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Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica art p revista fafipar

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Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica. Autor: Emérico Arnaldo de Quadros Professor da Universidade Estadual do Paraná – Campus Paranaguá (FAFIPAR). Mestrado em Psicologia Clinica – Psicanálise pela UTP, Doutorado em Psicologia Profissão e Ciência pela PUC-Campinas. e-mail: earnaldo@onda.com.br
Como citar: QUADROS, E.A. de. Métodos de pesquisa em psicologia clínica. Revista Científica da FAFIPAR/UNESPAR seminário sobre desenvolvimento sustentado no litoral do Paraná. Paranaguá, n. 1, 2011. 1 CD-ROM
Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica. Resumo: Um breve histórico da psicologia e psicoterapia é apresentado, sendo seguido das principais correntes em psicologia e seus métodos de trabalho co
Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica. Autor: Emérico Arnaldo de Quadros Professor da Universidade Estadual do Paraná – Campus Paranaguá (FAFIPAR). Mestrado em Psicologia Clinica – Psicanálise pela UTP, Doutorado em Psicologia Profissão e Ciência pela PUC-Campinas. e-mail: earnaldo@onda.com.br
Como citar: QUADROS, E.A. de. Métodos de pesquisa em psicologia clínica. Revista Científica da FAFIPAR/UNESPAR seminário sobre desenvolvimento sustentado no litoral do Paraná. Paranaguá, n. 1, 2011. 1 CD-ROM
Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica. Resumo: Um breve histórico da psicologia e psicoterapia é apresentado, sendo seguido das principais correntes em psicologia e seus métodos de trabalho co

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Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica.

Autor: Emérico Arnaldo de Quadros Professor da Universidade Estadual do Paraná – Campus Paranaguá (FAFIPAR). Mestrado em Psicologia Clinica – Psicanálise pela UTP, Doutorado em Psicologia Profissão e Ciência pela PUC-Campinas. e-mail: earnaldo@onda.com.br

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Métodos de pesquisa em Psicologia Clínica. Resumo: Um breve histórico da psicologia e psicoterapia é apresentado, sendo seguido das principais correntes em psicologia e seus métodos de trabalho com psicologia clinica.A psicoterapia é um procedimento inicialmente desenvolvido por Freud e contempla a comunicação entre paciente e analista. As pesquisas de resultados em psicoterapia psicanalíticas, chamadas psicodinâmicas, buscam quais terapeutas são mais adequados para determinados tipos de pacientes. Já na terapia comportamental o foco maior do trabalho terapêutico esta relacionado em investigar e mudar contingências. Nas terapias fenomenológicas humanistas a ênfase esta na escuta da subjetividade. homogeneização Palavras-Chave: Clínica. Research methods in clinical psychology. Abstract: A brief historical of psychology and psychotherapy is submitted, followed by the main psychological currents and its methods of work in clinical. The psychotherapy was earlier developed by Freud and contemplates the communication between patient and analyst. The researches of results in psychoanalytical psychotherapies, named psychodynamics, search the most adequate therapist for each kind of patient. In other way in the theory of behaviorism the investigation and change of contingencies is the mainly therapeutic work focus. In the humanistic therapy the emphasis is in the subjectivity. Actually exists a tendency in a homogenized subjectivity in the pos modern society and also a tendency of the therapist in became ecletics. Key words: psychotherapy, research methods, clinical psychology Na da atualidade, subjetividade existe na uma sociedade de tendência à pós-moderna Psicologia

havendo também uma tendência dos terapeutas ao ecletismo. Psicoterapia, Métodos pesquisa,

