terra, na década de 1950. A partir de 1970, a Petrobras já dominava a tecnologia para explorar o petróleo em águas marítimas e, no ano de 1974 foi perfurado o primeiro poço produtor de petróleo em molde comercial na Bacia de Campos. Em 25 de novembro de 1974, foi anunciada a descoberta de petróleo no litoral da cidade de Campos dos Goytacazes. Em 1979, após analisar a possibilidade de localizar suas instalações em várias outras cidades, desde Vitória (capital do estado do Espírito Santo) até Angra dos Reis (no litoral sul do estado do Rio de Janeiro), a Petrobras elegeu a cidade de Macaé, como base de operações das suas atividades de prospecção e de produção na recém-descoberta bacia petrolífera em águas continentais no Norte Fluminense. Assim, a Petrobras criou em Macaé uma grande base de operações (Imboassica), e o resultado auspicioso das pesquisas fez com que esta Região se transformasse na maior produtora de petróleo do Brasil na atualidade. Desde então, um novo ciclo econômico, baseado nos reflexos diretos e indiretos dos recursos advindos da exploração de petróleo, aconteceu na Região. A partir desta linha de ação da Petrobras, inúmeros outros empreendimentos ligados a cadeia petrolífera foram atraídos para a Região, principalmente para Macaé, particularmente no setor serviços, gerando emprego e renda (principalmente o pagamento dos royalties) para os municípios no Norte e Noroeste Fluminense. Isto trouxe e traz conseqüências positivas e negativas para todos, uma vez que os benefícios não se distribuem de maneira eqüitativa, conforme demonstram os vários estudos realizados sobre o complexo produtivo do petróleo da Região. (Veja Carvalho et all, 2006). O fato é que existe um processo de transformação em curso, que deve ser acompanhado e analisado com o passar do tempo: de uma Região agrícola tradicional para uma Região petro-rentista.

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7.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Pedro Paulo Biazzo de Castro. A Constituição de uma periferia em face da modernização: a produção de açúcar e álcool no Brasil e as transformações na região Norte Fluminense. In: MARAFON, Gláucio José; RIBEIRO, Miguel Ângelo (Org.). Revisitando o território fluminense. Rio de Janeiro: NEGEF, 2003, p. 111-148. CARVALHO, Ailton M. et ali (org.) Formação Histórica e Econômica do Norte Fluminense. Rio de Janeiro, Garamond, 2006. CRUZ, José Luis Vianna. Projetos nacionais, elites locais e regionalismo: desenvolvimento e dinâmica territorial no Norte Fluminense. 331 f. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional)-Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. FARIA, Teresa Peixoto. Gênese da rede urbana do Norte e Noroeste Fluminense, in Formação historica e Econômica do norte fluminense- Ailton Mota de Carvalho, Maria Eugenia Ferreira Totti (orgs.)- Rio de Janeiro: Garamond,2006, 328p. IBGE- Sinopse estatística do Municipio de Campos, Rio de Janeiro, 1948. LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o brejo. 2.ed. Rio de Janeiro: Lidador, 1974. PARANHOS, Paulo O Açucar no norte fluminense retirado www.historica.arquivoestado.sp.gov.br, em 07/12/2009.

de

REYS, Manoel Martins do Couto. Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reys, 1785. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1997. ROSENDO, Roberto C. Formação Econômica da Região Norte Fluminense. In: CARVALHO, Ailton M.(org.) Estrutura, dinâmica espacial e qualidade de vida da rede urbana das regiões norte e noroeste fluminense”. Rio de Janeiro, Faperj, 2002. SEBRAE. Projeto inventário de bens culturais imóveis- caminhos singulares do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.

Sites Consultados: www.pt.wikipedia.org www.sjb.rj.gov.br www.governo.rj.gov.br www.historica.arquivoestado.sp.gov.br

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Anexo

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ANEXO ANEXO I – BREVE HISTÓRICO DOS MUNICÍPIOS Região Noroeste Fluminense Aperibé O topônimo Aperibé vem de Ape Ribe, que em tupi-guarani significa Cachimbo Aceso. Para ser contada, a história de Aperibé deve ser iniciada ainda ao século XIX, quando era apenas uma região de propriedades rurais, longe das cidades e denominada Santo Antônio do Retiro. Os primeiros habitantes, índios Puris, foram substituídos por agricultores, que se estabeleceram na localidade de "Pito Aceso". Sentindo que a produção das lavouras crescia paralelamente com a densidade de sua população e não podendo mais suportar o pesado ônus que lhes acarretava os arcaicos processos de transportes, o carro de bois e a tropa de burros, únicos que se lhes colocavam à disposição, os fazendeiros desta região, para levar o produto ao maior e mais próximo empório comercial, que era, naquela época, a cidade de São Fidélis, associaram-se e deram início à realização do grande sonho, que era aproximálos por meio de um ramal férreo.
Mapa 1 – Região Noroeste Fluminense, Aperibé, Localização

Em 1876, iniciaram-se os estudos do traçado da ferrovia, sob a responsabilidade do engenheiro Dr. Vieira Braga. A extensão da linha férrea era 15 léguas e 469 metros, ou seja, 92 quilômetros e 469 metros, com a bitola de um metro, tendo no seu início na estação de "Luca" à margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, em São Fidélis. Oficialmente inaugurada em 10 de agosto de 1883, a estação denominada Chave do Faria, onde havia uma comutação para desvio dos trens, se transformou em um local de comércio, impulsionado pelas facilidades trazidas pela ferrovia. A iniciativa política de prestar justa homenagem aos verdadeiros donos das terras fez com que, em 2 de julho de 1890, o então governador
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Francisco Portela acolhesse, a pedidos, a elevação a distrito policial do povoado de Santo Antônio do Retiro, que, mais tarde, passou a ser denominado Aperibé. Tendo como ponto de referência a Serra da Bolívia, um maciço de cerca de 400 m. de altitude, às margens da mais importante bacia hidrográfica do Estado do Rio de Janeiro, tombada como Área de Preservação Ambiental (APA). Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aperib%C3%A9; acesso em 28/12/2009 http://www.aperibe.rj.gov.br/portal1/intro.asp?iIdMun=100133003; acesso em 28/12/2009 Bom Jesus do Itabapoana Itabapoana possui vários são os significados. Na língua indígena: Ita- significa pedra. Taba- significa aldeia. Poan – barulho das águas sobre as pedras. Itabapoana-pedra empinada da aldeia do barulho das águas. Por volta de 1842, chegou às terras onde hoje se acha localizada a cidade de Bom Jesus de Itabapoana, em busca de terrenos virgens adaptáveis aos tratos agrícolas, o mineiro Antônio José da Silva Nenem. Ele procedia de Bom Jesus da Vista Alegre, lugarejo de Minas Gerais, de onde trouxe, em sua companhia, a esposa, dois filhos e alguns empregados, desde logo se dedicando ao desbravamento do local, construindo moradia e fazendo plantações. Campo Alegre foi o primeiro nome dado à povoação nascente, em homenagem a Vista Alegre que, para trás, o pioneiro deixara. Mais tarde, como pelas proximidades passasse o Rio Itabapoana, foi mudada novamente, agora para Bom Jesus do Itabapoana, em recordação ao lugarejo de Minas, Bom Jesus da Vista Alegre, terra natal de Antônio José da Silva Nenem.
Mapa 2 – Região Noroeste Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, Localização

Com o decorrer dos anos, forte corrente imigratória para lá se dirigiu, constituída quase toda de conterrâneos dos primitivos povoadores. É ainda a tradição que nos dá notícia da ePlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 27

xistência de tribos indígenas em terras do atual território do Município, não propriamente no local onde hoje se encontra sua sede, mas a 15 quilômetros de distância, mais ou menos nas vertentes da Serra do Tardin. Essas tribos, segundo informes locais, subsistiram ali até meados de 1850. O elemento negro foi introduzido pelos que imigravam, atraídos pela perspectiva de explorar a terra fértil. O escravo, com o trabalho persistente e barato, representou papel primordial na evolução da agricultura e na economia local. Em 1853, com a Lei Imperial de nº 636, foi criada a Freguesia de Novas Senhoras da Natividade do Carangola, no dia 19 de março de 1856, ante a necessidade de um policiamento mais acentuado, o Conselheiro Luiz Antônio, Presidente da Província, resolveu criar uma sub-delegacia de polícia no novo Arraial do Bom Jesus. Em 1862, o arraial já apresentava grandes progressos. Muito importante, foi sem dúvida, o Decreto nº 1.261, de 14 de novembro de 1862, que estabeleceu: "Art.1º - O Arraial do Senhor Bom Jesus, na Freguesia de Nossa Senhora da Natividade, no município de Campos, fica com predicado de Freguesia com a inovação do "Senhor Bom Jesus do Itabapoana". Por força do Decreto nº 2.810, de 24 de novembro de 1885, Bom Jesus do Itabapoana passou à jurisdição do município de Itaperuna, criado nesta data e por este Decreto. Em 24 de novembro de 1890, já no período republicano, a freguesia foi elevada à categoria de Município, em virtude do progresso que em suas terras se observava, nessa época. O Decreto nº 150, desta data, rezava: "Fica criado o município de Bom Jesus do Itabapoana, com os atuais limites tendo por sede a povoação de Bom Jesus de Itabapoana, com a denominação de Vila de Itabapoana". Apenas dois anos vigoraram os termos deste Decreto, pois, em 8 de maio de 1892, um outro Decreto, de nº 1 foi lavrado, suprimindo os municípios de Itabapoana, Monte Verde e Natividade do Carangola. Data desse tempo a campanha de reivindicação encabeçada pelos elementos de maior influência na região. Entre os que mais se bateram por essa causa, são dignos de menção os nomes de Francisco Teixeira de Oliveira, João Catarino, Jerônimo Batista Tavares e Pedro Gonçalves da Silva. Finalmente, depois de uma luta política cheia de vigor, foi reconquistada a autonomia de Bom Jesus do Itabapoana, em virtude do Decreto nº 633, de 14 de novembro de 1938, tendo a instalação do município verificada à 1º de janeiro de 1939. Até hoje, o município de Bom Jesus de Itabapoana conserva quase todos os costumes e tradições dos seus antepassados, oriundos de Minas Gerais. Com a chegada da família Teixeira de Siqueira, procedente de Portugal, por volta do ano de 1780, marcava-se o início das festas do Divino Espírito Santo, em maio de 1863. A eles, deve-se a tradição da festa. Eles receberam das mãos da senhora Dona Felicíssima, em 1860, quando para cá vieram, as "Relíquias da Coroa e do Cetro do Divino Espírito Santo", chegadas de Portugal e conservadas, até aquela data, na casa da família, com autorização do Senhor Bispo de Mariana. Com as relíquias, receberam da Dona Felicíssima a recomendação de trazê-las para a Fazenda da Barra (Barra do Pirapetinga) e, logo que possível, entregá-las à Igreja do Arraial, para aqui continuarem as devoções tradicionais: "sejam propagadores da devoção ao Divino Espírito Santo, continuem com as orações, novenários, visitas às casas de famílias e a Oratórios". Obedecendo, os filhos trouxeram as relíquias para a fazenda do Comendador Antônio Teixeira Siqueira e continuaram religiosamente a cumprir a devoção, com procissões entre as fazendas. Em cada fazenda, era mantido pela família um oratório onde se realizavam devoções e quaisquer cerimônias religiosas. Um destes se conserva até hoje, com a família do Sr. Ernesto Lumbreiras. Anualmente, eram escolhidos os Provedores da Festa. Em 1863, estando o menino Pedro Teixeira Reis gravemente enfermo, seus pais, Joaquim Teixeira de Siqueira Reis e Dona Jovita Umbelina Teixeira (descendentes do casal Francisco e dona Felicíssima), prometeram ao Divino Espírito que, se o curasse, vesti-lo-iam a caráter como Imperador do Guarda da Coroa e do Ce28 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

tro. Conseguindo a cura do menino, a promessa foi cumprida, tendo o pai do menino, Joaquim Teixeira de Siqueira Reis, ido comprar a roupa na corte. Lá, adquiriu a febre amarela, que então grassava. Voltou para casa e ainda assistiu à Festa do Divino, mas foi a primeira vítima desta moléstia, na região. Iniciou-se, desde então, a tradição de um Imperador da Guarda da Coroa e do Cedro, que se perpetuou enquanto durou a tradição da Festa do Divino Espírito Santo, isto é, até 1955, quando Jamil Figueiral Ribeiro foi o Imperador. Sobre esta festa, disse o vigário de Bom Jesus: "A coroa e o cetro do Divino Espírito Santo constituem as relíquias mais antigas da história e da fé da nossa terra e da nossa gente. Ignorá-las significaria o desconhecimento da força da fé, representaria não ser fiel às origens e às verdadeiras tradições da nossa terra e sobretudo, não respeitar e não amar a nossa gente". Padre Paulo Pedro Seródio Garcia (descendente do casal Teixeira de Siqueira). Parte integrante da história de Bom Jesus é o Padre Antônio Francisco de Mello, que chegou em Bom Jesus do Itabapoana, procedente da Ilha de São Miguel, em Portugal, no ano de 1899. Aqui permaneceu por quase meio século, vindo a falecer no dia 13 de agosto de 1947, em plena festa. Grande conhecedor da língua pátria, dono de rara sensibilidade, deixou vários poemas que são sempre lembrados, especialmente o que de mais perto fala o coração do bonjesuense: "Morrer Sonhando". Entendendo de matemática e engenharia, foi também o remodelador da Igreja Matriz, erguendo uma de suas torres em 1931, conservada até nossos dias e tida como arrojado feito de engenharia. Fontes: http://www.bomjesus.rj.gov.br/portal1/dado_geral/mumain.asp?iIdMun=100133012; em 22/12/2009 http://pt.wikipedia.org/wiki/Bom_Jesus_do_Itabapoana; acesso em 22/12/2009 acesso

Cambuci O município de Cambuci teve as suas terras desbravadas no princípio do século XIX, aproximadamente no ano de 1810. Seu território municipal originou-se à partir da concessão de uma sesmaria doada à família Almeida Pereira, que abrangia toda a zona conhecida ainda hoje por seu nome primitivo de São Lourenço, situada no atual distrito de São João do Paraíso, antes conhecido como "Paraisinho". Outras duas localidades foram devassadas logo após a concessão da citada sesmaria, as quais receberam as denominações de São José de Ubá e Bom Jesus do Monte Verde. A comuna foi habitada pelos índios "Puris", originários da tribo dos Coroados, procedentes dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais. A presença do elemento negro escravizado, contribuiu sobremaneira desenvolvimento econômico do local, principalmente no setor agrícola. para o

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Mapa 3 – Região Noroeste Fluminense, Cambuci, Localização

No dia 4 de novembro de 1861, em virtude do progresso verificado no Curato (povoação pastoreada por um vigário) do Senhor Bom Jesus do Monte Verde, o governo lançou o Decreto Estadual nº 1203, cujo texto assim diz: "O Curato do Bom Jesus do Monte Verde fica elevado a categoria de freguesia - com os limites eclesiásticos que ora tem, excluída a vertente do Rio Paraíba, compreendida entre as fazendas do Francisco Cruz e Prudêncio José da Silva, seguindo pelo Valão do Padre Antônio até a fazenda Joaquim Alves, a qual vertente passará a incorporar-se ao território da freguesia de São José de Leonissa, e a nossa freqüência pertencerá ao município de São Fidelis". Passado um ano, por deliberação de 21 de março de 1862, foi criado neste mesmo local o distrito de paz, cujos limites eram os mesmos da freguesia. No período compreendido entre os anos de 1880 e 1890, tiveram início os primeiros movimentos pela criação do futuro município, com intensa campanha, tendo logrado êxito em virtude da edição do Decreto nº 222, de 6 de maio de 1891, que o denominou de município de "Monte Verde", com sua sede localizada no Distrito, também chamado Monte Verde. Este mesmo decreto desmembra o distrito de Cambuci, que pertence à comarca de São Fidelis, integrando-o ao recém criado município de "Monte Verde". Por força da Lei 231, de 13 de dezembro de 1895, transferiu-se a sede do então município de Monte Verde para a atual localidade de Cambuci. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cambuci; acesso em 27/12/2009; http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Cambuci&uf=RJ& tipo=informacoes, acesso em 27/12/2009; http://www.governo.rj.gov.br/municipal.asp?M=60~, acesso em 27/12/2009; http://www.cidadedorio.com.br/lista.php?ciitId=942, acesso em 27/12/2009;

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Italva Primitivamente, a região era habitada por tupis-guaranis, puris e goitacases. No século XIX passou a ser ocupada por latifundiários, que habitavam grandes extensões. Por volta de 1850, não haviam vilas nem povoados e o acesso à região era feita pelo Rio Muriaé. Entretanto, na altura de Cardoso Moreira, o rio era cheio de corredeiras e cachoeiras.
Mapa 4 – Região Noroeste Fluminense, Italva, Localização

Em 1873, foi criado o distrito de de Santo Antônio das Cachoeiras de Muriaé, em alusão às cachoeiras, pela lei provincial nº 1937, de 6 de novembro de 1873 e deliberação estaduais de 25 de outubro de 1890 e de 10 de agosto de 1891, bem como pelos decretos estaduais nºs 1 de 8 de maio de 1892 e 1-A, de 3 de junho de 1892, subordinado ao município de Campos dos Goytacazes. O nome do distrito, em 1911, passa a Cachoeiras. Posteriormente, assume a denominação de Monção, seguida de Purus e, até 9 de outubro de 1944, quando passa a chamar-se Italva. O distrito foi elevado a categoria de município com a denominação de Italva, pela lei estadual nº 681, de 11 de novembro de 1983, desmembrado de Campos. Fontes: http://www.panoramio.com/photo/4955813, acesso em 02/01/2010 http://www.estacoesferroviarias.com.br/efl_ramais_2/itaiva.htm, acesso em 02/01/2010

Itaocara O topônimo deriva do tupi: "ita" (pedra) e "ocara" (pedra), onde oca é a casa, ara - lugar, ou casa de pedra. Devido à luta entre os índios coroados e puris, os religiosos capuchinhos que colonizavam São Fidélis, sentiram necessidade de criar no local das divergências uma nova aldeia, que acolhendo uma das tribos, separasse os litigantes.

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Mapa 5 – Região Noroeste Fluminense, Itaocara, Localização

Em 1809, Frei Tomás, da cidade de Castelo, chegou às terras escolhidas para a fundação da nova Aldeia, que denominou São José de Dão Marcos, em homenagem ao referido Vice-Rei. O nome escolhido não criou raízes no pensamento dos habitantes, que preferiram designar o local de aldeia da pedra, em referência ao penhasco que lhe ficava fronteiro, na margem oposta do Rio Paraíba do Sul. Fontes: http://www.itaocararj.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=85:historia-deitaocara&catid=41:nossa-cidade&Itemid=56; acesso em 27/12/2009 Itaperuana A origem do nome "Itaperuna" vem das tribos indígenas tupi-guarani, que habitavam a região e significa "caminho da pedra preta" (ita = pedra + per = caminho + una = preta). A região de Itaperuna foi desbravada por José de Lannes Dantas Brandão, a partir de 1829, após a sua deserção da milícia do Exército. Ao chegar nessa região, em 1834, se estabeleceu num lugar que foi denominado Porto Alegre. Pelos serviços de colonização prestados à Coroa, com o advento da economia cafeeira foi perdoado, tendo sido morto por seus escravos, em 1852. Em 24 de novembro de 1885, por decreto de nº 2.810, eleva a freguesia de Nossa Senhora da Natividade de Carangola (um dos primeiros nomes da cidade) à categoria de Vila de Itaperuna, levando esse nome por ser passagem para se chegar a Pedra do Elefante, localizada em Carangola, Estado de Minas Gerais. Em 1887, foi criada a freguesia de São José do Avaí, nome em homenagem às Armas Brasileiras na Guerra do Paraguai. Foram doados 15 alqueires de terra para patrimônio dessa Vila pelo sr. Jayme Porto e Senhora. Em 10 de maio de 1889, foi feita a primeira eleição para a Câmara dos Vereadores, sendo a vitória dos Republicanos, que tomaram posse no dia 4 de julho do mesmo ano, sendo
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portanto a primeira Câmara republicana do país, em pleno regime monárquico, regime esse que viria a ser desbancado pelo Marechal Deodoro. Em 6 de dezembro de 1889 foi a vila de São José do Avaí transformada em município de Itaperuna, sendo criada a sua respectiva Comarca.
Mapa 6 – Região Noroeste Fluminense, Itaperuna, Localização

A cultura cafeeira foi um grande destaque na economia da cidade por mais de quatro décadas, tornando-a em 1927 a maior produtora nacional. Do território original do município de Itaperuna foram desmembrados: Bom Jesus do Itabapoana, em 1938, Natividade e Porciúncula, em 1947, e Laje do Muriaé, em 1962, ficando Itaperuna com seu atual contorno. Fontes: http://blogdamegasena.wordpress.com/2008/03/22/cidade-da-sorte-itaperuna-rj/; acesso em: 02/01/2010 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Itaperuna&uf=RJ &tipo=informacoes; acesso em: 02/01/2010 Laje do Muriaé Sobre a origem do nome, Laje do Muriaé, existem duas versões: • "Era no tempo ainda dos bandeirantes. A povoação vinha recebendo aos poucos os seus novos habitantes, no rio Muriaé, na altura onde se acha hoje o casario da vila, existe uma laje de pedra no rio, da qual se avizinhavam os primeiros povoadores do lugar, servindo de ponto de referência aos encontros. Daí era frequente eles disseram: "Vamos encontrar na laje"; "vamos até a laje"; "fulano está na laje". O lugar ia crescendo e as rePlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 33

ferências a "laje" iam sendo repetidas. Por isso, o nome da atual vila de Laje do Muriaé teve origem na laje de pedra do rio. • Afirma-se que índios puris (primitivos habitantes) pertenciam à raça Lagide (Laje), e que eram oriundos dos GÊS, cujo grupo pertencia aos Goitacases e aos Coroados. Assim sendo, o nome de Laje veio da classificação dos puris (Lágides) e não, de uma pedra (laje), existente no rio.

Fundada em 1832 pelos três Josés: José Ferreira Cezar, José Bastos Pinto e José Garcia Pereira – parentes de Constantino Pinto, protetor dos índios Puris, de São Paulo do Muriaé. Partiram de Muriaé, rio abaixo, em busca de ouro e pesca, e encontraram uma laje que quase estrangulava o rio. Pararam nessa laje, a fim de prepararem a primeira refeição do dia. Seguiram, depois abaixo, para o local em que José Ferreira Cezar pretendia fundar a primeira fazenda, “O Angola”. Em chegando ao sítio indicado e ao disporem os trens da cozinha, em condição de efetuarem a refeição segunda do dia, deram falta de um determinado utensílio, procuraram que procuraram, até que alguém se lembrou que determinada peça tinha ficado na laje (...) e esse acidente topográfico passou a dar o nome a toda região. Algum tempo depois, José Ferreira Cezar abriu mão das terras do Angola, partindo para as nascentes do Ribeirão do Campo, quando achou as barras de cinco córregos, local esse ideal para a fundação da sua fazenda, que passou a se chamar “Fazenda das 5 Barras”. Por seu turno, José Garcia Pereira, fundava a “Fazenda do Tanque”, a qual recebia tal nome por ter ele feito barrar o Ribeirão da Serra, dando origem ao açude que recebeu aquele nome: “Tanque”. Em 1840, teve origem o estabelecimento do ciclo do café. Isto é, o café invadiu o NorteFluminense, descendo de Minas e entrando pelo Poço Fundo. São estas as palavras do Visconde de Taunay: “Por 1840, já o café se havia até mesmo em municípios da Zona da Mata, que ficam mais para o interior”. A Laje permanecia, então, nesta Zona, isto é, a Zona da Mata descia o Rio Muriaé até a Serra de São Domingos, a qual servia de limite “entre as terras altas de Minas e as terras baixas da Baixada Campista”. Pertencendo a Baixada Campista, Laje foi politicamente anexada a São Fidelis de Sigmaringa, à qual pertenceu até 1872, quando passou a Santo Antonio de Pádua. Desligou-se de Pádua em 1887, para filiar-se a São José de Avaí, que passou a ser, então, Itaperuna. Desmembrada de Itaperuna em 7 de março de 1962, pela Lei 5045, para constituir-se no atual Município.

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Mapa 7 – Região Noroeste Fluminense, Laje do Muriaé, Localização

Fontes: http://www.pmlajedomuriae.com.br/index.php?exibir=secoes&ID=52 , acesso em: 28/12/2009 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=LajedoMuriaé&u f=RJ&tipo =turismo; acesso em 28/12/2009

Miracema A colonização do território do município de Miracema é atribuída aos esforços de D. Ermelinda Rodrigues Pereira, primitiva proprietária das terras que constituem o distrito sede. Segundo a tradição, por volta de 1846, a referida senhora mandou erigir, no local onde atualmente existe a praça que tem o seu nome, uma capela dedicada ao culto de Santo Antônio. Era intenção de D. Ermelinda transformar suas propriedades em bens de uma paróquia, que pretendia entregar, mais tarde, a um de seus filhos, de nome Manoel, que concluíra seus estudos no seminário de Mariana, Minas Gerais. Prosseguindo com seu intento, a referida senhora doou 25 alqueires de terra, dos 2.000 que possuía, para a formação da futura freguesia de Santo Antônio, posteriormente, Santo Antônio dos Brotos. Deve-se a mudança de nome ao fato de um dos sólidos esteios da capela construída por D. Ermelinda ter brotado, fato que a crendice popular atribuiu a um milagre, acrescentando ao nome do padroeiro Santo Antônio, a designação de “dos Brotos”.

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Mapa 8 – Região Noroeste Fluminense, Miracema, Localização

O crescimento da povoação motivou em 26 de Janeiro de 1880, a criação do Distrito Policial de Santo Antônio dos Brotos. Em 9 de setembro de 1881, foi criado o Distrito de Paz e, em 13 de abril de 1883, atendendo à solicitação da comunidade, através da Câmara de Pádua, o governo provincial resolveu mudar a denominação de Santo Antônio dos Brotos para o de Miracema, que, no idioma tupi guarani significa ybira – pau, madeira e cema – brotar e, em se tratando de eufonia da palavra, sugeriu o Dr. Francisco Antunes Ferreira da Luz que se trocasse o Y por M. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Miracema; acesso em 28/12/2009 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Miracema&uf=RJ; acesso em 28/12/2009

Natividade Sua história acha-se vinculada à de Itaperuna, com origem na penetração do desbravador José Lanes Brandão na área, por volta de 1831, que desencadeou o fluxo migratório para a região. Em decorrência, em 1853, foi criada a freguesia de Nossa Senhora de Natividade do Carangola e, a partir do final do século XIX, com o advento da ferrovia, sua colonização se processou de forma rápida e contínua. A freguesia chegou a tornar-se vila e sede do município de Itaperuna, em 1885. Logo depois, contudo, perde sua hegemonia, passando por período de modificações administrativas. Em 1947, foi promulgado o desmembramento de Itaperuna, dos distritos de Natividade do Carangola, Varre-Sai e Ourânia, a fim de constituírem o novo município de Natividade do Carangola. Enquanto essas modificações se processavam, as lavouras existentes na região floresciam, permitindo aos seus proprietários usu36 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

fruírem lucros fabulosos em grande parte devidos ao trabalho escravo. Com o advento da lei abolicionista, em 1888, esta situação de prosperidade sofreu um sério abalo de que, durante longo tempo, se ressentiu a economia da localidade. Mais recentemente, registra-se a alteração do nome para Natividade e o desmembramento do distrito de Varre-Sai.
Mapa 9 – Região Noroeste Fluminense, Natividade, Localização

A cidade desenvolveu-se isoladamente, junto às margens do Rio Carangola e em vasta zona montanhosa e fragmentada, tornando-se importante centro ferroviário para embarque da produção cafeeira da Região. O café aproveitou antigos solos da mata e as condições climáticas favoráveis. A partir da década de cinquenta, a decadência da lavoura do café teve como consequência à estagnação da dinâmica urbana. Desta maneira, Natividade dedicou-se, no decorrer do século XX, cada vez mais à pecuária, deixando o café, de ser a cultura mais importante na cidade. A agricultura passou a ser dirigida para o arroz, milho e feijão. Fonte: http:// www.cide.rj.gov.br/cidinho, acesso 12/12/2009 Porciúncula O topônimo deriva de homenagem feita ao então presidente da província fluminense - Dr. José Thomas de Porciúncula. O Vale do Carangola foi habitado inicialmente pelos índios puris. Depois de grandes enfrentamentos durante os séculos XVI e XVII com os tamoios e portugueses, membros da tribo começaram a migrar em levas que penetraram o Noroeste Fluminense a procura de novas áreas de habitação nas suas densas florestas. Bandeirantes, entretanto, já percorriam os rios Carangola e Muriaé no início do século XIX, rios cujas nascentes são localizadas em Minas Gerais e que atravessam a Região Noroeste do estado do Rio de Janeiro, banhando suas principais cidades. Tem-se como certo que o seu desbravamento verificou-se entre os
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anos de 1821 e 1831, cabendo o mérito de tal realização a José Lannes (ou de Lana) Dantas Brandão, que alguns historiadores dizem ter sido um sargento da Milícia de D. João I e outros consideram como um desertor das fileiras de uma tropa policial de Ponte Nova, Minas Gerais. Segundo a primeira das versões, procedente de Minas Gerais, seu torrão natal, José Lannes, por volta de 1820, teria chegado à cidade do Rio de Janeiro acompanhado de uma tropa carregada de mercadorias originárias da fazenda que seu progenitor possuía naquela Província.
Mapa 10 – Região Noroeste Fluminense, Porciúncula, Localização

Rezam as crônicas que, desde menino, José Lannes manifestava vivo interesse pela carreira das armas e que chegando à Metrópole, pode concretizar seus ideais alistando-se na Milícia de D. João VI, por atos de bravura, ascendeu, rapidamente, ao posto de sargento. Apesar de tão rápido êxito, as ambições militares do jovem sargento estavam fadadas ao insucesso. Proveniente de Portugal chegara, logo após a promoção na Milícia, um alferes que atendia pelo nome de Manoel de Souza, designado, também, para servir na tropa a que José Lannes pertencia. Certo dia, estando essa tropa aquartelada em Niterói, verificou-se entre o alferes português e o sargento brasileiro um incidente cujas consequências vieram ligar o nome de Lannes Brandão à história de três dos atuais municípios fluminenses. Incumbido pelo oficial lusitano de levar cartas e presentes para sua namorada, José Lannes recusou, revoltado, essa incumbência; o que provocou no oficial um arrebatamento colérico. Erguendo o rebenque que trazia nas mãos tentou o oficial fustigar com ele a face do sargento só não conseguindo realizar seu intento, devido à destreza com que o inferior se esquivou. Perdendo o controle, ferido profundamente em seu brio, José Lannes arrebatou o chicote do superior e vibrou-o em plena face do oficial, que acovardado, se refugiou, no quartel da corporação. Voltando a si, compreendeu José Lannes a gravidade da situação melindrosa em que se vira envolvido e temeroso das consequências, sem dúvida alguma funestas que forçosamente adviriam de seu gesto, resolveu desertar imediatamente.
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Contornando o litoral fluminense chegou ele às margens do rio Paraíba, cujo curso subiu até o local onde as águas desse rio se juntam com as do rio Muriaé. Abandonando então, o Paraíba, subiu pelo Muriaé até a primeira morada dos índios puris, na hoje, Fazenda da Conceição. Depois de um breve descanso nesse local, José Lannes prosseguiu viagem, já agora servido por uma escolta dos índios puris, por ter caído nas boas graças dos chefes aborígenes. Chegando ao rio Carangola, enveredou-se por ele atingindo a cachoeira de Tombos, de onde retornou pelo caminho percorrido na ida assinalando, então na sua passagem, os locais de Porciúncula e Natividade. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Porci%C3%BAncula; acesso em 18/12/2009 http://culturaporciuncula.org/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=18&Item id=56; acesso em 18/12/2009 http://www.porciuncula.rj.gov.br/ ; acesso em 17/12/2009

Santo Antônio de Pádua A cidade foi fundada pelo frade Florido di Città di Castello no dia 26 de janeiro de 1833. Quem consolidou sua fundação foi frei Bento Giovanni Benedetta Libilla, conhecido como "Bento de Gênova". Frei Florido desejava aldear e catequizar os índios puris, habitantes dessa região. Os fazendeiros João Francisco Pinheiro, sua mulher, Maria Luísa, e João Luís Marinho doaram terras para o frei realizar seu intento. Eles deram liberdade a frei Florido de escolher o local que desejasse, e ele escolheu as terras ao lado da Cachoeira, à margem esquerda do rio da Pomba, como era então chamado o rio Pomba, e que essas terras mediam cerca de cento e sessenta braças, ou 352 metros lineares. Frei Florido construiu a capela, com mão de obra indígena, sobre uma pequena elevação que havia onde hoje é a praça Visconde Figueira. A pedido do doador, o frade consagrou a capela a São Félix e o arraial que ali se formou, denominou-se Arraial da Cachoeira, passando depois a Arraial de São Félix. No final da década de 1830 ou princípio da década de 1840, "Bento de Gênova", como assinava, construiu uma igreja fora das terras de frei Florido, na atual praça Pereira Lima, consagrando-a a Santo Antônio de Pádua, o nome do Curato. Aos poucos, por causa da igreja, os moradores passaram a chamar a localidade de Santo Antônio de Pádua, que ficou sendo o nome definitivo do arraial, passando à vila e, depois, à cidade de Santo Antônio de Pádua. Em 1º de junho de 1843, a lei nº.296 elevou o curato à categoria de freguesia (paróquia), com o nome de Santo Antônio de Pádua: frei Bento de Gênova foi o seu primeiro vigário. O documento mais antigo de que se tem notícia na história de Santo Antônio de Pádua é a escritura, passada em cartório, da doação das terras a frei Florido citada no começo desta seção, para fazer a divisa "de valão a valão", entre o valão que corre da rua Nilo Peçanha, antiga rua da Chácara e outro, o valão do Botelho, que havia na saída para Miracema.

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Mapa 11 – Região Noroeste Fluminense, Santo Antônio de Pádua, Localização

Quando estava prestes a ser lavrada a escritura, outro fazendeiro, João Luis Marinho, que tinha suas terras limítrofes a essas, deu, a pedido de frei Florido, outra igual porção de terra, isto é, mais 160 braças, portanto, totalizando 704 metros lineares de terra margeando o rio. As terras eram para frei Florido fazer, ali, sua moradia e assim a divisa ficar "de valão a valão", no local onde, em 1850, 17 anos depois, foi construído o sobrado no qual moravam os párocos, os padres da paróquia de Santo Antônio de Pádua, denominado, mais tarde, "Sobrado do Padre Domingos", por ter esse sacerdote morado nele durante 26 anos, denominação essa que perdurou durante longo tempo. O prédio ainda existe, situado à rua Dr. Ferreira da Luz, antiga rua de Cima, ex-residência da família de José Ferreira. Diante do progresso, principalmente no setor agrícola, não foi possível conter a sua emancipação do então município de São Fidélis, que finalmente aconteceu a 2 de janeiro de 1882, pelo decreto número 2.597. As exigências finais para a instalação da vila foram cumpridas em 6 de setembro do mesmo ano, quando o Visconde de Silva Figueira depositou, na tesouraria provincial, a quantia necessária para a construção da Casa da Câmara e da Cadeia Pública. Então, finalmente foi instalada a vila a 26 de fevereiro de 1883. Sua história é marcada pela mistura de raças: portugueses, italianos, sírio-libaneses, espanhóis e africanos. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Ant%C3%B4nio_de_P%C3%A1dua_(Rio_de_Janeiro); acesso em: 28/12/2009 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Santo Antônio de Pádua&uf= RJ &tipo=dados+gerais; acesso em: 28/12/2009 http://www.santoantoniodepadua.rj.gov.br/index.php; acesso em: 28/12/2009

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São José de Ubá No final do século XIX, São José de Ubá era conhecida como Rancho dos Ubás, pois abrigava os tropeiros, vindos, na maioria, de Minas Gerais. Um dos antigos proprietários desta terra foi o Sr. José Bastos Neto (Juca Neto), que posteriormente, doou partes destas terras a São José (padroeiro de pequena capela nesta localidade). Daí, originar-se o nome de São José de Ubá. O distrito de São José de Ubá foi criado pelos Decretos Estaduais n.º 01 de 08 de maio e I A de 03 de junho de 1892. Pelo Decreto n.º 641, de 15 de dezembro de 1938 passou a denominar-se Juca Neto. Mais tarde, por efeito do decreto-lei estadual n.º 1056, de 31 de novembro de 1943, retorna a primitiva denominação de São José de Ubá.
Mapa 12 – Região Noroeste Fluminense, Santo José de Ubá, Localização

Em 1º de novembro de 1993, o projeto de criação do município de São José de Ubá foi aprovado com unanimidade na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, em 2 de novembro de 1995, através de uma votação bastante expressiva (99,43%) a população de São José de Ubá diz seu sim á emancipação. O seu desenvolvimento, até 1960, se fez graças ao cultivo do café, cana-de-açúcar, feijão, algodão e milho. Em 1960, iniciou-se o plantio de tomate, produto este, que mudou a história econômica da cidade, sendo hoje, o segundo maior produtor de tomate do Rio de Janeiro. Fontes: http://www.saojosedeuba.rj.gov.br/index.php; acesso em 28/12/2009 http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Jos%C3%A9_de_Ub%C3%A1; acesso em 28/12/2009 http://www.governo.rj.gov.br/municipal.asp?M=69; acesso em: 28/12/2009
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Varre-Sai O surgimento, propriamente dito, do local aconteceu em 1848, quando um fazendeiro chamado Felicíssimo Faria Salgado comprou terras na região. Dessas terras, uma área foi doada à igreja católica. Em 1920, foi construída a atual igreja de São Sebastião, hoje um dos pontos turísticos mais belos do município. Durante muito tempo, Varre-Sai foi distrito de Natividade. Graças a um movimento que mobilizou toda a população, foi conquistada, em 1991, sua independência política e administrativa. Começava um novo ciclo na história da centenária localidade, que dava os primeiros passos por si só.
Mapa 13 – Região Noroeste Fluminense, Varre-Sai, Localização

A história conta que o local era visitado por muitos tropeiros, que costumavam pernoitar em um velho rancho. Na porta, escrito a carvão, um aviso: Varre e Sai. Todos que por ali passavam deveriam varrer o local antes de seguir seu caminho. Eles não pagavam nada pela estadia, em troca conservavam o lugar limpo. Assim começou a história de Varre-Sai. Fontes: http://www.varresai.rj.cnm.org.br/portal1/municipio/historia.asp?iIdMun=100133090;acesso em 28/12/2009 http://estadodoriodejaneiro.com.br/artigo.php?ciitId=4074; acesso em 28/12/2009 http://pt.wikipedia.org/wiki/Varre-Sai; acesso em 28/12/2009

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Região Norte Fluminense Campos dos Goytacazes O nome da cidade advém dos índios goytacazes habitavam a região dos campos que constituem a chamada “baixada campista”. Essas terras dos índios goytacazes ou goitacás começaram a ser colonizadas pelos portugueses em 1627, com a chegada dos "Sete Capitães". Pertenceram à capitania de São Tomé e se tornaram, cinqüenta anos depois (1676), no dia 29 de maio, a Vila de São Salvador dos Campos. Foi elevada à categoria de Cidade em 28 de março de 1835, com o nome Campos dos Goytacazes. Posteriormente, a região progrediu com a cultura da cana-de-açúcar, desde 1652, que se expandiu pelos aluviões, entre o Rio Paraíba do Sul e a Lagoa Feia. No século XVIII, a economia local girava exclusivamente em torno de atividades rurais.
Mapa 14 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Localização

Alguns importantes fatos históricos se deram em Campos dos Goitacazes, entre eles figura a partida dos primeiros voluntários para a Guerra do Paraguai, em 28 de janeiro do 1865, pelo vapor "Ceres". Outro momento importante foi o movimento do abolicionismo, que teve seu ponto alto em 17 de julho de 1881, com a fundação da Sociedade Campista Emancipadora, que propagava a luta pela emancipação dos negros. O jornalista Luís Carlos de Lacerda e José Carlos do Patrocínio, cognominado de o "Tigre da Abolição" foram os maiores expoentes da causa. Porém, foi a última cidade brasileira a aderir a abolição da escravidão. As visitas do imperador Dom Pedro II constiuem outro marco da história de Campos.
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Fontes: http://www.cide.rj.gov.br/cidinho; acesso em 20/12/2009 Inepac e Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes Carapebus Seu nome se originou pela existência do peixe carapeba em grande quantidade na lagoa do Município. O final “us” é o quantitativo da língua dos indígenas Goytacazes, que quer dizer “boas” ou “bom”. Os primeiros habitantes deste Município foram os índios Goytacazes. Sua colonização iniciou-se, em 1627, quando a coroa concedeu suas terras a militares portugueses que lutaram na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, os denominados Sete Capitães.
Mapa 15 – Região Norte Fluminense, Carapebus, Localização

No século XVIII, a maior partes de suas terras pertenciam ao Capitão Francisco José que se dedicava a agropecuária. No final deste século, o capitão vende parte das terras a Caetano Peres que funda a Fazenda São Domingos e ergue uma Igreja consagrada a Nossa Senhora da Conceição, formando-se então um povoado, subordinado a Macaé, que se destacou pela agricultura canavieira com a produção açucareira movimentando a economia local. Em 1831 foi elevado a Distrito e em 1995, a Município, desmembrando-se de Macaé. Fonte: http://www.carapebus.rj.gov.br/site/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1; acesso em 2/01/2010
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Cardoso Moreira Em homenagem ao Comendador José Cardoso Moreira, nasceu o seu topônimo. Consta que na margem direita do rio Muriaé, freis franciscanos de nomes Paulo e Jacques fundaram um agrupamento indígena por volta de 1672. Nessa região habitavam os índios Puris, remanescentes da nação Goitacá que havia sido duramente perseguida pelos portugueses e índios tamoios que haviam escapado em migrações sucessivas através do rio Muriaé. Em virtude de epidemia de febre o aldeamento foi praticamente dizimado e os seus habitantes se espalharam pelo leste dessa região. Registra-se, num segundo momento, em fins de 1700, que mais de 20 engenhos já tinham se instalado em Cardoso Moreira para moagem e beneficiamento de açúcar e aguardente. Seu nome na época era Cachoeiras do Muriaé já que a cidade se localiza na altura da primeira cachoeira do rio Muriaé que corta o Município de ponta a ponta. Desse período até 1989, Cardoso Moreira pertenceu - como distrito - a Campos dos Goytacazes, o grande centro de plantação da cana de açúcar, a partir do século XVII.
Mapa 16 – Região Norte Fluminense, Cardoso Moreira, Localização

Em Cardoso Moreira as fazendas mais importantes eram: Outeiro, da família Peixoto, Santana, dos Saturnino Braga, Santa Rosa, de Paulo Viana, Pau Brasil, dos Ribeiro da Rocha, São José, do Barão da Lagoa Dourada, Santa Helena, do Comendador Cardoso Moreira e Cachoeiras do Muriaé, pertencente ao Comendador Antônio José Ferreira Martins. Essas fazendas tiveram seu apogeu por volta de 1870 algumas enormes e com solares ricamente construídos. Todos esses fazendeiros necessitavam escoar sua produção e se organizaram para construir um ramal da estrada de ferro até Carangola, em Minas Gerais. Mais tarde a idéia passou a ser conectar esta linha com as estações construídas pela Leopoldina Railways de onde iriam até o Porto do Rio de Janeiro.
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O escoamento havia sido feito e ainda se fazia por barco através dos rios Paraíba e Muriaé. Haviam trapiches localizados ao longo dos rios onde muitas tropas de animais de carga traziam seus produtos de Minas Gerais. Houve até uma companhia a União Campista Fidelense que construiu barcos a vapor para o transportes dessas mercadorias. As embarcações tinham o nome de Muriaé, Cachoeiro e União. O Comendador Cardoso Moreira, fazendeiro que havia feito grandes investimentos em suas fazendas e - como era comum na época - contribuído com obras que beneficiaram a cidade - tornou-se grande acionista da Estrada de Ferro. Todos os fazendeiros acabavam por assumir obras que teriam normalmente de terem sido executadas pelo governo, como construção de estradas, das Câmaras Municipais (que funcionavam como prefeituras), hospitais para seus empregados dentro das fazendas, que acabavam servindo ao pessoal local, melhorias das vias públicas da área urbana, instalação de jardins e praças ao redor de suas casas na cidade e que acabavam por beneficiar o cidadão local, etc. Devido, provavelmente, ao volume de investimentos do Comendador, seu nome foi dado à estação local que mais tarde se transformou no nome do município. D. Pedro II e a princesa Izabel compareceram no dia 29 de Novembro de 1878 para a inauguração da estação. D. Pedro II acompanhava de perto a construção das estradas de ferro e sua presença prestigiava essas iniciativas. Havia grande colaboração entre o Império e esses fazendeiros já que o volume das exportações desses produtos primários como o café e o açúcar e o desenvolvimento do Brasil estavam intimamente ligados. Enquanto distrito, sua sede ficava em um lugar chamado Taquarussu, depois denominado Trapiche. Esse lugar Trapiche ficava perto dos 500 Réis, um pequeno local junto ao rio onde existiam umas pedrinhas chatas e redondas que pareciam com essa moeda. Nesse período supõe-se que o centro administrativo, para resolver os assuntos da cidade seria em Campos, mas o dia-a-dia ocorria à beira do rio. A comunicação entre os dois lados do rio se fazia através de barcas. Em 1920 o Coronel Antônio Salgueiro Júnior adquiriu uma propriedade entre a estrada de ferro e o rio Muriaé e organizou um loteamento. Do outro lado do rio no local denominado Cachoeiro, foi Vicente Maiolino que iniciou o desenvolvimento desse pequeno povoado. Para organizar o loteamento o Coronel Salgueiro trouxe um engenheiro do Rio de Janeiro. Ainda se percebe hoje o traçado técnico e suas ruas largas e bem dimensionadas. Em 1943, passou de Vila a Distrito, contando em 1949, com 1.450 propriedades rurais. Produzia café, arroz e milho possuindo maquinário moderno na época para seu beneficiamento. Até 1947, quando foi construída a ponte Dr. Salo Brand, a travessia era feita por barco. Sua emancipação deu-se em 30 de Novembro de 1989. Fontes: http://www.ferias.tur.br/fotos/6886/cardoso-moreira-rj.html; acesso em 29/12/2009 http://www.cardosomoreira.com/index.php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=1; acesso em 29/12/2009

Conceição de Macabu Há duas versões para o seu nome: • Conceição deriva de Nossa Senhora da Conceição, cuja nomenclatura original era Nossa Senhora da Conceição do Rio Macabu. Essa nomenclatura surgiu oficialmente em 6 de outubro de 1855, quando Conceição de Macabu foi elevado a categoria de freguesia, com o nome de freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Macabu.
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• Macabu tem origem controversa, podendo ser a corruptela da palavra indígena mak'a'bium, que designava uma palmeira de frutos doces, hoje conhecida como macaubeira; ou, como é mais provável, devido a suas fontes documentais, ter sido um apelido que os Sete Capitães deram ao rio Macabu, quando o encontraram em 7 de janeiro de 1634. Originalmente habitado por tribos indígenas nômades como sacurus, coroados e goitacás, o município foi parte da Capitania de São Tomé até ser doado em sesmaria para os Sete Capitães. Com o fracasso da sesmaria, a região foi dividida, cabendo as terras do município aos padres jesuítas, que a partir da Freguesia de Nossa Senhora das Neves e Santa Rita., exploraram o interior catequizando e aldeando os índios sacurus, habitantes do vale do rio Macabu, no vizinho vale do rio Macaé.
Mapa 17 – Região Norte Fluminense, Conceição de Macabu, Localização

Em 1759, os jesuítas são expulsos. Nos anos seguintes os desprotegidos indígenas retornam ao vale do Macabu formando os primeiros povoados, que logo foram tomados pelo cultivo do café. O início das grandes plantações traz grande quantidade de escravos africanos. A região de Macabu composta por serras cobertas de florestas foi local de refúgio de escravos fugitivos que formaram o Quilombo de Cruz Sena e Quilombo do Carucango, o maior que existiu na região. No século XIX, portos fluviais, a estrada Macaé-Cantagalo e o ramal ferroviário oriundo de Conde de Araruama (Quissamã) tornam-se vias de acesso à região contribuindo para o seu povoamento, crescimento econômico e evolução política: freguesia em 1855 e primeira emancipação em 1891-1892. Durante esta época de grande crescimento econômico, ocorreu o caso da Fera de Macabu, uma história de crime erros judiciários a partir do qual se iniciou o fim da pena de morte no Brasil. Em 1907, surge em Conceição de Macabu a primeira colônia de japoneses do Brasil, liderada por Saburo Kumabe, um ano antes da data oficial de início da imigração japonesa
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com a chegada do navio Kasato Maru. Infelizmente a colônia fracassou depois de 5 anos por diversos motivos. A primeira metade do século XX foi marcado por grande progresso, marcado pela fundação da Usina Victor Sence e da fazenda Modelo Venceslau Bello (Rego Barros). Este teve reflexos políticos e Conceição de Macabu, quinto distrito de Macaé, uniu-se ao 10º distrito, Macabuzinho, originando um novo município, Conceição de Macabu em 15 de março de 1952. O processo de emancipação foi por plebiscito popular, o primeiro do Brasil e o único unânime até hoje. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Concei%C3%A7%C3%A3o_de_Macabu; acesso em 01 /12/2009 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Conceição+de+M acabu&uf=RJacesso em 01 /12/2009

Macaé Embora as descobertas de sambaquis na Praia de Imbetiba comprovem que esta região foi povoada por tribos selvagens milhares de anos atrás, quando os primeiros colonos chegaram ao local encontraram duas tribos rivais: os tamoios e os goitacás. As terras do atual Município faziam parte da Capitania de São Tomé, indo do Rio Itabapoana ao Rio Macaé e foi batizada de Baía de Salvador. Seu povoamento iniciou-se em 1580, quando Portugal se encontrava sob o domínio da Espanha. Para evitar invasões de inimigos, criou-se uma aldeia de índios catequizados por padres da Companhia de Jesus (Jesuítas). Os primeiros registros dos Jesuítas em Macaé datam de 1634. No princípio foi fundada à margem do rio Macaé e próxima ao Morro de Sant'Anna uma fazenda agrícola, que no correr dos anos ficou sendo conhecida como Fazenda de Macaé ou Fazenda do Sant'Anna. Na base do morro, entre este e o rio, levantaram um engenho de açúcar com todas as dependências e lavouras necessárias. Além do açúcar, produziam farinha de mandioca em quantidade e extraíam madeira para construções navais e edificações. No alto do morro foi construído um colégio, ao lado uma capela e um pequeno cemitério, que guarda até hoje os restos mortais de alguns Jesuítas. Em 1759 a fazenda foi incorporada aos bens da coroa pelo desembargador João Cardoso de Menezes. Nesta ocasião os Jesuítas foram expulsos do Brasil, imposição feita pelo Marquês de Pombal. Assim nasceu Macaé, mas com a expulsão dos padres Jesuítas os piratas tornaram a invadi-la. Em 1813, foi elevada a Município, e em 1846 a Vila de Macaé passou a condição de Cidade.

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Mapa 18 – Região Norte Fluminense, Macaé, Localização

Como as produções açucareira e cafeeira se expandiram muito e o Porto de São João da Barra não estava mais dando conta do movimento, inicia-se então em 1872 a construção do canal Campos-Macaé, com 109 km. Em 1875, constrói-se a estrada de ferro Macaé-Campos. A via férrea trouxe novo impulso e mais tarde como Estrada de Ferro Leopoldina. A partir de 1974, com a descoberta de petróleo na Bacia de Campos, o Município que permanecia rural, começou a sofrer profundas mudanças em sua economia e cultura, recebendo grande quantidade de pessoas de várias partes do país e do mundo, a fim de atender a crescente demanda desta cidade por mão-de-obra especializada, até hoje ainda não suprida totalmente, tornando altos os salários oferecidos na cidade. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maca%C3%A9#Hist.C3.B3ria, acesso em 8.02.2010 Quissamã O topônimo Quissamã foi dado à região pelos Sete Capitães, durante uma viagem de exploração em 1632, quando encontraram um grupo de índios e entre eles um negro. Os capitães estranharam a presença do negro “em lugares incautos e sem moradores”. Ao indagarem quem era ele e como viera parar ali, respondeu-lhes que era forro e da Nação de Quissamã, na África. O fato inusitado, pois à época era muito difícil encontrar negros em terras ainda não exploradas pelos portugueses, acabou por denominar o município de Quissamã. Segundo o Cônsul de Angola, que visitou a cidade, Quissamã é uma palavra de origem angolana que significa “fruto da terra que está entre o rio e o mar” e dá nome uma cidade que fica a 80 km de Luanda, na foz do Rio Kwanza. Quissamã tem uma longa história que se mistura com a própria colonização do Brasil. Esta riqueza cultural está presente até hoje no rico patrimônio preservado e na memória da população que tem um grande orgulho do passado de luta e trabalho.
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Sete capitães, proprietários de engenhos no Rio de Janeiro, recebem do Governador Martim de Sá, em 9 de agosto de 1627, a concessão da sesmaria que ia do Rio Macaé ao Rio Iguaçu, pertencente à Capitania de São Tomé, em troca dos serviços prestados à Coroa nas lutas para expulsão dos franceses do litoral do Rio de Janeiro. A ocupação, segundo o livro “Roteiro dos Sete Capitães”, se deu em 1633, com a instalação de currais para a criação de gado na Freguesia do Furado, localidade hoje chamada de Barra do Furado. Demoraria mais de um século para que a ocupação se tornasse efetiva, com a exploração em larga escala da lavoura canavieira e a construção dos primeiros engenhos de açúcar. O Brigadeiro José Caetano de Barcellos Coutinho foi o fundador da Vila, em 1749.
Mapa 19 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Localização

Trinta anos após foi erguida, em Quissamã, a casa de Mato de Pipa. Conservada até hoje, tem valor histórico por ser o único exemplo das moradas dos primeiros senhores de engenhos nos Campos dos Goitacazes. Seu proprietário, Manoel Carneiro da Silva, a construiu em terras herdadas do seu pai, que se encontravam encravadas no Morgado de Capivari, pertencente ao Brigadeiro. Com a instalação definitiva do Capitão Manoel Carneiro da Silva em Mato de Pipa, iniciouse, a seu redor, a expansão da Vila de Quissamã. Desde o início da instalação dos primeiros colonizadores, o controle administrativo de Quissamã era exercido pelas autoridades da Vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes, até que, em 1802, a Freguesia de Quissamã se tornou Cabeça de comarca, ficando subordinada a esta, a Freguesia de N.S. das Neves. Esta situação perdurou até 1812, quando a Cabeça de comarca foi transferida para a Freguesia de Macaé. Data daí a transferência da subordinação administrativa de Quissamã, de Campos para Macaé. No século XIX, havia sete engenhos de açúcar em Quissamã e com eles surgem os solares dos viscondes e barões do açúcar. Este século foi o auge da economia local, com a construção do Canal Campos-Macaé – uma das obras de engenharia mais importantes do Império e segundo maior canal do mundo – e de solares luxuosos como a Machadinha e a Man50 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

diqüera. Nesta época também era comum a presença de visitantes ilustres como o Imperador Pedro II, Duque de Caxias e Eusébio de Queirós, deixando Quissamã com um ar de corte. Até o começo do século XX, Quissamã conheceu um espetacular desenvolvimento. Mas, a partir da crise de 1929, vários fazendeiros se descapitalizaram e tiveram que vender as suas terras em favor do Engenho Central de Quissamã, que monopolizou a economia local. A estagnação durou até a década de 70, com a criação do programa Proálcool e com a descoberta do petróleo na Bacia de Campos. Prevendo um crescimento econômico sem depender exclusivamente do engenho, a população se organizou para a emancipação e, em 12 de junho de 1988, decidiu se separar do município de Macaé, o que aconteceu por meio de um plebiscito. Em 4 de janeiro de 1989, foi criado então, o município de Quissamã. Fonte: www.quissama.rj.gov.br

São Fidelis As primeiras notícias sobre o início da colonização do atual município de São Fidélis datam da segunda metade do século XVIII. Habitadas por tribos de índios Coroados e Puris, suas terras começaram a ser desbravadas em 1780. Com a instalação da primeira aldeia, foi construída uma capela dedicada a São Fidélis de Sigmaringa, posteriormente substituída pela construção de uma igreja, inaugurada em 1809, a atual matriz de São Fidélis. A economia da região baseava-se na exploração de madeira e na agricultura. Em 1812, foi estabelecido o curado do núcleo urbano, que passou a freguesia em abril de 1850. A efetiva instalação da vila, ocorrida em março de 1855, deu novo impulso ao desenvolvimento da localidade que recebeu foro de cidade em 3 de dezembro de 1870.
Mapa 20 – Região Norte Fluminense, São Fidelis, Localização

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A cidade recebeu o nome em homenagem a São Fidelis (festa em 24 de abril) cujo nome de batismo era Marcos Roy. Nasceu em Sigmaringen, na Alemanha, no ano de 1577. Estudou na Universidade de Friburgo, na Suíça, formando-se em Direito, tendo exercido seu ofício em Colmar, na Alsácia, por vários anos. Era chamado de "o advogado dos pobres" porque prestava seus serviços gratuitamente a quem não pudesse pagar. Ingressou no convento dos Capuchinhos de Friburgo e no ano 1612, tornou-se frade. Foi acusado de espionagem a serviço do imperador austríaco, os calvinistas tramaram a sua morte, ocorrida em Grusch. Em sua honra foi erguida, pelos frades capuchinhos italianos Angelo Maria de Lucca e Vitorio de Cambiasca, a Igreja Matriz, uma das mais belas e significativas edificações do período colonial brasileiro. Tem a forma de uma cruz e uma quase impossível enorme cúpula oitavada. A sua construção durou dez anos (1796-1806). Sua última reforma data das décadas de 1950/60 - quando o edifício ameaçava ruir - sob a supervisão do então pároco Monsenhor Ovídio Simon e do engenheiro Ruy Seixas. Fontes: http://www.governo.rj.gov.br/municipal.asp?M=20; acesso em 30/12/2009 http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Fid%C3%A9lis; acesso em 30/12/2009 http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=SãoFidélis&uf=RJ &tipo=dados+gerais; acesso em 30/12/2009 São Francisco de Itabapoana O topônimo registra a homenagem ao padroeiro da cidade São Francisco de Paula. O território dos municípios de São Francisco de Itabapoana, quando da divisão do Brasil em capitanias hereditárias, passou a integrar a Capitania de São Tomé ou Paraíba do Sul, concedida em 1536 a Pero Góis da Silveira. Esse donatário se estabeleceu na área em 1539, escolhendo para implantação do núcleo original o lugar que considerou de solo fértil e abrigado do tempo e dos índios goytacazes, que dominavam a região.
Mapa 21 – Região Norte Fluminense, São Francisco de Itabapoana, Localização

Houve um entendimento com os indígenas, possibilitando a primeira plantação de cana-deaçúcar, próxima ao Rio Itabapoana. Após se desentender com os locais, retornou a Portu52 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

gal, ficando em seu lugar alguns portugueses, até que outra expedição comandada pelo seu filho, Gil de Góis. O plantio de cana cresceu, mas devido a desavenças com as tribos dos coroados ao norte e goytacazes ao sul, o cultivo foi abandonado. No ano de 1995, São Francisco de Itabapoana ganha sua autonomia, face à edição da Lei n.º 2379, de 18 de janeiro, desmembrado de São João da Barra, sendo instalado em 1º de janeiro de 1997. Fonte: http://www.pmsfi.rj.gov.br/index.php; acesso em 30/01/2009 São João da Barra Seu nome presta uma homenagem ao santo padroeiro e faz referência ao acidente geográfico que ocorre no local: a foz do Rio Paraíba do Sul. Foi a partir de 1630, com a chegada de um grupo de pescadores de Cabo Frio, que se iniciou efetivamente a povoação do Norte Fluminense. Com a morte da mulher do pescador Lourenço do Espírito Santo, este se retira do pontal da barra – onde hoje se localiza Atafona – indo fixar residência mais para o interior num pequeno elevado de areia junto ao rio Paraíba do Sul. Após construir sua pequena cabana de palha Lourenço logo foi seguido por outros pescadores, dando eles início a construção de uma pequena ermida em louvor a São João Batista.
Mapa 22 – Região Norte Fluminense, São João da Barra Localização

Durante muitos anos o pequeno povoado pouco se modificou, sendo que já em 1644 era a capela de São João confirmada pelo prelado D. Antônio de Maris Loureiro, época em que se delineavam os contornos do pequeno arraial contando com algumas casas, todas de palha, situação que vai perdurar até a elevação do povoado a categoria de Vila em 1676, segundo o historiador Fernando José Martins. Ainda segundo Martins, a população da recém criada Vila era de aproximadamente 30 pessoas.
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Dedicando-se à pesca, a algum transporte de mercadorias, criação de gado vacum e cavalar e ao início da cultura de cana, foi que viveu durante o século XVII a gente dessa terra. Por essa época, foram abertas a Rua da Boa Vista, a única que existiu durante muitos anos e a Rua Direita, inicialmente chamada, de Rua do Caminho Grande e que servia para os moradores da barra para virem às missas e negócios na vila. Com o alvorecer do século XVIII, tomou importância o transporte fluvial entre a vila de Campos e vizinhança com o porto da Bahia, para onde seguia toda a produção açucareira, via São João da Barra. Isto fez crescer a entrada e saída de embarcações no porto, dando início a um pequeno desenvolvimento urbanístico na Vila, que passa a contar com um maior contingente populacional. Neste período, é intensa a vinda de portugueses, o que resulta em um maior número de casas. Ocorre a abertura de novas ruas, como a Rua do Rosário aberta em 1774, a dos Passos, em 1778, com o nome de Rua São Benedito, a do Sacramento em 1792 e a da Banca, que formava a parte de frente da Vila em relação à barra. São dessa época as melhorias na Igreja Matriz e na Casa da Câmara e Cadeia Pública que foram reformadas, sendo construídas de pedra e cal com suas respectivas cobertura de telhas confeccionadas na única olaria existente. Com o crescimento da vila, surgem novas devoções religiosas e dessa forma o século XVIII vê nascerem às irmandades do Santíssimo Sacramento e Senhor dos Passos, anterior a 1730, época em que se inicia a construção de sua capela anexa à igreja matriz, e a de Nossa Senhora do Rosário em 12 de outubro de 1727, também logo erguendo junto à matriz uma capela para a mãe de Deus. Tem início da devoção de São Benedito, que teve sua irmandade criada e posteriormente, em 1816, iniciadas as obras de sua igreja. Era, por essa época, muito pobre a vila de São João Batista da Barra, fato que se pode verificar em documentos transcritos por Fernando J. Martins, e em 1750, o Senado da Câmara determina, através de Decreto, que sejam providenciadas alfaias decentes para a acomodação das autoridades que visitassem a vila por ocasião das correições. Também em 08/12/1751 outro decreto determina que não mais se construam, no perímetro urbano, casas cobertas de palha. Contudo, era ainda uma Vila muito pobre, conclusão tirada pela descrição do Capitão Manoel Martins do Couto Reys que, em 1785, assim a descreve: “É muito pobre e pouco populosa: está situada tão bem em uma planície sobre áreas na margem do Paraíba. Distante de sua barra, pouco mais de “meia légua”, contém dentro de si, 111 fogos unicamente tem dos que se manifestam nos seus lugares exteriores.” É ainda Couto Reys quem nos informa que, neste mesmo período, havia trinta e uma casas cobertas de palha e 80 de telha, das quais cinco são ocupadas com pequenas lojas e duas com tabernas. Dessa forma, prossegue o viver da Vila que conhecerá progresso e notoriedade com início do século XIX. O alvorecer do século XIX trouxe para o Brasil a Família Real e com ela todo um “entourage” palaciano que, uma vez acomodada no Rio de Janeiro, necessitava de gêneros diversos. São João da Barra, que já vinha se dedicando a esse comércio na região com aquela cidade, passou a suprir as necessidades da recém instalada Côrte. Se o comércio se intensificou, melhoraram as condições financeiras dos habitantes que, por conseguinte, também melhoraram seus costumes e hábitos. Aos poucos a vila foi conquistando melhorias; novas irmandades foram criadas, como a de São Benedito, São Miguel e Almas e a Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e São Pedro, além das devoções de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora da Penha. Na Barra, foram abertas escolas públicas e particulares, prédios vistosos e elegantes construídos, os Jovens das principais famílias mandados para Universidades, sociedades musicais e dramáticas inauguradas.
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Visitando a Vila, em 1847, o Imperador D. Pedro II não teve dúvidas quanto ao seu progresso o que lhe conferia o direito da vila de ser elevada a cidade, o que fez através de Decreto, datado de 17 de Junho de 1850. “Econômica e socialmente, São João da Barra alcançou seu apogeu neste período, o que atesta a descrição do Almanaque Laemmeth. (...) A cidade edificada à margem direita do Rio Paraíba (...) tem 804 casas entre as quais 46 sobrados de um ou dois andares; destas casas são habitadas 758, dividindo-se em 19 ruas, 39 becos e travessas e seis praças. Tem 4.790 habitantes, dos quais 2.623 do sexo masculino e 2.167 do sexo feminino. As ruas e praças são apenas calçadas nos passeios junto às casas, mas o terreno é todo arenoso e enxuto (...)”. Foi neste século que inauguraram, com o auxilio do imperador, a Santa Casa de Misericórdia; a Usina Barcelos, propriedade do barão de mesmo nome; duas Companhias de Navegação; uma Companhia Agrícola; uma Companhia de Cabotagem; a Companhia da Valla Navegável do Sertão de Cacimbas; a Sociedade Beneficente dos Artistas, que construiu em 1902 o Teatro São João; a Sociedade Marítima Beneficente; a Sociedade Musical e Carnavalesca Lira de Ouro e a Banda Musical União dos Operários, sucessora da extinta Lira de Ferro, fundada anteriormente e a loja Maçônica Capitular Fidelidade e Virtude, datada de 24 de março de 1839. O progresso que alcançou a cidade por essa época, fez nela se instalar os vice-consulados de Portugal, Espanha, Baviera e Países Baixos, que cuidavam dos interesses desses países em seu comércio com São João da Barra. As Escolas aumentaram em número e qualidade, hotéis foram abertos, bilhares, padarias, alfaiatarias, barbearias, ferrarias, funilarias, tornearias passaram a funcionar movimentando o comércio da cidade que chegou a contar com tipografias, relojoeiros, poleiros, açougues; sessenta lojas de tecidos, mais de cinquenta de secos e molhados, seleiros, agência de aluguel de carros, agências de serviços fúnebres, despachantes de embarcações, boticários, sapatarias, estaleiros de construção navais, fogueterias, marcenarias, olarias, fábricas de charutos, cigarros e licores, lojas de matames e tintas, fotógrafos e retratistas, bilhares, oficinas de calafetes e trapiches. A navegação de cabotagem, os navios a velas e a vapor movimentavam o Porto Sanjoanense que se desenvolvia paralelamente ao crescimento da cidade. Esta começou a receber portugueses de diversos pontos de além mar. Foi assim, que aqui chegaram os Nunes Teixeiras, os Ribeiros de Seixas, Os Lobato, Cintra, Melo, Lisboa, Pinto da Costa, os Moreira, os Carrazedo, Souza e Neves, Tinoco, Gomes Crespo, Souza Valle, Costa Araújo, Mattos Alecrim, Pavão, Maia da Penha, Motta Ferraz, Macedo, Ferreira de Azevedo, Costa Cobra, Rebola, Lopes, ou seja, os principais troncos das famílias que ainda hoje povoam a cidade. Dessa forma o progresso se instalou durante o século XIX, dando-lhe prestígio e notoriedade. Mas, ao iniciar o século XX, mais precisamente em 1918, após a venda da Companhia de Navegação, e com a abertura da navegação de cabotagem a navios estrangeiros, fez todo esse progresso desmantelar-se qual castelo de areia. Do progresso, São João da Barra conheceu a ruína que só não foi total pelo surgimento da Indústria de Bebidas Joaquim Thomaz de Aquino Filho, sustentáculo da economia sanjoanense por todo este século. Com o advento do petróleo, e da logística (Açu), a possibilidade do desenvolvimento retorna ao município de São João da Barra, cento e cinquenta anos após a sua instalação. Fontes: http://www.sjb.rj.gov.br/cidade.asp; acesso em 02/01/2010 http://www.governo.rj.gov.br/municipal.asp?M=21; acesso em 02/01/2010

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Etnografia
Capítulo 2

Autora: Elisiana Alves

Colaboradora: Simara Celestino

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SUMÁRIO 1. 2 2.1 2.2 2.2.1 2.2.2 3. 3.1 4. 4.1 4.2 4.2.1 4.2.2 4.2.3 4.4 4.4.1 4.4.2 4.4.3 4.4.4 4.5 4.6 4.7 4.8 4.9 5. 5.1 5.2 5.3 6. 6.1 6.2 6.3 7. 7.1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 65 DA FORMAÇÃO DA ETNIA ................................................................................... 67 Raízes.................................................................................................................... 67 Tipificações da Etnia Norte Fluminense ................................................................. 68 Muxuangos ............................................................................................................ 68 Mocorongos ........................................................................................................... 69 DOS EXTRATOS SOBRE A LINGUAGEM ............................................................ 70 Aspectos Lingüísticos da Baixada Campista .......................................................... 70 MANIFESTAÇÕES CULTURAIS ........................................................................... 71 Aspectos Existenciais da Cultura Negra no Norte Fluminense ............................... 72 O Fado................................................................................................................... 73 Origens .................................................................................................................. 74 Formato das Danças.............................................................................................. 74 Preservação e Sobrevivência................................................................................. 75 O Jongo ................................................................................................................. 76 A Territorialidade e o Jongo ................................................................................... 78 O Jongo nas Regiões Norte e Noroeste Fluminense.............................................. 81 O Jongo na Atualidade........................................................................................... 81 Nuances da nomenclatura ..................................................................................... 84 O Boi Malhadinho................................................................................................... 87 A Folia de Reis....................................................................................................... 88 A Cavalhada .......................................................................................................... 94 Boi Pintadinho / Boi Samba.................................................................................... 95 Mineiro – pau ......................................................................................................... 96 SABERES E FAZERES ......................................................................................... 97 Ferreiros e Seleiros................................................................................................ 97 Medicina Popular ................................................................................................... 99 Da Gastronomia ................................................................................................... 100 DAS MANIFESTAÇÕES RELIGIOSAS................................................................ 104 A participação da Igreja Católica no Processo de Ocupação Territorial ............... 104 As Aparições em Natividade ................................................................................ 107 As Rezadeiras...................................................................................................... 108 CULTURA ............................................................................................................ 111 Políticas Federais de Cultura ............................................................................... 112
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7.2 7.3 7.3.1 7.4 8. 8.1 8.2 8.3 8.4 8.5 8.6 8.6.1 8.7 8.7.1 8.8 8.9 9. 9.1 9.2 9.3 10. 11. 12. 13.

Política Estadual de Cultura ................................................................................. 113 Políticas Municipais de Cultura ............................................................................ 114 Apreciação de Aspectos Estruturantes da Cultura nas Regiões.......................... 114 Corredor Memória de Campos ............................................................................. 118 ARTESANATO..................................................................................................... 119 Etimologia ........................................................................................................... 119 Conceito............................................................................................................... 119 Histórico do Artesanato ........................................................................................ 119 Os Números do Artesanato no Brasil ................................................................... 120 Políticas Públicas para o Artesanato .................................................................... 121 Caminhos do Açúcar............................................................................................ 124 O Circuito do Açúcar na “Fashion Rio” ................................................................. 132 O Artesanato no Norte e Noroeste Fluminense.................................................... 136 Matérias - primas ................................................................................................. 138 A Cerâmica .......................................................................................................... 141 O Artesanato na Expo MercoNoroeste................................................................ 147 PATRIMÔNIO CULTURAL................................................................................... 148 Conselho Estadual de Tombamento .................................................................... 149 Patrimônio Arquitetônico ...................................................................................... 149 Patrimônio Arquitetônico Religioso....................................................................... 152 ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DA CULTURA, IDC ....................................... 153 DA CULTURA DO CRESCIMENTO..................................................................... 156 LAZER - CONSIDERAÇÕES ............................................................................... 159 REFERÊNCIAS.................................................................................................... 171 ANEXOS ANEXO I ................................................................................................ RELAÇÃO DE BENS CULTURAIS TOMBADOS PELO INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL INEPAC .................................................................................. INVENTÁRIO DAS FAZENDAS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE ........................................................................ 173

174 184

ANEXO II -

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LISTAS

FIGURAS Figura 1 – Partituras de Composições do Jongo.................................................................. 85

FOTOS Foto 1 - Região Norte Fluminense, O Goytacaz................................................................... 67 Foto 2 – Região Norte Fluminense, O Fado em Quissamã.................................................. 73 Foto 3 – Região Norte Fluminense, A Mana Chica em Campos dos Goytacazes ................ 76 Foto 4 – Região Norte Fluminense, O Jongo ....................................................................... 77 Foto 5 – Região Norte Fluminense, O Jongo em Quissamã ................................................ 78 Fotos 6 e 7 – Região Norte Fluminense, A Roda do Jongo.................................................. 80 Foto 8 – Região Noroeste Fluminense, Caxambu em Santo Antônio de Pádua................... 82 Foto 9 - Região Noroeste Fluminense, Santo Antonio de Pádua, Criança Jongueira........... 82 Foto 10 – 12º Encontro de Jongueiros em Piquete - SP, abril de 2008 ................................ 83 Foto 11 – Região Noroeste Fluminense, Jongo de Santo Antônio de Pádua, 1976. ............ 84 Foto 12 – Região Norte Fluminense, O Boi Malhadinho em Quissamã................................ 88 Foto 13 – Região Norte Fluminense, O reisado de São Fidélis............................................ 89 Foto 14 - Região Noroeste Fluminense, Encontro de Folias de Reis em Miracema Janeiro/2008........................................................................................................................ 90 Foto 15 - Região Noroeste Fluminense, I Encontro Regional de Folias de Reis em Italva ... 90 Fotos 16 e 17 – Região Noroeste Fluminense, Folia "Estrela do Oriente" em Miracema ..... 91 Fotos 18 e 19 – Região Noroeste Fluminense, Folia de Reis em São Fidelis ...................... 92 Fotos 20 e 21 – Região Noroeste Fluminense, Folia de Reis em Porciúncula ..................... 93 Fotos 22 e 23 -Região Norte Fluminense, Cavalhada em Santo Amaro, Campos dos Goytacazes.......................................................................................................................... 95 Foto 24 – Região Norte Fluminense, Boi Pintadinho em Campos dos Goytacazes ............. 96 Foto 25 – Região Norte Fluminense, Sr. Edílson Trabalhando na Forja - Ferraria em Campos dos Goytacazes ................................................................................................................... 98 Foto 26 – Região Norte Fluminense, Vista Interior da Oficina – Selaria do Sr. Álvaro (filho) em Campos dos Goytacazes ............................................................................................... 99 Fotos 27, 28, 29 e 30 – Região Norte Fluminense, Culinária da Fazenda Machadinha em Quissamã .......................................................................................................................... 101 Fotos 31, 32, 33 e 34 – Região Norte Fluminense, Projeto Raizes em Quissamã ............. 102 Fotos 35 e 36 – Região Norte Fluminense, Goiabada Cascão de Campos........................ 102
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Fotos 37 e 38 – Região Noroeste Fluminense, Produtos da Culinária de Porciúncula ....... 104 Foto 39 – Padre Jesuíta do Inicio da Colonização ............................................................. 104 Foto 40 - Região Norte Fluminense Mosteiro de São Bento em Campos, 2003................. 105 Foto 41 - Região Norte Fluminense Casa e Capela do Colégio Jesuíta em Campos, 1994105 Foto 42 - Região Noroeste Fluminense, Casa de Maria em Éfeso na Turquia ................... 108 Foto 43 - Região Noroeste Fluminense, Réplica construída em Natividade....................... 108 Fotos 44 e 45 - Região Noroeste Fluminense, Visões Parciais do Sítio dos Milagres ........ 108 Fotos 46, 47, 48, 49 e 50 – Produtos Feitos por Artesãos do “Caminhos do Açúcar” para o “Fashion Rio”, 2004 ........................................................................................................... 136 Fotos 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58 e 59 – Regiões Norte e Noroeste, Mosaico da Produção Artesanal das Regiões....................................................................................................... 137 Fotos 60, 61, 62 e 63 – Região Norte Fluminense, Oficinas do Projeto “Caminhos de Barro” .......................................................................................................................................... 143 Fotos 64, 65, 66, 67, 68 e 69 – Região Norte Fluminense, Produtos do Projeto “Caminhos de Barro”. ............................................................................................................................... 146 Fotos 70 e 71 – Região Noroeste Fluminense, Expo Noroeste, 2009 ................................ 147 Fotos 72 e 73 – Região Noroeste Fluminense, Produtos Artesanais na XI MercoNoroeste, 2009 .................................................................................................................................. 147 Fotos 74 e 75 – Região Noroeste Fluminense, Museu Casa Quissamã ............................ 151 Fotos 76 e 77 – Região Noroeste Fluminense, Casa Mato Pipa em Quissamã ................. 151 Fotos 78 e 79 – Região Noroeste Fluminense, Senzalas da Fazenda Machadinha em Quissamã .......................................................................................................................... 152 Foto 80 – Campos dos Goytacazes, Capela Nossa Senhora do Rosário (Donana)........... 152 Foto 81 – Quissamã, Igreja Nossa Senhora do Desterro ................................................... 153 Fotos 82 e 83 – Região Noroeste Fluminense, Parapente, São José de Ubá.................... 159 Foto 84 – Região Noroeste Fluminense, Caminhada em Miracema .................................. 160 Foto 85 – Região Noroeste Fluminense, Montanhas do Noroeste Fluminense .................. 160 Fotos 86 e 87 – Região Norte Fluminense, Excursão de Lazer, Canal Campos-Macaé .... 160 Fotos 88 e 89 – Região Norte Fluminense, A Lagoa Feia.................................................. 161

GRÁFICOS Gráfico 1 - Percentual de Municípios com Atividade Artesanal por Tipo, Brasil, 2006........ 121

MAPAS Mapa 1 - Região Sudeste, Distribuição do Caxambu, Jongo e Tambor identificados pelo IPHAN entre 2002 e 2006.................................................................................................... 79 Mapa 2 – Rio de Janeiro, Distribuição Espacial dos Municípios com Ocorrência do............ 80 Mapa 3 – Região Norte Fluminense, Mapa Índice Caminhos do Açúcar Inventário 2004 . 125
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Mapa 4 – Região Norte Fluminense, Mapa Índice Caminhos do Açúcar II - Inventário 2004 .......................................................................................................................................... 126 Mapa 5 – Região Norte Fluminense, Carta Imagem com as Localidades e Área Fonte de Argilas ............................................................................................................................... 142 Mapa 6 – Região Norte Fluminense, Localização das Oficinas Caminhos de Barro .......... 144

QUADROS Quadro 1 - Quadro Sinóptico dos Bens Inventariados Caminhos do Açúcar – Março/ 2004 .......................................................................................................................................... 127

TABELAS Tabela 1 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Padroeiros dos Municípios ............. 106 Tabela 2 - Região Norte Fluminense, Relação de Padroeiros dos Municípios ................... 107 Tabela 3 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Pontos de Cultura, 2009 ................. 112 Tabela 4 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Pontos de Cultura, 2009 ................. 113 Tabela 5 – Região Noroeste Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural – IDC .................................................................................................................................... 116 Tabela 6 – Região Norte Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural – IDC .......................................................................................................................................... 117 Tabela 7 - Rio de Janeiro, O Artesanato nos Caminhos do Açúcar.................................... 132 Tabela 8 - Síntese da Participação do Caminhos do Açúcar no “Fashion Rio”, 2004......... 135 Tabela 9 – Região Noroeste Fluminense, Índice de Desenvolvimento Cultural (IDC) ........ 155 Tabela 10 – Região Norte Fluminense, Índice de Desenvolvimento Cultural (IDC)............ 156 Tabela 11 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais, Janeiro................ 162 Tabela 12 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Fevereiro ........... 162 Tabela 13 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Março ................ 163 Tabela 14 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Abril ................... 163 Tabela 15 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Maio.................. 164 Tabela 16 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Junho................. 164 Tabela 17 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Julho.................. 165 Tabela 18 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Agosto ............... 166 Tabela 19 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Setembro........... 167 Tabela 20 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Outubro ............ 168 Tabela 21 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Novembro ......... 169 Tabela 22 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Dezembro.......... 170

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Na minha percepção, os vinténs em centavos transfiguram-se, numa antevisão mágica, e os vultos ao redor desta comédia trágica são fantasmas sem luz de senhores e escravos Sinto o cheiro do engenho antigo e da senzala, e escuto, em cada voz, a voz da senhorinha, do velho parapeito a me fitar sozinha, e o seu profundo olhar a me deixar sem fala A noite vai passando! O relógio pregado na parede, reverte o tempo que ele marca, e eu visto o traje, em pó, de um velho patriarca, sob a mão singular e forte do passado Revejo o Paraíba intrépido, incontido, cortando os manguezais em busca do oceano; e deixo, em sonho ardente, o meu clamor humano sorrir, sem ter o dom!...chorar, sem ser vagido!..

in Campos,Metáforas da Alma Paulo Roberto de Aquino Ney ACL

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1.

INTRODUÇÃO

As regiões Norte e Noroeste Fluminense que até 1975 eram conhecidas como Norte simplesmente, ao longo de sua existência sempre se defrontaram, independente da sua situação socioeconômica própria, com a inter-relação com a cidade do Rio de Janeiro que concentrou durante séculos a posição de capital do país, em simultaneidade à sua condição de capital do Estado. Nestas circunstâncias, estas regiões sempre enfrentaram as conseqüências do processo de concentração espacial, abrangendo tanto a concentração associada a linhas funcionais, quanto a relacionada aos aspectos territoriais. Entendendo-se que concentração não decorre da questão econômica, mas, sim, do modo pelo qual o poder e os processos de decisão que dele emanam se distribuem, o desenvolvimento regional ainda se deparou com o conflito de uma cultura de uma aristocracia, emergente de uma economia rural agrária, e uma cultura de elites urbanas burocráticas que, a partir do século XIX, assumem a orientação industrial predominante. Para estas estruturas de poder, a centralização se justifica pelas economias de escala que exigem decisões dos mais altos escalões de governança e que na base, se mostram capazes de internalizar para o sistema, as manifestações de externalidades individualizadas, pelos altos níveis de realimentação que tal processo proporciona de modo que o resultado de cada decisão produz a existência de outra, e, finalmente, porque historicamente o desenvolvimento periférico mostra uma tendência cultural de desenvolver regionalmente, sistemas administrativos que, em vários casos se organizam e se comportam como altamente centralizados. Nos dilemas e conflitos desta contextualização cultural, muitas das decisões que poderiam ter sido alocadas nos níveis de lógica operacional ou descentralizadas de Governo, foram e se mantem nos centros superiores, em decorrência da falta de estruturas institucionais e de financiamento que as possam conduzir nos níveis local-regional. Esta condição, que se disseminou universalmente, foi reforçada pelo aumento em vários casos, e no Norte Fluminense com certeza, da complexidade dos sistemas pela evolução da economia como resultado de ciclos naturais que levaram a rápidos processos de urbanizações, aumento acelerado das demandas de logística e de recursos de capital e sistemas financeiros, mudança e substituição acentuada de atitudes e hábitos, de valores e de confiança, elevação do grau e intensidades das relações sociais, multiplicação dos negócios e dos agentes produtivos e, por conseguinte, ao aumento das funções de governança requerendo qualificações especializadas, entre outras, o conjunto provocou a sua assimilação pelas unidades de governo central. Assim, no Brasil Colônia e na República presidencialista, assumiu-se que quanto maior uma afluência regional, maior a tendência e indicação para ser gerenciada centralmente. O maior grau de concentração e centralização de decisão, regra geral, acentua os desequilíbrios inter-regionais que constituem, por excelência, um problema natural da região. Este desequilíbrio se explica muitas vezes pela existência de um recurso ou condição singular e/ou irremovível, cultivo da cana de açúcar ou café, exploração de petróleo, por exemplo, o que leva, frequentemente, a uma interpretação equivocada que atribui o desenvolvimento estratégico à localização produtiva em si mesma, enquanto o que é realmente importante é a equidade da distribuição territorial e pessoal da oferta das condições de acesso, oportunidades e dos resultados da atividade econômica – renda, trabalho, serviços com qualidade sociais e culturais, preservação ambiental. A sucessão de ciclos econômicos por que passou o Norte Fluminense elevou o nível de complexidade de seus sistemas, muito provavelmente menos do que poderiam ter alcançado, e promoveram a sua abertura gradual em que, agora o Norte, com o petróleo, exclusive o Noroeste, se expandiu para condições que aumentam a possibilidade de sua inserção na economia global, assim como aumenta a sua vulnerabilidade. Os problemas estruturais do passado persistem na atualidade com maior intensidade e as desigualdades se acentuam,
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os sistemas de decisão endógenos não incorporaram os conhecimentos que sustentam uma cultura de desenvolvimento, regra geral, o que faz com que o sistema possua quase nenhuma recursividade e baixa autonomia. Mais importante, o sistema subsiste com circularidade intrínseca (“looping”), principalmente cultural, as iniciativas em que comparecem os elementos regionais realimentam condições anteriores o que permite realizar mudanças incrementais, de primeira ordem, alinhadas ao paradigma anterior secular, mas inibe ou atenua a eficácia de mudanças estruturais, de fundamentos, de segunda ordem, em consonância com um novo paradigma de governança regional articulada. Concomitantemente, a variedade das descapitalizações endógenas nas Regiões (incluindo os ativos humanos e os intangíveis), acumula um grande passivo, sendo portadora de fortes consolidações, o que a impede de se sustentar de per si um processo de desenvolvimento. É quase uma impossibilidade para essas sociedades, transformações e desenvolvimento, em curto prazo. No entanto, há pelo menos três condições que podem ser usadas para alavancar uma mudança planejada, no ambiente do Norte e Noroeste Fluminenses: a presença de agentes empresariais privados de porte, inclusive em atividades de serviços públicos e com a mobilização de expressivas associações de classes; grandes projetos de crescimento de médio prazo com empreendimentos que não podem ser interrompidos em função de sua contribuição para o país, um conjunto dissipativo de forças centrípetas, incomparavelmente maiores do que todos os que antecederam, pela sua visibilidade e natureza; e alguns nichos de novos modos de pensar e agir e relacionar diferenciados com alguns resultados, de interesse público, já obtidos de processos em implementação, os quais representam manifestações consensuais regionais capazes de convergir para via de desenvolvimento, na redoma da cultura regionalista. Assim como há possibilidades favoráveis a uma cultura de evolução, há também probabilidades muito significativas do processo atual replicar a história – o que vem fazendo – um risco efetivo a ser prevenido. Na análise situacional foi tratado o que há de políticas públicas para a etnografia das Regiões, a começar por um rápido retrospecto da etnia. Em seguida, serão apresentados os temas da cultura da Região, em que se destaca uma leitura sobre a contribuição de alguns dos intangíveis regionais que permeiam o país, bem como os programas de desenvolvimento associados à economia da cultura – artesanato, cerâmica, gastronomia, entre outros-, o papel do ciclo de açúcar que marcaram época no processo de desenvolvimento nacional, e a religiosidade que desde a colonização está presente nas sociedades dessas regiões, que passam a constituir opção para a modalidade respectiva de o turismo. Para uma avaliação científica, foi desenvolvida e aplicada a metodologia do Índice de Desenvolvimento da Cultura aos municípios e Regiões, com as análises correspondentes que permitem mostrar, com propriedade, quais as situações existentes em cada uma e na s duas Regiões. Finalmente, as informações do trabalho realizado ensejam uma digressão sobra a cultura do desenvolvimento que se presta a explicar os processos que regeram e regem os ciclos de desenvolvimento regional do ponto de vista da visão e comportamento da etnografia do Norte e Noroeste Fluminense, considerados como uma unidade. Naturalmente que este estudo não tem a pretensão de esgotar os assuntos e as dimensões que compõem a etnografia da Região Norte Fluminense, muito mais extensa e de grande complexidade nos seus quase cinco séculos de existência após a descoberta, mas o seu objeto contempla, por amostragem, algumas de suas parcelas mais importantes que contribuem e explicam o processo de sua situação atual, visando o desenvolvimento a ser projetado.

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2 2.1

DA FORMAÇÃO DA ETNIA Raízes

De um território riquíssimo em matéria orgânica, carreada pelo Rio Paraíba do Sul, o massapé de suas férteis planícies aluvionares, dos tabuleiros com suas cangas e as elevações da cordilheira originalmente cobertas por densas florestas tropicais, a Mata Atlântica, com um sistema hídrico e com aqüíferos medicinais invejáveis, formadores das lagoas (de tabuleiro, aluvião e restinga) e dos brejos, o Norte Fluminense constituía o habitat natural dos temidos “corredores dos campos”, os goitacás ou goytacazes, um dos grupos étnicos de nativos reconhecidos por sua capacidade guerreira, por sua tez mais branca, altura destacada com longos cabelos, indígenas que construíam povoações nos ambientes lacustres, com suas habitações de um só esteio e caçavam tubarões para armar as suas longas lanças mortais. Ocupando um território de mais de cem léguas ao longo da costa brasileira, os goitacás constituem o maior contingente aldeado (a partir de 1700) pelos portugueses, que deu origem e contribuiu para a formação do tipo étnico Fluminense. Outras etnias indígenas, em menor quantidade, comparecem também na Região, entre eles, os dissimulados e traiçoeiros Puris, que habitaram as florestas do Muriaé, assim como os Coropós, assimilados pelos Goytacazes (com o que surgiram os Coroados), entre outros.
Foto 1 - Região Norte Fluminense, O Goytacaz

Fonte: Projeto Inventário de Bens Culturais Imóveis. Desenvolvimento Territorial dos Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro. INEPAC - Rio de Janeiro, 2006

Com o desenvolvimento dos ciclos da pecuária e da cana-de-açúcar, num primeiro movimento após a descoberta, os portugueses até dominarem os indígenas, trouxeram os negros como força de trabalho adicional para as atividades de campo. Esta etnia cresce significativamente, inclusive com as novas culturas do Noroeste, o café e os cereais – e.g. arroz e milho – e tem lugar um processo de mesclagem de raças e superposição/fusão de culturas. O Estado do Rio de Janeiro, na abolição, detinha a maior população de escravos do país. Na planície, ao longo de séculos, o português predominou. Nas montanhas, registra-se a vinda dos italianos (alguns espanhóis), inicialmente religiosos, depois os grupos imigrantes do grande movimento, que constroem parcela expressiva da identidade regional e, nos dias de hoje, mesmo após o declínio da agricultura, ainda permaPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 67

nece disseminada, em minoria, com uma concentração dominante em Varre-Sai, que preserva o café como elemento propulsor de sua economia. Conquanto a etnia resultante tenha se produzido destes três grupos predominantes, outras vieram nos tempos mais recentes, incluindo estrangeiros, por exemplo, sírio-libaneses, ou brasileiros, os mineiros, neste caso, migrantes pela proximidade física e pelas oportunidades associadas ao conhecimento da cultura do café. É importante mencionar que, nos períodos de afluência máxima da Região, os senhores que compunham a aristocracia/nobreza rural, a maioria deles portugueses ou seus descendentes, procuraram manter a continuidade de sua linhagem. 2.2 2.2.1 Tipificações da Etnia Norte Fluminense Muxuangos

“Este homem de andar cansado, com o passo arrastado pelas botas no chão, traço característico de quem marcha sobre a areia e anda com dificuldade através dos atoladiços, é visto tanto de um lado como do outro do Rio Paraíba, sempre pela margem da costa Fluminense. Indesejável ao convívio social, este homem branco enfrentou diversos combates contra os navios corsários e contrabandistas franceses que tentavam a todo custo explorar a costa Fluminense. O muxuango surgiu em nossa planície pelo caminho mais fácil, mas foi parar num deserto que o reteve e o dispersou, dificultando assim a sua progressão, seduzido pelo alimento farto, ele se deixa ficar na aridez e na monotonia do deserto das lagoas. Mesmo sendo pertinente à restinga, é a monotonia que o deprime e o condena, ele então involui e se transforma num retardatário envergonhado, e os seus resíduos étnicos começam então a se degenerar e definhar pelo isolamento da civilização. É no aspecto físico que se consegue descobrir as suas características, com a pele branca, cabelos louros, de olhos azuis ou esverdeados, rosto largo, lábios finos, nariz reto, corpo magro e estatura variável. É na palidez de seu rosto, que se vê as marcas das doenças que o afligem, como a verminose, o paludismo e a anquilostomíase. Tudo isso por causa da apatia e da escassez de vitaminas na alimentação, feita de paçoca, carne-seca e peixe-salgado. A terra onde vive e trabalha é improdutiva, cercada de brejos, areia e vegetação magra, emaranhada e cheia de espinhos. Ele então se deixa vencer, cansado, e seu espírito se desinteressa de tudo, desaparece então a ambição, apaga-se os seus ideais, morre a iniciativa e finda a combatividade inicial, anterior a sua chegada a planície. Este homem que antes de aparecer era civilizado, começa então a retornar a sua condição de selvagem, pois a terra o subjugou, e a impassibilidade da topografia já agora reproduz nele a impassibilidade humana. A facilidade em apossar-se de sítios, morre quando descobre que o solo não vale nada, a terra é pobre e barata, além disso, a dificuldade de transporte não o permite criar uma cultura alimentícia que lhe dê retorno financeiro, desse modo, o muxuango vive igual ao índio, caçando e pescando nas lagoas, cultivando apenas mandiocas e abóboras, e fabricando farinha, além de primitivas cestarias e cerâmicas. O muxuango exibe-se semanalmente na feira de Gargaú, onde então aproveita para fazer compras, vender e trocar os seus produtos, como a farinha, principal produto da feira. Ele aparece nesta feira com seu terno de riscado e camisa de algodão, chegam no trote duro das “pulitanas”, ou na mesa dos carros de boi arrastados horas a fio pelos areais. Alguns possuem posses, e é nas chaminés das suas engenhocas que eles mostram a solidão de suas fazendolas. A casa do muxuango é bem parecida com a dos gaúchos dos pampas, a maioria é baixa e escondida, em largos descampados arenosos. É nos amplos horizontes que vemos pontilhadas aqui e ali, uma ou outra casa. Este aspecto de suas residências constitui o melhor exemplo da característica muxuanga como Lamego descreve na página XV de sua obra “A Planície do Solar e da Senzala”: “Quase sempre acaçapada, nos largos descampados arenosos, pontilha aqui e além os horizontes amplos. É um símbolo do
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homem que a plantou. Branca e humilde, desabrigada na penúria da gleba estéril, afronta as soalheiras, os vendavais e os aguaceiros com a indiferença fatalista da gente que agasalha e que se extingue num acabamento de raça”. 2.2.2 Mocorongos

O mocorongo é definido como moreno, de olhos castanhos escuros ou amendoados, cabelos negros e corredios, o osso da maçã do rosto em relevo, a barbicha de piaçava gasta, e a boca sempre extensa num sorriso duvidoso. Apesar de tantas diferenças ambos tem uma coisa em comum, o gosto pelas danças. Bem diferente do muxuango, em todos os aspectos, o mocorongo soube vencer as adversidades do caminho escolhido até chegar à planície, enfrentou matas e montanhas, acompanhando a expansão dos canaviais e dos engenhos de café. Surgiram em dois momentos da história, um no correr do século XVIII e o outro um século depois. As dificuldades pelo caminho só lhe deram cada vez mais ânimo para continuar lutando e vencendo os desafios da floresta para cultivar a agricultura. Sente-se como um embrião que germina. O mocorongo vive nos aluviões e nas proximidades das vertentes das montanhas. É, pois encontrado na região de Murundu e mais ao norte do Estado do Rio de Janeiro, entrando até o sul do Espírito Santo. Curiosamente os trens rústicos e mistos que circulam nesta região por serem lentos e velhos são popularmente apelidados de mocorongos. Fisicamente ele possui a pele terrosa, os olhos oblongos (alongados no comprimento), os cabelos negros e corredios, o osso da maçã do rosto em relevo, a barbicha de piaçava gasta, e a boca sempre extensa num sorriso duvidoso. O mocorongo é manso e trabalhador, é tímido e paciente, atarracado e musculoso, tem o passo miúdo, o gesto mole e porte indolente. Todas estas características são também típicas do “puri”, o direto descendente da nação indígena que se extinguiu no fim do século XIX. Ao obter contato com a floresta, desenvolve energia suficiente para vencer as adversidades e obter lucros com o café, mas vive também do milho, arroz, feijão, banana e a prática da caça. O que sobra da colheita vende na outra estação, nas vendas ou na pilação afreguesada. Uma das grandes características típicas deste homem é o saudar, que o torna reconhecível no primeiro momento, um aperto de mão flácida, seguido de um toque mútuo no ombro direito e finalizando com um novo aperto de mão. Diferentemente do muxuango, o negro e o cafuzo aparecem no meio dos mocorongos e essa renovação de cor se dá com o desmoronamento das senzalas. O seu modo de viver é variado, por causa das mudanças do cenário onde habita, é esquivo, e vive escondido nos matos, quando é pobre muda de patrão, e casa como tatu de cova. Quando é remediado compra logo o seu sítio e é nas encostas dos morros ou nas vertentes que faz a sua moradia. A casa do mocorongo é levantada sobre esteios, lembrando as cabanas dos índios goytacazes na beirada ou no meio das lagoas, mura-a de sopapo, cobre de telhas ou de pequenas tábuas, faz o reboco, mas na maioria das vezes não pinta. Desse modo Lamego (op. cit.), pagina XV, exemplifica: “Dependurada ao lado, sorridente de balaústres, debruça-se infalivelmente a varanda convidativa, sobre um esboço de jardim minúsculo. As flores favoritas são explosivas de colorido: o lilás vivíssimo da jurujuba, o beijo cor-de-rosa, a insolência gritante das cristas de galo e o girassol cronométrico. Os lírios escarlates e amarelos põem uma nota espanholesca de alegria no terreiro ressecado. O conjunto é perfumado pelo manjericão, pela losna, pela “catinga de mim”, ou “catinga de mulata”. Esta última, de nomes ternamente brasileiros, quando o ramo lembrativo sai das mãos de uma cabocla para a lapela do namorado”. O mocorongo apesar de ter aparecido bem depois do muxuango, é na verdade um recémchegado, “um intruso na terra virgem da floresta”, onde se encontra à sua revelia. Não é imigrante, mas fugitivo; não é conquistador, mas refugiado. A motivação que o faz exaltar e
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o torna capaz de resistir à absorção do meio não lhe tira o jeito arredio de “chegadiço espantado”, e com isso a sua casta inferior se enobrece. Apesar de tantas diferenças, estes dois elementos possuem duas características bem peculiares, o gosto pela dança e a timidez. E é nas festas que o vemos comumente dançando “Marrecas”, “Mineiras”, “Quindins”, “Extravagâncias” e, sobretudo, a mais conhecida e irresistível, revolucionante e regionalmente campista, a “Mana-Chica”. Na timidez, enquanto o muxuango é um ser retardatário envergonhado, o mocorongo é um chegadiço espantado. Enquanto o muxuango encalhou nos areais da costa, o meio montanhoso e florestal reabilita aos poucos o mocorongo, cujo sangue bárbaro já calmo, sente a contaminação e a revitalização, estimulado pelo café das montanhas. 3. DOS EXTRATOS SOBRE A LINGUAGEM

Uma das maneiras de compreender a história de um povo, ou de diversos povos está no estudo de como sucedeu a transformação da linguagem.
“Toda a estruturação da sociedade humana é devida à linguagem”. (Bloomfield, 1933)

3.1

Aspectos Lingüísticos da Baixada Campista

“Já pelejei muito, de pé no chão. De iguá, até trotei, de picuá pelo pescoço adentro, por muitas légua, feito burro, com peitorá vestido puxando instrumento de aradinho nas limpeza da lavora!”.

