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John McCormick

RUMO AO PARAÍSO
A História do Movimento Ambientalista

RELUME DUMARÁ

John McCormick
RUMO AO PARAÍSO
A História do Movimento Ambientalista

Tradução de Marco Antonio Esteves da Rocha e Renato


Aguiar

RELUME DUMARÁ
Título original: Reclaiming Paradise © Copyright 1989, John McCormick
© Copyright da edição em português, 1992:
DUMARÁ DISTRIBUIDORA DE PUBLICAÇÕES Av. N. S. de Copacabana, 435 - S/207
22020 - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (021) 257-5391
Coordenação Editorial:
Alberto Schprejer
Editoração: . Antônio Trânsito
Capa:
Victor Burton
CIP-BrasiL Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Edltores de Livros, RJ.
McCormick, John, 1964- M429r Rumo ao Paraíso: a história do movimento ambientalista / John
McCormick; tradução de Marco Antonio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. - Rio de Janeiro: Relume-
Durnarã, 1992
Tradução de: Reclaiming Paradise Bibliografia.
ISBN 85-85427-094
1. Movimentos ecológicos - História. 2. Proteção ambiental -
Históiria. I. Título.
92-0191
CDD - 304.2 CDU - 3:577.4
" ... Rumo ao Paraíso é uma bem fundamentada reconstituição histórica do ambientalismo em escala
planetária, desde suas raizes históricas remotas até a presente ascensão da ecologia política como movimento
antecipador do terceiro milênio. É uma leitura importante para o público brasileiro, tão saturado de
mensagens 'verdes' mas tão carente de uma informação mais rigorosa e precisa, indispensável para a
afirmação de uma cultura ecológica ... "

ALFREDO SIRKIS

" ... As bases constitutivas do pensamento ecológico são múltiplas e antigas. Elas ganharam consistência
com o conhecimento cientifiço sobre as formas de vida e os ecossistemas adquirido no século passado.
Nutriram-se das lutas em defesa das florestas e animais ameaçados, na primeira metade deste século, e
incorporaram outras dimensões fundamentais: a luta pela paz, contra a contaminação dos alimentos, contra o
risco nuclear, pela despoluição das cidades, contra o gigantismo das concentrações industriais, pelas
liberdades fundamentais, por nov.os direitos de cidadania.
A história da constituição desta consciência ambientalista global ainda não havia sido contada, e por
isto saudamos o esforço de John McCormick, fruto de uma pesquisa histórica e de sua própria experiência
militante ... "
CARLOS MINC

ISBN 85-85427-09-4
Prefácio à edição brasileira

Carlos Minc

Ecologia virou moda? As empresas aprenderam a respeitar o ''verde''? A massificação do ecologismo pela
mídia tem como sujeito oculto desviar os movimentos de suas reivindicações por justiça e igualdade? A
industrialização da ecologia é a nova fronteira de grandes investimentos e lucros? Os ecologistas estão mais
preocupados com árvores e baleias que com homens e mulheres?
Nós, ecologistas veteranos, ficamos comovidos com a "rápida, profunda e desinteressada adesão" de
uma grande quantidade de empresários, banqueiros e governantes às grandes causas e bandeiras da ecologia.
Parece que todos agora são ecologistas desde a mais tenra idade. A defesa das nações indigenas, a defesa dos
mares, a prevenção contra as alterações climáticas do globo e a manutenção da biodiversidade ajudam, na
TV, a vender refrigerantes, cigarros, calças jeans e empreendimentos imobiliários.
O desconhecimento das bases filosóficas e históricas do movimento ecológico permite que muitas
pessoas se considerem ambientalistas porque não comem carne, não jogam papel no chão ou ainda porque
são favoráveis ao controle da natalidade
A instituição da cidadania civil consagrou, no fim do século XVIll, as liberdades individuais - como
as liberdades de expressão, de pensamento e de credo religioso. A cidadania política é ampliada apenas no
século XIX, com a extensão do direito de voto e da participação dos cidadãos no exercício do poder político.
A base da cidadania social e econômica é consagrada no século XX, com o reconhecimento do direito
universal à educação, à saúde, à terra, ao" salário digno. Albert Hirschman nota o espaço de um século entre
cada uma dessas grandes dimensões da cidadania conquistadas e analisa como o pensamento reacionário
fustiga os conceitos e as políticas que as incorporam, desqualificando sobretudo as medidas que visam
assegurar a cidadania social e econômica.
O século XXI deverá consagrar a cidadania ecológica, o direito ao sol, ao ar puro, à qualidade de
vida, ao alimento saudável, ao ambiente de trabalho despoluído. Os que hoje se recusam a apresentar
relatórios de impactos ambientais em audiências públicas ou a adotarem tecnologias limpas cumprem o
mesmo papel daqueles que negavam o direito de voto às mulheres ou lutavam contra a jornada de trabalho
de oito horas.
Cidadania ecológica supõe movimento e consciência ecológica. As bases constitutivas do
pensamento ecológico são múltiplas e antigas. Ganharam consistência com o conhecimento científico
adquirido no século passado sobre as formas de vida e os complexos equilíbrios dos ecossistemas. Nutriram-
se das lutas em defesa das florestas e animais ameaçados, durante a primeira metade deste século, e
incorporaram sucessivamente outras dimensões fundamentais: a luta pela paz, contra a contaminação dos
alimentos, pela vida saudável, contra o risco nuclear, pela despoluição das cidades, contra o gigantismo das
concentrações industriais, pelas liberdades fundamentais, por novos direitos de cidadania, pelas tecnologias
limpas, contra a fome e os desequilíbrios, pelo desenvolvimento sustentado.

A história da constituição dessa consciência ambientalista global ainda não havia sido contada, e por
isso saudamos o esforço de John McCormick, fruto de uma pesquisa histórica e de sua própria experiência
militante ..
Ao computarmos os milhões de associados e contribuintes da Greenpeace, da Friends of the Earth, da
WWF, da IUCN e dezenas de outras organizações ecológicas de grande porte chegamos à conclusão de que
se trata do mais amplo movimento de cidadãos que já houve. Um movimento dessa amplitude é
obrigatoriamente heterogêneo, abrigando diversidades ideológicas, regionais, temáticas e também no tocante
a suas estratégias e formas de ação.
A riqueza maior da consciência ecológica global, apreendida por John McCormick, reside na
multiplicidade de suas fontes constitutivas. Alguém poderá questionar: afinal, o que há em comum entre um
membro de um clube de observadores de pássaros e um nutricionista preocupado com as doenças
decorrentes da má alimentação? Entre um adepto da antipsiquiatria e um físico especialista em energia solar?
Entre uma associação de bairro que combate os espigões e luta por mais áreas verdes e os adeptos de
Gandhi, da não-violência? Entre os defensores das baleias e espécies ameaçadas de extinção e os
remanescentes dos movimentos estudantis e alternativos de 1968?
Para responder a tais questões é necessário conhecer a história do pensamento ecologista, os ideais
dos fundadores e dirigentes das principais organizações ambientalistas, e de que forma, paulatinamente, os
governantes e empresários foram obrigados a mudar, em parte, seus discursos, e alguns até seus
procedimentos e suas decisões econômicas.
A ecologia não é uma invenção da mídia. Isto é óbvio, mas precisa ser sempre explicitado. A mídia
se preocupa crescentemente - muitas vezes de forma sensacionalista - com o meio ambiente porque milhões
de pessoas em todo o mundo começaram a dedicar uma parte de seus esforços e de sua imaginação criadora
para defender a vida no planeta e, em seu âmbito, a vida digna para cada um de seus habitantes.
Quando começamos o movimento ecológico no Rio de Janeiro, no final da década de 1970, éramos
considerados exóticos e visionários. Falávamos de ciclovias, táxis e ônibus movidos a gás natural, em
reciclagem de materiais, contra os riscos do nuclear, em agricultura orgânica, em manejo ecológico das
florestas.
Mais tarde ganhamos força e nos aliamos a outros movimentos sociais, como o dos seringueiros de
Chico Mendes, o dos pescadores, o da GásCoop - cooperativa dos táxis movidos a gás natural. Conseguimos
vitórias na justiça contra os grandes poluidores, fechamos a usina nuclear por 85 dias, impedimos a entrada
do metanol no Rio, junto com os estivadores e portuários devolvemos para a Bélgica um navio com lixo
químico. Aí tudo mudou: para os setores mais conservadores, passamos a ser os inimigos do progresso, os
exibicionistas, os anticientíficos. Começamos a contrariar grandes interesses e deixamos de ser as peças
curiosas da exposição.
Os sindicatos nos reconheceram e entramos em dezenas de empresas para combater as tecnologias
sujas, relacionando ecologia, tecnologia e saúde do trabalhador. Os sindicatos começaram a elaborar mapas
de risco ambiental e incorporar demandas ecológicas nos contratos coletivos de trabalho. As associações de
bairro se converteram em defensoras das encostas, da qualidade do ar, das áreas verdes dos quarteirões, da
qualidade das praias. Centenas de táxis passaram a rodar com gás natural, as ciclovias saíram das pranchetas
e começaram a enfrentar as resistências dos adoradores de automóveis. O jateamento de areia foi proibido
nos estaleiros e vários parques ecológicos foram criados na Mata Atlântica.
E no entanto o lixo químico é enterrado na Baixada Fluminenese sob as moradias dos bairros
populares, o esgoto praticamente não é tratado, o cólera é um perigo concreto, milhares de agricultores se
intoxicam com agrotóxicos. A maior parte das leis ambientais não é cumprida; o consumismo e o
desperdício, outra face da perversa concentração de

renda, falam mais alto que a cidadania ecológica. Isso tudo revela como o atraso cultural e político impede o
avanço da consciência ecológica. Comparados à Greenpeace, seus dois milhões de contribuintes, seus 12
navios, helicópteros, Institutos de Pesquisa, publicações como os Relatórios Netuno (que fazem o
levantamento de todos os 1650 acidentes envolvendo embarcações nucleares e as características e
localização das 16 mil ogivas nucleares que circulam nos mares), vemos como estamos ainda na idade da
pedra.
Para avançarmos temos de conhecer e divulgar o pensamento e a organização dos movimentos
ambientalistas mais antigos e consistentes. Cidadania ecológica se constrói com educação ambiental, teoria,
reflexão e prática sistemática do movimento ambientalista em conjunto com os diversos movimentos sociais
e populares. A ecologia virou moda? Esperamos que sim. Uma moda saudável que contagia a juventude e as
pessoas sensíveis: lutar por novos direitos, pela liberdade e pela vida no planeta.

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FOLHA EM BRANCO
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Introdução
De todas as revoluções conceituais do século XX, poucas forjaram uma mudança tão universal e
fundamental nos valores humanos quanto a revolução ambientalista. Gerado pelos amantes da natureza e
filantropos vitorianos, nutrido por naturalistas amadores e planejadores profissionais, e finalmente inserido
na agenda das políticas públicas por uma nova geração rebelde e idealista, o ambientalismo ultrapassou as
divisões religiosas, nacionais e políticas para difundir-se em quase todos os países da Terra. Ganhou dezenas
de milhões de adeptos, criou novos órgãos de legislação, engendrou novos partidos políticos, encorajou uma
reavaliação das prioridades econômicas e tornou-se tema de políticas internas e relações internacionais.
Acima de tudo, mudou nossas percepções do mundo no qual vivemos. Pressuposições de séculos foram
subvertidas em não mais que poucas décadas. Pela primeira vez a humanidade foi despertada para a verdade
básica de que a natureza é finita e que o uso equivocado da biosfera ameaça, em última análise, a própria
existência humana.
A mudança teve maturação lenta. Embora os movimentos ambientalistas datem do pós-guerra, a
destruição ambiental tem uma longa linhagem. Há cerca de 3.700 anos, as cidades sumérias foram
abandonadas quando as terras irrigadas que haviam produzido os primeiros excedentes agrícolas do mundo
começaram a tornar-se cada vez mais salinizadas e alagadiças.1 Há quase 2.400 anos Platão deplorava o
desmatamento e a erosão do solo provocada nas colinas da Ática pelo excesso de pastagem e pelo corte de
árvores para lenha.2 Na Roma do século I, Columela e Plínio, o Velho, advertiram que o gerenciamento
medíocre dos recursos ameaçava produzir quebras de safras e erosão do solo.3 Por volta do século VII o
complexo sistema de irrigação da Mesopotâmia, construído 400 anos antes, começava a sucumbir sob o peso
da má administração.4 Na mesma época o crescimento populacional plantava as sementes do colapso da
civilização maia no século X. 5 A construção de embarcações para a frota do Império Bizantino, Veneza,
Gênova e outros estados marítimos italianos reduziu as florestas costeiras do Mediterrâneo.6 A poluição do
ar pela queima de carvão afligia tanto a Inglaterra medieval que em 1661 o memorialista e naturalista John
Evelyn deplorava a "Nuvem lúgubre e Infernal" que fez a Cidade de Londres parecer-se com "a Corte de
Vulcano ... ou os Subúrbios do Inferno, [ao invés] de uma Assembléia de Criaturas Racionais."7
Apesar dessas advertências prévias houve pouco sentimento de alarme ou interesse até bem depois da
Revolução Industrial. A mudança mais ampla nas atitudes humanas começou com a era das descobertas
científicas, quando os sinais de deterioração tornaram-se evidentes para mais pessoas, e não apenas para uns
poucos observadores perspicazes da condição da natureza. As raízes de um "movimento" mais amplo podem
ser discernidas pela primeira vez na segunda metade do século XIX. Os primeiros grupos protecionistas
foram criados na Grã-Bretanha na década de 1860. Nos Estados Unidos, um movimento bipartido de
preservacionistas de áreas virgens e de conservacionistas de recursos naturais começou a emergir na virada
do século. A sensibilidade do público para

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os primeiros movimentos era pequena, mas, à medida que a ciência revelava mais sobre a estrutura da
natureza, e as pessoas ganhavam mais mobilidade e passavam a olhar para além de sua vizinhança imediata,
o movimento cresceu e se disseminou. Contudo, a verdadeira revolução ambiental só aconteceu depois de
1945, com o período de maiores mudanças se verificando a partir de 1962.

• Em 1863, a Grã-Bretanha aprovou a primeira lei de amplo espectro contra a poluição do ar no mundo
e criou o primeiro órgão de controle da poluição. Até 1971 existiam somente 12 órgãos ambientais
nacionais no mundo; hoje há mais de 140 .

• O primeiro grupo ambientalista privado do mundo (Commons, Foot-paths, and Open Spaces
Preservation Society) foi fundado na Grã-Bretanha em 1865; hoje o mundo conta com mais de 15 mil
desses grupos, um terço dos quais fundados depois de 1972.
• O primeiro acordo internacional sobre meio ambiente foi assinado em 1886; hoje são mais de 250,
três quartos dos quais assinados após 1960.

• Em 1972 as Nações Unidas criaram um novo programa ambiental; já em 1980, quase todas as
organizações internacionais mais importantes - desde o Banco Mundial até a Comunidade Européia e
a Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica - haviam tomado posições relativas
às políticas de meio ambiente.

Ainda insatisfeitos com a resposta política, novos partidos verdes surgiram para desafiar a velha ordem.
O primeiro foi fundado em 1972, na Nova Zelândia; em 1988 havia partidos verdes atuantes em 14 países -
oito deles elegeram membros para suas assembléias nacionais e 11 membros verdes têm assento no
Parlamento Europeu. Para muitos, a política verde oferece uma alternativa nova e poderosa para as
inconsistências e insuficiências do tradicional eixo esquerda/direita.
Nem todos os grupos privados foram efetivos, poucos dos órgãos nacionais têm poderes adequados ou
responsabilidades lógicas, muitas das leis permanecem ainda inadequadas ou ignoradas, muito poucos
pronunciamentos políticos contêm mais do que declarações bombásticas, e os partidos verdes (mas não suas
filosofias) podem, em última análise, se revelar fenômenos efêmeros. Entretanto não há como negar a
emergência de um movimento global substancial. Somente nos Estados Unidos 17 milhões de indivíduos
descrevem a si mesmos como "ambientalmente ativos" e 55% da população reivindica apoio para os
objetivos do movimento.8 Três milhões de britânicos são membros de grupos ambientais,9 fazendo do
movimento o maior de sua história.
O ambientalismo gerou sem dúvida uma revolução conceitual de proporções copérnicas, Isso torna ainda
mais surpreendente o fato de que pouco se tenha escrito sobre-a história do movimento. É verdade que a
produção intelectual americana e européia aumentou muito rapidamente nos últimos dez anos,10 mas
somente uma pequena parcela da mesma vai além de movimentos nacionais limitados, sendo exceções
notáveis os trabalhos de Max Nicholson e Lynton Caldwell.11 No entanto é difícil - e mesmo artificial -
avaliar o ambientalismo exclusivamente em termos de movimentos nacionais isolados. Fazê-Io pode levar a
concepções equivocadas.
Há, por exemplo, a afirmação de que a conservação foi uma das maiores contribuições da América para
os movimentos reformistas mundiais e que suas idéias acabaram por ser exportadas para outras nações.12 Na
verdade o conservacionismo americano foi muito influenciado pelas técnicas alemãs de manejo florestal e a
conservação era praticada em algumas partes da Europa - e até na África do Sul e na Índia - antes de surgir
nos Estados Unidos.

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Existe a sugestão de que os parques nacionais são uma "invenção" americana.13 O primeiro parque
nacional do mundo foi, é verdade, Yellowstone, e o conceito foi sem dúvida criado por George Catlin por
volta de 1830; mas Wordsworth havia escrito dez anos antes sobre suas esperanças de que o Distrito dos
Lagos inglês fosse encarado como "uma espécie de propriedade nacional na qual tem direito e interesse cada
homem que tem um olho para perceber e um coração para desfrutar" .14
Existe a crença equivocada de que muitos temas e problemas recentes são "novos". A poluição ácida,
por exemplo, é frequentemente retratada como uma questão dos anos 80. Todavia sua existência era
suspeitada já no século XVII, sendo confirmada na década de 1850. Muitos dos debates sobre população dos
anos 60 simplesmente ecoavam Thomas Malthus (1766-1834), que comparou o crescimento exponencial dos
números da população humana ao crescimento aritmético da produção de alimentos - e até mesmo ele foi
precedido por sir William Petty.15 A idéia de que o modo de vida industrial era insustentável, esboçada em
1972 em A Blueprint for Survival, havia sido explorada pelo menos já em 1899, pelo geógrafo Peter
Kropotkin.16
Tais mitos e concepções errôneas podem derivar, ao menos em parte, da falta de definições claras ou
consistentes da natureza e parâmetros do ambientalismo. Tratar-se-á de um modo de vida, um estado de
espírito, uma atitude em relação à sociedade ou uma filosofia política? Talvez seja tudo isso, ou somente
parte dessas coisas. Por que algumas vezes o ambientalismo é também chamado (confusamente) de
movimento "ecológico" ou "conservacionista"? Como a "proteção" difere da "preservação"? Como a
"conservação" se diferencia do "desenvolvimento sustentado"? O que é "desenvolvimento sustentado"? Será
a ecologia uma ciência, uma filosofia, uma doutrina política ou todas as três?
Aqueles que procuram por uma definição eficiente do ambientalismo poderiam fazer pior do que se
reportar a Roger Scruton, que o define como "interesse pelo ambiente ... quando elevado à atividade política"
.17 Mas o movimento ambientalista vai além disso. Poucos "movimentos" reformistas foram homogêneos
porque poucos dentre os problemas sociais têm respostas simples ou universais. O ambientalismo não é uma
exceção. Assim como o movimento pelos direitos civis é fundamentalmente voltado à igualdade racial, o
movimento ambientalista é fundamentalmente relacionado com a proteção e administração do meio
ambiente natural e humano. Mas, assim como as filosofias dos direitos civis se estenderam da não-violência
de Martin Luther King ao black power intransigente de Malcom X ou dos Black Panthers, assim também os
grupos ambientalistas têm ideologias, objetivos e métodos dessemelhantes.
Em 1970 a revista New Republic foi influenciada a descrever o movimento ambientalista americano
como "o maior sortimento de aliados mal entrosados desde as Cruzadas, jovens e velhos, radicais de
esquerda e de direita, liberais e conservadores, humanistas e cientistas, ateus e teístas".18 Em seu estudo
sobre o ambientalismo americano, Joseph Petulla identifica três tradições principais: a biocêntrica (natureza
em si e para si), a ecológica (baseada numa compreensão científica da inter-relação e interdependência entre
as partes das comunidades naturais) e a econômica (a utilização otimizada dos recursos naturais, de outro
modo apresentada como o enfoque utilitário do conservacionismo). O autor alinha uma série de argumentos
diferentes (da preservação da natureza à ecologia humana e à filosofia anticrescimento) e uma variedade de
embasamentos éticos, desde a tradição puritana (o desperdicio é o mal) até a riqueza e a ética empresarial.19
Aliado a isso há o cisma entre a "deep ecology" e a "shallow ecology"*; a primeira vê o homem como uma
parte da natureza e subordina as considerações econômicas às ecológicas; a segunda é descartada pelos
ecologistas "deep" como uma crença de que o homem é separado da natureza, e considera as medidas de
proteção somente através de sua

* Literalmente, ecologia "profunda" e ecologia "rasa" ou "superficial". (N. do T.)

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utilidade para os interesses humanos. O'Riordan, por seu turno, observa a evolução divergente de dois temas
ideológicos: o ecocêntrico (que acredita em ordem natural e leis naturais) e o tecnocêntrico (que acredita que
o homem é capaz de compreender e controlar os acontecimentos para servirem a seus objetivos)20.
Considerada num nível global, a diversidade de filosofias, táticas e objetivos é amplificada. As
questões abrangem desde a proteção de orquídeas até a de baleias, da efetiva destruição das wetlands* aos
perigos teóricos-do inverno nuclear, dos efeitos da afluência aos da pobreza. Os grupos ambientalistas
abrangem desde organizações de vários milhões de membros, operando a partir de escritórios de
planejamento em Washington, Londres ou Genebra, até associações de aldeia no Himalaia lutando para
salvar seu modo de vida próprio. As táticas abrangem desde à prática cuidadosa e continuada de lobby junto
a legislaturas nacionais até a confrontação ocasionalmente violenta em alto-mar. As filosofias se estendem
desde a acomodação entre as necessidades de desenvolvimento e de crescimento econômico até a defesa do
anticrescimento mais intransigente. Dominando tudo isso está a questão de saber se o meio ambiente é um
assunto político, econômico ou científico, ou todos os três.
Este é o "movimento ambientalista". Quaisquer que sejam as filosofias ou os métodos das partes, o
objetivo último do todo é a manutenção da qualidade do meio ambiente humano. Rumo ao Paraíso se
propõe a remediar algumas das muitas concepções errôneas sobre esse complexo movimento e a
proporcionar a primeira história do ambientalismo como fenômeno social, econômico e político global.
Trata-se de um estudo de como e por que o estado e a condição do meio ambiente foram transformados de
um tema privado em tema público. O veículo ativo dessa transformação foi um movimento de massa
popular. A medida que as preocupações privadas se tornavam públicas os esforços desse movimento se
refletiam crescentemente na legislação, na política pública, na criação e operação de organismos ambientais
públicos, e nas mudanças dos valores sociais, econômicos e políticos. Esse processo ainda não acabou.
Ainda que Rumo ao Paraíso se apóie fortemente nas experiências britânica e americana, seu argumento
central é o de que o ambientalismo deve ser visto não como uma série de movimentos nacionais separados,
mas como parte de uma mudança mais ampla e de prazo mais longo nas atitudes humanas. Somente desse
modo o mesmo pode ser corretamente avaliado e compreendido.
O capítulo 1 proporciona um prelúdio necessário ao restante do livro através do exame das raízes do
ambientalismo nos séculos XIX e XX na Grã- Bretanha e nos Estados Unidos. Para mostrar como
desenvolvimentos paralelos ocorreram em outros lugares, há uma breve descrição dos acontecimentos na
Austrália, África do Sul e Índia. Esses desenvolvimentos são então relacionados a um dos primeiros temas
ambientais efetivamente regionais (a questão da vida selvagem na África) e, finalmente, aos primeiros sinais
de um movimento internacional de proteção da natureza. O tratamento aqui não pretende ser abrangente;
leitores em busca de maiores detalhes sobre os primeiros movimentos nacionais são reportados às fontes
citadas.
O capítulo 2 segue o fio da meada através da era pós-Segunda Guerra Mundial: as primeiras
conferências importantes sobre conservação, a criação dos primeiros órgãos internacionais de conservação,
os primeiros alarmes neo-malthusianos, e os primórdios de uma compreensão do debate
conservação/desenvolvimento na África pós-colonial.

* O conceito de wetlands, literalmente terras úmidas ou molhadas, é objeto de debate recente e ainda em curso entre a
comunidade científica e as autoridades (ver Time n2 34, 26 de agosto de 1991). Atualmente, segundo a Agência de Proteção
Ambiental norte-americana, wetlands são "qualquer depressão onde a água se acumule por sete dias consecutivos durante a
estação da floração, onde certas plantas aquáticas são encontradas e onde o solo é suficientemente saturado de água para que
ocorra atividade de bactérias anaeróbicas ... " Diante dessa imprecisão do conceito preferimos optar pela manutenção do termo em
inglês. (N.doT.)

19

Os capítulos 3 e 4 se concentram sobre a partida radical em direção ao Novo Ambientalismo entre


1962 e 1972. O capítulo 3 avalia algumas das razões pelas quais o novo movimento emergiu e quando isso
ocorreu: a reação à afluência, o medo da precipitação radioativa, a influência de RacheI Carson, o impacto
dos desastres ambientais e a influência de outros movimentos sociais. O capítulo 4 se volta então para o
debate gerado pelos assim chamados profetas do apocalipse.
O capítulo 5 focaliza um único evento: a conferência de Estocolmo de 1972 sobre o meio ambiente
humano. A conferência foi um divisor de águas, fazendo com que o ambientalismo global possa ser separado
em duas fases - antes e depois de Estocolmo. O desempenho do resultado institucional mais concreto de
Estocolmo - o Programa Ambiental das Nações Unidas - é examinado no capítulo 6.
O capítulo 7 avalia a politização do meio ambiente nos países mais desenvolvidos. Pouco antes, mas
mormente depois de Estocolmo, o Novo Ambientalismo começou a se traduzir em ação política dos
governos: nova legislação, a criação de novos departamentos governamentais e o reconhecimento de
convenções internacionais. Organizações não governamentais desempenharam um papel chave ao iniciar e
monitorar o desenvolvimento das políticas públicas ambientais. Ao final dos anos 70, a insatisfação com a
resposta dos governos ocidentais ajudou a gerar novos partidos políticos verdes.
O capítulo 8 lida com um importante resultado da conferência de Estocolmo e um dos mais difíceis
problemas enfrentados pelo ambientalismo contemporâneo: a resolução do conflito entre os objetivos de
desenvolvimento e a administração ambiental no Terceiro Mundo. Sem políticas práticas coerentes, dados
precisos, desenvolvimento econômico com bases amplas, sem uma redução do crescimento populacional e
uma distribuição mais equânime dos recursos (naturais e financeiros), o futuro do meio ambiente humano
nos países menos desenvolvidos parece desencorajador.
O capítulo 9 trabalha com uma visão mais ampla, através de uma avaliação das perspectivas para
uma cooperação internacional mais intensa no tratamento dos problemas ambientais globais e regionais.
Finalmente, a conclusão faz um sumário da significação do ambientalismo e examina as perspectivas
para o século XXI.
Rumo ao Paraíso iniciou sua trajetória como uma dissertação de mestrado para a Universidade de
Londres. Foram necessários seis anos e várias reformulações para que chegasse à versão final. Compreender
um dos mais amplos movimentos de massas da história não foi uma tarefa fácil e este livro deve muito à
colaboração e influência de outros. Tenho uma dívida especial de gratidão para com Philip Lowe, do
University College de Londres, que orientou o desenvolvimento da dissertação original; seus comentários
bem escolhidos a mantiveram em seu curso e a impediram de tomar-se inadministrável. Max Nicholson
empenhou seu tempo para falar com alguma profundidade sobre os primeiros anos da IUCN e teceu
comentários sobre os dois primeiros capítulos. Martin Holdgate propiciou comentários abrangentes sobre os
capítulos 5 e 6. Lynton K. Caldwell;: da Universidade de Indiana, Richard N.L. Andrews, da Universidade
da Carolina do Norte, e Tim O'Riordan, da Universidade de East Anglia, leram o manuscrito todo e apresen-
taram muitos comentários úteis. David Brower, Czech Conroy, Duncan Poore, Robert Prescott - Allen e
Richard Sandbrook discutiram comigo aspectos específicos do movimen-. to e, em alguns casos,
comentaram trechos do manuscrito. Uma bolsa do World Wildlife Fund ajudou a dissertação em seus
estágios iniciais e muitos colegas do Earthscan e do Institute for Environment and Development
propiciaram-me um ambiente inspirador de trabalho enquanto o volume maior do projeto estava em curso.
A todos eles, meus sinceros agradecimentos.

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FOLHA EM BRANCO
21

UM
As Raízes do Ambientalismo

O movimento ambiental não teve um começo claro. Não houve um acontecimento isolado que inflamasse
um movimento de massas, nenhum grande orador ou profeta que surgisse para incendiá-Ias, poucas grandes
batalhas perdidas ou ganhas e poucos marcos dramáticos. O movimento não começou num país para depois
espalhar-se em outro; emergiu em lugares diferentes, em tempos diferentes e geralmente por motivos
diferentes. As questões ambientais mais antigas eram questões locais. Uma vez compreendidos os custos
mais imediatos e pessoais da poluição, da caça ou da perda das florestas, os indivíduos formaram grupos,
que formaram coalizões, que se tornaram movimentos nacionais e, finalmente, um movimento
multinacional. Esta evolução foi episódica, com períodos de expansão dinâmica intercalados por tempos de
sonolência.
Os estímulos e as respostas freqüentemente se diferenciaram, mas certo número de critérios objetivos
teve de ser atingido antes que um movimento mais amplo pudesse emergir: o progresso da pesquisa
científica, um crescimento da mobilidade pessoal, a intensificação da indústria, a disseminação dos
assentamentos humanos e mudanças mais amplas nas relações sociais e econômicas. Estes e outros fatores
exerceram níveis variados de influência.
Na Europa o meio ambiente havia sido manipulado pelo homem durante séculos. A agricultura
transformara a paisagem, restringindo a natureza a florestas, terras não utilizáveis e quaisquer pequenas ilhas
que pudesse encontrar no mar da habitação humana. Quando esses vestígios remanescentes foram
ameaçados pela indústria e pela agricultura mais eficiente, protecionistas se levantaram em resposta.
Em outros lugares, naquelas regiões que estavam vivenciando um novo assentamento europeu - América do
Norte, Austrália, África do Sul e algumas colônias africanas selecionadas -, a conservação e a proteção
emergiram como uma forma de controle político e econômico. A exploração irrestrita dos recursos naturais
na ausência de um controle metropolitano não podia mais ser permitida. Na América do Norte, a costa leste
refletia cada vez mais uma predominância humana de variedade européia, mas as terras a oeste dos
Apalaches eram relativamente intocadas. Também se revelaram ricas em recursos naturais. Isso levou alguns
a argumentar que o Oeste americano deveria ser protegido contra o tipo de mudanças provocadas pela mão
do homem que havia ocorrido no Leste, e outros a argumentar que os recursos deveriam ser explorados, mas
de uma maneira racional e sustentável.
Posteriormente as influências intranacionais se disseminaram. O conhecimento dos especialistas
florestais alemães foi exportado para os Estados Unidos e para a índia, via Grã-Bretanha, para a Austrália via
Índia, e mais além. O romantismo e o darwinismo

22

alteraram as percepções humanas muito além de seus respectivos lugares de origem. No final do século XIX
era difícil dissociar os objetivos dos movimentos nacionais. Mesmo que diferenças entre métodos e objetivos
possam ter permanecido, a cena estava pronta para o surgimento do movimento ambiental global.

A GRÃ-BRETANHA VITORIANA: À PROCURA DA ARCÁDIA

As origens do ambientalismo britânico se encontram na era das descobertas científicas. O crescimento do


interesse pela história natural revelou muito sobre as conseqüências da relação de exploração do homem com
a natureza. Isso levou inicialmente a um movimento pela proteção da vida selvagem e, depois, a
reivindicações para que fossem proporcionadas oportunidades rurais de lazer como antídoto para a vida nas
florescentes conturbações industriais. A primeira influência importante sobre o nascente ambientalismo
britânico foi o estudo da história natural. Os fundamentos da botânica e da zoologia modernas e de outras
ciências biológicas foram estabelecidos pelo trabalho de uma sucessão de naturalistas de campo amadores
durante os séculos XVI, XVII e XVIII.1 O mais notável foi Gilbert White, cuja obra seminal, The Natural
History of Selborne, editada em 1788, tomou-se o quarto livro mais publicado em língua inglesa e
influenciou sucessivas geraçóes de naturalistas, inclusive Darwin. White condensou a visão arcadiana da
natureza, a qual advogava simplicidade e humildade de modo a restaurar a convivência pacífica do homem
com a natureza.
"Se existiram até agora poucos desejosos e capazes de olhar para a natureza com a extraordinária
maturidade de Gilbert White", observa David AlIen, "houve muitos que gradualmente tomaram consciência
dos atrativos do cenário natural... e aprenderam a reagir com uma segurança continuamente crescente."2
Essa tomada de consciência encorajou e encontrou apoio entre os românticos e os primitivistas, que
encontravam consolo emocional (mas não necessariamente desafio científico ou intelectual) num mundo
natural anteriormente considerado estranho e proibido. Suas sensibilidades estéticas eram ofendidas pela
sujeição da natureza pelo homem. Poetas e pintores deploravam as mudanças realizadas no campo pela
agricultura. Wordsworth escreveu sobre os "direitos violados" da natureza. O escritor e esteta William Gilpin
observou que "onde quer que surgisse o homem com suas ferramentas, a deformidade seguia seus passos.
Sua pá e seu arado, sua sebe e seu terreno sulcado eram abusos chocantes contra a simplicidade e elegância
da paísagem".3
A Inglaterra do século XVIII tornou-se a Meca dos naturalistas e ilustradores botânicos.4 A invenção
da litografia entre 1796 e 1798 trouxe a beleza visual da natureza para um público mais amplo, notadamente
através do trabalho de Thomas Bewick. As descobertas do botânico sueco Carl von Linné (Linnaeus), cujo
trabalho em taxonomia botânica foi a infância da ecologia, e do naturalista inglês John Ray se associaram
aos achados da era das exploraçóes para encorajar a pesquisa nas ciências naturais, culminando nas teorias
de Darwin e de WaIlace. A história natural se tornou um passatempo popular vitoriano, alimentado pelo
sentimento de que conduzia o homem para mais perto de Deus. O estudo da natureza era em si mesmo um
ato de devoção, como expressado pela máxima recorrente "através da Natureza até o Deus da Natureza".5
A compreensão do ambiente natural que emergiu das pesquisas dos séculos XVIII e XIX afetou
profundamente a visão do homem quanto a seu lugar na natureza. A era vitoriana foi um período de grande
autoconfiança e segurança, embora o ideal vitoriano de civilização tenha quase sempre dependido da
conquista da natureza pela ciência e pela tecnologia.6 O domínio sobre o meio ambiente era visto como
essencial para o progresso e para a sobrevivência da raça humana. Mas uma "consciência biocêntrica"7
emergiu gradualmente, reforçando o restabelecimento do sentido de ienter-relação entre o homem

23

e a natureza e a aceitação de uma responsabilidade moral relacionada à proteção da natureza contra os


abusos. A obra de Darwin forneceu um estímulo importante para esse ponto de vista; a evolução sugeria que
o homem era parte integrante de todas as outras espécies e que, por sua própria conta e risco, se havia
distanciado da natureza.
Para Lowe, o termo "equilíbrio da natureza" no século XVIII havia implicado "um robusto e pré-
estabelecido sistema de controles e restrições que assegurava a permanência e a continuidade na natureza.
Ao final do século XIX, o termo transmitia a noção de um equilíbrio delicado e íntimo, facilmente rompido e
altamente sensível à interferência humana"8. Mudanças que haviam sido consideradas vantajosas no passado
provocavam agora uma oposição apaixonada, ao menos entre uma influente minoria de vitorianos
intelectuais e das classes dominantes.9 O imperativo de "melhorar" o meio ambiente (através da demolição
de prédios, do controle de epidemias, da drenagem de pântanos e assim por diante) foi freqüentemente
interpretado como vandalismo e crescente mente rejeitado, uma mudança de ponto de vista fundada na
reação intelectual contra muitos dos dogmas do liberalismo econômico.10
O aperfeiçoamento dos transportes no século XIX tornou o campo acessível a um número crescente
de vitorianos que, na prosperidade do período, buscavam educação, lazer e autodesenvolvimento. Por volta
da década de 1880, havia várias centenas de sociedades de história natural e clubes de campo no interior que
reuniam cerca de cem mil membros.11 A ênfase desse período concentrava-se mais na contemplação e
no estudo que na preservação da natureza, mas isso acabaria por mudar. O crescimento da pop-
ularidade da história natural e da ornitologia levou a uma grande disseminação da coleta de espécimes em
meados do século, e a um crescimento correspondente nos danos infligidos às plantas e aos animais
selvagens. Embora muitas coletas fossem empreendidas com propósitos legítimos de pesquisa, naturalistas
menos conscientes competiam uns com os outros ao reunir coleções de pássaros, ovos e plantas.
O desejo de preservar a natureza tornou-se então implícito no estudo da mesma, e clubes e
naturalistas passaram a se preocupar com os danos infligidos tanto por seus próprios semelhantes
quanto por outros. À medida que os naturalistas aprendiam mais sobre a natureza, passaram a reconhecer
seu valor e o calibre das ameaças colocadas pela atividade humana. A voga de colecionar, somada ao
aperfeiçoamento das armas de fogo e à crescente popularidade (mesmo entre os naturalistas) dos esportes
campestres, cobrou seu tributo em vidas de animais selvagens. A caça em si mesma não causava muita
preocupação, mas a carnificina desenfreada sim.12 A matança indiscriminada de aves marinhas na costa de
Flamborough Head em Yorkshire atraiu muita condenação.
A partir do mesmo zelo humanitário que gerou o movimento antiescravagista, veio a segunda maior
influência sofrida pelo ambientalismo britânico: a cruzada contra a crueldade com os animais. Embora a
Society for the Protection of (mais tarde, Society for the Prevention of Cruelty to) Animals, fundada em
1824 e reconhecida por carta real em 1840, tenha inicialmente feito campanha contra a crueldade com
animais domésticos, em pouco tempo voltou sua atenção para os animais selvagens; Da década de 1870
estava investigando a vivissecção; o tiro aos pombos, a caça ao veado e ao coelho. A crueldade contra
animais era vista como a expressão dos elementos mais selvagens e primitivos da natureza humana. Os
protecionistas acreditavam que salvando os animais selvagens estavam ajudando a preservar a própria
tessitura da sociedade.13 Nada ilustrou tão claramente as firmes raízes de classe média e alta do
protecionismo britânico quanto o apoio que aquela entidade de proteção recebeu desses setores.
Os movimentos populares por reformas sociais algumas vezes emprestam técnicas uns aos outros e
atraem apoio dos mesmos setores. Nos anos 50 e 60, o movimento ambientalista se misturou por algum
tempo aos protestos contra os testes nucleares, a injustiça racial e a guerra do Vietnam (ver capítulo 3). Do
mesmo modo, os métodos dos aboli-

24

cionistas vitorianos e daqueles que se opunham à crueldade contra animais começaram a influenciar
os naturalistas. David Allen identifica um momento decisivo na década de 1860, quando a cruzada
protecionista concentrou suas forças sobre a questão da matança dos pássaros, particularmente as
gaivotas, para fornecer plumagem para as modas femininas. 14 A questão da plumagem foi com
certeza a primeira causa protecionista popular e foi importante por trazer o protecionismo para mais
perto da história natural.
A East Riding Association for the Protection of the Sea Birds, fundada em 1867 para lutar contra a
temporada anual de caça de Flamborough Head, pode ter sido o primeiro organismo de preservação da vida
selvagem no mundo,15 e outros logo o seguiram. Quatro leis do Parlamento - em 1869 (Pássaros Marinhos),
1872 (Pássaros Selvagens), 1876 (Aves Selvagens) e 1880 (Pássaros Selvagens) - deram alguma proteção
aos pássaros selvagens e ajudaram a diminuir o fluxo de plumagens das fontes locais, mas novos
suprimentos foram trazidos dos trópicos na década de 1880. Nos cinco meses que antecederam o mês de
abril de 1885, por exemplo, a plumagem de aproximadamente 775 mil pássaros das Indias Ocidentais, do
Brasil e das Indias Orientais, além de outros países; foram vendidas no mercado de Londres.16 A oposição à
matança dos pássaros por sua plumagem foi conduzi da pelas próprias mulheres, que eram maioria
entre os membros das primeiras agremiações - a Liga da Plumagem (1885), a Liga de Selborne (1885), a
(posteriormente Royal) Society for the Protection of Birds (1891) e o Fur, Fin and Feather Folk (1889). A
Society for the Protection of Birds fez com que seus membros se comprometessem a não mais usar
plumagens e montou uma rede com ramificações nacionais e além-mar; a ramificação indiana esteve por trás
de uma das primeiras legislações contra o tráfico internacional de animais selvagens: em 1902, o governo
indiano ordenou a interdição da exportação de peles e de plumas de pássaros.17
O movimento pela proteção da vida selvagem foi somente uma conseqüência da tardia reação
vitoriana ao desenvolvimento. Também as condições sociais urbanas passaram por um exame minucioso,
notadamente no trabalho de Charles Dickens e Friedrich Engels.18 A crença otimista numa prosperidade
sem limites foi substituída pelo pessimismo quanto às perspectivas para o desenvolvimento social e
econômico, a autoconfiança tendo sido minada pela depressão econômica da década de 1880 e pela crise
intelectual da era pós-Darwin. A depressão sublinhava a crença crescente de que a indústria não era
necessariamente a Grande Provedora; a fonte do poder econômico e político era agora retratada como
destruidora da moral e da ordem social, da saúde humana, dos valores tradicionais, do meio ambiente físico
e da beleza natural.19
A ameaça à saúde humana havia já sido tratada na campanha contra a indústria de álcalis. A
produção de carbonato de sódio, usado na manufatura de sabão, vidro e têxteis, produzia emissões
prejudiciais de ácido clorídrico. A prevenção da poluição era uma simples questão de lavar as emissões com
água, mas, como não havia nenhum controle legal, os produtores não estavam dispostos a tomar essa
iniciativa, a menos que seus competidores fizessem alguma coisa nesse sentido também. No dia 12 de maio
de 1862 o Times noticiou que "extensões inteiras de terra no interior, antes tão férteis quanto os campos de
Devonshire, foram varridas por pragas mortais até que ficaram tão áridas quanto as areias do Mar Morto".
Agricultores e proprietários de terras queixaram-se, mas pouco foi feito até que lorde Derby, cuja
propriedade perto de St. Helens, em Lancashire, foi afetada, levou o assunto até a Câmara dos Lordes. A
campanha parlamentar de Derby foi importante para a aprovação da Lei dos Álcalis em 1863. Ashby e
Anderson argumentam que - decreto "tornou explícita uma atitude social que havia permanecido implícita
durante alguns anos, a saber, que o governo central precisava fazer alguma coisa quanto à proteção contra a
poluição do ar por vapores nocivos” 20.
A forte reação contra as condições de vida miseráveis das cidades industriais combinouse ao anseio
por uma compensação em espaços abertos e natureza para produzir o terceiro

25

impulso importante do ambientalismo britânico nascente: o movimento por interesses. O primeiro grupo.
ambientalista privado do mundo - a Commons, Open Spaces, and Footpaths Preservation Society (fundada
em 1865) - promoveu campanhas de sucesso pela preservação de espaços para amenidades, particularmente
as áreas verdes urbanas, que eram, freqüentemente, o "ambiente campestre" mais disponível para os
trabalhadores urbanos. David Allen vê os conceitos de recreação, preservação, santuário e áreas virgens
fundirem-se no decorrer dos anos 1860 e serem exponenciados por argumentos econômicos e científicos
para dar ao movimento por amenidades sua força.21 A tática de pressão da Commons Society obteve
sucesso, mas como carecesse do status de empresa não podia comprar terras. A necessidade de um
organismo que pudesse adquirir e manter terras e propriedades para a nação foi atendida em 1893, através da
criação do National Trust, que objetivava proteger a herança natural e cultural da nação contra a
padronização causada pelo desenvolvimento industrial.
O National Trust alcançou algum sucesso inicial na aquisição de terras para preservação. Por volta
de 1910 contava com 13 áreas de interesse natural entre suas aquisições, mas era igualmente interessado por
sítios de cunho histórico e cultural, e os naturalistas expressaram preocupação pela maneira aleatória com
que as reservas naturais potenciais eram adquiridas, aparentemente com pouca atenção para com a
importância nacional de suas plantas e animais.22 Em 1912, foi criada a Society for the Promotion of Nature
Reserves, não para possuir reservas naturais ela mesma, mas para estimular o National Trust a prestar a
devida atenção à criação de reservas. Isso foi feito através de um inventário nacional de sítios que valia a
pena proteger e de uma mobilização do apoio público à aquisição desses sítios. Mesmo assim, a necessidade
de áreas protegidas era vista como menos urgente que a necessidade de restringir os anseios dos
colecionadores e de se contrapor à crueldade contra animais. As reservas naturais eram consideradas pela
maioria das pessoas como meios secundários e caros de complementar a legislação.23 Ainda que a primeira
tenha sido criada em Norfolk Broads, em 1888, somente depois da Segunda Guerra Mundial a idéia de
proteção do hábitat ganhou amplo apoio na Grã-Bretanha.
Ironicamente, o National Trust foi condenado por seu próprio sucesso na aquisição de propriedades
a gastar cada vez mais e mais recursos em administração e agenciamento de terras. Isso abriu o caminho para
a criação, em 1926, do Council for the Preservation (e, mais tarde, Protection) of Rural England (CPRE),
fundado para coordenar o movimento voluntário, promover a legislação, orientar os proprietários de terras e
"criar um apelo único, simples e direto a todos os que se interessem pela preservação do interior do país".24
Em 1929 o CPRE fez uma solicitação diretamente ao primeiro-ministro Ramsay MacDonald para investigar
a idéia de parques nacionais. O Comitê Addison foi instituído, apresentando um relatório que advogava a
criação de parques nacionais para proteger a flora, fauna e áreas de interesse natural excepcional, e aumentar
a afluência de público. Os parques nacionais britânicos, contudo, não aconteceram até depois da Segunda
Guerra Mundial, quando então assumiram uma significação muito diferente dos parques de outros lugares.
Em lugar de proteger áreas virgens, preservavam o campo em seu conjunto, em áreas nas quais a
propriedade permanecia em diferentes mãos e onde as pessoas moravam e ganhavam a vida.25
RUMO À CONSERVAÇÃO NO IMPÉRIO: ÍNDIA, AUSTRÁLIA E ÁFRICA DO SUL

Ninguém conheceu melhor a ciência das florestas no século XIX do que os alemães. A instrução
universitária em manejo florestal havia estado disponível por 150 anos, e con-

26

ceitos de manejo produtivo e sustentado das florestas foram introduzidos no final do século XVIII.
Curiosamente, a índia deveria tornar-se um importante campo de provas para a ciência do manejo florestal
alemã e colaborou não somente para difundi-Ia mais amplamente como para assentar as fundações da
conservação global. A Grã-Bretanha havia designado o primeiro conservador de florestas para Bombaim em
1847 e o segundo para Madras em 1856; 26 ambos foram encarregados de administrar as florestas como
fonte direta de renda para o Estado. Também em 1856, a Grã-Bretanha adquiriu a Baixa Birmânia; o
governador-geral da Índia, lorde Dalhousie, designou o especialista em manejo Dietrich Brandis* (um
parente por matrimônio) como superintendente florestal para a região, encarregado da prevenção do
desmatamento. Em 1864 Brandis foi designado para a função de inspetor-geral de florestas para a Índia e a
primeira Lei Florestal Indiana foi aprovada no ano seguinte. Em 1866 o recrutamento organizado de
funcionários florestais da Grã-Bretanha teve início, supervisionado por Brandis e seu novo assistente
alemão, William Schlich. A instrução britânica em manejo florestal era na época bastanete falha, assim,
todos os especialistas florestais ingleses iam à Alemanha, França e Suíça como parte de sua educação.
Depois de um período no Serviço Florestal Indiano, muitos partiam para outras partes do império,
notadamente a Austrália e a África Oriental.
Os primeiros colonizadores da Austrália, assim como dos Estados Unidos, viam as florestas
como obstáculos no caminho do progresso. As advertências sobre a deterioração ambienta! não
demoraram a surgir. Em 1803, a derrubada "imprevidente" da floresta nas encostas do rio Hawkesbury, em
New South Wales, e o cultivo em suas margens estava causando erosão do solo e enchentes sérias, "que
poderiam, em alguma medida, ter sido evitadas se árvores e outras plantas nativas tivessem sido
mantidas"27. Depois, no século XIX, o desmatamento da floresta para criação de pastos para ovelhas levou a
um excesso de pastagem e à inutilização de vastas áreas no interior, em Victoria, New South Wales e
Queensland. Bolton afirma que a lentidão da Austrália quanto à prática de conservação esclarecida foi uma
atitude em grande parte herdada da Grã-Bretanha, a qual, em alguns aspectos, se atrasou em relação ao resto
da Europa-na arte do reflorestamento.28
Espécimes de plantas introduzidas disseminaram-se com rapidez, freqüentemente em substituição às
espécies nativas; pragas animais introduzidas (notadamente o cão e o gato domésticos, e o coelho)
contribuíram para o extermínio generalizado dos animais selvagens, um processo que havia começado com a
caça às balei ás e focas no fmal do século XVIII e começo do XIX. Por volta de 1830 as pouquíssimas
focas que restavam não eram suficientes para tornar sua caça economicamente viável, e por volta de
1850 a caça às baleias também declinou, em grande parte graças à prática de matar fêmeas no período de dar
cria. A idéia de leis de caça era anátema para muitos australianos. Na Grã-Bretanha, direito de caçar havia
sido um privilégio dos proprietários de terra, e sua contravenção, crime pelo qual muitos condenados eram
deportados. A abundância aparente da fauna australiana sugeriu que matar animais sem maiores
impedimentos deveria ser um direito de todos: "por ser a Austrália uma jovem sociedade livre e em
expansão, rejeitaria a noção de conservação da fauna como uma odiada relíquia do passado feudal do
Velho País.29 À medida que a matança se disseminou, betardas, avestruzes, cangurus-pequenos e os
marsupiais menores tornaram-se cada vez mais raros. Um visitante britânico na Austrália Ocidental
observou em 1849 que, embora existissem vastas bordas de cangurus no interior, o comércio de suas
peles havia causado tamanho dano que "nenhum incremento pode fazer frente a essa matança de
animais por atacado".30

*Dietrich Brandis (1824-1907) nasceu em Bonn, Prússia, e estudou botânica. Foi superintendente florestal na Baixa Birmânia de
1856 até 1862 e inspetor-geral de florestas para a India de 1864 a 1883, quando voltou à Alemanha. Foi com sua ajuda que Gifford
Pinchot estudou manejo florestal na França e na Suíça em 1889-1890. Tanto Brandis quanto William Schlich foram nomeados
cavaleiros por serviços prestados à administração florestal indiana

27
Os primeiros sinais de uma reação surgiram no final do século XIX. Desde a década de 1860 os
governos começaram a reservar áreas costeiras e margens de lagos e rios para o lazer público.31 Em 1866
uma reserva foi criada em Jenolam Caves, em New South Wales. Em 1879 o governo de New South Wales
criou o Royal National Park, ao sul de Sydney, porém mais voltado ao lazer público que à preservação das
áreas virgens. O parlamento tasmaniano havia começado a legislar sobre a proteção de espécies selecionadas
de pássaros em 1860, e sociedades de história natural foram formadas em Victoria e New South Wales na
década de 1880. New South Wales introduziu uma legislação que protegia determinados marsupiais em
1903, e em 1909 uma Wildlife Preservation Society foi formada em Sydney. Comissões de inquérito na
Tasmânia e em Victoria (1898) e na Austrália Ocidental (1903) argumentaram que a floresta não poderia ser
encarada como um recurso sem limites, devendo ser administrada de maneira sustentável. Um decreto sobre
florestas e parques nacionais em Queensland, em 1906, dava poderes ao governo para criar parques
nacionais em áreas que produzissem pouca madeira negociável e, em 1915, à Tasmânia aprovou uma Lei de
Preservação da Paisagem. Mas as leis aprovadas por outros estados pretendiam criar parques de recreação e
não de preservação de áreas virgens. Ainda que comissões de manejo florestal - que se assemelhavam mais
ao modelo indiano do que ao americano, com ex-funcionários do Serviço Florestal Indiano desempenhando
um papel influente - tivessem sido implantadas em todos os estados entre 1907 e 1920; o resultado nem
sempre foi o de uma administração florestal aprimorada.
Na Africa meridional, a destruição e a legislação ambientais surgiram alguns anos depois do primeiro
estabelecimento europeu permanente em 1652. Em 1658 tiveram que ser publicadas proclamações para
restringir a derrubada inconseqüente de florestas para obtenção de lenha e o abate a tiros de pingüins para
comida, de focas pelas peles e de elefantes pelo marfim (embora esta última tenha sido imposta devido à
intenção da Companhia Holandesa das Indias Orientais de monopolizar o comércio de marfim). Entretanto,
era difícil fazer cumprir essas leis numa colônia em que os colonos tomavam-se cada vez mais dispersos e
isolados, e para os quais recursos tais como madeira, peles, couros e marfim representavam uma forma útil e
acessível de permuta e uma fonte valiosa de renda. A caça se disseminou durante o século XVIII, com
alguns caçadores de elefantes embarcando em expedições de mais de nove meses de duração. Na década de
1830 a população de elefantes do Cabo oriental já havia quase desaparecido.
A derrubada descontrolada de florestas, assim como a erosão do solo e a dispersão de areia
subseqüentes, criou as condições para a aprovação de um regulamento de 1846 que objetivava uma "melhor
preservação" da área de Cape Flats, próxima à Cidade do Cabo; a partir desse evento, argumenta Grove, é
possível datar "a continuidade de uma medida articulada de pensamento ambiental de base estética e
urbana”32 Grove observa os paralelos entre o advento coincidente de uma legislação ambiental desse tipo
nas redondezas de cidades da África do Sul, Grã-Bretanha, Austrália e Nova Zelândia. Uma comissão de
florestas foi instituída no Cabo em 1854, e áreas de conservação de florestas foram estabelecidas na região
de George em 1856. Em 1859 foi aprovada a Lei de Preservação de Florestas e Pastagens, sobrevivendo
(mesmo um pouco alterada em 1888) até 1910; Grove crê que essa foí a forma mais abrangente de legislação
conservacionista aprovada nas colônias britânicas no século XIX. Ele localiza de modo preciso uma séria
seca ocorrida em 1862 como o momento decisivo na mudança da atitude dos colonos e agricultores,
enfatizando a necessidade de uma legislação sobre a administração da terra.
Um Comitê Especial sobre erosão do solo, seca e problemas associados, criado em 1864, observou as
relações entre erosão do solo, queimada da veldt* e derrubada da vegetação. Uma cruzada de um só homem
foi empreendida por J.c. Brown, botânico do Cabo entre

* Palavra africâner que designa uma vegetação típica da África meridional com arbustos e árvores rarefeitas. (N.doT.)

28

1862 e 1866, cujos relatórios oficiais sobre agricultura e aridificação indicavam as relações existentes entre a
atividade humana e a degradação ambiental. A aparente abundância de terras para o estabelecimento de
colonos e a influência do comércio de madeiras conspiraram para reduzir o efeito das advertências de
homens como Brown, que desfrutava de pouca credibilidade entre a comunidade dos colonos.33 A questão
da preservação da vida selvagem era de interesse mais imediato. Apesar da imposição de uma legislação de
proteção da vida selvagem em Natal, na República Sul-Africana, e no Estado Livre de Orange, na segunda
metade do século XVIII, o número de animais mortos aumentou. Em 1858 O marfim era a exportação mais
valorizada de Natal. Em seu apogeu, no ano de 1877, mais de 19 toneladas deixaram a colônia
(produto,grosso modo, de 950 elefantes); em 1895 a exportação anual tinha caído para somente 30 kg. Em
1866 uma companhia do Estado Livre de Orange exportou sozinha 152 mil peles de antílopes africanos e de
outros animais selvagens. Em 1873 foram exportadas 62 mil peles de zebra e de outros animais.34
A caça profissional tornou-se uma atividade principal mais para o norte em meados do século XIX,
seus objetivos sendo marfim, penas de avestruzes, chifres de rinocerontes, dentes de hipopótamos, couros e
carne.35 Os maiores campos de caça se localizavam nos atuais Botswana e Zimbabwe. Somente entre 1872
e 1874 cinqüenta toneladas estimadas de marfim - os despojos de cerca de 2.500 elefantes - foram
apropriadas por caçadores ndebele e europeus. Em 1876 outras 18 toneladas de marfim (aproximadamente
900 elefantes) foram comerciadas. À medida que as manadas diminuíam, os caçadores eram obrigados a
trabalhar mais para o norte, e em 1880 os elefantes já eram tão raros ao sul do Zambeze que era impossível
praticar a caça de animais vivos para obter marfim na área.36 As primeirasreservas estatais de caça na Africa
foram instituídas em 1857 nas florestas de Knysna e Tsitsikama, e reservas particulares de caça foram
criadas em outros lugares por grandes proprietários de terra a partir de 1875. Em agosto de 1883 morreu o
último quaga* no zoológico de Amsterdam, o que enfatizou a gravidade da ameaça enfrentada pelos animais
selvagens africanos; no mesmo mês o primeiro organismo de conservação da vida selvagem na Africa do
Sul, a Natal Game Protection Association, foi fundado. A preocupação do presidente Paul Kruger, da
república do Transvaal, com o desaparecimento dos animais selvagens encorajou o estabelecimento da
reserva de caça de Pongola, no Transvaal oriental, em 1894. Mais tarde essa reserva tornou-se parte do
Kruger National Patk.

AS RAÍZES DO AMBIENTALISMO AMERICANO

Há paralelos entre o crescimento do interesse pelo ambiente natural na Europa Ocidental e na América do
Norte. Havia um florescimento similar do interesse pela história natural, e a influência do romantismo era
comparável. Mas havia uma diferença principal óbvia no fato de que a Europa fora de há muito colonizada e
explorada, enquanto que vastas áreas novas no Oeste da América do Norte estavam sendo abertas para a
colonização, da mesma maneira como havia acontecido na Austrália e África do Sul.
Houve casos de preservação da natureza na costa leste durante os primeiros anos da colonização
européia. Por exemplo, William Peno, que decretou, quando da fundação da Pensilvânia, no final do século
XVII, que os colonos deveriam deixar meio hectare de árvores para cada dois e meio que fossem
desmatados.37 Mas a maioria dos colonos via as áreas virgens como uma ameaça e como uma barreira para
sua provisão de segurança, conforto, comida e abrigo. A esperança de que o Novo Mundo fosse um segundo
éden se espatifou com a descoberta de que a terra era freqüentem ente hostil e desolada. Nash argumenta que
a colonização do continente ofereceu oportunidades abundantes para a

* Espécie de burro selvagem então existente na África do Sul. (N.do T.)

29

expressão dos preconceitos judaico-cristãos contra a natureza virgem.38 Já em 1700 mais de 200 mil
hectares de florestas haviam sido derrubados para a agricultura na Nova Inglaterra.39 Por volta de 1880
haviam sido derrubados 60% das florestas de Massachusetts. De cerca de 1620 até 1870 a floresta foi a
maior fonte de energia nos Estados Unidos e forneceu o material primário de construção, mas era pequena a
compreensão das técnicas de administração das florestas. Para Huth, o machado foi o símbolo das
primeiras atitudes americanas em relação à natureza.40
Ao mesmo tempo a crescente popularidade da história natural alertou os cientistas (assim como
ocorreu na Grã-Bretanha) para a amplitude das mudanças ambientais. A beleza da natureza virgem norte-
americana inspirou os escritos de autores românticos, filósofos e viajantes através do século XVIII e no
começo do século XIX. O cientista, escritor e poeta escocês Alexander Wilson (que era mais conhecido em
seu tempo do que John James Audubon) comentou as belezas da natureza e publicou um estudo de nove
volumes sobre os pássaros americanos, projetando assim o interesse pela ornitologia. A publicação em
Londres entre 1827 e 1838 de The Birds of America, de Audubon, que mostrou pela primeira vez pássaros
em seu habitat natural, trouxe a beleza da natureza para uma audiência mais ampla. Os escritos de Ralph
Waldo Emerson e Henry David Thoreau influenciaram mais ainda a incipiente filosofia americana sobre o
homem e a natureza. Thoreau estudou administração florestal e advertiu sobre as conseqüências da
derrubada das florestas e da plantação de centeio com fins de lucro imediato, "uma ganância que põe a
perder seus próprios objetivos".41 Ao mesmo tempo em que o avanço para o Oeste durante o século XIX
lançava colonos, companhias de mineração e madeireiras contra as áreas virgens, também consolidava a
influência dos amantes da natureza, que discorriam sobre a beleza espetacular das Montanhas Rochosas e do
faroeste. Um tema recorrente do romantismo foi o fascínio pela biologia e pelo estudo do mundo natural: os
românticos viam a natureza como um sistema de relações necessárias que não podia ser perturbado sem
mudar ou talvez destruir o equilíbrio do todo.42 Não aceitando a teologia cristã, enfatizavam a primazia da
natureza como fonte de inspiração.
Dois acontecimentos seminais ocorreram no ambientalismo americano em 1864. O primeiro foi a
publicação de Man and Nature, de George Perkins Marsh,*/** um livro notável por esposar idéias que
levariam um século para serem mais amplamente discutidas. O livro era um produto da educação de Marsh
na Vermont rural, de sua grande memória, sua busca de toda uma vida por conhecimento e de suas viagens
pela Europa e pela América do Norte (era capaz de ler em vinte línguas). Nele Marsh demonstrava que a
destruição arbitrária e o desperdício perdulário estavam tornando a terra inabitável para os seres humanos e,
em última análise, ameaçando a existência do homem, que "há muito esqueceu que a terra lhe foi dada
somente em usufruto e não para consumo, e menos ainda para desperdício despudorado".43 A sociedade,
advertiu, "estava destruindo o chão, o revestimento e as estruturas de portas e janelas de nossa morada para
obter combustível para aquecer nossos corpos e ferver nossa sopa, e o mundo não pode dar-se ao luxo de
esperar até que o progresso lento e seguro das ciências exatas nos tenha ensinado uma economia melhor ( ...
) os ensinamentos da simples experiência ( ... ) não devem ser desprezados". As idéias de Marsh tiveram
muita influência no posterior estabelecimento de uma comissão nacional de especialistas florestais 44 e
influenciaram escritores franceses e

* George Perkins Marsh (1801-1882) nasceu em Vermont e lecionou por um curto período antes de entrar para a advocacia e
depois para a política. Membro whig** do Congresso (1843-1859), ajudou a fundar e a dar forma à Smithsonian Institution. Foi
ministro dos Estados Unidos para a Turquia (1848-1854) e para a Itália (1861-1862); nesse. último posto sobrava-lhe tempo para
escrever copiosamente. Mau and Nature tomou-se um best-seller imediato.
** Whig, membro ou simpatizante do partido político criado em 1834 em oposição aos democratas jacksonianos. Os whigs eram
ligados principalmente aos interesses da manufatura, comércio e finanças, e foram sucedidos pelo Partido Republicano por volta
de 1854. (N. do T.)

30

especialistas florestais indianos e italianos. Para Steward Udall, o livro representou o começo de um
conhecimento da terra nos Estados Unidos.45
O segundo evento foi o decreto do Congresso em 1864, transferindo o Vale Yosemite e o Mariposa
Grove de Big Trees para o estado da Califórnia, à condição de que "os espaços serão mantidos para
utilização, lazer e recreação públicos, e deverão ser mantidos inalienáveis em qualquer tempo".46 A
delimitação de uma área para fins de recreação nunca havia sido adotada antes como elemento de
administração da terra nos Estados Unidos. Roper esboça para Jefferson em 1815 a idéia de que o governo
democrático deve preservar regiões com belas paisagens para o desfrute de todos os cidadãos.47 Durante
suas viagens no Oeste americano entre 1829-32, o artista George Catlin concluiu que tanto os búfalos quanto
os índios americanos estavam igualmente ameaçados de extinção. Ele acreditava que o "primitivo" dava
mais valor à preservação e escreveu que índios, búfalos e áreas virgens poderiam ser igual e efetivamente
protegidos se o governo estabelecesse um "parque nacional que contivesse homens e animais, em toda
rusticidade e frescor de sua beleza natural!”48. Idéias similares foram expressas por Henry David Thoreau
em 1853, quando ele escreveu sobre o caráter desejável das "reservas naturais"49 e sugeriu que a
preservação das áreas virgens era, em última análise, importante para a preservação da civilização.50 George
Perkins Marsh levou o argumento mais adiante, sugerindo que a preservação das áreas virgens tinha
justificativas tanto "econômicas" quanto "poéticas", isto é, podia ser administrada de modo sustentável para
o benefício de todos.51
Um segundo dispositivo legal, assinado em 1872, designava uma área de 800 mil hectares no
Wyoming como Parque Nacional de Yellowstone, o primeiro parque nacional do mundo. Para Nash, a
"invenção americana" de parques nacionais tornou-se possível pela existência de terras sob domínio público,
a existência de áreas virgens num período em que a demanda por preservação se desenvolveu, assim como
pelo modelo de colonização americano (em que coexistiam terras incorporadas e não incorporadas)52. Runte
sugere que os parques nacionais americanos se originaram da procura da identidade nacional e da
glorificação da beleza natural revelada pela expansão em direção ao oeste.53 O estabelecimento de
Yellowstone e Yosemite deu substância às filosofias de Catlin, Thoreau, Marsh e outros, e forneceu o
modelo que foi imitado em outros países desde o final do século XIX, embora tendo adotado significados
diferentes em diferentes circunstâncias. Por exemplo, os parques nacionais foram criados na Austrália (Real
Parque Nacional, 1879), Canadá (Parque Nacional Banff, 1885) e Nova Zelândia (Parque Nacional
Tongariro, 1894), mas, ao menos no caso da Austrália, os parques tinham menos a vocação de preservação
de áreas virgens do que de recreação pública.

Muir versus Pinchot: O movimento americano se divide

Na virada do século, o ambientalismo americano se dividiu em dois campos: os preservacionistas e os


conservacionistas. Os primeiros buscavam preservar as áreas virgens de qualquer uso que não fosse
recreativo ou educacional, e os últimos explorar os recursos naturais do continente, mas de modo
racional e sustentável. A visão dos primeiros era talvez filosoficamente mais próxima do ponto de vista
do protecionismo britânico; os segundos se fundavam na tradição de uma ciência florestal racional da
variedade alemã.
Como campeão da preservação das áreas virgens, ninguém poderia rivalizar com o naturalista John
Muir.* Suas primeiras lutas foram importantes para a criação do Parque

* John Muir (1838-1914) nasceu em Dunbar, Escócia, e emigrou com sua família para Wisconsin em 1849. Após a universidade
(não se formou) perambulou pelo Canadá e pelo sul dos Estados Unidos, até chegar a San Francisco em 1868 e mudar-se para o
Parque Nacional de Yosemite. Na meia-idade começou a escrever, destacando-se na proteção não somente do Yosemite, como
também dos parques nacionais de Petrified Forest e Grand Canyon, no Arizona.

31

Nacional de Yosemite em 1890, a primeira reserva conscientemente designada à proteção de áreas


virgens.54 Incentivado por esse sucesso, mas cauteloso relativamente à necessidade de observar mais de
perto as reivindicações de utilização das áreas virgens, Muir ajudou a fundar em 1892 o Sierra Club, o qual
trabalhou para tornar as regiões montanhosas da costa do Pacífico acessíveis àqueles que buscavam usufruir
das áreas virgens. O clube tornou-se um centro de aglutinação da causa preservacionista. Com motivos mais
baseados em emoção do que em racionalidade (mesmo que freqüentem ente tenha utilizado justificativas
práticas na argumentação de sua hipótese), Muir falou e escreveu sobre as áreas virgens em termos
religiosos, observando que, embora a glória de Deus se inscrevesse em todos os seus trabalhos, nas áreas
virgens as letras eram maiúsculas. Quando Ralph Waldo Emerson visitou Yosemite em 1871, Muir esperava
poder persuadido-lo ajuntar-se a ele "numa adoração de um mês pela natureza nos altos templos da grande
Sierra Crown, além do nosso sagrado Yosernite".55 Ele sentia que a civilização havia distorcido o sentido
humano da relação com as outras coisas vivas.
Enquanto Muir e os preservacionistas falavam de "proteger" ou "preservar" o meio ambiente, o que
freqüentemente implicava a total exclusão das áreas virgens de qualquer alternativa que não fosse recreação,
outros falavam de "conservação", ou de exploração sustentada de recursos tais como solo, florestas e
águas. Uma das primeiras questões da conservação foi a proteção das florestas. O plantio de árvores havia
começado nos estados ditos de pradarias* durante a década de 1860, 56 e uma Divisão de Manejo Florestal
foi criada no seio do Departamento de Agricultura em 1876, embora não tivesse nem poder nem dinheiro. O
trabalho real foi empreendido por amadores, tais como o botânico financiado independentemente Charles
Sprague Sargent. Inspirado pelo livro de Marsh, Sargent fez um levantamento das florestas americanas para
o governo federal em 1880 e recomendou que as florestas de propriedade federal fossem protegidas até que
um estudo abrangente pudesse ser realizado por especialistas. A primeira sugestão sobre um serviço florestal
de especialistas cientificamente treinados veio de Gifford Pinchot,** um rico pensilvaniano que havia
estudado manejo florestal na Europa, onde aprendeu que as florestas tanto poderiam ser protegidas quanto
administradas para aproveitamento sustentado. (A influência européia prosseguiu quando, em 1886, o
especialista florestal alemão Bernhard Fernow tomou-se o primeiro especialista treinado a ser indicado para
um trabalho na administração direta das florestas nos Estados Uuidos.)57
Pinchot, Sargent e outros perseguiam a idéia de uma comissão patrocinada pelo governo e obtiveram
o patrocínio da Academia Nacional de Ciências. O trabalho da comissão confirmou que as florestas
americanas estavam numa situação de risco, mas que não deveriam ser completamente fechadas à ocupação
e uso futuros: deveriam ser gerenciadas de modo a contribuir para a economia do país, argumentou
Pinchot.58 A maneira como isto deveria ser realizado foi o que trouxe a divisão entre preservacionistas e
conservacionistas a público. Nash argumenta que a lealdade definitiva de Pinchot era para com a civilização
e o manejo florestal; a de Muir para com as áreas virgens e a preservação.59 Pinchot achava diffcil
entender a ética preservacionista da escola de Muir e buscava minimizar sua influência. Achava que a
conservação deveria se basear em três princípios: desenvolvimento (o uso dos recursos existentes pela
geração presente), a psevenção do desperdício e o desenvolvimento dos recursos naturais para muitos, e não
para poucos.60 Ele afirmava que sua política de conservação estava "abrindo novas

* Estados banhados pelo rio Mississippi. (N. do T.)


** Gifford Pinchot (1865-1946) nasceu em Connecticut e foi educado em Paris e na Pensilvânia. Depois de formar-se em Yale
estudou manejo florestal na Alemanha e na França antes de se instalar como consultor dessa especialidade em Nova York. Foi
nomeado para o conselho da nova Comissão Nacional de Manejo Florestal em 1896. Sua família ajudou-o a instalar uma escola de
manejo florestal em Yale. Pinchot encontrou-se pela primeira vez com John Muir em 1893; os dois viriam a tomar-se renhidos
adversários.

32

perspectivas" (inegavelmente, este deveria ser o título de sua autobiografia). Worster argumenta, entretanto,
que tal afirmação ignora uma tradição de agricultura científica progressista que vinha desde o século XVIII.
A contribuição de Pinchot era, antes, trazer a tradição da agricultura progressista para a administração das
terras públicas, particularmente as florestas.61
O conservacionismo americano nascente é freqüentemente representado como uma batalha entre
moralidade (representada pelo povo) e imoralidade (representada por interesses privados voltados à
exploração dos recursos naturais da nação em benefício próprio). Para McConnel,62 o conservacionismo
havia se tornado intimamente identificado com o progressismo que varreu os Estados Unidos no período de
1900 a 1917, o qual era freqüentemente apresentado como uma morality play.*/63 Bates sugere que, ainda
que o movimento progressista fosse em parte um protesto contra o monopólio e destacasse a livre
concorrência, marcava também o declínio do laissez faire e o desenvolvimento da consciência social.64
Conservacionistas organizados, argumenta, eram mais preocupados com ajustiça econômica e a democracia
na alocação dos recursos do que com a prevenção do desperdício; o conservacionismo era uma cruzada
democrática "para barrar o roubo e a exploração ( ... ) [e] para distribuir de modo mais equânime os lucros da
economia".
Hays concorda que o conservacionismo americano não nasceu de um grito popular, mas argumenta
igualmente que não dirigiu seu fogo primordialmente contra a empresa privada.65 À diferença dos
preservacionistas amadores na Grã-Bretanha contemporânea, os lideres conservacionistas americanos eram
profissionais em campos tais como manejo florestal, hidrologia e geologia. Eram menos influenciados pela
opinião pública do que pela lealdade a seus ideais profissionais quanto a assegurar um planejamento
racional e uma exploração eficiente dos recursos naturais. Opunham-se frontalmente àqueles que
buscavam evitar que os recursos fossem desenvolvidos comercialmente. Hays enfatiza a aplicação de nova
tecnologia, argumentando que a democracia de base popular, para os conservacionistas, teria derrotado o
"evangelho da eficiência 66. Jones sugere que os lideres progressistas não eram o produto do
descontentamento popular, mas os guardiães autodesignados do interesse público.67
A filosofia utilitarista de Pinchot era intensamente apoiada pelo vice-presidente Theodore
Roosevelt, que se tornou presidente depois do assassinato de William McKinley, em setembro de 1901.
Pursell argumenta que Roosevelt se sentia atraído pelá conservacionismo, particularmente por esperar que
esse fosse um tema que não levantaria questões sociais fundamentais 68. Pinchot tornou-se, com efeito,
"secretário de estado para a conservação", e a administração de recursos um assunto de política pública.
Roosevelt buscou também as opiniões de Muir, e as reivindicações dos preservacionistas foram atendidas
durante a era Roosevelt, através da incorporação do Vale Yosemite ao parque nacional circunvizinho e da
criação de cinqüenta e três reservas naturais, dezesseis monumentos nacionais e cinco novos parques
nacionais.69 No todo, entretanto, o mandato de Roosevelt assistiu à promoção da conservação profissional
baseada menos em princípios emocionais de preservação do que em administração racional de recursos
naturais.
Se o manejo florestal era uma inspiração do conservacionismo americano, a água era uma outra. Os
conservacionistas enfatizavam a importância dos rios no transporte interiorano, no suprimento doméstico e
comercial de água, no controle de cheias e erosão e na energia hidrelétrica, e observaram que os hídricos
eram os únicos recursos importantes que ainda permaneciam sob possessão pública. O desenvolvimento
multidirecionado dos rios era visto como um exemplo fundamental da utilização planejada e eficiente dos
recursos. Os empresários americanos estavam menos interessados na administração da

* Uma peça alegórica popular, muito comum especialmente nos séculos XV e XVI, na qual os personagens personificam
conceitos ou qualidades abstratas (como vícios, virtudes ou a morte). (N. do T.)

33

água como um recurso do que em sua exploração, mas até mesmo seus líderes tiveram que admitir que a
navegação interiorana precisava ser administrada para evitar que as ferrovias assumissem um monopólio dos
transportes.
Em março de 1907 Roosevelt, por sugestão de Pinchot, 70 criou a Comissão das Vias Navegáveis
Interiores, ostensivamente para preparar e apresentar um plano abrangente para o desenvolvimento e
controle dos sistemas fluviais americanos. Na realidade a coisa foi muito mais longe do que isso. Roosevelt
insistiu no fato de que qualquer plano para utilização das vias navegáveis do interior deveria considerar a
questão do controle de cheias, a prevenção da erosão e assoreamento, e a construção de represas. A comissão
concluiu que quaisquer planos para uso das vias navegáveis do interior deveriam encarar os rios como
patrimônio nacional e assumir plena responsabilidade em relação à conservação de todos os recursos
relacionados a eles. Suas descobertas foram publicadas em 1908, e sofreram imediata oposição por parte do
poderoso Corpo de Engenheiros do Exército (o qual tinha uma visão estreita da utilização e desenvolvimento
da água)71 e do Congresso (que era contra um super-órgão de planejamento).
Em 1908-1909, à medida que seu mandato chegava ao fim e que seu programa de conservação
parecia estar em refluxo, Roosevelt lançou o que Penick descreveu como uma "cruzada ... nascida em parte
da frustração",72 centrada na idéia de levar a conservação às: pessoas. Numa manifestação da Comissão das
Vias Navegáveis em maio de 1907, Frederick H. Newell (engenheiro do Levantamento Geológico
americano, colega de Pinchot e membro da comissão) sugeriu que a mesma organizasse uma conferência
nacional para, ajudar a chamar a atenção sobre a questão da conservação. O plano foi aceito, e a Conferência
de Governadores sobre a Conservação, patrocinada pela Casa Branca; foi realizada entre 13 e 15 de maio de
1908. Cerca de 44 governadores de estados e representantes de setenta organizações nacionais estavam
presentes, mas Muir, Sargent e outros preservacionistas não foram convidados. Ainda que inicialmente
limitada à discussão dos recursos hídricos nacionais, a agenda foi ampliada de modo a poder tratar de todos
os recursos naturais. Os direitos dos estados eram a questão chave, com a maioria dos governadores
declarando sua oposição a tudo que fosse além do mais marginal envolvimento do governo federal no
controle dos recursos. Eles recomendaram que cada estado criasse uma comissão de conservação para
trabalhar com as outras comissões estaduais e com o governo federal. Graças à publicidade que envolveu a
conferência, o conservacionismo tornou-se objeto de debate público e foi, pela primeira vez, trazido ao
conhecimento de um público americano mais amplo.
Três semanas depois, Roosevelt havia anunciado a criação de uma Comissão Nacional de
Conservação, encarregada de fazer o primeiro levantamento dos recursos naturais dos Estados Unidos.
Pinchot liderava o comitê executivo, o qual teve um sucesso notável ao completar seu inventário num
período de seis meses. Este foi submetido ao Congresso no dia 22 de janeiro de 1909 como uma base para
legislação futura. Roosevelt o descrevia como "um dos documentos mais fundamentalmente importantes
jamais submetido ao povo americano" .73 A Comissão, entretanto, teve vida curta. O Congresso se recusou a
aprovar o financiamento do governo, devido ao ressentimento que prevaleceu em relação à expansão do
poder executivo promovida por Roosevelt.74
Pinchot, neste ínterim, consciente de que um novo presidente provavelmente não seria tão simpático
ao conservacionismo quanto fora Roosevelt, trabalhou para organizar duas outras conferências sobre
conservação, dessa vez internacionais em seu âmbito. A primeira foi o Congresso Conservacionista Norte-
Americano, realizado em Washington, D.C., em 18 de fevereiro de 1909, sob a direção de Pinchot. Dez
delegados do Canadá, Terra Nova, México e Estados Unidos discutiram os princípios de conservação
esposados por Roosevelt, Pinchot e pelo encontro de governadores. O mais importante resultado do
congresso , foi a aceitação de que a conservação era um problema mais amplo do que as fronteiras de uma
única nação. A conferência, assim, propôs que Roosevelt convocasse uma conferência mundial sobre
conservação. O Congresso norte-americano ainda estava em sessão quando Roosevelt expediu convites para
que 58 países estivessem presentes num congresso conservacionista mundial em Haia. Roosevelt deixou seu
cargo em março, e aproximadamente a metade dos países havia aceito o convite quando a conferência foi
cancelada pelo presidente Taft. Pinchot sentiu-se amargamente desapontado. Outros congressos foram
realizados em setembro de 1910, setembro de 1911, outubro de 1912 e novembro de 1913, mas Taft não
repetiu seu pedido ao Congresso, feito como presidente eleito, pela manutenção da Comissão Nacional de
Conservação, e parecia indeciso quanto a abraçar ou não uma política conservacionista. Pinchot foi afastado
do cargo em 1910 e tomou-se presidente da National Conservational Association (fundada em 1909).

A QUESTÃO DA VIDA SELVAGEM AFRICANA: 1895-1933

Ainda que o Congresso Conservacionista Norte-Americano de Roosevelt e sua planejada conferência


conservacionista internacional fossem as primeiras tentativas de discussão do conservacionismo num nível
intergovernamental, a proteção da natureza, particularmente dos pássaros, já bavia sido tema de discussões
internacionais. Durante a segunda metade do século XIX, organizações para proteção dos pássaros tornaram-
se politicamente ativas num bom número de países europeus, e desenvolveram a discussão sobre uma
proteção mais universal para os pássaros selvagens.75 A idéia de um acordo internacional para proteger
animais e que fosse igualmente útil para o manejo florestal e para a agricultura

35

(portanto, marcadamente utilitário) foi a princípio sugerida num encontro de especialistas florestais e
agrícolas alemães realizado em Viena, em 1868. Todavia, somente em 1902 uma convenção de
proteção aos pássaros válida para a agricultura foi finalmente assinada por 12 países europeus (exceto
a Grã-Bretanha)76 A oposição a seu caráter utilitário, combinada com sua limitação a pássaros, formou um
ponto de aglutinação para os grupos que buscavam tanto a redação de um documento mais ambicioso quanto
a criação de uma instituição internacional permanente para trabalhar na área da proteção à natureza.77
Um assunto que talvez tivesse maior significado de longo prazo e maior importância pan-européia
era a questão da vida selvagem africana. Os debates sobre caça e plumagem na Grã-Bretanha do século XIX
atraíram a atenção de alguns naturalistas para os problemas das colônias. Os animais selvagens das colônias
da África Oriental começavam a atrair safáris, com a caça tornando-se subitamente acessível pela criação
dos protetorados alemão e britânico em 1885 e 1896, respectivamente. A abundância de caça no sul da
África Oriental britânica era devida ao predomínio dos Maasai (que não matavam ou comiam caça eles
próprios) sobre a maior parte dos atuais Quênia meridional e Tanzânia setentrional. A construção da estrada
de ferro de Uganda entre 1895 e 1902 (e da estrada de ferro Tanga-Moshi entre 18% e 1912) tornou o
interior acessível para colonos e caçadores brancos. Estes últimos voltavam a seus países de origem levando
relatos de caça abundante. A partir de 1895 o número de caçadores visitantes cresceu rapidamente, e o
número de animais que se prestavam à caça diminuiu.
Em 1897 o primeiro-ministro britânico, lorde Salisbury, respondendo a pressões de preservacionistas
e de caçadores igualmente preocupados (mas por razões obviamente diferentes) com a disponibilidade futura
de caça, propôs ao governo alemão a necessidade de controlar as exportações de marfim da África Oriental.
Uma nota foi expedida para outros governos em 1899 e, em 1900, o primeiro acordo ambiental do mundo
- a Convenção para a Preservação de Animais, Pássaros e Peixes na África - foi asssioado em Londres
pela Grâ-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Portugal e pelo Congo Belga. A preservação da caça estava na
raiz da convenção, e havia pouco interese pelos animais que não se prestavam à caça, os quais
presumivelmente não estariam ameaçados por não serem caçados.78 A convenção estava encarregada de
controlar o comércio de marfim, peixes, peles e troféus e sugeria medidas protetoras tais como a criação de
temporadas de caça, mas, apesar de assinada, nunca foi posta em prática; sua importância duradoura reside
no precedente criado para legislações posteriores.
A proteção davida animal nas colônias britânicas deu um passo adiante em 1903 com a fundação da
primeira organização ambiental internacional do mundo, a Society for the Preservation of the Wild Fauna of
the Empire (SPWFE, hoje Fauna and Flora Preservation Society), patrocinada por caçadores (inclusive
Frederick Courtenay Selous) e por naturalistas (inclusivesir Ray Lankester). A sociedade objetivava
encorajar a proteção da fauna (na realidade, pássaros e mamíferos de grande porte) nas colônias. Em um ano,
seus patrocinadores-caçadores estavam sendo apelidados de "os açougueiros penitentes".79
Entre os que advertiram sobre a declínio da caça africana estava sir Harry Johnston, comissário
especial em Uganda (1899-1901) e membro fundador da SPWFE, e o sagaz naturalista alemão C.G.
Schillings, que coletava espécimes para os museus alemães e foi pioneiro na fotografia de animais selvagens
na região. Em 1906 Johnston escreveu que financiamentos eram desesperadamente necessários para custear
a proteção de futuros parques nacionais na África Oriental, que a opinião pública deveria ser encorajada a
fortalecer a ação do governo e que as lições que estavam sendo aprendidas na África deveriam igualmente
ser aprendidas na Grâ-Bretanha, Ele escreveu depreciativamente sobre os caçadores europeus: "Parece ainda
ser panacéia aceita nas sociedades britânica e continental que um homem jovem ou de meia-idade que tenha
sido contrariado no amor

36

ou que tenha comparecido diante da Divorce Court* ( ... ) deve partir para a África e matar caça de grande
porte."80 As reservas criadas na África Oriental no final do século XIX eram planejadas como forma de
amenidade para o uso de soldados e administradores com inclinação pela caça.81
Schillings, que esteve presente na conferência. de 1900 e se preocupava no sentido de que a
destruição da vida selvagem sul-africana não se repetisse na África Oriental, escreveu sobre a "tragédia da
civilização"·do homem, o qual estava submetendo cada vez mais a natureza a seu controle e matando
animais numa escala sem precedentes. Achava lamentável que os alemães soubessem tão pouco sobre a vida
animal em suas colônias e, em seus livros, With Flashlight and Rifle e In Wildest África, fez defesas
apaixonadas por maior proteção e pesquisa. Achava que a tarefa mais urgente era reunir dados precisos sobre
a vida dos animais selvagens para então elaborar medidas praticáveis de proteção. Como Marsh antes dele,
Schillings afirmava que nenhuma época havia assistido a um tal progresso da indústria e do conhecimento,
embora ainda estivesse cega para seus efeitos: poluição do ar e da água, desmatamento, a extinção de
espécies animais e a exploração inconseqüente das reservas de carvão.82 Ressaltou também que caçadores
negros e comerciantes exerciam uma pressão adicional sobre a caça; somente nos Camarões alemão, 452
toneladas de presas de elefantes foram exportadas no período entre 1895 e 1906. Em 1910 cerca de 150 a
duzentas excursões de caça estiveram visitando a África Oriental britânica anualmente, matando cerca de
dez mil animaís.83
A moda da caça começou a decair quase tão repentinamente quanto havia começado, o que se deveu,
em larga escala, ao fluxo permanente de entrada de colonos brancos que reduziu a área dos territórios
públicos de caça. Em 1919 havia duas reservas de caça na África Oriental britânica: a Setentrional (entre o
lago Rudolf, agora Turkana, e o monte Ouênia) e a Meridional (entre Nairobi e a fronteira de Tanganica,
estendendo-se até o distante monte Kilimanjaro). A reserva Setentrional situava-se num semideserto
impraticável para a colonização, enquanto a Meridional havia sido criada quase que arbitrariamente e foi
somente durante as operações militares da Primeira Guerra Mundial que se descobriu que continha terras
apropriadas para colonização. Lorde Cranworth observou que havia pouca probabilidade de que a reserva
fosse mantida inviolada, a menos que os colonos fossem convencidos de que isso não retardaria o
desenvolvimento da colônia: "Onde quer que se escolha a área a ser reservada para os animais de caça, é
seguro que seja um parreiral de Nabote** para alguém e ( ... ) a caça provavelmente alcançará uma fama pior
através dessa suposta usurpação do que se essa terra fosse realmente aberta para colonizaçâo.”84 (Essa
observação presciente poderia ser igualmente bem aplicada aos problemas que surgiriam muito mais tarde,
quando os governos africanos recentemente independentes tentaram equilibrar a necessidade de explorar
recursos naturais e a exigência de proteção da vida selvagem.)
Embora muito reduzida, a caça deveria ficar na moda ainda por várias décadas. Mas a disseminação
da colonização européia trouxe dois problemas mais imediatos em seu rastro. Primeiro, havia uma suspeita
crescente de que animais tais como o cefo e o búfalo transportassem moscas tsé-tsé e outros parasitas que
ameaçavam a criação doméstica. Segundo, os especuladores estavam começando a perceber as
possibilidades comerciais da exploração dos recursos florestais da África Oriental. O governo colonial
britânico, que era a favor da conservação dos recursos florestais, sentiu que seria prematuro vender
concessões até que existisse um esquema praticável de reflorestamento. Entretanto cem mil hectares
estimados de florestas (ou um quarto da área proclamada de florestas) foram

* O equivalente à nossa Vara de Família, que se encarrega dos divórcios. (N. do T.)
** Personagem bíblico (Reis 21:1) cujo parreiral era cobiçado por Acab, rei de Israel. (N. do T.)