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Após a apresentação do método de pesquisa denominado metaanálise e um breve histórico da Psicologia e psicoterapias serão apresentados os principais referentes teóricos, os temas mais pesquisados, os métodos e procedimentos das principais correntes de psicologia e sua relação com a psicologia clinica. Nunes e Lhullier (2003) dizem que a história da pesquisa esta repleta de exemplos de pioneirismo cientifico e outras atitudes elogiáveis do empreendimento humano, mas reflete uma questão bastante presente na área de psicoterapia: as diferentes tendências teóricas não se integram em linha de desenvolvimento comum. Meta análise – um método de pesquisa sobre pesquisas. Dentre os métodos de pesquisa, a meta análise que grosso modo pode-se dizer: são pesquisas sobre pesquisas já realizadas, começam a ser desenvolvidos a partir da metade da década de 70 do século passado. De acordo com Costa (1999), meta análise é um procedimento estatístico para se fazer síntese de evidencias de um determinado ramo de pesquisa, sendo o levantamento do acumulo de conhecimento adquirido, onde toma-se por embasamento os estudos já realizados, sendo um poderoso auxiliar para a verificação de como a ciência avança para realizar novas descobertas e confirmar outras já estabelecidas. Sousa e Ribeiro (2009) colocam a meta análise como revisão da literatura, “revisão planejada da literatura científica, que usa métodos sistemáticos para identificar, selecionar e avaliar criticamente estudos relevantes sobre uma questão claramente formulada”(p. 241). A função da sistematização é reduzir possíveis viesses que poderiam ocorrer em uma revisão não-sistemática. Sendo a meta análise o método estatístico utilizado na revisão sistemática para “integrar os resultados dos estudos incluídos e

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aumentar o poder estatístico da pesquisa primária” (Sousa e Ribeiro, 2009, p. 241). No Brasil encontram-se já muitos estudos feitos, utilizando meta análises, com temas variados, como por exemplo: peso ao nascer e síndrome metabólica em adultos, “franchising”, osteoporose, enfermagem no setor público, epidemiologia genética, antibiótico e profilaxia, condições familiares e esquizofrenia, café e câncer gástrico. Em psicologia clinica um exemplo pode ser a pesquisa realizada por Quadros (2008), que fez uma meta análise onde levou em conta as variáveis do psicoterapeuta que podem interferir no processo psicoterápico, observando que existem poucas pesquisas no Brasil sobre o assunto. Com relação à psicoterapia, Bernardi (1998) diz que existem diferentes maneiras de definir a psicoterapia, porém certos elementos são comuns a todas. Fala-se em psicoterapia quando existe uma relação assistencial ou de ajuda, baseada num processo de interação sustentado por um vínculo emocional entre os participantes. Estas técnicas se apóiam em conhecimentos teóricos e podem ser transmitidas através de um processo de aprendizagem. Devem existir metas compartilhadas, suscetíveis de serem explicitadas e avaliadas. Breve historia da Psicologia e Psicoterapia. O contexto histórico do surgimento da psicologia remete à Humboldt e a criação da Universidade moderna. A universidade medieval preparava seus alunos para as antigas profissões de Medicina, Direito e Igreja. Quando Humboldt restabelece a Universidade de Berlim em 1809 coloca como elemento novo na questão universitária a pesquisa, sendo possível então, pela primeira vez, conseguir graduar-se apenas através da pesquisa. A psicologia vive em permanente estado de uma perene crise desde o momento de seu surgimento oficial com o primeiro

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laboratório de psicologia inaugurado por Wundt em Leipzig na Alemanha em 1879, pois 20 anos após, já se questionava o dualismo inicial da psicologia. Os psicólogos rapidamente se organizaram como uma comunidade cientifica para poderem conclamar que faziam ciência. Segundo Palácio et al. (2007), que fizeram um trabalho de investigação teórico histórica de tipo documental; as propostas alternativas e marginais sobre o objeto e método da psicologia são as que puderam ser corroboradas no contexto da psicoterapia; uma vez realizada uma busca particularidades da pela história não oficial da psicologia, as clinica psicológica foram emergindo em