O texto é do escritor (e médico) José dos Santos Silva, inserido no livro “Carreiras Di-Jáhojinho”, Damadá, Itaperuna, 1989, no qual ele relata vários “causos” da Baixada Campista, descrevendo com precisão o linguajar da população do interior. José dos Santos nasceu no sub-distrito de Goytacazes, filho de uma família de dez irmãos e cresceu dentro dos costumes e passou pelas mesmas necessidades de qualquer família obrigada a sobreviver do trabalho nas lavouras da cana. O linguajar arrastado daqueles tempos não é mais o mesmo, porque algumas expressões sumiram do cotidiano dos moradores, na medida em que a mídia comunicacional começou a invadir as casas por meio da TV, rádio, revistas e diversos outros meios, fazendo as pessoas se adequarem ao vocabulário falado nos centros urbanos. Restam apenas alguns indícios do sotaque e perdidas palavras. O livro “Antropologia Cultural – A Ciência dos Costumes” (Felix M. Keesing, p.20), fala sobre a relação do processo de distribuição da linguagem e sua dinâmica. O homem que viveu a vida toda no campo, mesmo tendo freqüentado a escola tem um estilo próprio de falar, ainda que a televisão tenha invadido sem barreiras há maioria dos lares, algumas palavras ditas pelos ancestrais conseguiram sobreviver às novas tecnologias. O escritor Felix faz essa diferenciação. Com o título, “Crônicas & Causos”, Gil Wagner Quintanilha, p.113, descreve histórias sobre a Baixada, focalizando a língua e os costumes da população. De acordo com ele o lugar viveu anos criando o seu linguajar regional, algumas vezes enriquecendo o vocabulário com palavras não “dicionarizadas”. “São maneiras próprias do nosso falar, uma espécie de cacoete ou sestro a que nos agarramos como exclusividade em nossa conversação. Conheço, por exemplo, o caso de certo campista de Santo Amaro: andava ele numa calçada de Porto Alegre, quando ouviu dois senhores que iam pouco adiante, tendo um, respondido ao outro assim: - Rapaz, aquilo é
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um “lamparão” de teimoso. Aquele “tisgo” é muito “ico”. O santamarense não aguentou e bateu no ombro do autor daquela saborosa frase: - Se mal lhe pergunto, o senhor é de Campos”. Algumas palavras com origem na Baixada correm também pelo centro de Campos, um exemplo é a palavra cabrunco, pronunciada quando quer dizer que alguém é ruim. Lamego (op. cit. p.98), conta a origem da palavra: a palavra é proveniente de uma doença que atinge o gado bovino. O carbúnculo, essa doença contagiosa é transmitida ao homem através do contato com o couro de algum animal infectado pela doença. Mas como o homem do campo, ignorante no linguajar não compreende o nome da doença ele provavelmente ao transmitir a informação para outro cidadão acabava pronunciando a palavra de forma incorreta, e o carbúnculo, vira cabrúnculo, passando posteriormente à pronúncia que hoje conhecemos; o cabrunco. Na realidade, a questão da linguagem muxuanga, ainda existente na memória dos mais velhos, embora possa ser mais discutida pelo ponto de vista etimológico, está sendo destruída pelo espírito do tempo, segundo definição que passa pela leitura de Heidegger e W. Benjamim. Isso quer dizer que os meios de comunicação e os avanços científicos e tecnológicos vão mudando a característica vivencial do interior, fazendo com que a grandeza de sua cultura seja substituída pela cultura de massa produzida pela televisão. O próprio Pierre Lévy (“Tecnologia da Inteligência”, Ed. 34, São Paulo, 1999) assinala que “não existe mais o interior, porque é possível estabelecer, de qualquer lugar do planeta, as formas de comunicação criadas pelas novas tecnologias”. No caso do linguajar da Baixada Campista e de todo o Município, foi necessário buscar no limiar dos tempos, e em livros de lingüística a compreensão e o entendimento de como isso ocorreu. Vale lembrar que, ali, viviam os índios goitacazes que, ao perceberem a chegada do homem branco, intruso, fez de tudo para manter a posse da terra, mas diante da técnica do homem, o índio aos poucos recua, se entrega ao contato, e é subjugado pelo homem, que dizima toda uma nação. Mas a terra vinga-se e destrói no homem o espírito aventureiro e o subjuga. Derrotado, o homem já não tem mais forças para lutar, mantém a sua riqueza cultural, mas aos poucos vai perdendo parte dela diante do ostracismo. E assim, passa então a se deixar levar diante dos novos tempos. É através das novas gerações que a cultura vai declinando diante do novo. O contato com outros povos, de outras origens, de outras culturas miscigena a lingüística, perde-se os valores, agrega-se novos elementos. E a riqueza cultural de um povo, aos poucos some, a vida cotidiana absorve o novo e o velho, mas no convívio diuturno a cultura antiga cede espaço. Os novos valores, conceitos e padrões morais são bem diferentes. As linguagens escritas e faladas se distanciam, e assim as palavras e expressões que, outrora eram a riqueza de um povo, desaparecem por completo. Hoje, apesar de tanto tempo, ainda descobrimos pequenos fragmentos nítidos de uma cultura existente, de um modo de vida, de um padrão, de maneiras e formas de linguagem falada e através do livro “Antropologia Cultural – a ciência dos costumes”, passamos a compreender um pouco sobre a história do linguajar da Baixada. 4. MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

O Estado do Rio de Janeiro é muito rico em expressões da cultura popular tradicional, muito embora esse universo ainda permaneça desconhecido para a maioria dos Fluminenses. As danças e folguedos, vinculados aos ciclos de Natal e Reis, ao Carnaval e ao ciclo Junino, manifestam-se também nas festas de padroeiros, em comemorações diversas (aniversários,
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casamentos, batizados) ou em dias comuns, cuja motivação transita entre a vontade de brincar e a dançar. As Regiões Norte e Noroeste são grandes cartões postais desse patrimônio cultural do qual o Estado do Rio de Janeiro é portador. 4.1 Aspectos Existenciais da Cultura Negra no Norte Fluminense1

Nossa história política e cultural transformou diferenças em desigualdades que são percebidas nos processos de aprendizagem que criam preconceitos e hierarquizam sujeitos e culturas, valorizando os princípios fundadores de umas em detrimento de outras. ( Sérgio Luiz P.Silva, 2007)

Sempre situado num panorama adverso, o negro brasileiro guardou um traço fundamental das culturas africanas, o que lhe garantiu a possibilidade de reconstruir novos laços identitários e de solidariedade: a relação coletiva com a terra. As comunidades afrodescendentes do Norte Fluminense são ricas em elementos estéticos e têm valorizado o reconhecimento de seu campo simbólico com a afirmação de suas pertenças identitárias, por meio de suas práticas folclóricas e culturais e seus resgates históricos. A busca pelo mapeamento desses elementos estéticos, através de registros videográficos e fotográficos, tem sido uma prática constante, inclusive uma prática das próprias comunidades. Ou seja, vê-se que tais grupos, a partir de seus festejos e atividades culturais, religiosas etc., têm registrado esses momentos como um modo de criação de suas memórias visuais. As comunidades têm se pronunciado visualmente e todo material produzido serve como documentação visual dos valores culturais, costumes, retratos, enfim, registros que funcionam como material etnográfico e sociocultural para análise das identidades das comunidades e grupos culturais. Essas pequenas populações realizam uma representação de si através das imagens e isso se transforma numa prática mantenedora de autoreconhecimento e afirmação de valores simbólicos. Os elementos simbólicos e os artefatos culturais são determinantes na investigação das identidades visuais no sentido de realizar interpretações sobre o conteúdo imagético representado. Tem-se como ponto fundamental que toda imagem tem um sentido cultural, sobretudo quando se trata de pessoas e grupos. O resultado documental dessa prática tem adquirido a mesma importância que a cultura material que elas produzem. Dentro desse contexto, o processo de análise e interpretação das imagens comunitárias deve considerar a seleção de signos presentes na imagem que ajudem a delimitar o padrão simbólico da cultura e da identidade em questão. Esse é um procedimento que visa associar a imagem literal à imagem simbólica para a identificação do pronunciamento visual na análise. A proliferação de vídeodocumentários, amadores e profissionais, tenta resgatar, por meio da facilidade dos recursos digitais hoje popularizados, valores culturais que são recriações e releituras de antigos valores, mas que ganham força pela representação do passado e projeção do futuro dessas identidades comunitárias. Na Região do Norte Fluminense, as comunidades tentam manter seus valores identitários com base na propagação estética de seus valores simbólicos. A documentação visual das atividades das comunidades possibilita a publicização das imagens culturais e identitárias
In: CULTURA VISUAL E AFIRMAÇÕES IDENTITÁRIAS: Novos Processos de Reconhecimento Social. SILVA Sérgio Luiz P. 2007 - (Professor Associado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF).
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para além das fronteiras do Norte do Estado do Rio de Janeiro e contribui para facilitar o mapeamento dos valores culturais da Região. As comunidades afrodescendentes da Região Norte Fluminense mantêm suas pertenças identitárias com base na produção de seus artefatos, suas formas de sociabilidade e a manutenção cultural cada vez mais afirmativa. Com isso, o pronunciamento visual das comunidades da Região tem contribuído para dimensionar as mensagens simbólicas por meio de representações estéticas, no sentido de propagar as referências de sua imagem e suas afirmações sociais e culturais, ou seja, as representações estéticas das mesmas tem servido de cartão de apresentação e afirmação de sua identidade. As atribuições de significados, representações e valorações na afirmação da identidade através da imagem são formas de pronunciamento cada vez mais utilizadas na delimitação dos campos simbólicos de ação. Desse modo, as imagens ganham valores diferenciados das palavras e as identidades a elas atribuídas adquirem um viés cada vez mais efetivo no processo de reconhecimento dos espaços públicos, sobretudo midiáticos. A propagação das imagens dessas comunidades ganha força publicizadora com bases nos elementos estéticos nelas representados, sobretudo em se tratando de comunidade afrodescendentes que têm valorizado um resgate cultural pós-colonial, o que reforça o argumento de que os valores simbólicos dão legitimidades às formas de representação e reconhecimento das identidades culturais (Hall, 2003; Woodward, 2003; Bhabha, 2000). Além dessa forma de resistência da cultura negra, os terreiros tem um importante papel, pois difundem e recriam, através de suas atividades, não uma cultura monolítica, mas conhecimentos, concepções filosóficas e estéticas, formas alimentares, música, dança: um patrimônio de mitos, lendas, refrões, em constante recriação, pois são respostas às demandas da realidade vivenciada por negros reunidos no cativeiro. Funcionam como pólo irradiador do complexo sistema cultural no qual as manifestações orais, histórias sagradas, contos, adivinhas, lendas, expressões do canto, constituem um de seus elementos, que deve ser compreendido em função do momento em que ocorrem, dos partícipes e dos instrumentos. 4.2 O Fado

(...) nos séculos XVIII e XIX era dança a popular do Brasil, executada ao som da viola e do adufe (...) cuja coreografia de roda era movimentada apresentando sapateados e meneios sensuais". Parada (1995: 204). Foto 2 – Região Norte Fluminense, O Fado em Quissamã

Fonte:http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/roteiro-manifestacoes-culturais/

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Baile popular típico do Estado do Rio de Janeiro que só permanece preservado no Município de Quissamã. A suíte é dançada ao som de viola, pandeiro e coreografada por palmas e sapateados. A festa começa com uma Cantiga de Reis, seguida de louvação ao dono da casa e a sua família.
"Toda pesquisa o indica e ninguém mais duvida que o fado tenha nascido brasileiro e emigrado para Portugal, onde se nacionalizou”. (An'Augusta Rodrigues, 1973)
2

4.2.1

Origens

De origem afro-brasileira, é considerado pertencente à área dos fandangos, apresentando ritmo original e versos rústicos, cantados por repentistas. O Fado surge em um momento da história Fluminense em que o então distrito de Quissamã e toda Região Norte do Estado eram conhecidos como a "Nova Zona do Açúcar", quando no final do século XIX, plantações de cana dominavam a paisagem natural do lugar. O primeiro relato sobre sua existência foi feita por Lamego (1934: 86) descrevendo a dança que vinha dos "casinhotos e senzalas", comprovando-a como de origem afro-brasileira. Mário de Andrade fala sobre o Fado praticado no Brasil no final do século XIX, que nada teria em comum com a canção lusitana de mesmo nome. O próprio Mário também observou, através do romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias, a existência de um baile no Rio de Janeiro com acompanhamento de viola e coreografia variada com estalidos de dedos, palmas e sapateados, curiosamente, semelhante ao estilo português. Ao que tudo indica, apesar do Fado manter-se ativo somente em Quissamã, já foi bastante popular em outros municípios da Região Norte-Fluminense sendo um dos bailes mais apreciados e freqüentados pela população de baixa renda. Também em outras cidades do Estado tal manifestação pode ser encontrada, mas em franco processo de desaparecimento em detrimento da influência dos grandes centros urbanos. 4.2.2 Formato das Danças

O Fado pode ser considerado um conjunto de danças encadeadas, também conhecido como suíte, dançada ao som de viola e adufe; hoje, substituído pelo pandeiro. Assemelha-se a uma quadrilha européia e é conduzido por repentistas. Uma série de pequenos rituais compõe o baile. Travassos (1987: 167) assim explica: "(...) a festa deve começar com uma cantiga de reis, seguida de louvações ao dono da casa e sua família. Folia de reis e Fado, portanto, são manifestações habitualmente conjugadas na Região". Em Quissamã, o Fado é apresentado em casas, salões e bairros rurais, principalmente na localidade de Machadinha, fazenda histórica constituída por uma capela (Nossa Senhora do Patrocínio), pelas ruínas do Solar e pela antiga senzala (hoje habitação dos descendentes de escravos) e provável local de origem da manifestação. Atualmente ele também é apresentando em festas e uma vez por mês a dança é realizada na Biblioteca Pública Municipal. São as chamadas "Sextas Culturais", um projeto composto por uma exposição literária, seguida de uma apresentação da dança. Ao longo do salão, ficam dispostos pequenos grupos de dois pares de casais formando uma cruz, ou seja, fazendo uma referência à religiosidade dos participantes.

2

Folclorista, pesquisadora e autora de vários livros e artigos sobre o folclore Fluminense.
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Outra diferença entre o Fado e os demais bailes populares é que ele é, conforme o costume local, "da parte de Deus", ou seja, pode ser realizado durante o período da Quaresma como atesta Travassos (op. cit,): "Ele ocorre semanalmente, nas noites de sábado (...) período em que muitos católicos se abstêm de dançar. Isto não significa, porém, que se trate de uma festa religiosa, mas apenas que ela é aceita sem reservas na moral popular". Apesar de a apresentação do Fado fazer parte da programação cultural da cidade, a relação da dança com a sociedade quissamaense é dúbia. Para Ana Alice Barcelos, "existem os que encaram o Fado como dança de gente muito humilde, com certo preconceito". Porém, por haver um processo de inclusão da dança na programação cultural oficial da cidade, ao mesmo tempo o Fado passa a ser legitimador desta identidade cultural postulada, pois as apresentações são apreciadas pelo próprio público local, que entende a manifestação como uma amostra da cultura de raiz local, uma legítima manifestação de descendentes dos escravos. 4.2.3 Preservação e Sobrevivência

As principais vias de acesso à cidade de Quissamã, além das estradas vicinais, estão todas asfaltadas; muitas linhas de ônibus ligam a Campos, Macaé, Niterói e Rio de Janeiro. Antes de se tornar Município, não havia uma conexão direta com a freguesia, apenas estradas de terra. Essa avalanche de transformações ocorridas, principalmente nos últimos vinte anos (quando o então distrito saiu de um ostracismo econômico e voltou a prosperar), mudou muito a fisionomia da cidade que, antes, vivia em isolamento. Isolamento esse que talvez tenha ajudado a manter o Fado no anonimato, mas deixando sê-lo genuinamente, em suas características mais próximas das originais, sem tantos jogos de forças culturais, tanto em seu formato típico como em forma genuína de entretenimento. Mas este é um caminho que já não é mais possível de ser trilhado. Desde sua emancipação, no final da década de 80, a cidade de Quissamã não soube de imediato, como fazer para manter e preservar o Fado. A Prefeitura percebeu que se não houvesse intervenção, aos poucos o baile iria se extinguir. Não haveria um eixo de renovação, uma vez que novas formas de entretenimento como as discotecas e shows no clube da cidade e uma série de opções conseqüentes do avanço do mercado audiovisual (reflexos da globalização) passaram a concorrer e seduzir os mais jovens, residentes das comunidades rurais. Pensou-se então em criar uma oficina para assim poder manter e preservar a dança, o que, por outro lado, sacrificaria a espontaneidade do baile. De fato, se não houvesse acontecido tal ação pública que interferisse para a sua sobrevivência, o Fado teria acabado. Por isso, o grupo encarregado de sua preservação começou a fazer um trabalho de valorização para que a auto-estima se renovasse, assim como o interesse das gerações mais jovens por sua cultura de raiz. Além das apresentações na biblioteca, a Prefeitura incentiva a dança na localidade de Machadinha para que a própria comunidade se divirta e cultive suas tradições locais. Encontra-se em andamento um projeto que visa introduzir o Fado nas escolas do Município, dando ênfase, primeiro, às instituições rurais através de oficinas, para que o Fado se sustente. Até a primeira metade da década de oitenta, os bailes na sede da associação de moradores de Machadinha (fazenda principal de onde surgiu o bailado) eram sempre cheios e só acabavam com o sol raiando de manhã. Desde então, o Fado não sofreu grandes transformações em sua estrutura e características.

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A Mana Chica
Foto 3 – Região Norte Fluminense, A Mana Chica em Campos dos Goytacazes

Fonte: Acervo Oficina de Estudos do Patrimônio Cultural de Campos dos Goytacazes

A Mana-Chica é executada em pares, ao modo do fado e com uma formação similar à da quadrilha, na qual ela se filia. Os instrumentos que a acompanham são de origem européia, a sanfona e a viola. Dançada nas antigas fazendas da região, certamente, em um raro momento de confraternização entre senhores e escravos, assemelha-se a outras danças da "família" da quadrilha, mas também a outras, específicas de outras Microrregiões, entre elas a marreca, a andorinha, a mineira, o mangalô, o barabadás, o feijão miúdo, o quindim, o balão faceiro e o gambá ou extravagância. Ela é muito encontrada ainda, nas Regiões de Campos e Quissamã.
Aí vem a Mana Chica Mana Chica do caboio Quem nunca comeu pimenta Não sabe que coisa é moio (domínio popular)

4.4

O Jongo

“(...)O jongo é uma forma de expressão que integra percussão de tambores, dança coletiva e elementos mágico-poéticos. Tem suas raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, sobretudo os de língua bantu. É cantado e tocado de diversas formas, dependendo da comunidade que o pratica. Consolidou-se entre os escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar, localizadas no Sudeste brasileiro, principalmente no vale do Rio Paraíba do Sul. É um elemento de identidade e resistência cultural para várias comunidades e também espaço de manutenção, circulação e renovação do seu universo simbólico. (...)” Luiz Fernando de Almeida Presidente do IPHAN

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Foto 4 – Região Norte Fluminense, O Jongo

Fonte: Disponível em<http ://www.uniblog.com.br/img/posts/imagem9/92865.jpg>. Acesso em 02/12/2009

Segundo definição de Luis da Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro, Edição de Ouro, São Paulo), Jongo é uma dança de negros, violenta, com coreografia em roda que se movimenta em sentido lunar, isto é, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, como é de costume em todas as danças de africanos. É sempre acompanhado por instrumentos de percussão - pequenos e grandes tambores chamados de tambores-de-jongo, tambu, candongueiro ou gazunga. Pode ser, também, usado o chocalho pelo cantador, solista ou acompanhado por outros cantadores, quase sempre respondendo em coro o refrão. No canto da roda exibem-se, com frenéticas umbigadas, os dançarinos, individualmente, numa coreografia específica e interessante. O jongo é uma forma de louvação aos antepassados, consolidação de tradições e afirmação de identidades. Ele tem raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, principalmente os de língua bantu. São sugestivos dessas origens, o profundo respeito aos ancestrais, a valorização dos enigmas cantados e o elemento coreográfico da umbigada. No Brasil, o jongo se consolidou entre os escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar, no Sudeste brasileiro, principalmente no vale do rio Paraíba do Sul. Forma de expressão afro-brasileira, o jongo integra percussão de tambores, dança coletiva e práticas de magia. O jongo não possui calendário e é uma dança de terreiro, da qual participam pessoas de todas as idades e de ambos os sexos. A coreografia é simples e livre: os participantes, dispostos em círculo, batem palmas e improvisam evoluções. Ao centro fica o jongueiro ou solista, que também faz evoluções ao redor do grupo e dele se aproxima, convidando os dançadores para o interior da roda. No entanto, acontece, em geral, nos quintais das periferias urbanas e de algumas comunidades rurais do Sudeste brasileiro, assim como nas festas dos santos católicos e divindades afro-brasileiras, nas festas juninas, na festa do Divino e no dia 13 de maio, dia da abolição dos escravos.

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Foto 5 – Região Norte Fluminense, O Jongo em Quissamã

Fonte: Disponível em :<http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/roteiro-manifestacoes-culturais/>

Nos tempos da escravidão, a poesia metafórica do jongo permitiu que os praticantes da dança se comunicassem por meio de “pontos” que os capatazes e senhores não conseguiam compreender. Sempre esteve, assim, em uma dimensão marginal, em que os negros falam de si, de sua comunidade, por meio da crônica e da linguagem cifrada. Tambu, batuque, tambor, caxambu. O jongo tem diversos nomes, e é cantado e tocado de diversas formas, dependendo da comunidade que o pratica. Se existem diferenças de lugar para lugar, há também semelhanças, características comuns em todas as manifestações do jongo. 4.4.1 A Territorialidade e o Jongo

Originário dos batuques e danças de rodas da tradição Bantu, o Jongo apresenta-se como dança comunitária de origem rural que remonta à época da escravidão. Pesquisadores do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, registraram, em 2004, cerca de 15 comunidades jongueiras nos Estados de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Mas percebem indícios de que haveria aproximadamente 20 comunidades e cerca de 25 grupos. Dentre as comunidades catalogadas, destacaram-se o Jongo de núcleos de: • Morro do Carmo e Bracuí (Angra dos Reis) - RJ • Barra do Piraí - RJ, • Campelo (Bom Jesus de Itabapoana ) – RJ • Miracema - RJ • Pinheiral - RJ • Santo Antônio de Pádua – RJ • Serrinha (Rio de Janeiro) - RJ • São José da Serra (Valença) - RJ • Guaratinguetá - SP, Cunha - SP • Piquete - SP • São Luís do Piraitinga - SP • Lagoinha - SP • Taubaté – SP
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Mapa 1 - Região Sudeste, Distribuição do Caxambu, Jongo e Tambor identificados pelo IPHAN entre 2002 e 2006

Fonte: IPHAN

No Sudeste brasileiro, em muitas das comunidades com descendentes de escravos, o jongo desapareceu, tanto pela dispersão de seus praticantes, em conseqüência da migração, e dos processos de urbanização, como pelo obscurecimento destas práticas por outras expressões de maior apelo, junto ao crescente mercado de bens simbólicos. Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito.

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Mapa 2 – Rio de Janeiro, Distribuição Espacial dos Municípios com Ocorrência do Jongo 2006

Fonte: Mapa do Rio de Janeiro e Regiões de ocorrência de Jongo (adaptado).

3

Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito. Há comunidades, nas quais o jongo atua como um fator de integração, construção de identidades e reafirmação de valores comuns – estratégias em que a memória e a criatividade são fundamentais. Diante das desigualdades econômicas, da exclusão social e da invisibilidade deste fazer cultural junto aos demais segmentos da sociedade brasileira, as comunidades jongueiras têm desenvolvido soluções próprias, alternativas para a preservação de seus saberes e expressões. As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam freqüentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais. E, há comunidades, em que não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro.
Fotos 6 e 7 – Região Norte Fluminense, A Roda do Jongo

Crédito: Ricardo Gomes Lima

- In: SILVA, 2006, p. 20. Base Cartográfica IBGE 2000. Projeto Geográfico e Cartográfico by Geog. Rafael Sanzio A. dos Anjos - CREA 15604/D - Projeto Geografia Afro-Brasileira - Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica. Apoio Técnico: Marcelo Silva e Adailton da Silva - Deptº de Geografia - Universidade de Brasília. Brasília - DF. 2006. E-mail: ciga@unb.br.
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4.4.2

O Jongo nas Regiões Norte e Noroeste Fluminense

O jongo sempre foi, tradicionalmente, cantado e dançado por negros oriundos da escravidão, não se estabelecendo o tempo de seu início, mas pode-se imaginar que os primeiros jongueiros vieram para o Brasil, oriundos de Angola, e aqui desenvolveram esta cultura e a mantiveram mesmo depois da abolição da escravatura. De acordo com o escritor Osório Peixoto Silva, para os campistas Jongo é dança praticada em terreiro de chão batido, com um ou dois tambores - cavados em pau ôco - e acompanhado por palmas. Forma-se o círculo dos dançadores, um deles entra no círculo, conta sua história em monólogo ou palavras estranhas, sempre procurando o ponto que soltará e que caberá no ritmo. Há, ainda, o Jongo, com ligações religiosas, geralmente com a umbanda, mas igualmente com os pontos repetidos pelos dançadores, a partir do cântico do ogã. E quando o ponto é bom pode ser cantado por muito tempo nos terreiros, como esta estrofe seguinte: “Toda vez que caio Caio diferente, Ameaço pra trás Mas caio pra frente”. Incontestavelmente, esta foi/é a dança mais conhecida e praticada por toda Baixada Campista, como herança forte dos escravos. O Jongo era a diversão dos fins de semana, nos rituais das festas lúdicas e considerado a paixão de qualquer família de afro-descendente da Região. Em quase todas as usinas, ou no que restou delas e, hoje, na periferia da cidade de Campos, encontram-se, ainda, mas não com facilidade, resquícios de jongueiros, na sua maioria pessoas negras que trabalharam durante muitos anos em alguma atividade relacionada à cana-de-açúcar e ao trato com o gado de corte e leite. “Antônio Pinto Miranda diz que Jongo na Angola se chama Djongô e é dança e ritual de tribos angolanas dedicadas exclusivamente ao pastoreio. “O jongo é um ritual macumbal, sub-tribo dos bantos, ocupando a zona semidesértica de toda cordilheira Chela. A maneira de dançar eles usam nas festas e nos lazeres. “A este ritual damos o nome de Djongô, que seria nosso Jongo, com suas variações e adaptações”. Ele acrescenta, ainda, que o Jongo em Angola é sempre dançado cultuando o boi, que para algumas tribos é quase sagrado. O boi deixou de ser um animal para o comércio e passou a ser a imagem principal dos seus cantos, contos, lendas e músicas. Talvez conservando essa tradição angolana, também se encontra em Campos vários pontos que se fala sobre o boi: “Encontrei meu Santo Antônio Na cancela do currá Levanta meu Santo Antônio, Deixa meu gado passá”. 4.4.3 O Jongo na Atualidade

Na tentativa de ativar o conhecimento sobre as manifestações culturais resultantes de fenômenos da sociedade, pesquisadores vêm promovendo e estimulando os estudos na área da folkcomunicação - rótulo destinado a propiciar reflexões sobre a interface entre a comunicação e o folclore, o que levaria/leva a uma análise aprofundada sobre o assunto. Através da pesquisa feita pelos alunos do núcleo de iniciação a pesquisa científica em Campos dos Goytacazes O grupo conseguiu, até agora, catalogar mais de 100 pontos de jongo, através de entrevistas com velhos aficionados dessas manifestações e a perspectiva é a de que a médio e longo prazo, possa recolher, pelo menos, 200 a 300 composições que muito podem contribuir, a partir da sociolingüística, com o pensamento e a inspiração dos negros escravos ou livres nos últimos 120 anos.

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Foto 8 – Região Noroeste Fluminense, Caxambu em Santo Antônio de Pádua

Fonte Disponível em :<http://www.flickr.com/photos/lulassant3> Crédito: Luis Santana

A pesquisa realizada em 2003 conseguiu a descoberta dos Quilombos de Barrinha e Deserto Feliz - Encontro com antigos jongueiros de Goytacazes, nas dependências do Solar do Colégio, na Baixada Campista. Recolhimento de letras e músicas de jongos remontando os tempos da escravidão. E mostras de jongadas, em Barrinha. (São Francisco do Itabapoana). Também através desta mesma pesquisa foi possível colher Letras e músicas dos jongos existentes na periferia de Campos dos Goytacazes, Quissamâ, São Francisco de Itabapoana, Cardoso Moreira, Italva, São João da Barra e Miracema e Santo Antonio de Pádua. Em Campos a pesquisa precisa ainda ser feita nos bairros mais afastados, como Parque da Aldeia, Cidade Luz, Custodópolis, Morro de Fátima, Eldorado, Bandeirantes. E distritos como: Travessão, Ururaí, Barcelos, Goytacazes e Santa Cruz. Em outras cidades, o grupo já esteve em São Francisco de Itabapoana, Cambuci e São Fidelis.
Foto 9 - Região Noroeste Fluminense, Santo Antonio de Pádua, Criança Jongueira

Fonte: Disponível em :<http://www.flickr.com/photos/lulassant3 -> Crédito: Luis Santana

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A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação em uma roda de jongo não estivesse mais limitada aos integrantes das comunidades jongueiras. Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo. Assim, aos jongueiros se coloca o desafio de dialogar com os processos da cultura de massa e do universo do entretenimento e, ao mesmo tempo, manter os fundamentos de sua prática. Essas questões têm sido tratadas de forma crítica pelos jongueiros por meio de iniciativas como o Encontro de Jongueiros – evento anual que reúne comunidades e praticantes do jongo. E também por meio da Rede de Memória do Jongo, nascida a partir do Encontro de Jongueiros, com o objetivo de, segundo seus idealizadores, estreitar os laços de sociabilidade entre as comunidades jongueiras e fortalecer os canais de articulação com a sociedade em geral. Desde 1996 realiza-se anualmente o Encontro de Jongueiros. Trata-se de uma espécie de festival itinerante, sediado a cada ano por um grupo, em sua cidade. Até o momento têm participado jongueiros dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas a tendência é de se agregarem, progressivamente, outros grupos. Durante um ou dois dias consecutivos, as comunidades se reúnem para discutir suas diferentes perspectivas sobre a tradição jongueira, seus problemas, suas estratégias e esperanças. Além disso, sempre dançam à noite, em um logradouro público, e cada grupo se apresenta por um período determinado. O primeiro encontro aconteceu em 1996, em Santo Antônio de Pádua (RJ), idealizado por Hélio Machado, admirador do jongo e professor do campus avançado da Universidade Federal Fluminense (UFF) naquela cidade.
Foto 10 – 12º Encontro de Jongueiros em Piquete - SP, abril de 2008

Fonte: Disponível em :< http://www.flickr.com/ photos/lulassant3 –> Crédito: Luis Santana

Desde o V Encontro, realizado no ano 2000, passaram a fazer parte da programação do evento, além das rodas de jongo, debates sobre temas de interesse dos grupos e oficinas para intercâmbio de conhecimentos e experiências. Os encontros atraem pesquisadores, artistas e estudantes.

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A partir deles surgiu o movimento chamado Rede de Memória do Jongo, que tem por objetivo estreitar os laços de solidariedade entre comunidades praticantes, criar e fortalecer canais que favoreçam a articulação entre jongueiros e entre estes e a sociedade em geral.

4.4.4

Nuances da nomenclatura

O vocabulário do jongo se caracteriza pela presença importante de palavras originárias de línguas bantu (angoma, caxambu, jongo, tambu, cumba, zambi, ganazambi, guaiá) e de noções e valores que se relacionam com os das populações africanas e afro-americanas: reverência aos mortos; uso mágico da palavra cantada e da metáfora, à qual se atribuem forças que atuam sobre os vivos e sobre as coisas; crença na possessão por divindades e espíritos ancestrais, que deve ser evitada no jongo, mas produzida em rituais religiosos da umbanda; preferência pelas formas de canto e dança “dialogais” (Ortiz, 1985). Tambor, tambu, angona, caxambu e jongo são palavras que têm mais de um significado. No nível genérico, designam a totalidade da forma de expressão e o próprio evento em que ocorre. Em outro nível, têm acepções específicas. Assim, caxambu é o nome dado ao tambor de maiores dimensões do conjunto instrumental que acompanha a dança, em vários locais. Em Miracema e em Santo Antônio de Pádua, Região Noroeste do Estado, a palavra generalizou se e designa a forma de expressão em sua totalidade, envolvendo canto, dança, festa. Segundo Maria de Lourdes B. Ribeiro, caxambu é tanto o instrumento membranofone quanto a dança, em Minas Gerais. Analogamente, tambor (e tambu) é o nome de um dos tambores que acompanha a dança. Faz par com o candongueiro, este de menores dimensões. Cantar ou “tirar” um jongo é sinônimo de cantar ou “tirar” um ponto. Atualmente, parece haver preferência pela denominação genérica caxambu, no Norte Fluminense, enquanto na Região Sul do Estado do Rio e em São Paulo (incluindo a capital), jongo é mais freqüente como termo genérico.

Foto 11 – Região Noroeste Fluminense, Jongo de Santo Antônio de Pádua, 1976.

Fonte:JONGO NO SUDESTE, Brasília: IPHAN, 2007 (Dossiê IPHAN 05, p. 58) Crédito: José Moreira Frade.

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Figura 1 – Partituras de Composições do Jongo

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Fonte: X Encontro dos Jongueiros. Santo Antônio de Pádua, 18/12/2005

4.5

O Boi Malhadinho

O Boi Malhadinho ocorre em Quissamã e é considerado uma variação das diversas danças dramáticas que ocorrem em todo o país, onde o boi é o personagem central, junto com séquito de personagens que o acompanha.
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Foto 12 – Região Norte Fluminense, O Boi Malhadinho em Quissamã

Fonte: Disponível em: <http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/roteiromanifestacoes-culturais/>Acesso em 12/12/2009

Em Quissamã, o Boi Malhadinho acontece durante o período do carnaval. A brincadeira é composta pelo Boi, a Boneca, a Mulinha, Pai João e Mãe Maria e alguns mascarados. O grupo fantasiado percorre as ruas cantando e dançando. Durante a apresentação, o Boi investe contra os assistentes, provocando medo e tumulto, enquanto Pai João e Mãe Maria tentam controlá-lo. Enquanto o boi dança e corre, a Boneca dança protegida pela Mulinha, que também dança sapateando forte. Os mascarados provocam os espectadores, fazendo palhaçadas e dando sustos. 4.6 A Folia de Reis

A repercussão da prosperidade econômica no processo de ocupação foi enorme, de modo que contribuiu para o surgimento de núcleos urbanos e agrícolas. É exatamente neste cenário que surgem as manifestações das Folias de Reis, percorrendo pelos caminhos do ouro das Minas Gerais e se estabelecendo na Região Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, sempre com o mesmo objetivo religioso – o da anunciação do nascimento do Menino Jesus. Para fazer parte de um grupo de Folia de Reis, o folião, além de cantar, aprender a tocar um instrumento, tem obrigações e deveres propostos pelo Capitão ou Mestre. A submissão a essas ordens é condição primeira para a sua admissão à jornada. Os grupos mais organizados preparam um verdadeiro código de ética, denominado Estatuto que é lido pelo Mestre diante do candidato e na presença dos demais foliões, em cerimônia simples e íntima. Encabeçada pelo mestre, folião-guia, reiseiro ou embaixador, cada folia tem como símbolo máximo a bandeira, um estandarte colorido com a estampa de um protetor, Jesus, uma santa, Nossa Senhora, os três reis ou a estrela que os guiou a Belém. Ao mestre e ao contramestre juntam-se atrás, foliões com instrumentos e personagens que variam de região para região, como os reis, pastorinhas, coroinhas e os saltitantes palhaços, com suas fardas multicoloridas e máscaras horripilantes. A prática da folia deriva de devoção ou promessa quando a criação do grupo se deve a retribuição do líder a uma cura ou outra graça divina. Muitas folias devocionais surgiram assim e perduraram após a quitação das promessas, que devem ser pagas por sete anos, sob
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Mestres ou Responsáveis que são donos de terreiros de Umbanda, Palhaços que trazem guias de seus orixás, visita de bandeira, durante o giro, o gongá (altar nos cultos umbandistas). Tudo ainda feito por devoção ou pagamento de promessa, e como tal devendo ser cumprido por sete anos ou múltiplos de sete.
Foto 13 – Região Norte Fluminense, O reisado de São Fidélis

Fonte: Disponível em :<http://www.saofidelis.rj.gov.br> Acesso em 20/12/2009

Em folias paulistas e mineiras, os palhaços vão adiante, enquanto nas fluminenses ficam na retaguarda, proibidos de ultrapassar a bandeira. A ambiguidade da figura é apontada pelo professor e pesquisador Daniel Bitter:4 “Num determinado momento, os palhaços devem pedir perdão ao Deus Menino e, para isso, retiram as máscaras para se aproximar do altar onde estão as imagens dos santos. Ocorre uma conversão simbólica e se diz que os palhaços se transformam nos Reis Magos. O palhaço ocupa lugar importante no sistema ritual, ao afirmar a superioridade moral do bem sobre o mal”. Muitas folias mineiras mantêm a tradição dos tambores forrados com couro, que produzem som mais rouco. Entre as fluminenses, o náilon produz sonoridade mais estridente. Um dos motivos da adesão ao produto sintético é a natureza itinerante das folias, que saem às ruas em época pródiga em temporais e precisam ter zelo redobrado na proteção dos instrumentos quando caem os aguaceiros. “O couro, quando molha, fica frouxo e não dá para tocar. O grupo de meu pai já voltou para casa no meio de uma jornada, porque o couro estava tão molhado que só se ouvia o toque da sanfona”, conta a fluminense Clenilza. “De couro, só o pandeiro e um lado dos bumbos. No outro, o pessoal daqui põe náilon, para não ficar na mão se chover forte.”

4 Autor de tese de doutorado sobre as funções rituais da bandeira e da máscara, premiada em primeiro lugar, em 2008, no Concurso Sílvio Romero de Monografias do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

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Foto 14 - Região Noroeste Fluminense, Encontro de Folias de Reis em Miracema - Janeiro/2008 Foto 15 - Região Noroeste Fluminense, I Encontro Regional de Folias de Reis em Italva

Fonte:Disponível em::<http://2.bp.blogspot.com/_1HRN6G_TOU8/S0UPoTwJeFI/AAAAAAAAC6Q/hOy-wAu9w8/s1600h/folia7.jpg>Acesso em 20/12/2009 Fonte: Disponível em:<http://2.bp.blogspot.com/_1HRN6G_TOU8/S0TVbSHKJ2I/AAAAAAAAC6A/gUYRjLuN8zE/s1600 -h/capa_folia_italva.jpg>Acesso em 12/12/2009

Outra arte valorizada é a das máscaras, principal atributo dos palhaços na função de atrair a atenção na peregrinação das folias. No Rio de Janeiro, um dos criadores de máscaras mais requisitados é Manoel Batista Cordeiro Neto, de 31 anos, de Miracema, na Região Noroeste. Batista, conta que herdou o ofício do pai. Produz mais de 60 máscaras por ano. Sua fama se estende à Zona da Mata mineira e ao sul capixaba. As máscaras são feitas com couro de boi curtido, ornamentado com produtos como espuma colorida e ponta de rabo de boi, nas sobrancelhas e bigodes. “Meu pai, antigamente, usava couro de preguiça, tamanduá ou quati”, conta Batista, que amacia o rabo de boi com sabão em pó, xampu e óleo de ovo ou de uva. Ele recebe pedidos o ano todo, sobretudo a partir de setembro, e só deixa de fazer máscaras às vésperas do Carnaval, quando se dedica a alegorias para essa festa, e na quaresma: “A procura aumenta, mas não faço mais por falta de quem ajude. Corto o couro, pinto, espero secar, colo – é tudo por minha conta”, diz o artesão. Nos grupos que fazem a caminhada e as visitas, cada folião tem seu lugar e ocupa uma hierarquia em cujo topo aparece o capitão, em certos grupos aparece o palhaço, bem como o alferes, os cantores, o porta-bandeira e demais componentes que, segundo o costume, totalizam de 12 a 15 componentes em cada grupo. Autodenominando-se “foliões”, esses grupos, organizados por devoção ou pagamento de promessas, fazem sua jornada ou giro da noite do dia 24 de dezembro ao dia 20 de Janeiro, por influência de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. Caminham no ritmo das Marchas de Rua, cantam defronte ao dono da casa, cantam Jornadas dos Reis Magos ou passagens da vida de Cristo, finalizando com o agradecimento e as despedidas. Esses grupos, em sua maioria, são integrados por homens adultos e crianças, cabendo às senhoras os cargos mais importantes na organização. Papel dos figurantes: O Capitão ou Mestre: principal elemento do grupo tem autoridade total. É responsável pelo desempenho dos demais e também, encarregado das necessidades materiais da corpora90 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

ção: uniforme, instrumental, bandeira. É ele ainda quem puxa os cantos, entoando em primeira ou segunda voz. O Contramestre: função imediatamente inferior à do mestre, encarregado de recolher os donativos e completar a cantoria, harmonizando uma terça acima ou abaixo da voz do mestre. É quem o substitui nas faltas eventuais. O Alferes, Bandeireiro ou Bandeirista: tem como função carregar a bandeira. É ele, também, o responsável pela organização do grupo. Distribuem os uniformes, as toalhas e verifica todos os instrumentos. Ele também deve informar ao primeiro capitão sobre o que o grupo recebeu de oferenda, para que este possa cantar em agradecimento ao anfitrião. O Palhaço é uma figura enigmática, alegre e não aparece no Livro Sagrado. Personagem contraditório, o palhaço é o mais rejeitado pela folia. Para alguns, ele representa Herodes, rei que queria matar o menino Jesus. Para outros, ele representa homens que se vestiam de palhaços para atrapalhar ou despistar o rei e seus soldados na perseguição ao Menino Jesus. Além desses mais comuns, costumam aparecer outros figurantes, cujo desempenho é dado às crianças – os Três Reis do Oriente (meninos), Pastorinhas (meninas), Anjo (meninas), Pastores (meninos).
Fotos 16 e 17 – Região Noroeste Fluminense, Folia "Estrela do Oriente" em Miracema

Fonte: Disponível em:<http://3.bp.blogspot.com/_1HRN6G_TOU8/S0JnJksEgkI/AAAAAAAAC3Q /uDbIxhw3caA/s 1600-h/folia1.JPG>

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Fotos 18 e 19 – Região Noroeste Fluminense, Folia de Reis em São Fidelis

Fonte:Disponível em:<http://2.bp.blogspot.com/_1HRN6G_TOU8/S0UPoTwJeFI/AAAAAAAAC6Q /hOy-wAu9w-8/s1600-h/folia8.jpg>

Cantoria As cantorias são a base dos rituais. Todos os foliões, exceto o alferes e o palhaço, desempenham funções musicais. Na música há regras que definem a atuação dos foliões. Em geral são sete as vozes que entoam os cânticos. O coro segue à risca a toada de preferência do capitão, que começa tirando os versos a partir de um repertório que muitas vezes pode ser improvisado. Como maestro, é ele quem comanda o terno e puxa a cantoria. Depois que ele termina alguns versos, começam as respostas, repetição dos versos cantados em entradas sucessivas. A segunda e a terceira voz realizam a primeira resposta integral da cantoria, geralmente fazendo a terceira nota no tom inicial do capitão. Essa primeira resposta é conhecida como contralto. As quarta e quinta vozes entram na metade dos versos, cantando uma oitava acima. No final entra a sexta resposta, que é um grito muito fino, entoando um arrastado de lamento. As melodias e as letras das músicas são tradicionais, imutáveis, mas os capitães inventam outras, geralmente improvisadas na oportunidade de pedir uma esmola ou fazer um agradecimento. Música, letra e toada, muda de grupo para grupo. Os ritmos também são diferentes. No município de São Fidélis, a instalação das Folias de Reis se deu no contexto da zona rural nos séculos passados, cujas divisas do município com a região do Estado de Minas Gerais, por exemplo, favoreceu para isso, inclusive o ritmo das folias, segundo o mestre da Folia Estrela Guia de São Fidélis, Ademilton Filho, o ritmo das folias existentes, até hoje, é o ritmo mineiro.

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Fotos 20 e 21 – Região Noroeste Fluminense, Folia de Reis em Porciúncula

Fonte: Disponível em:<http://www.porciuncula.rj.gov.br >Acesso em 12/12/2009

Em Porciúncula, as Folias de Reis Divino Pai Eterno, comandada pelo Mestre Joaquim Raimundo Ramos, e São Sebastião, comandada pela dona Luzia da Conceição Maciel são apoiadas pelo premiado Projeto MOCART – Movimento Cultural Artístico Raízes da Terra e fazem jornada pela zona urbana e rural de Porciúncula. Seu Joaquim Raimundo Ramos explica que as folias saem em duas jornadas: de 24 de dezembro a 6 de Janeiro, em homenagem a Santos Reis (os Reis Magos), e de 6 a 20 de Janeiro, em homenagem a São Sebastião. “O bonito da folia é estar revivendo o fato mais marcante da humanidade, que é o nascimento de Jesus”, diz “seu” Joaquim. “Além de trazer de volta o nascimento de Jesus, ela tem muita religiosidade e devoção, pois muitas pessoas são curadas através da fé na folia. Um exemplo disso eu tenho em casa mesmo: há 35 anos, minha mãe estava cega já fazia mais de cinco anos, e a medicina não tinha mais recursos para ela. Quando eu estava subindo com a folia, ela pediu a meu irmão que a levasse até a rua para receber a folia. Ali, ela ajoelhou, colocamos a bandeira na mão dela e meu irmão a guiou de volta para casa. Entramos com a folia e começamos a cantar e ninguém percebeu nada de diferente. Ao término da cantoria, quando saímos, ela pediu para levar a bandeira até a rua e então nós percebemos que ela saiu sozinha com a bandeira pelas ruas, sem precisar de ninguém para guiála. Eu acredito que ela foi curada pela fé” – conclui seu Joaquim Raimundo Ramos que, com 58 anos, desde os nove anos canta folia, recita alguns versos em honra do Menino Jesus: “Meia-noite era dada Todo campo enfloresceu No céu brilhou uma estrela Na terra Cristo nasceu Para dar exemplo ao mundo Foi nascer tão pobrezim Foi nascido numa gruta Numa moita de capim Bendito louvado seja O Senhor daquela cruz Intenção dos três reis magos Para sempre Amém Jesus.”

A festa da Folia de Reis vem sofrendo modificações em virtude da migração do homem para a cidade e da invasão de elementos urbanos nas Regiões rurais. Contribuem para isso, sem
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dúvida, os meios de comunicação. Os dançadores estão inseridos num mundo em constante transformação de cujas mudanças eles não querem participar e, por outro lado, não têm como evitar. 4.7 A Cavalhada

Folguedo que remonta a Idade Média é representado no Brasil desde o período colonial. Representa as lutas históricas entre mouros e cristãos, onde os cristãos sempre vencem. Cavalos e cavaleiros se dividem em dois grupos ricamente vestidos e adornados, um azul, cristãos e o outro vermelho, mouros, que engendram uma batalha – as manobras, iniciadas com voltas no campo e seguidas de “ataques”, aos pares, às argolinhas, pães, forquilhas e potes de barro pendurados em fios sob uma trave, tentando quebrá-los com lanças. Por fim, percorrem novamente o campo acenando lenços brancos para o público, seguindo para a capela na intenção de oferecerem a vitória ao Santo. No Estado do Rio de Janeiro, realiza-se em dias de santos padroeiros, e não chega a constituir-se em um auto, pois, não há dramatização. Significa, antes, a encenação de justas e torneios medievais: “Os grupos se defrontam representando os mouros e cristãos, mostrando uma representação do que aconteceu na chamada Guerra Santa, conforme o que existiu durante séculos na Europa, particularmente na Itália”. Toda a população dessa Região, eminentemente católica, mostra a sua religiosidade, mantendo acesas as chamas da fé nas festas de Santo Amaro e São Martinho, onde o ponto alto é a procissão e a apresentação da Cavalhada. De todas as atrações da festa do padroeiro, a Cavalhada é a mais cobiçada, tanto pelos participantes como por espectadores formados por curiosos, professores, pesquisadores e gente do povo. “Uma festa que os participantes consideram “herança recebida para transmitir” (sic), a prática, de acordo com costumes ibéricos antiqüíssimos, que vem desde o século XVIII. Em Campos dos Goytacazes a Cavalhada é realizada todo dia 15 de janeiro em homenagem a Santo Amaro, no distrito do mesmo nome. É um espetáculo desenvolvido em campo de futebol, onde 24 cavaleiros em um torneio equestre revivem as lutas da Idade Média entre mouros e cristãos. Os cristãos sempre vencem. A primeira Cavalhada documentada em Campos dos Goytacazes aconteceu no Solar do Colégio, em outubro de 1730, segundo Alberto Ribeiro Lamego. De um modo geral, o torneio consta de três partes obrigatórias: visita a Igreja, corrida de argolinhas e escaramuças (carreira de parelhas sem lanças). Em Campos dos Goytacazes, os cavaleiros usam: camisas de cetim (azul ou encarnada), calças brancas, perneiras, talabartes (cinturão), lanças e espadas. Os “capitães” e os “tenentes” de ambos cordões levam plumas nos capacetes. O torneio é caracterizado por uma série de jogos que são denominadas “manobras”. Cada manobra é executada de forma a revezar em duas carreiras os vinte cavalheiros (dez em cada cordão). Tratando-se de uma festa religiosa, em homenagem a Santo Amaro, os vencedores são indefectivelmente os cavaleiros azuis que representam os cristãos, havendo no final a conversão dos mouros à fé católica. A importância da presença da Cavalhada, na festa de Santo Amaro, é para toda a comunidade campista muito significativa. É uma manifestação folclórica mantida pela comunidade local e faz parte do Patrimônio Imaterial Regional. Nela, está presente um conjunto de conhecimentos: adestramento dos animais, habilidade do cavaleiro, confecção dos trajes e adereços dos cavaleiros e jaezes para os animais, cantigas, músicas, etc.
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Fotos 22 e 23 -Região Norte Fluminense, Cavalhada em Santo Amaro, Campos dos Goytacazes

Fonte: Disponível em:< http://www.uenf.br/Uenf/Pages/CCH/UESI/Ceramica/?&modelo=1&cod_pag=961&tabela=&np= Cavalhada&nc=Cultura+Regional&buscaEdicao=&grupo=CERAMICA&p=>. Acesso em 12/12/2009. Créditos: Magnum silva

4.8

Boi Pintadinho / Boi Samba

Pertencente ao chamado ciclo do boi, o boi-pintadinho é um folguedo das Regiões Norte e Noroeste Fluminense, à semelhança ao boi-de-mamão em Santa Catarina, o bumba-meuboi do Maranhão, ao boi-bumbá da região Norte e tantos outros folguedos no Brasil que remontam ao importante papel colonizador do boi no período colonial. Há alguns anos este folguedo migrou para o sul do Espírito Santo (e daí para o Norte Fluminense). Eu sou o boi pintadinho Boi corredor de fama Que tanto corre no duro Como na várzea de lama Corro fora destes campos Corro dentro da caatinga Corro quatro, cinco léguas De suor nem uma pinga Corro fora nestes campos Que o mesmo ar se arrebenta Corro quatro, cinco léguas Ninguém me vê dar a venta (domínio popular)

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Foto 24 – Região Norte Fluminense, Boi Pintadinho em Campos dos Goytacazes

Fonte: Acervo Officina de Estudos do Patrimônio Cultural de Campos dos Goytacazes

Os brincantes deste boi se organizam em cordões, tomando a cor azul e encenando para diferenciarem-se, saem cantando versos, tocando instrumentos rústicos como latas e caixas. Em ocasiões se apresentam com um séqüito de personagens concernentes à morte e ressurreição do boi, como Francisco e Catirina, o fazendeiro, o vigário entre outros, sem necessariamente haver a dramatização. Também podem contar com personagens místicos, como a burrinha, a ema e o urubu. Em Campos dos Goytacazes, perdeu-se completamente o componente dramático, e mais recentemente a folia do boi-pintadinho tem dado lugar ao boi-samba, que a exemplo das escolas de samba desfilam na avenida durante ao carnaval. Assim, o boi-pintadinho perdeu seu traço de espontaneidade, sendo substituído por uma organização mais formal e dependente de verbas para sua realização. No Noroeste Fluminense, o boi-pintadinho aparece como parte integrante de outro folguedo, o mineiro-pau.

4.9

Mineiro – pau

No Noroeste do Estado, principalmente nos municípios de Itaocara, Miracema, Santo Antônio de Pádua e Laje do Muriaé, encontra-se o Mineiro-pau; uma dança só de homens, que usam bastões de madeira, com os quais desenvolvem uma complicada coreografia, cujas batidas fazem a marcação dos tempos do compasso musical. Nesses municípios, as figuras do boi, da mulinha, do jaraguá, do gavião, lideradas pelo toureiro acompanham essa dança.

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5. 5.1

SABERES E FAZERES Ferreiros e Seleiros5

Foi no bojo da economia canavieira no século XVIII, que se sentiu a necessidade de atrair artesãos especializados. A tarefa, a princípio, parece não ter sido fácil. Pero de Góis, em 1546, escreveu “sobre a sua dificuldade em atrair um capataz competente” (Marques e Serrão, 1992: 257). Se considerarmos a reduzida população portuguesa e a vasta extensão territorial da colônia e a demanda por mão-de-obra especializada podemos admitir esta dificuldade. Para Campos dos Goytacazes, é factível que, em face da existência anterior de uma economia pecuarista, estes artesãos, além dos seleiros, já estivessem em atividade na Região, no entanto, a escassez de documentos para o período não permite avaliar sua importância. Sua existência pode ser notada com mais freqüência a partir de meados do século XVIII e, sobretudo, no século XIX, quando se intensificam as atividades urbanas. Até esta data, as unidades produtivas, voltadas para a produção de açúcar, eram ainda as áreas de residências preferidas dos moradores na Região. Na planície as residências eram sem sua maioria rústicas e feitas de “sopapo”, de planta baixa coberta de telhas e escassa variedade de bens móveis. De acordo com Faria, “a riqueza estava associada ao número de cabeças de gado e de escravos” (1998: 356), não sendo a moradia um sinal de status social. Não se pode precisar através de pesquisa documental se nestas unidades produtivas havia oficinas de ferreiros e seleiros. De um modo geral a documentação com a qual se trabalhou não especifica o que seriam “as benfeitorias” que compõem a casa de morada ou vivenda. Esta observação, que também é feita por Faria (1998: 356), não permite avaliar a presença dos artesãos nestas unidades produtivas. É somente a partir de 1835, quando a vila é elevada à categoria de cidade que ela adquire novos elementos urbanos. A cidade passa lentamente a atrair a elite local iniciando assim a construção dos belos palacetes que ainda permanecem na paisagem urbana, a raiz do crescimento da economia açucareira. O trabalho do ferreiro teve uma demanda extraordinária neste período, para atender a procura por grampos, balcões, alpendres, etc. As atividades mineradoras no interior das Minas Gerais, que tiveram início a finais do século XVIII, contribuíram para o desenvolvimento da metalurgia. No século XIX, são inauguradas inúmeras fundições no Rio de Janeiro. Não havendo a tradição européia das corporações de ofício, os artesãos exercem seus ofícios livremente e sem rigorosa fiscalização, o ferreiro torna-se, no meio urbano, um profissional especializado empobrecido, como observa Spix e Martius (1981: 75). O anúncio publicado no Jornal Monitor Campista, no dia 13 de abril do ano de 1850, dá a conhecer alguns detalhes sobre os ferreiros em Campos dos Goytacazes. Nele o anunciante oferece "negros ferreiros" entre os pertences de sua ferraria, colocada à venda. Já de antemão percebe-se a diversidade da malha social, vinculada ao ofício. Da mesma forma, fica evidenciada a condição de “coisa”, a que estava submetida uma expressiva parcela da sociedade.

5 In: TEIXEIRA, Simonne (2004): “Ferreiros e Seleiros: ofícios tradicionais. Inventário e Pesquisa”. In: MENEGUELLO, Cristina et RUBINO, Silvana (orgs.) Patrimônio Industrial: perspectivas e abordagens. Campinas/SP: Ed. UNICAMP e Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial, CD Rom (ISBN 85-9049441-1).

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“Rua da Constituição, n.º 13 – João Carlos Dubois vende sua ferraria com todos os seus utensílios, tanto de ferraria, como de fundições de ferro, bronze, e caldeireiro, e na mesma tem muito bons ternos de moendas, tanto horisontaes como verticaes, assim como três alambiques novos de um e meio dous caldos, vende também negros ferreiros, caldeireiros, e fundidores; vende tudo por seu justo valor, junto ou separado, como melhor convier o comprador; a quem convier poderá procurar na mesma casa, que achará quem tratar.” Foto 25 – Região Norte Fluminense, Sr. Edílson Trabalhando na Forja - Ferraria em Campos dos Goytacazes

Credito: Simone Teixeira

Os mistérios do fogo e da forja foram passados de tios para sobrinhos, de pais para filhos. Os senhores do fogo transmitem seu conhecimento na prática diária de suas atividades, mantendo, deste modo, tradições seculares. Na cidade de Campos dos Goytacazes, encontram-se atualmente, algumas oficinas de ferreiros e seleiros em atividade. Os produtos se reduzem hoje, a poucos objetos. Fundamentalmente, produzem ferraduras e cravos. Importante dizer que em Campos dos Goytacazes sobrevivem muitos carroceiros, que singram o trânsito com suas carroças transportando desde areia a pequenas mudanças, sendo estes os principais clientes das ferrarias. Mesmo porque muitas lojas especializadas em produtos agrícolas preferem comprar fora as ferraduras que atendem aos fazendeiros da Região. Além destes objetos, pode-se incluir molas de charretes e outras peças para carroça, dobradiça de cancela, freio de cavalos, espora, espichador de arame, cavadeira, martelo de calceteiro, marcador de animais e outros objetos para a construção civil, tais: pé-decabra, talhadeira e ponteira. Para competitividade no mercado local, vendem a preços mínimos seus produtos às lojas do setor. Os profissionais declaram que possuem melhor mercado nos municípios vizinhos – São João da Barra, Italva, São Fidelis, Itaperuna, Cabo Frio e Cachoeiro do Itapemirim (ES) – em razão da ausência de ferreiros nestes municípios que contam apenas com ferrador. Lamentavelmente, não se dispõe de informações históricas sobre os seleiros. Em Campos, dos Goytacazes, o ofício deve, sem dúvida, remontar ao período inicial de ocupação, onde predominou a atividade pecuária. No entanto, não há registros específicos. Destaca-se a chamada sela campista própria para a cavalgadura na Região e em processo de desaparecimento. Apesar das feiras agro-pecuárias terem a cada ano uma importância maior no calendário de eventos das cidades no Norte Fluminense, o trabalho do seleiro local não tem tido o reconhecimento necessário, tendo os comerciantes dado preferência às selas provenientes do sul do país e as importadas.
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Foto 26 – Região Norte Fluminense, Vista Interior da Oficina – Selaria do Sr. Álvaro (filho) em Campos dos Goytacazes

Crédito: Simone Teixeira

5.2

Medicina Popular

O homem, desde seu aparecimento na terra, sentiu-se frágil diante das forças da natureza. Muito ligado aos fenômenos que se davam em seu habitat, amedrontado e prostrado, procurou, a exemplo dos animais, desenvolverem suas condições naturais e os necessários meios de defesa. A crença de que o mundo se regia por bons e maus espíritos, impulsionou-o a se preservar dos maus e tirar benefícios dos bons. Medicina e religião sempre estiveram ligadas, desde os primórdios da humanidade através dos rituais de invocação do sobrenatural. Para curar suas doenças recorriam à ação de feiticeiros, curandeiros que lhes indicavam o caminho mais acertado para se livrarem das enfermidades e conjurarem os “maus espíritos”. Buscava-se a proteção em amuletos, talismãs, orações, tatuagens e outras crenças que chegaram até nós. A prática de uma medicina caseira no Brasil sempre foi exercida pelos leigos que usavam seus conhecimentos empíricos para curar. Baseados em informações obtidas por transmissão oral e em almanaques e compêndios que chegavam às suas mãos, praticavam livremente suas curas. Na medicina popular brasileira, há três influências óbvias: dos ameríndios, dos portugueses e dos negros, estes formando um complexo evidenciado nos catimbós e umbandas. A medicina vegetal é de origem ameríndia; a animal é, principalmente, legado africano. As tradições religiosas contribuíram para a formação de um complexo de crendices que acompanham até hoje o povo, confundindo fetichismo e animismo de negro e do índio com os santos cristãos (amuletos, talismãs religiosos, bentinhos, patuás, figas - estes símbolos de força e vigor contra o mal e fálico primitivo). “É bom ter uma figa cruzada em casa para afastar o mau-olhado”. Dentre a enorme gama de conhecedores do tratamento caseiro, três agentes se destacam pelo saber e experiência no campo das terapias através das plantas, de produtos animais e minerais em menor escala ou de práticas outras ligadas a crendices, superstições e rituais de inspiração religiosa de origens diversas. Estes agentes merecem uma referência mais profunda, dada a sua presença em todo o território Fluminense, como acontece em todo o
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Brasil, sendo sua atividade permanente nas comunidades que, se em parte a consideram marginal, de outra feita lhe proporcionam grande prestígio e influência junto aos seus clientes. Alguns destes agentes fazem desta atividade profissão e outros atendem esporadicamente. Constituem eles as figuras do Curandeiro, do Rezador ou Benzedor e do Raizeiro. • Rezador

Também chamado benzedor, o rezador, homem ou mulher, cura ou afasta os males através de rezas proferidas ritualmente, às vezes associadas a simpatias. Segundo Alceu Maynard Araújo, os rezadores ou benzedores são os que mais divulgam as simpatias. Enquanto recita a prece, o rezador faz gestos, sinais, cruzes, aspersões, exorcismos, tocando ou não o corpo do doente quando próximo deste; pode rezar também à distância, sem ver o enfermo. • Raizeiro

Entre os agentes de cura, o raizeiro é aquele que lida especificamente com ervas medicinais, sabendo como prepará-las e usá-las para curar doenças diversas. • Curandeiro

Entre os agentes de cura, ocupa lugar proeminente o curandeiro que, após experiência como benzedor ou rezador, sobe em importância, passando a considerar-se ligado ao sobrenatural. É confundido com o rezador e, enquanto este atende a chamados dos clientes em seus domicílios, o curandeiro, dada a sua “alta hierarquia”, passa a atender apenas em sua própria casa. As Regiões Norte e Noroeste Fluminense carregam no seu histórico de formação étnica a influência de portugueses, índios e negros. Todos esses povos trouxeram em suas bagagens, os seus conhecimentos e muito ainda se preserva dessa riqueza. Um estudo mais aprofundado e sistematizado sobre esse assunto, ainda se faz necessário. 5.3 Da Gastronomia

“(...) A experiência gastronômica transcende à experiência estética, tendo em vista que a degustação de uma iguaria típica pode constituir uma forma de consumo simbólico, de aproximação com a realidade visitada, tornando esta realidade também passível de uma “degustação”. (MINTZ 2001, p.34)

Os distintos hábitos alimentares das Regiões brasileiras expõem o poder da diversidade gastronômica que um país é capaz de oferecer aos seus moradores e aos seus visitantes. Isso faz da gastronomia uma atividade que conecta/reúne as pessoas de uma sociedade, desta com os seus elementos culturais em compartilhamento, o que fortalece as tradições com a elaboração e as formas de preparos de alimentos e bebidas que, com o passar do tempo, tornam-se “pratos e bebidas típicas”, configurando-se como um dos maiores atrativos turístico-culturais. Em Quissamã, o projeto Raízes do Sabor resgata as receitas dos afro-descendentes. Realiza degustações, promovidas em festas culturais dentro e fora do Município. Os visitantes que participam de visitas guiadas à Machadinha, podem encontrar no cardápio: • • • • • • Mulato velho - (feijoada especial servida com peixe salgado e desfiado com pedaços de abóbora); Sopa de leite - (carne-seca assada coberta com pirão de leite); Capitão de feijão - (bolinho de feijão temperado); Tapioca com sassá - (tipo de peixe pequeno); Bolo falso - (farinha de mandioca, queijo, ovos, coco e leite); Sanema - (doce feito com mandioca, ovos, coco e manteiga batida). A massa é enrolada e assada dentro da folha verde da bananeira.
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Fotos 27, 28, 29 e 30 – Região Norte Fluminense, Culinária da Fazenda Machadinha em Quissamã

Fonte: Disponível em :http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/roteiro-manifestacoes-culturais/ Acesso em 20/12/2009

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Fotos 31, 32, 33 e 34 – Região Norte Fluminense, Projeto Raizes em Quissamã

Fonte: http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/roteiro-manifestacoes-culturais/ Acesso em 22/12/2009

A cana-de-açúcar determinou significativamente a culinária da Região Norte Fluminense, tornando os seus doces, delícias afamadas em todo o Brasil. O campista, por exemplo, é conhecido como Papa-Goiaba, dado à fama de sua goiabada cascão.

Fotos 35 e 36 – Região Norte Fluminense, Goiabada Cascão de Campos

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Sem dúvida, os doces típicos são a maior virtude turística do município de Campos dos Goytacazes. A terra propícia ao plantio da cana-de-açúcar, associada à colonização portuguesa e árabe fez com que Campos se especializasse na doceria, onde destacam-se: babas-de-moça, fios-de-ovos, rapaduras, quindins, bom-bocados, melados, goiabadas, e chuviscos. Este, certamente o mais famoso dos doces, que se espalhou pelo mundo. O chuvisco é um doce confeccionado à base de gema de ovo, sendo fabricado em Campos há mais de 145 anos. Ele que deu fama ao Município, é um doce da culinária portuguesa, e foi trazido quando a Família Real Portuguesa foi obrigada a deixar aquele país, para refugiar-se no Rio de Janeiro. Era o doce preferido de D. Pedro I. Mas os detalhes sobre o quotidiano da Família Real Portuguesa, bem como das suas preferências gastronômicas eram mantidos em segredo dentro do palácio, e quase nada vazava para a Corte. Nize Teixeira de Vasconcellos, conhecida como Mulata Teixeira, ganhou esta receita de uma pessoa da capital, Rio de Janeiro, que estava em Campos dos Goytacazes. Esta mestra da arte da doceira, a mais famosa de Campos, recebeu em sua casa o ex-presidente Getúlio Vargas quando visitou Campos e também o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que encomendava os chuviscos produzidos por ela, para serem saboreados no Palácio do Alvorada, em Brasília. Mulata Teixeira nasceu em Campos, em 1897, onde também faleceu, em outubro de 1986, com 89 anos. A partir dela, algumas doceiras ganharam fama, e por terem uma boa clientela, tiveram condições de abrir e expandir seus próprios negócios, como é o caso de Maria Eugênia de Moraes e Souza, proprietária da “M. Eu... Doce”. Outras doceiras, que não possuíam capital, se uniram e fundaram, em 1989, a COOPERDOCE, a única cooperativa de doceiras do Brasil, fundada apenas por mulheres. A sua sede constitui ponto turístico de gastronomia em diversos guias, como o Guia Quatro Rodas, da Editora Abril Cultural. Cada receita, na Cooperativa, produz 800 chuviscos, independente da quantidade de ovos. Uma doceira chega a fazer três receitas diariamente, o que dá um total de 2.400 chuviscos por dia. Em uma semana, a quantidade média é de 12.000 chuviscos, e em um mês a média produtiva é de 48.000 chuviscos. O chuvisco, que era um doce eminentemente artesanal, hoje é produzido em larga escala no Município por três empresas: a COOPERDOCE, a Doces Nolasco, a Doces Caseiros Boas Novas e também pelas principais docerias do Município, como a “M. Eu... Doce, e a Marry & Quel”. Além dos doces, Campos dos Goytacazes tem no robalo outro ponto forte de sua gastronomia. Muito apreciado na Região, o robalo é servido de diversas maneiras, mas o forte é a moqueca, considerada sem igual. A culinária árabe, de tão apreciada, já faz parte do cotidiano das tradições gastronômicas da Região. A Região Noroeste, por causa da sua proximidade com o Estado de Minas Gerais, carrega em seu aporte culinário, traços fortes dessa influência. Em praticamente todos os municípios há um leque de receitas de doces caseiros, como doce de leite, licores, doces cristalizados, compotas de frutas etc., aproveitando a produção de frutas da Região. Em Santo Antônio de Pádua, há uma série de receitas a base de peixes, tanto de água salgada quanto doce. Reflexo da piscicultura da Região, Lage do Muriaé aparece como um dos maiores produtores de alevinos do Brasil.

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Fotos 37 e 38 – Região Noroeste Fluminense, Produtos da Culinária de Porciúncula

6. 6.1

DAS MANIFESTAÇÕES RELIGIOSAS A participação da Igreja Católica no Processo de Ocupação Territorial

A atividade açucareira foi muito impulsionada pelas ordens religiosas. Os jesuítas em 1549 e beneditinos, em 1584, entraram no país e passaram a participar decisivamente do projeto colonizador. Em terras do Norte Fluminense – reconhecidas como das mais férteis para o cultivo da cana de açúcar, os jesuítas comandavam os engenhos do Colégio, Campos dos Goytacazes, e Sant’Ana, em Macaé.
Foto 39 – Padre Jesuíta do Inicio da Colonização

Fonte: www.planeta.terra.com.br

A estreita relação entre Estado e Igreja se expressava na complementaridade de suas ações, funcionando esta última como mediadora entre as culturas indígena e portuguesa, não só do ponto de vista religioso, mas também no exercício do poder civil. As incursões que faziam essas ordens religiosas, partindo das igrejas-matriz estabelecidas no litoral, seguindo geralmente as margens dos rios, subindo as montanhas, foram as principais responsáveis pela primeira ocupação do interior das terras conquistadas. Nesse percurso, os religiosos fundavam colégios, promoviam a catequese e o aldeamento dos indígenas, construíam templos. A igreja-matriz, geralmente situada em posição privilegiada nessas primeiras vilas (conjunto de freguesias mais sede urbana) e depois nas cidades, exercia um duplo papel, sediando os
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ofícios religiosos e guardando os principais registros da vida civil da freguesia – certidões de nascimento, casamento, óbito. Tinha também uma função de vigilância do território. A organização espacial assim produzida, formada pela igreja-matriz e as capelas subordinadas (chamadas de curatos, quando localizadas dentro da mesma freguesia), serviu perfeitamente às conveniências do poder civil que, com freqüência, dela se apropriou para a administração dos primeiros povoamentos.6 Em torno da igreja-matriz, também era comum a realização de feiras, quermesses, festas diversas, polarizando a vida social do local e suas circunvizinhanças. Na proximidade desses prédios, instalaram-se os primeiros pequenos comércios, ranchos, moradias, formando arraiais. Esse papel da Igreja na produção do espaço arquitetônico e urbanístico da Região Norte Fluminense, assim como em outras partes do Brasil, constitui um dos aspectos da influência que ela teve na formação da nacionalidade brasileira. A Igreja esteve à frente da educação, da cultura, da catequese e da assistência social – agente fundamental do método católico de colonizar. Coube à Igreja contribuir para a formação da nacionalidade, aspecto mais nobre da colonização. Quase tudo o que se fazia em matéria de educação, cultura, catequese e assistência social, corria por conta de sua hierarquia, de seu clero secular, das ordens religiosas e das corporações de leigos – irmandades e ordens terceiras. 7Na escola do engenho, era um padre-mestre que ensinava aos meninos.
Foto 40 - Região Norte Fluminense Mosteiro de São Bento em Campos, 2003 Foto 41 - Região Norte Fluminense Casa e Capela do Colégio Jesuíta em Campos, 1994

Fonte: Acervo INEPAC

A capela completava o quadrilátero das edificações, que eram o coração do engenho, além da casa-grande, da senzala e da fábrica. Podia estar isolada, contígua ou integrando o corpo da casa grande, próxima ao engenho e na vizinhança da senzala. A Igreja lucrava na intimidade com a família patriarcal, através do prestígio e da autoridade política8. E também favorecia a manutenção e ao exercício do poder da aristocracia açucareira, uma vez que por muito tempo a educação esteve nas mãos de religiosos, numa conveniente associação o poder temporal desempenhado pelo Senhor de Engenho.

6 7

ITERJ - Op. Cit. HOLLANDA, Sergio Buarque de.História Geral da Civilização Brasileira. Op Cit 8 PAES, Sylvia Márcia. Op. Cit. Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 105

Na capela, eram rezadas as missas que congregavam todas as pessoas da comunidade aos domingos e dias santos, além das datas como batizados, casamentos, funerais e sepultamento. Não era incomum, as capelas superarem as casas-grandes, nos acabamentos e no luxo9. A planta da capela traduzia as conexões e os isolamentos necessários à circulação e permanência das diversos segmentos da comunidade do engenho. Sacristias e coros interligados, privativos das mulheres e dos filhos da família nuclear, uma nave para a família estendida, e o copiar, para os escravos, que também ocupavam a área aberta. O Brasil é hoje o país com a maior população católica e é também o país com maior diversidade de credos. Além dos santos padroeiros, o catolicismo está presente nas manifestações culturais nos municípios sob a forma do reizado e da cavalhada; heranças da colonização portuguesa da herança católica. As Tabelas 1 e 2 registram as festas típicas nos municípios das Regiões Noroeste e Norte realizadas em homenagem aos santos padroeiros. Várias cidades tem o mesmo santo como padroeiro.
Tabela 1 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Padroeiros dos Municípios Data 20/01 04/02 19/03 São Sebastião São José de Leonissa São José Padroeiro • • • • • • 13/06 06/08 15/08 08/09 08/12 Santo Antônio Senhor Bom Jesus Nossa Senhora da Piedade Nossa Senhora da Natividade Nossa Senhora da Conceição • • • • • • • Varre-Sai Aperibé Itaocara Itaperuna São José de Ubá Miracema Porciúncula, Santo Antônio de Pádua Bom Jesus do Itabapoana Laje do Muriaé Natividade Cambuci Italva Município

Feriados Religiosos Católicos: • Corpus Christi – (data móvel) – todos os municípios • Nossa Senhora da Soledade - (último domingo de maio) - Procissão • Carros de boi em Raposo, distrito de Itaperuna • Santa Filomena – 10/8 – Festa e procissão em Varre-Sai

9

GOMES, Geraldo. Entrevista ao Jornal do Commercio de Recife, 1998. Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

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Tabela 2 - Região Norte Fluminense, Relação de Padroeiros dos Municípios Data 17/02 19/03 21/04 24/04 24/06 06/08 08/12 Padroeiro Nossa Senhora do Desterro São José São Francisco de Paula São Fidélis de Sigmaringa São João Batista São Salvador Nossa Senhora da Conceição • • • • • • • • Quissamã Cardoso Moreira São Francisco do Itabapoana São Fidélis Macaé São João da Barra Campos dos Goytacazes Conceição de Macabu Município

Feriados Religiosos Católicos: • • • • • 6.2 Santo Amaro - 15/1 – Cavalhada - realizada há quase 330 anos- Campos dos Goytacazes São Cristóvão - julho - Quissamã Corpus Christi – (data móvel) – Todos os municípios Nossa Senhora da Aparecida – 12/12 – Cavalgada – Quissamã Nossa Senhora da Penha – abril/maio – Penha - Quissamã As Aparições em Natividade

As Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio trazem influências religiosas atribuídas à condição de colonização do território. Há uma grande influência católica, devido à colonização portuguesa e italiana e cultos afrodescendentes pelo grande número de africanos trazidos para o trabalho escravo. Mesmo saindo de suas casas, de suas comunidades, o homem traz consigo aquilo que acredita. E essa crença permanece principalmente em casos de opressão, como foi o caso dos negros. O umbandismo, na atualidade, segundo o presidente da Federação Espírita de Umbanda de Campos, Geraldo Alves Filho, é representado, neste Município, por cerca de 400 centros e cerca de quatro mil aficionados. Há inúmeros templos de distintas igrejas evangélicas, espalhados em todo o território e nas sedes dos municípios, reunindo milhares de crentes. Na Região Noroeste, a cidade de Natividade possui, na religiosidade, uma das suas maiores expressões. O templo, inspirado na última residência de Maria, mãe de Jesus Cristo, em Éfeso, na Turquia, foi erguido pelo médico e advogado, Dr. Fausto de Faria. Com os pés dentro de um regato Nossa Senhora apareceu 5 (cinco) vezes para ele, em 9/05/1967, 17/05/1967, 12/07/1967, 12/07/1968 e dez anos depois, em 12/07/1978. Na terceira aparição ditou-lhe uma mensagem e deixou-lhe uma cefas (pedra), mistério este testemunhado por mais cinco pessoas. Na quarta mensagem, ditou-lhe uma frase sigilosa. Na quinta aparição, em sua última mensagem, deu o seu segundo e último adeus desde Éfeso. A partir destas aparições, o vidente foi até a casa de Maria, na Turquia, registrou todos os detalhes e construiu no local da aparição, no interior de sua fazenda, uma réplica da casa original, Fotos seguintes.
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Foto 42 - Região Noroeste Fluminense, Casa de Maria em Éfeso na Turquia Foto 43 - Região Noroeste Fluminense, Réplica construída em Natividade

Em um cofre para exibição, defronte a entrada, encontra-se a cefas (pedra em aramaico), de cor escura pesando 175 gramas, minério de ferro classificado como hematita especular, ali colocada em atenção ao pedido feito em uma aparição. Uma amiga da família fez o retrato falado. Numa das mensagens, constou também que as mensagens fossem divulgadas. O santuário de Nossa Senhora da Natividade, muito próximo da sede do Município, é aberto à visitação, com entrada franca. O local é parte integrante da fazenda da família, que continua em atividade regular. Construído com recursos próprios e de amigos é mantido pelos filhos do vidente. Anualmente, em julho, mês da maioria das aparições da Santa, cerca de 25.000 pessoas visitam o local.
Fotos 44 e 45 - Região Noroeste Fluminense, Visões Parciais do Sítio dos Milagres

6.3

As Rezadeiras

A força das rezadeiras ainda marca forte presença no interior e muitas ainda conseguem sobreviver, na periferia das cidades do Norte Fluminense. O poder de invocar Deus pedindo forças ecoa por todo ambiente, refletindo na pessoa que carece da prece e das graças. São rezas simples, no fundo do quintal, mas que, para muitos, são os caminhos da cura. A publicação do “Abecedário da Religiosidade Popular”, de Frei Chico e Lélia Coelho Frota, relaciona com clareza a religião dentro das camadas mais humildes e mostra a fragilidade da vida material da maior parte da população. Nos relatos das rezadeiras que, ainda, se perpetuam no tempo, apesar dos avanços nas novas tecnologias, a fé na religião engloba pessoas de todas as classes sociais: “Vem gente de tudo quanto é lugar e, algumas vezes, vem tanta gente que nem tem lugar para todo
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mundo. Eu rezo quebranto, membros torcidos, espinhela caída e tudo quanto é enfermidade”, afirma a conhecidíssima dona Maria Preta, famosa na localidade de Mineiros. Sem medir esforços trata todos com a mesma atenção e tenta transmitir a mesma força no sentido de curar todas as doenças. É dela o seguinte fragmento:
“Lacraia não come, lacraia não bebe corta o rabo, corta a cabeça, nas três pessoas da Santíssima Trindade.”

Na localidade de Saturnino Braga, em Campos dos Goytacazes, Dona Irene Gama, 71 anos - mas os anos não escondem a sua disposição, de dar inveja a muito jovem. Na casa simples, sinais de quem vive na e pela a religiosidade. Na sala apertada, três quadros dividem a pequena parede: Santa Ceia, Nossa Senhora Aparecida e outro com a imagem do Sagrado Coração de Jesus e de Maria. A reza aprendeu com seu avô, Antônio Simão, famoso rezador daquelas paragens até o final do século passado. Diariamente, dezenas de pessoas freqüentam sua casa a procura de alivio para as doenças do corpo e da alma. A maneira de rezar de dona Irene é através de uma tesoura. “O aço da tesoura faz com que o mau olhado não volte para mim. Eu curo qualquer doença, mau olhado, alergia e tudo que faz mal para o coração”. Na hora da reza apenas algumas palavras são nítidas. Na maioria das vezes é um confuso balbucio. Segue uma oração a Santa Bárbara:
“Santa Bárbara se vestiu, Santa Bárbara descansou. Nosso senhor perguntou: aonde vai Bárbara? Vou para o monte, Senhor. Levaste a maldade, o mal de inveja, mal de feitiçaria para os montes sagrados. Para ver o galo cantar. Salve Rainha cravo divino, rosa de amor Nosso Senhor. Se tiver dormindo acordai, acordada ela está vendo esta cruz. Eu rezo essa oração para que no final aprende quem souber, não ensinai. No dia do juízo um grande castigo terá. Obrigado meu pai por mais um dia”.

Enquanto ela reza mais uma pessoa com “mau olhado”, com muita fé e devoção, foi possível anotar mais uma oração:
“Filho, sua cama tem quatro cantos, cada canto um santo, cada canto da sua cama tem o Espírito Santo. Sua cama tem quatro cantos, cada canto tem um santo, no meio da cama tem um letreiro com Divino Espírito Santo. Sua cama tem quatro cantos, quatro anjos te acompanham: meu São Roque, São Matheus, Virgem Maria e meu Senhor Jesus”.

Impossível não se encantar com a situação. Numa casa simples, uma senhora de 71 anos dedica seus dias para ajudar os mais necessitados através de suas orações. Tida para todos como uma líder da comunidade, dá conselhos para qualquer tipo de problema. Até hoje sempre que acontece alguma coisa no lugarejo, as pessoas tratam logo de comunicar à dona Irene, para saber dela o que fazer. Há décadas, quando os trabalhadores da antiga usina de Baixa Grande ficaram sem receber, ela fez um repente para cantar para os donos. A letra dizia assim:
“A usina de Baixa Grande só tem tamanho e beleza faz pagamento ao rico e sacrifica a pobreza. Doutorzinho não demora vai mudar para o céu. Doutorzinho vai fazer companhia a Noel. Doutorzinho este ano fez um papel engraçado, guardou o dinheiro que tinha para não pagar os empregados. Como o salário aumentou ele se arrependeu adizou, o empregado e o dinheiro apareceu. Doutorzinho que quero ver a coisa como é que, quanta infelicidade essa fábrica de papel. Doutorzinho escute bem vê a coisa como é que os pobres passam com café (sic)”.

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Os versos feitos por dona Irene falam de política e tentam orientar os moradores da localidade para a realidade social e é dessa forma que os líderes espirituais acabam se tornando também lideranças política. Nos versos abaixo descreve a política nacional, da Região, homicídios e casos de acidentes na estrada próxima a Saturnino Braga. Uma espécie de reportagem sobre os acontecimentos de seu tempo.
“Na estrada do Axéu se deu um causo maneiro. Um caminhão de Coca-Cola em uma Rural bateu. Eu vou falar com Zé Barbosa para ele ter compaixão para fazer uma estrada reta de Donana a Santo Antônio”. “No dia três de outubro teve uma revolução mataram o chefe político por causa da eleição. Chora toda família, não há dinheiro que pague. Leôncio perdeu a vida por causa de Getúlio Vargas”. “Na estrada do Espinho se deu um causo maneiro. Na rompida do caminho apertaram Batista no dedo. Ai meu Deus que coisa triste, meu Deus que coisa feia. Até hoje não descobriu a máscara vermelha”. “Getúlio Dornelles Vargas foi grande herói varonil, para pobreza foi pai, enfrentou guerra a fuzil, morreu e deixou seu nome no coração do Brasil. A classe proletária deu apoio e proteção, libertou o empregado da cadeia e do patrão. Por isso todos operários traz (sic) ele em seu coração”. O país inteiro sentiu se cala e não diz, mas no coração dos pobres seu nome deixou raiz. Pelas faltas que Getúlio tem feito em nosso país. Para o burguês foi amigo e a pobreza foi pai. O país inteiro sente desta lembrança não saí. “Enquanto existir Brasil o nome dele não caí”.

As rezadeiras continuam trabalhando por todos os lados, nos bairros mais escondidos e ruas mais remotas. Na localidade de Xexé, pertencente ao distrito de Farol, Tereza Silva Santos, de 67 anos, atende todos os dias, a mais de 20 pessoas nos fundos de sua casa, onde construiu um pequeno centro espírita de umbanda para abrigar seus inúmeros santos e atender aqueles que procuram pela paz espiritual. No altar, uma mistura de devoção ao catolicismo e a prática da umbanda. A continuidade do sincretismo religioso dos tempos da escravidão. As imagens de São Jerônimo, Santa Bárbara, São Pedro, São Cosme e Damião, São João Batista, Santo Antônio, São Sebastião, São Lázaro e São Jorge, ficam juntos aos caboclos e a adorada Iemanjá. Todos dividem um pequeno altar e recebem adorações em suas datas especiais. Junto com sua irmã, Olga Benedita Silva, 66 anos, Terezinha, como gosta de ser chamada, atende aos enfermos, sem ter dia e nem horário marcado.
“Fazem fila aqui em casa para conversar comigo. Se Deus me deu de graça tenho que ajudar aqueles que precisam. Comecei a me dedicar a isso quando minha filha tinha seis anos, ela sumia de dentro de casa, ficava perturbada. Levei em tudo quanto foi médico e nada deu jeito, até que uma entidade conversou comigo e me pediu ajuda, em troca curou minha filha. Hoje, ela é feliz e tem uma vida normal como todo mundo”.

Contabilizar todos os casos que Terezinha resolveu fica difícil, entre eles, ela se lembra do caso de um menino, de seis anos, que estava com anemia profunda e, totalmente desenganada pelos médicos, quando procurou a rezadeira. Depois de muita oração e de beber algumas ervas o menino ficou bom, precisando apenas de uma transfusão de sangue para melhorar por completo. De acordo com Terezinha, a correria do dia-a-dia é gratificante quando consegue resolver o problema das pessoas que chegam até sua casa. “Faço tudo em nome da caridade, se eu puder ajudar é só vir até minha casa simples que será com muita satisfação que atenderei”.

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7.

CULTURA

É preciso situar a cultura no coração da política nos nossos países; porque o tempo da cultura é o tempo da cidadania. No âmbito econômico, impulsionar a cultura implica modernizar o tecido produtivo dos nossos países, acabar completamente com o modelo da depredação e avançar em direção a um modelo mais centrado na inteligência e na sensibilidade.
(Ángeles González-Sinde Reig, 2009).
10

A economia da cultura, que envolve produção, circulação e consumo de produtos e serviços culturais, já responde por 7% do PIB mundial. Os produtos culturais são o principal item da pauta de exportações dos Estados Unidos e representam 8% do PIB da Inglaterra. O setor vem ganhando atenção11. O Brasil tem evidente vocação para tornar a economia da cultura um vetor de desenvolvimento qualificado, em razão de nossa diversidade e alta capacidade criativa. Temos importantes diferenciais competitivos, como a excelência dos produtos, a disponibilidade de profissionais de alto nível e a facilidade de absorção de tecnologias. O setor depende pouco de recursos esgotáveis e tem baixo impacto ambiental. Gera produtos com alto valor agregado e é altamente empregador. Seu desenvolvimento econômico vincula-se ao social pelo seu potencial inclusivo e pelo aprimoramento humano inerente à produção e à fruição de cultura.12 A segunda pesquisa lançada pelo convênio MinC-IBGE, Pesquisa de Informações Básicas Municipais (a Munic2006); levantou dados relativos à presença da cultura nas 5.564 cidades brasileiras. O investimento público dos municípios em cultura ainda é bastante restrito, não ultrapassa a média de 0,9% do orçamento total das prefeituras (proporção praticamente idêntica ao orçamento do MinC, frente ao orçamento da União). Recife atualmente é uma das poucas cidades onde esse índice é mais elevado, chega próximo ao recomendado pela UNESCO (2%). A atividade cultural mais presente nos municípios é o artesanato (64,3%), seguida pela dança (56%), bandas (53%) e a capoeira (49%), esta última além da expressiva presença no país é, ao lado da música, um dos segmentos que maior interesse desperta no exterior. Os festivais apresentam-se como a mais dinâmica forma de difusão cultural no país: 49% das cidades contam com festival de cultura popular, 39% com festival de música, 36% com festival de dança, 26% com festival de teatro e 10% com festival de cinema. Para Sind Reig, no âmbito pessoal, incentivar a cultura é investir na liberdade, é dotar cada cidadã e cada cidadão de mais ferramentas para que se desenvolvam individualmente. Mas, se a cultura nos cultiva, é não somente porque aumenta as nossas capacidades, mas também porque nos nutre de valores imprescindíveis, como a responsabilidade e o compromisso, o esforço e a tolerância. Ela altera o modo como nos vemos e, ao fazê-lo, melhora nossa autoestima e, ademais, transforma nossa maneira de ver os outros. Por essa mesma razão, no âmbito cívico, incentivar a cultura significa fortalecer a convivência, reforçar o respeito e lutar contra todas as formas de discriminação.
10

ÁNGELES GONZÁLEZ-SINDE REIG , roteirista e diretora de filmes, e ministra da cultura da Espanha. Global Entertainment and Media Outlook 2004-2008″. Price Waterhouse Coopers, 2004 12 Economia da Cultura - Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, 3/2/2008
11

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111

7.1

Políticas Federais de Cultura

Dentro do Programa Cultura Viva do Governo Federal, as Regiões Norte e Noroeste Fluminense foram contempladas com 13 Pontos de Cultura no Norte e 9 Pontos na Noroeste. Cada projeto recebe a quantia de R$ 180.000,00 para desenvolver suas atividades num período de 4 anos. Ao todo, o Estado do Rio de Janeiro recebeu 187 Pontos de Cultura no último Edital, os quais se somaram aos 75 que já se encontravam em andamento. Neste Edital foi considerada a distribuição dos recursos de acordo também com o número de habitantes por região. As Tabelas (3 e 4 ) listam as instituições e projetos contemplados no edital de 2009.

Tabela 3 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Pontos de Cultura, 2009

Projeto
De Cara na Cultura Bordando o Futuro Centro Cultural AIA Dó, Ré, Mi, Faz Arte e Cultura Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal Itaperuna de Todos os Credos Mambiação - Meio Ambiente, Arte e Ação na Comunidade Rural da Microbacia do Marimbondo Plantando Idéias e Colhendo Soluções: Resgate do Histórico Cultural da Comunidade Rural de Vila de Campo Grande Ponto de Cultura Sementes da Capoeira Projeto Atenas do Noroeste Fluminense Religar Laje do Muriaé

Instituição
Associação Grupo Sócio Cultural Cara da Rua Associação de Bordadeiras de Itaperuna Associação Itaocarense de Artistas Sociedade Musical Lyra de Arion Cooperativa Agrária do Vale do Itabapoana Associação Religiosa de Esino Associação de Moradores e Produtores Rurais de Marimbondo

Município
Miracema Itaperuna Itaocara Santo Antônio de Pádua Bom Jesus do Itabapoana Itaperuna Italva

Associação Cantagalo Associação Caminho da Capoeira Grupo Nativo de Teatro Associação Educacional Cultural Assistencial e Pré-Profissionalizante Associação de Desenvolvimento Comunitário em Purilândia ASPUR

São José de Ubá Porciúncula Natividade Laje do Muriaé

Talentos da Roça Cultura e Cidadania em Purilândia

Porciúncula

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Tabela 4 - Região Noroeste Fluminense, Relação de Pontos de Cultura, 2009

Projeto
Arte de Fibra Casa de Cultura Hip Hop CIEM H² Assentamento Multicultural Cavalgando Saberes, Dedilhando Fazeres: Ação de Salvaguarda da Cultura Popular da Baixada Campista Cultura Ambiental Meio Ambiente Arte e Cultura Implantação do Centro de Cultura e Memória da Microbacia do Rio Ururaí: Cultura, Meio Ambiente e Cidadania Jongo de Barrinha Mana Chica de Gargaú Mestre Fantoche Escola Nossa Gente, Nossa Cultura Ponto de Cultura Fazenda Machadinha Resgate da Memória Musical de São João da Barra Sorriso de Criança

Instituição
Grupo de Desenvolvimento Tecnológico, Harmonia, Homem Habitats – 3HH Centro Integrado de Estudos do Movimento Hip Hop APRAZUP - Associação dos Produtores Rurais do Projeto de Assentamento Zumbi dos Palmares Ass. de Moradores e Amigos de Santo Amaro - AMASA Associação de Desenvolvimento Comunitário de Valão dos Pires APRAAF - Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Antonio de Farias Pro Beach de Vólei de CamposPBVC CREDEQ - Centro de Recuperação de Dependência Química Missão Kerigma. Centro de Formação do Artista Cristão- EFAC Associação de Moradores e Produtores Agrícolas de Carrapato Confederação Brasileira de Caminhadas Anda Brasil Centro Musical e Cultural União dos Operários Associação Cultural Teatral Nós na Rua

Município
Quissamã Macaé

Campos

Campos

Cardoso Moreira

Campos São Francisco de Itabapoana São Francisco de Itabapoana Macaé São Francisco de Itabapoana Quissamã São João da Barra

7.2

Política Estadual de Cultura

O "Projeto de Inventário de Bens Culturais Imóveis – Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro" é resultado de uma parceria entre o SEBRAE-RJ, a UNESCO-Brasil e a Secretaria de Estado de Cultura, através do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, INEPAC. Dentre seus objetivos o projeto pretende resgatar parte da história social, econômica e cultural do Rio de Janeiro e que contribuiu para formação do nosso Estado. O inventário identifica os vestígios materiais sobreviventes ao processo de ocupação do território Fluminense e registra os elementos arquitetônicos e paisagísticos que constituem o "Patrimônio Cultural" edificado pelo homem ao longo dos séculos. Além de relevante pesquisa histórica desenvolvida e disponibilizada no site.13 São eles os caminhos: • Caminhos do Ouro; • Caminhos do Café; • Caminhos do Sal; • Caminhos do Açúcar; • Caminhos Urbanos. Os Caminhos do Café se detém no vale do rio Paraíba do Sul, na Região Sul do Estado e não contempla, por exemplo, os municípios de Porciúncula e Varre-Sai, da Região Noroeste
13

http://www.sebraerj.com.br
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que se dedicam à cafeicultura. No entanto, Anexo figura o extrato com as fazendas que fazem parte do Projeto “Inventário de Bens Culturais Imóveis Desenvolvimento Territorial dos Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro”, INEPAC, 2004, do Ciclo do Café, situadas na Região Noroeste Fluminense. Os Caminhos do Açúcar abrangem a Região Norte Fluminense. 7.3 Políticas Municipais de Cultura

A existência de uma política cultural no município é um dos principais indicadores da importância que o setor tem do ponto de vista da sua gestão. Essa é a tarefa mais relevante e indicadora do compromisso com que se encara a Cultura como atividade essencial integrante do viver da população. Dos municípios brasileiros, 42,1% não têm uma política cultural formulada, o que significa dizer que a Cultura ainda não está incluída na agenda das políticas públicas de uma alta porcentagem de governos municipais. A formação de pessoal voltada especificamente para atender as demandas da Cultura é uma das maneiras eficazes para incluí-la na agenda das políticas públicas locais e regionais. Os 57,9% de municípios que afirmam ter uma política cultural revelam, pelo menos, a compreensão de que Cultura não se resume a promoção de eventos (um reducionismo frequente e equivocado).14 O organismo gestor da Cultura, no ambiente municipal, tem como responsabilidade, em princípio e idealmente, formular e programar uma política a partir da realidade do município, não apenas em termos de seus valores, atitudes, crenças, mitos, imaginário, entre outros, mas também considera a sua realidade socioeconômica. Além de se estribar nas características do município, esta política deve, como qualquer outra política pública, estabelecer prioridades e metas em curto, médio e longo prazo, determinar pessoas, instrumentos e mobiliários necessários assim como prever mecanismos de avaliação de resultados. Do ponto de vista das demandas específicas do setor cultural, estas implicam, dependendo da complexidade do universo cultural do município, na implementação e promoção de instituições de formação e aperfeiçoamento, na promoção de sistemas específicos de produção cultural, na criação de espaços de realização e de difusão cultural, na implementação de programas, projetos e bases institucionais de ação cultural, na criação instrumentos de financiamento para os produtores culturais e, ainda, na criação de legislação e regulação que viabilize a operação, proteção e o incentivo às atividades culturais. Tem-se então um leque que, sem exaurir o tema, passa por questões que abrangem a infraestrutura, a formação tanto de artistas e criadores, quanto de gestores, de empreendedorismo, estímulo à criação, produção, a difusão e circulação, preservação dos patrimônios cultural, histórico e ambiental em todas suas dimensões. O grau de complexidade do setor cultural deixa entrever a necessidade de desenhos e soluções institucionais que lhe correspondam. 7.3.1 Apreciação de Aspectos Estruturantes da Cultura nas Regiões

Foram selecionadas oito (8) dimensões que integram o Índice de Desenvolvimento Cultural, IDC, dos municípios das Regiões Norte e Noroeste com o objetivo de se construir uma primeira apreciação dos aspectos mais estruturantes da situação da Cultura nas Regiões Noroeste e Norte Fluminense.

14

Perfil dos Municípios Brasileiros 2006 /Cultura, IBGE.
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Organização No que diz respeito à estrutura que as Municipalidades usam para gerir a Cultura, 8 em 13 do municípios do Noroeste e 4 em 9, do Norte possuem um organismo dedicado. Ainda há uma parcela importante que tem a Cultura junto com a Educação, enquanto um município, Bom Jesus do Itabapoana informou não ter uma área para gerir a Cultura. Fundo Municipal Apenas 4 municípios da Região Norte possuem um Fundo Municipal de Cultura, o que lhes permite alocar recursos e desenvolver atividades regulares, contínuas, que consubstanciem os seus planos e programas de desenvolvimento da Cultura. Participação da Sociedade De maneira análoga à organização, os números se repetem quanto à participação da sociedade nas atividades culturais. Habitualmente, tal participação é feita através dos Conselhos Municipais ou de Conselhos Consultivos de Fundações. Além do seu papel regulamentar, estes Conselhos, muitas vezes, exercem função de análises dos projetos encaminhados aos Fundos, recomendando aos decisores, o que deve ser feito em relação aos pedidos recebidos. Instalações Específicas As Regiões possuem, em geral, um número limitado de instalações específicas para o desenvolvimento das atividades culturais. O município que obteve a melhor pontuação foi Miracema na Região Noroeste, enquanto a menor ficou com o município de Italva. A segunda melhor pontuação foi a de Macaé, na Região Norte. Calendário Cultural Com exceção de Laje do Muriaé, Macaé e São Jose de Ubá que informaram não possuir, todos os demais respondentes trabalham com Calendário de Eventos anuais, o que sinaliza para uma orientação que ainda valoriza a Cultura pela promoção de eventos. No entanto, deve-se considerar que os eventos preenchem grande parte da agenda de lazer da maioria dos municípios de ambas as Regiões. Infra-estrutura para o Turismo Carapebus, Macaé e São Fidelis, na Região Norte mostraram melhor infra-estrutura turística entre os respondentes. Há vários municípios com instalações muito limitadas e com qualidade ainda essencial. Legislação e Patrimônio, Tombamento Em relação à existência de legislação voltada para a Cultura, 4 em 13 municípios na Noroeste e 6 em 9, na Norte possuem. Em simultaneidade, 4 em 13, na Noroeste e 3 m 9, na Norte, praticam o tombamento de bens que constituem o seu patrimônio cultural, histórico e ambiental.

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115

Tabela 5 – Região Noroeste Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural – IDC

Região Noroeste Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural - IDC

MUNICÍPIOS

ORGANIZAÇÃO ESTRUTURAL

FUNDO MUNICIPAL

PARTICIPAÇÃO SOCIEDADE

INSTALAÇOES ESPECÍFICAS

CALENDÁRIO CULTURAL

LEGISLAÇÃO PATRIMÕNIO

TOMBAMENTO

INFRA-ESTRUTURA TURÍSTICA

1,5 0,5 s/i* 3,0 3,0 s/i 3,0 1,5 1,5 3,0 1,5 1,5 1,5 0 2,5 0 0 0 2,5 0 0 0 2,5 0,12 0,41 0,07 0,24 0,21 0 2,5 0,62 0 2,5 0,24 s/i s/i s/i 0 0 0,21 0 2,5 0,1 2,0 2,0 s/i 0 2,0 2,0 0 2,0 0 2,0 s/i s/i s/i s/i 0,5 2,5 0,45 2,0

0

2,5

0,14

2,0

0 0 s/i 0 0 s/i 2,0 2,0 0 0 2,0 0 2,0

0 0 s/i 0 0,5 s/i 0,5 0,5 0 0 0,5 0 0

1,8 2,7 s/i 2,7 2,7 s/i 1,8 1,5 2,7 1,8 2,7 0,6 2,7

Aperibé Bom Jesus do Itabapoana Cambuci

Italva

Itaocara

Itaperuana

Laje do Muriaé

Miracema

Natividade

Porciúncula

Santo Antõnio de Pádua

São Jose de Ubá

Varre – Sai s/i* – sem informação

116

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Tabela 6 – Região Norte Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural – IDC Região Norte Fluminense, Extrato do Índice de Desenvolvimento Cultural - IDC
FUNDO MUNICIPAL PARTICIPAÇÃO SOCIEDADE INSTALAÇOES ESPECÍFICAS CALENDÁRIO CULTURAL LEGISLAÇÃO PATRIMÕNIO TOMBAMENTO INFRA-ESTRUTURA TURÍSTICA

MUNICÍPIOS

ORGANIZAÇÃO ESTRUTURAL

Campos dos Goytacazes 3,0 3,0 1,5 3,0 3,0 3,0 s/i 3,0 2,5 0 s/i s/i 2,5 2,5 0,31 s/i 0,32 2,5 2,5 0,42 0 0 0,59 0 1,0 0,41 2,5 2,5 0,39 2,0 2,0 0 2,0 2,0 s/i 2,0 0 2,5 0,45 2,0

s/i

s/i

s/i

s/i

s/i

s/i 0 2,0 2,0 0 2,0 2,0 s/i 2,0

s/i 0 0,5 0 0 1,0 0 s/i 0,5

s/i 3,0 1,8 1,8 3,0 1,5 3,0 s/i 2,7

Carapebus

Cardoso Moreira

Conceição de Macabu

Macaé

Quissamâ

São Fidelis

São Francisco de Itabapoana

São João da Barra s/i* – sem informação

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117

7.4

Corredor Memória de Campos

“Um grupo de turistas foi reunido, logo no início da manhã, em um hotel da cidade. Estava pronto para fazer o circuito do Corredor Memória de Campos. O passeio está incluído no pacote comprado em uma operadora que, sem muito entusiasmo, recentemente acrescentou a cidade em seus roteiros turísticos, mas vinha se surpreendendo com a procura. O micro-ônibus afastou-se da área de hotéis e seguiu em direção à Rodovia do Açúcar. Uma turista cochichou algo sobre o simpático nome da estrada que, de acordo com o mapinha distribuído, dá acesso a outra de nome também curioso e com forte vínculo local: a Rodovia dos Ceramistas. A propósito, gostoso de ouvir é também o nome da localidade onde fizeram a primeira parada. Donana. Foi para uma rápida visita à capela Nossa Senhora do Rosário, construída em meados do século XVII por nobres portugueses ainda no período de domínio Asseca. Depois, uma parada em uma usina de açúcar, em Goitacazes. Os turistas ficaram encantados com as máquinas gigantes, com o cheiro de melaço, com a rotina dos operários, com o processo de feitura do álcool, com as explicações dos técnicos, com as peças do museu do açúcar e com a mostra permanente de doces típicos. A maioria dos integrantes do grupo nunca tinha visto um chuvisco, o doce de origem portuguesa fabricado há mais de dois séculos em Campos. Compotas e mais compotas da versão em calda, e caixas e caixas da versão cristalizada, foram compradas ali mesmo depois da sessão de degustação. Ainda em Goitacazes, eles conheceram a igreja de São Gonçalo e a de São Benedito. Visitaram também a Casa de Cultura José Cândido de Carvalho, que antecipa explicações sobre a obra do autor que os turistas ainda iriam rever adiante no parque do Coronel e do Lobisomem, construído em terras imaginárias do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, nas cercanias de Santo Amaro. Passaram pelo Solar do Colégio e ouviram as histórias do lugar e da heroína Benta Pereira, ali sepultada. Retomaram a Rodovia do Açúcar e pararam em Campo Limpo, para conhecer outra capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário, construída por escravos no século XVIII. Em seguida, passearam pelos corredores do Mosteiro de São Bento, erguido pelos beneditinos no final do século XVII. No final da manhã, um restaurante com vista para a vasta planície recebeu a todos para o almoço e para um breve descanso em redes espalhadas pelo varandão do antigo solar de fazenda restaurado recentemente. Renovavam as energias para a longa tarde que os esperava. Ainda era preciso conhecer a estação de Baixa Grande, a loja do pólo ceramista, um alambique, o museu do petróleo e o da pesca, o farol de São Thomé, além do já citado parque do Coronel. Ficção? É. Mas toda ficção tem um pouco de verdade e de esperança.”
Fonte: disponível em:< http://www.monitorcampista.com.br/>Acesso em 22/12/2009. Artigo publicado na edição de 11 de janeiro de 2009.

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8.

ARTESANATO
“Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista; simplesmente, ele não é artista bom. E desde que vá se tornando verdadeiramente artista, é porque concomitantemente está se tornando artesão.” Mário de Andrade

8.1

Etimologia

No sentido etimológico, Chiti (2003) considera que artesanato deriva de artesão, de artífice, de trabalho feito a mão, transmitido por um mestre de arte e ofício para aprendizes. A palavra artesão foi empregada na Antigüidade, Idade Média, Renascimento, Idade Moderna e Industrial. Com significados similares, na atualidade contemporânea a produção artesanal ressurge como uma importante função laboral e ocupacional, permitindo que excluídos do mercado de trabalho formal criem novas ocupações para a geração renda.

8.2

Conceito

A partir do conceito proposto pelo Conselho Mundial de Artesanato, na cidade de Bogotá, Colômbia, em 1996 pode-se conceituar artesanato através da seguinte definição: artesanato é toda atividade produtiva que resulte em objetos e artefatos acabados confeccionados manualmente ou com a utilização de meios tradicionais ou rudimentares, com habilidade, destreza, qualidade e criatividade (SEBRAE, 2004, p.21). As principais características do artesanato são utilidade, funcionalidade e seriação em pequena escala. Tais características são aceitas em diferentes regiões, países e continentes, e permanecem inquestionáveis ao longo do tempo (COLOMBRES, 1997). O que diferencia o artesanato produzido em determinado território, conferindo-lhe exclusividade, é, basicamente, a forma de conceber e produzir artefatos, de acordo com a interpretação da cultura e da trama da história local, favorecida pela utilização de matéria-prima disponível no território.
O artesanato não é nacional, é local. Indiferente às fronteiras e aos sistemas de governo, ele sobre viveu a repúblicas e impérios. Os artesãos não têm pátria: suas verdadeiras raízes estão nas vilas nativas, ou mesmo em um único quarteirão, ou em suas famílias. O artesão não se define em termos de nacionalidade ou de religião. Ele não é fiel a uma idéia, nem mesmo a uma imagem, mas a uma disciplina prática: seu trabalho. (Paz, 2006, p.88)

8.3

Histórico do Artesanato

A história do artesanato confunde-se com a história da humanidade e surge desde que o ser humano, no período neolítico (CHITI, 2003), passou a criar e a desenvolver artefatos para garantir sua sobrevivência e bem-estar individual e coletivo, produzindo objetos com suas próprias mãos. O artesanato também está vinculado, por um fio invisível, ao mundo do trabalho, que assumiu diferentes formatos desde a Pré-história até os nossos dias (CARDOSO, 2003). Portanto, para conceituar o artesanato com um mínimo de racionalidade é preciso mergulhar na odisséia humana e fazer uma nova leitura da história, que determinou culturas; dos medos, que impulsionaram mudanças; das estratégias de sobrevivência; dos desafios de aprendizagem; das formas de dominação e divisão do trabalho; e, finalmente, dos artifícios para o desenho e a construção do próprio tempo. Historicamente o artesanato brasileiro nasce de várias culturas: desde a cultura indígena, a cultura africana, a cultura dos imigrantes europeus e asiáticos, a cultura norte - americana e
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ultimamente a influência da globalização. Todas essas culturas interagem em nosso país, combinando-se e transformando-se constantemente. Sobre a composição eclética da nossa herança artesanal, escreveu o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, no livro do arquiteto Sig Bergamin, Adoro o Brasil (Bergamin, 2003).
As fontes básicas dessa herança artesanal são as mesmas da nossa etnia: o artesanato indígena que está na base do trabalho com barro, palha, fibras e madeiras; o artesanato português que trouxe consigo outras heranças culturais, ligadas à arquitetura civil e religiosa e às festas populares; e, finalmente a herança do negro, quase que restrita a instrumentos musicais e objetos rituais, que os diversos cultos africanos a preservaram até os dias atuais. A essa herança básica somaram-se, ao longo de décadas, artesanatos trazidos por imigrantes de diferentes culturas (Bergamin, 2003, p.39).