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destruídos no período entre 1894 e 1919.85 A causa direta foi o desmatamento e a utilização para plantio por
agricultores camponeses; a causa indireta foram mais provavelmente as políticas administrativas do governo,
que obrigaram os agricultores camponeses a saírem de suas terras agrícolas tradicionais. O Regulamento da
Floresta de 1911 protegia apenas uns oitocentos mil hectares de floresta contra o desmatamento, exceto sob
licença.
O extermínio, pelas autoridades coloniais, de animais selvagens encarados como pestes agrícolas ou
portadores de epidemias para a criação doméstica começou a cobrar pesados tributos depois da Primeira
Guerra Mundial. Por exemplo, um total de 321.518 animais foram mortos em operações antitsé-tsé entre
1924 e 1945, somente na Rodésia meridional.86 A preocupação com as implicações era um dos principais
motivos por trás da convocação, de iniciativa britânica, da Conferência Internacional para a Proteção da
Fauna e da Flora, em Londres, em 1933. A conferência resultou na assinatura de uma convenção sobre a
Preservação da Fauna e Flora em seu Estado Natural, mais· tarde ratificada pela maioria dos poderes
coloniais. Sucedendo a há muito defunta Convenção de 1900, esta foi planejada para restringir as ameaças à
vida selvagem africana através da criação de áreas protegidas, tais como parques nacionais e reservas.
Reuniu preservacionistas, cientistas e governos numa causa comum, tornou seus signatários conscientes dos
problemas das colônias africanas de uns e de outros, e estabeleceu o precedente de organizações não
governamentais desempenhando um papel técnico consultivo em iniciativas desse tipo.87 Chegou até a
incluir apêndices sobre espécies animais raras ameaçadas de extinção. Os signatários, entretanto, não eram
obrigados a cumprir essas regras; não havia fundos para encontros regulares de acompanhamento e nem um
comitê de fiscalização. É possível igualmente que a conferência tenha angariado a antipatia das populações
locais para com o conceito de proteção da vida selvagem, pois os animais estavam sendo protegidos por
razões não práticas e sem consideração para com os direitos tradicionais de caça. Este se tornaria mais tarde
um fator crítico nas tentativas pós-independência de promover a conservação (ver capítulos 5 e 8).
O NEW DEAL E O DUST BOWL*

Em seguida à Primeira Guerra Mundial e ao declínio da influência de Roosevelt, bem como de Muir e
Pinchot, Fox vê o conservacionismo americano perder sua conexão com o liberalismo político e associar-se
ao Partido Republicano de mentalidade empresarial dos anos vinte. Assim, quando Franklin D. Roosevelt
assumiu, em 1933, a presidência de uma nação em profunda crise financeira, herdou um movimento
conservacionista republicano em aliança estreita com os interesses empresariais, casamento que Fox
acreditava encaixar-se perfeitamente aos ideais do New Deal de administração profissional e eficiência.88
Roosevelt, entretanto, voltou ao pinchotismo, e sua administração New Deal o aplicou como a pedra angular
da retomada econômica, notadamente na Autoridade do Vale do Tennessee, o apogeu de uma filosofia de
desenvolvimento multidirecionado. De modo similar, o Civilian Conservation Corps distribuiu
estrategicamente os desempregados em manejo florestal, prevenção da erosão do solo e controle de cheias.
Em outros lugares as atitudes frente à "administração racional", como exemplificado pelo extermínio
de animais vistos como pestes (iniciado por Theodore Roosevelt através de financiamento federal), estavam
mudando. O lobo, a marmota e o coiote eram alvos especiais. Pinchot tinha aparentemente pouco interesse
pela vida dos animais selvagens e

* Dust bowl: Literalmente, tigela de pó. Termo cunhado em 1936 para descrever regiões anteriormente férteis que passaram a
sofrer períodos prolongados e regulares de seca e grande erosão pelo vento no interior dos Estados Unidos. (N. do T.)

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deu pouca atenção às implicações ecológicas da erradicação de espécies que interferiam na produtividade
dos recursos nos quais o homem tinha interesse.89 A oposição ao extermínio de predadores foi dirigida nos
anos do pós-guerra pela American Society of Mammalogists e, em 1936, foi interrompida a matança de
todos os predadores em parques nacionais. Esta visão em evolução está condensada na carreira de Aldo
Leopold.* Leopold, formado na Yale Forestry School, publicou em 1933 o livro Game Management, que se
tornou um texto fundamental para os profissionais da vida selvagem. Nesse livro ele declarou que a
"conservação efetiva requer, além do sentimento público e das leis, a manipulação deliberada e com
propósitos definidos do meio ambiente".90 Entretanto, ele havia começado cedo a se preocupar com a
obsessão do Serviço Florestal pelo manejo florestal, que excluía a administração dos animais selvagens. Ele
foi importante, em 1924, na criação da Gila National Forest como área virgem no Novo México e, em 1935,
ajudou na fundação da Wilderness Society.
A conversão de Leopold ao conservacionismo progressista foi confirmada em seu enorme e influente
Sand County Almanac, publicado postumamente em 1949. Nesse livro ele conclamou à criação de uma nova
ética da terra, baseada na crença de que o homem não era um conquistador da "terra-comunidade", mas um
membro e cidadão dela; uma fragilidade do conservacionismo baseado em noções econômicas era que ele
ignorava os elementos na terra-comunidade que não tinham valor comercial, mas que eram essenciais para o
seu funcionamento saudável.91 Leopold advertiu sobre a inadequação da conservação do solo como
uma questão puramente econômica: "Abusamos da terra porque a vemos como uma mercadoria que
nos pertence. Quando a virmos como um recurso ao qual pertencemos poderemos começar a utilizá-Ia
com amor e respeito.92
Nesse ínterim o movimento pela preservação das áreas virgens experimentou um renascirnento
durante o New Deal. A medida que os Estados Unidos emergiram da Depressão, as visitas aos parques
nacionais elevaram-se de 6,3 milhões em 1934 para 16,2 milhões em 1938. Apesar de seu profundo interesse
por terra, árvores e água para uso humano,93 Roosevelt não ficava pessoalmente impressionado com muitos
parques, mas os achava essenciais ao processo de rejuvenescimento espiritual nacional. Esperava que os
parques pudessem ser tornados mais acessíveis, particularmente para os residentes nos estados
superpovoados do leste. Nisso ele se opunha aos preservacionistas das áreas virgens, que argumentavam que
as estradas que estavam sendo construídas para os parques para torná-Ios mais acessíveis ameaçavam
destruir as áreas virgens. A dissenção continuada entre conservacionistas e preservacionistas chegou a seu
clímax em 1935-1939 com O debate sobre o Kings Canyon, na Sierra Nevada. Muito tempo antes Muir
havia feito campanha para declará-Io parque nacional, mas não obteve sucesso; em 1935 a construção
planejada de uma estrada de acesso e o desenvolvimento comercial que a mesma acarretaria ajudaram a
afastar o Sierra Club do caminho original que havia trilhado. Um esforço concentrado de campanha resultou
na criação do Kings Canyon National Park em 1939.
Os meados dos anos 30 assistiram a um dos maiores desastres ambientais produzidos pela mão do
homem na história: o Dust BowI. Entre 1934 e 1937 mais de duzentas tempestades de poeira regionais
atingiram as Grandes Planícies.94 Algumas eram densas o suficiente para encobrir o sol e criar redemoinhos
de mais de 6 metros de altura; outras empurraram a poeira a lugares tão distantes quanto Chicago,
Washington, D.C., e ao Atlântico. Por volta de 1938 mais da metade das Grandes Planícies - cerca de 1,29
milhão

* Aldo Leopold (1887-1948) nasceu em Iowa e formou-se na Yale Forestry School antes de entrar para o Serviço Florestal
Americano, no Arizona. Por sua influência o Serviço Florestal adotou técnicas mais cuidadosamente consideradas de
administração da caça. Em 1928, depois de quatro anos em Wisconsin, deixou o Serviço Florestal para dirigir uma série de
pesquisas sobre a caça. Em 1933 foi criada para ele uma cadeira de administração da caça na Universidade de Wisconsin, posto
que manteve até a morte.

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de quilômetros quadrados - foi erodida; com dezesseis estados afetados, o país foi obrigado a importar trigo.
A culpa imediata foi atribuída ao vento e à seca de 1931-1934. Mas a verdadeira responsabilidade estava em
mais de meio século de práticas agrícolas irrefletidas: arar a terra com sulcos longos e retos, deixar campos
sem a cobertura da vegetação, opção por monocultura e destruição do relvado nativo que era uma proteção
natural vital contra o vento e a seca.95 O Comitê das Grandes Planícies, em seu relatório de 1936,
enfatizou o efeito de perturbações contra o equilíbrio da natureza, da busca de competição
egoisticamente interessada e não regulamentada e da crença de que a natureza poderia ser moldada
para corresponder à conveniência humana.96 Antes do Dust Bowl, a administração de recursos nos
Estados Unidos não tinha coordenação e estava fundada nas necessidades econômicas imediatas; como
conseqüência direta do Dust Bowl, acredita Worster, o conservacionismo começou a deslocar-se em direção
a uma perspectiva ecológica mais abrangente e coordenada.
Os efeitos do Dust Bowl foram sentidos muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Anderson
argumenta que o alarme criado pelas imagens do Dust Bowl era um dos muitos fatores que se combinaram
para encorajar uma reavaliação das políticas agrárias nas colônias britânicas da África;97 os outros incluíam
os efeitos da Depressão sobre os mercados de exportação para produtos coloniais, o reconhecimento de que
crescimentos rápidos na população de seres humanos e de gado das reservas africanas estavam exercendo
uma séria pressão sobre o solo, e a preocupação com as conseqüências de uma incidência crescente de secas
numa boa parte da África Oriental. Em 1938 a conservação do solo havia-se tornado uma questão
fundamental da política pública na África Oriental, um desenvolvimento que Anderson vê como parte de
uma transição mais ampla no pensamento colonial britânico.

PROTEÇÃO DA NATUREZA: PRIMEIROS PASSOS RUMO A UMA ORGANIZAÇÃO


INTERNACIONAL

Em 1909 os protecionistas europeus se reuniram no Congresso Internacional para Proteção da Natureza, em


Paris. Passando em revista os progressos (ou a falta deles) da proteção da natureza na Europa, propuseram a
criação de um organismo internacional de proteção da natureza.98 A idéia foi assumida por Paul Sarasin
(fundador, em 1914, do Parque Nacional Suíço). Com a bênção do Conselho Federal Suíço ele contatou os
governos da Áustria, Argentina, Bélgica, Grã-Bretanha, Dinamarca, França, Alemanha, Hungria, Itália,
Japão, Holanda, Noruega, Portugal, Romênia, Rússia, Espanha, Suécia e Estados Unidos. Todos, exceto o
Japão e a Romênia, aceitaram em princípio. Em 1913 um Ato de Fundação de uma Comissão Consultiva
para a Proteção Internacional da Natureza foi assinado em Berna por 17 países europeus. A comissão deveria
coletar, classificar e publicar informações sobre a proteção internacional da natureza e fazer propaganda em
defesa da causa. O primeiro passo era realizar uma conferência para falar de questões tais como a pesca da
baleia, o comércio internacional de peles e de plumagens e a proteção dos pássaros migratórios. Mas a
eclosão da guerra tanto impossibilitou a conferência quanto efetivamente enterrou a comissão de 1913. O
único progresso realizado nos anos de guerra foi a assinatura, entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha (em
nome do Canadá), em 1916, de um acordo sobre pássaros migratórios.
As tentativas do pós-guerra de reviver a comissão tiveram pouco sucesso. Estava claro que a idéia de
um organismo internacional não era muito mais do que uma fantasia de uns poucos entusiastas
comprometidos, dentre os quais o mais incansável era o preservacionista holandês P.G. van Tienhoven. Em
1925 van Tienhoven fundou o Comitê Holandês para

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a Proteção Internacional da Natureza, como uma base a partir da qual poderia promover seu sonho da criação
de um organismo internacional que assumisse o papel da comissão de 1913. A fundação de organismos de
proteção da natureza na Bélgica e na França entre 1925 e 1926 parecia ser um bom presságio, mas não
houve apoio da Grã-Bretanha.*/99 Em 1928 van Tienhoven criou - e recebeu apoio para tanto - um
escritório de coordenação internacional com subsídio holandês, o qual foi reconstituído em 1934 como
L'Office International pour Ia Protection de Ia Nature (OIPN) e se encarregou da promoção da proteção
internacional da natureza. Seu trabalho foi inconclusivo e, assim como o da comissão de 1913, estava fadado
ao fracasso. Era uma trabalho prematuro; tanto o organismo de 1913 quanto o de 1934 careciam de uma
autoridade internacional junto à qual pudessem fazer lobby,100 e de organismos nacionais maduros que
fossem capazes de formar as bases de uma rede internacional sólida.
Todo progresso que possa ter se realizado na cooperação internacional durante os anos do
entreguerras coube aos ornitólogos. O International Committee for Bird Protection (mais tarde International
Council for Bird Preservation, ICBP) foi fundado num encontro realizado em Londres, em junho de 1922.
Seu grande animador era Gilbert Pearson, presidente da Associação Audubon de 1910 a 1934, que esperava
que o ICBP pudesse estreitar relações com os grupos de proteção americanos e europeus. O comitê tinha
objetivos menos ambiciosos do que a comissão de 1913, buscando "coordenação transnacional ao invés de
integração internacional”.101 A chave para o sucesso do ICBP reside na autonomia que deu a seus comitês
nacionais. A instituição teve uma ponderável influência formadora sobre o movimento protecionista
internacional, chamando atenção para o esgotamento de certas espécies, para as ameaças enfrentadas pelas
espécies migratórias e para o comércio internacional de plumagens.102 A necessidade de implementar ação
e legislação internacionais estava na pauta de outros agrupamentos de ornitólogos durante os anos 20 e 30,
notadamente a Conferência sobre a Proteção de Aves Aquáticas Migratórias, realizada em 1927.
Enquanto a Europa tinha sua atenção desviada durante o final dos anos 30 pela ameaça crescente do
nazismo, os americanos chegaram a dois notáveis acordos ambientais internacionais próprios. O primeiro foi
o Tratado sobre os Pássaros Migratórios de 1937, assinado com o México e o Canadá. O segundo, a
Convenção sobre a Proteção da Natureza e a Preservação da Vida Selvagem no Hemisfério Ocidental (a
Convenção do Hemisfério Ocidental), foi aberto em 1940 à assinatura de todos os países americanos. Vida
selvagem, paisagem, formações geológicas, áreas virgens e regiões e objetos de valor histórico ou científico
estavam todos incluídos. Os governos signatários se comprometeram a criar novos parques nacionais,
consolidar os parques já existentes, manter reservas de áreas virgens, elaborar legislações, encorajar
intercâmbio de pesquisa entre si, proteger pássaros migratórios, controlar o comércio de animais
selvagens e oferecer condições de proteção específica às espécies listadas num anexo. Tudo isso era muito
impressionante, mas ao final da guerra somente oito estados haviam assinado e a convenção, Carecendo de
administração adequada, caiu num quase esquecimento até 1976, quando a Organização

* O Comitê Correlativo Central para a Proteção da Natureza foi criado na Grã-Bretanha em janeiro de 1924, especificamente para
atuar como órgão de coleta, classificação e distribuição de informações, como organismo de coordenação e para facilitar os
contatos internacionais. Representantes dos dez órgãos que o constituíam deveriam se encontrar anualmente para discutir
problemas nacionais e internacionais, e políticas de atuação, o que fizeram por três anos, discutindo, dentre outras coisas, os
problemas enfrentados por baleias e pelas espécies migratórias. Para evitar a impressão de que era um órgão internacional, seu
nome foi mudado para Comitê Correlativo Britânico. Por volta de 1926 não havia mais motivo para manter a realização dos
encontros anuais pois existia o sentimento de que não havia nada para discutir; seus membros faziam cada vez menos uso do
comitê como um fórum, e o órgão foi dispersado em 1936.

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dos Estados Americanos lançou uma campanha para redinamizá-Ia. A essa altura, contudo, a convenção
tinha pouco valor prático.103
A SPWFE, o IOPN e o ICBP, as duas convenções africanas e a convenção do hemisfério ocidental
representaram as sementes de um interesse pela cooperação internacional e a aceitação (ainda que somente
por uma minoria) do fato de que os movimentos de conservação e preservação tinham, em última análise,
interesses que transcendiam as fronteiras nacionais. Mas uma outra guerra mundial deveria acontecer antes
que o clima se tornasse propício para que as esperanças de poucos se convertessem nas ações de muitos.

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EM BRANCO
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DOIS
Proteção, Conservação e as Nações Unidas (1945-1961)

A Segunda Guerra Mundial transformou valores e atitudes no sentido do internacionalismo, o que, por sua
vez, alterou radicalmente a agenda do ambientalismo. Mesmo antes de a guerra haver terminado, já estavam
sendo traçados planos para promover a reconstrução e a assistência econômica, particularmente através das
novas Nações Unidas e seus órgãos especializados. Nesse clima receptivo, o período entre 1943 e 1946
assistiu à ressurreição de duas iniciativas ambientais datadas de antes da Primeira Guerra Mundial: a
realização de uma conferência internacional sobre a conservação de recursos naturais e o estabelecimento de
uma organização internacional para a proteção da natureza. Mais uma vez, contudo, os conservacionistas e
protecionistas seguiram caminhos distintos, e mais uma década se passaria antes que eles começassem a
concordar uns com os outros.
Desde que Taft cancelou a conferência internacional proposta por Theodore Roosevelt em 1909,
Gifford Pinchot vinha tentando periodicamente reviver a idéia. Abordou Wilson, Harding, Coolidge e
Hoover, um após o outro, sem sucesso. Em seguida, sua amizade com Franklin D. Roosevelt mais uma vez
lhe proporcionou influência na Casa Branca. Num discurso para o Oitavo Congresso Científico Americano,
em maio de 1940, Pinchot argumentou que o "acesso justo" de toda nação aos recursos naturais era "uma
condição indispensável para a paz permanente".1 Ele sentia que a paz só poderia ser atingida pela eliminação
dos incentivos à guerra, dentre os quais um dos mais comuns era a demanda por terra e recursos naturais. Em
junho de 1944 ele fmalmente levantou a questão com Roosevelt, que reagiu favoravelmente. "Fico surpreso
que o mundo saiba tão pouco sobre si mesmo", escreveria Roosevelt mais tarde a seu secretário de estado,
CordelI Hull. "A conservação é uma base para a paz permanente."2
O Departamento de Estado não chegou a ficar entusiasmado. Argumentou que o novo Conselho
Econômico e Social da ONU (ECOSOC) e a planejada Organização para Alimentação e Agricultura (FAO)
pretendiam tornar a conservação parte do planejamento de política econômica do pós-guerra, e expressou
dúvida quanto à possibilidade de ser atingido um consenso internacional significativo sobre conservação sem
considerar o desenvolvimento e comercialização ordenados dos recursos naturais. A conservação,
argumentava, era apenas uma parte, ainda que importante, do problema global de colaboração internacional
no uso mais sábio dos recursos produtivos do mundo. A conservação, naquilo que se relacionava à
agricultura, piscicultura e manejo de florestas, seria avaliada pela FAO; o Acordo Anglo-Americano do
Petróleo, então já submetido ao Congresso, incluía o objetivo básico de um desenvolvimento "ordenado" dos
recursos petrolíferos do

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mundo; e a conservação já havia sido levantada nas discussões sobre matérias-primas internacionais.3
Roosevelt rejeitou esses argumentos dizendo que os mesmos não haviam conseguido captar a necessidade
real de conhecer mais sobre os recursos mundiais. Em janeiro de 1945 declarou a Pinchot que abordaria a
idéia da conferência como uma das bases para a paz permanente, com Stálin e Churchill em Yalta, naquele
mesmo mês.4
Não há evidências de que de fato tenha levantado a questão em Yalta, porém, e embora os planos de
Pinchot para a conferência estivessem esperando por Roosevelt quando de sua volta; o presidente parece ter
sido influenciado pela visão do Departamento de Estado. Ele esboçou um memorando para Pinchot em
março, sugerindo que, dados os elementos de conservação que estavam sendo introduzidos nos programas da
FAO, do ECOSOC e do Banco Mundial, a conferência fosse adiada. "Nós não desejaríamos ter uma organi-
zação internacional separada para recomendar planos e projetos com respeito à conservação, exceto se
subordinada e relacionada ao [ECOSOC]", escreveu.5 O memorando nunca foi enviado, todavia, e Pinchot
então apresentou a Roosevelt um plano inicial detalhado para a conferência. Esta poderia considerar o
estabelecimento de uma organização internacional para promover a conservação de recursos naturais, justo
acesso a matérias primas necessárias para todos os países, intercâmbio de informações e o levantamento de
um inventário de recursos naturais e de um conjunto de princípios para sua conservação. Pinchot assinalou
que Lewis Lorwin, um membro de primeiro escalão da Administração Econômica Exterior americana, havia
sugerido que as propostas de Dumbarton Oaks, que delineavam os propósitos da ONU, poderiam incluir o
incentivo à cooperação internacional na conservação de recursos naturais e humanos.6 Pinchot também
deixou estabelecido com o presidente da Comissão Interina sobre Alimentação e Agricultura da ONU que
não haveria qualquer espécie de conflito entre a conferência mundial e os planos da FAO. Os membros do
governo com quem Pinchot havia falado, segundo alegava, haviam todos dado seu apoio; somente o
Departamento de Estado se opunha.
Com a morte de Roosevelt em abril de 1945 o interesse direto da Casa Branca na questão chegou ao
fim. Numa carta subseqüente ao Departamento de Estado, WiIliam Clayton, o secretário de Estado assistente
para questões econômicas, assinalava que o esboço de plano de Pinchot de março "confirma nossas suspeitas
iniciais. A agenda sugerida [e as recomendações e conclusões] ( ... ) todas indicam uma pauta de discussão
que coincidiria quase que a cada passo" com as funções da FAO, do ECOSOC e de uma proposta
Conferência Mundial de Comércio. Clayton achava desnecessário convocar uma conferência para reunir
informações, o que poderia ser feito melhor por técnicos que se comunicariam uns com os outros através dos
"canais normais", e que não era provável que os países chegassem a concordar quanto a uma ação
cooperativa de conservação até que os problemas maiores de acordos de comércio e mercadorias tivessem
sido resolvidos.7 Pinchot foi aconselhado a entrar em contato com Truman, Averell Harriman e Clayton. Em
maio ele falou com Truman e em dezembro deu a este último um novo conjunto de planos para a
conferência.8 Mas a iniciativa estava agora fora das mãos de Pinchot e sua autobiografia foi o que lhe restou
como ocupação à qual dedicar seus últimos meses. Ele morreu em outubro de 1946, aos 81 anos.
Ironicamente, as Nações Unidas já haviam começado a pensar numa conferência internacional sobre
a conservação e o uso de recursos, a ser baseada na "necessidade de desenvolvimento contínuo e aplicação
generalizada das técnicas de utilização e conservação de recursos".9 Em setembro de 1946, o representante
americano nas Nações Unidas escreveu ao presidente em exercício do ECOSOC, em nome dos Estados
Unidos, propondo que ali fosse realizada uma conferência para "consideração da conservação e utilização
eficiente dos recursos naturais" .10 O motivo básico era a necessidade de examinar a conservação à luz das
exigências da época da guerra sobre os recursos naturais e sua importância para a reconstrução do pós-
guerra. A despeito das reservas anteriores do Departamento de Estado dos EUA quanto à duplicação, por
parte da conferência, das atividades do ECOSOC na área, este mostrou-se receptivo e adotou uma resolução

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reconhecendo a necessidade de desenvolvimento e aplicação de técnicas de desenvolvimento e conservação


de recursos. Convocava uma conferência a ser "devotada unicamente ao intercâmbio de idéias e experiências
sobre esses assuntos, entre engenheiros, técnicos de recursos, economistas e outros especialistas em áreas
correlatas" (o destaque é meu).11 A conferência - United Nations Scientific Conference on the Conservation
and Utilization of Resources (UNSCCUR) - foi marcada para o verão de 1949. Tanto na forma quanto no
conteúdo, era completamente diversa da conferência natimorta de Pinchot.

SEGURANÇA DE ALIMENTOS, AS NAÇÕES UNIDAS E OS NEO-MALTHUSIANOS

O fornecimento de alimentos e a eliminação da fome estavam entre as prioridades imediatas da agenda de


reabilitação econômica e social da ONU. Em outubro de 1942, Frank McDougall, consultor do representante
australiano na Liga das Nações e há muito envolvido nas atividades da Liga relativas à nutrição, havia
delineado, num memorando que circulou pelos governos, uma proposta para uma campanha da ONU pela
libertação da penúria de não ter alimentos. Submeteu essa sugestão a Roosevelt, que, com pouca
antecedência, anunciou em fevereiro de 1943 que a conferência seria realizada naquela primavera para
investigar os problemas alimentares de longo prazo. Durante a conferência a discussão (realizada em Hot
Springs, Virgínia, em maio de 1943) foi centrada na oferta e procura de alimentos, produção aumentada para
atender às necessidades de consumo e melhor distribuição. Havia menção passageira ao valor da
administração do solo: a já proposta nova Organização para Alimentação e Agricultura, assinalava o
relatório da conferência, seria "dedicada a implementar o bom uso e a boa administração, sob todas as
formas e por todas as pessoas, desse mais básico dos recursos do homem".12
A FAO foi fundada numa conferência em Quebec em outubro de 1945, e sir lobo Boyd Orr foi eleito
o primeiro diretor-geral.* A nova organização "nasceu da idéia de libertação em relação à penúria";13 a
prioridade primeira de Orr era fazer frente a uma crise mundial de alimentos, que, segundo as previsões da
época, chegaria a se estender por boa parte de 1947, e depois lidar com a oferta de alimentos de longo prazo.
Ele propôs um Conselho Mundial de Alimentos que compraria, estocaria e venderia mercadorias agrícolas
importantes que fizessem parte do comércio mundial, desse modo controlando preços e abastecimento. O
Conselho seria intimamente relacionado ao ECOSOC e ao Banco Internacional para Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD, o Banco Mundial, criado em 1944). Acumularia reservas de alimentos de vulto
suficiente para fazer frente a emergências de fomes coletivas. Essá proposta foi, todavia, rejeitada no final de
1947, constituindo uma derrota que influenciaria a decisão de Orr de renunciara seu posto no ano seguinte.
A FAO enfatizava o desenvolvimento e a exploração de recursos naturais em apoio a suas metas de
curto e longo prazo, a saber, fazer frente aos problemas de nutrição mundiais e melhorar a condição das
populações rurais através do aprimoramento da eficiência na produção e distribuição de produtos agrícolas e
alimentares, mas também reconhecia a importância da conservação. Um meio de atingir suas metas,
conforme definido no Artigo I de sua constituição, era "a conservação dos recursos naturais e a adoção de
métodos aperfeiçoados de produção agrícola" .14 Aliada ao problema dos alimentos, havia aquestão da
restauração da indústria madeireira, um fim em função do qual a FAO promoveu a

* Sir John Boyd Orr (1880-1971), médico nascido na Escócia, especializou-se em nutrição depois de ver o sofrimento dos
habitantes dos bairros pobres de Glasgow. Foi atuante nas atividades da Liga das Nações, relacionadas à nutrição. Ele renunciou
ao cargo na FAO em 1948 e, em 1949, em reconhecimento por seu trabalho naquele órgão, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e foi
elevado à dignidade de par do reino, tomando-se lorde Boyd Orr.

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proteção e extensão da cobertura florestal para conter a erosão do solo, proteger os divisores de águas,
controlar as cheias, agir como anteparos contra o vento e abrigar a vida selvagem. Por exemplo, organizou
cursos e workshops sobre manejo de florestas, estudou as tendências das matas e realizou conferências em
1947, 1948, 1949 e 1952 para discutir, respectivamente, o abastecimento de madeiras na Europa, América
Latina, Ásia e Pacífico, e também Oriente Médio, assim como planos de longo prazo para a reabilitação de
florestas e o uso de produtos florestais. A assistência técnica a países menos desenvolvidos era um dos
destaques da agenda da FAO.
Em 1951, a FAO realizou uma conferência no Ceilão sobre o uso do solo na Ásia e no Extremo
Oriente. O povoamento estava no cerne do debate, e o cultivo em rodízio foi apontado como responsável
pela redução da fertilidade do solo, destruição da vegetação, inundações, erosão do solo, assoreamento de
rios e redução da oferta de água. Foram definidos dois pontos críticos na conferência:

1. A pesquisa sobre os solos tropicais era urgentemente necessária; vinha existindo uma tendência
excessivamente forte para aplicar, nos trópicos, os resultados de pesquisas e experiências das zonas
temperadas, resultando no fracasso dos programas de desenvolvimento agrícola. Um exemplo de tal
fracasso foi a tentativa, feita em 1947-1948, de desenvolver um esquema de cultivo de tubérculos
comestíveis em Tanganica. A falta de um planejamento preliminar e uma incapacidade de planejar o
esquema de acordo com as condições climáticas locais levaram ao seu abandono em 1950.15

2. Era preciso dar maior atenção às necessidades dos camponeses agricultores; poderia ser necessária
uma reforma agrária para criar pequenas fazendas eficientes. Um projeto de pesquisa foi lançado em
1949 para examinar os recursos florestais latino-americanos e as melhores maneiras de administrá-
los e explorá-Ios.

Em seu discurso presidencial na reunião anual da British Association for the Advancement of Science em
setembro de 1949, sir John RusseIl falou sobre o papel essencial da ciência na alimentação das populações
em crescimento. Advertindo quanto às raízes políticas e sociais da erosão do solo, e aludindo aos programas
antierosão do solo então em curso nos Estados Unidos, na URSS, na África do Sul e em colônias africanas,
concluiu que a ecologia estava sendo cada vez mais usada para ajudar na produção de safras: "A idéia antiga
de que a ciência permitiria ao agricultor ir a qualquer parte e produzir qualquer coisa deu lugar ao princípio
mais realista de que cada hectare de terra deve, tanto quanto possível, ser usado do modo ao qual melhor se
adapte. As extensões de área cultivada, o tratamento da terra erodida e o aprimoramento das pastagens
naturais já são vistos como problemas ecológicos, mas o alcance é muito mais amplo e as possibilidades
grandes.''16 Tomou-se claro para diversos economistas e conservacionistas que o mau gerenciamento
dos recursos e o crescimento populacional eram obstáculos para a solução da crise de alimentos. Orr
escreveu em 1953 sobre "o patrimônio desperdiçado" de terras férteis, causado pela erosão do solo, a qual,
por sua vez, era causada pela derrubada das árvores (sobretudo em terras de encosta) e pelo excesso de
pastagem e cultivo. "A presente carência mundial de alimentos", observou, "fez surgir de novo o espectro de
Malthus”.17
Desde Malthus muitos outros haviam arriscado opiniões, alguns apenas poucos anos antes de Orr.
Em 1936 o economista liberal Stuart Chase havia escrito alarmadamente sobre a exaustão dos recursos
naturais.18 Em 1937, no auge do Dust Bowl, Paul Sears abordara os perigos dos desertos em expansão em
seu livro Deserts on the March.19 Em 1939, Hugh Bennetf 20, do Serviço de Conservação do Solo dos
Estados Unidos, e R.O. Whyte e G. V. Jacks21 haviam advertido quanto aos males da erosão do solo e à
necessidade da conservação. Em 1945 Frank Pearson e Floyd Harper haviam escrito sobre a relação entre
fome, povoamento e terra em seu livro The World's Hunger.22 As preocupações

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quanto à relação entre o crescimento populacional e a exaustão de recursos foram então revividas em dois
influentes livros publicados nos Estados Unidos em 1948: Our Plundered Planet, de Fairfield Osborn, e
Road to Survival, de William Vogt.
Osborn (1887-1969) havia sido presidente da New York Zoological Society desde 1940 (e de 1948 a
1962 foi presidente da Conservation Foundation). Impelido em parte pela lembrança do Dust Bowl, e em
parte pela escassez de comida e madeira no período de guerra, e citando numerosos exemplos da história que
demonstravam o uso errôneo da terra pelos humanos, argumentava que a história das florestas, das
campinas, da vida selvagem e dos recursos hídricos nos Estados Unidos no século anterior havia sido "a
mais violenta e mais destrutiva de todas as escritas na longa história da civilização". Lamentava o fato de
que poucas pessoas tinham consciência dos processos de destruição crescente que estavam sendo inflingidos
aos recursos naturais: "A ação do governo, em última análise, baseia-se principalmente ... no ponto de vista
das pessoas. O fato de que mais de 55% da população dos EUA vive em cidades e vilas resulta
inevitavelmente num distanciamento da terra e numa apatia quanto ao modo de tratar os recursos para a
vida." Alegava que a discórdia internacional poderia ser explicada a partir da diminuição das terras
produtivas e do aumento das pressões populacionais, e advertia: "A maré da população da terra está subindo
e as reservas de recursos para a vida da terra estão decrescendo. ( ... ) Só existe uma solução. O homem
precisa reconhecer a necessidade de cooperar com a natureza.23
Em The Limits of the Earth (publicado em 1953), Osborn argumentava: "Enquanto os recursos se
mostraram adequados não apenas para atender as necessidades básicas dos povos, mas também para
sustentar suas economias, as nações e culturas floresceram. Os chamados 'períodos grandiosos' da história
estão intimamente identificados com esta relação favorável. Na falta dela, impérios que eram aparentemente
indestrutíveis se desintegraram”.24 Como Marsh antes dele, Osborn traçou as ligações entre destruição
ambiental e decadência social na Grécia e em Roma. Perguntava agora como a terra poderia continuar a
atender as necessidades de sua população em crescimento rápido.
Vogt (1902-1968) foi ainda mais alarmista. Suas experiências do período de guerra no Peru e no
Chile, com sua pobreza e suas famílias numerosas, e a resistência da Igreja Católica ao controle da
natalidade transformaram-no num neo-malthusiano.25 De 1943 a 1948 Vogt foi chefe da Seção de
Conservação da União Pan-Americana. Road to Survival, que se antecipava aos profetas do apocalipse dos
anos 60, tornou-se um best-seller. Nele, Vogt argumentava que os Estados Unidos eram superpovoados,
auto-indulgentes, perdulários (quanto ao solo arável, madeira, água, carvão e gasolina em particular) e
estavam condenados à extinção. "Os métodos da livre concorrência e a aplicação da motivação do lucro têm
sido desastrosos para a terra. ( ... ) A terra é administrada com base nas chamadas leis econômicas e com
um descaso bastante geral em relação às leis físicas e biológicas às quais ela está sujeita. O homem
pressupõe que o que tem sido bom para a indústria deve ser necessariamente bom para a terra. Isso pode
revelar-se um dos mais dispendiosos erros da hístória."26 Ao examinar os efeitos de um desequilíbrio entre
as exigências humanas e a capacidade da terra para atendê-ias em cinco continentes, Vogt concluiu que o
homem havia "se colocado numa posição insustentável através de uma violação abrangente e prolongada de
certas leis naturais: para se restabelecer, ele precisa somente adequar seu comportamento em conformidade
com as limitações naturais". Vogt afirmava que todos eram responsáveis, e que os governos provavelmente
não agiriam sem que as pessoas tomassem a iniciativa. As pessoas tinham que avaliar as relações complexas
entre o homem e os recursos que tornavam impossível isolar o destino de uma nação do da outra e
compreender sua dependência dos recursos. Era também essencial que as pessoas fossem conscientizadas do
dilema.27 Entre os que foram influenciados pela avaliação de Vogt incluía-se Paul Ehrlich, então estudante e
mais tarde um professor de biologia na Universidade de Stanford (ver capítulo 4).

48

As advertências de Osborn e Vogt foram lidas por um público amplo, mas seu impacto foi amortecido pelo
fato de que vinham justamente quando. os Estados Unidos atingiam o fim de duas décadas de austeridade
forçada e adentravam uma década de prosperidade e consumo sem paralelos. O clima favorável produziu
repetidas safras abundantes, as rendas aumentaram e tanto os gastos em bens de consumo quanto a demanda
de energia cresceram. Meio século antes, a conservação americana estava aliada ao progressismo, o qual, por
sua vez, era produto de uma era de prosperidade. Mas agora a prosperidade produzia uma reação muito
diferente; nesse clima as previsões de apocalipse pareciam prematuras e falar em escassez de recursos soava
irrelevante. Não obstante, em 1952, uma comissão do governo presidida por William Paley, da CBS,
concordou com a alegação de Vogt de que os recursos dos Estados Unidos estavam se esgotando. Reuniões
entre Osborn, Horace Albright e outros resultaram na fundação, no mesmo ano, do Resources for the Future
(RFF), criado com uma generosa dotação da Fundação Ford, que encarregava o RFF da tarefa de arquitetar
um plano racional para o consumo dos recursos. Mas a presença, no Conselho de Mantenedores do RFF, de
representantes das câmaras de comércio e associações comerciais influenciou a perspectiva do RFF sobre
conservação; em 1963 o RFF publicou um relatório que na realidade refutava as conclusões de Paley.28

PROTEÇÃO DA NATUREZA: A UNESCO E A CRIAÇÃO DE UMA ORGANIZAÇÃO


INTERNACIONAL

As tentativas do pós-guerra para criar uma organização internacional de proteção da natureza foram
inicialmente entravadas por uma curiosa dissençãozinha entre os protecionistas britânicos e americanos, de
um lado, e os suíços, belgas e holandeses, de outro. Estes últimos eram particularmente interessados em que
se criasse uma organização independente do novo sistema das Nações Unidas; os primeiros pensavam que
isso não era de bom alvitre. Os europeus continentais prevaleceram, negando desse modo aos ambientalistas
uma inserção efetiva nas atividades da ONU por quase trinta anos.
Como parte de um estudo da viabilidade do estabelecimento de parques nacionais na Grã-Bretanha,
foi criado um Comitê de Parques Nacionais e estabelecido o Wild Life Conservation Special Committee
(WLCSC), sob a presidência de Julian Huxley.* Huxley concluiu que o WLCSC poderia estudar
proficuamente o Parque Nacional Suíço, fundado 32 anos antes. Sua administração tinha muitos anos de
experiência do tipo que poderia se revelar útil para o WLCSC nas suas deliberações. Uma equipe de seis
cientistas e administradores, inclusive Max Nicholson,** foi assim enviada à Suíça em junho de 1946 para
se encontrar com o comitê científico que supervisionava o parque e discutir a administração dos parques
nacionais.
A equipe ficou surpresa e mais do que um pouco desalentada ao descobrir, quando da sua chegada,
que os suíços haviam realizado um encontro reunindo seus colegas da Bélgica, França, Noruega, Países
Baixos e Tchecoslováquia, países onde uma reativação da rede de conservação anterior à guerra já havia sido
informalmente discutida. O

* Sir Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi biólogo e escritor. Lecionou em Oxford (1910·1925) e no King's College de Londres
(1925-1935) para depois tomar-se secretário da Zoological Society of London (1935- 1942). Em 1946 trabalhou no Comitê dos
Parques Nacionais e tomou-se o primeiro diretor-geral da UNESCO (1946-1948). Recebeu o título de cavaleiro em 1958.
** Edward Max Nicholson (nascido em 1904), omitólogo e ex-funcionário público, teve enorme influência na evolução do
ambientalismo britânico e internacional, embora a mesma venha sendo, constantemente subestimada na literatura. Co-fundador do
British Trust for Ornithologye do Council for Nature, participou também na criação da IUCN e do World Wildlife Fund, foi o
segundo diretor-geral da Nature Conservancy (1952-1966) e esteve intimamente envolvido no debate meio
ambiente/desenvolvimento dos anos 70 (ver capítulo 8).·
49

International Office for the Protection of Nature (IOPN), que havia se mudado de Bruxelas para Amsterdam
em 1940, mantivera apenas um funcionamento de rotina até 1947, quando, numa tentativa de reviver o
interesse, elaborou um relatório sobre as atividades internacionais de proteção da vida selvagem durante a
guerra. O dr. Charles Bernard, presidente da Liga Suíça para a Proteção da Natureza, decidiu nesse momento
submeter a questão a um escrutínio mais amplo. O propósito do encontro dos suíços era discutir,
"informalmente e sem compromissos", o futuro da proteção internacional à natureza.29 Bernard havia,
porém, perseguido sua meta de reviver o IOPN com tamanha energia que foi acusado de planejar trazer o
IOPN ou seu sucessor para a Suíça. Nicholson acredita que os suíços encaravam esta reunião de 1946 como
uma oportunidade de passar a perna nos holandeses e belgas, que haviam mantido o IOPN antes da guerra.30
Bernard assegurou aos participantes da reunião que não seria possível tomar decisões: "Nosso
objetivo é permitir que cada um de nós expresse suas idéias sobre o assunto. Nossas conversações serão
informais, uma vez que nenhum de nós veio na condição de representante oficial. Além disso, não há um
número suficiente de nações aqui representadas.”31 A delegação britânica insistiu para que não fossem
feitos registros em ata nem firmados compromissos. Isso acordado, as discussões giraram em torno da
utilidade de um órgão intergovernamental oficial, e foi proposto que a Liga Suíça pedisse ao governo suíço o
restabelecimento da comissão de 1913. Van Tienhoven sugeriu que se entrasse em contato com a UNESCO
para obter assistência, mas foi voto vencido. Numa reunião final em 6 de julho, chegou-se a duas conclusões
provisórias: que era "desejável" que existisse uma organização internacional ativa ("adequadamente
financiada e com termos de referência convenientes") para facilitar a cooperação entre os organismos
nacionais, e que os organismos nacionais poderiam perfeitamente considerar isso.32 A delegação britânica
retornou convencida de que era muito cedo para se estar falando em iniciativas internacionais no campo da
proteção da natureza.33 Enquanto a Suíça havia permanecido neutra, o resto do mundo estivera lutando
numa guerra devastadora, argumentavam, e não apenas a reconstrução extensiva era uma prioridade
imperiosa, como poucos países possuíam seja os recursos, seja os órgãos nacionais necessários para criar
uma rede internacional viável.
Enquanto seus colegas na Grã-Bretanha voltavam-se então para a questão de um organismo nacional
(a Conservadoria da Natureza foi criada em 1949), Julian Huxley fazia valer sua influência como novo
diretor-geral da UNESCO. Sempre um naturalista cioso, estava convencido da relevância e urgência da
proteção da natureza. Nas suas memórias34 descreveria a IUPN como "a organização para a conservação da
natureza que fundei e desenvolvi enquanto estava na UNESCO", uma pretensão exagerada, mas que não
deve diminuir a importância de seu papel. A UNESCO havia sido fundada em novembro de 1946 para
promover a cooperação internacional na educação, ciência e cultura. Sua agenda para 1947 centrava-se em
medidas para cooperar na reconstrução do pós-guerra, especialmente no campo da educação; seu único
envolvimento oficial com as ciências naturais estava na promoção da educação e do intercâmbio científico.
Seu Departamento de Ciências Naturais (um dos sete departamentos da UNESCO) recebeu 12% do
orçamento da UNESCO para 1948, mas empregava menos de 6% de sua força de trabalho.35 Dentro do
departamento, a conservação de recursos naturais era um elemento menor, embora tenha sido lançado um
projeto em abril de 1947 para examinar as "necessidades e possibilidades" da floresta amazônica,
essencialmente voltado para a pesquisa e divulgação de dados científicos e informações sobre a área.36 A
palavra "conservação" aparecia na constituição da UNESCO apenas em relação a livros, obras de arte e
"monumentos" históricos e científicos.
Como um organismo novo, a UNESCO foi obrigada a buscar aconselhamento em questões técnicas
com os órgãos internacionais não-governamentais existentes, um dos

50

quais foi o lnternational Council of Scientific Unions (ICSU). Por sugestão do bioquírnico de Cambridge
Joseph Needham, o ICSU vinculou-se à UNESCO em Paris. A UNESCO também se havia concedido
poderes para ajudar a criar novas organizações internacionais não-governamentais se necessário. HuxIey
começou por submeter uma proposta à Conferência Geral, em Cidade do México em 1947, para que a
UNESCO incluísse a proteção da natureza em sua súmula. Acabou por conseguir persuadir a conferência de
que "a fruição da natureza era parte da cultura, e que a preservação de plantas e animais raros era um dever
científico".37 Tinha sido graças a HuxIey e Needham que a ciência chegara ao menos a ser incluída na
súmula da UNESCO; não fosse por HuxIey, observa Nicholson, "a ciência teria sido formalmente eliminada
ou nunca teria aparecido como um fator importante na UNESCO".38 Foi apenas o interesse pessoal de
HuxIey que conseguiu, naquele momento, levantar alguma discussão sobre o assunto da proteção da
natureza dentro da UNESCO. Uma outra contribuição veio da Sociedade Zoológica de Nova York, a qual
estava promovendo a idéia de uma fundação internacional com uma súmula para implementar a conservação
da vida animal, das florestas e de outras formas de flora, recursos hídricos e solos.
O novo organismo internacional de proteção da natureza proposto pelos europeus foi, enquanto isso,
discutido em maior profundidade num segundo encontro patrocinado pelos suíços e realizado entre 28 de
junho e 3 de julho de 1947 em Brunnen. Mais bem organizado do que o encontro informal em Basiléia no
ano anterior, este contou com o comparecimento de setenta delegados, representando vinte e quatro países
(todos europeus, exceto a Argentina, Austrália, Guatemala, as Índias Orientais Holandesas, a Nova Zelândia
e os Estados Unidos); quatorze governos haviam dado a seus representantes poderes para falar em seu nome,
deixando a Grã-Bretanha, a Bélgica e a Suíça como os únicos países europeus ocidentais sem representação
governamental. Mais uma vez ficou claro que não poderiam ser tomadas quaisquer decisões finais; a tarefa
era, "como prioridade primeira e maior, estabelecer a base de uma organização que seria definitivamente
criada num futuro próximo".39 Apesar da melhor organização, a conferência foi confusa quanto às suas
intenções. Alguns delegados viram nela meramente uma oportunidade para mais discussões preparatórias,
enquanto outros pressionaram no sentido da fundação imediata de um organismo internacional. Alguns
delegados eram favoráveis a uma ação rápida, alegando que não seria "prático deixar a iniciativa para a
UNESCO [porque] a UNESCO (...) não possuía, mais do que a ONU, o conhecimento especializado exigido
para colocar tal organização de pé".40
Havia claramente alguma preocupação em não perder a iniciativa para as Nações Unidas e em
preservar a independência do IOPN. A delegação britânica, porém, divergiu e propôs que se pedisse a
UNESCO que realizasse um congresso, preferivelmente em Paris, em 1948, para considerar a forma que
teria um organismo internacional de proteção da natureza, usando os termos da comissão de 1913 como a
base para um novo acordo. Havia alguma confusão quanto ao possível papel da UNESCO. O mais
esperançoso dos delegados em Brunnen encontrava dificuldades para ignorar o apoio pessoal de HuxIey, já
então bastante conhecido, à proteção da natureza. HuxIey e Needham haviam, porém, declarado à Liga Suíça
que a UNESCO não tinha nenhuma intenção de realizar qualquer ação específica no campo da proteção da
natureza, e nenhuma evidência de apoio concreto da UNESCO era visível. Um delegado francês, o professor
Bresson, que estivera intimamente envolvido na fundação do IOPN em 1926, resumiu a questão: "Sem ajuda
governamental, acho que não podemos fazer nada quanto ao problema de uma organização internacional."41
Os americanos apoiavam a visão britânica de que a ajuda de um órgão da ONU era indispensável para que os
governos levassem a sério o novo organismo proposto; era certo que o governo dos Estados Unidos não
daria qualquer apoio a não ser

51

que se obtivesse o patrocínio da ONU. E como, perguntavam os americanos, poderia o novo organismo ser
verdadeiramente internacional quando países como a URSS, China, Índia, Canadá e África do Sul não
estavam representados em Brunnen?
Apesar das dúvidas, uma constituição preliminar foi adotada pela conferência, estabelecendo uma
[Provisional] International Union for the Protection of Nature (IUPN). Com sede em Basiléia, a IUPN
"facilitaria a cooperação entre governos e organizações nacionais e internacionais preocupadas com ( ... ) a
proteção da natureza".42 Pesquisa científica, consciência pública, educação, planejamento regional, criação
de áreas protegidas, preservação da vida selvagem e dos bábitats e a preparação da convenção global foram
os assuntos incluídos na agenda da IUPN. Uma cópia da constituição preliminar deveria ser imediatamente
enviada à UNESCO, com o pedido de que fosse passada aos governos para que tecessem comentários. A
UNESCO deveria ser solicitada a realizar um congresso em Paris em julho de 1948 para adotar a
constituição.
Ao decidir que se deveria solicitar à UNESCO que representasse a constituição preliminar da IUPN
junto aos governos, esta realizou uma manobra para que a UNESCO passasse a se identificar consigo,
atraindo desse modo o apoio governamental. Na mesma conferência de Cidade do México de 1947 em que
havia conseguido convencer a UNESCO da importância da proteção da natureza, Huxley conseguira fazer
com que a UNESCO concordasse em convocar uma conferência técnica sobre a proteção da natureza, a ser
realizada ao mesmo tempo que a UNSCCUR, a planejada conferência científica da ONU de 1949. Houvera
alguma oposição a isso, especialmente por parte da Comissão Nacional dos EUA para a UNESCO, que
acreditava que esta deveria transferir seu apoio diretamente para a conferência da ONU e garantir que fosse
dada ênfase à preservação de áreas naturais.43 A vontade de Huxley prevaleceu, não obstante, e a UNESCO
prometeu até mesmo assistência financeira à IUPN para a realização da conferência técnica. A conservação
dos recursos naturais e a proteção da natureza deveriam, portanto; ser tratadas como questões separadas.
A conferência de Paris sugerida pelos delegados em Brunnen era uma preocupação mais urgente para
a Liga Suíça e a UNESCO. A UNESCO a via como uma conferência para estabelecer uma organização não-
governamental (ONG), enquanto a IUPN esperava o envolvimento do governo. Depois de discussões
acaloradas, chegou-se a um acordo pelo qual a UNESCO e o governo francês se comprometiam a convidar
os representantes governamentais, enquanto a Liga Suíça convidaria as ONGs. A conferência foi realizada
de 30 de setembro a 7 de outubro de 1948, em Fontainebleu, comparecendo representantes de 18 governos,
sete organizações internacionais e 107 organizações nacionais. A maior parte das discussões girou em torno
da questão de uma constituição para a IUPN. O esboço discutido em Brunnen era insuficiente, na visão de
Nicholson, que conseguira que o Foreign Office britânico preparasse um novo esboço que serviu de base
para a maioria das discussões,44 com emendas sugeridas pela UNESCO e pela delegação dos Estados
Unidos. A questão mais controversa era o poder relativo do governo e dos representantes privados, com os
governos não desejando ficar numa posição em que pudessem ser minoria dos votos em relação aos grupos
privados. A solução aceita foi dar aos governos dois votos nas Assembléias Gerais e aos conjuntos de grupos
privados um voto.
Na sua forma final, a IUPN era um híbrido de órgãos governamentais e não-governamentais que,
mesmo hoje em dia, é quase único. O Ato Constitucional da União foi assinado a 5 de outubro de 1948. A
IUPN deveria promover a preservação da vida selvagem e do ambiente natural, o conhecimento público das
questões, educação, pesquisa científica e legislação, e coletaria, analisaria e divulgaria os dados e
informações. Também poderiam ser iniciados trabalhos para a preparação de uma convenção global para a
proteção da natureza (uma proposta que se revelaria excessivamente otimista e irrealmente ampla).

52

Para os propósitos da IUPN, a natureza era definida como uma faceta importante da vida espiritual, seu
desenvolvimento e exploração formavam a base da civilização humana, e a exaustão dos recursos naturais
havia levado a uma depreciação dos níveis de vida humanos. Isso significava uma sobreposição de proteção
e conservação. A constituição enfatizava que a destruição da natureza poderia ser revertida se as pessoas
fossem "despertadas a tempo para uma consciência integral de sua dependência em relação aos recursos
naturais exauríveis e [reconhecessem] a necessidade de sua proteção e restauração, assim como de sua
administração sábia e bem-informada, a fim de que a paz, o progresso e a prosperidade futuras da
humanidade pudessem ser asseguradas".45 Assim, a despeito do fato de que grande parte da discussão que
cercava a formação da IUPN se tivesse concentrado na proteção da natureza, os princípios da IUPN
referiam-se à conservação de recursos. As considerações estéticas foram minimizadas e a ética da
conservação não foi sequer mencionada. A filosofia adotada pela IUPN via o homem como colocado
firmemente no coração do sistema natural, com a conservação servindo diretamente a seus interesses e
necessidades.
O quartel-general do novo organismo foi mudado de Basiléia para Bruxelas, onde comissões ad hoc
foram estabelecidas para tratar de educação, nomenclatura e publicações. Uma das tarefas mais urgentes da
União era redigir um contrato com a UNESCO para a conferência técnica planejada para o verão seguinte.
Este foi acordado e assinado em novembro, com a UNESCO comprometendo-se a apoiar financeiramente os
preparativos para a conferência. Embora a IUPN passasse a existir no papel, enfrentava dois enormes
problemas, o de transformar seus princípios em resultados concretos e o de estabelecer sua autoridade e
credibilidade. Nesse aspecto a entidade foi entravada por restrições financeiras que se tornariam cada vez
mais graves durante a década seguinte. Muito dependia então dos resultados da UNSCCUR, onde
especialistas em conservação e administração de recursos poderiam trocar idéias "sobre experiências
passadas, a fim de comparar as vantagens econômicas dos diferentes métodos"46, mas não seriam
estabelecidas recomendações para ação futura.
A CONFERÊNCIA CIENTÍFICA DA ONU SOBRE A CONSERVAÇÃO E UTILIZAÇÃO DE
RECURSOS (UNSCCUR)

Como preparação para a UNSCCUR, ficou acordado que os delegados deveriam ter à sua disposição as
conclusões das conferências regionais sobre conservação. Essa necessidade foi atendida em parte pela
Conferência Interamericana sobre a Conservação de Recursos Naturais Renováveis, em setembro de 1948,
em Denver, e pelo Sétimo Congresso de Ciência do Pacífico, na Nova Zelândia, em fevereiro de 1949. A
conferência de Denver foi realizada pelo governo dos EUA a pedido da União Pan-Americana, e resolveu
pedir à União que assumisse a iniciativa de ajudar a ONU a promover a cooperação entre os governos
ocidentais no que dizia respeito à conservação de recursos naturais. Os 21 governos americanos
representados foram instados a criar órgãos de conservação nacionais e a ratificar a Convenção do
Hemisfério Ocidental.47
A UNSCCUR foi realizada em Lake Success, no estado de Nova York, entre 17 de agosto e 6 de
setembro de 1949. Organizada conjuntamente pela FAO, OMS, UNESCO e Organização Internacional do
Trabalho, dela participaram mais de quinhentos e trinta delegados de quarenta e nove países (excluindo a
URSS). Nas cinqüenta e quatro reuniões realizadas pelas seções relacionadas a minerais, combustíveis e
energia, água, florestas, terra, e vida selvagem e peixes, a conferência discutiu questões de recursos globais:
a crescente pressão sobre os recursos; a

53

interdependência de recursos; uma análise das carências críticas de alimentos, florestas, animais e
combustíveis; o desenvolvimento de novos recursos através de tecnologia aplicada; técnicas de recursos
educacionais para países subdesenvolvidos; e o desenvolvimento integrado das bacias hidrográficas.
Discutiu-se ciência, não política (embora questões de política tenham sido inevitavelmente mencionadas); a
conferência não tinha poder para impor compromissos a governos e não fez recomendações a eles, nem
tentou chegar a acordos internacionais. Pretendia apenas ser um fórum para o intercâmbio de idéias e
experiências sobre técnicas de conservação e utilização de recursos.48 De qualquer modo não se poderia
esperar que muito do que foi discutido fosse colocado em prática até que os recursos financeiros se
encontrassem disponíveis, mas os princípios discutidos deveriam propiciar um arcabouço útil para ação
futura. Um tema central da agenda era a adequação dos recursos naturais para atender a exigências
crescentes; argumentou-se que o conhecimento científico poderia descobrir e criar novos recursos e ajudar a
compreender melhor aqueles já em uso. Outro tema recorrente foi a exaustão perdulária dos recursos devido
à guerra.
Muitos dos temas e conclusões da UNSCCUR foram sem dúvida precoces, tanto que, embora tenham
gerado muita discussão na época, duas décadas se passariam antes que se refletissem mais amplamente na
política de conservação internacional. A maioria dos historiadores ambientais ignoram injustamente a
UNSCCUR; na opinião de Nicholson, a mesma teve sucesso somente na medida em que "assinalou a
inclusão da conservação na agenda das atividades intergovernamentais".49 Mas isso subestima a amplitude e
capacidade de previsão de sua agenda, que não se repetiriam até a Conferência da Biosfera de 1968 e a
Conferência de Estocolmo de 1972 (ver capítulo 5). Inquestionavelmente, a UNSCCUR foi o primeiro
marco importante na ascensão do movimento ambientalista internacional.
Embora a conferência simultânea da IUPN fosse intitulada lnternational Technical Conference on the
Protection of Nature (ITC), esta discutiu também a conservação de recursos naturais renováveis.
Observando, por exemplo, que as agências da ONU se estavam voltando para a assistência técnica a países
menos desenvolvidos, e que tais projetos, "para serem efetivos, exigem a aplicação de princípios de ecologia
humana”50, a IUPN resolveu recomendar a essas agências a promoção do estudo da ecologia humana.
Participaram da ITC representantes de trinta e dois países e onze organizações internacionais, inclusive a
FAO, OMS, ICBP, lCSU e a Organização dos Estados Americanos, e a conferência se concentrou na
educação e na ecologia humana. Um total de 23 resoluções foram passadas, muitas indo além da proteção da
natureza para serem surpreendentemente conservacionistas - afirmando, por exemplo, a necessidade de um
estudo cuidadoso da ecologia humana; da promoção da educação para a conservação; da consideração do
impacto ecológico de projetos de desenvolvimento de grande escala; do uso controlado de pesticidas ("deve
ser dada mais atenção ao controle de [pesticidas] e métodos biológicos do ponto de vista da proteção do
equilíbrio da natureza");51 da pesquisa detalhada quanto à situação da fauna e da flora ameaçadas; e da
cooperação entre a UNESCO e a FAO para a conservação dos recursos alimentares. Talvez a resolução de
visão mais ampla tenha sido a nº 7, a qual sugeriu que a IUPN deveria investigar a possibilidade de
promover, com os órgãos de auxílio ao desenvolvimento, a execução de levantamentos que detalhassem o
impacto ecológico de projetos de desenvolvimento. Tal política não seria ativamente implementada por
grupos ambientais e órgãos de auxílio senão depois de outros vinte anos ou mais.
As resoluções que resultaram da ITC poderiam ter formado a base de uma organização que já de
início fundamentasse suas atividades na relação entre desenvolvimento e meio ambiente. Na verdade, a
promessa da ITC viria a se constituir num contraste marcante

54

com a realidade do interesse muito mais limitado na proteção da natureza que caracterizou a política da
IUPN nos quinze anos subseqüentes.

IUPN - PRIMEIROS ANOS

A IUPN não foi produto de um movimento popular, mas sim criação de uns poucos entusiastas. Nicholson
lembra que, até a 5ª. Assembléia Geral de Copenhague, em 1954, quando "cientistas" assumiram a
administração, a União foi dirigi da por "indivíduos e grupos missionários emocionalmente inspirados" .52
Começou sua existência com um suprimento saudável de entusiasmo e dedicação, mas pouca coisa além
disso. Era um órgão pequeno e exclusivo, preocupado com uma faixa estreita de interesses. Tinha pouca
capacidade organizacional e sustentação financeira, poucos organismos ou comitês nacionais com os quais
pudesse trabalhar, e muito poucas evidências científicas comprovadas sobre as quais pudesse basear uma
agenda e planejar políticas. Ao realizar a ITC em separado, a entidade pode ter-se distanciado do sistema da
ONU e talvez perdido uma oportunidade não apenas de incentivar a atividade de preservação dentro da
ONU, mas de se beneficiar da influência política e dos recursos financeiros que um envolvimento mais
íntimo com a ONU poderia ter trazido. Em sua 2ª Assembléia Geral de 1950, em Bruxelas, era evidente um
traço de frustração nas palavras do secretário-geral Jean-Paul Harroy: "Não é irracional afirmar que a ONU
deveria colocar a União no mesmo nível de seus principais organismos especializados e conceder-lhe
colaboradores numerosos que dispusessem de créditos substanciais”.53 Sem dinheiro a IUPN não poderia
patrocinar a pesquisa ou financiar a conservação e dificilmente teria condições de reunir o tipo de equipe
profissional necessária para estabelecê-Ia como uma organização científica internacional.
Nicholson é de opinião que a União era uma organização imaginativa que previu problemas tais
como o efeito de químicos tóxicos e os problemas que provavelmente decorreriam das tentativas aceleradas
de encontrar e desenvolver novos estoques de energia.54 Ainda assim, não conseguiu cumprir a promessa
contida no preâmbulo da sua constituição, que definia a proteção da natureza como "a preservação de toda a
comunidade biótica mundial ou do ambiente natural do homem, o qual inclui os recursos naturais renováveis
da Terra dos quais é composto";55 optou, ao invés disso, por se dedicar quase que exclusivamente à proteção
da natureza. Durante seu mandato como secretáriogeral (1948-1955), Jean-Paul Harroy "ouviu
continuamente a União ser criticada como estando atrasada em relação a seu tempo" por causa de sua visão
limitada.56 Poucos governos tinham mais do que um interesse passageiro na proteção da natureza; na Grã-
Bretanha, recorda-se Nicholson, isso era considerado como "a excentricidade amigável de certas pessoas
com quem era preciso ser indulgente”.57 Na Assembléia Geral de Caracas, em 1952, um grupo que incluía
Vogt, Osborn, Coolidge e Harroy apresentou uma resolução, sugerindo que a IUPN solicitasse ao secretário-
geral da ONU a designação de um dos órgãos especializados para considerar o problema da população. Isso
conduziu a um debate tão acirrado, que Charles Bernard (o presidente da IUPN) temeu pela estabilidade da
União e pediu a retirada da resolução.58 (A resolução acabou por ser adotada na Assembléia Geral de 1954.)
Dentre todas as limitações da IUPN, poucas eram maiores do que a pura falta de dados concretos.
Registros esparsos e o trabalho independente e individual de cientistas haviam estabelecido há muito que
algumas espécies estavam ameaçadas de extinção, mas freqüentemente a única indicação residia nos
números em decréscimo; a origem da ameaça e a ação corretiva apropriada muitas vezes eram conjeturas. A
ITC havia, contudo, lançado alguma luz sobre o estado do conhecimento existente, sendo imediatamente
compilada

55
uma tentativa de lista de espécies ameaçadas. Os estados membros da IUPN foram incentivados a preparar
listas nacionais de espécies ameaçadas, mas nenhum o fez até o final dos anos 60. O Survival Service foi
criado como uma rede consultiva que ligava especialistas em diferentes países e o IUPN Bulletin, lançado
em 1952, propiciou um foro para o intercâmbio de notícias e informações. Mas o Survival Service se
encontrava diante do problema de encontrar pessoas e organizações qualificadas, capazes ou ao menos
dispostas a fornecer informações satisfatórias e atualizadas. A falta de progresso na conservação de
mamíferos levou a American Society of Mammalogists a desligar-se da IUPN em 1954.
Uma injeção de fundos privados dos Estados Unidos em 1955 finalmente permitiu que a IUPN
empreendesse pesquisas de campo. Um ecologista norte-americano, Lee Talbot,* foi contratado para realizar
um levantamento, a fim de determinar a situação dos mamíferos ameaçados, notadamente aqueles na lista da
IUPN. Ele viajou muito pela África, Ásia meridional e Oriente Médio e Próximo durante os anos de 1956-
57. Seu levantamento não apenas acrescentou peso às fontes de informação da IUPN, mas foi imediatamente
usado para educação e publicidade. O trabalho de Talbot, juntamente com outros levantamentos realizados
durante o final dos anos 50, em cooperação com a Fauna Preservation Society, resultaram num quadro muito
mais claro da situação e nas primeiras e hesitantes ações corretivas. As informações coletadas e classificadas
durante os anos 50 - coordenadas pelo Survival Service - resultaram na publicação, em 1958, de uma lista de
trinta e quatro espécies ameaçadas. Isso por sua vez levou à publicação, em 1960, do Red Data Book, um
arquivo sob forma de fichário contendo cento e trinta e cinco espécies ameaçadas de mamíferos. O ICBP e a
IUPN em conjunto prepararam uma lista adicional de aves ameaçadas. Ambas as listas cresceram durante a
década de 60 e acabaram por formar a base da série atual de Red Data Books, a principal fonte de referência
no que diz respeito à situação de espécies ameaçadas e em perigo.
A conferência de Lake Success havia concluído que o número de espécies ameaçadas da fauna e da
flora59 estava aumentando, mas as plantas foram praticamente ignoradas nos trabalhos iniciais da IUPN,
assim como os mamíferos de menor porte, os répteis, anfíbios, insetos e moluscos. "Fauna", na realidade,
referia-se apenas aos mamíferos de maior porte (como também mais visíveis e populares). O Survival
Service Comission Threatened Plants Committee foi estabelecido somente em 1974, e um Red Data Book de
plantas foi finalmente publicado em 1978. Boardman acredita que isso refletia não tanto uma falta de
consciência da importância ecológica das plantas, mas sim as dificuldades envolvidas na listagem e
avaliação das ameaças às milhares de espécies em pauta.60 Os mamíferos e pássaros eram mais visíveis, as
ameaças que enfrentavam mais fáceis de identificar e a ação corretiva mais prontamente sugerida. Nicholson
acredita que muito disso pode ser atribuído também a um acidente histórico;61 a ornitologia havia entrado
numa fase de crescimento dinâmico nos anos 20 e por isso tendeu a eclipsar as outras ciências por algum
tempo. A botânica estava simplesmente num período de recessão de interesse depois da guerra.
A segunda das principais redes da IUPN, além do Survival Service, era a Commission on Ecology.
Foi criada em 1954, sob a presidência do ecologista americano Edward Graham, para coordenar a pesquisa
ecológica e promover a cooperação entre os ecologistas. Em 1956 a comissão havia concluído que sua
prioridade era a pesquisa relacionada às condições bióticas que regiam certos tipos de "paisagens", o estudo
das influências humanas e o melhor uso a longo prazo dessas paisagens. Houve sugestões iniciais no sentido
de que as plantas só poderiam ser protegidas se os hábitats fossem protegidos; em

* Lee Merriam Talbot (nascido em 1930), um zoólogo e ecologista, foi o primeiro ecologista do quadro da IUCN. Ele entrou para
o CEQ em 1970 como cientista de alto escalão. Em 1978, tomou-se diretor de conservação do World Wildlife Fund, e de 1980 a
1983 foi diretor-geral da IUCN.

56

1980 os Red Data Books confirmaram que 67% de todas as espécies ameaça das estavam em tal situação
devido à perda ou contaminação de seus hábitats.62 A inércia da IUPN em relação ao problema da
destruição dos hábitats já havia causado algum descontentamento inicialmente, sobretudo nos Estados
Unidos. No Congresso Zoológico Internacional de Londres, em 1958, Coolidge notou "a maior consciência
da importância de preservar os hábitats ao invés de espécies específicas".63 A importância de conservar
ecossistemas representativos atraía agora maior atenção.
Entre 1948 e 1956, por influência das advertências da Commission on Ecology de que as pessoas
deveriam ter consciência das conseqüências ecológicas de suas atividades, os interesses da IUPN
gradualmente se ampliaram para abranger a conservação. Isso foi confumado em 1956 pela decisão da União
de mudar seu nome (principalmente devido à influência americana)64 para lnternational Union for
Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN). A nova ênfase na conservação de ecossistemas
representativos começou por focalizar as wetlands na virada da década. Em 1961 a IUCN lançou o projeto
MAR (um nome derivado das três letras comuns da palavra "marsh"* em diferentes línguas) para destacar as
ameaças às wetlands, e uma conferência (conjuntamente organizada pela IUCN, pelo ICBP e pelo
International Waterfowl Research Bureau [IWRBD foi realizada na região francesa de Camargue em
novembro de 1962. O segundo foco de atenção recaiu sobre os parques nacionais. Naquele momento, os
parques já vinham se desenvolvendo em isolamento nacional havia noventa anos, com os estados
respondendo individualmente às necessidades domésticas e fazendo pouca referência aos desenvolvimentos
internacionais. A crença de que era necessária uma maior coordenação e uma preocupação com o fato de que
alguns países não haviam nem mesmo estabelecido seus parques nacionais estiveram por trás da Primeira
Conferência Mundial sobre parques nacionais, patrocinada pela IUCN e realizada em Seattle, estado de
Washington, em julho de 1962.

O WORLD WILDLIFE FUND

Dentre todos os problemas que assolaram a IUCN durante os anos 50, o mais grave era a falta de dinheiro; a
União mal conseguia se sustentar, muito menos financiar projetos externos. Alguns fundos haviam vindo
inicialmente da UNESCO, mas isso funcionava irregularmente e foi se tornando cada vez mais claro que era
necessária uma estruturà organizada de levantamento de fundos. A idéia de um órgão separado para levantar
fundos não pode ser inteiramente creditada a qualquer indivíduo isolado; tendo em vista o histórico de
problemas financeiros da IUCN, a mesma deve ter estado presente com intensidade em mais que uma única
mente durante a década de 1950. Mas Julian Huxley e Max Nicholson foram os que começaram a agir nesse
sentido. Nicholson - então diretor-geral da Conservadoria da Natureza da Grã-Bretanha - lembra que,
embora a Conservadoria da Natureza tivesse, dentro do Reino Unido, poderes estatutários adequados e uma
renda pequena mas crescente, havia preocupação com a "ausência de um movimento de apoio forte para
dividir as obrigações e propiciar força política. [A] ( ... ) ameaça (à natureza) era de alcance mundial ( ... )
Seria moralmente obrigatório e também uma fonte de maior força se usássemos a nossa base britânica para
construir uma rede mundial efetiva".65 Em maio de 1961, a IUCN divulgou o Manifesto Morges, uma peça
de retórica que serviu em parte para afirmar a crença da IUCN de que a capacidade e técnica necessárias
para enfrentar as ameaças à vida selvagem existiam, mas não o "apoio e recursos", e que a necessidade mais
essencial de todas era o dinheiro.66
Após uma visita à África Oriental, em 1960, Julian Huxley escreveu três artigos para o

* Pântano, alagadiço, charco.

57

semanário londrino The Observer sobre as crescentes ameaças à vida selvagem na África, particularmente as
originadas pela expansão do cultivo, maior número de cabeças de gado, desmatamento, excesso de pastagem
e a transformação da terra num semideserto. Huxley mencionou a idéia de levantamento de fundos
juntamente com Max Nicholson, cujo envolvimento com a IUCN durante os anos 50 o havia convencido de
que a União era incapaz de administrar eficientemente seus próprios negócios (sobretudo os financeiros),
tendo-lhe ocorrido a idéia de um órgão gêmeo da IUCN que fosse responsável pelo levantamento de fundos.
A prioridade desse órgão seria "salvar" a IUCN.67 Nicholson propôs um novo órgão que consistiria de um
consórcio registrado na Suíça, um grupo de operações responsável pelo estabelecimento de prioridades e
alocação de fundos, um clube de mantenedores constituído de membros ricos e diversos tipos de apelos
nacionais. O conceito foi discutido na conferência de Arusha (ver adiante) em setembro e o World Wildlife
Fund (WWF) foi lançado em Londres um pouco depois, naquele mesmo mês. Em dezembro foram lançados
apelos nacionais nos Estados Unidos e na Suíça, seguidos por outros na Holanda em 1962, e na Alemanha e
na Áustria em 1963. No conjunto, vinte apelos nacionais foram realizados durante os primeiros dez anos de
operação.
Segundo Harold Coolidge, o WWF "foi fundado sem dúvida com O propósito de levantar fundos
para financiar o orçamento da IUCN",68 mas isto é questionável. O WWF rapidamente enveredou por um
caminho paralelo ao da IUCN, mais do que auxiliar. "Ao invés de cuidar primeiro de nós", lembrava
Coolidge, o "[WWF] declarava que éramos a principal prioridade, mas que tinham que cuidar de suas
próprias despesas administrativas e, ao mesmo tempo, tinham também certos projetos que queriam
custear”.69 Isso causava problemas, com a IUCN constantemente em déficit, e o WWF obtendo
regularmente um bom desempenho financeiro e acabando por expandir-se mais do que a IUCN.70 (Em
meados da década de 80, a artificialidade de muitas das divisões entre as duas organizações levou a uma
tentativa de fundir as instalações que compartilhavam na Suíça para criar um "Centro Mundial de
Conservação".)
O WWF custeava projetos em cinco categorias: espécies individuais, áreas virgens, apoio a
organizações existentes, educação para a conservação e questões "variadas" de conservação. O WWF
também fez representações diretas a governos. Em 1965 fez representações ao governo de Uganda para que
não construísse uma usina de energia hidrelétrica no Parque Nacional de Murchison FalIs. Em 1968 O
governo tanzaniano foi persuadido a não construir um novo hotel na cratera de Ngorongoro. Foram feitas
representações a diversos países para criar parques nacionais específicos ou para lançar planos nacionais de
conservação. Em 1967 o WWF estava gastando mais de 370 mil dólares por ano em conservação e já havia
custeado 183 projetos, mas existiam desequilíbrios acentuados no modo pelo qual o dinheiro era gasto.
Embora a maioria dos projetos (56%) estivessem na África e na Ásia, os mesmos atraíam apenas 26% dos
fundos. Inversamente, a Europa e a América do Norte, com 27% dos projetos, atraíam 52% dos fundos. Isso
podia ser explicado (alegava o WWF) pelo fato de que a maioria dos projetos europeus e norte-americanos
envolviam a compra ou arrendamento de terras para o estabelecimento de novas áreas protegidas a um custo
relativamente alto. Que a África tivesse mais projetos e atraísse mais fundos do que todo o resto do Terceiro
Mundo combinado explicava-se pelo fato de que simplesmente um maior número de requerimentos havia
sido submetido.71
Em 1969 a proporção de dinheiro pago a projetos europeus e norte-americanos havia aumentado
ainda mais, para quase dois terços dos gastos totais, tendo a África, Ásia e América Latina combinadas
recebido somente 15%. Talvez, admitia o WWF, essas não fossem as percentagens que "os fundadores do
WWF tinham em mente quando de sua criação, [mas] está claro que, se o WWF pretende levantar fundos
consideráveis no futuro, tem que mostrar resultados concretos nos países nos quais o dinheiro está disponível
agora".72 As proporções mudariam significativamente durante os oito anos seguintes: a

58

proporção de fundos gastos na Europa caiu de 50% em 1971 para 10% em 1977; em 1969 a América do
Norte recebeu 40% dos fundos, e em 1975 apenas 0,5%; os fundos para a África flutuaram amplamente,
enquanto a proporção dos gastos na Ásia subiu de 6,5% em 1968 para quase 20% em 1975. Quanto à IUCN,
apenas 12,8% dos recursos do WWF foram-lhe diretamente destinados pela União entre 1962 e 1967, e em
1969 a proporção havia caído para 9%.73 Esses números, porém, não incluíam os fundos dados a projetos
aprovados pela IUCN.

CONSERVAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E O PROJETO ESPECIAL AFRICANO

À medida que a IUCN/lUPN atravessava penosamente a sua primeira década, ia tomando consciência de o
quanto suas políticas preservacionistas eram inadequadas como resposta às exigências do pós-guerra por
recursos e desenvolvimento; a conservação claramente tinha que ser buscada como uma parte integrante do
desenvolvimento. Essa noção havia transparecido nas resoluções fundamentais acordadas na ITC de Lake
Success. A resolução nª 1 relatava a importância de compreender as implicações da assistência técnica da
ONU a países menos desenvolvidos em termos de ecologia humana; a nº 3 estabelecia que "as organizações
preocupadas com a proteção e conservação da natureza e aquelas preocupadas com a utilização de recursos
devem colaborar na maior medida possível"; a nº 7 observava que os grandes projetos de desenvolvimento
poderiam ter efeitos imprevistos sérios sobre as condições naturais, e que a IUPN deveria promover
levantamentos ecológicos detalhados de seu impacto.
O interesse europeu pelo meio ambiente africano já havia produzido as convenções de 1900 e 1933,
ambas as quais resguardavam a natureza em áreas protegidas. Enquanto os administradores coloniais haviam
estado à vontade para traçar e impor - para melhor ou para pior - seus próprios conceitos de proteção da vida
selvagem, sem muita referência às necessidades ou desejos dos povos locais, isso claramente não seria mais
possível na era pós-colonial. Quando a África emergiu do colonialismo, os conservacionistas europeus
sentiram que era essencial incentivar os governos africanos a se associarem publicamente à conservação e a
concordarem em princípio em reconciliar a conservação com os planos de desenvolvimento nacionais.
Por iniciativa dos belgas, a Terceira Conferência Internacional para a Proteção da Fauna e da Flora
da África foi realizada em Bukavu, no Congo Belga, em 1953. Pretendia discutir as questões dos recursos
africanos e uma possível revisão da convenção de 1933 para torná-Ia "atualizada e de acordo com conceitos
conservacionistas modernos”.74 No que equivalia a um afastamento tangencial do pensamento anterior, os
delegados concordaram que a proteção da natureza na África envolvia muito mais do que as provisões para a
proteção da fauna e da flora da convenção de 1933. O problema vital de proteger o meio ambiente humano
na África, eles observaram, não poderia ser resolvido "somente com a criação de reservas naturais e com a
proteção de certas espécies"; os governos deveriam considerar uma nova convenção de bases mais amplas,
planejada para conservar a vegetação natural, o solo, a água e os recursos naturais, "basicamente no interesse
das populações da África".75
Na Assembléia Geral de 1956, a IUCN observou que o "planejamento de paisagens baseado na
pesquisa ecológica" deveria ser o ponto de partida para o desenvolvimento nos países menos favorecidos."
Na sua Assembléia Geral de 1960, a IUCN concluiu que a conservação era uma prioridade particularmente
urgente na África e que a ajuda externa "inclinava-se a desconsiderar a conservação e o valor da vida
selvagem e do hábitat como um patrimônio econômico, científico e cultural permanente".77 A resposta da
IUCN foi

59

lançar o African Special Project (ASP), numa tentativa de in,centivar'os novos líderes africanos a se
identificarem publicamente com a conservação e de convencê-Ios das "virtudes de viver da renda de seus
recursos naturais e não do capital".78
O ASP teve três estágios. No primeiro, o especialista em manejo de florestas da FAO para a África,
Gerald Watterson, emprestado à IUCN como secretário-geral, viajou por dezesseis países da África e
preparou relatórios sobre a conservação dos recursos naturais em cada um deles. O Estágio II foi o Simpósio
Pan-Africano sobre a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais nos Estados Africanos Modernos
(ou Conferência de Arusha), realizado em Arusha, Tanganica, em setembro de 1961, três meses antes da
independência daquele país. Contando com a participação de representantes de 27 países (21 da África) e co-
patrocinado pela FAO e pela UNESCO, o evento foi notável por ser a primeira ocasião em que os próprios
africanos estiveram plenamente representados num foro para a discussão de seus próprios recursos naturais.
(As conferências de 1900 e 1933 haviam incluído apenas representantes das potências coloniais européias, e
por isso haviam refletido a sua perspectiva particular.) A Conferência de Arusha, ao tentar trazer estados
recentemente independentes e quase independentes para o debate, abriu a discussão sobre as necessidades
dos povos locais, e suas atitudes para com a natureza. */79 Abrindo a conferência, sir Richard Turnbull, o
governador de Tanganica, delineou três questões para consideração: que a natureza e a vida selvagem eram
fontes valiosas de receita e por isso deveriam ser exploradas racionalmente onde esta fosse a melhor forma
de uso do solo, que o apoio da opinião pública era essencial e que era necessária ajuda internacional para que
a vida selvagem africana fosse preservada.80
O jornalista John Hillaby, destacando a "história marcada por contrastes" da IUCN, assinalava, na
semana anterior à conferência, que a União parecia naquele momento ter sido "inteiramente revitalizada" .81
Havia uma ênfase nítida, durante as discussões na conferência, na utilização da vida selvagem, seja para
alimentação ou recreação. Tornou-se clara a idéia de que "somente pela utilização planejada da vida
selvagem como um recurso natural renovável ( ... ) podem sua conservação e desenvolvimento ser
economicamente justificados em competição com a agricultura, a pecuária e outras formas de uso do
solo".82 O valor da vida selvagem como um recurso não era de forma nenhuma incompatível com as
exigências da agricultura e do manejo de florestas, nem com o desenvolvimento econômico e social geral de
um país. Um especialista em florestas sudanês, Sayed Kamil Shawki, argumentou que os recursos naturais
eram "comparativamente mais fundamentais para o desenvolvimento econômico dos países
subdesenvolvidos do que o eram para os estados mais altamente desenvolvidos".83 A administração da vida
selvagem fora e nas adjacências dos parques nacionais dependia das necessidades, modo de vida e
cooperação das comunidades locais e de seu máximo envolvimento nos projetos de administração. Os
vínculos africanos tradicionais com a natureza, que haviam sido solapados por modelos europeus de
desenvolvimento econômico do tipo que havia causado a destruição da natureza na Europa, precisavam ser
revitalizados, Foi levantado para debate o tema de que a preservação por si só não era a resposta e que era
necessária uma administração racional baseada em objetivos claros. Entre as principais recomendações da
conferência: as políticas de uso do solo deveriam ser desenvolvidas com o objetivo de evitar a ocupação
intensiva de terras inadequadas por agricultores e criadores, maior atenção deveria ser dada à economia dos
programas de desenvolvimento de recursos e os governos africanos deveriam traçar políticas para a vida
selvagem. A IUCN

* A IUCN, não obstante, vinha se preocupando com a proporção favorável a líderes europeus na discussão; dizia-se que a
dificuldade estava em encontrar palestrantes africanos de destaque, o que, por sua vez, era visto como um reflexo das políticas
educacionais coloniais.79

60

se ofereceu para ajudar os governos a integrar a administração da vida selvagem aos planos de
desenvolvimento do uso do solo.
O Estágio m do ASP deveria originalmente ter incluído a criação de uma unidade especializada
dentro da IUCN para oferecer serviços de consultoria a governos africanos; na realidade, isso tomou a forma
de uma excursão de dois especialistas em uso do solo (Thane Riney e Peter Hill) pelos estados africanos
durante 1962-1963, com o propósito de orientar os governos na integração do uso dos recursos com o
desenvolvimento econômico, Sua viagem por países sahelianos e da África ocidental no início de 1962
revelou uma "necessidade urgente de um serviço internacional para enfatizar a importância de uma
integração íntima no desenvolvimento dos ( ... ) recursos naturais renováveis, de um planejamento global do
uso do solo e da introdução de um pensamento ecológico em tal planejamento".84 Havia também a clara
necessidade de uma convenção que comprometesse os estados africanos com a conservação da natureza,
como fora sugerido em Bukavu. A FAO havia, de fato, criado um grupo de trabalho em 1960 para fazer o
esboço de tal convenção. Duas resoluções traça das na conferência dos parques nacionais de Seattle se
referiam à importância da conservação nos programas de desenvolvimento e à necessidade de que os órgãos
de auxílio ao desenvolvimento incorporassem considerações ambientais a seu planejamento. *
Em dezembro de 1962 a ONU adotou uma resolução apoiando a argumentação de que os recursos
naturais eram vitais para o desenvolvimento econômico e que o desenvolvimento econômico nos países
menos desenvolvidos poderia pôr em risco os recursos naturais se tivesse lugar "sem a devida atenção para
com sua conservação e recuperação”.85 Em sua sessão de 1963 a Comissão para a Cooperação Técnica na
África aprovou uma carta preliminar, endossada pela Assembléia Geral da IUCN de 1963, que foi realizada
em Nairobi (pela primeira vez na África e apenas a segunda vez fora da Europa ou da América do Norte), a
qual se concentrou nos problemas dos ambientes tropicais. Os trabalhos técnicos anteriores à conferência e
boa parte da discussão concentraram-se no equilíbrio entre a população e meio ambiente, e nos efeitos da
pressão populacional sobre a terra. A IUCN concluiu que, "se as considerações puramente políticas que têm
dominado o cenário africano nos últimos anos puderem ser agora subordinadas à consideração mais precisa
das necessidades humanas e animais básicas - as quais são geralmente complementares -, podem ser
preparados planos que, se implementados de maneira realista, conduzirão a um nível de vida razoável e cada
vez melhor para os povos africanos".86 Falando na assembléia, o secretário de estado para o Interior Stewart
Udall, dos EUA, disse que o mundo estava precisando de uma ética de conservação: "A expansão das
populações põe em risco a idéia da conservação e aumenta a obsessão da exploração excessiva. Isto é
simplesmente uma política de 'pilhar agora e pagar depois'. A expansão das populações em toda parte torna
ainda mais necessária uma política de conservação sábia. A conservação não é um luxo; é uma
necessidade"87
Falando no Congresso do WWF de 1967, em Amsterdam, Russell Train, então presidente da
Conservation Foundation de Washington, D.C., advertiu quanto à tendência entre os conservacionistas de
pensar o homem e a natureza como conceitos separados e mutuamente excludentes; esse enfoque continha o
seu próprio fracasso. Isso não o impedia de sentir-se encorajado a observar que os conservacionistas, não
obstante, estavam compreendendo cada vez mais que os objetivos de conservação de longo prazo "não
podem ser implementados com êxito isoladamente em relação a outros objetivos nacionais,

* O equivalente asiático do ASP, o South-East Asia Project, foi lançado em 1964. Lee Talbot empreendeu um trabalho de campo
durante 1964-65, e a Conferência sobre a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais no Sudeste Asiático Tropical foi
realizada em Bangkok de 29 de novembro a 4 de dezembro de 1965. Um equivalente latino-americano, a Conferência Latino-
Americana sobre Conservação de Recursos Naturais Renováveis, teve lugar em San Cartos de Bariloche, Argentina, de 27 de
março a 2 de abril de 1968.