contraponto com a terapia como forma de intervenção derivada das teorizações de uma psicologia clínica procedente do método médico científico. A palavra psicoterapeuta é um termo composto, derivado de dois vocábulos gregos: Psique e therapon, que significam respectivamente – alma e servidor. Em conseqüência, diz Palácio et. al. (2007), poderia ser sustentado que ser psicoterapeuta significa fundamentalmente, ser servidor da alma. Antes das duas grandes guerras do século passado, os psicólogos clínicos dedicavam-se a avaliação psicológica de crianças com dificuldades escolares e pacientes psiquiátricos internados em hospitais. A primeira guerra mundial teve grande importância para o desenvolvimento da clinica, pois que foi o onde exército houve dos um incremento Unidos do desenvolvimento da especialidade de diagnostico de adultos não hospitalizados; sendo Estados rapidamente capacitaram psicólogos de todas as tendências para aplicar testes, para avaliar o nível intelectual, atitudes, estabilidade emocional e descobrir as desordens emocionais em seus recrutas, trabalhando-as em psicoterapia. Palacio et al. (2007), dizem que a psicoterapia antes de qualquer coisa se ocupa da vivencia subjetiva, da experiência imediata, referida à maneira como as pessoas intuem, percebem de

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maneira vivida o mundo, a vida. A psicoterapia é uma arte e não uma derivação de uma aplicação sistemática de uma teoria psicológica. A experiência psicoterapeutica vai deixando no psicoterapeuta um saber que poderá em parte se formalizar em teorias e, posteriormente se submeter aos métodos da psicologia para verificação se o mesmo é falso ou verdadeiro, no entanto continuará mais além da psicologia (Duran et al. 2007). A pesquisa na psicanálise clássica A psicologia clinica é um campo marcado pelo maior e mais completo sistema de compreensão da experiência emocional humana, “vale dizer, pela psicanálise, aqui entendida rigorosamente como método e como encontro intersubjetivo, vale dizer, como clinica” (p. 96). Torna-se, então fundamental indispensável não confundir a psicanálise com uma doutrina fixa e acabada. Para nós psicólogos clínicos, clinica é encontro. (Aiello Vaisberg, 2001) Desde sua fundação, por Freud, uma das preocupações da psicanálise esta relacionada à pesquisa. Já nos seus primórdios, o grupo de psicanalistas iniciais reunia-se (a já conhecida e clássica reunião da quartas) para discutir a aplicabilidade das teorias vinculadas ao inconsciente e suas possíveis correlações não apenas com a clinica, mas com a sociedade e outras ciências. Macedo e Falcão (2005), dizem que a psicoterapia, procedimento desenvolvido inicialmente por Freud, inaugura uma singularidade: a situação de comunicação entre paciente e analista. Nessa situação de comunicação circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento, mas as quais comunicam o desejo e a necessidade do paciente ser escutado. As autoras dizem que ao trabalhar as relações entre intersubjetividade e clínica psicanalítica deve ser ressaltado o quanto são importantes os suportes teóricos do analista, uma vez que são eles que sustentam a práxis. As autoras dizem ainda que as vivências afetivas do analista não podem ensurdecê-lo no encontro com o paciente, desta forma, o famoso

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tripé, dentro do referencial psicanalítico – formação teórica, atividade de supervisionar-se e análise pessoal – constitui-se no recurso de qualificação para o processo de escutar o outro. Eizirik (2006) diz que desde os tempos iniciais a psicanálise inclui a pesquisa em sua própria definição, pois com o nome – psicanálise, Freud propunha designar: a. um procedimento para investigar os processos mentais, b. um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos, c. uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas e que gradualmente, se cumulam numa nova disciplina cientifica. Na essência mesma do método psicanalítico está a noção de que tratamento e investigação são concomitantes, pois o curso do processo analítico tem como parte central a idéia de que se trata de um procedimento em que analista e paciente estudam de forma compartilhada, os significados; as expressões e rotas históricas que produzem sofrimento psíquico. Nas últimas décadas, com o crescente refinamento do método analítico, cada vez mais se incluem a mente do analista e o campo bipessoal que este constitui com o paciente como elementos centrais da investigação. De acordo com Eizirik (2006), a pesquisa clinica é a matéria prima por excelência da psicanálise, tanto através dos estudos de caso único como de seqüência de casos – talvez o método mais adequado ao objeto de investigação – e é dela que provem a maioria dos ‘insights’ obtidos até o momento. Por outro lado, a pesquisa conceitual, que tem recebido atenção crescente, permite refinar, precisar e examinar com minúcia o desenvolvimento e as transformações de conceitos e suas complexas interações com sistemas teóricos que habitam ou co-habitam. Para a psicanálise clássica o caso clinico é o grande método de pesquisa em clinica, basta ver Freud em sua grandes análises de caso – Ana O., O pequeno Hans, o Homem dos ratos. Ao analisar a questão do caso clinico, Souza (2000) diz que a construção do caso