Na atualidade, as necessidades econômicas têm induzido o crescimento do número de pessoas que vivem do artesanato. Despojados dos seus meios de produção, como a terra, subsistem confeccionando objetos muitas vezes desprovidos de valor estético ou econômico, mas que suprem, ainda que de maneira precária, suas necessidades materiais e existenciais (COLOMBRES, 1997). O artesanato tradicional exprime um valioso patrimônio cultural acumulado por um artesão ou comunidade, ao lidar com técnicas tradicionais transmitidas, muitas vezes, de geração a geração, e com matéria-prima regional. Por isso, o artesanato é um dos grandes meios de identificação cultural de uma comunidade (Borges, 2003).
O artesanato não quer durar milênios nem está possuído da pressa de morrer prontamente. Transcorre com os dias, flui conosco, se gasta pouco a pouco, não busca a morte ou tampouco a nega, apenas aceita esse destino. Entre o tempo sem tempo do museu e o tempo acelerado da tecnologia, o artesanato tem o ritmo do tempo humano. É um objeto útil que também é belo; um objeto que dura, mas que um dia, porém se acaba e resigna-se a isto; um objeto que não é único como uma obra de arte e pode ser substituído por outro objeto parecido, mas não idêntico. O artesanato nos ensina a morrer, e fazendo isto, nos ensina a viver. Octávio Paz
15

8.4

Os Números do Artesanato no Brasil

No aspecto político-institucional, tem sido grande o esforço para induzir a participação de sujeitos sociais na discussão de estratégias de desenvolvimento. A criação das chamadas “novas institucionalidades”, personificadas na forma de conselhos, fóruns, governanças, pactos sociais, associações, entre outras, tem despertado a atenção para as inúmeras possibilidades de atuação de pessoas e organizações nos processos decisórios de políticas de desenvolvimento territorial. No ano de 2002, o MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, realizou uma pesquisa de mapeamento do segmento artesanal com 210 associações e cooperativas de artesãos (SEBRAE, 2004-2005). Essa pesquisa revelou que o valor de 28 bilhões de reais é movimentado pelo segmento artesanal. Esse valor corresponde à metade do que
15

Escritor e diplomata mexicano, Prêmio Nobel em 1991.
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faturam todos os supermercados do país, e encosta-se em uma das mais tradicionais indústrias brasileiras, a automobilística, que detém pouco mais de 3% do PIB nacional. Para chegar a esses números, o Governo Federal levou em conta o fato de existirem cerca de 8,5 milhões de artesãos no país, e que cada um deles recebe em média, de dois a três salários mínimos por mês, com a venda de seus produtos. Outro dado importante na pesquisa é que, enquanto na indústria automobilística é necessário o investimento de 170 mil reais para gerar apenas um posto de trabalho, no artesanato com 50 reais é possível criar um posto de trabalho para um artesão.
Gráfico 1 - Percentual de Municípios com Atividade Artesanal por Tipo, Brasil, 2006

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Pesquisa de Informações Básicas Municipais 2006.

Os grupos de artesanato, dentre as atividades artísticas e culturais no Brasil, é a mais presente, atingindo 64,3% dos municípios. O bordado é a atividade artesanal mais representativa nos municípios brasileiros, encontrando-se em 75,4% deles, seguida das atividades com madeira (39,7%) e artesanato com barro (21,5%). Artesanato com material reciclável (19,5%). 8.5 Políticas Públicas para o Artesanato

Políticas públicas de incentivo ao artesanato não são recentes no Brasil. O Decreto no 80.098, de 8 de agosto de 1977, instituiu o Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato (PNDA), sob a supervisão do Ministério do Trabalho, com a finalidade de coordenar as iniciativas de promoção do artesão, de produção e comercialização do artesanato brasileiro. Em 21 de março de 1991, novo decreto revoga as disposições anteriores e institui, no âmbito do Ministério da Ação Social, o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). A finalidaPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 121

de era coordenar e desenvolver atividades de valorização do artesão, com a elevação do seu nível cultural, profissional, social e econômico. Além de promover o artesanato, dispunha sobre o desenvolvimento de empresa artesanal, contando com recursos orçamentários do Ministério responsável. Hoje, o PAB está sob a responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e mantém as diretrizes de fortalecer a produção artesanal e estimular sua comercialização, como importante atividade econômica. Encontra-se em andamento, nas duas Regiões, o Programa de Artesanato do Estado do Rio de Janeiro, que é coordenado pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços (SEDEIS). O objetivo é desenvolver o artesanato no Estado, permitindo a geração de mais emprego e renda, melhorando a qualidade de vida dos artesãos e de toda a cadeia produtiva do setor. Entre as ações do programa estão: • cadastramento de artesãos, para que se tenha um registro atual do total aproximado existente no Estado, o que vai ajudar na melhoria da elaboração de políticas públicas; • articulação com municípios e artesãos para participação em feiras, exposições e fóruns no território Fluminense e em outros Estados; • exposição de trabalhos na sede do Programa de Artesanato do Estado do Rio de Janeiro, em Botafogo, na Cidade do Rio de Janeiro; • aplicação no Estado das diretrizes do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Consultorias, cursos, oficinas, promoção e participação em eventos, estas ações, visando a difusão do conhecimento e acesso ao mercado, foram firmadas, em 2009, por diversas entidades do Norte e Noroeste para beneficiar cerca de 500 artesãos, de 17 municípios. Todas estão previstas no Projeto de Artesanato do Norte e Noroeste Fluminense, dentro da metodologia de Gestão Estratégica Orientada para Resultados, GEOR. Além das ações a serem realizadas até 2011, o documento estabelece metas de aumentar a faixa de renda dos artesãos, com a venda dos produtos, em 5%, até dezembro de 2009, 10%, até dezembro de 2010, e 15%, até dezembro de 2011. E também prevê aumento do número de pessoas diretamente envolvidas nos grupos de produção artesanal em 5%, até 2009, 10%, até dezembro de 2010, e 15%, até dezembro de 2011. São parceiros do projeto o SEBRAE/RJ, as Prefeituras de Itaperuna, Santo Antônio de Pádua, Bom Jesus do Itabapoana, Miracema, Porciúncula, Natividade, Varre-Sai, São José de Ubá, Aperibé, Cambuci, Itaocara, Italva, Laje do Muriaé, Campos dos Goytacazes, Quissamã, Macaé e São Francisco do Itabapoana. Uma das preocupações do programa é o desenvolvimento com responsabilidade social. É incentivada a valorização do aproveitamento de matérias-primas locais - o que também contribui para a criação de identidades regionais, um fator que agrega valor ao produto e principalmente, a utilização de materiais reciclados. O incentivo a tipos de artesanato de acordo com vocações regionais também contribui para a preservação e desenvolvimento das culturas locais. Ainda dentro das ações do Estado na Região para promover o artesanato local, o SEBRAE mantém, na cidade de Itaperuna e Natividade, o Programa Empreendedorismo Social do SEBRAE/RJ, que promove a geração de trabalho e renda através da valorização da Cultura local e contribui para a inclusão social. Dois grupos de artesãos, Bordando o Futuro (Itape122 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

runa) e Grupo de Bonecas (Natividade), foram beneficiados com esse Projeto, além de outro grupo produtor de banana-passa, em Porciúncula, na segunda quinzena do mês de julho de 2009. O SEBRAE ainda mantém o Projeto “Caminhos Singulares do Artesanato no Noroeste Fluminense” que tem por objetivo gerar trabalho e renda, qualificar a mão-de-obra e organizar o setor para resultar em produtos atrativos e de qualidade, que traduzam a identidade cultural da Região. Também são parceiros no projeto o PAIF, a EMATER/RJ e as secretarias municipais de cultura, turismo e ação social dos municípios envolvidos e o Projeto Empreender. Através desse Projeto, 40 artesãos do Noroeste Fluminense participaram de uma caravana técnica no ano de 2009, para visitar a XVI Feira Nacional de Artesanatos, em Belo Horizonte (MG), a maior do Setor na América Latina. A proposta é que os artesãos do Projeto estejam unidos e trabalhando juntos, por meio da metodologia GEOR. Em 2003, o SEBRAE/RJ instituiu o “Projeto de Inventário de Bens Culturais Imóveis – Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro”. O trabalho foi desenvolvido em parceria com a UNESCO-Brasil e a Secretaria de Estado de Cultura, através do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, INEPAC. Dentre seus objetivos, está a busca de informações para integrar ações de turismo, artesanato e cultura através da identificação dos vestígios de matérias sobreviventes ao processo de ocupação do território fluminense. Isto pressupõe o reconhecimento e registro daqueles elementos – arquiteturas e paisagens - que constituem o “Patrimônio Cultural” construído pelo homem, ao longo dos séculos. A visão que se pode ter do Rio de Janeiro a partir do entrelaçamento de atividades econômicas superpostas no tempo e no espaço, como a exploração do sal, a implantação da cultura do açúcar, os caminhos de circulação e escoamento do ouro, e finalmente a economia do café, é realmente singular. Todas estas atividades estimularam modelos de produção, histórias cotidianas e estilos de vida particulares, tendo, no seu conjunto, a contribuição de diversas etnias – do homem branco, negro e índio. A miscigenação das raças e as transformações socioculturais decorrentes contribuíram e ainda podem servir de insumos, para o desenvolvimento de técnicas artesanais e a produção de artefatos com identidade territorial. A cultura, tecida ao longo dos tempos nos Caminhos Singulares do Rio de Janeiro, apresenta vestígios tanto de bem material quanto imaterial que podem ser observados à luz da iconografia, da paisagem natural e construída. Esses elementos são importantes para o desenvolvimento de um artesanato original, que possa refletir a essência de determinado lugar ou território, como uma paisagem cultural. Assim sendo, os Caminhos Singulares do Rio de Janeiro, com a agregação dos Caminhos Urbanos, cumprem a importante função de resgatar a trama da história e os fragmentos culturais que alimentam o desenvolvimento das cadeias de habilidades produtivas do artesanato fluminense. Os Caminhos do Açúcar assimilam a infra-estrutura construída para o escoamento da sua produção, a exemplo de pontes, trajetos de sistemas ferroviários e hidroviários, bem como dos leitos carroçáveis, por onde era feito anteriormente o escoamento do açúcar. Dessa forma, a rede da ocupação do espaço físico também pode ser utilizada como uma importante fonte de informação e inspiração para o desenvolvimento da produção artesanal, na atualidade. O Governo Federal, através Ministério da Cultura, lança editais para a distribuição de recursos para a promoção dos valores culturais dentro do programa Cultura Viva. No Edital de 2009, as Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro somaram 25 novos Pontos
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de Cultura. Dois desses projetos tem um trabalho bem importante com o artesanato. São eles, Bordando o Futuro de Itaperuna e Arte de Fibra de Quissamã. O recorte espacial configurado territorialmente pelos Caminhos Singulares do Rio de Janeiro constitui o que Frémont (1980) denomina de “região do espaço vivido”. São territórios que podem se referenciar no tecido das relações sociais, econômicas, culturais e ambientais em permanente construção. Os padrões de ocupação e uso do solo, as tipologias habitacionais, os vínculos comunais e de parentesco, as crenças e mitos, a herança dos bens materiais e imateriais, entre outros, são elementos importantes para o desenvolvimento endógeno, com foco numa produção artesanal genuína e com identidade. Para Augustin Berque (1998:84-89), “A paisagem é uma marca, porque exprime uma civilização, mas também é uma matriz, porque participa de esquemas de percepção, de concepção e de ação — isto é, da cultura — que canalizam, em certo sentido, a relação de uma sociedade com o espaço e com a natureza.”

8.6

Caminhos do Açúcar16

O ciclo do açúcar foi um dos mais importantes acontecimentos da economia colonial brasileira, principalmente, durante os séculos XVI e XVII, passando a declinar a partir do século XVIII. As áreas de plantio prioritário foram a Zona da Mata Nordestina e o Recôncavo Baiano, com posterior extensão para o Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. Interessante observar que o setor açucareiro, além de marcante para a sociedade, a cultura, a economia e a configuração política do Brasil, contribuiu para alterar a dieta alimentar na Europa, em substituição ao consumo de mel. O país, por incrível que seja, participou de um processo de globalização numa era em que o mundo ainda se desenvolvia pelas conquistas marítimas e em que o globo terrestre era apenas uma crença e um mito, tão imaginário quanto os monstros marinhos. O verde dos canaviais e a cor cinzento-negra das terras de massapé, fertilizadas pelo rio Paraíba do Sul, o rio Macaé e a Lagoa Feia, são elementos que sobreviveram ao tempo e ainda marcam a identidade da Região, alterada lentamente, com a introdução da agricultura e da pecuária, estimulada pelos jesuítas, da baixada campista até a barra do Itabapoana, antigo rio Managé, com a substituição das moendas de madeira pelas moendas de ferro, as usinas do passado e de agora. O petróleo...

16

SILVA, Heliana Marinho. In: Por uma teorização das organizações de produção artesanal - habilidades produtivas nos caminhos singulares do Rio de Janeiro, Fevereiro de 2006, Rio de Janeiro, RJ
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Mapa 3 – Região Norte Fluminense, Mapa Índice Caminhos do Açúcar Inventário 2004

Fonte: Projeto Inventário de Bens Culturais Imóveis. Desenvolvimento Territorial dos Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro. INEPAC, Rio de Janeiro, 2006
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Mapa 4 – Região Norte Fluminense, Mapa Índice Caminhos do Açúcar II - Inventário 2004

Fonte: Projeto Inventário de Bens Culturais Imóveis. Desenvolvimento Territorial dos Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro. INEPAC, Rio de Janeiro, 2006

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Quadro 1 - Quadro Sinóptico dos Bens Inventariados Caminhos do Açúcar – Março/ 2004

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Março de 2004

Fonte: Projeto Inventário de Bens Culturais Imóveis. Desenvolvimento Territorial dos Caminhos Singulares do Estado do Rio de Janeiro. INEPAC, Rio de Janeiro, 2006

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As descobertas e exploração de petróleo e de gás natural na bacia de Campos têm atraído novos moradores e alterado a paisagem original. Estes elementos, certamente, poderão acrescentar novas inspirações para o trabalho com artesanato. De modo geral, apesar das potencialidades encontradas na trajetória da história local e dos ingredientes socioculturais resgatáveis, é preciso um vigoroso investimento para que o artesanato da Região dos Caminhos do Açúcar adquira identidade. No conjunto dos municípios, que compõem os Caminhos do Açúcar, foram identificados 975 artesãos. As principais matérias-primas disponíveis são a linha, o tecido e a taboa, e as técnicas mais utilizadas são a cestaria e o bordado, Tabela seguinte.
Tabela 7 - Rio de Janeiro, O Artesanato nos Caminhos do Açúcar Município Bom Jesus do Itabapoana Campos dos Goytacazes Carapebus Itaperuna Macaé Natividade Porciúncula Quissamã São Francisco do Itabapoana São João da Barra Varre-Sai Número de Artesãos 975 Matéria-prima Disponível Argila, madeira, fibra de bananeira, papel, linha, tecido, bagaço de cana, metal, couro e escama de peixe, sisal sementes, bambu, palha, argila, taquara, bambu, vime, brejaúva, sapucaia, chifre de boi, conchas, areia, cipós, taboa, outras Principais Técnicas Bordados, crochê, papel machê, tricô, cestaria, costura, outras Manifestações Culturais Cavalhada, reizado, jongo, fado, festas quilombolas, manachica, boi malhadinho, festas populares, outras

8.6.1

O Circuito do Açúcar na “Fashion Rio”17

O Fashion Rio é o evento oficial da moda do Rio de Janeiro, que disputa com São Paulo o lançamento das coleções de outono-inverno e primavera-verão no Brasil. Em duas ocasiões, o artesanato ocupou um espaço no setor de “business”, juntamente com empresas de confecção e acessórios de moda. Para melhor desenho da pesquisa-ação, definiu-se uma política de intervenção que considerou o artesanato um tipo genuíno de fazer moda e não apenas seu complemento. Esta posição demonstrou, para os protagonistas de uma pesquisa realizada, que a produção artesanal deveria estar associada a um enredo fluminense, ou seja, a um tema local capaz de subsidiar a modelagem de uma coleção. Realizava-se, na prática, o processo de reflexão e aprendizagem, como é próprio da pesquisa-ação. Assim sendo, o artesanato foi buscar sua fonte de inspiração no Projeto “Caminhos Singulares do Rio de Janeiro”, desenvolvido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, SEBRAE/RJ, com foco na atuação do turismo, do artesanato e da cultura. O Estado do Rio de Janeiro é uma síntese da história econômica, política, social e cultural do país. Muitos dos eventos significativos ocorridos no Brasil, desde sua colonização, até os dias atuais, foram emanados ou impactaram fortemente o solo Fluminense.

SILVA, Heliana Marinho. In: Por uma teorização das organizações de produção artesanal - habilidades produtivas nos caminhos singulares do Rio de Janeiro, Fevereiro de 2006, Rio de Janeiro, RJ
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17

Sobre esta participação, a pesquisadora Heliana Marinho da Silva desenvolveu a sua tese de doutoramento na Fundação Getúlio Vargas, em 2006. O universo da pesquisa, por ela considerado, foi constituído por 99 pessoas, pertencentes a 14 grupos de artesãos do Estado do Rio de Janeiro, selecionados por amostragem aleatória simples (ROJAS SORIANO, 2004; BABBIE, 2003). A coleta de dados foi realizada com a aplicação de questionário fechado. As variáveis de análise corresponderam às dimensões dos sistemas sociais, definidos por Guerreiro Ramos (1989), a saber: tecnologia, escala, cognição, espaço e tempo. A pesquisa foi desenvolvida no período de 18 meses, com os resultados monitorados em dois eventos efetivos: edições de julho de 2004 e julho de 2005 do “Fashion Rio”, sediadas no Museu de Arte Moderna, MAM. De acordo com os resultados apurados18, dos participantes do “Fashion Rio”, em 2004 e 2005, 97% deles assumiram ser artesãos exercendo o ofício, em média, há oito anos. Dos que responderam à pergunta sobre suas atividades antes do artesanato, 29% sinalizaram que eram autônomos; 27% eram empregados de média ou pequena empresa; 18% não exerciam atividades produtivas; 9% eram trabalhadores informais e 6% funcionários públicos, na maioria, municipais. No Rio de Janeiro, para o universo pesquisado, predomina o artesanato desenvolvido com matéria-prima processada de origem vegetal, utilizada por 43% dos entrevistados que trabalham com fios e tecidos diversos. A tipologia de produto artesanal natural é trabalhada por 32% dos entrevistados que adotam, em sua maioria, fibras vegetais, cascas e sementes, e insumos de origem animal, a exemplo de lã, couro e osso. O restante, 25%, aproveita material reciclável, principalmente vegetal, como tecido, papel e madeira. O artesanato fluminense é pouco diversificado, vigorando a introdução de novas técnicas (43%), em detrimento do resgate de técnicas tradicionais locais (30%) ou tradicionais de outros locais do país (19%). Com esta ênfase, as categorias do artesanato derivam de trabalhos manuais tradicionais (34%), em crochê e bordados; reciclados (21%), principalmente de sobras de tecidos utilizadas em “patchwork” e tramas feitas com tecidos enrolados, amarrados ou emendados a mão; o artesanato contemporâneo responde por 18% dos produtos. Categorias de artesanato que trabalham a historicidade e etnia são muito poucas, identificando-se apenas 9% de produtos que apresentam o resgate de temas culturais; 5% na categoria de arte popular; 1% reproduzindo ícones de seu território, 1% com temas religiosos e 1% com representação da etnia indígena. Se a análise dessas categorias atendesse aos critérios de classificação do artesanato proposto por Chiti (2003), 34% dessa manifestação deveriam ser descartados, pois o autor não considera como artesanato os trabalhos manuais de bordado e crochê. Por outro lado, quando se associa o artesanato ao turismo, são exatamente os eixos culturais, étnicos e folclóricos que precisam ser estimulados no artesanato fluminense. Para tal, é necessário utilizar métodos de aprendizagem que favoreçam a leitura de informações sutis contidas no território, como a redescoberta da identidade local, da matéria-prima dominante, dos elementos que definem a história passada, presente e futura, da paisagem e das manifestações culturais. Na produção artesanal fluminense estudada, circunscrita aos caminhos históricos – sal, açúcar, ouro e café –, o segmento de decoração responde por 29% dos produtos; a moda, por 26%; utilitários, por 22%; adorno e acessórios, por 19% do artesanato executado. Isto reflete bastante a utilização de matériaprima reciclada e de técnicas modernas de produção, ao estilo contemporâneo.
18

Pesquisa relizada por Heliana Marinho da Silva, e apresentada na defesa de tese de doutoramento na Fundação Getúlio Vargas em 2006. O universo da pesquisa foi constituído por 99 sujeitos, pertencentes a 14 grupos de artesãos do Estado do Rio de Janeiro (ver apêndice).
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Na proposta de estimular um artesanato mais cultural, abre-se a perspectiva de desenvolver os segmentos religiosos, lúdicos e educativos, até então sem expressão no artesanato fluminense, mas com grande potencial de mercado, na atualidade. Considerando que o artesanato fluminense está em processo de recriação, a abordagem de desenvolvimento territorial tem mais sentido, ainda, quando se constata que 53% dos artesãos sempre viveram no município onde se encontram e que 41% nasceram em outra localidade, mas estão radicados há muitos anos no território, o que favorece o sentimento de pertencimento ao local, na medida em que 86% dos entrevistados consideram que o trabalho do artesão contribui para o fortalecimento dos elos socioculturais da comunidade. Nos municípios fluminenses estudados, 37% dos artesãos são autônomos; 36% atuam em grupos informais e 27% participam formalmente de associações e cooperativas. De maneira geral, 32% informaram que as relações interpessoais mantidas entre o artesão e o grupo são estruturadas com valores de reciprocidade e troca. Para 26%, há maior aproximação entre as pessoas, com aumento dos vínculos afetivos; 23% vinculam a aproximação das pessoas com a ampliação do bem-estar; e para 21% há elevação do nível de confiança entre os elementos do grupo. Esta situação reflete-se no posicionamento frente ao território em que vivem e trabalham: para 51%, as atividades artesanais incentivam a troca de bens, serviços e informações entre as pessoas, enquanto 49% acham que o trabalho com artesanato pode contribuir para o desenvolvimento econômico do território. As características mais marcantes do artesão do Estado do Rio de Janeiro são que 39% fazem artesanato para complementar a renda familiar; 16% transformaram trabalhos manuais em novos negócios, substituindo a alegoria do hobby pelo micro negócio; 13% dizem-se desempregados; e 12% confirmam que sempre trabalharam com artesanato. Vale registrar que 8% dos entrevistados fizeram opção pelo artesanato como estilo de vida. Dos artesãos ouvidos, 32% acham que o atual interesse pelo artesanato decorre da sua consolidação como atividade econômica. Para 28%, o artesanato é uma alternativa de geração de trabalho e renda para qualquer pessoa; 18%, no entanto, consideram que esta alternativa, de trabalho e renda, é valida apenas para os grupos menos favorecidos. Interessante observar que apenas 3% percebem o artesanato como modismo e algo passageiro. Declaram submeter-se parcialmente às exigências do mercado e, como isonomias e fenonomias, verificam que a atividade artesanal pode ser lucrativa, em 58% dos casos. Todavia, 28% consideram que não podem viver apenas do artesanato, embora reconheçam que o desenvolvimento do ofício gere renda. Na opinião dos artífices, o artesanato deve ser comercializado em feiras, 31%; mercado alternativo, informal ou organizado para o comércio justo e solidário, 29%; distribuído em lojas e supermercados, 18%; vendido na vizinhança, para parentes e amigos,16% . Estas formas parecem, realmente, as mais adequadas e com maior afinidade ao produto artesanal. Contudo, cada uma delas exige uma organização diferenciada e deverá ser utilizada de acordo com o perfil do artesão, com a categoria do artesanato, com a temática mercadológica e com o segmento de mercado da produção. É vital dar atenção aos quesitos de qualidade e originalidade. No último caso, as peças mais genuínas são as que contêm informações do território de origem, com o aproveitamento da matéria prima disponível, das técnicas e saberes locais, bem como das referências históricoculturais que dão singularidade ao local. Das pessoas que responderam à pesquisa, percebe-se que a idade predominante do artesão situa-se na faixa de 40 a 50 anos, intervalo declarado por 28% dos respondentes; em seguida encontra-se a faixa entre 30 e 40 anos, que enquadra 24% dos artífices; 17% estão situados antes dos 20 a até 30 anos e 16% estão no extremo, de 50 anos a acima dos 60 anos.
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O desenvolvimento de métodos de ensino para o artesanato, portanto, deve considerar o nível de maturidade e as razões que levaram as pessoas a optar pela atividade de artífice. Isto faz toda a diferença, especialmente porque 94% deste contingente são constituídos por mulheres, das quais, 52% acreditam que podem contribuir para um mundo melhor; 25% apostam que a sociedade pode ser solidária e 18% têm uma visão de mundo humana e fraterna. Na opinião dos artesãos, os maiores problemas do artesanato são vinculados à necessidade de comercialização e à falta de visão de mercado, 29%; ao financiamento, 22%; ao sistema informal de produção e à falta de organização do artesão, 15%; à qualidade dos produtos 13%,e à escassez de matéria-prima. A solução desses problemas passa pelo tratamento do artesanato como uma cadeia de habilidades produtivas, que estimule a convergência das instituições que atuam com o artesanato nos municípios e Regiões, evitando a disputa pelo beneficiário e a dispersão de recursos e energias. É importante agregar profissionais de outras formações, como designers e consultores especializados em mercado, formação de preços e gestão de pequenos negócios, e finalmente estimular o trabalho artesanal em redes de produção, organizando as atividades e dando escala ao produto. O artesanato é percebido por 90% dos artesãos com potencialidade para integrar uma cadeia produtiva, principalmente se eles se organizarem para o desenvolvimento de produtos. Neste modelo, consideram que é fundamental a participação de instituições e de profissionais de outras áreas de produção e de conhecimento. Esta compreensão é fruto do intenso trabalho que tem sido realizado pelas instituições de fomento ao artesanato no Rio de Janeiro, a exemplo do SEBRAE, e da receptividade do artesão para receber novas informações para a melhoria do seu produto. Os profissionais que podem contribuir para o desenvolvimento do artesanato, formando cadeias de habilidades produtivas, devem ter a responsabilidade e o compromisso de respeitar as técnicas e as formas locais de produção, entendendo que o artesanato tem escala de produção limitada e que os artesãos têm uma visão de mundo e compromissos com a vida que não passam pela velocidade produtiva, característica da competitividade empresarial. O saldo do evento foi positivo para os grupos de artesanato que, na totalidade, envolveram 139 artesãos. Em dois dias de evento, fizeram negócios e receberam uma série de novos pedidos, inclusive para exportação, Tabela seguinte.
Tabela 8 - Síntese da Participação do Caminhos do Açúcar no “Fashion Rio”, 2004 Ano 2004 2004 2005 2005 2005 Grupo ou Responsável Eponina Ana Carla Taboa de São Francisco Cooperativa Fazendo Arte Projeto Lagomar Número de Pessoas 60 10 25 22 07 Técnica Retalhos e bordados Bordados e aplicações Acessórios em fibra de taboa Crochê Patchwork Território Porciúncula Porciúncula São Francisco do Itabapoana Campos dos Goytacazes Macaé Região Noroeste Noroeste Noroeste Norte Norte

* Total de pessoas envolvidas no evento somaram 242, envolvendo todos os Caminhos.

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Fotos 46, 47, 48, 49 e 50 – Produtos Feitos por Artesãos do “Caminhos do Açúcar” para o “Fashion Rio”, 2004

8.7

O Artesanato no Norte e Noroeste Fluminense

Na paisagem desenhada pela cultura da cana-de-açúcar, em torno dos engenhos, na Região Norte-Fluminense conviveu português, com seus padres jesuítas, indígenas e africanos, integrados pela produção e pelo consumo de um produto que revolucionou o mundo colonial. O apogeu do ciclo do açúcar no Rio de Janeiro, tardio em relação ao Nordeste brasileiro ocorreu a partir de meados do século XVIII e ao longo do XIX, e deixou marcas significativas na arquitetura e nas manifestações culturais do território, principalmente dos atuais municípios de Campos, Macaé, Quissamã e São João da Barra. O legado da ocupação do espaço, determinado pelo predomínio dos canaviais convivendo com a agropecuária, ainda se mostra pela rica arquitetura das fazendas, dos engenhos, das senzalas, de valor histórico incalculável. Os resquícios da aristocracia, que adquiria seus objetos, vestimentas, adornos e mobiliários na metrópole portuguesa, e a utilização da mão-de-obra escrava para o cultivo da terra, não estimularam a existência de técnicas de artesanato importantes. Por outro lado, para a reconstrução de um saber-fazer artesanal, a rica história da formação econômica, social e cultural da Região pode contribuir para o desenvolvimento de cadeias de habilidades de produção artesanal, respaldadas nos registros da paisagem natural, nos suntuosos jardins de palmeiras imperiais, solares, igrejas e capelas. Some-se a estes elementos a herança cultural dos habitantes das senzalas, com suas manifestações religiosas e populares.

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Fotos 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58 e 59 – Regiões Norte e Noroeste, Mosaico da Produção Artesanal das Regiões

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8.7.1

Matérias - primas

As matérias-primas trabalhadas nas Regiões Norte e Noroeste Fluminense são encontradas na natureza, em produtos industrializados e em resíduos ou material de sucata. As matériasprimas mais empregadas são o bambu e a taboa, que fazem parte da vegetação nativa da maioria dos municípios. São utilizadas ferramentas simples e muitas vezes improvisadas, como cacos de vidro, sabugos de milho, palitos de fósforo ou pedaços de arame. Os temas são tirados da experiência, da vivência, reproduzindo-se na obra o que faz parte do dia-adia. Os objetos produzidos preenchem, em primeira instância, as necessidades imediatas do autor ou as de sua comunidade e só secundariamente são comercializados. O registro do artesanato, dificultado pela grande variedade de técnicas, matérias-primas e produtos, exigiu uma opção pelos aspectos mais representativos da criatividade e talento do homem dessas Regiões. Constituem seus materiais principais: Areia Tradicional em todo o Estado do Rio de Janeiro,é a preparação de tapetes-de-rua por cima dos quais passa a procissão de "Corpus- Christi". O material empregado depende dos recursos materiais da Região: areia e sal grosso nas cidades do litoral salineiro; borra de café, vidro picado, serragem, folhas, pétalas de flores, tampinhas de garrafas, casca de ovo triturada e terra colorida nas cidades do interior. A comunidade local se encarrega da criação dos motivos desenhados. Em alguns locais o tapete é dividido em muitas seções, pelas quais se responsabilizam colégios, lojas comerciais, clubes, associações religiosas, famílias, etc. Os temas são quase sempre de fundo religioso: Cristo, Nossa Senhora, santos, anjos, pombas, cálices e hóstias. Costumam fazer também, flores, gregas, pássaros, etc. Ultimamente muitos aproveitam para também transmitir mensagens sociais, ecológicas, educacionais. Argila A argila é matéria-prima para a confecção de objetos de cerâmica decorativa, utilitária e ritualística. Ela vem sendo carreada pelo rio Paraíba do Sul a muitos séculos provavelmente milênios. Algumas vezes é modelada com o auxílio de tornos rudimentares montados nos quintais. Neles o ceramista modela objetos de forma circular como potes, jarros, panelas. Outras vezes, o artesão utiliza apenas as mãos, modelando determinada porção de argila até conseguir a forma desejada: objetos decorativos ou ritualísticos, como bonecos, santos, bichos. O cozimento da peça acabada é feito em fornos de lenha, cuja temperatura chega a 1.000ºC. A pintura, se usada, faz-se com tinta industrializada ou com tintas extraídas de vegetais, como o urucum (coloração vermelha) ou o jenipapo (coloração preta); Usa-se ainda, de origem mineral, o amarelo, do óxido de ferro. Bambu Vegetal nativo - Bambusa arundinacéa Willd - com muitas variedades, desde o bambujaponês e a taquara (muito flexível), até o bambu-gigante, com 25cm de diâmetro. Recémcolhido, é cortado em tiras finas que são trançadas para fazer cestos, objetos de adorno, peças de mobiliário, gaiolas, alçapões, peneiras, esteiras de carro-de-boi, instrumentos musicais (flautas, recorecos). O bambu presta-se também à construção de forros, paredes, portões, cercas e luminárias. Bananeira A palha da bananeira (embira) - Musa sapientum L. (musaceae) – é material muito utilizado para diversos tipos de artesanato. As fibras do talo central das folhas, de textura fina, são aproveitadas para a confecção de bolsas, esteiras, sacolas, chapéus, tiras para sandálias e outros objetos de uso. Das fibras do caule misturadas a outras mais resistentes são feitos cestos, capachos e sacolas. As folhas, depois de secas, são utilizadas na criação de flores,
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ramos e figuras. Combinada com outros materiais (tecidos, recortes de jornal, linha em crochê, madeira) entra na composição de bonecas, conjuntos de presépios e cenas familiares. Brejaúva Palmeira - Astrocaryum ayri Mart. (palmae) - da qual se aproveita a palha e o coco. A palma, seca ao sol, transforma-se em palha clara que serve para confeccionar cestinhas ovais ou redondas. Costuradas com agulhas de saco, as cestas são enfeitadas com os fios da palha, coloridos com anilina em pó, em vermelho, azul e verde. Bucha Planta trepadeira geralmente desenvolvida em cercas vivas. O fruto, depois de seco, retiradas as sementes, transforma-se em material leve, esponjoso, cor de palha, aproveitado na confecção de diversas peças ornamentais e utilitárias: flores, leques, chinelos, bolsas, chapéus, etc.. Capim O capim barba-de-bode - Andropogum sp. (Graminaea) - já seco, é trançado, usado para fazer bolsas, cestas e chinelos. Trabalha-se com agulhas e linhas grossas de bordar, coloridas, para prender as fibras, enfeitar e armar as peças. Cera A cera de abelha-cachorro ou abelha-europa presta-se à modelagem de figuras humanas, personagens de presépios, igrejinhas, casas, bois, galinhas, quase sempre miniaturas. Depois de colhida e limpa a cera, maleável e de fácil manuseio, é trabalhada pura, sem acréscimo de nenhum outro material. Chifre Material usado na confecção de objetos diversos: cofres, cabos de talheres, figas, anéis e figuras de animais (peixes, pássaros). Amolecido em água fervente durante cerca de uma hora, é trabalhado à mão, com o auxílio de serras, facas, grosas, martelos, canivetes e até mesmo de cacos de vidro. Na complementação das peças, usa-se, às vezes, metal e osso. Cipó O cipó, como o bambu e a taquara, é usado para a produção de cestos de dimensões e formatos variados e de abanos para fogão de lenha. É trançado ainda verde, sem tratamento prévio, especialmente o cipó caboclo - Davilla rugosa Poir ( Dilleniaceae), o cipó-imbé – Philodendron bipinnatifidum Schoott (Aracaea) e o cipó-una – Arrabidaea sp.(Bignoniaceae) que depois de maduros perdem a maleabilidade e tornam-se quebradiços. Couros Com o couro de alguns animais (boi, cabra,) fabricam-se peças de diferentes utilidades: selas, arreios, cangalhas, cabrestos, rédeas, chicotes, tamoeiros, rebenques e outras, próprias para o transporte a cavalo ou em carro-de-boi. Bolsas, carteiras, chapéus, sandálias, cintos, jalecos, luminárias, pulseiras, anéis, têm também como matéria-prima o couro. Deste material são feitas ainda as máscaras de palhaços de folias de reis. Os instrumentos utilizados são: máquina de costura, sovela, faca, torquês, ferro de rebaixo e outros ferros encontrados em pequenas oficinas. Diversos Diversos materiais são utilizados no artesanato de instrumentos musicais. Os de corda são feitos de madeira (camará, para as costas e ilhargas; caviúna para o braço). Para a cerda dos arcos usa-se crina de cavalo. Os instrumentos de sopro, geralmente são feitos de bambu. As flautas são mais comuns, além dos clarinetes, cujo corpo é formado de seções de bambu, de diversas dimensões, articuladas. Para instrumentos de percussão - tambores,
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bumbos, caxambus - usa-se, couro de cabrito ou bezerro, combinado com madeira. A sucata de metal, junto ao plástico ou couro, dá origem a instrumentos de percussão: chocalhos, ganzás, pandeiros, caixa, bumbo, tarol e outros. Flecha de Ubá Com a flecha de ubá - Chuequea sp. (Gramineae) - cortada em época própria para não dar bicho (abril), constroem-se gaiolas de tamanhos e formas diversas: igrejas, castelos com um, dois ou três andares - "catedrais", retangulares, quadradas e cilíndricas. Juta A juta - Corchorus capsularis L. ( Tiliaceae) - é usada no artesanato de tapetes, estandartes e figuras de presépio. Serve, também, de pano de fundo para a aplicação de motivos em pano colorido. Desfiada, presta-se à confecção de cabeleiras em bonecos. Lã Com fios de lã industrializada são tecidas, em tricô ou crochê, peças de vestuário: suéteres, casacos, saias, vestidos, roupas de bebê, cachecóis, gorros. Também há registro de tecelagem de mantas, passando por todas as fases do processo - desde a limpeza de lã, cardação, preparação do fio na roca, tintura, até o trabalho de tear. Linha Com linhas industrializadas, de carretel ou novelo, confeccionam-se em crochê, bordado, tricô, peças utilitárias ou ornamentais: redes, colchas, toalhas, cortinas, blusas, vestidos. Madeira Com ferramentas diversas (machado, enxó, plaina, formão, facas e outras) são esculpidos ou entalhados pelos artesãos fluminenses imagens de santos, figas, orixás, carrancas, máscaras, objetos de decoração, gamelas, pilões, instrumentos musicais, canoas, etc. Gaiolas de diferentes feitios são feitas, algumas vezes, apenas com encaixes de varetas, sem utilização de pregos ou arames. Também a xilogravura se faz presente. Aproveitando a forma natural de raízes, confeccionam-se diversas espécies de animais. Mandioqueiro Do tronco do mandioqueiro - Didy mopanax anomalum Tamb. (Araliaceae) obtem-se fibras brancas, finas e flexíveis, extraídas com uma plaina. Depois de secas, as fibras são trançadas à mão e costuradas à máquina para a confecção de chapéus e bolsas. Costumam ser tingidas com anilina em cores diversas. Massa de Miolo de Pão Dessa matéria é feito um original trabalho de modelagem: flores, miniaturas de animais domésticos e selvagens, figuras de presépio. Com o miolo de pão, misturado a um pouco de cimento branco para dar maior resistência, modelam-se também, pequenas flores que são presas a hastes naturais. Metal No artesanato em metal (funilaria) é freqüente a confecção de peças das mais variadas: brinquedos (carros, caminhões, aviões,lustres, luminárias, em latão e cobre. Milho A palha seca do milho - Zea mays L. – é utilizada na confecção de flores, leques, chapéus, bolsas e figuras humanas. Algumas vezes aparece combinada com a bucha, a palha de bananeira e o bambu.

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Penas Penas de diferentes aves são usadas para compor objetos vários: complementam as tradicionais petecas de palha de milho ou recobrem miniaturas de aves, cujo corpo é feito de barro. Pita Dos fios obtidos da folha da piteira confeccionam-se tranças com que se armam diversas peças artesanais. Do caule da flor (pendão central que se ergue dentre as folhas) são feitas miniaturas de canoas. Para isso o caule é cortado em diversos segmentos que são escavados a faca, até tomarem o formato de uma canoa inteiriça. Sementes Sementes de plantas nativas são utilizadas de diversas maneiras. Uma vez colhidas, são postas a secar e, "in natura" ou envernizadas, entram na composição de diferentes peças. A lágrima-de-nossa-senhora., por exemplo, de cor acinzentada e muito resistente, enfiada em fios de arame mais ou menos maleáveis, presta-se à confecção de cestos para guardar ovos, cortinas e adereços. São bastante utilizadas para a confecção de bijuterias. Taboa ou tabua Planta nativa que cresce nos banhados - Typha dominguensis Pers (typhaceae). Sua fibra flexível e resistente, trabalhada depois de seca, serve para a confecção de esteiras, bolsas, chinelos, tapetes, redes, cestas, sacolas, cachepôs, estandartes, descansos para pratos e travessas, etc. Para se fazer a esteira, usa-se técnica semelhante à do tear, varas de madeira forte (o tendá) e barbantes em rolo, tendo nas pontas pedaços de madeira ou tijolos (os cambitos), com o auxílio dos quais a palha é trançada. Tecidos Retalhos lisos ou estampados, de todos os formatos, costurados uns aos outros ou aplicados sobre estopa, compõem colchas, almofadas, tapetes, toalhas, cortinas e outras peças. De caráter artesanal são também os trajes de alguns figurantes de folguedos: os trajes dos componentes do Mineiro-Pau e dos palhaços de Folia de Reis, os saiotes para o Boi, para o Veado e a Mulinha, a roupa do Jaraguá e dos Bonecos. Bandeiras ou estandartes dos grupos de Folia de Reis são feitos de tecido colorido, acrescido de estampas, bordados, fitas, flores de plástico e véus. No artesanato com tecidos incluem-se, ainda, as bruxinhas e os bonecos de pano. Vime A vara tenra e flexível do vimeiro trançada presta-se à fabricação de diversas peças utilitárias e ornamentais, como cestos, abajures, figuras de animais domésticos, que servem como suportes para flores, frutas, alimentos. Na confecção de móveis (cadeiras, mesas, estantes, colunas, camas, etc.), o vime é trançado com reforço básico de madeira. Esses móveis, de formas muito variadas, são em geral decorados com desenhos trançados no próprio vime. 8.8 A Cerâmica19

O Parque Industrial de Campos dos Goytacazes é formado por mais de cem cerâmicas, absorvendo, segundo informações do próprio segmento, mais de 5.000 pessoas. Este tipo de

In: I. S. Ramos, J. Alexandre, M. G. Alves, V. Vogel, M. Gantos A indústria cerâmica vermelha de Campos dos Goitacazes e a inclusão social das artesãs da baixada campista através do projeto Caminhos de Barro, Laboratório de Engenharia Civil - LECIV, Centro de Ciências e Tecnologia – CCT Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. RJ
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trabalho, de um modo geral, emprega pessoas capazes de suportar serviços pesados, excluindo desta forma mulheres, idosos e portadores de necessidades especiais. O Projeto “Caminhos de Barro”20, implantado pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), no ano de 2000, tem como finalidade capacitar, na arte da cerâmica artesanal, comunidades excluídas do processo industrial de produção de tijolos e telhas. Uma análise técnica semelhante, utilizada para caracterização e adequação dos produtos industrializados pelas indústrias cerâmicas mostrou-se também adequada para o artesanato. O município de Campos dos Goytacazes apresenta uma grande reserva de argilas, originárias de processo de decantação de materiais silto-argilosos da carga de suspensão em ambientes de planície de inundação após eventos de enchentes do Rio Paraíba do Sul; a área de concentração destes depósitos encontra-se à margem direita do Rio Paraíba do Sul, ao longo da estrada RJ-216 que liga o distrito sede de Campos ao Farol de São Tomé.
Mapa 5 – Região Norte Fluminense, Carta Imagem com as Localidades e Área Fonte de Argilas

(carta imagem com a identificação da área fonte de material – Saquarema - e as localidades nas quais se encontram as oficinas das artesãs: Poço Gordo e São Sebastião).

O Projeto Arte, Educação e Cidadania: Oficina de Arte Cerâmica "Caminhos de Barro”, iniciou-se no ano de 2000, no âmbito do Centro de Ciências do Homem, da UENF, com a expectativa de criar um espaço alternativo e privilegiado para a educação e a formação artística, cultural e técnica da comunidade do município de Campos, contribuindo para o processo de desenvolvimento econômico do Pólo Cerâmico da Região, fomentado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Disponível em <http://www.uenf.br/Uenf/Pages/CCH/UESI/Ceramica/?&modelo=1&cod_pag=1247&tabela=&np=O+ Projeto&nc=Caminhos+de+Barro&buscaEdicao=&grupo=CERAMICA&p=> Acesso em 05.01.2010
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Fotos 60, 61, 62 e 63 – Região Norte Fluminense, Oficinas do Projeto “Caminhos de Barro”

Fonte: In: I. S. Ramos, J. Alexandre, M. G. Alves, V. Vogel, M. Gantos A indústria cerâmica vermelha de Campos dos Goitacazes e a inclusão social das artesãs da baixada campista através do projeto Caminhos de Barro, Laboratório de Engenharia Civil - LECIV, Centro de Ciências e Tecnologia – CCT Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. RJ

A Oficina trabalha em parceria com o Colégio Estadual Leôncio Pereira Gomes, e constitui um dos projetos de extensão universitária, concebido como uma estratégia para fomentar o desenvolvimento humano local, na atualidade. Para uma melhor compreensão e execução da proposta, inicialmente o Projeto foi dividido em três componentes específicos e interligados que atendiam aos objetivos gerais do Projeto: histórico, sócio-cultural e técnico–informacional. Na primeira fase, então, procedeu-se à realização de um diagnóstico econômico e sóciocultural do complexo ceramista no município de Campos, a partir do estudo aprofundado da pequena indústria do distrito de São Sebastião, espaço caracterizado por concentrar o maior número de empreendimentos da Região. O motor da pesquisa foi encontrar as raízes primeiras, que consolidadas, prefaciam a história da Região, suas instituições e, no rastro dessa coreografia e do ritmo dos acontecimentos, documentar as memórias sociais, culturais e afetivas preservadas pela comunidade para propor ações práticas orientadas ao desenvolvimento humano, privilegiando a dimensão sócio-comunitária e econômica da Região norte Fluminense. Na segunda fase, criou-se um Sistema de Informação Visual, concebido como uma proposta de uso da tecnologia da imagem aplicada à pesquisa, referência documental e preservação da memória social comunitária da região de São Sebastião. Nele buscou-se identificar, refePlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 143

renciar e interpretar o perfil sócio-econômico, o aparelhamento industrial e as condições de habitat da comunidade ceramista do distrito de São Sebastião. Isto foi realizado mediante a produção sistemática de um registro documental fotográfico e videográfico do mundo da cerâmica local, com o objetivo de resgatar as matrizes identitárias sócio-culturais da Região, para contribuir na formulação final de um projeto voltado ao fortalecimento do poder comunitário. Nesse sentido foram implementadas estratégias e ações pontuais voltadas para a educação e a incorporação comunitária ao processo produtivo, fomentando o melhoramento e sustentabilidade da qualidade de vida da população regional.
Mapa 6 – Região Norte Fluminense, Localização das Oficinas Caminhos de Barro

Fonte: <http://www.uenf.br/Uenf/Pages/CCH/UESI/Ceramica/?&modelo=1&cod_pag=1247&tabela=&np=O+ Projeto&nc=Caminhos+de+Barro&buscaEdicao=&grupo=CERAMICA&p> Acesso em 05.01.2010

Procedeu-se, então, no terceiro momento, ao desenvolver atividades de cerâmica, dança, coral, teatro (cordel) e fotografia junto à comunidade de São Sebastião, sendo a Escola Estadual Leôncio Pereira Gomes o espaço privilegiado, uma vez que a comunidade ligada a ela é parte integrante e alvo do projeto. Paralelamente, o grupo de trabalho constituído, aprofundou-se no imaginário social, partindo da obra de José Cândido de Carvalho – um dos mais ilustres escritores da Região - e, através de sua obra ficcional O Coronel e o Lobisomen, pretendeu-se mostrar que tecida em uma geografia real e em uma revitalização da linguagem, José Cândido trabalha uma mimese irônica cujos suportes reais ainda estão presentes nos espaços rurais e urbanos por ele coreografados. A par destas atividades, criou-se e desenvolveu-se -a partir dos registros de trabalho de campo - um modelo de “banco de imagens” e dados valendo-se do uso de instrumentação eletrônica (fotografia digital, “imaging” e vídeo) associada às técnicas tradicionais das artes visuais.
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Cabe destacar que estas atividades, unidas à criação da Oficina de Arte Cerâmica, foram financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, FAPERJ, e formaram parte de um projeto maior de estudos estratégicos da área da Cerâmica na Região da baixada campista, vinculados ao Programa de Desenvolvimento do Pólo Cerâmica de Campos dos Goytacazes. O projeto Arte-Cerâmica “Caminhos do Barro”, desde suas origens visa contribuir para um processo de autovaloração. Direcionando-se principalmente, para mães dos alunos, visando a geração de renda feminina, que pudesse levar as mulheres -nitidamente excluídas do mercado de trabalho da cerâmica e limitadas ao âmbito doméstico do trabalho invisível- a contribuir na economia familiar da população. Outro alvo da oficina são as crianças das escolas, muitas delas –principalmente os meninos- destinadas historicamente ao trabalho infantil e outras condições degradantes nas olarias. Aproveitando condição diferencial da Região -o trabalho com o barro- a arte cerâmica foi escolhida como estratégia alternativa de geração de renda através da arte e/ou artesanato, que, tendo um maior valor agregado que o tijolo ou a telha, acaba favorecendo uma sustentabilidade possível frente ao fenômeno da deterioração do meio ambiente, decorrente de formas irracionais de exploração dos recursos naturais. Almeja-se, a médio prazo, o desenvolvimento de um pólo de cerâmica artística (“arranjo produtivo local”) no Norte do Estado de Rio de Janeiro que possa constituir-se como referência nacional. Concluída a primeira etapa do processo de implementação da Oficina, seus resultados positivos são observáveis pelo sucesso obtido nas apresentações e exposições das quais o grupo do Projeto participou durante os três últimos anos. Do ponto de vista cultural destaca-se o resgate do valor e da dignidade do trabalho realizado nas olarias, bem como pela afirmação da auto-estima de uma população marcada por dificuldades econômicas e sociais, inerentes a uma Região de muita pobreza. Uma das estratégias, para sustentar esse desenvolvimento regional é, tendo a Oficina como base e núcleo de expansão, apoiar e ampliar processos já desencadeados de forma natural e espontânea de transmissão do saber adquirido no âmbito da Oficina, pela primeira geração de ceramistas por ela formada. A criação do núcleo em Poço Gordo, distrito vizinho a São Sebastião, tem caráter estratégico, uma vez que a criação de um Pólo de Arte Cerâmica auto-sustentável, como alternativa para geração de renda para a Região, não pode prescindir da formação de massa crítica, particularmente jovens, capaz de incorporar, reproduzir e aperfeiçoar o saber adquirido pelas primeiras gerações de artesãos. Na atualidade, a Oficina já conta com um Núcleo em Poço Gordo, onde são ministradas aulas para crianças, jovens e senhoras da localidade através de alunas já formadas pelo próprio Projeto. A sua equipe conta com instrutores, ceramista, pedagoga, coordenadores e diagramadores todos empenhados em ensinar para diferentes níveis de formação e especialização. Avalia-se o impacto da Oficina, tanto na vida dos adultos da comunidade como em relação ao rendimento escolar dos alunos.

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Fotos 64, 65, 66, 67, 68 e 69 – Região Norte Fluminense, Produtos do Projeto “Caminhos de Barro”.

Disponível em: <http://www.uenf.br/Uenf/Pages/CCH/UESI/Ceramica/?&modelo=1&cod_pag=1247&tabela=&np=O+ Projeto&nc=Caminhos+de+Barro&buscaEdicao=&grupo=CERAMICA&p= >Acesso em 05.01.2010

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8.9

O Artesanato na Expo MercoNoroeste

A MercoNoroeste, feira de negócios da Região Noroeste Fluminense, é uma evento regional que acontece a 11 anos, em junho, na Cidade de Itaperuna. Ele tem servido como oportunidade para divulgar os valores de municípios e fazer bons negócios.
Fotos 70 e 71 – Região Noroeste Fluminense, Expo Noroeste, 2009

Crédito :Camilo de Lellis

O artesanato regional esteve presente no último evento: participaram grupos de artesãos de Aperibé, Bom Jesus do Itabapoana, Campos dos Goytacazes, outros de Itaperuna, Italva, Macaé, Miracema, Natividade, Quissamã, Raposo, São Francisco de Itapabapoana, Santo Antônio de Pádua, Porciúncula e Varre-Sai. Segundo os seus organizadores, em 2009 o Setor de Artesanato vendeu 30% a mais do que o ano passado, durante a XI MercoNoroeste. De acordo com o gestor do Projeto, metodologia GEOR do SEBRAE/RJ, o fato se deve talvez ao aumento do número de grupos de artesão que estiveram presente: “ano passado participaram 11 grupos e, em 2009, foram 18 grupos de artesãos, podendo ser este um dos motivos.” Os artesãos trouxeram inclusive, produtos da indústria rural caseira, como mariolas, geléias, compotas, doces cristalizados, café e cachaça que são produzidos artesanalmente, pelos mesmos grupos de artesãos que fazem acessórios e objetos decorativos.
Fotos 72 e 73 – Região Noroeste Fluminense, Produtos Artesanais na XI MercoNoroeste, 2009

Crédito: Camilo de Lellis

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9.

PATRIMÔNIO CULTURAL

A noção de “bem cultural” tem como fundamento o conjunto de bens materiais e imateriais (tangíveis e intangíveis) possuidores de significados que os tornam representativos da Cultura e da existência do homem, onde os limites entre os produtos do homem e da natureza se confundem. Os ambientes da natureza possuem um equilíbrio dinâmico gerando sucessões de paisagens, no tempo e no espaço, que são apropriados à cultura do homem, muitas vezes tornando-se símbolo de sua identidade. O IPHAN trabalha com um universo bastante diversificado de bens culturais, e possui instrumentos específicos de acordo com a natureza do bem. Os bens culturais materiais (que ainda são divididos em duas categorias: imóvel5 e móvel6) são classificados de acordo com suas características em quatro livros do Tombo: 1) Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; 2) Livro do Tombo Histórico; 3) Livro do Tombo das Belas Artes; 4) Livro das Artes Aplicadas. Os bens imateriais são trabalhados segundo as premissas do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial/PNPI, instituído pelo Decreto nº. 3.551, de 4 de agosto de 2000, que tem como objetivo viabilizar projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural. Este programa caracteriza-se como uma ação de fomento que busca estabelecer parcerias com instituições dos governos federal, estadual e municipal, universidades, organizações não governamentais, agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e ao financiamento. Para que seja realizado o registro de um bem cultural de natureza imaterial, alguns requisitos precisam ser preenchidos, dentre eles a apresentação na solicitação de abertura do processo de uma manifestação formal de anuência com o processo de registro por parte da comunidade envolvida, além do cumprimento das etapas de realização de inventário e de análise realizadas pelo corpo técnico do IPHAN. Os bens que recebem parecer favorável para o registro são agrupados por categoria e registrados em livros, classificados em: • Livro de Registro dos Saberes (para conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades); • Livro de Registro de Celebrações (para os rituais e festas que marcam vivência coletiva, religiosidade, entretenimento e outras práticas da vida social); • Livro de Registro dos Lugares (para mercados, feiras, santuários, praças onde são concentradas ou reproduzidas práticas culturais coletivas). Deve-se mencionar também que o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial também prevê a realização de Ações de Salvaguarda, que visam apoiar a continuidade de um bem cultural de natureza imaterial de modo sustentável, atuando no sentido da melhoria das condições sociais e materiais de transmissão e reprodução que possibilitam sua existência. As Regiões Norte e Noroeste possuem um rico acervo Imaterial. Essa Região participou de um importante capítulo da historia do país. Os personagens, que se entrelaçaram nesse enredo de conquistas e resistências, contribuíram cada um com suas culturas. Negros, portugueses, italianos, nativos (entre outros) fizeram destas duas Regiões brasileiras, ímpares existenciais.

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9.1

Conselho Estadual de Tombamento

O Conselho Estadual de Tombamento, CET, órgão consultivo e de assessoramento do Governo do Estado do Rio de Janeiro, integra a estrutura da Secretaria de Estado de Cultura e, no desempenho de suas atribuições, atua em estreita colaboração com o INEPAC. Criado originalmente no antigo Estado da Guanabara, pelo Decreto-Lei Estadual nº 2, de 11 de abril de 1969, e regulamentado pela Lei nº 509, de 3 de dezembro de 1981, o Conselho Estadual de Tombamento tem como principal atribuição a proteção ao patrimônio cultural do Estado do Rio de Janeiro, no que se refere a documentos, obras e locais de valor histórico, artístico e arqueológico, através de pareceres sobre atos de tombamento de bens de interesse cultural e pronunciamentos quanto às propostas de intervenção para os bens protegidos. O CET é constituído de doze membros, dos quais oito são de livre nomeação do Governador do Estado, e escolhidos entre pessoas de notório saber. Com mandato de seis anos, fazem parte também desta composição o Diretor Geral do INEPAC, um representante do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, do Instituto de Arquitetos do Brasil, IAB, e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN.

9.2

Patrimônio Arquitetônico

Considera-se Patrimônio Arquitetônico, os edifícios e monumentos que podem expressar a evolução histórica das artes e das técnicas construtivas, as formas de organização social e os diferentes usos do espaço. Ao longo do processo histórico foram muitos os estilos artísticos e recursos técnicos empregados nas construções. Deste modo, os bens arquitetônicos podem ser selecionados a partir de diferentes critérios, tais como uso e função – arquitetura civil, religiosa, militar, industrial, etc. – assim como seu estilo arquitetônico – colonial, eclético, moderno, etc. Campos dos Goytacazes está entre as cidades brasileiras com maior conjunto arquitetônico eclético preservado. Este estilo arquitetônico, caracteristicamente urbano, teve intenso uso ao longo do século XIX, quando a população, à raiz do “boom” econômico da cana-deaçúcar, abandona as rústicas casas da baixada, de taipa, e vem habitar a aglomeração urbana, na sua área mais central. Sem dúvida, os solares construídos no chamado Ciclo Áureo do Açúcar são os que mais determinam a magnitude da arquitetura da cidade. Em torno da casa-grande e da capela, girava a vida social do Engenho. Na casa-grande, a aristocracia açucareira não economizava em “glamour” e tentava seguir as últimas tendências da moda e dos costumes das cortes européias em suas festas, bailes e recepções. E se esmerava na arte de “receber”, função valorizada pela arquitetura desses edifícios. Na capela, os ofícios ou as festividades reuniam todos os protagonistas do Engenho, graças a uma arquitetura que proporcionava um “contato sem contágio”. A escolha do local para a implantação das construções e de diferentes materiais nos edifícios componentes dos engenhos de açúcar, revelavam a hierarquia social e o sistema de valores dessa sociedade em formação, fundada sobre a família patriarcal. Enquanto a casa grande era construída com material nobre – pedra e cal – e situada na parte mais alta do terreno, as senzalas, construídas com materiais precários – terra, madeira, cipó – ocupavam a parte mais baixa dos terrenos. Por esta razão, poucas dessas habitações chegaram até os dias de hoje. A casa grande era o centro de irradiação de toda a vida econômica e social da propriedade. Tais construções podiam ser verdadeiros palacetes, mas nem sempre eram suntuosas, dada a grande diversidade do status financeiro dos donos de engenho. Eram funcionais, mas
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de conforto ambiental precário e, por longo tempo, as alcovas (cômodos internos sem janelas) permaneceram no programa das casas. Só a partir da segunda metade do século XIX, sob a influência dos higienistas, com suas idéias sobre os benefícios do ar em movimento, é que as casas passaram a ter oitões livres e quartos com aeração. Quanto à sua arquitetura, a tentativa foi a de adaptação à geografia do sítio, à paisagem natural, aos materiais disponíveis e às exigências decorrentes do clima tropical da Colônia. Além disso, adequação também à maneira de viver, hábitos e costumes locais - como o (imperialismo) português aqui se manifestava – às relações sociais e às necessidades do patriarcalismo rural e escravocrata. Com isso tudo, dialogavam as grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, coberta de palha ou telha-vã, o alpendre na frente e nos lados, os generosos telhados protegendo do sol forte e das chuvas tropicais. A cultura do açúcar produziu formas peculiares de dormir, de descansar, de comer, de defecar, de banhar-se e de parir.21E à arquitetura coube atender essas funções. Além disso, viabilizar o espaço construído para comportar a família ampliada (afilhados, compadres, agregados de todo tipo), à reclusão das moças solteiras, ao confinamento das mulheres nas cozinhas, ao seu deslocamento sempre acompanhado por diversas escravas. Os pátios internos e, mais tarde, as varandas periféricas garantiam a privacidade, fazendo a transição entre o espaço externo e os cômodos da casa. Os quartos de dormir – as alcovas –, nenhum contato tinham com o exterior, já que não possuíam janelas. 28 Os equipamentos de assistência médica, igualmente, era um apoio fundamental à vida no engenho. Inicialmente, sob forma de boticas, fazendo parte das casas grandes e, mais tarde, como verdadeiros hospitais, já no tempo das usinas. Outras casas, em número variável, serviam de residência ao capelão, ao mestre de açúcar (que comandava a “casa das fornalhas”), aos feitores e aos poucos trabalhadores assalariados. E finalmente, nas senzalas, toscas construções, geralmente em construções lineares, amontoavam-se os escravos, às centenas, em cômodos mal iluminados, mal ventilados. Em termos construtivos e não só, as senzalas se aparentavam com as estrebarias. A forma como essas duas Regiões foram colonizadas refletem no patrimônio adquirido, acumulado e preservado. O padrão de construção carrega a influência de uma época que transitou entre riquezas e privações. O auge da economia fez com que fosse possível investir em requinte e beleza. E então, padrões europeus passaram a ser incorporados aos padrões da época nestas Regiões brasileiras. Sede de fazenda de açúcar mais próxima ao Centro de Quissamã, a moradia do Visconde de Araruama, de 1826, chegou a receber o Imperador Dom Pedro II como hóspede por diversas vezes. Além do Imperador, passaram pela grande aléia de palmeiras imperiais o Duque de Caxias, o Conde D’ Eu e a Princesa Isabel, convidados ilustres das requintadas festas que ali aconteceram.

21

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Formação da família brasileira sob o regime daeconomia patriarcal. Editora José Olympio, 1975.
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Fotos 74 e 75 – Região Noroeste Fluminense, Museu Casa Quissamã

Fonte: Disponível em:<http//www.quissama.rj.gov.br> Acesso em: 10/12/2009

A Mato da Pipa constitui a mais antiga casa de engenho do Norte Fluminense ainda conservada e foi a primeira casa de telhas de toda a Região. Construída em 1777, é um exemplo da arquitetura rural inspirada pelo estilo bandeirista de São Paulo. A casa possui um acervo de documentos, móveis e utensílios que por si só contam sobre os primeiros colonizadores da Região. Atualmente, o imóvel pertence à Associação dos Amigos de Mato de Pipa, fundada em 1983, que é responsável por sua preservação e manutenção.
Fotos 76 e 77 – Região Noroeste Fluminense, Casa Mato Pipa em Quissamã

Fonte: Disponível em: <http//www.quissama.rj.gov.br >Acesso em 10/12/2009

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Fotos 78 e 79 – Região Noroeste Fluminense, Senzalas da Fazenda Machadinha em Quissamã

Fonte: Disponível em:< http//www.quissama.rj.gov.br >Acesso em 10/12/2009

9.3

Patrimônio Arquitetônico Religioso

Edificada provavelmente em meados do século XVII, por fidalgos portugueses no período de domínio dos Assecas, apresenta características barrocas simples, tanto internas como externamente. O frontão da fachada com as suas volutas e ornatos possuem estilo barroco, denotando dessa forma uma sobriedade altiva própria da fidalguia portuguesa que a construiu. A imagem da padroeira veio de Lisboa em 1650, por determinação do donatário da capitania, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, e hoje, somente em dia de festa, nela permanece.
Foto 80 – Campos dos Goytacazes, Capela Nossa Senhora do Rosário (Donana)

É um dos primeiros imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN, no ano de 1942, em Campos dos Goytacazes, A Capela se destaca, junto à Capela de Nossa Senhora do Rosário, de Campo Limpo, como uma das mais antigas construções, ainda preservadas, do período colonial na planície.

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Foto 81 – Quissamã, Igreja Nossa Senhora do Desterro

Fonte: Disponível em:< http//www.quissama.rj.gov.br >Acesso em 10/12/2009

Seu estilo arquitetônico é o eclético europeu com características das construções religiosas do início do século XX, do Sul da Alemanha. Possui planta de nave única e torre sineira central na fachada frontal. No seu interior encontram-se alguns altares, além de imagens sacras originais da antiga matriz, que foram recentemente restauradas. O altar-mor foi trazido da Alemanha e, antes de vir para Quissamã, figurou na exposição comemorativa do Centenário da Independência, em 1922, no Rio de Janeiro. Atualmente, a Matriz guarda também peças importantes como a pia batismal e o púlpito de origem germânica. O conjunto arquitetônico é composto pela igreja, o convento dos padres redentoristas (1928) e gruta artificial.

10.

ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DA CULTURA, IDC

No sentido de se avaliar a condição do desenvolvimento da Cultura nas Regiões Noroeste e Norte Fluminense, foi aplicada uma metodologia qualificada cuja síntese conduz ao Índice de Desenvolvimento Cultural, o qual foi objeto de investigação junto aos municípios, permitindo-se obter uma posição para as Regiões, de modo individualizado. Para tal, foi realizada uma análise sistemática a partir de questionário, respondido pela área especializada e responsável pela Cultura nas Municipalidades, cujos conteúdos foram processados uma vez avaliados à luz das informações disponíveis. Quatro respondentes faltaram: Itaperuna e Cambuci, na Noroeste, e Campos do Goytacazes e São Francisco de Itabapoana, na Norte. O Índice de Desenvolvimento Cultural, IDC, constitui ua mensuração especializada, numa perspectiva de escopo e escala, que procura captar o que acontece com a Cultura de cada ambiente pesquisado, a cada momento, o que lhe faculta a condição de expressar os movimentos da dinâmica que habitualmente ocorre, entre tempos consecutivos. Para cumprir com os objetivos que dele se espera, o IDC se forma de ua média ponderada de nove Índices que consideram quarenta dimensões ou temas diversificados, relacionados diretamente à Cultura, cujas medidas representam Indicadores. Não obstante a integração que se observa necessariamente, com intensidade crescente entre Cultura e Turismo, em qualquer de suas modalidades, o IDC não adentra o campo específico do Turismo, contemplando simplesmente questões de interesse comum – saliente-se que o turismo cultural é uma das maiores oportunidades de desenvolvimento das grandes economias mundiais. O IDC é constituído, portanto, por nove índices, quais são:
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• • • • • • • • •

Institucional (cinco indicadores); Participação da sociedade (quatro indicadores); Infra-estrutura cultural e instalações (dez indicadores); Atrações culturais originais e nativas (três indicadores); Patrimônio histórico, cultural e ambiental (três indicadores); Economia da cultura (cinco indicadores); Programas culturais para a população (dois indicadores); Turismo (seis indicadores); Planejamento (dois indicadores).

Na medida em que as respostas foram produzidas pelos gestores municipais, elas foram aceitas como representantes das realidades reportadas, excetuando os casos das transgressões lógicas, as quais foram devidamente ajustadas. Os resultados constam das Tabelas seguintes. Neles se observa claramente que o tratamento da Cultura difere entre municípios, com alguns deles já assumindo uma postura avançada de tê-la como uma atividade sustentável, decisiva e contribuindo para a formação da economia e do modo de pensar e ser municipal, com participação ativa na inclusão social e no processo distributivo de renda. Pelas informações das Municipalidades das Regiões, tais políticas e ações/pro-gramas culturais são recentes, estando em implantação ou progressão, ou seja, percorrem uma fase inicial de sua vida útil. Uma vez que a existência de grandes empresas ou de empresas mais estruturadas ou de base de conhecimento é limitada quantitativamente nas duas Regiões, as atividades de Cultura ligadas ao empreendedorismo são incipientes. De maneira análoga, as ações integradas no ambiente regional, muito poucas (apesar das respostas em contrário), levam a maioria das Municipalidades a atuar de modo individualizado, em vários casos com grande entusiasmo e competência. Os Circuitos, conquanto existentes, mostram-se pouco eficazes, quando em operação. Com isto, as sinergias não ocorrem e os sistemas das Regiões (e interRegiões) não capitalizam e dissipam ou deixam de usar o que poderiam ter, em termos de energia. Analisando-se o IDC da Região Noroeste constata-se que: • há uma variação acentuada entre as Municipalidades (4,25 vezes entre o maior e o menor valor) o que indica que há orientações municipais bastante distintas, decorrentes provavelmente de realidades muito diferenciadas; • o desenvolvimento cultural, no seu primeiro movimento, caso atual, não está associado, necessariamente, à dimensão da população ou ao agregado da economia de um município, mas depende da receita da Municipalidade e de sua alocação para o desenvolvimento da Cultura; • a média regional 4,80 é baixa mostrando que há uma longa trajetória de oportunidades a conquistar. Cabe lembrar que os valores dos IDCs das Municipalidades, sem que tenha sido feito um estudo específico de correlação, na média, retratam valores similares aos do Índice da Educação Básica Brasileiro, IDEB, o que merece investigações subseqüentes; • há, na Região, iniciativas e projetos municipais de grande envergadura, capazes de se constituírem como núcleo genético, que, se continuados, devem produzir efeitos multiplicadores e resultados nos anos vindouros, assim como há outras Municipalidades, sem projetos; • não obstante os esforços já obtidos em relação à educação e formação de jovens e adultos, na Região, para a sua participação ativa no seu sistema cultural produtivo, a oferta existente - escolas, academias, oficinas, ateliers, etc.- é bastante limitada e aquém do que pode e deve ser feito;
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como Cultura envolve movimentação de pessoas e o seu desenvolvimento se vincula de maneira decisiva e, na maior parte dos casos, depende do turismo para manter a sua inserção na economia regional e em outras que apresentem demandas, ela requer uma infra-estrutura de hospedagem, alimentação e mobilidade/acesso. A situação existente na Região é de carência generalizada de unidades e qualidade, representando uma restrição significativa a uma potencial expansão de atividades para demandas maiores.

Tabela 9 – Região Noroeste Fluminense, Índice de Desenvolvimento Cultural (IDC)

REGIÃO NOROESTE FLUMINENSE INDICE DE DESENVOLVIMENTO DA CULTURA (IDC) IDC Município/IDC Região MUNICÍPIOS IDC 3,59 0,75 Aperibé Bom Jesus do Itabapoana 5,47 1,14 s/i s/i Cambuci 4,41 0,92 Italva 4,95 1,18 Itaocara s/i s/i Itaperuna 4,22 0,88 Laje do Muriaé 6,08 1,27 Miracema 3,44 0,72 Natividade 4,15 0,86 Porciúncula 5,20 1,08 Santo Antonio de Pádua 1,43 0,30 São José de Ubá 5,07 1,06 Varre-Sai Região Noroeste Fluminense 4,80
s/i = sem informação Obs: Para a média da Região foram usados somente os municípios com informações

Analisando-se o IDC da Região Norte constata-se que: • variações existem entre os Municípios, com característica de maior simetria, com pequena diferença entre os seus extremos, a qual não chega a uma vez; • reitera-se a observação quanto à independência do desenvolvimento cultural das variáveis usualmente consideradas para o crescimento; • o público visitante numa localidade litorânea, mesmo sem oferecer condições mais estruturadas, é, regra geral, maior quantitativamente do que o de um localidade interior; • a experiência das fundações culturais para atuar pelas Municipalidades, tem funcionado bem e com resultados adequados; • a experiência com vários programas culturais para a inclusão social no sistema econômico vem comprovando, nas Municipalidades desta Região que o adotaram, resultados muito animadores, com respostas duradouras; • os valores das receitas das Municipalidades, bem superiores às do Noroeste, ensejam ou ensejariam proporcionalmente, muito maior possibilidade para o desenvolvimento cultural desta Região, o que, efetivamente, não vem ocorrendo; • os outros comentários, que figuram para a Região Noroeste, se aplicam igualmente à Região Norte, com atenuação quanto ao sistema receptivo de turismo, em que o Norte possui melhores unidades, em alguns Municípios, em funcionamento.
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Tabela 10 – Região Norte Fluminense, Índice de Desenvolvimento Cultural (IDC)

REGIÃO NORTE FLUMINENSE INDICE DE DESENVOLVIMENTO DA CULTURA (IDC) IDC Município/IDC Região MUNICÍPIOS IDC Campos dos Goytacazes s/i s/i Carapebus Cardoso Moreira Conceição de Macabú Macaé Quissamã São Fidelis São Francisco do Itabapoana São João da Barra Região Norte Fluminense 4,05 5,20 4,07 5,87 8,01 6,01 s/i 7,42 5,44 0,79 0,96 0,75 1,08 1,47 1,11 s/i 1,36

s/i = sem informação Obs: Para a média da Região foram usados somente os municípios com informações

Comentários Gerais Em ambas as Regiões, verifica-se que: • nem todos os municípios apresentam as mesmas condições para promoverem a inserção diferenciada da sua Cultura na sua economia, mas todos podem tê-la para subsidiariamente agregar valor à sua economia; • o desenvolvimento da Cultura em uma Região não pressupõe que todas as suas Municipalidades se dediquem a gerenciar a Cultura como parte de sua economia; • a diferenciação de recursos financeiros e ações destinados à Cultura, entre Municípios ou Municipalidades, não determina que a Região não possa desenvolver uma plataforma própria, para desenvolver a sua plataforma de Cultura, respeitando os objetos estratégicos que lhe sejam convenientes ; • o pequeno número e empresas participantes das atividades culturais nas duas Regiões constitui um elemento que, de fato, limita seu desenvolvimento. 11. DA CULTURA DO CRESCIMENTO
“O Brasil nasceu e cresceu econômica e socialmente com o açúcar. a casa de engenho foi modelo da fazenda do cacau, da fazenda do café, da estância. Foi base de um complexo sociocultural de vida.” Gilberto Freyre

Ao longo de sua história, desde Pero de Góis em 1530, com a sua Capitania de São Tomé, passando pelas glórias dos Sete Capitães, pelo período terrível da dinastia dos Assecas com a manifestação de resistência e bravura de Benta Pereira de Souza e Mariana Barreto, a que sucedeu a dominação pela Coroa, até o início do Império, o Norte Fluminense desenvolveu a maior província econômica brasileira, calcada na agropecuária de grandes latifúndios que usavam habitual e intensamente dos aforamentos para multiplicar as áreas de cultivo e produção dos seus territórios. Enquanto isto ocorria nas planícies, nas montanhas, condição semelhante se desenvolveu um pouco mais tarde, com outros cultivares, numa estrutura diferente, na medida em que foram as próprias famílias e com a participação de trabalhadores mineiros. Todo o escoamento desta produção era feito por vias férreas até a
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cidade do Rio de Janeiro, que acumulava as condições de capital do país e do Estado. O fluxo fluvial pelo Paraíba do Sul, a partir de São Fidelis, enfrentou as restrições do porto de São João da Barra, sendo que as cargas ali embarcadas também eram destinadas ao porto do Rio de Janeiro (repete-se o ciclo do ouro). Ressalte-se que assim como todos os fluxos convergiam para a capital, durante os primeiros séculos capitães ou os senhores proprietários das terras ou dos seus direitos habitavam a cidade do Rio de Janeiro. A drástica mudança da estrutura fundiária da planície, que ocorre no século XIX, de grandes latifúndios, multiplicando-se em centenas de minifúndios (hoje mais de cinco mil), descreve uma trajetória de distribuição e desconcentração. Esta condição multiplica as engenhocas, depois os engenhos a vapor até chegar aos grandes engenhos e à usina, ou seja, o avanço da tecnologia de processamento e produção determina uma trajetória inversa, de concentração e escala, hoje automatização e produtividade. As mudanças tecnológicas estendem a duração dos negócios dos senhores de engenho e da sua vida de fausto e riqueza, habitantes de solares, em que a educação floresceu neste estrato mais rico, em substituição a séculos de baixa educação, falta de apreciação do conhecimento e desvalorização da cultura, salvo o cultivar a terra. Instalara-se um sistema neofeudal, “com uma multidão de pequenos donos de fazendolas” que se apegam à terra, que pela primeira vez lhes pertence. Centenas de núcleos produtores se espalham no território, fazendo-os reféns da cadeia de comercialização a jusante. Os filhos dos integrantes dessa oligarquia, educados nas capitais, não tem o mesmo apreço e compromisso com a terra e o negócio e deles não participam. A riqueza dos empreendimentos privados não gera poupança e nem se transforma em investimento de capital. O domínio exógeno que sucedia com os proprietários morando fora, a maioria na capital, durante a Colônia, passa a ser exercido pelo capital e pela cadeia de comercialização com as interdependências ou dependências que eles exercitam. Com o advento dos grandes engenhos e das usinas, o senhor de engenho passa a constituir-se em fornecedor de matéria bruta, a cana de açúcar. O limite que contribui para a sua queda ocorre com as usinas, ou a industrialização, que rompem com o sistema escravocrata e contribuem para a extinção do Império. O poder de decisão que, em relação ao Norte Fluminense, persistiu durante séculos na cidade do Rio de Janeiro e parecia ter se voltado para a aristocracia dominante local (ou regional), uma visibilidade aparente, à cidade retorna. A emergência da sociedade afluente no Norte Fluminense, decorrente de um extraordinário crescimento de sua economia e população, caracteriza-se por seu “isolamento histórico geográfico”. Analisando esta resenha essencial, ressalta-se que o ocorrido com o Norte-Noroeste Fluminense define-se muito mais como um crescimento endógeno, com uma convergência entre a economia regional e a nacional/internacional, do que de um desenvolvimento endógeno. Para que este tivesse ocorrido teria que ter havido a identificação dos fatores e mecanismos que constituíam os processos de seu crescimento e de mudança estrutural associados à flexibilidade e organização da produção, à capacidade de integrar os recursos das empresas e do território no sentido de lhe assegurar competitividade e sustentabilidade. Tal situação representa necessariamente um processo empreendedor e inovador em que o território não se mostra um receptor passivo de estratégias de agentes e organizações externas, ao contrário, possui uma estratégia própria que lhe permite conduzir a dinâmica de sua economia. Observa-se que a Região integrada não buscou e/ou conseguiu uma competência regional capaz de tomar decisões relevantes e autônomas em relação às suas opções de seu desenvolvimento, aos diferentes modos para orientá-lo, e em relação à disponibilidade dos instrumentos essenciais ao exercício de sua gestão, à qualificação para formular e executar políticas de desenvolvimento e mais importante, à qualificação de negociar e se adaptar a
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situações novas, na dinâmica dos movimentos que interferiram no destino de sua própria economia. O pensamento dominante orientou-se para o curto prazo e aceitou a monocultura extrativa, sem se preocupar com o longo prazo e a sustentabilidade, e não se insurgiu contra a dominação exógena existente, substituindo-a por um sistema de governança próprio. No plano econômico, não houve a capitalização dos resultados (exceção ao grupo de empreendedores/investidores de Quissamã que prosseguiu bem, até a quebra da Bolsa, em 1929), constituindo-se os meios de reinversão ou inversão dos lucros no aprimoramento ou diversificação da produção de sustentação regional de longo prazo. A título de exemplo, não houve e nem há bancos da Região. De maneira análoga, não se cuidou da questão tecnológica e científica que conduzisse/produzisse, com base regional, as transformações de avanço qualitativas dos múltiplos sistemas de produção existentes tanto na área do agronegócio, quanto no segmento industrial e de logística. O que reúne e coordena essas faltas e incapacidades foi, sobretudo, a ausência de uma cultura de integração e de desenvolvimento regional, como a matriz geradora da sua identidade territorial. Observa-se de maneira clara, que na medida em que a complexidade das operações e movimentos e escalas da economia Norte Fluminense cresceu, durante séculos, mais o seu sistema produtivo se abriu, isto é, mais ele passou a interagir com o meio externo estadual/nacional e internacional, em interdependência, lembrando-se, a título de exemplo, que o açúcar, como “commodity”, é e já foi um dos produtos mais valiosos das bolsas de mercadoria mais importantes, onde são fixados os seus preços de mercado. O mesmo acontece com o café, cereais, petróleo, indústria naval, principalmente. Assim, nesta sua interação com o meio, o sistema econômico regional Norte importou e importa matéria, energia e conhecimento, transformando estes insumos e exportando produtos que os convertem e os incorporam a outros insumos produzidos localmente. Neste intercâmbio, em geral, ocorre uma situação de equilíbrio que é mantida, desde que sistema e meio admitem as mudanças e transformações especificadas reciprocamene (a título de ilustração, com a abolição, enquanto declinou acentuadamente a produção de café Fluminense, cresceram, com igual intensidade, as paulista e mineira). No caso do Norte Fluminense, os fluxos com seu entorno foram e são muito grandes e intensos, na medida em que seus produtos, ao longo de sua história, formam a primeira linha de consumo global. Nestas circunstâncias, um número crescente de operações vinculadas ao seu crescente grau de complexidade, que inicia ou finaliza dentro do seu território regional, tem a sua finalização ou início fora dele. Tal relação era entendida, num paradigma antigo, como todo-parte, quando na verdade se comporta como sistema-entorno (na qual a Região subsiste em cada uma e todas as suas partes, assim como as suas partes subsistem na Região). O desenvolvimento de uma região busca o aumento de sua complexidade, reduzindo a sua diferença em relação à do seu entorno, o qual sempre será portador de uma complexidade maior. Como um território pequeno típico, o Norte Fluminense tende a trabalhar com uma abertura sistêmica ampla, o que tende a transformar em exógeno ao território, o processo de seu crescimento econômico, do ponto de vista da decisão (investidores, empreendedores, capitais e tecnologias/conhecimentos externos). Naturalmente se esta constitui a condição para o seu crescimento, a autonomia e sustentabilidade de seu desenvolvimento dependerão de uma governança endógena muito mais desafiadora, que deve confrontar direta e continuamente com decisões exógenas. Assim como aconteceu com os encadeamentos da cana de açúcar, acontece com o petróleo e acontecerá com o pré-sal e com a indústria naval.

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Por outro lado, quanto mais aberto um sistema, maior é a sua propensão a chegar a um Estado final dissipativo e para evitá-lo, deve equilibrar os fluxos de troca com o seu entorno e redistribuir os que entram, internamente (na sua endogeneidade). Um sistema dissipativo tem a dupla habilidade de aumentar e armazenar conhecimento sob a forma de níveis cada vez maiores de complexidade interna e de exportar desorganização ao seu entorno imediato. Quanto mais aberto é um sistema, menores os seus graus de liberdade, disponíveis endogenamente para sua autocoordenação e para a auto-regulação de seu processo de emergência. Em contrapartida, quanto mais fechado um sistema, mais energia ele acumula internamente, aumentando sua entropia. Entenda-se que o fechamento tanto pode ocorrer por medidas que restringem explicitamente a abertura do sistema, quanto acontece pelo fato dos agentes locais não perceberem ou não compreenderem ou ignorarem o que está a se passar, operando como se o entorno fosse um elemento passivo e/ou que as condições internas vigentes possuíssem perpetuidade. Se isto acontecer, o aumento da entropia do sistema pode levá-lo, no limite, à morte. Certamente, este (a cultura isolacionista e individualista e o grau de fechamento correspondente) foi o determinante dos ciclos anteriores do Norte Fluminense, no que diz respeito ao café e à cana de açúcar e deve constituir a preocupação central do atual ciclo do petróleo.

12.

LAZER - CONSIDERAÇÕES

O Estado do Rio de Janeiro é bastante privilegiado em relação à sua natureza. A grande diversidade de sistemas e ecossitemas torna possível, num pequeno espaço territorial, experimentar ares e paisagens dos mais diferentes tipos e possibilidades, capazes de propiciar lazer e entretenimento. Nas Regiões Norte e Noroeste do Estado, montanhas, vales e praias se intercalam e abrese um leque de oportunidades para viver, produzir, construir e principalmente divertir. A Região Noroeste dotada de montanhas com grandes rios e vales, oferece oportunidades de lazer em atividades como vôos livres com asa delta e parapente, ciclismo, caminhadas, balonismo, canoagem, rapel e escalada, “trekking” e trilhas e “cross”, cavalgadas, pesca, dentre outras.
Fotos 82 e 83 – Região Noroeste Fluminense, Parapente, São José de Ubá

Fonte: Disponível em:<http://www.morroazuleventos.com.br/page1.aspx >Acesso em 05/12/2009
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Foto 84 – Região Noroeste Fluminense, Caminhada em Miracema Foto 85 – Região Noroeste Fluminense, Montanhas do Noroeste Fluminense

Fonte:Disponível em:<http://www.morroazuleventos.com.br/page1.aspx >Acesso em 05/12/2009

A Região Norte oferece outras opções com as suas enormes planícies alagadas, praias de mar profundo e muita história para ser apreciada principalmente nas aglomerações. As praias, portadoras de beleza natural especial, não concorrem em condições favoráveis para sua utilização com outras praias do território fluminense ou capixaba, dentre outras. Em ambas, o que existe de patrimônio valioso é pouco aproveitado para o lazer e para o turismo, este predominantemente de temporada, para público interno ao país (classes C e seguintes). O acervo histórico e arquitetônico importante, moldado e decorrente dos cultivares, salvo algumas exceções importantes, não estão orientados para operar como atrações e produtos, que contribuam para o bem estar e o entretenimento de nativos e visitantes. As condições climáticas são favoráveis, com um regime dominante tipicamente tropical, úmido e quente, com restrições no período de chuvas.
Fotos 86 e 87 – Região Norte Fluminense, Excursão de Lazer, Canal Campos-Macaé

Fonte: Disponível em:http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/2009/05/06/municipio-quissama/ Acesso em: 08/02/2010
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A título de exemplo, pode ser visualizado o uso do Canal Campos-Macaé que possui cerca de 100 km de extensão, atravessando os municípios de Campos, Quissamã, Carapebus e Macaé, o segundo canal mais extenso do mundo, construído pelo homem. Constitui uma das mais importantes obras do Imperador D. Pedro II, no Estado do Rio de Janeiro, e é considerada, até hoje, uma das grandes obras da engenharia brasileira do século XIX. Construído entre 1843 e 1861, pelos escravos, tinha como função o escoamento da produção de açúcar das fazendas de Quissamã, Campos e Carapebus até o porto de Macaé e contribuir para a drenagem e regularização da bacia do Paraíba do Sul. Ele integra a programação de lazer do município de Quissamã e circunvizinhança, atendendo a várias faixas etárias e operando com agências de turismo, constituindo uma exceção, ainda pouco frequentada.
Fotos 88 e 89 – Região Norte Fluminense, A Lagoa Feia

Fonte: Disponível em:<http://www.quissama.rj.gov.br/index.php/2009/05/06/municipio-quissama/ Acesso em: 08/02/2010

De maneira análoga e na extremidade do canal, localiza-se a Lagoa Feia a qual é o segundo maior espelho de água doce do país em termos de superfície. Suas águas banham os municípios de Campos dos Goytacazes e Quissamã, margeando diversas propriedades rurais, desvendando um cenário de grande beleza (ao contrário do que diz o seu nome). Espécies de peixes como a traíra e o robalo, sustentam e alimentam famílias inteiras de quissamaenses e campistas. Sua utilização para o lazer é mínima, assim como as corredeiras dos diversos rios das duas Regiões, os vales e assim por diante. Pode-se dizer que as Municipalidades e empresariado desses dois municípios retratam o comportamento típico das duas Regiões, na medida em que utilizam de forma muito modesta ainda, os recursos naturais e culturais de que dispõem, para atender às demandas de seu mercado de lazer e o turismo. Como tal, há uma carência generalizada de infra-estrutura de lazer e turismo, tanto para os públicos locais-regionais e principalmente, para visitantes. Do ponto de vista da oferta de lazer, a ênfase são os eventos que ocorrem nos ambientes dos municípios, ao longo de todo o ano, com calendários individualizados, que não observam uma integração nem na Região, nem interregionalmente, o que pode ser visto na Tabela seguinte, que compila o que existe programado mais importante em cada município das Regiões Norte e Noroeste Fluminense.

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Tabela 11 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais, Janeiro Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Evento Descrição Campos dos Goytacazes Projeto Farol Programação cultural, esportiva e de lazer. Festa em homenagem ao padroeiro do Distrito de Santo Amaro, com a Cavalhada de Santo Amaro representação das lutas entre os soldados cristãos de Carlos Magno e os soldados mouros do sultão de Constantinopla. Carapebus Verão Livre Copa de jet ski, enduro de motovelocidade, torneios de pesca, futebol, voleibol e footvolei, Italva Festival Folia de Reis Miracema Festejo Folia de Reis São Sebastião Carnaval Blocos de sujos, mascarados, desfiles de escolas de samba, grupos folclóricos e shows. São João da Barra Festa de Santo Amaro Festa de São Sebastião Aniversário da Cidade São Fidelis Festival Folia de Reis Quissamã Projeto Verão 2009 Campeonato Brasileiro de Surf Profissional Macaé Festival de verão Competições esportivas e shows Aperibé Italva São Francisco do Itabapoana Varre- Sai Festa de São Sebastião Festival Aniversário da cidade Festa de São Sebastião Aniversário da Cidade Padroeiro da cidade Folia de Reis

Tabela 12 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Fevereiro Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Quissamã Evento Festa em Louvor a N. Sª do Desterro Carnaval Carnaval Descrição

Macaé

Durante o dia, trio elétrico, na Av. Atlântica, na Praia de Cavaleiros. A noite são desfiles de blocos e escolas no centro.

Bom Jesus do Itabapoana Cambuci Itaocara Natividade

Carnaval Campeonato Interestadual de Vôo Livre Festa de São José Carnaval

Padroeiro da cidade Desfile de Blocos, Boi Pintadinho e Bonecas da Alegria

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Tabela 13 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Março Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Cambuci Campos dos Goytacazes Carapebus Cardoso Moreira Macaé Conceição de Macabu Itaperuna São João da Barra São José de Ubá Evento Aniversário da cidade Aniversário da cidade Aniversário da cidade Festa de São José Dia da consciência negra Homenagem ao poeta Macaense Aniversário da cidade Festa de São José Campeonato nacional de surf Exposição agropecuária Padroeiro da cidade Descrição

Tabela 14 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Abril Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Aperibé São Fidelis Miracema Natividade Evento Festa do Padroeiro São Sebastião Aniversário da cidade Festa de São Fidelis Exposição Especializada do Cavalo Manga Larga Marchador Celebração da Semana Santa Encenação tradicional da Paixão e Morte de Jesus Cristo com mais de 100 atores Padroeiro da cidade Descrição

São João da Barra Varre-Sai Macaé

Festa de Nossa Senhora da Penha Paixão de Cristo Festa da Cidade Festa de São José do Barreto Via Sacra Concurso da Poesia Infantil Aniversário da Biblioteca Municipal Caminhada da Natureza “Circuito Jurubatiba” Festa em Louvor a Nª. Sª. da Penha

Quissamã

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Tabela 15 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Maio Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Conceição de Macabu Miracema Cambuci Evento Exposição Agropecuária Aniversário da cidade Exposição Agropecuária Concurso Leiteiro do Valão do Padre Antônio Festa de maio Descrição

Homenagem à Padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição Comemoração fundação da Câmara Municipal e aniversário da cidade Município de Raposo

São João da Barra Itaperuna

Festa de Nossa Senhora de Fátima Festa do 10 de maio

Macaé

Festa do carro de boi Festa Maína do Frade

Tabela 16 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Junho Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Evento São Fidelis Festas juninas Bom Jesus Do Itabapoana Arraial do Bom Jesus Miracema Aniversário da cidade Festas juninas Cambuci Festa de São João Concurso Leiteiro de São João do Paraíso Italva Natividade São João da Barra Exposição Agropecuária Corpus Christi Aniversário da cidade Festa de Santo Antonio Aniversário da cidade Festa de São João Batista Festa de São Pedro Corpus Chirsti Festa de Santo Antonio de Padua Festas juninas Aniversário do Município Festa em Louvor a Santo Antônio/ Machadinha Festa em Louvor a Santo Antônio / Santa Francisca Festa em Louvor a Santo Antônio / Canto de Santo Antônio São João Municipal Procissão Fluvial de São Pedro / Barra do Furado Mostra profissional de dança Festa do Distrito de Sana Festa de Santo Antônio Festa de São João Batista Festa de São Pedro Padroeiro da cidade Descrição

Tradicional procissão com tapetes nas ruas.

Campos dos Goytacazes Porciuncula Itaperuna Quissamã

Macaé

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Tabela 17 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Julho Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Cardoso Moreira São Fidelis Miracema Evento Exposição Agropecuária e Industrial Festival de inverno Festa country Festa de Santana e São Sebastião Festa da fraternidade Cambuci Italva Natividade Festival da batida Aniversário da cidade Aparição de Nossa Senhora A pedra misteriosa é banhada na água onde Nossa Senhora apareceu. Descrição

Campos dos Goytacazes

Exposição Agro-pecuária, Industrial e Turística Encontro de carros antigos Encontro Nacional de Motociclistas

Santo Antônio de Padua

Exposição Agropecuária e Industrial Festival da Canção Popular Festival de Jovens Talentos Festival do vinho Exposição Agropecuária, Turística e Industrial Festa em Louvor a Nª. Sª. do Carmo Festa em Louvor a São Cristóvão Festa de Sant’Anna Aniversário do Município Exposição Agropecuária, Turística e Industrial- Expo Macaé Maior festa da cidade

Varre-Sai Quissamã

Macaé

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Tabela 18 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Agosto Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Cardoso Moreira Laje do Muriaé São Fidelis Feira do Folclore Feira do Folclore Semana do Folclore Festival da Lagosta Festa de Participação dos Purezenses Bom Jesus do Itabapoana Festa do Padroeiro Bom Jesus Festa da Coroa do Divino Aniversário da cidade Exposição Agropecuária Miracema Semana do meio ambiente Festa do Folclore Festa do Divino Cambuci Natividade São João da Barra Concurso leiteiro Dia do Evangélico Festa de Nossa Senhora da Boa Morte Moto Inverno Campos dos Goytacazes Porciúncula Festa de São Salvador Aniversário da cidade Exposição Agropecuária Carapebus Quissamã Festa de Nossa Senhora da Glória Caminhada da Natureza “Circuito Histórico” Festa em Louvor a Nª. Sª da Glória Festa em Louvor a Nª. Sª da Boa Morte Festa em Louvor a Santa Marta e São João Semana Euzébio de Melo Dia do Folclore Padroeira da cidade Padroeiro da cidade Procissão do mastro Evento Descrição

Macaé

166

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Tabela 19 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Setembro

Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Miracema Evento Festa do bairro Viradouro Semana da Pátria Cambuci Exposição Agropecuária e Industrial / Festa do Laço Etapa Estadual de Voo Livre Festa de são Cosme e Damião Italva Itareta Festa do quibe Natividade Dia do Natividadense Ausente Dia da Pátria Dia de Nossa Senhora da Natividade Campos dos Goytacazes Festival de Primavera Feira Multissetorial tradicional desfile escolar Padroeira da cidade Festival de Música Popular Feira de Negócios Agropecuários, Industriais e comerciais com exposição e vendas de máquinas e equipamentos. Carnaval fora de época Descrição

Itaperuna Quissamã

Exposição Agropecuária Desfile da Independência Procissão em Louvor a Nª. S.ª do Roccio Festa em Louvor a Nª. Sª da Paz Festa em Louvor a São Miguel do Furado Encontro Regional de Motohomes

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Tabela 20 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Outubro Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Miracema Festa do Barreiro Festa de Nossa Senhora Aparecida São João da Barra Campos dos Goytacazes Itaocara Festa de São Benedito Festa de Santo Eduardo Exposição Agropecuária Festival de Música popular Festival de pesca Prova de Caiaque Quissamã Festa Em Louvor a São Francisco de Assis Cavalgada De N. S.ª Aparecida Encontro Nacional de Motociclistas Festival de Poesia Evento Descrição

Macaé

168

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Tabela 21 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Novembro

Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Cardoso Moriera Laje do Muriaé Bom Jesus do Itabapoana Miracema Evento Aniversário da cidade Aniversário da cidade Mostra de dança Comemorações do dia da cultura Comemorações do dia da Consciência Negra Cambuci Campos dos Goytacazes Varre-Sai Festa de Nossa Senhora da Conceição Festa da Colônia Árabe Festa do Peão Festa de Santa Filomena Quissamã Festa em Louvor a Nª. Sª das Graças Festa em Louvor a Nª. Sª de Todos os Santos Festa em Louvor a Santa Catarina Dia Nacional da Consciência Negra Festa em Louvor a Nª. Sª do Patrocínio Semana da Cultura em Machadinha Seminário Internacional Afrobrasileiro Festival Macaense de Dança Dia da Cultura Descrição

Macaé

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169

Tabela 22 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Eventos Culturais / Dezembro

Calendário de Eventos – Região Norte e Noroeste Município Varre - Sai Evento Festa do Ridículo Descrição Festa a fantasia que só entra quem estiver ridículo

Itaperuna

Festival de Musica Popular Brasileira Festival do Cascudo

Carapebus São José de Ubá Campos dos Goytacazes São João da Barra Natividade Italva

Ano Novo Aniversário da cidade Festival de Verão do Farol de São Tomé Festa de Nossa Senhora da Conceição Comemorações Natalinas e Ano Novo Festa da Padroeira da cidade Cantada de Natal

Praia de Carapebus

Cambuci

Festa Folclórica Mineiro, Pau e Boi Pintadinho Festa de Nossa Senhora da Conceição Padroeira da cidade

Bom Jesus do Itabapoana

Encontro de Folia de Reis Encontro de Corais Festival de Teatro

Quissamã

Caminhada da Natureza “Circuito Eco Rural” Festa em Louvor a Santa Luzia Festa em Louvor a Nª. Sª da Conceição Festa em Louvor a Nª. Sª da Conceição/ Machado Quissamã Off Road Auto de Natal Réveillon Auto de Natal Feira da Agroindústria Familiar

Macaé

170

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13.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Alceu Maynard. Ritos, Sabença, Linguagem, Artes e Técnicas. São Paulo, Melhoramentos, 1967. ARTESANATO Brasileiro. Rio de Janeiro, Funarte, 1978. BARROS, Souza. Arte, Folclore, Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977. BELTRÃO, Luiz, Folkcomunicação A Comunicação dos Marginalizados, Cortez Editora, São Paulo, 1980. BENJAMIM, Roberto, Folkcomunicação No Contexto de Massa, Edições CCHLA, João Pessoa/Natal-2001. BOISIER, Sergio. El Desarrollo em su Lugar. Série Geolibros, Universidad Católica de Chile, deciembre 2003. (ISBN 956-14-0764-7) BOSI, Alfredo, Cultura e Tradição, Zahar, Rio de Janeiro, 1986. BOURDIEU, P. La distinción- criterios y bases sociales del gusto. 2.ed. Madrid:Taurus,1988. CULTURA VISUAL E AFIRMAÇÕES IDENTITÁRIAS: Novos Processos de Reconhecimento Social. SILVA Sérgio Luiz P. 2007 FERNANDES, Florestan. O Folclore em Questão. São Paulo, Hucitec,1978. FREIRE, José Ribamar Bessa & MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos indígenas no Rio de Janeiro. Programa de Estudos dos Povos Indígenas. SR3/UERJ, 1997. FUNDAÇÃO CIDE, Anuário Estatístico. Rio de Janeiro: 2004. FUNDAÇÃO CIDE, Território. Rio de Janeiro: 1997 FROTA, Lélia Coelho. Arte do Viver e Arte do Fazer na Coleção Jacques Van de Beuque. Rio de Janeiro, Catálogo de Exposição do Museu de Arte Moderna, julho 1976. LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e a Serra. Setores de Evolução Fluminense, Vol. 4, IBGE, Rio de Janeiro, 2007. (ISBN 978-85-240-3953-9) LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o Brejo. Setores de Evolução Fluminense, Vol I, IBGE, Rio de Janeiro, 2007. (ISBN 978-85-240-3950-8) LIMONAD, Ester. Os Lugares da Urbanização. Tese de Doutorado FAU/USP, 1996. MARAFON, Gláucio & RIBEIRO, José Miguel Ângelo. (org) Revistando o Território Fluminense NEGEF/DGEO/UERJ. Rio de Janeiro, 2003. OLIVEIRA, Floriano Godinho de. Reestruturação produtiva e regionalização da economia no território Fluminense. Tese de doutorado FFCHL/USP. São Paulo, 2003.

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171

REIS, Ana Carla Fonseca. Marketing Cultural e Financiamento da Cultura. Cengage Learning, São Paulo, 2003. RODRIGUES, Hervé Salgado, Campos na Taba dos Goytacazes, Imprensa Oficial, Niterói, 1988. SANTOS, Cristiane Nunes dos. Gastronomia e turismo como vetores do desenvolvimento. Anais do 11º Seminário de Iniciação Científica da UESC – Ciências Sociais Aplicada, Ano XVII, n. 56, dez., 1996. p. 469. SOARES, Orávio de Campos, Muata Calombo Consciência e Destruição, Editora Fafic, Campos dos Goytacazes, 2004. NOEL, Francisco Luiz, Manifestação de fé em ritmo de folia, 2008 ZUKIN, Sharon. The Cultures of Cities. Blackwell, Oxford, GB, 2000.

Consultas a Portais (“Sites”) www.nipecfaficchuvisco.blogspot.com www.br.geocities.com/jiujitsutotal/cidade.htm www.pauloaourivesnipecreminiscencias.blogspot.com www.cide.rj.gov.br

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Anexos

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ANEXO 1 - RELAÇÃO DE BENS CULTURAIS TOMBADOS PELO INSTITUTO ESTADUAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL - INEPAC BEM CULTURAL

01

DATA 03.11.1978

PROCESSO E-03/16.510/78

MUNICÍPIO São João da Barra

Imóvel na Rua dos Passos nº 121 (onde funcionou o Grupo Escolar Alberto Torres) 03.01.1979 (tombamento definitivo) 12.12.1978

02

E-03/16.512/78

Macaé

Palácio dos Urubus, na Rua Dr. Télio Barreto 15.12.1978 E-03/37.199/78 Quissamã

03

Fazenda da Machadinha, situada às margens da Lagoa Feia.

04

08.02.1979 (tombamento definitivo) 19.12.1982

Liceu de Humanidades (antigo Solar do Barão da Lagoa Dourada), na Praça Barão do Rio Branco n° 15

E03/200.098/81

Campos dos Goytacazes

05 06

Sede da Fazenda Mato de Pipa, próximo ao núcleo urbano de Quissamã

27.01.1988 (tombamento definitivo) 10.06.1985 09.12.1985 11.05.1987 (tombamento definitivo)

Litoral Fluminense: Foz do Rio Paraíba do Sul, incluindo-se todo o manguezal; parte do Manguezal em São Francisco de Itabapoana; Ilha da Convivência e as outras vizinhas; Canto Sul da Praia de Itaipu; Ilha da Menina; Ilha da mãe; Ilha do Pai; Costa de Trindade, desde a Ponta do mesmo até a Ponta da Fazenda. Enseada do Sono e Praia da Ponta do Caju; Enseada do Pouso; Ilha de Itaoca; Saco e Manguezal de Mamanguá; Enseada de Paratymirim; Ilha das Almas; Praia Grande; Ilha do Araújo; Praia de Tarituba.

E-03/32.446/83 E18/300.459/85

Quissamã Niterói Paraty São Francisco de Itabapoana São João da Barra

174

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(continuação)

07

BEM CULTURAL DATA Coreto na Praça de São Roque, identificando como área de proteção da 16.12.1985 ambiência a superfície interna da referida Praça, Paquetá _ XXI RA

PROCESSO E-18/300. 288/85

Coreto na Praça Barão da Taquara, Praça Seca _ XVI RA

Coreto na Praça Washington Luiz, Sepetiba _ XXVI RA

Coreto do Jardim do Méier _ XIII RA _, Quintino Bocaiúva XV RA;

MUNICÍPIO Rio de Janeiro Quissamã São Francisco de Itabapoana Campos dos Goytacazes Cantagalo Niterói Paraíba do Sul

Coreto na Praça Quintino Bocaiúva

Coreto na Praça Catolé do Rocha, em Vigário Geral _ XXXI RA;

Coreto no Campo de São Cristóvão, São Cristóvão _ VII RA

Coreto na praça central de Quissamã;

Coreto no Campo de Marte, em Realengo. _ XXXIII RA;

Coreto na Praça de São Sebastião em São Francisco de Itabapoana

Coreto na Praça Barão do Rio Branco, no distrito sede do município de Campos.