61

mas podem ser melhor atingidos como elementos integrantes de programas nacionais globais de
desenvolvimento”. 88
Entre 1963 e 1967 a FAO e a IUCN trabalharam em propostas concorrentes para a pretendida
convenção africana, tendo a F AO prosseguido de forma independente na crença de que a proposta da IUCN
dava muito pouca atenção à vida selvagem como um recurso a ser explorado e que a FAO tinha mais
experiência do que a IUCN na preparação de convenções." Mas foi a proposta da IUCN que acabou por ser
aceita pela Organização da Unidade Africana COUA), em 1967, formando assim a base da Convenção
Africana para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. Adotada pelos 33 estados membros da
OUA em Argel, em setembro de 1968, a convenção entrou em vigor em 1969. Sua filosofia fundava-se na
"conservação, utilização e desenvolvimento dos recursos do solo, da água, da flora e da fauna, de acordo
com princípios científicos e com a devida consideração pelos melhores interesses do povo”.90
A ênfase alterada no pensamento da IUCN foi confirmada na sua 10ª. Assembléia Geral de Nova
Delhi, em 1969, quando ficou acordado que, depois de 21 anos de uma abordagem de "corpo de bombeiros"
para sanar problemas de conservação isolados à medida que surgiam, havia chegado a hora de uma
abordagem baseada na prevenção e na solução." A assembléia definia a conservação como o "gerenciamento
(o qual inclui levantamento, pesquisa, administração, preservação, utilização ... ) do ar, da água, do solo, dos
minerais e das espécies vivas, inclusive o homem, para atingir a mais alta qualidade de vida sustentável”*
/92
Mesmo enquanto a IUCN e o WWF desenvolviam uma definição mais ampla e universalmente útil
de conservação, todavia, o movimento de conservação já estava sendo rapidamente ultrapassado por um
novo movimento, independente e muito mais ativista, preocupado com questões ambientais muito mais
amplas. Em algum momento no final dos anos 50 e começo dos anos 60 as circunstâncias conspiraram para
dar surgimento a um novo movimento de protesto, baseado nas preocupações com o estado do ambiente
humano e com as atitudes humanas em relação à Terra. A natureza e os recursos naturais deixaram de
ser a única preocupação; o novo movimento abrangia tudo, desde a superpopulação e a poluição aos custos
da tecnologia e do crescimento econômico. O Novo Ambientalismo ia além do mundo natural; questionava a
própria essência do capitalismo.

* Esta definição apareceu quase inalterada no preâmbulo da World Conservation Strategy em 1980.

62
FOLHA EM BRANCO
63

TRÊS
A Revolução Ambientalista (1962-1970)

No final do verão de 1962 um novo livro de Rachei Carson começou a ser vendido nas livrarias americanas.
Apesar de seu tema aparentemente impenetrável, pesticidas e inseticidas sintéticos, Silent Spring tocou num
ponto sensível de seus leitores, vendeu meio milhão de cópias encadernadas, permaneceu na lista dos mais
vendidos do New York Times por 31 semanas,1 e incitou a criação de um grupo consultivo presidencial
sobre pesticidas.
Em abril de 1970 trezentos mil americanos - talvez mais - participaram do Dia da Terra, a maior
manifestação ambientalista da história. Reportagens de capa e manchetes de jornais proclamaram o advento
do ambientalismo como uma questão pública fundamental. Para a revista Time o meio ambiente era o tema
dos anos 70. 2 Para a Life tratava-se de um movimento que estava destinado a dominar a nova década.3
Nesse ínterim já havia começado o trabalho para uma das maiores conferências das Nações Unidas jamais
realizada, a qual reuniu representantes de 113 nações em Estocolmo, para discutir os problemas do meio
ambiente global.
Os oito anos intermediários haviam testemunhado a transformação do ambientalismo; houve uma
revolução ambientalista, mais notadamente nos Estados Unidos. Se em 1962 havia apreensão sobre o estado
do meio ambiente, por volta de 1970 havia uma insistência expressiva - freqüentemente estridente - em
mudanças para uma sociedade global aparentemente propensa à autodestruição, As preocupações de uns
poucos cientistas, administradores e grupos conservacionistas floresceram num fervente movimento de
massas que varreu o mundo industrializado. Muitas das velhas organizações de proteção e conservação
estabelecidas, temporariamente atoladas na apatia dos anos 50, foram ultrapassadas pelos acontecimentos e
deixadas para trás para se recuperarem como pudessem. O movimento transformado - o Novo
Ambientalismo - era mais dinâmico, mais sensível, tinha base mais ampla e ganhou muito mais apoio
público. Algumas das organizações mais antigas foram-se com a maré, mas uma onda de novas organizações
emergiu, */4 diferindo de suas precursoras em ao menos dois aspectos principais.
Primeiramente, se a proteção da natureza havia sido uma cruzada moral centrada no ambiente não
humano e o conservacionismo um movimento utilitário centrado na administração racional dos recursos
naturais, o ambientalismo centrou-se na humanidade e em seus ambientes. Para os protecionistas a questão
era a vida selvagem e o hábitat; para o

* Poucos dentre os novos grupos tinham um grande número de membros; um levantamento da EPA revelou que 72% dos grupos
tinham menos de quinhentos membros e 45% tinham menos de cem.4

64

Novo Ambientalismo a própria sobrevivência humana estava em jogo. Havia uma concepção mais ampla do
lugar ocupado pelo homem na biosfera, uma compreensão mais sofisticada dessa relação e um tom de crise
maior e mais disseminado do que o ocorrido quando dos primeiros movimentos de conservação.5 Nash
argumenta que o medo é subjacente ao crescimento do interesse americano pelo meio ambiente - medo não
do esgotamento dos recursos e da perda de sua posição na política mundial, nem tampouco da feiúra do
mundo, mas medo quanto ao futuro da vida e à vulnerabilidade do homem; o homem "foi redescoberto como
parte da natureza",6 Os americanos não estavam limitando sua percepção somente aos "grandes outdoors",
mas aplicando sua apreciação moral e estética da natureza ao meio ambiente como um todo.7
Em segundo lugar, o Novo Ambientalismo era ativista e político. Muitos dentre os grupos
preservacionistas mais antigos perseguiam objetivos essencialmente filantrópicos, enquanto os
conservacionistas baseavam seus argumentos na ciência econômica; em contraste, os novos ambientalistas
buscavam um impacto mais diretamente político. Sua mensagem era de que a catástrofe ambiental só
poderia ser evitada através de mudanças fundamentais nos valores e instituições das sociedades industriais.8
O Novo Ambientalismo pode ser visto como parte de uma transformação social mais ampla que ocorria
então na sociedade ocidental. O novo movimento assumia posições que eram tanto reativas quanto
antiestablishment. Seus líderes reagiam mais aos acontecimentos e desafios do que à simples evidência
científica. Atribuía-se menos importância à certeza das conseqüências da má administração ambiental do que
à evidência além de qualquer dúvida razoável. O Novo Ambientalismo era um movimento político e social,
e as questões que levantou eram, em última análise, universais.
Como seus precursores, o Novo Ambientalismo não era um fenômeno organizado e homogêneo, mas
um acúmulo de organizações e indivíduos que tinham motivações e tendências variadas, com objetivos
aproximadamente semelhantes, mas freqüentes diferenças de método. Sandbach faz uma distinção entre a
velha forma ecológica/científica do ambientalismo e sua forma antiestablishment mais recente.9 A primeira
ganhou corpo nos escritos de George Perkins Marsh e no movimento conservacionista progressista de
Roosevelt e Pinchot. Encarava a sustentação de um meio ambiente físico e biológico viável como a
prioridade; tentava influenciar as políticas do governo apresentando alegações válidas e cientificamente
fundamentadas. A segunda, representada pelo Novo Ambientalismo, era mais anarquista, menos interessada
na análise dos sistemas e mais pelo humanismo, Mas havia muitas outras maneiras de categorizar o
movimento; o mesmo continha elementos de anarquismo, evangelismo, reforma social, reforma política e
através de sua relação com a ecologia - ciência. Sem dúvida, em seus primeiros anos foi freqüentemente
chamado de movimento ecológico; um ecologista profissional disse a uma comissão do congresso
americano, em 1970, que a "ecologia não é mais uma disciplina científica - é uma atitude de espírito".10
Para Michael McCloskey, diretor executivo do Sierra Club, os componentes do novo movimento nos
Estados Unidos se expandiram além das antigas alianças para incluir "o movimento de consumidores,
inclusive os empresários reformistas; o movimento pela responsabilidade científica; um movimento
revitalizado pela saúde pública; grupos favoráveis ao controle da natalidade e à estabilização populacional;
pacifistas e aqueles que sublinham a importância da democracia participativa, na qual as decisões são
tomadas consensualmente; jovens que enfatizam a ação direta; e um movimento difuso em busca de um
novo foco para a política".11
Por que o Novo Ambientalismo surgiu, quando surgiu e por que a transformação ocorreu tão
repentina e completamente? Explicações claras e fáceis de compreender são sempre tentadoras, mas as
revoluções raramente são simples. O movimento ambientalista foi um produto de forças tanto internas
quanto externas a seus objetivos imediatos. Os elementos de mudança já vinham emergindo muito antes dos
anos 60; quando finalmente se entrecruzaram uns com os outros e com fatores sócio-políticos mais amplos, o
resultado foi uma força nova no sentido da mudança social e política. Seis fatores em particular

65

parecem ter desempenhado um papel na mudança: os efeitos da afluência, a era dos testes atômicos, o livro
Silent Spring, uma série de desastres ambientais bastante divulgados, avanços nos conhecimentos científicos
e a influência de outros movimentos sociais.

O NOVO AMBIENTALISMO E A SOCIEDADE AFLUENTE

O crescimento repentino de novos grupos ambientalistas na Grã-Bretanha, no começo dos anos 70, foi
caracterizado como parte de um padrão de ocorrências semelhantes (na década de 1890, no final dos anos 20
e no final dos anos 50) discerníveis em fases similares do ciclo econômico mundial; tal crescimento ocorreu,
em cada caso, perto do final de períodos de expansão econômica sustentada.12 Daí o aumento simultâneo do
interesse ambiental em todos os países capitalistas industrializados, quando mais e mais pessoas passaram a
levar em conta os custos externos crescentes do crescimento econômico descontrolado e buscaram reavaliar
valores não materiais.13 O'Riordan sugere que os movimentos conservacionistas chegam ao ápice em
tempos de ansiedade econômica, não numa tentativa de tornar mais lento o crescimento econômico, mas
"para assegurar o progresso contínuo do bem-estar econômico e uma distribuição razoável dos benefícios do
crescimento entre a população como um todo ( ... ) talvez a ameaça de escassez seja necessária para fazer
com que uma população gananciosa, que desfruta do hedonismo da afluência, se lembre da necessidade da
eficiência e da frugalidade" .14
O surgimento do Novo Ambientalismo foi parte de um processo amplo e cumulativo de mudança
social e política. A Crise de Suez, a Guerra Fria, a ameaça de guerra nuclear e as injustiças da desigualdade
racial geraram interesse público e mesmo protestos de massa no fmal dos anos 50. Concomitantemente, um
crescimento econômico constante e prolongado ocorreu em todas as economias industrializadas. A
justaposição dessas duas tendências fez, em última análise, crescer a frustração com os governos e a crença
de que somente a ação direta poderia trazer à atenção do establishment político as questões externas ao
paradigma político convencional.15 Isso poderia ser estendido aos anos 60, à visão de que a degradação
ambiental significava uma ameaça tão grave para a segurança material quanto a guerra; daí os muitos
paralelos entre o ambientalismo e o movimento contra a guerra. Ambos eram movimentos pela reforma
social e ambos deviam muito de seu apoio aos ativistas jovens e de bom nível educacional.
Nos Estados Unidos os anos 50 foram tempos de calma, equanimidade, consenso e afluência
aparentes. As grandes empresas restabeleceram a reputação que tinham perdido na Depressão. Para os
americanos com nível adequado de renda foi um período de conforto material e tempo de lazer crescente.
Comentando o enfraquecimento do conservacionismo americano em 1952, Steven Raushenbush observou
que "a função última de todas as matérias-primas do mundo é sustentar o alto padrão de vida americano" e
que a conservação corria perigo de tornar-se uma causa perdida." Em meados da década os Estados Unidos,
com 6% da população mundial, produziam e consumiam mais do que um terço dos bens e serviços
produzidos no mundo.17 Famílias grandes eram consideradas desejáveis e a taxa de mortalidade estava
declinando, portanto a população crescia rapidamente. Os intelectuais se afastaram da crítica social, a classe
média tinha fé na capacidade do governo - no contexto do boom econômico - de dar assistência a problemas
como poluição, condições de vida nos guetos e desemprego. Também os britânicos desfrutaram alguns dos
prazeres do hedonismo da afluência. Mesmo que o boom dos anos de Macmillan tenha sido apenas breve e
superficial, pareceu que os britânicos nunca tinham estado tão bem. A economia keynesiana parecia ter
resolvido o problema do pleno emprego e crescimento econômico constante, e os jovens tinham mais renda
do que jamais haviam tido antes, o que lhes dava independência crescente.
Todavia a satisfação e o conformismo do final dos anos 50 eram visivelmente superficiais, pois havia
na realidade um descontentamento profundo e latente, particularmente entre

66

os jovens. Embora os Estados Unidos parecessem calmos e equânimes nos anos 50, e os anos 60, em
contraste, fossem marcados pelo ativismo e por mudanças na política e na sociedade, as lutas que trouxeram
as reformas dos anos 60 já estavam emergindo nos anos 50.18 A prosperidade do pós-guerra obscureceu a
realidade mais significativa de desigualdade econômica; ainda que a parcela da renda nacional recebida
pelos 5% mais ricos da população americana tenha caído durante a Depressão e os anos de guerra, a mesma
permaneceu constante em cerca de 21 % daí em diante.19 Do mesmo modo, os 20% mais pobres recebiam
constantes 5% da renda nacional. Para os trabalhadores industriais a vida tomou-se estúpida e mecânica, com
pouco lugar para orgulho pessoal nos bens produzidos em massa e a perspectiva de automação provocou um
sentimento de insegurança.
Na afluência dos anos 50, os jovens americanos de classe média gozavam de confortos domésticos e
educação prolongada, e eram geralmente conservadores e conformistas. Mas tomaram-se cada vez mais
críticos da complacência e aparente indiferença de sua sociedade. O tempo de lazer aumentado e uma maior
prosperidade ajudaram a deslocar a atenção da acumulação e da fruição de segurança material, e o próprio
conforto da existência de classe média serviu para atrair a atenção para a desigualdade social. Os jovens
estavam alarmados com a perspectiva de conflito nuclear que parecia ser concomitante à criação do que
Eisenhower descreveu como o "complexo militar industrial" - o acúmulo de poder pelas elites militares e
empresariais.
Os defeitos da sociedade afluente tomaram-se cada vez mais evidentes no começo dos anos 60, em
parte através de suas conseqüências ambientais. Em 1958 John Kenneth Galbraith, então professor de
economia em Harvard, publicou The Affluent Society. Motivado em parte pela reativação do mercado no
pós-guerra e pela crença de que todas as doenças sociais poderiam ser curadas com mais produção, como
também pela preocupação com o notável grau de pobreza e privação que persistia num país que gozava de
prosperidade e riqueza aparentes, ele criticava o consumo materialista. A produção aumentada não era o
teste final da realização social, advertia.20 Downs sugere que a afluência trouxe consigo um crescimento
marcante nas aspirações e padrões dos americanos relativamente a como deveria ser o meio ambiente. A
insatisfação crescente com o "sistema" nos Estados Unidos não resultou principalmente de um desempenho
pior desse sistema, argumenta. Ao invés disso, originou-se de uma rápida escalada nas aspirações das
pessoas quanto a como deve ser o desempenho do sistema.21

O ADVENTO DA ERA ATÔMICA

A primeira questão ambiental verdadeiramente global da era do pós-guerra - e talvez a primeira até então -
foi o perigo de precipitação nuclear provocada por testes. Depois da primeira explosão de uma bomba
atômica pela União Soviética em 1949, o desenvolvimento dos artefatos nucleares entrou numa fase nova e
competitiva. Os Estados Unidos lançaram seu programa de testes em 1951, seguidos pela Grã-Bretanha e
pela URSS em 1953, e pela França em 1960. Os primeiros testes britânicos foram realizados na Austrália e
no Pacífico, o primeiro artefato tendo sido detonado em uma fragata britânica perto da costa australiana, em
outubro de 1952.22 Onze outros testes importantes foram realizados ali e no interior do sul da Austrália até
1957, e outros mais entre 1956 e 1958, nas cercanias da ilha Christmas. O segredo oficial que cercava os
testes encorajou a circulação de rumores alarmantes, o que gerou uma forte oposição local.* A França
começou seus testes

* A retomada do interesse pela questão no final da década de 1970 resultou na criação de uma Comissão Real, que apresentou
relatório em dezembro de 1985 revelando que os testes haviam sido realizados sem a devida atenção para com as condições
meteorológicas ou os perigos advindos aos aborígines, e que as tentativas britânicas de retiraros resíduos tóxicos em 1967 haviam
sido completamente inadequadas; amplas áreas ao redor do local dos testes permaneceram contaminadas e inacessíveis.

67
na Argélia, mas calculou mal as condições meteorológicas, o que resultou numa nuvem radioativa que
cruzou o mar, penetrando na península ibérica.23 O local de testes francês foi subseqüentemente transferido
para a Polinésia francesa.
Entre 1945 e 1962, um total de 423 detonações nucleares foram anunciadas pelos Estados Unidos
(271), URSS (124), Grã-Bretanha (23) e França (5).24 As tentativas de chegar a um acordo de
desarmamento nuclear começaram semanas depois da bomba de Hiroshima, mas o primeiro resultado
concreto não surgiu antes da assinatura, em 1963, do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, que
pôs fim aos testes atmosféricos realizados pelos Estados Unidos, URSS e Grã-Bretanha. Ward, Dubos e
Commoner afirmam que o tratado foi a primeira vitória na campanha para salvar o meio ambiente.25
Maddox tem uma visão diferente, sugerindo que, embora a questão da radioatividade no meio ambiente
fosse um elemento da equação, os países signatários do tratado agiam mais devido ao fato de já haverem
completado o desenvolvimento das ogivas transportadas por mísseis de longo alcance, calculando portanto
que o tratado ajudaria a postergar o momento em que outras nações poderiam tornar-se potências nucleares.
Desse modo, podiam dar-se ao luxo de aceitar o argumento ambiental.26 O tratado terá sido realmente uma
vitória do ambientalismo?
Uma das primeiras indicações dos custos ambientais dos testes nucleares aconteceu em outubro de
1952, quando uma chuva de granizo anormalmente radioativa ocorreu a 2.820 quilômetros do primeiro local
de testes britânico, na costa da Austrália.27 Em abril de 1953 uma chuva radioativa caiu sobre o estado de
Nova York, aparentemente contaminada pelos testes nucleares realizados em Nevada. O debate sobre esse
novo fenômeno espalhou-se rapidamente no seio da comunidade científica.28 Em The Closing Circle, Barry
Commoner relembrou que "aprendeu sobre o meio ambiente com a Comissão de Energia Atômica dos
Estados Unidos em 1953. Até então, como a maioria das pessoas, havia considerado o ar, a água, o solo e
nosso meio natural como mais ou menos garantidos".29 Naquele momento passou a ficar profundamente
interessado pela nova e destrutiva força da energia nuclear. Os testes se tornaram um assunto de apreensão
pública mais ampla em março de 1954, quando um teste com uma bomba de hidrogênio americana, cujo
nome de código era BRAVO, foi realizado sobre o atol de Bikini, no Pacífico ocidental. A quantidade de
partículas espalhadas pela explosão foi duas vezes superior à esperada e uma mudança imprevista de ventos
levou as cinzas radioativas na direção das ilhas Marshall, habitadas, em vez de caírem no oceano como
planejado. Cerca de 18 mil quilômetros quadrados de oceano foram seriamente contaminados por uma
nuvem radioativa que se estendeu por 410 km, alcançando 75 km de largura.
Duas semanas depois do teste, uma traineira japonesa que pescava atum, a Fukuryu Maru Nº 5
(Dragão Afortunada), retomou ao porto com 23 dos membros de sua equipagem sofrendo de "doenças da
radiação. A embarcação havia estado na direção do vento do teste BRAVO; se ela estava dentro ou fora dos
"limites" fixados pelos Estados Unidos não ficou claro. Verificou-se que os peixes que chegaram
subseqüentemente aos portos japoneses, em embarcações provenientes da mesma região, estavam
contaminados. Toda a Asia, observa Voss, "galvanizou-se" numa ação para impedir novos testes.30 Albert
Schweitzer, Albert Einstein e o papa Pio XII juntaram-se ao protesto. A morte de um dos tripulantes do
Fukuryu Maru seis meses mais tarde desencadeou uma onda de antiamericanismo no Japão, e trouxe tensão
às relações americano-japonesas.31 As coisas talvez tenham se tornado piores - então e mais tarde - pelo
segredo com que a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos enfocava a questão da precipitação
nuclear, levantando suspeitas públicas de que alguma coisa assustadora estava sendo ocultada.
A mídia e a opinião pública nos Estados Unidos estavam, entretanto, divididas sobre a cessação dos
testes. Pesquisas de opinião indicavam que uma maioria firme (embora inconsistente) apoiava a continuação
dos testes, com as estatísticas flutuando de acordo com o nível das tensões da Guerra Fria (por exemplo, uma
maioria de 71 % a favor dos testes em 1954 mudou para uma maioria de 77% contra em 1959, mas voltou a
55% a favor

68

em 1961, em seguida ao incidente do U-2 e à crise dos mísseis cubanos),32 Embora a conferência de
Genebra sobre o desarmamento em 1955 (e discussões subseqüentes das Nações Unidas) tenha fracassado,
os Estados Unidos, a URSS e a Grã-Bretanha anunciaram uma moratória dos testes nucleares, dependente de
discussões futuras. Os testes se transformaram num tema de destaque durante a campanha presidencial de
1956; motivado pelo incidente BRAVO, Adlai Stevenson exigia a proibição dos testes com bombas de
hidrogênio. Durante sua campanha eleitoral de 1960 John F. Kennedy comprometeu-se a buscar um acordo
sobre os testes nucleares.
Na esteira de todos os testes cresceram os temores em relação à presença de estrôncio 90 na
atmosfera e de outros ingredientes tóxicos da precipitação nuclear. Em audiências diante de uma
subcomissão do Senado sobre desarmamento no final dos anos 50, cientistas, líderes religiosos e
congressistas deram voz às preocupações com os perigos da precipitação nuclear, particularmente para a
saúde humana.33 Mas a opinião estava dividida; havia aqueles - notadamente Edward Teller, então consultor
científico de primeiro escalão da administração Eisenhower - que argumentavam que a radiação era uma
preocupação menor. Na visão de Barry Commoner os testes revelaram quão pouco se sabia sobre o meio
ambiente, pois supunha-se enganosamente que uma parte importante da precipitação poderia permanecer
durante anos na estratosfera, em segurança; na realidade, a mesma retornava à terra num período de
meses.34 Em 1958 Commoner e outros da Universidade de Washington em St. Louis formaram o Comitê de
Saínt Louis para Informação Nuclear, com o objetivo de atrair atenção para as implicações da precipitação
nuclear.
Apesar desses temores a precipitação foi inicialmente apenas uma preocupação pública menor. Em
1961 somente 21 % dos americanos pensavam que havia na atmosfera precipitação suficiente para constituir
um perigo.35 Entretanto a familiaridade com a precipitação aumentou. Em 1955 somente 17% dos
americanos podiam defrnir o fenômeno da precipitação corretamente; em 1961 a estatística havia crescido
para 57%.36 Como segmentos da mídia (e o próprio presidente Kennedy) se mostraram crescentemente
inclinados a apoiar um tratado de proibição de testes durante 1963, não somente o apoio popular ao tratado
aumentou, mas também cresceu a importância da precipitação como questão. Em julho de 1963 52% deram
apoio irrestrito ao tratado e 12% citavam a precipitação como a principal consideração. Em setembro as
cifras eram respectivamente de 81% e 21%, com a precipitação substituindo uma necessidade genérica de
acabar com os testes como a justificativa mais freqüente para o tratado.37
Os pontos de vista nos círculos governamentais americanos eram igualmente divididos. Kennedy
estava profundamente preocupado com a questão da precipitação,38 assim como seus conselheiros
científicos e a Agência de Controle e Desarmamento, criada em 1961. Em seu discurso na rádio e televisão
para a nação, em julho de 1963, Kennedy apresentou a abolição da precipitação como a principal vantagem
do tratado, superada somente pela redução da tensão mundial. Entretanto, em outros órgãos governamentais
e no Senado, a questão era muito menos importante do que as considerações militares; alguns senadores
chegavam a entender a contaminação como um preço aceitável para a continuação dos testes.39 As posições
dos congressistas variavam desde a do senador Wayne Morse, que pensava que o controle da precipitação
era o objetivo central do tratado, até a do senador republicano conservador Strom Thurmond, que descartava
a questão da precipitação como "propaganda", ou a do senador Bourke Hickenlooper, que argumentava que
a radiação, em quantidades moderadas, poderia na verdade ser benéfica para a saúde.40
Em 1961, com as negociações sobre uma proibição dos testes visivelmente paralisadas,41 a URSS e
os Estados Unidos retomaram seus testes, seguidos em 1962 pela Grã-Bretanha. A conferência sobre
desarmamento em Genebra foi adiada, para ser retomada em julho de 1963, depois de contatos bilaterais
entre os Estados Unidos e a URSS. Estava claro então que havia uma oposição internacional crescente aos
testes atmosféricos, motivada parcialmente por aumentos significativos de precipitação em conseqüência de
uma série

69

de testes em 1962. Além disso, os estoques de armas nucleares americanos haviam atingido, em 1962, um
nível tão alto que houve apreensão relativamente a problemas de comando que ocasionassem uma guerra
acidental.42 Em agosto o Tratado de Proibição Parcial de Testes foi fmalmente assinado em Moscou pelos
Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha, proibindo os testes no ar, acima da atmosfera ou no mar
(mas não no subsolo). O tratado final - para desânimo de Kennedy - só pôde ser parcial, uma vez que os
Estados Unidos e a URSS foram incapazes de chegar a um acordo quanto aos métodos de verificar seu
cumprimento no tocante aos testes subterrâneos. Commoner argumenta que um dos benefícios do tratado foi
ter estabelecido que as armas nucleares eram um fracasso científico, na medida em que, a despeito do
resultado da guerra nuclear, nenhuma das duas potências principais sobreviveria ao holocausto - o fracasso
da "defesa" nuclear reside, assim, nos desastres ecológicos que a mesma desencadearia. */43
Afirmar que o Tratado de Proibição Parcial de Testes foi o primeiro acordo ambiental não é o
exagero que parece ser à primeira vista. A questão da segurança global teria sido, em si mesma, razão
suficiente, mas o elemento ambiental era um fator chave de apoio, mesmo que aparentemente
desempenhasse um papel menor até bem pouco antes da assinatura, de fato, do tratado. O próprio preâmbulo
do tratado apresenta seu objetivo principal como a "obtenção, o mais rápido possível, de um acordo sobre
desarmamento geral e completo ( ... ) que poderia pôr um termo à corrida armamentista"; o desejo de "pôr
um termo à contaminação do meio ambiente humano por substâncias radioativas" era um objetivo
secundário.44 No texto do tratado apresentado na conferência sobre desarmamento de dezessete nações em
Genebra, em agosto de 1962, o preâmbulo não fazia nenhuma menção à precipitação nuclear; essa cláusula
em particular foi incluída somente nos meses finais das negociações.45 Independentemente das motivações
fundamentais do tratado, entretanto, a questão da precipitação sem dúvida alertou muitas pessoas para a idéia
de que a tecnologia poderia causar contaminação ambiental irrestrita e que todos poderiam ser afetados;
houve a primeira alusão ao conceito de um meio ambiente global e a problemas ambientais universais. Esse
conceito foi então adicionalmente reforçado pela publicação de Silent Spring.

RACHEL CARSON E SILENT SPRING

O acontecimento isolado mais freqüentem ente apontado como significativo do começo da revolução
ambiental foi a publicação, em 1962, de Silent Spring, de Rachel Carson.** O livro detalhou os efeitos
adversos da má utilização dos pesticidas e inseticidas químicos sintéticos, gerou muita controvérsia e
aumentou a consciência pública quanto às implicações da atividade humana sobre o meio ambiente e quanto
a seu custo, por sua vez, para a sociedade humana. Shea argumenta que o livro mostrou pela primeira vez
"que um relato meticulosamente pesquisado e lucidamente escrito sobre uma tecnologia imperfeita era capaz
de despertar as pessoas para que exigissem um enfoque mais racional dos problemas do meio ambiente".46
Para Schnaiberg, o livro oferecia uma visão de mundo sinistra, na qual as forças que minam o ecossistema
operavam muito menos acintosamente, mas com

* Este conceito foi elaborado no debate sobre o inverno nuclear no começo da década de 1980.
** RacheI Carson (1907-1964) foi bióloga marinha por formação. Estudou genética na Universidade Johns Hopkins, onde chegou
a lecionar, e na Universidade de Maryland. Em 1936 incorporou-se à Repartição de Pescados dos EUA. Começou a escrever para
jornais em 1937. Seu primeiro livro, Under the Sea Wind, foi publicado em 1941. Tornou-se editora-chefe das publicações do
Serviço de Peixes e Animais Selvagens dos EUA, chegando a escritora de tempo integral e celebridade em 1951, com a publicação
de The Sea Around Us.

70

mais impacto do que qualquer observador leigo poderia apreciar.47 O livro expôs algumas das infra-
estruturas sociais, econômicas e científicas que com conhecimento de causa permitiram a ocorrência de
degradação ecológica.
Rachel Carson já havia estabelecido uma reputação como escritora durante os anos cinquenta, com a
publicação de livros como The Sea Around Us (1951) - um best-seller nos Estados Unidos por noventa e seis
semanas, traduzido em trinta e três línguas - e On lhe Edge of the Sea (1955). Ambos os livros eram estudos
pouco polêmicos sobre história natural e refletiam o interesse fundamental da autora: o mar. Silent Spring,
pelo qual é agora mais lembrada, diferiu desses livros no sentido de que nasceu de suas observações sobre as
ameaças contra a natureza. À medida que foi se familiarizando com a questão dos pesticidas químicos,
observa Graham, "ela viu claramente que o homem, mais do que jamais havia feito, relacionava-se com a
terra não com humildade, mas com arrogância".48 Ao lado da ameaça de guerra nuclear, escreveu Carson,
"o problema central de nossa era ( ... ) tornou-se a contaminação do meio ambiente humano total com ( ... )
substâncias de incrível capacidade de dano" .49 A utilização de produtos químicos para controlar as pragas
de insetos, advertia, estava interferindo com as defesas naturais do próprio meio ambiente; "nós permitimos
que esses produtos químicos fossem utilizados com pouca ou nenhuma pesquisa prévia sobre seu efeito no
solo, água, animais selvagens e sobre o próprio homem".50
O interesse de Carson pelos efeitos do DDT surgiu em 1945, quando trabalhava para o Serviço de
Peixes e Animais Selvagens dos E.U.A. 51 Silent Spring não foi em absoluto a primeira advertência pública
sobre o impacto ambiental dos pesticidas persistentes; tais prognósticos haviam sido feitosjá em 1945. */52
(As propriedades inseticidas do DDT foram descobertas em 1939. Barato e fácil de fazer, foi aclamado como
o pesticida universal e tornou-se o mais amplamente utilizado dos novos pesticidas químicos, antes que seus
efeitos ambientais tivessem sido intensivamente estudados.) A mensagem de Silent Spring era clara e direta,
e o livro - impulsionado pela publicação prévia em série no New Yorker - tornou-se um best-seller imediato,
vendendo meio milhão de cópias. Durante o ano de 1963, foi publicado em 15 países, tendo sido
imediatamente atacado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e por várias companhias da
indústria química, uma das quais tentou ostensivamente suspender sua publicação.53 O livro também foi
vítima do ceticismo com que os cientistas freqüentemente saúdam os trabalhos que tentam popularizar
informações científicas. Carson foi variadamente criticada por utilizar de maneira imprópria a palavra
"mutagen", citar erradamente ou deturpar os escritos de autoridades médicas, dar crédito a teorias sobre o
câncer que eram especulativas ou que já haviam sido descartadas e assim por diante.54 Apesar dos
detratores, o presidente Kennedy ficou impressionado o bastante para se referir ao trabalho de Carson numa
conferência de imprensa em agosto de 1962 e para solicitar a seu consultor científico que estudasse a questão
dos pesticidas. Um grupo especial do Comitê de Consultoria Científica da Presidência foi criado e produziu,
em maio de 1963, um relatório crítico em relação à indústria de pesticidas e ao governo federal. O relatório,
observou Science, era "uma justificação bastante completa" de Silent Spring, Ao corroborar a tese de Carson,
observa Brooks, o relatório do comitê mudou a natureza do debate; ninguém mais podia negar que o
problema existia.55
Por que Silent Spring teve tanta influência? Seu impacto advinha de uma combinação de seu
moralismo, da controvérsia que causou e do efeito que produziu, tirando a questão dos pesticidas dos
círculos acadêmicos e das publicações técnicas, e colocando-a na arena

* Durante o ano de 1945, a Harper's, o Atlantic Monthly e o NewYorker publicaram artigos sobre os perigos do DDT para a
natureza, Colegas de Carson no Serviço de Peixes e Animais Selvagens escreveram em publicações científicas sobre as possíveis
conseqüências de longo prazo do DDT. A própria Rachei Carson submeteu um artigo sobre o DDT à Reader's Digest, mas ele foi
rejeitado.52

71

pública. Enquanto quase todos os escritos anteriores sobre o assunto haviam sido escritos com terminologia
econômica, observa Graham, Silent Spring era essencialmente um livro ecológico; foi, além disso, concebido
para chocar as pessoas no sentido de uma ação contra o abuso dos pesticidas químicos.56 Fox menciona o
fracasso relativo de um livro publicado seis meses antes (Our Synthetic Environment, de Murray Bookchin,
escrito sob o pseudônimo de Lewis Herber), o qual examina um espectro amplo dos efeitos incidentais da
tecnologia moderna, desde a poluição do ar até a contaminação do leite, e sugere que o livro fracassou por
ser demasiado abrangente.57 Carson, em contraste, concentrou-se numa única questão. Pode ter sido
ocasionalmente imprecisa e alarmista, mas sua mensagem essencial permaneceu. Os pesticidas se tornaram
uma questão de interesse público não só nos Estados Unidos, mas em toda parte. Silent Spring pode ser
responsabilizado por ter instigado mudanças nas políticas local e nacional nos Estados Unidos (por exemplo,
alguns estados proibiram a pulverização aérea de DDT e os procedimentos de registro dos pesticidas
químicos foram aprimorados) e em vários países europeus (por exemplo, Grã-Bretanha, Suécia, Dinamarca e
Hungria). O debate público sobre pesticidas continuou através dos anos sessenta e doze das substâncias mais
tóxicas listadas em Silent Spring foram proibidas ou sofreram restrições.58

DESASTRES AMBIENTAIS E ALARME PÚBLICO

A inquietação difundida pelos efeitos da precipitação nuclear e pelas advertências de Silent Spring se
combinou no período de 1966-1972 com uma série de "desastres ambientais" - acontecimentos que
figuraram em manchetes de jornal e tiveram um efeito catalizador sobre os temores ambientais.59 Houve
desastres ambientais comparáveis antes, alguns deles em passado muito recente. Em 1948, por exemplo,
vinte pessoas morreram e 43% da população de Donora, Pensilvânia, caíram doentes em conseqüência de
um nevoeiro sulfuroso. Uma mistura de nevoeiro e fumaça (o smog) típica do inverno desceu sobre Londres
entre 5 e 10 de dezembro de 1952, tendo sido responsável, segundo o Conselho do Condado de Londres,
pela morte imediata de 445 pessoas; ao todo, mais de quatro mil pessoas morreram, a maioria por
complicações circulatórias e respiratórias de longo prazo provocadas pelo nevoeiro.60 O acontecimento foi
diretamente responsável pela aprovação na Grã-Bretanha da Lei do Ar Limpo, em 1956. Em outubro de
1957 a usina nuclear de Windscale pegou fogo no norte da Inglaterra devido a um super aquecimento dos
reatores. O fogo ardeu por mais de 85 horas, mas, embora tenha havido liberação de radioatividade, a
contaminação foi limitada.61 Ainda que o acontecimento tenha causado profunda preocupação na indústria
de energia nuclear, o público e os meios de comunicação de massa - ainda não familiarizados com o
processo da energia nuclear e, por isso, com as implicações de tais acidentes - mal chegaram a reagir. Além
disso a energia nuclear ainda estava em sua infância e era saudada como o combustível do futuro.
Os acidentes que ocorreram a partir dos meados dos anos 60 tiveram impacto muito maior por causa
do aumento da sensibilidade pública para os problemas ambientais. Um dos primeiros na nova leva de
desastres foi o desmoronamento, em outubro de 1966, de uma pilha de resíduos de mina acima do povoado
de Aberfan, no sul do País de Gales, o qual resultou na morte de cento e quarenta e quatro pessoas, 116 das
quais crianças da escola local. StanJey Johnson sugere que Aberfan foi importante não por seu lugar de
destaque na genealogia da poluição, mas porque abriu caminho para uma maior compreensão das
implicações da poluição.62 Ainda mais importante do que os riscos das áreas abandonadas, entretanto, era o
problema da poluição pelo petróleo, que tinha efeitos colaterais imediatos, visíveis e freqüentemente
catastróficos, portanto, de muito interesse para os editores de notícias.
O número e o tamanho dos navios petroleiros aumentou dramaticamente depois da Segunda Guerra
Mundial. Em 1950 havia somente um petroleiro com capacidade maior

72

do que cinqüenta mil toneladas; pelo final dos anos 60, havia seissentos e dois petroleiros com capacidade
maior do que essa.63 O primeiro desastre importante foi o naufrágio do petroleiro Torrey Canyon em março
de 1967. Cerca de 117 mil toneladas de petróleo cru se espalharam depois que o navio se chocou contra um
recife perto da costa do extremo sudoeste da Inglaterra, entre Land's End e as ilhas Scilly. Centenas da
quilômetros do litoral da Cornualha foram poluídos. "Foi um acontecimento nacional de dimensões
internacionais", observa Stanley Johnson.64 A utilização de detergentes não testados para diluir o óleo só
fizeram aumentar o dano biológico. a incidente ilustrou dramaticamente as ameaças sofridas pelos
ecossistemas marinhos com o tráfego de embarcações petroleiras através de águas próximas à costa. Com o
custo das missões de bombardeio da Força Aérea Real que tencionavam incendiar o óleo derramado, e a
conta de seis milhões de libras para limpeza do litoral poluido, o incidente também marcou os contribuintes
britânicos - pois batia à sua própria porta - quanto aos custos financeiros da poluição. O desastre revelou a
falta de preparo do governo para tais eventualidades e as lacunas na organização de pesquisas cientificas e
no assessoramento cientifico ao governo britânico.65 A resposta do governo levou finalmente à criação da
Comissão Real sobre Poluição Ambiental, em 1969. a incidente também estava em primeiro plano nas
mentes dos signatários da Convenção Relacionada à Intervenção em Alto-Mar em Caso de Acidentes com
Poluição de Petróleo e da Convenção sobre Responsabilidade Civil para Danos Provocados por Poluição de
Petróleo.
Dois anos depois de Torrey Canyon, um jorro fora de controle na plataforma de petróleo da
Companhia Union Oil, na costa de Santa Barbara, Califórnia, espalhou poluição grave por quilômetros do
litoral californiano. Por ter o derramamento se originado numa perfuração em área instável da plataforma
continental, várias semanas foram necessárias para controlar completamente o fluxo. Foi também impossível
ter certeza quanto à quantidade precisa de petróleo derramado; as estimativas variaram enormemente.66 O
jorro acidental ocorreu em 28 de janeiro de 1969 e foram necessários dois dias para controlá-lo, mas houve
uma segunda erupção em 12 de fevereiro. O vazamento prolongou-se durante semanas e as praias ainda
continuavam sendo poluídas em julho. Embora desastres muito maiores tenham acontecido desde então (por
exemplo, dois milhões de barris de petróleo foram derramados após uma colisão entre petroleiros no Caribe
em 1979 e 3,1 milhões de barris no jorro fora de controle do poço mexicano Ixtoc I, em 1979-1980, bem no
meio do golfo do México), o derramamento do Torrey Canyon e de Santa Barbara foram os primeiros
acidentes desse tipo e, por isso, tiveram um impacto público muito maior.
"Santa Barbara não foi nem o maior nem o mais assustador desastre ambiental experimentado pela
nação", ponderou o Conselho sobre a Qualidade Ambiental em 1979; "ninguém foi morto ( ... ) ninguém
sofreu danos permanentes à saúde ( ... ) um número pequeno de pessoas foi ameaçado ( ... ) Entretanto, o
acontecimento dramatizou o que muitas pessoas viam como insensibilidade imprevidente e falta de interesse
da parte do governo e empresários a respeito de uma questão que se havia tornado profundamente
importante para elas. Isso enfatizou, para grande parte dos americanos, o sentimento de que a proteção de
seu meio ambiente não aconteceria por si só, mas requeria seu apoio ativo e envolvimento.67 As
conseqüências do derramamento foram reforçadas pela indignação da população de Santa Barbara,
desproporcionalmente originária da classe alta e média-alta.68 Johnson 69 e Molotch 70 vêem significado
naquilo que o derramamento revelou da mudança nas prioridades políticas e na natureza do poder nos
Estados Unidos. a secretário do interior Walter Hickel tomou providências imediatas, interrompendo a
atividade dos poços na área do canal de Santa Barbara, mas em 24 horas ele havia ordenado o reinicio das
perfurações e do bombeamento, confirmando as piores apreensões dos residentes locais sobre as prioridades
governamentais.71
Torrey Canyon e o derramamento de Santa Bárbara foram os vazamentos de petróleo

73

mais divulgados da época, mas não se constituíram em absoluto nos únicos; em 1968, foram relatados 714
derramamentos de petróleo (de mais de cem barris) somente em águas americanas, e em 1969 mais de mil.72
Ao todo, há uma estimativa de que dez mil vazamentos de petróleo e de outros materiais perigosos poluíram
anualmente as águas navegáveis dos Estados Unidos durante o final da década de sessenta.73 Poluições de
outro tipo começaram então a capturar a imaginação de um público mais amplo. A precária condição do lago
Erie foi com freqüência destacada como um dos efeitos extremos da poluição; Barry Commoner, por
exemplo, dedicou um capítulo de The Closing Circle a esse assunto.74 O lago foi por muito tempo usado
como esgoto para os efluentes orgânicos de cidades industriais importantes como Detroit e Toledo. A
produção pesqueira do lago Erie começou a diminuir na virada do século e tornou-se progressivamente
menor. A produção anual de cisco,* por exemplo, que antes constituía 50% da produção do lago, caiu de
6.187 toneladas antes dos anos trinta para 3,6 toneladas entre 1963-1964. Poluição era a suspeita, mas foram
necessários vários anos de levantamento biológico antes que pudesse ser confirmado, no final dos anos
cinquenta, que o lago sofria de eutrofia. **
Os custos humanos da poluição ambiental foram ilustrados no final dos anos sessenta e começo dos
setenta pelos acontecimentos de Minamata, no Japão. A produção química havia começado nas margens da
baia de Minamata (defronte a Nagasaki) em 1939 e catalisadores gastos, contendo mercúrio, eram
despejados na baía. Em 1953 observou-se que gatos e pássaros na área estavam agindo de maneira estranha
e, em 1956, já eram observadas desordens neurológicas entre as famílias de pescadores. Concentrações de
mercúrio foram descobertas nos peixes que vinham da baia e em residentes locais que morreram por causa
do que ficou conhecido como a "doença de Minamata". A companhia química envolvida negou a existência
de qualquer relação entre o mercúrio e a doença, mas, em 1961 e 1964, pagou pequenas indenizações para as
vítimas da doença. A segunda manifestação desta ocorreu na cidade de Nügata, onde uma outra fábrica
descarregava mercúrio no rio. As vítimas de Nügata ganharam uma ação cível contraa fábrica em 1971 e, em
1973, a fábrica de Minamata foi considerada igualmente culpada, sendo obrigada a pagar indenizações
razoáveis.75
Houve outros incidentes menos conhecidos mas igualmente significativos, em outros lugares no
Japão. Em 1972 a Companhia de Mineração e Fundição Mitsui foi obrigada a pagar iridenizações para as
vítimas do itai itai, uma doença que havia surgido já em 1920 e que afligia as pessoas que bebiam água do
rio Jinzu (na costa norte do Japão central), no qual a fábrica havia despejado resíduos de cádmio, zinco e
chumbo sem tratamento por um período de várias décadas. Em Yokkaichi, no Japão central, local da
primeira refinaria de petróleo e complexo petroquímico do país, a poluição do ar - que já era um problema
desde 1959 - provocou um crescimento da incidência de doenças respiratórias. Uma ação impetrada por
nove vítimas, em 1967, resultou numa decisão a seu favor, em 1972. Estimuladas pelos resultados dos
incidentes de Minamata, Nügata, Mitsui e Yokkaichi, mais de 450 campanhas antipoluição já haviam sido
lançadas no Japão até 1971. 76 A maioria contestava o tipo de crescimento econômico unidirecional que o
Japão havia buscado desde a guerra. O controle da poluição e o tratamento dos refugos tinham prioridade
baixa no planejamento industrial japonês, o que se somou aos problemas criados pelo novo desenvolvimento
industrial de uso intensivo de energia que substituiu a indústria leve de antes da guerra.77 Ao final da década
de 60, a poluição tornou-se um problema crítico no Japão. O smog fotoquímico afligia as conurbações e se
havia espalhado em direção ao campo, a baía de Tóquio estava seriamente poluída e a produção e o consumo
de massa

* Peixe norte-americano típico da região dos Grandes Lagos. (N. do T.)


** A eutrofia ocorre quando resíduos orgânicos penetram no lago, consumindo o oxigênio e deixando muito pouco para a
sobrevivência dos peixes. A eutrofia é um processo natural cuja evolução toma normalmente milhares de anos; a poluição no lago
Erie comprimiu esse processo num lapso de décadas. (Com o passar do tempo, os lagos eutróficos tomam-se pântanos e, depois,
terra sólida.)

74

criaram uma sociedade do desperdício - cerca de 10% do lixo de Tóquio era plástico.
O efeito destes e de outros desastres ambientais foi o de atrair uma maior atenção do público para as
ameaças que recaíam sobre o meio ambiente. As pessoas estavam sensibilizadas para os custos potenciais de
um desenvolvimento econômico descuidado e passaram a emprestar um apoio crescente a uma série de
campanhas ambientais locais e nacionais, as quais recebiam ampla cobertura dos meios de comunicação de
massa. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve debate sobre um aeroporto para aviões a jato planejado
para perto do Parque Nacional de Everglades, sobre o proposto oleoduto do Alasca, as praias poluídas de
Nova York, o chumbo na gasolina e sobre os fosfatos em detergentes. Na Grã-Bretanha, em 1969, houve
debate sobre a localização do terceiro aeroporto de Londres, com os habitantes das localidades elegíveis
organizando oposição expressiva e, finalmente, coroada de sucesso. O Novo Ambientalismo substituiu as
velhas preocupações por novas. Por exemplo, uma pesquisa da National Wildlife Federation nos Estados
Unidos em 1969 mostrou que uma questão estabelecida (a poluição da água) e uma outra de interesse mais
recente (a poluição do ar e suas relações com a emissão de veículos) alcançaram o mesmo patamar de
interesse que a dos pesticidas, deixando os espaços abertos e a vida selvagem bem para trás entre as questões
encaradas como mais importantes pelo público americano.78

AVANÇOS NO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Rachel Carson e outros foram presas das críticas nos campos científicos; a falta de precisão científica era o
bastão que os oponentes e críticos do ambientalismo continuavam a brandir vinte anos mais tarde (ver o
debate sobre a poluição ácida, capítulo 9). Não havia dúvida de que uma maior precisão científica era
necessária e que o ambientalismo não poderia se alimentar indefinidamente do instinto e da suposição. Os
cientistas compreenderam isso exatamente tanto quanto os ambientalistas e o crescimento do Novo
Ambientalismo foi paralelo a novas e substanciais iniciativas na pesquisa científica internacional. Um
ímpeto importante se deu em 1957-1958 com o Ano Geofísico Internacional, o qual mostrou o quanto a
pesquisa poderia se beneficiar da cooperação internacional. Inspirados pelo ano geofísico, os membros de
escalão superior do International Council of Scientific Unions (ICSU) - notadamente o presidente, sir
Rudolph Peters - e da International Union of Biological Sciences (IUBS) falaram sobre a aplicação do
modelo do ano geofísico à pesquisa biológica. O professor C. H. Waddington, presidente da IUBS, observou
que a ecologia estava, nessa época (o começo dos anos sessenta), "emergindo de um estágio descritivo para
um estágio experimental ( ... ) Ecologistas proeminentes se comunicavam entre si, e isso tornou o período
maduro para um esforço internacional coordenado”.79 Havia preocupação de que o estudo da biologia
ambiental estivesse atrasado em relação a outros campos, tais como a biologia celular e a biologia molecular.
Depois de discussões entre a ICSU, IUBS, IUCN e biólogos de um sem-número de países, o
Programa Biológico Internacional (IBP - Intemational Biological Programme) foi lançado em julho de 1964.
Seu tema era "a base biológica da produtividade e do bem-estar humano"; seus objetivos eram promover o
estudo internacional da produção orgânica, o potencial e usos de recursos naturais novos e existentes e a
adaptação do ser humano às condições em transformação. Era uma resposta direta às ameaças sofridas pelos
ecossistemas naturais que eram, agora, objeto de tanta atenção. O prazo de um ano era visto como um
período muito curto para coletar um corpo significativo de informações biológicas e, assim, foram
planejadas três fases, estendendo o IBP até 1974.
O entusiasmo com o IBP não era em absoluto universal. Por um lado, poucos questionavam a
necessidade de uma melhor compreensão da biologia ambientaI e os biólogos percebiam que o somatório
dos esforços nacionais não estava nem perto de acompanhar as futuras necessidades do mundo em termos de
parques nacionais, reservas naturais e

75

"laboratórios de campo". A Grã-Bretanha era, provavelmente, o mais entusiástico patrocinador do IBP,


apoiada pela maioria dos países das Europas oriental e ocidental. Por outro lado, havia biólogos que sentiam
que programas científicos nacionais eram mais adequados e temiam a dispersão de fundos para os programas
do IBP. Os Estados Unidos, onde a estrutura e as prioridades da pesquisa biológica eram muito diferentes,
desde o começo se opuseram ao IBP (embora tenham fornecido, em seguida, apoio ativo).80
A carência de financiamento demonstrou ser um problema maior, em particular porque relativamente
poucos países possuíam fundos para propiciar um apoio continuado. A entrada financeira total do IBP desde
1962 até 1974 foi de 1,88 milhão de dólares, dos quais 43% vieram de cotas nacionais e contribuições
especiais, 15% de bolsas, empréstimos e contratos com a UNESCO, e 12% de publicações.81 Mesmo assim
o IBP era geralmente visto como um sucesso. O modus operandi do IBP era definir uma questão, reunir uma
pequena equipe de especialistas competentes, criar um plano de ação, colocá-lo em operação e, finalmente,
avaliar seus resultados. Esse procedimento colocou especialistas em diferentes países em contato uns com os
outros. Isso encorajou a pesquisa ecológica em muitos deles, produziu métodos de pesquisa confiáveis, teve
um efeito catalizador sobre os novos programas de pesquisa ambiental 82 e produziu quarenta volumes de
descobertas. Holdgate e colegas acreditam que esse processo produziu um notável impacto, ao sensibilizar o
mundo para as ameaças contra a biosfera global e, como tal, foi um importante aporte para a conferência de
Estocolmo 83 (ver capítulo 5). A UNESCO se interessou particularmente pelo programa e o IBP, por algum
tempo, foi concomitante com e transferiu interesses para o subseqüente programa da UNESCO, O Homem e
a Biosfera (ver capítulo 9). Se o IBP tinha um defeito, era o de ser grande e ambicioso demais. Bourlière
observou que o próprio nome era enganoso e que deveria ser chamado, mais realisticamente, Programa
Ambientalista Internacional.84

A INFLUÊNCIA DE OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS

No final das décadas de 50 e 60 várias questões sociais e políticas galvanizaram massas da população -
particularmente os jovens - em protestos, o que criou um novo clima de intensificado ativismo público, do
qual se beneficiou o ambientalismo. As primeiras de tais questões nos Estados Unidos do pós-guerra foram a
pobreza e o racismo. Em dezembro de 1955 os trabalhadores negros de Montgomery, Alabama, começaram
a boicotar o sistema de ônibus da cidade para protestar contra a segregação nos coletivos. Isso deu ao
movimento pelos direitos civis o incentivo necessário, o qual se fortaleceu passo a passo nos 12 anos
seguintes. Schnaiberg sugere que esse foi o primeiro movimento social que se voltava para (a) a mobilização
das energias de uma parcela substancial da população universitária (deslocando seus interesses dos objetivos
privados para os públicos) e (b) estender e desenvolver novas técnicas de participação na contra posição a
forças sociais existentes.85 Inspirados pelos exemplos dos estudantes negros que promoviam manifestações
contra o preconceito racial e as escolas segrega das no final dos anos cinquenta, alguns estudantes brancos
esperavam encorajar a democracia social, acreditando idealisticamente que isso poderia ser realizado de
maneira rápida e indolor, sem revolução.
Não havia laços formais entre os movimentos por direitos civis e ambiental; ambos tinham sem
dúvida valores diferentes e clientelas muito diferentes. Muitos estudos (no final dos anos 60 e desde então)
argumentaram que o ambientalismo era elitista e que retirava a maior parte de seu apoio da classe média
(principalmente branca).*/86 Para os

* Um levantamento de 1973 do Centro acional pela Ação Voluntária revelou que 98% dos membros das organizações ambientais
americanas eram brancos, 65% eram universitários graduados, 35% eram profissionais liberais e 53% tinham renda familiar
superior a 15 mil dólares americanos.86

76

cidadãos negros dos Estados Unidos, as questões mais imediatas e urgentes eram ajustiça econômica e social
e os direitos civis. Enquanto os pobres lutavam por trabalho, educação e igualdade política e social, o lobby
ambientalista incluía entre seus objetivos reivindicações aparentemente não essenciais como a proteção da
vida selvagem. Para muitos ativistas negros o movimento ambientalista até ameaçava desviar os dólares e a
consciência da classe média. Durante os anos sessenta os segmentos mais radicais do movimento pelos
direitos civis começaram a excluir liberais brancos. O jornalista radical James Ridgeway chegou a ponto de
sugerir que o movimento ecológico era remoto, separado e "isolado da onda revolucionária que estava
varrendo a sociedade americana ( ... ) [o movimento] não tem posição sobre guerra, repressão política,
negros, pobres, ou qualquer outro fator que tenha criado correntes de tensão na sociedade".87 Entretanto, o
movimento pelos direitos civis mostrou o que poderia ser feito através do protesto de massas, e as técnicas
empregadas por Martin Luther King e outros lideres dos direitos civis para levar a cabo uma confrontação
pacífica com a autoridade sem dúvida educaram uma nova geração nos métodos de protesto efetivo.
Em termos da influência que teve ao alertar uma geração para os problemas sociais e métodos de
protesto, o equivalente britânico mais próximo do movimento pelos direitos civis foi a Campanha para o
Desarmamento Nuclear. A crise de Suez e a insurreição húngara de 1956 criaram uma nova disposição de
propósito idealista na esquerda britânica, O que deu origem a um espírito de cruzada, a um novo socialismo
humanista e à desconfiança em relação às velhas ideologias e instituições.88 A corrida armamentista nuclear
era vista como sintomática dos problemas da velha ordem; manifestações durante o começo dos anos
cinquenta revelaram uma maré de interesse público sobre a questão das armas nucleares e, em 1957, o
Emergency Committee for Direct Action Against Nuclear War foi criado para protestar contra um teste
nuclear britânico na ilha Christmas. A campanha para o desarmamento foi criada em 1958. Entre 1958 e
1965 várias manifestações de massa foram realizadas, notadamente a marcha de Londres às instalações de
armas nucleares estabelecidas em Aldermaston, em Berkshire. Ainda que a maioria dos militantes do
desarmamento se tenha envolvido por razões morais, políticas ou religiosas, houve laços significativos entre
o movimento pelo desarmamento e o posterior movimento ambientalista, ao menos porque ambos os grupos
buscavam o controle racional e humano sobre a alta tecnologia criada pela sociedade industrial avançada.89
Certamente era difícil dissociar, já no começo dos anos 70, as campanhas contra armas nucleares daquelas
contra a energia nuclear.
O segundo movimento americano digno de nota - com o qual o Novo Ambientalismo tem laços
muito próximos - foi o movimento contra a guerra. Em 1965 as primeiras tropas de combate admitidamente
desembarcaram no sul do Vietnam e ataques aéreos "não retaliatórios" começaram ao mesmo tempo; o
primeiro protesto estudantil contra a guerra veio logo em seguida. O conhecimento crescente sobre a
natureza da guerra, o próprio curso da guerra (e o fato de que as previsões oficiais não tinham sido
confirmadas pelos acontecimentos), o amargor pelo vazio da postura de campanha do presidente Johnson em
1964, que se apresentou como um homem de paz, e a oposição ao recrutamento, tudo isso se combinou para
produzir uma escalada de protestos na segunda metade da década. As bases principais de apoio se
encontravam entre profissionais, estudantes e clero brancos.90 Os estudantes eram isentos da convocação e,
assim, os campi universitários tornaram-se os quartéis-generais do movimento, cujos sustentáculos morais
tiveram por um período algo em comum com o descontentamento mais amplo e profundo dos estudantes
com a sociedade. As manifestações se tornaram quase que cotidianas; somente no ano acadêmico de 1967-
1968 houve 221 protestos em 101 campi.91 O movimento contra a guerra revelou uma população dos campi
que, segundo o relatório da Comissão Cox sobre distúrbios em Columbia, era "a mais bem informada, a mais
inteligente e a mais idealista que este país jamais conheceu ... Ela é igualmente a mais sensível às questões
públicas e a mais sofisticada em suas táticas políticas.92 Na raiz do fenômeno estava uma

77

sociedade aparentemente incapaz de conviver com os ideais ensinados nas escolas e igrejas. Para muitos
estudantes ativistas, observou a Comissão Nacional sobre as Causas e para a Prevenção da Violência, a
universidade representava uma instituição social de tipo qualitativamente distinto, na qual a crítica social
radical poderia ser gerada e a mudança social construtiva promovida.93
O descontentamento estudantil ocorreu em muitas nações industrializadas no final dos anos sessenta,
o divisor de águas do protesto sendo 1968 (cf., França, Alemanha e Espanha). Lipset observa que "aprender-
se-ia a esperar por um forte crescimento no ativismo estudantil nas sociedades em que, por uma variedade de
razões, foram questionados os valores políticos e sociais aceitos, particularmente em momentos em que os
acontecimentos estão testando a viabilidade de um regime e onde o fracasso de políticas parece questionar a
legitimidade dos arranjos e instituições sociais e econômicos". 94 Searle observa três características da
inquietação estudantil do período: a busca por objetivos e valores sagrados, a criação de uma relação adversa
com a autoridade e a rejeição da autoridade.95 A preocupação e sensibilidade aumentadas dos estudantes
criaram uma clientela receptiva a todas as questões em que o sistema social e econômico dominante parecia
estar atuando contra um ideal. Da mesma maneira que a discriminação racial e a imoralidade da guerra do
Vietnam pareciam sintomáticos de uma enfermidade do sistema, a degradação ambiental pareceu ser um
item igualmente aceitável na agenda de protesto. Nash sugere que setores da população universitária, nesse
período, atribuíam os problemas sociais - desde o imperialismo até o racismo - a "atitudes não-
ecológicas".96 O descontentamento estudantil se estendeu até a obsessão por sucesso e segurança das
gerações mais velhas. Materialismo, tecnologia, poder, lucro e crescimento eram caracterizados como
símbolos do que havia de pior na sociedade ocidental e como ameaças para o meio ambiente.
O ambientalismo também deu expressão à contracultura, a qual, observa Cotgrove, era
"profundamente antiindustrial, com sua decisiva rejeição da ética do trabalho, sua condenação do
consumismo e dos valores materiais, e seu questionamento da racionalidade de uma sociedade que utilizou a
ciência para produzir o que era visto como as atrocidades desumanas da guerra do Vietnam e o dano
ecológico causado pelos inseticidas e refugos industriais".97 O movimento hippie do final dos anos sessenta
encarnou a escola moral e antiestablishment do ambientalismo nos Estados Unidos, em que o retorno às
áreas virgens e à natureza era o único caminho para manter os valores da terra num mundo materialista.
Nash acredita que não é acidental o fato de Charies Reich escolher The Greening America como título de seu
importante livro de 1971,98 porque "o mundo verde, o mundo selvagem, guardava verdades essenciais".99
O ambientalismo nos Estados Unidos amadureceu finalmente quando se encontrou com os
movimentos sociais heterogêneos da época. Chegando a seu ápice no fim de uma década de ativismo social,
a revolução ambiental, argumenta Fox, 100 tomou emprestado de todos os movimentos importantes, sendo
seu vínculo fundamental cronológico, já que os ativistas se voltaram para o meio ambiente no final dos anos
sessenta, quando os movimentos pelos direitos civis e contra a guerra perderam impulso. Tanto na Grã-
Bretanha quanto nos Estados Unidos, muitos dos jovens que apoiavam o movimento ambientalista haviam
sido introduzidos no ativismo através de suas experiências em outras campanhas de protesto.

O MODELO DOWNS

O "ciclo questão-atenção" delineado por Anthony Downs 101 é bastante revelador do advento do Novo
Ambientalismo nos Estados Unidos. Ele argumenta que o interesse do público americano pelos problemas
sociais tem vida curta, é intenso e caprichoso. A percepção pública da maioria das "crises" na vida doméstica
americana não reflete tanto mudanças nas condições reais quanto o funcionamento de um ciclo sistemático
de au-

78

mento do interesse público e, então, fastio crescente com questões importantes. Ele sugere que a ascensão e
queda de muitas questões sociais nos Estados Unidos passam por cinco estágios: (1) um estágio pré-
problema, quando um problema social indesejado existe, mas ainda não prendeu a atenção do público; (2)
um estágio de descoberta alarmada freqüentemente deflagrado por uma série de acontecimentos que revelam
a existência de um problema - e entusiasmo eufórico com a capacidade da sociedade de reagir (Downs
observa a "grande tradição americana" de encarar com otimismo a maioria dos obstáculos ao progresso
social, considerando-os como externos à estrutura da sociedade e como passíveis de serem eliminados sem
qualquer reordenação fundamental da própria sociedade); (3) um estágio realista, em que se toma
consciência do verdadeiro custo para "resolver" o problema; (4) um declínio gradual do intenso interesse
público provocado pelo desencorajamento, alarme, fastio ou pelo surgimento de uma nova questão; e (5) o
estágio pós-problema, no qual a questão se desloca num prolongado limbo, um período de atenção menor ou
de recorrências espasmódicas do interesse.
Os três primeiros estágios de Downs se aplicam sem dúvida ao Novo Ambientalismo, tanto na
Europa ocidental quanto na América do Norte. Mas embora uma verdadeira torrente de escritos no começo
da década de setenta ( e depois) 102 sugerisse que o ambientalismo tinha passado para o quarto estágio por
volta de 1972, isso só era verdade na medida em que o interesse caiu dos ápices talvez artificiais atingidos
entre 1968 e 1972. Ao invés de estar entrando em declínio, o ambientalismo tornou-se imbuído de uma
reação mais cuidadosamente considerada e menos emocional aos problemas do meio ambiente. Deslocou-se
da euforia para a razão e se alojou temporariamente no estágio três, no qual, apesar do desencorajamento
diante dos custos da ação (que freqüentemente eram altos, mas talvez não maiores do que os custos
potenciais da inatividade), o meio ambiente tornou-se uma questão central das políticas públicas. Certamente
ainda não chegou ao quinto estágio, e pode nem chegar. O próprio Downs sugeriu que, mesmo que a questão
ambiental deva inevitavelmente declinar, poderá reter mais atenção do que questões que afetam um número
menor de pessoas. A questão é mais visível e mais claramente ameaçadora do que a maioria dos outros
problemas sociais; é uma ameaça universal (o que a torna politicamente menos capaz de dividir do que, por
exemplo, o ataque ao racismo ou à pobreza); um pequeno número de "inimigos públicos" ricos e poderosos
pode ser responsabilizado por ela; há a possibilidade de respostas tecnológicas firmes para os problemas
ambientais; a maioria dos custos de controle da poluição poderia ser repassada para o público através de um
aumento do preço dos produtos ao invés de impostos mais altos; a questão poderia gerar uma grande
indústria privada com interesses fortes e constituídos na continuidade dos gastos para combater a poluição; e
as questões elas mesmas são ambíguas - melhorar o meio ambiente é um objetivo amplo que abrange tudo.
O modelo de Downs falha por não levar em conta a integração das questões sociais populares com o
tecido político das sociedades. Repetidamente, esses movimentos realizam alguns ou todos os seus objetivos
pretendidos através da transformação da sociedade; isso aconteceu com o movimento pelos direitos civis e
com o movimento das mulheres, aconteceu com os movimentos contra a guerra e aconteceu com o
ambientalismo. Isso não quer dizer, em absoluto, que todos os objetivos de todos esses movimentos foram
atingidos, mas na maioria dos casos os reformistas sociais escalaram com sucesso a muralha e entraram na
cidadela das políticas públicas.

NÃO MAIS UMA CRISE SILENCIOSA

As revoluções sociais têm raízes complexas. As raízes do Novo Ambientalismo são muitas e variadas, e é
difícil dissociá-las uma da outra. Não foi uma questão isolada ou uma crise repentina que levou à formação
do movimento, argumenta Bowman.103 Parece ser mais do

79

que uma coincidência que o surgimento da consciência ambiental tenha ocorrido em concomitância com a
maturação da primeira geração a crescer na afluência do pós-guerra; o clamor sobre a qualidade ambiental
foi, provavelmente, mais uma função das mudanças de atitude do que das mudanças no estado real do meio
ambiente,104 mas a primeira não poderia ter ocorrido sem a última. O Novo Ambientalismo se preocupava
fundamentalmente com a qualidade de vida e com o modo como esta foi comprometida pelos subprodutos
poluentes do crescimento econômico. Afluência, descontentamento dos jovens, desastres de primeira página
e tendências sociais e econômicas mais amplas, todos esses fatores tiveram seu papel no engendramento da
mudança.
Foram propostas outras explicações. Means sugere que os objetivos dos movimentos
conservacionistas tradicionais podem ter sido muito estreitos e - paradoxalmente estariam sendo
questionados por terem sido surpreendentemente bem-sucedidos. 105 Schnaiberg aponta para o interesse
crescente pelas áreas virgens e pelo camping, em parte um reflexo da decadência das áreas metropolitanas e
da expansão das áreas urbanas. 106 Downs sugere que tantos americanos tiveram a possibilidade de
participar de certas atividades que antes eram acessíveis somente para uma pequena minoria rica (tais como
possuir automóvel e acesso aos parques nacionais, moradias de subúrbio e áreas de veraneio), que o meio
ambiente da elite estava se deteriorando.107 Enzensberger sugere que o impacto ambiental dos novos
desenvolvimentos tecnológicos havia se tornado mais universal, o que significou - para as classes média e
média-alta - que a mobilidade geográfica não era mais uma resposta para evitar problemas como a
precipitação nuclear ou a poluição por petróleo.108 Solesbury sugere que problemas tais como pobreza,
habitação e tensão racial tinham se tornado menos importantes nos afluentes anos 60 e que o ambientalismo
tinha tomado seus lugares na imaginação pública.109 Hardin sugere que a preocupação ambiental pode ter
sido um deslocamento da atenção dada a outros problemas de tratamento mais diffcil.110 Golub e Townsend
argumentam que o mito de uma crise ecológica foi desenvolvido por interesses empresariais como maneira
de encorajar uma maior cooperação internacional, possibilitando desse modo o crescimento industrial
planejado através de um número crescente de empresas multinacionais.111
Qualquer que seja a causa, houve por volta de 1970 uma revolução nas atitudes ambientais. Em
1969-1970 O crescimento anual do número de membros dos cinco maiores grupos conservacionistas
americanos era de 16% a 18%; o número de membros do Sierra Club tomado isoladamente havia triplicado
desde 1966.112 Porta-vozes do ambientalismo tais como Paul Ehrlich e Barry Commoner (ver capítulo 4)
viajavam pelo país, falando ocasionalmente para platéias de mais de dez mil pessoas. Numa reportagem de
capa de fevereiro de 1970 a Time observou que o ambientalismo "pode muito bem ser a questão visceral
capaz de unificar uma nação polarizada.”113 O Novo Ambientalismo chegou a seu ápice em 22 de abril de
1970, quando a maior manifestação ambientalista da história, o Dia da Terra, foi realizada nos Estados
Unidos. A idéia veio do senador Gaylord Nelson, do Wisconsin; com financiamento federal, um comitê de
organização dirigido por Denis Hayes orquestrou uma demonstração nacional de preocupação com o meio
ambiente. Foram realizados comícios e palestras em estimadamente 1.500 faculdades e dez mil colégios;
ambas as casas do Congresso entraram em recesso; o próprio Nelson falou em nove campi universitários, de
Harvard a Berkeley; os automóveis foram proibidos. na Quinta Avenida de Nova York durante duas horas,
permitindo que cem mil pedestres ocupassem inteiramente a via pública; e em Washington, D.C., dez mil
pessoas cercaram o Monumento a Washington para 12 horas de festejos. Pouco tempo antes do Dia da Terra,
a New Republic descartou "a mania ecológica" como "válvula de escape para um presidente e um popuJacho
demasiado baratos, ou demasiado sem entranhas, ou demasiado cansados, ou demasiado frustrados, ou
demasiado todos esses fatores para encarar alguns velhos problemas que se mostraram persistentes e
emocionalmente não gratificantes de

80

serem enfrentados". Seis meses mais tarde a revista dedicou um número ao meio ambiente e admitiu que o
Dia da Terra tinha sido "não somente um canal para as energias pacifistas frustradas, como pensávamos. Ele
assinalou um despertar para os perigos da ditadura da tecnologia". 104
Em 1963 Stewart Udall, secretário do Interior das administrações Kennedy e Johnson, havia escrito
The Quiet Crisis, uma revisão pessoal da história da filosofia ambientalista americana, desde a sabedoria da
Terra dos índios americanos até o planejamento urbano de Frederick Law Olmsted. A "crise silenciosa",
argumentou, reside no fato de que a "América mantém-se equilibrada sobre um pináculo de riqueza e poder,
ainda que vivamos numa terra de beleza fenecente, de feiúra crescente, de espaços abertos que se reduzem e
de um meio ambiente geral que está sendo diminuído diariamente pela poluição, pelo barulho e pelas
catástrofes”115 Udall argumentou que a obsessão do pós-guerra com "guerras frias e quentes" havia
desviado a atenção do conceito de conservação e que o progresso da ciência tinha encorajado um falso
sentido de bem-estar que resultou em necessidades urgentes de conservação e administração serem
ignoradas.
Em julho de 1965, cinco dias antes de sua morte, Adlai Stevenson (então embaixador americano nas
Nações Unidas) fez um discurso diante do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em Genebra,
sobre os problemas da urbanização no mundo. No discurso (preparado originalmente por Barbara Ward)116,
ele usou a metáfora da Terra como uma nave espacial na qual viajava a humanidade, dependendo de seus
suprimentos vulneráveis de ar e de solo. O tema foi desenvolvido mais tarde por Kenneth Boulding, um
economista da Universidade de Michigan, em seu ensaio de 1966, "The Economics of Coming Spaceship
Earth", no qual comparou a "economia cowboy" aberta (inconseqüente, exploratória, romântica, em que o
consumo e a produção eram coisas boas) com a futura economia do "homem espacial", preocupada
fundamentalmente com a manutenção de estoques, em que a "produção não é de modo algum uma aspiração
e deverá sem dúvida ser encarada como algo a ser minimizado ao invés de maximizado, A medida essencial
do sucesso da economia não é absolutamente a produção e o consumo, mas a natureza, a qualidade e a
complexidade do estoque total de capital".117 A noção de Nave Espacial Terra foi graficamente reforçada
pela publicação em 1966 das primeiras fotografias da Terra tiradas pelos satélites Lunar Orbiter, as quais
mostravam o planeta como um oásis solitário, finito e aparentemente vulnerável no espaço. Para milhões na
Terra, sugere Arthur C. Clarke, essas fotografias "devem ter sido o momento em que a Terra tornou-se
realmente um planeta" .118
Por volta de 1970 a crise ambiental não era mais uma crise silenciosa. Um novo movimento de
massas tinha surgido e uma nova questão estava começando a encontrar seu caminho para a agenda das
políticas públicas. Evidências científicas crescentes confirmaram muitos dos temores de ativistas e
ecologistas amadores; a raça humana estava usando rapidamente seu estoque de recursos naturais e
empestando seu ninho durante o processo. O interesse aumentou e nasceu um debate controverso sobre os
limites do crescimento, centrado no postulado malthusiano de que crise e colapso eram inevitáveis, a menos
que o crescimento da população e a exploração de recursos fossem controlados. Os profetas do apocalipse
tinham chegado.

81
QUATRO
Os Profetas do Apocalipse (1968-1972)

Desastres múltiplos, argumenta Barkun, servem para destruir as teorias comumente estabelecidas que
desempenharam seu papel suficientemente bem no passado e também, tipicamente, a resposta a tal tensão é a
ascensão de líderes carismáticos que oferecem idéias e uma filosofia que podem ser interpretadas de uma
maneira salvacionista.1 Embora o movimento pelos direitos civis tenha tido líderes desse tipo, o mesmo não
foi tão verdadeiro em relação ao ambientalismo. No clima de alarme cada vez maior em relação à saúde do
ambiente nos anos sessenta, surgiram, ao invés disso - pelo menos nos Estados Unidos - teóricos e filósofos
ambientais (ocasionalmente carismáticos, muitas vezes controversos). A maioria deles era composta de
acadêmicos, por exemplo, Paul Ehrlich, de Stanford, Barry Commoner, de Washington (St. Louis), LaMont
Cole, de Cornell, Eugene Odum, da Georgia, Kenneth Watt, da Universidade da Califórnia em Davis, e
Garret Hardin, da UC em Santa Barbara. Eles não ofereceram nenhum credo unificado para o movimento,
nem deram um senso de direção específico ou puderam ser chamados de "líderes". Os mais pessimistas
dentre eles rapidamente ganharam apelidos nada lisonjeiros, tais como "profetas do apocalipse" ou "novos
Jeremias".
Ainda assim, propiciaram um grau de focalização intelectual. Os debates que levantaram atraíram
atenção para três questões fundamentais: poluição, crescimento populacional e tecnologia. A alegação de
que nenhum deles por si só explicava integralmente o dilema ambiental, por sua vez, conduziu à visão de
que a crise derivava do crescimento exponencial e que havia limites claros para o crescimento econômico.

O DEBATE EHRLICH-COMMONER

A controvérsia inicial foi despertada pelas diferenças de opinião entre dois biólogos, Paul Ehrlich e Barry
Commoner. Ehrlich tomou um tema bastante surrado - o crescimento populacional - e tomou-o seu;
Commoner, por sua vez, concentrou-se na qualidade do crescimento econômico. A questão da população
tinha uma longa história, que remontava ao médico britânico sir William Petty (1623-1687), que havia
escrito, em 1650, sobre a multiplicação da população humana,2 especulando que passariam dois mil anos
antes que a capacidade de sustentação da Terra fosse atingida. Suas visões atraíram pouca atenção, o que não
constitui surpresa. Quase 150 anos depois o economista clássico britânico

82

Thomas Malthus* obteve um impacto público muito maior. No seu Essay on Population, escrito em 1798-
1803, Malthus defendia que a taxa natural de crescimento populacional era exponencial e a de produção de
alimentos aritmética. A não ser que o crescimento populacional fosse controlado, a população superaria o
suprimento de alimentos disponível e haveria fome generalizada.3 Vogt, Osborn, a Wildemess Society, o
Sierra Club e outros levantaram a questão da superpopulação novamente no final dos anos 40 e nos anos 50.
Em 1966 David Brower, então diretor executivo do Sierra Club, argumentava que não poderia haver política
de conservação sem uma política populacional.4 Em 1967 Brower ouviu Ehrlich,** um professor de
biologia na Universidade de Stanford, falar no Commonwealth Club, em San Francisco, e o contratou para
escrever um livro curto sobre população para o Sierra Club. The Population Bomb foi, então, publicado em
1968, tornando-se um dos livros sobre meio ambiente mais vendidos de todos os tempos, com três milhões
de exemplares em meados da década de 70. ***
Ehrlich era um neo-malthusiano assumido. As críticas que o retratavam como alarmista não o
perturbavam: "Eu sou um alarmista", disse à Playboy em 1970, "porque estou mesmo alarmado como o
diabo. Acredito que estejamos à beira do abismo por causa das pressões populacionais."5 Era a luta para
sustentar uma população humana que não parava de crescer a causa da maioria dos problemas, argumentava,
e a salvaguarda ambiental mais efetiva era o controle da natalidade; "nenhuma mudança de comportamento
ou tecnologia pode nos salvar, a não ser que possamos realizar um controle das dimensões da população
humana".6 Ehrlich advertia que (1) centenas de milhões de pessoas enfrentariam a fome nos anos 70 e 80,
(2) os limites da capacidade humana de produzir alimentos por meios convencionais havia sido quase
alcançado, (3) as tentativas de aumentar a produção de alimentos causariam deterioração ambiental e
reduziriam a capacidade da terra para produzir alimentos, (4) o crescimento populacional poderia levar a
epidemias e à guerra nuclear, e (5) a única solução residia numa mudança nas atitudes humanas.
Barry Commoner,**** então professor de biologia da Universidade Washington, St. Louis, oferecia
uma visão diferente. O ativismo ambiental de Commoner havia se iniciado em 1953 com a preocupação
quanto aos efeitos da precipitação nuclear. A publicidade gerada pelo seu Comitê para a Informação Nuclear
é muitas vezes considerada um fator revelador do apoio popular para o Tratado Parcial de Proibição de
Testes de 1963. A questão da precipitação era para ele sintomática do impacto destrutivo da tecnologia sobre
o meio ambiente. Levou sua mensagem aos campi americanos no final da década de 60 e, no começo de
1970, a mesma já havia rendido uma reportagem de capa da Time, saudando-o como o Paul Revere da
ecologia. Delineou seus temores em The Closing Circle, publicado em 1971. Embora o crescimento
populacional e a afluência tivessem se intensificado desde a Segunda Guerra Mundial, observava, os
aumentos eram pequenos demais para explicar os aumentos dos níveis de poluição (de 200% a 2000%)
desde 1946. Um fator

* Embora mais lembrado como demógrafo, o rev. Thomas Robert Malthus (1766.1834) estudou e escreveu sobre muitos campos
diferentes e foi professor de história e política econômica no East India College, Hertfordshire. O fato de ser um clérigo fez com
que ganhasse o epíteto de "aquele pastor lúgubre".
** Paul Ehrlich (n. 1932), biólogo, faz parte do corpo docente do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de
Stanford desde 1959. Tomou-se professor em 1966 e Bing Professor of Population Studies em 1976 .
*** É curioso-observar que um livro notavelmente semelhante publicado três anos antes - The Silent Explosion, de Philip
Appleman (Boston: Beacon Press, 1965), professor de inglês na Universidade de Indiana - vendeu bem, mas não alcançou nada
parecido ao impacto de The Populalion Bomb. Ehrlich não fez qualquer referência ao trabalho de Appleman.
**** Barry Commoner (n.1917), biólogo, é membro do corpo docente da Universidade Washington, St. Louis, desde 1947.
Inicialmente professor de patologia vegetal, na década de 1950 fez campanha pela informação mais acessível sobre os efeitos dos
testes nucleares e fundou o St. Louis Committee for Nuclear Information em 1958. Escreveu Science and Survival em 1966 e
The Closing Circle em 1971.