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permite o encontro com várias idéias: 1. a idéia de transmissão, de testemunho e memória. 2. A função clássica do saber como anteparo da verdade 3. O caso é uma teoria em gérmen, uma capacidade de transformação metapsicológica. Trata-se, portanto de uma construção. O caso clinico seria então, uma apreensão circunstancial e momentânea de um construção teórica. O caso clinico em psicanálise é o lugar de onde o analista pensa e que não deve ser confundido com a história do paciente. É uma ficção clinica, resultado de uma hipótese teórica. Hermann (2004) diz que cada psicanalista cria uma „prototeoria‟ apropriada para o caso clinico que atende, embora a prática psicanalítica na clinica repita à exaustão e essa exaustão vai conduzindo os analistas às portas de uma renovação teórica geral derivando-a da própria constituição clinica, facultando a pesquisa metodológica dos fundamentos da psicanálise. O trabalho clínico, no dia a dia do consultório, é uma das formas mais elevadas de investigação. De cada analise, derivam-se „proto-teorias‟ que às vezes, desembocam em teorias elaboradas o bastante para serem publicadas. Pesquisa de resultados em psicoterapia de orientação psicanalítica. As pesquisas de orientação psicanalítica, que não propriamente a psicanálise, podem ser enquadradas como pesquisas em psicoterapias psicodinâmicas. Neste sentido, Yoshida e Rocha (2007) dizem que o termo “psicodinâmico” tem sido empregado para designar a visão segundo a qual o comportamento e as atitudes humanas resultariam de inúmeros fatores, dentre os quais têm especial importância as motivações inconscientes. Quando aplicado às psicoterapias, é utilizado para marcar a teoria da personalidade que dá sustentação à técnica e que tem na psicanálise sua principal referencia teórica.

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Yoshida e Rocha (2006), dizem que a psicoterapia é uma prática nascida do desejo em ajudar a minorar o sofrimento humano de uma maneira eficiente, eficaz e econômica e acima de tudo humanizada. Ao longo de seu desenvolvimento e desdobramentos em diferentes modalidades de atendimento, surgiu a preocupação acerca da eficácia desta prática. A questão inicial surgida foi se as psicoterapias funcionavam e, ”num primeiro momento, através da prática clinica, foi possível observar se teoria e pratica eram congruentes e responsáveis pela melhora do paciente (125)”. Rial, Castaneiras, Garcia, Gómez e Férnandez-Alvarez (2006) propõem que a evolução da investigação em psicoterapia tem avançado progressivamente, de um lado, face à determinação de quais são os terapeutas mais adequados para determinados pacientes e em quais condições específicas e, por outro lado, em estabelecer princípios gerais da psicoterapia. Como já dito no inicio deste texto, as diferentes tendências em psicoterapia não se integram em linhas de desenvolvimento comum. Nunes e Lhullier (2003) dizem que nas últimas três décadas, em relação à pesquisa em psicoterapia psicanalítica, tornou-se cada vez mais intensa a busca por avaliação empírica e sistemática em psicoterapia psicanalítica, que atualmente poderia ser chamado de psicoterapia baseada em evidência. A pesquisa baseada em evidências aparece então para colmatar a falha do método clássico de pesquisa da psicanálise (estudos de caso clinico e produção teórica), tornando-a acadêmica. É de interesse pensar que todas as formas de psicoterapia apóiam-se em fatores inespecificos (comuns a todas), segundo Nunes e Lhullier (2003); como a relação terapêutica que engloba o interesse, a compreensão, a dedicação, o respeito e as qualidades esperáveis na relação de ajuda, que aumentam a confiança e esperança do paciente. Também se pensa ser razoável que diferentes compatível com os enquadramentos da pesquisa