Coreto da Praça João XXIII, incluindo o pequeno Largo que o cerca, no distritosede do município de Cantagalo.

Coreto no Campo de São Bento, no Bairro de Icaraí, Niterói;

Coreto na Praça Marquês de São João Marcos, Paraíba do Sul.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

175

(continuação)

BEM CULTURAL

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

08

Solar do Visconde de Araruama, na Praça São Salvador nº 40.

Lira do Apólo, na Praça São Salvador nº 63
23.07.1987 E-18/300.595/85

Hotel Gaspar, na Praça São Salvador nº 30

Campos dos Goytacazes

Hotel Amazonas, na Rua Barão do Amazonas nº 58

09
24.07.1989 E-18/30.097/88

Prefeitura e Câmara Municipal de Santo Antonio de Pádua, na Praça Visconde Figueira nº 57.

Santo Antônio de Pádua

10

Serra do Mar/Mata Atlântica

06.03.1991

E-18/000.172/91

Angra dos Reis Barra do Piraí Bom Jardim Cachoeira de Macacu Campos dos Goytacazes Casimiro de Abreu Conceição de Macabu Duas Barras Duque de Caxias Paulo de Frontin Guapimirim Itaboraí

176

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

(continuação)

BEM CULTURAL

DATA

PROCESSO

10

MUNICÍPIO Itaguaí Japerí Magé Mangaratiba Maricá Mendes Miguel Pereira Niterói Nova Friburgo Nova Iguaçu Paracambi Paraty Petrópolis Piraí Rio Bonito Rio Claro Rio de Janeiro São Fidélis Santa Maria Madalena São Gonçalo Saquarema Silva Jardim Sumidouro Teresópolis Trajano de Moraes 09.12.2002 E- 18/ 001.145/2002 Bom Jesus do Itabapoana

11

Cine – Teatro Monte Líbano na Praça Governador Portela n° 39

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

177

(continuação)

BEM CULTURAL

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

12

Canal Campos-Macaé, trecho urbano do Canal do Cula, em Campos dos 30.12.2002

Goytacazes.

Carapebus Macaé EQuissamã 18/001.134/2002 Campos dos Goytacazes

13 30.12.2002 São Fidélis

Igreja Matriz de São Fidélis de Sigmaringa, na praça Guilherme Tito; E-18/ 001.706/2002

Solar do Barão de Vila Flor, na praça Guilherme Tito;

Ponte Metálica sobre o Rio Paraíba do Sul, na Rua Theófilo Machado. E- 18 / 1338/2003 Campos dos Goytacazes

14

Prédio do Colégio Estadual Nilo Peçanha, situado à Rua Dr. Lacerda Sobrinho, 17.10.2003 n° 119.

15

Sítio Histórico formado pelo conjunto arquitetônico e paisagístico da Fazenda Mandiqüera, Rodovia QSM-006.

24.04.2007

E- 18/ 000.052/2007

Quissamã

178

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

(continuação)

BEM CULTURAL

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

16

Fazenda Espuma. Rua Álvaro Ferreira Gomes, nº 1401, Vargem Alegre – Barra do Piraí;.

Fazenda da Forquilha, Rodovia RJ-135, 4º Distrito, Abarracamento, Rio das Flores;

Fazenda Maravilha ou do Governo, Estrada das Marrecas, s/nº, Paraíba do Sul; Barra do Piraí Itaperuna Paraíba do Sul E18/1868/2008 30.12.2008 Rio das Flores Valença

Fazenda Ponte Alta. Av. Silas Pereira da Mota, km. 19 da RJ 145, Parque Santana, Barra do Piraí;

Fazenda Ribeirão Frio. Estrada Ruy Pio David Gomes, s/nº, Dorândia, Barra do Piraí;

Fazenda Santa Rita, Estrada da Figueira, Distrito sede, Valença;

Fazenda Santo André, Estrada Fortaleza, 3.125, Paraíba do Sul;

Fazenda Santo Antônio do Paiol, Rodovia RJ-135, Distrito Sede, Bairro de Esteves, Valença;

Fazenda São Luiz da Boa Sorte. Rodovia Lucio Meira BR-343, km85, Barra do Piraí;

Fazenda São Paulo, Estrada VL 55, 6º Distrito, Conservatória, Valença;

Fazenda Vista Alegre, Rodovia RJ-143, Distrito Sede Valença;

Fazenda São Domingos, Rodovia BR – 356, Itaperuna.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 179

(continuação)

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

17

BEM CULTURAL Conjunto Arquitetônico, urbanístico e paisagístico do centro histórico de Miracema e seis bens isolados, incluindo o traçado das ruas, avenidas e praças e os calçamentos remanescentes em paralelepípedo.

- Conjunto Arquitetônico, urbanístico e paisagístico do centro histórico de Miracema constituído pelo traçado das ruas, avenidas e praças, incluindo arborização:

Rua Marechal Floriano (Rua Direita), Praça Dona Ermelinda, Praça Ary Parreiras, Rua João Pessoa, Praça Josephina de Barros Tostes, Rua Paulino Padilha, Rua Dr. Monteiro, Rua Francisco Dias Tostes, Rua Temístocles, Praça Bruno de Martino, Rua Santo Antônio, Praça Getúlio Vargas, Rua Coronel José Carlos Moreira (Rua das Flores), Rua João Rosa Damasceno, Rua Francisco Procópio, Rua Coronel Josino, Rua Barroso de Carvalho e Rua Matoso Maia. 27.03.2009

EMiracema 18/002.407/2008

- Conjunto Arquitetônico, urbanístico e paisagístico do centro histórico de Miracema constituído pelo calçamento remanescente em paralelepípedo:

Rua Marechal Floriano (Rua Direita), Praça Dona Ermelinda, Praça Ary Parreiras, Rua João Pessoa, Praça Josephina de Barros Tostes, Rua Paulino Padilha, Rua Coronel José Carlos Moreira (Rua das Flores), Rua João Rosa Damasceno, Rua Francisco Procópio (até a Praça José Giudice), Rua Coronel Josino e Rua Barroso de Carvalho.

- Conjunto Arquitetônico, urbanístico e paisagístico do centro histórico de Miracema constituído pelos Bens Imóveis Inventariados:

180

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

(continuação)

BEM CULTURAL 17 Rua Marechal Floriano (Rua Direita): nº10, nº15, nº20/nº26, nº30, nº 40/nº42, nº73 (inclusive o sobrado nº12 da R. Barroso de Carvalho), nº 75, nº93, nº 99/nº103/nº109 e nº115, nº138, nº148, nº152, nº167, nº 184/nº 188 e nº 194, nº 196/nº200 (esquina R. Comendador Francisco Procópio, nº 64), nº 203, nº 222, nº 231/nº227, nº 236, nº 244, nº 281 e nº 293, nº 313/nº 315 e nº 317.

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

Rua Coronel Josino: nº 10, nº 30, nº 38 e nº 54.

Rua João Rosa Damasceno: nº 19, nº 31, nº 25 e nº 65 da Rua Francisco Procópio (esquina com João Damasceno).

Rua Francisco Procópio: nº 31, nº 35, nº 39, nº 43, nº 47 e nº 49, nº 61, nº 58 / nº 62 (esquina c/ a Rua Coronel José Carlos Moreira, nº 191 e 195), nº 83, nº 91, nº 105. Rua José Carlos Moreira (Rua das Flores): nº 41, nº 69, nº 70, nº 111 (esquina c/ Rua Coronel Josino, que inclui o nº 62 - 2º pavimento da mesma rua), nº 114 e nº 120, nº 124, nº 179, nº 192 (nº 91).

Praça D. Ermelinda: Praça D. Ermelinda, nº 04 e 10, nº 15 (Rua Marechal Floriano, nº 06), nº 17, nº 39, nº 40, nº 54, nº 62, nº 74, nº 117/123, nº 124, nº 133, nº 136, nº 161.

Praça Ary Parreiras: Praça Ary Parreiras, s/nº (Escola), nº 06, nº 78, nº 124 e nº 124 sobrado, nº 171, nº 212, nº 230, nº 272, s/nº (Igreja Matriz), s/nº (Casa Paroquial).

Rua João Pessoa: nº 38, nº 56.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 181

(continuação)

BEM CULTURAL 17 Praça Josephina de Barros Tostes: nº 23, 27 e 27A, nº 31.

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

Rua Paulino Padilha: nº 57, nº67, nº 68 e 74, nº 80 e 80A, nº 111 e 119.

Rua Dr. Monteiro: nº 09, nº 25, nº 36, nº 46, nº 64, nº98, nº 114, nº153, nº161 (19), nº 195.

Rua Francisco Dias Tostes: nº 32.

Rua Dr. Temístocles: s/nº (Chafariz).

Praça Bruno de Martino: s/nº (Centro Espírita).

Praça Getúlio Vargas: Praça Getúlio Vargas, s/nº (Rodoviária Chicralla Salim), s/nº (Pórtico da Fiação e Tecelagem São Martino).

Rua Barroso de Carvalho: nº 24, nº 28, nº 32, n º 44, nº 79, nº 93 (nº 87), nº 98, nº 117, nº 120, nº 121, nº 125, nº 145, nº 219. Rua Matoso Maia: nº 225, nº 247, nº 250, nº 283, nº 316, nº 319.

- Conjunto Arquitetônico, urbanístico e paisagístico do centro histórico de Miracema, seis bens isolados:

182

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

(continuação)

BEM CULTURAL 17 Rua José Monteiro de Barros, nº 500 (Hospital, especialmente o prédio

DATA

PROCESSO

MUNICÍPIO

principal); Avenida Carvalho, s/nº (Chaminés da Fábrica de Ladrilhos Cerâmica

Miracema); Avenida Carvalho s/nº (Chaminé da Usina Santa Rosa); Capela de

Areia, no povoado de Areias, no distrito sede; Capela de Nossa Senhora do

Paraíso, na Praça Jacinto Lucas, s/nº, em Paraíso do Tobias; Capela de Venda

das Flores, na Praça da Capela, em Venda das Flores;

Fonte: Site: http://www.inepac.rj.gov.br/modules.php?name=Guia&file=consulta_detalhe_bem&idbem=53 Atualizado em 23/07/2009.

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ANEXO 2 – INVENTÁRIO DAS FAZENDAS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE

denominação Fazenda Boa Vista

códice AVII – F04 – Mir

localização Estrada que liga Miracema a Palma (MG) município Miracema época de construção 1914 estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original pecuária mista / fazenda de café e cereais proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Fazenda Boa Vista, fachada principal.
coordenador / data Equipe histórico 184 Marcelo Salim de Martino / mar - abr 2009 Vitor Caveari Lage (levantamento de campo/digitação), Jean Rabelo Ferreira (Auto Cad), Lia Márcia de Paula Bruno e Vera Lúcia Mota Gonçalves Marcelo Salim de Martino Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro revisão Coordenação técnica do projeto

situação e ambiência O acesso à Fazenda Boa Vista é feito através de uma estrada vicinal de terra batida, que parte de um entroncamento na rodovia que liga Miracema (RJ) ao município de Palma (MG). Através desta estrada tem se acesso, ainda, às fazendas Cachoeira Bonita, Araponga, Ventania de Baixo, Ventania de Cima, Inhamal e Buracada, podendo alcançar, também, as fazendas Santa Cruz, Humaitá e Boa Esperança. A Fazenda Boa Vista foi repartida entre os herdeiros de Altivo Mendes Linhares, gerando novas e pequenas propriedades, que foram se formando ao longo da estrada (f01). Cerca de 500 metros após a Escola Municipal Antônio Queiroz Linhares, chega-se à entrada da Fazenda Boa Vista, que é toda pavimentada com paralelepípedos, ajardinada e arborizada com mangueiras, muitas das quais foram retiradas devido a uma doença que as atacou, fazendo com que secassem até a morte (f02). A casa-sede (f03) está localizada num platô onde também estão instaladas uma garagem e piscina (f04), serraria (f05), tulha, casa de colono (f06), terreiro atualmente cimentado para secagem de café (f07), curral, galinheiro e estábulo (f08). Do lado direito da casa-sede, contornando toda a frente até atingir a baixada, na parte da várzea, localiza-se o pomar com muitos jambeiros, mangueiras, coqueiros, além de outras espécies frutíferas (f09).

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situação e ambiência Toda a área em frente à casa-sede é orlada por uma cerca viva podada, que acompanha parte de uma antiga mureta de contenção do terreno, ainda existente (f10). A capela (f11) está situada às margens da estrada que leva às fazendas Ventania de Baixo e Ventania de Cima (f12), além do grande açude e represa que forma uma pequena cachoeira de onde vem a água que abastece a casa-sede, o curral e a casa de colono (f13). Essa parte da fazenda, onde estão situados o açude e a pequena cachoeira, juntamente com a Estrada da Serra da Ventania e a Cachoeira da Cara, localizada na referida estrada, são atrativos naturais com forte apelo turístico (f14). “A Cachoeira da Cara é formada por 20m de queda d’água. A água, ao cair, forma uma piscina de 40 m de comprimento e 5 m de largura, cercada por vegetação de mata fechada. A água da cachoeira é de temperatura morna e de cor clara”. (Guia Municipal de Informação Turística. Miracema - CCMC).

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situação e ambiência A estrada que liga a serra da Ventania de Baixo à da Ventania de Cima, por si só, é um atrativo, já que de lá se pode avistar todo o vale de Miracema, incluindo parte da cidade (f15). Seguindo o aclive da estrada, já aparece, ao longe, uma queda d’água de aproximadamente 170 m de altura, cuja água escorre por um paredão rochoso (f16). Essas terras também foram desmembradas da sesmaria herdada por Deodato e Reginaldo Mendes Linhares, que juntas formavam as fazendas Cachoeira Bonita, Pinheiro e Córrego Raso.

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descrição arquitetônica A casa-sede, junto a uma das tulhas e ao depósito, dão à construção o formato de um “L” invertido. A parte principal da morada possui porão baixo. Seu acesso principal é feito por uma escadaria central em leque, que chega a uma varanda guarnecida, assim como a escada, por guarda-corpo com balaústres em massa, decorados por motivos florais, muito utilizados em construções em estilo eclético existentes no centro histórico da cidade de Miracema. Essa varanda apresenta telhado sustentado por quatro colunas de fuste liso e capitel dórico e tem, antecedendo-a, jardins com canteiros cercados (f17 e f 18). A porta de entrada principal da casa, em madeira com duas folhas enrelhadas, é ladeada por três janelas de cada lado, também enrelhadas, mas com guilhotinas de caixilhos de vidro externas (f19 e f20). O piso da varanda foi substituído por cerâmica, do tipo lajota, e grades de ferro foram instaladas nas janelas. A fachada lateral esquerda possui janelas de duas folhas e venezianas externas (f21). Do lado direito do corpo principal da construção estão localizadas a ferramentaria, usada atualmente como escritório (que possui entrada independente) (f22), a cozinha e um banheiro, revestidos no piso com ladrilho hidráulico (f23). Do lado esquerdo da casa-sede, estão localizados: uma tulha, com serraria instalada no porão, casa de colono, piscina, terreiro de café, estábulo, curral e galinheiro. Essas construções – tulha e casa de colono – parecem ter sido edificadas ainda no século XIX, e, apesar de muito alteradas (cobertura de telhas de amianto, algumas paredes de alvenaria de tijolos de cimento, etc.), mantêm características das construções daquele período (f24).

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descrição arquitetônica O bloco principal da casa-sede é composto de saleta, sala de visitas, sala de jantar – onde se destaca um lavabo com cerâmica verde emoldurada por chapa de metal –, cinco quartos, alcova, escritório, cozinha, despensa e quatro banheiros (f25 e f26).

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descrição arquitetônica O assoalho é em tábuas corridas com junta cega, envernizado, executado com madeiras nobres retiradas das matas da própria fazenda, bem como todo o restante do madeirame utilizado na construção da casa-sede (f27). As portas internas possuem bandeiras de vidro (f28) e a cobertura é de telhas de barro, do tipo capa e canal (f29). A capela, dedicada a Santo Antônio, é uma construção muito simples. Edificada em 1934, teve sua pedra fundamental lançada em 13 de junho, por ocasião do aniversário do padroeiro da cidade e santo de grande devoção do proprietário. A benção foi lançada pelo cônego José Thomaz de Aquino Menezes, seguida do discurso do anfitrião, que relatou a história religiosa do local em que se levantou a capela. Serviu-se, no terreiro da fazenda, farto churrasco com a presença de muitas famílias miracemenses. À noite, houve animado baile, que abrilhantado pelos “Turunas”, foi até altas horas da manhã, conforme noticiou o Libertas nº 251, de 17/6/1934. Possuía a capela, a pedido da primeira esposa do proprietário, D. Zina Queiroz Linhares, uma imagem de Santa Terezinha. D. Zina, além de custear o altar dessa santa e o de Santo Expedito, na Igreja Matriz, fundou a Associação de Santa Terezinha, em atividade até os dias de hoje. A construção, que tem aspecto de inacabada, apresentando fachadas laterais com alvenaria de tijolos maciços aparentes, possui uma única porta de entrada, encimada por um óculo e uma cruz modelada na argamassa do emboço (f30).

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detalhamento do estado de conservação O estado de conservação da casa é bom. Foram realizadas algumas obras mais recentes, como os dois banheiros que formam as duas suítes da casa, além da substituição de todo o forro das salas e quartos (f31 e f32). Percebe-se também,que as tábuas de beira que circundam o telhado foram substituídas (f33). Todas as luminárias internas e externas, em diferentes estilos, que vão do colonial ao art-déco, são réplicas e foram colocadas recentemente (f34). Um dos banheiros, localizado na biblioteca (antiga alcova do quarto principal), mantém uma banheira e o forro de treliça como o da cozinha (f35 e f36). Mais um banheiro foi construído e anexado ao quarto principal, inclusive com a instalação de uma banheira de hidromassagem. O mesmo foi feito em outro quarto que dá para a sala de jantar. O mobiliário da casa-sede é uma testemunha silenciosa da época de opulência e de grande movimentação política exercida por seu proprietário, o temido e respeitado capitão Altivo Mendes Linhares, homem público, de grande projeção e prestígio no cenário político fluminense do século passado.

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histórico A Fazenda Boa Vista foi fundada pelo Capitão Altivo Mendes Linhares (f37), por volta de 1914, em um lote de terras desmembrado por herança da parte que lhe cabia, na Fazenda Cachoeira Bonita, que pertenceu a Deodato e Reginaldo Mendes Linhares, respectivamente, seus pai e tio. Estes herdaram uma sesmaria de terras denominada Cachoeira Bonita, no Ribeirão de Santo Antônio dos Brotos, freguesia de Santo Antônio de Pádua, a qual foi de Manoel Pereira Rodrigues (marido de D. Ermelinda Rodrigues Pereira), fundadora do arraial de Santo Antônio dos Brotos, atual Miracema, com as seguintes confrontações: “pelo lado de baixo com Lucas Mendes Linhares, seguindo pelo lado esquerdo com o mesmo Lucas, até em certa altura; e depois com Antônio Araújo Barbosa até o alto da serra, dividindo as águas desse ribeirão com o alto da serra de Muriaé, por baixo divisando com o mesmo Lucas, procurando as vertentes do Córrego Raso até dividir com o patrimônio de Santo Antônio dos Brotos e da divisa do patrimônio de Santo Antônio, pelo lado direito divisando com Antônio Valentim da Costa até certa altura e daí com o capitão Marcelino Dias Tostes, até o alto da mesma serra do Muriaé. Em 30 de março de 1856”1.

(acervo de Angeline C. Tostes de Martino)

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As terras que formavam a Fazenda Cachoeira Bonita foram doadas a Deodato Mendes Linhares e ao seu irmão Reginaldo, pelo tio e padre, Francisco Mendes Linhares, antigo vigário de Palma (MG), por testamento feito na Fazenda Fortaleza, datado de 1851, onde também foram alforriados alguns escravos e somadas as da Fazenda Pinheiro, de Lucas Mendes Linhares, que pertenceu a Manoel Pereira Rodrigues, registrada da mesma forma na Paróquia de Santo Antônio de Pádua, em 1856. Não foi possível, entretanto, saber se estas foram anexadas à sesmaria por compra ou herança. Com a morte de Reginaldo, que era solteiro, Deodato ficou sendo o único herdeiro das terras que integravam as fazendas Cachoeira Bonita, Córrego Raso e Pinheiro. Segundo relato do Sr. Erotildes Linhares, neto de Deodato Mendes Linhares, as terras da sesmaria herdada por Deodato e Reginaldo do tio e padre, se estendiam até o Estado de Minas Gerais. Como o padre Francisco Mendes Linhares havia deixado por ocasião de seu falecimento uma dívida de 12 mil contos de réis, esta parte das terras foi vendida pelos herdeiros para que a mesma fosse quitada. Segundo Altivo Mendes Linhares, em seu livro de memórias, “A Fazenda Cachoeira Bonita tinha dois córregos: sendo um maior que nascia no alto do pontão de Santo Antônio e que descia encachoeirado pela fazenda da Ventania. E outro que nasce na Fazenda do Inhamal e que se encontra com o primeiro no alto da Fazenda Boa Vista, formando aí o Córrego Cachoeira Bonita... (f38 e f39) ...A sede da Fazenda era um casarão construído com madeiras roliças, com dois ou três quartos internos com basculantes para renovação de ar onde dormiam as escravas solteiras; ao lado do casarão da sede, havia as senzalas, formando um “ele” com a fazenda, com uns seis salões cujas portas davam para uma varanda ampla; varanda esta com gradil de madeira com oito cm quadrados; cada escravo casado ocupava uma das salas, além de outras pequenas casas, ocupadas por aqueles que tinham famílias maiores...”2 (f40).

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histórico Altivo casou-se em 1914 e, não conseguindo construir uma sede para sua fazenda, passou a residir num tapume, debaixo do assoalho de uma construção que havia iniciado. Em 1918, já estabelecido, começou a escolher o local da sede da sua fazenda. Encontrou dentro de um capoeirão de mais de 30 anos, um platô e ali iniciou a construção... (f41) “...Aí então, derrubei matas para quinze mil arrobas de café; plantei cana; construí um moinho de fubá de milho, montei engenhos, passei a fabricar rapaduras, casas de colonos, máquinas de café, tulhas e paióis; finalmente subi numa árvore para ter uma impressão melhor do local para a sede. Eu era o próprio construtor, mecânico e planejador. Este trabalho foi de 1918 a 1922. ...Tive que represar águas e fazer canalizações através de canos grossos para gerar hidráulica, tanto para movimentar máquinas como para fazer iluminação elétrica para toda a fazenda...” (f42) E prossegue: “...cheguei até o ano de 1924 com todas as minhas lavouras formadas e uma produção de café chegando a quase quatro mil sacas piladas; era a época portanto, de fazer pecúlio.” A sesmaria de terras formada pelas fazendas Cachoeira Bonita, Córrego Raso e Pinheiro, deu origem a várias outras fazendas. Além da Boa Vista, a Inhamal de Antônio Mendes Linhares, a Ventania de Homero Linhares, mais tarde dividida entre Ventania de Cima e Ventania de Baixo, a Córrego Raso, que na partilha coube a Orlanda de Martino Amim, mais tarde adquirida por Homero Linhares, além das partes herdadas pelos outros filhos: Olava, Francisco Bruno, Maria Itália, Orlando e Maria Hermília. A Fazenda Boa Vista foi testemunha de importantes momentos públicos da cidade e até mesmo do país. Foi lá que Altivo teve os primeiros contatos com os revolucionários de 1922. Em 1925 recebeu a visita de Tasso Tinoco, 1º Tenente, Mário Ferreira e Alcides Araújo. Tasso passou alguns dias na fazenda, antes de partir para Campos. Em 1926, recebeu o ex-Deputado Federal Dr. Maurício de Lacerda e família, que o apresentou a pessoas da mais alta esfera política, como Oswaldo Aranha, Ary Parreiras, Juarez Távora, Raul Pilla, Plínio Casado, Macedo Soares, dentre outros (f43). Altivo abraçou a política, integrando-se à corrente liderada por Nilo Peçanha. Participou das Revoluções Tenentistas de 1922, 1924 e 1930 (f44).

(acervo de Marcelo Salim de Martino)

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histórico Com a vitória da revolução de 1930, foi nomeado Prefeito de Santo Antônio de Pádua, onde permaneceu até 1934. Em 1936, conseguiu eleger-se deputado estadual classista, como representante da lavoura, perdendo o mandato com o Estado Novo, em 1935. Foi prefeito de Miracema, de 1937 a 1945, na Interventoria de Ernani do Amaral Peixoto. Voltou ao cargo por eleição por duas vezes – 1947 e 1958. Suplente do Senador José Carlos Pereira Pinto em 1947, assumiu o mandato em 1952, renunciando para assumir a Prefeitura de Niterói, o que se deu em 1953, por nomeação do Governador Amaral Peixoto. Em crise com a Câmara, solicitou demissão em 1954. Em 1958 disputou as Prefeituras de Niterói e Miracema, concomitantemente. Eleito em Miracema, governou até 1962. Casou-se por duas vezes. A primeira, com Zina Queiroz Linhares, com quem teve cinco filhos. E a segunda com Maria do Carmo Monteiro Linhares, nascendo desse matrimônio Luiz Fernando Monteiro Linhares, deputado estadual entre 1971 e 1981, representante da Região Noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, a Fazenda Boa Vista encontra-se dividida entre os herdeiros, filhos e netos de Altivo Mendes Linhares, sendo que a casa-sede e grande parte das terras pertencem ao espólio de seu filho – Expedito Mendes Linhares. Da primitiva sede da Fazenda Cachoeira Bonita, restam apenas algumas paredes. Mesmo assim, é possível perceber intervenções executadas, provavelmente na década de 20 do século XX, época em que o estilo eclético se propagou no município. Contudo, do lado direito da casa-sede, permanece com todo o seu esplendor a cachoeira que deu nome à propriedade e que também possui áreas com remanescentes de matas secundárias, onde antes deveriam existir cafezais (f45)

(acervo de Marcelo Salim de Martino)

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1 Livro de Registro de Terras nº 53, da Freguesia de Santo Antônio dos Brotos. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro; 2 Monteiro, Maurício – Altivo Linhares – Memórias de um líder da velha província. 3 ídem.

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denominação

códice

Fazenda Cachoeira
localização

AVII – F01 – Mir

Km 8 da RJ116, que liga Itaboraí a Itaperuna, passando por Miracema.

município Miracema época de construção século XIX estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original gado leiteiro / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Coordenador / data equipe histórico

Marcelo Salim de Martino – mar-abr 2009 Vitor Caveari Lage (levantamento de campo/digitação) e Jean Rabelo Ferreira (AutoCad) Marcelo Salim de Martino

Fazenda Cachoeira, fachada principal. revisão Coordenação técnica do projeto

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situação e ambiência A Fazenda Cachoeira está situada às margens da RJ116, que liga Itaboraí a Itaperuna, passando por Miracema (f01). Saindo da estrada estadual, passando por uma pequena ponte de madeira sobre o Ribeirão Santo Antônio (f02) - que nasce na serra de Venda das Flores e corta toda a cidade de Miracema, desaguando no Rio Pomba, no município de Santo Antônio de Pádua - e seguindo por uma estrada pavimentada com pedras, ladeada por coqueiros, chega-se a imponente casa-sede da Fazenda Cachoeira (f03 e f04). Do lado direito da estrada, cercado por uma mureta de pedra revestida com massa estão localizados o antigo terreiro para secagem de café, além das edificações correspondentes as tulhas, baias, casa de força e pista para treinamento de cavalos (f05).

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situação e ambiência Do lado esquerdo da mesma estrada, localiza-se um açude belíssimo (f06), um barracão que serve para a guarda de carroças, uma parte do pomar com muitas mangueiras e bananeiras e a capela da Sagrada Família (f07). Nos fundos da casa-sede, do lado esquerdo, estão localizados: o curral (f08), a ceva para porcos, galinheiro, garagem e uma casa de colono. Do lado direito, encontram-se a piscina (f09), a sauna e a churrasqueira. Seguindo por um caminho cercado por muitas árvores frutíferas, chega-se ao ribeirão Santo Antônio, exatamente num local onde o mesmo forma uma cachoeira, fato que, provavelmente, determinou o nome da fazenda (f10). É digno de registro também, o extenso paredão de pedra que faz um arrimo na margem esquerda deste ribeirão, construído por escravos para proteção do terreno (f11).

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descrição arquitetônica A casa-sede, atualmente, é uma edificação com planta baixa em “L”, assentada sobre platô, sendo que o corpo principal, mais antigo, foi edificado sobre porão alto (f12), apresentando uma cobertura independente em quatro águas (f13 e f14), possuindo aos fundos um único pavimento (f15). Na parte posterior do conjunto concentra-se o maior número de intervenções modernizadoras. Na área correspondente ao porão, que é habitável, os proprietários instalaram, após algumas obras de reforma, uma área para lazer e diversão (f16) onde mantiveram trechos da pavimentação em pedra (f17) e todo o madeirame que sustenta o assoalho da edificação.

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descrição arquitetônica Essa parte do porão é voltada para um grande jardim (f18) que mantém, além de flores tradicionais como gérberas e copos-deleite, um “balanço” que testemunhou juras de amor de várias gerações da família, de visitantes e de convidados (f19). Delimita os jardins, um grande muro de arrimo de pedra coberto com massa (f20).

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descrição arquitetônica A cobertura é de telhas de barro, do tipo capa e canal, arrematada por larga e pronunciada cimalha (f21) na sua fachada frontal. Nas demais fachadas, os beirais se apresentam em balanço, revestidos com forro em madeira e encachorrados (22). A fachada principal é composta por uma porta de entrada e onze janelas de guilhotina, em caixilhos de vidro com vergas retas, pintadas de verde, distribuídos de forma ritmada, predominando os vazios sobre a alvenaria branca (f23). O antigo acesso era feito pela fachada lateral esquerda. Atualmente, a entrada principal para a residência dá-se por uma escada de alvenaria através de uma pequena varanda construída posteriormente. O casarão principal possui seis quartos e uma suíte, salas de visitas, sala de jantar, sendo que alguns cômodos conservam a distribuição original e o mobiliário antigo, além de três banheiros. Estendendo-se para parte nova da edificação, seguem: copa, outros banheiros, cozinha mineira com fogão à lenha, quarto para empregados, área de trabalho, despensa, escritório, salão de jogos, piscina, sauna e churrasqueira (f24 a f27).

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descrição arquitetônica Esta área construída mais recentemente, onde se acham instaladas a copa, parte da cozinha, a sauna e a varanda, é de alvenaria com paredes de tijolos e piso revestido em cerâmica (f28). A parte primitiva do casarão mantém assoalho (f29) e, forro de madeira (f30) e paredes de pau-a-pique. A casa é toda mobiliada com móveis de época. O destaque, porém, fica para a mobília da sala de visitas, do terceiro quartel do séc. XIX, em estilo neo-rococó, formada por um sofá, dois consolos, mesa de centro e cinco cadeiras com espaldar em medalhão oval, com a moldura dupla, separadas por bolas. O assento é arredondado com ondulação na frente e forrado de palinha; tem pernas curvas com pé de cachimbo (f31).

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descrição arquitetônica A capela existente foi construída em 1957 para substituir a primitiva capela da fazenda, que ficava em um dos cômodos da casa-sede. Ali, segundo a proprietária, estava enterrada uma grande pedra cortada ao meio, que alguns acreditavam ser uma urna funerária, outros, uma espécie de pedra fundamental, em cujo centro eram depositados objetos, documentos, moedas corrente, etc.. Dedicada à Sagrada Família, possui uma arquitetura despojada, com torre sineira (f32) e sendo recoberta com telha de barro capa e canal. Mantém, na fachada principal, uma porta, duas janelas e um óculo para iluminação e ventilação (f33). O altar, em alvenaria, apresenta um nicho ladeado por duas colunas (f34 e f35).

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detalhamento do estado de conservação O estado de conservação da casa é muito bom. Como a fazenda está na família Bastos há mais de um século e meio, os proprietários procuraram manter a originalidade da construção, apesar das intervenções modernizadoras havidas. As reformas realizadas visaram sua adaptação as atuais necessidades da fazenda, como casa de veraneio que recebe muitos hóspedes durante os períodos de férias escolares e feriados prolongados. Desta maneira, foram construídos mais dois banheiros, piscina, sauna, churrasqueira e uma extensa varanda. O forro, bem como todo o madeiramento do telhado encontra-se em perfeito estado, e são objeto de atenção especial dos proprietários que substituem peças sempre que necessário (f36). O assoalho encerado também se encontra em ótimo estado de conservação, recebendo, constantemente manutenção. No antigo porão, transformado em área de lazer da família, todo o madeiramento foi tratado com betume. Alguns trechos do primitivo piso de pedra foram mantidos formando uma espécie de tapete, possibilitando aos visitantes e interessados uma pequena amostra de como o espaço era antes da reforma (f37 e f38). A parte externa e as outras benfeitorias da Fazenda também têm merecido atenção dos proprietários que procuram sempre investir na propriedade.

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histórico Cachoeira da Laje foi o nome primitivo dado por seu fundador, o Capitão Manoel Felisberto Pereira da Silva, à sua propriedade, registrada em 22 de julho de 1855, na Paróquia de Santo Antônio de Pádua, em observância ao artigo 91, do Decreto n° 1318, de 30 de janeiro de 1854, no qual o governo provincial determinava que todos os proprietários ou posseiros de terras, registrassem até 1856, nos livros da Vigararia da Freguesia de Santo Antônio de Pádua, suas propriedades a fim de que fosse garantido que as mesmas continuassem sobre o domínio fluminense e não mineiro, como era o desejo de alguns políticos influentes daquele estado. A fazenda fazia divisa com as propriedades de Marcelino Dias Tostes, Joaquim Cândido Guimarães, Plácido Antonio de Barros, Custódio Bernardino de Barros e João Luís de Oliveira 1 e 2. “Manoel Felisberto Pereira da Silva veio com sua esposa D. Ana Umbelina Gomes Alvim e filhos, da freguesia de Catas Altas da Noruega – Província de Minas Gerais, para Santo Antonio dos Brotos (Miracema) em 1842. Tinha muitos filhos, dos quais podemos dar notícias de: Francisco Procópio de Alvim e Silva (casado com Maria Reveziana de Alvim – filha de Anacleto Reveziano de Siqueira Alvim, em 18 de fevereiro de 1857, na Igreja de Pádua); José Cesário de Alvim e Silva, casado com Bárbara Guilhermina de Alvim, filha de Francisco Gomes Pereira Alvim, em 8 de fevereiro de 1852, na Igreja de Pádua; Pedro Nolasco de Alvim e Silva casado com Maria Umbelina da Silva Bastos em 26 de julho de 1858, na Igreja de Pádua (o termo muito lacônico não dá filiação); Teresa Emília de Alvim e Silva, casada com Ambrósio José da Costa em 4 de dezembro de 1849, na Igreja de Pádua; Maria José de Alvim e Silva casada com Joaquim Pio Gomes Alvim, em 5 de novembro de 1854, na Igreja de Pádua; Ana Theodora de Alvim e Silva, casada com João Alves Moreira , em 29 de janeiro de 1855, na Igreja de Pádua; Francisca Umbelina de Alvim e Silva casada com José Dias Tostes filho do Capitão Marcelino Dias Tostes, em 18 de fevereiro de 1857, na Igreja de Pádua; Maria Constança de Alvim e Silva casada com José Aureliano Coimbra em 6 de julho de 1858, na Igreja de Pádua, ela natural desta freguesia e ele de Rio Preto, na província de Minas Gerais; Ana Minervina de Alvim e Silva casada com o Tenente Cel. Joaquim de Araújo Padilha e ainda sogro de Joaquim José Bastos, sendo que desses dois últimos não temos melhores informações. O Capitão Manoel Felisberto foi o homem, até agora conhecido que maior prole deixou no município, dele descendendo as famílias Bastos, alguns Gabriéis, Tostes, Padilhas, Albino, Coimbrãs e até Picanços. Foi proprietário de diversas fazendas em Miracema; exerceu cargos de eleição popular, sendo o primeiro representante da freguesia de Pádua à Câmara Municipal de São Fidélis quando foi instalado aquele município em 5 de março de 1855. Nesse ano ainda, foi eleito provedor da Irmandade do S. Sacramento organizada pelo padre José Joaquim Pereira de Carvalho, na Igreja de Pádua, em 21 de outubro... Em 1863 era o 2° Juiz de Paz e em 1865, subdelegado de Polícia da Freguesia. Teve sempre forte atuação em todos os negócios relacionados com a vida da mesma em conseqüência do alto prestígio político que lhe emprestava a sua reconhecida projeção social.” Após o Capitão Manoel Felisberto Pereira da Silva, a Fazenda Cachoeira passou a seu filho, o Comendador Francisco Procópio de Alvim e Silva, que foi casado com D. Maria Rosalina Reveziana Alvim, filha de Anacleto Reveziano de Siqueira Alvim e de D. Maria Umbelina de Alvim e Silva, na Igreja de Pádua, no dia 18 de fevereiro de 1857. “O comendador Francisco Procópio de Alvim e Silva, Capitão Perico, como era geralmente conhecido, exerceu diversos cargos públicos, por nomeação do Governo Imperial, e outros eletivos, como o de vereador, de 1883 a 1889, onde a proclamação da República foi encontrá-lo na presidência da Câmara Municipal. Posteriormente, no governo do Dr. Francisco Portela, foi delegado de polícia. Trabalhador, honesto, de energia chegada à violência, quando esta se fazia necessária, era, entretanto, afável no trato, o que lhe valia o respeito e a amizade de todos. Foi político de relativo prestígio. Faleceu no dia 5 de julho de 1892, deixando numerosa prole e alguns haveres” 4. Ainda em vida, porém, o Capitão Perico, tomou conhecimento que Joaquim José da Silva Bastos havia iniciado um processo de desmatamento em sua propriedade com o objetivo de ali estabelecer sua fazenda. Tomando conhecimento do fato,... “para lá partiu com alguns homens com a intenção de expulsá-lo. Chegando à fazenda, ficou deslumbrado com a fartura e organização local, deixando-o ficar mediante a entrega de sua produção”. Quando Joaquim José da Silva Bastos vinha trazer a colheita para o Capitão Perico na Fazenda da Cachoeira, via à distância, à janela da casa grande, Bárbara de Alvim e Silva, irmã do Capitão Perico. Com o passar do tempo, o Capitão Perico contratou o casamento de Bárbara com Joaquim José, que se casaram sem nunca se terem falado. O casal foi morar na Fazenda de Venda das Flores que levou este nome por ser rodeada de flores. Desse casamento nasceram os filhos, Francisco da Silva Bastos, Coronel José da Silva Bastos, Augusto da Silva Bastos, Olympio da Silva Bastos, Pedro da Silva Bastos, Benigna

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histórico da Silva Bastos, Maria da Silva Bastos, Amélia da Silva Bastos, Jovina da Silva Bastos, Ana da Silva Bastos, Joaquim da Silva Bastos e Antonio da Silva Bastos, que constituíram família, casando-se conforme demonstração a seguir, recebendo cada um, como herança do pai uma fazenda: 1) Fazenda da Promissão a Francisco da Silva Bastos; 2) Fazenda do Tirol a José da Silva Bastos; 3) Fazenda Vista Alegre a Augusto da Silva Bastos; 4) Fazenda da Boa Vista a Olympio da Silva Bastos; 5) Fazenda da Divisa a Pedro da Silva Bastos; 6) Fazenda Vista Linda a Benigna da Silva Bastos; 7) Fazenda Ipiranga a Maria da Silva Bastos; 8) Fazenda do Quero Ver a Amélia da Silva Bastos; 9) Fazendinha a Jovina da Silva Bastos; 10) Fazenda Bem Quisto a Ana da Silva Bastos; 11) Fazenda Grão Mongol a Joaquim da Silva Bastos; e 12) Fazenda do Sítio a Antonio da Silva Bastos.5 O Coronel Pedro da Silva Bastos recebeu de seu pai, a título de herança, a fazenda da Divisa, que atualmente pertence ao Sr. Belarmino Soldati. Mais tarde, adquiriu a Fazenda Humaitá, onde passou a residir com toda a sua família. “Comprou ainda as Fazendas da Cachoeira, Boa Esperança, Bananal e Quero Ver. Consta-se que vovô arrematou por 30 mil réis, num leilão, a Fazenda da Cachoeira a pedido de seu proprietário, Arthur Procópio, dividindo a fazenda ao meio e dando a metade para Arthur”, conta-nos Gislene Bastos de Oliveira. Político de grande influência chegou a ser prefeito de Pádua por duas vezes e vereador em Miracema. Presidiu partidos políticos e chegou à patente de Coronel, da extinta Guarda Nacional. Na partilha, a Fazenda Cachoeira coube a Nilo Garcia Bastos, que posteriormente a vendeu para seu irmão Cícero Garcia Bastos, que após uma reforma, ali passou a residir. Contou-nos Chicrallina Salim de Martino, que na década de 1930, aconteciam na Fazenda Cachoeira famosos e concorridos “saraus”, onde os jovens da época dançavam ao som do piano e nos intervalos saboreavam doces, refrescos e ponche. Inicialmente, iam de bicicleta. Mais tarde, quando foi estabelecida a linha de ônibus para Itaperuna passaram a se utilizar deste serviço, uma vez que a antiga estrada passava bem nos fundos da casa-sede (f39).

Fazenda Cachoeira (s/a, s/d, acervo Fazenda Cachoeira)

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histórico Também como o pai, Cícero foi político, chegando a prefeito nomeado de Santo Antônio de Pádua. As fazendas Humaitá e Cachoeira recebiam personalidades de projeção do cenário político nacional, como é o caso de Juscelino Kubitschek que se hospedou na Fazenda Cachoeira, em 1967. Retornando do exílio, aceitou o convite do jovem estudante Maurício Monteiro para vir dançar com a Miss Estado do Rio num baile realizado no Aero Clube de Miracema, fato que causou enorme sensação e reboliço entre as autoridades, uma vez que estávamos no auge da ditadura militar (f40). Na casa-sede há lembranças como o livro de visitas, onde ele fez o seguinte registro: “Saio daqui fascinado pela bondade de Julieta e do Cícero e dominado pelo encanto do velho solar fluminense – Juscelino Kubitschek – 26/11/67”. Ou ainda na fotografia enviada em 25/08/1968, com a seguinte dedicatória: “Para Julieta e Cícero Bastos, o abraço afetuoso de Juscelino Kubitschek” (f41). A Fazenda, atualmente, é propriedade de Gislene Bastos de Oliveira, que tem a preocupação de mantê-la conservada e de passar para as gerações futuras a memória da família Bastos, que tantos e relevantes serviços vem prestando a Miracema há mais de um século e meio.

Baile no Aero Clube de Miracema, com a participação do 40 ex-Presidente Juscelino Kubitscheck, em 1967 (s/a, acervo Fazenda Cachoeira)

Bilhete de agradecimento do ex-Presidente Juscelino 41 Kubitscheck, pela estada na Fazenda Cachoeira, em 1967 (s/a, acervo Fazenda Cachoeira)

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denominação

códice

Fazenda Liberdade
localização Km 236 da RJ116, que liga Itaboraí a Itaperuna município Miracema época de construção século XIX estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original pecuária leiteira / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

AVII – F02 – Mir

coordenador / data Equipe histórico

Marcelo Salim de Martino – mar/abr 2009 Vitor Caveari Lage e Jean Rabelo Ferreira Marcelo Salim de Martino

Fazenda Liberdade, fachada principal. revisão Coordenação técnica do projeto 217

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situação e ambiência O acesso à Fazenda Liberdade é feito através de uma estrada vicinal, que tem início no km 236 da RJ-116 (Rodovia Presidente João Goulart), que liga Itaboraí a Itaperuna (f01 e f02). Na beira da estrada está localizado o curral, o barracão para a guarda de carros-de-boi e a casa de colono. Mais adiante se encontram: a casa de força, cevas, máquina de beneficiar café e arroz e o terreiro de café (f03 a f07, f08 e f09). A casa-sede fica localizada numa elevação, de onde se pode avistar a estrada. Do lado esquerdo da sede está localizado parte do pomar da fazenda, onde se destacam as sempre viçosas jabuticabeiras (f10). Pouco mais adiante, encontramos o açude cercado de bambus gigantes que embelezam aquele bucólico recanto (f11). De lá, parte a água que abastece a fazenda, transportada por uma banqueta de tijolos maciços revestidos com massa (f12), passando pela ceva e terminando onde outrora esteve instalada uma roda d’água (f13).

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situação e ambiência

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descrição arquitetônica* Utilizando a linguagem do neoclássico, a casa-sede encontra-se projetada com a planta em formato de “L” invertido, estando assentada sobre platô em aclive, o que determina que a fachada principal apresente porão alto e a parte dos fundos seja térrea (f14 e f15). O corpo principal da construção, com uma volumetria compacta, além do aspecto de sua implantação, é valorizado pelo desenho da cobertura e pela composição ritmada dos vãos de sua fachada frontal no segundo piso (f16). São oito vãos de janelas, distribuídos quatro a quatro, centralizados por um alpendrado, através do qual se tem acesso à duas portas que levam a parte íntima da casa. As janelas possuem cercaduras em madeira, vergas e sobrevergas retas – estas últimas em cimalha de estuque –, pintadas de azul, mantendo folhas externas em venezianas e guilhotinas internas em caixilhos de vidro (f17 e f18).

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*(Texto parcialmente transcrito do “Projeto de Conservação e Preservação – Histórico e Análises de Situação e Contexto da Fazenda Liberdade”, elaborado pela Oikos Arquitetura em Julho / 2008 para a Prefeitura Municipal de Miracema) 220 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

descrição arquitetônica É possível perceber a influência neoclássica, através da existência de bandeiras sobre as portas internas (f19) e das sobrevergas que compõem as janelas das fachadas principais, bem como os frisos de cimalhas acima destes vãos, ambos em estuque, técnica muito utilizada na região (f20). A cobertura é de telha cerâmica do tipo capa e canal. Chamamos a atenção para os originais e raros recortes de acabamento feitos nas telhas que compõem todas as extensões dos beirais, requintes da arquitetura colonial. Porém, o beiral é arrematado por uma cimalha de madeira, muito simples (f21). Os forros da ala principal são de madeira, do tipo saia e camisa (f22). Já na ala de serviço, onde estão localizadas uma copa e pequenos quartos, provavelmente ocupados por empregados, foram executados em taquara, com padrões geométricos e coloridos, por antigos empregados da fazenda (f23).

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descrição arquitetônica A sala principal possuía, segundo testemunho dos proprietários da terceira geração, teto com fino e requintado trabalho em estuque, em cujo medalhão central reproduzia Ceres, a deusa da mitologia grega que representa a proteção da lavoura, guarnecida por jarrões com flores, buquês e as iniciais dos proprietários – JAB (Josino Antônio de Barros) e APB (Amélia Padilha de Barros). Há ainda o registro, neste ambiente, da cimalha de estuque que circunda toda a sala (f24). Ainda segundo o testemunho das netas dos proprietários, as paredes eram forradas com papel na cor azul trabalhado com motivos florais. A casa possui 12 quartos, quatro salas, um escritório com entrada independente, cozinha, despensa e um banheiro. As construções do século XIX passaram, ao final deste, por um processo de “modernização”, sobretudo as localizadas nos pequenos núcleos urbanos e na zona rural. Miracema, nessa época, por contar com abundante mão-de-obra especializada na construção civil, assiste à “requalificação” de seus casarões. A sede da Fazenda Liberdade também foi modificada nesse momento. Assim, foram detectadas algumas intervenções modernizadoras, como nas janelas das fachadas principal e laterais, acréscimos etc. A maior parte dessas intervenções, no geral, é incorporada em uma nova linguagem formal chamada ecletismo. A alteração descaracterizadora mais evidente está registrada no alpendre, onde parte do telhado se sobrepõe às duas portas de acesso, levando aos seus fechamentos abaixo da altura original (f25).

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detalhamento do estado de conservação* Com o envelhecimento dos proprietários e com a mudança para a cidade, a casa-sede da Fazenda Liberdade entrou em acelerado processo de degradação. A cobertura, no geral, apresenta-se em condições razoáveis, não sendo detectadas patologias que comprometam sua estabilidade. As linhas de cumeeiras e espigões mantêm-se niveladas. As telhas de barro, em capa e canal, apresentam bom estado de conservação (f26). Mesmo com a existência de várias telhas corridas e quebradas, atualmente, são poucas as infiltrações por descendência que ocorrem no período das chuvas. A cimalha de madeira sobre o beiral, bastante comprometida, não parece ser original. A régua no centro (em vermelho), por mais que pareça ser um detalhe decorativo, tem como função principal sobrepor-se às emendas das tábuas na horizontal (f27). Foram detectadas trincas verticais em alguns encontros de paredes, que podem representar deslocamentos de esteios ou, até mesmo, perda de material no encontro de frechais (f28). A ocorrência de trincas sobre as janelas, onde houve a substituição da vedação de pau-a-pique por tijolo maciço, pode ser decorrência da retirada das partes inferiores dos portais dessas janelas, fato esse que altera a relação de distribuição de cargas até então concentradas no arcabouço de madeira que sustenta e dá estabilidade à construção (f29). A existência de xilófagos da espécie cupim de solo provocou a deterioração de alguns portais, barrotes do porão, esteios, frechais, assoalhos e madres. A infestação é mais percebida no porão. Assim mesmo não se apresenta de forma generalizada (f30).

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* Texto baseado e parcialmente transcrito do Projeto de Conservação e Preservação – Histórico e Análises de Situação e Contexto da Fazenda Liberdade, elaborado pela Oikos Arquitetura, em julho / 2008, para a Prefeitura Municipal de Miracema.

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detalhamento do estado de conservação O alpendre tem seus barrotes e assoalhos totalmente irrecuperáveis. A escada de acesso em alvenaria de tijolo maciço, bem como os telhados, gera uma volumetria desproporcional à original, devendo ser objeto de proposta de requalificação (f31). Os forros de madeira, todos em saia e camisa, foram afetados por umidade descendente e, consequentemente, por fungos e xilófagos, com muita perda de material (f32). Os assoalhos também o foram, porém em quantidade menor de perdas, com exceção dos correspondentes ao alpendre, que estão totalmente danificados, inclusive seus barrotes. As portas, com exceção das localizadas na atual cozinha e depósito, totalmente degradadas, estão em boas condições. As venezianas externas da fachada principal e das laterais exigem cuidados por estarem desarticuladas, ressecadas e com algumas falhas. Pequenas obras de conservação deveriam levar em consideração a manutenção da originalidade dos aspectos estéticos e também dos materiais utilizados. No caso da substituição do forro em estuque, provavelmente deteriorado, pelo de madeira existente, perdeu-se muito no que diz respeito à harmonia desses elementos, transformando o paliativo em definitivo. Foram encontrados registros de pinturas decorativas nas paredes da antiga sala-de-jantar. Aparentemente são pinturas simples imitando texturas de madeiras, mas que revelam as técnicas e os padrões utilizados, no século XIX, para essa finalidade (f33). O antigo acesso principal à casa foi executado com soleiras de pedras e seus arrimos na técnica em pedra seca, todas cortadas e esquadrejadas à mão (f34 e f35).

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detalhamento do estado de conservação Os assoalhos, ainda utilizando em grande parte as tábuas originais, foram alterados em intervenções de manutenção e, em alguns pontos, o uso de procedimentos e materiais diferentes dos originais, geram influências e conseqüências questionáveis, sob o ponto de vista da conservação preventiva (f36). O piso hidráulico é utilizado como pavimentação de partes de áreas frias, elemento em uso nas construções de interesse histórico desde meados do século XX, em pleno ecletismo. Seu uso por décadas causou desgastes acentuados nas áreas de maior circulação, e, consequentemente, várias reposições de peças (f37). Reflexos da adoção de novos hábitos são percebidos nas construções de interesse histórico em geral, nesse caso, nas janelas externas das fachadas, principal e lateral. A introdução de venezianas protegendo as guilhotinas contraria a versão neoclássica, onde as folhas são cegas e internas, promovendo descontinuidade na leitura das fachadas (f38). No final do século XIX, o uso de ferramentas mais adequadas provocou o avanço nas tecnologias da construção. Assim, foi possível obter elementos como pequenas cimalhas de madeira, encaixes mais precisos e artefatos de ferro fundido mais delicados, o que viabilizou a “passagem” entre os estilos em vigor na época. Em 2008, a Prefeitura Municipal de Miracema, atendendo a solicitação do proprietário, encomendou a uma firma especializada em restauração um projeto de conservação e de preservação da casa-sede, dada a importância e o significado do ponto de vista histórico e arquitetônico que a mesma representa para a região. A sede da fazenda, no momento da elaboração deste fichamento, estava passando por um processo de recuperação da cobertura, com a substituição de telhas quebradas, tábuas de beira, pintura interna (caiação) e preenchimentos de pequenas trincas com massa de cimento.

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representação gráfica

FAZENDA LIBERDADE

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representação gráfica

FAZENDA LIBERDADE

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representação gráfica

FAZENDA LIBERDADE

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histórico A Fazenda Liberdade era propriedade do tenente-coronel Josino Antônio de Barros, que nasceu na Fazenda das Três Ilhas, em São José do Rio Preto, atual São José das Três Ilhas, Minas Gerais, de propriedade de Antônio Bernardino de Barros e Silvana do Vale Barros (segundo matrimônio), seus pais. Antônio Bernardino de Barros era filho de José Bernardino Monteiro de Barros, proprietário de uma fazenda de criação que se destinava a abastecer a população da zona de mineração aurífera. Já no século XIX, com o surgimento da lavoura cafeeira, Antônio Bernardino de Barros transferiu-se para São José do Rio Preto, onde estava situada a Fazenda Três Ilhas, dedicando-se à cultura de cana e café. Antônio Bernardino de Barros, como diversos mineiros que para lá se transferiram atraídos pela fertilidade da terra, adquiriu uma sesmaria de terras no município de Santo Antônio de Pádua, região que futuramente seria denominada de Miracema, na época habitada por índios. Antônio faleceu pouco depois de 1840. Josino, seu filho, com muito pouca idade, foi educado pelo tio, Gabriel Antônio de Barros, Barão de São José Del Rey, no então afamado Colégio do Caraça, em Mariana – (MG). Na divisão da herança deixada pelo pai, a sesmaria localizada em Miracema foi repartida pelos três filhos do primeiro matrimônio que aqui se estabeleceram, surgindo assim as fazendas de São Luís, de Custódio Bernardino de Barros, Paraíso, de Plácido Antônio de Barros e Santa Inês, de Francisco Bernardino de Barros. Após os irmãos terem se estabelecido como fazendeiros, Josino resolveu visitá-los. Na época, conheceu a filha do Coronel Joaquim de Araújo Padilha e de D. Ana Minervina de Alvim Padilha, Amélia, com quem se casou. Adquiriu então uma fazenda e deu-lhe o nome de Liberdade que, segundo informações de seus familiares, chegou a colher, em sua primeira safra, 150 mil quilos de café. Vivendo no tempo em que a escravidão era instituída como regime de trabalho humano, não foi possível evitá-la. Dentro de suas possibilidades libertou vários escravos e, compreendendo o sentido da mudança do tempo, preferia o regime assalariado ao escravagista. Assim, fez vir e instalou nas terras da fazenda imigrantes de origem italiana. Suas netas, Maria Augusta e Maria Amélia e Silvia contam que o castigo comum atribuído aos escravos de sua propriedade era tomar banho com sabão. Ainda segundo depoimento delas, outra peculiaridade das “estórias” da fazenda é que Josino Antônio de Barros costumava deixar o paletó pendurado perto dos trabalhadores e ia dormir. Então, os escravos comentavam – “Sô Tenente taí!”. O Coronel Antônio Josino de Barros participou intensamente do movimento republicano, sendo um dos primeiros propagandistas da república, fundando em 1886, ao lado de muitos outros, o Clube Propagandista da República de Pádua. Em 1890, foi nomeado intendente e, de 1897 a 1900, foi presidente da Câmara de Pádua, época em que introduziu, entre outros melhoramentos, o serviço de água potável, com a construção de caixas distribuidoras e chafarizes públicos. Em Miracema, onde já existia abastecimento de água, o sistema foi ampliado e melhorado. Josino foi agraciado com a patente de tenente-coronel, da Extinta Guarda Nacional e foi escolhido Deputado Estadual por três vezes. Como fazendeiro, não se dedicava tão somente à cultura cafeeira. Experimentou a criação de ovinos, importando o famoso carneiro “merino”. Construiu açude, plantava arroz e, ao longo dos caminhos da fazenda, viam-se cedros, bandarras, pinheiros e até casuarinas da Austrália. Nessa fazenda nasceram e cresceram seus filhos: Arquimedes, Ana, Joaquim (Quinca), Mariana, Leopoldina, Henedina, Antonio Rattes (Titotonho), Israel e Lucília, do primeiro matrimônio com Amélia Padilha de Barros, e Aristeu, Constança, Mercedes, Lígia, Gideão, Adiles e Maria do Carmo, do segundo casamento, com Bernardina Teixeira de Barros. O Coronel Antônio Josino de Barros faleceu em 19091. A Fazenda, atualmente, está dividida entre os herdeiros de Antonio Rattes de Barros (filho do coronel Josino) e de Diva Lima Barros.

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Exposição Casas de Fazenda – outubro de 1993 – dos escritos de Rômulo Alves de Barros, adaptados por Marcelo Salim de Martino

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denominação Fazenda Santa Justa

códice AVII-F06-Mir

localização Situada entre o povoado de Areias e a comunidade de Barreiro, distrito-sede município Miracema época de construção século XIX estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original fazenda de gado de leite / fazenda de café e algodão proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Coordenador / data equipe histórico 230

Fazenda Santa Justa, fachada principal Marcelo Salim de Martino – mai 2009 revisão Vitor Caveari Lage (levantamento de campo, Jean Rabelo Ferreira, Coordenação técnica Lia Márcia de Paula Bruno e Vera Lúcia Mota Gonçalves do projeto Marcelo Salim de Martino Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

situação e ambiência imagens geradas pelo Google Pro 2009

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situação e ambiência A Fazenda Santa Justa está encravada num vale, situado entre o Povoado de Areias e a Comunidade do Barreiro, localizados no distrito sede. Há várias alternativas de acesso, entre as quais pelo km1 da RJ-116; pela RJ-186, entrando pela Fazenda Santa Inês (f01); ou ainda pelo povoado de Areias, que fica distante cerca de 3 km da RJ- 200, estrada que liga Miracema ao distrito de Paraíso do Tobias (f02). Entretanto, o acesso é dificultado pelo mau estado de conservação das mesmas, devido às chuvas que são intensas e frequentes na região. Logo na chegada, do lado direito da estrada de quem vem de Paraíso do Tobias, distante da casa-sede cerca de 1 km, há um córrego que passa por um trecho com muitas pedras, o que contribui ainda mais para a valorização do sítio histórico e das belezas naturais que compõem as terras da Fazenda Santa Justa (f03). Deste mesmo ponto, pode-se avistar a Pedra Olho da Baleia, localizada na Fazenda Pirineus, em Paraíso do Tobias, que é um importante atrativo natural da região (f04). Da sede da Fazenda Pirineus ao topo da pedra, são quatro horas de caminhada. Corre uma lenda na cidade que, no lugar denominado de “Olho da Baleia”, se localizava a entrada de uma grande caverna, onde os antigos moradores da fazenda acreditavam acontecer fenômenos sobrenaturais, como o aparecimento de santos, a audição de vozes diferentes, o surgimento de dragões cuspindo fogo, enfim, uma série de histórias que acabaram criando tal lenda. De fato, conforme o proprietário da fazenda, Sr. João Ramos, informou à redação da revista Miracema, nº 2, de 1977, naquele local, aconteciam fenômenos “desde que me entendia por gente”. Não coisas “do outro mundo”, como acreditavam alguns habitantes da região, mas de vez em quando, era vista por lá uma tocha de fogo que clareava tudo.

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situação e ambiência O conjunto de construções formado pela casa-sede e a tulha (f05), antiga (f06) e nova ceva (f07), curral (f08), barracão usado como garagem (f09) e casa de colono (f10), ficam concentrados em volta do antigo terreiro de café (f11). Apenas outro curral que, pelas características da construção parece ser o mais antigo, fica isolado do conjunto (f12). Do lado direito da construção, por trás da ceva nova, localiza-se o caminho (f13), pelo qual tem-se acesso a um grande açude, que possui uma parede de pedras que faz sua contenção (f14).

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situação e ambiência De uma abertura desce a água represada, formando um riacho (f15) que, através de uma banqueta (f16 e f17), movimentava a roda d’água que abastecia uma “casa de moinho” (f18), atualmente desativada e soterrada por árvores derrubadas pelas fortes chuvas que este ano, em especial, assolaram a propriedade. Esse açude é alimentado por diversas nascentes, sendo que a principal vem da Fazenda Serra Nova. Na parte dos fundos da casa-sede, está localizado o antigo pomar da fazenda, que ainda conserva diversas espécies de árvores frutíferas (f19).

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descrição arquitetônica A casa-sede da Fazenda Santa Justa possui planta retangular com as fachadas principal e lateral direita térreas – e as dos fundos e lateral esquerda edificadas sobre porão alto, aproveitando a declividade do terreno (f20). A fachada frontal, que é voltada para o antigo terreiro de café, é formada por quatro janelas e uma porta de duas folhas cegas, localizada no alpendre que possui guarda-corpo de madeira recortada, com todas as peças de madeira pintadas de azul (f21 e f22). O telhado em quatro águas, de ponto elevado, é coberto por telhas do tipo capa e canal e arrematado por beiral forrado, sustentado por mãos francesas simples (f23). A casa-sede possui três salas (f24 e f25), quatro quartos (f26), copa / cozinha (f27), banheiro e área de serviços localizada no canto das fachadas de fundos e lateral direita da construção (f28).

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descrição arquitetônica Os quartos e as salas possuem assoalho de madeira de junta cega, em alguns cômodos substituído por padrão mais contemporâneo (f29), além de forros, também em madeira, do tipo saia e camisa (f30). Foi verificado que, em um dos cômodos, o proprietário optou pelo uso de forro em PVC que, embora apresente aspecto semelhante ao original de madeira, não deixa de ser um elemento estranho a uma construção do século XIX. A copa e a cozinha apresentam pisos com ladrilhos hidráulicos, conservando a cozinha o velho e bom fogão a lenha (f31).

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descrição arquitetônica

Na casa, existem alguns móveis e alfaias de época, como uma escrivaninha do século XIX (f32); o sino pendurado no alpendre (f33), utilizado para chamar os escravos; uma balança de ferro e uma corrente que foram adaptadas e utilizadas como elementos decorativos e/ou funcionais (f34 e ver f30). O destaque, porém, fica para uma janela entre a sala de jantar e a cozinha, vedada por uma grade formada por barras verticais de madeira, à moda das moradas paulistas (f35). A casa-sede é protegida por uma muralha de pedra seca, localizada na fachada lateral direita, que faz a contenção da encosta (f36). Ao lado da casa-sede, separada apenas por uma estreita passagem, estão localizadas a tulha, o galinheiro (f37) E uma antiga, desativada e interessante ceva, que utilizava o porão como refúgio para os animais (f38). Esse bloco possui a fachada principal de pau-a-pique (f39) e as laterais e parte da fachada dos fundos em esbeltos troncos de madeira dispostos na vertical (f40), que vão do assoalho em junta cega ao frechal. Segundo um empregado da fazenda, a madeira utilizada é a original, não tendo sido atacada por insetos do tipo cupins de solo, e que se acredita ser de brejaúba, uma espécie de palmeira da região. O telhado é de duas águas, coberto com telhas cerâmicas do tipo capa e canal. Acredita-se que parte dessa construção também tenha servido de senzala da fazenda. Merece destaque ainda, o antigo terreiro de secagem de café que fica instalado em frente à casa-sede e à tulha (ver f11).

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detalhamento do estado de conservação A casa-sede encontra-se conservada, sobretudo no que se refere ao madeirame estrutural da construção, ou seja: nas peças encontradas no telhado e porão (f41). Parte da forração do beiral da fachada lateral esquerda foi substituída recentemente, conforme pode ser facilmente observado (f42). Parte do emboço do porão, do lado onde está localizado o alpendre, foi substituído, encontrando-se ainda sem pintura (f43). Grande parte da pavimentação de pedra do tipo pé-de-moleque (f44), localizada do lado direito da edificação, está se desfazendo, devido à erosão causada pelo carreamento das chuvas que, de forma generalizada, tem provocado uma série de danos em estradas, nas banquetas e no curral, dentre outros. Isto ocorre porque a propriedade está localizada numa área de declive do terreno, caminho natural das enxurradas. Outro motivo que contribui para a erosão e o desmoronamento de parte do curral são as árvores conhecidas como “mata pau” ou figueira. Notou-se também, por ocasião do levantamento, a exploração de rochas na propriedade, bem próximo à área que é mais atingida pelas enxurradas (f45). Na tulha, galinheiro e antiga ceva, a construção encontra-se, em geral, mais danificada que a casa-sede, principalmente no que diz respeito aos portais e às esquadrias (f46), que já não são originais, além de parte do assoalho (f47). Contudo, a cobertura está em bom estado, percebendo-se que muitas peças, como a cumeeira, algumas terças e parte do ripamento, foram substituídas (f48).

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histórico Segundo Alberto Lamego, em sua obra o Homem e a serra, a proximidade com o estado de Minas Gerais foi essencial para o crescimento demográfico e econômico do Município de Pádua, com uma forte corrente imigratória ao longo do rio Pomba. “...os cafezistas se embrenhavam lateralmente pelos afluentes, onde havia encostas elevadas mais promissoras para as plantações. O primeiro desses cursos d’água encontrados na margem esquerda, ao vir-se de Minas, é o Ribeirão Santo Antônio, logo invadido pelos pioneiros. E, além de mais próximo das terras mineiras, os próprios fatores geográficos da bacia desse afluente viriam incentivar a imigração por um caminho novo”. Assim, a partir da década de 1940, grandes e numerosas fazendas foram formadas em Miracema, fato esse que possibilitou, em pouco tempo, o surgimento do arraial de Santo Antônio dos Brotos. E prossegue Alberto Lamego: “As tropas de café de Miracema eram das que mais concorriam para a animação do porto de São Fidélis, e um dos mais sólidos argumentos para a construção da Estrada de Ferro Santo Antônio de Pádua, da qual viria um ramal a destacar-se, partindo de Paraoquena até a povoação que já se formara em torno da Capela dos Brotos. Com a nova estação no ponto terminal da via férrea, torna-se Miracema um centro de transportes distrital, com uma notável expansão do comércio, ativado pelas transações com as propriedades rurais. Essa artéria ferroviária liberta-a cada vez mais de Pádua. E, com os robustos recursos independentes da sua economia agrícola, envolve o núcleo urbano, transformando-o numa pequena e próspera cidade, coisa dos destinos próprios onde, naturalmente cresceram os sentimentos separatistas. O contato com Minas continua a fornecer-lhe um contingente humano que, sem cessar, se espraia pela topografia acidentada, que se eleva da cota de 137 m, na estação ferroviária, a cerca de 400 m nas Serras do Pirineus, da Boa Vista e do Tirol. Dos milhares de colonos mineiros a acorrerem para Miracema, a fim de plantar café num solo altamente produtivo, emergem centenas de pequenos fazendeiros, cujas famílias enraizadas ao novo meio, proliferam”. Assim surgiram várias propriedades rurais, dentre as quais podemos citar a Fazenda Santa Justa, que pertenceu ao Sr. Bernardino Homem da Costa, que foi Juiz de Paz em Paraíso do Tobias, cuja família possuía outras propriedades situadas nesta região de Paraíso do Tobias – 2º distrito de Miracema. A sede da Fazenda Santa Justa deve ter sido edificada por volta de 1870. Numa das reformas do telhado, foi encontrada uma telha datada de 22 de fevereiro de 1873 (f49), provavelmente marcada pelo fabricante de telhas que foi o mesmo fornecedor da Fazenda Santa Inês, uma vez que lá também foram encontradas as mesmas telhas com datas bem próximas.

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histórico Anos depois, a fazenda foi passada para Bernardino Alves da Costa, filho de Bernardino Homem da Costa, casado com Guiomar Tostes, popularmente conhecido por Seudy. José Erasmo Tostes, sobrinho de Guiomar, relata em seu livro de memórias, intitulado Tipos e fatos inesquecíveis, que “...na época das colheitas, o tio Seudy fazia com que todos trabalhassem no corte de arroz, na colheita do milho e na apanha do algodão. O algodão era depositado num dos quartos da casa. Na sala ao lado, muito espaçosa, tinha uma eletrola movida a corda, um guarda-louça, um retrato grande pendurado na parede, uma mesa comprida onde se faziam as refeições preparadas no fogão de lenha, e dois bancos para compor a mesa. A Fazenda Santa Justa ficava num platô, o curral na parte de cima e no terreiro, um galinheiro, duas tulhas, onde se guardavam os produtos colhidos, um barracão onde ficava o carro de boi e um carroção, juntamente com as ferramentas agrícolas. Na parte de trás da fazenda, a mais baixa, onde a água era corrente, havia uma ceva com vários porcos. Do outro lado da estrada, uma roda d’água tocada pelo valão ali existente e o alambique onde se fabricava a aguardente Santa Justa, que era vendida no mercado. Após 50 anos lá voltei e, ao passar novamente pelos mesmos lugares, o açude, a banqueta onde se represava a água para tocar o moinho de fubá, os pés de goiaba, as mangueiras, as jabuticabeiras, nada tinha mudado. Eu é que havia envelhecido, e as lágrimas a correr pela face ao lembrar os tempos de menino. E assim, naquelas recordações, eu via o entardecer, e a hora de dormir, onde a tia Guiomar fazia com que todos lavassem os pés para não sujarmos os lençóis alvejados. E naquele silêncio que produz a noite, só ouvíamos de longe o ladrar dos cães, o pio da coruja, o coaxar dos sapos, o zumbido dos insetos, o farfalhar das folhas secas batidas pelo vento, o marulhar das águas sobre as pedras e o barulho cadenciado da roda d’água”... Na década de 1960, Santa Justa foi vendida ao Sr. Paulo Lima Barros, que, por sua vez, a transferiu ao Sr. Décio Pereira Lima. Com seu falecimento, a fazenda coube a seu filho, que é o atual proprietário.

Fontes TOSTES, José Erasmo - Tipos e fatos inesquecíveis, Gráfica Hoffman – Miracema, 2008. LAMEGO, Alberto Ribeiro - O homem e a serra, IBGE – Rio de Janeiro, 2007.

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denominação

códice

Fazenda Ponte Alta
localização Estrada do Barreiro, s/nº

AVI-F01- Nat

município Natividade época de construção 1830 estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original criação de gado / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

coordenador / data equipe histórico

Marcia Canedo Bizzo – dez 2008 Pabrício Amaral , Jorge Luiz Nunes de Carvalho Marcia Canedo Bizzo

Fazenda Ponte Alta, fachada principal revisão Coordenação técnica do projeto

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situação e ambiência A Fazenda Ponte Alta está localizada no município de Natividade, próximo à divisa com o município de Itaperuna. Toma-se a BR-356, em direção à Muriaé (MG), e entra-se no trevo para Natividade, cerca de 15 km do centro da cidade de Itaperuna. Segue-se à direita, pela estrada do Avahy, por 6 km de terra batida ensaibrada, chegando-se ao entroncamento com a estrada do Barreiro (f01). Prosseguindo por mais 7 km, margeando o Rio Carangola e depois pelo seu afluente, o Rio da Conceição, alcança-se a fazenda. A estrada do Barreiro está muito mal conservada, possuindo uma ponte rústica sobre o rio que permite o acesso à propriedade. A mata remanescente é nativa, mas é comum a presença de pastos intercalados à mesma. A paisagem próxima ao sítio apresenta-se com relevo pouco acidentado, com pequenas e suaves elevações. A casa-sede está implantada no centro de um grande platô, com um pequeno declive para a esquerda, onde está o acesso lateral que se liga à estrada do Barreiro (f02). No seu entorno, encontram-se grandes árvores frutíferas e, mais ao fundo, destacam-se os morros tipo “meia-laranja” característicos da região (f03 à f05).

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situação e ambiência A fachada principal está voltada para a estrada do Barreiro (f06), possuindo à frente uma grande área plana, que remete a um jardim sem canteiros, delimitado pelo acesso lateral e pela cerca junto à estrada – aproximadamente no mesmo nível desta – para o qual se volta à casa do caseiro, de construção recente. Há ainda uma casa de colono um pouco afastada, mais antiga, mas não da época da fazenda. A capela de Nossa Senhora Aparecida fica um pouco distante da casa-sede, escondida pela vegetação circundante a ponto de não poder ser avistada (f07). Estando sem uso, o seu entorno foi invadido pelo mato. A fachada lateral esquerda da casa-sede é margeada pelo leito do córrego, que faz uma curva neste trecho, ficando quase paralelo à estrada do Barreiro. Nesse local, existem três chiqueiros interligados, que usam de sua água através de uma comporta original, que, quando aberta, serve como um canal para limpeza dos mesmos (f08). Depois, esse desvio segue sob a estrada, funcionando como um braço do rio, provavelmente já existente, e que foi direcionado para essa função.

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situação e ambiência Mais à esquerda, à margem do rio, vemos a antiga casa que abrigava o moinho de fubá. Hoje, ela está sendo usada como um galinheiro, mas mantém todos os equipamentos do antigo moinho, assim como duas de suas mós em cantaria (f09 e f10). Na queda d’água existente, próximo ao moinho, pode-se ver a base em pedra da antiga roda d’água (f11), que fornecia energia para a fazenda e também para o moinho. Existem duas comportas, uma para o rio (f12) e outra (f13) que direcionava a água canalizada para uma tubulação sob a casa do moinho, para fazê-lo funcionar. O acesso à antiga roda d’água e à comporta é feito através de uma escada e uma passarela (f14) que levam até a beira do rio, calçada em pedras da região. O abastecimento da casa-sede, atualmente, é feito por uma caixa d’água própria. O curral (f15) fica próximo da casa-sede, na frente e um pouco à direita, do outro lado da estrada do Barreiro. Mas a visão da casa a partir deste é inviável, devido a um grande conjunto de mangueiras que se interpõem aos mesmos. Observa-se também um curral menor, para caprinos, à direita da casa-sede, em construção recente, localizada numa pequena elevação. A composição do “quadrilátero funcional”, ou seja, a forma de implantação das suas antigas instalações é aberta, dominado pela presença da casa-sede.

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descrição arquitetônica Edificação desenvolvida em partido arquitetônico que toma a forma de um “L”, situada num platô com um ligeiro declive para o lado direito. O corpo principal é retangular, estando disposto paralelo à estrada do Barreiro, assim como a fachada lateral direita está paralela ao rio que banha a propriedade, compondo o “L” (f16). Na fachada frontal, podemos observar, no 1º pavimento, três portas e quatro janelas em verga reta em madeira, como as demais da casa, e, no 2º pavimento, dez janelas. O ritmo dos vãos confere à fachada, despojada de um tratamento arquitetônico mais apurado, a característica mais marcante de sua composição. A visão da estrutura em madeira aparente, no caso dos pilares, remete à constatação – conforme a foto mais antiga existente no histórico – que, com o passar dos anos e prováveis danos sofridos, fossem eles por umidade ascendente ou outro fator qualquer, a base em cantaria foi sendo reforçada e ampliada. Isto fez com que os pilares de madeira passassem a ter a face externa acima do embasamento com tamanhos diferentes (f17), de forma que apenas os cunhais alcançam o nível do terreno (f18).

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descrição arquitetônica As bases em cantaria são caiadas de branco, assim como toda a alvenaria da edificação, o que contribui para uma visão pouco usual da sua composição. Modulam a fachada seis pilares em madeira, todos finalizando no frechal – viga horizontal que divide os pavimentos. Esta viga, em madeira aparente, recebe o barroteamento do tabuado do 2º piso, apresentando detalhes de encaixe originais, ainda conservados após mais de 150 anos (f19). Na primeira porta – que permite o acesso à parte de moradia no segundo piso –, observamos uma rampa que antecede o patamar, em laje de pedra com junta seca (f20). Porta alta, como as demais, de abrir, ela apresenta folha única em madeira enrelhada. Logo em sequência, há alternância de vãos de janelas e portas, entremeados por pilares aparentes em madeira, que marcam o embasamento da construção. No lado oposto, há outra escada, com sete degraus para vencer o desnível do terreno nesse trecho (f21). A fachada lateral esquerda (f22) apresenta composição onde se observa o não alinhamento dos vãos do segundo piso em relação ao primeiro, evidenciando as alterações descaracterizadoras ocorridas. Prosseguindo na leitura das fachadas posteriores – que delimitam o pátio aberto que formata o “L” invertido da planta – observa-se uma mesma tipologia, que resguarda, em melhores condições, a modenatura do pavimento superior (f23 e f24). A fachada de fundos foge um pouco a essa conformação, apresentando outros elementos que evidenciam as transformações ocorridas (f25). Na fachada lateral direita, nota-se, como na frontal, seis pilares de madeira aparente de dimensões variadas e bases de cantaria (f26). No primeiro pavimento, podemos observar que os cunhais e a peça de madeira estrutural que se aproxima de seu eixo de simetria, se estendem até a cobertura enquanto os demais esteios estão restritos ao primeiro piso.

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descrição arquitetônica Chama atenção um vão de porta, com patamar na altura da base de cantaria da casa, originalmente usado para carregar as cangalhas dos tropeiros (f27). A edificação apresenta cobertura em seis águas, beiral com cimalha torneada em madeira e telhas capa-canal originais, com metade da primeira fiada de telhas em balanço (f28). Os cunhais recebem como coroamento, um trecho de beiral ressaltado, fazendo às vezes de um capitel (f29). O embasamento é feito por pedras de mão do local, com junta seca, pintado à base de caiação. Em alguns pontos a cantaria é aparente e em outros, apresenta-se emassada. A estrutura interna da edificação é aparente, como a externa. A fachada frontal possui três entradas. A principal constitui-se por uma rampa de lajes de pedra com patamar central em frente à porta, que leva a uma saleta – que serve de escritório para o proprietário – com um pequeno mezanino, pé direito baixo, forro com barrotes e tabuado do piso superior, aparentes e caiados. Mantém uma janela para a fachada lateral esquerda e, para a proteção do mezanino, observa-se guarda-corpo em madeira, além de escada original – toda feita em ensambladuras (f30) – que leva à porta da área de moradia (f31). Essa entrada é exclusiva da parte residencial, localizada no andar superior, não tendo ligação nenhuma com o restante do primeiro pavimento, que mantém porão habitável ocupado por vários cômodos, cujo uso original destinava-se ao estoque do café, depósito e senzala (f32). A senzala ficava no porão, subsistindo ainda o tronco dos escravos (f33) em uma parte bem mais rústica deste. O piso arruinado permite perceber o calçamento original em adobe, que se evidencia num trecho de degrau que recebeu, posteriormente, um cimentado por cima. Os outros acessos estão voltados para ambientes bem mais rústicos: um salão e depósito, ligados a cômodos semelhantes e a outro lateral com piso em tabuado de madeira elevado (f34).

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descrição arquitetônica Há um cômodo lateral que possui outro mezanino (f35), alcançado por escada com cinco degraus, mantendo guarda-corpo e tabuado de madeira. Este mezanino leva, ao fundo à esquerda, a uma escada de madeira que dá acesso à área de serviço e a um pequeno banheiro, construído em época posterior. No segundo pavimento, na entrada da residência, encontramos uma circulação generosa (f36) com duas portas. Uma delas leva à sala principal, que apresenta forro saia-e-camisa em madeira aparente, com sanca em madeira boleada em ótimo estado de conservação, assim como o piso, mantendo quatro janelas para a fachada frontal e acesso para dois quartos (f37), também com forros saia-e-camisa em madeira aparente, porém não tão elaborados. Originalmente havia mais um quarto voltado para esta sala, pois se observam vestígios de sua porta (f38). A outra porta direciona a uma ala semelhante, que leva a uma sala íntima com um quarto ao fundo (f39) e à sala de almoço, que conserva a mesa original da fazenda – com mais de 100 anos (f40). Da sala de almoço observa-se um cômodo até hoje usado como oratório, com uma grande imagem religiosa. Vê-se ainda o acesso à parte íntima da residência, sua porta com a fechadura e chave originais, notando-se nessa ala um closet, também com ferragens originais, além de 3 quartos, em que as janelas voltam-se para a fachada lateral esquerda, mantendo piso de madeira em bom estado. Na sala de almoço, há uma parede baixa, original, dividindo o espaço da copa (f41), contígua a uma pequena ala que leva à ala de serviços, onde se encontra a lavanderia e dois banheiros, construídos posteriormente. A cozinha volta-se para a copa, notando-se dois fogões à lenha, o principal, para a cocção da comida em geral, e o outro, próprio para cozimento de doces em tachos (f42 e f43), havendo um armário, também centenário, que faz conjunto com a mesa da sala de almoço (f44). A cozinha possui três janelas que dão para a fachada lateral direita (f45).

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descrição arquitetônica As portas e janelas da edificação apresentam vergas retas e robustos portais emoldurando-as. Na fachada frontal, no 1º pavimento, as portas são em madeira com apenas uma folha cega de abrir, assim como as janelas (f46). As janelas do 2º pavimento apresentam bandeira com apenas três quadros em madeira e vidro na parte superior e guilhotina com tela na parte de baixo (f47), além de duas folhas cegas de abrir para dentro. No pavimento térreo das fachadas laterais e posteriores, as janelas e portas são do mesmo padrão da fachada frontal. Na fachada lateral direita, observam-se, no depósito, dois vãos de janelas onde foram instaladas grades (f48). As janelas do 2º pavimento apresentam adaptações descaracterizadoras das esquadrias, com madeira e vidro formando três retângulos encimados por sobrevergas em madeira (f49). Vê-se também, na ala de serviço, janelas com somente uma folha de abrir em madeira (f50). No 2º pavimento, a porta de entrada tem apenas uma folha de madeira, sendo que em outras, como a que dá acesso à ala íntima, observamos duas folhas.

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detalhamento do estado de conservação A fachada lateral esquerda sofreu uma intervenção, inadequada e recente, entre os dois pilares de madeira do extremo esquerdo e a base em cantaria, recebendo revestimento com emboço em cimento sem o traço apropriado aplicado sobre o adobe (f51), provavelmente sem análise do material original, o que proporcionará, futuramente, a expulsão desse novo revestimento. Comportou ainda a colocação de uma nova janela, com apenas uma folha de abrir, que deturpou as características e dimensões das demais (f52). No porão, o salão tem piso em base de adobe (f53) muito mal conservado; cômodos com piso cimentado de má execução por sobre o adobe; paredes, também em adobe e com lacunas e perda de revestimento (f54); um grande tronco central com base em cantaria (f55); pé direito alto, sem forro e com o barroteamento e o tabuado em madeira aparentes (f56).

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detalhamento do estado de conservação Há poucos vestígios de infiltração, como na parede e forro de um dos quartos (f57) em que o sistema construtivo está à vista, notando-se manchas de umidade descendentes, podendo ser também um dos motivos da deterioração e lacunas existentes. Da copa, vê-se uma parede parcialmente em ruínas, mostrando seu sistema construtivo original (taipa de mão) com trama em madeira preenchida por barro cru, notando-se lacunas no preenchimento, ficando à vista a trama de madeira (f58). Esta parede é geminada com um dos banheiros (f59), provável motivo da deterioração que deve ter ocorrido ou por alguma infiltração ou apenas pela incompatibilidade de materiais usados, como a argamassa de cimento para colocação dos azulejos, que, possivelmente, impediu a parede original de “respirar”. O telhado está em bom estado de conservação. Observa-se, acima do forro, um engradamento perfeito apesar de todos esses anos. Não há as tradicionais tesouras de telhado, mas um esquema construtivo diferente (f60 à f61) sem a linha usual. Nos cantos dos beirais são visíveis alguns danos, também por umidade descendente passíveis de recuperação (f62), assim como na fachada lateral direita, onde se notam dois pontos com crostas negras, devido à degradação biológica. A capela – que possui a porta principal em madeira com arco abatido; duas janelas superiores estreitas, também em madeira com arco pleno; um frontão triangular parcialmente escalonado com um sino em um vão aberto – apresenta a pintura queimada pelo tempo, além de sujidades e manchas de degradação biológica (vide f07).

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histórico A Fazenda Ponte Alta surgiu à margem do Rio Carangola, ainda na década de 1830. Pouco antes do início do “desbravamento” dos municípios da região, em 1831. A primeira casa-sede da Fazenda Ponte Alta tinha apenas quatro janelas na fachada frontal, entremeadas por pilares de madeira, que iam do solo à cobertura e o primeiro pavimento, sob “pilotis”, de peças de braúna da região, existentes até hoje. Não era, portanto, todo vedado e era usado para o estoque de café, além da senzala, que, nessa ocasião, era menor (f63). Posteriormente, esta edificação passou a ser a Casa das Máquinas, que hoje não existe mais. A segunda casa-sede – originalmente uma fazenda de raiz, na qual seu dono e descendentes moravam enquanto a propriedade se manteve com a família que a fundou – foi construída no mesmo local, em aproximadamente três quartos da década de 1830, tendo sido aproveitada parte da estrutura existente da primeira casa-sede e eliminada a casa das máquinas desse local. Mantém-se preservada até os dias de hoje, com o mesmo acesso pela fachada lateral esquerda (foto s/d). Nessa ocasião, o primeiro andar foi todo vedado por alvenaria de adobe e já apresentava as características preservadas que vemos hoje. A casa-grande tinha uma visão geral da propriedade e a permanência do dono era constante. Seu primeiro proprietário foi Antônio Porphirio Tinoco, irmão de Francisco Antônio de Sá Tinoco, cunhado de José de Lannes Dantas Brandão, desbravador do município de Itaperuna. A fazenda possuía 583 alqueires de terra onde eram cultivados o café, o arroz, o milho, a cana e o feijão. O trabalho nas lavouras era feito pelos escravos do proprietário. A fazenda possuía senzala no porão da casa-sede, onde viviam os escravos, e também o tronco, que ainda pode ser visto hoje, onde eles eram castigados (f55). Até cerca de três anos atrás, existia na Fazenda Ponte Alta uma palmatória, que foi muito usada naquela época, o quepe do major Antônio Porfhirio Tinoco, o mapa da planta geral da Fazenda Ponte Alta, datado de 1887, e um livro de registros de compra e venda de escravos e café. O proprietário atual não tem conhecimento do destino desses bens. A vida na fazenda era dificultada pela precariedade dos acessos e pela falta de condução. O café era vendido no Rio de Janeiro e em Campos, sendo transportado por tropas.

Primeira casa da Fazenda Ponte Alta, depois Casa das Máquinas, s/a, s/d, fonte Fazendas Históricas de Itaperuna

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histórico Uma das razões da ausência de escadas em uma das portas do primeiro pavimento da fachada lateral esquerda (f31) era o embarque da produção de café. Em outra porta alta, nota-se a existência de uma escada construída posteriormente, conforme podemos notar pelos tijolos maciços usados e o piso dos degraus em cimento (f34 e f35). O piso dista 1,30 m do nível do solo do acesso à lateral da casa. Esta característica singular está preservada em uma das portas da fazenda até os dias de hoje e prende-se ao fato dos tropeiros encostarem seus animais junto a essas portas elevadas para serem mais facilmente carregados. Há alguns armazéns, originalmente para estoque de café, dentro de núcleos urbanos, com essas mesmas características, portas grandes e elevadas com relação ao nível do terreno externo e no mesmo nível do piso interno. Antônio Porphirio foi casado por três vezes e deixou diversos filhos. Com sua morte, os bens foram repartidos entre os herdeiros, tendo ficado como proprietário da Fazenda Ponte Alta o Sr. José Egídio Tinoco, o Sr “Juca”. A fazenda passou a ter 100 alqueires. José Egídio Tinoco foi casado com Maria de Oliveira Tinoco, que tinha o apelido de “sinhazinha”. Nessa época, José Egídio se dedicava também à pecuária, com o gado leiteiro e de corte. Com o falecimento de José Egídio Tinoco, no dia 18 de outubro de 1958, a fazenda foi dividida entre os herdeiros. Em 2005, a fazenda tinha 60 alqueires e o seu proprietário era o Sr. Arício Tinoco de Oliveira. A Fazenda Ponte Alta possui a maioria de suas terras no município de Itaperuna, porém parte está no município de Natividade. Há três anos, foi vendida, pela primeira vez, a pessoas estranhas à família. O Sr. Edson Vargas, que atualmente é proprietário da indústria de charque Avahy, usando para tal fim gado comprado fora, posto que o gado existente na fazenda, atualmente, é leiteiro. Há também a criação de suínos, caprinos e aves. Também é praticada a fruticultura, com muita fartura de mangas e jabuticabas. A Fazenda Ponte Alta é um exemplo raro da arquitetura do século XIX, que se mantém íntegra até hoje, apesar de mal conservada. Os materiais usados na sua construção, essencialmente da região, representam o sucesso da arquitetura voltada às necessidades do homem do campo, que preservava o conforto térmico através de suas grossas paredes em adobe, no primeiro pavimento, e do sistema construtivo conhecido por “gaiolas”, no segundo pavimento, através do seu alto pé-direito e cobertura em telhas cerâmicas, feitas artesanalmente pelos escravos. Além disso, produzia sua própria energia para subsistência, conseguindo harmonizar suas necessidades com a natureza, totalmente integrada à casa-sede.

Segunda casa da Fazenda Ponte Alta, s/a, s/d, fonte Fazendas históricas de Itaperuna

Fontes: GUIMARÃES, Porphirio. Terra da Promissão JORGE, Chequer. Fazendas históricas de Itaperuna. Itaperuna: Damadá Artes Gráficas e Editora Ltda.

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denominação

códice

Fazenda Prosperidade
localização
Paraíso do Tobias – 2º distrito

AVII-F08-Mir

município Miracema época de construção 25/03/1875 estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original criação pecuária / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Coordenador / data equipe histórico

Fazenda Prosperidade, fachada principal Marcelo Salim de Martino – jun/jul 2009 revisão Vitor Caveari Lage, Jean Rabelo Ferreira, Lia Márcia de Paula Bruno Coordenação técnica e Vera do projeto Lúcia Mota Gonçalves Marcelo Salim de Martino Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

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situação e ambiência A Fazenda Prosperidade está situada em Paraíso do Tobias, 2º distrito de Miracema, cujo acesso é feito a partir da RJ-200, que tem início num trevo localizado na RJ-116, próximo à Usina Santa Rosa. Atravessando a ponte situada logo na entrada do distrito, tem-se acesso a poucos metros, pelo lado esquerdo, à RJ-186 (estrada sem pavimentação), que liga Paraíso do Tobias ao município de São José de Ubá. A 6 km da sede distrital, está localizada a Fazenda Prosperidade. Na RJ-186, existem diversas propriedades rurais, destacando-se as fazendas Santa Inês, Mantinéa, Maravilha, Pirineus e União. A certa altura da estrada, já próxima à Fazenda Prosperidade, avista-se a pedra “Olho da Baleia” (f01), localizada na Fazenda Pirineus. Do lado esquerdo da mesma estrada, pode ser vista também uma cachoeira (f02), que pertence ao Sítio Santa Verônica, de propriedade do Sr. Renato Gripa. Ambas são importantes atrativos naturais, que muito valorizam aquela região, que possui forte apelo turístico.

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descrição arquitetônica

Segundo informações prestadas por seu atual proprietário, Plínio Bastos de Barros Neto, a casa-sede (f03) foi edificada conforme os modelos tradicionais implantados na região de São José das Três Ilhas, atualmente distrito de Belmiro Braga (MG), próxima ao Vale do Paraíba, berço de sua família. Na década de 60 do século XX, foi realizada uma reforma que descaracterizou a construção, substituindo-lhe ou retirando elementos decorativos, como as sobrevergas de estuque das janelas (f04), os cunhais que colocaram à mostra os esteios de madeira (f05), o telhado de quatro águas (f06), o acabamento da alvenaria, das portas e janelas, originalmente nas cores branco e verde colonial, respectivamente, e os basculantes de estrutura de ferro, instalados nos banheiros, solução muito difundida na região a partir da década de 1950. Nas fachadas, todos os vãos de janelas e portas são em verga reta, vedada por esquadrias de folhas cegas enrelhadas com ombreiras aparentes (f07). O telhado em quatro águas é coberto com telhas do tipo capa e canal, com requintado beiral forrado em madeira do tipo saia e camisa (f08). Arrematando a cobertura, duas peanhas de cerâmica vitrificada (f09). Interiormente, a casa-sede está passando por uma grande reforma. Foi possível verificar, por ocasião do

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descrição arquitetônica levantamento de campo, que algumas das paredes internas são de pau-a-pique (f10) e as externas de alvenaria de tijolos maciços. Todo o forro foi retirado e o piso em madeira recuperado à feição original (f11). Só um cômodo mantém forração original em taquara (f12), prática tradicional da arquitetura rural nos ambientes mais simples, também encontrada na Fazenda Liberdade, cuja propriedade pertenceu à mesma família Barros. A casa-sede, que possui planta retangular, tem fachada principal térrea (ver f03) e fachada de fundos edificada sobre porão alto e habitável (f13), aproveitando a declividade do terreno. Foi removido, também, um alpendre, construído posteriormente, existente na porta da antiga cozinha, onde

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descrição arquitetônica outrora, a proprietária preparava compotas de doces num amplo fogão a lenha. O local servia também de escola. Hoje, em seu lugar há um extenso gramado, arrematado por uma mureta de alvenaria de cimento, que coroa o muro de pedra seca que se volta para a fachada lateral esquerda da casa-sede (f14). Na fachada lateral direita, encontra-se gravado em relevo a data da construção (ou do seu término) da casa sede: 25/03/1875 (f15). A fachada dos fundos possui duas portas que dão acesso ao porão, o que também pode ser feito através das fachadas laterais (f16). Em seu interior, foi constatada a existência de um antigo forno a lenha (f17). Um novo acesso para o interior da casasede está sendo construído. Todo o madeirame desta parte da construção está sendo tratado e as peças irrecuperáveis estão sendo substituídas (f18). Esta parte da casa-sede (fachada dos fundos) é protegida por um extenso muro de arrimo em pedra (ver

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descrição arquitetônica f13), por onde, através de um túnel subterrâneo, corre a água que vem do outro lado da propriedade e que desemboca na cachoeira situada um pouco mais à frente (f19) e que forma um lindo lago, em parte submerso pela vegetação nativa (f20). Próximo à fachada lateral direita, se tem acesso a uma escada de pedra-seca (f21), que leva, acima, ao terreiro de café (f22) e, para baixo, a uma cachoeira e aos antigos tanques utilizados para a lavagem do café (f23), que dão mais beleza ao local, que possui clima agradabilíssimo e vegetação remanescente de mata atlântica (f24). Grande parte do material – peças de madeira, tijolos e telhas – que está sendo utilizado na obra, foi adquirido

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descrição arquitetônica em demolições pelo atual proprietário. O antigo terreiro de café (ver f22), muito extenso, fica localizado defronte à fachada frontal da casa-sede. Em seu entorno, estão localizados um moinho de fubá (f25), uma máquina de beneficiar café, secadeira e despolpador de grãos conjugados (f26), além de paiol de madeira utilizado para guardar milho, café e cereais de uso da fazenda (f27). Por trás do moinho, localizava-se o antigo pomar, onde podemos encontrar algumas jabuticabeiras, além de pés

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descrição arquitetônica de café que ainda frutificam (f28). O paiol, construído em madeira, é muito interessante e está em perfeito estado de conservação. Possui telhado de quatro águas coberto com telhas do tipo capa e canal com beiral forrado e decorado com mãos francesas simples (f29). Esta construção lembra muito as edificações encontradas no sul do país. O galpão possui estrutura de madeira, sendo aberto nas laterais e recoberto de telhas capa e canal. É utilizado para guardar material de uso da fazenda. Ainda no terreiro, estão localizadas caixas e depósitos d’água (f30), além de uma edícula com cobertura em duas águas, atualmente utilizada como depósito de materiais e peças de antigas máquinas da fazenda (f31). O armazém e a casa do colono (f32) ficam localizadas num plano mais baixo que aquele onde estão a casasede, o terreiro, o moinho e o paiol. Esta é a primeira construção com a qual nos deparamos quando entramos na estrada da fazenda (f33). Possui cobertura de duas águas, um grande salão onde ficava instalado o armazém (f34), três quartos (f35), cozinha (f36), banheiros e área externa sendo atualmente utilizada como residência enquanto a obra da casa-sede não é concluída. Destacase o beiral forrado de taquara, que confere peculiaridade à construção (f37). Em seu interior, encontram-se preciosidades como móveis e objetos de uso pessoal dos proprietários, a exemplo

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descrição arquitetônica de um lindo jogo de toalete composto de jarro, bacia, porta-escovas, saboneteira e urinol com tampa em louça inglesa do início do século XX (f38). A tulha é uma construção que fica localizada na área mais baixa da fazenda, na parte dos fundos da casa-sede. Possui telhado em quatro águas, coberto com telhas do tipo capa e canal, e beiral forrado com trançado de taquara. Esta edificação constitui um único cômodo que atualmente é utilizado para guarda de material (f39). Na chegada da estrada que dá acesso ao platô onde estão localizadas a casa-sede, o terreiro de café, o paiol, o moinho e uma extensa área gramada, encontram-se as ruínas de uma antiga construção, provavelmente o alicerce da nova casa-sede, inacabada e abandonada, como na vizinha Fazenda Santa Inês, em decorrência da abolição da escravatura (f40). Trata-se de uma edificação em pedra com arcos plenos e óculos de tijolos maciços, que, atualmente, é o mais importante atrativo arquitetônico do conjunto formado pela Fazenda Prosperidade (f41).

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detalhamento do estado de conservação A casa-sede está passando por uma grande obra de reforma, com adaptações compatíveis às necessidades atuais dos proprietários, buscando a reconstituição parcial de como teria sido na época de sua construção (f42 e f43). Novas escadarias de acesso estão sendo construídas nas fachadas principal, lateral direita, lateral esquerda e de fundos (f44). A divisão interna ainda não está muito definida, pois muitas paredes estão sendo remanejadas e outras construídas. Externamente, ombreiras, peitoris e portais de janelas e portas foram recuperados e/ou substituídos. Novas portas e janelas estão sendo confeccionadas para substituírem aquelas que se encontram deterioradas ou atingidas por xilófagos do tipo cupins de solo. Peças do assoalho do tipo “paralelo” também estão sendo repostas (f45), e está sendo realizada uma reforma geral das instalações elétricas e hidráulicas. O antigo terreiro de café, que se tornou um grande depósito de material de construção a céu aberto, necessita de recuperação em algumas partes (f46).

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detalhamento do estado de conservação O moinho também está em boas condições de conservação, necessitando, porém, de pequenos reparos (f47). O paiol, que aparenta estar em perfeito estado, merece atenção especial por ser uma edificação de madeira, fato este que pode atrair insetos do tipo xilófago e comprometer toda sua estrutura rapidamente (f48). O armazém / casa do colono foi recuperado recentemente, para funcionar provisoriamente como residência, até que as obras da casa-sede estejam totalmente concluídas (f49). Toda sua forração e assoalho foram recuperados nos padrões originais, bem como refeitas as instalações elétricas e hidráulicas (f50 e f51). A tulha, da mesma forma que o armazém e a casa do colono, foi reformada. A alvenaria foi pintada de branco, o madeirame da estrutura e as ombreiras, peitoris e portais das janelas e portas em azul colonial e as portas e janelas em ocre. O interior não apresenta revestimento no piso, permanecendo o chão em terra batida (f52 e f53).

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detalhamento do estado de conservação As ruínas necessitam de algumas intervenções, a fim de que sejam consolidadas para que sobrevivam por tempo maior (f54). Partes das paredes de pedra foram desfeitas e, algumas árvores (paineiras) que nasceram em seu interior podem estar comprometendo sua integridade e estabilidade (f55). Segundo o proprietário, esta será a próxima etapa das obras de recuperação a serem realizadas, tão logo terminem as obras da casa-sede. Alguns preenchimentos foram feitos no passado com tijolos maciços (f56). A área interna é forrada por um gramado que valoriza o espaço (f57). É importante destacar que toda a reconstituição está sendo executada pelo mestre miracemense, Sr. José Geraldo de Souza Ribeiro, morador de Paraíso do Tobias, segundo distrito de Miracema, onde é conhecido por todos como “Zé do Rádio”.

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FAZENDA PROSPERIDADE

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histórico Segundo Roberto Simonsen, em sua obra Aspectos da história econômica do café, a grande expansão cafeeira se firmou definitivamente no Brasil, quando atingiu, no território fluminense, as zonas “dos desertos das montanhas, vastos tratos de terra cobertos de matas e habitados pelos índios Puris, Sucurus e Coroados, daí repelidos ou exterminados pelos cafeicultores. Com o entusiasmo decorrente do rápido enriquecimento de muitos dos agricultores de café, novas e grandes plantações se fizeram, espraiando-se celeremente pela província. Abandonavam-se as fazendas de antigas culturas e as terras já lavradas, dando-se preferências às zonas florestais, que a prática ia indicando como as mais produtivas.” Ainda segundo o autor, o Vale do Paraíba foi a região do estado em que se verificaram os melhores resultados e “daí a extensão da cultura pelas suas margens, galgando as numerosas serras que o circundam e os seus vários afluentes. Pela margem esquerda do grande rio, as plantações invadiram a zona da Mata, em Minas Gerais, atingindo para logo as antigas regiões já transitadas pelos primitivos mineradores, onde se localizavam núcleos de populações, vilas e aldeias fundados ou mantidos pelos seus descendentes.” Foi por esse motivo, pela proximidade com o estado de Minas Gerais e pela quantidade de terras férteis e devolutas, habitadas pelos Puris, que fizeram com que Miracema, primitiva Santo Antônio dos Brotos, fosse fundada entre 1840 e 1842, formando grandes fazendas produtoras de café. A Fazenda Prosperidade foi fundada, em 1875, pelo coronel Apolinário de Barros, recebida por doação de seu pai, Francisco Bernardino de Barros, que a desmembrou da Fazenda Santa Inês, como escreveu Heitor de Bustamante em sua obra Sertões dos Puris, página 60: “Há cerca de um século, o mineiro José Ferreira Brandão comprou pela importante quantia de sete contos de réis uma sorte de terras que, começando na Fazenda das ”Três Quedas do Bonito”, naquela época de Sebastião Gomes Teixeira Jales, ia terminar na divisa de outra freguesia, no lugar que depois se chamou São Felipe, compreendendo todo o vale superior ao Ribeirão Bonito. “Mais tarde cedeu aos três sobrinhos as glebas em que eles formaram as fazendas: São Luis, de Custódio Bernardino de Barros, hoje correspondente às fazendas de propriedade de Joel Azevedo, de Maria Niméa Salvador Bravo e filho e de Norton e Ângela Amim Lopes; Paraíso, de Plácido Antônio de Barros, onde atualmente acha-se implantada a sede do distrito de Paraíso do Tobias e de muitos sítios; e Santa Inês, de Francisco Bernardino de Barros, que a desmembrou em diversas áreas, por doações que fez aos filhos que formaram outras fazendas, a saber: Antônio Apolinário de Magalhães Barros, a da Prosperidade e José Joaquim de Magalhães Barros, a de Santa Verônica; os genros Afonso Ernesto de Barros a de Boa Vista ou Califórnia, que mais tarde recebeu o nome de Pirineus, Ildefonso Monteiro de Barros a da Mantinéia; Dr. Anastácio Rodrigues Coimbra, a da Mata; José Anastácio Coimbra a de São Thiago; José de Assis Alves, a da União; Antônio Miguel Coimbra, a de Santa Ana e Francisco de Assis Alves, a de São Felipe. E, por último, a Santa Inês, de Francisco Bernardino de Barros, que depois foi passada para o seu sobrinho Antônio Bernardino Monteiro de Barros. Em seguida, pertenceu ao capitão José de Assis Alves, que, em 1892, teve uma execução por dívida hipotecária, promovida pelo Banco do Brasil, da qual resultou a penhora da Fazenda Santa Inês, com todas as suas benfeitorias, o que a levou à primeira praça, em 19 de novembro do mesmo ano, pela avaliação de 124:336$000. Foi adquirido por Joaquim Rodrigues Leite, que parece tê-la arrematado em praça pública e transferido a José Ventura Lopes, pai do capitão Antônio Ventura Coimbra Lopes.” Ainda no final do século XIX, a Fazenda Prosperidade foi adquirida pelo coronel Joaquim Bernardino de Barros, mais conhecido por “Quinca Josino” (f58), filho do coronel Josino Antonio de Barros, proprietário da Fazenda Liberdade.