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adicional, portanto, deve ser uma "tecnologia defeituosa", resultando em um crescimento maciço do uso de
sintéticos, produtos descartáveis, pesticidas e detergentes. A questão não estava tanto no crescimento da
atividade econômica, mas em como esse crescimento havia sido alcançado. Não estava tanto no fato de que
mais bens estavam sendo consumidos, mas que sua produção e a destinação dos resíduos estava custando
mais caro em termos ambientais. A emissão crescente de poluentes por unidade de produção, resultante da
introdução de novas tecnologias produtivas desde 1946, havia, segundo ele, chegado a representar 95% da
emissão total de poluentes.7 Enfatizava que alguns dos riscos ambientais mais perigosos eram aqueles que
não podiam ser vistos, particularmente o ar, os alimentos e a água contaminados por substâncias poluentes.
Estabelecidas suas posições, Ehrlich e Commoner entraram num debate freqüentemente acrimonioso
de mérito questionável, talvez baseado tanto na competição acadêmica quanto em quaisquer diferenças
filosóficas genuínas. A opinião popular entre os cientistas naturais e sociais da época era que ambos estavam
levando suas visões ao extremo, Ehrlich, ao ser um "alarmista", e Commoner, ao se mostrar estranhamente
obstinado em absolver o crescimento populacional,8 Havia também uma preocupação com o fato de que os
compromissos ideológicos de ambos os lados estavam obscurecendo as questões científicas; Ehrlich falava a
partir de uma perspectiva científica, enquanto Commoner considerava a política como parte essencial da
equação.9 Commoner se opunha à coerção para limitar o crescimento populacional, argumentando que a
ação para eliminar a pobreza resultaria numa transição demográfica; isto é, à medida que as sociedades se
tornassem mais ricas e industrializadas, o crescimento populacional diminuiria. Ele sugeriu que a maioria
dos problemas graves de poluição dos Estados Unidos ou datavam dos anos do pós-guerra, ou haviam
piorado desde a guerra 10 (embora The Closing Circle relatasse muitos exemplos de poluição que
precederam a guerra, muitas vezes em décadas). Commoner argumentava que a poluição e a exaustão dos
recursos minerais continuaria mesmo sem o crescimento populacional. De fato, em Science and Survival, ele
havia descrito rapidamente o crescimento populacional como uma das fontes principais de poluição; em
seguida à abertura do debate com Ehrlich, tendeu a descartar a questão da população.
Ehrlich achava que The Closing Circle era "inexplicavelmente inconsistente e perigosamente
enganoso". Via três defeitos principais no livro: pressupunha que a deterioração ambiental consistia apenas
na poluição (levando Commoner a discutir a crise ambiental "como se ela tivesse começado nos anos 40"); o
argumento de que a causa da poluição residia em tecnologia defeituosa baseava-se em pesquisas e
interpretação de dados equivocadas; e as concepções distorcidas de Commoner sobre certos aspectos da
demografia o levavam a tirar conclusões errôneas sobre a "auto-regulação" humana e as estratégias viáveis
para as limitações populacionais.11
Ehrlich ocasionalmente parecia ter a mente mais aberta que Commoner, admitindo, por exemplo, que
suas visões haviam mudado com o tempo e com a sua compreensão das questões. Commoner lembrava
como, nas conversas iniciais com Ehrlich e seus seguidores, este último "concedia [em contraste com a
posição expressa em The Population Bomb ]( ... ) que o crescimento populacional não é por si só responsável
pelo impacto ambiental e que fatores tecnológicos são também significativos. Fiquei gratificado por essa
indicação de que eles estavam prontos a modificar sua posição com base nos novos dados".12 Em 1973 13 e
novamente em 1974,14 Ehrlich pareceu abrandar sua discordância com Commoner, ao sugerir que os
componentes da crise ambiental causada pelo crescimento populacional, afluência ou por erros tecnológicos
eram difíceis de diferenciar; era absurdo, argumentava, "tentar isolar qual dos três fatores multiplicativos é
responsável pela coisa toda, quando é bastante óbvio que temos que atacar todos os três".15 Algumas
contradições curiosas se misturavam sub-repiticiamente à argumentação de Ehrlich. Em 1970 ele assinalava
que havia escrito The Population Bomb porque achava que havia gente demais enfatizando

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somente a poluição; "não estou tentando minimizar o problema da poluição em nenhum sentido", afirmava,
"No momento, o mesmo é pelo menos tão sério quanto o do crescimento populacional, e possivelmente, nos
Estados Unidos, mais sério do que este último."16 Ainda assim, em 1973, ele observou que "do ponto de
vista de um ecologista ( ... ) [a poluição do ar é] um dos problemas relativamente triviais ( ... ) é passível de
rápida cura tecnológica e é apenas um sintoma do que estam os fazendo, e não algo ecologicamente sério"
.17 De modo semelhante, embora defendesse que a superpopulação levaria à fome e à ecocatástrofe,
defendia também que, "numa visão de longo prazo, a deterioração progressiva do nosso meio ambiente pode
causar mais morte e miséria do que a defasagem alimentos-população".18 A alegação de Ehrlich de que a
Terra estava produzindo tanta comida quanto poderia tem se demonstrado errônea desde então e, no começo
dos anos 80, era cada vez mais amplamente aceito que a causa fundamental da fome não era tanto a carência
de alimentos, mas sim um desequilíbrio entre oferta e procura. A argumentação de Ehrlich não levava em
consideração a ineficiência das técnicas de produção de alimentos, índices de produção decrescentes ou
práticas medíocres de administração da terra, e as soluções sugeridas por ele não faziam menção à
necessidade de usar mais eficientemente os recursos existentes ou de reduzir o desperdício. Ele nunca aludiu,
por exemplo, ao potencial da reforma agrária e da intensificação agrícola.
Ehrlich também criticou Commoner por se preocupar com a poluição quase a ponto de excluir as
demais formas de deterioração ambiental, porém ele mesmo estava preocupado com a questão isolada da
população e encarava isso a partir de uma perspectiva limitada. Como causa da exaustão de recursos o
crescimento populacional foi desde então aliado ao uso ineficiente e insustentável dos recursos - se não
eclipsado por ele. Em outras palavras, trata-se menos de uma questão de números absolutos de pessoas do
que de como os recursos, tais como alimentos, são utilizados e distribuídos. Tanto Commoner quanto
Ehrlich foram guiados mais pelo que eles viam acontecer nos países industrializados do Ocidente e menos
pelo que estava acontecendo - ou que se tem demonstrado estar acontecendo desde então - nas economias
centralmente planejadas e nos países menos desenvolvidos.
Se os eventos subseqüentes e as evidências científicas e demográficas provaram alguma coisa, foi
que ambos os homens estavam em grande parte corretos em suas teses centrais (na medida em que as
desenvolviam), mas que sofriam, paralelamente e em proporção semelhante, de obsessões e concepções
equivocadas. O próprio Ehrlich assinalou um dos perigos dos quais havia sido vítima, quando observou que
os cientistas eram muitas vezes criticados, seja por serem limitados demais ou por extrapolarem seu campo
de especialidade; mas sentia-se freqüentemente impelido a ir além das fronteiras de seu treinamento formal
para buscar soluções para os problemas humanos, e não via "nenhum outro caminho para os cientistas de
todos os campos, senão fazer o mesmo - mesmo correndo o risco de estarem errados" .19 De modo
semelhante, observou em 1973 que "a maioria das críticas aos ambientalistas pretendem que eles nunca
deveriam cometer erros. Mas os erros vão continuar a fazer parte das afirmações dos ambientalistas, pois
eles estão lidando com sistemas que não compreendemos inteiramente e onde há um grau considerável de
incerteza" .20

A TRAGÉDIA DAS ÁREAS COMUNS


Uma tese apocalíptica igualmente polêmica foi o ensaio escrito pelo biólogo Garret Hardin* sobre a
"tragédia das áreas comuns",21 Foi inicialmente apresentada como um

* Garret Hardin (n. 1915), biólogo, entrou em 1946 para o corpo docente da Universidade da Califómia, em Santa Barbara,
tomando-se professor de biologia em 1956 e professor de ecologia humana em 1964.

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discurso presidencial na Divisão do Pacífico da American Association for the Advancement of Science em
dezembro de 1967. Como o próprio Hardin assinalou, o tema das áreas comuns não era novo e já estava
bastante conhecido nos círculos de ciências sociaís.22 A novidade - que gerou a controvérsia - foram suas
conclusões. Ele defendia que não existiam soluções "científicas" para problemas tais como a
superpopulação. A "tragédia" residia na inevitabilidade da destruição dos recursos de propriedade comum;
Hardin sugeria que a inevitabilidade da destruição global predeterminava as escolhas que a humanidade
deveria fazer para assegurar sua sobrevivência. Usou a parábola de uma área comum na qual vários criadores
de gado levavam seus animais para pastar. Um determinado número de cabeças de gado num tempo
determinado comia capim à mesma razão que crescia - a oferta e a procura estavam em equilíbrio perfeito.
Então, um criador concluía que poderia acrescentar uma vaca e colher os lucros, enquanto os custos eram
compartilhados por todos os outros criadores, cujas vacas se haviam contentado com menos. Concluía
também que, se ele não acrescentasse uma vaca a mais, os outros poderiam fazê-Io e então obteriam os
lucros à sua custa. A única solução racional era acrescentar uma vaca. Mas todos os outros criadores
chegavam às mesmas conclusões e resolviam que tinham que introduzir vacas adicionais.
Desse modo, "cada homem está aprisionado num sistema que o impele a aumentar seu rebanho
ilimitadamente - num mundo que é limitado. A ruína é o destino para o qual todos os homens caminham,
cada um em defesa de seus próprios interesses numa sociedade que acredita na liberdade das áreas comuns.
A liberdade numa área comum traz a ruína de todos". Hardin sugeria que a poluição era o reverso da tragédia
das áreas comuns, no sentido em que o homem não estava tirando, mas acrescentando às áreas comuns, sob
forma de resíduos nocivos. "O homem racional descobre que sua parte no custo dos resíduos que descarrega
nas áreas comuns é menor que o custo de purificar os resíduos antes de Iiberá-Ios. Uma vez que isso é
verdade para todos, enquanto nos comportarmos somente como empreendedores livres, racionais e
independentes, estaremos aprisionados num sistema que 'emporcalha nosso próprio ninho"'. Como,
perguntava Hardin, poderíamos "legislar a temperança", por exemplo, na procriação humana? A proibição
era fácil de legislar, mas a temperança não, e ele questionava a visão da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, de que "qualquer escolha e decisão relativa ao tamanho da família deve irrevogavelmente
pertencer à própria família e não pode ser feita por mais ninguém". A temperança não poderia ser alcançada
através de um apelo à consciência, mas apenas por "coerção mútua, mutuamente acordada pela maioria das
pessoas afetadas", sobretudo quando aplicada ao controle do crescimento populacional. Em outras palavras,
o homem deve ser coagido a respeitar um senso de responsabilidade comunitária, porque ele nunca o
adotaria voluntariamente.23

MODELOS GLOBAIS E OS LIMITES DO CRESCIMENTO

A superpopulação não foi a única teoria antiga a ser ressuscitada pelo Novo Ambientalismo. Uma idéia com
um pedigree intelectual ainda mais impressionante - os limites do crescimento exponencial - foi desencavada
e revisitada em controvérsias ainda maiores. Thomas Malthus, David Ricardo, John Stuart Mill, W. Stanley
Jevons, Karl Marx e Friedrich Engels haviam todos, em uma ou outra oportunidade, examinado essa questão
ou outras correlatas.24 Em tempos recentes, como em 1953, o advogado Samuel Ordway havia traçado sua
própria "Teoria do Limite do Crescimento" num volume fino e, de uma maneira geral, ignorado que
antecipava muitas das simulações computacionais caras e sofisticadas dos anos setenta.25
O principal produto do renascimento dos anos 70 foi The Limits to Growth, publicado em 1972. As
raízes do relatório remontavam ao final da década de 40, quando Jay

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Forrester* se tomou o pioneiro da aplicação do computador digital, de métodos de tomada de decisões


militares táticas e dos sistemas de realimentação de informações a estudos das forças que interagem nos
sistemas sociais.26 Durante o final da década de 50, ele refinou suas teorias de dinâmica industrial como
uma técnica de administração. O método da dinâmica de sistemas defende que são necessários modelos para
descrever a organização dos sistemas, suas relações internas e pressuposições quanto aos contatos externos
fora das fronteiras do sistema. Os componentes das relações podem então ser alterados, a fim de simular
resultados alternativos. O método sustenta que os modelos mentais são inferiores aos modelos
computacionais porque somente os modelos computacionais permitem que as relações e suas conseqüências
sejam explicitadas.27
Em meados da década de 1960, o Dr. Aurelio Peccei, um consultor administrativo italiano, ** havia
começado a refletir sobre os problemas do mundo. Ele os via como materializados num conjunto de relações
interconectadas e achava que somente poderiam ser entendidos através de uma visão geral que delineasse os
vínculos entre ocorrências e condições aparentemente sem relação, pensamentos que esboçou em The Chasm
Ahead.28 Em 1968, reuniu um grupo informal de trinta economistas, cientistas, educadores e industriais num
encontro em Roma. Desse encontro surgiu o Clube de Roma, uma associação livre de cientistas, tecnocratas
e políticos. Já em 1970 o Clube possuía setenta e cinco membros de vinte e cinco países. Sua meta definida
era incentivar a compreensão dos componentes econômicos, políticos, naturais e sociais interdependentes do
"sistema global" e encorajar a adoção de novas atitudes, políticas e instituições capazes de minorar os
problemas. A degradação ambiental era justamente um desses problemas. Os outros incluíam a expansão
urbana, a perda de fé nas instituições, rejeição dos valores tradicionais e deterioração econômica, todos os
quais o Clube via como de tal complexidade que extrapolavam a competência das instituições e políticas
tradicionais.
O método da dinâmica de sistemas de Forrester já havia sofrido críticas severas,29 mas Clube via
nele considerável potencial para seus próprios interesses. Em 1970 lançou um Projeto sobre a Condição da
Humanidade e convidou Forrester para ir à Suíça para traçar o perfil de seu método. A "condição" era que a
sociedade humana, apesar de seu conhecimento e habilidades, não compreendia as "origens, significação e
inter-relações de seus muitos componentes e, portanto, é incapaz de conceber respostas efetivas".30 O
fracasso tinha ocorrido porque a sociedade continuava a examinar questões isoladas sem compreender que o
todo era mais do que a soma de suas partes.
Nesse ínterim, durante seu estudo das preparações em curso para a Conferência sobre o Meio
Ambiente Humano da ONU, a ser realizada em Estocolmo, em 1972 (ver capítulo 5), um grupo do
Massachusetts Institute of Technology (MIT) concluiu que um Estudo dos Problemas Ambientais Críticos
ajudaria os planejadores da conferência. Sob a égide de um comitê diretor, setenta cientistas e profissionais e
quarenta e cinco observadores se encontraram durante o mês de julho de 1970 em Williamstown,
Massachusetts, para estudar e discutir o efeito de poluentes marinhos, terrestres e atmosféricos específicos
sobre as condições terrestres e climáticas globais, e examinar os procedimentos de pesquisa e mooitoração.

* Jay Wright Forrester (n. 1918) realizou quase toda a carreira profissional no MIT. Esteve na equipe de pesquisa de 1939 a 1956
(dirigindo o Digital Computer Laboratory do MIT entre 1946 e 1951) e tomou-se professor de administração na Sloan School of
Management em 1956. Desenvolveu o modelo de dinâmica de sistema das mudanças econômicas e sociais nos Estados Unidos.
** Aurelio Peccei (1908-1985) nasceu em Turim e se formou em economia na Universidade de Turim. Trabalhou para a Fiat de
1930 a 1973, foi presidente da Olivetti de 1963 a 1967 e presidente do conselho diretor da ltalconsult a partir de 1971. Co-
fundador do Clube de Roma, dedicou seu tempo, a partir de então, ao estudo dos macroproblemas da era tecnológica e das
mudanças necessárias na sociedade humana, a fim de encontrar respostas para esses problemas.

87

"A existência de um problema global", enfatizava o estudo, "não implica a necessidade de uma solução
global.”31 A maior parte da ação corretiva, concluía, teria que ser realizada nos níveis local, regional e
nacional, mas o potencial de cooperação internacional na pesquisa e na monitoração era alto. A
recomendação geral do estudo era a aplicação de novos métodos padronizados de coleta de dados globais. O
relatório definia duas situações particularmente importantes: que os dados disponíveis, sobretudo no nível
internacional, eram fragmentários, contraditórios, às vezes não confiáveis e muitas vezes não se
encontravam disponíveis (por causa de relatórios irregulares e falta de padronização); e que os problemas
ambientais tinham que ser considerados a partir das diferentes perspectivas dos países mais desenvolvidos e
menos desenvolvidos. "Há poucos motivos para acreditar que os países em desenvolvimento possam ser
desviados de sua preocupação com os efeitos de primeira ordem da tecnologia para um interesse pelos
efeitos colaterais sobre o meio ambiente. Atualmente e no futuro previsível, as sociedades industriais
avançadas terão que carregar o fardo da ação de combate contra a poluição”.32 O relatório do MIT defendia
um estudo mais completo e satisfatório de questões como a poluição marinha por petróleo, o aumento do
dióxido de carbono na atmosfera e o efeito potencial dos aviões de transporte supersônicos (SSTs -
supersonic transports) na atmosfera; a formulação de novas prioridades; e o abandono da pressuposição de
que o meio ambiente tem que arcar com os custos do desenvolvimento tecnológico e industrial.
O projeto do Clube de Roma foi lançado num encontro em Cambridge, Massachusetts, no final de
julho de 1970. Forrester havia delineado um modelo global, chamado World 1, identificando componentes
específicos do problema e sugerindo técnicas para analisar os mais importantes dentre esses componentes.
Argumentava que a mente humana era incapaz de compreender, prever ou controlar as atividades de padrões
muito complexos e que a intuição humana muitas vezes conduzia equivocadamente as pessoas a buscar
soluções que, ou não tinham efeito, ou tinham o efeito oposto do desejado; 33 a simulação computacional
era, portanto, vital para ajudar o homem a lidar com questões de macropolítica. Forrester desenvolveu seu
modelo em World 2, definido em seu livro World Dynamics; examinando apenas os aspectos mais amplos
do sistema mundial, nem abordava as dificuldades de implementar mudanças nas atitudes humanas, nem
considerava a possibilidade de mudanças nas aspirações e valores humanos, trazidas pelo reconhecimento
das condições difíceis com que se defrontava a humanidade.34 Organizou uma equipe, sob a direção de
Dennis Meadows, * então com 28 anos, para fazer uma versão ainda mais detalhada e refinada - World 3.
Cinco fatores básicos foram identificados como determinantes e, em última análise, limitadores do
crescimento: população, produção agrícola, recursos naturais, produção industrial e poluição.
Usando o modelo de Forrester, a equipe chegoua três conclusões:

1) Se as tendências existentes de população mundial, poluição, industrialização, produção de alimentos e


exaustão de recursos continuassem inalteradas, os limites do crescimento no planeta seriam atingidos dentro
de cem anos. O resultado mais provável seria um declínio súbito e incontrolável tanto na população quanto
na capacidade industrial.

2) Era possível alterar essas tendências de crescimento e atingir um estado de estabilidade econômica e
ecológica que fosse sustentável por muito tempo no futuro. O estado de equilíbrio global poderia ser
planejado de modo que as necessidades materiais básicas

* Dennis Lynn Meadows (n. 1942) foi professor assistente de administração do MIT entre 1969 e 1972. Depois transferiu-se para
o Departamento de Engenharia do Dartmouth College, New Hampshire. Sua mulher Donella (n. 1941) foi pesquisadora no campo
da nutrição e ciências alimentares no MIT (1970-1972) e depois transferiu-se para o Departamento de Estudos Ambientais em
Dartmouth.

88

de cada pessoa na Terra fossem satisfeitas e cada pessoa tivesse uma oportunidade igual de concretizar seu
potencial humano individual.

3) Se as pessoas do mundo decidissem se empenhar para chegar a esse segundo resultado e não ao primeiro,
quanto mais cedo começassem a trabalhar para atingi-Io, maiores seriam as chances de sucesso.35

A tese essencial do modelo do MIT, lançada no-dia 2 de março de 1972 como The Limits to Growth, era que
as raízes da crise ambiental residiam no crescimento exponencial. A catástrofe era inevitável já no final do
século, causada pela exaustão dos recursos e pelas taxas de mortalidade crescentes devido à poluição e à
carência de alimentos. Um aumento do suprimento de alimentos, a descoberta de novas fontes de energia e
avanços tecnológicos para o controle da poluição poderiam reverter essa tendência. Em última análise,
porém, havia uma necessidade urgente de atingir um equilíbrio global através do reconhecimento dos limites
do crescimento econômico e populacional. "O otimismo tecnológico", argumentava a equipe, "é a reação
mais comum e mais perigosa às nossas descobertas a partir do modelo do mundo. A tecnologia pode
amenizar os sintomas de um problema sem afetar as causas subjacentes ( ... ) [e] pode, desse modo, desviar
nossa atenção do problema mais fundamental - o problema do crescimento num sistema finito."36 Os
autores recomendavam, entre outras coisas, uma redução de 40% no investimento industrial, uma redução de
20% no investimento agrícola, uma redução de 40% na taxa de natalidade e uma transferência maciça de
riqueza dos países ricos para os pobres.
Baseando-se nas descobertas dos Worlds 2 e 3, o Clube de Roma chegou a várias de suas próprias
conclusões,37 muitas das quais notavelmente perceptivas:

1) Era essencial que houvesse consciência quanto às restrições quantitativas do meio ambiente mundial; a
pressão populacional por si só era suficiente para impelir a sociedade a buscar um estado de equilíbrio
global; tal equilíbrio só poderia ser atingido se a situação do Terceiro Mundo fosse substancialmente
melhorada.

2) O desenvolvimento global estava tão intimamente entrelaçado a outras questões, que era necessário
conceber uma estratégia geral, a fim de enfrentar todos os problemas principais, particularmente a relação do
homem com o ambiente. *

3) Se a sociedade pretendesse tomar um novo rumo, eram necessárias medidas internacionais concatenadas e
planejamento conjunto de longo prazo numa escala sem precedentes; a imposição de uma interrupção no
crescimento econômico e populacional não deveria conduzir a um congelamento do desenvolvimento
econômico; ao contrário, os países mais desenvolvidos deveriam tomar a iniciativa, desacelerando seu
crescimento e ajudando os países menos desenvolvidos a impulsionar suas economias mais rapidamente.
(Estas visões ganhariam uma divulgação mais ampla no final dos anos 70 e começo dos 80 [ver capítulo 8].)

Os autores do World 3 não se arrogavam infalibilidade. Admitiam que seu modelo era "imperfeito,
supersimplificado e inacabado", e que eram necessários muitos estudos posteriores. Porém, apesar de seu
estágio preliminar, consideravam importante publicar suas descobertas no momento em que o fizeram,
porque decisões com implicações sociais, econômicas e físicas globais de grande alcance estavam sendo
tomadas e não podiam

* A World Conservation Strategy, o relatório Global 2000 e os relatórios das comissões Brandt e Brundtland - publicados
respectivamente em 1980, 1982, 1980 e 1987 - podem ser vistos como estágios nessa direção.

89

esperar por modelos perfeitos e compreensão total. O propósito de publicar The Limits to Growth, um
resumo não-técnico de suas descobertas, era abrir o debate sobre as tendências globais em aceleração para
uma comunidade mais ampla do que apenas a dos cientistas; nisso tiveram êxito. Meadows e sua equipe de
fato receberam com agrado as discussões e críticas construtivas, conforme indica a sua associação com a
equipe de Sussex (ver adiante).
Uma das motivações por trás do trabalho do Clube era a crença de que os políticos e cientistas
haviam se tornado complacentes demais e prontos a acreditar que o homem sempre conseguia tirar uma
solução do nada quando as coisas pareciam estar a ponto de ir longe demais. O Clube pretendia chocar as
pessoas a ponto de fazê-Ias abandonar sua complacência, "advertir quanto a uma crise potencial mundial se (
... ) for permitido que as tendências [atuais] continuem e, assim, oferecer uma oportunidade para realizar
mudanças nos nossos sistemas políticos, econômicos e sociais para assegurar que essas crises não
aconteçam",38 e chocar a sociedade a ponto de fazê-Ia iniciar uma transição do crescimento para o equilíbrio
global. O Clube de Roma via os Worlds 2 e 3 como um meio para seus fins e esperava que, ao quantificar a
condição humana, os modelos incentivariam as pessoas a procurar soluções. Diferentemente de Hardin, o
Clube acreditava que a melhoria da situação do Terceiro Mundo era essencial para que se atingisse o
equilíbrio. Mas, como Hardin, que acreditava que "nenhuma solução técnica pode nos salvar da miséria da
superpopulação",39 o Clube acreditava que "soluções tecnológicas por si só"40 não poderiam livrar o
homem de seu círculo vicioso de população crescente e superexploração do meio ambiente natural. O Clube
concluía que a correção do desequilíbrio global era um desafio para a geração atual, não para a próxima, e
que isso exigia medidas internacionais coordenadas e planejamento de longo prazo numa escala sem
precedentes.
Do outro lado do Atlântico, enquanto isso, uma segunda "hipótese do apocalipse" - A Blueprint for
Survival 41 - havia sido publicada como resposta radical ao que era encarado como as atitudes bastante
moderadas do establishment da conservação britânica. O golpe inicial veio num artigo de agosto de 1971, no
Observer, de seu correspondente de meio ambiente, Gerald Leach. O autor observava que, embora as linhas
principais das mudanças necessárias para um movimento no sentido da economia de nave espacial estavam
se tornando claras, ninguém havia definido os detalhes. Edward Goldsmith, editor do Ecologist, organizou
uma conferência na qual ficou decidida a construção de um modelo para a Grã-Bretanha. Blueprint, que se
baseava substancialmente no modelo do SCEP e foi influenciado por Limits to Growth, foi publicado no
Ecologist no começo de 1972. Partia de uma premissa semelhante àquela do modelo do MIT, de que "se for
permitido que as tendências atuais continuem, o colapso da sociedade e a ruptura irreversível dos sistemas de
sustentação da vida neste planeta ( ... ) são ínevítávels".42 O crescimento populacional e a utilização dos
recursos precisavam de mudanças radicais nas atitudes e nas práticas; o crescimento indefinido não poderia
ser sustentado por recursos finitos. Entre as recomendações: o uso de menos pesticidas e fertilizantes,
manejo eficiente dos esgotos e redução dos dejetos industriais, proteção dos recursos genéticos,
contabilidade social (isto é, fazer com que os poluidores pagassem), a estabilização do crescimento
populacional e a criação de um novo sistema social descentralizado. Como o MIT, a equipe do Blueprint
reconhecia seu débito para com as idéias de John Stuart Mill. Para implementar suas idéias, a equipe
propunha um Movimento pela Sobrevivência, uma coalizão de organizações ambientais que trabalhasse para
persuadir os governos a tomar medidas que levassem a uma sociedade estável; embora Friends of the Earth
e a Conservation Society, entre outras, chegasem a expressar algum interesse inicial, o movimento deu em
nada.
O tema do não-crescimento foi levado mais além em 1973 pelo economista britânico E.

90

F. Schumacher. Em seu livro Small is Beautiful.43 ele criticou o desperdício e a dilapidação dos recursos e o
excesso de dependência da indústria ocidental em relação à tecnologia de uso intensivo de capital e energia.
Criticando o sistema de valores que permitia tal estado de coisas, desafiava as pessoas a reexaminarem seus
valores e estilos de vida e a fazerem uma transição da crença de que "mais é melhor" para "pequeno é
harmonioso". Sua tese revestiu-se de um significado especial com a decisão das nações da OPEP, em
outubro de 1973, de impor um embargo de petróleo, levando os preços a quadruplicarem.

APOCALIPSE AMANHÃ

No começo dos anos 70, muitos norte-americanos e europeus ocidentais estavam completamente alarmados
com as perspectivas aparentemente desoladoras para o futuro. A despeito da falta de dados científicos
completos, a especulação se tomou um passatempo popular. Na esteira dos profetas veio uma inundação de
previsões apocalípticas freqüentemente fantásticas, muitas das quais voltaram para assombrar seus autores
desde então. Paul e Anne Ehrlich, por exemplo, advertiram que "a própria humanidade pode estar à beira da
extinção".44 Em outros trabalhos, Ehrlich freqüentemente advertiu quanto à perspectiva de "ecocatástrofe",
epidemias de âmbito mundial e guerra nuclear se o crescimento populacional continuasse. Barbara Ward e
René Dubois previram que, já em 1985, todas as superfícies terrestres que não as mais frias e altas estariam
ocupadas pelo homem.45 Os temores do efeito dos aviões de transporte supersônicos (SSTs) sobre a
atmosfera, combinados às previsões de que até quinhentos SSTs estariam voando em poucos anos, levaram à
sugestão de que, em 1985, uma frota de trezentos Concordes, juntamente com uma frota expandida de SSTs
da Boeing, consumiriam 2,2 bilhões de barris de petróleo por ano, ou seja, um nono da demanda mundial em
1971.46 Em 1970, a Life listou várias previsões para as quais os cientistas alegavam "evidências teóricas e
experimentais sólidas": a poluição do ar, combinada a uma inversão de temperatura, mataria milhares de
pessoas numa cidade dos EUA no início dos anos 80; os habitantes dos centros urbanos estariam usando
máscaras de gás para sobreviver à poluição do ar; já em 1985, a poluição do ar teria reduzido a quantidade
de luz solar que chega à Terra à metade; e um sistema ecológico de importância maior teria sido destruído
em algum lugar dos Estados Unidos.47
Em 1969, Paul Ehrlich fez toda uma série de previsões de colapso, um exercício que poderia, em
retrospecto, parecer tanto imprudente quanto pouco característico de um cientista racional. Baseado nas
tendências então aparentes, ele previu o fracasso da Revolução Verde, a incompetência dos programas de
ajuda aos países menos desenvolvidos e o colapso da indústria de anchovas peruana (esta entrou em colapso
em 1972, três anos antes do que Ehrlich havia previsto). Contudo, ele também previu incorretamente:

1) o colapso da indústria baleeira em 1973 (ela não entrou em colapso);


2) a redução da pesca anual de peixes oceânicos para trinta milhões de toneladas já em 1977 (na realidade,
foi mais de duas vezes esse número, embora a possibilidade de um colapso na indústria mundial da pesca
persistisse, pois a produção pesqueira continuou a se mostrar insustentável);

3) uma taxa de cinqüenta milhões de mortes anuais por desnutrição (é impossível chegar a um número de
mortes por desnutrição que não seja apenas aproximado em qualquer região ou período dados, mas os
números da mortalidade em países que viveram fomes coletivas entre 1960 e 1983 indicam que morreram
pouco mais de 12 milhões de pessoas.48 Mesmo as projeções mais pessimistas de mortes anuais por
desnutrição não

91

atingiriam o número previsto por Ehrlich. Quaisquer que sejam as estimativas, porém, é claro que 12
milhões de mortes significam uma tragédia de proporções gigantescas.);

4) florações diatomáceas nos oceanos e a extinção, já em 1979, de toda a vida animal marinha de
importância (a vida marinha se provou consideravelmente mais resistente do que muitos cientistas
esperavam).

O que estas e outras previsões enfatizam é que a crise ambiental parecia muito pior em 1968 do que
pareceria dez ou 15 anos depois. Nessa época, pelo menos alguma ação havia sido realizada, o que pode ter
permitido que o mundo evitasse um apocalipse; mesmo assim, é questionável se algumas das previsões
teriam se tornado verdade algum dia. Grande parte do alarmismo foi criado e alimentado pelos profetas do
apocalipse. Quando Ehrlich escreveu The Population Bomb, a população dos Estados Unidos estava
crescendo a quase 1,5% ao ano, o suficiente para dobrar a população norte-americana em cerca de sessenta
anos. Dada a alta média de consumo per capita de recursos naturais pelos consumidores norte-americanos, as
implicações deste crescimento pareciam sérias. No final dos anos setenta, porém, a taxa de crescimento
populacional norte-americano havia caído abaixo de 1% ao ano. Em 1978 Ehrlich admitiu que ninguém
havia previsto a rápida mudança do comportamento reprodutivo que ocorreu no começo dos anos setenta.49
Mas ele ainda estava apenas marginalmente mais otimista. Aqueles que alegavam que não havia problema
populacional, somente um problema de distribuição, estavam errados, argumentava; a única estratégia
sensata continuava sendo a de acabar com O crescimento populacional tão rápida e humanamente quanto
possível.

RESPOSTAS A THE LIMITS TO GROWTH

À medida que o número de novos Jeremias proliferava, o mesmo ocorria com as hostes de seus críticos.
Numa análise dessas críticas, Sills sugere que havia duas posições analiticamente distintas no que diz
respeito à natureza do problema ambiental: pessimismo e otimismo. 50 Por essa definição os ambientalistas
eram pessimistas e os críticos do movimento, otimistas. Os dois lados diferiam quanto às projeções sobre
recursos naturais, alimentos, poluição e população; a crítica mais comum aos ambientalistas era a de que
eram alarmistas, uma visão contida numa análise freqüentemente citada de The Limits to Growth: "The
Computer That Printed Out W*O*L*F*".*/51 The Limits to Growth em si tornou-se um assunto notável de
debate e crítica. As invectivas eram particularmente dirigidas à recomendação de uma política abrangente de
não-crescimento; não apenas isso produziria uma recessão industrial de grandes proporções nos países mais
desenvolvidos, mas colocaria um freio no desenvolvimento dos menos desenvolvidos. Os modelos WorId
começavam com uma receita de apocalipse, argumentava O'Riordan, "e só se pode pressupor que esse
programa enormemente complicado de computador foi produzido para estimar o momento do resultado
cataclísmico que foi assim pré-determinado"; a "paixão evangélica por uma 'operação de comandos' que
fizesse despertar a Terra", de Peccei, mandou ainda mais às favas uma certa dose de cautela científica. O
relatório interessava aos políticos conservadores de linha dura, que "buscavam uma fundamentação
politicamente respeitável para bloquear o que consideravam como reformas sociais excepcionalmente
progressistas" .52 Em sua análise da 3ª Conferência no Campo, da série
* Literalmente, "O Computador Que Imprimiu L*O*B*O*''. Há aqui um jogo "de palavras com a expressão cry wolf, que em
inglês significa dar o alarme injustificadamente, numa referência à conhecida fábula do cordeiro que se divertia anunciando a
chegada do lobo que não vinha. (N. do T.)

92

de 1970, o ambientalista britânico Robert Boote disse: "Se nós subestimamos a tarefa em 1963, isso não é
motivo para aceitar o clamor dos neo-malthusianos de que estamos diante de um apocalipse iminente."54 A
visão marxista era que a ideologia de The Limits to Growth visava quebrar a resistência da classe
trabalhadora à autoridade." The Limits to Growth (e a "síndrome do apocalipse" em geral) também foi
criticado por sugerir a inocuidade de se encaminhar uma ação fundamentada e por ignorar a capacidade dos
seres humanos para realizar adaptações políticas e sociais 55 (ver debate de Kahn e Simon no capítulo 7).
Forrester provavelmente tinha interesse em promover a metodologia da dinâmica de sistemas,
comentam os autores de Global 2000, enquanto os membros da equipe de Meadows "provavelmente tinham
aspirações menos definidas. Eles eram relativamente jovens (idade média abaixo de trinta anos) e, na sua
maior parte, no início de suas carreiras. Meadows e sua esposa haviam acabado de retornar de uma
temporada de um ano na Ásia, durante a qual passaram a se preocupar com os problemas de
desenvolvimento e meio ambiente, e estavam ansiosos para explorar as causas e soluções de tais problemas.
A maioria dos membros da equipe tinha treinamento formal em ciência, engenharia ou dinâmica de sistemas,
e não em ciências sociais".56 Significativamente, a equipe de 17 membros consistia de dez americanos, três
alemães, um norueguês, um turco, um iraniano e um indiano; em outras palavras, inclinava-se fortemente na
direção dos Estados Unidos, tinha pouca representação do Terceiro Mundo e nenhum membro dobloco do
Leste.
A crítica mais abrangente a The Limits to Growth foi a empreendida em 1972 por treze ensaístas
associados à Unidade de Pesquisa em Ciência Política da Universidade de Sussex, na Grã-Bretanha.57 Seu
relatório se concentrava nas fraquezas da metodologia da análise do MIT, no valor técnico do modelo e nos
valores ideológicos dos seus criadores. Os autores de Sussex enfatizavam que não estavam subestimando a
importância positiva do trabalho do MIT e reconheciam que, em conseqüência de terem lido The Limits to
Growth, muitas pessoas estavam pensando e discutindo os problemas; "em particular, estão discutindo mais
uma vez se o mundo é passível ou não de se deparar com limites físicos".58 O debate público aberto que
cercou o trabalho do MIT foi sua conquista mais importante, argumentava a equipe de Sussex. (Ao chegar o
final dos anos 70, cerca de 4 milhões de cópias de The Limits to Growth haviam sido vendidas em trinta
línguas.)59
A equipe argumentava que as ciências sociais poderiam se beneficiar com o uso da modelagem
computacional, mas que os modelos tinham suas limitações. A equipe do MIT havia se atribuído a tarefa de
traçar um modelo no qual as relações eram uma representação precisa do mundo real como este se
apresentava em 1970, mas o modelo não conseguiu atender às exigências. O problema básico residia numa
carência de dados (pela qual a equipe do MIT não poderia ser responsabilizada e que ela mesma admitia),
nas pressuposições feitas sobre as relações, na escolha das pressuposições e no relativo desprezo em relação
à economia e à sociologia. Daí vinha a perigosa auto-ilusão da afirmação de Meadows, na introdução de The
Limits to Growth, de que "os modos de comportamento básicos que já observamos neste modelo parecem ser
tão fundamentais e gerais que não esperamos que nossas conclusões mais amplas sejam substancialmente
alteradas por revisões posteriores” 60 A equipe de Sussex argumentava que era "essencial examinar a
predisposição política e os valores implícita ou explicitamente presentes em qualquer estudo de sistemas
sociais. A aparente neutralidade distanciada de um modelo de computador tanto é ilusória quanto
persuasiva". Enfatizando que atitudes e valores subjetivos influenciam as previsões (e de fato admitindo que
suas próprias visões sobre The Limits to Growth refletiam suas predisposições políticas e limitações
subjetivas), a equipe de Sussex identificou uma segunda fraqueza importante - "o fetichismo do computador,
[o qual] ( ... ) concede ao modelo computacional uma validade e um poder independente que transcendem
inteiramente os modelos mentais, os quais são sua base essencial".61

93

As visões da equipe de Sussex diferiam em três aspectos fundamentais das da equipe doMIT:
1) Havia uma ênfase muito maior nos limites políticos e sociais do crescimento do que nos limites
puramente físicos (a pobreza, argumentavam, era um problema maior, diante do qual a meta do MIT de
crescimento zero não era o ideal); "o debate do crescimento versus não-crescimento tornou-se bastante
estéril ( ... ) porque tende a ignorar as questões realmente importantes da composição do crescimento nos
seus resultados e da distribuição dos frutos do crescimento". O problema era estimular uma distribuição mais
equitativa.

2) O grupo do MIT estava subestimando as possibilidades de um progresso técnico continuado. A equipe de


Sussex argumentava que "a inclusão do progresso técnico no modelo do MIT em setores dos quais ele é
omitido tem o efeito de adiar indefinidamente as catástrofes que o modelo de outro modo prevê". Estudos
feitos cem anos antes do estudo do MIT (o qual fazia previsões para daqui a 130 anos) não poderiam ter
previsto a dependência do petróleo e o crescimento da energia nuclear, argumentava a equipe de Sussex.

3) A equipe de Sussex não estava inteiramente convencida de que os modelos de mundo baseados na
dinâmica de sistemas poderiam desenvolver-se a ponto de se tornarem instrumentos satisfatórios de previsão
e planejamento de políticas. Robert Golub, um físico em Sussex, argumentava que a abordagem do MIT era
inerentemente perigosa, porque dava aparência espúria de conhecimento preciso a quantidades e relações
que eram desconhecidas (e muitas vezes impossíveis de conhecer), estimulava um excesso de simplificação
grosseiro e incentivava o desprezo por fatores difíceis de quantificar, tais como mudanças de política ou
valores sociais.62

Não havia dúvida de que o crescimento exponencial não poderia continuar indefinidamente, mas a equipe de
Sussex opunha-se particularmente à alegação do MIT de que o crescimento existente deveria acabar dentro
do período de vida de muitas pessoas que viviam então e que, a não ser que medidas drásticas fossem
tomadas, ocorreria o desastre global. The Limits to Growth foi, além disso, criticado por Sandbach 63 e
O'Riordan 64 por basear todas as suas previsões nas reservas conhecidas de recursos (embora a equipe do
MIT tenha tomado o cuidado de assinalar que novas descobertas "adiariam a carência, mas não a
eliminariam”).65 Sandbach cita o exemplo de um estudo norte-americano de 1944 onde, se as reservas
previstas de quarenta e uma matérias-primas tivessem permanecido estáticas, 21 delas estariam exauridas já
em 1980. 66 O progresso tecnológico tem demonstrado repetidamente que se tornou mais fácil extrair e
substituir os recursos, que a eficiência dos processos industriais cresceu 67 e que o volume de recursos
exploráveis conhecidos muitas vezes cresceu junto com a demanda.
Hoje em dia já está claro que os modelos do MIT foram construídos numa época em que a
compreensão dos processos ambientais e das questões dos recursos era incompleta (permanece incompleta
atualmente), quando a modelagem computacional estava em sua infância e quando as percepções tinham alta
probabilidade de serem influenciadas pelo desalento malthusiano predominante na época. As fraquezas do
The Limits to Growth não residem tanto em suas conclusões mais amplas (embora muitas delas fossem
contestadas), mas sim na sua metodologia. Alguns críticos sentiam que o método era simples demais e,
portanto, insuficiente para propiciar diretrizes de política. Outros ainda achavam que, já que The Limits to
Growth era basicamente uma versão "sensacionalizada" do World

94

Dynamics, sua publicação poderia ter sido adiada até que alguns dos seus problemas estruturais tivessem
sido resolvidos.68
A equipe de Sussex não era ela própria imune às concepções equivocadas. Ao criticar o subsistema
de poluição do modelo do MIT, eles argumentaram que "a maioria dos desastres causados pelos poluentes
materiais tem grande probabilidade de ser local ( ... ) ou de ser causada por um poluente ou classe de
poluentes". Ao agrupar todos os poluentes, argumentava a equipe de Sussex, "e pressupor que os mesmos se
comportam de alguma maneira cumulativa, desvia-se a atenção de problemas que são urgentes e ainda
solúveis, e se a dirige para a especulação sobre uma corrida imaginária contra o tempo entre a "Vida" e a
"Asfixia Global". Justamente enquanto a equipe escrevia surgiram crescentes evidências do problema
emergente da poluição ácida (a equipe do MIT havia mencionado a poluição de dióxido de enxofre), que
acabou por desmentir a alegação da equipe de Sussex; a acidez pode ser causada por uma classe de
poluentes, mas as vias dos danos causados são enormemente complexas e o problema não é inteiramente
local, e nem sempre passível de solução local.69
Uma década depois, os autores de Global 2000 criticaram os modelos World 2 e 3 por uma variedade
de razões. "São modelos gerais estrategicamente orientados e não fazem qualquer tentativa de desenvolver
análises detalhadas específicas. Familiarizam os usuários com as tendências básicas dos sistemas de
população-recursos-meio ambiente, mas não dizem nada em relação aos problemas de regiões
específicas”.70 Outros problemas identificados pelo Global 2000 incluem os seguintes: os modelos são
baseados numa série de pressuposições controversas (inclusive a incapacidade da tecnologia de minorar os
limites naturais do crescimento); concentram-se nos recursos minerais sem dar atenção aos combustíveis
fósseis; omitem fatores sociais, tais como distribuição de renda e a ordem internacional, os quais "podem
colocar problemas de limitação muito antes que os limites físicos propriamente ditos sejam alcançados";
sofrem as conseqüências de uma base de dados fraca e de um agrupamento de itens com comportamento
dessemelhante no subsistem a da poluição; e deixam de levar em consideração possíveis mudanças
qualitativas na natureza do crescimento econômico que poderiam torná-Io uma sobrecarga menor em relação
aos recursos limitados. Global 2000 concluiu que, embora os modelos World tenham ajudado a esclarecer a
natureza dos problemas globais de longo prazo, "suas limitações os tornam inadequados como instrumentos
básicos de análise ou como instrumentos para análises detalhadas de problemas globais e suas soluções".71
Para Hecox, a contribuição duradoura de The Limits to Growth reside mais nas questões que levantou do que
nas respostas que forneceu e mais no direcionamento da atenção pública para questões cruciais dos futuros
globais do que em suas descrições específicas.*/72

A SÍNDROME DO APOCALIPSE

Se os profetas do apocalipse fizeram surgir uma refutação científica fundamentada e análises de alto nível
intelectual, atraíram também ataques apaixonados e ocasionalmente reacionários ao seu alarmismo. Se é
possível identificar um porta-estandarte dos críticos do apocalipse, este foi provavelmente John Maddox, o
editor do periódico científico britânico Nature. A primeira linha de seu livro de 1972, The Doomsday
Syndrome, diz:
"Este não é um trabalho intelectual mas sim uma queixa."73 Ele se opunha aos modelos e ensaios que
ignoravam as formas pelas quais as "instituições sociais e as aspirações

* O Clube de Roma patrocinou uma seqüela mais otimista a The Limits to Growth, intitulada Mankind at the Turnlng Point,
de Mihaljo Mesarovic e Eduard PesteI (Nova York: Dutton, 1974). Dividindo o mundo em sub-regiões, esta oferecia uma técnica
de projeções através das quais os elaboradores de políticas poderiam de fato testar suas estratégias. Deliberadamente discreto, o
relatório foi praticamente ignorado.

95

humanas podem conspirar para resolver os problemas mais aterrorizantes". Achava que o debate do
apocalipse era dogmático demais - ou tinha-se uma visão de longo prazo e a favor da preservação do meio
ambiente, ou era-se uma pessoa sem coração e contra a mesma. Ao disseminar o desalento e o alarme,
argumentava, a síndrome do apocalipse poderia minar a capacidade da raça humana de cuidar da sua
sobrevivência e "ser um risco igual a qualquer dos impasses que a sociedade havia criado para si mesma".
Maddox via com ceticismo os valores e a história de todo o movimento ambiental: o argumento ambiental a
favor do Tratado de Proibição dos Testes de 1963 foi aceitável aos signatários somente porque estes já
haviam, na época, atingido os objetivos estratégicos do programa de testes; Rachei Carson tinha, em certa
medida, induzido seus leitores a um erro grave e a influência de Silent Spring advinha muito da "técnica de
superdramatização calculada" de Carson; e a afirmação de que a decisão do Congresso dos EUA, em 1971,
de abandonar seu projeto de SST foi uma vitória ambiental não era bem colocada - muito mais importante
foi a resistência do Congresso a ser coagido a concordar com um projeto de desenvolvimento cujos
benefícios econômicos eram questionáveis.
Outros críticos do apocalipse eram menos reservados em seus ataques. Poucos foram mais
indignados do que Thomas R. Shepard, Jr., o editor da revista Look. Em seu notável livro de 1973, The
Doomsday Lobby, em co-autoria com Melvin Grayson, ele permitiu claramente que a revolta o desviasse do
caminho da razão. Invectivas particularmente violentas eram dirigidas a Silent Spring. Os dois homens
argumentavam que o livro era um ataque à comunidade empresarial, um ataque ao progresso científico e
tecnológico, um ataque aos Estados Unidos e um ataque ao próprio homem. Rachel Carson tornara-se a
porta-estandarte do estandarte da "brigada acadêmica de esquerda". (Só não chegaram a chamá-Ia de
comunista.) Milhões de norte-americanos haviam comprado o livro "tão avidamente quanto as Hausfrauen
rechonchudas da Bavária haviam comprado o lixo de Adolf Hitler e, em grande parte, pelo mesmo motivo".
Em 1961, relataram, houve 110 casos registrados de malária no Sri Lanka (então Ceilão) e nenhuma morte;
em 1968, houve 2,5 milhões de casos e dez mil mortes. Muitos acreditavam, escreveram Greyson e Shepard,
que esses novos casos e mortes poderiam ser atribuídos, em grande medida, ao impacto de Silent Spring, por
ter levado a uma proibição do DDT. Era, eles escreviam, "O Livro Que Matava".74
Shepard pode ter-se mostrado transtornado, mas suas visões eram apenas uma sombra das de Petr
Beckmann, um engenheiro elétrico da Universidade do Colorado. Em seu livro Eco-hysterics and the
Technophobes, 75 ele se declarava desobrigado a observar as delicadezas da etiqueta científica porque não
estava discutindo com cientistas, mas sim com "fanáticos obscurantistas" pregando "incoerências violentas".
Para ele, The Limits to Growth era "um dos maiores aleijões concebidos pela filosofia do apocalipse", a
palavra ecologia havia perdido todo o seu sentido e os profetas do apocalipse eram ignorantes no que diz
respeito à demografia, economia e ciência. Não tinha nenhuma pendência quanto à idéia de que o meio
ambiente deveria ser protegido e preservado, mas achava que os "ecoloucos" e o "ecoculto" haviam chegado
para dominar o movimento ambiental, a ponto de fazer com que o movimento começasse a degenerar para
uma tecnofobia cega. A própria ciência estava sob ataque, escreveu; os ambientalistas estavam cerceando a
atividade científica e reduzindo as novas matrículas nas escolas de física e engenharia. O prêmio Nobel
Norman Borlaug (pai da Revolução Verde) finalmente acabou integrando-se à refrega, denunciando os
"ambientalistas histéricos" por tentarem impedir o uso de produtos químicos agrícolas. "Sé for negado à
agricultura", continuava, "o uso de produtos químicos agrícolas por causa de uma legislação imprudente que
está sendo agora promovida por um grupo poderoso de lobbysts histéricos, os quais estão provocando o
medo ao prever o apocalipse para o mundo através de envenenamento químico, mundo estará condenado não
por envenenamento químico, mas pela fome."76

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Além dessas visões, havia evidências crescentes do surgimento do que Killian chama de um
"movimento contra-social".77 Em certo nível o ambientalismo despertava a ira daqueles que acreditavam na
santidade dos "valores tradicionais", tais como o direito de determinar o tamanho da própria familia. Em
outro nível foram feitas tentativas de relacionar o movimento ambiental a uma conspiração maior. As Filhas
da Revolução Americana achavam que o Dia da Terra era subversivo; um administrador estadual da Geórgia
montou uma pequena campanha para chamar atenção para o fato de que o Dia da Terra coincidia com o
aniversário de Lênin; 78 o presidente da Associação Americana do Carvão advertiu que o movimento
ambiental poderia se radicalizar a ponto de poder enfraquecer os Estados Unidos, ao negar ao país os
minerais necessários e outros recursos.79 Finalmente, havia a questão da "poluição versus folha de
pagamento", na qual muitas indústrias ameaçadas argumentavam que não poderiam continuar a operar se
fossem forçadas a se adequar a controles ambientais severos e que portanto muitos de seus empregados
perderiam seus empregos.80
Não há mais nenhuma dúvida de que alguns dos profetas exageraram o problema em certa medida.
Ambientalistas mais tradicionais podem ter temido que a síndrome do apocalipse faria mais mal do que bem
à causa ambiental. Robert Allen, um dos autores de A Blueprint for Survival, observou que a maioria dos
ecologistas classificava a si mesma como moderada.81 Maddox advertiu que o movimento ambiental
poderia se ver na posição de "cair com a cara no chão quando era mais necessário, simplesmente por ter
vendido seu peixe com excessiva energia". 82 Daniel Luten, presidente dos Amigos da Terra, refletia, em
1985, que os profetas previram uma crise imediata "porque estavam com medo de que. a fixação da atenção
do público não duraria o suficiente para que se examinassem as questões mais profundas que eles achavam
necessitar de atenção. Quando não houve crise imediata, ficaram desacredítados"83. Para sermos justos, a
maioria dos profetas estava delineando cenários que ilustravam o que poderia acontecer, não o que
necessariamente viria a acontecer. Os autores de The Limits to Growth enfatizaram (nitidamente com pouco
efeito) que "nossa postura é de preocupação muito grave, mas não de desespero".84 É verdade que os
modelos e ensaios traçavam quadros sombrios e algumas das profecias se revelaram falsas, engendrando a
dúvida; ainda assim, os profetas fizeram com que as pessoas pensassem. Pode ter sido rude - ou mesmo uma
aposta perigosa - usar tais táticas de choque, mas o intenso interesse gerado em torno da saúde do meio
ambiente, mesmo que muitas vezes carecesse de sustentação científica digna de crédito e se apoiasse
fortemente demais na postulação, não obstante abriu caminho para uma mudança nas atitudes sociais e,
subseqüentemente, políticas.
Como Smith, Malthus, Mill, Marx e Keynes antes deles, os novos profetas do apocalipse
desencadearam um debate acalorado, de modo que seus argumentos se tornaram menos importantes do que
os efeitos dos mesmos. Em A Miséria da Filosofia Marx observou quanto ao livro de Malthus sobre
população que "na sua primeira edição, não era nada além de um 'panfleto sensacionalista' e, de quebra, um
plágio do começo ao fim. E mesmo assim, que estímulo foi produzido por esse libelo sobre a raça
humana!”85 Quaisquer que sejam as inexatidões e ilusões que marcaram os escritos de Ehrlich, Commoner,
Hardin, Meadows e outros, a sua contribuição para o Novo Ambientalismo foi a de ter incitado as pessoas a
pensarem sobre essas questões. Nesse sentido os profetas do apocalipse tiveram êxito nas metas que se
propuseram.

97

CINCO
A Conferência de Estocolmo (1970-1972)

Duas conferências internacionais foram realizadas em 1968 e em 1972 para avaliar os problemas do meio
ambiente global e; mais importante, sugerir ações corretivas. A primeira foi a Conferência da Biosfera,
realizada em Paris em setembro de 1968. Concentrando-se sobre os aspectos científicos da conservação da
biosfera, a conferência foi em parte o produto do aumento da coordenação na pesquisa ecológica encorajado
pelo Programa Biológico Internacional (ver capítulo 3). A segunda foi a Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em junho de 1972. Estocolmo foi sem dúvida um
marco fundamental no crescimento do ambientalismo internacional. Foi a primeira vez que os problemas
políticos, sociais e econômicos do meio ambiente global foram discutidos num fórum intergovernamental
com uma perspectiva de realmente empreender ações corretivas. A conferência objetivava "criar no seio da
ONU bases para uma consideração abrangente dos problemas do meio ambiente humano" e "fazer convergir
a atenção de governos e opinião pública em vários países para a importância do problema".1 O evento
resultou diretamente na criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP - United Nations
Environmental Programme). E marcou igualmente uma transição do Novo Ambientalismo emocional e
ocasionalmente ingênuo dos anos 60 para a perspectiva mais racional, política e global dos anos 70. Acima
de tudo, trouxe o debate entre os países menos desenvolvidos e mais desenvolvidos - com suas percepções
diferenciadas das prioridades ambientais - para um fórum aberto e causou um deslocamento fundamental na
direção do ambientalismo global.

A CONFERÊNCIA DA BIOSFERA

A Conferência da Biosfera deu continuidade ao tema da cooperação internacional em pesquisa ecológica,


que havia sido inicialmente explorado na UNSCCUR, em 1949. Na conferência sobre os parques nacionais
de 1962, em SeattIe, foi cogitada a realização de um encontro semelhante sobre espécies em extinçâo.2 Isso
foi discutido na Assembléia Geral da IUCN de 1963 e em 1965-1966 foram traçados planos por um comitê
organizador multi-ONGs. A UNESCO sugeriu então que era necessária uma conferência mais geral sobre
uso e conservação racionais da biosfera, a fim de propiciar a persuasão das nações emergentes quanto às
virtudes da conservação. A Conferência da Biosfera (a Conferência Intergovernamental de Especialistas
sobre as Bases Científicas para Uso e Conservação

98

Racionais dos Recursos da Biosfera) foi realizada em Paris, sob os auspícios da UNESCO, de 12 a 13 de
setembro de 1968. A biosfera foi definida como "aquela parte do mundo na qual a vida pode existir,
incluindo-se portanto certas partes da litosfera, da hidrosfera e da atmosfera".3 A conferência discutiu o
impacto humano sobre a biosfera, incluindo os efeitos da poluição do ar e da água, o excesso de pastagens, o
desmatamento e a drenagem das wetlands.
Vários temas emergiram do debate sobre os relatórios nacionais distribuídos na conferência:
1) Ainda que algumas mudanças no meio anibiente venham ocorrendo há décadas ou mais, as mesmas
parecem ter atingido um patamar crítico.

2) Nos países industrializados isso estava "causando preocupação e exigência popular por correção".

3) Paralela a essa preocupação estava a compreensão de que os caminhos tradicionais de


desenvolvimento e uso dos recursos naturais tinham que ser alterados, com o desenvolvimento
descuidado sendo substituído pelo desenvolvimento que reconhecesse que a biosfera era um sistema,
o qual podia ser afetado em seu todo pelas atividades desenvolvidas em qualquer uma de suas partes.

4) Era necessário um novo enfoque interdisciplinar para o uso planejado dos recursos naturais; as
ciências naturais e a tecnologia não podiam resolver sozinhas os problemas de administração de
recursos - as ciências sociais também deveriam ser consideradas.

5) Era necessário um vasto montante de novas pesquisas nos países mais desenvolvidos e nos menos
desenvolvidos; posto que não há solução universal para os problemas da biosfera, compreensão e
técnicas teriam que ser adaptadas às áreas no interior dos países e às regiões formadas por dois ou
mais países.

A conferência chegou a um acordo sobre uma lista de vinte recomendações. As oito primeiras eram baseadas
na necessidade de mais e melhores pesquisas sobre ecossistemas, ecologia humana, poluição e recursos
genéticos e naturais, e sobre a necessidade do desenvolvimento de práticas de inventário e monitoração de
recursos. As recomendações de 9 a 13 defendiam a necessidade de novos enfoques para a educação
ambiental. A proposta da realização de uma conferência sobre o meio ambiente humano havia sido então
adotada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC); os delegados em Paris
receberam bem essa proposta, percebendo que o uso e conservação racionais do meio ambiente humano
dependiam não só das questões científicas, mas igualmente das dimensões política, social e econômica, que
estavam fora da esfera de ação da conferência de Paris. A recomendação 19 percebia a necessidade de levar
em consideração os impactos ambientais dos projetos de desenvolvimento de grande escala. Os delegados
temiam que a industrialização e a exploração intensiva dos recursos naturais .em países menos
desenvolvidos pudessem causar danos irreparáveis em ambientes pouco perturbados e ecologicamente
frágeis e, assim, inibir o desenvolvimento sócio-econômico.
Um resultado importante da Conferência da Biosfera foi a ênfase sobre o caráter inter-relacionado do
meio ambiente. Os delegados concluíram que a deterioração do meio ambiente era culpa do crescimento
populacionaI, urbanização e industrialização rápidos. Um vasto movimento de êxodo rural havia provocado
o desaparecimento de tradições, direitos costumeiros e mudanças em estilos de vida, trazendo problemas
particularmente sérios para os países menos desenvolvidos. O mundo "carecia de políticas ponderadas e

99

abrangentes para a administração do meio ambiente. Está agora perfeitamente claro que políticas nacionais
são obrigatórias se o que se pretende é restaurar e preservar a qualidade ambiental" .4
As recomendações 1 e 20 defendiam a criação de um novo programa de pesquisa internacional sobre
o homem e a biosfera. "Muitas das mudanças produzidas pelo homem afetam a biosfera como um todo",
observou a conferência, "e estão agora confinadas dentro de fronteiras regionais ou nacionais ( ... ) Esses
problemas não podem ser resolvidos em nível regional, nacional ou local e portanto requerem atenção numa
escala global."5 O Programa Biológico Internacional deveria terminar em 1974. Seu começo fora auspicioso,
mas era uma iniciativa não-governamental e, como tal, tinha capacidades limitadas. A UNESCO acreditava
que o IBP deu muito pouca ênfase ao estudo de áreas em que ecossistemas vizinhos se encontram, isso por
ter sido implementado somente por especialistas em ciências naturais, dar pouca im portância aos dados
econômicos e sociais no estudo dos ecossistemas e carecer de um componente de instrução e treinamento.6
Foi discutido um sucessor para o IBP, e o programa O Homem e a Biosfera (MAB - Man and lhe Biosphere)
foi finalmente lançado em novembro de 1971 (ver capítulo 9).
PREPARATIVOS PARA ESTOCOLMO

O significado da Conferência da Biosfera é geralmente negligenciado, principalmente por causa do impacto


público e político muito maior da conferência de Estocolmo de 1972. Contudo, algumas iniciativas
atribuídas a Estocolmo foram, em alguns casos, somente expansões de temas levantados em Paris. Alguns
dos fundamentos intelectuais de Estocolmo refletiam os de Paris e algumas dentre as recomendações eram
comuns a ambas as conferências. A diferença real reside no fato de que, enquanto Paris se voltou para os
aspectos científicos dos problemas ambientais, Estocolmo se preocupou com questões políticas, sociais e
econômicas mais amplas. Isso não somente produziu um maior envolvimento das ONGs (isto é, o
movimento dos cidadãos) nas discussões, como também deu oportunidade a coberturas jornalísticas mais
dramáticas.
Se houve alguma questão isolada que tenha gerado Estocolmo, foi a questão da poluição ácida.
Pesquisas realizadas na Suécia durante o final da década de 60 haviam revelado um preocupante aumento na
acidez da chuva que caía na região (ver capítulo 9), impelindo os cientistas suecos a reivindicar ação
preventiva. Sverker Astrom, embaixador sueco na ONU, submeteu uma proposta de realização de uma
conferência internacional numa· resolução apresentada ao ECOSOC em julho de 1968. Doud sugere que a
velocidade com que a resolução foi adotada pela Assembleía Geral, no mês de dezembro seguinte, refletiu,
em alguma medida, o impacto do Novo Ambientalismo.7 A resolução enfatizava o trabalho ambiental que já
era empreendido pelas organizações intergovernamentais (OIGs), pelas ONGs e pelos órgãos especializados
da ONU (na realidade, listava OIT, FAO, UNESCO, OMS, WMO, IMCO e IAEA, o que sugere uma
definição muito vaga do que constituía a "atividade ambiental"). A conferência, continuava a resolução, era
necessária para fornecer uma perspectiva segundo a qual a ONU pudesse avaliar de maneira abrangente os
problemas do meio ambiente humano e fazer convergir a atenção de governos e opinião pública. */8 Deveria
também identificar aqueles aspectos que só poderiam ser resolvidos ou que melhor se resolveriam através do
acordo e da cooperação internacionais.9 Esse era o ponto crítico. O fato de que a poluição ácida - uma
questão transnacional - tenha

* Assim como ocorreu com a UNSCCUR em 1949, a conferência de Estocolmo foi inicialmente convocada para chamar a atenção
sobre uma questão, mas não necessariamente para recomendar ação. Foi somente em 1970 que conversas sobre ação entraram nas
deliberações do comitê organizador.8

100

contribuído para concretizar a conferência não se tratava de coincidência; na época os ambientalistas


europeus e americanos estavam preocupados com a poluição e, numa medida menor, com a destruição das
áreas virgens.
Mas o mais importante produto das discussões pré-conferência foi o novo e tenaz papel dos países
menos desenvolvidos no debate ambiental. A poluição, um problema dos países industrializados, pode ter
sido a centelha da conferência, mas os países menos desenvolvidos utilizaram seu poder de voto na
Assembléia Geral-para assegurar que a perspectiva do Terceiro Mundo fosse apreciada desde o início. A
resolução da Assembléia Geral expressava a esperança de que os países menos desenvolvidos "obteriam
benefício particular da mobilização de conhecimento e experiência sobre os problemas do meio ambiente
humano, o que os capacitaria ( ... ) a prever e impedir a ocorrência de muitos desses problemas".10 As
resoluções subseqüentes da Assembléia Geral das Nações Unidas e do ECOSOC refletiam a cautela do
Terceiro Mundo quanto à filosofia do crescimento zero que gerou lhe Limits to Growth. Um relatório sobre
os progressos na preparação da conferência em julho de 1970 advertia para o fato de que a popularização dos
problemas ambientais "aumentou o perigo de uma concentração sobre os aspectos mais espetaculares da
deterioração ambiental (tais como a poluição) nuns poucos países avançados, em detrimento de aspectos
menos óbvios de natureza econômica e cultural". Era necessário um programa de informação dirigido a
legisladores, planejadores de políticas governamentais e líderes da indústria e da agricultura para colocar em
perspectiva questões tais como a poluição e chamar atenção para os problemas ambientais dos países menos
desenvolvidos. 11
Esses países temiam claramente que as salvaguardas e restrições ambientais impostas pelas nações
industrializadas retardassem o desenvolvimento, que pudessem advir restrições comerciais quando os países
mais desenvolvidos proibissem a importação de comida contaminada por pesticidas e que não pudessem se
beneficiar da administração dos recursos naturais compartilhados. "Debates sobre a teoria do apocalipse, os
limites do crescimento, a explosão populacional e a conservação da natureza e dos recursos naturais,"
observava o UNEP, "eram em grande parte encarados como acadêmicos e sem grande interesse para aqueles
confrontados com as realidades diárias da pobreza, fome, doença e sobrevivência”12. Ainda muito mais
urgentes eram as questões da baixa expectativa de vida, de carências básicas como abrigo, água potável,
saneamento adequado e, acima de tudo, da necessidade de alimentar e empregar um número rapidamente
crescente de pessoas. Havia uma forte tentação para os países pobres de concentrar toda sua energia e todos
os seus recursos na solução a curto prazo desses problemas, e de se preocupar com quaisquer dos problemas
ambientais resultantes num estágio posterior. Por outro lado, alguns dos governos do Terceiro Mundo
sentiram que poderiam aprender com os erros ambientais cometidos pelo mundo industrializado. Em
dezembro de 1971, a Assembléia Geral aprovou uma resolução em grande parte devotada a descrever em
linhas gerais as restrições feitas pelos países menos desenvolvidos. Esta reforçava que o plano de ação de
Estocolmo devia reconhecer que "nenhuma política ambiental deveria afetar de modo adverso as
possibilidades de desenvolvimento presentes e futuras dos países em desenvolvimento ( ... ) [e que] o fardo
das políticas ambientais dos países desenvolvidos não pode ser transferido ( ... ) aos países em
desenvolvimento".13 O Reino Unido e os Estados Unidos foram os dois únicos países a votar contra essa
resolução.*/14
Muitas das preocupações dos países menos desenvolvidos surgiram quando dos dois

* Os países mais desenvolvidos tinham aparentemente suas próprias preocupações sobre o que a conferência poderia realizar.
Pouco antes da conferência, o Ecologist sugeriu que os países mais desenvolvidos estavam "ansiosos para limitar tanto quanto
possível a ação internacional sobre o meio ambiente no que se refere a medidas antipoluição, (temendo) que a conferência se
tomasse em mais outra plataforma para a reivindicação de maior ajuda econômica por parte dos países pobres".

101

encontros preparatórios realizados durante o ano de 1971: a Mesa-Redonda de Especialistas em


Desenvolvimento e Meio Ambiente (Founex, Suíça, de 4 a 12 de junho) e o grupo de trabalho do
SCOPE/UNCHE (Scientific Committee on Problems of the Environment/United Nations Conference on the
Human Environment) sobre problemas ambientais em países menos desenvolvidos (Canberra, Austrália, de
24 de agosto a 3 de setembro). A mesa-redonda de Founex tentou assegurar aos países menos desenvolvidos
que a proteção ambiental não entraria em conflito com seus interesses, não afetaria sua posição no comércio
internacional e que eles poderiam manter seu desenvolvimento industrial ao mesmo tempo que evitavam as
ciladas experimentadas pelo mundo mais desenvolvido. Em vez de uma confrontação entre
desenvolvimentistas e conservacionistas, observa Rodgers, "o que emergiu foi um consenso forjado sob a
liderança dos economistas do desenvolvimento do Terceiro Mundo, os quais identificam o meio ambiente
como uma dimensão crítica do desenvolvimento bem-sucedido".15 Founex, argumentam Holdgate e
colegas, começou a esclarecer as ligações entre meio ambiente e desenvolvimento, destruiu a idéia de que
esses conceitos eram necessariamente incompatíveis e começou a convencer os representantes dos países
pobres de que as preocupações ambientais eram mais disseminadas e mais relevantes para sua situação do
que haviam avaliado e não deveriam constituir uma barreira para o desenvolvimento, porém ser parte do
processo.16
Maurice Strong,* que havia convocado o encontro de Founex e era o secretário-geral designado da
conferência de Estocolmo, tomou parte na criação de um Comitê Preparatório de vinte e sete nações para
organizar Estocolmo e elaborar uma agenda. As restrições dos países menos favorecidos, ele recordou mais
tarde, "tornaram claro que pensavam que o subdesenvolvimento e a pobreza constituíam a ameaça mais
pungente e imediata ao meio ambiente de seus povos". Como resultado, a agenda da conferência e o próprio
conceito de meio ambiente foram ampliados para incluir questões como deterioração do solo, desertificação,
administração do ecossistema tropical, suprimento de água e assentamentos humanos. Os países menos
desenvolvidos "haviam forçado um reconhecimento claro da relação entre meio ambiente e
desenvolvimento" .17 Uma agenda para a conferência foi acertada no encontro de fevereiro de 1971 do
Comitê Preparatório. Incluía administração dos assentamentos humanos, administração de recursos naturais,
controle de poluentes, educação e informação, e meio ambiente e desenvolvimento.
A atenção se voltou então para a questão dos arranjos institucionais necessários para dar seguimento
à conferência. Chegou-se a um acordo de que alguma estrutura nova era necessária, mas não houve
concordância quanto à forma que deveria assumir. Em sua terceira sessão, em julho de 1971, o Comitê
Preparatório recebeu um relatório do secretário-geral da ONU em final de mandato, U Thant, que esboçava
critérios para esses arranjos. Tais critérios incluíam uma disposição pela qual "todas as funções que
pudessem ser mais bem desempenhadas por organizações existentes deveriam ser atribuídas a essas
organizações, tanto internacionais quanto nacionais, com melhor capacidade de cumpriIas efetivamente.
Nenhum mecanismo novo desnecessário deveria ser criado" (ênfase minha).18 O relatório sugeria em
seguida que seria mais lógico pensar em termos de organizações setoriais separadas, ligadas através de
"painéis de controle", em vez de o serem em termos de um "superorganismo" global. Esta proposta
contrastava de maneira marcada com uma proposta anterior do próprio U Thant de montar exatamente esse
"superorganismo", a qual tinha-se claramente defrontado com a oposição ativa dos órgãos existentes da
ONU.19 Qualquer centro gerador de políticas, advertia o relatório, "do qual se espera que influencie e
coordene as atividades de outros órgãos, não deverá ter ele

* Maurice F, Strong (n, 1929) é homem de negócios canadense e milionário self-made com interesses numa variedade de
empreendimentos, inclusive a Petro-Canadã, De 1966 a 1971 foi diretor-geral do Escritório Canadense de Ajuda Externa (mais
tarde Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional), Foi o primeiro diretor-executivo do UNEP, de 1973 a 1975.

102

próprio funções operacionais que venham a competir de alguma maneira com as organizações sobre as quais
conta exercer sua influência".20
Num maldisfarçado exercício da arte de vender, os organismos existentes da ONU expuseram sua
argumentação num trabalho específico preparado antes da conferência para os governos. Redigido por uma
comissão dos organismos da ONU, o documento consistia na defesa das atividades de proteção ambiental
existentes da ONU. As mesmas eram sistemáticas, observava o relatório, e lidavam com uma variedade de
problemas relacionados ao meio ambiente. Considerando a complexidade e variedade das questões, os
arranjos cooperativos entre as organizações da ONU haviam viabilizado "um mecanismo dinâmico e
efetivo".21 O modelo setorial da ONU ainda era o melhor enfoque para se tratar com um grande número de
problemas ambientais, tanto nacional quanto internacionalmente, porque poderia "fornecer a flexibilidade
requerida para ( ... ) combinar estas atividades setoriais" de modo ad hoc.22 Havia admitidamente lacunas
(notadamente nas áreas da pesquisa, intercâmbio de dados e fornecimento de assistência técnica), novos
terrenos ainda deveriam ser explorados e muitas questões recebiam um tratamento inadequado; o enfoque
multidisciplinar só havia sido aplicado a um pequeno número de casos. Mas o reconhecimento de que muitos
dos problemas do meio ambiente humano eram intersetoriais havia criado as condições para uma maior
coordenação em áreas como desenvolvimento dos recursos hídricos, população e pesquisa ambiental.
O relatório seguia descrevendo em termos gerais as atividades da ONU existentes no campo do meio
ambiente humano, incluindo assentamentos humanos, administração de recursos naturais e poluição. Isso
ajudaria os delegados de Estocolmo a apreciar plenamente o potencial oferecido pelo sistema da ONU para
"esforços mundiais ampliados em direção a um meio ambiente humano melhor". O sistema da ONU não fora
projetado para muitas das tarefas que então passava a assumir regular e efetivamente; entretanto, "novas
responsabilidades não requerem automaticamente novas instituições e mecanismos, senão que significam
uma adaptação dos mecanismos e arranjos existentes ( ... ) As instituições, a experiência e o alto nível de
especialização necessários existem”23. Os órgãos especializados estavam claramente preocupados com a
possibilidade de que alguma das mudanças acordadas em Estocolmo pudesse ameaçar sua futura
independência.24 Essa inquietação não foi mencionada em fórum aberto em Estocolmo, mas aparentemente
houve uma boa quantidade de discussões privadas durante a conferência, no sentido de mobilizar Maurice
Strong a fazer uma declaração pública para a conferência sobre o fato de que a autoridade última para os
programas permanecia com cada um dos órgãos especializa dos. 25
Um documento paralelo preparado pelo secretariado da conferência oferecia uma visão oposta à do
relatório da ONU, argumentando que a descentralização não era a forma mais efetiva de administração.
Recomendava o estabelecimento de um novo organismo intergovernamental no seio da ONU, apoiado num
pequeno secretariado e num orçamento limitado. A população não seria uma de suas preocupações, já que a
ONU tinha criado recentemente o United Nations Fund for Population Activities (UNFPA). Tanto a Grã-
Bretanha quanto os Estados Unidos haviam promovido ativamente a idéia de um número limitado de
arranjos institucionais, mas enquanto a Grã-Bretanha havia sugerido que nenhum fundo novo fosse criado
para o trabalho ambiental da ONU, um comitê consultivo do Departamento de Estado americano havia
recomendado um Fundo Voluntário para o Meio Ambiente, com um orçamento anual mínimo de cem
milhões de dólares (dos quais a metade seria investi da em assentamentos humanos). Esse fundo poderia ser
administrado por um "executivo forte e de alto nível (isto é, um único funcionário apoiado numa pequena
assessoria) para assuntos ambientais", estabelecido no escritório do secretário-geral da ONU.26 O comitê
também recomendou a criação de um Orgão Intergovernamental das Nações Unidas para o Meio Ambiente
como subsidiário da Assembléia Geral, a fim de aconselhar e apoiar o executivo. O comitê consultivo, que
apresentou relatório em abril de 1972, sugeriu que a política de financiamento deveria ser formulada

103

através de avaliações nacionais baseadas na taxa de consumo de energia de cada país. Em fevereiro de 1972,
o presidente Nixon tinha proposto a criação de um fundo apoiado em contribuições voluntárias dos membros
da ONU, com o objetivo de cem milhões de dólares em cinco anos.27
Nesse ínterim, um grupo de trabalho havia sido criado pela Academia Nacional de Ciências (por
solicitação do Departamento de Estado) para éxaminar a postura dos Estados Unidos na conferência. O
grupo recomendou que, dados os objetivos difusos da conferência e a amplitude dos problemas ambientais,
"nós não consideramos uma escolha entre a estrutura principal existente para a cooperação internacional, a
ONU, e uma estrutura internacional nova, mas sim a emergência de federações flexíveis de redes de
instituições - públicas e privadas, globais e regionais, permanentes e ad hoc - para lidar com os problemas
ambientais internacionais".28 Recomendava ainda que os Estados Unidos advogassem um único ponto
central no sistema da ONU para lidar com problemas ambientais, isto é, um conselho consultivo e de
pesquisa independente, um sistema global de monitoração, um fundo ambiental e apoio ao trabalho de
organizações transnacionais ou regionais para enfrentar problemas comuns onde as capacidades nacionais
fossem inadequadas. O secretariado da conferência finalmente concordou que a forma da nova instituição
não poderia ser decidida até que as funções a serem desempenhadas pela ONU fossem determinadas.
Oitenta países submeteram relatórios nacionais ao Comitê Preparatório, seminários regionais foram
realizados para discutir as reservas feitas pelos países menos desenvolvidos, bem como encontros para
negociar a publicação de três novas convenções ambientais: a que tornava ilegal o despejo de resíduos no
mar, a que conservava os sítios de valor como herança cultural ou natural e a que preservava wetlands e ilhas
como áreas ecológicas de significação especial (ver capítulo 8). Preparativos como esses tornaram o
andamento dos procedimentos em Estocolmo muito mais fácil. O que aconteceu na conferência foi somente
a ponta do iceberg, observa Sohn: "toda uma montanha de árduo trabalho preparatório foi o pré-requisito
necessário para o sucesso final".29 Os relatórios, em última análise, deram a Estocolmo um sentido de
direção, fizeram convergir os pensamentos dos delegados e evitaram muito desperdício de tempo em
discussões preliminares. O que Landsberg chama de "paciente trabalho missionário”30 de Maurice Strong
havia também contribuído para evitar um desacordo maior entre os países mais e menos desenvolvidos.
Strong havia enfatizado constantemente a compatibilidade entre o desenvolvimento e a qualidade ambiental
em suas conversas preparatórias com os governos do Terceiro Mundo. Landsberg acredita que as discussões
sobre desenvolvimento e meio ambiente em Founex, Canberra e em outros encontros tenham ajudado a
reduzir o que de outro modo poderia ter sido "urna grande dose de controvérsia aguda e retórica em
Estocolmo. De certo modo, estabeleceu-se a impressão de que todos esses problemas já haviam sido
conversados e, com exceções, havia uma quase relutância em repassar uma vez mais o terreno já familiar".31
Restavam diferenças de opinião, mas estas não polarizaram irrecuperavelmente a conferência. Os temores de
que os países menos desenvolvidos desprezassem as preocupações ambientais não se confirmaram.32
Em maio de 1971 Maurice Strong encarregou Barbara Ward e René Dubos* de preparar um relatório
não oficial que proporcionasse aos delegados de Estocolmo os fundamentos intelectuais e filosóficos
necessários para suas deliberações; Strong

* Barbara Ward (1914-1982), também conhecida como baronesa Jackson de Lodsworth, foi jornalista e escritora. Editora
assistente do Economíst de 1940 a 1950, foi nomeada, em 1968, Schweitzer Professsor de Desenvolvimento Econômico
Internacional na Universidade de Colurnbia. Em 1973 tomou-se presidente do IlED. Seus dois últimos livros foram The Home of
Man (1976) e Progress for a Small Planet (1979). René Dubos (1901-1983), americano nascido na França, foi biólogo, filósofo
e ganhador do prêmio Pulitzer.

104

descreveu-o como proporcionando "uma estrutura conceitual".33 O relatório, mais tarde publicado com o
título de Only One Earth.34 foi revisto por um comitê de 152 consultores com conhecimentos em indústria,
pesquisa científica, planejamento, relações internacionais, economia e desenvolvimento. Todo esse trabalho
de revisão e edição resultou num documento freqüentemente brando e retórico, ocasionalmente alarmista,
que apresentava orientações gerais em vez de propostas específicas (as quais, supunha-se, deveriam derivar
da própria conferência). O livro resumia a questão através do esboço de três requisitos muito amplos para o
progresso futuro: "responsabilidade coletiva internacional" no sentido de aprender mais sobre os sistemas
naturais e sobre como eles são afetados pela atividade humana e vice-versa; adoção de políticas globais (em
vez de nacionais) e coordenadas sobre as questões de proporção global, tais como clima e oceano; e unidade
de propósito baseada na "lealdade para com a Terra", isto é, a crença na necessidade de proteger e aprimorar
o meio ambiente, e o reconhecimento do conceito da interdependência planetária da vida na Terra. Ward e
Dubos criticaram as instituições internacionais existentes pela falta de "qualquer sentido de comunidade e
compromisso planetários". Avaliaram separadamente as características dos problemas ambientais nos países
mais e menos desenvolvidos. Poluição, desperdício e mau uso do solo, crescimento urbano, a sociedade de
consumo e a pressão sobre os recursos estavam listados como "problemas da alta tecnologia", ou seja, dos
países mais desenvolvidos. Pressões populacionais, os problemas potenciais da Revolução Verde, indústria e
poluição, e crescimento urbano foram avaliados no contexto dos países menos. desenvolvidos.
A despeito de sua natureza abrangente, Only One Earth foi bem recebido e propiciou um gancho
filosófico útil para a conferência. Sua publicação foi empreendida por um novo instituto de pesquisa, o
International Institute for Environment Affairs (IIEA), criado em 1972 sob o patrocínio do Instituto Aspen
para Estudos Humanísticos, no Colorado. O IIEA deveria ajudar na preparação de Estocolmo e, a partir daí,
dar seguimento às suas conclusões e, em alguma medida, atuar como uma ponte entre os países mais e
menos desenvolvidos.35 Iria concentrar-se nos impactos sócio-políticos da administração ambiental e nas
implicações da relação meio ambiente/sociedade, atuando como uma. fonte confiável de informação e como
um ponto de convergência de comunicações para instituições, pessoas e idéias.36 Um memorando sobre
uma proposta de estrutura para o IIEA observava que Estocolmo era uma oportunidade política premente
para começar a encorajar uma cooperação internacional mais intensa no campo do meio ambiente, mas
"existe um perigo real de que seu resultado possa vir a ser mais divisivo do que qualquer outra coisa. Quase
que inevitavelmente, a Conferência de Estocolmo levará ao auge uma incipiente mas necessária coalizão
política entre os objetivos ambientais e os objetivos de desenvolvimento ( ... ) irá, pelo menos, ter algum
efeito sobre questões de padrões internacionais e de procedimentos de controle e, assim, sobre o direito
internacional".37
Os fundamentos filosóficos do llEA se apóiam nos resultados de um estudo de praticabilidade que
durou quatro meses e que foi conduzido entre fevereiro e maio de 1970 pela Fundação Anderson. O estudo
descobriu que as instituições governamentais nacionais e internacionais estavam preocupadas quase que
exclusivamente com os sintomas físicos da questão ambiental, ao invés das implicações sociais ou da
mudança institucional; que o interesse público (ao menos nos Estados Unidos) se concentrava quase que
inteiramente sobre problemas ambientais domésticos; e que, embora ocorressem fortes pressões para deter a
degradação ambiental, poucas pressões eram exercidas no sentido da definição de valores ou para "ajudar a
conduzir o 'movimento ambientalista' por caminhos construtivos e dinâmicos de reforma das atitudes,
valores e instituições tradicionais".38
O llEA começou por promover, em Aspen, uma série de grupos de trabalho sobre a

105

administração internacional dos problemas ambientais e passou suas recomendações para os organizadores
de Estocolmo. O co-presidente do IlEA, Robert o. Anderson (presidente da Atlantic Richfield e financiador
inicial do instituto) acreditava que o mesmo deveria "manter a embarcação firme num curso intermediário
entre os alarmistas da ruína e do desânimo e aqueles que resistem a reconhecer o perigo claro ao qual o meio
ambiente humano está sendo exposto".39 Em janeiro de 1973 Barbara Ward tornou-se presidente do instituto
em tempo integral, mudando sua sede para Londres e rebatizando-o como International Institute for
Environrnent and Development (IIED), o que refletia o resultado das discussões sobre as prioridades dos
países mais e menos desenvolvidos em Estocolmo. O IlED funcionou subseqüentemente como um grupo de
pesquisa sobre políticas, investigando a temática de que um desenvolvimento sem a devida atenção às
restrições ambientais era tanto insustentável quanto devastador (ver capítulo 8).

A CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano foi realizada em Estocolmo, Suécia, de 5 a
16 de junho de 1972. Participaram representantes de 113 países, 19 órgãos intergovernamentais e
quatrocentas outras organizações intergovernamentais e não-governamentais. Embora a China estivesse
representada, foi ostensiva a ausência de todos os países do leste europeu, exceto a Romênia, os quais
boicotaram a conferência devido a uma questão sobre ostatus de votação da Alemanha Oriental. Todos,
entretanto, haviam participado das discussões preparatórias. A conferência, disse Maurice Strong na
abertura, lançaria "um novo movimento de libertação" para emancipar os seres humanos dos perigos
ambientais produzidos por eles mesmos; assim como o conceito de "crescimento zero" não constituía uma
política viável para nenhuma sociedade, os conceitos tradicionais das propostas básicas de crescimento
precisavam ser repensados.40 A conferência se preocupava principalmente com "as características do meio
ambiente que afetavam a qualidade da vida humana - um conceito muito subjetivo e insatisfatoriamente
definido".41 Ainda que o conceito de "meio ambiente humano" tenha emergido antes da conferência, foi a
ênfase sobre esse tema que distinguiu Estocolmo das reuniões internacionais de mesmo nível que a
antecederam. Relembrando os acontecimentos de Estocolmo alguns anos mais tarde, Barbara Ward
observou: "Antes de Estocolmo, as pessoas geralmente viam o meio ambiente (...) como alguma coisa
totalmente divorciada da humanidade (...) Estocolmo registrou um deslocamento fundamental na ênfase de
nosso pensamento ambiental.”42
Muitos dos relatos sobre a conferência transmitem um sentimento predominante de excitação e
antecipação. Lee Talbot, que assessorava a conferência como membro do Conselho de Qualidade Ambiental
dos EUA, acredita que isso foi em parte devido ao fato de que muitos dos participantes eram novos no
sistema da ONU, em parte por causa da esperança de que declarações grandiosas seriam convertidas em
ações de natureza firme e em parte porque Estocolmo foi a primeira conferência temática da ONU.43
(Posteriormente, as conferências temáticas se centraram em população [1974], hábitat [1976], desertificação
[1977] e em fontes renováveis de energia [1981].) Notava-se igualmente um certo ar de juventude na
conferência; a mesma seguia de perto os passos do Novo Ambientalismo e foi vista por muitos como uma
sanção oficial da ONU de que os problemas identificados no decorrer dos anos 60 eram dignos da atenção
dos governos (embora alguns governos nacionais já tivessem começado a enfrentá-Ios - ver capítulo 7).
Holdgate lembra que "o sentimento dominante, certamente entre os delegados que tinham uma experiência
profissional nas ciências ambientais, era de que as questões ambientais 'tinham-se imposto'. Pela primeira
vez, o meio ambiente estava sendo discutido pelos governos do mundo como um tema em si, por seu
próprios méritos".44 Barbara Ward

106

observou em seu discurso para a conferência que era impossível estar fazendo parte dela "sem imaginar se
não estaríamos na presença de um destes momentos de reviravolta nos assuntos do homem em que a raça
humana começa a ver a si mesma e às suas preocupações a partir de um novo ponto de vista".45 Mais tarde
ela relembrou: "Aqueles de nós que lá estavam experimentaram ( ... ) um sentimento de que por fim
estávamos avançando.”46
O entusiasmo não foi, em absoluto, universal. Embora a IUCN,juntamente com outras organizações
conservacionistas importantes, tenha tomado parte nos encontros do Comitê Preparatório, ela se mostrou
indiferente em relação à conferência. De uma maneira bastante pomposa, registrou em seu relatório anual de
1971 que "poucos dentre os que trabalharam de perto com o programa [de organização] mantiveram a
esperança de que Estocolmo pudesse produzir qualquer enfoque basicamente novo para os problemas do
meio ambiente". Concedia que havia ocorrido um recente despertar da consciência governamental e que as
organizações existentes, com toda probabilidade, "veriam fortalecidos seus programas ambientais como
resultado da conferência".47 Na própria conferência, Gerardo Budowski, que ocupava o cargo de diretor-
geral da IUCN, concedeu somente que "a hora e o lugar eram favoráveis".48 Em sua revista anual de 1972, a
União registrava sua própria 11ª. Assembléia Geral, a Segunda Conferência Anual sobre Parques Nacionais,
a Convenção da Herança do Mundo, e suas ligações estreitas com o WWF e as organizações das Nações
Unidas, antes de mencionar sua colaboração na preparação de Estocolmo. Observou que, ao mesmo tempo
que se tinha manifestado, na própria conferência, um reconhecimento generalizado de que a conservação da
natureza e dos recursos naturais deveria ser parte integral de programas sólidos de meio ambiente e
desenvolvimento, "foi dada pouca atenção às questões das áreas virgens e da necessidade de manter e
aprimorar a diversidade”49. Ao mesmo tempo que se mostrava entusiasmada, em seu Relatório Anual de
1972, com as realizações da conferência sobre os parques nacionais e com o reconhecimento da Convenção
da Herança do Mundo, parecia reservada em seus julgamentos sobre Estocolmo.
O maior avanço da conferência foi a nova percepção da posição dos países menos desenvolvidos.
Apesar das tentativas anteriores de minorar as preocupações desses países, muitos se mantiveram céticos. A
publicidade vinculada aos incidentes relacionados à poluição nos anos que antecederam Estocolmo havia-os
encorajado a equiparar meio ambiente e poluição. Uma vez que muitos deles viam a poluição como uma
evidência externa de desenvolvimento industrial, os esforços para controlá-Ia eram vistos como esforços
para restringir o desenvolvimento. O embaixador Keith Johnson, da Jamaica, relator geral da conferência,
observou que muitos dentre os países menos desenvolvidos sentiam um "temor latente de que a conferência
fosse simplesmente outro expediente dos países desenvolvidos para evitar o apoio à revolução do
desenvolvimento".50 Um tema que esteve presente em muitos discursos do Terceiro Mundo era que não se
deveria permitir que os fatores ambientais viessem a restringir o crescimento econômico. A questão foi bem
colocada; Aaronson observou que, depois de Estocolmo, "seria difícil para os ambientalistas ocidentais
continuar encarando 'o meio ambiente' de modo provinciano.51 O ponto de vista dos países menos
desenvolvidos dominou as discussões em quase todos os assuntos e forçou os ambientalistas ocidentais a
abandonar o provincianismo e a começar a ver os problemas ambientais numa perspectiva global. Os países
mais desenvolvidos tinham ido para a conferência determinados a discutir suas próprias definições dos
problemas ambientais críticos, e viram-se levados pelas discussões a uma posição de compromisso sobre as
prioridades relativas dos países menos desenvolvidos e as suas próprias.
O desempenho da delegação chinesa merece menção especial. Os chineses decidiram vir a
Estocolmo somente no último minuto e havia alguma preocupação quanto a seus planos para as sessões da
conferência, particularmente de que viessem a assumir a

107

liderança dos países menos desenvolvídos.52 Sem dúvida, as posições assumidas por muitos dos países do
Terceiro Mundo foram reforçadas pela presença chinesa.53 Tang Ke, chefe da delegação chinesa, num
importante discurso que fez para a conferência, argumentou que a China apoiava os países menos
desenvolvidos na exploração de seus recursos naturais de acordo com suas exigências; "cada país tem o
direito de definir seus próprios padrões e políticas de ambiente à luz de suas próprias condições, e nenhum
país, qualquer que seja, pode solapar os interesses dos países em via de desenvolvimento sob o pretexto de
proteger o ambiente".54
Quanto ao mais, a delegação teve um papel passivo. Seu interesse principal parecia voltar-se para a
Declaração sobre o Meio Ambiente Humano, cujo perfil tinha sido traçado 18 meses antes para a
conferência do Comitê Preparatório. Uma moção apresentada pela China levou a uma rediscussão,
temperada pela preocupação de que um texto deveria ser aprovado no final da conferência; Maurice Strong
argumentava que aquela seria uma das medidas fundamentais do sucesso de Estocolmo. Os chineses
assumiram inicialmente um ponto de vista extremo, argumentando, por exemplo, que o preâmbulo deveria
ser ampliado para afirmar que em alguns lugares o meio ambiente estava ameaçado de extinção pela
"pilhagem, agressão e guerra por parte dos colonialistas, imperialistas e neo-colonialistas". A delegação
sugeriu uma emenda ao Princípio 13, cujo efeito seria demonstrar que a superpopulação era causada por
"pilhagem, agressão e guerra" e que "a famosa teoria malthusiana era teoricamente absurda e sem
fundamento na realidade”.55 Já pelo fim das discussões, sugeriu que todos os princípios em relação aos
quais não havia sido atingido um acordo deveriam ser omitidos. Mas quando a declaração foi votada, no
último dia da conferência, a delegação chinesa foi a única a não aprová-Ia por aclamação.
A delegação americana se encontrava numa posição curiosa. Desde o início um dos mais importantes
advogados da conferência de Estocolmo, os Estados Unidos se opuseram a muitos dos princípios ou
emendas propostos ou apoiados pelos países menos desenvolvidos, tentaram enfraquecer a proposta do
Registro Internacional de Substâncias Químicas Potencialmente Tóxicas, abstiveram-se na votação de uma
resolução que condenava os testes com armas nucleares (especialmente na atmosfera) e se opuseram à
expansão do conselho dirigente, que havia sido proposta para o novo programa ambiental da ONU. Além
disso, foram constantemente criticados (por exemplo, pela Suécia, Índia, China, Islândia, Tanzânia e por
grupos ativistas radicais americanos que estavam fora do salão da conferência) pelos custos humanos e
ambientais da guerra na Indochina. Em contraposição, os Estados Unidos receberam ampla aclamação
popular por patrocinar uma moratória de dez anos na caça comercial da baleia, uma questão que atraía muita
atenção entre delegados, ONGs e meios de comunicação de massa.
Um fator significativo na qualidade de Estocolmo foi o papel das ONGs. Mais de quatrocentas
estavam oficialmente representqdas, principalmente internacionais e ONGs dos países mais desenvolvidos.
A presença de muitos grupos não credenciados havia gerado temores pela segurança da conferência, mas
estes foram desfeitos pelos acordos conseguidos para a participação das ONGs. Durante os preparativos da
conferência, havia ficado estabelecida a realização de um fórum ambiental (o Miljöforum) que, sancionado
pela ONU, seria ostensivamente a arena oficial das ONGs credenciadas em Estocolmo. Os céticos achavam
que o fórum, ao invés de oferecer às ONGs a oportunidade para exprimir seus pontos de vista, se destinava a
desviar sua atenção da conferência oficial, minimizando assim a atenção despertada pelas questões
controversas.56 O fórum foi prejudicado por limitações de financiamento e pelo temor de que pudesse vir a
ser ou muito radical, ou muito conservador mas, não obstante, foi capaz de organizar uma série de
comunicações e encontros, ainda que fora do âmbito do salão da conferência propriamente dito. O Ecologist
e os Friends of the Earth colaboraram na publicação do Stockholm Conference Eco, um boletim destinado a
fornecer uma avaliação construtiva

108

das sessões da conferência. Um fórum popular alternativo (o Folkets Forum) foi criado sob a iniciativa do
PowWow, um grupo alternativo fundado em Estocolmo em 1971, o qual argumentava que os problemas do
meio ambiente não podiam ser resolvidos por governos. Os grupos mais radicais estavam preocupados com
o fato de a conferência não ter planos para lidar com questões tais como guerra química e biológica,
população, e as atividades "ecocidas" dos Estados Unidos na Indochina. Alguns achavam que a conferência
era inadequada, pois os representantes governamentais estariam propensos a promover os interesses
constituídos de seus governos, coincidissem ou não esses interesses com o desenvolvimento do meio
ambiente humano.57 A segurança estrita na admissão às sessões da conferência causou inicialmente um
certo mal-estar entre as ONGs, mas Barbara Ward organizou sessões de informe, ingressos e documentos, e
criou vias de acesso à conferência para os grupos.58
Talbot relembra a excitação entre as ONGs e os grupos de cidadãos, que acreditavam estar
finalmente atraindo a atenção dos governos. Mas, observa ele, "estava claro para a maioria das delegações
governamentais que as atividades das ONGs eram totalmente separadas da 'ação real', e tinham pouco efeito
discernível sobre ela ( ... ) Houve [portanto] uma real desilusão de parte de muitas ONGs quando
compreenderam o quanto era pequeno o papel que realmente desempenhavam”.59 Inicialmente as ONGs
tiveram um papel ativo nos assuntos do UNEP, mas restrições de natureza financeira, o interesse declinante
pela solução global ("ou, pelo menos," argumenta Sandbrook, "um interesse decrescente do UNEP em
providenciar uma solução global”)60 e a ascensão de grupos ativistas haviam resultado, já em 1980, na
presença decrescente das ONGs no Conselhos Dirigentes anuais do UNEP. Em 1974, mais de 150 ONGs se
haviam registrado para participar do Conselho Dirigente; em 1980, esse número já havia caído para menos
de vinte. No Conselho Dirigente de 1980, Sandbrook encontrou muito poucas evidências de que quaisquer
governos tenham consultado ONGs sobre sua posição antes de comparecer ao Conselho; muitos queixavam-
se que o interesse não existia, mesmo quando procurado. O elo mais consistente entre o UNEP e as ONGs
continuou a ser o Environment Liaison Centre (ELC), uma coalizão de ONGs baseada em Nairobi (sede do
UNEP) que fornece regularmente informações e material sobre as atividades do UNEP para mais de três mil
ONGs.
Apesar do peso limitado das ONGs nos assuntos da ONU, a era pós-Estocolmo assistiu a um
crescimento revigorado na formação de novas ONGs. Já em 1982 o ELC estimava que havia 2.230 ONGs
ambientalistas nos países menos desenvolvidos, das quais 60% haviam-se formado depois de Estocolmo, e
13 mil nos países mais desenvolvidos, das quais 30% haviam-se formado depois de Estocolmo.61 Novas
formas de ONGs também emergiram. Observando que os grupos de pressão nas democracias ocidentais
desempenham um papel complementar junto às instituições governamentais, ajudando a manter os governos
informados, atentos e em xeque, Lowe e Goyder argumentam ser lógico presumir que, já que os governos
concordam em formar níveis de tomadas de decisão mais altos do que aqueles que se situam no âmbito da
nação-estado, os grupos não governamentais, similarmente, se reagrupariam de modo a participar deste novo
nível.62 Esse parece ser o caso, por exemplo, do European Environrnental Bureau (EEB), cujas origens
podem ser traçadas a partir de Estocolmo. A conferência não somente colocou ONGs nacionais em contato
umas com as outras, mas enfatizou que elas enfrentavam problemas comuns que pediam uma resposta
articulada. A primeira sugestão para a criação de uma agência européia de ONGs partiu de Julian Lessey da
Conservation Society de Londres. Num encontro em Brighton, em 1974, entre vinte representantes de grupos
da Europa Ocidental e da América do Norte, inclusive o IIED e o Sierra Club, chegou-se ao consenso de que
a Comunidade Européia "tornava-se cada vez mais importante para os assuntos ambientais",63 e de que era
necessária uma cooperação mais estreita entre a Comunidade e as

109

ONGs. O EEB foi criado em dezembro de 1974 para oferecer às ONGs um canal direto de acesso à
Comunidade Européia, cujo primeiro Plano de Ação Ambiental foi publicado em 1973. A criação do EEB
sugeria que, depois de muitos falsos começos anteriores, quando as ONGs internacionais careciam de
autoridades internacionais junto às quais pudessem fazer lobby, o surgimento do internacionalismo político e
a criação de organizações governamentais internacionais deram às ONGs internacionais relevância e
permanência contextuais.64
A despeito dos céticos, havia uma expectativa otimista dentre muitos dos participantes de Estocolmo
de que a conferência oferecesse uma oportunidade real para começar a evitar os perigos da degradação
ambiental. Sob estas circunstâncias, argumenta Holdgate, era inevitável que "parte da euforia ( ... ) não
sobrevivesse à dura realidade de fazer o plano de ação funcionar”.65 Um ano depois da conferência, a crise
de energia de 1973-1974 havia alterado o clima econômico internacional. Taxas declinantes de crescimento
econômico e instabilidade nas relações internacionais desviaram ainda mais o interesse dos assuntos
ambientais, que eram amplamente encarados como uma preocupação de longo prazo. Barbara Ward lembrou
mais tarde que, retrospectivamente, a conferência deveria ter sido um momento de virada mais importante do
que acabou por ser.66 Isso sugere, em alguma medida, que muito da euforia e do otimismo de Estocolmo
estava baseado em ingenuidade política. Mas Ward observou que essa alta expectativa era uma característica
de muitas conferências, nas quais o aumento cumulativo do interesse e da excitação tendiam a assoberbar os
participantes com a impressão de sua própria importância. Todavia, sentia ela, a criação de um novo órgão
da ONU e de um ponto de convergência no qual interesses pudessem ser expressos e a dissipação do mal-
estar do Terceiro Mundo foram realizações maiores.67
Estocolmo concordou amplamente tanto em relação aos problemas quanto às soluções, mas,
observou Ward, a "ação [dos governos] raramente cumpriu suas promessas. Para um número crescente de
questões ambientais, a dificuldade não está em identificar o remédio, pois o remédio é agora bem
compreendido. Os problemas estão enraizados na sociedade e na economia - e, por fim, na estrutura
política".68 Talbot observa que esse tão propalado sentimento de desilusão não consegue compreender o
verdadeiro significado de Estocolmo, qual seja, que a conferência não foi um evento isolado, mas parte de
um processo que chamou a atenção dos governos para o meio ambiente, facilitou acordos e convenções
internacionais subseqüentes sobre questões ambientais chave e resultou na criação do Programa Ambiental
das Nações Unidas.69 Como observam Holdgate e colegas, a Conferência de Estocolmo foi "um foco ao
invés de um começo para a ação sobre problemas ambientais''.70 Barbara Ward argumentou que as pessoas
achavam muito mais fácil identificar mudanças necessárias do que começar realmente a implementá-Ias. As
dificuldades se ampliavam quando, além de identificar um novo enfoque, este tivesse que ser vinculado a
outras instituições, metodologias e percepções.71

DECLARAÇÃO, PRINCÍPIOS E PLANO DE AÇÃO

A Conferência de Estocolmo produziu uma Declaração, uma lista de Princípios e um Plano de Ação. A idéia
de uma declaração parece ter sido sugerida pela primeira vez na Conferência da Biosfera e foi imediatamente
apoiada pelo secretário-geral da ONU.72 Não se-visava definir cláusulas de cumprimento legalmente
obrigatório, mas a declaração deveria ser "inspiracional", registrando os argumentos essenciais do
ambientalismo humano, e atuar como um prefácio para os princípios, delineando metas e objetivos amplos.
Foi notável que tantos países - com sistemas políticos, sociais e econômicos diferentes pudessem ter sido
capazes de concordar sobre um exercício filosófico de espectro tão amplo. Sabiamente, a Declaração não
tentou definir o termo "meio ambiente humano",

110
em parte porque sentia-se que poderia ser difícil, naquele estágio, alcançar uma definição que não fosse
indevidamente restritiva.
Os vinte e seis princípios podem ser desmembrados em cinco grupos principais. E estes afirmavam
respectivamente que:

1) Os recursos naturais deveriam ser resguardados e conservados, a capacidade da terra de produzir


recursos renováveis deveria ser mantida e os recursos não renováveis deveriam ser compartilhados.

2) O desenvolvimento e a preocupação ambiental deveriam andar juntos e deveria ser dada toda a
assistência e incentivo aos países menos desenvolvidos no sentido de promover uma administração
ambiental racional. (Este grupo tinha o propósito de tranqüilizar os países menos desenvolvidos.)

3) Cada país deveria estabelecer seus próprios padrões de administração ambiental e explorar recursos
como desejasse, mas não deveria colocar em perigo outros países. Deveria existir cooperação
internacional voltada para o melhoramento ambiental.

4) A poluição não deveria exceder a capacidade do meio ambiente de se recuperar e a poluição dos
mares deveria ser evitada.

5) Ciência, tecnologia, educação e pesquisa deveriam ser utilizadas para promover a proteção
ambiental.

Houve somente discordâncias menores em relação à maior parte dos princípios; a única exceção foi o
princípio concernente ao fornecimento de informações sobre atividades nacionais que pudessem ter
conseqüências adversas além de suas fronteiras. A Assembléia Geral da ONU discutiu a questão e concluiu
que o intercâmbio de informações subseqüente a Estocolmo não deveria ser encarado como um instrumento
que capacitasse um estado a interferir no desenvolvimento dos recursos naturais de outro. Os princípios 21 e
22 recomendavam em última análise que os estados tinham o direito de explorar seus recursos e a
responsabilidade de assegurar que estes não causassem dano a outros estados, e que deveriam cooperar no
sentido de desenvolver uma legislação internacional sobre responsabilidade e compensação. 73 O princípio
onze afirmava separadamente que as políticas ambientais de todos os estados "deveriam aumentar e não
afetar adversamente o desenvolvimento presente ou potencial dos países em desenvolvimento". Landsberg
observa que a amplitude da agenda, assim como a natureza pouco maleável dos processos envolvidos na
discussão e consenso quanto às recomendações, colocavam ameaças potenciais ao sucesso da conferência.74
Mas um ritmo frenético de discussão e emendas perdurou durante a conferência, e as negociações finais
comprimiram-se nos três últimos dias. Isso conferiu aos procedimentos um sentido de urgência que pode ter
desencorajado delongas.
Sandbrook resumiu o propósito genérico do plano de ação como o lançamento de "um conjunto de
atividades internacionalmente coordenadas que objetivava, em primeiro lugar, o desenvolvimento do
conhecimento sobre as tendências ambientais e seus efeitos sobre homens e recursos e, secundariamente, a
proteção e o aumento da qualidade do meio ambiente e da produtividade dos recursos através de uma
administração e planejamento integrados".75 O plano consistia em 109 recomendações distintas,
estendendo-se desde o específico até o geral e caindo em três grandes categorias: avaliação ambiental,
administração ambiental e medidas de apoio. Quase a metade versava sobre a conservação de recursos
naturais, enquanto o restante cobria questões relativas a assentamentos

111

humanos, poluição e poluição marinha, desenvolvimento e meio ambiente, além de educação e informação.

O LEGADO DE ESTOCOLMO

A Conferência de Estocolmo foi o acontecimento isolado que mais influiu na evolução do


movimento ambientalista internacional. Apresentou quatro resultados importantes.
Em primeiro lugar, a conferência confirmou a tendência em direção a uma nova ênfase sobre o meio
ambiente humano. O pensamento progrediu das metas limitadas de proteção da natureza e conservação dos
recursos naturais para a visão mais abrangente da má utilização da biosfera por parte dos humanos. A
própria natureza do ambientalismo mudou: da forma popular, intuitiva e provinciana com a qual emergiu nos
países mais desenvolvidos no final dos anos 60, para uma forma de perspectivas mais racionais e globais, a
qual enfatizava o esforço no sentido de uma compreensão plena dos problemas e do acordo sobre uma ação
legislativa efetiva. O Novo Ambientalismo evoluiu para termos que eram politicamente mais aceitáveis,
encorajando mais governos nacionais a fazer do meio ambiente uma questão de política.
Em segundo, Estocolmo forçou um compromisso entre as diferentes percepções sobre o meio
ambiente defendidas pelos países mais e menos desenvolvidos. Isso é até irônico porque a conferência foi
inicialmente produto da preocupação existente nos países industrializados na década de 60. Mas os
organizadores não tiveram em nenhum momento a oportunidade de permitir que a conferência se
concentrasse somente nos interesses dos países mais desenvolvidos. Durante os primeiros debates da ONU
na conferência, os países menos desenvolvidos fizeram uso de seu poder de voto na Assembléia Geral das
Nações Unidas para compelir os países mais desenvolvidos a reconhecer a necessidade de equilibrar as
prioridades na administração ambiental com os objetivos do desenvolvimento econômico. Os países mais
desenvolvidos foram pelo menos incentivados a começar a reinterpretar as prioridades do ambientalismo, a
assumir uma visão mais ampla do caráter globalmente correlato de muitos problemas e a começar a entender
quantas dessas questões estavam arraigadas em problemas políticos e sociais, particularmente nos países
menos desenvolvidos. Em qualquer circunstância, era talvez inevitável que muitas dentre as recomendações
de Estocolmo fossem soluções de compromisso; as preocupações dos países menos desenvolvidos injetaram
uma nota muito necessária de realismo nos procedimentos da própria conferência e levaram, em última
análise, a uma visão muito mais ampla sobre as raízes e causas da crise ambiental. Antes de Estocolmo as
prioridades ambientais foram em larga escala determinadas pelos países mais desenvolvidos; depois de
Estocolmo, as necessidades dos países menos desenvolvidos tornaram-se um fator chave na determinação
das políticas internacionais.
Em terceiro lugar, a presença de muitas ONGs na conferência - e o papel que tiveram - marcou o
começo de um papel povo e mais persistente para as ONGs no trabalho dos governos e das organizações
intergovernamentais. As ONGs tiveram pouca influência na conferência em si e nem sempre conseguiram
concretizar tanta influência quanta poderiam ter nos fóruns da ONU, mas houve um rápido crescimento do
número e da qualidade das ONGs na década pós-Estocolmo. A conferência não somente colocou as ONGs
nacionais em contato umas com as outras, mas enfatizou o fato de que enfrentavam problemas comuns que
pediam uma resposta combinada.
Finalmente, o produto tangível de Estocolmo foi a criação do Programa de Meio Ambiente das
Nações Unidas. Este tinha limitações e deficiências, mas foi provavelmente a melhor forma institucional
possível naquelas circunstâncias.

112
FOLHA EM BRANCO
113

SEIS
O Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (1972-1982)

A despeito de todos os méritos e toda a significação vinculados ao processo de simplesmente chegar a um


acordo quanto a seu conteúdo, a Declaração de Estocolmo, os Princípios e o Plano de Ação permaneceriam
sendo exercícios no papel até que tivessem algum resultado prático. Sua verdadeira efetividade dependeria
dos acertos institucionais feitos para que os princípios se transformassem em políticas e programas ativos.
Os órgãos especializados da ONU haviam se preocupado com a forma que esses acertos assumiriam. Essas e
outras preocupações haviam sido consideradas pelo comitê preparatório da conferência, particularmente
durante sua sessão final em Nova York, em março de 1972, mas o comitê determinou que os acertos
institucionais deveriam ser deixados para a própria conferência.
O acerto que acabou por ser ratificado pela resolução 2997 da Assembléia Geral da ONU de 15 de
dezembro de 1972 1 não determinava a criação de um novo órgão especializado, mas sim de um programa
abrangente de coordenação de políticas; isso tomou forma no Programa de Meio Ambiente das Nações
Unidas (UNEP), criado como um reconhecimento de que "problemas ambientais de significado internacional
amplo" estavam circunscritos à jurisdição da rede da ONU. A sede de todos os órgãos especializados da
ONU existentes se encontrava na América do Norte ou na Europa, portanto, quando se colocou a questão de
um secretariado para o novo organismo, houve uma campanha para que este fosse instalado num país menos
desenvolvido.2 Vários países mais desenvolvidos se opuseram a isso, argumentando que, tendo em vista o
papel de coordenação do UNEP, o órgão deveria ser localizado mais próximo dos demais organismos
existentes da ONU.3 A opção do país menos desenvolvido prevaleceu, contudo, e o UNEP foi localizado em
Nairobi, no Quênia. Isso, esperava-se, apaziguaria ainda mais aqueles representantes dos países menos
desenvolvidos que duvidavam dos benefícios do planejamento ambiental. Escritórios de ligação foram
estabelecidos também em Nova York e Genebra, e escritórios regionais em Bangkok, Beirute, Cidade do
México e Nairobi. Maurice Strong foi nomeado primeiro diretor-executivo do UNEP.

A IMPLEMENTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO

A nova organízaçãotinha quatro setores: um conselho diretor para os programas ambientais; um pequeno
secretariado que seria o "ponto de convergência para a ação ambiental

114

e a coordenação com o sistema da ONU"; um fundo voluntário para o meio ambiente para o qual os
governos poderiam contribuir; e uma diretoria de coordenação ambiental, constituída por membros de todos
os órgãos relevantes da ONU. O Conselho Diretor se reuniria anualmente, promoveria a cooperação
ambiental internacional, ofereceria "orientação geral de políticas para o direcionamento e coordenação de
programas ambientais dentro do sistema das Nações Unidas"4 e garantiria que os governos dessem aos
problemas ambientais internacionais emergentes a atenção apropriada. A diretriz básica do UNEP era o
Plano de Ação de Estocolmo. Este seria implementado através de três componentes funcionais: avaliação
ambiental, administração ambiental e medidas de apoio.
Avaliação ambiental global. Esta se materializou sob a forma do Earthwatch, uma rede patrocinada
pela ONU, planejada para pesquisar, monitorar e avaliar as tendências e processos ambientais, fornecendo
notificações precoces de riscos ambientais e determinando a situação de recursos naturais selecionados. O
Earthwatch, além disso, tinha três outros componentes bastante distintos. O primeiro era o Sistema
Internacional de Referência (INFOTERRA), um "painel de controle" descentralizado para a troca de
informações. O segundo componente, o Sistema Global de Monitoração Ambiental (GEMS Global
Environmental Monitoring Sistem), colocaria em andamento os levantamentos ambientais, coletando
informações dos governos e construindo um quadro das tendências ambientais regionais e globais. O terceiro
componente do Earthwatch era o Registro Internacional de Substâncias Químicas Potencialmente Tóxicas
(IRPTC - Intemational Register of Potentially Toxic Chemicals), o qual se tornou operacional em 1976.
Baseado em Genebra, visava construir um banco de dados sobre substâncias químicas potencialmente
tóxicas para uso dos governos; estes seriam notificados sobre quaisquer mudanças e aconselhados quanto à
ação apropriada. O IRPTC era uma iniciativa ambiciosa; para maximizar sua utilidade, muito tempo teve que
ser dedicado à manutenção da qualidade de seus dados.5 A localização do IRPTC em Genebra, todavia,
juntamente com o Programa dos Mares Regionais (ver adiante), dava-lhe melhor acesso aos outros órgãos da
ONU e maior liberdade em relação à burocracia da sede do UNEP.6
O Earthwatch era amplo e muitas vezes de alcance abrangente em seus objetivos. O principal
obstáculo a seu desenvolvimento era a falta de uma estrutura organizacional adequada e de recursos
financeiros adequados.7 O diretor do Earthwatch tinha um papel mais de coordenador do que de executivo; o
programa possuía apenas duas ou três equipes profissionais; grande parte do dinheiro destinado ao
Earthwatch foi gasta em projetos isolados mais do que com o Earthwatch em si; a estrutura de programa do
UNEP não se relacionava suficientemente com o Earthwatch; e poucos governos pareciam sequer ter
consciência da existência do Earthwatch ou de seus serviços. O Earthwatch seria, em princípio, uma
atividade de todos os órgãos relevantes da ONU, coordenados pelo UNEP, mas a falta de pessoal e dinheiro
que sofria acarretava que praticamente não houvesse nenhuma atividade de avaliação ambiental dentro da
ONU e as atividades relevantes empreendidas pelos órgãos individuais não eram adequadamente
coordenadas ou avaliadas.8 Uma avaliação independente do INFOTERRA, conduzida em 1980 sob os
auspícios da UNESCO, concluiu que o mesmo havia cumprido os propósitos delineados em Estocolmo.
Mas, embora o INFOTERRA estivesse então estabelecido, era consideravelmente subutilizado.9
Ironicamente, monitorar e avaliar os "limites exteriores" da terra era uma área em que o UNEP achava que
poderia desempenhar um papel útil, dadas as limitações impostas a muitas de suas outras funções.10
O GEMS enfrentou logo no inicio três problemas sérios: a falta de apreciação e avaliação dentro do
Earthwatch como um todo, a dependência em-relação à cooperação e ao trabalho de outros, além de um
clima predominante de pessimismo quanto à utilidade da monitoração global.11 Muitos dos sistemas de
monitoração estabelecidos após Estocolmo ficaram abaixo das expectativas, em grande parte por causa da
falta de objetivos

115

claramente definidos. A monitoração, tal como existia antes de Estocolmo, tendia a concentrar-se na
poluição. A Organização Meteorológica Mundial deveria supostamente fornecer uma base operacional para
o GEMS, criando uma rede de dez estações atmosféricas de referência em áreas remotas e cem estações
regionais afastadas dos principais centros de contaminação ambienta!. Mas nos primeiros cinco anos do
GEMS somente doze estações de monitoração do ar foram estabelecidas. O que deu uma indicação da
dimensão do empreendimento. Passados dois anos de sua criação, os planos para o GEMS haviam se
ampliado para incluir um sistema que registraria ameaças à saúde humana e desastres naturais iminentes, um
conceito tão amplo que em 1977 a maior parte do GEMS estava ainda em fase de planejamento. No 7º
Conselho Diretor do UNEP, em 1979, a preocupação expressa por diversos governos em relação à aparente
falta de progresso do Earthwatch levou a um apressadamente realizado encontro de especialistas para
analisar os desenvolvimentos. Seu relatório foi mais descritivo do que crítico, mas sugeria que uma das
principais limitações das avaliações ambientais era a variabilidade na qualidade, comparabilidade,
oportunidade e representatividade dos dados;12 o desenvolvimento de metodologias não havia sido
universal, nem as metodologias existentes eram sempre compatíveis. Isso, argumentava o UNEP, juntamente
com a relativa escassez de recursos destinados ao Earthwatch, explicava por que tinham sido feitas tão
poucas avaliações abrangentes.13
Administração ambiental. A informação reunida pelo Earthwatch ajudaria na implementação do
segundo componente do Plano de Ação, a administração ambiental. A meta aqui era desenvolver uma
estrutura de planejamento abrangente que apoiasse a proteção ambiental. Seriam elaboradas convenções
internacionais, tomadas medidas para assegurar a preservação da diversidade biológica e dos recursos
genéticos, e promovidos diversos objetivos específicos - inclusive uma moratória da caça comercial de
baleias. Este era, de modo geral, um programa realizável com objetivos identificáveis, mas o progresso foi
desigual. O UNEP era de opinião que muitos dos governos não possuíam a vontade política para adotar as
recomendações de seus próprios especialistas e que algumas das recomendações de Estocolmo tocavam em
questões delicadas, relacionadas à soberania dos estados e seu desenvolvimento econômico. 14 O UNEP,
não obstante, colaborou com outras organizações - órgãos da ONU, OIGs e ONGs - na elaboração e
consenso de convenções internacionais, notadamente a Convenção sobre o Comércio Internacional de
Espécies em Extinção da Fauna e Flora Selvagens, a Convenção de Bonn sobre Espécies Migratórias (em
ambos os casos o UNEP financiou o estabelecimento de secretariados da convenção) e a Convenção para a
Proteção do Mar Mediterrâneo contra a Poluição (Barcelona, 1976). Quanto à caça às baleias, alcançou-se
um acordo em torno de uma moratória em 1982 (embora a Islândia, a Noruega, a Coréia do Sul, a URSS e o
Japão continuassem a matar baleias cinco anos depois). Quanto à ajuda para o desenvolvimento, o UNEP
ajudou a encorajar órgãos de ajuda bilaterais e multilaterais a incluírem procedimentos de avaliação
ambiental nos subsídios para o desenvolvimento (ver capo 8).
Medidas de apoio. Estas incluíam educação, treinamento de pessoal, informação pública e assistência
financeira. Em 1975 foi criado um Programa [conjunto] UNEP/UNESCO de Educação Ambiental e em 1977
foi realizada em Tbilisi, URSS, a Conferência Intergovernamental da UNEP/UNESCO sobre Educação
Ambiental; ambos os eventos resultaram numa série de seminários e workshops de treinamento, na criação
de uma rede de informação e no treinamento de especialistas em meio ambiente. Mas a educação era, em
última análise, uma questão nacional e o trabalho dos órgãos especializados da ONU viria a ser menos
produtivo nessa área do que o trabalho das ONGs nacionais. Na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e em
outros países ocidentais a educação já há muito tempo vinha sendo uni elemento importante no trabalho das
ONGs, e isso continuou durante a década de 70. Quanto à informação pública, o UNEP não chegou a ser um
êxito. A
116

instituição, em 1972, de um Dia [anual] Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) teve pouco efeito; fora das
ONGs ambientais quase ninguém sequer sabia de sua existência. Para complicar as coisas, o UNEP não foi
capaz de decidir se implementava seu próprio modesto programa de informação ou se devolvia a
responsabilidade aos órgãos externos. Em 1975 o programa forneceu os fundos para a criação do Earthscan,
um serviço de notícias e informações dentro do llED, que passou a produzir um corpo substancial de
informações para os meios de comunicação e para as ONGs. Já em 1986, quando a maior parte da equipe do
Earthscan saiu para formar o Instituto Panos, suas redes incluíam jornais, jornalistas especializados e ONGs
em 130 países. O serviço funcionava em íntima relação com o UNEP, mas a proporção de fundos que dali
recebia foi diminuindo consistentemente.

UNEP: OS DEZ PRIMEIROS ANOS

O UNEP experimentou uma sorte variável em sua primeira década. Suas perspectivas não foram em nada
facilitadas pelo fato de que possuía o que Sandbrook descreve como "talvez uma das tarefas mais difíceis em
todo o sistema da ONU".15 O ponto crítico era que o programa não foi elaborado para ser um órgão
executivo com os mesmos tipos de poderes que a FAO, UNESCO ou outros organismos especializa dos.
Tinha que coordenar o trabalho de alguns órgãos da ONU, promover iniciativas de políticas com outros e
fornecer informações a outros ainda. Possuía um campo imenso de atuação - na realidade todo o meio
ambiente natural - e frnanças mirradas. Era impelido a envolver-se em atividades e interesses múltiplos, e
freqüentemente a agir com base no surgimento imprevisto de oportunidades e não em quaisquer planos de
longo prazo cuidadosamente considerados. Não tinha poder para interferir nos assuntos das nações em
relação à administração de questões ambientais locais e regionais. Falando de modo genérico, seus
problemas abrangiam quatro categorias principais: financeira, administrativa, política e constitutiva.
A força do UNEP tinha, em última análise, que ser medida em termos de sua disponibilidade
frnanceira. Teve um início promissor, com sessenta milhões de dólares destinados ao Fundo do Meio
Ambiente em apenas seis meses (o objetivo era cem milhões em cinco anos). Os governos (um total de 96 já
em 1983) contribuíram voluntariamente para o Fundo do Meio Ambiente do UNEP, com montantes
variando desde o dos Estados Unidos - os quais, durante os primeiros oito anos da existência do UNEP,
contribuíram com quarenta milhões de dólares (36% do fundo) - até os de 64 países tais como Zâmbia,
Jordânia e Paraguai, que não fizeram nenhuma contribuição em absoluto entre 1978 e 1981. Nos primeiros
cinco anos de operação, o UNEP planejava levantar vinte milhões de dólares por ano, objetivo que chegou
muito perto de atingir. No período de 1978 a 1981, levantou cerca de 31 milhões de dólares por ano
(comparados aos 37,5 milhões planejados). O objetivo para o período 1982-1983 era de sessenta milhões de
dólares por ano, mas as metas financeiras se mostraram cada vez mais irreais e enganosas, e o UNEP teve
que se contentar com uma renda média anual de trinta milhões de dólares no período 1979 a 1983.
Descontada a inflação, essa verba valia cada vez menos. As complicações das insuficiências de renda foram
agravadas por contribuições que chegavam atrasadas ou no final do ano contábil, ou em moeda não
conversível (moeda que só pode ser gasta no país doador, geralmente no bloco oriental). Tais problemas
tornavam difícil o planejamento prévio. Apenas pouco mais de um terço dos gastos do UNEP (números de
1980) teve a forma de assistência a outros órgãos da ONU, enquanto 28,4% foram para outras instituições,
22,4% para projetos diretamente implementados pelo UNEP e 14,7% para os próprios Centros de Atividade
do Programa do UNEP, criados para administrar aqueles projetos do UNEP que envolviam vários órgãos
diferentes.

117

A segunda limitação grave do UNEP residia em sua própria administração interna. O programa foi acusado
por seus críticos de ter uma perspectiva limitada dos problemas globais, de ser ineficiente, de não conseguir
delinear suas prioridades, de ser excessivamente centralizado na pessoa do diretor-executivo e de tentar fazer
demais e apresentar muito pouco no fim. A responsabilidade por esses problemas era encarada como
residindo em parte na própria política de administração do UNEP e em parte nas limitações inerentes ao
campo de atuação do UNEP. Maurice Strong, a despeito de seu papel em Estocolmo e na fundação do
UNEP, era novo nas questões ambientais e por isso, ao ser nomeado primeiro diretor-executivo, foi buscar
nas áreas que conhecia melhor - negócios, politica e serviço público internacional - as indicações que fez
para os cargos de primeiro escalão, quando do lançamento do UNEP.16 O resultado a longo prazo foi que o
UNEP viu-se conviviendo com sistemas de administração baseados mais em procedimentos burocráticos do
que em enfoques profissionais para os problemas do meio ambiente.
Houve pouca melhoria no primeiro mandato de quatro anos (1976-1980) do sucessor de Strong, o dr.
Mostafa Tolba.* Em 1980 as questões de pessoal haviam atingido um ponto tão desalentador que os
representantes permanentes dos países da Comunidade Européia no UNEP compilaram um relatório sucinto
que traçava o perfil do que eles consideravam como seus problemas fundamentais: administração autocrática
sem nenhuma delegação de autoridade e centralização de todas as decisões, não importando o quanto fossem
pequenas, na pessoa do diretor-executivo; o moral baixo da equipe e a alta rotatividade (das 180 vagas da
equipe profissional, sessenta estavam disponíveis); e a situação pouco saudável do Fundo do Meio
Ambiente, que poderia ser atribuída em parte à insatisfação com o desempenho do UNEP e de seu diretor-
executivo.17 Foi feita uma tentativa sem êxito de substituir o dr. Tolba ao final de seu primeiro mandato no
cargo, em 1980; os representantes da Comunidade Européia e outros apoiavam um cientista de Gana, dr.
Ernest Boateng. O número de funcionários de modo algum podia ser considerado grande; em 1975 o UNEP
empregava noventa e nove pessoas (85 na sede e 14 nos escritórios regionais) para um orçamento anual de
trinta milhões de dólares. Em 1980 tinha 180 vagas na equipe profissional e o mesmo orçamento. A
instabilidade das instalações de sua sede e o adiamento, em 1980, dos planos para um novo edifício não
tomaram mais fáceis os problemas de administração. Somente em 1983, depois de ficar temporariamente
baseado em diversos escritórios diferentes, o UNEP mudou-se finalmente para as instalações permanentes de
seus escritórios na periferia de Nairobi.
A terceira fonte de problemas foi a localização do UNEP em Nairobi. Isso ajudou a minorar o
desequilíbrio na localização de sedes de órgãos da ONU e provavelmente ajudou a abrir as mentes dos
ambientalistas europeus e norte-americanos, chamando atenção para a situação dos países menos
desenvolvidos. Mas também isolou o UNEP dos países industrializados, os quais controlavam o equilíbrio
do poder político e econômico do mundo e, portanto, tomavam muitas das decisões fundamentais que
afetavam o meio ambiente global; a observação de Sills, de que Nairobi ficava "longe do campo de batalha
do meio ambiente",18 ignora o fato de que muitas das mais terríveis batalhas ambientais estão sendo
travadas nos países menos desenvolvidos (mas muitas das decisões que afetam essas batalhas são, é verdade,
tomadas mais ao norte). O próprio UNEP sentia que sua localização tomava difícil o recrutamento de
profissionais altamente qualificados e fazia com que fosse criada uma nova infra-estrutura a partir de muito
pouco, ao passo que, se

* Mostafa Kamal Tolba (n. 1928) nasceu no Egito. Foi titular da cadeira de microbiologia na Universidade do Cairo e serviu como
ministro e assessor de Anwar Sadat antes de chefiar a delegação egípcia em Estocolmo. Serviu como interino de Maurice Strong
por três anos antes de ser nomeado diretor-executivo do UNEP em 1976.

118

tivesse sido localizado dentro de um órgão já existente da ONU, teria tido a possibilidade de fazer uso de
uma reserva comum de pessoal, dirigindo seus recursos à ação concreta." A localização no Quênia também
tendia a deixar o UNEP dividido entre o mundo mais desenvolvido, que apoiava a ênfase nos problemas
globais, tais como a poluição, e o mundo menos desenvolvido, que adotava o UNEP como seu "organismo"
próprio na ONU, enfatizava as questões de desenvolvimento ambientalmente sadio e esperava que o UNEP
fosse particularmente simpático às necessidades dos paises menos desenvolvidos em qualquer conflito de
interesse com paises industrializados. Isso chegou a um ponto em que o conselho diretor foi acusado de
rejeitar sugestões de projetos do secretariado por não serem eles suficientemente orientados para o Terceiro
Mundo.20 A divisão, por sua vez, ajudou a azedar as relações entre o conselho diretor e o secretariado.
A quarta fonte de problemas era constitutiva. Desde o início, a sede do UNEP ficou dividida entre o
programa propriamente dito e o fundo. O primeiro era responsável por elaborar programas, que podiam ou
não ter sido levados à prática sob a forma de projetos. O segundo era responsável pela administração das
finanças desses projetos. Essa divisão exigia que todas as atividades do UNEP fossem aprovadas tanto pelo
fundo quanto pelo programa, envolvendo profissionais de ambos os lados na formulação e na execução.
Uma segunda divisão dentro do UNEP era entre o próprio secretariado e o conselho diretor. O conselho era
composto por representantes escolhidos dentre os 58 países membros, os quais eram eleitos para o conselho
para três anos de mandato pela Assembléia Geral da ONU. O conselho se reunia anualmente por duas
semanas para discutir e decidir quanto às políticas. No início, ficou encarregado de uma variedade de
responsabilidades básicas: promover a cooperação ambiental internacional, orientar a política e analisar o
progresso nos órgãos da ONU, atrair a atenção dos governos para os problemas ambientais globais
emergentes, assegurar que o desenvolvimento nos países menos desenvolvidos não fosse prejudicado por
políticas de administração ambiental e administrar o Fundo do Meio Ambiente. Os críticos alegavam que o
conselho teve êxito na última dessas responsabilidades, mas não nas outras. Foi freqüentemente acusado de
ser pouco ágil e excessivamente obcecado com procedimentos, assim como o resto do sistema da ONU.
Martin Holdgate, presidente da 11ª sessão do conselho diretor em 1984, expressou sua preocupação pelo fato
de que em 1983 as questões de procedimento tivessem se tornado tão predominantes que tendiam a
obscurecer a verdadeira razão de ser do UNEP: "que as pessoas em todo o mundo têm necessidades
ambientais às quais as Nações Unidas deveriam atender". A sessão plenária gastava tempo demais "em
discussões que provavelmente não ajudariam a resolver esses estarrecedores problemas".21
O problema constitutivo mais crítico residia na natureza da relação do UNEP com as outras agências
da ONU. Não tendo poderes executivos, o mesmo não tinha muito alcance para realizar seus próprios
programas e precisava, ao invés disso, funcionar através de outros órgãos especializados da ONU. Sua tarefa
de persuadir outros órgãos a executar programas era prejudicada pelo fato de que tinha poucos incentivos
para oferecer e nenhum meio de levar a cabo seus desejos;22 além disso, parte do progresso lento do UNEP
refletia o fato de que o meio ambiente havia provado ser mais complexo e mais caro de monitorar do que
supunham os delegados de Estocolmo.23 O Plano de Ação era amplamente considerado como genérico
demais, vago demais em relação às prioridades e sobretudo - carente demais de meios de implementação. A
dificuldade em avaliar a eficácia do UNEP era magnificada pela dificuldade em avaliar seu papel preciso em
um . dado projeto. Diferentemente da FAO ou da OMS, observou o dr. Tolba, o UNEP não podia "dizer, ao
fim de um esforço, [que havia] erradicado uma doença aqui ou plantado tantos milhares de hectares de
campos de arroz ali".24
Em 1976 a Assembléia Geral da ONU analisou seus acertos institucionais para o meio ambiente e
concluiu que eram adequados. Mas o próprio UNEP admitiu suas deficiências.25

119

A incompatibilidade entre o desejo por um secretariado pequeno e a necessidade de manter as metas de


alcance mais amplo do programa era uma dificuldade que ainda não havia sido resolvida, mesmo em 1982.
Talvez o problema mais fundamental de todos tenha sido que o papel do UNEP foi sistemática e amplamente
mal compreendido.26 O UNEP nunca foi concebido para ser um ótgão especializado da ONU em caráter
integral, mas simplesmente o programa ambiental do sistema das Nações Unidas. Foi planejado para ser
capaz de assumir um ponto de vista abrangente do meio ambiente global e desenvolver um programa
ambiental que pudesse ser implementado por todos os órgãos relevantes - seu papel era catalítico. Como
observa Holdgate, os órgãos existentes da ONU - notadamente a FAO, a OMS, a WMO e o Banco Mundial -
já vinham se preocupando com as questões ambientais (como haviam se esforçado para enfatizar antes de
Estocolmo) e o meio ambiente "não era uma entidade isolada que exigisse seu próprio organismo
operacional, mas um tema horizontalmente abrangente".27 Holdgate assinala que organizações poderosas e
bem estabelecidas inevitavelmente seriam cautelosas em relação a qualquer nova coordenação sobreposta a
seu trabalho, um dilema do qual Maurice Strong e o conselho do UNEP tinham consciência. A resposta deles
foi desenvolver uma série de atividades que atendessem a uma necessidade real e não entrasse em conflito
com as atividades de outros organismos estabelecidos.28 As três primeiras áreas foram aquelas quanto às
quais se havia chegado a um acordo antes de Estocolmo - o Sistema Global de Monitoração Ambiental, a
poluição marinha e o INFOTERRA. À medida que suas próprias atividades se desenvolveram, do mesmo
modo cresceram a credibilidade e a capacidade do UNEP para realizar o trabalho de coordenação e
compilação de um programa de amplitude verdadeiramente sistêmica.29
As relações do UNEP com os outros órgãos da ONU eram um fator determinante essencial do nível
de influência do UNEP. Nos primeiros anos, estas relações foram deficientes por três motivos principais.
Primeiro, a novidade da situação fez com que os órgãos existentes da ONU se mostrassem particularmente
desconfiados em relação ao UNEP; levaria tempo até que eles ficassem acostumados com a existência do
UNEP e aceitassem seu programa. Segundo, o UNEP - deixando de lado os seus poderes limitados - tendia a
fazer comentários ou tentar influenciar as atividades dos outros órgãos mais do que havia sido permitido
pelos termos de suas prerrogativas. Tolba não se sentiu desencorajado pelas queixas geradas por tal situação
e disse em 1975: "Nunca deixaremos de interferir nos assuntos de todo mundo, uma vez que envolvam o
meio ambiente. Essa é a nossa atribuição.”30 Terceiro, os mecanismos através dos quais se supunha que o
UNEP trabalharia com os outros órgãos eram insuficientes. O quarto elemento dos arranjos institucionais
recomendados em Estocolmo, o Environment Co-ordination Board (ECB), havia sido criado como um meio
através do qual o UNEP poderia coordenar e influenciar as atividades dos outros órgãos da ONU, e também
como um canal através do qual os órgãos da ONU poderiam influenciar o UNEP; inicialmente o mesmo
deveria se preocupar mais com este último item.31 Requisitado pelo conselho diretor a rever suas próprias
funções em 1976, o ECB concluiu que o ciclo de suas reuniões precisava ser planejado para permitir reações
imediatas às decisões do conselho diretor, que o conceito de programação conjunta precisava ser mais
desenvolvido (o que envolvia todos os órgãos em questão) e que era necessário que houvesse mais
programação multiorgânica em lugar de discussões bilaterais entre o UNEP e os demais organismos.32 A
programação conjunta que havia sido realizada até fevereiro de 1976 consistia numa série de reuniões entre o
UNEP e outros órgãos (por exemplo a FAO, a UNESCO, a OMS e a UNECE), que realmente não fizeram
mais do que identificar áreas de interesse comum e concordar quanto a mecanismos para que se
mantivessem reciprocamente informados dos desenvolvimentos havidos.
No 5º conselho diretor, de 1977, o ECB foi encarregado de elaborar memorandos de

120

entendimento com outros órgãos especializados.33 o que subseqüentemente fez com vários deles. Mas os
memorandos, o ECB, os esforços de programação conjunta e a programação temática (planejamento de áreas
inteiras de programa, tais como água e alimentos) não tiveram êxito, nenhum deles. Em 1978, como parte de
mudanças mais amplas na ONU em relação à coordenação inter-orgânica, o ECB fundiu-se com o
Administrative Committee on Co-ordination (ACC). Robinson observa um aperfeiçoamento perceptível nas
relações entre os órgãos da ONU, provavelmente em conseqüência do trabalho do ACC.34 Em 1982 foi
introduzida uma nova iniciativa - o Programa Ambiental de Médio Prazo de Amplitude Sistêmica -,
planejada para definir precisamente o que cada órgão da ONU faria no período 1984-1989. A maioria das
descrições de ações a serem realizadas por cada órgão foram postas de lado desde então por serem inócuas e
altamente genéricas; além disso o programa traçou áreas de interesse, mas somente falou de medidas
apropriadas em termos amplos.35 Era tão genérico que quase qualquer iniciativa quanto ao meio ambiente
poderia se encaixar em uma ou outra de suas propostas. Ao invés de permitir que o UNEP fizesse poucas
coisas bem, corria o risco de diluir ainda mais a agenda do UNEP. Ainda assim, dez anos depois de
Estocolmo, o UNEP acreditava confiantemente que suas relações com outros órgãos haviam melhorado à
medida que a ocorrência de programação conjunta fora crescendo.36

O PROGRAMA DOS MARES REGIONAIS

O Programa dos Mares Regionais (RSP - Regional Seas Programme) foi muitas vezes citado como um dos
principais sucessos do UNEP - se não como seu único sucesso real na primeira década -, no qual o UNEP
teve êxito em reunir 120 países e 14 órgãos da ONU para fazer frente a problemas compartilhados de
poluição e degradação litorânea em mares comuns. A ação recomendada por Estocolmo era terminar com
toda a poluição marinha significativa em três ou quatro anos, particularmente em mares interiores ou semi-
interiores.* A idéia do RSP nasceu numa reunião de especialistas realizada em Londres, em junho de 1971,
como preparação para Estocolmo. Analisando a posição da poluição marinha a reunião concluiu que um
enfoque mar-a-mar para o problema era mais realista e factível do que um programa global de alcance
amplo.37 Esse enfoque revela muito quanto aos motivos pelos quais os planos globais de alcance amplo nem
sempre conseguiram obter um grau de sucesso comparável ao do Programa dos Mares Regionais.
O RSP foi iniciado em 1974 com uma estratégia cuidadosamente planejada para respeitar as
sensibilidades nacionais, particularmente quanto aos dados sobre poluição, e para deixar a implementação
propriamente dita de cada plano regional sob responsabilidade exclusiva dos estados litorâneos em questão.
O RSP envolvia a maioria dos principais organismos da ONU e ilustrava exatamente o tipo de papel
catalizador e parcialmente executivo que o UNEP poderia desempenhar.38 Dentro do RSP foram realizados
levantamentos de cada região e foi traçado um plano de ação. O UNEP organizou então um encontro entre
os governos envolvidos para que chegassem a um acordo entre si no sentido de que o mar regional era um
recurso comum diante de ameaças comuns e em seguida concordassem quanto ao plano de ação. A isso
seguiram-se trocas de informações e monitoração, com as instituições nacionais se reunindo para discutir a
ação. O UNEP agiu como um catalizador inicial e, à medida que cada programa foi crescendo, os próprios
estados assumiram o financiamento e a administração, e os organismos científicos nacionais

* O princípio de uma abordagem regional para a administração marinha não era novo; o Conselho Internacional para a Exploração
dos Mares, por exemplo, já era atuante no Atlântico orte e no Báltico desde 1902,

121

empreenderam o trabalho de monitoração e pesquisa, utilizando os órgãos da ONU para consultoria


especializada. Dessa forma, um organismo internacional estava reunindo várias nações em torno de um
problema de interesse mútuo.
O modelo do RSP foi o Plano de Ação do Mediterrâneo, adotado por dezesseis estados mediterrâneos
em Barcelona, em janeiro de 1975. Em fevereiro de 1976 uma segunda reunião foi realizada em Barcelona
para implementar o componente legislativo do plano de ação. Essa foi historicamente a primeira tentativa
real de dar início a uma administração efetiva do Mediterrâneo.39 O primeiro componente desse plano foi
uma legislação nova; a reunião adotou a Convenção de Barcelona para a Proteção do Mar Mediterrâneo
contra a Poluição e dois protocolos: um para combater os despejos por parte de navios e aeronaves, o outro
para incentivar a cooperação em casos de poluição de emergência por petróleo ou outras substâncias. A
convenção entrou em vigor em 1978. Em 1980 foi adotado um terceiro protocolo, voltado para a poluição
cujas fontes eram de base terrestre. A convenção e os protocolos foram acordos de cavalheiros - não havia
meios de impor o seu cumprimento. O segundo componente do plano para o Mediterrâneo foi a monitoração
e a pesquisa, realizados pelos laboratórios dos estados litorâneos; havia 84 laboratórios desse tipo envolvidos
em 1984. O terceiro componente foi a administração ambiental, consistindo de um programa de longo prazo
de estudo e pesquisa sobre desenvolvimento e meio ambiente (O Plano Azul), e um Programa de Ações
Prioritárias que se concentrava em áreas prioritárias selecionadas. O componente final era o pequeno
secretariado criado para supervisionar o plano de ação. Usando uma diretriz semelhante, mas permitindo
variações regionais para as necessidades regionais específicas, foram subseqüentemente traçados planos de
ação regionais para dez mares regionais, inclusive para o mar Vermelho (1976), a região do Kuwait (1978),
os mares litorâneos da África ocidental e central, o Caribe, os mares do Oriente asiático, os mares do sudeste
do Pacífico (todos em 1981) e os mares do sudoeste do Pacífico (1982).
Em 1983 já estavam envolvidos no RSP - em graus variados - mais de 120 países, 14 órgãos da ONU
e 12 outras organizações internacionais.40 Infelizmente o sucesso do programa foi limitado por diversos
problemas fundamentais, vários dos quais foram equacionados no relatório Portmann de 1982, encomendado
pelo UNEP:41

1) Outros órgãos da ONU mostraram-se relutantes em apoiar integralmente o programa e usaram fontes de
informação diferentes dentro dos países quando empreendiam suas próprias atividades ambientais.

2) A sustentação financeira, por ser voluntária, era imprevisível, o que tornava os órgãos da ONU ainda
menos dispostos a se envolverem. O UNEP, por exemplo, gastou oito milhões de dólares no Plano de Ação
Mediterrânea nos seus primeiros cinco anos. Quando os governos envolvidos assumiram a responsabilidade,
reduziram o orçamento em um quarto. Três países (França, Itália e Espanha) subseqüentemente foram
responsáveis por 80% das contribuições governamentais.42 Pagamentos em atraso significavam na prática
que os fundos para o Mediterrâneo quase desapareceram em 1981-1982.

3) Em muitas regiões o nível de especialização e as instalações disponíveis para a implementação do plano


de ação eram inadequadas. (Stjepan Keckes, diretor do RSP, contestou este ponto e argumentou que a infra-
estrutura necessária poderia se desenvolver com o RSP.)43

4) Uma deficiência clara que afetava todos os planos regionais era a escassez de informações sobre poluentes
e a quantidade limitada de dados confiáveis sobre níveis de

122
poluição marinha. A partir de 1985 houve apenas um relatório terminado sobre o estado de um meio
ambiente marinho regional: o do Mediterrâneo. Embora o Plano de Ação do Mediterrâneo estivesse bastante
adiantado, se aperfeiçoamento, que de fato ocorreu, foi limitado por problemas combinados de
financiamento e desacordos quanto a padrões.

A despeito desses problemas, o Programa dos Mares Regionais foi amplamente encarado como o
empreendimento mais efetivo do UNEP em sua primeira década de operação. O UNEP atribuiu o sucesso do
programa ao fato de que era regional e não global, envolvendo nações com problemas comuns urgentes que
só poderiam ser resolvidos pela ação conjunta.44 Por ser uma iniciativa regional, tinha também proporções
mais fáceis de administrar e metas mais fáceis de atingir. Outros problemas (tais como a poluição ácida ou a
poluição de rios compartilhados) se provaram mais bem enfrentados por países em iniciativas bilaterais ou
regionais, onde existiam interesses comuns, custos econômicos ou implicações políticas identificáveis.

O UNEP FRUSTRADO: O PROBLEMA DA DESERTIFICAÇÃO

Uma indicação de como os esquemas de alcance mais amplo podem fracassar, mesmo quando são incluídos
dispositivos nacionais ou regionais, pode ser encontrada num dos maiores fracassos do UNEP, uma área à
qual o programa dedicou tempo e recursos consideráveis, a saber, a campanha contra a desertificação.
"Desertificação" é uma palavra um tanto desajeitada de origem relativamente recente, comumente definida
como a degradação do solo causada pelo homem, de modo que o solo perde sua fertilidade e sua capacidade
de oferecer retorno econômico a partir de cultivo ou pastagem.45 A desertificação não implica a expansão
dos desertos naturais tanto quanto o aumento da incidência de condições desérticas em áreas semidesérticas.
Um terço da superfície terrestre do planeta é semidesértica e sustenta mais de seiscentos milhões de pessoas;
cerca de metade dessa área - que sustenta oitenta milhões de pessoas - é considerada como estando sob
ameaça de desertificação.46 Segundo o Mapa da Desertificação do Mundo da ONU, mais de 40% da área
não desértica da África corre o risco da desertificação; metade das pessoas mais ameaça das pela
desertificação do mundo vivem no Sahel da África ocidental.47 As causas são complexas, mas incluem o
desmatamento, o excesso de cultivo (engendrado por uma combinação do aumento da demanda de
alimentos, devido ao crescimento das populações, com a aceleração no cultivo de culturas comerciais e
levando a um declínio da fertilidade do solo, erosão pelo vento e pela água, invasão de dunas de areia e
produtividade decrescente das safras), o excesso de pastagem e a irrigação mal planejada e administrada. A
incidência desses fenômenos, por sua vez, toca no coração do dilema de administração de recursos dos mais
pobres dentre os países menos desenvolvidos.
As secas e as fomes coletivas são geralmente percebidas como atos de Deus; até talvez uns quinze ou
vinte anos atrás, grande parte da literatura sobre a fome se concentrava na ligação entre o suprimento
absoluto de alimentos e a subnutrição. Sem rejeitar essa noção, observando que ao passo que as fomes
coletivas envolvem freqüentemente a subnutrição aguda e generalizada, nem todos os grupos nas nações
afetadas pela fome ficam sem comer. Sua abordagem de "prerrogativas" se concentra na propriedade e na
troca.48 Timberlake argumenta que embora a seca possa ser um precursor natural da fome (isto é, um ato de
Deus), a fome de 1984-1986 no Sahel foi uma conseqüência direta de estratégias econômicas, agrícolas e
ambientais incorretas (isto é, um ato do homem). Os

123

camponeses africanos, em seus esforços para sobreviver, foram impelidos a exigir cada vez mais de seu
"estoque de capital" de florestas, solos e rios; esse processo fez "falir" o meio ambiente africano ao minar a
capacidade das nações africanas de produzir alimentos para seus habitantes.49
A seca de 1968-1973 no Sahel ilustrou alguns dos perigos associados à disseminação dos
povoamentos humanos em terras áridas periféricas. A seca não é incomum na área (houve secas de grandes
proporções em 1910-1914, 1927-1930 e 1940-1944,50 e novamente em 1984-1985), mas as circunstâncias
da seca de 1968-1973 deram motivo a preocupações especiais. "A causa do desastre saheliano [de 1968-
1973], em última análise", argumenta Murdoch, "foi a destruição de um modelo complexo de organizações
de vida que anteriormente haviam permitido que números bastante grandes de pessoas vivessem num meio
difícil".51 No decorrer de um período de séculos, os nômades do Sahel haviam criado um sistema agrícola,
econômico e de comércio para compensar com precisão as limitações de seu meio ambiente. Criavam
rebanhos mistos de camelos, bois, carneiros e cabras; alternavam os períodos de acasalamento a fim de ter
leite durante o ano todo; deslocavam seus rebanhos de acordo com a incidência de chuva, levando-os,
durante as estações secas, para áreas de vegetação permanente; mantinham rebanhos maiores do que os que
necessitavam imediatamente, assegurando desse modo uma reserva de comida para os tempos de seca;
passavam para a caça e a coleta em épocas de seca extrema; e mantinham padrões de comércio complexos
com as regiões de savana ao sul, garantindo assim um suprimento regular de grãos.
O colonialismo trouxe impostos e exigências de exportação, forçando os camponeses a se dedicarem
à produção de culturas comerciais, minando os sistemas agrícolas nativos, reduzindo a fertilidade do mesmo,
aumentando a erosão do solo e empobrecendo os camponeses. A terra foi mais intensamente trabalhada para
compensar a perda de fertilidade e os camponeses adentraram terras periféricas para produzir alimentos e
culturas comerciais (reduzindo nesse Ínterim os períodos de pousio). As mudanças assim operadas nos
sistemas agrícola e econômico do Sahel persistiram, explicando em grande parte a resistência
significativamente diminuída à seca que tornou as fomes de 1968-1973 e 1984-1986 tão desastrosas.
Murdoch conclui que a pobreza dos camponeses era "um mecanismo causal no círculo vicioso do
subdesenvolvimento que tem evitado o desenvolvimento sustentado de uma economia integrada, a qual, por
sua vez, propiciaria mais renda, maior número de empregos e mais capital para investimentos". Ele observa
ainda o efeito do colapso do comércio nômade tradicional na destruição das estratégias de longo prazo dos
nômades.52
Anos de boa chuva durante a década de 1960 haviam incentivado a disseminação de culturas
alimentadas pela chuva e pastos para animais em terras periféricas nos limites do Sahara. Quando as chuvas
não vieram em 1968, os rebanhos de animais foram privados de pastagens (mas não de água) e começaram a
morrer em grande número. As chuvas não vieram novamente em 1970 e a colheita se exauriu com rapidez,
deixando aproximadamente três milhões de pessoas necessitadas de ajuda alimentar emergencial em seis
países. Em 1973, quando se tornou clara a dimensão total da seca, estimou-se que entre cem mil e 250 mil
pessoas e 3,5 milhões de cabeças de gado haviam morrido. Uma das lições a ser aprendida foi a
conseqüência desastrosa de uma combinação de seca e deslocamento de grande número de pessoas e animais
para terras ecologicamente periféricas.
Em circunstâncias normais o pastoreio nômade faz um uso perfeito dos solos secos; a pastagem
moderada sustentável na verdade aumenta a produtividade dos pastos. Mas os aumentos no tamanho dos
rebanhos e as diminuições nas áreas de pastagem disponíveis levou ao excesso de pastagem. No Niger, por
exemplo, entre 1938 e 1961, o número de jumentos aumentou em 100%, o de cabras e carneiros em 200%, o
de bois em 480% e o de camelos em 700%.53 Os números crescentes de animais eram em parte uma função
do

124

crescimento populacional humano. Os rebanhos são encarados como um seguro contra os anos de seca.
Durante os anos de pluviosidade boa, permite-se que os números cresçam. Quando do primeiro
aparecimento da seca, contudo, os donos de rebanhos relutam em reduzi-los, exercendo assim maior pressão
sobre os pastos sobrecarregados pela seca. Uma assistência veterinária melhorada aumentou ainda mais o
número de animais e a política governamental generalizada de incentivar os nômades a se estabelecerem
oferece pouco repouso ao solo usado para pastagem. Além disso, a construção de poços tendeu a concentrar
os nômades, muitas vezes atraindo muito mais animais do que comportava a capacidade de sustentação
planejada para os poços e intensificando o uso do solo circundante.
A seca de 1968-1973 foi um dos motivos subjacentes à convocação, em 1977, da United Nations
Conference on Desertification (UNCOD), realizada em Nairobi de 29 de agosto a 9 de setembro de 1977. O
objetivo era criar um fórum para a discussão do problema, que era visto como já tendo atingido proporções
de crise, e planejar a ação. A realização da conferência implicava o reconhecimento claro de que a
desertificação era um elemento básico na redução da capacidade da África de produzir alimentos para o
sustento de seus habitantes; ela teve êxito também em estabelecer firmemente o papel da atividade humana
na desertificação. A conferência resultou num Plano de Ação para o Combate à Desertificação, que consistia
em 28 recomendações. Estas incluíam planos nacionais de ação, aperfeiçoamento da criação de animais,
agricultura sustentada pela chuva e cultivo de irrigação; a monitoração das tendências de desertificação;
projetos transnacionais orientados para a vinculação dos países dentro de medidas integradas
antidesertificação; a administração dos aqüíferos regionais; e a criação de cinturões verdes para interromper
fisicamente a expansão dos desertos. Também foi enfatizada a importância de restringir o crescimento
populacional e aprender a compreender os fatores políticos, econômicos e sociais associados à
desertificação. O United Nations Sudano-Sahelian Office (UNSO) recebeu a responsabilidade pela
coordenação das ações de desdobramento na região sudano-saheliana enquanto o UNEP ficava responsável
pela mesma no resto do mundo.
Tolba alegou que existia um consenso geral de que a UNCOD foi "uma das conferências da ONU
cientificamente mais bem preparadas dos anos 70" e que as recomendações, se efetivamente aplicadas,
"teriam colocado a comunidade internacional em condição de ter interrompido a desertificação já no ano
2000".54 Como diretor-executivo do UNEP, sua avaliação evidentemente não era desinteressada, mas há
muitas evidências que fundamentam sua conclusão. Diferentemente do caso de muitos outros problemas
ambientais, havia certeza quanto às causas e a ação corretiva necessária. Mas em maio de 1981 Tolba
comunicou que o progresso na implementação do plano de ação havia sido lento. Em maio de 1984 um
encontro de dois dias do conselho diretor do UNEP (convocado para discutir a avaliação geral do UNEP
quanto à implementação do plano contra a desertificação) confirmou que os objetivos do plano ainda eram
fundamentalmente corretos e viáveis; mas Tolba admitiu naquele momento (num discurso notavelmente
franco e transparente) que o UNCOD não havia sido realista ao estabelecer a meta de interromper a
desertificação até o final do século.55
A avaliação concluía que a desertificação havia continuado a se estender e intensificar, que as taxas
observadas provavelmente não se alterariam nas terras irrigadas e de vegetação baixa, cresceriam para
proporções críticas nas terras de cultivo dependente de chuva e que os custos das perdas na produção devidas
à desertificação montavam a cinco vezes o valor estimado para que se interrompesse a desertificação (4,5
bilhões de dólares por ano durante vinte anos). Os mais afetados eram países menos desenvolvidos em terras
áridas tropicais, particularmente aqueles atingidos pela seca, rendas baixas e instabilidade política. A seca
continuada no cinturão sudano-saheliano e uma recessão econômica que havia limitado a disponibilidade de
fundos não haviam ajudado a campanha contra a

125

desertificação. Quatro quintos dos investimentos em projetos relacionados à desertificação foram feitos sob a
forma de ação "preparatória ou de apoio", tais como construção de estradas, suprimento de água potável,
oferta de habitação e extensão da irrigação. Somente 20% dos gastos haviam sido feitos sob a forma de ação
corretiva do tipo recomendado pela UNCOD. Os projetos transnacionais já haviam nascido mortos e pouco
foi feito para monitorar a situação ou aumentar a compreensão do processo. Somente 22% de toda a ajuda
para o Sahel foram para a agricultura e cerca de 1,4% para o manejo de florestas. Poucos países haviam
elaborado planos nacionais de ação ou tentado avaliar a extensão e a gravidade da desertificação. Poucas
medidas corretivas haviam engajado comunidades locais.
Embora as soluções técnicas para a desertificação fossem todas conhecidas e compreendidas, os
meios econômicos, sociais e políticos para aplicá-Ias ainda não haviam sido encontrados.56 Havia três níveis
de abordagem para o problema: nacional, regional e internacional. No nível nacional, o plano havia
recomendado que uma estrutura de coordenação nacional fosse estabelecida para combater a desertificação e
traçar planos de ação nacionais. Em todos os casos, à exceção de três, a responsabilidade havia sido na
realidade entregue a órgãos existentes. Dos três novos organismos nacionais criados somente um tornou-se
de fato efetivo, a partir de maio de 1984. Em muitos casos o fracasso no estabelecimento de estruturas
nacionais refletia a baixa prioridade nacional atribuída ao combate à desertificação.57 Tolba assinalou, em
seu discurso de maio de 1984, que isso havia sido encorajado pela falta de poder político das populações
rurais pobres mais imediatamente afetada. Os países menos desenvolvidos também haviam pensado que
existiam problemas de curto prazo mais imediatos precisando de intervenção e resistiram a fazer planos de
longo prazo. Quanto aos países mais desenvolvidos, os órgãos de ajuda preferiram sistematicamente
financiar projetos "de impacto" visíveis, tais como represas, estradas e fábricas, os quais utilizavam
tecnologia e equipamento das nações doadoras, criando empregos e lucros na nação em questão. Os projetos
rurais eram mais difíceis de identificar, planejar e implementar, e eram menos visíveis.58 Havia também
uma predominância da falta de consciência nos países mais desenvolvidos - muitos dos quais muito
afastados das causas e efeitos imediatos - quanto à extensão do problema.
No nível regional quatro comissões regionais da ONU organizaram reuniões e começaram a coletar
dados, mas nenhuma traçou planos regionais de ação. O UNEP responsabilizou pelo fracasso as carências
frnanceiras, os conflitos e guerras civis e as relações políticas tensas entre os países envolvidos, e não a
inadequação da estrutura regional.59 Um dos órgãos regionais mais efetivos foi o UNSO, que ajudou a
produzir um acordo regional sobre - estratégia da desertificação na região sudano-saheliana, levantou
quarenta milhões de dólares entre 1978 e 1983 para programas antidesertificação nos 19 países que servia e
ajudou a estabelecer dois centros de estudos regionais. Mas também teve seus problemas. Uma crítica foi
que o escritório, baseado em Nova York, tinha mais experiência de assistência técnica do que de problemas
de desertificação e era capaz de classificar um projeto como "anti-lesertificação" apenas porque era
politicamente conveniente fazê-lo.60
No nível internacional tódos os órgãos da ONU foram incentivados a apoiar as atividades
antidesertificação e dois organismos ad hoc foram criados para encorajar isso: a Divisão de Desertificaçâo
do UNEP, e o Inter-Agency Working Group on Desertification. O UNEP acreditava que esse sistema havia
"de modo geral funcionado eficientemente",61 mas as limitações frnanceiras significaram na prática que a
Divisão de Desertificação não havia obtido seu complemento integral de pessoal profissional, o que lhe deu
poucas oportunidades de operar efetivamente. "É a unidade fundamental da ONU para o problema da
desertificação", concluiu O UNEP, "e ainda assim, até o presente momento, nunca teve os recursos para
cumprir suas funções.”62 O grupo de trabalho, em contraste,

126

obteve um êxito moderado em sua função de reunir os representantes dos órgãos da ONU para coordenar a
pesquisa, o treinamento e a troca de informações dentro da ONU.
Dentre todos os obstáculos ao progresso, nenhum foi mais sério do que a pura falta de dinheiro.
Tolba havia dito na UNCOD que teriam de ser gastos 2,4 bilhões de dólares anualmente durante vinte anos
para interromper a desertificação no Terceiro Mundo. Foi aberta uma conta especial dentro das Nações
Unidas para financiar projetos antidesertificação, mas, entre 1977 e 1984, a mesma atraiu escassos 48.524
dólares. O Consultative Group for Desertification Control (DESCON) - um híbrido de representantes de
órgãos da ONU e organismos de ajuda - foi criado para identificar e unir as fontes de fundos e os projetos
prioritários. Entre 1978 e 1983 o grupo analisou 48 projetos, encaminhando financiamentos integrais para 12
e parciais para sete. O montante realmente providenciado pelo DESCON foi de 26 milhões de dólares, cerca
de um quarto do total necessário. O UNEP acreditava que tanto os países mais desenvolvidos quanto os
menos desenvolvidos haviam ficado igualmente confusos quanto aos objetivos do DESCON e não haviam
utilizado plenamente seus serviços. O UNEP ofereceu duas explicações para a precária situação financeira:
os países menos desenvolvidos que sofriam com a desertificação pareceram não ser capazes (ou talvez não
estar dispostos) de dar prioridade às medidas antidesertificação e as atividades para combater a
desertificação não eram de uma maneira geral competitivas em termos de razão custo-benefício econômico a
curto prazo. Mohammed Kassas, presidente da IUCN e autoridade em terras áridas, assinalou que o Egito,
por exemplo, gastou 13.800 dólares por hectare na luta para recuperar terras desérticas. Investida num banco,
tal soma poderia ter rendido 1.700 dólares de juros por ano, muito mais do que a terra poderia dar de
retorno.63
Em 1982 Grainger advertiu que dez anos depois do clímax da seca saheliana de 1968-1973 o Sahel
estava avançando firmemente na direção de um outro desastre; os especialistas não estavam de acordo
quanto ao momento da chegada da próxima crise, que poderia estar muito próxima ou a alguns anos de
distância, mas que a experiência anterior demonstrava ser inevitável.64 Apesar da necessidade urgente de
aumentar a produção de alimentos, menos de um quarto da ajuda para a região havia sido investida no
desenvolvimento agrícola. A população do Sabel estava crescendo à razão de 25% ao ano, as safras estavam
declinando (a produção de cereais dependentes de chuva havia caído para 75% de seu nível de 1%8) e
muitos países haviam passado a depender do envio de alimentos (grande parte dos quais só chegava às
cidades). O Club du Sahel estimou que a auto-suficiência em alimentos na verdade ficou menor entre
meados dos anos 70 e 1982. A seca de fato retomou à África subsahariana e a fome sobreveio. Em maio de
1984 um grupo de 25 jornalistas visitou a Etiópia sob a égide do serviço de informação ambiental Earthscan,
para que lhes fossem mostrados os efeitos da desertificação. Ficou imediatamente evidente que a Etiópia já
se encontrava nos estágios iniciais de uma fome de proporções consideráveis. Todos os jornalistas enviaram
reportagens para seus jornais e periódicos, relatando que cinco milhões de pessoas estavam diante da
subnutrição, mas houve pouco interesse e poucas das reportagens foram publicadas. Em outubro de 1984
uma equipe de televisão da BBC gravou uma reportagem sobre os campos de refugiados na Etiópia rural.
Enfatizando mais uma vez o poder da televisão, a exibição do filme resultou, durante os 18 meses seguintes,
em uma conscientização pública generalizada em âmbito mundial e numa campanha de proporções sem
precedentes para levantar fundos. Os artistas de rock britânicos, liderados por Bob Geldof e Midge Ure,
formaram o Band Aid e em novembro gravaram uma canção de grande vendagem, Do They Know It's
Christmas?, para levantar fundos para o combate à fome. Ao Band Aid seguiu-se uma contra partida norte-
americana, o U.S.A. for Africa, com a canção We Are the World, e também os concertos Live Aid,
simultâneos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Já em 1986 haviam sido arrecadados mais de cem
milhões de dólares pelo Band Aid e Live

127

Aid, e 51 milhões de dólares pelo U.S.A. for Africa.65 Em 1984-1985 a fome afligia vinte países (Sudão,
Etiópia, Niger, Moçambique, Somália, Chade e Mali eram os mais afetados). Estima-se que um milhão de
pessoas morreram de subnutrição e doenças correlatas, dez milhões foram obrigados a abandonar suas casas
e trinta milhões em vinte países não tinham a quantidade de alimentos suficiente para viver.
Muito pouco da publicidade dada à fome nos meios de comunicação do Ocidente falava da
degradação ambiental como uma causa fundamental. Ainda assim o binômio fome/seca levou funcionários
do governo, órgãos de ajuda e planejadores de desenvolvimento a uma tomada de consciência do fato de que
os programas de desenvolvimento africanos dos vinte anos anteriores haviam fracassado. Em 1984 o Banco
Mundial, uma instituição normalmente cautelosa, concluiu que "a transformação econômica e social da
África, tão ávida e efetivamente iniciada nos primeiros anos de independência, poderia ser interrompida ou
revertida" a não ser que as políticas de desenvolvimento mudassem.66 Timberlake observa que a fome teve
o efeito positivo de desencadear "uma reavaliação dolorosa entre os responsáveis pelo 'desenvolvimento' da
África e trouxe uma nova predisposição a admitir erros".67 As causas da fome confirmaram muitas
advertências feitas antes, durante e desde Estocolmo sobre a natureza da relação entre o planejamento do
desenvolvimento e a administração ambiental.

UNEP: UM IRREGULAR HISTÓRICO DE REALIZAÇÕES

O UNEP foi o resultado mais concreto da Conferência de Estocolmo. Embora imperfeito e uma década
depois ainda insuficiente em muitos sentidos, era provavelmente a melhor forma institucional possível,
dadas as limitações impostas pelos outros órgãos especializados da ONU e pelo baixo nível de
financiamento por parte dos governos. Mas teve diversos obstáculos colocados em seu caminho desde o
princípio. Teve demasiado pouco dinheiro, demasiado pouco pessoal e demasiadas coisas a fazer. Teve a
tarefa ingrata de coordenar o trabalho de outros órgãos da ONU em meio a uma realidade de desconfiança e
ciúme inter-organismos, e os governos nacionais provaram não estar dispostos a conceder-lhe poderes
significativos. Portanto, alega Eckholm, o UNEP simplesmente não se tornou a força global poderosa que
alguns haviam sonhado outrora.68 Dez anos depois de Estocolmo o UNEP propriamente dito só podia
reivindicar "um irregular histórico de realizações (...) [com] um progresso de mediano a bom (...) na
implementação de alguns dos elementos do Plano de Ação (...) [enquanto] para outros elementos, o
progresso foi muito lento".69
Exceto pelo Programa de Mares Regionais, o sucesso mais notável do UNEP foi o seu envolvimento
na promoção de um acordo na Convenção para a Proteção da Camada de Ozônio de Viena, em 1985 (ver
capítulo 9). O Comitê de Coordenação para a Camada de Ozônio, patrocinado pelo UNEP, ajudou a criar um
consenso quanto às dimensões da ameaça à camada de ozônio. Isso -estabeleceu um precedente promissor
para o progresso em relação a outras ameaças globais. Através do GEMS o UNEP também promoveu o
desenvolvimento de programas de monitoração; através do IRPTC deu início a uma coordenação de dados
sobre substâncias químicas tóxicas e deve ser-lhe dado o crédito por ter ajudado a fazer com que convenções
como a do Comércio de Espécies em Extinção passassem a funcionar efetivamente. Mas os fracassos foram
mais numerosos que os sucessos. Na sua sessão de 1977 o conselho diretor do UNEP estabeleceu vinte e
uma metas a serem cumpridas até 1982. Em 1982 o Sierra Club e o Grupo Agesta da Suécia fizeram
avaliações separadas de progresso; os resultados (Tabela 2) não foram encorajadores.
O próprio UNEP acreditava que nunca teria sido possível passar imediatamente a implementar as
recomendações do Plano de Ação de Estocolmo por três motivos: o secretariado pequeno e os fundos
limitados, a imensidão da tarefa e a natureza das recomendações em si, as quais variavam do específico (em
termos de metas e ações necessárias) ao geral (em termos de ações necessárias e não metas) .70 Dadas as
circunstâncias, pode ser-lhe atribuído o mérito de ter realizado mais do que na verdade tinha poderes para
fazer; é preciso fazer uma distinção entre o que o UNEP realmente poderia fazer e aquilo que os que
estavam de fora achavam que ele deveria fazer. Tolba acreditava que, num balanço, a realização global mais
importante do UNEP foi aumentar o nível geral de consciência ambiental nos círculos implementadores de
políticas.71 O UNEP podia alegar que tinha ajudado a atrair a atenção dos governos tanto para seus próprios
problemas ambientais nacionais quanto para problemas globais compartilhados. Mas sua deficiência
principal permanece: raramente se encontra em posição de dar seguimento a suas advertências e
aconselhamentos com dinheiro ou assistência técnica.

129

SETE
O Norte: Política e Ativismo (1969-1980)
À medida que se intensificava a adesão ao Novo Ambientalismo, o interesse público se refletia cada vez
mais nas políticas públicas. Enquanto somente quatro projetos de legislação ambiental nacional haviam sido
aprovados nos países membros da OECD entre 1956 e 1960, dez foram aprovados no período de 1961 a
1965, dezoito entre 1966 e 1970 e trinta e um de 1971 a 1975.1 A partir de agosto de 1971, 12 países haviam
planejado ou implementado a reorganização de seu programa ambienta;*/2 em junho de 1972, esse número
tinha chegado a 25 (11 dos quais no Terceiro Mundo); em 1985, mais de 140 países dispunham de
organismos ambientais.3 Sandbach argumenta que a criação de novos órgãos administrativos e legislativos
ajudou a minorar os temores dos ambientalistas e a conter a questão ambiental.4 Mas as mudanças políticas
e administrativas eram freqüentemente mais quantitativas do que qualitativas. Embora muitos partidos
políticos europeus ocidentais tenham começado a lançar mão do expediente de adotar políticas de meio
ambiente no começo dos anos setenta, suas respostas foram pobres o bastante para estimular o crescimento
de partidos ambientais inteiramente novos, notadamente na Alemanha Ocidental, Suíça, Bélgica, França e
Holanda.
Para tornar as coisas piores, poucos governos criaram organismos ambientais com poderes
adequados. Em alguns casos reestruturaram as responsabilidades delegadas de departamentos já existentes,
em outros criaram departamentos inteiramente novos ou então novos órgãos reguIamentadores com poderes
horizontalmente abrangentes, mas as soluções raramente se mostraram suficientes para lidar com os
problemas. Havia três razões principais para isso.
Primeira: o meio ambiente revelou-se quase impossível de ser compartimentalizado. Um problema
comum a quase todas as tentativas de criar uma nova máquina governamental foi o de definir os contornos
das responsabilidades e propiciar a autoridade legislativa necessária. O meio ambiente invade quase todas as
outras áreas importantes da política pública. Em teoria um verdadeiro "departamento de meio ambiente"
teria que estar armado com um aparato impressionante de autoridade legislativa, que interviesse na
agricultura, indústria, comércio, transporte, energia, suprimento de água e outras áreas do planejamento de
recursos. Na prática os novos organismos ambientais raramente dispunham do apoio de uma legislação
adequada à amplitude de suas responsabilidades.

* Austrália, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha Ocidental, Índia, Japão, Ouênia, Nova Zelãndia, Singapura, Suíça e Estados
Unidos.2

130

Segunda: a criação de novos departamentos freqüentemente causou conflitos com os departamentos


existentes, os quais não desejavam abrir mão de seus poderes ou responsabilidades, resultando, com muita
freqüência, em novos organismos cujas obrigações se combinavam mal, eram inadequadas ou incompletas,
ou então tinham muita responsabilidade mas pouco poder. Nos Estados Unidos 27 órgãos diferentes tinham
responsabilidades relativas a diferentes componentes da política ambiental. Na Grã-Bretanha, o
inapropriadamente chamado Departamento do Meio Ambiente (DOE - Department of the Environment)
tinha provavelmente menos influência sobre a política ambiental do que o Departamento da Agricultura (e
nenhum departamento do governo britânico faz tanto em termos práticos quanto o movimento ambientalista
privado).
Terceira: muitos dentre os novos organismos criados eram afligidos pela falta de recursos humanos,
financeiros e técnicos; tendendo a ser membros subalternos do governo, seus dirigentes tinham
freqüentemente que atuar em níveis médios, sem acesso aos quadros que tomavam as decisões no primeiro
escalão; e a monitoração e fiscalização da legislação variavam desde o controle estrito até nenhum controle.5
A OECD concluiu em 1985 que mesmo entre seus estados membros muitos países não foram capazes de
dedicar recursos a programas ambientais necessários.6
Seis elementos em particular determinaram a natureza da resposta da maior parte dos sistemas
políticos à questão ambiental nos anos 70 e 80: (1) o nível do ativismo político público, particularmente
através dos grupos de interesse; (2) o nível de confiança na capacidade administrativa (muito maior na Grã-
Bretanha, por exemplo, do que nos Estados Unidos); (3) o papel da lei e a divisão de poderes entre os
governos central e local (maior centralização na Grã-Bretanha do que nos Estados Unidos); (4) o grau de
consulta e de acesso públicos ao processo de tomada de decisões (prática aberta de lobby nos Estados
Unidos, consulta privada na Grã-Bretanha); (5) o grau de acesso público à informação (maior nos Estados
Unidos do que na Grã-Bretanha); e (6) a natureza dos arranjos institucionais existentes.
O campo de ação dos novos órgãos ambientais com freqüência revelou muito sobre as prioridades
políticas e econômicas dos diferentes sistemas políticos. Para a maioria dos países menos desenvolvidos o
estímulo era o desejo de planejar os recursos naturais segundo os interesses do desenvolvimento econômico.
Assim, os países menos desenvolvidos freqüentemente combinaram em um ou dois organismos as
responsabilidades relativas aos recursos naturais, turismo, vida selvagem, população e uso do solo. Nos
países industrializados o controle da poluição era em geral o elemento principal na responsabilidade dos
novos departamentos; essa questão também serviu de estímulo nos países menos desenvolvidos mais
industrializados, tais como Índia, Brasil e China. Enquanto os países mais desenvolvidos começavam a
preparar uma nova agenda de "previsão e prevenção", os países menos desenvolvidos ainda estavam na fase
de "reação e cura".7 Nos países mais desenvolvidos, registrava-se igualmente um deslocamento pronunciado
no sentido de fazer frente aos problemas transfronteiras, tais como a poluição ácida, substâncias químicas
tóxicas, resíduos perigosos, pesqueiros compartilhados e administração de bacias fluviais. Havia o começo
de uma verdadeira ponderação da vinculação dos interesses nacionais com os internacionais, por exemplo,
na questão da poluição ácida (ver capítulo 9). Na maioria dos casos as iniciativas nas políticas ambientais
eram respostas nacionais a problemas nacionais, mas o fato de que muitos países diferentes tenham
começado. a voltar sua atenção para problemas ambientais quase que simultaneamente sugere que as
iniciativas nacionais eram influenciadas também por avanços mais generalizados do conhecimento
científico, pelas bem-divulgadas descobertas dos modelos globais, por acontecimentos (tais como os
desastres ambientais) ocorridos em outros países e também pela participação em tratados internacionais ou
em organizações intergovernamentais.

131

O papel dos grupos de interesse, tanto na atração de atenção para as questões quanto na monitoração da
implementação e da eficácia da legislação foi, nacional e internacionalmente, um importante elemento nas
políticas ambientais. À medida que floresceu o número de organismos ambientais estatais e de instrumentos
Iegislativos, o mesmo aconteceu com o número de ONGs - e o apoio a elas. A tendência entre esses grupos
estava longe das questões mais limitadas da proteção da natureza e evoluía no sentido das questões
ambientais mais amplas, assim como, ao mesmo tempo, se distanciava cada vez mais das preocupações
puramente filantrópicas, evoluindo na direção do ativismo e da prática de lobby. Embora as questões
domésticas tenham permanecido sendo as mais imediatamente identificáveis e acessíveis à maior parte das
ONGs, as ONGs maiores (ou coalizões de ONGs) não podiam ignorar o aumento do número de questões que
deveriam ser enfrentadas nos níveis regionais ou globais. */8
As atitudes contrastantes da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos em relação à elaboração de políticas
ambientais dá uma idéia das diferentes questões em jogo, dos diferentes estilos nacionais de regulamentação
e da inerente complexidade do meio ambiente como questão política.