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técnicas

mostrem

resultados

semelhantes,

pois

são

estudados

somente em sua apresentação final e não pelo processo pelo qual se chega a esses resultados. Através da pesquisa empírica, está estabelecida a idéia de que a psicoterapia age terapeuticamente, mas não se sabe ainda exatamente por quê e como. Ainda Serralta e Streb (2003) apontam que tratamentos “puros” (psicanálise, psicoterapia expressiva, psicoterapia de apoio, etc.) dificilmente são encontrados na clínica. Os autores dizem que se observa uma mudança progressiva na pesquisa acadêmica acerca de psicoterapia, sendo que os paradigmas modernos da pesquisa estão mais sensíveis Com às necessidades às variáveis dos do psicoterapeutas terapeuta, um e dos menos temas distantes da clínica da realidade. relação pesquisados, pesquisadores e clínicos são unânimes em ressaltar, segundo Ceitlin, Wiethaeuper e Goldfeld (2003), que muitos aspectos dos terapeutas estão associados a ou são preditivos de resultados nesta modalidade de tratamento. Considerações e hipóteses desta natureza são confirmadas por três tipos principais de resultados em pesquisa: a. a magnitude dos benefícios terapêuticos esta mais proximamente associada à identidade do terapeuta do que as abordagens propriamente ditas; b. alguns terapeutas, independentemente dos modelos de terapia realizados, produzem consistentemente melhores resultados que outros; c. há terapeutas que produzem consistentemente efeitos negativos no desfecho do tratamento. Quadros (2008) relata que observa-se que a maior parte das pesquisas ligadas aos processos psicoterapêuticos estão direcionadas para a investigação das intervenções técnicas usadas pelos psicoterapeutas, muito embora de forma menos freqüente apareçam também pesquisas relacionadas à complexa participação que o terapeuta tem no processo. Beutler e cols. (2004) ressaltam que aspectos ou variáveis ligadas à pessoa do terapeuta estão associados

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e muitas vezes são preditores dos resultados de psicoterapias. Nesse sentido, as variáveis ligadas à figura do psicoterapeuta, como idade, sexo e situações ligadas a sexismo (atitudes de discriminação fundamentadas no sexo), gênero do terapeuta, atitudes culturais, orientação teórica, que interferem nos procedimentos psicoterápicos, merecem investigação. Enéas (2008) fez um extensivo trabalho de meta-analise sobre pesquisas em psicoterapia com a pretensão de oferecer uma visão qualitativa dos desenvolvimentos das tendências da área. A autora escolheu para análise o segmento das seções especiais do Journal of Counsulting and Clinical Psychology (JCCP), que mostrou-se um periódico com grande numero de publicações em psicoterapia breve, método psicoterápico que apresenta grande crescimento, principalmente por favorecer o desenvolvimento de pesquisas em psicoterapia, sendo também que o JCCP apresenta relatos de pesquisa criteriosamente identificados pelo corpo editorial como os mais representativos de rigorosos métodos de pesquisa clinica com sujeitos reais. Observa-se na década – 1980-1990 – a tônica na busca de sistematização das pesquisas, segundo Enéas (2008), de forma que possa escapar a rígidos padrões científicos e encontrar delineamentos que considerem a complexidade do campo interacional e permitam verificação das variáveis significativas para o processo terapêutico. Em 1991, a seção sobre pesquisa da interação cliente-terapia procura melhorar a resposta à questão da efetividade, segundo Enéas (2008), e todos os autores da seção propõe pesquisas guiadas teoricamente, diferindo, contudo em suas ênfases. Beutler (1991, apud Enéas 2008), salienta a dificuldade de investigar as interações entre paciente, terapeuta e tipo de terapia devido à impossibilidade de manejar tão grande numero de variáveis daí resultantes e principalmente por não existir um referencial teórico consistente que permita selecionar as mais relevantes para a pratica clinica. No ano