Família do coronel Joaquim Bernardino de Barros, s.d, s.a., acervo do proprietário

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histórico Conforme depoimento do proprietário, Sr. Plínio Bastos de Barros Neto, “... os Barros de Miracema (RJ) descendem de José de Barros Monteiro, que com apenas 13 anos de idade chegou ao Brasil, vindo de Portugal em meados do século XVIII. Desembarcou no cais dos Mineiros, trabalhou inicialmente para um negociante da Praça do Peixe, mas logo seguiu para o interior de Minas Gerais, acompanhando o capataz de uma tropa de fazenda da tradicional família Leite, fazenda na qual se fixou e mais tarde se casou com Mariana Leite de Barros, filha de seu proprietário. O casal se estabeleceu então com uma fazenda de criação denominada “Fazenda Safira”, no rio Turvo, não longe da atual cidade de Andrelândia (MG), e se destinava a abastecer os centros populacionais da zona de mineração aurífera.” O filho do casal, Antônio Bernardino de Barros, no final do século XVIII e início do século XIX, com o declínio da exploração do ouro e o surgimento das lavouras cafeeiras, comprou as duas “sesmarias das Três Ilhas” do guarda-mor João Francisco de Souza, colocou seu irmão Gabriel José de Barros na dos fundos, à qual deu o nome de São Miguel, estabelecendo-se na “Fazenda das Três Ilhas”, dedicando-se às lavouras de cana-deaçúcar e café. Antônio Bernardino de Barros teve os seguintes filhos varões: Francisco Bernardino de Barros, José Bernardino de Barros, Gabriel Antônio de Barros, Plácido Antônio de Barros, Custódio Bernardino de Barros e Josino Antônio de Barros. Gabriel José de Barros teve os seguintes filhos varões: José de Barros Monteiro, José Chrysóstomo de Barros, Idelfonso Monteiro de Barros, Antônio Gabriel Monteiro de Barros e Francisco Justino de Barros. Os filhos e netos das famílias formadas pelos irmãos Antônio e Gabriel, tendiam a não se casar com forasteiros, casando-se preferencialmente os primos com suas primas, segundo os costumes das tribos de Israel, dos quais seguiam certos preceitos. Com isso, quase todos em São José do Rio Preto, em meados do século XIX, tratavam-se por primos. Como na velha Sião, assim afirmava sempre, à época, Francisco Bernardino de Barros. Foi Antônio Bernardino de Barros, o fundador, em suas terras, da antiga freguesia de São José do Rio Preto (MG), hoje São José das Três Ilhas, distrito do município de Belmiro Braga (MG). Seus filhos também se estabeleceram na região com grandes fazendas de café, entretanto, em meados do século XIX, três deles, do primeiro casamento com Fausta Ribeiro Moura de Barros, seguiram para uma sesmaria herdada do pai no noroeste fluminense, localizada mais precisamente na região na qual hoje se localiza “Paraíso do Tobias”, distrito do município de Miracema (RJ), onde Francisco Bernardino de Barros, casado com Ana Josefa de Magalhães Barros, fundou a Fazenda Santa Inês, Custódio Bernardino de Barros, casado com Rita Alvim de Barros, fundou a Fazenda São Luiz e Plácido Antônio de Barros, casado com Maria Cândida de Barros, fundou a Fazenda Paraíso, cujo nome, associado ao de seu genro Tobias Joaquim Rodrigues, casado com sua única filha, Maria Joana de Barros Rodrigues, dá o nome ao distrito acima mencionado, Paraíso do Tobias. Permaneceram, entretanto, na região das Três Ilhas, com suas grandes fazendas de café, seus filhos José Bernardino de Barros, “barão das Três Ilhas” e Gabriel Antônio de Barros “barão de São José Del Rey”, que cuidaram, principalmente o segundo, da educação do irmão mais novo, Josino Antônio de Barros, filho do casamento do pai em segundas núpcias com Silvana do Vale Barros. Tendo Josino Antônio de Barros (f59), por orientação e com o acompanhamento de seus dois irmãos mais velhos, completado seus estudos no Colégio do Caraça (MG), veio este visitar seus outros três irmãos estabelecidos em Miracema, onde acabou por se casar com Amélia Padilha de Barros e fundou a famosa Fazenda Liberdade. A Fazenda Prosperidade, como as demais da região, produzia café. Nessa época, chegou a contar com 90 famílias de meeiros.

Josino Antônio de Barros, s.d, s.a., acervo do proprietário

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histórico Foi uma das poucas a produzir o café e despolpá-lo na própria fazenda, que se constituía numa inovação para a época. Para isso, contava com o acompanhamento e assistência do Instituto Brasileiro de Café – IBC, que disponibilizou uma equipe de engenheiros agrônomos que chegaram a residir na fazenda. Com o fim do ciclo do café, a fazenda dedicou-se à produção de arroz, milho e feijão, assim como leite e gado de corte, e isto já na época de Plínio Bastos de Barros, que, além de fazendeiro, foi também político, chegando a ser eleito prefeito de Miracema no período de 31/01/1951 a 30/01/1955, onde construiu, dentre outras obras importantes, o Estádio Municipal, que posteriormente recebeu o seu nome. Segundo o testemunho do Sr. Mário Baiano, nascido há setenta e nove anos na fazenda, onde ainda reside, o Sr. Plínio, na época em que foi prefeito, saía da fazenda para Miracema às seis horas da manhã e só retornava por volta das 23 horas. Contou-nos que houve, em 1951, uma grande festa em honra de São José, numa parte da fazenda conhecida por Ventania, para comemorar a posse do patrão eleito prefeito do município. Disse que, até a década de 1960 a fazenda possuía 82 casas, campo de futebol, venda que abastecia toda a região, escola que funcionava numa barraca coberta de telhas, junto a uma das portas de acesso à casa-sede e Folia de Reis, do Antônio Augusto. Atualmente, as principais atividades econômicas da fazenda são: a criação de gado Gir Leiteiro, PO, Girolando, produção de leite e cana-de-açúcar, destinada à ração para o gado. Das fazendas fundadas pela tradicional Família Barros em Miracema, restam apenas duas: a Liberdade, de propriedade de Paulo Lima Barros, e a Prosperidade, de Plínio Bastos de Barros Neto, que pertence à quinta geração da família.

Fontes: BUSTAMANTE, Heitor. Sertões dos Puris, Casa do Homem de Amanhã, 1971. SIMONSEN, Roberto. Aspectos da história econômica do café, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1942.

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denominação

códice

Fazenda Santa Cruz
localização Estrada do Barreiro, s/nº município Miracema época de construção século XIX estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original pecuária leiteira / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

AVII-F07-Mir

oordenador / data equipe

Fazenda Santa Cruz, fachada principal Marcelo Salim de Martino / mar-abr 2009 Vitor Caveari Lage (levantamento de campo / digitação), Jean Rabelo revisão Ferreira (Auto Cad), Lia Márcia de Paula Bruno, Pedro Paulo Barros, Coordenação técnica Vera Lúcia Mota Gonçalves do projeto Marcelo Salim de Martino Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

histórico 286

situação e ambiência imagens geradas pelo Google Pro 2009

Esclarecimento: em razão da localização da fazenda apresentar-se encoberta, foi gerada somente a imagem geral da região (situação). Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 287

situação e ambiência A Fazenda Santa Cruz está localizada na Serra da Ventania (f01). O acesso pode ser feito através de três entradas que partem da RJ-116. O primeiro está situado próximo ao Mulambo’s Bar, o segundo no km 8, próximo à Fazenda Cachoeira e o terceiro próximo à divisa com o município de Laje do Muriaé (entrada para a Fazenda Tirol). Há, ainda, um quarto acesso que parte de um entroncamento com a RJ-200, que liga Miracema (RJ) a Palma (MG) – entrada para a Fazenda Boa Vista. O conjunto, constituído de casa-sede (f02), antiga venda e casa de colono (f03), senzala e tulha (f04), terreiro de café (f05) e curral (f06), está localizado num platô encravado no meio de um vale.

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situação e ambiência Às margens da estrada que leva à casa-sede, está localizado um grande açude (f07), que abastece a fazenda e que, outrora, movimentava a roda d’água, ainda existente, através de uma banqueta de alvenaria (f08 e f09).

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descrição arquitetônica A casa-sede da Fazenda Santa Cruz, construída na segunda metade do século XIX, de planta retangular, mantém em sua fachada principal um alpendre, através do qual chega-se à porta de entrada (f10). O alpendre, um dos elementos que caracteriza o estilo romântico da edificação, é formado por três arcos plenos vedados acima das vergas por treliças em madeira. O beiral encachorrado é forrado com madeira e embeleza muito a edificação (f11), que possui ainda, jardim protegido por muro de alvenaria, cujo acesso é feito através de um pequeno portão de ferro forjado (f12). O telhado, com quatro águas e de interessante resolução arquitetônica em estilo chalé, foi refeito recentemente. As telhas originais que deveriam ser do modelo capa e canal foram substituídas por telhas de cerâmica do tipo paulista (f13).

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descrição arquitetônica As janelas da fachada principal e das laterais possuem vergas e sobrevergas retas, sendo vedadas por esquadrias de duas folhas de venezianas de madeira (f14). Internamente, deveriam manter esquadrias de duas folhas lisas ou em caixilhos de vidro, provavelmente, retiradas em alguma das reformas executadas pelos proprietários. As portas internas, em duas folhas, são almofadadas com bandeiras de vidro (f15). As três salas e os três quartos possuem um rodapé alto, que funciona também como elemento decorativo e funcional, protegendo as paredes dos esfregões do passado (f16). O forro da saleta de entrada é especial dentro da construção. É de madeira, formando raios que se estreitam na parte central e alargam-se nas extremidades, concentrando-se no ponto focal de luz, que é terminado por uma manga simples em vidro. Arremata este forro uma cimalha de madeira que circunda toda a sala (f17). Os demais cômodos também são forrados em madeira, porém, no tradicional forro saia e camisa (f18). O assoalho, também de madeira, é do tipo trespassado (f19). A cozinha apresenta piso cimentado queimado e o banheiro, piso cerâmico recente (f20 e f21). Na cozinha, há uma pequena escada em caracol (f22), por onde se acessa o sótão que é habitável e possui assoalho de madeira em quase toda extensão (f23).

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descrição arquitetônica Destacam-se as seis pequenas janelas de venezianas em formato de ogivas (f24) para sua ventilação, a escada de madeira que complementa a escada em caracol (f25) e o grande trinco de madeira da porta dobrável que fecha o sótão (f26). O porão, que também é habitável, possui acesso pela fachada lateral esquerda (f27). O bloco da senzala / tulha é uma construção de planta retangular (f28), separada da casa-sede por uma área de terra sem pavimentação (f29). O acesso à porta principal é feito por uma pequena escada de pedra. Nessa parte da propriedade, também há um muro de pedra que faz a contenção do terreno (f30). Possui telhado de quatro águas, coberto com telhas de cerâmica do tipo capa e canal até o beiral (f31) e suas portas e janelas são de duas folhas maciças enrelhadas (f32 e f33). Seu interior possui um cômodo central, circundado por um largo corredor, originalmente protegido com meia parede, posteriormente complementada com telhas de amianto em toda sua extensão (f34). No porão, deveriam funcionar os moinhos da fazenda, uma vez que lá estão localizadas partes das engrenagens que movimentavam a roda d’água (f35).

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descrição arquitetônica A fachada lateral esquerda da tulha possui uma porta, que dá para o antigo terreiro de café. Segundo informações da família dos proprietários, no cômodo para o qual a porta se abre, funcionava a primitiva venda da fazenda (ver f31). O terreiro é todo contornado por mureta abaulada, coberta de massa (f36). A entrada é ladeada por dois blocos de pedra esculpidos, que dão idéia de terem sido as bases de antigas colunas (f37) e aparentam ser, juntamente com um terceiro bloco isolado de pedra trabalhada (f38), próximo ao curral, elementos decorativos desta área de secagem de grãos. Ao lado da casa-sede está localizada uma construção, também de planta retangular, na qual, nas três primeiras portas, funcionou a segunda venda da fazenda (f39), que preserva seus equipamentos, como o balcão, o baú para depósito de cereais e a balança de ferro fundido com pratos de cobre, que merece destaque (f40 e f41). Logo em seguida está a casa do colono, ambas do século XIX. A balança de pesar gado fica próxima à casa-sede e foi construída sobre um resistente muro de pedra que faz a contenção do terreno – e que confere mais beleza ao conjunto (f42).

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detalhamento do estado de conservação Aparentemente, o estado de conservação da casa-sede é razoável, mas requer cuidados. Com a substituição da cobertura por telhas novas, não há sinais de goteiras. Em apenas um dos cômodos foi verificado sinal de infiltração, provocado, provavelmente, por telhas quebradas (f43). Foi observado, também, o deslocamento do emboço (interna e externamente), em virtude da umidade em conjunto à aplicação de argamassa de cimento em paredes de pau-a-pique (f44 e f45). No porão, a situação é um pouco mais grave, uma vez que dois dos esteios que sustentam os baldrames foram removidos, em virtude de terem apodrecido e, em seu lugar, foram instaladas escoras provisórias de eucalipto. Além disso, há forte presença de umidade nas paredes, proveniente do terreno (f46 e f47). Foi verificada também a existência de ataque por xilófagos da espécie cupim de solo, que provocaram a deterioração de parte de alguns barrotes. A infestação é mais percebida no porão, no sótão e no assoalho. Entretanto, assim mesmo, não se apresenta de forma generalizada. Na área externa, parte do emboço das fachadas laterais está se desprendendo, proporcionando a exposição das paredes de pau-a-pique (f48). No prédio onde funcionaram as antigas senzala e tulha, além da primitiva venda, a situação é um pouco mais grave, pois parte do madeirame do telhado, porão e assoalho está bastante deteriorada, como resultado da ação de cupins (f49). Contudo, as cumeeiras, tesouras e terças aparentam estar em bom estado (f50). Foram notadas, também, algumas goteiras provocadas por telhas quebradas. Portas e janelas encontram-se conservadas. A venda e a casa de colono estão em bom estado de conservação, tendo sido observada a execução de obra recente de manutenção do telhado (f51).

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histórico Não foi possível identificar quem foram os pioneiros da Fazenda Santa Cruz (f52). Entretanto, sabe-se que, no segundo quartel do século XIX, foi adquirida pelos irmãos Léon, Louis e Vicente Perissé, acompanhados da irmã caçula Adelaide. A família – franceses de Lucq-de-Béarn, nos Baixos Pirineus –, segundo Ausônia Perlingeiro Garnero em seu livro A volta do emigrante italiano muitos anos depois, ainda mantém lá, até hoje, a casa ancestral para hospedar os descendentes dos que imigraram para o Brasil, quando visitam a Europa. Adelaide trabalhava para os irmãos e administrava a casa-sede da fazenda. Quando se casou com o português José Alves Rodrigues, os irmãos deram como dote a Fazenda da Lagoa.

f52: Fazenda Santa Cruz, s.a., s.d., acervo do proprietário

Ainda segundo Ausônia, a casa dos irmãos Perissé ficava numa colina de onde se apreciava as lavouras de café e a estrada pela qual vinham os visitantes. “Da varanda podia-se ver o pátio, o terreiro, o armazém, a padaria, o moinho e a comprida senzala. Os músicos da banda que animava a festa, os padeiros e o moleiro tinham o privilégio de morar em pequenas casas com suas famílias e não na humilhante senzala. Santa Cruz parecia uma pequena aldeia movimentada pelos fregueses, que vinham comprar na venda ou na farmácia, ou trocar milho por fubá no romântico moinho à margem do riacho.” Adelaide era avó de Ausônia. Sua mãe, Adelina, lhe contava sobre a Fazenda Santa Cruz, sobretudo, das festas de São João que lá eram realizadas anualmente. Os dias que antecediam a festa eram de grande movimentação, sobretudo de negros que limpavam o terreiro para as danças do caxambu – também conhecida por jongo. Essa é uma dança de roda, de origem africana, em cujo centro há uma pessoa que puxa o canto e comanda a dança e a batida dos atabaques que possuem nomes específicos como o “tambu” e o “caxambu”, além da “cuíca” que, com seu “roncado”, caracteriza a diferença entre as batidas utilizadas em cerimônias religiosas, popularmente conhecidas por macumba –, e outros que preparavam a fogueira, montavam barracas etc. As festas duravam dois ou três dias, porque os convidados vinham de longe e, como a fazenda ficava localizada numa área de difícil acesso, muito alta, não podiam voltar no mesmo dia para suas casas. Ausônia, através de sua obra, nos dá uma idéia muito nítida, rica em detalhes, de como eram essas festas: “Nessa ocasião, os negros recebiam um tratamento melhor: a ração era mais farta. De manhã recebiam o alimento, depois iam para o eito trabalhar sem parar até a hora do almoço e depois voltavam para o trabalho. Ninguém se interessava em saber se estavam bem. Os patrões, com a consciência entorpecida pelo egoísmo, acreditavam que preto não adoece nunca, nem tem dor de dente ou de cabeça. Se não queria trabalhar era preguiça, precisava ser castigado. Essa era a mentalidade normal, mas existiam patrões cruéis que puniam

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histórico que ninguém sabia com certeza se eram verdadeiras. Começavam a chegar os convidados, a cavalo, em carro de bois ou carroças, não tão cômodas como as dos fazendeiros do sul do Estado do Rio, importadas da Europa e utilizadas para frequentar a corte imperial. Os homens trajavam casaca ou smoking e as senhoras usavam vestidos longos, sobre anquinhas e diversas saias brancas engomadas; trajes a rigor, adquiridos nas melhores lojas do Rio de Janeiro, trazidas por negociantes. Mas aquela elegância européia não condizia com o clima tropical nem com os meios de transporte locais, cavalos e carros de boi. Porque era chique e também para amenizar o calor, as senhoras traziam lindos leques, para usar no intervalo das danças. Os fazendeiros iam até ao pé da escada receber os convidados e os acompanhavam até dentro da casa, onde as mucamas atendiam às senhoras que desejavam trocar de roupas e tomar banho. Outros domésticos, todos negros, serviam bebidas e ajudavam a organizar o banquete. A orquestra tocava valsa, mazurca, polca, marcha, quadrilha marcada num francês com forte sotaque português: “Allan van tour, changer des dames...” Um pouco à parte, um grupo de homens discutia negócios, comércio, política... Grupos se formavam junto as barraquinhas, comendo os doces típicos, pé-de-moleque, cocada, feitos pelas escravas. Depois dos fogos de artifício que as senhoras e os senhores admiravam das varandas, restavam as brasas das fogueiras, onde assavam batatas doces para serem distribuídas a todos”. Terminada a festa na manhã do dia seguinte, os que moravam na região iam para suas casas e os mais distantes iam descansar, para se prepararem para a volta. Ausônia ainda relata em suas memórias que, quando eclodiu a abolição da escravatura, na Fazenda Santa Cruz os Perissé “... reuniram os escravos, a banda de música tocou o Hino da Independência e em seguida deram a notícia: “A Princesa Isabel assinou a lei, declarando livres todos os escravos. Foi abolida a escravidão”. O anúncio foi recebido com euforia, todos cantavam e dançavam. Ninguém quis dormir na senzala, que era o símbolo do sofrimento e da humilhação: eram livres agora. Na manhã seguinte, o terreiro estava vazio e nos terrenos próximos e nas colinas havia um movimento desusado, homens e mulheres com ferramentas nas costas. Eram os negros livres carregando madeira, água para misturar barro, tudo que encontravam, para construir suas cabanas, suas casas, onde reuniram a família”. Eram comuns também na Santa Cruz, os encontros de Folias de Reis, onde segundo Amilcar Rodrigues Perlingeiro em Lavradores do Brasil – história do João, todos os anos havia um desafio entre as folias de Domingos Meira Leão e a do Foguinho, que era bem concorrido, atraindo gente de todo lado. Mais adiante, antes de falar sobre o evento, fez uma descrição da fazenda: “Quando chegaram a Santa Cruz, já havia muita gente na fazenda, mas as folias ainda não haviam chegado. Santa Cruz era uma propriedade que tinha muitos donos, mas todos de uma só família, os Perissés, todos moravam reunidos em casas próximas umas das outras. Além das casas de morada, havia a casa da venda do seu Manoel Duarte, casado com uma da família, uma casa da máquina de beneficiamento de café, que era movimentada por uma grande roda hidráulica e casas de empregados. Era um pequeno arraial.” Outro registro importante que merece destaque é o fato de terem saído da Fazenda Santa Cruz para colecionadores franceses e de institutos de pesquisa da Europa exemplares de nossa flora e fauna, que segundo Melchíades Cardoso, em sua lenda intitulada “De bicudos que não são bicudos se faz a história”, “... exemplares de borboletas e orquídeas que abundavam nestas paragens, incomparáveis por suas belezas caprichosas, as peles, os bichos embalsamados, os cipós raros, plantas exóticas etc., tudo foi daqui retirado e enviado para a França, por intermédio de cidadãos franceses aqui residentes todos para aqui atraídos pela família Perissé, notável gente gaulesa que deixou, além da lembrança e numerosa e querida descendência, os princípios altos da civilização requintada do inigualável povo francês.” Dessas coleções de lepidópteros (borboletas) (f53 e f54), três ficaram na Fazenda Santa Cruz, que posteriormente foi vendida ao Sr. Lourenço Pinto Alves. Na partilha dos bens, os três quadros restantes com as coleções de borboletas da Santa Cruz foram entregues às suas filhas que os conservam até hoje e que já devem ultrapassar cento e cinqüenta anos. Depois da família Perissé, a Fazenda Santa Cruz, que possuía 210 alqueires de terras, foi vendida para os senhores Lourenço Pinto Alves, que ficou com a casa-sede e grande parte das benfeitorias, com uma área de 105 alqueires de terras e ao Sr. Luiz Mury, também com 105 alqueires de terras. A Sra. Maria de Lourdes Alves Anníbal, filha do Sr. Lourenço e casada com o professor Darcy Anníbal, informou que ela e todos os irmãos nasceram na Santa Cruz e que só eram registrados dois ou três meses depois, quando o pai vinha a Miracema, já que a distância era grande e os únicos meios de transporte eram o cavalo e as carroças, e a estrada, que era de difícil acesso, fazia com que a viagem levasse cerca de três horas para a ida e mais três horas para a volta. Quando os negócios tinham que ser resolvidos em São Fidélis – município ao qual Santo Antônio de Pádua esteve ligado até 1883 –, ou precisavam de documentos arquivados nos cartórios de lá, a viagem era ainda pior e durava dois dias. Todo o café era transportado em lombo de burros. A tropa era do Sr. Nino Machado, irmão de D. Noêmia, esposa do Sr. Lourenço. Amílcar R. Perlingeiro fez o seguinte relato em sua obra aqui já mencionada: “... Nino Machado, o tropeiro, dava pancadas na cangalha, gritando... Depois do café, Nino carregava a tropa com o auxílio do ajudante e

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histórico de João, colocando dois sacos em cada burro. Terminado o carregamento, seguia a tropa morro abaixo aos gritos do tropeiro. O café era deixado na máquina de beneficiamento e, depois de preparado, a mesma tropa o levava para o embarque na estação da estrada de ferro. A viagem da tropa repetia-se durante o ano até terminar o transporte de toda a safra”.

f53: Coleções de lepidópteros (borboletas) da Fazenda Santa Cruz, s.a., s.d., acervo do proprietário.

f54: Coleções de lepidópteros (borboletas) da Fazenda Santa Cruz, s.a., s.d., acervo do proprietário.

José Erasmo Tostes, em seu livro Tipos e fatos inesquecíveis, também registra e descreve o trabalho do tropeiro Nino Machado: “Chovia torrencialmente na Serra da Ventania, os burros e mulas desciam pela estrada escorregadia. Nino Machado vinha montado num burro chamado Rosado, comandando os dois lotes de animais carregados de café, que era colocado em bolsas de couro penduradas nas cangalhas. A madrinha da tropa, a mula Esperança, vinha guiando-a com a batida de doze cincerros pendurados no pescoço, que no silêncio da serra ouvia-se à grande distância. O café, aqui chegando, era entregue ao comprador que pagasse melhor preço, ou ia direto para o DNC – Departamento Nacional do Café, onde era ensacado, pesado e transportado por meio de escadas formando pilhas enormes. No DNC viam-se vários homens trabalhando na lavagem do café, que corria em calhas feitas no terreiro e a água escoava através de um ralo feito de chapa de ferro. Na secagem, o café era esparramado no terreirão com grandes rodos de madeira. Após essa preparação, o café ia para a estação da Leopoldina por meio de carroças e carroções e aí embarcado nos vagões do trem. O café trouxe riqueza para Miracema, para os fazendeiros e para os comerciantes e fez com que se construísse muitos prédios em nossa cidade. Depois veio a derrocada, levando vários deles à falência. O presidente Getúlio Vargas mandou que em todos os DNC’s se fizesse a queima do café e guardas armados tomavam conta para que se cumprisse a ordem dada. Na volta para a Fazenda Santa Cruz, na Serra da Ventania, a tropa do Nino Machado ia carregada com mercadorias para abastecer a venda: sal grosso, fumo de rolo, querosene etc.” Ainda contou-nos o professor Darcy Anníbal e sua esposa, Maria de Lourdes, que seu pai dizia que o porão da casa-sede era utilizado pelos franceses como adega e que, quando o Sr. Lourenço adquiriu a fazenda, ainda encontrou muitas garrafas de vinho, móveis, os quadros com as coleções de borboletas, uma tela retratando um senhor, que atribuem ser o pai dos franceses, antigos proprietários da fazenda, muitos livros, fotografias, papéis antigos e objetos diversos. Disseram ainda que, no entrocamento das estradas, havia uma pedra com formato estranho, que para alguns parecia uma cabeça humana e para outros uma cabeça de lagartixa. O fato é que esta pedra, posteriormente removida para o local onde hoje se encontra, instalada a balança de pesagem de gado bovino, era o tronco da fazenda onde os escravos eram amarrados e castigados. Que na fazenda havia uma capela dedicada a São Sebastião, posteriormente demolida, e uma grandiosa festa era realizada, anualmente em sua devoção, com missa, leilão, baile, etc. Uma vez por ano também havia primeira comunhão dos alunos da escola. A fazenda possuía uma escola e a professora era D. Maria do Carmo, a irmã mais velha dos “Pinto Alves” que, mais tarde, por influência da mãe, D. Noêmia Machado Alves, estudou e deu aulas de piano. Anos depois, fundou o Conservatório de Música que, mesmo após o seu falecimento, continua em atividade em Miracema.

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histórico Consta que, no ribeirão (f55) que banha a propriedade, era retirado ouro com aluvião e jóias chegaram a ser confeccionadas, algumas das quais ainda permanecem em poder da família. Contou-nos ainda que a estrada que liga a Santa Cruz a Fazenda Ventania foi feita na enxada, na época em que Altivo Linhares era prefeito de Miracema. Grande parte das terras que formavam a Santa Cruz ainda permanece em poder da família. O Sr. Carlos Pinto Alves e sua esposa, D. Clarita Mendonça Alves, adquiriram algumas partes dos demais herdeiros. Atualmente, a fazenda, que produz gado leiteiro, é administrada por sua filha Alice Maria Mendonça Alves Daher e seu esposo, Dr. Chaquip Daher Júnior

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Fontes GARNERO, Ausônia Perlingeiro. A volta do imigrante Italiano muitos anos depois. Niterói - RJ: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2000. TOSTES, José Erasmo. Tipos e fatos inesquecíveis. Miracema – RJ: Gráfica Hoffman, 2008. PERLINGEIRO, Amilcar Rodrigues. Lavradores do Brasil – história do João . Rio de Janeiro: Artenova, 1975.

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denominação

códice

Fazenda Santa Inês
localização

AVII - F03 - Mir

Km2 da RJ - 186, que liga o distrito de Paraíso do Tobias, em Miracema, ao município de São José de Ubá - RJ

município Miracema época de construção casa-sede (1937/1939) – engenho (1870) estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original pecuária mista / fazenda de café, produção de álcool, cachaça,açúcar, algodão e arroz proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Fazenda Santa Inês, fachada principal do antigo engenho.

rdenador / data equipe histórico

Marcelo Salim de Martino – mar/abr 2009 Vitor Caveari Lage e Jean Rabelo Ferreira Marcelo Salim de Martino, Roberto Monteiro Ribeiro Coimbra Lopes

revisão Coordenação técnica do projeto

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situação e ambiência Na RJ-116, que liga Itaboraí a Itaperuna, passando por Miracema, está localizado o trevo pelo qual se acessa a RJ-200, que liga a sede do município de Miracema a Paraíso do Tobias, seu 2º distrito. Atravessando a ponte situada logo na entrada do distrito, chega-se, poucos metros depois, pelo lado esquerdo, a uma estrada sem pavimentação, a RJ-186 (f01), que liga Paraíso do Tobias ao município de São José de Ubá-RJ. Por essa estrada, a cerca de 2km da sede distrital, está localizada a Fazenda Santa Inês. As margens da RJ-186, encontra-se o Ribeirão do Bonito, que nasce na Fazenda Maravilha, passa por Paraíso do Tobias e desemboca no Rio Pomba, no município de Santo Antônio de Pádua. O núcleo principal da fazenda,composto pela sede (f02), engenho (f03), serraria (f04), curral (f05), tulha (f06), casas de colonos (f07) e capela/ santuário (f08), localiza-se no local banhado por um riacho tributário do Ribeirão Bonito, que tem, próxima, uma queda d’água (f09).

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situação e ambiência Numa elevação do lado direito está situada a sede da fazenda, implantada sobre um platô que é alcançado por uma escadaria frontal dividida em dois lances, que tem início, à margem da estrada, num caminho recoberto por grama, que termina na garagem (f10). Na parte da frente do platô e na lateral direita, pode-se ver uma grande murada de pedra recoberta de cimento, que faz a contenção do terreno. Nos fundos da casa está localizado o santuário dedicado a Nossa Senhora Mãe do Imediato Consolo (f11), que possui capela, gruta, secretaria e banheiros. Nessa parte também se encontra o pomar (f12) e, por trás do conjunto, avistam-se os remanescentes da mata primitiva (f13). De frente para a estrada, localiza-se a casa do administrador (antiga casa do colono), construída sobre uma murada de pedra (f14), remanescente do que seria o embasamento da sede original da fazenda, que teve as obras interrompidas devido a abolição da escravatura, o que fez com que seu proprietário retornasse à sua antiga Fazenda Três Ilhas, em Minas Gerais. Do lado esquerdo da RJ-186, localizam-se a parte central e mais antiga do que restou do engenho da propriedade (f15), além de currais, tulhas e casas de colonos, que, após a partilha entre os herdeiros, passaram a servir como moradias e edificações de apoio das propriedades médias, resultantes do desmembramento das terras da tradicional e centenária Fazenda Santa Inês. Ainda deste lado da estrada, tem-se acesso ao Balneário Ventura Lopes, formado por uma parte de terras da fazenda que faz divisa com o povoado de Areias (f16). Esta área da fazenda, segundo esclarecimento do proprietário, faz parte de um novo empreendimento já iniciado que incluiu a construção de 17 piscinas de água natural, sendo que a maior possui 5.000 m2, utilizando-se da mesma técnica dos antigos tabuleiros de arroz, ou seja, com desníveis de 20 cm de altura. O projeto inclui ainda bar e restaurante com a intenção de que, futuramente, sejam utilizados para festas, eventos e cerimônias, uma vez que grande parte das terras e os recursos hídricos da Santa Inês favorecem o desenvolvimento do turismo rural (f17 e f18).

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descrição arquitetônica A atual sede da Fazenda Santa Inês foi edificada entre 1937 e 1939, seguindo o padrão arquitetônico utilizado nesta época para construções urbanas, porém, livre das sobreposições de elementos e ornatos decorativos típicos de um já tardio ecletismo (f19 e f20). Sua planta apresenta um pavimento em “L” invertido e estrutura em alvenaria de tijolos maciços. Possui um único pavimento sobre porão baixo, onde se distribuem pequenos vãos quadrados para sua ventilação. Uma calçada cimentada contorna todo o perímetro da construção. A fachada principal é formada por quatro janelas com requadro de massa, o que faz realçar e valorizar ainda mais as esquadrias em veneziana com bandeiras de vidro (f21). A fachada lateral direita é mais extensa. É por ela que é feito o acesso à casa, através de uma pequena escada revestida com ladrilhos hidráulicos - fabricados no município -, que desemboca numa varanda, cujos únicos elementos decorativos, de forma peculiar, são as quatro esbeltas colunas que sustentam o telhado que reproduz, em escala menor, a forma de “chalé” do telhado principal (f22).

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descrição arquitetônica Para esta varanda abrem-se 3 vãos: uma janela voltada para a sala de estar e 2 portas com folhas almofadadas. Através da primeira, chega-se ao escritório que possui também comunicação interna com o corpo da casa. A outra porta dá acesso para a sala de estar da residência (f23). Em toda sua extensão a casa foi revestida em argamassa desempenada com pintura na cor terracota com relevos e requadros das janelas em marfim,formando bonito contraste com o verde das árvores frutíferas e frondosas que circundam a casa. No corpo da residência estão localizadas a sala de visitas, o escritório (f24), a sala de jantar (f25), seis quartos,sendo uma suíte (f26) e dois banheiros.

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descrição arquitetônica No apêndice que constitui a outra parte do L, cuja ligação com o corpo da casa se dá através de um grande vão em arco abatido (f27), estão situadas a copa (f28), a cozinha (f29) e a despensa, revestidas com ladrilhos hidráulicos que compõem gregas e “cataventos” cor de vinho à motivos florais (f30 a f32). Os vazios e remendos observados no piso hidráulico, indicam que foram executadas intervenções que suprimiram paredes e/ou muretas desses ambientes. Possui, ainda, a casa uma varanda aberta, churrasqueira, e um banheiro instalado na parte dos fundos, totalizando 12 cômodos. Essas duas últimas áreas são recentes e foram construídas para o lazer dos proprietários e de seus convivas (f33 e f34). Na cobertura foram utilizadas telhas do tipo capa e canal para a área primitiva e francesas para as construções recentes. Todo o beiral que circunda a construção é forrado com madeira (f35). Os forros dos principais cômodos possuem aeríferos – sancas – (f36), recurso muito comum adotado em prédios ecléticos para auxiliar na ventilação dos compartimentos de pé direito muito alto. Além disto, o corpo da casa foi edificado com orientação e arquitetura adequadas às condições climáticas da região, de modo que, no verão, nas primeiras horas da tarde, o sol não penetra por nenhuma das janelas e portas da casa.

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descrição arquitetônica A família possui um variado acervo de móveis e alfaias que é utilizado pelos proprietários na decoração da residência, mesclando um mobiliário que vai do século XIX ao art déco (f37). O engenho (f38) destaca-se do conjunto das demais edificações como a principal e único prédio remanescente da época em que a Fazenda Santa Inês foi implantada. Atualmente apresenta planta em forma de “T”, pois o restante da construção – um prolongamento à esquerda, onde se achava instalada a indústria de açúcar, cachaça, álcool e rapadura – foi demolido há muitos anos, restando dele, apenas, uma chaminé. No tramo central da construção, um pouco mais avançado, localiza-se a entrada para o compartimento térreo, que possui vedação por interessante grade vertical e porta de madeira, à moda das casas bandeiristas (f39). Chama especial atenção a galeria avançada de arcos ogivais - em número de seis - de seu embasamento (f40), que juntamente com o tijolo aparente e os lambrequins rendilhados em madeira do beiral (f41), valorizam e diferenciam a edificação das demais construções rurais do mesmo período localizadas na região. As fachadas mantém a franca exposição de sua estrutura em madeira, além de tijolos maciços aparentes com juntas pintadas em tinta branca. No tímpano do frontão destaca-se os vãos de ventilação em arcos de 3 centros com esquadrias de madeira veneziana. Há 24 vãos de janelas em verga reta com cercaduras em madeira, que são vedados por esquadrias enrelhadas, pintadas de azul colonial (f42). Até meados da década de 1970 podia ainda ser visto em seu interior o monumental monjolo. No segundo pavimento ficavam localizados os batedores e no térreo, os cochos de madeira, fechados. Através de pequenas portinholas retirava-se o café pilado (f43).

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descrição arquitetônica Atualmente, o segundo pavimento, tem seu acesso através de uma primitiva escada de madeira e pedra (f44),foi transformado em residência. Possui seis quartos, dois banheiros, cozinha e amplas salas (f45 a f47). O térreo é utilizado como tulha para a guarda de material e ferramentas de trabalho. Nos fundos da edificação há uma pequena passarela, que liga o segundo pavimento ao pasto. No passado havia uma estrada através da qual chegavam, para depósito, grande parte dos frutos das lavouras da fazenda (f48).

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detalhamento do estado de conservação

A casa-sede encontra-se muito bem conservada. É visível a preocupação do proprietário em realizar constantes e freqüentes obras de manutenção, como a substituição de peças de madeira e recomposição de elementos arquitetônicos – ainda que fora dos padrões originais -, como a instalação de peitoris de ardósia nas janelas (f49). O assoalho das salas e do quarto maior da residência, são do tipo encabeirado. Já o corredor que liga a sala de visitas à sala de jantar e aos demais cômodos da casa é do tipo trespassado, encontrando-se, ambos, em perfeito estado de conservação. As esquadrias externas são pintadas na cor branca e as internas na cor cinza. As bandeiras das portas internas possuem vidros verdes e brancos e as externas, apenas brancos (f50).Para oferecer maior conforto aos proprietários e seus hóspedes, foi construído mais um banheiro, formando a suíte do casal e reformado o já existente. No engenho, o estado geral de conservação da construção é bom. Foram realizadas algumas obras recentes de recuperação de janelas e esquadrias (f51). No interior, pode-se avistar todo o madeirame do telhado com suas tesouras, terças, cumeeira, caibros e telhas aparentes (f52 e f53).

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detalhamento do estado de conservação O assoalho é do tipo pranchão de madeira com junta seca (f54) e na área onde estão localizadas a copa, a cozinha e os banheiros, o piso é revestido com cerâmica existente no mercado comercial atual(f55). No entorno da construção há tulhas, currais e outras edificações, com visíveis sinais de abandono, algumas inacabadas (f56). Ainda nas suas proximidades localiza-se um terreiro de pedra com uma grande cruz no centro, antigamente utilizado para a secagem de café (f57). Nas tulhas há moinhos para milho e capineiras que abastecem os currais (f58). Em alguns pontos das fachadas do engenho foram realizados reparos com massa imitando tijolo maciço, empregado na construção da imponente edificação (f59). Em todo seu entorno prevalecem os gramados, que vão das margens do Ribeirão do Bonito aos morros, que servem de pasto para o rebanho.

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histórico
A Fazenda Santa Inês foi fundada, no terceiro quartel do século XIX, por Francisco Bernardino de Barros, filho de Antônio Bernardino de Barros, fazendeiro e fundador da antiga Freguesia de São José do Rio Preto, Vila de São José das Três Ilhas, antigo distrito de Juiz de Fora - MG, atualmente, distrito do município de Belmiro Braga - MG. Segundo Heitor de Bustamante, em sua obra Sertões dos Puris, p.60, “Há cerca de um século, o mineiro José Ferreira Brandão comprou pela importante quantia de sete contos de réis, uma sorte de terras que começando na Fazenda das ‘Três Quedas do Bonito’, naquela época de Sebastião Gomes Teixeira Jales, ia terminar na divisa de outra freguesia no lugar que depois se chamou São Felipe, compreendendo todo o vale superior ao Ribeirão Bonito. Mais tarde cedeu aos três sobrinhos as glebas em que eles formaram as fazendas São Luis, de Custódio Bernardino de Barros, hoje correspondente às fazendas de propriedade de Joel Azevedo, de Maria Nimé a Salvador Bravo e filho e de Norton e Ângela Amim Lopes; Paraíso, de Plácido Antônio de Barros, onde atualmente acha-se implantada a sede do distrito de Paraíso do Tobias e de muitos sítios; e Santa Inês, de Francisco Bernardino de Barros, que a desmembrou em diversas áreas, fazendo doações aos filhos, que formaram outras fazendas, a saber: Antônio Apolinário de Magalhães Barros, a da Prosperidade e José Joaquim de Magalhães Barros, a de Santa Verônica, os genros Afonso Ernesto de Barros, a de Boa Vista ou Califórnia, que mais tarde recebeu o nome de Pirineus; Ildefonso Monteiro de Barros, a da Mantinéia; Dr. Anastácio Rodrigues Coimbra, a da Mata; José Anastácio Coimbra, a de São Thiago; José de Assis Alves, a da União; Antônio Miguel Coimbra,a de Santa Ana e Francisco de Assis Alves, a de São Felipe. Por último, a Santa Inês, de Francisco Bernardino de Barros, que depois foi passada para o seu sobrinho, Antônio Bernardino Monteiro de Barros. Em seguida, Santa Inês pertenceu ao Capitão José de Assis Alves que, em 1892, teve uma execução por dívida hipotecária promovida pelo Banco do Brasil, da qual resultou a penhora da fazenda, com todas as suas benfeitorias, que levou-a a primeira praça em 19 de novembro do mesmo ano, pela avaliação de 124:336$000. Santa Inês, então, foi adquirida por Joaquim Rodrigues Leite que, parece tê-la arrematado em praça pública e transferido-a a José Ventura Lopes, pai do Capitão Antônio Ventura Coimbra Lopes.” A Fazenda Santa Inês foi considerada na época uma das mais importantes da região pela qualidade das terras, localização, serventia das águas, produção e, sobretudo, pela natureza das obras implantadas e a variedade de equipamentos de que era dotada, sem falar na escola ali existente, uma das primeiras das cercanias, dirigida pelo professor Carlos Silva, que lhe deu o nome de Escola Barão de Macaúbas, “na qual trabalhou ainda por algum tempo, tendo no seu mister prestado relevantes serviços à mocidade daquela zona, numa época penosa em que tudo era difícil”. (Sertões dos Puris p.210). Conforme informações prestadas pelo Dr. Roberto Monteiro Ribeiro Coimbra Lopes, filho do Capitão Ventura Lopes, um dos atuais proprietários da Santa Inês, na fazenda primitiva só se comprava sal, querosene e o ferro para ser trabalhado na oficina. Até as roupas para o trabalho eram produzidas em teares na propriedade. Segundo o mesmo, manuscritos deixados por seu pai, conterrâneo, primo e sucessor dos descendentes do mesmo na titularidade da Santa Inês, descobre-se que: ...“Francisco Bernardino de Barros, homem culto e progressista plantou grandes lavouras de café, milho e cana-de-açúcar, produzindo a lavoura de café cerca de 5.000 sacos de 60Kg. Fundou uma usina de açúcar e álcool, de acordo com os meios existentes na época, que produzia 4.000 sacos de açúcar e milhares de litros de álcool. Apesar de não ser escravocrata, Francisco Bernardino não aceitou a libertação dos escravos do modo desastroso pelo qual foi feito, e por isso abandonou a Fazenda Santa Inês e voltou a sua antiga Fazenda Três Ilhas, no distrito de São José do Rio Preto.”... José Ventura Lopes e Maria Leopoldina Coimbra Lopes, pais do Capitão Antônio Ventura Coimbra Lopes, adquiriram a fazenda pela importância de cinqüenta e três contos e oitocentos e oitenta e sete mil réis, através de Carta de Adjudicação, extraída a 2 de setembro de 1902 dos Autos de Inventário dos bens que ficaram por falecimento de Emília Bernardino de Aquino Leite. Possuía a fazenda, nessa época, 120 alqueires geométricos. Por sua vez, Antônio Ventura Coimbra Lopes tornou-se proprietário da Santa Inês, em parte, por doação de seus pais e por aquisição feita aos irmãos Francisco Ventura Coimbra Lopes e Ana Ventura Coimbra Lopes. Mais tarde, Ventura Lopes, além de outras propriedades adjacentes, adquiriu também a Fazenda São Luiz, originária e primitivamente de propriedade de Custódio Bernardino de Barros, reunindo na Fazenda Santa Inês, uma área anexada de mais ou menos mil hectares de terras. A extensão do imóvel, a localização, a fertilidade das terras, a fartura de água, a qualidade e a quantidade das benfeitorias, fatores estes que, aliados ao espírito de justiça e honestidade, de liderança e de administração de Antonio Ventura Coimbra Lopes, agricultor vocacionado, fizeram da Santa Inês um notável centro populacional, reunindo cerca de cem famílias, numerosas na sua grande maioria. Nessa época, produzia a Fazenda Santa Inês, em grande quantidade, café, cana-de-açúcar, milho, feijão, arroz e, em etapas sucessivas, passou a produzir também algodão em grande escala, cultura esta, introduzida no norte fluminense por iniciativa de seu proprietário Antonio Ventura Coimbra Lopes. O Dr. Roberto Monteiro Ribeiro Coimbra Lopes contou-nos que, na parte de baixo do engenho, mais precisamente nas duas portas localizadas do lado direito, funcionava a venda existente na fazenda. “Aos sábados o entorno do engenho parecia uma colcha de retalhos desde as primeiras horas da manhã. Eram as famílias dos empregados

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histórico
que vinham fazer suas compras. Do alto da casa-sede avistávamos o colorido das roupas o que fazia parecer mesmo uma colcha de retalhos – artesanato muito comum em nossa região – herança cultural vinda das Minas Gerais e ainda presente em nossa cidade”. Com o declínio das atividades agrícolas na região, Santa Inês foi uma das poucas fazendas a resistir, pois que, pelo espírito socialista de Antonio Ventura, foi ela uma das últimas propriedades do município a introduzir em suas terras a pecuária bovina. Tantas foram as riquezas produzidas pelas terras da Santa Inês nessas primeiras seis décadas do século XX que elas, além de fazerem a independência econômica do seu proprietário, permitiram que Antonio Ventura Coimbra Lopes pusesse em prática a vocação natural do seu espírito de solidariedade no campo social e político. No campo social, destacamos como contribuição o desenvolvimento de atividades econômicas, reservando boa parte de suas economias a serviço daqueles que precisavam trabalhar e não dispunham de capital para desenvolver suas atividades. No político, as riquezas produzidas nas terras da Santa Inês, permitiram que Ventura Lopes fizesse vida pública ativa durante mais de meio século como vereador, Prefeito de Pádua, Presidente do Partido Separatista e primeiro Presidente da Câmara de Miracema, na qual exerceu mandatos em várias legislaturas. Foi um dos fundadores da UDN (União Democrática Nacional) e seu presidente até a extinção dos partidos, levado a efeito pelos militares em 1966. As riquezas geradas pela Santa Inês, permitiram ainda que Ventura Lopes como Prefeito de Santo Antonio de Pádua, no ano de 1927, renunciasse à percepção dos subsídios e da verba de representação a que fazia jus por força do exercício do cargo. Dispensou o uso da viatura do Município, utilizando nos serviços da administração pública municipal o seu carro particular, abastecido com seus próprios recursos. Da primitiva Fazenda Santa Inês resta hoje apenas a parte central do engenho e a chaminé, construídos por volta de 1870 e que abrigavam: “Um monjolo, máquina de beneficiamento de café, de arroz e de milho; a indústria de açúcar, cachaça, álcool e rapadura; a serraria; o torno mecânico; o tear e um dínamo, destinado a gerar energia para o consumo do engenho e da casasede da fazenda, que, na maior parte de tempo, eram movidos por uma grande roda d’água, a qual, acoplada à muitas engrenagens, fazia funcionar as máquinas com a força das águas que ali chegavam por gravidade, vindas de um açude e transportadas por meio de uma banqueta. Excepcionalmente, o maquinário era impulsionado a vapor, produzido por uma imensa caldeira.” Lá funcionavam também a escola, a venda e o salão de danças que servia aos moradores e seus convidados. Além destes, os moradores da fazenda dispunham de campo de futebol e raia de malha, realizando ainda festas juninas, boi pintadinho e mineiro pau, expressões culturais da região. A Fazenda Santa Inês foi a primeira do município a produzir algodão, dedicando-se também a criação de gado leiteiro. A fazenda chegou a contar, nessa época, com 120 casas para colonos, que abrigavam uma média de mil pessoas, conforme notificou o jornal Diário da Manhã, editado em Niterói, em 23/12/1942. A título de enriquecimento, vale registrar que no final do século XIX, chegou a Miracema o Sr. Adriano do Valle, acusado de ter atentado contra o Imperador D. Pedro II, na porta do Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro, no dia 15 de julho de 1889. Como agrimensor, foi executar serviços na Fazenda Santa Inês, onde, segundo relatos, afirmou nunca ter tido a intenção de assassinar o Imperador. Outro importante acontecimento foi narrado por Luiz Clóvis Moreira Tostes - descendente de Custódio Bernardino de Barros ao Dr. Roberto Ventura Lopes, que teve conhecimento através de parentes já idosos, de uma rebelião de escravos na fazenda, mantendo os proprietários e os membros da família recolhidos no interior da casa-sede, localizada não muito distante da senzala. Contou ainda, que dois ou três escravos haviam se insurgido contra a rebelião, sendo por isso trucidados pelos companheiros e que, um dos parentes do fazendeiro, tomando conhecimento do fato, parlamentou com os revoltosos na Santa Inês, conseguindo por fim a rebelião. Na administração da fazenda, o filho do casal – Antonio Ventura Coimbra Lopes e Nair Monteiro Ribeiro Lopes – Dr. Roberto Monteiro Ribeiro Coimbra Lopes, além da reforma da casa-sede, do engenho e da construção de casas para moradia de colonos e empregados, renovou e construiu cercas internas e de divisa, com lascas de braúna e arame farpado, montou uma nova serraria, edificou um barracão de onze metros de largura por trinta e cinco metros de comprimento, para depósito, uma ceva para porcos, construiu um estábulo ocupando novecentos metros quadrados de área, substituiu o antigo transformador de energia por outro de cem cavalos de força, manteve a máquina de café, montou máquina de arroz, moinho de granjeiro e fubá, picadeiras e desintegrador de milho, adquiriu um telefone e uma balança para pesagem de gado bovino e construiu estradas, açudes e várias benfeitorias. De 31 de março de 1996 aos dias atuais, a Santa Inês tem tido o privilégio de ser palco de aparições ininterruptas, em suas terras, de Nossa Senhora e do seu filho Jesus, que vem deixando inúmeras mensagens e concedendo graças, muitas delas reveladas, no local, em depoimentos dos agradecidos. Segundo o proprietário, o local das aparições, onde foi edificado o santuário, totalmente aberto ao acesso da população, está situado a pouco mais de cinqüenta metros dos fundos da atual casa-sede e precisamente ao final da antiga casa-sede de paua-pique. Além do Santuário, foram ainda edificados capela, secretaria administrativa e banheiros. A gruta foi escavada

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histórico

numa rocha ali existente, por indicação de Nossa Senhora. Atualmente, a Santa Inês está a aguardar a implantação, no país, de uma política agrícola que venha permitir a produção e a retirada de suas terras férteis, como no passado, dos opulentos e dadivosos frutos, que ajudaram a sustentar e a promover seus proprietários e moradores, e contribuíram, sobremaneira, para alimentar a população em geral e construir a fartura e a prosperidade do Município de Miracema, tão intensos no passado (f60 e f61).

Fontes: BUSTAMANTE, Heitor de. Sertões dos Puris, 1971, Santo Antônio de Pádua - RJ. LOPES, Roberto Monteiro Ribeiro Coimbra, relato sobre a Fazenda Santa Inês.

Engenho da Fazenda Santa Inês, ainda com a área de produção à esquerda. Foto de Leandro Martins, início de século XX

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Fazenda Santa Inês, casa-sede improvisada nas instalações acessórias originais da fazenda, tendo, à esquerda, o embasamento da futura fazenda, que não foi construída. Foto de Leandro Martins, início de século XX (acervo da Fazenda Santa Inês)

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denominação

códice

Fazenda Serra Nova
localização

AVII-F05-Mir

RJ-116 em direção a Itaperuna, a 11km do centro de Miracema

município Miracema época de construção 1907 estado de conservação detalhamento no corpo da ficha uso atual / original pecuária de corte e leiteira – silvicultura / fazenda de café proteção existente / proposta nenhuma proprietário particular

Coordenador / data equipe histórico

Fazenda Serra Nova, fachada principal Marcelo Salim de Martino – mar/abr 2009 revisão Vitor Caveari Lage (levantamento de campo / digitação), Coordenação técnica Jean Rabelo Ferreira (Auto Cad), Vera Lúcia Mota Gonçalves do projeto Marcelo Salim de Martino Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 325

situação e ambiência imagens geradas pelo Google Pro 2009

situação

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Ambiência

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descrição arquitetônica A estrada que leva à Fazenda Serra Nova tem início no km 1 da RJ-116, que liga Itaboraí a Itaperuna, distante cerca de 11 km do centro urbano de Miracema. Através desta rodovia chega-se também às fazendas Fumaça, Itatiaia, Santo André e São Pedro, além da comunidade do Barreiro e do povoado de Areias. A estrada é por si só um atrativo natural, possuindo uma queda d’água e trechos com remanescentes de mata secundária (f01, f02 e f03).

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situação e ambiência Já no alto da serra, atravessando uma pequena ponte (f04), chega-se ao conjunto de construções da Fazenda Serra Nova, composto pela casa-sede, antigo terreiro de café, a tulha e o galpão que serve de garagem (f05 a f07). Seguindo a estrada à direita da casa-sede, que leva à Fazenda Santa Inês, no distrito de Paraíso do Tobias, está localizada a serraria (f08), uma outra tulha (f09), o curral (f10) e uma casa edificada nos anos 1950/60 (f11), utilizada, atualmente, como casa de colono.

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situação e ambiência Na frente da casa-sede, há uma antena para telefonia rural, instalada pela extinta Telerj, mas que, segundo informações dos proprietários, nunca funcionou. Afixada a uma torre, há uma placa com as seguintes coordenadas: Latitude: 21º 21’ 57”; Longitude: 42º 05’ 38”; altura: 240m (f12). Entre a casa-sede e a estrada, passa o Ribeirão Serra Nova (f13), que nasce no alto da serra próxima da fazenda e desemboca no Ribeirão Santo Antônio, que corta toda a cidade de Miracema. Exatamente na altura da casa-sede há uma pequena queda d’água, (f14) que contribui ainda mais para o aspecto romântico que o sítio possui. Do lado esquerdo da casasede está o pomar formado por jambeiros, jabuticabeiras, goiabeiras e muitas outras árvores frutíferas misturadas a antigos eucaliptos, que já foram uma das fontes de renda da propriedade (f15).

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descrição arquitetônica Construção de gosto romântico, assentada sobre porão baixo (f16), com planta em “T” invertido. Encontra-se implantada sobre um amplo gramado, onde se acham instalados o jardim com flores, como roseiras e camélias, dispostas de ambos os lados do passeio cimentado que interliga o portão de entrada ao alpendre de acesso a casa (f17). Do lado esquerdo desse passeio há uma piscina (f18) e o jardim é protegido por um muro de alvenaria encimado por gradil com pontas de lança em ferro, seguindo o mesmo modelo do gradil localizado no acesso principal da casa-sede. Das duas pinhas vitrificadas sobre os marcos do portão de entrada só resta uma inteira (f19). Em um dos pilares de alvenaria que delimita o gradil frontal destaca-se uma estátua de cerâmica, também vitrificada, representando as Artes (f20). A fachada principal é simétrica formada por uma porta central e oito janelas com cercaduras em madeira e vergas e sobrevergas retas, guarnecidas com esquadrias enrelhadas externas e de guilhotina com caixilhos de vidro internamente (f21).

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descrição arquitetônica Protegendo a porta de acesso – que possui duas folhas em madeira enrelhada –, há um alpendre sustentado por delgadas colunetas caneluradas, com guarda-corpo e portão de ferro fundido a meia altura. Este alpendre é encimado por uma pequena cobertura em duas águas com telhas capa e canal, que determina um frontão triangular em cujo tímpano, de madeira “rendilhada” acompanhando o trabalho dos lambrequins, há um medalhão com a data da construção – 1907. Adornam as colunas de ferro que sustentam o alpendre – que possui forro em madeira com junta cega – mãos francesas em ferro forjado (f22 a f23). A pavimentação foi feita com ladrilhos hidráulicos. Destacam-se, dos dois lados da escada construída com blocos de pedra aparelhada, os raspadores de lama, constituídos por lâminas de ferro, instaladas ao lado do último degrau da escada (f24). Na porta principal, uma aldrava de metal dourado em forma de mão feminina chama atenção (f25).

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descrição arquitetônica A cobertura da casa-sede é em telhas de barro, do tipo capa e canal, sendo o beiral forrado arrematado por lambrequins de madeira (f26). A fachada lateral direita ressalta a tipologia arquitetônica dos chalés românticos, característicos do final do século XIX e início do XX. Mantém três janelas, sendo que, curiosamente, apenas duas são do tipo guilhotina. A terceira é de folha dupla cega. No centro do frontão, encontra-se instalado um óculo de madeira rendilhada com as iniciais “OAM” – Oscar Augusto Machado – proprietário original da fazenda, que construiu a casa-sede (f27 e f28). A fachada do lado esquerdo sofreu alteração nos vãos, possuindo hoje um basculante de vidro e uma única janela de guilhotina com folhas de venezianas externas. No centro do frontão há uma pequena porta de venezianas pela qual se acessa o sótão (f29). Internamente, as janelas apresentam duas folhas cegas (f30), assim como as portas, que possuem maçanetas de porcelana pintada e bandeiras com vidros marchetados (f31).

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descrição arquitetônica A casa-sede é formada por uma saleta (f32), sala de visitas (f33), sala de jantar (f34), escritório (f35), quatro quartos (f36), banheiro (f37) e cozinha (f38).

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descrição arquitetônica A sala de visitas e os quartos mantêm o piso de assoalho do tipo encabeirado (f39). A saleta, o escritório, a sala de jantar e a cozinha foram pavimentados com ladrilhos hidráulicos, que formam lindos tapetes pela residência (f40 a f42). O forro é do tipo saia e camisa. Na sala principal, possui aerífero rebaixado em formato de grega, além de delicadíssimo trabalho de pintura com motivos florais, ricamente executado em dois frisos, fazendo uma espécie de cercadura interna e externa à sanca. Do ponto central do forro pende um lustre de bronze e cristal em formato de pera (f43). Diferentemente do restante dos cômodos de uso comum, esta sala não possui mais as pinturas parietais. A saleta de entrada possui pintura marmorizada no centro dos medalhões e na barra de roda-meio que circunda toda a parede (f44), além de pinturas do tipo estêncil formando faixas, que se repetem na parte superior (roda-teto) próxima ao forro (f45).

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descrição arquitetônica

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descrição arquitetônica Acima das portas, há pinturas de vasos com flores do campo (f46). Os demais espaços das paredes foram preenchidos com quadros emoldurados que reproduzem marinas, castelos, vulcões em erupção, camponesa na estrada, velhas árvores e cenas de caçadas (f47 a f49). A sala de jantar foi ricamente decorada com pinturas que representam marinas, animais como o jacu, a anta, o coelho e o joãode-barro, o leão, a águia e o veado, a Igreja de N. S. da Penha, no Rio de Janeiro, além de vasos com frutas importadas e tropicais, tais como o caju, a manga, o cajá-manga, o abacaxi, o mamão, a banana, a pinha, a melancia, o melão, a uva, as laranjas e as peras. No centro do forro, destaca-se um lustre de bronze com doze braços e pingentes de cristal (f50 e f51). Entre as pinturas, destaca-se um pé de café com frutos, talvez em alusão à própria fazenda que era uma das que mais produzia esta espécie de rubiácea no município (f52). Em todo o interior são vistos mobiliários de época. Alguns adquiridos juntamente com a fazenda, outros, posteriormente, pela família dos atuais proprietários.

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descrição arquitetônica

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detalhamento do estado de conservação

A casa-sede, de uma maneira geral, está conservada, necessitando, entretanto, de obras de manutenção e de restauração. Não foram detectadas goteiras, vazamentos, estufamentos, nem a presença de insetos xilófagos, como os cupins de solo. Existem pequenas rachaduras internas, onde estão as pinturas parietais, provenientes de deslocamentos de parte do reboco, preenchidos com massa em reformas realizadas ao longo dos anos (f53). As pinturas, em ambas as salas, necessitam passar por um minucioso trabalho de limpeza, remoção de resíduos, como gordura, fuligens, etc., além de uma restauração pictórica realizada por especialista (f54). Pequenos reparos também se fazem necessários nos lambrequins que circundam o telhado, além de pintura geral, sobretudo nas esquadrias, a fim de continuarem protegidas do sol e das chuvas, que são constantes na região (f55). Duas antenas, uma para telefonia rural e outra parabólica, interferem negativamente na construção, que já conta 102 anos de idade.

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representação gráfica

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histórico Segundo informações do Sr. Luiz Clóvis Lima Tostes, a Fazenda Serra Nova foi fundada pelo Sr. Oscar Augusto Machado nas terras de propriedade de seu sogro, o capitão Francisco Dias Tostes, pai de Maria de Barros Tostes, conhecida como Mariquinha. Francisco Dias Tostes era filho do capitão Marcelino Dias Tostes e de Luciana Rodrigues Pereira Tostes, proprietários de uma grande parte das terras que hoje formam a cidade de Miracema. Em 1º de outubro de 1855, Marcelino declarou na igreja da freguesia de Santo Antônio de Pádua, em conformidade com o artigo 91 do Decreto 1318, de 30/01/1854, que possuía na Freguesia de Santo Antônio de Pádua, local denominado Santo Antônio dos Brotos, uma fazenda denominada Água Limpa – “...a qual divide pelo lado de baixo com terras dos herdeiros da falecida Dona Ermelinda Rodrigues da Conceição...”, a quem, segundo a tradição oral, é atribuída a fundação da cidade, “...pelo lado de cima com Manoel Felisberto Pereira da Silva até a serra, por outro lado com terras do falecido padre Francisco Mendes Linhares e Lucas Mendes Linhares, por outro com terras de João Cândido Guimarães, por compra que fez ao capitão Bento Pereira Rodrigues.” 1 Marcelino Dias Tostes era filho de Antônio Dias Tostes e Ana Maria do Sacramento, nascido no Quilombo, atual Bias Fortes (MG). Foi o principal articulador para a emancipação de Juiz de Fora do município de Barbacena2. Não se sabe com precisão o ano em que a fazenda foi formada. Sabe-se apenas que a casa-sede foi construída em 1907, como atesta a data instalada em seu frontão. Segundo Melchíades Cardoso, em artigo publicado no jornal O Momento de Miracema, nº 16, abril de 1972, “Serra Nova é a grande fazenda de pretérita propriedade do falecido cel. Oscar Augusto Machado, que durante a fenomenal era do café foi a que mais produzia a apregoada rubiácea, colhidas das verdejantes linhas paralelas dos frondosos cafeeiros que riscavam os alargados chapadões, grotões e encostas de suas terras, serras que consagravam o nome sugestivo, embora criando excelente gado. Nesse meio faustoso do passado, outrossim, criara o cel. Oscar Machado a sua distinta família, benquista sob qualquer apreciação, destacando-se entre seus filhos, pela estreita convivência no meio urbano local, o dr. Tobias Machado e o dr. Júlio Tostes Machado; o primeiro tendo sido secretário da Educação (do Estado) e o segundo por ter-se dedicado à lavoura do município em cujo mister, organizou seu grande e bem cuidado núcleo agropastoril, em franca prosperidade, agora sob a jovem e segura direção de seu filho. A maior contribuição do dr. Júlio, contudo, foi a criação e instalação da Cooperativa Agropecuária de Miracema – CAPM, fundada em 1966, por 131 sócios.” Em reconhecimento ao seu trabalho de fundação, instalação e direção da cooperativa, os sócios deram-lhe o nome da sede – Edifício Dr. Júlio Tostes Machado. Anos depois, a fazenda foi comprada por um português residente no Rio de Janeiro, que a vendeu para o deputado Geraldo Tavares André. Após o cultivo de café, a Fazenda Serra Nova dedicou-se ao plantio e extração de madeira (eucalipto) e à pecuária leiteira, chegando a produzir, na década de 1960, até 2.600 litros de leite por dia.

Fontes: 1 Livro de Registro de Terras nº 53, da Freguesia de Santo Antônio dos Brotos – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. 2 Fazolatto, Douglas. Juiz de Fora: Imagens do Passado – 2003.

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Meio Ambiente Natural
Capítulo 3

Autores: Daniel Cardoso Luciano Cota

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SUMÁRIO

1. 2. 2.1. 2.2. 2.3. 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 3. 3.1 3.2 3.3 4. 4.1 4.2 4.3 4.4 4.5 5. 6. 6.1 6.2

CLIMA.................................................................................................................. 353 BIOMAS E FORMAÇÕES REGIONAIS ............................................................... 356 Mata Atlântica ...................................................................................................... 356 Formações Vegetais Nativas das Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro ................................................................................................................. 357 Ação Antrópica Sobre os Ecossistemas Vegetais Nativos ................................... 359 Fragmentos Florestais.......................................................................................... 361 Uso e Ocupação do Solo ..................................................................................... 362 Corredores Ecológicos ......................................................................................... 369 Zoneamento Ecológico Econômico – ZEE ........................................................... 371 Projeto Gerenciamento Integrado de Agroecossistemas em Microbacias Hidrográficas do Norte e Noroeste Fluminense – RIO RURAL GEF..................... 371 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO ........................................................................ 373 Reserva Particular do Patrimônio Nacional - RPPN ............................................. 379 Criação de RPPNs ............................................................................................... 379 Propostas de Criação de Unidades de Conservação ........................................... 380 ÁREA LITORÂNEA .............................................................................................. 380 Aspectos Naturais ................................................................................................ 381 Lagoas Costeiras ................................................................................................. 384 Degradação Ambiental......................................................................................... 385 Gerenciamento Costeiro ...................................................................................... 386 Convenção RAMSAR........................................................................................... 387 O PATRIMÔNIO NATURAL ................................................................................. 387 RECURSOS HÍDRICOS ...................................................................................... 393 Regiões Hidrográficas.......................................................................................... 393 Principais Bacias Hidrográficas ............................................................................ 396
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6.3 6.4 6.5 6.6 6.7 6.8 6.9 6.10 6.11 7. 8.

Bacias e Sistemas Hidrográficos - Zoneamento Ecológico Energético (ZEE)-RJ . 398 Comitês de Bacias e Consórcios Intermunicipais ................................................. 400 Disponibilidade Hídrica Superficial ....................................................................... 401 Disponibilidade Hídrica Subterrânea .................................................................... 403 Usos e Demanda Hídrica ..................................................................................... 404 Escassez Hídrica ................................................................................................. 410 Conflitos por Uso da Água ................................................................................... 410 Enchentes ............................................................................................................ 412 Planos e Projetos ................................................................................................. 416 LEGISLAÇÃO AMBIENTAL ................................................................................. 419 REFERÊNCIAS.................................................................................................... 423

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LISTAS

FIGURAS Figura 1 – Estado do Rio de Janeiro, Classificação Climática............................................ 353 Figura 2 – Corredores Ecológicos Propostos..................................................................... 369 Figura 3 – Diques e Tomadas D’água Construídos no Baixo Paraíba do Sul..................... 415

FOTOS Foto 1 – Região Noroeste Fluminense, Italva, Área de Pastagem Margem Direita do Rio Muriaé, em Janeiro de 2010 .............................................................................................. 363 Foto 2 – Região Noroeste Fluminense, Porciúncula, Área de Pastagem, em Janeiro de 2010 .......................................................................................................................................... 363 Foto 3 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Plantação de Cana-de-açúcar, em Janeiro de 2010 ........................................................................................................... 364 Foto 4 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Restinga de Porte Arbóreo do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, em Janeiro de 2010 ................................................. 366 Foto 5 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Restinga de Porte Arbustivo e Arbóreo e Lagoa Costeira do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, em Janeiro de 2010 ....... 366 Foto 6 – Região Noroeste Fluminense, Varre-Sai, Vegetação Secundária, em Janeiro de 2010 .................................................................................................................................. 367 Foto 7 – Região Norte Fluminense, São Francisco de Itabapoana, Vista Aérea da Estação de Guaxindiba.................................................................................................................... 374 Foto 8 – Região Norte Fluminense, São Fidélis e Campos dos Goytacazes, Pico do Desengano ........................................................................................................................ 375 Foto 9 – Lagoa de Jurubatiba ............................................................................................ 376 Foto 10 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Restingas Associadas aos Sistemas Lagunares, nas Proximidades da Praia de São Tomé........................................ 382 Foto 11 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Restingas Localizadas nas Proximidades da Praia de São Tomé................................................................................. 382 Foto 12 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Parque Nacional de Jurubatiba .............. 386 Foto 13 – Região Norte Fluminense, Macaé, Arquipélago de Sant’Anna ........................... 388

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Foto 14 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Lagoa Feia ............................................. 389 Foto 15 – Região Norte Fluminense, Municípios de Macaé, Carapebus, Quissamã, Lagoa de Jurubatiba, Parque Nacional das Restingas de Jurubatiba ................................................ 390 Foto 16 – Região Norte Fluminense, Municípios de Macaé e Conceição de Macabu, Cordilheiras Aymorés......................................................................................................... 391 Foto 17 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Municípios de Aperibé, Cambuci, São Fidélis e Santo Antônio de Pádua, Ilhas Fluviais................................................................ 392 Foto 18 – Foz do Rio Paraíba do Sul ................................................................................. 396 Foto 19 – Região Noroeste Fluminense, Bom Jesus de Itabapoana, Rio Itabapoana ........ 397 Fotos 20 e 21 – Comportas Manobráveis Identificadas no Canal do Furadinho, em Barra do Furado ............................................................................................................................... 411 Foto 22 – Região Noroeste Fluminense, Italva, Ocupação da Faixa Marginal do Rio Muriaé .......................................................................................................................................... 413 Foto 23 – Região Noroeste Fluminense, Itaperuna, Rio Muriaé, Faixa Marginal Ocupada na Área Urbana e Desprovida de Mata Ciliar na Área Rural ................................................... 413 Foto 24 – Região Noroeste Fluminense, Natividade, Casas Desabadas Às Margens do Rio Carangola .......................................................................................................................... 414

GRÁFICOS Gráfico 1 – Estação Macabuzinho, Precipitação Média Mensal e Máxima e Mínima de Chuvas Acumuladas Mensais, Período 1943 a 2007 ......................................................... 354 Gráfico 2 – Estação Porciúncula, Precipitação Média Mensal e Máxima e Mínima de Chuvas Acumuladas Mensais, Período de 1943 a 2007 ................................................................. 355

MAPAS Mapa 1 - Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura Vegetal Original.................... 358 Mapa 2 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura Vegetal Remanescente ....... 360 Mapa 3 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura do Solo, 2007 ...................... 368 Mapa 4 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Unidades de Conservação ................... 378 Mapa 5 - Regiões Hidrográficas Inseridas na Área de Estudo ........................................... 395 Mapa 6 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Sistemas Hidrográficos ........................ 399

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TABELAS Tabela 1 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Porcentagem de Remanescentes Florestais ........................................................................................................................... 365 Tabela 2 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Área Sugerida para Reflorestamento (com Viabilidade Ambiental e Econômica) ......................................................................... 370 Tabela 3 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Unidades de Conservação Federais e Estaduais........................................................................................................................... 373 Tabela 4 – Relação das RPPNs de Domínio Federal, 2010............................................... 379 Tabela 5 – Regiões Hidrográficas Compreendidas na Área de Estudo.............................. 394 Tabela 6 – Disponibilidade Hídrica na Bacia do Rio Paraíba do Sul .................................. 401 Tabela 7 – Postos Fluviométricos Analisados no Rio Itabapoana ...................................... 402 Tabela 8 – Disponibilidade Hídrica no Rio Itabapoana....................................................... 402 Tabela 9 – Disponibilidade Hídrica na Bacia do Rio Macaé ............................................... 402 Tabela 10 – Consumo Per Capita Adotado na Estimativa de Abastecimento de Água Doméstico na Bacia do Rio Paraíba do Sul ....................................................................... 404 Tabela 11 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Saneamento na Bacia do Paraíba do Sul .................................................................................................... 405 Tabela 12 – Quantidade de Indústrias por Sub-bacia ........................................................ 405 Tabela 13 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins Industriais na Bacia do Paraíba do Sul .............................................................................................................. 405 Tabela 14 - Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Irrigação na Bacia do Paraíba do Sul .............................................................................................................. 406 Tabela 15 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Criação Animal na Bacia do Paraíba do Sul .................................................................................................... 406 Tabela 16 – Demanda Hídrica Total e Disponibilidade Hídrica nos Trechos em Estudo da Bacia do Rio Paraíba do Sul .............................................................................................. 407

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“... é um trabalho singularmente apaixonante interrogar o planeta, porque ele nunca deixa de nos responder e de revelar um a um os inumeráveis segredos que contém...”
in La Terre Auguste Robin, Paris.

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1.

CLIMA

As Regiões Norte e Noroeste Fluminense localizam-se aproximadamente a 22º de latitude sul, em uma zona tropical. De acordo com a Classificação de Koppen, o clima dessas regiões é do tipo Aw, caracterizado como tropical quente e úmido, com uma estação seca entre o outono e o inverno. Para contextualização do clima dessas Regiões foram selecionados os dois principais parâmetros climatológicos que o caracterizam: temperatura e precipitação. Os dados se referem basicamente a valores médios, correspondentes ao período de 1939 a 2007, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, INMET, observados nas estações climatológicas Porciúncula e Macabuzinho, obtidas através dos estudos de Coelho Netto et. alii (2008) que subsidiam o Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Rio de Janeiro. A classificação climática disponível no Estado atualmente é a publicada pelo CIDE – Centro de Informações e Dados do Estado (1998). Nota-se que as Regiões Norte e Noroeste do Estado apresentam-se divididas em duas sub-regiões, uma com clima subúmido (3) e outra com clima seco (4), mais ao norte.
Figura 1 – Estado do Rio de Janeiro, Classificação Climática

Fonte: CIDE (1998) apud André et. al. (2005)

Entretanto, segundo André et. al. (2005), essa classificação foi feita com dados médios de longo prazo, e considerando-se a tendência dos últimos 40 anos, o regime pluviométrico vem diminuindo consideravelmente, justificando assim a necessidade de um estudo para verificar uma possível mudança na linha divisória da classificação climática publicada pelo CIDE.

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353

De acordo com Coelho Netto et. al. (2008), as regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro apresentam temperatura média anual entre 20 a 25ºC, diferenciando das áreas montanhosas, que apresentam temperaturas em torno de 15 a 20ºC. Nos meses de dezembro a fevereiro as temperaturas médias mensais são superiores a 25º C, principalmente nas baixadas. Em pequenos trechos de domínio montanhoso da Serra do Mar, nos sistemas hidrográficos dos rios Macabu, Macaé e Imbé são encontradas temperaturas médias entre 15 a 20º C. De acordo com André et al. (2005), a Região Norte pode ser subdividida em dois tipos de clima: um clima subúmido e um clima seco mais ao norte. Dados do RADAMBRASIL (1983) apud Plano Diretor de São João da Barra (s.d) caracterizam o clima quente e úmido por representar temperaturas médias anuais, que variam entre 15 a 31º C, sendo a precipitação média anual em torno de 1.000 mm, apresentando os meses de verão mais chuvosos e os de inverno mais secos, sendo a direção predominante dos ventos sentido Nordeste. A diversidade morfológica variando entre regiões de baixadas, vales e serras, bem como a cobertura vegetal e a distância das fontes de umidade influenciam diretamente na distribuição das precipitações no território do Rio de Janeiro (CIDE, 2003). Dados da estação pluviométrica de Macabuzinho (Gráfico seguinte), localizada no município de Conceição de Macabu, pertencente à Região Norte, apresentam precipitação acumulada anual correspondente à média de 1.236 mm anuais para o período entre 1943 a 2007, sendo que os valores máximos de precipitação superam 2.000m. Esta estação apresenta uma tendência similar a diversas estações da Região, como visto nas estações de Varre-Sai, Santo Antônio de Pádua, Fazenda Oratório, Leitão da Cunha e Maria Mendonça. Já a estação Cardoso Moreira confirma as características mais secas na Região Norte apresentando o menor valor de precipitação acumulada anual, com média para todo o período de 948,6 mm (Coelho Netto et al., 2008)
Gráfico 1 – Estação Macabuzinho, Precipitação Média Mensal e Máxima e Mínima de Chuvas Acumuladas Mensais, Período 1943 a 2007

Fonte: Coelho Netto et al., 2008

Segundo Meneses (s.d.) a Região Noroeste do estado do Rio de Janeiro insere-se no setor semi-úmido do Estado. Isto significa que a estação seca é bastante pronunciada, ocasionando déficit hídrico em toda a Região. Esse cenário ocorre devido à atuação do sistema de
354 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

alta pressão, que provoca uma grande estabilidade atmosférica ao longo de todo o período de outono-inverno, sendo alterada apenas com a entrada de frentes frias. O período de seca coincide com o outono-inverno, sendo o incremento de quantidade de chuvas observadas no período de primavera-verão. Esta situação é provocada pela atuação do Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul. O período de primavera-verão é caracterizado pelo aumento da instabilidade atmosférica e da umidade. Esse período apresenta maior índice de precipitação, que é diretamente influenciado pelo sistema ZACAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). Este sistema tende a provocar grandes quantidades de chuva e, os altos volumes registrados nessa época do ano estão associados à sua ação. A estação meteorológica de Porciúncula apresenta precipitação média anual de 1.246 mm.. De acordo com o Gráfico a seguir pode-se observar que o mês de dezembro apresentou o maior valor médio com 240,6 mm, seguido do mês de janeiro que teve média de 220,7 para o período. Já os valores médios para o período mais seco não ultrapassam os 20 mm mensais (Coelho Netto et al., 2008).
Gráfico 2 – Estação Porciúncula, Precipitação Média Mensal e Máxima e Mínima de Chuvas Acumuladas Mensais, Período de 1943 a 2007

Fonte: Coelho Netto et. al., 2008

Ao se considerar a tendência dos últimos 40 anos, o regime pluviométrico vem diminuindo consideravelmente, inclusive na Região de clima subúmido. A distribuição média anual de chuvas registra baixos índices pluviométricos nas Regiões Norte e Noroeste, com variação entre 750 mm e 1.250 mm anuais (DNMET, 1992). Com relação à evapotranspiração, ETp, para a área de estudo, os menores valores são encontrados nas áreas montanhosas apresentando evapotranspiração anual inferior a 1.000 mm. Em alguns trechos das serras dos sistemas hidrográficos do rio Imbé, Macabu e Macaé, a evapotranspiração anual é inferior a 800 mm. Já nas regiões onde há o predomínio de baixadas e fundos de vale, são observados os maiores valores de ETp anual, com valores superiores a 1.200 mm.

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355

2. 2.1.

BIOMAS E FORMAÇÕES REGIONAIS Mata Atlântica

As Regiões Norte e Noroeste Fluminense estão totalmente inseridas no bioma Mata Atlântica. Esse bioma se estende pelo litoral brasileiro (do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte), e detém uma elevada biodiversidade de espécies da fauna e flora. É um bioma extremamente degradado, reduzido a fragmentos remanescentes, que juntos representam apenas 7% da sua cobertura original (Woehl Jr. et al., s.d.). A ocupação urbana e exploração desordenada de seus recursos foram fatores determinantes para levar o bioma ao elevado grau de degradação presente atualmente (Instituto BioAtlântica, 2009). Em 1808, apenas um milhão de pessoas viviam na Mata Atlântica, e no século XXI esse valor já ultrapassa 100 milhões. Havia também a extração de madeira durante o período de colonização e, posteriormente, o desmatamento para ocupar as áreas com os cultivos da cana-de-açúcar, garimpo de ouro, café e pecuária (Coelho Netto et al., 2008). Devido ao elevado grau de endemismo e o risco de extinção de espécies, o bioma é considerado um dos mais importantes e ameaçados do mundo, sendo considerado um hotspot para conservação. Atualmente, a Mata Atlântica garante o abastecimento de água para mais de 122 milhões de pessoas (mais da metade da população do país), protege encostas de grande declividade servindo como estabilizador geológico, evitando deslizamentos de terra, e atua na composição da paisagem, onde há um grande potencial para o desenvolvimento do ecoturismo (Instituto Bioatlântica, 2009). Nas Regiões Norte e Noroeste Fluminense, a Mata Atlântica atualmente se distribui em pequenos fragmentos remanescentes e nas Unidades de Conservação, sendo elas o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, Parque Estadual do Desengano, Estação Ecológica de Guaxindiba e Reserva Biológica da União, as quais serão tratadas no próximo capítulo. Devido à sua imensa extensão, cortando o litoral brasileiro de norte a sul, vários fatores atuam na formação da Mata Atlântica, tais como a temperatura, frequência de chuvas, altitude, proximidade com o oceano, composição do solo e outros. Esses fatores são determinantes para a variedade de ecossistemas associados à Mata Atlântica, sendo eles: Floresta Atlântica (ocorrência na Serra do Mar), Mata de Araucárias, Campos de Altitude (em regiões de planalto acima de 900 m de altitude), Restingas e Manguezais (região litorânea) (Woehl Jr. et. al., s.d.). Floresta Atlântica Conforme Woehl Jr. et al.(s.d.), a Floresta Atlântica é extremamente heterogênea, apresentando grande biodiversidade. O solo é bem drenado e bastante fértil, suas árvores, variam de 15 a 40 m de altura e possuem folhas largas e sempre verdes, resistindo tanto a períodos de muito calor ou umidade. Estão associadas a essa formação uma grande quantidade de cipós, bromélias, orquídeas e outras epífitas. Mata de Araucárias Este ecossistema, segundo Woehl Jr. et al. (s.d.), é típico da região Sul do Brasil, onde o clima é subtropical com chuvas regulares durante todo o ano e temperaturas baixas. Destaca-se entre as demais espécies da flora, o Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia), também conhecido como Araucária, que pode chegar até 50 m. de altura.

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Campos de Altitude Essa formação é geralmente localizada no alto das serras, com mais de 900 m. de altitude. Segundo Woehl Jr. et al. (s.d.), o solo é caracterizado por ser raso e pedregoso, permitindo assim, apenas o desenvolvimento de plantas de pequeno porte. Já na região entre montanhas, o solo é mais espesso e úmido, devido ao acúmulo de água que escoa das áreas mais altas, formando nascentes. Restingas Woehl Jr. et al. (s.d.) caracteriza as restingas como um ecossistema de relevo plano, localizado próximo às dunas, fora do alcance do mar, sendo constituído por rios lentos e tortuosos. A grande quantidade de matéria orgânica em decomposição presente na água, torna-a avermelhada e de pH ácido. A flora apresenta uma gradativa evolução em direção ao interior, sendo que na região mais próxima ao mar, a vegetação apresenta um porte menor se comparada às espécies da porção mais distante do litoral. A composição da flora é bem diversificada, apresentando árvores, arbustos, trepadeiras, epífitas, samambaias e bromélias (estas se desenvolvem no chão, ocupando extensas áreas). Essa vegetação é caracterizada por possuir folhas ásperas e resistentes, caules duros e retorcidos e raízes com grande capacidade de absorção. Mangues Ecossistema típico de regiões tropicais, os mangues são expostos constantemente ao regime de marés. Sua vegetação, que é adaptada às condições desse ambiente, protege a zona costeira das perturbações atmosféricas, além de impedir processo de erosão, fixando terra em seus domínios. Ao contrário das outras formações florestais, os mangues não apresentam uma grande diversidade de espécies, porém o número de indivíduos é abundante. 2.2. Formações Vegetais Nativas das Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro

As Regiões Norte e Noroeste Fluminense, originalmente, eram totalmente cobertas por formações vegetais associadas à Mata Atlântica. Segundo informações do IBAMA (2010), nas mesorregiões Norte e Noroeste Fluminense predominam três tipos de cobertura vegetal original: as Áreas de Formação Pioneira, a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Ombrófila Densa, como demonstra o Mapa seguinte. As Áreas de Formação Pioneira correspondem a campos nativos, manguezais e vegetação de restinga (arbóreas, arbustivas e herbáceas), predominando ao longo da área costeira, na porção leste do noroeste e compondo grande parte da vegetação do município de Campos dos Goytacazes. A Floresta Estacional Semidecidual predomina sobre toda a Mesorregião Noroeste e nas porções norte e oeste da Mesorregião Norte. A Floresta Ombrófila Densa, por sua vez, recobre grande parte dos municípios de São Fidélis e de Macaé. Ressalta-se que, em áreas altas dessa formação vegetal, como a Pedra do Desengano e o Pico do Frade, ocorrem Campos de Altitude.

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357

Mapa 1 - Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura Vegetal Original

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2.3.

Ação Antrópica Sobre os Ecossistemas Vegetais Nativos

Área de Formações Pioneiras A região da planície costeira, segundo Soffiati (2005) teve seus campos nativos explorados e substituídos por espécies vegetais exóticas cultivadas para a agricultura (cana de açúcar, principalmente) e para a pecuária (forrageiras), e praticamente nenhum remanescente dessa formação pode ser identificado atualmente. Hoje, nem sequer se sabe que espécies vegetais herbáceas medravam nesses campos. O ecossistema formado pela vegetação herbácea nativa foi tão sumariamente erradicado que, nem mesmo a cessação das atividades agropecuárias praticadas na planície aluvial, permitiria a sua auto-regeneração. Trata-se, enfim, de um ecossistema extinto, irrecuperável sem a ação humana de pesquisa refinada e de restauração (Soffiati, 2005). No Norte Fluminense situam-se os dois maiores sistemas de restingas do Estado do Rio de Janeiro. Ao sul, estende-se de Macaé a Quissamã, e ao norte, vai do Cabo de São Tomé à Praia de Manguinhos. A restinga sul, por vários motivos, apresenta um nível de preservação e conservação maior que a restinga norte. Atualmente, a restinga sul é um dos biomas mais estudados do país e, em 1998, foi criado em seus domínios o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, que envolve uma área com vegetação nativa de restingas e lagoas costeiras das mais íntegras do Brasil. O sistema da restinga norte conta com alguns estudos, mas numa escala bem menor. Atualmente não há nenhuma unidade de conservação implantada nessa área. Entretanto, há a intenção de se criar o Parque Estadual de Gruçaí, em São João da Barra e uma APA municipal em São Francisco do Itabapoana. Os manguezais são alvo de ataques predatórios há séculos, entretanto, Soffiati (2005) os considera em estado menos crítico que a vegetação de restinga devido à sua capacidade de auto-regeneração. Floresta Estacional Semidecidual O conjunto vegetacional da Floresta Estacional Semidecidual foi profundamente devastado na Região Norte-Noroeste. A ocupação na área de abrangência dessa formação, destacando-se as bacias do rio Pomba, Muriaé e Itabapoana, teve início na segunda metade do século XVIII, por colonos europeus. Segundo Bergallo et al. (2009), essa colonização foi motivada pela exploração de terras virgens para atividades agropecuárias, dentre as quais se destacam, historicamente, o cultivo de café e a criação de gado bovino. A expansão dessas atividades levou à quase total remoção da cobertura vegetal original, fator que vem agravando a tendência à seca nessas regiões. Floresta Ombrófila Densa A formação Floresta Ombrófila Densa é a menos devastada e ficou resguardada da ação humana por muito tempo por se situar nas encostas e topos da Serra do Mar, locais de difícil acesso no período de chuvas. De acordo com Soffiati (2005) a devastação desse ecossistema se intensificou no século XX, com a abertura de estradas, o que facilitou o acesso a esses locais. Os ecossistemas mais bem protegidos da Região Norte-Noroeste Fluminense são os Campos de Altitude da Pedra do Desengano e do Pico do Frade, devido às dificuldades de acesso e elevada altitude em que se encontram. O Mapa a seguir apresenta a cobertura vegetal remanescente após essas intensas ações antrópicas na Região.
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Mapa 2 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura Vegetal Remanescente

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2.4

Fragmentos Florestais

Região Noroeste A Região Noroeste teve sua cobertura vegetal intensamente alterada, principalmente pela exploração desenfreada das terras para fins agropecuários. Nessa Região, os fragmentos são pequenos e dispersos, e não garantem a conservação ambiental já que sofrem intensos efeitos de borda. O progressivo ressecamento ocasionado pela remoção da cobertura vegetal original é um dos problemas ambientais mais significantes da Região. Segundo Bergallo et al. (2009) a ausência da vegetação de Mata Atlântica também aumenta o risco de erosão, agravado pela ocupação antiga, contínua e sem manejo adequado por atividades agropecuárias. Os municípios que apresentam maior estoque de áreas a preservar nessa região são Cambuci, Porciúncula, Natividade, Varre-Sai e Miracema. Segundo Coelho Netto et al. (2008), o tamanho médio dos fragmentos florestais localizados no Noroeste Fluminense varia de 18 ha no Médio Muriaé (região de Itaperuna e São José de Ubá) a 32 ha na Bacia do rio Carangola (Porciúncula e Natividade) e a distância média entre eles varia de 227 m., no Alto Itabapoana (próximo a Varre-Sai) a 488 m. no Médio Muriaé. A região do Médio Muriaé e Médio Itabapoana constitui-se basicamente por colinas e planícies fluviais, de forma que os pastos de baixa produtividade compõem praticamente a única formação existente, com pequenas áreas de floresta nas proximidades de alguns divisores de água, encontrando-se altamente degradadas. As partes baixas das bacias dos rios Pomba e Muriaé apresentam conectividade ecológica reduzida, com poucos fragmentos florestais e predomínio de pastagens e agricultura, geralmente sobre forte pressão de incêndios e derrubadas. Na região que envolve os municípios de Natividade, Porciúncula e Varre-Sai predomina o relevo montanhoso, fator preponderante na ocorrência de trechos com fragmentos mais próximos. Esses fragmentos possuem alto índice de importância para a conservação da biodiversidade, pois devido à sua proximidade há uma potencialidade para a criação de corredores. Outro trecho que apresenta fragmentos florestais importantes está situado entre os municípios de Lages do Muriaé, Miracema e Cambuci. Nos trechos montanhosos dessa região, os fragmentos se encontram em melhor estado de conservação e apresentam boa propensão para conectividade. Região Norte A Região Norte apresenta fragmentos de Floresta de Ombrófila Densa com grande importância de conservação situados nos municípios de Macaé e Conceição de Macabu e na porção oeste de Campos dos Goytacazes, entorno do Parque do Desengano. Os fragmentos situados em Macaé e Conceição do Macabu representam a região com menor fragmentação florestal, destacando-se pela presença de fragmentos de tamanho médio de mais de mil hectares. Essa região também apresenta a menor distância entre os fragmentos ali existentes (162 m.). A proteção desses fragmentos é de grande importância para a conservação regional, pois a conexão com outros remanescentes auxiliará ainda mais a redução da fragmentação florestal da região.
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Na área de abrangência do Parque do Desengano, os fragmentos florestais têm tamanho médio de 262 ha e uma distância média de 188 m. entre eles. Como a fragmentação é reduzida e a distância entre os remanescentes é pequena, a criação de corredores ecológicos nessa região é fundamental para a expansão da cobertura vegetal do Corredor da Serra do Mar e imediações. As regiões com predomínio de plantio de cana-de-açúcar e pastagem são as de maior fragmentação. Nos municípios de Campos dos Goytacazes e São Francisco do Itabapoana a distância média dos fragmentos varia entre 600 e 925 m. Contribuem para esse resultado, o baixo número de fragmentos e o tamanho reduzido dos mesmos, que pela distância que se encontram praticamente já não conseguem regenerar suas formações florestais naturalmente. Esses fragmentos, devido ao seu tamanho reduzido, sofrem intensamente com o efeito de borda, tornando-se assim pouco ou nada significativos para a conservação florestal. Da porção de Floresta Estacional Semidecidual dessa região, restaram apenas insignificantes fragmentos, sendo o maior de todos, a Mata do Carvão, protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba. No que diz respeito às formações de restinga, segundo Coelho Netto et al. (2008), aproximadamente 24.000 ha são cobertos por esses ecossistemas, que coloniza os cordões arenosos. Tais ecossistemas são de extrema importância para a conservação, pois são trechos únicos de restinga na região e encontram-se entre os mais bem preservados de todo o Estado do Rio de Janeiro. As restingas sofrem intensa pressão, principalmente da especulação imobiliária, que visa a porção do ecossistema que se localiza a beira mar. As restingas localizadas na porção sudeste do complexo deltáico do rio Paraíba do Sul possuem um aliado no que diz respeito à sua preservação, devido à presença do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba. O mesmo não acontece com as restingas da porção nordeste, que não possuem unidades de conservação integral, e mesmo que essa vegetação seja classificada como área de preservação permanente, a sua conservação não está garantida. 2.5 Uso e Ocupação do Solo

As transformações promovidas pela ocupação e atividades humanas desencadearam em alterações profundas na cobertura vegetal da região, assim como demonstrado anteriormente. Dessa forma é de extrema importância compreender o atual uso e ocupação do solo para que se possa propor ações e estratégias de recomposição da cobertura vegetal. Pastagem Os dados levantados por Coelho Netto et al. (2008), demonstram que a Mata Atlântica antes existente, deu espaço principalmente para áreas de pastagens, que ocupam a maior parte da Região Norte-Noroeste (63%, sendo 3% localizados em área de várzea) e estão distribuídas em todos os tipos de relevo. As áreas de pastagem chegam a ser quatro vezes maior que a extensão de florestas, ocupando uma área de aproximadamente 985.000 ha. No entanto, ainda que as pastagens ocupem grandes extensões de terra, não garantem uma grande produção pecuária, uma vez que essas apresentam baixa produtividade (Coelho Netto et al. 2008). De acordo com CIDE (2003), os municípios de Italva (Foto seguinte) e São José de Ubá possuem mais de 90% do seu território transformado em pastagem. Outros 11 municípios (sendo nove da Região Noroeste), como por exemplo, Porciúncula (Foto posterior), apresentam pastagem em mais de 70% do seu território.
362 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Foto 1 – Região Noroeste Fluminense, Italva, Área de Pastagem Margem Direita do Rio Muriaé, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor Foto 2 – Região Noroeste Fluminense, Porciúncula, Área de Pastagem, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor

De acordo com Coelho Netto et al. (2008), a grande extensão de área de pastagem nas regiões Norte e Noroeste do Rio de Janeiro relaciona-se com as amplas planícies e colinas presentes na região, que por serem de fácil acesso ao homem, facilitaram a devastação da vegetação original para a implantação das áreas de pastagens e de usos agrícolas. Na Região Noroeste, há extensas áreas de pastagem inutilizadas por estarem situadas em encostas e topos de morro. O pastejo nesses locais provoca erosão laminar, além de queimar energia do gado ocasionando perdas na produção de carne e leite. Segundo Bergallo et al. (2009), várias áreas dessa região estão altamente degradadas, apresentando-se inaptas para atividades de agricultura e pecuária.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 363

Áreas Agrícolas A área coberta por agricultura representa aproximadamente 11 % da extensão territorial das Regiões Norte e Noroeste. Segundo Coelho Netto et al. (2008), essa área totaliza cerca de 176.400 ha, dos quais quase 174.800 ha são de plantação de cana-de-açúcar. Os municípios localizados na planície costeira se destacam no desenvolvimento dessa atividade agrícola. Pelos dados levantados pela CIDE (2003), os municípios de São Francisco do Itabapoana (57%), Campos dos Goytacazes (39,8%), Carapebus (34%) e Quissamâ (33,1%) apresentam mais de ⅓ do seu território destinado às áreas de cultura. Ao analisar as áreas de pastagem e agricultura em conjunto, praticamente todos os municípios da Região Norte e Noroeste têm mais de ⅔ do seu território destinado a essas práticas, exceto Macaé (59,3%), Quissamã (49%) e São João da Barra (9,9%). Coelho Netto et al. (2008) relata que em mapeamentos anteriores, realizados, em 1995, pela CIDE/GEROE e, em 2006, pela PROBIO, não era possível identificar áreas agrícolas tão extensas, o que pode significar um avanço da cultura de cana-de-açúcar em detrimento das pastagens.
Foto 3 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Plantação de Cana-de-açúcar, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor

Os dados apresentados anteriormente demonstram que a agricultura é um dos principais responsáveis pela supressão vegetal nativa da planície costeira. As plantações substituíram inclusive a vegetação em áreas de preservação permanente como encostas, topos de morro e faixas marginais de rios. Tal procedimento contribui diretamente para o assoreamento dos cursos d’água, erosão, alteração da qualidade das águas dos cursos d’água e afugentamento de espécies da fauna nativa. Segundo Soffiati (2004), a prática predatória da queimada nos canaviais diminui a fertilidade do solo e para compensar essa perda, os plantadores empregam agrotóxicos e fertilizantes químicos que contribuem para a contaminação do solo e dos recursos hídricos.
364 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Vegetação A quantidade de vegetação primária é bastante reduzida, sendo que dentre os diferentes ecossistemas presentes na Mata Atlântica (florestas, mangues, restingas e campos), os municípios da Região Norte são os que apresentam os maiores remanescentes. Segundo INPE/SOS Mata Atlântica (2009), o índice de remanescentes florestais nas regiões Norte e Noroeste é de 8,95%.
Tabela 1 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Porcentagem de Remanescentes Florestais Município Aperibé Bom Jesus do Itabapoana Cambuci Campos dos Goytacazes Carapebus Cardoso Moreira Conceição de Macabu Italva Itaocara Itaperuna Laje do Muriaé Macaé Miracema Natividade Porciúncula Quissamã Santo Antônio de Pádua São Fidélis São Francisco de Itabapoana São João da Barra São José de Ubá Varre-Sai Mata (ha). 31,76 2.007,32 4210,4 24.313,64 281,56 2.103,64 6.144,92 507,52 820,76 3819,6 2371,84 30.100,44 2.741,28 1.847,48 2.047,88 924,64 1.994,32 4583,2 2.237,48 0 905,16 1.752,72 Restinga (ha). 0 0 0 876,36 6281,6 0 0 0 0 0 0 242,28 0 0 0 12.761,56 0 0 3.090,52 7.432,84 0 0 30.685 Mangue (ha) Área Total Remanescente do Município (%) (ha) 0 9.585 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 81,52 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 82 59.844 56.154 403.774 30.696 51.625 34.783 29.665 42.924 110.812 24.978 121.712 30.460 38.671 30.360 71.820 60.461 102.960 11.557 46.126 25.094 18.941 1.413.002 3 7 6 21 4 18 2 2 3 10 25 9 5 7 19 3 4 5 16 4 9 8,95

Total 95.748 Fonte: INPE/SOS Mata Atlântica (2009)

O município de Macaé apresenta os melhores índices de preservação, com 25% de seu território ocupado por remanescentes florestais. Os municípios de Carapebus, Quissamã e São João da Barra apresentam índices de 21%, 19% e 18%, respectivamente. Esses valores se devem principalmente às grandes extensões de restinga ainda existentes na faixa litorânea, pois os outros ecossistemas se encontram em quantidades bem reduzidas.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

365

As formações florestais estão concentradas principalmente nas regiões montanhosas, que comportam a maioria das áreas conservadas de Mata Atlântica do Norte e Noroeste fluminense. Devido ao difícil acesso dessas áreas, a vegetação tende a ser preservada, o que não acontece com as áreas de planícies fluviais. A menor concentração de florestas é encontrada na planície flúvio-marinha, que deu espaço principalmente para a cultura da canade-açúcar.
Foto 4 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Restinga de Porte Arbóreo do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor

Foto 5 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Restinga de Porte Arbustivo e Arbóreo e Lagoa Costeira do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor
366 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Ao contrário da vegetação primária, que se encontra mais reservada na Região Norte Fluminense, a vegetação secundária está em maior proporção na Região Noroeste. Os municípios de Varre-Sai, Porciúncula, Cambuci, Laje do Muriaé e Natividade apresentam formações florestais bem conservadas, principalmente em topos de morro.
Foto 6 – Região Noroeste Fluminense, Varre-Sai, Vegetação Secundária, em Janeiro de 2010

Fonte: Rionor

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

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Mapa 3 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Cobertura do Solo, 2007

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

2.6

Corredores Ecológicos

A Fundação CIDE, atual Fundação CEPERJ – Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro, elaborou em 2003, a partir do Índice de Qualidade dos Municípios – IQM Verde II, uma metodologia para geração de corredores ecológicos, de forma a interligar os fragmentos florestais encontrados no território fluminense. Os fragmentos foram identificados a partir de imagens LANDSAT e confrontados com o Mapa de Uso e Cobertura do Solo elaborado pelo CIDE, em 2001, para definição da viabilidade dos corredores. Cada fragmento foi representado geometricamente por um polígono fechado. O corredor foi definido como o menor segmento de reta que une dois desses polígonos, sendo que o comprimento máximo de um corredor ecológico adequado à realidade fluminense é de 2000 m., de acordo com critérios físico-ambientais e econômicos estabelecidos. Baseando-se no Mapa de Uso e Cobertura do Solo foram eliminados os corredores que transpassam barreiras para sua implantação, como áreas urbanas, represas, lagoas e grandes cursos d’ água. Campos/pastagens e solos expostos não constituem barreiras para a implantação de corredores de acordo com essa metodologia. Eliminados os corredores com barreiras, foram gerados buffers com 100 m. de largura para cada lado em cada corredor. Sendo assim, assumiu-se que, inicialmente, cada corredor criado ou a ser criado teria uma largura de 200 m.. A Figura seguinte apresenta os corredores ecológicos propostos (linhas vermelhas) pela Fundação CIDE para as regiões Norte e Noroeste Fluminense. Ressalta-se que a área identificada no canto esquerdo inferior da figura não representa a área em estudo (área hachurada).
Figura 2 – Corredores Ecológicos Propostos

Fonte: CIDE (2003)
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 369

A Tabela seguinte indica a área sugerida para reflorestamento a partir da implantação de corredores ecológicos em cada um dos municípios das regiões Norte e Noroeste Fluminense, de acordo com a metodologia adotada pelo CIDE.
Tabela 2 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Área Sugerida para Reflorestamento (com Viabilidade Ambiental e Econômica) Municípios das Regiões Norte e Noroeste Fluminense Miracema Varre-Sai Porciúncula Laje do Muriaé Santo Antônio de Pádua Italva Itaocara Macaé Cambuci Bom Jesus do Itabapoana Itaperuna São Fidélis Campos dos Goytacazes Natividade São José de Ubá Cardoso Moreira São Francisco de Itabapoana Carapebus Conceição de Macabu Aperibé São João da Barra Quissamã Total Fonte: CIDE (2003) Área Sugerida para Reflorestamento (há) 4.410,18 2.769,82 3.268,57 2.694,81 4.899,22 2.285,30 2.483,08 6.239,48 2.809,03 2.986,68 3.982,15 3387,88 10.795,52 894,49 486,02 618,11 1.167,87 295,91 180,76 47,36 137,78 20,53 56.860,55 Área Municipal Sugerida para Reflorestamento (%) 14,63 14,47 10,97 10,78 8,05 7,78 5,81 5,10 5,02 4,93 3,6 3,28 2,68 2,3 1,94 1,2 1,03 0,99 0,53 0,51 0,3 0,03 -

Segundo CIDE (2003), os custos para o poder público recuperar um hectare de floresta são estimados em U$1.500,00 (mil e quinhentos dólares), sendo que este valor é variável de acordo com as condições do terreno, solo, espécies a serem utilizadas, etc. A estratégia de parceria entre o Governo, comunidades, setor privado e ongs, de acordo com o CIDE (2003) pode reduzir esses custos a R$ 800,00/ha (oitocentos reais por hectare). Além da redução dos custos, tal estratégia é de extrema importância para que sejam asseguradas as condições de manutenção, proteção e replantio.
370 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

2.7

Zoneamento Ecológico Econômico – ZEE

O Zoneamento Ecológico-Econômico, ZEE, tem sido a proposta do Governo Brasileiro para subsidiar as decisões de planejamento social, econômico e ambiental do desenvolvimento e do uso do território nacional em bases sustentáveis. A Lei Estadual n° 5.067, aprovada em 9 de julho de 2007, regulamentou o Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Rio de Janeiro e conferiu competência à Secretaria de Estado do Ambiente, SEA/RJ, para coordenação da elaboração e implementação do projeto, em conjunto com as Secretarias de Estado de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão e Secretaria de Estado de Obras (SEA/RJ, 2010). Inicialmente, a SEA/RJ contratou o Departamento de Geografia da UFRJ, por intermédio da COPPETEC, para realizar um diagnóstico ambiental do Estado, de forma a subsidiar a elaboração do ZEE. O estudo, intitulado “Análise e Qualificação Sócio-Ambiental do Estado do Rio de Janeiro (escala 1:100.000) - subsídios ao Zoneamento Ecológico-Econômico” foi coordenado pela professora titular Ana Luisa Coelho Netto e teve sua publicação em outubro de 2008. O referido estudo associado ao Estudo de Favorabilidade das Terras do Estado do Rio de Janeiro a Múltiplos Usos na escala de 1:100.000 (previsto para dezembro 2009) dará o embasamento técnico às indicações do Zoneamento Ecológico-Econômico do território do Estado do Rio de Janeiro previsto pela Lei 5067/07. Segundo a SEA/RJ (2010), as consultas públicas serão realizadas à medida que as indicações do zoneamento por região hidrográfica do Estado forem concluídas. 2.8 Projeto Gerenciamento Integrado de Agroecossistemas em Microbacias Hidrográficas do Norte e Noroeste Fluminense – RIO RURAL GEF

A Secretaria de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro – SEAPPA através da Superintendência de Desenvolvimento Sustentável, SDS, desenvolve como estratégia piloto o Projeto Gerenciamento Integrado de Agroecossistemas em Microbacias Hidrográficas do Norte e Noroeste Fluminense – RIO RURAL GEF. O Projeto abrange 24 municípios e 50 microbacias hidrográficas, trabalhando em prol do desenvolvimento rural sustentável. O investimento total durante os cinco anos de projeto é de R$ 34 milhões. Em execução, desde 2006 até o ano de 2010, o RIO RURAL GEF tem como objetivo contribuir para a diminuição das ameaças à biodiversidade, o aumento dos estoques de carbono na paisagem agrícola e a inversão do processo de degradação das terras em ecossistemas críticos e únicos de importância global da Mata Atlântica do Norte-Noroeste Fluminense. Para atingir tal objetivo, o Projeto traz como princípios e inovações: i) a metodologia da microbacia reconhecida enquanto projeto ambiental, ii) o engajamento das comunidades das microbacias na conservação da biodiversidade, iii) a integração de políticas públicas, iv) o conceito de auto-gestão sustentável dos recursos naturais, grupos de autogestão, planos de negócios sustentáveis, v) Estatutos Comunitários de Conduta (ECC), vi) co-financiamentos e sustentabilidade econômica, vii) integração dos Planos Executivos de Microbacias (PEMs) aos Planos de Bacia (SEAPPA, 2009). As principais metas desse projeto até sua conclusão, ao final de 2010 são: • 32.000 ha de terras manejadas adequadamente; • 1.440 ha de matas ciliares reabilitadas;
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 371

• • • • • • • • •

1.280 ha reflorestados em forma de mosaicos de corredores ecológicos; 2 microbacias por município e 3 microbacias com monitoramento completo; 4.000 agricultores beneficiados diretamente; 2.400 agricultores com incentivos; 100 grupos autogestionados de agricultores familiares; 25 Estatutos Comunitários de Conduta (ECC) para uso dos recursos naturais elaborados; 25.000 beneficiários em eventos de difusão e 12.900 beneficiários capacitados em manejo sustentável; 100 professores capacitados (educação ambiental); 4.000 alunos de escolas municipais envolvidos em 25 projetos de educação ambiental.

Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável em Microbacias Hidrográficas do Estado do Rio de Janeiro - RIO RURAL BIRD Devido ao sucesso na experiência do Projeto RIO RURAL GEF, o Governo do Estado do Rio de Janeiro negociou com o BIRD um financiamento de forma a ampliar a área de abrangência e complementar as intervenções desse Projeto com novas estratégias, a fim de promover a transformação necessária para alcançar de forma efetiva o desenvolvimento sustentável da população rural fluminense. O valor total do Projeto soma cerca de US$ 79 milhões, sendo que o Banco Mundial financiará US$ 39,5 milhões cabendo ao Estado do Rio de Janeiro, o montante de US$ 26,4 milhões, e o restante, US$ 13,1 milhões a cargo dos demais co-financiadores Governo Federal e Beneficiário (SEAPPA, 2009). O início das atividades desse Projeto está previsto para o início de 2010 e terá duração até o ano de 2015. O Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável em Microbacias Hidrográficas do Estado do Rio de Janeiro - RIO RURAL BIRD atuará principalmente nas regiões Serrana, Norte e Noroeste Fluminense, envolvendo cerca de 270 microbacias e 59 municípios. De acordo com a SEAPPA (2009), as principais metas a serem alcançadas nesse Projeto são: • 270 microbacias hidrográficas selecionadas e participando do Projeto, envolvendo 37.000 agricultores, pescadores artesanais, mulheres e jovens rurais; • 19.000 agricultores familiares adotando sistemas mais produtivos; • 2.050 agricultores familiares, mulheres, jovens rurais, pescadores artesanais inseridos em pelo menos uma cadeia produtiva ou arranjo produtivo local; • 27.000 propostas de investimento elaboradas e 24.400 financiadas com recursos do Projeto; • 266.000 hectares de terras sob sistemas produtivos melhorados e 1.300 km de estradas vicinais reabilitadas e em manutenção; • 400 técnicos e 50.000 beneficiários treinados e 220 projetos de educação ambiental apoiados; • 1 Plano de Sustentabilidade Institucional da SEAPPA e vinculadas formulado e 10 projetos de fortalecimento institucional priorizados e financiados; • 4 arranjos de cooperação com entidades governamentais do setor rural e 4 com entidades multisetoriais estabelecidos em apoio ao Desenvolvimento Rural Sustentável (DRS); • Sistema de Sustentabilidade Econômica estabelecido e aportando recursos financeiros para 45 projetos DRS junto a comunidades rurais; • Sistema de Pesquisa em Rede estabelecido e desenvolvendo 42 projetos de pesquisa participativa;
372 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

• •

Sistema de Monitoramento e Avaliação implementado, sendo 5 microbacias sob sistema completo e 270 microbacias sob monitoramento participativo; Sistema de gestão da informação implantado nos níveis central, regional, municipal e local e disseminando conhecimento e informações em apoio ao DRS através do Portal www.microbacias.rj.gov.br. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

3.

Uma das formas mais reconhecidas e utilizadas para garantir a conservação da diversidade biológica são as chamadas Unidades de Conservação – UCs. No Brasil, as Unidades de Conservação foram consolidadas pela Lei Federal n.o 9.985, de 18 de julho de 2000 (BRASIL, 2000), que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, SNUC. De acordo com essa lei, as UCs dividem-se em dois grupos, sendo estes as Unidades de Proteção Integral e as Unidades de Uso Sustentável. As Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro não apresentam um número significativo de Unidades de Conservação. Estão implantadas apenas quatro UCs federais ou estaduais na área de abrangência do estudo, sendo todas de Proteção Integral. Ressalta-se que as RPPNs não estão incluídas nesse cômputo, pois estas serão abordadas num tópico adiante. A Região Noroeste é caracterizada por fragmentos remanescentes pequenos e dispersos e, segundo Bergallo (2009), a fauna desta região é muito pouco conhecida. Esta Região não possui qualquer UC de Proteção Integral, quer federal ou estadual, totalmente inscrita em seus limites. Apenas uma pequena porção do Parque Estadual do Desengano alcança o município de São Fidélis. A única UC de Uso Sustentável nessa Região é a RPPN Reserva Florestal Eng° João Furtado de Men donça. Na Região Norte, estão localizadas quatro UCs de Proteção Integral, sendo estas a Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, o Parque Estadual do Desengano e a Reserva Biológica da União. Vale ressaltar que o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, o Parque Estadual do Desengano e a Reserva Biológica da União possuem conselho gestor e plano de manejo.
Tabela 3 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Unidades de Conservação Federais e Estaduais Municípios São Francisco do Itabapoana Campos dos Goytacazes, Santa Maria Madalena e São Fidéles Macaé, Casimiro de Abreu e Rio das Ostras Quissamã, Carapebus e Macaé Fonte: IEF - RJ, 2008 UCs Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba Proteção

Unidade de Proteção Integral - Estadual Unidade de Proteção Parque Estadual do Desengano Integral - Estadual Unidade de Proteção Reserva Biológica da União Integral - Federal Parque Nacional da Restinga de Unidade de Proteção Jurubatiba Integral - Federal

Quanto às UCs municipais destaca-se a APA do Sana, localizada no município de Macaé, que conta com plano de manejo e conselho gestor.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

373

Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba A Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, segundo o INEA (2010 b), foi criada por meio do Decreto Estadual n° 32.576 de 30 de dezembro de 2002, possui área equivalente a . 3.260 ha estando localizada no município de São Francisco de Itabapoana, nos domínios da fazenda São Pedro de Alcântara, onde a mesma é conhecida nacionalmente como Mata do Carvão, devido ao fato da existência de vários fornos de carvão em seu interior. A Estação não é aberta para a população em geral, uma vez que seu objetivo é a preservação da natureza bem como à realização de pesquisas científicas. Possui vegetação de floresta estacional semidecidual (tipologia de Mata Atlântica), e apresenta o último remanescente de Mata de Tabuleiro da Região Norte e Noroeste Fluminense (INEA 2010 b). O fragmento de Mata de Tabuleiro representa 1200 ha da área total da Estação (Silva & Nascimento, 2001).
Foto 7 – Região Norte Fluminense, São Francisco de Itabapoana, Vista Aérea da Estação de Guaxindiba

Fonte: INEA, 2010 b

Parque Estadual do Desengano Criado através do Decreto-Lei Estadual nº. 250, de 13 de abril de 1970, o Parque Estadual do Desengano (PED) possui 224 km², e abrange os municípios de Santa Madalena, São Fidélis e Campos dos Goytacazes. O Plano de Manejo do PED foi aprovado pela extinta Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF-RJ), em 2005. Este Parque apresenta notável beleza cênica, com inúmeros picos rochosos e cobertura vegetal contínua, representando de forma fidedigna o bioma Mata Atlântica. Devido à sua variação altitudinal e cobertura vegetacional, o Parque Estadual do Desengano é considerado como região estratégica para a proteção da diversidade biológica (Camphora, 2009 a). A vegetação encontrada no Parque varia de acordo com suas altitudes. Nas terras até 500 m. de altitude, ocorre a formação de Floresta Ombrófila Densa Submontana. Entre as altitudes de 500 a 1.500 m., predomina a Floresta Ombrófila Densa Montana. Nas altitudes acima de 1500 m., ocorrem geralmente os campos de altitude.
374 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Sua diversificada avifauna pode ser dimensionada em, pelo menos, seis grupos distintos, que abrangem a maioria das espécies listadas no sudeste brasileiro (Camphora, 2009 a). Das 283 espécies de avifauna encontradas nos campos de altitude, 22 são endêmicas e ocorrem em populações reduzidas (IEF-RJ, 2010). O Parque Estadual do Desengano apresenta grande importância hídrica para o Norte Fluminense, pois nele estão localizadas diversas nascentes de cursos d’água responsáveis pelo abastecimento de núcleos e povoados existentes nos municípios de São Fidelis, Campos e Santa Maria Madalena. Destaca-se o fato de haver inúmeras cachoeiras em seu interior, dentre elas, a Vernec, Bonita e Tombo d’água. Os principais cursos d’água que transpassam o Parque são o rio Grande e seus afluentes, ribeirões Macapá e Santíssimo, rio do Colégio e os rios Segundo do Norte, Morumbeca, Aleluia e Mocotó, afluentes do Imbé que deságua na Lagoa de Cima e flui para a Lagoa Feia, através do rio Ururaí. Como medida de compensação Ambiental pela instalação da Termoelétrica El Paso, no ano de 2004, o Parque Estadual do Desengano passou por um processo de modernização. Foram efetuadas melhorias em suas instalações, como a construção de um Centro de Visitantes contemplando estruturas como biblioteca, anfiteatro, auditório e áreas de lazer. Também foi realizado o projeto de Consolidação do PED, através da realização do Plano de Manejo bem como o Programa de Educação Ambiental e Práticas Sustentáveis.
Foto 8 – Região Norte Fluminense, São Fidélis e Campos dos Goytacazes, Pico do Desengano

Fonte: Ambiente Brasil

Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba O Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba localiza-se ao longo do litoral nordeste do Estado do Rio de Janeiro, representando o trecho de restinga melhor conservado de toda a costa fluminense. Esta área, de valor ecológico ímpar, situa-se nos municípios de Macaé, Carapebus e Quissamã, na Região Norte Fluminense, Microrregião Geográfica de Macaé (IBAMA, 2005 b).
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 375

Criado em 29 de abril de 1998, possui uma área de 14.880 ha, locadas nos municípios de Carapebus, Macaé e Quissamã. Segundo IBAMA (2005 a), aproximadamente 65% do Parque está localizado no município de Quissamã, 35% em Carapebus e 1% em Macaé. O Conselho Gestor do Parque foi criado em 2002, pela Portaria 97/02-N e no ano de 2008, foi aprovado seu Plano de Manejo. A área do Parque abrange planícies fluviais e planícies marinhas. No que diz respeito à vegetação, predominam as restingas e a vegetação herbácea, sendo esta esparsa, secundária, inundada ou nativa. Os ecossistemas lagunares costeiros destacam-se nessa UC e têm uma íntima relação com os ecossistemas de restinga ali presentes. Ao todo, são 24 lagoas, das quais destacam-se a Lagoa de Jurubatiba, de Carapebus e do Campelo, esta última situada na zona de amortecimento do Parque. Outros recursos hídricos de extrema importância para a manutenção do equilíbrio ecológico são o Rio Macaé, o Rio Paraíba do Sul, o Canal Campos-Macaé e todo o sistema de drenagem que abastece as diversas lagoas. De acordo com IBAMA (2005 a), as principais atividades conflitantes para esse Parque são: • Pesca de subsistência; • Despejo de efluentes domésticos e da indústria açucareira na Lagoa de Carapebus; • Estação de tratamento de esgoto na área do Parque, em Quissamã; • Atividade pecuária no interior do Parque; • Presença de cercas e porteiras de propriedades particulares; • Presença de pessoas no interior do Parque; • Dutos: emissário da TRANSPETRO cortando o Parque em 10 km.
Foto 9 – Lagoa de Jurubatiba

Fonte: Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

O Parque tem grande importância para a fauna, uma vez que serve de refúgio para várias espécies, entre elas o papagaio Chauá, que se encontra extinto em outras restingas, algumas espécies endêmicas de borboletas, a existência de aves aquáticas residentes e migratórias, lontras e o jacaré-de-papo-amarelo (IBAMA, 2004). Deve ser destacado que os ecossistemas aquáticos e terrestres do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba são pesquisados e investigados por diversas universidades, destacando-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. As pesquisas realizadas têm como base principal o Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé, da UFRJ (NUPEM/UFRJ), uma unidade de pesquisa, ensino e extensão do Instituto de Biologia desta Universidade.

Reserva Biológica União No ano de 1996, com a privatização da Rede Ferroviária Federal AS. (RFFSA), que era proprietária das terras, a qual utilizava para o plantio de madeira objetivando o suprimento de carvão para as máquinas, e posteriormente o plantio de eucalipto para a produção de dormentes, o IBAMA juntamente com Instituições Científicas, ONGs e conservacionistas de várias nacionalidades solicitaram junto ao Governo Federal a transformação da área em unidade de conservação (BRASIL, 2004). Criada por meio de Decreto Federal s/nº em 22 de abril de 1998, a Reserva Biológica União tem como objetivo preservar os fragmentos de Mata Atlântica existentes na região, bem como as espécies que dela dependem. A Reserva possui 3.126 ha e está localizada nos municípios de Rio das Ostras (52,4%), Casimiro de Abreu (47,3%) e Macaé (0,3%) Os principais usos conflitantes que afetam a unidade e seu entorno são as linhas de transmissão de energia elétrica de Furnas, o gasoduto da Petrobrás, a rodovia BR-101 e uma ferrovia. A unidade abriga várias espécies endêmicas tais como o Mico-Leão-Dourado, a Preguiça Coleira dentre outras. Essa Reserva possui visitação pública apenas em caráter educacional ou científica, uma vez autorizada pelo órgão responsável por sua administração.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

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Mapa 4 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Unidades de Conservação

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

3.1

Reserva Particular do Patrimônio Nacional - RPPN

A Reserva Particular do Patrimônio Nacional – RPPN é uma unidade de conservação criada em área privada, gravada em caráter de perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica. A criação de uma RPPN é um ato voluntário do proprietário, que decide constituir sua propriedade, ou parte dela, em uma UC, sem que isto ocasione perda do direito de propriedade (ICMBio, 2010) As RPPNs são de extrema importância na participação da iniciativa privada no intuito de conservar e proteger a biodiversidade do país. Constituem uma alternativa de rápida ampliação das áreas protegidas, alem de serem facilmente criadas e apresentarem ótimos índices custo/benefício. Na área sob estudo, de acordo com o ICMBio (2010), existem três RPPNs de domínio federal, sendo uma na Região Noroeste, no município de Natividade, e duas na Região Norte, no município de Macaé.
Tabela 4 – Relação das RPPNs de Domínio Federal, 2010 Nome da Reserva Fazenda Barra do Sana Sítio Shangrilá Reserva Florestal Eng° João Furtado de Mendonça Fonte: ICMBio, 2010 Município Macaé Macaé Natividade Área (ha) 162,40 86,00 75,50 Portaria Proprietário

065/99 Gildo Shueler Vieira 156/98 - N Mônica Jatoba Carvalho Lucélia B. Castro 09/2008 Mendonça

3.2

Criação de RPPNs

O Estado do Rio de Janeiro possui um decreto específico para a criação de Reserva Particular do Patrimônio Natural - RPPN. O Decreto n° 40 .909, de 17 de agosto de 2007, estabelece critérios e procedimentos administrativos para a criação dessas unidades de conservação, que foram definidas como sendo de proteção integral. Após a sanção desse decreto, o extinto IEF-RJ, criou um Núcleo de RPPN, auxiliando àqueles que quisessem voluntariamente transformar sua propriedade em uma RPPN. Em junho de 2008, foi instituído o Programa Estadual de RPPN. Até o final de 2009, segundo dados da Diretoria de Biodiversidade e Áreas Protegidas – DIBAP/INEA foram abertos 58 procedimentos administrativos para criação de RPPN, totalizando 2.207 ha de áreas protegidas. Nas Regiões Norte e Noroeste do Estado, apenas uma RPPN estadual foi criada até o momento, a RPPN Boa Vista e Pharol, localizada em Santo Antônio de Pádua, com 8 ha de extensão. Entretanto, há outras em análise, sendo 4 em Varre-Sai, 1em São Fidélis e 1 em Conceição de Macabu. Um ponto importante para o sucesso do Programa Estadual de RPPNs foi o Termo d e Cooperação Técnica, TCT, firmado em 2008, entre o IEF/RJ e a Associação do Patrimônio Natural, APN, sociedade civil que congrega os proprietários de RPPNs do Estado, visando apoiar a implantação desse Programa (Guagliardi, 2009).
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 379

Atualmente, a APN vem atuando em um movimento de criação de leis municipais de incentivo à criação de RPPNs no noroeste fluminense. O município de Miracema criou o Decreto n° 169, de 13 de agosto de 2009, que estabelece cri térios e procedimentos administrativos para a criação de RPPNs, além de estímulos e incentivos para sua implementação. O município de Natividade, segundo técnicos da Municipalidade, também possui um Projeto de Lei para incentivar a criação de RPPNs e destinar parte do ICMS Ecológico arrecadado pelo Município aos proprietários dessas unidades de conservação. De acordo com Guagliardi (2009), está sendo elaborado um TCT, entre o INEA e a Associação Mico-Leão- Dourado, o Instituto Terra de Preservação Ambiental e o Instituto BioAtlântica. O referido TCT objetiva apoiar a criação de RPPNs estaduais mediante a adoção de ações específicas para este fim. Para tanto, a cláusula primeira do TCT estabeleceu a meta de atingir 10 (dez) mil hectares de RPPNs estaduais efetivamente criadas, no período de 2 (dois) anos. 3.3 Propostas de Criação de Unidades de Conservação

Com o intuito de atender sugestões e demandas encaminhadas pela sociedade civil organizada e assegurar a conservação da diversidade biológica e dos recursos naturais, o INEA contratou a execução de estudos para implantação ou ampliação de UCs no Estado do Rio de Janeiro. Tais estudos foram publicados em fevereiro de 2009. Os estudos que contemplam as Regiões Norte e Noroeste fluminense são: • Justificativa de Ampliação do Parque Estadual do Desengano; • Justificativa de Criação do Parque Estadual da Serra do Monte Verde; • Justificativa de Criação da Reserva de Fauna do Domínio das Ilhas Fluviais do Rio Paraíba do Sul. Além dos estudos citados, a implantação do Parque Estadual de Gruçaí encontra-se em estágio avançado, segundo o INEA. O estudo de demarcação da área já foi finalizado e serão realizadas audiências públicas em São João da Barra e Campos dos Goytacazes antes da assinatura do governador para a criação do parque. O Parque Estadual de Gruçaí será o maior parque de restinga do mundo, com cerca de 19.000 hectares de extensão. Essa unidade de conservação vem a ser implantada com o intuito de preservar e conservar áreas úmidas e de restinga que poderiam vir a ser degradadas com a implantação do Parque Industrial em São João da Barra. A unidade de conservação será formada por dois setores, situados no entorno do parque industrial, sendo estes, o Setor Sul, com 9.760,73 hectares e o Setor Norte, abrangendo 9137 hectares.

4.

ÁREA LITORÂNEA

A Região Norte do Estado do Rio de Janeiro é composta pelos municípios de Campos dos Goytacazes, Carapebus, Cardoso Moreira, Conceição de Macabu, Macaé, Quissamã, São Fidélis, São Francisco de Itabapoana e São João da Barra. Segundo Esteves et al. (2002), essa Região apresenta área total de 12.340 km2 e população de aproximadamente 654.000 habitantes. Os municípios pertencentes à área litorânea são: Macaé, Carapebus, Campos dos Goytacazes, Quissamã, São João da Barra e Francisco de Itabapoana.
380 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

De acordo com Esteves et alii (2002), as planícies litorâneas estão associadas a cordões litorâneos paralelos a linha de praia, conseqüência da alteração do nível do oceano. Esses cordões arenosos formam um grande mosaico de ecossistemas associados a diferentes tipos de vegetação e presença de lagoas nas depressões entre os cordões. Este cenário ocorre devido ao resultado de fatores ambientais locais, tais como topografia, proximidade do mar, condições climáticas e dos solos. O Norte Fluminense apresenta uma extensa área de restinga com cerca de 300 km2. As peculiaridades físicas e biológicas dessa Região foram reconhecidas, em 1992, pela UNESCO como reserva da biosfera, através da criação do Parque Nacional de Jurubatiba em 29 de abril de 1998. Abrangendo cerca de 14.860 há a primeira Unidade de Conservação Federal em restingas, abrange parte dos municípios de Macaé, Quissamã e Carapebus. Além das restingas e lagoas dominantes na costa da Região Norte do Estado do Rio de Háneiro encontra-se também o manguezal, considerado um ecossistema de grande importância ecológica. De acordo com Bernini (2003), os mangues localizam-se intercalados entre as faixas arenosas e terrenos superficialmente argilosos, podendo ser observados nos municípios de São João da Barra e São Francisco do Itabapoana. Bernini (2003), classifica o manguezal do estuário do rio Paraíba do Sul como o maior da Região Norte Fluminense, com aproximadamente 800 há, cuja floresta é constituída predominantemente por Avicennia germinans, Laguncularia racemosa e Rhyzophora mangle. Este manguezal tem sido alvo de reqüentes ações de degradação, como atividade extrativista, invasão pela pecuária, urbanização, obras de drenagem efetuadas no canal principal e abertura de novos canais. Há ainda a caça predatória do caranguejo Ucides cordatus mediante a disposição de pequenas redes nas bocas das galerias, prática que não distingue macho de fêmea, ou mesmo o adulto do jovem, desequilibrando as populações da espécie.

4.1

Aspectos Naturais

De acordo com FIDERJ (1977) apud Seeliger et al. (2002) o clima da área litorânea é caracterizado como quente e úmido nas áreas de baixada. A temperatura média mínima é de 18,7ºC com mínima absoluta de 6,4ºC para o período entre os anos de 1931 a 1970. A temperatura máxima média para esse mesmo período é de 27,7ºC sendo a máxima absoluta de 39ºC. De acordo com Esteves (1998), na planície costeira predominam rochas do embasamento cristalino datadas do Pré-Cambriano, que por sua vez foram invadidos pelo mar, formando numerosas lagunas. A ingressão máxima do mar foi demarcada por uma linha de falésias entalhada nos sedimentos da Formação Barreiras. Entretanto, ocorreu na área litorânea um rebaixamento do nível do mar verificando-se a construção de terraços arenosos recobertos por cordões litorâneos. Assim, os cordões litorâneos são classificados do ponto de vista geomorfológico como restingas (Fotos seguintes).

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

381

Foto 10 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Restingas Associadas aos Sistemas Lagunares, nas Proximidades da Praia de São Tomé

Fonte: IBAMA/PETROBRAS, 2004 Foto 11 – Região Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes, Restingas Localizadas nas Proximidades da Praia de São Tomé

Fonte: IBAMA/PETROBRÁS, 2004

Guerra (2008) caracteriza as restingas como faixas paralelas de depósitos sucessivos de areias, onde é possível identificar lagoas resultantes do represamento de antigas baías, além de pequeninas lagoas formadas entre as diferentes flechas de areias, dunas resultantes do trabalho do vento sobre a areia da restinga e formação de barras obliterando a foz de alguns rios.
382 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Com relação aos solos a planície costeira apresenta solos formados por areias quartzosas marinhas, associando-se, às vezes aos solos orgânicos, semi-orgânicos, glei-húmicos, deixando clara a influência dos rios também nessa planície (Henriques et al., 1986). No que diz respeito à fertilidade dos solos a área litorânea apresenta em geral baixa capacidade de retenção de umidade e terras impróprias para cultura, pastagem ou reflorestamento. Estas áreas são indicadas para a recreação e como áreas de preservação porque atuam como proteção natural contra ação erosiva do mar e dos ventos (Esteves et al., 2002). Nas planícies litorâneas, é comum a presença dos manguezais que, de acordo com Guerra (2008) são caracterizados como terrenos baixos, junto à costa, sujeitos a inundações das marés. Esses terrenos são, quase que totalmente, constituídos de vasas (lamas) de depósitos recentes. As formações nativas de manguezais são encontradas nas embocaduras dos rios Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé e nas lagunas de Guriri, de Buena, de Manguinhos, de Grussaí, de Iquipari e do Açu, na ilha da Carapeba, em Campos dos Goytacazes, e na Fazenda São Miguel, em Quissamã (Soffiati, 2003). No que diz respeito às formações fisionômicas e tipos de vegetação ocorrentes na área litorânea, Araújo et al. (1998) apud Esteves et al. (2002) descreveram e as classificaram da seguinte forma: Halófitas e psamófitas reptantes localizam-se na faixa de vegetação que tem início junto à praia. Nesta formação as espécies mais abundantes são: Blutaparon portulacoides, Panicum racemosum e Sporobolus virginius. A formação localizada pós-praia apresenta fisionomia arbustiva fechada com presença de vegetação arbustiva lenhosa representada por espécies tais como: Scutia arenicola e Sideroxylon obtusifolium e herbáceas como Bromelia antacantha e Cereus fernambucensis. Já a formação Clusia é constituída por moitas densas de variados tamanhos, intercaladas por espaços de areia com vegetação esparsa onde encontram-se espécies como a Clusia hilariana e Erythroxylum subsessile. A formação arbustiva aberta de Ericaceae é dominada por moitas de vários tamanhos e formatos irregulares, apresentando corredores de vegetação herbácea, densa e esparsa, ou indivíduos isolados de Allagoptera arenaria. Nas áreas abertas, nota-se predominância de espécies de Aechmea nudicaulis e Cereus fernambucensis. A mata que representa a faixa de areia situada entre os cordões arenosos, sujeita a inundação durante a época das chuvas, em função do afloramento do lençol freático, apresenta espécies vegetais de vegetação arbórea, arbustiva, palmitos e palmeiras. Já na mata do cordão arenoso, são encontradas espécies do tipo Eriotheca pentaphylla, Aspidosperma parvifolium, Couepia schottii, dentre outras. Esta mata forma um rico estrato arbóreo e vem sofrendo evidentes sinais de ação antrópica pelo resultado da atividade madereira. A formação arbustiva aberta de Palmae situa-se na região pós-praia ou onde o extrato arbóreo foi removido. Nesta formação, é possível identificar espécies como a palmeira Allagoptera arenaria, dentre um total de aproximadamente 69 espécies. A formação típica das áreas marginais e braços das lagoas é constituída por herbácea brejosa. As espécies mais encontradas são Cladium jamaicense, Sagttaria lanciofolia, Typha domingensis e algumas gramíneas.
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No que diz respeito à bacia da Lagoa Feia, a vegetação nativa é formada por ilhas de matas e grandes extensões de campos periodicamente inundados. As matas, campos e florestas formavam um mosaico com os lagos e terrenos alagados. As florestas eram constituídas por uma vegetação herbácea de gramíneas, ciperáceas e outras ervas. 4.2 Lagoas Costeiras

Como dito anteriormente, a área litorânea da região Norte do Rio de Janeiro apresenta diversas lagoas e lagunas situadas em praticamente toda a extensão costeira, da foz do rio Macaé até a foz do rio Itabapoana. Segundo Bidegain et al. (2002), esses sistemas lagunares são resultantes de um movimento oceânico de avanço e retrocesso datado de 5.100 anos atrás. A elevação do nível do mar constituiu ilhas-barreiras, isolando antigos terraços marinhos do contato direto com o mar aberto. Surgiram então lagunas, atrás do cordão de ilhas-barreiras. O rebaixamento do nível relativo do mar ensejou a construção de novos terraços marinhos a partir das ilhas-barreiras, verificando-se a transformação das lagunas em lagos de água doce. Soffiati (1998) classifica os sistemas lagunares do Norte Fluminense em três categorias. A primeira engloba as lagoas de tabuleiro, no geral cursos d’água barrados pelos transbordamentos periódicos dos rios coletores (particularmente o Muriaé e o Paraíba do Sul) ou por cordões de restinga. Algumas das principais lagoas desta região são as da Onça (entre o tabuleiro e o planalto), do Vigário, do Taquaruçu e de Cima. O segundo conjunto é o constituído pela lagoas da planície aluvial. A maior de todas é a celebrada Lagoa Feia, em parte formada por restinga. O terceiro conjunto consiste nas lagoas da planície de restinga, com destaque para as de Imboacica, de Jurubatiba, de Carapebus, de Iquipari, de Grussaí, e do Campelo (esta no encontro da restinga com o tabuleiro). Durante anos, estas lagoas vem sofrendo diversas intervenções humanas que tem diminuído seus espelhos d’água, modificado a hidrodinâmica do sistema lagunar e alterado a qualidade das águas. Especificamente, as lagoas da bacia hidrográfica da Lagoa Feia, são historicamente alvo de estudos e intervenções visando reduzir as cheias para favorecer a expansão agrícola, bem como evitar perdas econômicas causadas pelas inundações. Segundo Bidegain et al. (2002) a eliminação dos locais do mosquito transmissor da malária também era um dos motivos alegados para as obras de drenagem. Diversas lagoas foram totalmente dessecadas a partir das obras de drenagem realizadas na região. Não fosse a drenagem sistemática empreendida pelas iniciativas pública e privada a partir do século XIX, a verdadeira Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro seria a Norte Fluminense (Serla, 1995 apud Soffiati, 1998). Soffiati (1998) relata que todas as outras que sobraram também sofreram drásticas reduções em seus espelhos e lâminas d’água por drenagem e por invasão de seus leitos por proprietários, com a complacência do DNOS. Os proprietários marginais constroem diques na zona litorânea para aumentar sua área de cultivo, destruindo nichos situados em águas rasas, sob intensa insolação, onde ocorre a
384 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

reprodução de espécies aquáticas. A Lagoa Feia teve suas dimensões estimadas em 370 km², em 1898, e 335 km², em 1935. Atualmente as estimativas são de que a sua superfície ocupe uma área de 170 km². Além disso, a retificação e dragagem dos canais afluentes das lagoas causam assoreamento em todo o sistema, diminuindo as suas profundidades. O lançamento de esgoto in natura afeta diretamente a qualidade das águas nas lagoas urbanas. Segundo Bidegain et al. (2002), as mais afetadas são as lagoas do Lagamar, de Fora, da Vassoura, do Russo, Ostra de Fora, Ostra do Farol, Terceira Grande, do Vigário, do Taquaruçu, do Comércio, da Taboa e do Meio. A Lagoa Feia recebe efluentes domésticos e industriais, sem tratamento, de Campos dos Goytacazes pelo canal de Tocos. Os efluentes gerados pelas usinas e destilarias de cana-de-açúcar e álcool também contribuem para a contaminação dos corpos lagunares da Região. 4.3 Degradação Ambiental

A urbanização vem se intensificando na faixa costeira ameaçando os ecossistemas de restingas, lagunas e praias rochosas e arenosas. A cidade de Macaé se expande desordenadamente, avançando pelas restingas e ameaçando ecossistemas locais, sejam eles protegidos (como o Parque Nacional de Jurubatiba), ou não-protegidos (Bergallo et al., 2009). No município de São Francisco do Itabapoana, a atividade agrícola foi responsável pela remoção de grande parte do revestimento vegetal nativo de restinga e manguezais. Segundo Soffiati (s.d.), a partir da década de 1930, o Governo Federal começou a lavrar terras raras e até hoje, essa é a atividade mais impactante, do ponto de vista ambiental, no Município. Alguns grandes empreendimentos, como o Porto de Açu estão sendo construídos no litoral Norte. As obras de implantação do Porto geram cerca de dez mil empregos e, quando em operação, serão criados em torno de três mil empregos diretos e indiretos. Por se tratar de uma obra de grande porte, vários impactos ambientais estão previstos em decorrência de sua implantação e uma pressão muito alta deve ser exercida sobre a região. Segundo Bergallo et al. (2009), os ecossistemas de praia e de restinga deverão ser bastante impactados. As obras de dragagem também são preocupantes devido à remoção de sedimentos e bioturbação associada. Em toda a extensão das terras baixas da Região Norte Fluminense observa-se a ocorrência de diversas atividades antrópicas, tais como extrativismo vegetal, pecuária extensiva, agricultura canavieira, culturas de mandioca, algodão, feijão, fábricas de açúcar e aguardente. A derrubada de matas estacionais, o cultivo dos campos nativos, a remoção de vegetação de restingas e o corte de manguezais, também são comuns de serem observadas na região litorânea do Norte Fluminense. O ecossistema na área litorânea incluindo as restingas, lagoas e manguezais tem sofrido diversas alterações, principalmente devido a ação humana. Dentre as ações que contribuem para degradação do meio ambiente encontram-se: a derrubada de árvores, crescimento urbano desordenado, aumento da exploração dos recursos naturais, habitações irregulares próxima ao limite do Parque Nacional de Jurubatiba, ausência de saneamento básico, incorreta destinação final para os resíduos sólidos, atividades industriais, dentre outras.
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A derrubada de porções de mata para uso agropecuário como lenha, madeira de construção, bem como o crescimento desordenado junto à área do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba causou um aumento na exploração dos recursos naturais e, consequentemente, um aumento na pressão antrópica geradora de inúmeras formas de degradação. Uma das formas de degradação é observada na lagoa Imboacica, situada no município de Macaé a qual se encontra em processo acelerado de assoreamento e eutrofização (Esteves et al., 2002) De acordo com Esteves et al. (2002) o número de habitações irregulares próximas ao limite geográfico do Parque Nacional Restingas de Jurubatiba cresceu significativamente nos últimos anos, sem o necessário processo de urbanização. Assim, devido à ausência de rede coletora de esgotos, um dos impactos que o Parque está sujeito é a contaminação do lençol freático e deterioração da qualidade das águas devido ao lançamento in natura dos efluentes no solo e nos cursos d’água. Esteves et al., (2002) propõe, como uma das formas de solucionar ou mitigar os impactos descritos sobre as restingas, a implantação de estações de tratamento de esgotos e execução de programas educacionais desenvolvidos junto às comunidades.
Foto 12 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Parque Nacional de Jurubatiba

Fonte: RIONOR

4.4

Gerenciamento Costeiro

O Estado do Rio de Janeiro, por intermédio do INEA, tem participado do Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro, PNGC, instituído pela Lei Federal n° 7.661, de 16/05/88. De acordo com a subdivisão adotada pelo INEA, o Litoral Norte é identificado como Setor Costeiro 4. Os principais instrumentos de gestão do PNGC são: o Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro, PEGC, o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro, PMGC, o Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro, ZEEC, e o Plano de Gestão da Zona Costeira.
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Em âmbito regional, o Plano Estadual de Gestão Costeira encontra-se em fase preliminar, uma vez que a Lei Federal nº 7.667/88 determina que o mesmo seja instituído através de lei e ainda não há, no Estado do Rio de Janeiro, lei neste sentido. O município de Campos dos Goytacazes pretende ser o pioneiro no litoral norte a elaborar o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro. Algumas das principais realizações do Gerenciamento Costeiro do Estado do Rio de Janeiro – GERCO/RJ que influenciaram o setor 4 são: • Elaboração de uma proposta de Plano de Gestão para a Zona Costeira; • • 4.5 Elaboração do Macrozoneamento do Litoral Norte (parcial); Implantação do Sistema de Informações para o Gerenciamento. Convenção RAMSAR

A convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, Convenção de RAMSAR, considera fundamentais as funções ecológicas das zonas úmidas, enquanto reguladoras dos regimes de água e enquanto habitat de uma flora e fauna características, sendo estes constituintes de recurso de grande valor econômico, cultural, científico e recreativo, cuja perda seria irreparável. Assim, deve-se assumir a obrigação de promover a conservação e proteção adequada de tais áreas e de sua flora e fauna, por ações locais, regionais, nacionais e internacionais. Em uma parceria firmada entre o INEA, a Universidade Estadual do Norte Fluminense e o Instituto Terra de Preservação Ambiental foi realizado um estudo de forma a contribuir para a conservação do conjunto de zonas úmidas localizadas no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, incluindo-as na Convenção RAMSAR. As atividades envolveram a identificação das áreas úmidas no Norte Fluminense, de acordo com os critérios da Convenção para a conservação de ambientes úmidos, elaborando documentação técnica para fundamentar a proposta de inclusão. A área objeto deste projeto inclui o trecho entre o Rio Itabapoana e o Rio das Ostras (Instituto Terra, 2010). Os resultados obtidos foram a identificação de áreas úmida de acordo com os critérios estabelecidos pela Convenção RAMSAR; a documentação técnica de lagoas, lagunas, brejos, mangues, meandros de rios e manguezais; e um relatório final com proposta de inclusão da área na Convenção. 5. O PATRIMÔNIO NATURAL

Inserido no bioma de Mata Atlântica, com montanhas e baixadas, entre o Oceano Atlântico e a Serra da Mantiqueira, o Estado do Rio de Janeiro possui uma das mais diversificadas paisagens, com escarpas elevadas à beira-mar, florestas tropicais, restingas, lagunas e baías (Whately, 2003). Graças a essa diversidade natural, o Estado possui uma condição turística privilegiada, oferecendo à população e aos turistas diversas opções de turismo ecológico, destacando os esportes de aventura, tais como “surfe, windsurfe, rapel”, escalada, parapente, “rafting”, balonismo, “trekking, passeios a cavalo ou a barco, pesca e banhos de cachoeira. Além de todas estas atividades, é possível também a realização de observações astronômica ou de fauna e flora e a prática dos turismos rural, fotográfico e esotérico. As praias da Região Norte Fluminense (aproximadamente 180 km) são fortes atrativos turísticos, devido às suas belezas e programação cultural diversificada durante o período de férias que atrai diversos turistas para a região. Além de propícias aos banhos, em algumas
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praias são desenvolvidas competições esportivas, como por exemplo, o surfe, windsurfe e barco a vela na praia de Grussaí, em São João da Barra. Dentre essas praias, algumas apresentam particularidades. A praia do Chapéu do Sol, em São João da Barra, é considerada um ambiente naturalmente energizado, reconhecido inclusive pelo famoso médium Chico Xavier, o que estimularia a cura de doentes e aparições de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs). A praia dos Cavaleiros, em Macaé, é a mais procurada pelos moradores do Município e turistas, devido a sua grande beleza natural. Sua orla é repleta de bares e restaurantes, o mar é bravo, de águas frias e infinitamente azuis, onde é possível praticar surfe. Realiza-se pesca de mergulho em seus costões, contando com a presença de aves e animais marinhos. Devido a tamanha beleza, essa praia é conhecida como a “Copacabana macaense”. Já em São Francisco de Itabapoana, a praia de Atafona é banhada por um mar com alta concentração de iodo e seu clima é considerado medicinal, além disso, é um local ideal para a realização de turismo ecológico e de aventura. No litoral Norte Fluminense é possível localizar ainda o Arquipélago de Sant’Anna, localizado a 8 km da costa, no litoral macaense (Foto seguinte). O arquipélago é composto pelas ilhas de Sant’Anna, do Francês, Ponta das Cavalas e Ilhote do Sul. A maior parte dessas ilhas é coberta por mata tropical e formações rochosas. Essas ilhas são consideradas um santuário ecológico, servindo de local de desova para colônias de gaivotas e outras aves, que segundo a Municipalidade de Macaé (s.d.), são oriundas da América do Norte, e realizam a migração no período de inverno no hemisfério norte. Os maiores atrativos do arquipélago são o Farol de Sant’Anna, localizado na Ilha de Sant’Anna, os rochedos presentes ao norte e leste da Ilha do Francês (onde é possível realizar pesca submarina) e as duas praias, uma em cada uma das ilhas, de areia fina e clara.
Foto 13 – Região Norte Fluminense, Macaé, Arquipélago de Sant’Anna

Fonte: Macaé Convention & Visitors Bureau
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Acompanhando as praias, as lagoas costeiras da região que vai de Macaé até Campos dos Goytacazes, também atraem vários visitantes, devido à beleza de suas formações e às atividades que oferecem, destacando a pesca, áreas de “camping” e esportes náuticos. A Lagoa Feia (Foto seguinte), nome que não corresponde a sua imensa beleza, está localizada entre os municípios de Quissamã e Campos dos Goytacazes. Considerada o Pantanal da Costa Doce, é a maior lagoa do Estado do Rio de Janeiro e segunda maior lagoa do Brasil, medindo aproximadamente 170 km². Sua água é doce, morna e escura, formando ao seu redor praias que são utilizadas para camping e banhos, sendo que para tal atividade, a porção sul da Lagoa, denominada como Enseada do Tatu, apresenta as melhores condições.
Foto 14 – Região Norte Fluminense, Quissamã, Lagoa Feia

Fonte: Prefeitura Municipal de Quissamã

A Lagoa Feia é ideal para a pratica do windsurfe, devido à força constante dos ventos. Segundo a Prefeitura Municipal de Quissamã (2009), campeonatos desse esporte eram disputados na lagoa, o que atraía uma grande quantidade de visitantes Destaca-se, ainda na região, o Parque Nacional de Jurubatiba, criado em 1998, que protege uma área de 14.000 ha de restinga, abrangendo os municípios de Macaé, Carapebus e Quissamã. O Parque é formado por 12 lagoas costeiras, delimitadas por 31 km de braços de areia, além de inúmeros brejos. Vários animais vivem no Parque, como por exemplo, jacarés, capivaras, tatus, lontras, tamanduás-mirins entre outros. Em relação à flora, é possível encontrar vestígios de vegetação tanto do sertão nordestino quanto da Floresta Amazônica. Espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção são encontradas no interior do Parque, o qual foi reconhecido pela UNESCO, em 1992, como Reserva da Biosfera.

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Atualmente o Parque é administrado pelo IBAMA, sendo que a visitação aos turistas é permitida.

Foto 15 – Região Norte Fluminense, Municípios de Macaé, Carapebus, Quissamã, Lagoa de Jurubatiba, Parque Nacional das Restingas de Jurubatiba

Fonte: Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba

Na porção interiorana do Estado, as cachoeiras, picos e montanhas tomam conta da paisagem, tornado-se os principais patrimônios naturais e atrativos turísticos da região. Esses locais são bastante procurados para a prática do turismo de aventura. O Parque Estadual do Desengano é uma dos principais patrimônios naturais da região norte-noroeste do Rio de Janeiro. O relevo do Parque se caracteriza por cristas de topos aguçados, pães de açúcar, morros, pontões, escarpas com até 75 graus de inclinação e patamares escalonados. Na paisagem sobressaem o Pico do Desengano, com altitude de 1.761 metros, o Pico São Mateus, com 1.576 metros, e a Pedra Agulha, com 1.080 metros. A Cordilheira Aymorés compõe uma região de enorme beleza cênica, com grande biodiversidade e recursos hídricos abundantes. Essa cadeia montanhosa está localizada parcialmente nos municípios de Macaé, Conceição de Macabu e Trajano de Moraes, numa área extensa de extrema importância no que diz respeito a corredores ecológicos, a conservação e a preservação de espécies da fauna e da flora criticamente ameaçadas de extinção, preservação e recuperação de mananciais hídricos. A região possui um enorme potencial para o desenvolvimento rural sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental, com perspectivas para criação de Unidades de Conservação de Uso Sustentável e de Proteção Integral.

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Foto 16 – Região Norte Fluminense, Municípios de Macaé e Conceição de Macabu, Cordilheiras Aymorés

Fonte: ASEMA, 2010

Dentre as inúmeras cachoeiras presentes na região, algumas se destacam devido a sua grande beleza. Em Bom Jesus do Itabapoana (s.d.), a cachoeira de Rosal, localizada no rio Itabapoana entre a Serra do Bálsamo (RJ) e a Serra do Cachoeirão (ES), merece relevância, sendo essa considerada a mais bela queda d’água do município, medindo aproximadamente 80 m. de altura. No entanto, com a construção da Usina Hidrelétrica de Rosal, a cachoeira vem perdendo volume de água, diminuindo assim a sua queda d’água. Em Cambuci, a cachoeira do Parque, devido à sua beleza e seu entorno arborizado, acabou se tornando um grande atrativo municipal. Um parque com toda infra-estrutura para receber visitantes foi construído, aliando a exploração comercial e a preservação desse bem natural. A cachoeira do Parque, de 22 m. de altura, é composta de três saltos principais e cai como um véu de noiva. A cachoeira do Conde, localizada no rio Santo Antônio, no município de Miracema, não é propícia ao banho, por causa da poluição de suas águas, porém, ainda assim merece destaque, devido a sua extrema beleza. A cachoeira possui pequenas quedas d’água, piscinas e escorregas, sendo que o escorrega principal possui 70 m. de altura e 3 m. de largura, passando por baixo de uma enorme árvore antiga com grandes raízes. Árvores enormes dominam a área da cachoeira, com seus galhos quase tocando o solo, sustentando ainda várias plantas parasitas, que contribuem na composição da paisagem. Esse emaranhado de galhos obriga os visitantes a desviarem seus caminhos constantemente. Os raios solares dificilmente ultrapassam as copas dessas árvores. O Domínio das Ilhas Fluviais do Rio Paraíba do Sul é uma região que concentra uma significativa riqueza de espécies de fauna e flora. As Ilhas Fluviais estão situadas no último trecho do curso médio inferior do Rio Paraíba do Sul, com cerca de 90 km ao longo dos municípios de Cantagalo, Aperibé, Cambuci e São Fidélis, além de parte do rio Pomba, em Santo Antônio de Pádua, abrangendo cerca de 60 ha, envolvendo o arquipélago e as margens (APP) dos Rios Paraíba do Sul e Pomba (Camphora, 2009 b). Segundo Camphora (2009 b), a importância ecológica conferida ao domínio das Ilhas Fluviais deve-se ao fenômeno de regulação da vazão hídrica do rio, através das sinuosidades proporcionadas pela formação das ilhas, e pela cobertura vegetal singular que decorre da interação entre os solos, o clima e a disponibilidade hídrica subterrânea, a mata ciliar, que abriga espécies da fauna e flora ameaçadas.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 391

Foto 17 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Municípios de Aperibé, Cambuci, São Fidélis e Santo Antônio de Pádua, Ilhas Fluviais

Fonte: IBAMA/PETROBRAS, 2004

Na divisa de Minas Gerias com o Rio de Janeiro, no município de Porciúncula, está a cachoeira de Três Tombos, sendo esta a mais imponente da região, com queda d’água de 75 m. de altura. Suas águas são limpas e frias e descem a cachoeira em grande volume, fato este, que permite banhos somente 100 m. após a queda d’água. Á área da cachoeira é repleta de árvores de médio a grande porte. Nas proximidades ainda é possível identificar o prédio da usina hidrelétrica de Tombos, construído em 1922, em estilo neoclássico, além de uma casa em ruínas, que ajudam a compor a paisagem. Em Varre-Sai, no rio Prata, está a cachoeira Pedro Dutra, com 100 m. de extensão e piscinas de águas cristalinas esculpidas nas pedras pela força de suas águas. Em sua margem direita, predomina a presença de vegetação rasteira e gramíneas, já na margem esquerda, a vegetação é de médio a grande porte, com bambus, embaúbas, palmitos e angicos. Segundo a Municipalidade de Varre-Sai (s.d.), a cachoeira Pedro Dutra é um grande atrativo na região, recebendo turistas durante todas as épocas do ano. A cachoeira Pedra Rasa, localizada no município de São Fidélis, é uma das cachoeiras mais belas e maiores (queda de aproximadamente 80 m.) da região, segundo a Prefeitura Municipal de São Fidélis (2009). Essa cachoeira é ideal para a pratica de “rapel” e alpinismo, além de banhos, proporcionados pelas diversas piscinas naturais formadas ao longo do leito do rio. O rio Valão do Fura Olho, que nasce em Campos, banha o poço Trinta Palmos, em Cardoso Moreira, que passa por um curioso fenômeno: no período de cheias da nascente do seu rio. As águas acumuladas na nascente demoram aproximadamente 12 horas para atingir o poço Trinta Palmos, sendo assim, os efeitos das chuvas em Campos são percebidos somente horas depois. A água chega com força ao poço, enchendo-o, aumentando o seu volume até rodopiar e posteriormente seguir rio abaixo. Esse fenômeno dura aproximadamente 40 minutos, tornando o poço Trinta Palmos um grande atrativo na região. Dentre as diversas formações montanhosas do Norte e Noroeste fluminense, algumas destacam-se, seja pela beleza, altura ou exploração comercial/turística. Dentre essas, algumas são citadas abaixo.

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A Pedra da Elefantina possui 992 m. de altura e encontra-se no município de Porciúncula. A rocha recebe esse nome devido a grande semelhante com um elefante deitado, tanto pela imensidão quanto pelos traços físicos, sendo que é possível identificar uma tromba, uma boca (grande ranhura na rocha) e os olhos (duas cavernas). Uma estrada contorna toda a rocha, e para completá-la demora-se aproximadamente 40 min. Do mirante, com altura aproximada de 700 m., vislumbra-se uma bela paisagem, que alcança os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Em Natividade, destaca-se o Pico Cabo Frio, 810 m. acima do nível do mar. O pico é adequado para escaladas e caminhadas, sendo que no seu topo tem-se uma bela visão do Cristo Redentor de Itaperuna e do Pico do Caparaó (MG). Devido à amplitude do Pico Cabo Frio, o seu topo torna-se propício para a prática de asa-delta. As Serras da Ventania de Baixo e de Cima, em Miracema, são interligadas por uma estrada de terra. Ao longo desse trajeto, o visitante depara-se com belíssimas paisagens, composta por mata fechada e alguns atrativos, como por exemplo, uma queda d’água de aproximadamente 170 m. de altura, onde a água corre pelo paredão rochoso, ou então, um imenso açude localizado dentro da fazenda Brejo Grande. Seguindo em direção à Serra da Ventania de Cima, é possível avistar na paisagem fazendas de plantação de café e arroz, além do gado que pode estar na estrada. Em Cardoso Moreira encontra-se a serra do Sapateiro, sendo esta um remanescente de Mata Atlântica e refúgio de alguns animais. No alto da serra há um lago de aproximadamente 2 m. de profundidade, que pode ser alcançado através de escalada. A região de Bela Joana, em Campos dos Goytacazes, possui diversos atrativos naturais, tais como, alguns trechos de remanescentes de Mata Atlântica, belas cachoeiras, montanhas e riachos. O rio Bela Joana possui aproximadamente 18 km de extensão e suas águas são cristalinas e próprias para o consumo, além ser propício para atividades recreativas. Dentre as montanhas, destaca-se o pico Peito de Moça, com 700 m. de altitude, que se assemelha ao Pão de Açúcar da cidade do Rio de Janeiro. A cachoeira Pedra Rasa, com queda d’água de aproximadamente 80 m. de altura é uma das mais belas e maiores da região, propiciando a pratica de rapel e alpinismo, além de formar várias piscinas naturais ideais para banhos. 6. RECURSOS HÍDRICOS

As Regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro apresentam boa disponibilidade de recursos hídricos, sendo os rios federais Paraíba do Sul, Pomba, Muriaé, Carangola e Itabapoana, além do rio Macaé, os principais rios da Região. Devido à necessidade de abastecimento de água, tanto para consumo humano e/ou animal, a maioria das áreas urbanas dos municípios dessas regiões está situada às margens dos rios. O desenvolvimento e prosperidade das Regiões Norte e Noroeste como um todo depende da preservação, conservação e recuperação desses corpos d’água e seus afluentes. O diagnóstico situacional dos recursos hídricos é necessário para que se possa identificar as principais fragilidades e potencialidades do sistema hidrográfico local e a partir deste, propor ações e programas eficientes para a gestão dos recursos hídricos. 6.1 Regiões Hidrográficas

O território do Rio de Janeiro, para fins de gestão dos recursos hídricos, encontra-se subdividido em 10 (dez) Regiões Hidrográficas (RH’s).
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 393

Esta divisão foi aprovada pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos, através da Resolução/CERHI-RJ Nº 18 (08/11/2006) e tem por objetivo facilitar a gestão deste importante recurso natural e otimizar a aplicação dos recursos financeiros arrecadados com a cobrança pelo uso da água em cada região (INEA, 2010 a) As regiões Norte e Noroeste abrangem quatro regiões hidrográficas, sendo estas: • RH – VII: Rio Dois Rios; • RH – VIII: Região Hidrográfica Macaé e das Ostras; • RH – IX: Região Hidrográfica Baixo Paraíba do Sul, e • RH – X: Região Hidrográfica Itabapoana. A Tabela seguinte, apresenta as regiões hidrográficas da área de estudo com os respectivos municípios e bacias hidrográficas neles compreendidas.
Tabela 5 – Regiões Hidrográficas Compreendidas na Área de Estudo Regiões Hidrográficas Municípios Total: Bom Jardim, Duas Barras, Cordeiro, Macuco, Cantagalo, Itaocara, São Sebastião do Alto; Parcialmente: Nova Friburgo, Trajano de Moraes, Santa Maria Madalena, São Fidélis. Total: Rio das Ostras. Parcialmente: Nova Friburbo, Casimiro de Abreu, Macaé. Principais Bacias Hidrográficas Bacia do Rio Negro e Dois Rios, Córrego do Tanque e Adjacentes, Bacia da Margem Direita do Médio Inferior do Paraíba do Sul Bacia do Jundiá, Bacia do Macaé e Bacia do Imboacica

RH-VII Rio Dois Rios

RH- VIII Macaé e das Ostras

Bacia do Muriaé, Bacia do Pomba, Bacia do Pirapetinga, Bacia do Córrego do Total: Quissamã, São João da Novato e Adjacentes, Pequenas Bacias Barra, Cardoso Moreira, Italva, da Margem Esquerda do Baixo Paraíba Cambuci, Itaperuna, São José de do Sul, Bacia do Jacaré, Bacia do CamUbá, Aperibé, Santo Antônio de pelo, Bacia do Cacimbas, Bacia do MuriPádua, Natividade, Miracema, tiba, Bacia do Coutinho, Bacia do GrusRH- IX Baixo Paraíba do Laje do Muriaé. Parcialmente: saí, Bacia do Iquipari, Bacia do Açu, Sul Trajano de Morais, Conceição de Bacia do Pau Fincado, Bacia do NicoMacabu, Carapebus, Macaé, lau, Bacia do Preto, Bacia do Preto UruSanta Maria Madalena, São raí, Bacia do Pernambuco, Bacia do Francisco do Itabapoana, CamImbé, Bacia do Córrego do Imbé, Bacia pos dos Goytacazes, São Fidélis, do Prata, Bacia do Macabu, Bacia do Porciúncula, Varre-Sai São Miguel, Bacia do Arrozal, Bacia da Ribeira, Bacia do Carapebus. Total: Bom Jesus do Itabapoana. Bacia do Itabapoana, Bacia do GuaxinParcialmente: Porciúncula, CamRH- X Itabapoana diba, Bacia do Buena, Bacia do Baixa pos dos Goytacazes, Varre-Sai, do Arroz, Bacia do Guriri São Francisco de Itabapoana Fonte: RIO DE JANEIRO, 2006

As Regiões Hidrográficas Rio Dois Rios (RH-VII) e Macaé e das Ostras (RH-VIII) estão parcialmente inseridas na área de abrangência deste estudo. Na RH-VII apenas os municípios de Itaocara e São Fidélis abrangem essa área, enquanto na RH-VIII apenas o município de Macaé será alvo desse planejamento. Na Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul (RH-IX), todos os municípios, com exceção de Trajano de Morais e Santa Maria Madalena, correspondem às regiões Norte e Noroeste do estado. Já a Região Hidrográfica do Itabapoana (RH-X) está totalmente inserida na área de planejamento. O Mapa seguinte apresenta as regiões hidrográficas inseridas na área de estudo.
394 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Mapa 5 - Regiões Hidrográficas Inseridas na Área de Estudo

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

395

6.2

Principais Bacias Hidrográficas

As principais bacias hidrográficas localizadas na área de estudo são: a Bacia do rio Paraíba do Sul, a Bacia do rio Itabapoana, a Bacia do rio Macaé e a Bacia da Lagoa Feia. Bacia do Rio Paraíba do Sul A bacia do rio Paraíba do Sul ocupa área de aproximadamente 55.500 km², estendendo-se pelos estados de São Paulo (13.900 km²), Rio de Janeiro (20.900 km²) e Minas Gerais (20.700 km²), abrangendo 180 municípios, sendo 88 em Minas Gerais, 53 no Estado do Rio e 39 no estado de São Paulo. No Rio de Janeiro, a bacia abrange aproximadamente 63% da área total do Estado. O rio Paraíba do Sul resulta da confluência, próximo ao município de Paraibuna, dos rios Paraibuna, cuja nascente é no município de Cunha, e Paraitinga, que nasce no município de Areias, ambos no estado de São Paulo, a 1.800 m. de altitude, percorrendo 1.150 km até desaguar no Oceano Atlântico, no norte fluminense, na praia de Atafona no município de São João da Barra.
Foto 18 – Foz do Rio Paraíba do Sul

Fonte: IBAMA/PETROBRAS, 2004

Os principais afluentes ao rio Paraíba do Sul nas regiões Norte e Noroeste fluminense são: Pela margem esquerda: • rio Pomba - rio com 300 km de curso; sua foz está próxima a Itaocara, limite entre os trechos médio e baixo Paraíba; • rio Muriaé - rio com 250 km de extensão; o curso inferior, em território fluminense, apresenta características de rio de planície.

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Pela margem direita: • rio Dois Rios - formado pela confluência dos rios Negro e Grande.

Bacia do Rio Itabapoana A bacia hidrográfica do rio Itabapoana possui uma área de drenagem de 3.800 km², e inclui parcelas dos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. A área da bacia no Estado do Rio de Janeiro é de 1.520 km², correspondendo a 40% do total, e abrange parte dos municípios de Porciúncula, Varre-e-Sai, Campos e São João da Barra e integralmente Bom Jesus de Itabapoana (SEMAD, 2001). O Rio Itabapoana é resultado da confluência dos rios Preto e Verde, tem um curso de 264 km e deságua no Atlântico entre o lago Marabá e a Ponta das Arraias. Este rio serve de limite entre os Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, desde a confluência do Rio das Onças. Deste ponto até a foz, tem cerca de 180 km de canal sinuoso, e forma em seu trajeto as cachoeiras de Santo Antônio, Inferno, Limeira e Fumaça, sendo esta de 100 m de altura. Os principais afluentes do Rio Itabapoana em território fluminense são: córrego do Pilão, vala Água Preta, córrego do Juvêncio, córrego do Baú, córrego Santo Eduardo, córrego Liberdade, córrego Pirapetinga, córrego Lambari, córrego Água Limpa, córrego Santana, ribeirão Varre- Sai, ribeirão da Onça e ribeirão do Ouro (SEMADS, 2001).

Foto 19 – Região Noroeste Fluminense, Bom Jesus de Itabapoana, Rio Itabapoana

Fonte: Rionor

Bacia do Rio Macaé A Bacia Hidrográfica do Rio Macaé abrange uma área de drenagem de 1.765 km², sendo que 82% do seu território está no Município de Macaé. Esta bacia localiza-se na porção lesPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 397

te do Estado do Rio do Janeiro compreendendo os Municípios de Nova Friburgo, Casimiro de Abreu, Macaé, Rio das Ostras e Conceição do Macabu (FGV, 2004). O Rio Macaé desenvolve um percurso de 136 km, tendo suas nascentes na Serra de Macaé de Cima, a 1.560 m de altitude, no Município de Nova Friburgo e flui no sentido lestesudeste até desembocar no Oceano Atlântico, junto à Cidade de Macaé. Apresenta muitas sinuosidades, com leito pedregoso nas regiões rochosas e acidentadas. Nas zonas baixas e espraiadas, onde o leito se torna arenoso, encontra-se em grande parte retificado. Os seus principais tributários são os rios Boa Esperança, Bonito, Sana, Ouriço, D’Anta, Purgatório e São Pedro e os córregos Santiago e Jurumirim (FGV , 2004).

Bacia da Lagoa Feia A bacia hidrográfica da Lagoa Feia compreende uma superfície com cerca de 2.900 km², abrangendo parcialmente os municípios de Carapebus, Quissamã, Conceição de Macabu, Campos dos Goytacazes, Trajano de Morais, Santa Maria Madalena e São João da Barra. A bacia hidrográfica é formada pelos rios Ururaí e Macabu e por uma intricada rede de canais de drenagem e córregos. As águas fluem para a Lagoa Feia e daí para o mar através do Canal das Flechas, via artificial de escoamento construída pelo DNOS, em 1949, que possui 12 km de extensão e largura original de 120 m, hoje reduzida devido ao assoreamento (SEMADS, 2001).

6.3

Bacias e Sistemas Hidrográficos - Zoneamento Ecológico Energético (ZEE)-RJ

Nos estudos que subsidiaram a elaboração do Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Rio de Janeiro (ZEE-RJ) o território fluminense foi subdividido em bacias e sistemas hidrográficos. A delimitação teve como base os recortes espaciais de bacias hidrográficas do nível 4 da Agência Nacional de Águas e as regiões hidrográficas do Estado do Rio de Janeiro. Nesse contexto, a área de planejamento compreende 8 (oito) Bacias e Sistemas Hidrográficos, sendo estes: • Bacia do Médio-Baixo Vale do Paraíba; • • • • • • • Bacia do rio Pomba; Bacia do rio Muriaé; Bacia do rio Dois Rios Zona Deltáica – Foz do rio Paraíba do Sul; Bacia do rio Itabapoana; Sistema Hidrográfico da Lagoa Feia, e; Bacia do rio Macaé e lagoas costeiras;

Deve ser ressaltado que as bacias do Médio-Baixo Vale do Paraíba, do rio Pomba, do rio Muriaé e do rio Dois Rios são sub-bacias da Bacia do rio Paraíba do Sul.

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Mapa 6 – Regiões Norte e Noroeste Fluminense, Sistemas Hidrográficos

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

399

6.4

Comitês de Bacias e Consórcios Intermunicipais

CEIVAP – Comitê para Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul Criado pelo Decreto Federal nº. 1.842, de 22 de março de 1996, o CEIVAP, ou Comitê para Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, é o parlamento onde ocorrem os debates e decisões descentralizadas sobre as questões relacionadas aos usos múltiplos das águas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, inclusive a decisão pela cobrança pelo uso da água na bacia. O Comitê é constituído por representantes dos poderes públicos, dos usuários e de organizações sociais com importante atuação para a conservação, preservação e recuperação da qualidade das águas da Bacia (CEIVAP, 2010). A AGEVAP, Associação Pró Gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, é a Agência da Bacia e exerce funções de secretaria executiva do Comitê, sendo responsável pela elaboração dos Planos de Recursos Hídricos e pela execução das ações deliberadas pelo Comitê para a gestão dos recursos hídricos da Bacia. O CEIVAP possui sede em Resende/RJ e todos os municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, com exceção de Itaocara, Bom Jesus do Itabapoana e Macaé, fazem parte da área de abrangência desse Comitê. Organismos da Bacia do Paraíba do Sul As diversas entidades ou órgãos criados para atuar nas sub-bacias ou regiões hidrográficas do Paraíba do Sul são denominados “organismos da bacia” Esses organismos possuem representatividade e legitimidade regional, atuando em questões pontuais que o Comitê ou a Agência não conseguem contemplar. Nas regiões Norte e Noroeste foram identificados os seguintes organismos da bacia do Rio Paraíba do Sul: •

• • • •

Comitê de Bacia da Região Hidrográfica do Rio Dois Rios – CBH - Rio Dois Rios – RJ. Instalado no dia 2/12/2008, com sede em Nova Friburgo, abrange os municípios de Itaocara e São Fidélis na área de alcance deste Plano. Comitê da Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul CBH Baixo Paraíba – RJ. Instalado em 19/06/2009, com sede em Campos dos Goytacazes/RJ. Abrange todos os municípios das regiões Norte e Noroeste fluminense, com exceção de Macaé, Bom Jesus do Itabapoana e Itaocara. Consórcio Intermunicipal para Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Muriaé – MG/RJ. Instalado em 2/09/1997, com sede em Muriaé/MG. Consórcio Intermunicipal para Proteção e Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Pomba. Instalado em 29/5/1998, com sede em Cataguases/MG. Consórcio Intermunicipal para Recuperação Ambiental da Bacia do Baixo Muriaé, Pomba e Carangola - CIRAB - MG/RJ, com sede em Muriaé/MG. Consórcio de Municípios e de Usuários da Bacia do Rio Paraíba do Sul para a Gestão Ambiental da Unidade Foz. Instalado em 12/12/2003, com sede em Campos dos Goytacazes/RJ, compreende 11 municípios situados próximos à foz do Paraíba do Sul.

Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Macaé e das Ostras O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Macaé foi instituído a partir do Decreto Estadual n° 34.243/03, de 4 de Novembro de 2003, com a área de atuação compreendendo totalidade das bacias hidrográficas dos rios Macaé, Jurubatiba, Imboassica e da lagoa de Imbaossica.
400 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

A bacia hidrográfica do rio das Ostras foi incorporada a partir da Resolução n° 18 do CERHIRJ, de 8 de novembro de 2006. O CBH Macaé e das Ostras possui sede em Rio das Ostras e compreende o município de Macaé na área de alcance do Plano de Desenvolvimento Sustentável. Consórcio dos Municípios da Bacia do Itabapoana O Consórcio de Municípios da Bacia do Rio Itabapoana, sociedade civil de direito privado, é um dos instrumentos do sistema de gestão integrada da bacia hidrográfica do Itabapoana. O Consórcio foi instituído em julho de 1997 e sua sede está localizada em Bom Jesus do Itabapoana. Dentre os municípios das Regiões Norte e Noroeste fluminense, Porciúncula, Varre-Sai, Bom Jesus do Itabapoana, Campos dos Goytacazes e São Francisco do Itabapoana são membros desse consórcio. 6.5 Disponibilidade Hídrica Superficial

Bacia do Rio Paraíba do Sul Os estudos de disponibilidade hídrica na bacia do Paraíba do Sul foram realizados pelo LABHID - Laboratório de Hidrologia e Estudos de Meio Ambiente da COPPE/UFRJ baseadas na análise de 199 estações fluviométricas, distribuídas pelo território da bacia. A disponibilidade hídrica nos pontos de interesse foi calculada a partir das equações definidas nos estudos de regionalização hidrológica de vazões médias de longo período (QMLT) e de vazões com 95% de permanência no tempo (Q95%), desenvolvidos pela CPRM. Na área de estudo foram analisados 5 (cinco) pontos, sendo estes: Rio Paraíba do Sul a Montante da Confluência do Rio Pomba, Foz do Rio Pomba, Foz do Rio Dois Rios, Foz do Rio Muriaé e Foz Paraíba do Sul. A Tabela seguinte apresenta os valores calculados a partir das equações de regionalização.
Tabela 6 – Disponibilidade Hídrica na Bacia do Rio Paraíba do Sul Locais
Rio Paraíba do Sul a Montante da Confluência do Rio Pomba

Área de Drenagem (km²) 34.410 8.616 3.169 8.162 55.500

Q95% (m³/s) 168,3 63,2 16,48 28,84 353,77

q95% (l/s.km²) 4,89 7,33 5,2 3,53 6,37

QMLT (m³/s) 549,73 163,43 45,97 118,36 1.118,40

qMLT(l/s.km²) 15,98 18,101 14,5 14,5 20,15

Foz do Rio Pomba Foz do Rio Dois Rios Foz do Rio Muriaé Foz Paraíba do Sul Fonte: LABHID, 2006

Bacia do Rio Itabapoana Reis et alii (2008) buscou apresentar indicadores regionais para avaliar o regime de vazões da Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana. Nesse estudo, foram apresentados os valores de vazão média, mínima e máxima para 6 (seis) estações fluviométricas dessa bacia. Duas destas estações estão localizadas na área de estudo.
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 401

A Tabela a seguir apresenta a localização, área de drenagem, altitude e a extensão da série histórica das estações fluviométricas situadas no rio Itabapoana.
Tabela 7 – Postos Fluviométricos Analisados no Rio Itabapoana Postos Fluviométricos Ponte do Itabapoana Santa Cruz Rio Itabapoana Itabapoana Área de Drenagem (km²) 2.854 3.781 Latitude -21° 22" 12' -21° 21" 13' Longitude -41° 46" 27' -41° 31" 18' Extensão da Altitude Série Histórica (m) (anos) 40 15 72 31

Fonte: Reis et. al. (2008)

As duas estações estão localizadas no município de Mimoso do Sul/ES, na divisa com o município de Bom Jesus Itabapoana. A estação Ponte do Itabapoana está situada no trecho entre os rios Calçado e Muqui do Sul e a estação Santa Cruz entre o rio Muqui do Sul e a foz do rio Itabapoana. A Tabela seguinte apresenta os valores de vazão obtidos através da análise da série histórica de cada uma das estações fluviométricas. Estão expressos os valores de vazão média de longo termo, vazão mínima média com 7 dias de duração e um período de retorno de 10 anos (Q7,10), vazão mínima com 95% de permanência (Q95), vazão média de enchente, com período de retorno de 2 anos (Qcm) e vazão máxima para um período de retorno de 100 anos (Q100)
Tabela 8 – Disponibilidade Hídrica no Rio Itabapoana Postos Fluviométricos Ponte do Itabapoana Santa Cruz Fonte: Reis et. al. (2008) Qmédia (m³/s) 45,18 56,09 Qmínima (m³/s) Q7,10 6,84 12,26 Q95 7,32 16,70 Qmáxima (m³/s) Qmc 254,57 244,06 Q100 683,42 508,48

Bacia do Rio Macaé A determinação da disponibilidade hídrica na bacia do rio Macaé foi realizada pela FGV – Projetos (2004) através do método de regionalização de vazões. A partir da análise de 7 (sete) estações fluviométricas situadas nessa bacia, foram determinados valores de vazões mínimas médias de sete dias de duração, associadas a 10 anos de recorrência (Q7,10) e de vazões correspondentes a 95 % de permanência (Q95%). Nesse estudo, os pontos de interesse de determinação da disponibilidade hídrica foram a foz dos principais afluentes do rio Macaé. (Tabela a seguir).
Tabela 9 – Disponibilidade Hídrica na Bacia do Rio Macaé Locais Foz Rio Boa Esperança Foz Rio Bonito Foz Rio Sana Foz Rio Ouriço Foz Rio D’Anta Foz Rio Purgatório Foz Rio São Pedro (*) Foz Canal Jurumirim Fonte: FGV – PROJETOS (2004)
402

Área de Drenagem (km²) 52,4 89,3 109 64,4 52,4 81,6 479 106,9

Q95% (m³/s) 0,59 1,2 1,27 0,76 0,59 0,76 4,12 0,74

Q7,10 (m³/s) 0,35 0,83 0,81 0,47 0,35 0,4 2,35 0,32

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

6.6

Disponibilidade Hídrica Subterrânea

A presença de intenso falhamento nas rochas da Região Noroeste do Estado, causado pelos eventos tectônicos que condicionaram o curso do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes, favorecem o aquífero fissural tornando as rochas propícias ao armazenamento de águas subterrâneas (DRM - RJ, 2001). Nessa região as informações existentes sobre as captações dos poços, indicam que as mesmas são exclusivamente no aquífero fraturado. Isto não exclui a importância de alguns aqüíferos superficiais, principalmente pelo fato de que em algumas regiões, apesar do alto potencial, as águas contidas no aqüífero fraturado podem apresentar teores altos de ferro. Outro fato importante é a ocorrência de águas minerais carbogasosas, captadas a pequenas profundidades, provavelmente associadas a aqüíferos rasos (CAPUCCI et al., 2001). Na Região Norte, os aquíferos da Bacia Sedimentar de Campos são de grande importância. Segundo CAPUCCI et al. (2001), o alto potencial associado a uma qualidade muito boa da água, fazem desta região uma das mais importantes do Brasil em termos de água subterrânea. Ao mesmo lado, a vulnerabilidade de alguns aqüíferos é muito alta e devem ser tratados com cuidado. Dependendo do sistema aqüífero e da profundidade perfurada, a água pode estar enriquecida em ferro e algumas vezes em cloretos. Existem poucas informações sobre poços perfurados no cristalino, o que dificulta a obtenção de resultados mais seguros. Os aqüíferos porosos ocorrem na Região Norte, em sedimentos terciários e quaternários, com espessamento de NW para SE. De acordo com CAPUCCI et al. (2001), nessa bacia sedimentar encontram-se cinco aqüíferos: • Aquífero Flúvio – Deltáico - localiza-se na margem sul do Rio Paraíba do Sul, próximo a cidade de Campos. Compreende sedimentos quaternários arenosos intercalados com argilas, com espessuras de aproximadamente 90 m.. O aqüífero é livre, com a capacidade específica média da ordem de 90 m3/h/m. A vazão de poços neste sistema pode atingir 200.000 l/h, com águas de boa qualidade. • Aquífero Emborê - localiza-se nos arredores da localidade de Farol de São Tomé. Trata-se de sedimentos principalmente arenosos, com intercalações de argilas, níveis conchíferos e presença de madeira fóssil. Tem a espessura média de 200 metros. O aqüífero é confinado a semi-confinado, e tem a capacidade específica média de 3,50 m³/h/m. A vazão de poços neste sistema pode atingir a ordem de 100.000 l/h, com águas de boa qualidade. Aquífero São Tomé II - ocorre em quase toda a região, com espessuras que variam desde 200 m. até mais de 2000 m.. Trata-se de sedimentos terciários variados, com intercalações de areias avermelhadas e argilas, com níveis conchíferos. O aqüífero é confinado, com a capacidade específica média da ordem de 2,35 m³/h/m. A vazão dos poços pode atingir 60.000 l/h. As águas deste aqüífero normalmente são de boa qualidade, mas podem apresentar-se ferruginosas. Aqüífero São Tomé I - ocorre formando um eixo alongado no sentido NE-SW, com espessuras de até 160 m.. Idêntico ao anterior, diferindo pela sua espessura e potencialidade. A capacidade específica média é de 0,5 m³/h/m. Ocorrem águas ferruginosas e a vazão dos poços pode atingir 20.000 l/h. Aquífero Barreiras - localiza-se na borda oeste da Bacia Sedimentar de Campos. Compreende sedimentos arenosos avermelhados a argilosos continentais, terciários. O aqüífero é livre e pouco produtivo, capacidade específica média de 0,33 m³/h/m. As vazões dos poços normalmente não ultrapassam 2.000 l/h.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

403

6.7

Usos e Demanda Hídrica

Bacia do Rio Paraíba do Sul Os principais usos da água identificados na porção da bacia inserida na área de estudo são referentes ao abastecimento de água doméstico e industrial, à diluição de despejos domésticos e industriais, à dessedentação animal e à irrigação. Nos estudos realizados pelo LABHID (2006) foram calculadas as demandas hídricas na bacia do rio Paraíba do Sul para fins de saneamento, uso industrial e agropecuária, referentes ao ano de 2005. - Saneamento A maior parte dos municípios e distritos das regiões Norte e Noroeste do Rio de Janeiro possuem sistemas de abastecimento de água, atendendo índices entre 85 e 90% da população. Entretanto, o Paraíba do Sul e seus afluentes são os corpos receptores dos efluentes urbanos da bacia e, dessa forma, utilizados como meio de diluição. A ausência de tratamento dos esgotos domésticos na maioria das cidades constitui um dos principais fatores de degradação da qualidade dos recursos hídricos e, ainda, de riscos à saúde da população (LABHID, 2001). Na estimativa de demanda hídrica para abastecimento doméstico foram considerados os seguintes consumos per capita:
Tabela 10 – Consumo Per Capita Adotado na Estimativa de Abastecimento de Água Doméstico na Bacia do Rio Paraíba do Sul Faixa de População Urbana (hab.) 0 a 10.000 10.000 a 50.000 50.000 a 100.000 100.000 a 200.000 200.000 a 1.000.000 Fonte: LABHID, 2006 Consumo Per Capita (l/hab.dia) 165 196 211 221 251

A vazão captada foi calculada pelo produto da população urbana atendida pelo consumo per capita, pelo coeficiente do dia de maior consumo (K1=1,2) e pelo índice de perdas (20%), considerando um índice de atendimento do sistema de abastecimento público de 95%. As vazões de lançamento de esgotos foram determinadas pelo produto da vazão captada, pelo coeficiente de retorno, acrescida da parcela relativa à infiltração. Considerou-se como coeficiente de retorno de esgotos, o valor de 80%. Para a parcela relativa à contribuição de infiltração, estimou-se em 20% do valor da vazão média de esgotos calculada. A Tabela seguinte apresenta os valores de vazões captadas e consumidas em cada trecho ou sub-bacia do rio Paraíba do Sul inserido na área de estudo. Ressalta-se que as bacias do rio Pomba, Dois Rios e Muriaé estão parcialmente inseridas na área de planejamento e o trecho da Bacia do Paraíba do Sul entre as fozes dos rios Paraibuna Mineiro e Piabanha e a foz do rio Pomba corresponde ao trecho a montante.
404 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Tabela 11 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Saneamento na Bacia do Paraíba do Sul Trechos/Sub-bacias Bacia do Rio Pomba Bacia do Rio Muriaé Bacia do Rio Dois Rios Bacia do Paraíba do Sul das fozes dos Rios Paraibuna Mineiro e Piabanha até a foz do Rio Pomba Bacia do Paraíba do Sul a jusante da foz do Rio Pomba até a foz do Paraíba do Sul, excluindo as bacias dos Rios Dois Rios e Muriaé Fonte: LABHID, 2006 População Beneficiada (95% de 2005) 469.292 309.314 211.128 86.963 Q captada (m³/s) 1,49 0,99 0,71 0,26 Q consumida (m³/s) 0,3 0,2 0,14 0,05

356.194

1,43

0,29

- Uso Industrial Na área de alcance do Plano de Desenvolvimento Sustentável, as indústrias sucroalcooleiras da Baixada Campista destacam-se na utilização de água para fins industriais. Para a estimativa da demanda hídrica para fins industriais, segundo LABHID (2006), foi solicitada à FIRJAN a relação das indústrias instaladas no território da bacia. A partir das relações das indústrias foi definido o universo das principais indústrias relativamente ao uso dos recursos hídricos, utilizando-se, como critério de escolha, as maiores geradoras de DBO e as de maior porte (LABHID, 2006). A quantificação das indústrias alocadas nas sub-bacias que atingem a área de alcance desse Plano está indicada na Tabela a seguir.
Tabela 12 – Quantidade de Indústrias por Sub-bacia Estado Sub-Bacia/Trecho Quantidade de Indústrias 23 36 11 10

Paraíba do Sul - a jusante da foz do Pomba Sub-bacia do rio Dois Rios Rio de Janeiro Sub-bacia do rio Pomba Sub-bacia do rio Muriaé Fonte: LABHID, 2006

A vazão calculada baseou-se na tipologia e número de empregados de cada indústria. Adotou-se o uso consumido de 30% da vazão captada. Os valores de vazão captada e consumida para fins industriais nos trechos e sub-bacias inseridos na área de estudo estão expressos na Tabela seguinte.
Tabela 13 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins Industriais na Bacia do Paraíba do Sul Trechos/Sub-bacias Bacia do Rio Pomba Bacia do Rio Muriaé Bacia do Rio Dois Rios Bacia do Paraíba do Sul das fozes dos Rios Paraibuna Mineiro e Piabanha até a foz do Rio Pomba Bacia do Paraíba do Sul a jusante da foz do Rio Pomba até a foz do Paraíba do Sul, excluindo as bacias dos Rios Dois Rios e Muriaé Fonte: LABHID, 2006 Q captada (m³/s) 0,19 0,02 0,1 0,02 1,43 Q consumida (m³/s) 0,06 0,01 0,03 0 0,43

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

405

- Agropecuária O cálculo da demanda hídrica para o setor agropecuário envolveu a estimativa das vazões de captação e consumo para a irrigação e a criação animal. As principais áreas irrigadas na área de estudo estão localizadas na Baixada Campista e nas margens dos rios Paraíba do Sul, Pomba e Muriaé. No cálculo de vazões para fins de irrigação, foi utilizado o Censo Agropecuário de 1995/1996 de forma a determinar as áreas irrigadas. O consumo e captação específica foram indicados de acordo com a publicação de CHRISTOFIDIS (1997) “Água e irrigação no Brasil”. Para se obter as demandas hídricas as áreas irrigadas foram multiplicadas pelas vazões específicas de captação e consumo do Estado do Rio de Janeiro, que correspondem, respectivamente, a 0,46287 l/s/ha irrigado e 0,26424 l/s/ha irrigado. Os valores obtidos para os trechos e sub-bacias inseridos nas regiões Norte e Noroeste estão expressos na Tabela a seguir .
Tabela 14 - Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Irrigação na Bacia do Paraíba do Sul Trechos/Sub-bacias Paraíba do Sul trecho entre a foz dos Rios Paraibuna Mineiro e Piabanha até a foz do Rio Pomba Rio Pomba Rio Dois Rios Rio Muriaé Paraíba do Sul trecho a jusante da foz do Rio Pomba Fonte: LABHID, 2006 Q captada (m³/s) 4,85 6,23 3,27 6,40 12,20 Q consumida (m³/s) 2,79 3,70 1,87 3,70 6,97

Para o cálculo da demanda hídrica da pecuária foi utilizada uma metodologia baseada no conceito de BEDA, que é definido como:
BEDA = bovinos + equinos + asininos + (caprinos+ovinos)/5 + suínos/4,

adotando que para cada BEDA são captados 100l/dia e destes, 50 l são consumidos. Para o cálculo do efetivo dos rebanhos em BEDAS foi utilizada a Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE de 2000, que fornece o número de cabeças por tipo de rebanho e por município. Os valores obtidos para fins de criação animal na porção em estudo da bacia do rio Paraíba do Sul estão expressos na Tabela seguinte.
Tabela 15 – Estimativa de Vazões Captadas e Consumidas para Fins de Criação Animal na Bacia do Paraíba do Sul Trechos/Sub-bacias Paraíba do Sul trecho entre a foz dos Rios Paraibuna Mineiro e Piabanha até a foz do Rio Pomba Rio Pomba Rio Dois Rios Rio Muriaé Paraíba do Sul trecho a jusante da foz do Rio Pomba Fonte: LABHID, 2006
406

Q captada (m³/s) 0,29 0,61 0,23 0,61 0,35

Q consumida (m³/s) 0,15 0,31 0,11 0,30 0,18

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- Demanda x Disponibilidade A Tabela a seguir foi elaborada de modo a consolidar a demanda de água em 2005 para cada setor e por sub-bacia ou trecho de rio, relativas à captação e ao consumo. As demandas dos diferentes setores são comparadas com a disponibilidade hídrica da bacia (Q95). Destaca-se que os valores indicados nos trechos do rio Paraíba do Sul são cumulativos dos trechos à montante.
Tabela 16 – Demanda Hídrica Total e Disponibilidade Hídrica nos Trechos em Estudo da Bacia do Rio Paraíba do Sul Trechos/Sub-bacias Rio Paraíba do Sul a montante da confluência com o rio Pomba Foz do Rio Pomba Foz do Rio Dois Rios Foz do Rio Muriaé Foz do Rio Paraíba do Sul Fonte: LABHID, 2006 Saneamento Q Q
captada consumida

Indústria Q Q
captada consumida

Agropecuária Q Q
captada consumida

Total Q
captada

Q
consumida

Disponibilidade Hídrica (Q95) 198,77 50,22 16,75 28,79 311,85

(m³/s) 13,37 1,49 0,71 0,99 17,99

(m³/s) (m³/s) (m³/s) (m³/s) (m³/s) (m³/s) (m³/s) 2,67 13,03 0,30 0,14 0,20 0,2 0,1 0,02 5,97 0,06 0,03 0,01 7,27 23,26 6,84 3,5 7 53,15 14,86 49,66 4 1,98 4,01 8,53 4,31 8,02 23,5 4,36 2,16 4,22

3,60 15,33

31,98 86,47 42,85

- Pesca e aqüicultura A atividade pesqueira desenvolve-se principalmente no baixo curso dos rios Paraíba do Sul, Muriaé e Dois Rios, onde se estende vasta planície com vários ambientes lacustres, restingas e manguezais. A pesca é exercida de forma artesanal, com parte da produção destinada ao consumo e a comercialização do excedente. No trecho que abrange o final do curso médio inferior do rio Paraíba do Sul, no município de Itaocara, até a sua foz, HABTEC (2007) identificou 1.643 pescadores. Dentre os estudos feitos em relação à ictiofauna do rio Paraíba do Sul, destaca-se o de Bizerril (1998). De acordo com esse estudo, no trecho que compreende a foz do rio Paraíba do Sul até a desembocadura do rio Muriaé, foram identificadas 68 espécies de peixes, 66 entre a desembocadura do rio Muriaé e a desembocadura do rio Dois Rios e 64 entre a desembocadura do rio Dois Rios até a cidade de São Sebastião do Paraíba, logo a montante do município de Itaocara (HABTEC, 2007). Segundo RIO DE JANEIRO (s.d.), 42 dessas espécies são economicamente relevantes. Os estoques de peixes reprodutores conhecidos como grandes migradores são encontrados no Domínios das Ilhas Fluviais do rio Paraíba do Sul (Itaocara, Aperibé, Cambuci e São Fidélis). A fisiografia desse domínio, com mata ciliar relativamente bem preservada, a presença das ilhas fluviais, que modificam a hidrodinâmica do rio, associadas às características vegetais e animais, proporciona o estabelecimento de uma comunidade rica e diversa em espécies. Segundo HABTEC, (2007), os pescadores locais afirmam que a quantidade de pescado tem diminuído, sendo as principais causas da queda na produção aquelas relacionadas à degradação ambiental (ocasionada pela destruição das matas ciliares, poluição industrial proveniPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 407

ente das usinas canavieiras, atividades agropecuárias às margens do rio e extração de areia feita de forma clandestina), além dos efeitos negativos promovidos pela pesca predatória. Além disso, segundo o Projeto Piabanha (2007), a pesca vem sendo realizada de forma desorganizada e impactante, exercendo um esforço de captura em estoques de espécies ameaçadas de extinção, tais como a piabanha (Brycon insignis), o caximbau-boi (Pogonopoma parahybae), o surubim-do-Paraíba (Steindacneridion paraybae) e a lagosta-de-são fidélis (Machrobachium carcinus). - Navegação Com relação à navegação, a bacia do rio Paraíba do Sul não apresenta boas condições de navegabilidade nem registra tradição no transporte fluvial. Apenas o trecho do rio Paraíba do Sul entre São Fidélis e a foz, numa extensão de 90 km, é considerado navegável. A areia é a principal carga transportada nesse trecho. - Geração de Energia Elétrica Atualmente, não há empreendimentos de geração de energia elétrica no trecho em estudo da bacia do rio Paraíba do Sul. Entretanto, há alguns projetos em desenvolvimento na região. Dentre eles, o AHE Barra do Pomba,, situado no baixo vale do rio Paraíba do Sul, à jusante da cidade de Itaocara, com capacidade instalada de 80 MW. Ainda no Paraíba do Sul, próximo ao local previsto para implantação da AHE Barra do Pomba, estão previstos outros dois empreendimentos hidroenergéticos: a Usina Hidrelétrica Itaocara, situada à montante, com potência instalada de 195 MW, pertencente a LIGHT Serviços de Eletricidade Ltda, e o AHE Cambuci, situado à jusante, com potência instalada de 50 MW, empreendimento de interesse da E.P. Santa Gisele Ltda (HABTEC, 2007). Bacia do Rio Itabapoana Os principais usos da água nessa bacia são abastecimento público, irrigação e geração de energia elétrica. Entretanto outros usos como pesca artesanal e recreação também foram identificados. - Abastecimento Público O abastecimento público de todos os municípios fluminenses inseridos nesta bacia fica a cargo da CEDAE. O esgoto e o lixo domésticos são, em quase sua totalidade, despejados nos cursos d'água ou adjacências (Consórcio do Itabapoana, 2008). - Geração de Energia Elétrica O rio Itabapoana vem sendo alvo da implantação de empreendimentos hidrelétricos há alguns anos. Na área de estudo foram identificados cinco usinas, sendo estas: • • • •
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UHE Rosal, com capacidade instalada de 55,0 MW, sob concessão da Rosal Energética S.A.; PCH Calheiros, com capacidade instalada de 19,0 MW, sob concessão da Calheiros Energia S.A.; PCH Franca Amaral, com capacidade instalada de 4,5 MW, sob concessão da Quanta Geração S/A; PCH Pirapetinga, com capacidade instalada de 20,0 MW, sob concessão da Rio PCH I S.A;
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PCH Pedra do Garrafão, com capacidade instalada de 20,0 MW, sob concessão da Rio PCH I S.A.

- Irrigação Sendo a bacia do Itabapoana, predominantemente, rural e agrícola, o segmento irrigante apresenta aspectos que o colocam no centro das atenções dos que se propõem ao planejamento e a gestão dos recursos hídricos. É o setor da economia que responde sozinho pelo maior consumo quantitativo de água, sendo que este consumo apresenta uma sazonalidade perigosa para a manutenção da vazão, uma vez que sua demanda aumenta justamente nos períodos de menor oferta, ou seja, nos períodos de baixas vazões (secas). Assim, o uso da irrigação na bacia do Itabapoana é, devido a uma série de fatores, uma atividade cujo consumo de água varia enormemente ao longo do ano (Consórcio do Itabapoana, 2008). - Pesca Artesanal Foram identificadas apenas atividades de pesca artesanal no âmbito da bacia do rio Itabapoana. As principais colônias de pescadores identificadas estão situadas em Bom Jesus do Itabapoana e São Francisco do Itabapoana. Bacia do Rio Macaé Os principais usos da água, verificados no Rio Macaé, referem-se ao abastecimento de água, à diluição de despejos domésticos, industriais e agrícolas, à irrigação e à geração de energia elétrica (FGV PROJETOS, 2004) - Uso urbano/doméstico Aproximadamente 89 % dos municípios dessa bacia são atendidos pelo sistema de abastecimento de água público, sendo o consumo per capita em torno 275 l/hab/dia. No que tange ao esgotamento sanitário, segundo FGV PROJETOS (2004), os índices de coleta atingem 77%, entretanto apenas 43% do esgoto coletado recebe tratamento. - Uso Industrial A concentração industrial dessa bacia ocorre na Cidade de Macaé, com o número de 31 indústrias cadastradas pela FIRJAN. A maior parte das indústrias se abastece da rede pública. Algumas indústrias de grande porte captam diretamente no Rio Macaé, tais como: Petróleo Brasileiro S.A, UTE - Norte Fluminense e El Paso Rio Claro LTDA. As indústrias possuem sistema de tratamento de efluentes, os quais são posteriormente encaminhados para rede pública. - Uso agrícola A agricultura na bacia se dá em pequena escala e sem critérios, sendo bastante diversificada. A área total irrigada é de 1.105 ha, que corresponde a uma demanda total de água para captação estimada em 31.150 m3/dia (FGV PROJETOS, 2004). A atividade agrícola é marcada pelo uso indiscriminado de fertilizantes e defensivos agrícolas, que muitas vezes são usados em excesso e não são absorvidos pelas culturas, atingindo os corpos d’água da região, contribuindo para a contínua contaminação dos cursos d’água.
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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

- Geração de Energia Elétrica O único aproveitamento hidrelétrico existente nessa bacia é o de Macabu, pertencente a CERJ, situado no distrito de Glicério. A usina hidrelétrica de Macabu tem potência instalada de 21,00 MW. 6.8 Escassez Hídrica

A Região Noroeste do Estado do Rio de Janeiro vem sofrendo sérias restrições de abastecimento de água para consumo humano e animal, em função da escassez hídrica dos últimos anos. O desmatamento excessivo das florestas, o uso e o manejo inadequado dos solos conduziram a processos erosivos, tornando o solo menos permeável (MORAES, 2007). Outro fator que contribui para esse cenário é a baixa e mal distribuída precipitação pluviométrica, que é concentrada nos meses de verão, fazendo com que rios, córregos e poços rasos da região sequem durante a maior parte do ano. Dessa forma há um prejuízo em relação à plena recarga dos sistemas hídricos, levando ao desaparecimento de rios temporários, ao assoreamento dos rios e desaparecimento de nascentes, o que compromete a manutenção dos ecossistemas e a produção agropecuária da região. Uma das regiões que se caracteriza pela escassez hídrica é o município de São José do Ubá que, em 1999, decretou estado de calamidade pública em razão da estiagem. A estiagem causou grandes transtornos, influenciando diretamente a queda na produtividade agrícola. No ano de 2001, segundo o DRM – RJ (2001) houve um prolongamento excepcional da escassez, tornando secos os poços rasos, fenômeno causado pelo rebaixamento do lençol freático, atingido os próprios córregos da região. A escassez não atingiu os poços com a água subterrânea a maiores profundidades, que se tornaram uma alternativa para o abastecimento urbano e rural. Nesse período, uma parceria DRM/EMATER, realizou a perfuração de 34 poços na região, incluindo os seguintes municípios: Itaocara, Cambuci, São José de Ubá, São Francisco do Itabapoana, São Fidélis, Santo Antônio de Pádua, Laje do Muriaé, Carapebús, Cardoso Moreira, Italva, Bom Jesus do Itabapoana, Aperibé, Conceição de Macabú e São João da Barra. 6.9 Conflitos por Uso da Água

Os principais conflitos por uso da água nas regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro ocorrem na Baixada Campista. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), com o objetivo de drenar as áreas da baixada, construiu um sistema de canais interligados, de aproximadamente 1.300 km de extensão, com a função de conduzir as águas acumuladas pelas chuvas para o oceano. A partir do final da década de 1970 intensificaram-se os usos dos canais para a irrigação das lavouras de cana-de-açúcar (LABHID, 2006). Esta intrincada rede de canais se constitui num complexo e frágil sistema hidráulico, devido às grandes dimensões dos canais e baixas declividades (Mendonça et al., 2007), e seu controle e manutenção ficaram comprometidos desde a extinção do DNOS, em 1990. Essas características fazem com que qualquer assoreamento ou entupimento no leito dos canais comprometa o deslocamento do fluxo hídrico em direção a áreas interiores gerando
410 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

problemas de abastecimento ou inundações em suas áreas de influência (Mendonça et. al., 2007). Nos períodos de seca, o baixo nível d’água do rio Paraíba do Sul impossibilita a adução de água para os canais, comprometendo o abastecimento das propriedades rurais e provocando quedas na produção de alimentos e pecuária. A forte redução da oferta de água para os canais tem também como conseqüência imediata o aumento do nível da poluição hídrica, já que os canais são receptores do lixo e do esgoto lançados na área urbana de Campos (Carneiro, 2004). Buscando elevar o nível d’água dos canais, as usinas sucro-alcooleiras e os proprietários rurais constroem pequenas barragens para suprir sua demanda de água. Uma outra solução adotada é o manejo privado das comportas instaladas pelo DNOS. Com o fim dessa instituição, as usinas e proprietários rurais passaram a controlar boa parte das estruturas hidráulicas de acordo com seus interesses. Tais intervenções individuais interceptam o fluxo d’água, prejudicando os usuários situados à jusante, e disseminando conflitos pela água na região. O manejo das comportas também é responsável pelo conflito entre pescadores, agricultores e usineiros. As obras realizadas pelo DNOS modificaram a dinâmica das lagunas costeiras da Baixada Campista e as ligações dessas lagoas e lagunas com o mar foram fechadas. Os canais artificiais passaram a recolher as águas que convergiam para o mar e conduzi-las para o Canal da Flecha na Barra do Furado. Devido ao risco de salinização das terras, que segundo os proprietários rurais, prejudica a qualidade do solo, esta classe reivindica que as comportas que ligam o Canal da Flecha e as lagunas permaneçam fechadas. Em contrapartida, para os pescadores a comunicação das lagoas costeiras com o mar é fundamental para a renovação do estoque pesqueiro. Dessa forma, o manejo das comportas com o intuito de impedir a entrada da cunha salina é objeto de disputa entre pescadores e proprietários rurais, que buscam operá-las diretamente, ou pressionam os órgãos públicos a fazê-lo de acordo com seus interesses.
Fotos 20 e 21 – Comportas Manobráveis Identificadas no Canal do Furadinho, em Barra do Furado

Fonte: Rionor

Entretanto, de acordo com Carneiro (2004), um estudo realizado pela prefeitura de Campos constatou que a salinização das terras não se deve à penetração da cunha salina pela barra do Furado. Ao contrário, o aumento da salinidade provém de pólo oposto, em decorrência
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 411

da pequena quantidade de água doce que chega às lagunas, associado às altas taxas de evaporação. A entrada de água doce no Domínio dos Corpos Lagunares também é fonte de um conflito entre pescadores e usineiros. Segundo HABTEC (2007), durante o período das cheias, quando o rio Paraíba do Sul promove o fenômeno da piracema, parte dos ovos, larvas, e pós-larvas está sendo barrada pelas comportas implantadas pelos usineiros para drenagem do terreno marginal aos cursos d’água ou lagoas, visando ampliar as áreas de cultivo. Dessa forma, as comportas impedem a renovação do estoque pesqueiro e seu manejo gera conflitos entre a classe usineira e a pescadora. Segundo Soffiatti (2004), a construção de um dique de terra após a abertura de um canal no centro da Lagoa Feia do Itabapoana diminuiu a quantidade de peixes e alterou significativamente as condições hidrológicas. Os pescadores da região reclamam que em épocas chuvosas, a lagoa enche e os peixes retornam, entretanto, quando as águas escoam ou são drenadas pelos pecuaristas ocorre a mortandade de peixes em alta escala. A decomposição dos peixes exala um odor insuportável para a comunidade local e inviabiliza atividades recreativas, além de promover o processo de eutrofização artificial na lagoa. Os pescadores também acusam pecuaristas de lançarem agrotóxicos para eliminar a vegetação herbácea nos canais particulares, prejudicando a qualidade da água na lagoa. 6.10 Enchentes

As cheias dos rios Pomba, Carangola, Muriaé e Paraíba do Sul, são um problema constante para grande parte dos municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro. A ocupação territorial em áreas sujeitas a inundação, o processo contínuo e acelerado de erosão do solo e conseqüente assoreamento dos cursos d’água, a descaracterização das matas ciliares, o alto índice de desmatamento, a impermeabilização dos terrenos e as obras locais de interesse individual ou de caráter imediatista são os principais fatores agravantes das enchentes que assolam periodicamente várias cidades da região. Rio Muriaé e principais afluentes O rio Muriaé é um dos principais afluentes do rio Paraíba do Sul com extensão de aproximadamente 300 km e área de drenagem de 8.230 km². O rio nasce no Estado de Minas Gerais e, quando atinge o território fluminense passa pelo núcleo urbano de Lajes do Muriaé e, mais a diante, recebe a contribuição do rio Carangola, um dos seus principais afluentes. Essa região se caracteriza por um relevo acidentado, com a presença de várzeas onde são praticadas atividades de agropecuária. Às margens do rio Carangola estão localizadas as cidades de Porciúncula e, a jusante, Natividade. O principal núcleo urbano situado às margens do rio Muriaé, no Estado do Rio de Janeiro, é Itaperuna. A jusante desse Município, estão situadas as cidades de Italva e Cardoso Moreira, também localizadas às margens do rio Muriaé. De Italva até sua foz, o Muriaé percorre uma região plana, com áreas de planície de inundação do rio nas épocas de cheia. Em todos esses municípios pode ser constatada a ocupação irregular nas faixas marginais dos rios Carangola e Muriaé, sendo este um dos principais fatores agravantes das cheias.

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Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Foto 22 – Região Noroeste Fluminense, Italva, Ocupação da Faixa Marginal do Rio Muriaé

Fonte: Rionor Foto 23 – Região Noroeste Fluminense, Itaperuna, Rio Muriaé, Faixa Marginal Ocupada na Área Urbana e Desprovida de Mata Ciliar na Área Rural

Fonte: IBAMA/PETROBRAS, 2004

Outro fator que contribui para o agravamento das enchentes nessa região é a descaracterização da mata ciliar dos rios Muriaé (Foto anterior) e Carangola. A ausência de mata ciliar acaba por aumentar o assoreamento dos rios, diminuindo sua profundidade, além de diminuir a capacidade de infiltração da água no solo, aumentando o escoamento superficial. O histórico de vazões do rio Muriaé, revela que em intervalos de tempo da ordem de 10 anos, ocorrem cheias capazes de provocar inundações nos centros urbanos situados ao longo do rio e de seus afluentes, principalmente no estado do Rio de Janeiro (RIO DE JANEIRO, 1998). Em 1997, ocorreu uma cheia com período de retorno estimado em 50 anos, quando os níveis d’água ultrapassaram todos os registros anteriores. Nessa ocasião, as cidades mais atingidas foram Cardoso Moreira, Italva, Itaperuna, Porciúncula, Natividade e Laje do Muriaé. Os municípios de Cardoso Moreira e Italva ficaram com 95% do seu território embaixo d’água, e em Itaperuna, as inundações superaram a altura de 1,0 m nas áreas centrais.