GRÃ-BRETANHA: A BABÁ TEM RAZÃO

À primeira vista a Grã-Bretanha tem um histórico impressionante no que tange o reconhecimento e reação à
degradação ambiental. Em 1273 foi ali aprovado o que pode ter sido o primeiro instrumento de legislação
antipoluição do mundo (um decreto proibindo a queima de carvão mineral). Em 1863 criou-se o primeiro
organismo de controle da poluição, a Inspetoria dos Álcalis. Em 1947 a Grã-Bretanha aprovou uma das
legislações de planejamento mais abrangentes do mundo, a Lei do Planejamento da Cidade e do Campo. Em
1956 tornou-se a primeira nação industrializada importante a aprovar uma Lei do Ar Limpo. Em 1970 criou
o primeiro órgão "ambiental" de nível ministerial. Contudo, paradoxalmente, sucessivos governos do pós-
guerra se mostraram lentos em suas respostas às tendências da opinião pública quanto ao meio ambiente. A
posição britânica sobre a poluição ácida oferece um exemplo disso. O problema foi identificado inicialmente
na Grã-Bretanha; a usina elétrica de Battersea, em Londres (inaugurada em 1929), foi a primeira usina
elétrica do mundo a instalar filtros antipoluição e Londres foi uma das primeiras cidades do mundo a atacar
com sucesso os problemas de smog. Todavia, durante os anos 80, a Grã-Bretanha estava efetivamente
atrasada em relação a outras nações da Europa ocidental no tocante aos acordos internacionais para restringir
a poluição ácida (ver capítulo 9). As respostas para esses paradoxos devem ser procuradas na natureza do
sistema político britânico.
Os políticos britânicos tradicionalmente têm visto a si próprios como guardiães do interesse público e
têm confiado em sua capacidade de compreender esse interesse com um mínimo de consulta ao público em
si. Uma das características da política britânica é a limitação imposta ao acesso público à informação e a
crença de que um público passivo aceitará aquilo que é tido como sendo de seu interesse (uma atitude
freqüentemente questionada). Isso significa, por sua vez, que muitas das políticas regulamentadoras na

*Isso influenciou até certo ponto a percepção dos movimentos nacionais relativamente às questões. Por exemplo, um levantamento
realizado em 1974 entre 635 sociedades locais por interesses comuns na Grã-Bretanha revelou que 83% consideravam seu
trabalho como estando ligado a problemas universais de poluição, superpopulação e escassez de recursos naturais (por exemplo,
esquemas de tráfego local ligados ao consumo global de petróleo). Destas, 44% afirmaram que poderiam dar sua contribuição
principal através da educação pública e da publicidade, e 20% diziam que questões locais não poderiam ser usadas como exemplos
de problemas globais.8

132

Grã-Bretanha foram executadas através de consulta seletiva aos grupos de interesse, sem exigência de
informar o público.9 A concordância voluntária a respeito de padrões "decentes" de comportamento foi o
elemento chave do controle da poluição, uma atitude descrita por Jon Tinker em 1972 como a síndrome da
"babá tem razão", na qual o governo faz apelo ao senso de Jair play das indústrias poluidoras. Algumas das
leis antipoluição britânicas, argumentava ele, eram mais apropriadas a uma escola de garotas eduardiana do
que a uma sociedade industrial avançada. Os transgressores, observou, "são discretamente levados a um
canto pelos funcionários da fiscalização e repreendidos pelo mau procedimento. Não há necessidade de
processos judiciais: a vergonha de ter sido apanhado é tida como punição suficiente".10 O enfoque não
coercitivo do controle da poluição se reflete no fato de que a Inspetoria de Álcalis só instaurou processo em
três casos entre 1920 e 1967.11 Stanley Johnson argumenta que o enfoque britânico do controle da poluição
tendia para o conservadorismo por acreditar na inocência até que a culpa fosse provada.12 Em 1972 a Real
Comissão sobre Poluição Ambiental concluiu em seu segundo relatório anual que havia necessidade de uma
maior transparência para o público no processo de implementação das políticas ambientais.13
Uma segunda fonte de problemas reside no fato de que, embora a Grã-Bretanha seja tida como um
modelo de democracia, o processo de governo é em parte frustrado pelo predomínio de um serviço público
elitista e de uma burocracia acachapante. Os servidores públicos britânicos são comumente criticados por
não conseguirem adotar métodos modernos de administração, por não serem suficientemente sistemáticos,
por não planejarem com antecedência e por serem obcecados por procedimentos.
Um terceiro problema reside nas inadequações dos governos locais, onde se concretiza uma parte
considerável dos controles sobre o meio ambiente. Há relativamente pouco interesse público pela política
local e, entretanto, os governos locais têm muita autoridade na garantia da saúde pública. Nas áreas
interioranas industriais das Midlands, do sul do País de Gales e da Escócia, a fragilidade dos governos locais
foi acentuada pela predominante resistência pública a reconhecer a poluição como um problema ou - nas
áreas de mineração de carvão - a aceitar fontes alternativas de energia menos poluentes, tais como o gás
natural. Assim como aconteceu freqüentemente em outros lugares, o temor de que controles ambientais
pudessem solapar a indústria existente e afastar as novas num período de dificuldades econômicas
desincentivou a implementação de controles da poluição.14
Até 1970 a autoridade em políticas relacionadas ao meio ambiente na Grã-Bretanha estava dividida
entre grupos distintos de organismos; o controle da poluição do ar, por exemplo, estava dividido entre os
ministérios da habitação e governo local (Inspetoria dos Álcalis), da tecnologia, transporte e agricultura, o
Departamento de Serviços Sociais, o Conselho de Comércio e as secretarias de estado para a Escócia e o
País de Gales. Harold Wilson propôs primeiramente uma fusão, em 1969, e criou tanto o Ministério para o
Governo Local e Planejamento Regional 15 quanto a Real Comissão sobre Poluição Ambiental. Havia muita
discussão sobre as questões ambientais tanto no seio do governo trabalhista quanto no da oposição
conservadora em 1969-1970, incentivadas em parte pela sérieBBC Reitli Lectures, apresentada por sir Frank
Fraser Darling em novembro de 1969,16 pela instalação do Ano de Conservação Européia em 1970 e pela
Mensagem ao Congresso de 1970, do presidente Nixon. O meio ambiente não seria ainda uma questão
eleitoral em 1970, uma vez que a proximidade da eleição encorajava os dois partidos principais a se
concentrarem nas questões conhecidas. Depois da vitória dos conservadores, entretanto, a palavra "meio
ambiente" apareceu pela primeira vez no discurso da rainha em julho de 1970. Em outubro a reorganização
da máquina de governo originalmente planejada pelo governo Wilson foi delineada num comunicado oficial
do governo de Heath, chamado Heath Govemment White Paper, o qual observava ser "cada vez mais aceita a
idéia de que

133

manter um meio ambiente decente, melhorar as condições de vida das pessoas e propiciar condições
adequadas de transporte uniam-se no planejamento do desenvolvimento (...) É necessária uma nova forma de
organização no centro do sistema administrativo, uma vez que essas funções interagem e também porque
dão lugar a reivindicações intensas e conflitantes" .17
Os ministérios da habitação e governo local, de obras e construções públicas e de transporte foram
então fundidos pelo governo de Heath no novo Departamento do Meio Ambiente (DOE - Department of
Environment), responsável por "toda a gama de funções que afetam o meio ambiente onde vivem as
pessoas". Peter Walker foi designado secretário de Estado e definiu imediatamente quatro objetivos para o
departamento. Somente dois deles - os que se relacionavam ao desenvolvimento de um "enfoque prático e
positivo" da poluição em todas as suas formas e ao desenvolvimento de um enfoque positivo do
planejamento - eram políticas ambientais no sentido estrito (os outros se relacionavam à reforma do governo
local e habitação). Uma das primeiras atividades do DOE no controle da poluição foi uma reorganização
abrangente dos serviços de água. A responsabilidade pelo fornecimento de água, esgotos e conservação da
água na Inglaterra e País de Gales é exercida por mais de 1.400 organismos regionais. Sob a Lei da Água de
1973 (no qual a pressão dos grupos ambientais teve apenas um papel Limitado), essa responsabilidade foi
realocada em dez Autoridades Regionais da Água baseadas nas bacias hidrográficas naturais ao invés de sê-
lo nas unidades governamentais locais. A Lei de Controle da Poluição de 1974 contemplava vários
problemas ambientais, incluindo manejo de resíduos e poluição da água, do ar e sonora. Bennett o vê como
"o primeiro reconhecimento formal do meio ambiente como entidade una" .18
Atribui-se à criação do Departamento do Meio Ambiente - o primeiro departamento com esse nome
no mundo - uma significação maior do que merece. A sugestão de Aldous de que o novo departamento
estava armado com "uma gama de poderes sobre o meio ambiente tão ampla quanto é politicamente
aceitável para um único ministério no seio de um sistema parlamentar (...) democrático” 19 é questionável.
A criação do DOE foi mais uma reorganização da máquina estatal do que a criação de um novo
departamento com poderes adicionais. O próprio título de Departamento do "Meio Ambiente" era
inadequado, já que as políticas ambientais mostraram ser uma pequena (e não muito importante) parte de
suas responsabilidades; o órgão conferia consideravelmente mais peso às suas atribuições no governo local e
na habitação. Em 1985 já se havia tomado óbvio que a estrutura do departamento era insatisfatória, e o
Partido Trabalhista seguiu a orientação da Aliança Liberal-SDP, sugerindo a necessidade de reorganizar a
estrutura do governo relacionada à administração ambiental. Não foi especificado exatamente como isso
deveria ser implementado.
A questão ambiental mais controversa e mais amplamente debatida nas décadas de 70 e 80, e talvez
no século XX, foi a questão do campo. A ética rural ocupa na psique britânica um espaço equivalente à
posição das florestas na Alemanha Ocidental e das áreas virgens nos Estados Unidos. Mudanças sociais e
econômicas ocorridas ao longo de um período de seis mil anos produziram a paisagem britânica
característica que há muito tem fascinado escritores, artistas e poetas: pequenas campinas e prados divididos
por sebes e salpicados aqui e 1á por bosques e pequenas áreas de florestas. Essas mesmas mudanças
removeram quase que totalmente a cobertura florestal natural das ilhas Britânicas, à exceção de 7%. Restam
muito poucas, se é que restam, áreas verdadeiramente virgens e os únicos vestígios das outrora grandes
florestas naturais permanecem em locais como Sherwood, New Forest e Forest of Dean. Quanto ao resto, a
vida selvagem é obrigada a coexistir com a agricultura. Na Inglaterra tomada isoladamente, 70% da terra
disponível são cultivados.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de tomar-se auto-suficiente em alimentação
encorajou uma intensificação agrícola, um processo que continuou através

134

dos anos do pós-guerra, estimulado por tarifas sobre as importações e subsídios para os agricultores - estes
últimos, particularmente, viabilizados sob a tão difamada Política Agrícola Comum da Comunidade
Européia. Um de seus resultados foi a retirada de sebes e florestas, e um aproveitamento sem precedentes
das wetlands, de modo a criar campos maiores e aumentar a produtividade agrícola. Para muitos, a
agricultura não mais enriquece e conserva a paisagem, mas a destrói. Entre 1946 e 1974 um quarto das sebes
da Inglaterra e do País de Gales - cerca de 193 mil quilômetros ao todo - foi removido.20 Florestas decíduas
foram continuamente substituídas por plantações de coníferas comerciais ou convertidas em terra arável -
entre 1947 e 1980 a metade das antigas florestas da Grã-Bretanha foi perdida.21 Capinzais, pântanos,
charcos, urzais, baixadas e charnecas foram igualmente convertidos.
Em 1980 a natureza das mudanças foi documentada por Marion Shoard em The Theft of the
Countryside. Observando que o sistema de planejamento britânico era amplamente considerado como o
mecanismo mais sofisticado e efetivo do mundo para restringir a tendência inerente aos interesses privados
poderosos de se sobrepor aos interesses públicos em relação à terra, a autora perguntava o que esse sistema
estava fazendo para salvaguardar a paisagem da investida violenta é sistemática da agricultura moderna. "A
resposta", escreveu, "é quase nada. O sistema de planejamento não tenta reconciliar as diferentes prioridades
da produção alimentar e da conservação da paisagem e das áreas virgens nos casos em que os dois interesses
entram em conflito (...) [A agricultura e o manejo florestal comercial] estão efetivamente acima da lei, na
medida em que esta se aplica a outras atividades que afetam o meio ambiente.”22 Muito do conflito entre
conservacionistas e agricultores chegou a um ápice durante a formulação da Lei da Vida Selvagem e do
Campo de 1981, que atraiu um recorde de mais de 2.300 emendas antes de ser aprovada. Dentre as muitas
anomalias do decreto estava o fato de que nenhum incentivo era dado aos proprietários cujas terras
contivessem Sítios de Interesse Científico Especial (uma curiosa forma de designação criada pelo Conselho
de Preservação da Natureza) para conservar esses sítios e muitos incentivos eram dados para desenvolvê-los.
Meses depois de sua aprovação tornou-se claro que o instrumento era insuficiente e havia forte apoio entre
os conservacionistas no sentido de sua substituição.
Organismos ambientais privados são o elemento chave na elaboração britânica de políticas. Naqueles
pontos em que outros países industrializados podem formular e executar suas políticas ambientais através de
órgãos governamentais, muitas funções na Grã-Bretanha são levadas a cabo por grupos privados. O National
Trust, por exemplo, faz consideravelmente mais do que o governo na aquisição e manutenção de construções
históricas e paisagens panorâmicas. A maior parte das reservas naturais é gerida por grupos naturalistas
locais, os quais, por sua vez, são coordenados pela Real Sociedade para a Conservação da Natureza. Muitos
grupos ambientais recebem financiamento direto do governo e quase a metade tem representantes em um ou
mais comitês consultivos oficiais. Até a década de 1970 esses grupos dependiam de negociações privadas
com funcionários do governo; depois, muitos ficaram mais envolvidos na prática direta de lobby, no
ativismo político e na mobilização da opinião pública - isso apesar do fato de que, para muitos desses
grupos, o ativismo político aberto ameaçasse sua condição de organizações filantrópicas. A mudança é
exemplificada pelo comentário de um funcionário de primeiro escalão do Conselho para a Proteção da
Inglaterra Rural (CPRE - Council for the Protection of Rural England), que observou que sob a liderança de
sir Herbert Griffin o CPRE não buscou atrair atenção e evitou meticulosamente embaraçar aqueles que
influenciava ou procurava influenciar. Griffin, secretário-geral do CPRE desde sua fundação em 1926,
finalmente se aposentou em 1965. "Atualmente", observou o funcionário, "não estamos relutantes em
relação a nos aproximar do público. Na realidade, somos muito conscientes do papel dos meios de
comunicação de massa. Isso é mais adequado ao estilo

135

geral da política ambiental, na qual o conflito passou a desempenhar um papel maior".23 Os membros de
ambas as casas do parlamento defendiam posições oficiais ou honorárias em muitas organizações ambientais
e o interesse aumentado pelas questões ambientais se refletia nos debates e questões parlamentares.
Silent Spring, Aberfan, Torrey Canyon e a ascensão do movimento ambiental global são fatores que
influenciaram o ambientalismo britânico e o número de pessoas que se associaram a grupos ambientalistas
aumentou durante os anos 70. Entre 1967 e 1980 os membros do CPRE e da Ramblers Association mais que
dobraram, os da Sociedade para a Promoção da Conservação da Natureza (agora Real Sociedade para a
Conservação da Natureza) mais que quadruplicaram. Os membros da Real Sociedade para a Proteção dos
Pássaros aumentaram de 38 mil para trezentos mil e os do National Trust (cujos interesses extrapolam a
proteção da natureza) de 159 mil para 1 milhão. O número de associações locais por interesses comuns
multiplicou-se por seis entre 1958 e 1975; em 1977 as mesmas já tinham um total de trezentos mil
membros.24 Em 1983 estimou-se que o movimento ambientalista britânico já contava com cerca de três
milhões de membros ou 5,3% da população total." Isso o transformava no maior movimento de massas da
história britânica.
Assim como nos Estados Unidos, os membros dos grupos ambientais britânicos são geralmente mais
afluentes e de escolaridade superior à média. Por ser a classe ainda uma divisão social importante na Grã-
Bretanha, e porque está, por sua vez, ligada ao trabalho e ao emprego, as organizações por interesses comuns
são mais ativas no sul predominantemente white collar e profissional liberal da Inglaterra do que nas
Midlands e no norte predominantemente braçais e industriais. A identidade de classe dos ambientalistas não
é, em parte alguma, mais marcada do que no apoio dado a muitos grupos ambientalistas pelos pares do reino,
e pelo papel ativo da Câmara dos Lordes na introdução, debate e emenda de muitas legislações ambientais.
Lorde Ashby, por exemplo, foi o primeiro presidente da Real Comissão sobre Poluição Ambiental, lorde
Creighton tem um papel ativo na administração de várias organizações ambientais, e lorde MeIchett tanto é
parlamentar quanto membro ativo de vários grupos ambientais.

OS ESTADOS UNIDOS: CONTROLES E RESTRIÇÕES

Como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos não tinham, até 1970, um órgão federal único responsável pelo
controle da poluição; a responsabilidade pertencia a uma confusa coalizão de organismos distintos no
Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar. A poluição da água e do ar eram geralmente consideradas
como assunto local e o papel do governo federal na elaboração de políticas ambientais era, desse modo,
limitado. As organizações ambientais, entretanto, tinham começado a pressionar por uma ação mais vigorosa
e abrangente sobre o meio ambiente. Em sua Mensagem ao Congresso de 1970, Richard Nixon havia falado
sobre a "inadequação de nossa constituição para lidar com problemas que ultrapassam as fronteiras políticas
tradicionais”26, e introduzido uma década nova no que diz respeito à formulação de políticas ambientais.
Apesar das tentativas de racionalizar a elaboração e implementação de políticas ambientais, a
natureza estratificada do sistema político americano colocou enormes obstáculos no caminho do
enfrentamento de uma área política já complexa. Como todas as áreas de políticas públicas, os programas
ambientais nos Estados Unidos ganharam forma através da dispersão dos poderes do governo em controles e
restrições, e através do papel dos grupos de interesse. Uma autoridade compartilhada, independente e
contrabalançada no sistema federal torna impossível diferenciar funções federais, estaduais e locais;
rivalidades jurisdicionais acrescentam a primeira camada de complexidade à administração dos problemas
ambientais. Uma complexidade adicional é constituída pela fragmentação das responsabilidades ambientais
entre muitas instituições e pelas tentativas
de aplicar as políticas ambientais federais através dos governos locais e estaduais. A camada final de
complexidade é adicionada pela divisão de poderes para fazer, implementar e avaliar as políticas entre a
Casa Branca, o Congresso, a burocracia e os tribunais. O problema da burocracia (particularmente a ausência
de coordenação dentro e entre os departamentos) é ilustrado pelo exemplo do Departamento do Interior: dois
de seus órgãos, O Serviço de Peixes e Animais Selvagens e o Bureau de Administração da Terra, competem
diretamente. Um preserva a vida selvagem nas terras públicas, enquanto o outro tem estado tradicionalmente
inclinado a proteger os direitos daqueles que desejam criar gado ou extrair minério.27 Além dos
departamentos do Interior, de Agricultura e de Energia, não menos do que vinte e sete outras organizações -
do Corpo de Engenheiros do Exército, passando pela Administração Federal da Aviação, a Administração de
Alimentos e Drogas, O Serviço de Parques Nacionais e a Guarda Costeira Americana - estão envolvidas na
implementação de políticas ambientais.28
Apesar de todas essas reivindicações jurisdicionais, a Agência de Proteção Ambienta! (EPA -
Environment Protection Agency) é o mais importante dentre os principais órgãos reguladores. A história da
EPA data de 1969, quando o Comitê Consultivo do Presidente para Assuntos de Organização Executiva (o
Conselho Ash) foi criado para examinar políticas de recursos naturais e programas federais de controle da
poluição. Dentre suas

137

recomendações, havia uma para a criação de um novo e imenso departamento de recursos naturais e meio
ambiente, em substituição ao Departamento do Interior (por muito tempo Visto oficiosamente como o
departamento dos recursos naturais) e concentrando responsabilidades relevantes retiradas de outros
departamentos. (Propostas semelhantes haviam sido feitas antes pela Comissão Hoover de 1949 e novamente
num projeto de lei do Senado, de 1965.)29 O princípio orientador do Conselho Ash era minimizar o número
de organismos federais que se reportavam ao presidente.30 Inicialmente, favoreceu a consolidação dos
programas antipoluição vigentes sob o proposto Departamento de Recursos Naturais, mas houve recuo
quando alguns membros do conselho argumentaram que tal situação poderia submergir os programas de
controle da poluição e resultar em decisões que favoreceriam o desenvolvimento de recursos em detrimento
de uma qualidade ambiental melhorada.31
No dia primeiro de janeiro de 1970, a Lei de Política Ambiental Nacional foi aprovada depois de
uma rápida passagem pelo Congresso, apesar da oposição da Casa Branca. A lei alertou todos os órgãos
governamentais para as conseqüências ambientais de suas atividades e exigiu a preparação de um relatório
de impacto ambiental para todos os programas federais importantes que "afetassem significativamente a
qualidade do meio ambiente humano". Mais de 12 mil relatórios foram preparados na primeira década de
operação.32 A legislação também criou o Conselho de Qualidade Ambiental (CEQ Council
onEnvironmental Quality), com base no Escritório Executivo da Presidência, para que elaborasse um
relatório anual sobre a qualidade ambiental e aconselhasse o presidente sobre políticas nacionais para
melhorar a qualidade ambiental. */33 O CEQ não recebeu poderes reais, e Davies e Davies sugeriram que
toda a influência que teve o órgão advinha de sua localização no Escritório Executivo; era duvidoso,
notaram, que o CEQ pudesse eventualmente "agüentar os golpes de um presidente hostil".34 Isso foi
confirmado em 1981, quando o presidente Reagan inicialmente considerou abolir o CEQ e depois se
resolveu pela demissão de quase todos os membros e redução de seu orçamento à metade.
O compromisso a que se chegou sobre programas antipoluição foi o estabelecimento, em dezembro
de 1970, da EPA, um órgão independente de controle da poluição que assumiu a responsabilidade pela
regulamentação e fiscalização dos programas federais em poluição do ar e da água, radiação ambiental,
pesticidas e resíduos sólidos, e, numa medida menor, pelas pesquisas. O órgão se reportava diretamente ao
presidente. Quarles sugere que em termos políticos a decisão de criar a EPA foi "um compromisso que
reduziu a oposição à reorganização. A proposta original [de um novo departamento de recursos naturais]
pode ter sido demasiadamente audaz, já que representantes do capital teriam tentado fazer lobby para sua
derrubada no congresso".35
A EP A tomou-se, em termos de pessoal e de orçamento, o maior órgão regulamentador de
Washington. Começou com um quadro de oito mil pessoas e um orçamento de 455 milhões de dólares; em
1981 possuía um quadro de quase 13 mil funcionários e um orçamento de 1,35 bilhão de dólares.36 Foi
responsável por importante legislação, como a Lei do Ar Limpo, a Lei da Água Limpa, a Lei de
Conservação e Recuperação de Recursos e a Lei de Controle de Substâncias Tóxicas. Além da
regulamentação, a EPA tinha poderes de financiamento, notadamente através da administração de um
superfundo, um programa de 1,6 bilhão de dólares para limpar os depósitos de resíduos da nação. A primeira
década da EPA assistiu a uma impressionante efusão de legislação ambiental federal. Apesar das pressões
impostas à administração Nixon pelos interesses do capital, o apoio do Congresso à reforma ambiental
assegurou a aprovação de legislação fundamental sobre o controle da poluição do ar e da água, recuperação
dos resíduos sólidos e regulamentação sobre pesticidas.

* Nixon tinha-se antecipado ao Congresso, criando, em maio de 1969, seu próprio Conselho [consultivo] de Qualidade Ambiental
com status de ministério. Era constituído por Nixon, que o presidia, o vice-presidente e por secretários de seis departamentos
(inclusive agricultura e interior). O conselho se reuniu somente algumas vezes e pouco realizou.33

138

A nova legislação sobre resíduos tóxicos foi colocada à prova numa importante controvérsia pública
entre 1976 e 1979. A manufatura, o consumo e o manejo de produtos químicos, especialmente os que são
usados como fertilizantes e pesticidas, foram sempre causa de preocupação. Em 1976, em seguida a vários
anos de chuvas e nevascas incomumente intensas, produtos químicos começaram a vazar através das paredes
dos subsolos e porões de casas perto de Love Canal, uma via de navegação não concluída e abandonada do
século XIX, no estado de Nova York. O canal havia sido usado antes como vazadouro de resíduos industriais
e depois vendido para o Conselho Educacional de Niagara Falls, que construiu ali uma escola e um campo
de esportes. Uma parte daquela terra foi vendida a uma imobiliária, que construiu algumas centenas de
unidades habitacionais ao longo do canal. Estudos feitos na época identificaram 82 compostos químicos
diferentes, inclusive o triclorofenol, que contém dioxina. Em agosto de 1978 mulheres grávidas e crianças
com menos de dois anos de idade foram aconselhadas a deixar a área. Em julho de 1979, 263 famílias
haviam sido evacuadas e suas casas compradas pelo governo; além disso, mil famílias foram orientadadas a
deixar a área, tendo sido gastos cerca de 27 milhões de dólares pelas autoridades municipais, estaduais e
federais para fornecer habitação temporária, interditar as áreas contaminadas e conter a infiltração de
produtos químicos.37 Love Canal foi somente o mais divulgado dentre esse tipo de incidentes potenciais;
um relatório de 1979 para a EPA estimava o número de áreas condenadas que continham resíduos perigosos
nos Estados Unidos entre 32 mil e cinqüenta mil, das quais entre 1.200 e duas mil poderiam colocar riscos
significativos para a saúde humana e para o meio ambiente.38

A AGENDA AMBIENTAL DE REAGAN

As atitudes da Casa Branca em relação ao meio ambiente sofreram uma transformação dramática no começo
da administração Reagan. Vig e Kraft sugerem que a agenda ambientaI de Reagan era baseada em (1)
reforma da regulamentação, (2) o máximo de confiança possível no livre mercado para a alocação de
recursos e (3) transferência das responsabilidades pela proteção ambiental para os governos estaduais e
locais.39 Duas indicações de Reagan exemplificaram a atitude do novo presidente: a de James Watt para
secretário do interior, e de Anne Burford (Gorsuch, em solteira) - uma protegida de Watt - para a
administração da EPA. Watt tinha servido no Departamento do Interior por seis anos, durante a
administração Nixon. Antes de sua indicação para a secretaria, ele dirigiu a Mountain States Legal
Foundation, uma organização que se dedicava à ação legal para restringir ou anular as ações federais no
Colorado e em outros estados do Oeste. Watt acreditava que a maioria dos problemas de recursos poderia ser
resolvida com sua abertura para o mercado. Sua franqueza rude tornou-se rapidamente um tema tão
destacado quanto suas políticas. Num discurso de janeiro de 1982, ele disse que nunca havia usado as
palavras democrata ou republicano - "trata-se de liberais e americanos". Um ano mais tarde comparou seus
críticos ambientalistas a nazistas e bolcheviques.40 A quintessência do sagebrush rebel, suas políticas
incluíam a abertura das áreas virgens para exploração de petróleo e gás, a privatização das terras possuídas
pelo Serviço de Florestas e pelo Bureau de Administração da Terra e um aumento na disponibilidade das
reservas de carvão, petróleo e gás possuídas pelo governo federal.
Anne Gorsuch era procuradora e deputada estadual de um só mandato no Colorado, sem experiência
administrativa; em sua lista de clientes anteriores figuravam muitas indústrias que se opunham à
regulamentação ambiental federal. Os ambientalistas interpretaram sua indicação como um sinal de que a
Casa Branca pretendia promover uma mudança nas simpatias da EPA, que se afastariam dos ambientalistas,
seguindo na direção do empresariado e de outros interesses econômicos atingidos pela regulamentação.41
Dos 15 subordinados nomeados por Gorsuch, 11 haviam mantido ligações com empresas

139

regulamentadas pela EPA. O presidente Reagan deixou claro desde o começo que se propunha a reduzir o
poder da EPA, instituindo cortes de orçamento e de pessoal (de 29% e 23% respectivamente)42 entre 1981 e
1983. Sob o mandato de Gorsuch a maior parte dos programas importantes do órgão foi quase paralisada e o
moral da equipe da EPA entrou em colapso. Sugestões de que a administração da EPA estava envolvida em
politicagem e intrigas tornaram-se um constrangimento político. Em dezembro de 1982 Gorsuch foi citada
por desacato ao Congresso por recusar - sob ordens presidenciais - a entregar documentos requisitados
judicialmente sobre alegada má administração do Superfundo. Em março de 1983 ela renunciou (um mês
antes havia se casado com Robert Burford, chefe do Bureau de Administração da Terra). A indicação de
William Ruckelshaus (que havia sido o primeiro administrador da EPA) parecia um bom presságio para o
órgão, mas repetidos cortes orçamentários e de pessoal continuaram a interferir no funcionamento efetivo da
EPA. Seis meses depois da demissão de Burford, James Watt também renunciava. Seu comentário de que a
comissão criada para examinar suas políticas controvertidas de leasing de carvão incluía entre seus membros
"um negro (...) uma mulher, dois judeus e um aleijado" revoltou a opinião pública de tal modo que o Senado,
liderado pelos republicanos, mostrou-se pronto a aprovar uma resolução que exigia seu afastamento; Watt
preferiu renunciar em 9 de outubro ao invés de enfrentar uma "desconfirmação" por seu próprio partido.43
O princípio implícito na política americana de que os interesses afetados pelas políticas públicas
devem ter uma participação ativa em sua formulação e avaliação significou que o lobby ambiental, assim
como todos os outros lobbies em Capitol HiII, teve um papel importante na elaboração das políticas
ambientais. Organizações como o Sierra Club e Friends of the Earth (FoE) formaram seus próprios comitês
de ação política (através dos quais contribuições em dinheiro podiam fluir diretamente para candidatos
políticos); a League of Conservation Voters tornou-se cada vez mais ativa nas eleições presidenciais e para o
Congresso; e um sem-número de organizações - notadamente o Environmental Defense Fund e o Natural
Resources Defense Council - aumentaram o tamanho de suas equipes científicas e técnicas de modo a
fornecer seu próprio depoimento especializado e reduzir sua dependência de estudos fornecidos por órgãos
governamentais ou pelos interesses econômicos atingidos pela regulamentação.44
Aqueles que na era pós-profetas haviam falado do caráter de moda passageira do ambientalismo
tiveram motivos para rever suas opiniões uma década mais tarde. Não somente as questões ambientais
mantiveram uma firme proeminência nas prioridades do público americano em termos de políticas públicas
como o alarme causado pelas. posições antiambientalistas da administração Reagan levou a uma onda de
adesões entre 1981 e 1982. Os maiores grupos ambientalistas tomados isoladamente - incluindo-se o Sierra
Club, a National Wildlife Federation e a National Audubon Society - contavam juntos com cerca de cinco
milhões de membros. Uma pesquisa de opinião do Resources for lhe Future (RFF) em 1980 sugeria que
cerca de 7% da população norte-americana (17 milhões de pessoas) podiam estar envolvidos no movimento
ambientalista, e que outros 55% simpatizavam com seus objetivos.45 A simpatia em relação ao movimento
era maior entre os brancos, os jovens, entre os que tinham pelo menos alguma instrução de nível superior e
os de nível de renda mais alto.46

A ASCENSÃO DOS VERDES

Em março de 1983, a política ambiental na Europa Ocidental assumiu uma nova dimensão com a chegada no
Bundestag alemão ocidental de 27 parlamentares representando Die Grünen (os Verdes), um partido
formado exatamente quatro anos antes. O partido ultrapassara a barreira de 5%, o que o autorizava a estar
representado no Bundestag. Como o primeiro partido novo a entrar no Bundestag em 30 anos, Die Grünen
parecia

140
QUADRO 1

Cronologia do movimento dos partidos verdes (1970-1987, por país)

1972
NOVA ZELÂNDIA. Fundação do Values Party. Disputou cerca da metade das cadeiras nas
eleições nacionais de 1972 (ganhando 1,98% delas), e todas em 1975 (5,2% dos votos). Sua
participação caiu para 2,5% na eleição de 1978. Embora o partido tivesse disputado as eleições de
1981 e 1984, sua participação nos votos entrou em colapso, caindo para 0,2%.

1973
GRÃ-BRETANHA. Fundação do Ecology Party sob o nome de People. Disputou as duas
eleições gerais de 1974, mas atraiu a atenção nacional pela primeira vez na eleição de 1979,
quando apresentou 53 candidatos e obteve uma média de 1,5% dos votos. Obteve sua primeira
cadeira num conselho local na Cornualha, em 1981. Ainda que tenha apresentado 108 candidatos
nas eleições gerais de 1983, sua participação média nos votos foi somente de 1%. Foi rebatizado
como Green Party em 1985.

1974
FRANÇA. O movimento ecológico (originado no rastro do movimento estudantil) apresentou
René Dumont nas eleições presidenciais de 1974 e recebeu 337 mil votos (1,32%). Apresentou
duzentos candidatos na Assembléia Nacional de 1978, sob a bandeira Ecologie 78 e recebeu 2,1 %
da votação.
Mouvement d'Ecologie Politique, fundado em 1980. Apresentou Brice Lalonde dos Amis
de Ia Terre nas eleições presidenciais de 1981, e recebeu um milhão e 126 mil votos (3,88% do
total). Registrou somente 1,08% dos votos nas eleições para a Assembléia Nacional. Constituiu-se
formalmente como partido político em 1982, adotando o nome de Les Verts - Parti Ecologiste.
Obteve 6% dos votos e algumas dúzias de cadeiras nas eleições municipais de 1983. Em 1984
fundiu-se com outros grupos verdes para fundar a Confédération Ecologiste et Parti Ecologiste. Os
ecologistas disputaram em quase um terço dos distritos metropolitanos nas eleições para a
Assembléia Nacional em 1986, obtendo 1,21% dos votos.

1978
BÉLGICA. Fundação do Parti Ecologiste (Ecolo) e do Andres Gaan Leven (Agalev); valão e
flamengo, respectivamente. Nas eleições de novembro, concorreram com lista conjunta e
ganharam 4,5% dos votos para a câmara baixa (o que significou duas cadeiras para cada) e 4,9%
dos votos para o Senado (o que significou três e uma cadeiras repectivamente, mais um senador
cooptado). Em meados de 1983 ganharam 9 cadeiras regionais e 79 no conselho municipal. Na
eleição de outubro de 1985 aumentaram seu número de cadeiras na câmara baixa para cinco e
quatro respectivamente (6,2% dos votos) e elegeram dois senadores diretamente e um senador
cooptado cada. Na eleição de dezembro de 1987 o Ecolo perdeu duas de suas cadeiras na câmara
baixa, mas o Agalev conseguiu mais duas cadeiras.

ALEMANHA OCIDENTAL Fundação do Grüne Aktion Zukunft. Em 1979 a Bremer Grüne Ust
ganhou 5,1 % dos votos e quatro cadeiras na Bremen Burgerschaft. Fundiu-se com outros partidos
em janeiro de 1980 para formar Die Grünen. Preocupado com a evotução dos Grünen para a
esquerda, Herbert Gruhl e outros saíram do partido em 1981 e formaram o
Qkologisch·Demokratische Partei.
Em março de 1981 Die Grünen ganharam 5,3% dos votos e seis cadeiras no Landtag de Baden-
Württenburg. Em 1982 ganharam 11 cadeiras no Landtag da Baixa Saxõnia e nove no Landtag de
Hesse. Concorreram sem sucesso em Saarland, Renânia-Palatinada do Norte e Reno·Westphalia
do Norte (1980), Bavária (1982), e Renânia-Palatinada e Schleswig-Holstein (1983). Nas eleições
de 1983 para o Bundestag, obtiveram 5,6% dos votos e 27 cadeiras, em grande parte à custa dos
social-democratas. Também obtiveram 49 cadeiras municipais, e mais de 320 comunitárias; em
1984 Die Grünen tinham 50 cadeiras em seis parlamentos dos Lands. Elegeram sete membros para
o Parlamento Europeu nas eleições de 1984.
Nas eleições de 1984 para o Bundestag, Die Grünen obtiveram 8,3% dos votos e
aumentaram seu número de cadeiras para 44, apenas um pouco menos que a União Social-Cristã e
o Partido Democrático Livre.

1979
SUÍÇA, Os partidos verdes disputaram a eleição de 1979 ganhando duas cadeiras e tornando-se os
primeiros verdes a obter representação na assembléia nacional. Em 1983 foram fundadas a
Fédération

141

des Partis Ecologistes de Suisse e a Fédération Verte, conseguindo cadeiras nas assembléias
cantonais de Zurique e Lucerna. Na eleição nacional de 1983, a primeira obteve 2,9% dos votos e
três cadeiras no Nationalrat.

LUXEMBURGO. Fundou-se a Alternative Lescht·Wiert. Disputou a eleição de 1979, mas


alcançou somente 1,1% dos votos. Em 1983 foi fundada a Di Greng Alternativ que obteve, nas
eleições gerais de junho de 1984,6,8% dos votos e duas das 64 cadeiras da Câmara dos Deputados.

1980
FINLÂNDIA. O Vihreät foi fundado e obteve uma cadeira no Conselho Municipal de Helsinki.
Ganhou 2,8% dos votos nas eleições municipais de 1984, obtendo então 101 cadeiras. Disputou a
eleição nacional de 1987, ganhando 4% dos votos e quatro cadeiras na Assembléia Nacional.

1981
SUÉCIA. Fundação do Miljöpartiet. Obteve 1,7% dos votos na eleição de 1982 e ganhou duas
cadeiras em conselhos locais. Conseguiu somente 1,5% dos votos na eleição geral de 1985, mas
obteve seis cadeiras no conselho e em 1987 gozava de mais de 8% de apoio nas pesquisas de
opinião. Na eleição de setembro de 1988 os verdes conquistaram 20 cadeiras (em grande parte às
expensas dos partidos conservadores), tornando-se o primeiro partido novo a entrar no parlamento
em 70 anos.

1982
ÁUSTRIA. Fundação da Vereinte Grüne Osterreich e da Alternative Uste Osterreich. Obtiveram
respectivamente 1,9% e 1,3% nas eleições de 1983, contribuindo para a derrota do chanceler
socialista Bruno Kreisky. O segundo ganhou também quatro cadeiras no conselho municipal. Nas
eleições de novembro de 1986 os verdes aumentaram sua votação para 4,8% e obtiveram oito
cadeiras, conduzindo um quarto partido ao parlamento pela primeira vez desde 1959.

IRLANDA. Fundação do Ecology Party. Apresentou sete candidatos na eleição de 1982. Desde
então ganhou outro nome, Comhaontas Glas.

1983
HOLANDA. Foi fundado o De Groenen. Uma pesquisa de opinião em 1983 indicava que eles
obteriam 12% dos votos nas eleições nacionais, mas nas eleições gerais de 1986 amealharam
parcos 0,04% dos votos. Nas eleições européias de 1984, o De Groenen participou do Groen
Progressief Akkord com os comunistas, o Partido Socialista Pacifista e o Partido Político Radical,
e obteve 5,6% dos votos e duas cadeiras. O De Europese Groenen também participou da aliança,
mas ganhou poucos votos e nenhuma cadeira.

1984
Partidos Verdes de sete países disputaram as eleições para o Parlamento Europeu (em comparação
com três nas eleições de 1979); foram eleitos membros verdes da Alemanha Ocidental (sete), da
Holanda e Bélgica (dois cada).

ITÁLIA. Chegou-se a um acordo entre os principais grupos ambientais para a criação de um


"antipartido" que buscasse o crescimento econômico qualitativo em vez de quantitativo. Nas
eleições locais die 1985 o Verdi recebeu 2,6% dos votos. Em junho de 1987 disputou sua primeira
eleição nacional, recebendo 2,5% dos votos e elegendo 13 deputados e um senador. Nos seis
meses que se seguiram à eleição, obteve sucesso fazendo lobby para limitar o desenvolvimento de
usinas nucleares.

NOTA: Outros partidos verdes também foram discutidos ou formados na Dinamarca, Canadá,
Estados Unidos e Espanha. Os verdes canadenses apresentaram sessenta candidatos nas eleições
gerais de 1984 mas obtiveram somente 0,2% dos votos. Na Espanha o Partido Verde Espanol foi
formado em 1984, a partir de uma coalizão de grupos pacifistas, feministas e ambientalistas. Mas
em seu primeiro congresso, em fevereiro de 1985, alguns grupos membros desautorizaram essa
atitude alegando que não haviam sido adequadamente consultados.

FONTES: Keesing's Conternporary Archives 1973, 1974, 1976, 1978-1986; Chronicle or Parliamentary Elections and
Developments 1978/1979-1986/1987; Alan J. Daye Henry W. Degenhardt, Political Parties or lhe World (Detroit: Gale Research
Company, 1984); Arthur S. Banks, org., Political Handbook or lhe World: 1987 (Binghamton, NY: CSA Publications, 1987); Eva
Kolinsky, "The Greens in Gennany: Prospects of a Small Party", Parliamentary Arrairs 37:4 (Outono de 1984), pp. 434-447; Hans
Lohneis, "The Swiss Election of 1983: A Glacier on the Move?", Wesl European Polilics 7:3 (julho de 1984), pp. 117-119;
Andrew Rosenbaum, "Italy's Green Party", Environmenl 29:10 (dezembro de 1987), pp. 3,34-35; anuários estatísticos de
Luxemburgo (1983/1984), Austria, Suíça e Suécia (1986), e Finlândia (1987).

142

destinado a desbancar o vacilante Partido Democrático Livre como terceiro partido na política alemã
ocidental.47 Die Grünen ocuparam suas cadeiras no Bundestag entre os democratas-cristãos conservadores e
os social-democratas liberais de esquerda, mas na verdade não era fácil defini-los em termos políticos
tradicionais.48 Um dos primeiros slogans do novo movimento foi: "Nós não somos esquerda nem direita;
nós estam os na frente." Ainda que esposassem no essencial uma plataforma ambientalista, consideravam-se
também como porta-vozes políticos dos movimentos de cidadãos que se opunham à energia nuclear e
apoiavam a paz, o feminismo e as questões do Terceiro Mundo. Spretnak e Capra apontam quatro pilares na
plataforma verde: ecologia, responsabilidade social, democracia de base e não-violência.49
Die Grünen nasceram de uma complexa rede de "associações por iniciativa do cidadão" orientadas
para o ambientalismo, notadamente a Grüne Aktion Zukunft (GAZ), fundada em 1978 por Herbert Gruhl,
que havia sido eleito para o Bundestag como membro da União Democrata Cristã, da qual se retirou para
formar o GAZ. Os partidos verdes disputaram sem sucesso as eleições da Land (estado) em Hesse e na
Bavária em 1978. Em outubro de 1979, a Bremer Grüne Liste recebeu votos suficientes nas eleições do
estado de Bremen para assumir quatro cadeiras. Incitados em grande parte por Gruhl e Petra Kelly, e por
Roland Vogt (então com a União dos Grupos de Cidadãos Ecológicos Alemães), a Sonstige Politische
Vereinigung (SVP) - Die Grünen foi fundada em março de 1979 e, em janeiro de 1980, num encontro em
Karlsruhe, Die Grünen foi formalmente estabelecido como partido político nacional. Die Grünen defendiam
de modo variado a criação de uma economia não baseada no crescimento, a subdivisão das grandes
companhias em pequenas unidades, a semana de trabalho de 35 horas, impostos mais altos para grupos de
renda mais alta, investimento do Estado para criação de empregos, o fim da energia nuclear, o uso
sustentável dos recursos naturais, conservação de materiais e energia, crescimento zero da população e
desarmamento nuclear. Gruhl achava Die Grünen demasiado esquerdistas e excessivamente preocupados
com políticas não ecológicas, assim ele e outros deixaram o partido e fundaram uma Grüne Fõderation, e,
depois, em 1981, o Õkologish-Dernokratische Partei (ÖDP).
Em dois meses Die Grünen tinha ganho suas primeiras seis cadeiras no Landtag, ao receber 5,3% dos
votos em Baden- Württenburg, Em 1982 ganharam cadeiras suficientes em Hesse e Hamburgo para
assegurar o equilíbrio de poder;50 em agosto de 1983 os verdes precipitaram uma nova eleição em Hesse ao
se recusarem a aprovar o orçamento daquele ano e, embora perdessem duas de suas cadeiras na nova eleição,
mantiveram o equilíbrio de poder. Petra Kelley emergiu rapidamente como sua líder mais destacada e ativa,*
uma posição que continuou a manter até 1984, quando foi removida em função do sistema de rotatividade
das lideranças empregado pelo partido. Paralelamente ao fato de terem conseguido romper a barreira do
nível nacional nas eleições para o Bundestag de 1983, Die Grünen também obtiveram quarenta e nove
cadeiras estaduais e municipais, e mais de 320 cadeiras nas comunidades locais.
Die Grünen alcançaram mais destaque e sucesso eleitoral do que qualquer outro partido verde, mas
não eram nem os primeiros a ganhar cadeiras na legislatura nacional (essa distinção pertence aos verdes
suíços, em 1979)51 nem os primeiros a disputar uma eleição nacional. Onze anos antes o Values Party havia
disputado cerca de metade das cadeiras nas eleições gerais de 1972 na Nova Zelândia, ganhando 1,98% dos
votos (ainda que registrando a alta marca percentual de 9% nos eleitorados individuais)52. Fundado em maio
de 1972 por Tony Brunt (um jornalista de 25 anos de idade) e Norman Smith (um

*Petra Kelly (n. 1947) nasceu na Alemanha Ocidental e foi educada ali, nos Estados Unidos e na Holanda. Trabalhou desde 1972
como administradora para a CEE, em Bruxelas. Renunciando ao Partido Social Democrata alemão em 1979, entrou para os verdes,
então recentemente formados, tornando-se uma de suas primeiras e mais conhecidas líderes. Obteve uma cadeira no Bundestagem
1983 e foi substituída como líder em 1984, em função do sistema de rotatividade utilizado pelos Grünen.

143

executivo de relações públicas de 29 anos), o Values Party agradou sobretudo aos profissionais jovens e de
boa escolaridade. Apesar das mudanças na liderança e de problemas internos o partido foi suficientemente
organizado para disputar todas as cadeiras na eleição de 1975, aumentando sua participação nos votos com a
impressionante marca de 5,2%, e assumindo o terceiro lugar em 29 dos 41 distritos eleitorais das principais
cidades.53 Mas seus membros discordavam sobre o lugar que o partido deveria ocupar no espectro político e
até mesmo sobre se de fato deveriam ser um partido político, em vez de simplesmente um grupo de
interesse.54 O partido obteve somente 2,5% dos votos em 1978; em 1984 sua participação já havia caído
para apenas 0,2%. James observa que muitos dentre seus membros consideravam o Values Party menos
como um partido potencial de governo do que como um canal para influenciar as atitudes lateralmente e as
políticas públicas a partir de baixo; em 1978 a novidade da mensagem do partido parecia já ter-se
desgastado, os partidos maiores tinham-se tornado mais conscientes das questões ambientais, e o Values
Party parece ter sofrido com o deslocamento dos eleitores em direção ao Partido Trabalhista, ansiosos pela
substituição do primeiro-ministro Robert Muldoon.55
O British Ecology Party, fundado em 1973, foi o primeiro da Europa. Embora tenha disputado 106
cadeiras nas eleições gerais de 1983 e 133 cadeiras nas eleições de 1987, o partido nunca foi forte. Rüdig e
Lowe apresentam quatro razões principais: a ausência de projetos de desenvolvimento ambientalmente
controversos, que poderiam estimular uma ecologia radical, a integração de tal radicalismo, como de fato
ocorreu, ao domínio das políticas do Partido Trabalhista, a maleabilidade das autoridades diante das
resistências fortes contra projetos específicos (reduzindo assim o potencial de oposição local) e a preferência
tradicional entre os grupos conservacionistas britânicos por modificar o sistema a partir de dentro.56 O
Ecology Party (agora chamado Green Party) tampouco foi capaz de superar as dificuldades do sistema
pluralista, o qual milita contra os partidos menores na Grã-Bretanha.
Os partidos ecológicos franceses disputaram eleições presidenciais e para a Assembléia Nacional
durante os anos 70 e 80. Um movimento ecológico nascido dos levantes estudantis de 1968 tomou forma
pela primeira vez em 1970. Em 1974, com o apoio dos grupos ecológicos franceses, René Dumont
(professor do Instituto Nacional de Agronomia e membro do Clube de Roma) concorreu às eleições
presidenciais, recebendo modesto 1,32% dos votos. Uma aliança eleitoral de grupos ecológicos, estabelecida
em 1977, concorreu nas eleições de 1978 para a Assembléia Nacional sob a bandeira Ecologie-78, recebendo
2,1% dos votos no primeiro turno. Em 1980 estabeleceu-se o Mouvement d'Ecologie Politique, que lançou a
candidatura de Brice Lalonde (um jornalista de 35 anos de idade e veterano dos levantes estudantis de 1968)
às eleições presidenciais de 1981. Lalonde obteve respeitável 1,126 milhão de votos (3,88% do total de
votos), mas o partido foi incapaz de capitalizar esse resultado e teve um desempenho ainda pior nas eleições
posteriores para a Assembléia Nacional, naquele mesmo ano.
Em todos os outros lugares na Europa Ocidental, os ecologistas tiveram mais sucesso. Entre 1978 e
1984 foram criados partidos ecológicos em mais de dez países (ver relação adiante); os verdes suíços
ganharam duas cadeiras nacionais em 1979, seguidos por dois partidos belgas em 1981 (Ecolo e Agalev),
pelos verdes alemães ocidentais em 1983, pela Di Greng Alternativ em Luxemburgo em 1984, os verdes
austríacos em 1986, os verdes finlandeses e italianos em 1987, e os verdes suecos em 1988. Em 1988, 104
representantes verdes tinham assento em oito assembléias nacionais, 11 no parlamento europeu e mais
centenas deles em assembléias regionais, locais e municipais.
O fenômeno dos partidos verdes gerou numerosos estudos analíticos, mas poucas das avaliações
existentes são mais do que meras tentativas. Cohen e Arato observam o quanto é difícil colocar os verdes
alemães ocidentais no mapa político tradicional e o quanto é insuficiente a visão padronizada sobre Die
Grünen como um movimento jovem de classe média e tendência de esquerda, centrado numa única
questão.57 Essa descrição se aplica igualmente bem a outros partidos verdes. Em última análise pode
revelar-se inadequado

144

avaliar os Verdes dentro do eixo tradicional esquerda/direita; eles buscam mudanças sociais fundamentais e
de amplo espectro que transcendem as divisões liberal/conservador ou marxismo/capitalismo. A dificuldade
de fazer generalizações é ilustrada pela variação das raízes dos partidos verdes europeus. Müller-Rommel
identifica três categorias de partidos verdes: pequenos partidos socialistas preexistentes que adotaram
políticas ambientais e se transformaram (na percepção do público) em partidos ecológicos; partidos liberais e
agrários que vinham tradicionalmente enfatizando as questões ambientais (por exemplo o partido sueco
Centrum, do qual emergiu o Miljöpartiet); e os novos partidos criados especificamente para representar um
eleitorado mais consciente das questões ambientais.58
A emergência dos novos partidos tem sido, de modo variado, relacionada aos movimentos estudantis
dos anos 60, caracterizada (ao menos no caso da Alemanha Ocidental) como o último de uma série cíclica de
movimentos alemães de jovens 59 ou interpretada como parte de uma mudança de longo prazo dos valores
numa sociedade pós-material descrita por Inglehart. 60 Rüdig e Lowe questionam a interpretação dos dados
de pesquisa e sua inter-relação com as explicações pós-materiais, sugerindo que uma análise adequada da
ascensão dos Verdes teria que ir além dos estudos tradicionais de comportamento eleitoral.61 Talvez a
explicação mais elementar de tal ascensão seja o fracasso dos partidos estabelecidos mais antigos em
simplesmente responder de maneira adequada às necessidades e reivindicações do movimento ambiental.

ATIVISMO E MEIO AMBIENTE INTERNACIONAL

Como foi observado antes, o Novo Ambientalismo havia ultrapassado em muito os movimentos
estabelecidos de conservação. Embora alguns dos grupos estabelecidos mais antigos tenham finalmente
adotado táticas ativistas, novos grupos ambientalistas politizados foram necessários tanto para alimentar
quanto para servir às novas prioridades. A mudança nos Estados Unidos começou com a criação de
organizações nacionais tais como o Environment Defense Fund e os Friends of the Earth e foi, depois,
transposta para as questões internacionais através dos esforços dos FoE e do Greenpeace, duas organizações
abertamente ativistas.
A própria criação dos FoE foi sintomática de uma mudança nas prioridades. A entidade foi fundada
em 1969, em conseqüência do desacordo entre o Sierra Club e seu diretor executivo, David Brower* Brower
havia sido diretor executivo desde 1952, período durante o qual o clube passou a ser visto como o mais
influente dos grupos conservacionistas tradicionais62 e Brower identificado entre os mais
conhecidosconservacionistas. Ele empreendeu envolver o clube em questões públicas críticas, tais como a
construção de uma barragem que ameaçava o Monumento Nacional Dinossauro, na fronteira entre os estados
do Colorado e de Utah, e o apoio à Lei das Áreas Virgens de 1964. Em parte como resultado disto, o número
de membros do Sierra Club aumentou de sete mil para setenta mil; pesquisas de opinião revelaram que as
políticas de Brower contavam com o apoio de 85% dos membros do clube.63 Seus críticos, entretanto,
argumentavam que sua independência de atitudes e sua determinação de se dedicar a projetos favoritos
implicavam o fato de, freqüentemente, ele deixar atrasar o trabalho administrativo do Sierra Club. Ainda que
autorizado a realizar tantos lobbies políticos quantos permitia a situação de isenção de impostos do clube,
suas campanhas contra os planos de construir duas

* David Brower (n. 1912) tornou-se um dos mais respeitados ativistas do conservacionismo nos Estados Unidos. Depois de
abandonar a universidade, Brower passou seis anos trabalhando no Yosemite antes de juntar-se à University of California Press
corno editor. Em 1952 foi designado para o cargo de diretor do Sierra Club, o primeiro em tempo integral, posto que manteve até
sua renúncia compulsória em 1969. Fundou então os Friends of the Earth.

145

barragens no Grand Canyon por parte do Bureau de Reaproveitamento tiveram influência na perda dessa
condição pelo clube. Além disso sua alega da indiferença em relação aos deveres para com o clube havia
sido relacionada aos pesados déficits anuais entre 1967 e 1969. Foi afastado do cargo em 1969.
Logo após seu afastamento Brower fundou os FoE, cuja filosofia era um reflexo direto do Novo
Ambientalismo: a solução dos problemas ambientais não residia em remédios temporários, mas em
mudanças sociais fundamentais. Os FoE adotaram vigorosos métodos de campanha visando obter o máximo
de publicidade e atrair atenção para atividades e empreendimentos que ameaçassem o meio ambiente.
Passaram subseqüentemente a conseguir apoio entre os descontentes de classe média jovens e de boa
escolaridade.64 A organização foi concebida desde o começo como uma estrutura que tanto seria
abertamente ativista quanto internacional. A "fórmula" dos FoE, segundo Brower, era encontrar pessoas em
outros países que compartilhassem de sua filosofia sobre os limites do crescimento para então criar e fazer
funcionar organizações FoE independentes .65
O primeiro escritório dos FoE foi aberto em San Francisco em 1969, seguido de escritórios em Paris
(julho de 1970) e Londres (outubro de 1970). No início Brower simplesmente indicava amigos como seus
representantes ultramarinos, mas o processo de recrutamento foi posteriormente formalizado. Dois encontros
em 1971 (na França e na Suécia) resultaram no estabelecimento de uma instituição internacional cujo
quartel-general situava-se nominalmente em San Francisco. Burkes observa que a primazia da
autodeterminação e da tomada de decisões por consenso eram características da própria definição dos FoE
Internacionais, e "se isso resultou, algumas vezes, numa diminuição da taxa de desenvolvimento dos FoE
como uma força internacional efetiva, significou igualmente a ausência de divisões destrutivas dentro da
organização".66 Grupos autônomos foram em seguida criados na maioria dos países da Europa Ocidental e
depois em outros lugares (por exemplo, Malásia e África do Sul), freqüentem ente com métodos e modelos
diferentes de organização, mas perseguindo todos o objetivo de promover uma "utilização mais racional de
nossos recursos através de todos os meios construtivos e de trabalhar contra aqueles que destroem esses
recursos".67 As questões às quais os FoE davam tratamento incluíam fontes alternativas de energia, questões
da vida dos animais selvagens, transporte, poluição e mudanças na legislação.
Foi a poluição - especialmente a provocada pela precipitação atmosférica devida aos testes nucleares
- que levou à criação do Greenpeace, o mais manifesto dos grupos de ação direta. Desde a Segunda Guerra
Mundial os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a China vinham realizando testes nucleares no
Pacífico e ao seu redor. Os planos americanos de explodir um artefato nuclear na ilha de Amchitka (ao largo
da costa do Alasca), em 1971, incentivaram um grupo de ambientalistas americanos, o Don't Make a Wave
Committee, a protestar por intermédio do envio de um barco de pesca para a área, contribuindo assim para o
adiamento do teste e o posterior cancelamento de todos os testes em Amchitka.68 Táticas similares foram
empregadas novamente em junho de 1972 quando uma tripulação de voluntários liderada por um canadense,
David McTaggart,* conduziu um iate em direção ao local de testes francês, no atol de Mururoa, a sudeste do
Tahiti; foi detonada uma bomba com o iate a apenas 80 quilômetros de distância.
Em agosto de 1973 o iate navegou novamente para o local dos testes franceses, mas dessa vez sua
tripulação foi interceptada através de uma agressão física de comandos franceses. Fotografias clandestinas
do ataque atraíram uma publicidade considerável; em

* David McTaggart (n. 1933) nasceu no Canadá e geriu uma série de empreendimentos nos Estados Unidos antes de abandonar a
carreira e mudar-se para o Tahiti. Após os protestos do atol de Mururoa, em 1972·1973, McTaggart mudou-se para Vancouver e
criou o Greenpeace, tornando-se mais tarde diretor do Greenpeace lnternational.

146

parte como resultado das atividades do Greenpeace, a França anunciou uma breve moratória dos testes em
novembro. A Austrália e a Nova Zelândia mantiveram pressão diplomática sobre a França através dos anos
70 e o Greenpeace continuou com seus protestos públicos, mas a França realizou testes regulares durante
toda a década. As atividades de protesto do Greenpeace tiveram seu lance mais sério em julho de 1985
quando a embarcação do grupo, o Rainbow Wanior, sofreu um atentado a bomba no porto de Auckland,
Nova Zelândia, perpetrado por elementos da Direction Général de Sécurité Extérieure, o serviço de
inteligência francês. Um dos membros da tripulação do Greenpeace (Fernando Pereira) morreu em
conseqüência do incidente. A controvérsia que se seguiu comprometeu as relações franco-neozelandesas e
levou à renúncia do ministro da defesa francês, Charles Hernu.
O Greenpeace fez igualmente campanhas contra a pesca da baleia, abate de focas, energia nuclear e
despejos de lixo radioativo. Em muitos casos, adotou as mesmas táticas de ação direta, como a tentativa de
obstruir a área de despejo de lixo nuclear no oceano ou o abate de focas no Ártico. A chave de suas
atividades é sempre a geração de publicidade muitas vezes gráfica e de forte efeito visual nos meios de
comunicação de massa. A medida que a organização foi crescendo, grupos autônomos que rejeitavam o
controle do quartel-general do Greenpeace em Vancouver foram criados na Grã-Bretanha, França e Holanda.
Em 1985 havia escritórios do Greenpeace em 17 países, com um número total de um milhão e duzentos mil
membros,69 e foi criado um escritório internacional em Lewes, na costa sul da Inglaterra.
De todas as questões recentes enfrentadas pelos novos ativistas poucas se mostraram tão geradoras de
confronto quanto o movimento contra a energia nuclear. O advento da energia nuclear na década de 50 foi
ampla, mas não universalmente, bem-vindo. A mesma foi retratada como uma fonte de energia mais barata e
limpa do que as fontes tradicionais, com o potencial de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Durante o período de maior otimismo previu-se que nos anos 80 seriam construídas mais de cem usinas
nucleares por ano. Na realidade a capacidade mundial de geração de energia nuclear em 1983 era menor que
a metade do que havia sido previsto; havia 282 usinas nucleares comerciais em 25 países, com cerca de 174
mil megawatts de capacidade de geração, ou seja, o bastante para produzir 9% da eletricidade consumida no
mundo.70 Quatro fatores principais contribuíram para a mudança de atitude: a oposição pública, baseada em
preocupações ambientais e de segurança (especialmente em relação ao lixo nuclear); os problemas
operacionais (por exemplo, com os reatores avançados refrigerados a gás); os desentendimentos na indústria
quanto aos méritos relativos de diferentes projetos de reatores; e - talvez o mais importante - o fato de que a
energia nuclear já não era mais economicamente atraente no começo da década de 1980. A construção de
novas usinas nucleares freqüentemente estourava os orçamentos e finalmente admitiu-se que a energia
nuclear não era mais barata do que a carbonífera. De qualquer maneira essa havia sido sempre uma
afirmação controversa.
A questão da segurança era quase tão velha quanto a própria energia nuclear comercial, embora não
tivesse atraído a atenção pública até bem mais tarde. O primeiro acidente importante em reator aconteceu no
Canadá em 1952, quando a confusão dos operadores se combinou com problemas técnicos para produzir
uma explosão dentro do núcleo de um reator de pesquisa. Não houve pessoas feridas ou radiação
excessiva.71 O acidente em Windscale, no distrito dos lagos ingleses, em outubro de 1957 (ver capítulo 3),
foi mais divulgado e contribuiu para causar um retrocesso de breve duração nos planos do governo britânico
para o desenvolvimento da energia nuclear (outros fatores foram a capacidade de recuperação do mercado
mundial de petróleo, a queda dos preços do mesmo, a expansão da indústria do carvão e os custos de
construção de usinas nucleares). O primeiro acidente nos Estados Unidos - que resultou na morte de três
operadores - ocorreu com
147

um reator em Idaho, em janeiro de 1961. A causa exata do acidente nunca foi estabelecida, mas pode ter sido
erro humano.72
As primeiras manifestações de oposição pública à construção de usinas nucleares vieram de
residentes locais. Na Grã-Bretanha a oposição manifestou-se inicialmente devido à apreensão quanto à
segurança das usinas. A necessidade de situar as usinas em locais bem distantes dos centros populacionais e
perto de uma fonte de água disponível implicou o fato de que muitas das usinas encomendadas pela
Autoridade Central de Eletricidade deveriam ser construídas em áreas de destacada beleza natural, como
Snowdonia, no País de Gales. Isso provocou protestos e oposição por parte dos residentes locais e dos
grupos nacionais de pressão. Hall argumenta, entretanto, que tais protestos não eram sintomáticos de um
desejo de rejeitar a energia nuclear amplamente difundido nas comunidades. Ele sugere que os grupos
oposicionistas britânicos tiveram muito menos sucesso na época do que viriam a ter na década de 70, quando
havia uma percepção crescente do público de que o programa nuclear não era um sucesso. Além disso os
planos de introduzir os reatores americanos refrigerados com água pressurizada provocaram uma indignação
intelectual maior e mais difundida do que os esquemas anteriores.73 Havia uma ignorância considerável
sobre a energia nuclear, um legado do sigilo que havia envolvido as primeiras pesquisas sobre armas
nucleares; havia igualmente uma ingênua fé residual na capacidade da ciência de beneficiar a sociedade.
A oposição pública à energia nuclear foi muito mais expressiva, e freqüentemente violenta, na
Alemanha Ocidental, França e Suíça. Em 1971, por exemplo, foram anunciados os planos de construção de
um reator nuclear em Whyl, no sudoeste alemão. Apesar da oposição das pessoas que moravam na área, a
construção começou em fevereiro de 1975. Centenas de manifestantes ocuparam imediatamente o local,
sendo dispersados pela polícia alguns dias mais tarde. Poucos dias depois o local foi novamente ocupado,
dessa vez permanentemente. Seguiram-se vários anos de confrontação e em 1982 a construção .ainda não
havia recomeçado. Os planos de construção de uma usina em Kaiseraugst, na Suíça, sofreram oposição
similar. As manifestações de massa contra a construção de um reator em Creys-Malville, França, em julho
de 1976, foram reprimidas à força pela ação da polícia de choque, o que resultou na morte de um
manifestante.74 A polícia de choque também foi utilizada em Brokdorf e Grohnde, Alemanha Ocidental, em
1976 e 1977, e em Kalkar, na Holanda, em 1977.
Nos Estados Unidos a segurança era a questão fundamental. A suspeita pública cresceu com a morte
inexplicada de Karen Silkwood, uma empregada da fábrica de plutônio Kerr-McGee, situada perto de
Oklahoma City, num acidente de automóvel em novembro de 1974. Ela estava a caminho de um encontro
com um funcionário do sindicato e um repórter, encontro em que apresentaria provas de práticas negligentes
na fábrica. A fábrica foi subseqüentemente fechada. A oposição não violenta foi adotada pelos manifestantes
que protestavam em Seabrook, New Hampshire, em outubro de 1976; mais de 1.400 manifestantes foram
presos. Em março de 1978 o acidente na usina nuclear de Three Mile Island, em Harrisburg, Pensilvânia, deu
sustentação aos opositores da energia nuclear.* Informes conflitantes sobre a liberação de radioatividade na
atmosfera levaram à evacuação das mulheres grávidas e das crianças mais novas num raio de oito
quilômetros.75 ,O incidente levantou muitas perguntas sobre a segurança dos reatores e a adequação das

* O acidente, envolvendo tanto falha mecânica quanto erro humano, começou pela falha de uma válvula e o fechamento de uma
bomba que fornecia água para um gerador, o que provocou a interrupção do funcionamento do reator. Isso foi exacerbado pela
falha de uma válvula de escape de pressão, que não fechou (o que provocou escapamento do líquido de refrigeração do reator),
pelo fato de as bombas auxiliares de alimentação de água não estarem em operação (o que constitui uma violação das regras), pelo
fato de os operadores não reagirem prontamente à situação e por leituras incorretas dos mostradores dos instrumentos.

148

normas de segurança, levando diretamente a uma série de cancelamentos de encomendas de novos reatores.
O efeito do incidente sobre o público foi aumentado pelo lançamento, duas semanas antes, do filme A
Síndrome da China, com Jane Fonda e Jack Lemmon, baseado numa pane fictícia em uma usina nuclear. Em
maio de 1979 foi realizada uma manifestação - a maior contra a energia nuclear - em Washington, DC,
envolvendo 75 mil pessoas. Three Mile Island também teve repercussões fora dos Estados Unidos. Dois dias
antes o governo da Suécia tinha recusado a idéia de um plebiscito sobre o programa nuclear sueco; uma
semana após, essa decisão foi revertida e o plebiscito foi realizado depois de um ano.
O alcance internacional do movimento antinuclear havia ganho expressão com a convocação da
"Conferência sobre um Futuro Não Nuclear", não governamental, realizada paralelamente a uma conferência
da International Atomic Energy Authority em Salzburgo, Austria. Fundou-se uma rede internacional de
intercâmbio de informações - o World Information Service on Energy - que, daí em diante, obteve seus
fundos a partir dos acertos para o licenciamento dos direitos do símbolo do movimento: um desenho
sorridente do sol em vermelho sobre fundo amarelo, com os dizeres "Energia Nuclear? Não, Obrigado." Em
1983 o símbolo estava disponível em quarenta línguas;76 seu sucesso parecia significar a presença crescente
de um movimento ambientalista novo e mais ativista, não inibido pelas fronteiras nacionais.
O movimento ambientalista - e especificamente o movimento antinuclear - havia sido
freqüentemente criticado por exagerar sua argumentação, por utilizar táticas de pânico para angariar simpatia
e apoio. Todavia, Three Mile Island mostrou o quanto poderia estar perto um desastre ambiental catastrófico.
Uma confirmação da medida na qual o meio ambiente global podia ser contaminado pela atividade humana
foi finalmente fornecida em 26 de abril de 1986, quando um reator explodiu na usina nuclear de Chemobyl,
a oitenta quilômetros de Kiev, na Ucrânia. O acidente foi causado por um experimento que envolvia o
desligamento deliberado dos sistemas de segurança; ao menos 32 mortes foram atribuídas à explosão, ao
fogo e a doenças da radiação na seqüência da explosão. Mais de duzentas pessoas sofreram com moléstias
graves causadas pela radiação e cerca de 135 mil tiveram que ser evacuadas da área de Chernobyl. Os ventos
levaram a radiação para a Escandinávia e para partes do leste e do noroeste da Europa, contaminando
derivados de leite e vegetais, e obrigando os agricultores de algumas áreas a manter suas criações de animais
em locais protegidos. Embora haja pouca concordância quanto à escala precisa da ameaça a longo prazo para
a saúde, muitos cientistas acreditam que o número de pessoas que provavelmente sofrerão de doenças
relacionadas à radioatividade nas próximas décadas chegará aos milhares.
O acidente de Chernobyl foi um exemplo espetacular de como a tecnologia - se mal administrada ou
dirigida - pode provocar contaminação ambiental repentina e extrema. Entretanto está claro que a maioria
das mudanças ambientais produzidas pela mão do homem são muito mais lentas, muito menos óbvias e mais
difíceis de detectar e medir. Na maioria dos casos isso é uma função da taxa de desenvolvimento tecnológico
e de crescimento econômico. Onde o crescimento e o desenvolvimento são relativamente rápidos e
disseminados, as mudanças ambientais ocorrem no mesmo ritmo. Daí as mudanças acentuadas evidentes no
meio ambiente das sociedades industriais. Nos países menos desenvolvidos crescimento e desenvolvimento
foram freqüentemente rápidos, mas também desiguais. Na pressa de fornecer às suas populações os supostos
benefícios do industrialismo, os governantes e planejadores dos países menos desenvolvidos colocaram
freqüentemente o benefício imediato na frente dos custos de longo prazo. O resultado freqüente foi uma
forma sub-reptícia e insidiosa de mudança ambiental que discriminou a pobreza rural, provocando
degeneração rápida em vez de gradual: erosão do solo, desmatamento, assoreamento, o avanço de condições
desérticas e - em última análise –

149

fome, miséria e morte. Se as nações industrializadas testemunharam mudanças ambientais que foram
conseqüência do superdesenvolvimento, os países menos desenvolvidos testemunham uma mudança causada
por desenvolvimento desigual. Resulta daí que os problemas e as respostas políticas de uma sociedade de
baixo nível tecnológico são freqüentemente diferentes daqueles da sociedade de alta tecnologia.

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FOLHA EM BRANCO
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OITO
O Sul: Meio Ambiente e Desenvolvimento (1972-1982)

Antes de Estocolmo muitos ambientalistas haviam questionado - e rejeitado - a ética do crescimento. Para
eles o crescimento econômico era suspeito e inimigo de uma administração ambiental racional e correta.
Havia pouco espaço para acordos. Uma década depois de Estocolmo as atitudes já eram mais conciliadoras.
Desenvolvimento e meio ambiente já não eram mais vistos como incompatíveis e havia o consenso
generalizado de que uma assimilação dos objetivos de ambos era necessária para criar uma sociedade
sustentável. O crescimento econômico não era mais encarado com desconfiança. Ao contrário, era visto
como essencial, contanto que fosse sustentável. Enquanto nos anos 60 o crescimento populacional havia sido
considerado como um obstáculo para o desenvolvimento econômico e social, agora se argumentava, de
modo inverso, que uma falta de desenvolvimento poderia incentivar o crescimento populacional. Para o
Banco Mundial o problema populacional consistia em "um descompasso entre a população e a capacidade de
produzir renda (...) que deixa muitos dos povos do mundo num círculo vicioso de pobreza e fertilidade
alta".1 A Declaração Cocoyoc (ver adiante) observou que "os enormes contrastes no consumo per capita
entre a minoria rica e a maioria pobre têm um efeito muito maior do que seus números relativos sobre o uso
e o esgotamento dos recursos”.2 De uma posição pré-Estocolmo de rejeitar os padrões econômicos e sociais
da sociedade capitalista e buscar mudanças fora das instituições estabelecidas, uma nova geração de
ambientalistas havia se voltado, uma década depois, no sentido de uma política de compromisso, de usar os
sistemas econômicos, sociais e políticos para realizar as mudanças dentro desses próprios sistemas. O novo
slogan ambiental era "desenvolvimento sustentável" .
Como em tantos outros "novos" conceitos ambientais anteriores e adota dos desde então, não havia
muita coisa de novo em relação ao desenvolvimento sustentável. O mesmo havia sido adotado pelos
especialistas florestais alemães e indianos, e também por Roosevelt e Pinchot. Os delegados em Lake
Success em 1949 e Bukavu em 1952 haviam falado da necessidade de administrar os recursos naturais
racionalmente, enquanto a IUCN sugeriu a de reconciliar as políticas de conservação e desenvolvimento já
em 1956. Em Arusha, em 1961, foi observado que "somente pela utilização planejada da vida selvagem
como um recurso natural renovável (...) podem sua conservação e seu desenvolvimento ser economicamente
justificados em competição com a agricultura, a pecuária e outras formas de uso do soIo".3 A IUCN havia
lançado o Projeto Especial Africano em grande

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parte porque sentia que os programas de ajuda externa existentes eram "inclinados a desprezar a conservação
e o valor da vida selvagem e do hábitat como um patrimônio econômico, científico e cultural permanente".4
Na Primeira Conferência Mundial de Parques Nacionais em Seattle, em 1962, ficou resolvido que a
conservação era um elemento importante do desenvolvimento e que os organismos internacionais deveriam
incorporar estudos ecológicos a seu planejamento.5 Também em 1962, a Assembléia Geral da ONU adotou
uma resolução sobre Desenvolvimento Econômico e a Conservação da Natureza, a qual endossava uma
resolução anterior da UNESCO que dizia que, para serem efetivas, as medidas para preservar a natureza e os
recursos naturais "devem ser tomadas, desde o estágio mais inicial possível, simultaneamente ao
desenvolvimento econômico".6 Em 1970 Paul e Anne Ehrlich argumentavam que a ajuda para o mundo em
desenvolvimento havia sido "pouquíssima e ecologicamente inepta demais";7 o Norte industrializado havia
cometido o erro fundamental de basear seu padrão de progresso na expansão do Produto Nacional Bruto,
tornando-se assim "hiperdesenvolvido", Os países menos desenvolvidos estariam mais bem orientados se
buscassem "semidesenvolver-se" e a prioridade deveria ser o desenvolvimento agrícola ecologicamente
correto e não a industrialização.
Apesar de tudo isso não existe uma definição consensual de desenvolvimento sustentável.
Geralmente, o termo é aplicado aos países menos desenvolvidos e ao tipo de desenvolvimento econômico e
social necessário para melhorar as condições de vida dos pobres do mundo sem destruir ou minar a base de
recursos naturais. O IIED arriscou uma definição em 1982: "o processo de melhorar as condições de vida da
maioria pobre da humanidade e ao mesmo tempo evitar a destruição dos recursos naturais e de sustentação
de vida, de modo que os aumentos de produção e as melhorias das condições de vida possam ser sustentados
a longo prazo",8 O conceito pode ser de fato uma abordagem para os problemas dos países menos
desenvolvidos, mas é igualmente aplicável aos países mais desenvolvidos. Uma definição mais universal e
apropriada poderia ser o desenvolvimento que ocorre dentro da capacidade de sustentação do meio ambiente
natural e humano.
Anteriormente a Estocolmo a preocupação entre ambientalistas europeus e americanos com os
limites para o crescimento havia levado a maioria a deixar de lado os problemas dos países menos
desenvolvidos. A mudança de ênfase depois de Estocolmo foi acentuada e rápida. As ligações entre o meio
ambiente e o desenvolvimento eram mencionadas tão freqüentemente que na quarta sessão do conselho
diretor do UNEP, em 1976, diversas delegações questionaram a necessidade, aparentemente sentida pelo
secretariado do UNEP, de continuar a defender a noção. A idéia estava bem entendida e bem estabelecida,
protestavam; seria aceitável a reiteração, mas não havia necessidade de maior elaboração.9 A elaboração da
questão, contudo, estava no âmago do debate ambiental desde Estocolmo. Os problemas ambientais nos
países mais desenvolvidos haviam sido retratados como uma conseqüência do hiperdesenvolvimento (isto é,
a exploração irrefletida e perdulária dos recursos naturais) e, nos países menos desenvolvidos, como uma
conseqüência do subdesenvolvimento (acesso desigual à riqueza nacional, falta de oportunidades
econômicas e a exploração desigual dos recursos naturais). 10 Um relatório de 1976 do diretor executivo do
UNEP argumentava que o pior uso do meio ambiente estava ocorrendo "nos dois extremos da escala da
riqueza".11
As raízes da alteração de ênfase do movimento ambiental pós-Estocolmo devem ser procuradas em
quatro desenvolvimentos mais amplos: a natureza evolutiva das relações políticas e econômicas
internacionais, o crescimento de uma nova visão global do meio ambiente, a necessidade sentida por muitos
ambientalistas do Norte de acomodar as diferentes prioridades dos países menos desenvolvidos e a crescente
autoconfiança e sofisticação das ONGs ambientais. Enquanto os ambientalistas dos anos 60 haviam
esposado a causa como uma visão alternativa para aqueles que rejeitavam o saber

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econômico convencional, os dos anos 70 trabalhavam para incorporar os novos valores às políticas das
instituições existentes, notadamente a indústria e o governo.

MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO

Em seguida a Estocolmo o UNEP e a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD)
sugeriram que havia necessidade de reuniões para discutir a implementação das idéias levantadas em Founex
e Canberra em 1971. Gamani Corea, presidente do United Nations Committee for Development Planning
(UNDP), sugeriu que os principais pontos de discussão, dado o novo interesse do Terceiro Mundo pelo meio
ambiente, deveriam ser a necessidade urgente de fornecer orientação a planejadores e a questão da
distribuição internacional da riqueza e da renda.12 Os encontros reuniriam cientistas das disciplinas sociais e
naturais numa tentativa de definir possíveis linhas de colaboração entre eles e poderia ter seguimento numa
série de seminários e conferências regionais sobre o meio ambiente e o desenvolvimento. Isto tudo levaria a
uma proposta (mas abortada) conferência de Estocolmo Il, a ser realizada em 1977.
Duas reuniões - às vezes confusamente chamadas de "Canberra lI" e "Founex lI" foram realizadas. A
"Canberra II"* teve lugar em Genebra, em abril de 1974. Na reunião chegou-se a um acordo sobre o fato de
que, dadas a quantidade e a diversidade dos recursos da Terra, sua disponibilidade física não seria um
problema grave no futuro previsível, a não ser em aplicações de curto e médio prazo. Ao contrário, o
problema dos recursos era o das "implicações econômicas, tecnológicas e ambientais de tornar disponíveis
quantidades suficientes de recursos naturais e de usá-Ios racionalmente para o desenvolvimento
econômico".13 O encontro concluiu que, dada a complexidade das relações econômicas internacionais, o
desenvolvimento futuro tinha grandes proabilidades de ser restringido por problemas de distribuição de
recursos naturais muito antes de surgirem quaisquer problemas de quantidades finitas. Essa conclusão era
muito diferente daquelas de Paul Ehrlich e do Clube de Roma. A cooperação econômica mais estreita e
equânime entre os países, observou o grupo, poderia se constituir num pré-requisito importante para a
administração mais racional de recursos em uma escala global.
O encontro também observou (o que não é surpresa, uma vez que foi realizado no contexto da crise
energética de 1973-1974) que os recursos naturais estavam destinados a desempenhar um papel muito mais
importante nas questões internacionais. Os países menos desenvolvidos, frustrados em seus esforços para
negociar mudanças substanciais na ordem econômica mundial existente, estavam "estudando seriamente as
possibilidades de usar seu cabedal de recursos naturais como um instrumento para conquistar uma melhor
posição de negociação". Os países mais desenvolvidos, de sua parte, estavam se tornando cada vez mais
conscientes da importância de uma continuidade de abastecimento e haviam feito grandes esforços, mesmo
no ano anterior, para reduzir sua dependência em relação à energia e às matérias-primas importadas. A crise
do petróleo dera aos países menos desenvolvidos um novo sentido de poder dos produtos primários, levando
a uma nova fase nas relações Norte-Sul.14 Em maio de 1974 a Assembléia Geral da ONU adotou uma
declaração que pedia o estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Mundial, a qual propiciaria uma
estrutura econômica global mais equilibrada. Naquele mesmo mês foi realizada uma pequena reunião UNEP
- UNCTAD sobre Padrões

* O Grupo de Especialistas sobre o Impacto dos Problemas e Políticas de Administração de Recursos em Países Desenvolvidos
sobre o Comércio Internacional e as Estratégias de Desenvolvimento, do UNEP-UNCTAD.

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Alternativos de Desenvolvimento para discutir melhor a agenda para a Founex lI. Entre as conclusões a que
se chegou, estavam as seguintes:

1) O desenvolvimento dos países menos desenvolvidos era governado pela disponibilidade de recursos
naturais numa medida muito maior do que nos países mais desenvolvidos, onde as especializações,
os recursos de capital e os recursos tecnológicos tinham mais influência.

2) A capacidade de lidar com a degradação ambiental era mais limitada nos países menos
desenvolvidos, que tinham menos recursos tecnológicos e de capital, do que nos países mais
desenvolvidos. Conseqüentemente a degradação ambiental poderia ter um impacto mais rápido e
mais imediato sobre o desenvolvimento econômico.

3) Era preciso repensar os fundamentos das estratégias de planejamento e desenvolvimento para dar
prioridade mais alta às estruturas sociais, à distribuição de renda mais equânime e às questões
ambientais. No nível local deveria ser dada uma consideração muito maior às necessidades e
condições locais antes de, por exemplo, usar técnicas, variedades de culturas, métodos agrícolas e
outros conhecimentos que tivessem funcionado em outros lugares.

A "Founex II"* foi realizada em Cocoyoc, no México, entre 8 e 12 de outubro de 1974. Presidida por
Barbara Ward, reuniu um grupo de 33 delegados de 22 países (oito mais desenvolvidos, 14 menos
desenvolvidos), inclusive Mostafa Tolba, Maurice Strong e Gamani Corea. Foi realizada para discutir a
relação entre o meio ambiente e o desenvolvimento à luz da experiência dos últimos anos passados, para
analisar o impacto que as questões ambientais - e especificamente a crescente consciência das limitações dos
recursos naturais - estavam tendo (ou deveriam ter) sobre as estratégias de desenvolvimento e as relações
econômicas internacionais, e para fornecer subsídios ao processo de repensar o desenvolvimento e os
problemas econômicos internacionais que estava tendo lugar nas Nações Unidas.15
Foi publicada uma declaração perspicaz (em grande parte elaborada por Barbara Ward) ao final do
simpósio, resumindo os pontos levantados. Observava que mais pessoas estavam passando fome, não tinham
abrigo e eram analfabetas do que quando a ONU foi criada para estabelecer uma nova ordem internacional.
O mundo ainda estava por emergir das conseqüências de quase cinco séculos de colonialismo, os quais
haviam concentrado o poder econômico nas mãos de um pequeno grupo de nações. Grande parte da pressão
sobre os recursos naturais se devia ao consumo desproporcionalmente alto de recursos no Norte
industrializado: "A preempção por parte dos ricos de uma parcela desproporcional de recursos fundamentais
entra em conflito direto com os interesses de mais longo prazo dos pobres ao prejudicar seu acesso final a
recursos necessários a seu desenvolvimento e aumentar seu custo. Tudo isso é uma razão mais forte para que
se crie um novo sistema de avaliação de recursos que leve em consideração os benefícios e os prejuízos para
os países em desenvolvimento." A falta de recursos para o desenvolvimento humano pleno era uma causa
permanente de crescimento populacional e as relações econômicas desiguais contribuíam diretamente para as
pressões ambientais. Qualquer processo de crescimento que não conduzisse ao atendimento das necessidades
humanas básicas (comida, abrigo, vestuário, saúde e educação) era um simples arremedo da idéia de
desenvolvimento.

* Simpósio sobre Padrões de Uso de Recursos, Meio Ambiente e Estratégias de Desenvolvimento,

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A declaração recomendava que:


1) deveriam ser instituídas políticas dirigidas à satisfação das necessidades básicas dos mais pobres,
capazes ao mesmo tempo de assegurar a conservação adequada dos recursos e proteção ao meio
ambiente;

2) os governos e organizações internacionais deveriam promover a administração de recursos e do meio


ambiente em escala global;

3) deveriam ser criados regimes internacionais fortes para a exploração das áreas livres globais, de
modo a taxar essa exploração para que beneficiasse os países mais pobres;

4) eram necessárias novas prioridades nas pesquisas científica e tecnológica e no desenvolvimento;

5) as novas prioridades do desenvolvimento deveriam visar a restringir o consumo exagerado no Norte


e incrementar a produção dos gêneros essenciais para os pobres.

A declaração terminava questionando os pressupostos do Novo Ambientalismo. O caminho para diante não
passava pelo "desespero da espera do apocalipse nem pelo otimismo fácil de sucessivas soluções
tecnológicas", mas pela avaliação cuidadosa e imparcial dos "limites exteriores" dos recursos físicos da
Terra e por uma busca de meios para chegar aos "limites interiores" dos direitos humanos fundamentais.
Embora Barbara Ward sentisse, retrospectivamente, que os "instintos" de Cocoyoc estivessem corretos16 e
que a conferência desenvolveu mais o conceito de relação entre meio ambiente e desenvolvimento, esta teve,
em última análise, pouca influência duradoura.

POLÍTICAS DE AJUDA PARA O DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

Em seguida a Estocolmo os organismos de ajuda multilateral e bilateral começaram a pensar mais


cuidadosamente sobre a viabilidade ambiental de seus programas. As preocupações pré-Estocolmo com a
população, poluição e tecnologia falha davam lugar agora ao papel e aos efeitos da pobreza. O Banco
Mundial estimou, no começo dos anos 70, que cerca de oitocentos milhões de pessoas, ou um quinto da
população do mundo, estavam tão privados de renda, bens e necessidades básicas, que podiam ser
considerados membros da classe dos "absolutamente pobres". O presidente do Banco Mundial, Robert
McNamara, * definiu a pobreza absoluta como "uma condição de vida degradada pela doença,
analfabetismo, subnutrição e esqualidez a ponto de negar às suas vítimas as necessidades humanas básicas;
uma condição de vida limitada a ponto de impedir a realização do potencial dos genes com os quais se nasce;
uma condição de vida degradante a ponto de insultar a dignidade humana".17
Durante as décadas de 1950 e 1960 a visão convencional da comunidade de desenvolvimento era que
o crescimento econômico era o modo mais efetivo de erradicar a pobreza. A melhor forma de ajudar os
pobres era incrementar o capital, a infra-estrutura e a capacidade produtiva de uma economia; os ganhos do
crescimento econômico "escorreriam"

* Robert McNamara (n.1916) foi educado na Universidade da Califómia e na HaMrd Business School. Foi executivo da Ford
Motor Company de 1946 a 1961, ascendendo à posição de presidente antes de ser nomeado secretário da Defesa no primeiro
gabinete de Kennedy. Permaneceu no cargo durante a administração Johnson e em 1968 tomou-se presidente do Banco Mundial,
posição que deteve até 1981.