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de 1991, evidencia-se a cisão mencionada anteriormente, com as seções divididas entre propostas mais especificas de refinamento metodológico, que são de ordem empírica e outra com sugestões de pesquisa teoricamente guiadas, estas ainda se ressentindo de limitação metodológica. Todos os reclamos por novos métodos de pesquisa trazem de volta a pesquisa de caso único em psicoterapia. De acordo com Enéas (2008), os aspectos mais importantes que perpassam as seções especiais referem-se, de um lado à busca de evidencia cientifica; principalmente para a pesquisa de eficácia – que esbarram nas limitações dos delineamentos de pesquisa e nos modelos estatísticos existentes que não se prestam a abranger a complexidade da interação das variáveis de campo – e, de outro, à necessidade de articulação entre pesquisa e prática clinica. Quanto a esse aspecto, Omer e Dar (1992, apud Enéas 2008), ao discutirem as tendências de pesquisas em psicoterapia, apontam que o grande desafio da pesquisa moderna seria o de aproximar suficientemente estudos teóricos das condições clinicas e a possibilidade de a pesquisa clínica pragmática melhorar sua relevância teórica. Na virada do século XX, segundo Rocha e Yoshida (2006), as pesquisas em psicoterapia começaram a apresentar a preocupação com a qualidade dos resultados, a natureza do problema para os quais é indicada e a eficiência de diferentes técnicas. Para acompanhar as necessidades da pesquisa em psicoterapia, que avançava em direção de questões muito especificas, foi necessário desenvolver uma linha de pesquisa que visava criar instrumentos de medida e procedimentos clínicos de avaliação que permitissem um maior grau de precisão das avaliações e evidencias empíricas de sua validade. O Modelo de múltiplos canais e comunicação não verbal: Em pesquisas em que os dados do terapeuta são estudados a partir de transcrições de sessões, variáveis tais como, voz, tom, postura corporal, proximidade, trazem um leque de informações que não

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chegam a ser examinadas. Infelizmente, existem poucos estudos sobre o comportamento não verbal ou a combinação não verbal – verbal associadas a resultados (Beutler et al., 2004). Alguns estudos têm buscado medir e associar o que é dito em sessões, identificando “momentos-chave”, sendo que estes incluem a análise do “tom emocional” e “abstração”, associando-os aos momentos de insight no decorrer do processo analítico. Neste sentido, pode-se citar o Therapeutic Cycles Model (TCM), desenvolvido por Mergenthaler (2008), baseado em análises computadorizadas para a identificação de “momentos-chave” do processo. Neste caso, o registro das sessões é feito com a transcrição fiel das sessões que são gravadas em vídeo e áudio. Terapia comportamental e cognitiva comportamental. Uma questão interessante acerca da terapia cognitivo comportamental e sua relação com artigos publicados nos principais periódicos brasileiros é que embora seja uma corrente com leitura diferenciada dos fenômenos clínicos e sua condução com relação com a psicanálise, também utiliza o estudo de caso como maneira de expor seus conceitos. Na terapia comportamental, o foco do trabalho terapêutico parece estar em investigar e mudar estímulos (ou contingências) reforçadoras levando o paciente ou cliente a identificar quais são as contingência ou estímulos mantenedores na sua vivência, para que após essa identificação ele possa manejar tais estímulos. Um artigo bastante citando na literatura nacional dentro de uma visão comportamental é o de Banaco (1993); onde o autor enfatiza a importância dos comportamentos encobertos numa análise funcional; diz que em terapia comportamental é muito útil trabalhar com a emoção e pensamento dos clientes, já que o terapeuta faz parte de um tipo de comunidade verbal que através desses comportamentos encobertos, tem condições de obter informações sobre os antecedentes e as conseqüências do comportamento dos