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Os efeitos dessa cheia foram avassaladores e deixaram as cidades isoladas, pois as estradas de acesso foram bloqueadas devido a deslizamentos de encostas e alagamento de pistas, o fornecimento de energia elétrica e água potável foi interrompido e várias pessoas ficaram desabrigadas. Nos últimos anos, as cheias do rio Muriaé e Carangola continuam castigando a região. No ano de 2007, a barragem da Mineradora Rio Pomba Cataguases rompeu, devido às fortes chuvas que atingiram a região, resultando no derramamento de rejeitos de bauxita para a calha fluvial do rio Muriaé. Nos anos de 2008 e 2009, também foram registradas fortes inundações, atingindo principalmente os municípios de Lajes do Muriaé, Itaperuna, Cardoso Moreira , Italva, Porciúncula e Natividade. No início de 2009, o município de Porciúncula ficou ilhado, com as vias de acesso intransitáveis e sem abastecimento de água tratada. Em Cardoso Moreira foi decretado estado de calamidade pública e Itaperuna, Laje do Muriaé, Italva, Porciúncula e Natividade se encontravam em situação de emergência. Em Natividade, devido ao relevo acidentado, com a predominância de encostas declivosas às margens do rio Carangola, várias casas situadas nas faixas marginais do rio já desabaram e outras estão interditadas (Foto seguinte).
Foto 24 – Região Noroeste Fluminense, Natividade, Casas Desabadas Às Margens do Rio Carangola

Fonte: Rionor

Rio Pomba O rio Pomba também nasce no Estado de Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira, e percorre 265 km até desaguar no rio Paraíba do Sul. A bacia do rio Pomba abrange três municípios do Noroeste Fluminense, sendo estes: Miracema, Santo Antônio de Pádua e Aperibé. As cheias do rio Pomba atingem, em geral, a população ribeirinha, invasora da calha do rio. Somente nas cheias excepcionais, parcelas das áreas urbanas consolidadas em níveis mais altos são invadidas pelas águas (LABHID, 2006). Na área de estudo, os municípios de Aperibé e Santo Antônio de Pádua estão localizados nas margens do rio Pomba e, portanto, são os mais afetados pelas cheias.
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Segundo LABHID (2006), as cheias que hoje ocorrem na bacia do rio Pomba são significativamente mais brandas do que às da bacia do Muriaé, possivelmente, devido à contribuição dos reservatórios existentes ao longo da bacia do rio Pomba. Entretanto, segundo a ANA (2009), em dezembro de 2008, o nível do Rio Pomba em Santo Antônio de Pádua subiu 3,50 m. acima do nível normal em dois dias. Cerca de 80% do município ficaram alagados. O centro da cidade ficou totalmente debaixo d’água. O Município teve cerca de 400 desabrigados, e quase 20 mil desalojados. Rio Paraíba do Sul O DNOS criou um sistema de drenagem na Baixada dos Goytacazes visando principalmente concluir os diques da margem direita do rio Paraíba do Sul, inverter o sentido dos canais afluentes, no sentido da Lagoa Feia, e drenar as águas dessa lagoa exclusivamente pelo Canal da Flecha, em direção à Barra do Furado. O projeto foi concebido de modo a confinar as águas do Paraíba em sua calha, por meio de diques, e drenar todas as contribuições da margem direita para a Lagoa Feia, que funcionaria como reservatório de compensação, ligado ao mar por um canal de descarga (Costa, 2001). Os 65 km de diques construídos pelo DNOS permitem uma sobreelevação do nível d’água do Rio Paraíba, em até 5m acima da situação média, sem transbordamento. Foram construídas 6 tomadas d’água no rio Paraíba do Sul. Como dito anteriormente, a hidrodinâmica foi alterada e as águas, no interior da baixada, passaram a ser distribuídas por canais artificiais, regulados por comportas. De acordo com LABHID (2006), deve ser ressaltada a importância do guarda-corpo em concreto, com crista na cota 11,5 m (IBGE), bem como o dique de terra que se estende até São João da Barra para a defesa da cidade de Campos durante as cheias do rio Paraíba do Sul.
Figura 3 – Diques e Tomadas D’água Construídos no Baixo Paraíba do Sul

Fonte: Costa, 2001
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Segundo Soffiati (2009), o projeto executado é simplificador e reducionista, direcionando as águas drenadas em toda a Baixada para apenas três defluentes rumo ao mar: a foz do Paraíba do Sul; a foz construída do Canal das Flechas; e o canal construído Engenheiro Antônio Resende, que conecta a Lagoa do Campelo e o mar. Nas épocas de chuvas intensas, a elevação do nível das águas determina a necessidade de um eficiente manejo das comportas de adução e controle, a fim de regular o nível dos canais e evitar represamentos e inundações. Entretanto, tais estruturas hidráulicas estão abandonadas e, em muitos casos são controladas por proprietários rurais ou usineiros, de acordo com seus interesses. A construção de diques irregulares, por parte dos proprietários rurais, também contribui para o agravamento das enchentes, pois estas estruturas dificultam o escoamento da água nos canais. Outro grande problema da rede de canais se refere a sua manutenção. O controle das cotas de fundo, da vegetação aquática e dos taludes exige equipamentos de grande porte (escavadeiras hidráulicas e mecânicas), além de mão-de-obra treinada e experiente. Associado a esses problemas, os canais também sofrem o agravante de terem seus fluxos comprometidos pela deposição de lixo e esgotos urbanos e industriais, o que compromete ainda mais seu correto funcionamento (Mendonça et al., 2007) A gestão inadequada desse sistema hídrico causa sérios transtornos à população rural e urbana da região. Segundo Oliveira et al. (2007), segmentos sociais ligados ao setor agroindustrial emitiram uma nota à imprensa apresentando os danos causados pelas enchentes no setor agrícola de Campos nos últimos anos. No ano agrícola 2000/2001, estimou-se perdas de 40% e 45% na produção dos setores agroindústria canavieira e pecuária leiteira, respectivamente. Em 2005, foram esmagadas 5.478.440 toneladas de cana-de-açúcar. Com a enchente de janeiro de 2007, a região, com cerca de 100 mil ha de cana-de-açúcar plantada, teve pelo menos 50% desta área atingida, com probabilidade de serem perdidos. Outro fator contribuinte para o agravamento das cheias na Baixada Campista é o processo de assoreamento contínuo da Lagoa Feia, associado à eutrofização de suas águas pelo despejo de matéria orgânica e fertilizantes químicos usados na lavoura. Esses fatores são responsáveis pela redução da profundidade da lagoa, que cumpre o papel de um grande estabilizador de águas para a planície fluviomarinha. 6.11 Planos e Projetos

Este item é referente aos planos e projetos governamentais, desenvolvidos recentemente ou em desenvolvimento, nas regiões Norte e Noroeste fluminense, referentes ao tema Recursos Hídricos. Convênio n° 008/2004 ANA/SERLA A implantação da cobrança pelo uso da água no Estado do Rio de Janeiro, regulamentada pela Lei Estadual n° 4.247/03, impulsionou a discus são e a mobilização para criação dos Comitês de Bacia no Estado. O início da cobrança pelo uso da água, a nível regional, e a mobilização para criação de comitês de bacia visando a aplicação dos recursos arrecadados em sua área de atuação demonstraram a necessidade de ações de fortalecimento e capacitação do órgão gestor dos recursos hídricos estaduais, função desempenhada pela então Fundação Superintendência Estadual de Rios e Lagoas, SERLA. O Convênio nº 008/2004, celebrado entre a Agência Nacional de Águas, ANA, e a SERLA, visava exatamente o fortalecimento institucional da SERLA para implementação do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos, e a delegação de competências da União
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para o Estado quanto aos canais artificiais de irrigação da Baixada Campista construídos pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) (INEA, 2009 a). Este Convênio foi firmado em 13 de dezembro de 2004 e teve seu prazo de vigência com término, em 31 de dezembro de 2008. No que tange à implementação do Sistema Estadual de Gerenciamento dos Recursos Hídricos, os principais resultados obtidos foram referentes à migração da base de dados estadual referente aos recursos hídricos para o Cadastro Nacional de Recursos Hídricos (CNARH). Tal procedimento unificou o armazenamento de dados, e deu maior confiabilidade aos dados utilizados para a emissão de outorgas de uso dos recursos hídricos. Tal adesão foi vista como um primeiro passo na implementação do Sistema Estadual de Informações sobre Recursos Hídricos, SEIRH. Este sistema de informações tem como meta a integração da disponibilidade hídrica e os instrumentos de outorga e cobrança com o CNARH, englobando todas as etapas de monitoramento, regularização, uso e gestão integrada dos recursos hídricos. Os repasses do Convênio, previstos para a fase final de implantação do SEIRH, não foram efetuados devido ao seu término. Para garantir a continuidade do trabalho executado, foram obtidos recursos junto ao Fundo Estadual para Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano, FECAM. Na tratativa referente aos canais da Baixada Campista, foi contratado um estudo junto à Fundação COPPETEC, de forma a diagnosticar a sua situação atual e propor um arranjo institucional para a gestão sustentável dos sistemas de drenagem, irrigação e outros usos, visando sua adequada operação e manutenção, de forma a atender os usuários da região. O relatório final, intitulado “Análise do Sistema de Canais da Baixada Campista – Relatório Final” foi encaminhado à ANA, em abril de 2006. O estudo indica que o Comitê de Bacia é a instância mais adequada para a construção do pacto em torno das diretrizes de utilização de recursos hídricos dos canais. O Comitê de Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul, instituído recentemente, terá o papel de administrar esse sistema hídrico. Dessa forma, segundo o INEA (2009 a), o Comitê de Bacia de Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul, RH IX, iniciará as suas atividades contando com um diagnóstico claro e preciso sobre um dos principais conflitos envolvendo diversos usos e usuários localizados em sua área de abrangência, incluindo ainda sugestões de arranjos institucionais para a gestão da infraestrutura deixada pelo DNOS. Concorrência n° 005/ANA/2009 A Agência Nacional de Águas lançou um edital, em dezembro de 2009, para a contratação de empresa de consultoria especializada visando a elaboração de estudos para concepção de um sistema de previsão de eventos de cheia (incluindo modelos chuva-vazão, para previsão de vazões e propagação no canal e planície de inundação), rompimento de barragens e propagação de poluentes, (SISPREC) na bacia do rio Paraíba do Sul; e de um sistema de intervenções estruturais para mitigação dos efeitos de cheias nas bacias dos rios Muriaé e Pomba (SIEMEC). Segundo a ANA (2009), os principais objetivos a serem alcançados nesses estudos são:

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Atualizar e sistematizar informações sobre a hidrologia das regiões interessadas aos estudos, particularmente aquelas ligadas à análise de eventos extremos, inventário de potenciais poluidores e pontos vulneráveis na bacia rio Paraíba do Sul e seus principais afluentes (Paraibuna, Pomba e Muriaé); Desenvolver modelos matemáticos de simulação quali-quantitativa do escoamento, visando subsidiar ações de prevenção e mitigação de impactos no rio Paraíba do Sul e alguns de seus principais afluentes; Estruturar e implantar um Sistema de Previsão de Cheias (SISPREC) operacional para a bacia do rio Paraíba do Sul; Conceber um Sistema de Intervenções Estruturais destinados à Mitigação do Efeito das Cheias (SIEMEC) nas Bacias dos Rios Muriaé e Pomba; Analisar e compreender o desencadeamento de cheias nas bacias dos rios Muriaé e Pomba, identificando trechos críticos; Identificar intervenções para mitigar cheias nas cidades de Cardoso Moreira, Italva, Itaperuna, Laje do Muriaé, Muriaé, Mirai, Natividade, Porciúncula, Tombos, Carangola, Cataguases e Santo Antônio de Pádua em um nível de pré-viabilidade, seja pelo armazenamento e/ou detenção de cheias na bacia, seja por melhoramentos estruturais e/ou hidráulicos nas calhas dos rios Muriaé e Pomba ou, ainda, por meio de desvio parcial de vazões de cheias, nas proximidades das cidades relacionadas anteriormente, de forma a, juntamente com o sistema de previsão, oferecer mais tempo para resposta da Defesa Civil e atenuar os impactos de cheias nessas cidades, conforme os critérios que vierem a ser adotados; Promover uma avaliação das soluções inventariadas de modo a descartar aquelas julgadas menos atrativas e consolidar o Sistema de Intervenções Estruturais concebido.

• • • •

Os referidos estudos constituem o primeiro passo para a elaboração do Plano de Contingência para Eventos Críticos na Bacia do Paraíba do Sul. Os demais sistemas que vierem a integrar o Plano de Contingência serão objeto de outros estudos e de subseqüentes detalhamentos e implantações. Recuperação do Sistema de Canais da Baixada Campista A COPPE/UFRJ foi contratada pelo INEA e elaborou um projeto apresentando soluções estruturais definitivas para a recuperação do sistema de canais da Baixada Campista e das margens direita e esquerda do Rio Paraíba do Sul. O projeto da COPPE contempla os três subsistemas existentes na baixada, sendo estes: subsistema Vigário, subsistema São Bento e subsistema Campos dos Goytacazes-Macaé. A primeira etapa das obras contemplará apenas o subsistema São Bento e serão investidos R$ 97 milhões, com recursos do PAC Drenagem, advindos do Ministério da Integração Nacional. O início das obras está previsto para 2010, após a concessão da licença ambiental. Os principais serviços a serem executados são: a manutenção dos canais através de limpeza e remoção de vegetação aquática, dragagens para regularização do fundo e alargamento de margens em determinados trechos, construção de um vertedouro estabelecendo um canal de comunicação entre os canais São Bento e Quitinguta, e a recuperação das comportas.
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Segundo INEA (2009 b), as secretarias de Estado do Ambiente, de Agricultura e de Planejamento também estão elaborando um edital para realização de uma Parceria Público Privada (PPP) com objetivo de executar obras nos outros dois sistemas e assegurar a operação e a manutenção dos três sistemas, com rotinas de desassoreamento e operação de comportas, por exemplo. Além das obras estruturais, o INEA está contratando a COPPE/UFRJ para a elaboração de um projeto de gestão dos recursos hídricos da Baixada Campista incorporando medidas a serem executadas nas épocas de seca.

7.

LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

O levantamento da legislação ambiental do Estado do Rio de Janeiro referente aos temas abordados nesse Capítulo III – Meio Natural I, compilou o seguinte arcabouço: Cobertura Vegetal • Lei Estadual n° 690 de 1º de dezembro de 1983, que dispõe sobre a proteção às florestas e demais formas de vegetação natural e dá outras providências; • Lei Estadual n° 721 de 02 de janeiro de 1984, que considera, para os efeitos previstos no Código Florestal - Lei Federal n° 4.771, de 1965 - como de prestação permanente a vegetação natural das ilhas que menciona e dá outras providências; Lei Estadual n° 734 de 21 de maio de 1984, que pro íbe, em todo o território do Rio de Janeiro, qualquer tipo de corte de floresta, consoante o disposto nos artigos 2º e 3º da lei n° 4.771, de 15 de setembro de 1995; Lei Estadual n° 1.315 de 07 de junho de 1988, que institui a Política Florestal do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências; Lei Estadual n° 2.049 de 22 de dezembro de 1992, q ue dispõe sobre a proibição de queimadas da vegetação no Estado do Rio de Janeiro em áreas e locais que especifica e dá outras providências; Lei Estadual n° 2.942 de 08 de maio de 1998, que a utoriza o Poder Executivo a criar programa permanente de plantio de árvores; Lei Estadual n° 3.187 de 12 de fevereiro de 1999, que cria a taxa florestal para viabilizar política florestal no Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 3.532 de 09 de janeiro de 2001, qu e autoriza o Poder Executivo a criar o Fundo Florestal para arrecadação e aplicação de taxa prevista na Lei Estadual n° 3.187/99.

• •

• • •

Uso e Ocupação do Solo • Lei Estadual n° 716, de 27 de dezembro de 1983, qu e dispõe sobre medidas de proteção ao solo agrícola; • Lei Estadual n° 784, de 5 de outubro de 1984, que estabelece normas para a concessão da anuência prévia do Estado aos projetos de parcelamento do solo para fins urbanos nas áreas declaradas de interesse especial à proteção ambiental e dá outras providências; Lei Estadual n° 965, de 6 de janeiro de 1986, que dispõe sobre obrigatoriedade de plantio de árvores em todos os loteamentos a serem aprovados no Estado do Rio de Janeiro, e dá outras providências;
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Lei Estadual n° 1.130, de 12 de fevereiro de 1987, que define as áreas de interesse especial do Estado e dispõe sobre os imóveis de área superior à 1.000.000 m² (hum milhão de metros quadrados) e imóveis localizados em áreas limítrofes de municípios, para efeito do exame e anuência prévia a projetos a projetos de parcelamento de solo para fins urbanos, a que se refere o art. 13 da Lei n° 6.766 de 1979.

Unidades de Conservação • Lei Estadual n° 1.681 de 19 de julho de 1990, que dispõe sobre a elaboração do Plano Diretor das áreas de proteção ambiental criadas no Estado, e dá outras providências; • Lei Estadual n° 2.393, de 20 de abril de 1995, que dispõe sobre a permanência de populações nativas residentes em Unidades de Conservação do Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 3.443, de 14 de julho de 2000, que regulamenta o art. 27 das disposições transitórias e os art. 261 e 271 da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, estabelece a criação dos Conselhos Gestores para as Unidades de Conservação estaduais, e dá outras providências.

Área Litorânea • Lei Estadual n° 1.807, de 3 de abril de 1991, que dispõe sobre a criação dos “Parques das Dunas” em todo o Estado; • • Lei Estadual n° 1.864, de 5 de outubro de 1991, qu e dispõe sobre a colocação de placas informativas, nas praias do Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 3.832, de 13 de maio de 2002, que institui o Dia Estadual de Limpeza das Praias no Estado do Rio de Janeiro.

Turismo • Lei Estadual n° 921, de 11 de novembro de 1985, qu e dispõe sobre a instituição dos atrativos e das áreas estaduais de interesse turístico e dá outras providências; • • Lei Estadual n° 3.392, de 3 de maio de 2000, que a utoriza a Turis-Rio a realizar projeto de ecoturismo na Serra da Bela Joana, em São Fidélis; Lei Estadual n° 4.616, de 11 de outubro de 2005, q ue cria a certificação do ecoturismo e do turismo ecológico.

Controle, Proteção e Fiscalização Ambiental • Lei Estadual n° 1.060, de 10 de novembro de 1986, que institui o Fundo Especial de Controle Ambiental, FECAM e dá outras providências; • • • • Lei Estadual n° 1.071, de 18 de novembro de 1986, que cria o Instituto Estadual de Florestas; Lei Estadual n° 1.202, de 7 de outubro de 1987, qu e cria a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, FIPERJ; Lei Estadual n° 1.204, de 7 de outubro de 1987, qu e institui o Comitê de Defesa do Litoral do Estado do Rio de Janeiro, CODEL e dá outras providências; Lei Estadual n° 1.315, de 7 de junho de 1988, que institui a Política Florestal do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências;
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Lei Estadual n° 1.671, de 21 de junho de 1990, que institui a Fundação Superintendência Estadual de Rios e Lagos, SERLA; Lei Estadual n° 2.191, de 9 de dezembro de 1993, q ue acresce novas atribuições às cooperativas ecológicas; Lei Estadual n° 2.578, de 3 de julho de 1996, que institui o Cadastro Estadual de Entidades Ambientalistas do Estado do Rio de Janeiro, C.E.E.A. - RJ; Lei Estadual n° 3.346, de 29 de dezembro de 1999, que autoriza o Poder Executivo a criar o Banco de Dados Ambientais - BDA; Lei Estadual n° 3.467, de 14 de julho de 2000, que dispõe sobre as sanções administrativas derivadas de condutas lesivas ao meio ambiente no Estado do Rio de Janeiro, e dá outras providências; Lei Estadual n° 3.917, de 22 de agosto de 2002, qu e autoriza o Poder Executivo a firmar contratos de arrendamento rural para fins de recuperação e preservação ambiental; Lei Estadual n° 4.063, de 2 de janeiro de 2003, qu e determina a realização do zoneamento ecológico econômico do Estado do Rio de Janeiro, observados, no que couber, os princípios e objetivos estabelecidos no Decreto Federal n° 4.297/2002, que estabelece os critérios para zoneamento ecológico econômico do Brasil; Decreto n° 32.862, de 12 de março de 2003, que dis põe sobre o Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Rio de Janeiro, instituído pela Lei Estadual n° 3.239, de 02 de agosto de 1999, revoga o Decreto n° 32.225 de 21 de novembro de 2002 e dá outras providências; Lei Estadual n° 4.235, de 2 de dezembro de 2003, q ue altera a Lei n° 1.356, de 03 de outubro de 1998, que dispõe sobre os procedimentos vinculados à elaboração, análise e aprovação dos estudos de impacto ambiental; Lei Estadual n° 4.431, de 27 de outubro de 2004, q ue torna obrigatório a publicação da relação de infratores que tenham sofrido sanções administrativas aplicadas por condutas lesivas ao meio ambiente no Estado; Lei Estadual n° 4.760, de ,8 de maio de 2006, que autoriza o Poder Executivo a instituir o programa consciência ambiental; Lei Estadual n° 5.067, de ,9 de julho de 2007, que dispõe sobre o zoneamento ecológico econômico do Estado do Rio de Janeiro e definindo critérios para a implantação da atividade de silvicultura econômica no Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 5.101, de 4 de outubro de 2007, qu e dispõe sobre a criação do Instituto Estadual do Meio Ambiente, INEA, e sobre outras providências para maior eficiência na execução das políticas estaduais de meio ambiente, de recursos hídricos e florestais; Lei Estadual n° 5.100, de 4 de outubro de 2007, qu e altera a Lei n° 2.664, de 27 de dezembro de 1996, que trata da repartição aos municípios da parcela de 25% (vinte e cinco por cento) do produto da arrecadação do ICMS, incluindo o critério de conservação ambiental, e dá outras providências.

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Pesca • Lei Estadual n° 2.423, de 17 de agosto de 1995, qu e disciplina a pesca nos cursos d’água do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências;

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Lei Estadual n° 3.192, de 15 de março de 1999, que dispõe sobre o direito dos pescadores, assegurado pelo parágrafo 3º do art. 257 da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, às terras que ocupam.

Recursos Hídricos • Lei Estadual n° 650, de 11 de janeiro de 1983, que dispõe sobre a política estadual de defesa e proteção das bacias fluviais e lacustres do Estado do Rio de Janeiro; • Lei Estadual n° 940, de 17 de dezembro de 1985, qu e dispõe sobre a preservação da coleção hídrica e o tratamento de águas residuárias e resíduos provenientes de indústrias sucro-alcooleiras das regiões canavieiras do Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 1.803, de 25 de março de 1991, que cria a taxa de utilização de recursos hídricos de domínio estadual, TRH; Lei Estadual n° 2.661, de 27 de dezembro de 1996, q ue regulamenta o dispositivo no art. 274 (atual 277) da Constituição do Estado do Rio de Janeiro no que se refere à exigência de níveis mínimos de tratamento de esgotos sanitários, antes de seu lançamento em corpos d’água e da outras providências; Lei Estadual n° 2.717, de 24 de abril de 1997, que proíbe a construção, a qualquer título, de dispositivos que venham a obstruir canais de irrigação pelo mar, ou alterar os entornos das lagoas, em suas configurações naturais; Lei Estadual n° 3.239, de 2 de agosto de 1999, que institui a Política Estadual de Recursos Hídricos; Cria o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos; Regulamenta a Constituição Estadual em seu art. 261, parágrafo 1º, inciso VII e dá outras providências; Lei Estadual n° 4.051, de 30 de dezembro de 2002, q ue dispõe sobre a criação do Programa S.O.S Rio Paraíba do Sul, objetivando a sua revitalização, no Estado do Rio de Janeiro; Lei Estadual n° 4.247, de 16 de dezembro de 2003, q ue dispõe sobre a cobrança pela utilização dos recursos hídricos de domínio do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências; Resolução CERHI n° de 15 de outubro de 2001, que cria as câmaras técnicas 2, que menciona no âmbito do Conselho Estadual de Recursos Hídricos e dá outras providências; Resolução CERHI n° de 25 de setembro de 2002, qu e estabelece as diretrizes 5, para a formação, organização e funcionamento de Comitê de Bacia Hidrográfica, de forma a implementar o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos; Resolução CERHI n° de 29 de maio de 2003, que di spõe sobre a cobrança pelo 6, uso de recursos hídricos nos corpos hídricos de domínio do Estado do Rio de Janeiro integrantes da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul; Resolução CERHI n° publicada como Deliberação/CE RHI-RJ n° 1 de 1º de julho 7, de 2003, que dispõe sobre os procedimentos e estabelece critérios gerais para instalação e instituição dos comitês de bacias hidrográficas; Resolução CERHI n° 18, de 08 de novembro de 2006, q ue aprova a definição das regiões hidrográficas do Estado do Rio de Janeiro.

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8.

REFERÊNCIAS

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Meio Ambiente Modificado
Capítulo 4

Autores: Ailton Mota de Carvalho Andréa Ferreira Machado Gustavo Campos Dib Gustavo Menezes Gonçalves Laudirléa Silva dos Reis Mário Teixeira Rodrigues Bragança Milton Casério Filho Túlio Amaral Pereira

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

SUMÁRIO

1. 1.1 1.2 1.3 1.3.1 1.3.2 1.3.3 2. 2.1 2.2 2.3 2.3.1 2.3.2 2.3.3 2.4 2.5 2.6 2.7 3. 3.1 3.1.1 3.2 3.3

A PLATAFORMA CONTINENTAL E SUA GEOLOGIA, POTENCIALIDADES MINERAIS E EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO..................................................... 439 A Plataforma Continental e sua Geologia............................................................. 439 Potencialidade Mineral das Regiões Norte e Noroeste Fluminense ..................... 445 A Exploração do Petróleo na Bacia de Campos................................................... 446 Bacia de Campos - A Maior Reserva de Petróleo do Brasil.................................. 447 O Pré-Sal na Bacia de Campos ........................................................................... 451 Marco Regulatório................................................................................................ 451 A INSERÇÃO AMBIENTAL DOS GRANDES EMPREENDIMENTOS E DO AGRONEGÓCIO.................................................................................................. 451 Áreas de Influência dos Grandes Empreendimentos............................................ 452 Problemas Ambientais Numa Visão Político-administrativa.................................. 452 Delimitação das Áreas de Influência dos Grandes Empreendimentos.................. 453 Área Diretamente Afetada (ADA) ......................................................................... 453 Área de Influência Direta (AID)............................................................................. 453 Área de Influência Indireta (AII)............................................................................ 454 Área de Influência do Meio Físico ........................................................................ 454 Área de Influência do Meio Biótico ....................................................................... 455 Área de Influência do Meio Antrópico................................................................... 456 Considerações Finais........................................................................................... 457 POLUIÇÃO, CONTAMINAÇÃO, EMISSÕES, EFEITO ESTUFA, COMPENSAÇÕES AMBIENTAIS ....................................................................................................... 458 Mata Atlântica no Brasil........................................................................................ 458 A Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro ..................................................... 460 Expansão das Áreas de Pastagem ...................................................................... 461 Processos Erosivos.............................................................................................. 462
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

3.4 3.5 3.5.1 3.5.2 3.5.3 3.5.4 3.6 3.6.1 3.7 3.7.1 3.7.2 3.8 3.8.1 3.8.2 3.8.3 3.9 3.10 4. 4.1 4.1.1 4.1.2 4.1.3 4.1.4 4.1.5 4.1.6 4.1.7

Poluição do Solo e das Águas.............................................................................. 464 O Sistema Hidrográfico do Norte e Noroeste Fluminense .................................... 466 O Sistema Hidrográfico do Rio Paraíba do Sul..................................................... 466 O Sistema Hidrográfico do Rio Itabapoana .......................................................... 468 O Sistema Hidrográfico do Rio Macaé ................................................................. 469 Qualidade da Água na Bacia do Rio Paraíba do Sul ............................................ 471 Comitês de Bacia Hidrográfica ............................................................................. 473 Conselho Estadual de Recursos Hídricos - CERHI .............................................. 475 A Região Costeira ................................................................................................ 475 Gerenciamento Costeiro - GERCO ...................................................................... 476 A Zona Costeira Fluminense ................................................................................ 477 Poluição Atmosférica – Efeito Estufa.................................................................... 481 Poluentes Atmosféricos........................................................................................ 482 Monitoramento da Qualidade do Ar no Norte/Noroeste Fluminense..................... 482 Resultados do Monitoramento.............................................................................. 483 Emissões de Gases e Efeito Estufa ..................................................................... 483 Considerações Finais........................................................................................... 488 COMPENSAÇÕES AMBIENTAIS ........................................................................ 489 A Compensação Ambiental dos Grandes Empreendimentos do Norte e Noroeste Fluminense .......................................................................................................... 490 Complexo do Porto do Açu .................................................................................. 490 Usina Termelétrica de Porto do Açu..................................................................... 490 Linha de Transmissão 345 kV, UTE Porto do Açu – Campos dos Goytacazes .... 490 Aeródromo de Farol de São Tomé ....................................................................... 490 Agroindústria de Bom Jesus de Itabapoana ......................................................... 490 As Atividades da Petrobrás .................................................................................. 491 Petróleo na Costa Brasileira................................................................................. 491

4.1.7.1 Formas de Contaminação por Petróleo................................................................ 492
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4.1.7.2 Licenças, Exigências e Autorizações ................................................................... 493 4.1.8 4.1.9 4.1.10 5. 5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 5.6 6. 6.1 6.2 6.3 6.3.1 UTE de Macaé (“El Paso”) ................................................................................... 494 Transpetro – Lagoa de Jurubatiba ....................................................................... 494 Projeto Pólen ....................................................................................................... 494 CRÉDITOS DE CARRBONO ............................................................................... 494 Conceito e Discussão .......................................................................................... 495 MDL e “Commodities” Ambientais........................................................................ 497 Crédito de Carbono e sua Importância................................................................. 498 A Criação e a Valoração dos Créditos de Carbono .............................................. 498 Créditos de Carbono no Estado do Rio de Janeiro............................................... 500 Considerações ..................................................................................................... 501 LEGISLAÇÃO E REGULAÇÃO AMBIENTAL....................................................... 502 Evolução da Política Ambiental no Brasil ............................................................. 502 Política Ambiental no Estado do Rio de Janeiro................................................... 503 Legislação Ambiental dos Municípios da Região Norte e Noroeste Fluminense .. 509 Região Noroeste Fluminense ............................................................................... 509

6.3.1.1 Aperibé ................................................................................................................ 509 6.3.1.2 Bom Jesus Itabapoana......................................................................................... 510 6.3.1.3 Cambuci............................................................................................................... 510 6.3.1.4 Italva .................................................................................................................... 511 6.3.1.5 Itaocara................................................................................................................ 511 6.3.1.6 Itaperuna.............................................................................................................. 514 6.3.1.7 Laje do Muriaé ..................................................................................................... 515 6.3.1.8 Miracema ............................................................................................................. 520 6.3.1.9 Natividade ............................................................................................................ 521 6.3.1.10 Porciúncula .......................................................................................................... 522 6.3.1.11 Santo Antônio de Pádua ...................................................................................... 523 6.3.1.12 São José de Ubá.................................................................................................. 524
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

6.3.1.13 Varre-Sai.............................................................................................................. 524 6.3.2 Região Norte Fluminense..................................................................................... 525

6.3.2.1 Campos dos Goytacazes ..................................................................................... 525 6.3.2.2 Cardoso Moreira .................................................................................................. 528 6.3.2.3 Carapebus ........................................................................................................... 529 6.3.2.4 Conceição de Macabu.......................................................................................... 531 6.3.2.5. Macaé ................................................................................................................... 532 6.3.2.6 Quissamã............................................................................................................. 535 6.3.2.7 São Fidélis ........................................................................................................... 538 6.3.2.8 São Francisco do Itabapoana............................................................................... 540 6.3.2.9 São João da Barra ............................................................................................... 544 6.4 6.5 6.5.1 Convênios para o Licenciamento Municipal ........................................................ 549 Os Estados Limítrofes.......................................................................................... 550 Estrutura Ambiental do Estado de Minas Gerais .................................................. 550

6.5.1.1 SISEMA ............................................................................................................... 550 6.5.1.2 SEMAD ................................................................................................................ 551 6.5.1.3 COPAM................................................................................................................ 551 6.5.1.4 CERH................................................................................................................... 552 6.5.1.5 FEAM................................................................................................................... 552 6.5.1.6 IEF ....................................................................................................................... 553 6.5.1.7 IGAM.................................................................................................................... 553 6.5.2 6.5.3 Licenciamento / Regularização Ambiental............................................................ 553 Outorga de Uso da Água...................................................................................... 554

6.5.3.1 Modalidades de Outorga ...................................................................................... 554 6.5.4 Estrutura Ambiental do Espírito Santo.................................................................. 555

6.5.4.1 SEAMA ................................................................................................................ 555 6.5.4.2 CONSEMA E CONREMAS .................................................................................. 555 6.5.4.3 CERH................................................................................................................... 555
Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

6.5.4.4 IEMA .................................................................................................................... 555 6.5.5 Licenciamento Ambiental ..................................................................................... 556

6.5.5.1 Tipos de Licenças Ambientais.............................................................................. 557 6.5.6 Outorga de Uso da Água...................................................................................... 559

6.5.6.1 Modalidades de Outorga ...................................................................................... 560 7. REFERÊNCIAS.................................................................................................... 562 ANEXOS.............................................................................................................. 567 ANEXO I – MAPA GEOLÓGICO SIMPLIFICADO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ............................................................................................................. 568 ANEXO II – MAPA DE BACIAS HIDROGRÁFICAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ............................................................................................................. 569 ANEXO III – MAPA GEOMORFOLÓGICO........................................................... 570 ANEXO IV – MAPA DE SUSCEPTIBILIDADE A EROSÃO .................................. 571 ANEXO V - REGIÃO NORTE E NOROESTE FLUMINENSE – GRANDES EMPREENDIMENTOS PREVISTOS EU EM FASE DE INSTALAÇÃO................ 572 ANEXO VI - DECRETO Nº 42.050, DE 25 DE SETEMBRO DE 2009.................. 573

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LISTAS

FIGURAS Figura 1 - Seção Geológica Esquemática da Bacia de Campos, entre a Plataforma Continental e Região de Águas Profundas ........................................................................ 450 Figura 2 - Macro Estrutura Ambiental no Estado do Espírito Santo.................................... 556 Figura 3 - Fluxograma de Licenciamento Ambiental .......................................................... 558 Figura 4 – Etapas Básicas de Avaliação Ambiental ........................................................... 559

GRÁFICOS Gráfico 1 – Regiões Norte e Noroeste - Proporção das Classes de Vegetação e Uso do Solo .......................................................................................................................................... 461 Gráfico 2 – Proporção de Classes de Conecção Ecológica (Calculado por Domínio Geomorfológico e Sistema Hidrográfico) na Região em Estudo......................................... 463 Gráfico 3 – Emissões de CO2eq pelo Uso de Energia ....................................................... 484 Gráficos 4 e 5 – Regiões Norte e Noroeste - Participação dos Setores no Total das Emissões de Gases Estufa pelo Uso de Energia por Região (%) ...................................... 484 Gráfico 6 – Emissões de CO2eq pelos Resíduos Sólidos Urbanos (Gg CO2eq e %).......... 486 Gráfico 7 - Emissões de CO2eq pelo Setor de Tratamento de Resíduos por Região (Gg CO2eq e %)........................................................................................................................ 487

MAPAS Mapa 1 – Data das Descobertas dos Campos de Petróleo................................................ 448 Mapa 2 – Bacia de Campos............................................................................................... 448

QUADROS Quadro 1 – Fisionomias Vegetais Inseridas no Domínio da Mata Atlântica........................ 459 Quadro 2 – Percentagem de Remanescentes por Tipo de Formação Florestal ................. 459
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Quadro 3 – Taxa de Desmatamento da Mata Atlântica nos Estados Brasileiros, 2000 - 2005 .......................................................................................................................................... 460 Quadro 4 – Regiões Hidrográficas do Norte e Noroeste Fluminense ................................. 465 Quadro 5 – Gerenciamento de Águas e Esgoto................................................................. 466 Quadro 6 - Particularidades da Zona Costeira ................................................................... 478 Quadro 7 – Principais Indicadores da Costa Fluminense................................................... 478

TABELAS Tabela 1 - Total de Emissões de Gases Estufes pela Agricultura, Floresta e Outras Uso do Solo por (Gg) ..................................................................................................................... 485 Tabela 2 - Emissões de Gases Estufa pelos Resíduos Sólidos Urbanos por Tipo de Disposição e por Região (Gg)............................................................................................ 486 Tabela 3 - Emissões de CO2eq pelos Esgotos Sanitários por Região (Gg CO2eq e %) ..... 487 Tabela 4 – Matriz Energética Mundial em 2004 ................................................................. 495 Tabela 5 - Relação de Empreendimentos e Projetos Aprovados para Habilitação de Crédito de Carbono e MDL, no Estado do Rio de Janeiro, 2005-2009 ........................................... 501

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“Vista de longe, a característica da Terra que mais nos impressiona e nos deixa sem respiração, é o fato desta estar viva. ... tudo tem um aspecto organizado, autônomo, de uma criatura viva, cheia de informações, que lida com o sol, fazendo usos de uma perícia maravilhosa.”
in The Lives of a Cell Lewis Thomas

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1.

A PLATAFORMA CONTINENTAL E SUA GEOLOGIA, POTENCIALIDADES MINERAIS E EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO A Plataforma Continental e sua Geologia

1.1

O mapa geológico integrado do Estado do Rio de Janeiro (Anexo I) apresenta uma notável compartimentação litológica e tectônica, caracterizando faixas distintas, tais como: Faixa Costeira, Faixa Norte-Noroeste, Faixa Paraíba, Faixa Serra dos Órgãos, Faixa Ocidental, Faixa Bacia de Campos. As Faixas como regiões se definem por: Faixa Norte-Noroeste: ocorre ao norte do Rio Paraíba do Sul. Nesta faixa há predominância de gnaisses charnockíticos que possuem estrutura maciça, às vezes bandada, e com cristais de granada. Destacam-se as unidades pCIItm, pCIIsf, pCIIse, e como rochas ortognáissicas, as unidades pCImv e pCIbj. Essas rochas granulíticas foram estudadas por Costa e Marchetto (1978) e Oliveira (1983), caracterizando o que se denominou de "suíte charnockítica" da Faixa Paraíba, em contraposição com os "gnaisses fitados" (Rosier, 1965) que são caracterizados por alternâncias de faixas mais claras (quartzo-feldspáticas) e escuras (ricas em biotita e anfibólio). Também nota-se a presença de falhas de empurrão de direção NE-SW e vergência para NW, além de falhas com componente direcional (Brenner, Ferrari e Penha, 1980). Leonardos e Fyfe (1974), Campos Neto e Figueiredo (1980) e Siga Jr. et al. (1982) advogam a hipótese de terrenos suspeitos para essa faixa, sendo que as rochas supra-crustais estariam associadas a uma margem continental ativa, com posterior colisão de blocos (Artur e Wernick, 1986). Faixa Costeira Leste: ocorre entre a Baía de Sepetiba (na base da Serra do Mar) e se estende até a região de Macaé. Nota-se a ocorrência de rochas do Pré-Cambriano com topografias arrasadas, destacando-se as unidades de gnaisses facoidais (por exemplo, pCIIgf, pCIIcs), migmatitos e gnaisses bandados (pCIIrl, pCIIsf, pCIIag) e gnaisses bandados (por exemplo, pCIIIpa, pCIIIbu). Ocorrem também corpos intrusivos de granitos (pCgr). Zimbres, Kawashita e Schuns (1990) correlacionam a região de Cabo Frio (Unidade Região dos Lagos) com o Cráton de Angola, uma vez que as datações obtidas apresentam idades Transamazônicas (1980 M.a.) pouco afetadas pelo evento Brasiliano de 600 M.a. A Unidade Búzios é interpretada como uma supracrustal da Unidade Região dos Lagos (Heilbron et al., 1982). Faixa Norte-Noroeste: ocorre ao norte do Rio Paraíba do Sul. Nesta faixa há predominância de gnaisses charnockíticos que possuem estrutura maciça, às vezes bandada, e com cristais de granada. Destacam-se as unidades pCIItm, pCIIsf, pCIIse, e como rochas ortognáissicas, as unidades pCImv e pCIbj. Essas rochas granulíticas foram estudadas por Costa e Marchetto (1978) e Oliveira (1983), caracterizando o que se denominou de "suíte charnockítica" da Faixa Paraíba, em contraposição com os "gnaisses fitados" (Rosier, 1965) que são caracterizados por alternâncias de faixas mais claras (quartzo-feldspáticas) e escuras (ricas em biotita e anfibólio). Também nota-se a presença de falhas de empurrão de direção NESW e vergência para NW, além de falhas com componente direcional (Brenner, Ferrari e Penha, 1980). Leonardos e Fyfe (1974), Campos Neto e Figueiredo (1980) e Siga Jr. et al. (1982) advogam a hipótese de terrenos suspeitos para essa faixa, sendo que as rochas supra-crustais estariam associadas a uma margem continental ativa, com posterior colisão de blocos (Artur e Wernick, 1986).

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Faixa da Bacia de Campos: ocorre na região norte-oriental do Estado, até o delta do Rio Paraíba do Sul, e caracteriza-se pela presença da Formação Barreiras e pelo relevo suave. Lamego (1944) descreve a geologia litorânea da bacia de Campos, e, embora com poucos fundamentos e dados, discute a geologia do petróleo da área. Schaller (1973) apresenta um esboço da estratigrafia da Bacia de Campos, integrando-a com o poço terrestre do Cabo de São Tomé. A atividade vulcânica mesozóica-cenozóica é bastante intensa na região da faixa costeira leste, desde Barra de São João até Cabo Frio, junto à linha de costa, e estende-se a oeste, até Itatiaia. Algumas anomalias magnéticas e gravimétricas são correlacionáveis a corpos intrusivos de diferentes idades geológicas. Feições lineares de anomalias magnéticas da região adjacente à Bacia de Santos têm sido interpretadas como associadas a diques de diabásio (Rodrigues e Haralyi, 1984), embora também possam estar associadas a litologias do embasamento. Na plataforma continental, entre as bacias de Campos e Santos, pode-se caracterizar a ocorrência de edifícios vulcânicos por sísmica de reflexão e dados de poços (Mohriak, Barros e Fujita, 1990), e também a ocorrência de diques e sills intrudidos na seção sedimentar. O vulcanismo pós-rift (eocênico) da região da plataforma continental de Cabo Frio apresenta uma tendência marcadamente alcalina, tendo-se caracterizado através de dados de amostras de calha, amostras laterais e testemunhos, uma complexa associação de rochas vulcanoclásticas de difícil interpretação em perfis elétricos (Scutta, Mizusaki e Mohriak, 1991). Lima (1976) descreve em linhas gerais os principais maciços alcalinos do Estado do Rio de Janeiro. Os traços gerais da geologia do Estado do Rio de Janeiro foram esboçados por G. F. Rosier (1965). Mais recentemente, numa compilação e complementação com novos dados, M. J. Gesteira Fonseca e D.A. Campos (1978) organizaram um mapa geológico na escala de 1:1.000.000 das Folhas Rio de Janeiro - Vitória- Iguape (Carta do Brasil ao Milionésimo) que, em linhas gerais mostra as mesmas subdivisões já estabelecidas por Rosier, naquilo que interessa ao Estado do Rio de Janeiro. Ocorrem duas unidades de relevo no Estado. A Baixada com terras situadas abaixo dos 200m de altitude, e o Planalto com altitudes acima de 200 m. Baixada Conhecida como Baixada Fluminense segue todo o litoral ocupando aproximadamente metade da superfície do território. Sua largura varia em determinados pontos, como por exemplo, entre a baía de Ilha Grande e Sepetiba, vindo a alargar-se posteriormente de leste até o rio Macacu. Na área perimetral da cidade do Rio de Janeiro, erguem-se dois maciços: o da Tijuca e da Pedra Branca, com altitude superior a 1.000 m., trecho em que a Baixada apresenta-se mais alargada, voltando a estreitar-se da baía de Guanabara até a região de Cabo Frio onde ocorrem sucessivas pequenas elevações (200 a 500 m) chamados de maciços litorâneos fluminenses. Novo alargamento ocorre a partir de Cabo Frio, atingindo no delta do rio Paraíba do Sul, sua amplitude máxima. Localizado na área da baixada, o litoral fluminense subdivide-se em três unidades apresentando variação quanto à sua paisagem.

região de praias e cordões arenosos, ao extremo Sul do Estado, estendendo-se de Parati até a ilha de Itacuruçá;
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• •

região de restingas, baixadas e lagunas, compreende a área de litoral entre a Ilha de Itacuruçá e Arraial do Cabo; região de restingas, baixadas e lagunas, compreende a área entre Arraial do Cabo até o delta do rio Paraíba do Sul, com ocorrência de dunas de areia.

Hidrografia Regional O principal rio do Estado do Rio de Janeiro é o Paraíba do Sul; suas nascentes estão situadas na porção nordeste do Estado de São Paulo e seu leito é fortemente condicionado pelas estruturas, orientadas predominantemente no sentido WSW – ENE, seguindo em direção ao oceano Atlântico, onde desemboca. A partir do seu curso médio, o rio Paraíba do Sul ocupa um vale instalado na bacia tafrogênica sobre o Gráben homônimo, percorrendo um trecho praticamente retilíneo entre Resende e São Fidélis. Ao longo desse percurso, recebe contribuintes de grande expressão subregional em ambas as margens. Os principais afluentes do Rio Paraíba do Sul são os rios Piabinha, Piraí e Paraibuna, na margem direita e os rios Pomba e Muriaé, na margem esquerda. Além do Rio Paraíba do Sul, há outros rios de importância regional. De norte para sul, destacam-se o Rio Itabapoana, no limite entre os Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, o Rio Macabu, que deságua na Lagoa Feia, o Rio Macaé, o Rio São João, o Rio Guandu e o Rio Magé. Muitas lagoas pontuam o litoral, formadas pelo fechamento de baías por cordões de areia. Lagoa Feia (maior do Estado), Araruama, Maricá e Saquarema estão entre as mais importantes, além das lagoas de Jacarepaguá, Marapendi e Rodrigo de Freitas situadas na capital fluminense. Caracterização Geoambiental A Região Noroeste do Rio de Janeiro tem apresentado problemas como escassez hídrica e erosão dos solos, resultantes dos ciclos econômicos e da ausência de práticas de manejo e conservação de solo. O quadro de degradação ambiental apresenta-se grave, tendo sido iniciado pela substituição da floresta nativa pelo café, posteriormente, pela pecuária leiteira extensiva e pela olericultura com destaque para o tomate, alterando a relação solo-águaplanta. Atualmente, na Região Noroeste Fluminense podem-se destacar problemas relacionados à elevada produção de sedimentos, perda de áreas agricultáveis, diminuição da permeabilidade e da infiltração de água nos solos, deficiência hídrica, desaparecimento de rios, migração de nascentes, aumento da quantidade de poluentes que atingem os cursos fluviais e diminuição da recarga dos sistemas de aqüíferos, decorrentes do uso e manejo inadequado dos solos, ao longo dos ciclos econômicos. Faixa Litorânea Corresponde ao mais extenso domínio geoambiental do Estado, estendendo-se ao longo da linha de costa, desde a baixada de Sepetiba até a divisa com o Estado do Espírito Santo. Trata-se também, do domínio mais heterogêneo, abrangendo desde extensas áreas inundáveis, tais como mangues, brejos e baixadas, até alinhamentos serranos isolados e maciços montanhosos que podem atingir cotas de até 1.000 m de altitude.

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Apesar de todas as diferenças internas, o fato desses terrenos estarem embutidos entre o litoral e sopé da escarpa da Serra do Mar, permitiu agrupar todas as unidades relacionadas acima, no Domínio Faixa Litorânea. Todavia, as diferenças são marcantes e, para fins de análise, pode-se subdividir a Faixa Litorânea em três subdomínios: a Região Metropolitana, a Região dos Lagos e o Litoral Leste Fluminense e Norte Fluminense. A expansão acelerada de cidades, como Saquarema, Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Búzios, Rio das Ostras e Macaé, além de loteamentos indiscriminados, todos assentados sobre as planícies costeiras, acarreta consideráveis danos ambientais, pois além da destruição da vegetação de restinga, promovem a contaminação das lagunas costeiras e do lençol freático, em locais de solos bastante permeáveis (Espodossolos Hidromórficos). Trata-se de uma área de escassa disponibilidade de água superficial ou subterrânea. A exploração de areia para construção civil, a ocupação de antigas salinas para empreendimentos imobiliários e o desmatamento da vegetação nativa sobre os campos de dunas, propicia a remobilização dos sedimentos por ação eólica, consistindo, também, em ameaças ao delicado equilíbrio ecológico desses terrenos. Deste modo, as planícies costeiras, principalmente as áreas com remanescentes de vegetação de restinga, devem ser preservadas, cabendo apenas, exploração voltada para o ecoturismo. Destacam-se também, em trechos da Baixada Fluminense, os vales dos rios São João, Macaé, Macabu e Imbé, que consistem em extensas áreas inundáveis ladeadas por colinas isoladas pela sedimentação fluvial. Os baixos vales desses rios consistem de planícies flúvio-lagunares ou brejos, bastante inundáveis e aproveitáveis apenas para pecuária extensiva. Os médios cursos, formados por uma sedimentação fluvial e um pouco melhor drenados, são mais bem aproveitados para agricultura de várzea, desde que seja preservada a mata ciliar. A exploração de areia para construção civil, com controle ambiental, também é recomendada. Destacam-se também, contrafortes isolados evidenciados pelos maciços de Macaé e de Conceição de Macabu e pelo maciço de Itaocara, que devem ser destinados à preservação ambiental e recomposição florestal. No Norte Fluminense, destaca-se a Baixada Campista, que constitui uma extensa planície deltaica, caracterizada por diversos ambientes deposicionais: destacam-se vastos depósitos flúvio-lagunares ou brejos, no entorno da lagoa Feia. Esses terrenos inundáveis estão separados da costa por um cordão arenoso, que se estende em direção à localidade de Farol de São Tomé. Apresentam solos com altos teores de sais e enxofre (Gleissolos Salinos e/ou Tiomórficos), sendo, portanto, altamente limitantes às atividades agropecuárias e devem manter-se preservados, principalmente junto às lagunas e aos banhados. Junto à foz do rio Paraíba do Sul, desenvolve-se um sistema de cristas de cordões arenosos em linha de costa progradante, com características similares das planícies costeiras situadas na região dos Lagos. A baixada flúvio-deltaica, construída pelo rio Paraíba do Sul, por sua vez, possui solos melhor drenados e bastante férteis (Neossolos e Cambissolos Flúvicos), adequados para a expansão das atividades agrícolas. Tradicionalmente ocupada pela decadente monocultura canavieira, a Baixada Campista pode ser melhor aproveitada como um pólo de fruticultura, assim como os tabuleiros adjacentes. Esses tabuleiros, constituídos por sedimentos terciários do Grupo Barreiras, ocupam vastas porções dos municípios de Quissamã, Campos dos Goytacazes e São Francisco do Itabapoana, formando terrenos planos ou suave-ondulados e solos profundos e bem drena442 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

dos (Latossolos e Argissolos Amarelos). Apesar desses solos terem uma fertilidade natural baixa, são terrenos recomendados para expansão da agricultura irrigada, devido à baixa suscetibilidade à erosão. Depressão do Norte-Noroeste Fluminense O Norte e Noroeste Fluminense consistem numa vasta depressão interplanáltica, alternada com alinhamentos serranos escalonados e delimitada a sul, pelo planalto da Região Serrana e, a norte, pelo planalto Sul Capixaba e estende-se a oeste pela Zona da Mata mineira, com características um pouco similares. A leste, esse domínio é encerrado pela Baixada Campista e os tabuleiros do grupo Barreiras. Esta região abrange a porção fluminense das bacias dos rios Pomba, Muriaé e Itabapoana e o baixo curso do tributário rio Negro. Em linhas gerais, o Norte e Noroeste Fluminense assemelham-se bastante ao Médio Vale do rio Paraíba do Sul, apresentando um extenso relevo colinoso, seccionado por frequentes alinhamentos serranos de direção estrutural WSW-ENE e maciços montanhosos, cujo cenário é também marcado por pastagens subaproveitadas. A Mata Atlântica também foi devastada para implantação da monocultura cafeeira, já no início do século XX. Entretanto, algumas características singulares individualizam esse domínio do Médio Paraíba do Sul, em especial, o clima mais seco, com estiagem mais prolongada, com totais anuais entre 900 e 1.400 mm/ano e a menor suscetibilidade à erosão do relevo colinoso do Noroeste Fluminense, notada pela ausência de ravinamentos, voçorocamentos e movimentos de massa, frequentes em determinados trechos do Médio Paraíba. As restritas e descontínuas planícies fluviais embutidas nos fundos de vales dos rios Pomba, Muriaé, Itabapoana e tributários principais, apresentam solos de boa fertilidade natural (Gleissolos e Planossolos Eutróficos), adequados para a agricultura irrigada. Certas várzeas dos baixos cursos dos rios Paraíba do Sul e Pomba (próximo às localidades de São Fidélis e Santo Antônio de Pádua) e do rio Muriaé (próximo à localidade de Italva) apresentam Neossolos Flúvicos salinos inadequados para agricultura. A origem destes solos salinos não pode ser marinha, pois o nível de base dessas planícies está acima dos máximos transgressivos registrados no Quaternário Superior. Possivelmente, sua origem está relacionada ao intemperismo do substrato rochoso, aliado à intensa insolação verificada na região, o que implicaria a precipitação de sais na matriz dos sedimentos aluviais. De qualquer forma, mesmo que sejam utilizadas, tanto para fins urbanos ou agrícolas, as planícies fluviais precisam de uma recomposição da mata ciliar, tendo em vista a mitigação de enchentes que assolam periodicamente várias cidades do Norte e Noroeste Fluminense, tais como Itaperuna, Italva, Cardoso Moreira e Santo Antônio de Pádua. Um agravante a este problema é o intenso desmatamento das bacias dos rios Pomba e Muriaé, tanto em território fluminense, quanto em território mineiro, acelerando, assim, o escoamento superficial e aumentando os picos de vazão destes rios. A extensa região dominada por colinas, morrotes e morros baixos apresenta, em geral, Argissolos Vermelho-Amarelos e Vermelhos eutróficos, com moderada fertilidade natural, apesar da deficiência hídrica prolongada e o relevo movimentado constituírem importantes fatores limitantes às atividades agrícolas. Assim, essas áreas podem ter uma utilização compartilhada entre sistemas silvipastoris e agroflorestais, sendo que as atividades agrícolas com irrigação devem se restringir a vertentes menos íngremes das colinas, adjacentes às planícies. As pastagens podem ocupar as vertentes mais declivosas das elevações (colinas e morros).
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Os divisores e as cabeceiras de drenagem devem ser destinados à recomposição da Mata Atlântica. No entorno de Miracema e próximo à localidade de Morro do Coco, são encontrados solos mais desenvolvidos e lixiviados (Latossolos Vermelho-Amarelos distróficos e Argissolos Vermelho-Amarelos latossólicos), sugerindo uma condição de maior umidade nessas áreas subordinadas. Outra área de características singulares situa-se num polígono no entorno da cidade de Italva. Neste trecho de colinas e morros, a mata original era composta por floresta caducifólia, o que denota um elevado “stress” hídrico, no período de estiagem. Este fato decorre da baixa pluviosidade registrada (em torno de 1.000 mm anuais) aliada à ocorrência de mármores, cujo intemperismo não favorece a formação de um espesso manto de alteração. Sendo assim, os solos são poucos espessos (Argissolos Vermelhos eutróficos), diminuindo, deste modo, a capacidade de armazenamento de água no solo. Extensos alinhamentos de morrotes, tais como a serra da Portela (próximo a Cambuci e Itaocara) ou pequenos alinhamentos serranos, tais como a serra do Catete (próxima a Santo Antônio de Pádua) determinam áreas com bom potencial para produção de mármore e rochas ornamentais, respectivamente. Esses terrenos estão, em boa parte, em zonas de cisalhamento que atravessam o Noroeste Fluminense, conferindo controle estrutural à formação das serras alinhadas, sempre orientadas na direção WSE-ENE. Tanto os alinhamentos serranos escalonados, quanto os maciços montanhosos apresentam-se bastante desmatados, o que acentua o aspecto árido de toda a região. Como essas áreas abrigam as nascentes dos principais tributários do Itabapoana, a recomposição florestal desses terrenos atende a duas funções na região: primeiramente, o retorno da Mata Atlântica propicia uma maior disponibilidade durante o período de estiagem (a escassez de água vem se tornando um problema grave no Noroeste Fluminense), devido à proteção de nascentes e ao armazenamento de água no solo; e a recomposição florestal nos alinhamentos como no Médio Vale do rio Paraíba do Sul, irá promover a formação Atlântica, em função da sua conformação geográfica, sendo de grande importância na manutenção e regeneração do ecossistema florestal. Planalto do Alto Itabapoana O planalto do Alto Itabapoana, também denominado de planalto de Varre-Sai, situa-se também no Noroeste Fluminense, mas guarda íntima relação com a zona planáltica que abrange o sul do Estado do Espírito Santo. Esse planalto, alçado a 700 m de altitude, apresenta um clima mais úmido e ameno do que a extensa depressão adjacente (com totais anuais entorno de 1.400 a 1.500 mm/ano) e uma cobertura florestal um pouco mais preservada. O relevo colinoso dominante é largamente utilizado por pastagens e pela cafeicultura. Essa cultura, que devastou o Vale do Paraíba, ainda tem importância econômica no planalto Sul Capixaba e algumas porções da Zona da Mata mineira. Devido a semelhanças físicas com o Sul do Espírito Santo, a região de Varre-Sai constitui, atualmente, numa das mais importantes zonas produtoras de café no Estado do Rio de Janeiro. As áreas de morros elevados apresentam um relevo bem mais movimentado que os terrenos colinosos, sendo, portanto, indicada sua ocupação para atividades agropastoris. Por fim, a escarpa degradada do Alto Itabapoana, apresentando vertentes íngremes e desnivelamentos de até 600 m, destinada exclusivamente à recomposição da Mata Atlântica, podendo se excetuar alguns trechos das baixas vertentes, mais suaves e acessíveis, próximas das localidades de Bom Jesus da Itabapoana, Ourânia e Itaperuna.

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A análise integrada de variáveis do meio físico como: a Geologia; a Geomorfologia; a Pedologia; a Biogeografia; a Climatologia; e a Hidrologia, revela-se imprescindível para a produção de um levantamento que represente a dinâmica ambiental em sua complexidade e tenha aplicação para o planejamento territorial. “O Estado apresenta graves problemas de ordem sócio-ambiental que precisam ser sanados, tendo em vista a melhoria da qualidade de vida de sua população e, por outro lado, apresenta uma grande potencialidade de desenvolvimento sócio-econômico, baseado num planejamento ordenado, visando otimizar a implementação das atividades econômicas, conforme as potencialidades e limitações de cada unidade geoambiental em análise por este estudo (Diagnóstico Geoambiental do Estado do Rio de Janeiro, CPRM)”. Neste sentido, as planícies flúvio-marinhas (mangues) e as planícies flúvio-lagunares (brejos) consistem em áreas limitantes frente à intervenção humana devido à alta suscetibilidade à inundação, devendo, portanto, ter seus ecossistemas locais preservados ou recuperados. A proliferação de loteamentos e condomínios nestes terrenos pode acarretar na destruição de seu frágil ecossistema. Já as baixadas e as planícies fluviais, respeitando suas vocações e limitações específicas, podem desenvolver sistemas agropastoris. O Norte Fluminense e, em especial, os terrenos planos da Baixada Campista apresentam boas condições para o incremento das atividades agrícolas, revitalizando esta região, que ainda orbita na decadente monocultura canavieira. Por outro lado, extensas áreas do vale do Paraíba do Sul e do Norte-Noroeste Fluminense demonstram uma estagnação de sua economia agrária, calcada no subaproveitamento de suas terras, visando quase que exclusivamente, a pecuária leiteira extensiva. Todavia, grande parte dos terrenos de colinas e morros do Vale do Paraíba do Sul e do Noroeste Fluminense podem compartilhar sistemas silvipastoris e agroflorestais, respeitando as limitações naturais de cada tipo de terreno. 1.2 Potencialidade Mineral das Regiões Norte e Noroeste Fluminense

As rochas ornamentais destas regiões em fase de exploração e pesquisa receberam os seguintes nomes comerciais: – Granito Amarelo, Granito Amarelo Toulon, Granito Branco Aperibé, Granito Cinza Prata, Granito Copacabana, Granito Coral, Granito Dourado, Granito Floral Pádua Prata, Granito Floral Pádua Rosa, Granito Juparaná Gold, Granito Juparaná Salmão, Granito Santa Cecília Light, Granito Verde Barroco, Granito Vermelho Toulon, Granito Preto Toulon, Mármore Branco Italva e Mármore Cintilante. Segundo a distribuição litológica das rochas ornamentais na região, há uma predominância do tipo granito, incidindo em 266 áreas, com características desde as de cores claras (branco, amarelo) a de cores escuras (cinza claras) e de granulação variando desde fina a grosseira. Destacam-se neste contexto, os granitos de Campos dos Goytacazes, com 55 direitos minerários (Alvará de Pesquisa), predominando os do tipo intrusivo, representados pelo Granito Cinza Prata de granulação média, com aspecto de um plúton de feição circular na região de Ibitioca e o Granito Juparaná Salmão de granulação fina, com aspecto de corpo tabular, de preenchimento de fratura e ou falha, apresentando feição de possível aplito, ocorrendo na região de Itereré – Morangaba. Em menor escala, encontra-se nesta região o denominado Granito Amarelo de granulação fina, sob a forma de aplitos, que cortam a rocha regional representada pelo Charnockito. Presença de corpos gnáissicos estirados milonitizados, que são explorados comercialmente com o nome de Granito Santa Cecília Light, nesta mesma região de Morangaba.
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Outro município que apresenta uma grande vocação para granitos é o de Santa Maria Madalena, com 52 direitos de Alvará de Pesquisa, com predominância para um tipo litológico de cor amarelado a cinza, de granulação fina a média e que recebe a denominação comercial de Granito Juparaná Gold. No município de Santo Antônio de Pádua, tradicional produtor de rochas para lajinhas e assemelhados, provenientes da milonitização de rochas ortognaissicas e da "Suíte Charnockítica", ocorrem cerca de 36 direitos minerários de Alvarás de Pesquisa e uma Concessão de Lavra para granitos que recebem a denominação comercial de Granito Floral Pádua Prata e o Granito Floral Pádua Rosa. Presença de rochas gnaissicas miloníticas, do mesmo tipo das que ocorrem em Santo Antônio de Pádua, são encontradas em menor incidência nos municípios de Miracema, Itaperuna e Porciuncula. No município de Bom Jesus do Itabapoana são encontradas 36 áreas de Alvarás de Pesquisa para granito (litologias do tipo gnaisse migmatítico), apresentando coloração variando desde amarelo cinza a avermelhada, e localmente de coloração preta, recebendo denominações comerciais de Granito Amarelo Toulon, Granito Vermelho Toulon e Granito Preto Toulon. Estes tipos de granitos têm como característica estrutural marcante a sua movimentação (granitos movimentados) de boa aceitação no mercado. No Município ocorre, ainda, a presença de corpos de rochas Charnockíticas e ou anfibolíticas (?) cujas áreas são objeto de Requerimento de Pesquisa. No que diz respeito às rochas carbonáticas, utilizadas para fins ornamentais, destacam-se os mármores do município de Italva, comercialmente denominados Mármore Branco Italva e Mármore Cintilante, elas são objeto de 9 direitos minerários referentes a Alvarás de Pesquisa e Concessão de Lavra. 1.3 A Exploração do Petróleo na Bacia de Campos

As bases da política petrolífera nacional se estabeleceram, então com a Lei n.o 2004, que criou a Petróleo Brasileiro S.A., PETROBRAS, a qual iniciou suas atividades em outubro de 1953. As operações de exploração e produção de petróleo, bem como as demais atividades ligadas ao setor de petróleo, gás natural e derivados, à exceção da distribuição atacadista e da revenda no varejo pelos postos de abastecimento, foram monopólio conduzido pela Petrobrás, de 1954 a 1997. A exploração da Bacia de Campos começou no final de 1976, com o poço 1-RJS-9-A, que deu origem ao campo de Garoupa, situado em lâmina d’água de 100 metros. Já a produção comercial, começou em agosto de 1977, através do poço 3-EM-1-RJS, com vazão de 10 mil barris/dia, no campo de Enchova. Em 1997, o Brasil, através da Petrobrás, ingressou no seleto grupo de 16 países que produz mais de 1 milhão de barris de óleo por dia. Nesse mesmo ano, em 6 de agosto de 1997, foi sancionada a Lei n º 9.478, que abriu as atividades da indústria petrolífera no Brasil à iniciativa privada. Em 2003, coincidindo com a comemoração dos seus 50 anos, a Petrobrás dobrou a sua produção diária de óleo e gás natural ultrapassando a marca de 2 milhões de barris, considerando a sua produção no Brasil e no exterior. No dia 21 de abril de 2006, tem início a produção da plataforma P-50, no Campo de Albacora Leste, na Bacia de Campos, o que permitiu ao Brasil atingir auto-suficiência em petróleo.
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As mudanças no setor petróleo provocam grandes reformulações na Petrobrás. Com todos os segmentos do setor abertos à competição, a empresa deixou de ser portadora do monopólio do petróleo da União, embora continue a ter o Estado como acionista majoritário e permaneça vinculada ao Ministério de Minas e Energia. A concorrência impõe o início da atuação em novos negócios, o estabelecimento de parcerias com empresas privadas nacionais e internacionais e uma presença efetiva e competitiva no exterior. A empresa busca o crescimento no mercado brasileiro de petróleo e derivados, com o maior retorno possível aos seus acionistas, passando a buscar sua consolidação como uma corporação internacional de energia, líder global no Setor de Energia. E dentro dessas grandes linhas, as metas a cumprir são as de alcançar a mesma excelência conseguida nas tecnologias de prospecção em ambientes complexos, sobretudo em águas profundas, em todos os segmentos do setor petróleo, seja na distribuição, no refino, na termoeletricidade, na petroquímica, nas atividades internacionais e, sobretudo, nas questões ambientais. Os primeiros anos da década são também marcados pela forte atuação da Petrobras no sentido de aprimorar suas relações com a sociedade. É o desenvolvimento da empresacidadã, interessada em cumprir profundamente o compromisso da responsabilidade social. Além de exercer as atividades-fim de produzir, refinar, transportar, distribuir e comercializar o petróleo e o gás em condições máximas de eficiência e segurança, a Petrobrás passou a se destacar como a empresa que mais investe no Brasil em projetos sociais, culturais, artísticos e de educação ambiental. Depois do acidente na Baía de Guanabara, em 2000, ela iniciou a implementação do Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional - Pégaso. O objetivo é criar padrões internacionais de segurança e proteção ambiental na empresa. Foram instalados nove centros de defesa ambiental no país. Segundo o seu departamento de Segurança, Meio Ambiente e Saúde, esses centros funcionam como uma espécie de corpo de bombeiros contra vazamentos de óleo, com profissionais de prontidão 24 horas, barcos, balsas, recolhedores e milhares de metros de barreiras de absorção e contenção de óleo. Além disso, a Petrobrás mantém uma embarcação na Baía de Guanabara, no litoral de Sergipe e no canal de São Sebastião, em São Paulo, especializada no controle de vazamentos. Todas as unidades da companhia no Brasil possuem Certificado ISO 14001, o que exige a manutenção de sistemas de monitoramento do impacto de suas atividades. Atualmente ela opera 112 plataformas de produção, aproximadamente 13.174 poços produtores, com uma produção estimada de 1.978.000 barris por dia e 67 milhões de m³/dia de gás natural, 16 refinarias com capacidade de processamento primário de aproximadamente 1.937.000 barris por dia e 25.197 quilômetros de dutos (www.petrobras.com.br). 1.3.1 Bacia de Campos - A Maior Reserva de Petróleo do Brasil

Considerada a maior reserva petrolífera da Plataforma Continental Brasileira, a Bacia de Campos tem cerca de 100 mil km2 e se estende do Estado do Espírito Santo, nas imediações da cidade de Vitória, até Arraial do Cabo, na região dos Lagos, no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente esta bacia é responsável por aproximadamente 84% da produção nacional de petróleo.

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Mapa 1 – Data das Descobertas dos Campos de Petróleo

Fonte: www.petrobras..br Mapa 2 – Bacia de Campos

Fonte: www.petrobras.br
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Em 2007, a Bacia de Campos completou 30 anos de produção e abriga cerca de 80% das reservas de petróleo já descobertas pela Petrobras no Brasil. Na atualidade, são extraídos diariamente cerca de 1,49 milhões de barris de óleo e 22 milhões de metros cúbicos de gás e as previsões para 2010 são de que a produção aumente para 1,8 milhão de barris de óleo por dia e para 34,6 milhões de metros cúbicos de gás. Dos 55 campos existentes hoje, na Bacia de Campos, 36 são considerados maduros, ou seja, já atingiram o pico de produção. Para estender ao máximo a vida útil dessas áreas, a Petrobrás aplica novas tecnologias e consegue um aumento de 3% no fator de recuperação (reaproveitamento e extensão da vida útil) de óleo nessa bacia. O Pré-Sal Nesta década, os esforços de pesquisa e desenvolvimento da Petrobrás resultaram na descoberta de grandes reservas com grandes volumes de óleo leve, características de um petróleo de qualidade e atraente valor de mercado, nas regiões das Bacias de Campos e Santos, em águas profundas, em camadas que se localizam abaixo dos grandes depósitos de sal o que se denominou, então, pré-sal. Pelas delimitações iniciais, que ainda não são definitivas, desde que envolvem uma prospecção muito mais complexa e onerosa, estes campos se posicionam entre os estados de Santa Catarina e Espírito Santo. Em 2004, foram perfurados alguns poços em busca de óleo, na Bacia de Santos. É que ali haviam sido identificadas, acima da camada de sal, rochas arenosas depositadas em águas profundas, que já eram conhecidas. Em 2006, quando a perfuração já havia alcançado 7.600 m. de profundidade a partir do nível do mar, foi encontrada uma acumulação gigante de gás e reservatórios de condensado de petróleo, um componente leve do petróleo. No mesmo ano, em outra perfuração feita na Bacia de Santos, a Empresa e seus parceiros fizeram nova descoberta, que mudaria definitivamente os rumos dessa atividade e negócio no Brasil. A pouco mais de 5.000 m. de profundidade, a partir da superfície do mar, veio a grande notícia: o poço, hoje batizado de Tupi, apresentava indícios de óleo, abaixo da camada de sal. O sucesso levou à perfuração de mais sete poços e em todos eles se encontrou petróleo. Com a experiência adquirida no desenvolvimento de campos em águas profundas da Bacia de Campos, os técnicos da Petrobrás se mobilizam, neste momento, para implementar os empreendimentos associados à exploração do pré-sal. Para isso, um intenso programa de desenvolvimentos complementares e adaptações de tecnologias, soluções de logística, marco institucional-legal, estrutura negocial e empresarial, entre outros aspectos, tudo isto está em execução, avançando com o conhecimento acumulado pela Petrobrás, ao longo de sua existência de conquistas de posições de mercado. O termo pré-sal, portanto, refere-se a um conjunto de rochas localizadas nas porções marinhas de grande parte do litoral brasileiro, com potencial para a geração e acúmulo de petróleo. Convencionou-se chamar de pré-sal porque forma um intervalo de rochas que se estende por baixo de uma extensa camada de sal, que em certas áreas da costa atinge espessuras de até 2.000m. O termo pré é utilizado porque, ao longo do tempo, essas rochas foram sendo depositadas antes da camada de sal. A profundidade total dessas rochas, que é a distância entre a superfície do mar e os reservatórios de petróleo abaixo da camada de sal, pode chegar a mais de 7 km.

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Figura 1 - Seção Geológica Esquemática da Bacia de Campos, entre a Plataforma Continental e Região de Águas Profundas

Fonte: Ricardo Defeo de Castro e Webster U. Mohriak (PETROBRAS); Felipe Medeiros e Kátia Mansur (DRM-RJ)

Neste momento, então, um dos projetos em realização é o Programa Tecnológico para o Desenvolvimento da Produção dos Reservatórios Pré-sal (Prosal), que percorre trajetória semelhante aos exemplos bem-sucedidos de outros programas efetuados pelo seu Centro de Pesquisas (CENPES), tendo como exemplo típico o PROCAP, que viabilizou a produção de petróleo em águas profundas. Além de desenvolver tecnologia internamente, a empresa trabalha em sintonia com uma rede de universidades que contribuem para a formação de uma sólida base de conhecimentos e para o portfólio tecnológico nacional, em parceria e em coordenação com o CENPES, no que se inclui a formação e qualificação altamente especializada de profissionais para suportar os trabalhos atuais e futuros. Entre as atividades, destaca-se, na atualidade, a conclusão da modelagem integrada em 3D das Bacias de Santos, Espírito Santo e Campos, a qual será fundamental para a exploração desses poços de grandes profundidades. De fato, o desafio pré-sal deixa a Petrobrás em situação equivalente à vivida na década de 80, quando foram descobertos os campos de Albacora e Marlim, nas águas profundas da Bacia de Campos. Com aqueles campos, a Empresa identificava um modelo exploratório de rochas que inauguraria um novo ciclo de importantes descobertas. Exercitou-se a era dos turbiditos, rochas-reservatórios e outras manifestações que ofereceram novas perspectivas à produção de petróleo no Brasil e no mundo. Com o pré-sal das Bacias de Santos e Campos, surge, agora, o requisito de um novo modelo, assentado na descoberta de óleo e gás em reservatórios carbonáticos, com características geológicas diferentes.

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1.3.2

O Pré-Sal na Bacia de Campos

Os primeiros resultados dos trabalhos de prospecção apontam para volumes extremamente expressivos. O poço de Tupi, na Bacia de Santos, tem volumes recuperáveis estimados entre 5 e 8 bilhões de barris de óleo equivalente (óleo mais gás). Já o poço de Guará, também na Bacia de Santos, tem volumes de 1,1 a 2 bilhões de barris de petróleo leve e gás natural, com densidade em torno de 30º API. Estima-se uma produção para 2020, em torno de 1,8 milhões de barris/dia (www.petrobras.com.br). Entre as questões a serem equacionadas, a pesca constitui uma das atividades mais impactadas pela produção offshore de petróleo e gás. É preciso recuperar a cobertura vegetal litorânea, e.g., os manguezais, no continente, e formar pesqueiros induzidos fora da rota offshore. É preciso organizar os pescadores, seus processos ou a cadeia produtiva, incluindo a comercialização. É preciso repensar o descarte de resíduos orgânicos e não orgânicos das plataformas e embarcações em alto mar, permitido por norma internacional, mas que tem provocado impactos e por isso deve ser mudado. Há também a questão da mão-deobra e da atração de pessoal desqualificado, o que tem provocado o surgimento de favelas em áreas de risco e de preservação ambiental, nas cidades escolhidas estrategicamente para as operações de exploração em águas continentais. 1.3.3 Marco Regulatório

São novas as regras para exploração e produção de petróleo e gás natural na área de ocorrência da camada Pré-Sal e em áreas que venham a ser consideradas estratégicas, enviadas pelo Executivo do Governo para apreciação do Poder Legislativo, no dia 31 de agosto de 2009, sob a forma de quatro projetos de lei. Esses projetos de lei definem o sistema de partilha de produção para a exploração e a produção nas áreas ainda não licitadas do Pré-Sal; a criação de uma nova estatal (Petro-Sal); a formação de um Fundo Social; e a cessão onerosa à Petrobras do direito de exercer atividades de exploração e produção (E&P) de petróleo e gás natural em determinadas áreas do Pré-Sal, até o limite de 5 bilhões de barris, além do modo de capitalização da Empresa. Se a proposta do Governo for aprovada, o país passará a ter três sistemas para as atividades de E&P de petróleo e gás natural: concessão, a partilha de produção e a cessão onerosa. A Petrobrás não irá perfurar os poços sozinha. Das 48 áreas (entre pós-sal e pré-sal) exploradas na Bacia de Santos, por exemplo, só em dez essa Empresa detém exclusividade. 2. A INSERÇÃO AMBIENTAL DOS GRANDES EMPREENDIMENTOS E DO AGRONEGÓCIO

Há um conjunto de grandes empreendimentos no Norte e Noroeste Fluminense em vários estágios diferenciados. Alguns deles estão em operação, outros em construção, outros ainda projetados, programados ou em fase de elaboração de estudos de viabilidade. Existem projetos relacionados diretamente à extração de petróleo e gás natural offshore, na Plataforma Continental (Petrobras, OGX, Chevron, etc) e projetos constituídos em outras áreas de negócios. • • • Porto da Barra do Furado, em Campos dos Goytacazes, que inclui a Dragagem do Canal de Quissamã, Estaleiros e Entreposto de Pesca; Complexo Logístico e Industrial do Açu (Porto e retroárea) Heliporto do Farol de São Tomé (novo);
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• • • •

Usinas Termelétricas e Siderúrgica do Porto de Açu; Usina Termelétrica de Campos, operada por Furnas, em Campos dos Goytacazes e Linha de Transmissão 345 kV Campos- Porto do Açu; Usinas de Álcool, operadas por diversos grupos locais, em Campos dos Goytacazes e outros municípios vizinhos. Mineroduto Minas-Rio, interligando Conceição do Mato Dentro (MG) ao Terminal de Minério do Porto de Açu.

Em todos estes empreendimentos a qualidade ambiental, estabilidade da paisagem, preservação da cobertura vegetal, qualificação e disponibilidade de mão-de-obra e condições de vida da população das Regiões Norte e Noroeste Fluminense constituem questões chave para a sua inserção nessas Regiões, como um nó da rede da economia global. Na sua condição de grandes empreendimentos em instalação ou operação no Norte e Noroeste Fluminense (Anexo V), eles tem um caráter pontual, sendo portadores de influências e impactos e modificações que transcendem o território e a organização espacial mais próxima, indo além fronteiras municipais, o que eleva de modo substantivo a complexidade das relações. Na verdade, observa-se uma concentração espacial desses grandes empreendimentos nos municípios de Campos, Macaé, Quissamã e São João da Barra, o que implica que há mais informações e ações voltadas para esses municípios, em detrimento dos demais. Por essa razão, esse relatório enfatiza mais as transformações que ocorrem e ocorrerão em Campos dos Goytacazes e Macaé. 2.1 Áreas de Influência dos Grandes Empreendimentos

Para balizar a discussão sobre a inserção dos grandes empreendimentos, é necessário tecer comentários em torno do que sejam suas áreas de influência, inclusive do ponto de vista conceitual, pois o contexto no qual estão inseridos difere drasticamente de experiências anteriores. Como forma de orientar os estudos dos grandes empreendimentos do Norte e Noroeste Fluminense, foram definidos os conceitos e as delimitações das Áreas de Influência Direta e Indireta (AID e AII), com base nos principais atributos causadores dos impactos ambientais em seu entorno próximo. Para isso, a essas áreas, somou-se o conceito de Área Diretamente Afetada – ADA, local efetivamente afetado pelo empreendimento, como será visto a seguir. Em virtude das características logísticas e operacionais dos grandes empreendimentos em pauta, não foi considerada, do ponto de vista ambiental, a sua desativação (conquanto conste a recomendação do fundo de exaustão) o que, portanto, não possui um tratamento específico determinado neste momento. 2.2 Problemas Ambientais Numa Visão Político-administrativa

Com fins a avaliar os impactos ambientais que causassem algum efeito sobre as condições de vida humana e a atividades econômicas, especificamente a pesca, a agricultura e a pecuária, o IBGE realizou entre 2000 e 2001, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais Perfil dos Municípios Brasileiros: Meio Ambiente 2002. Uma extensa pesquisa com os responsáveis pela gestão municipal na área ambiental dos 5.560 municípios do Brasil, realizada no período de 24 meses.
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As questões ambientais pesquisadas versam sobre três grandes temas: A) impactos ambientais com conseqüências sobre as condições de vida da população; B) alterações no estado do meio ambiente (impactos causados nos recursos ar, água e solo, alteração que tenha prejudicado a paisagem no município e a degradação de áreas legalmente protegidas); e C) impactos ambientais que tenham prejudicado as atividades agropecuárias e pesqueiras. Dentre os municípios estudados, 41% (2.263) apontaram a ocorrência de alterações ambientais que tenham afetado as condições de vida da população. O Estado do Rio de Janeiro (com 66% dos municípios) juntamente com o Estado do Espírito Santo (64%) são os que apresentam maiores proporções de municípios que informaram a ocorrência de alteração ambiental que tenha afetado as condições de vida da população. No Estado do Rio de Janeiro as causas mais observadas foram a contaminação de rios, baías, lagos, etc. (com 65% dos municípios), queimadas (61%) e ocupação irregular e desordenada do território (59%). No que se refere às alterações ambientais que causaram algum impacto à atividade pesqueira, 1.026 municípios brasileiros apontaram a existência de problemas ambientais que tiveram algum reflexo na atividade. Destes municípios, 75,2% apontaram como principais causas dos problemas à pesca predatória, 45,5% informaram a degradação das matas ciliares e dos manguezais, e 43,4% apontaram assoreamento dos rios. De modo que é importante ressaltar que os estados do Rio de Janeiro (57,4%) e Espírito Santo (43,9%) lideram, com os maiores percentuais do país, o número de municípios que apontou problemas ambientais com a pesca. 2.3 2.3.1 Delimitação das Áreas de Influência dos Grandes Empreendimentos Área Diretamente Afetada (ADA)

Área Diretamente Afetada é a área onde se localiza ou se desenvolve o empreendimento, contextualizada pela ocorrência local onde serão implantadas as estruturas próprias do procedimento produtivo, tais como vias de trânsito, alças de apoio, rotatórias, fornos, portos, oficinas e pátios de abastecimento e manutenção leve e pesada, depósitos de matériasprimas, depósitos de rejeitos, depósitos de combustíveis, terminais de carga e descarga, pontos de emissão e lançamento de resíduos assim como, temporariamente (fase de Implantação) aqueles locais onde se localizam os pátios de obras, depósitos de material construtivo, banheiros, refeitórios, salas de apoio à engenharia entre outros. Por definição e abrangência, a Área Diretamente Afetada (ADA) se localiza inserida na Área de Influência Direta (AID). 2.3.2 Área de Influência Direta (AID)

Área sujeita aos impactos diretos da implantação e operação dos empreendimentos, ou seja, aquela na qual ocorrem impactos ambientais de primeira ordem; eventualmente este marco espacial pode ser definido como área de entorno. Para cada aspecto ambiental considerado (meio físico, biótico e sócio-econômico), haverá uma Área de Influência Direta própria. A soma de todas estas áreas indica a AID total do empreendimento. Portanto, sua delimitação deverá ser feita em função das características sociais, econômicas, físicas e biológicas das interferências próprias de cada empreendimento, bem como de suas particularidades.

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2.3.3

Área de Influência Indireta (AII)

A Área de Influência Indireta é área sujeita aos impactos indiretos da implantação, operação do empreendimento, ou seja, aquela na qual ocorrem impactos ambientais, de segunda ou mais ordens. Para cada parâmetro considerado nos meios físico, biótico e socioeconômico, haverá uma Área de Influência Indireta. A soma de todas estas áreas indica a Área de Influência Indireta total dos empreendimentos. Portanto, sua delimitação deverá ser feita em função das características demográficas, sociais, econômicas, históricas, físicas e biológicas dos sistemas a serem estudados e das particularidades dos empreendimentos. Conforme determina a Resolução CONAMA 01/86, na avaliação de impactos e a determinação de áreas de influência, deverão ser consideradas as bacias nas quais se insere o empreendimento. O termo “considerada” não implica que a bacia corresponda a AID ou AII, mas sim que, na definição destas áreas, deve-se considerar a distribuição dos impactos dentro das bacias hidrográficas. A posição dos grandes empreendimentos do norte e noroeste fluminense, localizados pontualmente junto ao litoral, na foz do grande Rio Paraíba do Sul e inseridos, ocasionalmente, em pequenas bacias voltadas diretamente para o oceano, dificulta o uso dessa tipologia. No que se refere ao meio antrópico, tendo em vista a inserção dos empreendimentos em um contexto urbano, de caráter submetropolitano, a delimitação dessa Área de Influência Indireta extrapola a base física da bacia hidrográfica e centra-se nas populações residentes nos municípios de entorno e, mesmo, naqueles mais afastados, inclusive dos estados vizinhos, Minas Gerais e Espírito Santo, mas que, de alguma maneira, fazem uso regular do sistema viário, da infraestrutura, de educação e saúde, de comércio ou buscam emprego em empresas diversas que serão instaladas ou ampliadas em decorrência desse dinamismo econômico e produtivo regional. Assim, para a demarcação das áreas de influência dos grandes empreendimentos do Norte e Noroeste Fluminense, foram utilizados os critérios e parâmetros multidimensionais, onde cada qual se voltou para as especificidades do meio ambiental focalizado. Como consequência, foram demarcadas áreas de influência distintas para os meios físico, biótico e antrópico. Enfatiza-se, porém, que o Norte e Noroeste Fluminense constituem uma área bastante antropizada, com um histórico secular de ocupações produtivas e com relações sociais e trabalhistas já consolidadas, bem como uma ampla cadeia produtiva organizada e funcional. 2.4 Área de Influência do Meio Físico

Área Diretamente Afetada - ADA A Área Diretamente Afetada, para o meio físico, é definida pelo perímetro onde se situam as instalações e demais áreas ocupadas pelo empreendimento e que sofrem interferência física direta com a implantação das estruturas do projeto. Compõe-se de toda a área útil do projeto, suas vias de trânsito, rotatórias, elevatórias, pontos de apoio e equipamentos associados aos empreendimentos, áreas de construção e edificação, especialmente na fase de implantação.

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Nesta área deverão ser inseridos todos aqueles locais sujeitos a riscos e impactos decorrentes dos empreendimentos, sejam aqueles das operações regulares, sejam aqueles de ocorrência pontual, como jazidas e bota-foras, vias de tráfego sujeitas à poluição e contaminação, cursos d’água sujeitos a derramamento de resíduos etc. Conforme definição conceitual, esta área encontra-se inclusa à Área de Influência Direta. Área de Influência Direta - AID Aquela que ocorre nas imediações dos empreendimentos, que poderão sofrer impactos diretos em função da implantação e operação do projeto. Para tanto, considera-se como importante fator a antropização do entorno urbano e agrário dos municípios locais, caracterizado por uma ocupação urbana densa no caso de algumas cidades como Campos e Macaé, já consolidadas, bem como outras que há muito transformaram o espaço rural outrora ali existente, em prol da implantação de cultivos importantes regionalmente, como o tomate, cana-de-açúcar, eucalipto, fruticultura, mineração, pecuária bovina e bubalina. As alterações já promovidas no meio físico do Norte e Noroeste Fluminense, foram assimiladas com o passar do tempo em função do grande número de empreendimentos de grande porte instalados na Região. Neste contexto, a Área de Influência Direta pode ser considerada como um perímetro que envolve os principais municípios litorâneos da Baixada Campista, como Campos dos Goytacazes, São João da Barra, Macaé e Quissamã, onde não mais se espera que quaisquer impactos ambientais seja em função da implantação, ou operação de empreendimentos, no tocante ao meio físico, possam causar danos mais significativos que aqueles já conhecidos. Essa definição proposta considera, principalmente, a possibilidade de alteração do nível de conforto ambiental (ruído, qualidade do ar, risco de derramamento de petróleo, emissões de particulados e pequenas alterações do microclima local), cujos aspectos podem ser minimizados por ações complementares aos empreendimentos, mas que, por sua dinâmica, já não poderão ser mitigados. Pela dimensão dos empreendimentos, os impactos ambientais de alta intensidade e de primeira ordem nas drenagens ali existentes, especialmente em função da antropização, já não são os mais relevantes. Exceção deve ser feita em relação às possibilidades de acidentes ambientais pontuais, como derramamentos de petróleo no mar, rompimento de gasodutos e oleodutos e minerodutos, descarrilamento de trens, emissões concentrais em termelétricas, etc. Área de Influência Indireta - AII A Área de Influência Indireta poderá ser delimitada pela soma das Áreas de Influência Direta às bacias de drenagens onde se inserem os empreendimentos. Novamente, exceção deverá ser feita no caso dos empreendimentos da Petrobrás, do Porto do Açu, da Barra do Furado, visto que suas áreas de influência direta constituem o próprio Oceano Atlântico. 2.5 Área de Influência do Meio Biótico

As abordagens espaciais no meio biótico são baseadas em metodologias de levantamento qualitativo e quantitativo. Assim, no contexto dos grandes empreendimentos do Norte e NoPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 455

roeste Fluminense, a dinâmica produtiva regional, a ocupação histórica e a recente instalação de número expressivo de grandes empreendimentos traz à tona uma ampla caracterização da flora e fauna regionais. Por outro lado, constata-se que, exceto naqueles casos em que se conseguiu preservar a natureza encerrada em unidades de conservação, já não há ambientes naturais no Norte e Noroeste Fluminense. 2.6 Área de Influência do Meio Antrópico

Área Diretamente Afetada - ADA As Áreas Diretamente Afetada do meio antrópico pelos grandes empreendimentos deverá considerar a área onde se localiza ou se desenvolve o empreendimento, contextualizado pela ocorrência local onde irão ser implantadas todas as suas estruturas construtivas e operativas, tais como vias de trânsito, alças de apoio, rotatórias e, temporariamente (fase de Implantação) se localizam os pátios de obras, banheiros, refeitórios, salas de apoio a profissionais em geral, entre outros. Deverão ser inseridos aí, também, as principais vias urbanas e regionais, que receberão o tráfego destinado à instalação e operação do projeto. Nesse perímetro, os impactos diretos da obra serão sentidos por todos os residentes, bem como interferirão no funcionamento da infraestrutura, de serviços públicos coletivos, tais como escolas, unidades de saúde, redes de energia elétrica, água potável, telefonia fixa, internet via cabo, redes coletoras de esgotos, redes pluviais, rotas e transporte coletivo, etc. Abrange também aquelas vias que serão utilizadas por ocasião da instalação dos empreendimentos, para o desenvolvimento de atividades típicas da obra, como deslocamento de veículos para descarte de materiais inservíveis de terraplanagem e entulhos em geral (botafora), transporte de materiais de boa qualidade (empréstimos de solo, rochas etc.), transporte de grandes estruturas, como vigas para pontes, viadutos, dutos em geral (mineroduto, gasoduto, oleoduto) etc. São, ainda, incluídas nesta tipologia aquelas áreas adjacentes a essas vias e comunidades adjacentes às jazidas, áreas de descarte, etc. Área de Influência Direta (AID) ou Área de Entorno (AE) No meio antrópico, a Área de Influência Direta ou Área de Entorno é aquela que ocorre nas imediações próximas ao empreendimento, cujas populações e atividades produtivas ou monumentos poderão sofrer impactos diretos e imediatos em função da implantação e operação dos grandes projetos. Para tanto, considera-se como fator relevante a característica inicialmente residencial e a economia predominantemente agrária dos municípios adjacentes aos projetos. A ocupação urbana é densa e já consolidada em Campos e Macaé, inexistindo marcos de feições naturais ou históricos, exceto aqueles representados pelos bens já tombados. Os demais municípios da Região se encontram em franca expansão, com uma artificialidade decorrente do próprio dinamismo econômico recente, diretamente ligada aos grandes projetos regionais. Contudo, com passar do tempo, estas condições serão incorporadas à rotina e ao cotidiano das populações como atividades produtivas mais dinâmicas, reconhecendo-se os seus benefícios e impactos. Neste contexto, entende-se que a Área de Influência Direta ou Área de Entorno dos empreendimentos do Norte e Noroeste Fluminense pode ser delimitada por um perímetro abrangendo todos os municípios atravessados pelos empreendimentos lineares, independente da
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área impactada diretamente, bem como pelos limites administrativos daqueles municípios que compõem o “colar urbano” dos centros que abrigam as grandes empresas e cumprem o papel de cidades-dormitório ou fornecedores de mão-de-obra. Esse critério não contempla o parâmetro distância, tendo em vista que, no contexto regional do Norte e Noroeste Fluminense, a acessibilidade e a disponibilidade de serviços e recursos são fatores mais relevantes do que o tempo e o deslocamento. 2.7 Considerações Finais

Dada a complexidade espacial e ambiental do pólo produtivo do Norte e Noroeste Fluminense, uma alternativa para sistematização e análise das questões ambientais se desenvolve por meio de uma Avaliação Ambiental Estratégica. Essa metodologia preconiza a apreciação de cada empreendimento na presença dos demais, considerando seus impactos, tanto positivos como negativos, numa visão cumulativa e macrorregional. O Estado do Rio de Janeiro e, provavelmente o Brasil, carece de um marco regulatório para discutir e disciplinar a instalação e a operação de grandes empreendimentos, análogos ao caso do Norte Fluminense, concentrados espacialmente e temporalmente. Aspectos socioeconômicos e urbanísticos se tornam nucleares no contexto da concentração espacial e da diversificação dos empreendimentos produtivos, já que criam grandes expectativas para a população e interferem diretamente no funcionamento do espaço urbano. Cabe um projeto, com a participação dos envolvidos, abrangendo todas as malhas urbanas, que deverão ser, imediatamente, ampliadas e adequadas em termos da regulação existente, às novas dinâmicas de ocupação terrritorial. O caminho para essa atualização prioritária, passa pela elaboração de um plano diretor regional para sistematização de políticas regionais, urbanas e sociais no Norte e Noroeste Fluminense, notadamente abrangendo e integrando os municípios contíguos, que abrigam os grandes empreendimentos. Para evitar a acentuação do desequilíbrio socioeconômico intrarregional, tem-se como proposição natural, a criação de arranjos produtivos viáveis para os municípios menores e, até o momento, fora do circuito dos grandes investimentos. Esses arranjos produtivos deverão guardar independência dos recursos gerados diretamente pelo petróleo e derivados, de modo a assegurar, no médio prazo, uma independência e complementaridade nas cadeias produtivas das Regiões.

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

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3.

POLUIÇÃO, CONTAMINAÇÃO, EMISSÕES, EFEITO ESTUFA, COMPENSAÇÕES AMBIENTAIS

A elaboração do presente estudo baseou-se em visitas de campo e levantamento de dados secundários e revisão bibliográfica, notadamente os dados e documentos disponibilizados pelo INEA e CIDE, bem como as informações contidas no Zoneamento Econômico Ecológico do Estado do Rio de Janeiro e em trabalhos. A poluição e contaminação ambientais na Região estão relacionadas à degradação dos recursos hídricos pela supressão da cobertura vegetal, uso do solo e, pontualmente, poluentes gerados nos centros urbanos. A partir de informações da Superintendência Regional do INEA, localizado em Campos dos Goytacazes, não há dados sistematizados sobre poluição na área em estudo. Ainda segundo este organismo, as modalidades de ocorrência de poluição e contaminação mais significativas na Região são: • supressão da cobertura vegetal por atividade agropecuária; • voçorocamento gerado por supressão da cobertura vegetal; • assoreamento dos cursos d’água gerado por processos de voçorocamento; • contaminação das águas por rompimento pontual de barragens nos contribuintes da margem esquerda; • carreamento de sólidos por chuvas e enchentes gerando elevação de sólidos em suspensão e turbidez das águas; • carreamento de produtos químicos e metais pesados por chuvas e enchentes; • lançamentos pontuais e intencionais de pesticidas por produtores rurais quando da lavagem de equipamentos. Pode-se igualmente relacionar: • lançamento de esgotos sanitários “in natura” e lançamento de efluentes químicos de forma acidental ou intencional; • contaminação por lançamento de poluentes no mar principalmente à partir da foz do Rio Paraíba do Sul; • contaminação das águas oceânicas por óleo a partir de lançamentos provenientes de lavagem de tanques de embarcações, águas de lastro, acidentes com embarcações e plataformas e despejos acidentais de terminais; • contaminação do solo e aquíferos por disposição inadequada de resíduos contaminados; • poluição do ar à partir das áreas industriais (atividade ceramista e industrias diversas) e centros urbanos. 3.1 Mata Atlântica no Brasil

As florestas tropicais ocorrem na faixa intertropical, em decorrência da alta pluviosidade causada pelo encontro dos ventos úmidos e cadeias montanhosas continentais. A maior formação são as florestas neotropicais, sendo que o Brasil é o país com maior área. De uma forma geral, estão incluídas entre os ecossistemas mais ricos em espécies do planeta (Turner & Collet, 1996), os quais, pela redução da área de ocorrência e isolamento dos habitats remanescentes, tem sofrido uma perda acentuada de espécies. A província tropical atlântica denominada Mata Atlântica é um complexo conjunto de ecossistemas, que originalmente ocorriam desde áreas no Rio Grande do Sul, até o Maranhão e o Ceará, atingindo inclusive o Mato Grosso do Sul e ainda pequenas parcelas na Argentina e Paraguai. Deste complexo, que ocupava cerca de 1.306.421 km2 (15% do território brasileiro), restaram fragmentos que representam apenas 6,8% da Mata Atlântica original (SOS Mata Atlântica, 2006), ou 22,44% (Cruz & Vicenz, 2007 PROBIO/MMA -Quadros seguintes ).
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Transgressões e retrações de domínios em função das oscilações climáticas quaternárias, além da grande geodiversidade, proporcionaram um quadro de altíssima biodiversidade e de habitats encontrados ao longo da Mata Atlântica (Mantovani, 1993). Dentre dezoito pontos críticos para a conservação no planeta, identificados por Wilson (1992), a costa do Brasil é caracterizada como uma das principais áreas remanescentes de alta biodiversidade. O autor considera como pontos críticos, habitats com alto grau de endemismo e diversidade de espécies, que correm perigo iminente de extinção em consequência das atividades humanas.
Quadro 1 – Fisionomias Vegetais Inseridas no Domínio da Mata Atlântica Fitofisionomia km Formações Florestais Florestas Ombrófilas Ombrofila Densa Ombrofila Aberta Ombrofila Mista Florestas Estacionais Semidecidual Decidual Zonas de Tensão Ecológica Enclaves Refúgio Ecológico Formações Pioneiras DMA - Total (1) Mapa de Vegetação do Brasil 4 IBGE, 1993. (2) Sobre a área total do DMA Fonte: CONAMA, 1992
(1) 2

% 1.041.998 405.446 218.790 18.740 168.916 635.552 486.500 149.052 157.747 66.468 103 41.105 1.306.421

(2)

79,76 31,11 16,75 1,43 12,93 48,65 37,24 11,41 12,07 5,01 0,01 3,15 100

Quadro 2 – Percentagem de Remanescentes por Tipo de Formação Florestal Formação Florestal Ombrófila Densa 44,91 Ombrófila Aberta Ombrófila Mista Estacional Decídua Estacional Semidecídua Fonte: Cruz&Vicens, 2007 % 44,91 9,15 22,95 18,74 4,19

A fragmentação do bioma Mata Atlântica é uma resultante direta da história da ação humana e tem um marco na conquista do continente sul-americano pelos europeus com a extração de madeira para exportação e desmatamento para a construção de vilas. Num momento seguinte, a regionalização e velocidade do desmatamento passam a estar relacionadas com as necessidades dos ciclos econômicos (da cana-de-açúcar; do ouro; café e da pecuária). A atração populacional gerada pelo desenvolvimento das atividades econômicas acelerou a devastação do bioma Mata Atlântica. Na Região Sudeste, em 1808, havia cerca de 1 milhão de pessoas; em 1816, 6,4 milhões. Na segunda metade do século XX, a população brasileira que ocupa as áreas do bioma Mata Atlântica triplica. Hoje, são 100 milhões de brasileiros que vivem no bioma Mata Atlântica.
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As cidades, localizadas no bioma Mata Atlântica, tem estado em expansão, em parte por fluxos migratórios inter e intra-regionais, mas também, pela própria dinâmica do ambiente urbano; com causas muito evidentes na estrutura e uso da terra. A expansão populacional urbana gera pressões sobre os fragmentos florestais localizados nas áreas de influência das cidades. No processo de crescimento populacional a implantação da estrutura produtiva (construção de estradas, geração de energia, o fornecimento de água e o estabelecimento de sistemas de comunicação), tem sido um elemento fundamental no direção da perda de florestas. Nas décadas de 1940/1960, 75% da energia das indústrias brasileiras eram provenientes da lenha, principalmente nas Regiões Sudeste e Sul, que ainda possuíam muitas áreas de floresta e onde ocorria o desenvolvimento industrial acelerado (Tanizaki, Fonseca & Peter Mouton, 2000). Porém, ainda em 1980, 22% da energia que alimentava o parque produtivo brasileiro provinham da lenha (MMA, 1995). Cabe ressaltar que entre 2000 e 2005, a taxa de desmatamento da Mata Atlântica, no Estado do Rio de Janeiro, situou-se como a mais baixa dentre os estados que abrigam este bioma. (Quadro a seguir).
Quadro 3 – Taxa de Desmatamento da Mata Atlântica nos Estados Brasileiros, 2000 - 2005 Estado Goiás Mato Grosso do Sul Santa Catarina Paraná Rio Grande do Sul São Paulo Espírito Santo Rio de Janeiro Fonte: SOS Mata Atlântica/INPE, 2006 % de área desmatada 2000 - 2005 7,9 2,84 2,03 1,34 0,3 0,19 0,16 0,08

A Mata Atlântica, remanescente, concentra-se nos estados das Regiões Sul e Sudeste - SE (47,4%); NE (13,9%) e CO (38,7%) - recobrindo parte da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira, onde o processo de ocupação foi dificultado, sobretudo, pelo relevo acidentado e pouca infra-estrutura de transporte. A distribuição deste ecossistema tornou-se, em grande parte, um mosaico, com uma grande concentração na região do Sul de São Paulo e Leste do Paraná e muitos fragmentos descontínuos. Sendo que a taxa de desmatamento na Região Centro Oeste se encontra em níveis elevados, assim como em Santa Catarina, em particular, pelo fato desse Estado estar promovendo a sua substituição por plantações de florestas de pinus e criação de suínos. 3.1.1 A Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro

No início da colonização européia, 97% (44.000 km2) da área do Estado do Rio de Janeiro eram cobertos por florestas (Fundação S.O.S. Mata Atlântica / INPE, 1993). Nos dias atuais a cobertura florestal do Estado está reduzida a menos de 20%. Por muitos anos os recursos florestais e do solo foram usados de forma intensiva e sucessiva. O Estado do Rio de Janeiro ainda apresenta grandes manchas de florestas sobre as vertentes da Serra do Mar. Sendo que os processos produtivos no entorno desses grandes fragmentos provocam impactos ambientais que levam a degradação e perda de remanescentes. Deve ser ressaltado, que os fragmentos de Mata Atlântica, existentes no Estado do Rio de Janeiro, são de tamanhos variáveis e com estados de conservação também diversos e ain460 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

da pouco analisados. A ampliação do conhecimento objetivo sobre os fragmentos desta região pode vir a subsidiar as ações que visem à conservação da sua biodiversidade e também o processo do estabelecimento de práticas de desenvolvimento sustentável e a construção de políticas de conservação e uso sustentável dessa biodiversidade. 3.2 Expansão das Áreas de Pastagem

Nessa área fluminense, há amplo domínio das pastagens, classe mais representativa, que ocupam mais de 60% da superfície total, tendo mais de três vezes a extensão das áreas de floresta, a segunda classe mais representativa. Alguns sistemas hidrográficos apresentam, basicamente, áreas de pasto, em especial àqueles com predomínios de áreas planas ou de colinas e que não tem agricultura, como o Baixo Rio Pomba e o Baixo Rio Muriaé. As pastagens são ainda mais expressivas espacialmente quando se considera nessa classe os 3% de pastagens em áreas de várzea, totalizando 63% da área em estudo com cobertura de pastagens. O Gráfico apresentado a seguir representa as classes de vegetação e usos do solo existentes.
Gráfico 1 – Regiões Norte e Noroeste - Proporção das Classes de Vegetação e Uso do Solo

Fonte: ZEE RJ – 2009

Esse domínio tão amplo das áreas de gramínea, maior até do que o encontrado no Médio Vale do Rio Paraíba do Sul, relaciona-se, significativamente, com a grande extensão das áreas de planície e de colinas cujo fácil acesso possibilitou, historicamente, a remoção dos ecossistemas originais e a introdução de áreas agrícolas e de pastagens.

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461

Há predomínio de floresta nos sistemas hidrográficos dos rios Macaé, Macabu, Imbé, São Pedro e Preto, todos com grande proporção de áreas montanhosas, apesar de no âmbito total essa classe ocupar 13,7% do recorte da área em estudo. Somado aos 1,6% de áreas cobertas por restinga, alcança-se 15% de áreas de remanescentes de ecossistemas. Um processo de destruição acentuada das florestas e das restingas caracteriza o recorte espacial dessa área, ao longo da história. Um dado relevante neste recorte espacial é a proporção de mais de 11% de cobertura por agricultura. Trata-se de uma área de cerca de 176.400 ha., dos quais quase 174.800 ha. são de plantação de cana, concentrada na área do Grupo Barreiras, existente na vasta planície flúvio-marinha, que engloba o complexo deltaico do Paraíba do Sul, as partes baixas da bacia do Itabapoana e o sistema hidrográfico dos Rios Guaxindiba, Cacimbas e Campelo, também uma área de planície. 3.3 Processos Erosivos

A avaliação da fragmentação e da conectividade florestal é uma das metodologias utilizadas para avaliar as áreas com potencial para surgimento de processos erosivos no projeto “Análise e Qualificação Sócio-Ambiental do Estado do Rio de Janeiro”1. Um menor percentual de fragmentação florestal implica em uma maior capacidade de fluxo genético entre os grupos, assegurando a variabilidade necessária à sobrevivência de espécies animais e vegetais. A análise da fragmentação florestal e da conectividade ecológica permite entender características da vegetação para além da extensão que ocupam, possibilitando analises sobre a distribuição espacial dos fragmentos vegetais. Estes fatores também atuam como indicadores de ocorrência, em maior ou menor escala, da propensão à ocorrência de processo erosivos associados à perda da cobertura vegetal com consequente exposição do solo e eventual carreamento, incidindo em assoreamento, Tal exposição tem como resultado a perda da qualidade ambiental dos solos, caracterizando-se, assim, como um aspecto de degradação do recurso natural e da paisagem. Segundo os estudos realizados no ZEE, a área em estudo apresenta os seguintes resultados gerais quanto ao Índice de Conectividade Ecológica, ICE: • Classe 1 – Região dos municípios de Itaperuna e Lage do Muriaé, associado à cafei cultura e sua substituição pela pecuária; • Classe 2 - Domínio deltaico do rio Paraíba do Sul, São Francisco do Itabapoana, São João da Barra e Campos dos Goytacazes, onde o processo de retirada da vegetação remonta a séculos e está intensamente associado à introdução de pastagens para bovinocultura e à agricultura; Classe 3 – Região dos municípios de Bom Jesus do Itabapoana e Varre-Sai, onde dominam as colinas e algumas áreas montanhosas. Esta classificação é fruto de uma paisagem dominada por pastos e remoção recente dos fragmentos florestais para expansão da cafeicultura, mas com a presença de muitos fragmentos de tamanho significativos, concentrados nas áreas de montanha, demonstrando um processo de degradação menos intenso devido à limitação imposta pelo relevo; Classe 4 – Região compreendida pelos municípios de Macaé e Carapebus; Classe 5 – Município de Macaé.