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para os pobres através das forças de mercado, criando empregos, aumentando a produtividade e os salários e
reduzindo os preços. Mas o crescimento nem sempre reduzia a desigualdade; nem a renda escorreu
automaticamente para os pobres. Quando muito promoveu o dualismo - a emergência de um setor urbano
moderno paralelamente à estagnação no resto da economia.18 Para tornar as coisas piores boa parte da ajuda
estava sendo gasta em projetos de prestígio não essenciais (tais como novas vias expressas, aeroportos e
salões de conferência). Nos anos 70, a atenção se voltou para a noção de crescimento econômico com
redistribuição de renda19 e finalmente para a idéia de que o atendimento das necessidades básicas (tais como
alimentação, saúde, educação, habitação, água e saneamento) era mais importante para os pobres do que a
questão bastante mais nebulosa da igualdade.
No final dos anos 60 diversos órgãos de ajuda ao desenvolvimento haviam tomado consciência de
que a eficácia de sua ajuda era muitas vezes solapada pela ausência de qualquer consideração relativa aos
seus efeitos ambientais. Muita ajuda era desperdiçada porque resultava em degradação ambiental ou era
solapada por essa degradação: a erosão do solo, a desertificação, o assoreamento de represas, o fracasso dos
sistemas de irrigação e assim por diante. A Conservation Foundation nos Estados Unidos já havia
começado, nos anos 60, a pensar na necessidade de levar em conta os fatores ecológicos no planejamento
para o desenvolvimento. Em 1968 patrocinou uma conferência em Airlie House, Virginia, sobre os Aspectos
Ecológicos do Desenvolvimento Internacional, a qual concluiu que economistas do desenvolvimento,
planejadores, engenheiros e ecologistas deveriam consultar uns aos outros para maior interação na
elaboração dos projetos.
Airlie House foi seguida por mais encontros, envolvendo o Banco Mundial, a FAO, o UNDP, a
IUCN, o lnternational Biological Programme (IBP) e a Conservation Foundation. Por sugestão de Max
Nicholson (representando o IEP) foi realizado um encontro na FAO em Roma, em 1970, envolvendo todos
esses grupos e os órgãos de ajuda do Canadá e dos Estados Unidos. Ficou decidido que a IUCN e a
Conservation Foundation deveriam preparar um livro de orientação para planejadores de desenvolvimento.
O livro Ecological Principies for Economic Development foi publicado em 1973, com autoria de Raymond
Dasmann, da IUCN, e John Milton e Peter Freeman, da Conservation Foundation.20 Os autores examinaram
os princípios ecológicos que precisavam ser considerados em situações em que o desenvolvimento
econômico ameaçava causar modificações de vulto nos sistemas naturais e argumentavam que a definição de
conservação da UNESCO/FAO, como "o uso racional dos recursos do planeta para obter a mais alta
qualidade de vida para a humanidade", poderia com a mesma facilidade ser aplicada para definir as metas do
desenvolvimento econômico; conseqüentemente deveria haver uma convergência cada vez maior, ao invés
de conflito, entre os objetivos da conservação e os do desenvolvimento. A consideração adequada dos
princípios ideológicos ajudaria os conservacionistas e os promotores do desenvolvimento a atingir suas
metas com um mínimo de efeitos colaterais indesejáveis. As limitações ecológicas aos sistemas naturais
tinham que ser levadas em conta caso se pretendesse que o desenvolvimento tivesse êxito. O livro
estabelecia, em termos gerais, as necessidades ecológicas e de desenvolvimento das áreas tropicais úmidas e
das terras de pastoreio das regiões semi-áridas e semi-úmidas, e avaliava o impacto do desenvolvimento do
turismo, dos projetos de desenvolvimento agrícola e dos projetos das bacias hidrográficas. Explorava idéias
gerais ao invés de estabelecer princípios abrangentes. A IUCN desenvolveu subseqüentemente algumas
dessas idéias em encontros e na publicação de uma série de diretrizes para o planejamento do
desenvolvimento.
No período 1977-1979 o IIED realizou uma série de estudos reveladores sobre as políticas
ambientais de algumas organizações de ajuda ao desenvolvimento bilaterais e multilaterais selecionadas.21
Foram identificados quatro problemas principais nas instituições financiadoras de um modo geral:

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1) a falta de quaisquer procedimentos claros para a avaliação ambiental de projetos (com as exceções do
Banco Mundial e da Organização dos Estados Americanos);

2) uma falta geral de critérios para a avaliação do impacto ambiental (originária em grande parte da falta de
definições conceituais quanto ao que constituía interesse ambiental);

3) a falta de formas alternativas de análise e contabilidade, o que incluía os efeitos ambientais e sociais de
longo prazo dos projetos de desenvolvimento;

4) carência de pessoal apropriadamente treinado.

O primeiro dos estudos do IIED concentrou-se nos órgãos de ajuda multilaterais. O estudo concluiu que
dentre os nove organismos estudados o Banco Mundial tinha a política ambiental mais avançada e práticas
que "sem dúvida exercem liderança intelectual nas questões ambientais em toda a comunidade internacional
de desenvolvimento”. Isso se devia em grande parte à influência e ao interesse pessoal de Robert McNamara
nas questões ambientais.22 O Banco Mundial havia estabelecido um novo cargo de consultor ambiental em
1970 (uma atitude desprezada pelos críticos do banco como cosmética) e adotou o procedimento de
considerar os fatores ambientais na sua política de assistência econômica. Num pronunciamento de 1970 ao
ECOSOC, McNamara reconheceu que as instituições tinanciadoras estavam diante do problema de assegurar
que a assistência ao desenvolvimento evitasse os danos ambientais sem diminuir o ritmo do crescimento
econômico.23 Em 1972 o Banco Mundial havia publicado um manual para os que estavam envolvidos em
projetos de desenvolvimento (inclusive engenheiros, planejadores e instituições financiadoras) 24. O
trabalho listava ponto por ponto as questões que deviam ser levantadas durante o planejamento e a
apreciação. Não era de modo nenhum perfeito. Embora cobrisse indústria, transporte, serviços de infra-
estrutura e energia, mal chegava a mencionar a agricultura. Era também muito genérico, deixando pouco
espaço para os problemas de comunidades específicas. Mas foi o primeiro esforço importante, por parte de
uma instituição que concedia empréstimos, no sentido de estabelecer critérios para avaliar o impacto
ambiental de seus projetos de investimento.25
O Banco Mundial enfrentou uma resistência inicial às suas novas preocupações ambientais por parte
dos países menos desenvolvidos; muitos temiam que a incorporação de dispositivos de proteção ambiental
aos projetos aumentaria os custos totais desses projetos em 25% a 50%. Tais temores foram desfeitos quando
o banco concordou em arcar com quaisquer custos adicionais envolvidos para respeitar os padrões
necessários.26 Na realidade o banco acabou por descobrir que os custos adicionais eram da ordem de 0% a
3%. A política do Banco Mundial era de que os aspectos ambientais e de saúde dos projetos deveriam ser
analisados nos estágios de formulação e planejamento. Uma análise dos 1.342 projetos que receberam
empréstimos e créditos do Banco Mundial entre 1º de julho de 1971 e 30 de junho de 1978 concluiu que
63% não demonstravam implicar problemas ambientais aparentes ou potenciais. Em 365 casos (27% do
total) uma equipe do próprio banco tratou dos problemas ambientais identificados; em 110 situações (8%) os
problemas ambientais pareceram sérios o bastante para exigir estudos especiais feitos por consultores, sendo
incorporadas salvaguardas ambientais como condição para o empréstimo. Nos 22 casos restantes, outros
organismos haviam determinado anteriormente a necessidade de salvaguardas, e medidas apropriadas
haviam sido tomadas.27
O segundo estudo do IIED examinou as políticas ambientais de seis organizações de ajuda bilaterais
(as do Canadá, Alemanha Ocidental, Holanda, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos).28 Chegou-se à
conclusão que a confusão que existira quatro anos antes quanto ao sentido de "meio ambiente" havia sido
resolvida e que o meio ambiente não

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estava sendo visto como um assunto adicional a ser considerado, mas cada vez mais como uma "nova
abordagem ao desenvolvimento, a qual dá maior peso à sustentabilidade dos resultados e aos custos dos
efeitos colaterais destrutivos dos projetos". Todavia, por mais ampla que tenha sido em princípio a aceitação
dessa visão, a mesma ainda vinha tendo "muito pouco impacto na orientação e no planejamento dos projetos
ou das políticas de desenvolvimento concretas dos organismos estudados". Um estudo anterior da Agência
dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID - United States Agency for Intemational
Development) havia concluído que a despeito do acréscimo, em 1977, de uma seção sobre Meio Ambiente e
Recursos Naturais à Lei da Assistência Externa e da criação de vários projetos da USAID dirigidos à
proteção dos recursos naturais, os esforços da USAID haviam carecido de uma autoridade clara e se
mostrado "fragmentários e sujeitos a justificativas tortuosas".29
O estudo do llED sobre os organismos bilaterais concluiu que os objetivos ambientais e relativos aos
recursos precisavam de uma definição mais abrangente no contexto das políticas de ajuda como um todo,"
que era preciso dar atenção urgente à questão a fim de ajudar os países menos desenvolvidos a estruturar
uma capacidade própria de estudar e administrar seus·problemas ambientais específicos, que os projetos de
aprimoramento ambiental precisavam de apoio comparável àquele dado aos setores tradicionais de
desenvolvimento, e que os documentos de política dos organismos de ajuda freqüentemente não dedicavam a
atenção adequada aos fatores ambientais. Quatro dos seis organismos haviam definido claramente pontos
focais de responsabilidade ambiental, mas apenas um (o dos Estados Unidos) examinava sistematicamente
os projetos quanto a seu impacto ambiental.30 Havia consenso nos seis organismos quanto à necessidade de
integrar um conceito amplo de "meio ambiente" ao pensamento e planejamento do desenvolvimento, mas "a
este compromisso retórico, com algumas exceções, não correspondeu rapidamente nenhuma ação
específica". Um estudo separado da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional constatou "uma
abordagem informal e às vezes aleatória das questões ambientais" .31 O estudo concluiu que a entidade
carecia de um compromisso enérgico de incorporar as questões ambientais ao planejamento regular de
políticas, que não havia avaliação sistemática das conseqüências ambientais no estágio de proposição de
projetos e que monitoração e procedimentos de avaliação inadequados acarretavam à agência pouco retorno
no tocante às conseqüências ambientais dos projetos.
A política britânica de ajuda era ainda menos esclarecida. Em 1982 era política da Administração do
Desenvolvimento Ultramarino "levar em consideração" as implicações ambientais dos projetos de ajuda e
chamar a atenção dos governos beneficiários para as implicações desses projetos, mas só fornecer
aconselhamento "estritamente" sob solicitação; "cabe aos próprios governos dos países em desenvolvimento
decidir que prioridade desejam dar aos fatores ambientais dentro de seus programas de desenvolvimento
próprios, Essa é uma questão política a ser considerada em confronto com as exigências de desenvolvimento
econômico e social de cada país individualmente".32 A política dos organismos da Comunidade Britânica
envolvidos no desenvolvimento era, da mesma forma, responder aos pedidos de aconselhamento mais
freqüentem ente do que tomar a iniciativa nas idéias e programas. Poucas atividades da Comunidade
Britânica, se é que havia alguma, reconheciam em qualquer sentido formal a dimensão ambiental do
desenvolvimento.33
Em setembro de 1979, nove meses depois da publicação do primeiro estudo do IlED, representantes
de nove organismos multilaterais examinados se reuniram em Paris, sob os auspícios do UNEP, do Banco
Mundial e do UNDP, e chegaram a um acordo quanto a uma declaração conjunta (assinada em Nova York
em 1980) comprometendo-se a implementar novas políticas em sete áreas identificadas pelo estudo,
incluindo o exame sistemático de todas as políticas e projetos de desenvolvimento, a fim de garantir que

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fossem propostas medidas apropriadas para o cumprimento dos princípios e recomendações de Estocolmo. A
declaração observava que o desenvolvimento econômico era essencial para minorar todos os principais
problemas ambientais e reconhecia que os organismos de ajuda tinham a responsabilidade de assegurar a
sustentabilidade das atividades de desenvolvimento econômico que financiavam.34
Os efeitos cumulativos do desenvolvimento mal planejado ou inadequadamente orientado e o papel
desempenhado nisso pelas políticas de ajuda ao desenvolvimento foram ilustrados num relatório publicado
pelo Banco Mundial em 1984 sobre o desenvolvimento na África subsahariana.35 O relatório concluía que a
região enfrentava graves problemas econômicos e sociais, com instabilidade política, produto interno bruto e
produção agrícola em declínio, subnutrição crescente e um meio ambiente natural em deterioração. Os
fatores fundamentais que os causavam, alegava, eram o crescimento populacional em aceleração, a queda do
retomo dos investimentos e o efeito das políticas dos governos e dos que doavam ajuda sobre a eficiência do
uso dos recursos. Embora muitos organismos de ajuda, incentivados pelo UNEP, tivessem em princípio
concordado em realizar avaliações de impacto ambiental dos projetos de ajuda, "essa promessa ainda não se
traduziu em ação generalizada - e poucos projetos financiados por particulares realizam uma análise
ambiental prévia adequada” 36 Não obstante, o UNEP acreditava que se havia verificado um deslocamento
da ênfase de "uma abordagem quase que puramente técnica para um enfoque social mais amplo,
considerando as metas do desenvolvimento do ponto de vista dos valores e da ética e não apenas do ponto de
vista do crescimento econômico quantitativo, e a longo prazo ao invés de a curto prazo".37 Aparentemente
isso havia chegado a um ponto em que alguns planejadores acreditavam que o verdadeiro desenvolvimento
não poderia ser atingido copiando o Ocidente, onde o crescimento industrial havia sido utilitário e portanto
insustentável.38

POLÍTICA AMBIENTAL NO TERCEIRO MUNDO: QUÊNIA E ÍNDIA

Assim como os países mais desenvolvidos repensaram suas políticas ambientais no final da década de 1960
e começo da de 1970, muitos países menos desenvolvidos também o fizeram. O número de países menos
desenvolvidos que possuíam organismos ambientais cresceu de 11 em 1972 para 102 em 1980.39 Mas,
assim como nos países mais desenvolvidos, simplesmente criar um órgão não equivalia a criar um órgão
eficiente. Os novos organismos dos países menos desenvolvidos não apenas enfrentavam muitos dos
problemas políticos e de jurisdição vividos por seus similares em países mais desenvolvidos (notadamente a
falta de autoridade conferida aos novos órgãos ambientais), como também seus próprios problemas
adicionais: com excessiva freqüência a instabilidade política e econômica, a prioridade dada ao
desenvolvimento econômico a quase qualquer custo e a ausência (com algumas exceções) de uma classe
média substancial, um movimento ambiental, um arcabouço legal e institucional firme e uma base de dados
sólida. Emil Salim, o ministro da Indonésia para Assuntos Populacionais e do Meio Ambiente, embora
concordasse com a necessidade de proteger a riqueza genética de seu país, assinalou em 1982 que a
Indonésia carecia de um "conhecimento preciso do que constitui a sua riqueza natural e como protegê-Ia".40
O desenvolvimento do arcabouço legal (inclusive de procedimentos e organismos regulamentadores,
apoiados por pessoal treinado) para a ação ambiental era desigual, e a legislação existente muitas vezes
difícil de fazer cumprir ou implementada ineficientemente. Poucos países menos desenvolvidos possuíam
políticas ambientais nacionais explícitas. Enquanto as nações industrializadas tiveram algum sucesso na
realização de levantamentos ambientais e na implementação de planos de desenvolvimento, o

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progresso nas nações mais pobres foi variável. Conceitos tais como desenvolvimento sustentável eram
diretrizes úteis para projetos de desenvolvimento mas não encontravam aplicação generalizada.41
O Quênia deveria teoricamente ter-se saído melhor do que a maioria das outras nações. A sede do
UNEP localiza-se ali, o país foi anfitrião de conferências ambientais fundamentais, possui uma rede de
ONGs relativamente bem-desenvolvida e desfrutou de relativa prosperidade econômica e estabilidade
política desde a independência em 1963. Possui um cabedallimitado de terras aráveis, mas sua área de terras
produtivas é suficiente para alimentar (pelo menos em teoria) sua população em rápido crescimento.
Também é bem aquinhoado de outros recursos naturais. Contudo as indicações são de que enfrenta uma
"crescente e aterradora perda de recursos naturais a longo prazo em troca de retornos de curto prazo" 42 As
perdas resultam do excesso de pastagem, expansão do cultivo em áreas de pluviosidade marginal,
desmatamento, expansão descontrolada de novos assentamentos, destruição das bacias de captação de áreas
altas e assoreamento de rios. A taxa de crescimento populacional do Ouênia é a mais rápida do mundo, de
4,2%, 43 e mostra poucos sinais de estar se reduzindo. Caso continue, a população nacional dobrará a cada
18 anos.
Em seu estudo da política ambiental do Quênia, Randall Baker e David Kinyanjui concluíram que em
1980 o Quênia não possuía uma política ambiental nem uma política integrada de uso do solo em escala
nacional.44 Isso era verdade apesar de importantes declarações sobre administração ambiental feitas
sucessivamente pelos presidentes Kenyatta e Moi, e do consenso geral entre os funcionários de ministérios e
secretarias de que tal política de meio ambiente era prioritária. A Secretaria Nacional do Meio Ambiente do
Quênia concluiu que os planos para a introdução de uma exigência de avaliação de impacto ambiental não
teriam efeito algum enquanto não houvesse uma política de meio ambiente, "e enquanto sua implementação
for prerrogativa das próprias instituições que exacerbaram, senão precipitaram os problemas existentes".45
No Plano Qüinqüenal de 1979-1983 as políticas de utilização dos recursos foram lista das como
responsabilidade da secretaria do meio ambiente e do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, porém
nenhum dos dois órgãos tinha status de elaborador de política. Em 1980 o Quênia possuía 14 peças avulsas
de legislação relacionadas aos recursos naturais e à administração de recursos, mas muito raramente as
mesmas eram aplicadas.
Baker e Kinyanjui constataram entre outros problemas uma sobre posição e confusão de
responsabilidades (por exemplo, apenas para a água havia 26 instituições com interesses relacionados), a
não-aplicação da lei, um conflito fundamental entre parlamentares representando eleitorados rurais que
enfrentavam carência de terras e organismos setoriais que apoiavam uma legislação mais severa e
abrangente, leis divorciadas da realidade econômica e social da situação que supostamente deveriam
fiscalizar, ausência de monitoração e coleta de dados organizadas a nível nacional e um órgão ambiental
carente de políticas, autoridade legislativa, representação local e poder político. A situação ficou ainda mais
complicada devido às rivalidades entre departamentos; sete de um total de vinte ministérios têm participação
nas questões de recursos naturais; os ministérios do planejamento e desenvolvimento nacional, meio
ambiente e recursos naturais, de terras e assentamento populacional, do desenvolvimento da água, turismo e
vida selvagem, desenvolvimento da agricultura e pecuária, e da energia e desenvolvimento regional.
Os problemas da Índia são semelhantes, mas obviamente muito maiores. O país possui um extenso
corpo de legislação ambiental, que remonta à Lei do Dano às Praias (Bombaim e Kolaba) de 1853. 46 Foi
criado um Comitê Nacional de Planejamento Ambiental em 1972 para agir como um órgão consultor do
governo (Indira Ghandi demonstrou um ativo interesse pessoal nas questões ambientais). As limitações
inerentes ao poder de um órgão consultivo levaram à criação, em 1980, de um Departamento do Meio
Ambiente, sob a

161

responsabilidade direta do primeiro-ministro, a fim de apreciar projetos de desenvolvimento, monitorar a


poluição e implementar a regulamentação e conservação dos ecossistemas marinhos e das reservas da
biosfera. As avaliações ambientais tiveram algum êxito, como, por exemplo, a inclusão de medidas de
redução da poluição numa fábrica de fertilizantes perto de Bombaim e a alteração dos planos para a
construção de um projeto hidrelétrico dentro de um santuário de vida selvagem no estado de Tamil Nadu.47
O Departamento do Meio Ambiente também identificou reservas potenciais da biosfera e fez um
levantamento de âmbito nacional das wetlands importantes, e o comitê de planejamento - antes de sua
extinção - incentivou os governos estaduais a estabelecer seus próprios conselhos ambientais. Em 1985, de
22 estados, 18 tinham seus próprios departamentos de meio ambiente e havia mais de duzentas leis nacionais
e estaduais relacionadas ao meio ambiente.48
Mas os fracassos suplantam os sucessos. Ramakrishna destaca o grau de incerteza quanto à
autoridade legislativa do governo central para implementar estatutos ambientais, os problemas de
cumprimento das leis e a falta de um direito de ação privada.49 Numa análise de trinta textos de legislação
ambiental o comitê responsável pela criação do Departamento do Meio Ambiente observou quatro defeitos
básicos:

1) muitos promoviam o desenvolvimento e o uso de recursos para benefícios econômicos específicos, sem
uma análise cuidadosa dos efeitos ambientais potenciais;

2) diversas leis estaduais acarretavam implicações ambientais potencialmente adversas para estados
vizinhos;

3) muitas leis eram claramente inadequadas (por exemplo, a Lei dos Inseticidas de 1968 não incentivava a
substituição de agrotóxicos tais como o DDT, que haviam sido proibidos em outros lugares, e careciam de
dispositivos adequados para a monitoração da incidência de resíduos de agrotóxicos);

4) o meio ambiente era tão novo como área de política que ainda era amplamente ignorado ou desprezado
dentro dos órgãos do governo.50

O comitê de planejamento ambiental e o Departamento do Meio Ambiente, além disso, tinham pouca
credibilidade em outros departamentos do governo. Para um departamento com responsabilidades
potencialmente enormes, o do meio ambiente tinha, em 1983-1984, apenas 237 funcionários e um orçamento
anual de 16 milhões de dólares (200 milhões de rüpias).51 E a indústria indiana, apesar do extenso corpo de
legislação relativa à poluição, permaneceu relutante quanto a controlar a poluição ou fora do alcance da lei;
em 1985 o ministro de estado para o meio ambiente relatou que havia cerca de quatro mil indústrias
poluidoras na Índia, das quais apenas duzentas haviam instalado estações de tratamento de efluentes.52
Em nenhum lugar as fraquezas do sistema de controle da poluição da índia foram mais trágica e
dramaticamente ilustradas do que no escapamento de gás metil-isocianato de uma fábrica de pesticidas da
Union Carbide, em Bhopal, em dezembro de 1984. As estimativas do número de mortes imediatas variaram
entre 1.300 e dez mil; a estatística mais comumente citada hoje em dia é de cerca de 2.500, embora vários
anos depois continuem a morrer pessoas por causa dos efeitos remanescentes. A UNICEF calculou que
foram afetadas cerca de duzentas mil pessoas ao todo (das quais cerca de 75% moradoras de favelas
locais).53 Três problemas específicos foram destacados pelo acidente de Bhopal. Primeiro, a inadequação
das regulamentações sobre padrões de poluição e segurança química e do sistema de zoneamento, o qual
permite que muitos dos pobres da

162

índia vivam tão próximo de complexos industriais; segundo, a inadequação do sistema de reação a desastres
do governo ("a centralização e a falta de iniciativa do governo", observou o Centro para a Ciência e o Meio
Ambiente, "tão visíveis no cotidiano, fizeram com que o sistema literalmente desmoronasse sob pressão");54
e terceiro, o sistema de valores políticos e econômicos, que permite que empresas multinacionais operem
fábricas sob padrões de eficiência e segurança abaixo daqueles que teriam que respeitar em países mais
desenvolvidos. O simples número de casos fatais em Bhopal não teve precedentes, mas acidentes
semelhantes ocorreram antes na Índia e em outros lugares, e a probabilidade de incidentes futuros permanece
alta. */55
Tanto o Quênia quanto a Índia possuem um movimento ambiental não governamental ativo e de forte
expressão. Dentre as sessenta organizações quenianas ativas apenas no plantio de árvores, a de maior
destaque é o Movimento Cinturão Verde, criado pelo Conselho Nacional das Mulheres do Ouênia em 1977.
Liderado por Wangari Maathai, uma antiga professora de anatomia, o movimento ajuda comunidades locais
a estabelecer plantações de árvores em espaços abertos, áreas de colégios e ao longo de estradas.56 Em 1987
já existiam mais de mil cinturões verdes, vinte mil "minicinturões verdes" em campos de fazendas e 65
viveiros comunitários de mudas de árvores. Um outro grupo ativo é a Associação de ONGs de Energia do
Quênia, que participou de um bem-sucedido projeto financiado pela USAlD para testar e distribuir jikos
(fogões a carvão vegetal) mais baratos e eficientes.
A índia se orgulha de ter literalmente milhares de grupos de cidadãos, desde movimentos locais de
base até organizações nacionais de maior amplitude. O poder dos movimentos de base pode ser resumido
pelo histórico do Dasobli Gram Swarajya Mandal.57 Formado em 1964 para incentivar as indústrias caseiras
baseadas na matéria-prima das florestas no estado setentrional de Uttar Pradesh, o movimento rapidamente
descobriu que não tinha nenhum direito ou controle sobre as florestas locais e que empreiteiras de fora
tinham a oportunidade de pagar muito menos do que o valor de mercado pelos produtos das florestas locais.
Deu-se início a uma campanha de conscientização pública local para chamar a atenção do povo para o que
estava acontecendo. A resistência local ao poder das empreiteiras de fora tornou-se gradualmente mais
militante, de tal forma que em 1973-1974 os aldeões locais (principalmente mulheres) já estavam se
organizando em grupos para impedir fisicamente a derrubada de árvores. O chipko andalan - ou "movimento
para abraçar as árvores" - resultante atraiu subseqüentemente a atenção e a admiração mundiais pelo seu
gandhismo não violento, embora, mais de uma década depois, sua meta de alterar a política florestal do
estado em Uttar Pradesh permanecesse inatingida. A nível nacional a Índia também se orgulha de ter uma
das ONGs mais enérgicas do mundo menos desenvolvido - o Centro para Ciência e Meio Ambiente.
Supervisionado por Anil Agarwal, o centro publicou relatórios sobre a situação do meio ambiente na índia
em 1982 e 1984-1985, os quais forneceram as avaliações mais completas e abrangentes já compiladas dos
problemas ambientais de um país menos desenvolvido (e, de fato, de quase qualquer país).
Nem na Índia nem no Quênia o governo trabalha tão integradamente com as ONGs quanto poderia.
As ONGs, portanto, carecem do tipo de acesso à elaboração de políticas que Ihes daria a influência que
buscam. Na Índia, o governo trabalha apenas com ONGs

* A atenção que Bhopal atraiu obscureceu um outro incidente sério ocorrido apenas um mês antes: a morte de mais de quinhentas
pessoas na explosão de um depósito de gás liqüefeito de petróleo em lxhuatepec, um subúrbio de favelas de Cidade do México.
ada menos do que cem mil pessoas - a maioria migrantes de áreas rurais - estavam instaladas em casas improvisadas a uma
distância que às vezes não passava de 130 metros dos tanques de arrnazenarnento.55 a origem do acidente estavam muitos dos
mesmos problemas subjacentes a Bhopal.

163

de base urbana e freqüentemente se opõe ativamente ao trabalho das ONGs rurais, as quais estão mais
afinadas com as necessidades da maioria rural do país.58

A ESTRATÉGIA MUNDIAL DE CONSERVAÇÃO

Estocolmo implantou com firmeza o meio ambiente na agenda das relações internacionais. À medida que a
identificação de problemas que transcendiam fronteiras (por exemplo, a poluição ácida) e de problemas
comuns a diversos países (por exemplo, a erosão do solo, a poluição e o desmatamento) aumentava, também
se tornava mais evidente que era necessária uma cooperação internacional muito maior. MaxNicholson havia
escrito sobre a necessidade de um programa mundial de conservação já em 1966, embora o esquema que
visualizou se limitasse à vida selvagem. Ele observou que os recursos limitados e uma base de informações
insuficiente significavam desincentivos à montagem de um esquema naquela época, mas que por volta de
1970 uma estratégia mundial poderia ser uma possibilidade concreta: "tal programa poderia ser de valia na
concentração da opinião mundial sobre a escala, a natureza e a distribuição dos principais requisitos
constatáveis para a conservação. Presumivelmente, caberia à IUCN tomar a iniciativa nesse ponto,
mobilizando toda a ajuda que pudesse ser necessária ou apropriada".59
A IUCN começou a considerar uma abordagem estratégica para a conservação na sua Assembléia
Geral em Nova Delhi, em 1969. 60 Raymond Dasmann (autor do manual de 1973 sobre diretrizes
ecológicas) lembra que na época em que ele entrou para a IUCN, em 1970, como ecologista de primeiro
escalão da equipe, três mudanças haviam acontecido na União: tinha uma nova liderança, uma nova estrutura
organizacional e recebera uma doação de vulto da Fundação Ford. A Ford havia sugerido que era necessário
um controle mais centralizado por parte da sede da lUCN sobre as suas atividades. Dasmann observou a
influência de um novo programa de conservação marinha intercomissional na IUCN, o qual enfatizava "o
planejamento, a programação, a estratégia e a tática".61 Essa abordagem permeava agora o trabalho de todas
as comissões da IUCN e foi, na visão de Dasmann, "um impulso que levou à abordagem estratégica para os
problemas mundiais de conservação". Um desenvolvimento mais significativo observado por Dasmann foi a
mudança de ênfase na IUCN, no sentido de uma preocupação com o desenvolvimento econômico. Em
seguida à Assembléia Geral de 1%9, ao encontro de 1970 em Roma (ver acima) e à publicação de
Ecological Principies for Economic Development, a IUCN passou a pensar mais no assunto. Conservação e
desenvolvimento foram os temas da Assembléia Geral da IUCN de 1972, em Banff, Canadá, quando
MauriceStrong anunciou que a IUCN receberia financiamentos do UNEP, uma vez que esse organismo
havia sido criado.62
Durante 1973 e 1974 foram realizados vários encontros internos da IUCN para formular diretrizes
ecológicas para o desenvolvimento; dois conjuntos dessas diretrizes, sobre florestas tropicais e montanhas,
foram completados. Discussões sérias sobre uma abordagem estratégica à conservação foram iniciadas numa
reunião de 1975 entre a IUCN e o UNEP. O vice-diretor-geral australiano da IUCN, Frank Nicholls, insistiu
para que a IUCN fosse clara quanto a suas políticas de conservação futuras, suas prioridades principais e a
ação necessária para tornar as políticas efetivas. Nesse encontro o UNEP pediu à IUCN que preparasse uma
estratégia para a conservação da vida selvagem, planejada exclusivamente para determinar as ações
prioritárias necessárias para proteger e salvar as espécies selvagens. Durante os dois anos seguintes Dasmann
e Duncan Poore (diretores gerais em exercício um após o outro) trabalharam no esboço da estratégia. O
UNEP parecia não ter nenhuma idéia clara quanto à forma que a estratégia assumiria, de modo que a
elaboração inicial do documento foi deixada em grande parte por conta de Dasmann e Poore. Suas origens
foram muito estreitas, o que, para AlIen, refletia em certa medida o

164.

campo de especialização da IUCN.63 Lee Talbot (posteriormente diretor-geral da IUCN) lembra que "a
primeira versão era essencialmente um livro-texto sobre a vida selvagem", mas que cada versão subseqüente
integrava as visões anteriormente conflitantes de desenvolvimentistas e conservacionistas, e que a versão
final foi um consenso entre os dois pontos de vista.64
Até o fmal dos anos 70 a política de conservação da IUCN havia sido determinada a cada três anos
pela Assembléia Geral e orientada, no período interveniente, pelo Conselho Executivo. Mas a IUCN carecia
dos benefícios de um plano de ação coerente e integrado; suas atividades tendiam a ser "uma variedade de
projetos, muitas vezes de grande valia individualmente, mas que careciam da coerência (...) e do impacto de
um programa planejado".65 A primeira tentativa significativa de alterar isso foi o documento de estratégia
trienal para 1976-1978, preparado por Duncan Poore e adotado na 12ª. Assembléia Geral em Kinshasa, em
1975. Esse documento traçava quatro objetivos principais para a União; os três primeiros diziam respeito à
conservação e proteção de espécies animais e vegetais, ecossistemas e hábitats representativos, enquanto o
quarto falava vagamente em estabelecer "um quadro de uso prudente que garanta que o potencial de recursos
naturais renováveis seja mantido”66. A IUCN deveria chegar a um ponto de equilíbrio entre "trabalhar para
uma estratégia mundial de conservação de longo prazo em fases" e reagir a oportunidades repentinas e
problemas urgentes. Um dos princípios orientadores traçados no documento era que os problemas de
conservação deveriam ser tratados "como uma parte integrante dos planos para o desenvolvimento
econômico e social nas naçóes ou regiões em questão".67 Todos os esforços deveriam ser empreendidos no
sentido de envolver a população local nos projetos de conservação, levando plenamente em consideração
suas necessidades, atitudes e conhecimento. A prioridade da IUCN ainda era claramente a conservação da
natureza, mas havia evidências de que a entidade estava se tornando mais interessada em "eco
desenvolvimento" (isto é, o desenvolvimento de uma localidade aproveitando ao máximo e de modo
sustentável seus recursos físicos, biológicos e culturais). Escrevendo no IUCN Bulletin de maio de 1976,
Allen destacou o interesse da IUCN pelo conceito, o qual, observava, "parece ser a reconciliação há muito
esperada entre a conservação e o desenvolvimento".68
A IUCN anunciou em outubro de 1977 que estava preparando uma Estratégia de Conservação
Mundial (WCS - World Conservation Strategy). Dasmann deixou a IUCN em 1977 e Poore se tornou seu
sucessor em 1978; daí em diante, a estratégia foi orientada por Robert Allen (um dos autores de A Blueprint
for Survival, na época chefe de publicações da IUCN e posteriormente consultor de primeiro escalão para
politicas) e pelo diretor-geral canadense da IUCN, David Munro, abertamente em consulta com a UNEP,
FAO e UNESCO, com financiamento do UNEP. A estratégia, dizia a IUCN, permitiria que a ação
internacional de conservação fosse dirigida mais eficientemente, identificasse as principais ameaças a
espécies e ecossistemas e propusesse medidas e prioridades. Seria essencialmente um documento de política
conjunta UNEP/IUCN/WWF, embora estivesse disponível para outras organizações interessadas e visasse
também influenciar governos, órgãos da ONU e organismos intergovernamentais. Não ficaria confmada a
espécies ameaçadas e áreas necessitadas de proteção especial, mas cobriria também espécies e áreas de valor
econômico que estivessem sendo mal utilizadas, tais como parentes selvagens e semidomesticados de
espécies de animais e plantas cultivadas ou pesqueiros e wetlands costeiras que os sustentassem. Propiciaria
"pela primeira vez uma perspectiva global sobre os muitos problemas com os quais a conservação está
relacionada".69 Uma primeira versão foi enviada a todos os membros da IUCN em dezembro de 1977, a fim
de expô-Ia à discussão mais ampla possível. Num pronunciamento na Assembléia Geral de 1978 em
Ashkhabad, na União Soviética, Lee Talbot observou que essa consulta sobre a Estratégia de Conservação
Mundial deveria constituir "a primeira

165

de muitas demonstrações de que o secretariado encara a si próprio como uma central de troca de
informações, um apresentador de opiniões e um divulgador de argumentações'”.70 Diferentes prioridades
econômicas, geográficas e de conservação tinham que ser incluídas.
Uma segunda versão fora preparada para a Assembléia Geral de Ashkhabad. Recebida positivamente
de um modo geral, não deixou de ter as omissões apontadas. Era necessária uma discussão mais completa e
focalizada da relação entre a conservação e os fatores sócio-econômicos, particularmente o crescimento
populacional. Além disso era preciso um relato mais completo do processo de desenvolvimento e de como a
estratégia deveria influenciá-Io e também eram necessários mais detalhes sobre planejamento, legislação e
educação para a conservação, poluição, substâncias químicas tóxicas e conservação da água e do solo. Era
preciso muito mais em relação à implementação da estratégia - sobre como a ação recomendada poderia ser
levada a cabo e não quais ações eram necessárias, e também carecia de recomendações mais explícitas e
precisas aos governos sobre a sua implementação.71 Muitos delegados de países menos desenvolvidos
assinalaram - já o haviam feito em Estocolmo e outras vezes desde então - que enfrentavam preocupações
ambientais mais urgentes do que a proteção da natureza. Os problemas da vida selvagem não poderiam ser
tratados isoladamente e era claro o apoio existente para a idéia de que a estratégia deveria ter uma base mais
ampla.
Também foi defendida em Ashkhabad a opinião de que a IUCN tinha a oportunidade de influenciar
políticas de ajuda bilaterais e multilaterais, e que deveria aproveitá-Ia. A estratégia não dedicava atenção
suficiente ao potencial de projetos de desenvolvimento orientados para a conservação e à introdução de
princípios de conservação em projetos que poderiam de outra forma ser destrutivos para o meio ambiente. A
IUCN deveria tentar influenciar os organismos de ajuda bilateral e multilateral de modo que suas atividades
estivessem em consonância com a WCS. A assembléia resolveu que a versão da WCS apresentada na sessão
ordinária seguinte da Assembléia Geral, "embora continuando a se concentrar nas questões de conservação,
deve colocar a conservação firmemente no seu contexto sócio-econômico, com a devida referência à
população e a outras influências de peso, tais como pobreza, crescimento econômico, conservação de energia
e de matérias-primas, tecnologias inapropriadas e a satisfação das necessidades humanas básicas". 72 Isso,
observou a IUCN, significava um "afastamento das preocupações de conservação tradicionais”. 73 (Apesar
dessas esperanças, a estratégia publicada - embora incluísse argumentações sobre população, alimentos e
erosão do solo - permaneceu essencialmente um documento sobre a conservação da natureza.)
Um trabalho fundamental apresentado à Assembléia Geral de Ashkhabad - baseado numa pesquisa
com diretores gerais, membros do conselho e da diretoria executiva anteriores e atuais da IUCN - resumiu os
êxitos e fracassos da conservação internacional e particularmente daquela instituição. Concluía que muito
havia sido conseguido em trinta anos, desde a fundação da IUCN, particularmente no desenvolvimento de
parques nacionais, arcabouços legais e organizacionais e coleta de dados. Mas havia ocorrido uma
destruição, degradação e exaustão continuada (mesmo acelerada) de ecossistemas e espécies, além de uma
predominante ausência de consciência pública sobre a importância dos ecossistemas e espécies. As
conquistas do movimento internacional de conservação eram pequenas, esparsas e talvez também
temporárias. A fim de realizar avanços reais era necessária uma unidade de propósitos muito maior, o que
significava consenso quanto a uma estratégia de ação e a implementação dessa estratégia.74
Em fevereiro de 1979 a IUCN anunciou que a Estratégia de Conservação Mundial (WCS) seria
lançada em setembro daquele ano. Uma terceira versão, refletindo as opiniões da 14ª Assembléia Geral,
havia sido analisada por um painel indicado pelo conselho da IUCN em janeiro e o lançamento público da
WCS seria preparado (com a

166

ajuda de um financiamento do UNEP, de setecentos mil dólares) para atrair tanta publicidade quanta
possível nos meios de comunicação e alcançar o máximo impacto sobre os que tomam decisões e o
público.75 Ashkhabad havia decidido que a WCS não deveria ser um documento definitivo, devendo ser
revisada e atualizada a cada três anos e analisada pela Assembléia Geral. Parte do financiamento do UNEP
para a IUCN seria destinado à preparação de uma segunda edição a ser submetida à 15ª Assembléia Geral,
em 1981. Na realidade a WCS não foi propriamente atualizada, mas sim adaptada através da formulação de
estratégias de conservação nacionais, cuja necessidade fora compreendida pela primeira vez já em 1976. 76
Em maio de 1979 o lançamento da WCS havia sido adiado até março de 1980; embora a publicação tivesse
sido decidida pelo grupo do conselho da IUCN, a penúltima versão havia enfrentado críticas consideráveis
por parte dos organismos da ONU e foi solicitada toda uma variedade de mudanças. Em janeiro de 1979 foi
criado um comitê de lançamento da WCS, constituído por representantes da IUCN, do UNEP e do WWF, e
foram formados comitês nacionais em diversos países para planejar os lançamentos nacionais e discutir
planos para implementar sua estratégia. A versão fmal da estratégia foi apresentada ao UNEP, FAO,
UNESCO, WWF e ao conselho da IUCN em agosto de 1979 e fmalmente aprovada em outubro. Em
dezembro a IUCN publicou seu documento de política, o qual havia sido preparado em consultas com o
UNEP e o WWF como um plano para a política da IUCN entre 1980 e 1982, a fim de propiciar à IUCN "um
enfoque mais avaliado à ação de conservação".77 documento era baseado nos mesmos princípios que a
WCS.78
O lançamento simultâneo da WCS em 40 países ou mais em março de 1980 confirmou a tendência já
evidente para uma reapreciação da política num nível organizacional dentro da IUCN e num nível conceitual
no movimento conservacionista como um todo. Naquilo que dizia respeito à IUCN, 25 anos haviam-se
passado desde que seu nome fora mudado de "proteção" para "conservação" da natureza e dos recursos
naturais, mas até o lançamento da WCS, "não existia verdadeiramente uma plataforma amplamente aceita
que refletisse essa mudança, nem uma base de referência para reconciliar as exigências clássicas da proteção
da natureza e as do progresso econômico sustentável".79 A definição das metas da IUCN, na opinião de
Talbot, já se fazia necessária há muito tempo. O lançamento da WCS deu substância à reformulação da
agenda da IUCN. A IUCN estabeleceu dois novos empreendimentos na seqüência imediata da estratégia. Em
abril de 1981 foi criado dentro da IUCN o Centro de Conservação para o Desenvolvimento, a fim de
promover a integração da conservação no planejamento e implementação do desenvolvimento econômico.
Sua primeira ação concreta quanto à avaliação de impacto ambiental foi um projeto de consultoria para
ajudar o Conselho de Recursos do Zimbabwe a apreciar o desenvolvimento de fontes de energia alternativas.
Em janeiro de 1982 a IUCN estabeleceu o Serviço Ambiental Conjunto com o IIED, a fim de ajudar os
países menos desenvolvidos a criar ou fortalecer o planejamento, a educação, as ONGs e as estruturas legais,
desse modo aprimorando sua capacidade de promover o planejamento ambientalmente correto do uso do
solo e a avaliação de impacto ambiental, principalmente junto a governos de países menos desenvolvidos e
organismos de desenvolvimento internacionais.
Segundo admitem seus autores, a WCS foi um documento de compromisso. Não apenas representava
um consenso dos membros da IUCN e dos organismos envolvidos na sua preparação, mas empreendia o
estabelecimento de prioridades para conservacionistas com interesses diferentes e tentava chegar a um ponto
de acomodação entre a conservação e o desenvolvimento. Dava também uma visão genérica e simplificada
dos problemas e questões envolvidos. A meta da estratégia era "ajudar a impulsionar a conquista de um
desenvolvimento sustentável através da conservação dos recursos vivos".80 Era necessária, diziam seus
elaboradores, (a) devido ao ritmo em que os recursos estavam sendo

167

destruídos ou exauridos, (b) devido ao ritmo em que a demanda estava crescendo, (c) porque a ação corretiva
levaria tempo para ser implementada e mostrar resultados, e (d) porque os prognnas nacionais e
internacionais de conservação existentes eram inadequadamente organizados e fragmentários, exercendo
pouca influência sobre o processo de desenvolvimento. A estratégia era dirigi da a elaboradores de políticas
governamentais, conservacionistas e incrementadores do desenvolvimento (inclusive organismos de ajuda,
indústria e comércio). A conservação foi definida como "a administração do uso humano da biosfera de
modo que esta possa produzir os maiores benefícios sustentáveis para as gerações atuais, embora mantendo
seu potencial para atender às necessidades e aspirações das gerações futuras". Isso abrangia "preservação,
manutenção, utilização sustentável, restauração e aprimoramento do meio ambiente natural". Os objetivos
específicos de conservação, conforme traçados pela WCS, eram:

1) A manutenção de processos ecológicos essenciais e sistemas de sustentação da vida, tais como solo,
florestas, sistemas agrícolas e sistemas litorâneos e de água doce. Isso significava reservar boas terras
aráveis para o cultivo, administrar as terras aráveis segundo padrões altos e ecologicamente corretos,
proteger os divisores de águas e a vida marinha litorânea e controlar os despejos de poluentes.

2) A preservação da diversidade genética para projetos de procriação na agricultura, manejo de florestas


e vida marinha. Isso significava evitar a extinção de espécies, preservar tantas variedades de plantas
de cultivo e forragem quanto possível, além de árvores produtoras de madeira, animais para a
aquacultura, micróbios e outros organismos domesticados e seus parentes selvagens, proteger os
parentes selvagens de espécies economicamente valiosas e outras que sejam úteis, como também
seus hábitats, adequar as necessidades dos ecossistemas ao tamanho, distribuição e administração das
áreas protegidas e coordenar programas nacionais e internacionais de áreas protegidas.

3) Assegurar a utilização sustentável de espécies e ecossistemas. Isso significava garantir que a


utilização não excedesse a capacidade produtiva das espécies exploradas, reduzir as produtividades
excessivas a níveis sustentáveis, reduzir a coleta incidental, manter os hábitats de espécies
exploradas, regulamentar o comércio internacional de espécies selvagens, distribuir cuidadosamente
as concessões madeireiras e limitar o consumo de lenha, como também regulamentar as quantidades
de gado nas terras de pastagem.

A estratégia começava reiterando a visão de que a conservação e o desenvolvimento há muito tempo vinham
sendo encarados como incompatíveis e que os conservacionistas haviam alimentado essa visão ao parecerem
resistir ao desenvolvimento. Os incrementadores do desenvolvimento, em conseqüência, passaram a ver a
conservação como sendo irrelevante, perniciosa e anti-social. Na realidade, argumentava a estratégia, o
desenvolvimento que fosse sustentável e capaz de atender em particular às necessidades das populações
rurais pobres do mundo teria que ser baseado na conservação correta: "existe uma íntima relação entre o
fracasso na realização dos objetivos de conservação e o fracasso na realização de objetivos de
desenvolvimento econômico e social - ou, tendo estes sido realizados, na sustentação dessa realização". A
WCS definiu as áreas prioritárias para a ação internacional:

1) Assistência internacional e legislação. Embora houvesse mais de quarenta convenções multilaterais para
lidar com a administração de recursos vivos, poucas tinham a conservação como seu objetivo básico.

168

2) Administração mais eficiente das florestas tropicais e terras áridas.


3) Um programa global para a proteção de áreas de recursos genéticos.

4) Administração mais eficiente das áreas comuns globais - o oceano aberto, a atmosfera, a Antártica e o
oceano meridional.

5) Estratégias regionais sobre mares e bacias fluviais internacionais.


Tudo na WCS tinha, por seu turno, a meta subjacente do desenvolvimento sustentável.

A nível nacional as prioridades incluíam as estratégias nacionais de conservação, a integração da


conservação com o desenvolvimento, planejamento ambiental, legislação e uma análise da organização,
treinamento e pesquisa, participação pública, educação e desenvolvimento rural baseada na conservação. As
estratégias nacionais de conservação (NCSs - National Conservation Strategies) eram promovidas pela
IUCN como o melhor meio pelo qual os países poderiam encontrar individualmente sua via para o
desenvolvimento sustentável. Preparar uma NCS seria idealmente um empreendimento cooperativo, no qual
tomariam parte os organismos do governo, as ONGs, os interesses privados e a comunidade. Desse modo, a
IUCN esperava, "os interesses setoriais perceberão melhor sua inter-relação com outros setores ... De fato, a
não ser que os responsáveis pela implementação da estratégia tenham se envolvido no processo e estejam
convencidos de sua mensagem, o efeito final da NCS será severamente limitado".81 Além disso, observava a
IUCN, uma NCS não deveria e não poderia ser produzida segundo fórmulas pré-definidas - países diferentes
tinham necessidades diferentes. A IUCN esperava que os governos assumissem a responsabilidade de
preparar as NCSs, uma vez que seriam os responsáveis por sua implementação. A nação não era a única
unidade para a estratégia - estratégias provinciais locais ou estratégias conjuntas de países eram igualmente
viáveis. A IUCN, o UNEP, a FAO e a UNESCO se colocavam à disposição para fornecer orientação e
assistência técnica.
Em setembro de 1983 a IUCN comunicou que 32 países (dos quais, dez mais desenvolvidos) haviam
realizado algum tipo de ação relativa às estratégias nacionais de conservação. Destes, 14 estavam
"considerando" a necessidade de uma NCS, 15 haviam começado ou completado versões iniciais e três
(África do Sul, Espanha e o Reino Unido) haviam completado e lançado estratégias nacionais. A
contribuição da Grã-Bretanha era verborrágica e sinuosa - não constituía um bom prenúncio para a qualidade
das estratégias nacionais em geral. Dentre 41 países que em 1987 já haviam tomado atitudes ou estavam
pensando em tomá-Ias, apenas mais cinco - Austrália, Madagascar, Nova Zelândia, Vietnam e Zâmbia -
haviam publicado uma NCS.82 Desse modo, sete anos depois do lançamento da Estratégia de Conservação
Mundial, somente oito países (dentre mais de 160) haviam tomado atitudes concretas. Havia claramente
muito mais a ser feito antes que a WCS pudesse ser aclamada como um marco de transformação real. O
próprio programa de assistência técnica da IUCN havia-se dedicado quase que inteiramente aos países
menos desenvolvidos, onde obteve êxito apenas limitado, por quatro motivos:

1) Os pedidos inciais de assistência eram normalmente feitos por ministérios de recursos naturais ou do meio
ambiente, e não através de autoridades responsáveis pelo planejamento central do desenvolvimento.
Conseqüentemente os organismos de ajuda para o desenvolvimento encontravam dificuldade em fornecer
apoio financeiro. As autoridades responsáveis pelo planejamento estavam mais inclinadas a tratar de projetos
mais convencionais - tais como energia, indústria, agricultura e desenvolvimento rural - do que a considerar
a logística de requisitar apoio financeiro para o desenvolvimento de uma estratégia de conservação.

169

2) A concretização e manutenção de uma visão de longo prazo quanto ao planejamento foi retardada pelas
freqüentes mudanças de governo nos países menos desenvolvidos.

3) Os interesses que apoiavam o crescimento econômico e o retorno rápidos eram muitas vezes mais
poderosos, mais bem organizados e mais concentrados do que aqueles que promoviam a prevenção da
degradação ambiental.
4) O impacto da demanda dos países mais desenvolvidos sobre a base global de recursos foi considerável, de
modo que as políticas de comércio tiveram uma influência de vulto na oferta e procura de recursos nos
países menos desenvolvidos.

Retrospectivamente a estratégia poderá ser vista como um passo útil adiante, mas em última análise
incompleto. Em alguns sentidos estava atrasada para seu tempo e excessivamente restrita à visão mais
estreita e tradicional da IUCN em relação ao mundo natural. No final da década de 1970 já era claro que a
política ambiental tinha que avançar bem além da conservação da natureza e dos recursos naturais, entrando
na esfera do meio ambiente humano; Estocolmo tinha deixado isso muitíssimo evidente. A WCS foi um
primeiro passo útil e administrável (ainda que, em última análise, de utilidade e praticidade variáveis);
porém, em realidade, o mundo teria necessidade de uma Estratégia Mundial de Meio Ambiente de alcance
mais amplo.

170
FOLHA EM BRANCO
171

NOVE
O Meio Ambiente Global

Nos meados da década de 1970 poucos países poderiam afirmar que não haviam sido afetados, se é que
havia algum que não o tivesse sido, por algum tipo de problema ambiental. Rica ou pobre, industrial ou
agrária, autoritária ou democrática, socialista ou capitalista, quase todas as sociedades sentiam-se compelidas
a reavaliar suas atitudes em relação à administração de recursos e à condição do meio ambiente humano.
Favorecida pelo aprimoramento da coleta e análise de dados, a consciência dos problemas nacionais havia
crescido a um ponto em que se tornava claro que existiam muitos problemas ambientais comuns a mais de
um país, ou transnacionais e até mesmo globais. Questões como a poluição marinha, caça às baleias,
produção pesqueira, desertificação, poluição ácida, destruição da camada de ozônio e a escalada do dióxido
de carbono não podiam ser resolvidas por governos isolados agindo por conta própria. O debate sobre a
precipitação nuclear nos anos 50 havia servido para despertar a atenção nesse sentido. A resposta óbvia era
uma maior cooperação internacional.
Estocolmo havia propiciado um impulso poderoso ao internacionalismo. Num pronunciamento sobre
política externa em 1970 Richard Nixon havia dito: "Sabemos que temos de agir como um mundo uno na
restauração do meio ambiente mundial, antes que a poluição dos céus sufoque todas as nações."1 Em 1972
Falk observou que justamente porque os impactos mais manifestos dos problemas ambientais foram
verificados no nível doméstico, estes não eram "potencialmente os mais graves tanto para os Estados Unidos
quanto para o mundo”2. Em sua Mensagem Ambiental ao Congresso em maio de 1977 o presidente Carter
observou a compreensão crescente de que os problemas ambientais não paravam nas fronteiras nacionais e
orientou o CEQ e o Departamento de Estado para que estudassem as mudanças prováveis na população
global, recursos naturais e no meio ambiente para o final do século. Suas conclusões serviriam como base
para a política de planejamento de prazo mais longo dos EUA. O estudo resultante, The Global 2000 Report
to the President, foi submetido à presidência em 1980.

GLOBAL 2000 E THE RESOURCEFUL EARTH

O Global 2000 concluiu que havia "um potencial de problemas globais de proporções alarmantes até o ano
2000", que eram necessárias mudanças na política pública e que, "dada a urgência, a amplitude e a
complexidade dos desafios diante de nós, os esforços agora em curso em todo o mundo situam-se muito
aquém do que é necessário. Uma era de cooperação e compromisso globais sem precedentes é essencial. As
mudanças

172

necessárias ultrapassam as capacidades de qualquer nação isolada".3 O Global 2000, como observaram
corretamente seus autores, não foi a primeira investigação do governo dos EUA sobre o futuro dos recursos
naturais. A Comissão Nacional de Conservação, de Theodore Roosevelt, a Junta de Recursos Nacionais, de
Franklin D. Roosevelt, e a Comissão de Políticas para Materiais, de Truman, haviam examinado questões
semelhantes embora menos abrangentes. O Global 2000 era, contudo, a primeira tentativa por parte de
qualquer governo em qualquer parte do mundo de examinar a interdependência entre população, recursos e
meio ambiente a partir de uma perspectiva global de prazo mais longo. Cleveland acha que a importância
real do Global 2000 reside não na descoberta e extrapolação de tendências conhecidas em categorias
familiares, mas no fato de que um governo nacional isolado havia transformado projeções sobre uma
variedade de questões em "um pacote que força ou pelo menos incentiva fortemente uma visão
abrangente"4.
Embora não tenha empreendido a realização de previsões, o esboço de projeções no tempo futuro fez
com que o Global 2000 soasse muito como um documento previsor.5 O relatório advertia que se "as
tendências atuais continuarem o mundo no ano 2000 será mais populoso, mais poluído e mais vulnerável a
rupturas do que o mundo em que vivemos agora. Pressões graves envolvendo população, recursos e meio
ambiente são claramente visíveis adiante. A despeito da maior produção material, os povos do mundo serão
mais pobres do que são hoje em muitos sentidos"6.
Especificamente, o relatório concluiu que no ano 2000:

1) a população do mundo aumentaria em 50%, sendo o crescimento maior nos países menos desenvolvidos;

2) a distância entre os ricos e os pobres - medida em termos de PNB per capita e de consumo de alimentos,
energia e minerais - se ampliaria;

3) haveria menos recursos disponíveis - particularmente terra, água e petróleo;

4) importantes ecossistemas sustentadores de vida - tais como florestas, atmosfera, solo e espécies selvagens
- seriam reduzidos;

5) os preços de muitos dos recursos mais vitais aumentaria;

6) o mundo seria mais vulnerável aos desastres naturais e a rupturas por causas humanas.

Enquanto o Global 2000 delineava os problemas, as soluções possíveis foram listadas num documento
subseqüente, Global Future: Time to Act. 7 Foram dadas três razões pelas quais os Estados Unidos deveriam
se interessar pelos problemas do empobrecimento em termos de recursos globais e da degradação ambienta!:
a questão moral da pobreza e da miséria para os povos mais pobres do mundo; o argumento freqüentem ente
citado das "gerações futuras"; e interesse próprio, tendo em vista a ameaça à segurança econômica e política
dos EUA. De uma maneira geral, Global Future recomendava um aumento da assistência financeira e
científica por parte dos Estados Unidos a programas internacionais, juntamente, em alguns casos, com a
demonstração de um bom exemplo em casa (por exemplo, através do uso sustentável de suas terras agrícolas
e de um trabalho no sentido de assegurar que 20% da energia dos EUA fosse derivada de recursos
renováveis até o ano 2000).
Se havia uma lição clara a ser aprendida a partir do esforço do Global 2000, observavam os autores
do Global Future, era que o governo dos Estados Unidos carecia da capacidade de prever e reagir
efetivamente a questões globais. Portanto - entre outras coisas - era preciso que houvesse mudanças nas
instituições governamentais. Os autores recomendavam

173

a criação de um novo centro do governo para coordenar a coleta e modelagem de dados, a fim de dar
sustentação à análise de políticas globais de longo prazo, a criação de um novo escritório na Casa Branca,
dedicado exclusivamente a questões globais de longo prazo, e de uma comissão de coordenação inter-
organismos, bem como a atribuição de tais tarefas ao CEQ. Mas nenhuma dessas recomendações foi
instituída, pois a administração Reagan havia então assumido o poder e decidiu ignorar o Global 2000.
O relatório teve também seus detratores fora da admininistração Reagan. Na tradição dos críticos
anteriores dos profetas do apocalipse, vieram os new Pollyannas, comandados pelo professor Julian Simon,
um economista da Universidade de Illinois e, depois, de Maryland, e Herman Kahn, do Instituto Hudson, de
Nova York. Em 1981 Simon argumentava que embora houvessem sido observados sinais constantes de
deterioração dos recursos naturais e crescimento das necessidades humanas, as tendências em ambas as áreas
eram na realidade positivas; os autores do Global 2000 não ofereciam evidências convincentes para sustentar
sua posição, e os fatos, conforme a leitura que ele fazia, apontavam precisamente na direção oposta.8 Como
Simon, Kahn e Schneider argumentavam que a reação em geral positiva ao Global 2000 servia para reforçar
o pessimismo predominante da sociedade. Declaravam-se preocupados com os efeitos de relatórios como o
Global 2000 sobre o moral social, os quais, achavam eles, eram inspirados por "preconceitos, sentimentos de
culpa e interesses de classe (...) dos afluentes, da elite e dos privilegiados". Consideravam o Global Future
como mais comedido e razoável, "talvez porque parece refletir mais o pensamento de burocratas do que as
predisposições de ambientalistas profissionais".9
Em 1983 Simon e Kahn trabalharam brevemente em colaboração para compilar The Resourceful
Earth, 10 dirigido não tanto a ser uma avaliação ou crítica do Global 2000 quanto uma visão alternativa. Em
seu comentário questionavam todas as conclusões principais do Global 2000 e argumentavam, como já
fizera Maddox antes (ver capítulo 4), que muito mais crédito deveria ser dado à engenhosidade humana na
solução de problemas. Era um ponto válido mas - nesse caso, como em outros - Simon, Kahn e Schneider
revelavam uma percepção do mundo que era de outro modo provinciana e limitada, além de muitas vezes
baseada num uso seletivo dos dados. Por exemplo, o Global 2000 havia afirmado que as disparidades de
renda entre as nações mais ricas e mais pobres se ampliariam segundo sua projeção. Kahn e Schneider
declararam que "apenas consultando uma das tabelas estatísticas do Global 2000 o leitor pode descobrir que
se projeta para os paises menos desenvolvidos um aumento per capita do PNB de 382 dólares em 1975 para
587 dólares no ano 2000, ou seja, de 50% em duas décadas".11 Sem dúvida isso era verdade. Todavia, essa
mesma tabela 12 mostra a projeção de que em paises mais desenvolvidos o PNB per capita durante o mesmo
período aumentará em 96%, e que, enquanto o PNB per capita de 1975 nos países mais desenvolvidos era
mais de onze vezes maior do que nos países menos desenvolvidos, até o ano 2000 o mesmo chegaria a ser
mais de 14 vezes maior. Isso apóia claramente a conclusão do Global 2000.
Simon e Kahn, por sua vez, sugeriam que "os povos do mundo" tinham rendas cada vez mais altas,
habitações melhores, mobilidade, melhores estradas e mais veículos. Se acreditarmos que aqueles norte-
americanos, europeus ocidentais e japoneses que têm emprego são "os povos do mundo" isso é verdade.
Contudo isso patentemente não é verdade em muitos paises menos desenvolvidos. Simon e Kahn também
alegaram que a renda em países mais pobres estava aumentando numa taxa percentual tão grande ou maior
do que nos países mais ricos. Entretanto um pais muito pobre encontraria dificuldades para não aumentar sua
renda proporcionalmente mais rápido do que um muito rico, simplesmente porque começou de uma base
muito mais limitada. Embora a taxa de crescimento projetada nos paises menos desenvolvidos entre 1975 e
1985 fosse de 5% (comparada aos

174

3,9% dos mais desenvolvidos), havia uma diferença considerável entre o PNB projetado para países mais
desenvolvidos e países menos desenvolvidos - respectivamente 7.150 dólares e 1.841 dólares.

ACORDOS QUANTO AO MEIO AMBIENTE GLOBAL

Uma medida da importância recém-percebida das reações multinacionais a questões ambientais foi o
crescimento do número de tratados e acordos internacionais na década pós-Estocolmo. Foram firmados
quase tantos acordos internacionais novos quanto haviam sido firmados nos sessenta anos precedentes (ver
Tabela 4). Um registro do UNEP de 1984 13 lista 108 acordos, dos quais 58 datam do período 1971-1983. A
lista mais abrangente compilada em 1985 por Burhenne 14 inclui 257 tratados multilaterais, duzentos (77%)
dos quais foram assinados depois de 1960 e 108 destes (42% do total) depois de 1970. Tal proliferação era
função de quatro fatores principais:

1) o trabalho dos novos organismos ambientais nacionais e o crescente corpo de leis nacionais;

2) a disponibilidade de dados melhores - e mais impressionantes;


3) a influência da maior consciência pública;

4) a tendência no sentido de uma maior cooperação internacional em relação a uma grande variedade de
questões.

Mas a qualidade dos novos acordos e leis nem sempre correspondia à quantidade. O sucesso de qualquer
acordo deve ser medido pelo nível de cumprimento efetivo dos signatários. Isso, por sua vez, é função da
eficiência da fiscalização, a qual é uma função dos recursos financeiros e de pessoal disponíveis, o que é
função da vontade política. Segundo tal parâmetro os tratados internacionais com dimensão ambiental
variaram em sua eficácia do Tratado de Proibição dos Testes Parciais (cumprimento total), passando pela
Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies em Extinção da Fauna e da Flora Selvagens (CITES
- Convention on lntemational Trade in Endangered Species -; progresso constante, com a vantagem de um
secretariado e um financiamento razoavelmente forte), até a Convenção das Wetlands (pouco progresso,
poucas obrigações legalmente compulsórias e ausência de secretariado).
A maioria dos tratados internacionais, especialmente acordos multilaterais, é minada por três
fraquezas principais. Primeiro, há o problema da fiscalização. Embora os tratados internacionais sejam por
definição regras firmes e compulsórias com força de lei, seu cumprimento não pode ser fiscalizado da
mesma maneira que no caso das leis domésticas.15 Em muitos casos, o apelo é feito menos em relação à
letra da lei e mais à moralidade e a "jogar o jogo" - os signatários são tão influenciados como por qualquer
outro motivo pelo opróbrio de atrair as críticas de outros membros caso não respeitem o espírito de um
acordo. As primeiras convenções européias, a Convenção do Hemisfério Ocidental e a Convenção Africana
de 1968 tornaram-se "convenções adormecidas" porque nenhuma delas havia estabelecido sistemas
adequados de fiscalização ou administração.16 Se as negociações não conseguem resolver uma disputa, os
estados podem recorrer à arbitragem internacional ou, mais. raramente, à Corte Internacional de Justiça. De
modo geral, o melhor meio de assegurar o cumprimento é através de mecanismos não judiciais, por exemplo,
reuniões regulares das partes envolvidas numa convenção (o que ás relembra dos dispositivos do tratado); o
estabelecimento de órgãos administrativos para supervisionar o tratado e exigências de relatórios regulares.
Lyster observa também a influência das ONGs no aprimoramento do cumprimento dos tratados; ao
comparecer às reuniões de signatários as ONGs não apenas oferecem especialização técnica como podem
policiar a implementação de convenções e divulgar contravenções ou discrepâncias.17
A segunda fraqueza dos tratados internacionais é estrutural: à medida que os objetos dos tratados se
tornaram mais complexos seus conteúdos também se tornaram menos precisos e sua efetividade menos
previsível.18 Haigh cita o exemplo da convenção sobre poluição do ar transfronteiriça de longo alcance (ver
adiante). Uma comparação do texto da convenção com aquele sobre o qual foi modelado - uma convenção
do Conselho Nórdico - revela que o maior número e variedade de partes contratantes produziu uma
convenção menos precisa, menos restritiva e com menor probabilidade de ser efetivamente fiscalizada do
que a sua progenitora.19
Finalmente, uma vez que o acordo tenha sido ratificado há o problema de transformar seus princípios
em leis nacionais e, depois, de realmente implementar a lei nacional. Devido ao fato de tratados e
convenções muitas vezes não serem mais do que acordos em princípio, influenciados (e mesmo
enfraquecidos) pela necessidade de acomodar as diferentes prioridades das nações signatárias, existe
freqüentemente uma grande diferença entre o que é acordado durante as negociações e o que é
subseqüentemente considerado aceitável pelos parlamentos nacionais.20 Tratados tais como a CITES, por
exemplo, dependem para sua implementação de uma lei interna, a qual por sua vez depende da efetividade
dos órgãos governamentais, a qual é quase universalmente limitada (ver capítulos 7 e 8). A negociação que
precede um acordo internacional com freqüência resulta em um texto tão geral e. não específico que cada
estado pode interpretá-Io sob sua

176

própria ótica, produzindo legislações nacionais e resultados diferentes." A Declaração de Estocolmo oferece
alguns exemplos. O Princípio 3 observa que "a capacidade de produzir recursos vitais renováveis da Terra
deve ser mantida e,sempre que for praticável, restaurada ou melhorada" (ênfase minha); o Princípio 16
destaca a necessidade de aplicar políticas demográficas "que sejam consideradas apropriadas pelos governos
em questão"; o Princípio vinte um (21) observa que os estados têm, de acordo com os princípios das leis
internacionais, "o direito soberano de explorar seus próprios recursos segundo suas próprias políticas
ambientais" .
Alguns dos efeitos dessas fraquezas são ilustrados pelo histórico irregular dos tratados internacionais
relativos à vida selvagem e ao meio ambiente natural. Entre 1900 e 1980 foram firmados 18 desses tratados,
dez deles entre 1968 e 1980 (ver Tabela 5). Os quatro acordos geralmente encarados como mais importantes
22 foram os relativos às wetlands, à herança natural e cultural mundial, comércio internacional de espécies
ameaçadas e espécies migratórias, todos assinados entre 1971 e 1979.
A convenção das wetlands foi o primeiro tratado a visar a uma participação de âmbito
verdadeiramente mundial e o primeiro a se preocupar exclusivamente com o hábitat.23 Elaborado para
proteger uma cadeia global de wetlands usadas por aves aquáticas em suas migrações anuais, foi assinado
em 2 de fevereiro de 1971 e entrou em vigor em 21 de dezembro de 1975. Diferentemente de convenções
anteriores que se referiam ao hábitat, as quais enfatizavam a separação de áreas protegidas exclusivas, a
convenção enfatizava o uso sustentável; a única restrição que colocava quanto ao uso das wetlands era que
seu caráter ecológico não deveria ser prejudicado. Maltby observa que a convenção foi um primeiro passo no
sentido de definir obrigações internacionais sobre as decisões de administração da terra de estados
soberanos.24 A convenção ajudou a evitar o desenvolvimento nas wetlands listadas como de importância
internacional; por exemplo, os planos para represar o rio Ouse, na Grã-Bretanha, em 1976, foram alterados
quando se assinalou que as Ouse Washes estavam listadas na convenção.25 Mas o instrumento tinha também
muito poucas obrigações legalmente compulsórias para as partes envolvidas (Lyster observa que exigir que
as partes "promovam a conservação das áreas listadas" não as obriga legalmente a garantir que as wetlands
listadas sejam de fato protegidas)26. As partes têm se mostrado relutantes em incluir mais do que uma ou
umas poucas áreas, e os participantes não europeus têm sido muito poucos (particularmente os das regiões
tropicais).27 A convenção também tem carecido de financiamento adequado e de um secretariado.
A Convenção da Herança Mundial, que é administrada pela UNESCO e entrou em vigor em 17 de
dezembro de 1975, é dirigi da à proteção dos sítios naturais e culturais de significação global. A convenção é
um tanto limitada por sua seletividade; os sítios listados têm que ser considerados tanto como sendo de valor
nacional quanto universal. Mas a listagem dá aos sítios um valor de prestígio que oferece às partes mais
pobres a perspectiva de receber assistência técnica e financeira para a proteção dos sítios.28 (Em 1985 o
futuro da convenção foi posto em dúvida com a saída dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha da UNESCO;
os Estados Unidos vinham contribuindo com 25% do orçamento anual do World Heritage Fund.) A
Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies em Extinção, que foi assinada em 6 de março de
1973 e entrou em vigor em 12 de julho de 1975, visa regulamentar ou impedir o comércio de uma lista
especificada de espécies vegetais e animais selvagens ameaça das ou em perigo. Em 1985, 87 estados faziam
parte da CITES, a qual tinha a vantagem de possuir um secretariado pago trabalhando em tempo integral,
inicialmente custeado pelo UNEP e subseqüentemente pelos participantes da CITES. A maioria das
principais nações que comerciavam com espécies selvagens havia assinado a CITES no decorrer de uma
década a partir de sua abertura para signatários.

A quarta convenção de vulto (a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias, ou Convenção de


Bonn) foi um produto direto da conferência de Estocolmo. Assinada em Bonn em 23 de junho de 1979, só
entrou em vigor em 1º de novembro de 1983, momento em que havia ficado claro que, para ser efetiva,
precisava de um grande número de signatários. Essa convenção também enfrentou restrições financeiras e
administrativas.

178.

ORGANIZAÇÕES REGIONAIS: O MEIO AMBIENTE NA EUROPA OCIDENTAL

No que se refere à fiscalização de acordos internacionais as organizações regionais ou intergovernamentais


gozam de duas vantagens claras; podem exercer pressão moral, senão legal, sobre os governos nacionais e
propiciam continuidade administrativa (a OEA e a Convenção do Hemisfério Ocidental sendo exceções
notáveis). A Europa Ocidental tem uma abundância de OIGs e ONGs, muitas das quais se voltaram para
questões ambientais. A poluição do ar, por exemplo, foi abordada pelo Conselho Nórdico, pelo órgãos
especializados da ONU, pela Comissão Econômica da ONU para a Europa, pela OECD e até mesmo pela
OTAN. Declarando sua intenção, em 1970, de passar da busca do crescimento econômico pelo crescimento
em si para a busca do crescimento qualitativo, a OECD criou um Comitê Ambiental para coletar
informações a serem incorporadas ao processo de tomada de decisões e elaboração de políticas da OECD.
Os europeus conseguiram chegar a um acordo em relação aos problemas por eles compartilhados -
particularmente quanto à poluição do ar, dos rios e do oceano - mais rapidamente do que poderia ter sido o
caso em quase qualquer outra parte do mundo. O primeiro organismo de importância na Europa e o primeiro
organismo internacional de base ampla em qualquer parte do mundo29 a se interessar pelo meio ambiente
foi o Conselho da Europa (fundado em 1949). O conselho criou o European Committee for Conservation of
Nature and Natural Resources em 1963 para traçar um plano de ação para a administração dos recursos
naturais da Europa. No mesmo ano, em seguida ao sucesso da Semana Nacional da Natureza na Grã-
Bretanha, o conselho declarou 1970 como o Ano Europeu da Conservação (ECY - European Conservation
Year) com o objetivo de promover um senso comunal europeu da extensão e do valor dos recursos naturais
da Europa, do caráter das capacidades destrutivas do homem e da necessidade de administração correta de
longo prazo. O ECY promoveu a consciência pública e influenciou a opinião política no período que
antecedeu Estocolmo, como também gerou uma série de conferências ministeriais européias sobre o meio
ambiente (Viena em 1973, Bruxelas em 1976, Berna em 1979 e Atenas em 1982). O ECY também propiciou
um foco para o debate sobre população, poluição e crescimento; "portanto, por acidente, o questionamento
radical da adequação da custódia dos recursos naturais pelo homem e dos benefícios da ciência e da
tecnologia ganhou um público mais amplo e mais voltado à conservação", observa Haigh.30
Mas o ECY também tinha seus críticos. "Só conversa e pouca ação - esta é a situação das coisas no
Ano Europeu da Conservação", assinalava o porta-voz de meio ambiente da oposição na Grã-Bretanha,
Christopher Chataway.31 "Os cínicos já o estão chamando de Ano Europeu da Conversação", observou
Robert Allen no Ecologist. Embora concedesse que o ECY havia "propiciado um novo alento aos
conservacionistas, trazendo-os de volta das áreas selvagens que eles tão seriamente se esforçam para
proteger", Allen alegava que, no fechamento do ano, a maioria dos políticos bavia contornado suas
implicações mais profundas e que, tivesse o governo britânico o levado mais a sério, já teria acontecido
alguma ação política construtiva.32
Em 1967, O Conselho da Europa estabeleceu um European Information Centre for Nature
Conservation dentro do comitê para a conservação, a fim de promover a consciência do meio ambiente.
Finalmente, um projeto para criar uma rede de reservas naturais européias representativas levou à elaboração
da Convenção sobre a Conservação da Vida Selvagem e dos Hábitats Naturais Europeus (a Convenção de
Berna), a qual foi aberta para os signatários em 1979 e entrou em vigor em 1982. O conselho também
promoveu a conservação arquitetônica, planejamento urbano, planejamento regional e controle da poluição
(por exemplo, a Carta da Água de 1968 e a Carta do Solo de 1972).
Por causa de seus poderes únicos de criar compromissos de legislação para seus estados

179

membros sem análise ou ratificação adicional, a Comunidade Econômica Européia (CEE) é o organismo
regional com maior potencial para tomar medidas efetivas quanto ao meio ambiente europeu. Quando a Grã-
Bretanha entrou para a Comunidade em 1970, existiam aqueles que temiam que isso pudesse ter implicações
ambientais indesejáveis; Brian Johnson sugeriu que o crescimento econômico constante mas lento da Grã-
Bretanha a havia deixado essencialmente verde e agradável apesar dos rigores da Revolução Industrial (a
Grã-Bretanha possuía menos cobertura florestal do que qualquer outro estado membro, exceto a Irlanda, e
vinha perdendo vida selvagem e hábitats constantemente desde a Segunda Guerra Mundial); a doutrina do
crescimento econômico adotada pela Europa criaria tantos problemas para a Grã-Bretanha quantos
resolveria, ele argumentava, e as perspectivas ambientais totais da Grã-Bretanha poderiam ser "negociadas e
se perder nas transações político-econômicas em bloco como a federação da Europa".33
A despeito de todos os seus problemas emergentes (notadamente os que resultaram de políticas
agrícolas inoportunas), a Comunidade conseguiu realizar ações positivas quanto ao meio ambiente. Isso
começou em outubro de 1972 quando uma reunião dos chefes de estado e governo da CEE concluiu que o
desenvolvimento econômico havia resultado em desigualdades nas condições de vida dentro da
Comunidade, que a base ecológicadesse desenvolvimento estava ameaçada, que a expansão econômica não
era um fun em si mesma e que se deveria prestar mais atenção às metas sociais tais como a qualidade de
vida. Portanto eles se declararam favoráveis a uma política ambiental européia. Desde então tem havido um
corpo constantemente crescente de diretivas, regulamentações e decisões quanto à poluição da água, do ar e
sonora, resíduos, substâncias químicas, vida selvagem e áreas rurais - entre cinqüenta e cem até 1985,
dependendo dos critérios utilizados.34 Essas disposições contaram com um consenso unânime e bloqueios
apenas temporários, observa Haigh, e sem atingir o ponto de quase imobilidade que tende a afligir muitas
outras áreas da política da Comunidade. De fato, argumenta, a política ambiental "pode agora ser
considerada como uma das histórias silenciosas de sucesso da Comunidade" e está sendo vista como de
importância crescente à medida que a deposição ácida, as emissões de veículos e a movimentação de
resíduos perigosos através de fronteiras demonstra que as medidas nacionais não são suficientes.35 O efeito
de sua oficialização como membro da CEE tem sido significativo sobre a Grã-Bretanha; Haigh afirma que é
mais difícil assinalar mudanças na política ambiental doméstica britânica resultantes de Estocolmo do que
mudanças resultantes de sua oficialização como membro da CEE.36 As diretrizes da Comunidade sobre
poluição do ar introduziram o conceito de padrões de qualidade do ar na Grâ-Bretanha37 e algumas das
confusões na divisão das responsabilidades domésticas entre autoridades nacionais, regionais e locais na
Grã-Bretanha foram contornadas através da transferência de certos poderes para o nível da Comunidade (por
exemplo, no estabelecimento do nível de chumbo nos combustíveis).
A política ambiental da Comunidade é determinada em grande parte pela natureza transnacional de
muitos problemas ambientais europeus. Ela objetiva, diz a CEE, colocar a expansão econômica "a serviço do
homem" através da proteção ambiental e da administração dos recursos naturais. A Comunidade usa o
Princípio do Poluidor Pagá, está desenvolvendo um projeto de mapeamento ecológico e propôs a introdução
de avaliações de impacto ambiental no estilo das dos EUA. O Primeiro Programa de Ação (1973-1977)
concentrou-se no controle da poluição e perturbações, enquanto o Segundo Programa de Ação (1977-1981)
era baseado no princípio de combinar considerações ambientais com políticas econômicas.38 O Terceiro
Programa de Ação (1982-1986) incluía propostas de coordenação ambiental e recomendações quanto à
política ambiental externa da CEE: "A Comunidade continuará a falar em várias organizações internacionais
com uma única voz, usando com proveito a influência que adquiriu em outras áreas da cooperação
internacional (...) Mais especificamente usará essa influência para assegurar que os planos traçados no nível
internacional, tais como os do Programa de Meio Ambiente da ONU e a Estratégia de Conservação Mundial,
( ... ) sejam de fato implementados".39 O Programa prosseguia

180

assinalando. a importância da proteção. ambiental cama parte integrante da política de desenvolvimento,


Entretanto. as programas de ação. da Comunidade não. são. compulsórios para as estadas membros, não.
existe garantia de que as palavras se transformarão em ação. e nem garantia de que as membros da
Comunidade ou recipientes de ajuda da Comunidade estarão. sempre de acordo com suas prioridades.40
As atividades da CEE relativas ao. meia ambiente também têm devida muita ao. papel das ONGs.
Um canal de cooperação fundamental é a European Environment Bureau (EEB) criada em 1974
especificamente coma uma resposta ao. fato. de a Comunidade Européia ter assumida responsabilidades
ambientais 41 (ver capítulo. 5). O EEB propicia aos grupos ambientais um canal direto de acesso. à CEE. A
Comissão Européia encara a órgão. cama uma fonte de orientação e informação, e lhe fornece recursos
financeiros (a que, em certa medida, determina a estilo. de atuação. da EEB cama de argumentação.
moderada e racional, e não. de confrontação aberta). Sua situação. sob a lei belga significa que deve evitar
posturas políticas ostensivas, possui poderes limitadas de sanção. contra políticas contestadas e deve buscar
um meia-termo. entre as táticas diferenciadas das organizações que a compõem e as diversas estilos políticos
nacionais de fazer lobby.42

ACORDOS SOBRE QUESTÕES ISOLADAS: A POLUIÇÃO ÁCIDA E A CONVENÇÃO SOBRE


POLUIÇÃO DO AR TRANSFRONTEIRAS DE LONGO ALCANCE

A despeito. da quanta de acordo pode existir entre dois ou mais países em relação. a uma questão há alguns
problemas que não podem ser resolvidos de maneira nenhuma a não. ser através de acordos regionais e até
mesma globais. Em nenhum ponto isso. é tão. claramente ilustrada quanta na questão. da poluição da ar,
historicamente tratada cama um problema local. Numa tentativa de controlar a poluição da ar local na Grã-
Bretanha e em outros países industriais na década de 1950, foram construídas chaminés altas em muitas
fábricas e usinas de energia. Londres perdeu com alegria seu tristemente famoso fog amarela (sobre a qual
George Gershwin havia escrita tão. eloqüentemente), mas exatamente ao. custa de lançar a poluição mais
adiante. O dióxido de enxofre (SO2) e as óxidos de nitrogênio emitidos durante a queima de combustíveis
fósseis haviam sido há muito implicados na acidificação de salas e águas de superfície. Atualmente, coma as
pesquisas confirmaram as efeitos de longo alcance desse tipo. de poluição, a poluição ácida tornou-se uma
das questões ambientais internacionais mais sérias, causando. tensão. nas relações entre governos (por
exemplo, entre as Estados Unidos e a Canadá, entre a Grã-Bretanha e a Noruega), dividindo. países entre
poluidores e poluídos e testando. a vontade política de proteger a meia ambiente.
A poluição. ácida é freqüentemente descrita cama um problema da mundo. moderno, mas as ligações
entre as emissões industriais e a saúde de pessoas e plantas foram notadas na Inglaterrajá na século XVII par
John Evelyn eJohn Graunt.43 Eles também observaram que parte da poluição estava cruzando a canal na
direção da França e sugeriram, mesma naquela época, que fossem usadas chaminés mais altas para dispersar
a poluição, No começo do século. XVIII, a própria Linnaeus observou a poluição da enxofre próxima a uma
oficina de fundição. na Suécia. O processo da poluição ácida foi plenamente especificado. pela primeira vez
pelo químico britânico Robert Angus Smith, * que observou

* Robert Angus Smith (1817.1884) foi um químico nascido na Escócia. Educado na Alemanha, passou a maior parte de sua vida
em Manchester, ganhando a vida como químico consultor e pesquisando questões de saúde pública, tais como a contaminação dos
suprimentos de água e a poluição do ar. Durante as décadas de 1850 e 1860, delineou o processo da poluição ácida, e, durante seus
vinte anos com o Alkali Inspectorate (do qual era o primeiro inspetor), fez assídua campanha a favor de controles da poluição
industrial do ar.

181

a correlação entre a queima de carvão e a poluição ácida em Manchester e nas suas cercanias em meados do
século XIX. Ele publicou suas conclusões em 1872 em Air and Rain: the Beginnings of a Chemical
Climatology.44 Foi o primeiro a usar o termo "chuva ácida" e a descrever a conexão entre a queima de
carvão, a direção dos ventos, a corrosão e os danos da acidez à vegetação. Em 1881 um cientista norueguês
atribuiu uma "precipitação de neve suja" na Noruega a uma grande cidade ou a um distrito industrial na Grã-
Bretanha.
Já em 1942 as pesquisas sobre a precipitação ácida haviam se espalhado para a Áustria, Estados
Unidos, Canadá, Suécia, Itália e Irlanda.45 Em 1948, por instigação dos suecos, foi iniciada uma
monitoração sistemática da precipitação em âmbito europeu. Na década de 1960, Svante Oden (um cientista
especializado em solos, do Colégio Agrícola próximo a Uppsala, Suécia) demonstrou uma relação entre as
emissões industriais e os danos ao meio ambiente (principalmente aos peixes e aos lagos). Ele afirmava que
a precipitação sobre a Escandinávia estava se tornando mais ácida e que grandes quantidades dos compostos
de enxofre que causavam a acidificação provinham das emissões industriais da Grã-Bretanha e da Europa
Central. Portanto parecia concebível que os poluentes fossem capazes de viajar mil quilômetros ou mais. Em
abril de 1972 a OECD lançou um estudo de quatro anos sobre as causas, transporte e efeitos das emissões de
enxofre. Os resultados publicados em 1977 46 forneceram mais evidências das causas da poluição ácida e
confirmaram que os poluentes transportados pelo ar poderiam ser, como de fato estavam sendo, levados por
sobre fronteiras, afetando de modo verificável por medição a precipitação em outros países. Em cinco dos 11
países participantes (Finlândia, Noruega, Suécia, Austria e Suíça) estimava-se que mais de metade dos
depósitos totais de enxofre haviam vindo de fontes externas. O projeto da OECD também revelou que os
problemas não se restringiam à Europa Ocidental, mas envolviam todos os países europeus ao norte dos
Alpes.
Na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, em Helsinki, em 1975, a União Soviética
sugeriu que fossem feitas tentativas para se chegar a um acordo sobre três problemas pan-europeus: energia,
transporte e meio ambiente. Os países europeus ocidentais concluíram que apenas este último era
politicamente aceitável e a Suécia e a Noruega imediatamente aproveitaram a oportunidade de abordar a
questão da poluição do ar transfronteiras. O objetivo desses países era elaborar uma convenção sobre
poluição do ar transfronteiras de longo alcance a ser assinada por todos os estados europeus, os Estados
Unidos e o Canadá.47 A Economic Comission for Europe (ECE) da ONU foi escolhida como o melhor foro
para a discussão, principalmente porque incluía estados europeus ocidentais e orientais.
A Suécia e a Noruega queriam uma convenção forte que interrompesse o aumento de emissões de
S02 (a cláusula da "imobilização"), juntamente com uma cláusula que especificava uma diminuição do S02
em níveis percentuais fixos de até 50% (a cláusula da "regressão"). A Grã-Bretanha e a Alemanha Ocidental
objetaram à criação de controles legalmente compulsórios, a primeira porque questionava se a acidificação
escandinava era causada pela poluição britânica, a segunda porque estava relutante em ser policiada pela
ECE.48 A Alemanha Ocidental acabou aceitando uma convenção de compromisso, que consistia de
obrigações gerais dos signatários de pelo menos limitar e preferivelmente reduzir a poluição do ar, inclusive
a poluição do ar transfronteiras de longo alcance. Isso seria feito com o uso da "melhor tecnologia disponível
que seja economicamente viável" em instalações industriais novas e retroativamente adaptadas. Esses termos
- "melhor tecnologia disponível" e "economicamente viável" - subseqüentemente receberam interpretação
ampla e imprecisa.49 Finalmente a Grã-Bretanha também aceitou a convenção porque acreditava que seus
planos para uma maior participação da energia nuclear levariam a uma redução líquida das emissões e que
por isso poderia atender os termos da convenção sem alterar suas políticas energéticas ou de controle da
poluição vigentes.50 Os planos nórdicos para metas, cronogramas, exigências de diminuição e dispositivos
de fiscalização foram excluídos.