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clientes. Com relação às emoções e pensamentos do terapeuta (denominados tipo de reações pelos o psicanalistas desperta de no transferência terapeuta, com ou seus contratransferência), o autor diz que é importante discriminar-se que cliente comportamentos durante a sessão e o que deveria ou poderia ser revelado ao cliente pelo terapeuta, com o propósito de que essa revelação seja terapêutica. Banaco (1993), diz que o terapeuta é também uma pessoa que tem sua história de reforçamento e, se quisermos analisar funcionalmente seu desempenho profissional, deve-se levar em conta seus sentimentos e pensamentos. Temas que podem surgir em terapia e que podem impactar o desempenho do terapeuta são: valores morais, éticos ou religiosos muito diferentes dos do terapeuta, identificação com problemas do cliente, desrespeito por parte do cliente, inveja da situação do cliente. Os eixos formadores do que é chamado de terapia comportamental, diz Marçal (2005), apresentam diferenças, sendo destacado: 1. A Terapia Comportamental Clássica – cujo objetivo terapêutico é promover mudanças em mecanismos internos do cliente, a partir do condicionamento pavloviano, 2. A Análise Comportamental Aplicada ou Modificação do Comportamento – cujo objetivo é manipular contingências específicas vinculadas a mudanças em comportamentos-alvo, não considerando eventos privados, 3. A Terapia Cognitivo Comportamental – que tem como objetivos as mudanças em crenças distorcidas ou irracionais e 4. A Análise Clínica do Comportamento cujo objetivo é promover no mudanças nas contingências a partir da relação terapêutica

setting clínico. Marçal diz então que: “Como pode ser observado, esses modelos apresentam objetivos e propostas de mudanças diferentes e muitas vezes incompatíveis” (p. 234) Sendo então que o autor vai apontar para os manuais – “...muitos terapeutas comportamentais com formação clínica pautada em manuais da

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década de 70 e 80 receberam forte influência de estratégias clínicas variadas” (p. 234), que incluiriam, dentro da mesma perspectiva comportamental, técnicas pertencentes aos diferentes modelos situados acima que formaria o comportamentalismo. A psicoterapia humanista. Embora o subtítulo seja psicologia humanista, ele engloba a fenomenologia, a psicologia humanista de Rogers, Perls e a Gestalt terapia. Ao trabalhar com a ética contemporânea – os anos 60 e o projeto de psicologia humanista, Campos (2006), diz que os anos 60 (do século passado) são tidos, historicamente, como anos de revoltas políticas, estudantis, de costumes, sobretudo da juventude. O zeitgst da época: Os jovens estudavam as idéias de Marcuse (filosofo alemão pertencente à escola de Frankfurt), que considerava a sociedade da forma como estava organizada “irracional como um todo”. Timothy Leary que incitava os jovens a usar LSD e tinha como lema: “se ligue, sintonize e caia fora”, o existencialismo, as idéias de Focault. É nesse contexto que surge, o Movimento Potencial Humano, dentro do qual nasce a psicologia humanista. De acordo com Campos (2006), a proposta teórica da psicologia humanista, de um modo geral, tem como pano de fundo, uma visão de homem como um ser em busca constante de si mesmo, que vive num continuo processo de vir a ser e que apresenta uma tendência natural para se desenvolver. É também uma reação à psicologia anteriormente dominante – o behaviorismo e a psicanálise, embora não tenha se identificado ou se iniciado como pensamento de determinado autor ou escola. Os anos 60, diz Campos (2006), na Europa havia um movimento realizado por diferentes escolas de psicologia, inspirado pelo existencialismo e fenomenólogos. Sendo que a psicologia humanista foi então amplamente acrescida dessas duas outras perspectivas teóricas, a ponto de, posteriormente ser denominada também de abordagem humanista-existencial-fenomenológica em psicologia.