• •
1

“Análise e Qualificação Sócio-Ambiental do Estado do Rio de Janeiro” – Subsídio ao ZEE – Zoneamento Ecológico Econômico – Fundação COOPETEC – Volume 1 – Outubro / 2008.
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Gráfico 2 – Proporção de Classes de Conecção Ecológica (Calculado por Domínio Geomorfológico e Sistema Hidrográfico) na Região em Estudo

Classe 1 – Muito Baixo (Fragmentação florestal muito alta) Classe 2 – Baixo (Fragmentação florestal alta) Classe 3 – Médio (Fragmentação florestal média) Classe 4 – Alto (Fragmentação florestal baixa) Classe 5 – Muito Alto (Fragmentação florestal alta) Fonte: Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEAMA) / Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA). Site: www.meioambiente.es.gov.br

Portanto, a interpretação destes resultados permite inferir que as áreas com maior potencial de ocorrência de processos erosivos estão localizadas nas ocorrências de maior fragmentação florestal, coincidentemente aquelas que apresentam relevo mais acidentado e maior declividade, exceto o Delta do Paraíba do Sul em razão do cultivo da cana. O Anexo III, apresenta as áreas sujeitas à susceptibilidade a erosão hídrica e movimentos de massa, dividindo-as em três grupos: 1. O primeiro seria o dos sistemas hidrográficos que drenam para o rio Paraíba do Sul, que apresentam maior proporção e áreas sujeitas a voçorocamento; 2. O segundo seria o dos sistemas hidrográficos da escarpa da serra do Mar que drenam em direção ao Oceano Atlântico, que apresentam uma maior incidência de fluxo de detritos e movimentos de massa; 3. O terceiro, o dos sistemas das baixadas, onde praticamente não ocorrem os processos erosivos principais. O primeiro grupo engloba os sistemas que drenam o rio Muriaé, Itabapoana, Carangola, Pomba, e o sistema dos rios Guaxindiba, Cacimbas e Campelo. Esta área tem uma maior proporção de áreas sujeitas a voçorocamento que as outras, os processos de rastejo tem certa representatividade e os de fluxo de detritos e movimentos de massa não tem representatividade em muitos sistemas. Isto é conseqüência da relação entre o relevo da área, predominantemente colinoso e de planícies fluviais, e a cobertura de vegetação, onde a matriz principal é de pastagem, que aumenta a susceptibilidade erosiva, com alguns fragmentos florestais espaçados, e os condicionantes geotécnicos, onde existe um predomínio de materiais argilosos e argilo-arenosos de baixa permeabilidade, que faz com que a maior parte das áreas sujeitas a voçorocamentos seja de baixa susceptibilidade. O segundo grupo é composto pelos sistemas hidrográficos do rio Preto, Macaé, Imbé, Macabu e São Pedro. Nestas áreas predominam os processos de fluxo de detritos e deslizamentos e os de voçorocamento também são relevantes. Este padrão é consequência do
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relevo que tem grande proporção de áreas montanhosas de alta energia. Esta área tem uma grande cobertura de florestas de boa qualidade, o que diminui a susceptibilidade, e os condicionantes geotécnicos dominantes são os materiais espessos e muito espessos de baixa coesão, que em parte potencializam os processos de voçorocamento e fluxo de detritos. O terceiro grupo é o dos sistemas de baixada, onde não ocorrem registros de áreas com susceptibilidade a rastejos e fluxo de detritos, apenas algumas poucas áreas com risco baixo de voçorocamento. Estes são domínios tipicamente deposicionais, sendo assim ambientes de baixa energia. Os ambientes deposicionais e áreas urbanas são mais presentes, o que diminui o potencial erosivo. Dos condicionantes geotécnicos destacam-se os materiais de elevada coesão que diminuem a susceptibilidade a erosão. Assim, estes ambientes se mostram menos susceptíveis à erosão como um todo. 3.4 Poluição do Solo e das Águas

Dificilmente pode-se desvincular a poluição das águas superficiais e subterrâneas da contaminação do solo, uma vez que grande parte dos contaminantes atinge os corpos hídricos através de processos com infiltração e carreamento. A remoção da cobertura vegetal expõe as vertentes à ação dos processos erosivos diversos que resulta, em primeiro lugar, na desagregação e remoção do solo, implicando, diretamente, na redução da fertilidade natural e capacidade produtiva do ambiente. Em segundo lugar, esse material desagregado será transportado e depositado no leito dos cursos d’água, resultando no assoreamento dos mesmos. Em terceiro lugar, decorrentes do assoreamento, tem-se duas consequências diretas, quais sejam, as perdas de qualidade e quantidade de água. Eventualmente, um solo contaminado por aditivos químicos de uso agrícola poderá, neste processo, contribuir para a degradação da qualidade de solo e água. As informações levantadas sobre poluição do solo e das águas continentais na região em estudo estão relacionadas à contaminação por metais pesados provenientes do uso de defensivos agrícolas utilizados monocultura de cana de açúcar na Região do município de Campos dos Goytacazes e por assoreamento proveniente do carreamento de solo exposto por perda de cobertura vegetal. De acordo com Andrade e Silva “a partir da análise dos resultados parciais, é possível identificar quase um caráter monocultor em Campos dos Goytacazes, modelo este de produção que exige grande uso de insumos químicos tais como fertilizantes e praguicidas, que podem vir a aumentar a dispersão e concentração de metais pesados nos solos e águas do Município. Analisando os parâmetros físico-químicos das águas fluviais, é possível afirmar que essas encontravam-se ligeiramente ácidas, com uma tendência à neutralidade. Esta faixa de variação encontra-se dentro daquela prevista para águas de rios”2. Levando-se em conta tal avaliação, pode-se inferir que o uso de fertilizantes e defensivos não gera impacto significativo sobre as águas na região de Campos, considerada aquela com maior concentração de atividade agrícola na região em estudo. Segundo informações fornecidas pela Superintendência Regional do INEA, pela mesma razão, deve-se ressaltar também o potencial para contaminação do solo e das águas por culturas nas regiões dos municípios de São José do Ubá, relacionada ao cultivo de tomates e nos municípios Varre Sai, Natividade, Porciúncula e Bom Jesus do Itabapoana, provenientes da recente expansão da cultura de café. Os municípios com maior potencial para concentração de contaminação do solo e das águas por produtos químicos de indústrias são respectivamente Campos e Macaé, uma vez que neles se localizam os parques industriais mais significativos da Região.
2

ANDRADE, G.T.; SILVA, M.M. Avaliação da dispersão de metais pesados em solos da bacia do rio Muriaé em zona rural do município de Campos dos Goytacazes – RJ.
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Quanto à poluição por processos relacionados ao binômio assoreamento e processos erosivos, segundo o INEA, a área mais significativamente afetada está situada nos municípios de Porciúncula, Natividade, Varre Sai e Bom Jesus do Itabapoana, principalmente em função da supressão da cobertura vegetal original, em favor da crescente cultura de café. Cabe citar o trabalho “Análise e Qualificação Sócio-Ambiental do Rio de Janeiro”, em subsídio ao “Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Rio de Janeiro”, realizado pela Fundação COOPETEC, em Outubro de 2008. De acordo com essa pesquisa, o Norte e o Noroeste Fluminense estão inseridos nas Regiões Hidrográficas do Baixo Paraíba do Sul e seus principais afluentes, tal como rio Muriaé e rio Pomba, Região Hidrográfica do rio Macaé e Região Hidrográfica do rio Itabapoana, conforme o quadro abaixo:
Quadro 4 – Regiões Hidrográficas do Norte e Noroeste Fluminense Regiões Hidrográficas Sistemas Hidrográficos Baixada das Bacias Contribuintes aos Rios Macaé, São João e Una e Búzios Sistema Hidrográfico do Rio Macaé Bacia do Rio São Pedro Sistema Hidrográfico do Rio do Imbé Baixada do Complexo Deltáico do Rio Paraíba do Sul Pequenas Bacias da Margem Esquerda do Baixo Rio Paraíba do Sul Sistemas Hidrográficos dos Rios Guaxindiba, Cacimbas e Campelo Sistema Hidrográfico do Baixo Rio Pomba RH IX Baixo Paraíba do Sul Sistema Hidrográfico do Médio Rio Muriaé Sistema Hidrográfico do Rio Macabu Sistema Hidrográfico do Rio Preto Sistema Hidrográfico do Alto/ Médio Rio Muriaé Bacia do Rio Carangola Sistema Hidrográfico do Baixo Rio Muriaé Sistema Hidrográfico da Bacia do Rio Itabapoana RH X Itabapoana Sistema Hidrográfico do Baixo Rio Itabapoana Sistema Hidrográfico do Alto/ Médio Rio Itabapoana Fonte: Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEAMA) / Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA) - www.meioambiente.es.gov.br

RH VIII

Macaé e Rio das Ostras

É importante ressaltar a contaminação gerada por esgotos sanitários advindos dos centros urbanos, uma vez que poucos deles possuem sistemas de tratamento de efluentes sanitários. Em levantamento realizado junto às Municipalidades das Regiões Norte e Noroeste, podese observar que, apesar de todas as sedes municipais serem abastecidas com água tratada, poucas delas possuem sistema de tratamento de esgotos.
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O abastecimento de água é, via de regra, realizado pela concessionária CEDAE, e o tratamento de esgotos, quando existente, fica a cargo das Municipalidades, exceto em Campos dos Goytacazes, onde os serviços são prestados pela concessionária Águas do Paraíba. O quadro a seguir, apresenta a situação do sistema de gerenciamento de água e esgotos levantado junto aos municípios, através de visitas “in loco” e de levantamentos junto às concessionárias e municipalidades.
Quadro 5 – Gerenciamento de Águas e Esgoto Município Campos Macaé Quissamã São João da Barra Carapebus Conc. Macabú São Francisco de Itabapoana Cardoso Moreira São Fidelis Italva Cambuci Itacoara Aperibé Santo Antônio de Pádua Miracema São José De Ubá Itaperuna Lage do Muriaé Bom Jesus Itabapoana Natividade Varre Sai Porciúncula Fontes: CEDAE e Prefeituras (2010) Abastecimento de Água Norte Águas do Paraíba CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE Noroeste CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE CEDAE Esgotos Águas do Paraíba PMM PMQ PMSJB PMC PMCM PMSFI PMCM PMSD PMI PMC PMI PMA PMM PMSJU PMI PMLM SAAE BJI PMN PMVS PMP

3.5

O Sistema Hidrográfico do Norte e Noroeste Fluminense

As Regiões Norte e Noroeste do Rio de Janeiro são drenadas por duas bacias hidrográficas principais, Rio Itabapoana e o trecho final da bacia do Rio Paraíba do Sul, a maior bacia do Estado, com características nacionais, uma vez que drena também os Estados de São Paulo e Minas Gerais. 3.5.1 O Sistema Hidrográfico do Rio Paraíba do Sul

A bacia do Rio Paraíba do Sul destaca-se como principal curso d`água da área. Formado pela confluência dos rios Paraitinga e Paraibuna, o rio Paraíba do Sul nasce na Serra da Bocaina, no Estado de São Paulo, fazendo um percurso total de 1.120 km, até a foz em Atafona, no Norte Fluminense. A bacia do rio Paraíba do Sul estende-se pelo território de três estados - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro - e é considerada, em superfície, uma das três maiores bacias hidrográficas secundárias do Brasil, abrangendo uma área aproximada de 57.000 km².
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No Estado do Rio de Janeiro, o rio Paraíba percorre 37 municípios, numa extensão de 500 km, praticamente quase a metade do território do Estado. Sua importância estratégica para a população fluminense pode ser avaliada pelo fato de que o rio Paraíba do Sul é a única fonte de abastecimento de água para mais de 12 milhões de pessoas, incluindo 85% dos habitantes da Região Metropolitana, localizada fora da bacia, seja por meio de captação direta para as localidades ribeirinhas, seja por meio do rio Guandu, que recebe o desvio das águas do Rio Paraíba, para aproveitamento hidrelétrico. Na bacia do Rio Paraíba do Sul deve ser dada atenção aos tributários da margem esquerda, rios Pomba e Muriaé, bem como seus formadores que nascem na vertente oriental da Serra da Mantiqueira. Boa parte dos poluentes chega à região norte através do Rio Paraíba do Sul, bem como de seus tributários. Por outro lado, a Região Noroeste recebe aporte de contaminantes apenas dos tributários Pomba e Muriaé, estando fora da área de contaminação de outras fontes situadas a montante da Baixada Campista. A poluição fluvial na Região Noroeste do Rio de Janeiro está relacionada ao assoreamento dos cursos d’água por processos erosivos e por contaminação do lançamento de esgoto sanitário proveniente das áreas urbanas. Como mencionado anteriormente, pode-se citar igualmente a contaminação por agrotóxico proveniente de atividade agrícola, notadamente nos municípios Varre-Sai, Natividade, Porciúncula e Bom Jesus do Itabapoana, provenientes do cultivo de café e de São José do Ubá, relacionado ao cultivo de tomate. No que tange a Região Norte Fluminense, a poluição fluvial está relacionada ao lançamento de esgoto sanitário bruto nos cursos d’água proveniente dos centros urbanos tal como Campos dos Goytacazes e Macaé, agrotóxico proveniente de atividade agrícola (plantio de cana-de-açúcar e pecuária bovina). Cabe também citar o transporte de contaminantes ao litoral, através do delta do Paraíba do Sul. A evolução e diversificação das atividades produtivas na bacia do Rio Paraíba do Sul provocaram uma situação de conflito entre os usuários da água. Os reservatórios representam o elemento fundamental do sistema hídrico, enquanto regularizador da vazão do rio para a produção de hidroeletricidade e fonte de água. Quando os recursos hídricos eram abundantes em relação às demandas, mesmo com prioridade de uso para produção de energia elétrica, não se registraram conflitos pelo uso da água na bacia do Rio Paraíba do Sul, situação que mudou com o desenvolvimento e a necessidade de atender aos múltiplos usuários da água, tornando a gestão mais complexa diante dos diferentes atores sociais envolvidos. Assim, na condição de usuário de jusante, o Estado do Rio de Janeiro se ve sob o impacto dos usos conflitantes do Rio Paraíba do Sul: de um lado, água destinada ao abastecimento público, e o alto crescimento da demanda de energia elétrica, do outro, destino final de esgotos, de efluentes industriais, agricultura, erosão, assoreamento, desmatamento das margens, entre outros. A considerável expansão demográfica e o intenso e diversificado desenvolvimento industrial ocorridos nas últimas décadas na Região Sudeste, refletem-se na qualidade das águas do Rio Paraíba, podendo-se citar como fontes poluidoras mais significativas as de origem industrial, doméstica e da agropecuária, além daquela decorrente de acidentes em sua bacia.
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O trecho fluminense do rio é predominantemente industrial, sendo a mais crítica a região localizada entre os municípios de Resende, Barra Mansa e Volta Redonda, e onde se encontram as indústrias siderúrgicas, químicas e alimentícias, entre as quais se destaca a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da qual originava a maior parte da carga poluente lançada nesse trecho. Entretanto, considerando-se que as ações de controle da poluição industrial aplicadas vem sendo bastante efetivas, observa-se uma diminuição expressiva dos níveis de poluição por lançamentos industriais. Ao mesmo tempo, a bacia do Rio Paraíba do Sul é especialmente sujeita a acidentes, não só pela expressiva concentração de indústrias de grande potencial poluidor, como pela densa malha rodo-ferroviária, com intenso movimento de cargas perigosas que trafegam pelas rodovias Presidente Dutra (Rio-São Paulo) e BR-040 (Rio-Juiz de Fora), e acidentes ocorridos em outros estados que chegam até o Paraíba através de seus rios afluentes. Atualmente, a mais notória e prejudicial fonte de poluição da bacia do rio Paraíba do Sul são os efluentes domésticos e os resíduos sólidos oriundos das cidades de médio e grande portes localizadas às margens do rio, tais como Campos dos Goytacazes e Itaperuna, na região em estudo. A única ação capaz de reverter esta situação é a implantação de estações de tratamento de esgotos e construção de aterros sanitários e usinas de beneficiamento de lixo domiciliar. O INEA faz o monitoramento da bacia do rio Paraíba do Sul, mensalmente, em 16 estações de amostragem na calha principal e 21 pontos de coleta nos afluentes, com o objetivo de avaliar os principais indicadores físico-químicos de qualidade de água, bem como acompanhar a comunidade fitoplanctônica quanto à composição quantitativa e qualitativa, e biotestes qualitativos para avaliar a possível toxidez de cianobactérias e de sedimentos. Destas estações, pelo menos quatro, Itaocara, Portela, São Fidelis e Campos geram dados sobre contaminação das águas superficiais nas Regiões Norte e Noroeste. 3.5.2 O Sistema Hidrográfico do Rio Itabapoana

A bacia hidrográfica do rio Itabapoana possui uma área de drenagem de 4.875 km² e inclui 18 municípios dos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. No Estado do Rio de Janeiro, abrange uma área de 1.520 km² , correspondendo a 40 % do total, englobando integralmente Bom Jesus de Itabapoana e parte dos municípios de Porciúncula, Varre-Sai, Campos dos Goytacazes e São João da Barra. O rio em apreço, de 264 km de extensão, nasce na serra de Caparaó (MG), em Alto Caparaó, onde começa com o nome de rio Preto, denominação que muda para Itabapoana depois da confluência com o rio Verde. A partir da foz do ribeirão das Onças, um de seus afluentes, o Itabapoana separa os Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, desaguando no Atlântico entre o lago Marabá e a ponta das Arraias. Do Ribeirão das Onças até a sua foz são cerca de 180 km de canal sinuoso, pontuado por várias cachoeiras: Santo Antônio, Inferno, Limeira e Fumaça, sendo esta última de 100 metros de altura. Na zona do baixo curso do rio Itabapoana, em especial na faixa costeira sobre os tabuleiros terciários, encontra-se uma concentração de lagoas, muitas das quais já drenadas por proprietários rurais. Há pouca documentação técnica sobre elas. Destaca-se, pelo seu tamanho, uma em especial, localizada na foz do córrego do Cadeirão. A bacia hidrográfica do Itabapoana está inserida em uma região cuja base econômica ‚ representada pelos serviços urbanos e por atividades do setor primário, especialmente, aquelas ligadas ao café, pecuária leiteira, produção de cana-de-açúcar e fruticultura tropical. O
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baixo dinamismo econômico da região também está relacionado ao caráter tradicional dessas atividades que não acompanharam as mudanças em curso no mercado brasileiro, principalmente no que diz respeito a inovações tecnológicas. Conflitos Presentes e Potenciais pelo Uso da água Os principais conflitos presentes e potenciais pelo no da água na bacia do rio Itabapoana decorrem da exigência dos usuários e/ou de organizações não-governamentais para que haja um esforço conjunto voltado para a recuperação ambiental, o qual trará reflexos positivos na proteção dos recursos hídricos e, por consequência, na melhoria da qualidade de vida dos moradores. O uso de agrotóxicos, destruição dos mangues e os desmatamentos dos poucos remanescentes de mata ciliar ainda existentes, tem causado reações adversas, que geram denúncias contra os executores e mandantes nos organismo responsáveis pela proteção do meio ambiente. A população da bacia, gradativamente, está tomando consciência da importância da permanência das matas para preservar a água de seus mananciais. No Estado do Rio de Janeiro, a bacia do Itabapoana é uma das que possuem menor índice de cobertura florestal. Em Minas Gerais e no Espírito Santo a situação não é diferente, fazendo com que muitos especialistas acreditem que algumas partes da bacia já apresentem vestígios de desertificação. Nas épocas de estiagem alguns córregos, antes perenes, estão secando. E, os perenes sendo pivô de conflitos, quando são, indevidamente, barrados, impedindo o fluxo d’água para jusante. Estes conflitos embora temporários, pois entre dezembro e maio as chuvas são intensas, tendem a se agravar caso os m‚todos de irrigação sejam disseminados na região, sem um real conhecimento da oferta e da demanda de água. Há também um grande número de reclamações contra a inércia das Municipalidades, para resolver as questões de saneamento básico e para proteger a população do Itabapoana da constante ameaça de enchentes. Restrito a faixa litorânea, o desenvolvimento de atividades turísticas tem sido encarado como um problema sério para os cursos d’água. Os loteamentos, hotéis e construções - ilegais ou não - não dispõem de locais adequados para a deposição de lixo nem de estação de tratamento de esgotos (individual e/ou coletivo). 3.5.3 O Sistema Hidrográfico do Rio Macaé

Decreto Estadual nº 34.243/03, de 4 de Novembro de 2003 e alterado em conformidade com o disposto na RESOLUÇÃO N° 18 de 8 de novembro de 2006 do CERHI-RJ institui o Comite da Bacia Hidrográfica do rio Macaé, que compreende a Bacia do rio Jurubatiba, Bacia do rio Imboassica e a Bacia da lagoa de Imboassica no âmbito do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. “O rio Macaé nasce no pico do Tinguá (1.616m), na “serra” de Macaé de Cima, no município de Nova Friburgo. Chega ao município de Macaé ainda encachoeirado, na localidade de Barra do Sana; a partir daí, serve de divisa com Casimiro de Abreu até o córrego do Retiro. Daí para frente, seu curso é todo em território macaense, através da baixada, até desembocar no Oceano Atlântico, depois de percorrer 200 km. Tanto o rio Macaé, por uma extensão de aproximadamente 60 km, como o rio São Pedro, até certa distância, podem ser navegáveis por canoas ou pranchas. Hoje, o rio encontra-se dragado e retificado em toda a planície, tendo perdido suas curvas e meandros originais.
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“Com a retificação e a destruição ecológica de suas margens, houve redução da quantidade de peixes – outrora abundantes – e diminuição do volume de água, além do assoreamento.” A inserção no Município de uma Região Serrana favorece a existência de alguns rios caudalosos, mesmo quando suas nascentes ocorrem fora dos limites municipais (mas ainda assim na região das “Serras”), como é o caso do Macaé e do São Pedro, alimentados pelas chuvas orográficas frequentes no local. O município de Macaé está praticamente todo contido na bacia do rio Macaé. Essa bacia possui uma densa rede de drenagem situada numa região tropical úmida, limitada ao Norte, pela bacia do rio Macabu; ao Sul, pela do rio São João; a Oeste, pela do rio Macacu e, a Leste, pelo Oceano Atlântico. O rio Macaé nasce na serra Macaé de Cima e o seu curso se desenvolve numa extensão aproximadamente de 110 km, com uma área de drenagem de 1.765km2, da qual 1.325km2 estão nos limites do Município de Macaé, ou seja, mais de 75% do total da Bacia. Dentre os afluentes de primeira ordem destacam-se os rios Boa Esperança, Bonito, Sana, Ouriço, D’ Anta, Purgatório e São Pedro e os córregos Santiago e Jurumirim. Toda região, situada à montante do rio Macaé e seus respectivos afluentes do curso superior, diz respeito a uma área topograficamente elevada, a Oeste do Município, pertencente à Serra do Mar. As comunidades encontradas nessa porção do Município correspondem às aglomerações rurais que sobrevivem basicamente da agropecuária e que utilizam os rios para o abastecimento doméstico, para a irrigação de culturas, para a dessedentação de animais e, também, como corpo receptor de despejos domésticos e drenagem de áreas de cultivo. Já na área do médio Macaé, os terrenos possuem menores elevações. Contudo, seus afluentes da margem esquerda ainda cortam elevações da Serra do Mar, o que muito contribui na formação das terras aluvionais, situadas à margem do médio Macaé. Esses afluentes, por percorrerem áreas mais íngremes, apresentam um maior poder de desgaste. Assim, os sedimentos carregados, ao longo dos seus cursos, são depositados nas áreas mais planas, o que viabiliza a utilização agrícola dessas terras, tornando-as férteis por natureza. O rio Macaé, tanto no alto quanto no médio de seu curso, apresenta-se sinuoso, com leito pedregoso, atravessando terrenos rochosos e acidentados. Já no ponto onde é captada a água pela CEDAE, na localidade de Severina, o leito apresenta-se arenoso, correndo no sentido Sudoeste-Leste, com as margens baixas e espraiadas. O rio, ao atingir a localidade próxima à fazenda Pau-Ferro e, logo após receber o rio São Pedro, conserva o seu leito com as mesmas características apresentadas em Severina, sendo que seu curso segue no sentido Noroeste-Sudeste, até desembocar no Oceano Atlântico, junto à cidade de Macaé. Nas proximidades de sua foz, junto ao Oceano, o rio Macaé apresenta uma vazão média estimada em 30m3/s, correspondendo a uma contribuição específica média aproximada de 17 l / s /km2. Isto torna a bacia susceptível a aproveitamentos para usos múltiplos dos recursos hídricos disponíveis. O Departamento Nacional de Obras de Saneamento – DNOS elaborou alguns estudos no sentido de viabilizar a construção de um barramento nas proximidades da localidade de Ponte do Barão, no curso médio do rio Macaé, para fins não só de regularização de deflúvios naturais como também proporcionar água para a irrigação e outros usos afins.

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3.5.4

Qualidade da Água na Bacia do Rio Paraíba do Sul

Na década de 90, foi realizado o estudo de Modelagem de Qualidade da Água na Bacia do Rio Paraíba do Sul, onde foram considerados os dados da rede de monitoramento da FEEMA e os dados levantados pelo Programa de Cooperação França - Brasil. Neste estudo, a chamada região “C” correspondia ao trecho da bacia do Rio Paraíba do Sul dentro das Regiões Noroeste e Norte Fluminense, desde o município de São Fidélis até a sua foz, incluindo seus principais afluentes na região, os rios Pomba e Muriaé. Dados de Monitoramento da FEEMA Estes dados são relativos a 8 estações no rio Paraíba do Sul e principais afluentes. O período de monitoramento, de fevereiro de 1991 a dezembro de 1996, é aproximadamente o mesmo coberto pelas amostragens do Programa de Cooperação França-Brasil. Os parâmetros analisados pela FEEMA foram os seguintes: • • • • • • oxigênio dissolvido; demanda bioquímica de oxigênio; coliformes fecais; fósforo total; ortofosfatos dissolvidos; fenóis.

Os resultados do monitoramento da FEEMA mostraram-se consistentes e confirmaram os resultados do monitoramento da Cooperação França Brasil, com exceção dos índices de fenóis e coliformes fecais. Para os fenóis, os valores obtidos no banco de dados da Cooperação França-Brasil não indicam, quando os valores são menores que 0,001 mg/l ou quando não são detectados nas medições, o que interfere significativamente nas análises. Desta forma, para estes parâmetros a análise foi realizada com base nos dados da FEEMA. Com relação aos coliformes fecais, foram encontradas diferenças nos dois monitoramentos, provavelmente devido a diferenças de metodologia, na coleta ou no processamento das amostras. Dados de Monitoramento do Programa de Cooperação França - Brasil O programa de monitoramento realizado pela Cooperação França-Brasil produziu, entre dezembro de 1992 e fevereiro de 1996 uma grande quantidade de dados de qualidade da água. Para a sub-região C este monitoramento contemplou 14 estações de amostragem. A frequência de amostragem não foi regular ao longo do período. Os parâmetros de qualidade da água analisados são os seguintes: • temperatura da água (oc); • ph; • condutividade (25 oc) (umho/cm) ; • turbidez; • sólidos em suspensão (mg/l); • alcanilidade (mg/l); • dqo (mg/l); • dbo (mg/l); • matérias oxidáveis (mg/l);
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• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •

arsênio (mg/l); chumbo (mg/l); ferro (mg/l); selênio (mg/l); cobre (mg/l); zinco (mg/l); cromo (mg/l); manganês (mg/l); óleos e graxas (mg/l); sólidos voláteis (mg/l); oxigênio dissolvido (mg/l); fosfato total (mg/l); nitrogenio total (mg/l); nitrato (mg/l); nitrito (mg/l); nitrogênio amoniacal (mg/l); cádmio (mg/l); mercúrio (mg/l); fenóis (mg/l); detergentes (mg/l); coliformes totais (nmp/100ml); coliformes fecais (nmp/100ml); estreptococos fecais (nmp/100ml); alumínio (mg/l); potássio (mg/l); fluoretos (mg/l); bário (mg/l); sulfatos (mg/l);

Avaliação Geral A Bacia do Paraíba do Sul, no trecho compreendido no estudo da Região, podia ser satisfatoriamente caracterizada em seus aspectos de qualidade da água, considerando os dados históricos obtidos pela Cooperação França-Brasil e pela FEEMA, no período de 1992 a 1996. Pela descrição de resultados dos parâmetros mais significativos nos processos de comprometimento de um sistema aquático, realizada anteriormente, associada às demais determinações, foi possível estabelecer um quadro geral do trecho considerado. As águas do rio Paraíba do Sul e seus afluentes neste trecho apresentaram alta disponibilidade de oxigênio durante todo o período de estudo, função de suas características físicas favoráveis aos processos de oxigenação. Este aspecto é relevante na manutenção dos mecanismos de oxidação da matéria orgânica residual, de grande importância em algumas estações. Os parâmetros que apresentaram maior nível de comprometimento foram os compostos fosfatados, as demandas bioquímicas de oxigênio e os coliformes, evidenciando um processo contínuo de poluição por material orgânico.

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Em relação aos compostos fosfatados, os níveis determinados na maioria das estações, superam vários sistemas estudados no Brasil, na maioria lacustres, onde o processo de sedimentação favorece sua redução na coluna d'água. No presente estudo, várias estações apresentaram níveis médios superiores a 0,08 mg/l de P-Total, considerados excessivos em relação à classificação do CONAMA na época. Estes resultados eram característicos de um sistema com produtividade aquática alta a muito alta, sujeito a eutrofização. A grande capacidade de reaeração do rio Paraíba do Sul e de seus afluentes, entretanto, garante a oxidação deste excesso de matéria orgânica. O outro parâmetro citado, os coliformes fecais, inicialmente é comprometedor da qualidade da água em todas as estações, particularmente naquelas onde a influencia dos despejos domésticos é mais acentuada, ou seja, nas proximidades das maiores cidades ribeirinhas. Quanto aos demais parâmetros monitorados na época, esse rio não apresenta valores que pudessem ser considerados limitantes ao desenvolvimento da fauna e flora aquática, assim como prejudiciais para o consumo das populações humanas que utilizam suas águas. Este quadro geral é semelhante ao encontrado durante os estudos das sub-regiões à montante, mas com a poluição industrial muito atenuada. A poluição por esgoto domiciliar revelou ser, mais uma vez, a maior responsável pela degradação ambiental das águas da bacia no trecho em estudo. A questão do excesso de nutrientes não oferecia, nesta sub-região, risco de eutrofização, pois não existiam reservatórios de acumulação de grandes dimensões em nenhum dos cursos d’água considerados. 3.6 Comitês de Bacia Hidrográfica

Os Comitês de Bacia hidrográfica foram criados para gerenciar o uso dos recursos hídricos de forma integrada e descentralizada, com a participação da sociedade. Instituídos pela lei que estabeleceu a Política Estadual de Recursos Hídricos (3.239/98), os colegiados são compostos por representantes do Poder Público, da sociedade civil e de usuários de água. Essa formação tem como objetivo garantir a deliberação de decisões que influenciem na melhoria da qualidade de vida da região e no desenvolvimento sustentado da bacia. Por seu poder consultivo, normativo e deliberativo, os comitês são considerados o "Parlamento das Águas". Antes de sua criação, o gerenciamento da água era feito de forma isolada por municípios e pelo Estado, o que dificultava o planejamento da captação, distribuição e do tratamento da água. A partir dos comitês, o Estado do Rio de Janeiro foi dividido em 10 Regiões Hidrográficas, de acordo com afinidades geopolíticas e as bacias que abrangem. O objetivo desta divisão é possibilitar a harmonização de conflitos e promover a multiplicidade dos usos conservação e a recuperação da água, garantindo o uso racional e sustentável dos corpos hídricos.

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Também é função dos colegiados, articular a atuação de entidades intervenientes, aprovar critérios de cobrança e o plano de bacia, inclusive acompanhando sua execução. Os Comitês tem, como braço executivo as Agências de Bacia, responsáveis pela atualização do balanço hídrico, da disponibilidade de água e do cadastro de usuários, além da operacionalização da cobrança pelo uso dos recursos hídricos, mediante delegação. Os municípios integrantes das Regiões Norte e Noroeste Fluminense estão integrados em dois Comitês de Bacia hidrográfica, quais sejam: Comitê Rio Dois Rios Principais Usos Indústria têxtil, metalurgia, moda íntima, mineração, agricultura familiar e turismo ecológico e rural. Principais Problemas • Falta de saneamento básico – quase na totalidade dos municípios o esgoto doméstico é lançado diretamente nos corpos d'água sem tratamento adequado; • Lançamento de efluentes industriais; • Efluentes de atividades econômicas diversas como, por exemplo: pequenas indústrias e postos de gasolina; • Ocupação desordenada das margens dos rios; • Agricultura com utilização intensiva de agrotóxico.

Comitê Baixo Paraíba do Sul Bacia do Rio Paraíba do Sul: Usos da Água Em termos gerais, os usos da água abarcam as atividades humanas em seu conjunto. Neste sentido, a água pode servir para consumo ou como insumo em algum processo produtivo. A disponibilidade do recurso é cada vez menor, por um lado, porque deve ser compartilhado por atividades distintas e por outro, porque não é utilizado racionalmente. Os principais usos da água na bacia são: abastecimento, diluição de esgotos, irrigação e geração de energia hidroelétrica e, em menor escala, há a pesca, aquicultura, recreação, navegação, entre outros. A captação de água para abastecimento corresponde a 64 mil l/s (17 mil para abastecimento domiciliar da população residente na bacia, mais 47 mil para o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro). Para uso industrial a captação é estimada em 14 mil l/s, e para uso agrícola 30 mil l/s. A atividade pesqueira na bacia desenvolve-se principalmente no baixo curso dos rios Paraíba do Sul, Muriaé e Dois Rios. A pesca esportiva é praticada em toda a bacia, enquanto a aquicultura vem-se expandindo nos últimos anos. O uso da água para recreação ocorre principalmente nas regiões serranas, nas nascentes de diversos cursos d'água, onde há cachoeiras e a canoagem é bastante difundida. Na bacia do Paraibuna (MG-RJ), principalmente nos municípios situados na sub-bacia do rio Preto, as cachoeiras constituem o principal atrativo turístico.
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3.6.1

Conselho Estadual de Recursos Hídricos - CERHI

Fomentar uma política cada vez mais eficaz na gestão dos recursos hídricos do Estado do Rio de Janeiro. Para atingir esse objetivo, foi criado o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERHI), instituído pelas Leis nº 3239 e nº 9.433/97, que estabelecem, respectivamente, as Políticas Estadual e Federal de Recursos Hídricos. Com diretrizes são baseadas no Conselho Nacional de Recursos Hídricos e na Agencia Nacional de Águas, o Conselho é um órgão colegiado, integrante do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SEGRHI), com atribuições normativas, consultivas e deliberativas. As finalidades e objetivos do CERHI são voltados à valorização dos corpos d’água de domínio estadual. Dentre eles, estabelecer parâmetros para a outorga e cobrança de direito de uso da água, além de promover a articulação, integração e coordenação do planejamento estadual de recursos hídricos entre as autoridades nacional e regional e os usuários. Também é responsabilidade do Conselho aprovar propostas de criação de Comitês de Bacia Hidrográfica no Estado, orientar a implantação da Política Estadual de Recursos Hídricos, a aplicação de seus instrumentos e a atuação do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. A Secretaria Executiva do Conselho fica sob o exercício do INEA e desempenha, entre outras atividades, a coordenação e elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos e o suporte administrativo às atividades do Plenário e das Câmaras Técnicas. Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos O Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos tem como principal objetivo a reversão do quadro de degradação de rios e lagoas do Estado e vem sendo implantado a partir das Leis Estaduais 3.239/99 e 4.247/03. O Instituto Estadual do Ambiente, INEA, é o órgão responsável pela gestão dos recursos hídricos do Estado do Rio de Janeiro e está trabalhando em estreita colaboração com a Agência Nacional de Águas, ANA, no sentido de ampliar a regularização dos usos e usuários de recursos hídricos no Estado Para facilitar esse processo de regularização, a ANA disponibilizou recentemente o Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos, CNARH, visando unificar os cadastros de usuários de águas de domínio da União e dos Estados. 3.7 A Região Costeira

A região costeira está representada exclusivamente por municípios da Região Norte Fluminense, qual sejam: Macaé, Quissamã, Campos dos Goytacazes, Carapebus, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana. As principais fontes geradoras de contaminantes do solo e águas continentais no norte e noroeste fluminense são a pecuária bovina e a cafeicultura, o cultivo da cana, a fruticultura, projetos civis de urbanização, projetos viários e industriais, esgoto sanitário e parques industriais3.

3

Informação oral. René Justen, Superintendente Regional do INEA em Campos dos Goytacazes.
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A poluição marinha está relacionada a eventuais derrames de óleo provenientes da extração de petróleo em plataformas “offshore”, acidentes e lavagem de tanques de embarcações, lançamentos de efluentes e resíduos bem como esgoto sanitário de centros urbanos e industriais, que chegam ao oceano levados pelos principais cursos d’água da região. De acordo com informações da Petrobras - Macaé, os casos de acidentes ambientais envolvendo derrame de petróleo são pontuais e controlados através de ações e procedimentos previstos no plano de atendimento a emergências da Petrobrás. Cabe ressaltar a situação do delta do Rio Paraíba do Sul, para onde são transportados os eventuais contaminantes gerados no rio, principalmente aqueles gerados pela área metropolitana de Campos dos Goytacazes, e lançados no Oceano. Situação similar é observada no município de Macaé. Obras pontuais, como a drenagem do canal de Quissamã e a construção do complexo do Porto de Açu, podem gerar impactos típicos de projetos civis tais como assoreamento, geração de resíduos sólidos, supressão vegetal, ruído, alterações sócio-econômicas, entre outras. Essas intervenções de grande porte foram objeto de processos específicos de licenciamento ambiental e, portanto, pressupõe-se que estejam sob monitoramento e controle ambiental. Quanto aos aspectos envolvidos na poluição marinha na faixa costeira da região em estudo, em julho de 2007, a Universidade Estadual do Norte do Rio de Janeiro realizou um estudo sobre a potencial contaminação dos peixes marinhos por metais na costa Sudeste brasileira. Os parâmetros avaliados foram teores de contaminação por Al, Fé, Mn, Ba, Cu, Zn, Ni, Pb, Cr, Cd, e V. Com exceção do cromo, o estudo desenvolvido demonstrou que apesar do aporte de material particulado em suspensão, como o recebido pela região da praia de Atafona (município de São João da Barra), próxima à foz do rio Paraíba do Sul, e do rio Macaé para a região de Macaé, as quatro espécies de peixes estudadas apresentaram valores que podem ser considerados como livres de contaminação, ressaltando-se aqui que estes padrões são dinâmicos, e dependente do montante de aporte de metais e sua biodisponibilidade4. Quanto à poluição gerada por petróleo no ambiente marinho, de acordo com Ziolli (2002, p. 34), a mesma é gerada principalmente por águas de lavagem dos tanques petroleiros, águas de lastro, despejos de refinarias costeiras, operação de navios petroleiros em terminais e acidentes envolvendo navios petroleiros e outros tipos de navios. Especificamente na zona costeira da área em estudo, pode-se considerar os acidentes com navios e os derrames de óleo em acidentes com plataformas de petróleo, como aquelas modalidades que podem afetar a Região. 3.7.1 Gerenciamento Costeiro - GERCO

Nos últimos dez anos, o Estado do Rio de Janeiro, por intermédio da FEEMA, tem participado do Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro, PNGC, instituído pela Lei Federal n° 7.661, de 16/5/88. Este Programa, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, vem sendo executado nos 17 estados costeiros da Federação, no âmbito do Programa Nacional de Meio Ambiente, PNMA.

COSTA, J.R. Distribuição de Metais em Peixes Marinhos ao Longo do Litoral Sudeste do Brasil. Monografia, Universidade Estadual do Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes. 2007.
476 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

4

Além dos instrumentos de gerenciamento ambiental, previstos no Art. 9º da Lei 6938/81, que trata da Política Nacional do Meio Ambiente, serão considerados, para o PNGC, os seguintes instrumentos de gestão: • Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro, PEGC, legalmente estabelecido, deve explicitar os desdobramentos do PNGC, visando a implementação da Política Estadual de Gerenciamento Costeiro, incluindo a definição das responsabilidades e procedimentos institucionais para a sua execução. Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro, PMGC, legalmente estabelecido, deve explicitar os desdobramentos do PNGC e do PEGC, visando a implementação da Política Municipal de Gerenciamento Costeiro, incluindo as responsabilidades e os procedimentos institucionais para a sua execução. O PMGC deve guardar estreita relação com os planos de uso e ocupação territorial e outros pertinentes ao planejamento municipal. Sistema de Informações de Gerenciamento Costeiro, SIGERCO, componente do Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente (SINIMA), se constitui em um sistema que integra informações do PNGC, proveniente de banco de dados, sistema de informações geográficas e sensoriamento remoto, devendo propiciar suporte e capilaridade aos subsistemas estruturados/gerenciados pelos Estados e Municípios. Sistema de Monitoramento Ambiental da Zona Costeira, SMA-ZC se constitui na estrutura operacional de coleta de dados e informações, de forma contínua, de modo a acompanhar os indicadores de qualidade sócio-ambiental da Zona Costeira e propiciar o suporte permanente dos Planos de Gestão. Relatório de Qualidade Ambiental da Zona Costeira, RQA-ZC consiste no procedimento de consolidação periódica dos resultados produzidos pelo monitoramento ambiental e, sobretudo, de avaliação da eficiência e eficácia das medidas e ações da gestão desenvolvidas. Esse Relatório será elaborado, periodicamente, pela Coordenação Nacional do Gerenciamento Costeiro, a partir dos Relatórios desenvolvidos pelas Coordenações Estaduais. Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro, ZEEC se constitui no instrumento balizador do processo de ordenamento territorial necessário para a obtenção das condições de sustentabilidade ambiental do desenvolvimento da Zona Costeira, em consonância com as diretrizes do Zoneamento Ecológico-Econômico do território nacional. O Plano de Gestão da Zona Costeira, PGZC compreende a formulação de um conjunto de ações estratégicas e programáticas, articuladas e localizadas, elaboradas com a participação da sociedade, que visam orientar a execução do Gerenciamento Costeiro. Esse plano poderá ser aplicado nos diferentes níveis de governo e em variadas escalas de atuação. A Zona Costeira Fluminense

3.7.2

O quadro ambiental da costa do Estado do Rio de Janeiro apresenta enorme complexidade. Corresponde a uma faixa de 600 km de extensão por aproximadamente 40 km de largura, composta por 33 municípios, com características peculiares no que diz respeito aos interesses de preservação, ao potencial turístico e de desenvolvimento urbano e às pressões da especulação imobiliária e de atividades industriais e portuárias de porte. Nesta região, caracterizada por uma grande variedade de ecossistemas frágeis e relevantes, concentram-se atividades econômicas diversas, muitas delas conflitantes com a sustentabilidade do meio ambiente que as abriga.

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Contrapondo-se a este quadro, ali se concentra mais de 10,5 milhões de habitantes (80% da população fluminense), consubstanciando uma densidade demográfica de 585 hab/km², uma das maiores, dentro dos estados costeiros da Federação.
Quadro 6 - Particularidades da Zona Costeira SETOR COSTEIRO Setor 1: Litoral Sul Setor 2 Litoral da Baía de Guanabara Setor 3 Litoral da Região dos Lagos Setor 4 Litoral Norte - Fluminense Total MUNICÍPIOS Paraty, Angra dos Reis, Mangaratiba, Itaguaí, Seropédica, Queimados, Japeri. Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, B. Roxo, S. J. de Meriti, Nilópolis, Duque de Caxias, Magé, Guapimirim, S. Gonçalo, Itaboraí, Niterói, Maricá. Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, S. Pedro d'Aldeia, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Búzios, Casimiro de Abreu, Rio das Ostras. Macaé, Carapebus, Quissamã, Campos, São João da Barra, São Francisco do Itabapoana. 34 MUNICÍPIOS Fonte: http://www.inea.rj.gov.br Quadro 7 – Principais Indicadores da Costa Fluminense Indicador Linha de Costa Perímetro das Ilhas Lagoas Costeiras Baías Área da Zona Costeira Número de municípios População Densidade populacional Participação no PIB do Estado Número de Indústrias Produção de Petróleo Grandes Portos Usina Nuclear Valor 850km 650Km 34 3 19.000km² 33 11 milhões 600 hab/km² 85% 3.200 70% 2 2 Observação 365 ilhas Médio e Grande Porte Guanabara, Sepetiba e Ilha Grande 42% do Estado 10 criados na última década 85% do Estado Segunda maior densidade do país PIB do Estado (1997) a Custos de Fatores 102,3 Bilhões Com mais de 20 empregadosl Produção nacional Mais um projetado para o Litoral Norte Angra III - Em construção Fonte: http://www.inea.rj.gov.br

REALIZAÇÕES DO GERCO/RJ Inicialmente, com o apoio financeiro do Ministério da Marinha (CIRM), e posteriormente, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), foram obtidos, até aqui, os seguintes avanços: • Fortalecimento da infra-estrutura operacional para gerenciamento costeiro; • Treinamento e capacitação de pessoal na área de gestão costeira; • Elaboração do Macro-zoneamento da Região dos Lagos; • Elaboração de uma proposta de Plano de Monitoramento da Zona Costeira; • Elaboração de uma proposta de Plano de Gestão para a Zona Costeira; • Elaboração do Macro-zoneamento do Litoral Norte (parcial); • Implantação do Sistema de Informações para o Gerenciamento Costeiro – Sigerco; • Fortalecimento dos arcabouços institucional e legal; • Elaboração de planos diretores de unidades de conservação, em áreas costeiras, com destaque para as APAs de Maricá (Município de Maricá), de Massambaba (municípios de Saquarema, Araruama e Arraial do Cabo), e de Sapiatiba (Município de São Pedro da Aldeia);

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• • • • •

Elaboração de perfis ambientais de 9 municípios da faixa costeira: Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Araruama, Saquarema, Casimiro de Abreu, Macaé, Quissamã e Campos dos Goytacazes, como apoio à gestão ambiental local; Mapeamento de áreas frágeis a serem protegidas, em apoio ao Plano de Contingência (derramamento de óleo) da Baía de Guanabara; Estudos biológicos das áreas de restinga do estado; Elaboração do Macro-Plano de Gestão da Bacia da Baía de Sepetiba; Elaboração do Plano de Desenvolvimento Sustentável da Baía da Ilha Grande.

A última realização marcante, no âmbito do Projeto de Gerenciamento Costeiro, foi a realização de um workshop para a elaboração de um Plano de Gestão da Zona Costeira do Estado, reunindo a maioria dos municípios litorâneos do estado. O Plano de Gestão da Zona Costeira visa a implementação de ações integradas que orientem a proteção dos recursos ambientais e viabilizem o desenvolvimento sustentável da região, contemplando soluções para os problemas encontrados, definindo atores envolvidos, responsabilidades e prazos. A expectativa é a de que o Plano de Gestão da Zona Costeira venha a desempenhar um importante papel, fazendo a ponte entre as diferentes esferas de governo, possibilitando, assim, a necessária integração das diversas ações institucionais existentes no Estado, de forma a consolidar a ação de gerenciamento costeiro nesse nível, além de possibilitar sua extensão aos diversos municípios litorâneos. Com o término do Programa Nacional de Meio Ambiente (PNMA), executado com recursos do Banco Mundial, as atividades que necessitam de investimentos (contratação de consultorias, aquisição de equipamentos, etc.), tiveram o seu ritmo reduzido. Entretanto, a FEEMA, por meio das suas atividades de rotina (fiscalização, licenciamento e monitoramento), continua atuando na zona costeira, como sempre fez. IMPACTOS E RESULTADOS OBTIDOS Dentre os impactos positivos e os benefícios diretos e indiretos, resultantes da execução do projeto, podem ser mencionados: • Ampliação da cultura de gerenciamento costeiro no âmbito de atuação dos órgãos setoriais de governo e no contexto político-institucional; • • • • • • • Ampliação da capacidade técnica dos profissionais em matéria de gestão costeira; Melhoria da capacidade técnica no planejamento de ambientes costeiros; Maior agilidade no levantamento de informações por meio de técnicas de geoprocessamento; Maior agilidade no fornecimento de informações, a partir da estruturação de um banco de dados e melhoria da qualidade da informação; Fortalecimento de parcerias nos âmbitos federal, estadual e municipal; Aumento da capacidade da FEEMA na área de sensoriamento remoto e na aplicação dessa tecnologia no processo de monitoramento ambiental; Ampliação do atual sistema de monitoramento da FEEMA, incorporando outras variáveis importantes, principalmente no que se refere ao uso do solo, a aspectos oceanográficos e sócio-econômicos; Melhoria do relacionamento institucional com entidades da sociedade civil e acadêmica;
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• •

Aumento da capacidade de resposta no processo de licenciamento de atividades poluidoras a serem implantadas na zona costeira; Fortalecimento dos instrumentos legais de controle, a partir da elaboração de planos diretores de unidade de conservação e da normatização de atividades poluidoras.

PROJETO ORLA/RJ O Projeto de Gestão Integrada da Orla Marítima - Projeto Orla - é uma ação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), conduzida pela Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos, e da Secretaria do Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (SPU/MPO), em parceria com os Governos Estaduais. O Projeto tem por objetivo contribuir, em escala nacional, para a aplicação de diretrizes gerais de disciplinamento de uso e ocupação da orla marítima, fortalecer a articulação dos diferentes atores do setor público para a gestão integrada da orla, desenvolver mecanismos de mobilização social para a gestão integrada da orla e estimular o desenvolvimento sustentável na orla. Estes objetivos se materializam por meio da capacitação das administrações municipais para a gestão integrada de suas zonas litorâneas, visando solucionar os conflitos de uso e ocupação, especialmente os que envolvem a destinação de terrenos e demais bens sob domínio da União. O Projeto abrange uma faixa continental, envolvendo os ecossistemas tipicamente litorâneos e uma faixa marinha que se estende até a profundidade de 10 metros. O Projeto prevê três etapas básicas: 1 – o treinamento de quadros municipais; 2 – a elaboração de planos municipais de intervenção da orla; 3 – a celebração de convênio entre a Secretaria de Patrimônio da União, SPU, e os municípios para implementação dos planos de intervenção, sob a supervisão dos órgãos ambientais competentes. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS A primeira etapa da implementação do Projeto Orla5 abrangeu dezesseis municípios selecionados no Estado do Rio de Janeiro. Para o desenvolvimento dos trabalhos, os municípios capacitados foram reunidos em 4 grupos: • Grupo 1: Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e Saquarema • Grupo 2: Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Casemiro de Abreu e Rio das Ostras • Grupo 3: Campos dos Goytacases , Carapebus, Macaé e Quissamã • Grupo 4: Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty Nesta etapa, o Instituto Brasileiro de Administração Municipal, IBAM, participou como a instituição responsável pelo repasse da metodologia do Projeto para os municípios, orientando a elaboração de seus respectivos Planos de Intervenção na Orla Marítima. PRODUTO FINAL Os Planos de Intervenção na Orla constituem os produtos finais desta fase do Projeto. A elaboração desses documentos reflete não só um aumento da capacidade técnica municipal pela apreensão de uma nova metodologia, mas também a criação de um canal de articula-

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Projeto Orla: Fundamentos para Gestão Integrada. Brasília: MMA/SQA; Brasília: MP/SPU, 2002.
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ção entre agentes públicos e comunitários para a conjugação de esforços para gestão da orla. Os documentos refletem as características de cada local quanto aos seus aspectos ambientais, sociais, institucionais e às peculiaridades do processo de ocupação urbana. Em atenção a estes aspectos foi garantido o atendimento aos objetivos centrais do Projeto Orla, sem ultrapassar os limites demarcados pela realidade e interesse de cada município. Desta forma, o conjunto de planos revela as diferenças de perfil das equipes gestoras locais, o grau de organização da sociedade civil, assim como as prioridades conferidas para a intervenção. Os planos de intervenção foram submetidos a uma avaliação crítica por parte da Comissão Estadual de Acompanhamento do Projeto Orla, criada através do Decreto Estadual nº. 32.421, de 16 de dezembro de 2002, composta por representantes da atual SEMADUR, FEEMA, SERLA, IEF, SPU, INEPAC, IPHAN, ITERJ, FIPERJ E SEPDET. Desta avaliação, foram selecionados 4 municípios considerados aptos a assinarem o Convênio com a SPU a saber: Quissamã, Macaé, Armação dos Búzios e Rio das Ostras. A celebração do Convênio foi realizada em Brasília, no final de 2004. 3.8 Poluição Atmosférica – Efeito Estufa

Este item trata da poluição na região compreendida pelo Norte e Noroeste Fluminense, abordando objetivamente a poluição atmosférica e a emissão de gases do efeito estufa. A elaboração do presente estudo baseou-se em visitas de campo e levantamento de dados secundários e revisão bibliográfica, notadamente os dados e documentos disponibilizados pelo INEA e CIDE, bem como as informações contidas no Zoneamento Econômico Ecológico do Estado do Rio de Janeiro. A poluição e contaminação ambientais na Região estão relacionadas à degradação dos recursos hídricos pela supressão da cobertura vegetal, uso do solo e, pontualmente, poluentes gerados nos centros urbanos. A poluição do ar pode ser definida como a "alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas normais da atmosfera que possa causar danos reais ou potenciais à saúde humana, à flora, à fauna, aos ecossistemas em geral, aos materiais e à propriedade, ou prejudicar o pleno uso e gozo da propriedade ou afetar as atividades normais da população ou o seu bem estar" (Assunção e Hasegawa, 2001). No Estado do Rio de Janeiro, a qualidade do ar é monitorada desde 1967, quando foram instaladas as primeiras estações de monitoramento. O Governo Federal, em 1986, instituiu o PROCONVE (Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores), que consiste no estabelecimento de um cronograma de redução gradual das emissões de poluentes tanto para veículos leves, quanto para veículos pesados. A poluição atmosférica é um processo próprio da natureza caracterizado pelo lançamento de gases e materiais particulados originários de atividades vulcânicas e tempestades, dentre algumas fontes naturais de poluentes. A atividade antrópica intensificou de tal forma a poluição do ar, com o lançamento contínuo de grandes quantidades de substâncias poluentes, que a sua qualidade tornou-se um problema ambiental dos mais significativos. Até meados de 1980, a poluição atmosférica urbana era atribuída basicamente às emissões industriais, e as ações dos órgãos ambientais visavam ao controle das emissões dessas fontes. E a maior parte das grandes instalações responsáveis pelas emissões de poluentes para a atmosfera, está concentrada em áreas urbanas.
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Outro fator que explica a emissão de poluentes na atmosfera é o rápido crescimento da frota veicular, o que aumentou significativamente a degradação da qualidade do ar, principalmente nas grandes aglomerações urbanas. A título de exemplo, segundo o Inventário de Fontes Emissoras de Poluentes Atmosféricos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (FEEMA, 2004), verificou-se que as fontes móveis são responsáveis por 77% do total de poluentes emitidos para a atmosfera, enquanto as fontes fixas contribuem com 22%. 3.8.1 Poluentes Atmosféricos

"Entende-se como poluente atmosférico qualquer forma de matéria ou energia com intensidade e quantidade, concentração, tempo ou características em desacordo com os níveis estabelecidos, e que tornem ou possam tornar o ar: impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde; inconveniente ao bem-estar público; danoso aos materiais, à fauna e flora; prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e as atividades normais da comunidade". (Resolução CONAMA nº 03/90). A determinação sistemática da qualidade do ar restringe-se a um grupo de poluentes universalmente consagrados como indicadores da qualidade do ar, devido a sua maior frequência de ocorrência e pelos efeitos adversos que causam ao meio ambiente. São eles: dióxido de enxofre (SO2), partículas totais em suspensão (PTS), partículas inaláveis (PM10), monóxido de carbono (CO), oxidantes fotoquímicos expressos como ozônio (O3), hidrocarbonetos totais (HC) e dióxido de nitrogênio (NO2). É a interação entre as fontes de emissão de poluentes atmosféricos e as condições meteorológicas que define a qualidade do ar. A atmosfera absorve uma grande variedade de sólidos, gases e líquidos, provenientes de fontes, estacionárias (industriais e não-industriais), móveis (transportes aéreos, marítimos e terrestres, em especial os veículos automotores) e de fontes naturais (mar, poeiras cósmicas, arraste eólico, etc.). Essas emissões podem se dispersar, reagir entre si, ou com outras substâncias já presentes na própria atmosfera. Estas substâncias ou o produto de suas reações finalmente encontram seu destino num sorvedouro, como o oceano, ou alcançam um receptor (ser humano, outros animais, plantas, materiais). A concentração real dos poluentes no ar depende tanto dos mecanismos de dispersão como de sua produção e remoção. Normalmente, a própria atmosfera dispersa o poluente, misturando-o eficientemente num grande volume de ar, o que contribui para que a poluição fique em níveis aceitáveis. As velocidades de dispersão variam com a topografia local e as condições atmosféricas locais. 3.8.2 Monitoramento da Qualidade do Ar no Norte/Noroeste Fluminense

Situada entre o litoral e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a região em estudo possui 15.143 km² e uma população estimada de 1.135.000 habitantes (IBGE, 2009 - estimativa). A produção de petróleo e gás natural e as atividades industriais afins, geração de energia e a monocultura canavieira são as principais atividades econômicas e empregam a quase totalidade da mão-de-obra local. O monitoramento da qualidade do ar é realizado para determinar o nível de concentração dos poluentes presentes na atmosfera. No Estado do Rio de Janeiro, as estações de amostragem que compõem a rede de monitoramento da qualidade do ar estão localizadas nas regiões Metropolitana, do Médio Paraíba e Norte Fluminense, sendo os resultados divulgados, diariamente, por meio do Boletim de Qualidade do Ar e, anualmente, pelo Relatório Anual da Qualidade do Ar.
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A qualidade do ar é monitorada na Região Norte Fluminense por meio da operação de duas estações de amostragem de partículas totais em suspensão, instaladas no município de Campos dos Goytacazes. Outras três estações automáticas, pertencentes a empresas da rede privada, também realizam o monitoramento da qualidade do ar na Região (UTE Macaé Merchant e UTE Norte Fluminense, em Campos). Essas estações estão capacitadas a medir os seguintes parâmetros: óxidos de nitrogênio, monóxido de carbono, ozônio e parâmetros meteorológicos. Na Baixada Campista, as operações decorrentes da transferência, estocagem e queima de considerável quantia de combustíveis fósseis, além das atividades da agroindústria açucareira, geram problemas de poluição do ar, notadamente a produção do açúcar e do álcool, agravada pela queima dos canaviais na época da colheita da cana, prática que gera altas emissões de partículas e gases, elevando consideravelmente os níveis de poluentes no ar da região (FEEMA, 2008). Nos últimos anos, com a instalação do terminal da Petrobrás, no município de Macaé, e a atividade de exploração de petróleo associada, a Região passou a ter sua economia centrada no setor industrial, comercial e de serviços. Este contínuo crescimento da economia tem contribuído sobremaneira para a degradação da qualidade do ar. Foram instaladas duas centrais de geração de energia termelétrica em Macaé e uma em Campos dos Goytacazes, que utilizam gás natural como combustível, cujos impactos na qualidade do ar podem ser significativos. Contudo, até este momento, essas instalações funcionam menos de oito (8) dias por ano, cumprindo apenas a função de reserva estratégica para a regulação da oferta de energia. 3.8.3 Resultados do Monitoramento

Os resultados de concentração de curto período de exposição e concentração média anual de dióxido de nitrogênio, observadas nas estações da Fazenda Severina, Fazenda Airis e Pesagro, indicam que as concentrações detectadas na Região Norte Fluminense são inferiores ao padrão estabelecido para a exposição de longo período pela Resolução CONAMA 03/90, que indica como padrão anual a concentração de 100 kg/m³. A avaliação das concentrações de monóxido de carbono na Região Norte foi realizada em apenas duas estações automáticas de monitoramento da qualidade do ar (Pesagro e Fazenda Airis) e indicou que os valores encontrados são bastante inferiores a 35 ppm referente ao padrão estabelecido pela Resolução CONAMA 03/90. Os resultados da concentração máxima horária de ozônio indicam duas violações ao padrão de 160 kg/m³, sendo que estas violações ocorreram nas estações Fazenda Severina (concentração máxima de 214 kg/m³) e Pesagro (184 kg/m³). Os resultados gerais de qualificação do ar, na Região Norte e Noroeste Fluminense, indicam que em 98% do período analisado a qualidade do ar do Norte Fluminense encontrou-se na faixa de qualificação boa ou regular, em conformidade com os padrões de qualidade do ar indicados na Resolução CONAMA 03/90. 3.9 Emissões de Gases e Efeito Estufa

A Região Norte apresenta a terceira maior emissão de CO2eq pelo uso de energia na comparação com as demais regiões do Estado do Rio de Janeiro. Nesta Região foram produzidas 4.012,9 Gg de CO2eq (10,5% de toda a emissão do Estado), enquanto a Região Noroeste apresenta emissões muito menores que estas, o equivalente a 311,0 Gg de CO2eq (0,8%), a menor emissão de todas as regiões do Estado do Rio de Janeiro (Gráfico seguinte).
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Gráfico 3 – Emissões de CO2eq pelo Uso de Energia

Obs.: Destaque em vermelho para as regiões de interesse Fonte: SEA (2007)

A análise detalhada de cada uma dessas Regiões indica que as emissões pelo uso de energia se diferenciam bastante. Na Região Norte, prevalecem as emissões a partir do setor energético (76,3%), enquanto os setores de transporte (15,9%), residencial (3,1%) e industrial (1,4%) ficam em segundo plano. Essa preponderância do setor energético está relacionada, principalmente, com a extração de petróleo na bacia de Campos e a atividade de usinas termelétricas, que consomem grande quantidade de energia para a sua realização e funcionamento, promovendo emissões em função de seu combustível. Na Região Noroeste, o panorama é completamente diferente, ocorrendo a dominância do setor de transportes nos totais emitidos pelo uso de energia (49,2%) e com participação expressiva das emissões a partir dos setores residencial (22,2%) e industrial (11,9%). Nesta Região não existem registros de emissões a partir do setor energético, enquanto o setor agropecuário (7,1%), público (4,5%) e comercial (5,1%) apresentam pequena relevância nas emissões de gases de efeito estufa (Gráficos seguintes).
Gráficos 4 e 5 – Regiões Norte e Noroeste - Participação dos Setores no Total das Emissões de Gases Estufa pelo Uso de Energia por Região (%)

Fonte: SEA (2007)
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Obs.: Extraído do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estudo do Estado do Rio de Janeiro

Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

As emissões de gases estufa pela agricultura, floresta e outros usos do solo também foram computadas no relatório da SEA (2007), conforme demonstrado na Tabela a seguir.
Tabela 1 - Total de Emissões de Gases Estufes pela Agricultura, Floresta e Outras Uso do Solo por (Gg)
Região Norte Noroeste Metropolitana Baixadas Litorâneas Baía Ilha Grande Serrana Médio Paraíba Centro Sul Total I CO2 930,02 506,14 904,09 661,91 691,29 751,27 828,82 945,17 6.218,71 II CH4 31,62 26,03 13,55 10,37 1,46 13,58 13,16 6,69 116,46 III CH4 0,66 0,57 0,49 0,23 0,03 0,43 0,30 0,19 2,91 N2O 0,91 0,80 0,53 0,31 0,05 0,46 0,43 0,22 3,70 0,78 0,01 0,00 IV CH4 0,25 0,52 0,00 V CH4 1,90 0,08 0,01 0,04 0,01 0,02 0,00 2,06 N2O 0,05 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,05 VI N2O 0,05 0,01 0,01 0,01 0,00 0,01 0,00 0,00 0,09 VII CO2 111,17 29,92 13,95 14,75 9,77 19,03 4,71 3,43 206,73 VII CO2 2,05 0,55 0,26 0,27 0,18 0,35 0,09 0,06 3,81 Total
CO2 eq

% 20,0 13,4 13,6 9,8 7,4 12,0 12,3 11,5 100

2.024,5 1.357,0 1.378,1 997,0 749,4 1.211,4 1.249,0 1.161,6 10.127,8

Fonte: SEA (2007) Obs.: Modificada do Inventário de Emissões de Gases do Efeito Estufa do Estado do Rio de Janeiro. Em vermelho as regiões de interesse. I: Uso do Solo; II: Fermentação Entérica; III: Manejo de Dejetos; IV: Cultivo de Arroz; V: Queima de Resíduos da Cana; VI: Uso de Fertilizantes nitrogenados; VII: Uso de Calcáreo e Dolomita; VIII: Uso de Uréia.

Observa-se a Região Norte é a que apresenta as maiores emissões de CO2eq a partir dos diferentes usos do solo dentre todas as Regiões do Estado. As emissões desta Região totalizam 2.024,5 Gg de CO2eq, o que equivale a 20,0% das emissões do Estado. As emissões por mudanças do uso do solo respondem por quase a metade de todos os gases emitidos na Região Norte (45,9%), com valor de 930,02 Gg de CO2eq, que é semelhante aos valores da Região Metropolitana e Centro-Sul. Esta Região se diferencia nas emissões, a partir da fermentação entérica (31,62 Gg de CH4), como também no manejo dos dejetos dos rebanhos (0,66 Gg de CH4 e 0,91 Gg de N2O). As emissões pelo uso do calcáreo e dolomita também são bastante expressivas na Região, totalizando 111,17 Gg de CO2. Já a Região Noroeste apresenta a terceira maior emissão de gases de efeito estufa a partir dos diferentes usos do solo de todo o Estado (13,4%), atrás somente das Regiões Norte e Metropolitana. Nessa Região, as emissões, a partir de mudanças do uso do solo são as menores de todo o Estado (506,14 Gg de CO2eq), mas ela apresenta grande quantidade de emissões de gases de efeito estufa a partir da fermentação entérica e manejo de dejetos dos rebanhos ali existentes. Com relação às emissões a partir de resíduos sólidos urbanos, observa-se que quase todas as regiões do Estado apresentam pequena participação nas emissões dos gases de efeito estufa quando comparadas à região Metropolitana, em virtude desta região concentrar a maior parte da população do Estado do Rio de Janeiro. A Região Norte emite 113,4 Gg de CO2eq, o equivalente a 3,1% das emissões do Estado, enquanto a Região Noroeste apresenta emissões ainda menores (33,0 Gg de CO2eq ou 0,9%), somente comparável à Região Centro-Sul Fluminense.
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Gráfico 6 – Emissões de CO2eq pelos Resíduos Sólidos Urbanos (Gg CO2eq e %)

Obs.: Destaque em vermelho para as regiões de interesse. Fonte: SEA (2007)

Dos totais emitidos pelos resíduos sólidos urbanos nas Regiões Norte e Noroeste Fluminense, observa-se que na Região Norte existe um equilíbrio de emissões entre os aterros sanitários (2,6 Gg de CH4) e os lixões (2,8 Gg de CH4). O relatório SEA (2007) ressalta que, apesar dos aterros sanitários serem uma das melhores alternativas para saneamento, eles possuem maior fator de emissão. Isto se dá uma vez que a decomposição dos resíduos se dá em um ambiente com maior anaerobiose que nas outras duas opções (aterros controlados e lixões), o que aumenta a metanogenese (produção de metano). Já na Região Noroeste, não existem emissões a partir de aterros sanitários, enquanto são registradas pequenas emissões de gases estufa a partir de aterros controlados (0,5 Gg de CH4) e maiores emissões dos lixões (1,1 Gg de CH4), lembrando-se que os lixões proporcionam maiores problemas ambientais em virtude, por exemplo, da contaminação dos aquíferos.
Tabela 2 - Emissões de Gases Estufa pelos Resíduos Sólidos Urbanos por Tipo de Disposição e por Região (Gg) Região Norte Noroeste Metropolitana Baixadas Litorâneas Baía Ilha Grande Serrana Médio Paraíba Centro Sul Total Aterro Sanitário CH4 2,6 0,0 22,7 0,8 0,0 7,0 0,2 0,0 33,3 Aterro Controlado CH4 0,0 0,5 115,7 1,5 1,4 1,5 2,7 0,2 123,5 Lixão CH4 2,8 1,1 8,7 2,6 0,6 0,4 2,8 1,0 20,0 TOTAL CO2 eq 113,4 33,3.088,5 102,5 43,3 186,5 120,1 25,6 3.712,9

Fonte: Modificado de SEA (2007)
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As emissões de gases de efeito estufa a partir dos esgotos sanitários expressam as diferenças de concentração populacional entre as diferentes regiões, o que resulta nas observações de maiores emissões de gases de efeito estufa a partir da Região Metropolitana. A Região Noroeste emite 18,6 Gg de CO2eq (1,9%), valor este que é mais elevado que nas regiões da Baía de Ilha Grande e Centro-Sul. Já a Região Norte aparece como a terceira maior emissora de gases de efeito estufa a partir dos esgotos sanitários, com quantidades de 52,6 Gg de CO2eq, o que representa 5,5% do total. A partir da Região Norte são emitidas 1,28 Gg de metano e 0,08 Gg de óxido nitroso, enquanto foi registrada a emissão de 0,35 Gg de metano e 0,04 Gg de óxido nitroso a partir da Região Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, no ano de 2005.
Tabela 3 - Emissões de CO2eq pelos Esgotos Sanitários por Região (Gg CO2eq e %) Região Norte Noroeste Metropolitana Baixadas Litorâneas Baía Ilha Grande Serrana Médio Paraíba Centro Sul Total Fonte: Extraído de SEA (2007) CH4 1,28 0,35 16,37 1,32 0,33 1,85 0,96 0,3 22,76 N2O 0,08 0,04 1,14 0,06 0,03 0,06 0,1 0,03 1,55 Total CO2 eq 52,6 18,6 697,1 46,9 17,3 59,0 50,7 15,9 958,5

A contabilização das emissões totais de gases de efeito estufa pelo tratamento de resíduos está indicada abaixo. Entende-se emissão por tratamento de resíduos a todas às emissões relacionadas com os resíduos sólidos urbanos e industriais, esgotos sanitários e efluentes industriais. Entretanto, o relatório SEA (2007) lembra que, nesse cálculo geral, não estão incluídas as emissões de resíduos industriais, uma vez que não puderam ser regionalizadas, e que as emissões de efluentes industriais foram calculadas apenas para a Região Metropolitana, já que a organização dos dados disponíveis somente permitiu a contabilização desta Região.
Gráfico 7 - Emissões de CO2eq pelo Setor de Tratamento de Resíduos por Região (Gg CO2eq e %)

Fonte: Extraído de SEA (2007)
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A contabilidade geral das emissões de CO2eq pelo tratamento de resíduos demonstra a predominância da Região Metropolitana sobre as demais (82,3%). A Região Norte apresenta pequena participação no âmbito geral (3,4%), com emissões da ordem de 166,0 Gg de CO2eq, enquanto as emissões da Região Noroeste são ainda menores (51,6 Gg de CO2eq ou 1,0%), o que demonstra a pequena participação dessas Regiões nas emissões de gases de efeito estufa, a partir do tratamento de resíduos do Estado do Rio de Janeiro. 3.10 Considerações Finais

Poluição e contaminação ambiental são temas centrais num projeto de desenvolvimento sustentável, como o que ora se apresenta. O Estado do Rio de Janeiro possui algumas das mais antigas e sólidas instituições e empresas de pesquisa e monitoramento na área ambiental. Contudo, o principal resultado deste relatório temático indica a existência de diversas lacunas e carências conceituais e procedimentais, no campo do estudo e monitoramento das emissões de poluentes e contaminantes no ambiente. Inicialmente, constata-se um entrave de natureza institucional. Não houve uma política responsável de monitoramento rigoroso e sistemático das emissões. Esse fato leva à inexistência de séries de dados que possam subsidiar análises e interpretações de longo termo. Existiram campanhas de monitoramento, tal como o exemplo do convênio Brasil-França de ocorrência isolada. Em segundo lugar, o estado carece de uma rede de monitoramento padronizada, que permita a comparação entre dos dados coletados em vários pontos e que permita, por exemplo, uma interpolação da qualidade do ar ou da água nos diversos municípios ou no entorno de distritos industriais. Um terceiro aspecto relevante é a pequena malha coberta pela rede de monitoramento, que gera dados de pontos distantes que, em princípio, não poderão ser correlacionados. As diversas estações de monitoramento pertencem a empresas e não ao estado, o que dificulta a manutenção e operação das mesmas, bem como limita a possibilidade dos órgãos ambientais interferirem na operação das estações e na seleção e configuração dos instrumentos, haja vista que são instalados aqueles que atendem às necessidades específicas da empresa, normalmente, no âmbito de condicionantes de um processo de licenciamento ambiental. Finalmente, fato recorrente no Brasil, os programas governamentais, via de regra, não possuem continuidade além dos mandatos eletivos, além de serem adequados a propostas de governo, o que torna ocasional a seleção dos parâmetros e a operação das estações. Faz-se necessária a proposta de criação de um programa integrado e de fácil acesso para coleta, armazenamento, tratamento e disponibilização ampla de dados de poluição atmosférica, água e solos. Esse programa deverá ter um viés educacional, através do livre acesso aos bancos de dados, por parte de instituições de ensino e pesquisa, de todos os níveis. Portanto, o grande desafio no campo do monitoramento das emissões é a criação e, principalmente, a operacionalização de forma contínua, de um programa de gerenciamento e gestão da qualidade ambiental no Estado.

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4.

COMPENSAÇÕES AMBIENTAIS

Medidas Compensatórias são aquelas tomadas pelos responsáveis pela execução de um projeto, destinadas a compensar impactos ambientais e sociais negativos gerados pela implantação do mesmo. Compensações são, via de regra, propostas de minimização de impactos negativos não mitigáveis em estudos de impacto ambiental de empreendimentos de potencial poluidor e degradador (Casério, 2010). Também são utilizadas como ferramentas de ressarcimento a danos ambientais gerados, através de instrumentos legais como o Termo de Ajuste de Conduta – TAC, imposto pelo Poder Público. A criação de unidades de conservação é, talvez, a mais importante estratégia para a conservação da biodiversidade e preservação das paisagens naturais, mas, apenas criá-las, não basta: é necessário implantá-las de fato, regularizando sua situação fundiária, erguendo as estruturas físicas de apoio à administração e ao uso público, e, dotá-las de pessoal próprio para fiscalização e suporte à visitação e à pesquisa científica. Diversas fontes de financiamento concorrem para a implantação de parques, reservas e outras unidades de conservação, sendo a mais importante, dentre elas, as chamadas medidas compensatórias por empreendimentos de significativo impacto ambiental. Instituída por meio da Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, SNUC. A compensação ambiental deve ser aplicada de acordo com prioridades bem definidas, entre as quais a regularização fundiária (aquisição de terras privadas em unidades que devam ser de domínio público), e a demarcação física das unidades de conservação são as principais. A elaboração de planos de manejo, a construção de sedes, guaritas e centros de visitantes, a aquisição de veículos e a própria operação diária destas unidades são outras atividades a serem apoiadas por projetos financiados com a compensação ambiental. O destino dos recursos das medidas compensatórias decorrentes dos licenciamentos efetuados pelo Instituto Estadual do Ambiente, INEA, é decidido por um colegiado denominado Câmara de Compensação Ambiental, CCA. Esta é presidida pela Secretaria de Estado do Ambiente, SEA, e conta com representantes tanto do Poder Público estadual e municipal quanto de organizações da sociedade civil, como rede de ongs da Mata Atlântica, FIRJAN e UFRJ, que aplicam grande rigor na seleção dos projetos que lhes são submetidos para estruturação e fortalecimento das áreas protegidas do Estado. Este capítulo apresenta informações e dados levantados sobre Medidas Compensatórias aos impactos ambientais gerados por grandes empreendimentos e/ou atividades em andamento na Região em estudo, tais como: Complexo Portuário e Industrial da Barra do Furado, Porto do Açu, a Usina Termelétrica de Porto do Açu, a Linha de Transmissão de 345 kV – UTE de Porto do Açu – Campos dos Goytacazes, o Aeródromo de Farol de São Tomé e a Agroindústria de Bom Jesus do Itabapoana. As informações relativas a esses empreendimentos foram obtidos nos respectivos Estudos de Impacto Ambiental – EIA e Relatórios de Impacto Ambiental – RIMA disponíveis na biblioteca do INEA, no Rio de Janeiro.

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489

4.1

A Compensação Ambiental dos Grandes Empreendimentos do Norte e Noroeste Fluminense Complexo do Porto do Açu

4.1.1

A Compensação Ambiental para a instalação do Porto do Açu envolve um programa de resgate da fauna e flora, além de recuperação das áreas remanescentes de restinga, na área de influência do empreendimento. No estudo não foi quantificada a área a ser recuperada. 4.1.2 Usina Termelétrica de Porto do Açu

Na Usina Termelétrica de Porto do Açu a compensação ambiental proposta foi a destinação de no mínimo 0,5% dos custos diretos do empreendimento para serem aplicados em Unidades de Conservação conforme a Lei Federal n° 9.985/ 2000 (SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação). A área pré-selecionada para implantação da Unidade de Conservação foi o complexo Lagunar Grussaí-Iquipari-Taí, situado a SW do município de São João da Barra. 4.1.3 Linha de Transmissão 345 kV, UTE Porto do Açu – Campos dos Goytacazes

A Linha de Transmissão 345 kV, UTE de Porto do Açu – Campos dos Goytacazes, atravessa uma área de influência direta de 1.340 ha dos ecossistemas de restinga. Em 127 ha encontram-se ainda fragmentos da vegetação natural, segundo o Estudo de Impacto Ambiental realizado e submetido à apreciação do INEA. A Compensação Ambiental proposta para esse empreendimento consiste em um programa de recuperação e conservação da restinga que tem como metas o resgate da flora, produção de mudas, recuperação de reserva legal e criação de RPPN (foram consideradas duas áreas com potenciais para criação de RPPN – Área 1: 14,5 ha; Área 2: 22 ha). 4.1.4 Aeródromo de Farol de São Tomé

A Petrobrás, empresa responsável pelo Aeródromo de Farol de São Tomé propôs no Estudo de Impacto Ambiental um programa de monitoramento da fauna e flora local, programa de salvamento da fauna e flora local, programa de monitoramento da ictiofauna local, programa de monitoramento da avifauna local e a elaboração de um Programa de Criação e Consolidação de Unidades de Conservação apresentando três alternativas para a alocação dos recursos previstos em lei: • a Alternativa 1 constitui a consolidação da UC e elaboração do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa do Lagamar, localizada no distrito Farol de São Tomé, Área de Influência Indireta do empreendimento a Alternativa 2 consiste na criação e implementação de UCs em áreas que compõem o ambiente de restinga, ecossistema costeiro que será diretamente afetado pelo empreendimento. a Alternativa 3 constitui a criação e implementação de UC em áreas que compõem o ambiente de lagoas costeiras, ecossistema que será diretamente afetado pelo empreendimento. Agroindústria de Bom Jesus de Itabapoana

4.1.5

A Agroindústria de Bom Jesus do Itabapoana propôs em seu Estudo de Impacto Ambiental apenas um programa de Monitoramento Ambiental dos meios físico, biótico e sócio490 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

econômico que contempla a recuperação de áreas degradadas, reflorestamento da mata ciliar e recuperação do depósito de lixo (vazadouro) da Região, como medidas compensatórias relevantes. 4.1.6 As Atividades da Petrobrás

A pesquisa sísmica é realizada no fundo do oceano para descobrir a presença de petróleo e gás. Seis cabos vão ao fundo do mar, emitindo ondas sonoras para as diversas camadas do subsolo. Elas atingem até sete mil metros abaixo da terra, sob as águas. A cada camada do subsolo, a onda retorna ao navio sísmico para efetuação da leitura. Devido à realização desta pesquisa, diversas espécies de peixes diminuíram significativamente no litoral fluminense. De maneira similar o seu processo influencia o meio ambiente, uma vez que a rota migratória de golfinhos e baleias é alterada. O mesmo acontece com o itinerário para desova das tartarugas que também é modificado. São várias as empresas que fazem a pesquisa. As pesquisas sísmicas tiveram início em meados da década de 1990, ocasionando prejuízos ao meio ambiente, ao setor sócio-econômico e às comunidades que vivem da pesca. Sem a pesquisa sísmica é quase impossível descobrir novas acumulações de petróleo. Além de descobrir novas acumulações, as campanhas sísmicas têm o objetivo de monitorar os campos já em produção. Atualmente, 95% dos campos de petróleo “onshore”, isto é, em terra, foram descobertos através de pesquisas sísmicas, o que, em ambiente “offshore” (ambiente marítimo), sobe para 100%. Segundo a legislação vigente, o Plano de Compensação da Atividade Pesqueira não deve incluir nenhum tipo de indenização financeira e sim a realização de projetos dirigidos às comunidades pesqueiras como benfeitorias, qualificação profissional e ações sociais. A Petrobrás iniciou uma campanha sísmica na Bacia de Campos, com duração mínima prevista para dois anos. As pesquisas vêm sendo realizadas em águas com profundidade superior a 50 m e distância mínima de 50 km da costa. Segundo classificação do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, IBAMA, pesquisas realizadas em águas com profundidade entre 50 e 200 m pertencem à classe 2. Já as pesquisas realizadas em profundidade superior a 200 m pertencem à classe 3. Esta diferenciação determina as medidas compensatórias que serão desenvolvidas pelas empresas responsáveis pela aquisição sísmica para a obtenção do seu licenciamento ambiental. 4.1.7 Petróleo na Costa Brasileira

As atividades petroquímicas na região costeira ocasionam impactos que devem ser cuidadosamente estudados devido à característica interdisciplinar dos processos envolvidos que contribuem para a poluição marinha por petróleo. Esses impactos dependem de vários fatores bióticos e abióticos, das fontes de contaminação, da forma de contaminação e do destino do petróleo no mar, sendo de primordial importância destacar a fração de petróleo solúvel em água e suas alterações químicas, bem como a fração de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e seus aspectos toxicológicos. Ênfase especial deve ser dada aos parâmetros de biodegradação e fotodegradação, tanto em estudos de monitoramento ambiental quanto nos de impacto ambiental, já que muitas vezes quantificar os constituintes originais do petróleo derramado no ambiente pode fornecer dados incompletos e pouco representativos.
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A economia petrolífera no Brasil é essencialmente costeira: atualmente mais da metade da produção de óleos brutos e quase toda a produção de gás natural vem de plataformas marítimas. A produção é carregada em petroleiros ou bombeada por dutos que levam aos parques de tancagem na costa. Essa é a paisagem marcante no trecho de Macaé a Campos, litoral do Rio de Janeiro. Nas áreas mais importantes da zona costeira, do ponto de vista ecológico – os manguezais – a experiência indica que a melhor ação é evitar-se ao máximo a contaminação por petróleo. Porém, uma vez que a área foi contaminada, o melhor é deixar o petróleo se degradar naturalmente, sem tentar nem mesmo recolhê-lo, porque o recolhimento do petróleo é muitas vezes mais danoso do que a sua ação. Impacto do petróleo no ambiente marinho O grau do impacto do petróleo no ambiente marinho vai depender de diversos fatores, entre eles, da área atingida. É necessário distinguir duas situações: • Derrames em mar aberto ou em áreas confinadas, que ameacem atingir a costa: mar aberto (ecossistema oceânico) é a região que vai além das plataformas continentais, onde a profundidade aumenta drasticamente. Embora o ecossistema oceânico seja rico em nutrientes e a vida na área oceânica seja diversa, possui um alto grau de dispersão e, por isso, as áreas mais sensíveis, do ponto de vista ecológico, fazem parte do ecossistema costeiro (são os manguezais e as praias planas em baías). Nesses ecossistemas, a quantidade e variedade de vida são grandes e é pequena a capacidade de diluição. • Derrames em áreas preservadas ou áreas contaminadas.

4.1.7.1 Formas de Contaminação por Petróleo A forma aguda de contaminação geralmente provém de um derrame acidental, em uma determinada região e suas conseqüências são, em grande parte, função do tipo de óleo derramado e se o derrame se dá em uma área confinada ou em mar aberto. É evidente, além disso, que a quantidade de óleo derramada também é importante, porém os efeitos para o meio ambiente nem sempre são proporcionais à quantidade. Técnicas para conter o óleo derramado: o uso de barreiras de contenção para impedir o espalhamento do óleo, a remoção mecânica do óleo derramado, a queima da massa de óleo, a utilização de culturas mistas para a biodegradação de hidrocarbonetos, a utilização de adsorventes e dispersantes químicos. Outras técnicas têm sido usadas nos últimos anos como alternativas ou medidas complementares, entre elas, a queima in situ. O uso de dispersantes é visto com restrições e seu uso é proibido ou sujeito a severas limitações em diversos países. A poluição crônica é designada quando pequenas quantidades de óleo são lançadas de modo contínuo ou de maneira intermitente. Embora acidentes envolvendo petroleiros tenham grande repercussão nos meios de comunicação, a principal forma de contaminação de petróleo no mar é a forma crônica e de origem nos navios. As principais fontes antropogênicas de poluição por petróleo no ambiente marinho são: • •
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águas de lavagem dos tanques dos petroleiros; águas de lastro;
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• • •

despejos das refinarias costeiras; operação dos petroleiros nos terminais; acidentes envolvendo navios petroleiros e outros tipos de navios.

4.1.7.2 Licenças, Exigências e Autorizações Licenças ambientais são concedidas pelo IBAMA à Petrobras para cada plataforma em funcionamento. Como condicionante, o Empreendedor deve implantar imediatamente os projetos ambientais aprovados e apresentar relatórios semestrais das instalações realizadas e de cada um dos seguintes projetos: Relatório de Instalação; Projeto de Monitoramento Ambiental; de Comunicação Social; de Controle da Poluição e de Educação Ambiental dos Trabalhadores. O processo de licenciamento ambiental das atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural engloba as seguintes licenças exigências e autorizações: • Licença prévia de perfuração – LPper: Para sua concessão é exigida a elaboração do Relatório de Controle Ambiental – RCA e após a aprovação do RCA, é autorizada a atividade de perfuração; Licença prévia de produção para pesquisa – LPpro: Para sua concessão é exigida a elaboração do Estudo de Viabilidade Ambiental, EVA, e, após a aprovação do EVA é autorizada a atividade de produção para pesquisa da viabilidade econômica da jazida; Licença de instalação – LI: Para sua concessão é exigida a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental e após a aprovação do Estudo de Impacto Ambiental, EIA, com a respectiva realização de Audiência Pública é autorizada a instalação de novos empreendimentos de produção e escoamento ou, para sua concessão é exigida a elaboração do Relatório de Avaliação Ambiental, RAA, e após a aprovação do RAA são autorizadas novas instalações de produção e escoamento onde já se encontra implantada a atividade; Licença de operação – LO para atividade de exploração e produção marítima: Para sua concessão é exigida a elaboração do Projeto de Controle Ambiental, – PCA, e após a aprovação do PCA é autorizado o início da operação de produção; Licença de operação sísmica – LO para atividade sísmica: para sua concessão é exigida a elaboração do Estudo Ambiental – EA e após a aprovação do EA é autorizada a atividade de levantamento de dados sísmicos marítimos.

O órgão ambiental fixará as condicionantes das licenças supracitadas. Tais licenças abrangem dois grupos de condicionantes: (i) as condicionantes gerais, que compreendem o conjunto de exigências legais relacionadas ao licenciamento ambiental, e (ii) as condicionantes específicas, que compreendem um conjunto de restrições e exigências técnicas associadas, particularmente, à atividade que está sendo licenciada. A validade da licença ambiental está condicionada ao cumprimento das condicionantes nela discriminadas, que deverão ser atendidas dentro dos respectivos prazos estabelecidos, e nos demais anexos constantes do processo que, embora não estejam transcritos no corpo da licença, são partes integrantes da mesma.

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493

4.1.8

UTE de Macaé (“El Paso”)

Através de compensação ambiental pela instalação da Usina Termelétrica de Macaé, de propriedade da “El Paso”, está sendo realizado o Projeto de Consolidação do Parque Estadual do Desengano (PED) que, além de melhorias em sua infra-estrutura, inclui a elaboração do Plano de Manejo e o Programa de Educação Ambiental e Práticas Sustentáveis. No dia 27 de março de 2004, foi inaugurado o Centro de Visitantes com sala de exposições, auditório com sistema audiovisual, biblioteca, sala de reuniões, terminais de consultas, cafeteria, anfiteatro e áreas de lazer com tratamento paisagístico e sinalização direcional. 4.1.9 Transpetro – Lagoa de Jurubatiba

O Parque Nacional de Jurubatiba, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-Bio), abriga a Lagoa de Jurubatiba, em Macaé. A área é bastante procurada nos finais de semana, a Lagoa fica dentro da área do Parque e vai receber obras de infra-estrutura para melhor receber os visitantes. Essa infra-estrutura resulta de negociação da compensação ambiental e foi imposta à TRANSPETRO, por derramamentos de óleo ocorridos na área do Parque da Lagoa de Jurubatiba, em Macaé. 4.1.10 Projeto Pólen

Implantado em 2004, o Projeto Pólen é uma medida mitigadora condicionada ao licenciamento ambiental da atividade de ampliação do Sistema de Tratamento e Escoamento da Fase 2, do Campo de Marlim, por meio do FPSO P-47, e da atividade de Produção e Escoamento de Petróleo e Gás Natural no Campo de Espadarte e área leste do Campo de Marimbá, por meio do FPSO Espadarte, ambos operacionalizados pela Petrobrás, na Bacia de Campos. O Projeto foi elaborado pelo Núcleo de Pesquisa Ecológica Macaé – UFRJ em parceria com as Municipalidades e suas secretarias de Educação e Meio Ambiente na área de abrangência dos empreendimentos, isto é, Araruama, Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes, Carapebus, Casimiro de Abreu, Macaé, Quissamã, Rio das Ostras, São Francisco de Itabapoana, São João da Barra e Saquarema, e é supervisionado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, IBAMA. 5. CRÉDITOS DE CARRBONO

De acordo com Man Yu (2002, apud Oliveira et al., 2006), o Brasil é um dos primeiros países em desenvolvimento a criar regras específicas para obtenção de créditos de carbono dentro do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), espinha dorsal do Protocolo de Kyoto para reduzir as emissões mundiais de gases do efeito estufa. Os MDLs são projetos entre os países desenvolvidos com compromisso de redução de emissões e os países em desenvolvimento, sem compromissos de emissão. Os mesmos autores afirmam que entre as atividades elegíveis para projetos de MDL estão o aumento da eficiência energética, o uso de fontes renováveis de energia e os projetos de florestamento e reflorestamento.

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O pagamento dos créditos carbono para projetos de florestamento e reflorestamento, contudo, depende da quantificação das taxas de fixação de carbono em tipo de sistema florestal. O MDL preconiza projetos que promovam a redução de emissões com desenvolvimento social, econômico, étnico, cultural, técnico e ambientalmente sustentáveis nos PeDs. Moraes (2008, p. 14) afirma que a capacidade de atração de investimentos externos por parte dos países em desenvolvimento, além dos bons e bem estudados projetos de MDL (de redução das emissões e/ou seqüestro do CO2, depende também das variáveis nacionais de estrutura tributária, disponibilidade e custos de mão-de-obra e estabilidade política e macroeconômica. Como benefícios dessa participação espontânea dos países em desenvolvimento com seus projetos de MDL são esperadas: • a autopromoção do desenvolvimento sustentável; • a promoção da eqüidade intra e inter países em desenvolvimento (com políticas de distribuição de benefícios); • a promoção da transferência Norte-Sul (dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento) de tecnologia descarbonizante; • a promoção de projetos domésticos mais eficientes e menos intensivos no uso da energia e nas emissões de CO2; • a inserção dos países em desenvolvimento no mercado de créditos de carbono; • adequação às especificidades de cada país em desenvolvimento, garantindo a manutenção das suas condições de crescimento econômico. O modelo energético mundial atual (Tabela seguinte) está embasado nos recursos nãorenováveis, representados principalmente pelos recursos fósseis (80% do consumo global de energia) que foram, ao longo da história, determinantes nas transformações econômicas, sociais, tecnológicas e infelizmente nas ambientais Moraes (2008, p. 20).
Tabela 4 – Matriz Energética Mundial em 2004 Combustível Carvão Petróleo Gás Natural Nuclear Renováveis Hídricas Outras Total Participação (%) 23,4 35,7 20,3 6,7 11,2 2,3 0,4 100,0

Fonte: World Coal Institute, 2005 apud Conejero, 2006

5.1

Conceito e Discussão

Créditos de Carbono ou Redução Certificada de Emissões (RCE) são certificados emitidos para um agente que reduziu a sua emissão de gases do efeito estufa (GEE). As agências de proteção ambiental reguladoras emitem certificados autorizando emissões de toneladas de dióxido de enxofre, monóxido de carbono e outros gases poluentes. Inicialmente, selecioPlano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro 495

nam-se indústrias que mais poluem no País e a partir daí são estabelecidas metas para a redução de suas emissões. Por convenção, uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) corresponde a um crédito de carbono. Este crédito pode ser negociado no mercado internacional. A redução da emissão de outros gases, igualmente geradores do efeito estufa, também pode ser convertida em créditos de carbono, utilizando-se o conceito de Carbono Equivalente. Comprar créditos de carbono no mercado corresponde aproximadamente a comprar uma permissão para emitir gases de efeito estufa. Acordos internacionais como o Protocolo de Quioto determinam uma cota máxima de gases de efeito estufa que os países desenvolvidos podem emitir. Os países, por sua vez, criam leis que restringem as emissões de GEE. Assim, aqueles países ou indústrias que não conseguem atingir as metas de reduções de emissões, tornam-se compradores de créditos de carbono daqueles que os possuem em excesso. Por outro lado, aquelas indústrias que conseguiram diminuir suas emissões abaixo das cotas determinadas, podem vender, a preços de mercado, o excedente de "redução de emissão" ou "permissão de emissão" no mercado nacional ou internacional. As empresas recebem bônus negociáveis na proporção de suas responsabilidades. Cada bônus, cotado em dólares, equivale a uma tonelada de poluentes. Quem não cumpre as metas de redução progressiva estabelecidas por lei, compra certificados das empresas mais bem sucedidas. O sistema tem a vantagem de permitir que cada empresa estabeleça seu próprio ritmo de adequação às leis ambientais. A criação de mecanismos de mercado que valorizam os recursos naturais é uma extraordinária inovação cujo primeiro exemplo deu-se nos Estados Unidos com a emenda de 1990 ao Clean Air, de 1970. Por causa dessa Emenda de 1990, que criou as cotas comercializáveis de poluição nas bacias aéreas regionais dos EUA, a poluição do ar diminuiu em média 40%, neste país, entre 1991 e 1998. Iniciativas similares, seguindo este mesmo princípio, estão sendo adotadas, atualmente, em vários países e o Protocolo de Kyoto estabeleceu os critérios que permitem esta negociação, com objetivo de incentivar a redução das emissões de carbono na atmosfera. Estes certificados podem ser comercializados através das Bolsas de Valores e de Mercadorias, como o exemplo do Clean Air e os contratos na bolsa estadunidense (“Emission Trading - Joint Implementation”). Há várias empresas especializadas no desenvolvimento de projetos que reduzem o nível de gás carbônico na atmosfera e na negociação de certificados de emissão do gás espalhadas pelo mundo se preparando para vender cotas dos países subdesenvolvidos e países em desenvolvimento, que em geral emitem menos poluentes, para os que poluem mais. Os volumes do Mercado de Carbono têm estimativas das mais variadas, e na maior parte das matérias publicadas pela imprensa os índices não batem. Cada fonte indica um dado diferente, vai desde U$ 500 milhões até US$ 80 bilhões por ano – os analistas de investimentos consideram o volume estimado pelos especialistas insignificante, comparado com alguns setores que giram volumes equivalentes num mês. No caso Brasil, como também no da África, é exigida uma série de certificações e avais em função dos riscos de crédito, por todas as questões de credibilidade decorrentes do chamado “Risco Brasil”, ainda persistente, o que implica na inclusão de “spreads”, onerando significativamente o custo do capital.
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Tudo isso entra na contabilidade dos empréstimos internacionais, e o risco que se corre, no Brasil, é de acontecer de o dinheiro com taxa baixa ou a fundo perdido chegar à mão do pequeno com taxas muito altas. 5.2 MDL e “Commodities” Ambientais

Existem grandes diferenças entre as CDMs e as “commodities” ambientais. Os CDMs ou MDLs (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo), em síntese, são alternativas que implicam em assumir uma responsabilidade para reduzir as emissões de poluentes e promover o desenvolvimento sustentável. Trata-se de um mecanismo de investimentos, pelo qual países desenvolvidos podem estabelecer metas de redução de emissões e de aplicação de recursos financeiros em projetos como reflorestamentos, produção de energia limpa. As empresas, por exemplo, ao invés de utilizar combustíveis fósseis, que são altamente poluentes, passariam a utilizar energia produzida em condições sustentáveis, como é o caso da biomassa. Nem todo projeto de CDM gera necessariamente uma “commodity tradicional” e muito menos uma “commodity ambiental”. A troca de créditos de cotas entre países desenvolvidos, que estabelecem limites de “direitos de poluir” (“joint implementation e emission trading”, pode ser transformada em títulos comercializáveis em mercados de balcão ou secundários (mediante contratos de gaveta, “side letters”), ou em mercados organizados (bolsas, interbancários, intergovernamentais, etc.). De um lado as “commodities” ambientais tem como seu principal diferencial o modelo da pirâmide, no qual os contemplados pelos recursos financeiros devem diretamente ser os excluídos. De outro, o “trading emission” (compra e venda de créditos de carbono) atende ao tradicional modelo de operações financeiras. O CDM pode ser aplicado ao conceito “commodities ambientais”, observadas duas condições: se o projeto de controle de emissão de poluentes estiver gerando uma “commodity” como energia (biomassa), madeira, biodiversidade, água, minério, reciclagem, e se o modelo vier a promover a geração de emprego e renda e financiar educação, saúde, pesquisa e preservação de área protegidas. Não importa para as “commodities ambientais” o que capta mais carbono. Importa, porém, o que gera mais emprego e mantém mais áreas de preservação. O modelo de “commodities ambientais” deve debater a produção de uma trava que impeça que um ecossistema seja prejudicado para favorecer a exploração comercial do outro. Há risco dos certificados de carbono serem transformados apenas numa operação financeira e não gerar nenhuma vantagem para o meio ambiente, caso os instrumentos econômicos sejam apenas promessas de capturar carbono no futuro. Por isso foi criada a proposta “BECE” (“Brazilian Environment Commodities Exchange”), genuinamente brasileira. A proposta se baseia no mapeamento das reais necessidades para, então, adotar uma postura mais séria e fazer propostas mais concretas nas relações com a ALCA, Mercosul, Protocolo de Kyoto, etc. Apesar dos riscos implícitos, ao implantar os Fóruns Regionais BECE tenta-se descobrir os meios de resolver o problema. Os Créditos de Carbono, se mal desenhados e lançados no mercado no afã da euforia, apenas para suprir uma expectativa de captar investimentos internacionais, podem mascarar a ação de muitos “oportunistas de negociatas”.
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5.3

Crédito de Carbono e sua Importância

A ideia de se criar o sistema de créditos de carbono resultou da busca de um mecanismo para compensar a emissão de gases que produzem o efeito estufa através de um programa que desperta, nos países, a vontade política de rever os seus processos industriais e energéticos e, com isso, diminuir a poluição na atmosfera e o seu impacto no aquecimento do clima. Em função disso, foi criado um certificado que é emitido pelas agências de proteção ambiental reguladoras, atestando que houve redução de emissão de gases do efeito estufa. A quantidade de créditos de carbono recebida varia de acordo com a quantidade de emissão de carbono reduzida. Foi convencionado que uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) equivale a um crédito de carbono. Outros gases que contribuem para o efeito estufa também podem ser convertidos em créditos de carbono, utilizando o conceito de carbono equivalente. Esse certificado é negociado no mercado internacional, onde a redução de gases do efeito estufa passa a ter um valor monetário para conter a poluição. Há diversos meios para consegui-lo, alguns exemplos são: reflorestamento; redução das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis; substituição de combustíveis fósseis por energia limpa e renovável, como eólica, solar, biomassa, PCH (Pequena Central Hidrelétrica), entre outras; aproveitamento das emissões que seriam de qualquer forma descarregadas na atmosfera (metano de aterros sanitários) para a produção de energia. Em acordos internacionais os países desenvolvidos passaram a ter cotas máximas para emitir esses gases do efeito estufa. Coube a esses países criar leis para restringir a emissão desses gases em seus territórios. O mercado de carbono possui um critério que se chama adicionalidade. Segundo este, um projeto precisa absorver dióxido de carbono da atmosfera, no caso de reflorestamentos, ou evitar o lançamento de gases do efeito estufa, no caso de eficiência energética. Alguns criticam esses certificados por entenderem que eles autorizam países e indústrias a poluir. E isso pode ser verdade, pois a intenção da criação desse certificado era organizar critérios de neutralização da emissão desses gases poluidores. Porém, também havia embutido dentro do programa a intenção de que os países poluidores diminuissem suas emissões, e que esse mercado de carbono servisse de estímulo para incentivar os países em desenvolvimento, atraídos pelo ganho financeiro, para que cuidassem melhor de suas florestas e evitassem queimadas. A criação dos créditos de carbono tem um papel importante de conscientização dos países e suas indústrias. 5.4 A Criação e a Valoração dos Créditos de Carbono

Pode-se dizer que créditos de carbono são gerados a partir de projetos que reduzam as emissões já realizadas ou que inibam futuras emissões de carbono para a atmosfera. Os projetos de MDL são analisados de acordo com avaliações técnicas que incluem estudo de viabilidade técnica e econômica do projeto, estimativa da quantidade de créditos de carbono que podem ser gerados e o investimento necessário para a implementação do projeto. Quando o projeto MDL é implantado e a redução dos gases do efeito estufa é certificada, obtem-se os Certificados de Redução de Emissão de Carbono (CRE), negociáveis no Mercado de Carbono. Segundo SNSA (2006), os requisitos para obtenção dos CRE são:
498 Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte do Estado do Rio de Janeiro

Voluntariedade de participação: a participação deve ser voluntária e aprovada por cada parte envolvida. A voluntariedade na implementação é atestada pelo Estado envolvido. Segundo SNSA (2006), no Brasil, essa tarefa cabe à Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, segundo o artigo 3º, IV, do Decreto de 7 de julho de 1999; Efetividade dos benefícios: os benefícios devem ser reais, mensuráveis e de longo prazo e relacionados com a mitigação da mudança do clima; Adicionalidade dos benefícios do projeto: os benefícios das reduções de emissões devem ser adicionais aos que ocorreriam na ausência de atividade certificada no projeto.

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Equivalência Em termos mensuráveis, cada crédito de carbono equivale à redução da emissão de 1 tonelada de CO2 na atmosfera. A conversão de reduções de outros tipos de gases em 1 tonelada de CO2 se dá pelo potencial de aquecimento global. O gás metano (CH4), por exemplo, possui um potencial de aquecimento 21 vezes maior que o CO2 e dessa maneira a redução de 1 tonelada de metano por ano gera 21 créditos de carbono. Titularidade dos Créditos de Carbono A geração dos Certificados