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Os elementos presentes na prática clinica, apontam Nery e Costa (2008), e que a caracterizam incluem: a observação acurada do ser, a escuta, o sofrimento psíquico e a expressão da subjetividade, além do contexto. Na Terapia Centrada na Pessoa e

Gestalt terapia, a relação terapêutica é bipessoal e sua estética é o dialogo, sendo o enfoque clinico centrado na pessoa. A técnica e método é a interação centrada na pessoa. A psicoterapia tem como objetivos a auto-responsabilização e seus conceitos fundamentais ficam no entorno do “aqui e agora”. A principal metodologia de pesquisa na abordagem fenomenológico-humanista é a pesquisa qualitativa. Em artigo cuja intenção é estabelecer uma reflexão acerca da atuação do psicólogo como terapeuta e como ser humano na prática psicoterápica; Sampaio (2004), utilizando a gestalt como referencial teórico, diz que para que possa haver um real encontro entre cliente e terapeuta, é necessária uma atitude aberta ao outro, ao seu mundo. Às vezes o terapeuta esta aborrecido, bem humorado, confuso, com raiva, surpreso, excitado sexualmente, amedrontado, embaraçado, bloqueado, oprimido, sendo que todas essas reações podem dizer alguma coisa tanto a respeito do cliente quanto do terapeuta e podem compreender muitos dados vitais da experiência terapêutica. O que Sampaio demonstra é que o terapeuta não é neutro Psicoterapia e pós-modernidade Sundfeld (2000), ao situar a pós-modernidade, diz que dentro dessa perspectiva o mundo é menos ordenado e previsível, o ideal de verdade, os princípios gerais e leis sobre a natureza humana é rejeitado em nome da legitimidade do pluralismo, apontando que embora existam sociedade, institutos, centros e revistas relacionadas à uma abordagem psicoterápica particular, há uma contradição pois a maioria dos terapeutas não se identifica como aderindo a uma abordagem particular, mas referem-se a si mesmos como ecléticos ou integrativos. Um pressuposto fundamental desta abordagem é a

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visão de que todas as psicoterapias são igualmente efetivas. Dentre os fatores comuns às psicoterapias estão: habilidade do terapeuta para inspirar confiança e a importância de prover o paciente com visões alternativas e mais razoáveis acerca do eu e do mundo. Dunker (2004) da trabalha com os na discursos sociedade tendentes à homogeneização subjetividade pós-moderna,

situando tipos clínicos que compõem diferentes relações entre o sujeito, o saber e o gozo. Os tipos clínicos situados são: consumidor unicista, o paciente profissional, o corporalista e o normalopata, os quais são apenas indicado aqui. Conclusão Como é passível de compreender ao decorrer do texto acima, desde Freud até agora tem-se um longo caminho de desenvolvimentos e desdobramentos teóricos e práticos em relação à psicoterapia, parecendo que no atual momento existe uma tendência à busca de uma homogeneização dos conceitos e técnicas desenvolvidos no decorrer do século XX e inicio do século XXI. Dois fatos causaram surpresa nas leituras de artigos em busca de métodos de pesquisas em psicoterapia: o primeiro deles diz respeito a não neutralidade da pessoa do terapeuta, o que pode ser observado na literatura internacional e ficaria muito extenso para o cunho deste artigo e o segundo, também encontrado bastante na literatura internacional (a hipótese do „dodô-bird‟) a de que todas as posturas em psicoterapia se equivalem, isto é, produzem efeitos (em geral benéficos ao sujeito). Referências: AIELLO VAISBERG, T. M. A função social da psicologia clinica na contemporaneidade. In: Conferencia de abertura do I Congresso de Psicologia clínica, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo – SP, 2001.

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