182

A Convenção sobre a Poluição do Ar Transfronteiras de Longo Alcance (a convenção LRT AP) foi
assinada em Genebra em novembro de 1979 por 33 países (incluindo a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, as
Alemanhas Oriental e Ocidental, a França e a Comunidade Européia) e entrou em vigor em março de 1983.
Desde então tem sido criticada por sua falta de poder real, porém foi a primeira vez que os países da Europa
Oriental, Ocidental e da América Norte se juntaram para assinar um acordo ambiental. Teve também o efeito
positivo de fortalecer a fundamental rede de coleta de dados européia - o Programa Cooperativo para a
Monitoração e Avaliação da Transmissão de Longo Alcance dos Poluentes do Ar na Europa. O programa,
planejado para fornecer informações sobre o fluxo transfronteiras de poluentes do ar, tem estado em
operação desde 1978; em 1985 possuía 88 estações de monitoramento em 23 países da Europa Ocidental e
Oriental.51
Para manter o ímpeto a Suécia convidou então todos os signatários da convenção para a Conferência
sobre a Acidificação do Meio Ambiente, realizada em Estocolmo em junho de 1982 (o décimo aniversário
da conferência de 1972). A conferência foi realizada em dois estágios: um encontro científico e técnico, e
um encontro ministerial. O primeiro encontro fez um escrutínio de todas as evidências quanto às causas,
transporte e efeitos dos poluentes do ar transfronteiras e concluiu que os compostos de nitrogênio e enxofre
criados pelo homem eram basicamente responsáveis pelos depósitos ácidos; uma redução das emissões sobre
uma grande região industrializada levaria a uma diminuição "aproximadamente proporcional" dos depósitos
ácidos; existia em disponibilidade comercial a tecnologia que poderia reduzir radicalmente as emissões de
poluentes do ar; e que o fato de que tecnologias aprimoradas podem vir a emergir no futuro não justifica a
espera, retardando o uso de tecnologia existente.
O encontro ministerial adotou essas conclusões, concordou que os problemas da acidificação eram
sérios e concluiu que, mesmo que os depósitos totais não aumentassem mais, os danos ao solo e à água
continuariam a aumentar, a não ser que fossem tomadas providências imediatas dentro do arcabouço da
convenção. A Alemanha Ocidental aproveitou a oportunidade para anunciar uma reversão completa de sua
política anteriormente ambígua em relação à poluição ácida: informou que tentaria reduzir à metade suas
emissões de SO2 em dez anos e que levantária a questão do meio ambiente internacional na reunião de
cúpula econômica mundial seguinte. O volte face foi atribuído ao peso crescente dos Grünen e aos primeiros
relatórios confirmados de danos generalizados às florestas da Alemanha Ocidental.52
A conferência de 1982 em Estocolmo também acelerou o processo de ratificação da convenção
LRTAP; em poucos meses todos os países da Comunidade Européia haviam-na ratificado. Mas a mesma
tinha ainda pouca substância e os países nórdicos continuavam insatisfeitos com a falta de ação política real.
Mantendo a pressão, estes propuseram então uma redução mútua de 30% das emissões de SO2 nos dez anos
do período 1983-1993, calculados a partir dos níveis de emissão de 1980. Em março de 1984 representantes
de dez países se reuniram em Ottawa para assinar uma declaração de cinco pontos empreendendo a redução
de emissões que produziam a poluição ácida. O mínimo era a redução de 30% do SO2 proposta pelos
escandinavos - portanto o acordo recebeu a alcunha de "Clube dos Trinta por Cento". Em abril de 1985,21
países já haviam entrado para o clube. *
Uma segunda conferência internacional (a Conferência Multilateral sobre Meio Am biente)

* Os membros originais eram Áustria, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha Ocidental, Holanda, Noruega, Suécia e
Suíça. A Dinamarca e a Holanda foram mais além, comprometendo-se a reduções de 40%, assim como Áustria, Canadá, França,
Alemanha Ocidental e Noruega com reduções de 50%. Em junho de 1954 os dez países receberam a adesão da Bélgica, Bulgãria,
Bielorússia, Alemanha Oriental, Liechtenstein, Luxemburgo, Ucrânia e a URSS. Em setembro aderiram também a
Tchecoslováquia e a Itália, bem como a Hungria, em abril de 1985.

183

foi realizada em Munique em junho de 1984, com o objetivo parcial de incentivar mais países a entrar para o
Clube dos Trinta por Cento. Crescia a pressão para um acordo específico sobre a redução das emissões
anuais nacionais de enxofre e. óxido de nitrogênio. No segundo encontro do conselho executivo da
convenção do LRTAP, em setembro de 1984, foram iniciados os trabalhos para elaborar um protocolo sobre
a redução das emissões de enxofre. Esse protocolo foi adotado na terceira reunião do conselho em
Helsinque, em julho de 1985, comprometendo seus signatários com um corte de 30% nas emissões nacionais
anuais de enxofre ou nos fluxos transfronteiras, até 1993 no máximo, tendo como base os níveis de 1980. Os
21 membros do Clube dos Trinta por Cento assinaram imediatamente o protocolo; a Grâ-Bretanha e os
Estados Unidos postergaram mais uma vez. Sua adesão original à convenção da LRTAP havia-se tornado
agora praticamente sem sentido.
As negociações internacionais quanto à questão da poluição ácida foram caracterizadas por três
traços principais. Primeiro, o nível do interesse e da ação dos governos era muitas vezes diretamente
proporcional ao grau de prejuízo doméstico identificado. Os países escandinavos e o Canadá - onde havia
sido confirmada a maior parte dos danos - eram os mais veementes; os alemães ocidentais alteraram a
política somente quando confrontados com provas de danos substanciais a florestas dentro de suas próprias
fronteiras; a Grã-Bretanha, onde relativamente pouco prejuízo havia sido provado ou oficialmente
reconhecido, recusava-se irredutivelmente a agir. Em segundo, os governos muitas vezes estavam menos
preocupados com a opção de agir ou não para restringir as emissões do que com os custos envolvidos e com
quem os pagaria. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos alegavam que se conhecia muito pouco sobre as
causas e os efeitos da poluição ácida para justificar os gastos com controles; a Grã-Bretanha argumentou que
já havia reduzido suas emissões de SO2 em 42% entre 1970 e 1985 simplesmente usando carvões de teor de
enxofre mais baixo, aumentando a eficiência no uso da energia e com a "reestruturação industrial"; a Polônia
(outro retardatário) alegava que por motivos econômicos havia pouca probabilidade de que pudesse reduzir
suas emissões.53
Finalmente, havia uma ausência nítida de interesse governamental em tomar providências em relação
a questões que não trouxessem benefícios nacionais imediatos. Os únicos custos seriamente considerados
pelos governos eram os envolvidos na redução das emissões. As estimativas teóricas dos custos dos
prejuízos às safras, florestas, lagos, produção pesqueira, saúde e construções aparentemente possuíam pouco
peso nas decisões políticas.
A poluição ácida mostrou-se um assunto particularmente amargo nas relações entre os Estados
Unidos e o Canadá. Uma deficiência fundamental da Lei do Ar Limpo e dos programas antipoluição dos
EUA do início da década de 1970 era que os mesmos foram elaborados principalmente para debelar altas
concentrações de poluentes próximas às fontes e não dedicavam nenhuma atenção à poluição do ar de
alcance mais longo.54 O uso de chaminés mais altas era incentivado por implicação, o que teve como
conseqüência a construção de mais de 175 chaminés de mais de 150 metros de altura entre 1970 e 1979.55
As pesquisas revelaram que do mesmo modo que a poluição ácida estava cruzando as fronteiras nacionais na
Europa também as emissões dos EUA estavam poluindo o Canadá. Em agosto de 1980 os Estados Unidos e
o Canadá assinaram um Memorando de Intenções Sobre a Poluição do Ar Transfronteiras, reconhecendo a
necessidade de ação cooperativa para reduzir a poluição. Ambos os governos concordaram em tomar
"providências provisórias disponíveis dentro das prerrogativas atuais" para combater a poluição do ar
transfronteiras; a EP A, todavia, interpretou isso como um compromisso de controlar as emissões de SO2
apenas na medida permitida pelos dispositivos da legislação doméstica.56 O memorando também estabelecia
grupos de trabalho científicos conjuntos para desenvolver um banco de dados cientifícos; quando seus
relatórios finais foram apresentados em fevereiro de 1983, havia duas séries de conclusões - uma do Canadá
e outra dos Estados Unidos. Embora ambas concordassem quanto ao papel dominante dos depósitos

184

de enxofre na degradação ambienta!, os cientistas dos EUA alegavam que eram necessárias mais pesquisas
antes que controles de emissão estritos pudessem ser impostos.
As negociações quanto a um acordo sobre a qualidade do ar entre os Estados Unidos e o Canadá
começaram em 1981. 57 No início de 1982 os negociadores do Canadá apresentaram uma primeira versão de
um tratado, baseada na diminuição de 50% das emissões de SO2 do leste do Canadá e uma "regressão"
semelhante nos Estados Unidos. Isso foi rejeitado pela delegação dos EUA em junho de 1982; os Estados
Unidos questionaram a sinceridade da disposição do Canadá para atingir uma redução tão drástica 58 e
acusaram aquele país de ser excessivamente precipitado e prematuro nas suas ações e acusações. Os
canadenses, por sua vez, acusaram os americanos de usar táticas de retardamento e questionaram o valor da
continuação das conversas com os Estados Unidos. Surgiram esperanças no Canadá devido ao retorno para a
EPA, em maio de 1983, de William Ruckelshaus, que foi orientado pelo presidente Reagan a dar prioridade
à questão da poluição ácida. Os fundos para pesquisa foram até mesmo dobrados.59 Ruckelshaus trabalhou
para produzir um plano que fosse amplamente aceitável, mas mesmo essa sugestão de cortes modestos foi
bloqueada pelo diretor do orçamento David Stockman e pelo secretário de energia Donald Hodel, que
alegaram que seria dispendioso demais para as companhias de serviços de infra-estrutura e seus
consumidores.60 O impasse continuou a causar tensão nas relações diplomáticas entre os dois países e as
declarações públicas sobre as questões foram muitas vezes caracterizadas pela linguagem rancorosa. Através
dos meados dos anos 80 a poluição ácida permaneceu sendo um dos principais pontos de disputa nas
reuniões de cúpula regulares entre norte-americanos e canadenses.

A PROTEÇÃO DAS ÁREAS COMUNS GLOBAIS: A CAMADA DE OZÔNIO

Se o acordo sobre recursos compartilhados ou problemas de poluição do ar transfronteiras parecia elusivo, o


acordo sobre o conceito muito mais nebuloso de "áreas comuns globais" parecia fora de questão - a não ser
que houvesse evidências irrefutáveis que mesmo os governos não pudessem negar. O uso dos oceanos e da
atmosfera era amplamente encarado como livre para todos; o primeiro como meio de transporte e uma fonte
de peixe e minerais, e ambos como espaços convenientes para o lançamento de efluentes. O aperfeiçoamento
da coleta de dados parecia sugerir a existência de novas ameaças à qualidade da atmosfera na década pós-
Estocolmo. A monitoração realizada desde 1957 no observatório de Mauna Loa, no Havaí, já havia revelado
um aumento na concentração de dióxido de carbono na atmosfera (CO2), de 315 partes por milhão (ppm) em
1957 para 335 ppm em 1980, ou 6% em 23 anos.61 A queima de combustíveis fósseis foi identificada como
a principal fonte, mas as pesquisas do final da década de 1970 62 sugeriram que o desmatamento e a
remoção da vegetação também eram responsáveis pela liberação do CO2. Havia mais CO2 armazenado na
biomassa da Terra do que retido pela atmosfera. Havia temores de que o aumento do CO2 poderia levar a
alterações climáticas de vulto inclusive ao chamado "efeito estufa" -, com profundas implicações sociais,
econômicas e políticas.
Temores semelhantes foram levantadós pela perspectiva de que emissões de clorofluorocarbonos
(CFCs), compostos clorados, dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio pudessem reagir com o ozônio
estratos fé rico, destruindo a camada de ozônio e conseqüentemente aumentando o nível de radiação
ultravioleta nociva que atingia a superfície da Terra. O efeito dos CFCs (compostos utilizados em
propelentes de aerosóis, refrigeração, manufatura de isopores e solventes industriais) foi delineado por dois
cientistas da Universidade da Califórnia, Mario Molina e F.S. Rowland, em 1974.63 Eles advertiram que o
uso dos CFCs estava crescendo e que as concentrações de ozônio poderiam ser reduzidas em 20%.
(Estimativas subseqüentes da Academia Nacional de Ciências, do

185

UNEP e do Conselho Nacional de Pesquisa estipularam o número em 16,5%, 10% e entre 3% e 5%


respectivamente.64 o que diz muito quanto à dificuldade de interpretar dados e identificar tendências.) Os
Estados Unidos, o Canadá e a Suécia proibiram quase que imediatamente o uso não essencial de propelentes
à base de CFCs nos sprays. A conseqüência aparente foi uma diminuição da produção global de CFCs entre
1974 e 1979, da ordem de entre 13% 65 e 17% 66 Os dados completos, porém, deixaram de estar
disponíveis a partir de 1975, quando os Estados Unidos pararam de comunicar seus níveis de produção em
resposta a uma atitude semelhante por parte da URSS, China e da Europa Oriental. As melhores estimativas
em 1985 sugeriam que a produção mundial havia subido 6% em relação aos níveis de 1979, mas ainda
estava mais baixa do que os níveis de 1974; 67 o uso aumentado em países da OECD e a produção e uso
aumentados em países que não fazem parte da OECD podem ser a explicação para isso.68
A ação sistematíca da ONU em relação ao ozônio começou com o lançamento (num encontro de
especialistas do UNEP em 1977, em Washington) do Plano Mundial de Ação para a Camada de Ozônio.
Liderado pela Organização Meteorológica Mundial, a meta do plano era aumentar o número de estações de
monitoração. O encontro também estabeleceu o Coordinating Committee on the Ozone Layer (CCOL), que
coletou informações sobre as pesquisas planejadas e em curso, publicando curtos resumos anuais no Ozone
Layer Bulletin, Em 1982 cerca de vinte países haviam agido no sentido de controlar suas emissões de
CFCS.69 Um estudo de seis desses países (inclusive a Grã-Bretanha e os Estados Unidos) sugeria que as
atitudes do público, a presença de um organismo de regulamentação forte e a influência limitada da
produção de CFCs na economia nacional eram fatores fundamentais 70. Em 1981 um grupo de trabalho de
especialistas legais e técnicos havia iniciado o trabalho relativo a uma convenção global sobre a camada de
ozônio, seguindo o padrão do Programa de Mares Regionais do UNEP. Em março de 1985 a Convenção
Global sobre a Proteção da Camada de Ozônio foi assinada em Viena por 28 países. A adoção de protocolos
sobre estratégias de controle foi impedida pelo desacordo entre a CEE e o Japão de um lado e o "Grupo de
Toronto", composto pelos Estados Unidos, Canadá, Finlândia, Noruega e Suécia do outro; os primeiros
propunham um Limite para a capacidade de produção (permitindo um crescimento de 30% na produção),
enquanto o último queria reduções mais imediatas e substanciais no uso de aerosóis e um teto na
utilizaçãopercapita.71
A questão adquiriu nova urgência com a descoberta, em 1985, por parte de cientistas britânicos, de
uma diluição (ou "buraco") na camada de ozônio da Antártica.72 O buraco era aproximadamente do
tamanho dos Estados Unidos continentais e parecia estar aumentando. Não estava claro se era causado por
CFCs, radiação solar ou condições meteoro lógicas polares. Também não havia certeza se se tratava de um
fenômeno único da Antártica ou uma advertência quanto às futuras mudanças no ozônio global.73 Os
cientistas tinham notado dez anos antes uma queda dramática nos níveis de ozônio, mas a alteração havia
sido tão nítida e anormal que terminou sendo atribuída a erro humano ou de computador.74
Em fevereiro de 1987 os representantes das principais nações industrializadas se reuniram em Viena
numa tentativa de chegar a um acordo quanto a um congelamento dos níveis de produção de CFCs e a uma
diminuição gradual a partir daí. Em abril, havia se chegado a um acordo em princípio, em seguida a uma
mudança de posição da CEE afastando-se de um cronograma mais longo para o congelamento e a redução.*
O acordo final foi alcançado a 17 de setembro de 1987, num encontro em Montreal, quando 56 países
elaboraram um acordo para em 1990 congelar nos níveis de 1986 o consumo dos cinco

* Nos Estados Unidos, enquanto isso, o ozônio - e os perigos da radiação ultravioleta e de câncer de pele - tomou-se um ponto
principal de conversas, provocadas pelo menos em parte pela descoberta de câncer de pele no presidente Reagan.

186

tipos mais comuns de CFCs, seguindo-se reduções de até 50% até o ano 2000. Dois terços dos países
consumidores de CFCs do mundo precisavam assinar o protocolo para que este entrasse em vigor. Temendo
que os não signatários fossem contemplados com uma vantagem na concorrência os Estados Unidos haviam
defendido um mínimo de 90% dos países consumidores; para fazer frente a isso o protocolo incluiu
dispositivos comerciais que permitiam que os países signatários proibissem importações relacionadas a
CFCs de países que se recusassem a assinar.75

A NECESSIDADE DE CERTEZA CIENTÍFICA

Dados científicos incompletos e inconsistentes têm sido repetidamente citados por governos e indústrias que
se opõem a medidas relativas às questões ambientais. A questão do ozônio destacou a rapidez com que os
governos poderiam, na realidade, chegar a um acordo quanto ao enfrentamento de um problema antes que os
efeitos de longo prazo estivessem plenamente compreendidos e fossem objeto de consenso; a Convenção do
Ozônio foi o primeiro acordo ambiental baseado na prevenção e não na cura. Entretanto a mesma também
enfatizou o problema de coletar e interpretar dados sobre a atmosfera. As condições atmosféricas variam
tanto no tempo como no espaço e as combinações de fatores (naturais ou causados pelo homem) envolvidas
nas mudanças atmosféricas podem ser tão complexas que a especificação de causas e efeitos pode ser muito
difícil. Ao longo do tempo as flutuações aumentam, tornando problemático saber se as mudanças são parte
de uma nova tendência ou de uma oscilação de período mais longo. Novas dificuldades surgem da ausência
de séries de registros de longa duração, dos efeitos dos fatores locais sobre as estações de controle e da
relativa falta de estações nos oceanos.76
Para o UNEP a aplicação do Plano de Ação de Estocolmo sempre exigiu um aprimoramento da
monitoração, das técnicas de coleta de dados e da troca de informações. As tentativas conjuntas de aprimorar
a qualidade dos dados haviam começado com o Programa Biológico Internacional (ver capítulo 3). Esse
programa foi encerrado em 1974, e a iniciativa passou para o programa Man and the Biosphere (MAB) da
UNESCO. Produto da Conferência da Biosfera, o MAB foi planejado para ser um programa de pesquisa
intergovernamental e interdisciplinar baseado em 14 temas, desde a interação humana com os ecossistemas
até o papel das áreas urbanas como sistemas ecológicos.77 Tinha quatro metas principais:

a) identificar e avaliar as mudanças na biosfera resultantes das atividades humanas (e os efeitos dessas
mudanças sobre o homem);

b) estudar as inter-relações entre os ecossistemas naturais e os processos sócioeconômicos;

c) desenvolver formas de medir mudanças quantitativas e qualitativas no meio ambiente a fim de estabelecer
critérios científicos para a administração regional dos recursos naturais e o estabelecimento de padrões de
qualidade ambiental;

d) incentivar uma maior coerência global da pesquisa ambiental.78

O MAB tinha um pequeno secretariado dentro da UNESCO, mas em termos reais operava através de uma
rede de 102 comitês nacionais (compostos principalmente de cientistas pertencentes a universidades ou
instituições nacionais de pesquisa) e representantes de organismos públicos e privados relevantes. O
principal órgão de elaboração de políticas do MAB era o International Coordinating Council eleito pela
Conferência Geral da UNESCO e que se reunia a cada dois anos para analisar o programa. Em 1982 o MAB

187

abrangia mil e trinta projetos de pesquisa reunindo mais de dez mil pesquisadores em setenta países.79
A coordenação e efetividade da pesquisa ambiental foi auxiliada pelo avanço na armazenagem e
recuperação de dados computadorizados. Os dados coletados eram mais precisos e exatos, e foram refutadas
muitas pressuposições anteriores baseadas em informações inadequadas. Por exemplo, ficou demonstrado
que as taxas de perda de florestas tropicais úmidas pressupostas no começo dos anos 70 eram exageradas. A
despeito de todas as suas deficiências (ver capítulo 6), o programa Earthwatch do UNEP havia contribuído
para esse progresso. A rede de pesquisa e troca de informações do MAB havia, nesse ínterim, auxiliado a
propiciar uma melhor compreensão dos vínculos entre causa e efeito nos problemas ambientais igualmente
nos níveis local, nacional e internacional. Compreendia-se mais claramente agora, por exemplo (mesmo que
dificilmente chegasse a ser uma descoberta recente), que a remoção da cobertura florestal numa encosta de
morro poderia levar à erosão do solo que poderia ocasionar o assoreamento do leito de rios a dezenas ou
mesmo milhares de quilômetros abaixo. O impacto das mudanças ambientais sobre as cadeias alimentares
foi mais bem compreendido e avaliado, assim como a mecânica de fenômenos como a poluição ácida.
Em 1979 a Organização Meteorológica Mundial em conjunto com uma variedade de órgãos
especializados da ONU, inclusive o UNEP e a FAO, lançaram o Programa Mundial do Clima, com o
objetivo de determinar a extensão da influência humana sobre o clima. Diferentes componentes do programa
contribuiriam para aprimorar a disponibilidade e confiabilidade dos dados climáticos e promover a
consideração dos fatores climáticos no planejamento de desenvolvimento. Em 1981 já havia sido criada uma
rede de 109 estações regionais de monitoração em 71 países, em cooperação com o UNEP, a fim de
monitorar, por exemplo, o CO2 e contaminantes em precipitação. Havia suspeitas crescentes de que o clima
do mundo estava mudando. A variabilidade climática é um fenômeno natural e, embora os extremos
climáticos não sejam evidência de uma mudança climática, parecia a muitos, nos anos 70 e 80, que tais
extremos estavam se tornando mais comuns: secas severas, baixa pluviosidade, alta pluviosidade, ondas de
calor, "o verão mais quente em cinqüenta anos", "o inverno mais seco/brando deste século" e assim por
diante.
Em 1986 já estava surgindo um consenso maior sobre a questão da mudança climática global.
Modelos computacionais novos e mais sofisticados sugeriam que o clima não apenas estava se tornando
mais quente, mas que isso estava ocorrendo mais depressa do que os cientistas haviam previsto.80 Havia
sugestões de que o efeito estufa poderia levar a um aumento de temperaturas de 3,5°C a 4,2°C na metade do
século XXI 81 e que os níveis globais do mar poderiam subir concomitantemente de vinte a quarenta
centímetros. 82 Os cientistas recomendaram que fossem realizados estudos regionais sobre o impacto de tais
mudanças e possíveis respostas de políticas para elas, advertindo também que a destruição da camada de
ozônio e as mudanças climáticas não podiam mais ser consideradas como questões isoladas.83
Enquanto isso os dados em outras áreas permaneceram incompletos ou pouco confiáveis. A
conservação da vida selvagem fornece um exemplo. Sem um inventário completo das espécies do mundo é
difícil saber quais estão em perigo, em que medida isso acontece e por quê. Apenas cerca de 1,6 milhão de
espécies foram classificadas e denominadas; as estimativas do total real variam de cinco a trinta milhões.84
É cada vez mais aceito que exceto nos casos das espécies mais raras, onde a procriação em cativeiro pode ser
essencial, a vida selvagem só pode ser efetivamente protegida em seu hábitat natural. Contudo esse hábitat
está sendo constantemente alterado e explorado. Dados o ritmo de destruição de hábitats e a disseminação
limitada de muitas espécies, é concebível que a extinção de espécies seja um acontecimento cotidiano. Ainda
na década de 1960, os parques nacionais eram considerados como um método eficiente de proteger a vida
selvagem; no final da década de 1970 já estava claro que poucos parques nacionais em países menos
desenvolvidos poderiam continuar a existir sem benefícios econômicos mais óbvios para as

188

comunidades locais. As áreas naturais não poderiam perdurar "como ilhas fortificadas em mares de pessoas
famintas", observou Eckholm.85 "Onde um grande número de pessoas carece de um meio de conquistar uma
vida decente, algumas delas com certeza invadirão parques nacionais para plantar alimentos e cortar madeira
(...) As reservas naturais não podem ser administradas com êxito isoladamente da sociedade local. Devem
ser planejadas dentro do contexto do desenvolvimento regional mais amplo."
Uma aspecto que causava particular apreensão era o estreitamento da base genética de muitos dos
produtos agrícolas e animais de criação do mundo, tornando-os mais vulneráveis às pragas, doenças e
mudanças do solo e do clima. A destruição das wetlands e das florestas tropicais úmidas juntamente com a
poluição das águas litorâneas constiuíam ameaças graves aos recursos genéticos selvagens. Em 1974 foi
criado em Roma o International Board for Plant Genetic Resources (IBPGR), a fim de coordenar e
incentivar a coleta, preservação e intercâmbio de materiais genéticos vegetais. O grupo fez coletas de campo
de material genético e repensou os melhores meios de conservar recursos genéticos. O registro de áreas para
conservação in situ era incompleto, e a proteção nem sempre adequada; portanto as coletas de idioplasma
exsitu eram consideradas necessárias. Muitos outros progressos foram realizados na conservação ex situ; o
IBPGR promoveu coletas de base abrangendo mais de vinte dos produtos agrícolas mais importantes do
mundo, incluindo trigo, arroz, milho e cevada.86 Em 1975 apenas oito instituições possuíam instalações para
o armazenamento de sementes por períodos longos; em 1983 esse número já havia subido para 33. 87
Em 1982 o UNEP advertiu que "o número de parâmetros ambientais para os quais tendências globais
podem ser estabelecidas quantitativamente podem ser contados nos dedos de uma das mãos".88 Holdgate e
seus colegas concluíram que embora existissem dados relativamente completos sobre a produção de
alimentos, pescado, crescimento populacional e desenvolvimento industrial, havia poucas informações
confiáveis sobre poluição marinha e a situação de águas interiores, além de evidências conflitantes sobre as
taxas de desmatamento de florestas tropicais. Escrevendo em 1982 eles concluíram que a comunidade
mundial ainda não havia atingido uma das metas principais da conferência de Estocolmo: "a compilação,
através de um programa global de monitoração, pesquisa e avaliação, de um quadro definitivo do estado do
meio ambiente mundial”. 89
Além disso, embora os novos dados que haviam sido coletados fossem agora mais exatos, os mesmos
tiveram o infeliz efeito de lançar dúvida sobre muitas avaliações ambientais anteriores; Holdgate e seus
colegas observam que "por terem lançado dúvida sobre tantas das informações anteriores esses avanços
prejudicaram as comparações que poderiam ter revelado mudanças no meio ambiente mundial entre 1970 e
1980".90 Não obstante, poucos poderiam agora negar o alcance global de muitos dos problemas ambientais.
Num relatório de 1982 a OECD concluiu que "uma implicação importante da interdependência econômica e
ecológica é que à medida que esta última aumenta, inevitavelmente a capacidade dos governos de lidar
unilateralmente com problemas numa escala nacional diminuirá".91 Sempre haveria problemas locais ou
nacionais exigindo respostas apropriadas, mas as respostas bilaterais e regionais haviam se mostrado viáveis
quando bem planejadas. No final das contas os problemas do meio ambiente global exigiam respostas
globais viáveis.

A COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO

Em setembro de 1983, 38 anos depois da UNSCCUR e 11 anos depois de Estocolmo, a Assembléia Geral da
ONU aprovou uma resolução que pedia a criação de uma nova comissão independente, encarregada de
abordar a questão da relação entre meio ambiente

189

e desenvolvimento, e de compilar propostas "inovadoras, concretas e realistas" para lidar com essa questão.
A Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento resultante realizou sua primeira reunião em
Genebra, em outubro de 1984, sob a presidência de Gro Harlem Brundtland, primeira-ministra do Partido
Trabalhista da Noruega durante nove meses em 1981 (e novamente a partir de maio de 1986). A comissão
tinha 23 membros - 12 do Terceiro Mundo, sete do mundo industrializado (entre eles Maurice Strong) e
quatro do bloco comunista.
Um crescimento sem precedentes das pressões sobre o meio ambiente global havia tornado lugar-
comum previsões graves sobre o futuro, observou a comissão; um futuro mais seguro, justo e próspero
exigia políticas dirigidas à sustentação da base ecológica do desenvolvimento e à alteração da natureza da
cooperação entre governos, empresas, ciência e povos. Evitando uma reiteração dos problemas e tendências
que já haviam sido bem contemplados pelo Global 2000 e outros relatórios, a comissão selecionou oito
questões fundamentais (inclusive energia, indústria, segurança alimentar, assentamentos humanos e relações
econômicas internacionais) e examinou-as a partir da perspectiva do ano 2000. Entre março de 1985 e
fevereiro de 1987 patrocinou mais de 75 estudos e relatórios, realizando também conferências ou audiências
públicas em dez países e acumulando assim as visões de uma seleção impressionante de indivíduos e
organizações. Em 1987 o relatório da comissão foi publicado sob o título de Our Commom Future.92
O relatório concluiu que meio ambiente e desenvolvimento estavam inextricavelmente unidos e que
as respostas de políticas existentes eram deficientes pelo fato de que as instituições existentes tendiam a ser
independentes, fragmentárias, excessivamente limitadas na sua perspectiva e preocupadas demais com o
enfrentamento de efeitos e não de causas. (Daí problemas como a poluição ácida serem muito
freqüentemente abordados como problemas de políticas distintas.) As metas desses organismos eram com
excessiva freqüência concentradas no aumento do investimento, emprego, alimentos, energia e outros bens
econômicos e sociais, e não na sustentação do capital de recursos ambientais do qual tais metas
dependiam.93 As fronteiras nacionais haviam-se tornado tão porosas que as distinções entre questões locais,
nacionais e internacionais se haviam diluído; as políticas domésticas cada vez mais tinham efeitos muito
além das fronteiras nacionais (por exemplo, mais uma vez a poluição ácida). Era necessária uma maior
cooperação internacional, mas os organismos internacionais - notadamente o sistema da ONU - estavam
sitiados no momento em que mais se precisava deles.
Além disso, concluiu a comissão, a política ambiental com excessiva freqüência era colocada em
segundo plano; os organismos ambientais muitas vezes sabiam sobre novas iniciativas nas políticas
econômicas, comerciais e energéticas (com possíveis conseqüências para os recursos) muito depois das
decisões efetivas terem sido tomadas. Já era tempo de que "as dimensões ecológicas das políticas (fossem)
consideradas ao mesmo tempo que as dimensões econômicas, comerciais, energéticas, agrícolas, industriais
e outras - nas mesmas agendas e nas mesmas instituições nacionais e internacionais".94 Os organismos
nacionais de proteção ambiental precisavam de fortalecimento urgente, particularmente nos países menos
desenvolvidos; o trabalho do UNEP precisava ser reforçado e estendido (sobretudo através de um aumento
de fundos); a monitoração e a avaliação precisavam de melhor focalização e coordenação; os elaboradores
de políticas precisavam trabalhar em contato mais íntimo com as ONGs e a indústria; as convenções legais e
internacionais precisavam de fortalecimento e de melhor implernentaçâo; e a ONU devia trabalhar no
sentido de uma declaração universal c, posteriormente, uma convenção sobre proteção ambiental e
desenvolvimento sustentável.
Redclift vê na crítica feita pela comissão de Brundtland sobre a administração ambiental
convencional e na visão global da comissão o mais radical afastamento, até hoje, dos enfoques anteriores
voltados para o desenvolvimento sustentável. Contudo, mesmo antes

190

da publicação final do relatório, ele considerou improvável que os países mais desenvolvidos ou os países
menos desenvolvidos viessem a agir no sentido das medidas recomendadas por Brundtland; não poderiam
fazê-lo "sem se envolverem numa reforma estrutural muito radical, não apenas nas metodologias para a
avaliação das perdas de florestas ou da erosão do solo, mas do próprio sistema econômico internacional”.95
Se esse processo de reforma havia começado ou se poderia suplantar as atitudes econômicas e políticas
convencionais em relação aos recursos naturais, essas eram questões que atingiam o coração mesmo das
metas e filosofias do movimento ambiental.
Quase 125 anos haviam-se passado desde a criação do primeiro organismo governamental de
controle da poluição e 101 anos desde o primeiro acordo ambiental internacional. Nos vinte anos anteriores
ao relatório de Brundtland mais de 130 países haviam criado novos órgãos ambientais, mais de 180 acordos
internacionais haviam sido assinados, alguns milhares de ONGs ambientais haviam sido formadas e as
Nações Unidas haviam criado um novo programa ambiental global. Boa parte da estrutura já existia. O
processo de reforma certamente havia começado.

190
FOLHA EM BRANCO
191

CONCLUSÃO
Rumo ao Século XXI

O movimento ambientalista percorreu um longo caminho em um século. Seu início foi realmente humilde:
um grupo de mulheres inglesas preocupadas com os danos que sua moda infligia aos pássaros selvagens,
homens de letras nos cafés arengando contra os smogs que sufocavam suas cidades, especialistas florestais e
botânicos trabalhando isolados na África e na Ásia para refrear a derrubada descontrolada de florestas, um
roceiro barbado e um refinado intelectual de Yale às turras sobre os esplendores naturais da América do
Norte, e um bando de naturalistas, ilustradores e fotógrafos se empenhando para educar a sociedade quanto
às belezas da natureza indômita,
A partir desses e de outros acontecimentos tomou forma um movimento global de massas que deixou
poucas sociedades intocadas. O meio ambiente tornou-se uma questão política que atravessa horizontalmente
os campos políticos tradicionais, a raison d'être de novas burocracias e de novos partidos políticos inteiros, o
objeto de corpos de legislação novos e complexos, o tema de programas de pesquisa nacionais e
multinacionais, e a causa de um movimento de massas que mobiliza cerca de dez milhões de pessoas.
Através de tudo isso, o movimento ambientalista forjou três modificações significativas nos valores
humanos.
Primeiro, instigou a redes coberta de uma das mais fundamentais realidades da existência humana:
que a humanidade é totalmente dependente de um meio ambiente natural saudável. A apreciação dessa
verdade básica foi perdida através dos milênios em função do progresso do desenvolvimento industrial e
agrícola. O homem primitivo via a natureza insubmissa como ameaçadora e perigosa. À medida que se
empenhou em controlar a natureza e, em seguida, explorar os recursos naturais de maneira mais eficiente e
lucrativa, a natureza se tornou menos ameaçadora. Mas a ameaça de um meio ambiente insubrnisso foi
removida para dar lugar à ameaça de um meio ambiente supercontrolado.
O homem tecnológico começou a entender a ironia, e nisso reside a segunda faceta significativa do
ambientalismo: o mesmo representa uma readaptação ao legado da tecnologia. Os primeiros ambientalistas
perceberam que as mudanças geradas pelas revoluções agrícola e industrial cobraram, em última análise, um
preço demasiado alto à natureza. Os vitorianos de boa escolaridade, com sua nova apreciação da natureza,
foram os primeiros a se rebelar em número significativo contra a poluição do ar e da água, e contra a perda
das áreas virgens e da vida selvagem. Mas não existia um sentido universal de alarme. Duas guerras
mundiais, várias guerras regionais e uma depressão econômica severa se combinaram para desviar a atenção
de volta para problemas mais imediatos. Somente na segunda metade deste século, com a ascensão de uma
nova classe média, a expansão da educação e a emergência de dois terços da população mundial das sombras

192

do colonialismo, é que as questões dajustiça social, econômica e política começaram a ser enfrentadas por
mais do que uns poucos privilegiados. O meio ambiente era uma dentre várias questões desse teor.
Inglehart caracteriza a mudança de atitude como "uma revolução silenciosa", um deslocamento da
ênfase assoberbante sobre os valores materiais e a segurança física em direção a uma maior preocupação
com a qualidade de vida. 1 Houve sugestões de que a unidade tradicional com a qual se media o progresso
nas sociedades industriais - crescimento econômico - não era mais apropriada. Ophuls e outros
argumentaram que muitas das crenças sociais dominantes, gestadas em tempos de abundância, necessitavam
ser redimensionadas à luz da crescente penúria ecológica.2 Para Pirages os problemas ambientais na
sociedade industrial tinham suas raízes no Paradigma Social Dominante, um conjunto de crenças e valores
que incluía os direitos de propriedade privada, a fé na ciência e na tecnologia, o individualismo, o
crescimento econômico, a sujeição da natureza e a exploração dos recursos naturais.3 A poluição, a carência
energética e até mesmo a inflação, a recessão econômica e o desemprego desafiaram o Paradigma Social
Dominante.4 O temor acerca dos limites do crescimento e das implicações da má administração ambiental
deram lugar a uma nova visão de mundo, mais compatível com os limites ambientais. Essa visão, que até
pode ser uma ideologia, foi chamada de Novo Paradigma Ambiental.5 Em seu cerne há um clamor por um
tipo de sociedade inteiramente novo, baseado em produção e consumo cuidadosamente considerados,
conservação de recursos, na proteção ambiental e nos valores básicos de compaixão, justiça e qualidade de
vida.
Milbrath sugere que os ambientalistas constituem uma vanguarda que utiliza educação, persuasão e
política para tentar atrair as pessoas para sua visão de uma sociedade nova e mais sustentável. 6 Nisso eles
sofrem oposição de uma retaguarda (personificada por Julian Sirnon e Herman Kahn) que acredita que as
sociedades industriais funcionam muito bem, que não há limites para a engenhos idade humana e que a
sociedade industrial produz a maior parte da riqueza e os arranjos econômicos, políticos e sociais mais
equânimes.
O terceiro aspecto significativo do ambientalismo reside no desafio que faz aos modelos ortodoxos
de crescimento econômico, seja capitalista ou socialista. Nos países mais desenvolvidos é um desafio frontal
à produção e ao consumo impensados e não regulamentados; nos menos desenvolvidos trata-se de um
desafio à presunção de que o modelo industrial seja a estrada mais efetiva para um desenvolvimento rápido e
igual. Num texto muito discutido de 1966 o historiador medieval Lynn White relacionou a destruição
histórica da natureza com o antropomorfismo judaico-cristão.7 O cristianismo, argumentava, era a mais
antropocêntrica das religiões, pregando ser desejo de Deus que o homem explorasse a natureza para seus
próprios fins; o homem tinha um domínio outorgado por Deus "sobre toda a terra e sobre todos os répteis
que rastejam pela a terra" (Gênesis 1:26). Deus disse aos homens: "sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a
terra e sujeitai-a"; (Gênesis 1:28). A ciência e a tecnologia ocidentais, argumenta White, foram "tão
impregnadas pela arrogância cristã em relação à natureza que não se pode esperar nenhuma solução advinda
somente delas".
Moncrief combate a tese de White argumentando que as culturas exteriores à esfera judaico-cristã
passaram por experiências semelhantes de modificações ambientais dramáticas: "nenhuma cultura foi capaz
de filtrar completamente as tendências egocêntricas dos seres humanos",8 Isso pode ser· verdadeiro, mas em
termos de amplitude e volume os problemas ambientais mais graves só ocorreram nos últimos 150 anos, na
proporção da disseminação da revolução industrial e da ocupação e colonização européias da África e de
outros continentes. Na África subsaariana, os mais sérios problemas se sucederam na interação das
sociedades tradicional e industrial, onde as exigências desta última foram impostas sem muita consideração
pelas implicações para a primeira.

193

Certamente o ambientalismo forçou uma reconsideração das prioridades e princípios do crescimento.


Desde o fmal da década de 1960 a natureza do debate foi fundamentalmente alterada pelas perspectivas
rivais dos países "mais" e "menos" desenvolvidos e entre comunidades no seio de uma mesma nação. Os
ambientalistas ocidentais podem ainda estar mais imediatamente preocupados com questões domésticas, mas
- no nível global - algumas das mudanças filosóficas mais importantes para o ambientalismo derivaram da
influência dos países menos desenvolvidos. Em 1972, observam Holdgate, Kassas e White, os problemas
ambientais tendiam a ser vistos "individualmente, simplisticamente e de um ponto de vista exàgeradamente
ocidental"9 segundo o qual os ambientalistas advertiam sobre os malefícios do crescimento econômico. Nos
países menos desenvolvidos, contudo, os benefícios potenciais do crescimento econômico não eram
questionados. Confrontados como estavam com os problemas imediatos e visíveis da pobreza, esses países
encaravam a administração ambienta! como uma preocupação distante, quando não um freio efetivo ao
desenvolvimento.
Uma década mais tarde, em contraste, havia uma aceitação bem maior (em palavras se não em atos)
do conceito de desenvolvimento sustentável. Na Sessão de Caráter Especial do UNEP (realizada em Nairobi
em 1982 para marcar o décimo aniversário da conferência de Estocolmo), relembra Sandbrook, os governos
"expressaram preocupação" com os danos que estavam sendo infligidos a seus ambientes naturais, "os quais
afetam de maneira adversa seu desenvolvimento e as condições de vida de muitos de seus povos".10 O
Centro de Ciência e Meio Ambiente da Índia argumentou que não poderia haver um "desenvolvimento
econômico racional e equânime sem conservação ambiental. A degradação ambiental resulta
invariavelmente em desigualdade econômica na qual o pobre sofre mais. A degradação ambiental e a
injustiça social são duas faces da mesma moeda".11
Não somente muitos dentre os países menos desenvolvidos pareciam agora de fato convencidos dos
benefícios econômicos da administração ambiental, mas a contribuição que deram para o debate
internacional sobre o meio ambiente teve o efeito adicional de introduzir uma nota de realismo no
ambientalismo da Europa Ocidental e da América do Norte. O ponto de vista simplista inicial de alguns
Novos Ambientalistas, segundo o qual todo crescimento estaria errado e seriam incompatíveis os objetivos
do desenvolvimento econômico e da administração ambiental sadia, foi substituído pela visão mais realista
de que os objetivos de ambos tinham que ser reconciliados. Em vez de serem mutuamente excludentes, os
objetivos do desenvolvimento e da administração ambiental eram mutuamente dependentes. As definições
freqüentemente reacionárias das questões ambientais que tiveram lugar antes de Estocolmo foram
gradualmente (se não totalmente) substituídas por atitudes mais conciliatórias e tentativas de concretizar
compromissos realistas.

O FUTURO DO AMBIENTALISMO

"O relato de minha morte", observou certa vez um robusto Mark Twain, "foi um exagero." Ele poderia estar
falando em nome do movimento ambientalista. Com regularidade persistente e desorientada o ambientalismo
foi declarado morto, à morte ou defunto desde quase pouco antes de ter nascido. Já em 1954 Grant
McConnell lamentava que a América não veria novamente algo parecido com o movimento conservacionista
progressista.12 Em 1972 Anthony Downs advertia que a maioria das questões sociais acabava, mais cedo ou
mais tarde, entrando num estágio de limbo prolongado (embora tenha concedido que as questões ambientais
poderiam conservar seu interesse por mais tempo)13 Em 1975 James Bowman percebeu um declínio gradual
no interesse intenso pelo meio ambiente.14 Em 1976 Riley Dunlap e Donald DiIlman escreveram sobre um
"dramático declínio do apoio aos programas de proteção ambiental".15 Em 1980 Francis Sandbach, citando
pesquisas

194

de opinião e a diminuição do espaço nos jornais, não via razões para discordar de Bowman.16
Sobre esse pano de fundo as opiniões de Clay Schoenfeld representavam claramente as de uma
minoria. Longe de ser uma coqueluche passageira, argumentava ele em 1972, o movimento ambientalista (ao
menos nos Estados Unidos) parecia destinado a ser uma presença permanente17 por várias razões. Em
primeiro lugar, a degradação ambiental era um problema de alta visibilidade que milhões de pessoas podiam
ver, cheirar, provar o gosto e ouvir. Segundo, o ambientalismo não era um movimento inteiramente novo;
tinha desde há muito uma estrutura sólida e estabelecida a partir da qual poderia operar e se expandir. Em
terceiro, a diversidade inerente ao movimento permitia um prognóstico otimista quanto à sua sobrevivência.
Quarto, a afluência deu a mais pessoas a oportunidade de fazer escolhas difíceis. Finalmente, o movimento
tinha uma boa dose de integridade interna pelo fato de fazer parte de uma mudança de valores coerente e
fundamental.
Certamente houve pesquisas de opinião durante os anos 70 que pareciam indicar o declínio do apoio
ao movimento ambiental. Mas houve desde então a mesma quantidade delas que têm indicado exatamente o
oposto.18 Nenhuma chegou a captar o essencial. A robustez e a significação de um movimento nem sempre
podem ser medidas através de pesquisas de opinião porque muitos vêem o movimento ambientalista de uma
perspectiva limitada tanto em termos históricos quanto geográficos.
Para aqueles europeus e americanos que viveram o auge do ambientalismo de massa dos anos 60 e
70, a relativa sobriedade do final dos anos 70 e começo dos anos 80 ocupados que estavam com a recessão
econômica e a crise energética, e depois com a afluência que regressava e o conservadorismo político - deve
ter parecido anticlimático. O ambientalismo das ruas declinou, é verdade; mas o movimento mais amplo não.
Ao invés disso, transformou-se. Durante a década de 1960, fixou-se na arena dos protestos de massa e da
ação de cidadãos; no começo dos anos 80 já havia escalado (e, em alguns casos, conseguido penetrar) a
muralha da cidadela das políticas públicas. Durante a década de 1960 os ativistas pediam mudanças na
elaboração das políticas, nos objetivos do planejamento e nos valores econômicos e sociais; no final dos
anos 70 suas reivindicações estavam sendo lentamente atendidas. Com freqüência as ações dos governos e a
eficácia das legislações deixaram muito a desejar qualitativamente, mas não há contestação quanto ao
advento "do meio ambiente" como uma questão de política pública. Em manifestos, plataformas e discursos
de campanha a energia e o ambiente tomam regularmente seu lugar ao lado de declarações sobre economia e
política externa, previdência social, educação, criminalidade, saúde, agricultura e outras áreas mais
"tradicionais" da política. Em 1987 sugeria-se até que os verdes da Alemanha Ocidental já estavam em
declínio porque suas políticas ambientais estavam sendo adotadas por partidos maiores e mais antigos.19 O
meio ambiente tornava-se cada vez menos partidário.
Entretanto, à medida que se aproxima o século XXI e que a natureza do ambientalismo continua a
mudar é dificil saber se devemos estar otimistas ou pessimistas quanto ao futuro. Os sinais são dúbios. Na
coluna dos créditos, houve uma notável mudança de atitude .
• No nível mais fundamental, o estilo de vida da classe média ocidental está mudando: as pessoas estão
dirigindo automóveis que têm maior índice de aproveitamento de combustível, economizando
energia dentro de casa, reduzindo o tamanho de suas famílias e dando apoio aos grupos
ambientalistas e a seus objetivos. A consciência ambiental é cada vez mais assumida como um
pressuposto .
• Há outros exemplos da responsabilidade empresarial, notadamente através da crescente incidência
dos relatórios de impacto ambiental. O nivel alcançado ainda está longe de ser perfeito e as raízes
dessa mudança podem não ser tão honoráveis quanto

195

parecem (ainda não é sempre que a responsabilidade social consegue superar a motivação do lucro),
mas a tendência dá esperanças.
• Movimentos de cidadãos e movimentos de base nos países mais e menos desenvolvidos estão
registrando níveis igualmente impressionantes de realizações. Na Grã-Bretanha, o National Trust
isoladamente assegurou a proteção perpétua a milhares e milhares de hectares no campo. No Quênia,
o Movimento Cinturão Verde colaborou no sentido de transformar o plantio de árvores numa cruzada
nacional. No México, Malásia e Índia movimentos de cidadãos desempenham um papel crescente nas
decisões' de planejamento. Nos Estados Unidos os grupos ambientais têm-se mostrado eficazes no
uso do lobby e repetidamente fizeram do meio ambiente uma questão de política nacional, estadual e
local.

• Embora ainda longe da perfeição, o número de órgãos governamentais e instituições que lidam com o
meio ambiente cresceu. Esses organismos têm sido apoiados por um corpo crescente de legislações
local, nacional e internacional. A elaboração das políticas - embora com freqüência ainda limitada
pelas restrições da ideologia e de acervo incompleto de dados - está se aperfeiçoando. Paralelamente
ao sucesso dos partidos verdes na Europa Ocidental, partidos estabelecidos mais antigos têm dado
mais atenção ao meio ambiente como área de atuação política. O meio ambiente tem tido,
tradicionalmente, mais aceitação no eleitorado de ideologia política moderada/liberal, mas o ano de
1988 assistiu a sinais de um novo interesse dentre os conservadores anti-regulamentação. Durante a
campanha presidencial americana de 1988, George Bush fez declarações consideravelmente mais
fortes sobre o meio ambiente do que Ronald Reagan jamais se sentiu inclinado a fazer (ainda que a
questão tenha persistido como reserva intelectual de seu oponente democrata Michael Dukakis).
Ainda mais surpreendentemente, Margaret Thatcher - depois de anos de ardente oposição à
regulamentação governamental (especialmente em questões ambientais) e de pressão crescente de
ambientalistas e membros de seu próprio partido - aparentemente empreendeu uma abrupta
conversão ao ambientalismo. Em outubro de 1988 ela declarou repentinamente que proteger o
equilíbrio da natureza era um "dos grandes desafios" do final do século XX e convocou uma ação
urgente para salvaguardar a camada de ozônio, restringir a poluição ácida e evitar o aquecimento
global do clima do planeta. O anúncio pegou muitos ambientalistas de surpresa; pareceu a alguns
dentre eles que o Partido Conservador estava fazendo uma tentativa de reivindicar o ambientalismo
como reserva natural da direita.

• Os dados ainda permanecem muito incompletos, mas sabe-se muito mais do que apenas há uma
década sobre o estado do meio ambiente e sobre o tipo de proteção que o mesmo precisa. A pesquisa
ambiental é mais coordenada e efetiva; o IBP, o MAB, o Earthwatch e o GEMS proporcionaram uma
compreensão melhor da interconexão de causa e efeito nos problemas ambientais. Os novos dados
revelaram mais claramente o alcance geográfico dos problemas ambientais.

• Quer os partidos verdes continuem a existir em sua forma atual, quer venham a definhar à medida
que suas políticas sejam adotadas pelos partidos mais antigos, o advento da política verde já abalou
nossas pressuposições sobre o velho eixo esquerda/direita na política. Muitos verdes argumentam que
é necessária uma filosofia política inteiramente nova para responder adequadamente às necessidades
do ambientalismo e que o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo em todos os matizes
existentes são por demais "inecológicos". Jonathon Porritt, uma figura eminente do British Green
Party,

196.

argumenta que a política verde "desafia a integridade das ideologias [existentes], questiona a filosofia
que lhes é subjacente e debate fundamentalmente as noções de racionalidade hoje aceitas".20

• O ambientalismo já ultrapassou a desesperança dos profetas do apocalipse e adentrou uma fase mais
madura e comedida na qual o conhecimento acumulado dos dois últimos séculos, e particularmente
das duas últimas décadas, se presta cada vez mais a um uso considerado e efetivo. Os planejadores
nos países mais e menos desenvolvidos começaram a concordar na visão de que muitos problemas
ambientais são tanto uma preocupação global quanto local. A natureza e o alcance do trabalho dos
organismos internacionais são por si mesmos evidências de uma visão mais ampla e mais racional
das questões e dos problemas ambientais.

Todavia, a despeito desse progresso, existem problemas que não podem ser ignorados na coluna de débitos
do balancete. Embora exista mais certeza sobre as ameaças ao meio ambiente, há talvez menos certeza sobre
as perspectivas de enfrentamento dessas ameaças.

• Apesar da criação de novos órgãos ambientais e da aprovação de nova legislação nos países mais
desenvolvidos, a vontade política de implementar o espírito - sem falar na letra - da proteção
ambiental é bastante desigual. A ascensão de forças materialistas anti-regulamentação sob o
reaganismo e o thatcherismo, que davam prioridade aos interesses imediatos sobre os de longo prazo,
se combinou em meados dos anos 80 com uma recessão econômica para reduzir os recursos alocados
no enfrentamento de problemas ambientais. Holdgate, Kassas e White argumentam que a proporção
existente entre palavras e ação é muito fortemente inclinada em benefício das primeiras.21 Eckholm
observa que embora a compreensão pública dos imperativos ambientais tenha aumentado na década
pós-Estocolmo e novas instituições necessárias tenham evoluído, "muitas das forças sociais,
econômicas e tecnológicas que estão na base das dificuldades ambientais mal chegaram a ser
questionadas”.22

• É freqüentemente difícil saber o que está acontecendo nas economias centralmente planejadas. A
poluição do ar na Polônia e na Tchecoslováquia quase não tem precedentes em sua gravidade; 23 o
acidente de Chernobyl levantou questões sobre as prioridades dos planejadores e administradores
soviéticos; combinado com os relatórios sobre a grave poluição do lago Baikal, o acidente também
levanta questõessobre a qualidade do meio ambiente em outros lugares na União Soviética.

• Pode haver esperança para o futuro, entretanto; durante 1988 e 1989 a administração e a proteção
ambientais figuraram com destaque crescente nas declarações políticas do presidente Gorbachev.
Despontavam uma franqueza, uma honestidade e uma segurança sobre a política ambiental soviética
que estavam ausentes sob Leonid Brezhnev; a administração ambiental racional pareceu ter
capturado a própria essência da glasnost e da perestroika.

• A litania de problemas que afligem os países menos desenvolvidos cresce com uma persistência
preocupante. Incidentes como os de Bhopal e de Ixhuatepec não somente lançam uma sombra sobre
as prioridades de planejamento e desenvolvimento, mas como a maioria de suas vítimas era
constituída de favelados - sublinha também os profundos problemas sociais e econômicos do
Terceiro Mundo, onde a desigualdade econômica está criando uma subclasse em expansão e onde o
crescimento populacional freqüentemente ultrapassa a oferta de habitações, água limpa e
saneamento.
A África subsaariana proporciona graves motivos de preocupação. Problemas como

197

a espiral ascendente de crescimento da população, erosão disseminada de solos, produção deficiente


de alimentos, instabilidade política, incompetência burocrática, termos desiguais de comércio,
prioridades mal orientadas de desenvolvimento, guerra civil, corrupção e má administração
econômica se combinaram de maneira demasiado freqüente vindo a produzir um subcontinente em
crise. Se as tendências atuais se mantiverem, a região está fadada a nada menos do que uma
catástrofe ambiental e humana .

• Dominando a quase tudo esteve o surgimento, em primeiro lugar, de problemas que afligiam muitas
áreas diferentes do planeta (poluição ácida, resíduos tóxicos, contaminação nuclear, derrubada de
florestas e mortandade de animais selvagens) e, depois, de problemas que afligiam o planeta como
um todo. Acordos sobre o tratamento das ameaças à camada de ozônio foram alcançados de maneira
notavelmente rápida; mais sério agora, entretanto, é o problema do efeito estufa. Com o uso crescente
do carvão, petróleo e gás natural, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra
cresceu de maneira constante desde a Revolução Industrial. Atuando como uma estufa, esse CO2
vem retendo a radiação solar dentro da atmosfera da Terra.
Advertências sobre o aquecimento global foram feitas já em 1970. Na época soaram muito como
ficção científica, com sugestões aparentemente fantásticas de que um clima mais quente levaria a
mudanças nos padrões de produção agrícola, ao derretimento das calotas polares e ao aumento dos
níveis globais dos mares, inundando muitas áreas costeiras. Nos últimos anos da década de 1980,
essas advertências começaram a parecer muito mais reais. Para muitos dos que passaram pela seca
americana de 1988 deve ter sido difícil não acreditar que a mudança climática havia séria e
finalmente começado. As temperaturas elevaram-se drasticamente, mantendo-se entre os 35°C e
40°C) durante semanas a fio. A falta de chuvas provocou a queima da vegetação e levou a uma
quebra na produção de milho e soja em boa parte do Meio Oeste. Os níveis da água no Mississippi
caíram, deixando barcaças encalhadas ao longo das regiões mais altas. Durante boa parte dos meses
de agosto e setembro, grandes parcelas das florestas do Oeste montanhoso queimaram; dentre as
regiões mais prejudicadas estava o Parque Nacional de Yellowstone. A fumaça dos incêndios chegou
até St. Louis e Chicago. Quer fosse realmente parte do efeito estufa ou simplesmente o extremo
cíclico mais recente do modelo climático continental; o fato deu a muita gente uma amostra das
possíveis conseqüências do aquecimento global produzido pela mão do homem. Um problema
verdadeiramente planetário como esse exige respostas políticas muito diferentes de tudo que já
aconteceu até hoje.

Em 1982 o UNEP publicou The World Environment 1972-1982 como um balanço dos "primeiros dez anos
nos quais a humanidade [havia] consciente e cooperativamente tentado a administração racional" do planeta.
Em seu prefácio o diretor executivo do UNEP, Mostafa Tolba, observou que "ações preventivas ao invés de
curativas vinham ganhando impulso e ampla aceitação" e que a importância da cooperação internacional
havia sido trazida para o centro das atenções. Mas, advertiu, "dez anos depois de Estocolmo, está claro que
ainda temos um conhecimento muito imperfeito do estado dos componentes principais de nosso meio
ambiente e dos mecanismos de interação", e enfatizou a necessidade de um planejamento de longo prazo:
"os problemas que nos assoberbam hoje são precisamente aqueles que em função de uma [falta de previsão]
semelhante falhamos em resolver decadas atrás".24
Em nível global descobrir e compreender o que é preciso em termos de administração de recursos é
muito mais fácil do que implementar realmente programas administrativos

198

multinacionais. A ciência fornece uma compreensão dos mecanismmos dos problemas ambientais, mas as
causas e soluções são em última análise uma questão de valores humanos e de comportamento humano. Na
análise final o meio ambiente é uma questão política. Quer sejam ou não as soluções efetivamente aplicadas,
as mesmas continuam dependendo da política e de políticas práticas, da atitude dos líderes, partidos e seus
eleitorados, e de um complexo sistema cooperativo e de referências cruzadas envolvendo organismos
internacionais, órgãos ambientais nacionais, organizações não governamentais e de uma série de convenções
e acordos internacionais de cumprimento freqüentemente não obrigatório.
Quaisquer que sejam, entretanto, os prognósticos de curto prazo, as mudanças de longo prazo na
atitude foram animadoras para o movimento ambientalista. Bowman vê o ambientalismo como o último
estágio do processo que trouxe o homem "do temor para a compreensão, para o uso, o abuso e, agora, para a
preocupação com o mundo físico e biológico à sua voIta".25 Houve uma tendência marcada evoluindo da
noção do meio ambiente como algo divorciado da humanidade em direção a um novo foco sobre os custos
humanos da deterioração ambiental e da má administração. Não se trata mais simplesmente de saber o que o
homem está fazendo com o meio ambiente, mas o que a espoliação do meio ambiente está fazendo ao
homem. Os ambientalistas argumentam que não podemos mais considerar o meio ambiente como garantido.
Já é tarde demais para salvar muitas espécies e hábitats, e outras mais irão sem dúvida sofrer em função do
desenvolvimento irrefletido. A poluição foi obstada ou reduzida em algumas partes do mundo, mas tornou-
se pior em outras. Florestas e terras férteis estão sendo perdidas em algumas partes e restauradas em outras.
Mais cedo ou mais tarde, um equilíbrio praticável deve ser consumado entre as necessidades do homem e as
da natureza. Não importa quanto tempo isso demore, o relacionamento entre os humanos e seu meio
ambiente jamais voltará a ser·como já foi, e isso foi asseguarado pela ascensão do movimento ambientalista.
215

APÊNDICE
Enquanto isso, na terra do pau-brasil ...
Alfredo Sirkis *

Rumo ao Paraíso é uma bem fundamentada reconstituição histórica do ambientalismo em escala


planmetária, desde suas raízes históricas remotas até a presente ascenção da ecologia política como
movimento antecipador do 32 milênio. É uma leitura importante para o público brasileiro, tão saturado de
mensagens ''verdes'' mas tão carente de uma informação mais rigorosa e precisa, indispensável para a
afirmação de uma cultura ecol6gica.
Nosso país carrega no pr6prio nome o estigma da devastação ambiental. Desde a carta de Pero Vaz
de Caminha se cantam louvores à natureza pujante da ilha de Vera Cruz enquanto se devasta e saqueia,
impiedosamente, a terra do pau-brasil. Já no Brasil Colônia, entretanto, o interminável ciclo das devastações
era pontuado por lamentos conservacionistas como os de frei Vicente Salvador. Essa dicotomia entre o amor
e a devastação do paraíso é bem da tradição colonial lusitana: a famosa diferença entre intenção e gesto, do
coração sentimental, que se desabotoa, da mão cega que executa. O Brasil independente manteve a tradição,
do império à velha república: ao longo de cinco séculos a Mata Atlântica foi desmatada em 97% pelos ciclos
do açúcar e do café, pela industrialização e pela urbanização.
Para além da nostalgia de um Gonçalves Dias ou do ufanismo poético de um Osório Duque Estrada,
para além de leis conservacionistas da burocracia pombalina, como as adotadas sob a influência de José
Bonifácio e André Rebouças, a maior epopéia conservacionista brasileira foi o reflorestamento da Floresta
da Tijuca, no Rio de Janeiro, pelas mãos do major Archer e seus escravos, no final do século XIX, num
momento em que já aparecia com nitidez o desastre ecol6gico provocado pelos desmatamentos das fazendas
de café, afetando os mananciais de água que abasteciam a então capital do Império.
De lá para cá a terra do pau-brasil - hoje extinto fora dos jardins botânicos continuou a testemunhar a
devastação ambiental: a destruição do verde, a poluição das águas e a organização destruidora do
crescimento urbano desordenado com seu séquito de taras sociais e ecol6gicas se realimentando num moto-
contínuo. O quadro foi sê agravando até chegar à sua expressão máxima, durante o "milagre econômico" do
regime militar, de 1964 a 1975, quando se consumaram a supersaturação das megalópoles, Cuba-

*ALFREDO SIRKIS, 41, é escritor, jornalista, vereador pelo Rio de Janeiro e presidente nacional do Partido Verde (PV).

216
tão, a devastação de quase 10% da floresta amazônica, o primado absoluto do automóvel e a primeira usina
nuclear. Também se chegou - dialeticamente, diriam - ao ponto de mutação de consciência e de práxis que
marca o nascimento do ambientalismo como agente social significativo.
Os embriões do atual movimento ambientalista se insinuam nas frestas estreitas da ditadura militar
do período Ernesto Geisel, na saída dos anos de chumbo para os da luta pela anistia, embora sua gênese
remonte aos anos de terror e ufanismo do governo Médici: a AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção do
Ambiente Natural) começou a ser articulada em 1970 e foi fundada em 1971. Seus primeiros protestos e
mobilizações, contra a poluição do rio Guaíba e a forte fedentina dos efluentes da Borregard Celulose datam
de 1972. Apresentava-se então como um movimento absolutamente apolítico.Tinha como liderança mais
visível um ex-funcionário de uma multinacional de agrotóxicos, José Lutzemberger, que se convenceu dos
malefícios desses produtos, e, como aliadas, senhoras da alta sociedade gaúcha próximas dos círculos de
poder e insuspeitas de qualquer intenção subversiva. Ainda assim, o incipiente movimento era estritamente
vigiado pela multitentacular comunidade de segurança e informações do regime militar.
O surgimento dessa primeira onda de ambientalismo, com epicentro no sul do país, registrava apenas
um pequeno atraso em relação ao nascimento e desenvolvimento de movimentos análogos nos anos 70, na
Europa e nos Estados Unidos. De todos os países latino-americanos, o Brasil foi aquele em que mais
rapidamente o discurso ambientalista foi apropriado e difundido. Enquanto o governo militar fazia publicar
nas principais revistas da Europa e Estados Unidos uma publicidade que convidava: "Venha nos poluir!"
esses círculos emergentes ligavam-se nas mobilizações dos verdes europeus contra o desastre químico de
Seveso, a poluição do Reno, a chuva ácida, as usinas nucleares. O acordo nuclear Brasil-Alemanha, em
1975, estimulou os primeiros contatos com o país em que, por um lado, a multinacional KWU nos vendia o
passe ao nuclear mas onde, por outro lado, os ambientalistas brasileiros entravam em contato com o
movimento ecologista e alternativo que daria origem ao primeiro partido verde europeu: Die Grünen,
Em meados dos anos 70 o movimento ecologista começou a se perfilar como personagem do cenário
político e cultural da sociedade, e desde então cresceu, em sua forma multifacetada, numa proporção sem
precedentes desde as idéias socialistas gestadas no final do século passado. A explosão da questão ecológica
- com todas as suas contradições - é o fato cultural maior da humanidade, neste final de século. Aqui como
nos países do norte, essa explosão da ecologia, que se tornou exponencial no final dos anos 80, teve como
precursores aqueles embriões organizados de ambientalistas. Sua emergência como fenômeno cultural e
político, porém, deu-se na junção desse ambientalismo com ageração dos baby boomers, a numerosa tribo de
68.
U ma geração rebelde ativista, iconoclasta, daria um poderoso megafone a essas idéias cuja
existência, na época do seu desabrochar, nem sequer conhecia. Nos anos em que os modelos eram Sierra
Maestra e o delta do Mekong, quem imaginaria os filhos de Che Guevara e os sobrinhos de Ho Chi Minh
protestando algum dia por causa de uma árvore cortada ou da fumaça de uma chaminé de fábrica? A
princípio, no plano do discurso ideológico, o pensamento de esquerda da geração 68 nada tinha a ver com
defender a natureza, pois estava voltado para a resistência à tirania política e a luta contra a exploração e a
miséria que, na sua visão, só a revolução socialista poderia resolver.
Ainda assim notam-se, já em 1968, sinais profético-poéticos desse futuro ''verdismo''. Em primeiro
lugar na cultura ou na contra cultura. Uma raiz poética, antecipadora da política verde no Brasil, é sem
dúvida o movimento tropicalista, com seus poetas e cantores: Caetano, Gil, Capinam. "Viva a mata-ta-ta,
viva a mulata-ta-ta-ta" no país onde "os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis." Girassóis que os
verdes europeus escolheriam mais tarde para seu símbolo. Além da raiz poética, com seus signos
antecipatórios daquilo

217

que o discurso lógico, político, somente alcançaria anos mais tarde, 1968 traria outros aportes ao futuro
movimento: um espírito libertário, a contestação comportamental, a vertente comunitário-rural do ideário
hippie, a perseguição de uma utopia e a descoberta da necessidade de uma revolução interior, todas facetas
que conviveram simbioticamente com o élan de rebeldia, ao mesmo tempo antiautoritário e autoritário, da
geração 68.
A história do movimento ecologista no Brasil ainda não foi escrita, e temos ampla liberdade para
fincar nossos marcos. De minha parte colocaria como marco inicial de um movimento eco-político o caso
Carlos Dayrel, ocorrido em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1975. Estávamos em pleno governo Geisel,
que, depois de ter patrocinado no ano anterior - eleitoral - uma "distensão", naquele momento fechava
novamente, sob pressão dos ''bolsões sinceros mas radicais". O JB publicava no dia seguinte:

"PROTESTO JOVEM ACABA EM TUMULTO, MAS ACÁCIA NÃO CAI PARA AVENIDA
PASSAR. "Porto Alegre - O protesto de três estudantes que passaram mais de seis horas trepados numa
acáéia de 80 anos provocou tumulto, mas obteve do Secretário de Obras do Estado a promessa de que a
árvore seria conservada como símbolo da preservação das áreas verdes de Porto Alegre ( ... ).
"A velha acácia ( ... ) seria a sétima árvore a ser serrada no dia de ontem para dar lugar à pista de
rolamento do Elevado Imperatriz Leopoldina, na Avenida João Pessoa. O primeiro a subir nela foi Carlos
Dayrel, de 20 anos, mineiro de Sete Lagoas, estudante do terceiro ano de engenharia eletrônica e membro
da Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (AGAPAN).
"Subiu às 11 horas. Ao meio-dia recebia as primeiras adesões. Teresa Jardim, estudante de
Biblioteconomia ( ... ), Marcos Saracol, estudante de matemática.
"Por volta das duas da tarde já havia embaixo da acácia uma multidão que pedia a adesão da turma
da Prefeitura aos três jovens.
"( ... ) Os policiais isolaram a área ( ... ) Às 15 horas chegou uma escada Magyrus e o
policiamento foi reforçado. Hélio Barros, morador da vizinhança, se baseava no testemunho do avô para
afirmar que a árvore tinha sido plantada 'seis anos depois que Deodoro proclamou a República'.
"'Os prefeitos passam. As árvores devem ficar' dizia um dos cartazes, levantado ao lado de outros
que defendiam os jovens e a natureza.
"O oficial de operações do IX Batalhão da PM, capitão Moncks, pegou um megafone e falou: 'Eu
também sou estudante e apóio a sua luta pela natureza. Trago aqui a promessa de que vocês não serão
presos nem molestados. E que a árvore não será cortada hoje.'
"(...)
"Três e meia da tarde chegou ao tronco da acácia o professor Adamastor Uriati, diretor da Escola
de Engenharia e chamou Carlos (...) 'Venha cá o senhor!', sugeriu o estudante; (...) o professor (...) foi
subindo até chegar ao galho mais alto, onde conversou com Carlos.
"Os dois desceram quinze minutos depois, deixando Teresa e Marcos no mesmo lugar. O
professor ia levar Dayrel à presença do Secretário de Obras.
"'Hoje está havendo uma manifestação semelhante a essa na Alemanha, contra uma usina
atômica', informou a todos o presidente da AGAP AN, o agrônomo José Lutzemberger.
"Às 5 h, acompanhado do diretor da Escola de Engenharia e de uns 20 repórteres e cinegrafistas,
Carlos Dayrel chegou ao gabinete do Secretário Plínio de Almeida, que lhe mostrou os planos de
urbanização da cidade. Carlos comentou que os planos 'só favoreciam os automóveis'. O Secretário então
encerrou a entrevista prometendo a preservação da velha acácia.
"O grupo voltou à Av. João Pessoa para dar a notícia aos dois manifestantes que ficaram
esperando na árvore. A multidão aplaudia os três manifestantes. Mas quando desceram, os jovens
receberam voz de prisão do tenente Jesus, que então comandava a Brigada. Vaiados pelo público e
advertidos pelos jornalistas pela quebra da palavra, os policiais deram início a um tumulto. Foram
espancados e presos os repórteres lcaro Cerqueira, da Rádio Gaúcha, e Antonio Miguel, da Rádio
Difusora. O cinegrafista Luís Carlos Hambrecht, da TV Difusora, recebeu um pontapé na mão e deixou a
câmara cair, espatifando-a. Os dois radiorrepórteres e mais Teresa Jardim e Marcos Saracol foram
levados, em seguida, na viatura da Brigada Gaúcha. À noite o comandante do policiamento, cel. Aldo
Danesi, prometia punir 'os policiais arbitrários' e liberou os presos."

Esse saboroso episódio assinalou o despertar de uma nova geração de militância ecológica e a confluência
do ambientalismo das entidades pioneiras com a disposição militante de uma geração pós-68, representada
por aqueles jovens. No plano internacional, essas novas lutas se articulavam com a idéia de um movimento
ecologista que já não era mais apenas o conservacionismo, a simples resistência à devastação - do qual a
pioneira FBCN (Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza) é o grande exemplo -, mas

218
a crítica, cientificamente consistente, não apenas de atos isolados contra a natureza mas de toda a crise de
civilização engendrada pelo modelo produtivista-industrialista. Não mais o cultivo de um discurso ambiental
proclamado como ideologicamente "neutro", mas uma ecologia política onde há uma luta a ser travada na
sociedade, uma mobilização e uma difusão ampla de idéias, uma luta por corações e mentes, uma conquista
de contrapoderes e de espaços de poder. Um território onde a defesa do meio ambiente se interpenetra com a
democratização radical do estado, da sociedade, da cultura, com causas sociais e comportamentais que são
indispensáveis à reivindicação do paraíso, à vida melhor.
O caso Carlos Dayrel encerra um perfeito simbolismo do que viria a se tornar o movimento
ecologista nos anos seguintes e da sua forma de inserção na sociedade. Ali estão os personagens de todas as
futuras batalhas: os ativistas ecológicos, o público debaixo da árvore, o público mais amplo, atingido no dia
seguinte pela midia; a polícia sem saber ao certo como se posicionar diante do protesto, se tolerá-lo pelo seu
conteúdo "inocente", como pensou o capitão Moncks, ou se baixar o pau, por se tratar de protesto - fosse por
que motivo fosse, conforme o tenente Jesus; o poder público, representado pelo Secretário que não pensou
na árvore na hora de planejar o elevado, mas foi obrigado a fazê-Io e a alterar os planos, diante do protesto;
finalmente, o diretor da faculdade que, no afã de mediar, acabou também ele subindo na árvore.
O caso da acácia de Porto Alegre é, sobretudo, antecipador daquilo que viria a ser, durante mais de
uma década, a imagem de marca do movimento: ações de pequenos grupos ativistas capazes de capturar a
atenção da mídia e, através dela, levar suas idéias ao grande público. Um casamento, uma parceria por vezes
conflituosa, mas sempre vibrante, entre os ecologistas e a imprensa escrita, o rádio e a TV, que se
converteram na artilharia do movimento, embora às vezes seus obuses também despencassem sobre os
ecologistas.
Nos anos seguintes o movimento ecologista não trilhou o caminho de organização em grandes
entidades. O Brasil não teve um processo de consolidação e expansão de grandes ONGs como uma
Greenpeace, uma WWF ou uma Friends of the Earth. À medida que as idéias ecológicas cresciam na
sociedade ia-se dando, não um fortalecimento qualitativo das primeiras entidades, mas uma multiplicação
exponencial de novas entidades. Essa pulverização do movimento ecologista brasileiro é uma de suas
características mais marcantes. No início dos anos 80, no seu livro Como Fazer Movimento Ecológico,
Carlos Minc já contava mais de 900 entidades em todo Brasil. Hoje seu número se aproxima das 5 mil. A
grande maioria dessas entidades são formadas por núcleos que gravitam em torno de menos de dez pessoas e
não dispõem de um mínimo de infra-estrutura: sede, telefone etc. A essa pletora de grupos ambientalistas
seria necessário somar um número cada vez maior de ONGs, a princípio não-ambientalistas, que
incorporaram em maior ou menor grau reivindicações, lutas e questões ecológicas. São associações de
moradores, sindicatos, entidades culturais e artísticas, e ONGs de desenvolvimento.
Com o início do processo de abertura política, o movimento ecologista tendeu a uma natural
politização.Já não era mais possível manter o discurso do apoliticismo e creditar a devastação ambiental "ao
homem, que está destruindo o planeta". Numa visão mais concreta, a culpa não cabe à humanidade como um
todo mas a modelos de desenvolvimento, interesses econômicos, opções políticas e agentes bem
identificados, passíveis de responsabilização. A poluição e a devastação têm endereço, são pessoas jurídicas,
e sua possibilidade de continuar agredindo o meio ambiente ou seu recuo é a resultante de um confronto que
se dá no terreno político.
Desde cedo os ecologistas se dividiram diante da questão política - ainda que sem necessariamente
teorizá-lo -, em torno de duas estratégias: a do lobby e a da organização popular. A atuação de José
Lutzemberger é altamente representativa da estratégia do lobby. É o pragmatismo e o não alinhamento
político-ideológico com capacidade de influir

219

sobre quem venha a estar no poder. Assim, Lutzemberger trabalhou com o PMDB gaúcho de Pedro Simon
sobre a questão dos agrotóxicos, entre outras. No início da campanha presidencial de 1989, aproximou-se do
PDT de Brizola, depois do PT de Lula e, finalmente, chegou a Secretário Especial de Meio Ambiente do
governo Collor. Segundo a estratégia do lobby , não convém que os ecologistas tomem partido, muito menos
que se constituam em partido verde. O lobby depende da capacidade de influenciar a quem quer que
disponha de poder. Os avanços e as conquistas ambientais obtidas nos dois últimos governos por decreto
presidencial e portarias de órgãos do executivo atestam que a estratégia "lobbista" é capaz de alcançar
resultados.
A outra estratégia, a da mobilização e organização popular, da participação na política institucional e
a de tomar um partido político foi o caminho adotado, de uma forma geral, pela geração mais jovem de
ecologistas. Entre os gaúchos foi, por exemplo, o caminho seguido por outros ativistas da AGAPAN: Caio
Lustosa, no PMDB, PSDB e finalmente PT; Giovanni Gregol, no PT, e Gert Schinke no PT e depois no PV.
Em São Paulo, Fábio Feldmann pelo PMDB e depois PSDB, e Roberto Tripoli pelo PSDB e depois PV. No
Espírito Santo, Vitor Buaiz e Rogério Medeiros pelo PT. Outros, como Carlos Aveline, fundador da UP AN,
continuaram afastados de uma atividade partidária mas imprimiram à sua atuação ambientalista uma
perspectiva ecopolítica.
A questão política foi colocada Claramente para os ecologistas no início da década de 1980, com o
avanço do processo de democratização, a anistia e a volta dos exilados particularmente da geração 68 -, que
haviam realizado seu aprendizado ecológico na Europa, em contato com os movimentos verdes, pacifistas,
antinucleares e alternativos do final dos anos 70. Ex-exilados, como Fernando Gabeira, Carlos Minc, Lizt
Vieira e o autor, voltaram ao país, sob a atenção favorável da opinião pública, trazendo na bagagem
formulações de um emergente movimento verde. Na Europa o primeiro partido verde, Die Grünen, da
República Federal da Alemanha, formara-se em 1978, criando uma referência de organização política para
os ecologistas.
A maior concentração dos ecologistas da anistia deu-se no Rio de Janeiro, uma metrópole
cosmopolita com uma população sensível a mensagens novas e um contexto natural altamente privilegiado.
A esse cosmopolitismo e a esse patrimônio cultural não correspondia um conjunto de entidades
ambientalistas tão bem estruturadas como no sul do país.
A criação de um partido verde não foi a opção inicial desses ecologistas da anistia, que
representavam de uma forma mais ampla, aos olhos da população, a geração resistente de 68, ou pelo menos
sua parcela mais Iibertária. Nossa perspectiva inicial foi a do verde em vários partidos de oposição, no caso
do Rio de Janeiro, particularmente o PT e o PDT. Essa estratégia permitiu, em 1982, a eleição do primeiro
parlamentar ecologista do Rio de Janeiro, Lizt Vieira, deputado estadual pelo PT. Esses ecologistas com uma
origem marcadamente de esquerda se concentraram, sobretudo, no movimento antinuclear que se gestou no
início dos anos 80 para protestar contra a construção das usinas nucleares de Angra dos Reis. Esse
movimento, que teve como marco importante a manifestação Hiroshima Nunca Mais, no dia 6 de agosto de
1982, em Angra dos Reis, teve grande influência na opinião pública local do litoral sul-fluminense e em toda
a população do Estado do Rio, que passou a apresentar, em pesquisas, índices de oposição ao nuclear muito
superiores aos europeus ou norte-americanos e que se intensificaram ainda mais depois dos acidentes de
Tchemobile de Goiânia.
Os limites do "verde em vários partidos" revelaram-se já na primeira metade da década de 1980. Os
partidos da oposição ao regime militar - o PMDB, o PDT, o PT e os partidos comunistas - abriam alguns
espaços à questão ecológica, sobretudo em período eleitoral, mas não só não a consideravam como
prioritária como não estavam dispostos a qualquer questionamento do seu ideário produtivista, industrialista
e desenvolvimentista. Além

220

disso, O ambiente interno desses partidos era muitas vezes hostil aos ecologistas. No caso dos partidos
tradicionais, pelo fenômeno sufocante do fisiologismo-clientelismo; no caso dos partidos mais à esquerda,
pelo patrulhamento ideológico e a noção difusa de que a ecologia era mais "coisa de país rico" e que o Brasil
tinha outros problemas prioritários como a fome, a miséria, o desemprego, a carência de uma reforma agrária
etc.
Não obstante, eram estruturas já prontas e consolidadas, onde algum espaço era sempre possível,
dependendo da habilidade com que se trabalhasse, e ofereciam certos atrativos e uma maior segurança em
comparação com a aventura e o trabalho de Sísifo que sugeria a fundação de um partido verde no Brasil. A
discussão a respeito era apaixonada e polarizada. No movimento ambientalista, a idéia era hostilizada por
alguns, por serem contrários ao que definiam como "partidarização" da ecologia (eram basicamente os que
acreditavam na estratégia "lobbista"); por outros, mais pragmaticamente, por já militarem em um partido
como o PMDB ou o PT. O surgimento do Partido Verde lhes criaria um incômodo político real ou
imaginário.
Por outro lado, havia na sociedade, com intensidade cada vez maior, a demanda por um partido com
essas características. A lentidão do movimento ecológico inserido nas entidades em efetivar essa alternativa
deixava campo livre a eventuais manobras cartoriais de oportunistas sem nenhuma prática ecológica, que
sonhavam apropriar-se juridicamente da carismática sigla PV para explorá-Ia fisiologicamente.
As condições do Rio de Janeiro ofereceram a base para a fundação, no início de 1986, do Partido
Verde - PV, cujo núcleo histórico, o Coletivo Verde, era constituído, em parte, por ex-exilados e artistas
famosos como Lucélia Santos. No seu manifesto de fundação o Partido Verde situava sua singularidade
dentro do contexto político brasileiro e, por outro lado, esclarecia a relação do Partido Verde com os verdes
dos demais partidos:

"(...) O Partido Verde se define como um movimento de cidadãos e não de políticos profissionais ou homens de aparelho. (...)
"O Partido Verde não pretende o monopólio da causa ecológica, nem de nenhuma das outras bandeiras que defende, pois sabe que
em tomo de cada uma delas encontrará aliados noutros partidos e na sociedade em geral. Considera, no entanto, que a sua
formação e atuação independente será uma contribuição importante nessa luta.
"O Partido Verde pretende (...) contribuir para a afirmação de um grande movimento ecológico, pacifista e alternativo capaz de
influenciar os destinos da nação brasileira nesse limiar do século XXI
(...).
"(...) estará ao lado de todas entidades, organizações populares e movimentos que almejam transformar a vida das pessoas
fazendo-a mais livre e digna. Estará ao lado das mulheres, dos negros, dos índios, das chamadas minorias, de todos grupos vítimas
da opressão generalizada ou específica. Defenderá uma sociedade cada vez mais descentralizada, em todos os níveis, e pluralista,
onde nenhum (...) interesse econômico ou político possa continuar devastando a natureza, poluindo o meio ambiente e ameaçando
a vida para servir sua sede de lucro e poder.
"(...) O Brasil é um dos países do mundo com mais natureza e vida a defendere, simultaneamente, um dos países onde elas estão
sendo mais rapidamente devastadas pela voracidade dos modelos econômicos predatórios, do capitalismo selvagem, pelo descaso
e inoperância do estado e pelo ainda baixo nível de consciência e organização dos cidadãos. Acreditamos que esse quadro possa
ser modificado e que as condições para tanto nunca estiveram tão favoráveis quanto agora, apesar de tudo. Por isso o Partido
Verde surge como uma alternativa política para os que acreditam na possibilidade de uma vida diferente e de uma nova
sociedade."

A primeira experiência político-eleitoral do Partido Verde, ainda numa fase embrionária, sem
registro legal, foi a campanha de Fernando Gabeira para governador do Rio de Janeiro, numa coligação
informal dos verdes com o PT que representou em muitos aspectos uma experiência inteiramente nova em
campanhas políticas. Alegre, irreverente, com temáticas e formas de atuação inteiramente inéditas, alcançou
um escore eleitoral de quase 8% depois de ter, nas pesquisas, beirado os 15%. Na reta final, ressentiu-se do
chamado "voto útil" e também da forte exploração negativa de uma parte da mídia em relação à discussão
sobre a descriminalização da maconha, levantada por Gabeira durante

221

um programa de rádio. O resultado, contudo, foi bastante positivo, especialmente ao se considerar que o
Partido Verde sequer existia legalmente, e que o PT obtivera um ano antes apenas 0.9% para seu candidato a
prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Duas manifestações marcaram profundamente essa campanha: o Fala
Mulher, a maior manifestação feminista da história do Brasil, e o Abrace a Lagoa.uma corrente humana de
mais de 80 mil pessoas à volta da Lagoa Rodrigo de Freitas.
As eleições de 86 produziram uma nova safra de parlamentares ecologistas como Fábio Feldmann,
um advogado do grupo OIKOS, eleito deputado federal pelo PMDB de São Paulo, e Carlos Minc, eleito
deputado estadual no Rio de Janeiro pela coligação PT(PV. Ambos teriam uma atuação parlamentar
marcante, Feldmann na elaboração do capítulo de meio ambiente da Constituição de 1988 e Mine em
diferentes leis e atuações de rua de caráter espetacular e simbólico que souberam capturar a mídia e chamar a
atenção sobre problemas ecológicos e de direitos humanos. Essa tendência de surgimento de parlamentares
novos ligados aos movimentos ecologistas prosseguiu nas eleições seguintes, as municipais de 1988, com a
eleição para Câmaras Municipais de dois ex-dirigentes da AGAP AN, em Porto Alegre, Gert Schinke e
Giovanni Gregol, de Roberto Tripoli, em São Paulo, pelo PT, e do autor, no Rio de Janeiro, como vereador
mais votado entre 1500 candidatos, eleito pelo PV. Nesse mesmo pleito foram eleitos alguns prefeitos
ecologistas ou com idéias ambientalistascomo Vitor Buaiz, em Vitória, e Jaime Lerner, em Curitiba.
Esse ano de i988, marcado por um crescimento do movimento ecologista e por vitórias na
Constituinte e nas eleições municipais, foi também marcado por grandes queimadas na Amazônia e por um
acontecimento de intensa repercussão nacional e internacional: o assassinato do líder seringueiro Chico
Mendes. O movimento dos seringueiros do Acre encarnou melhor do que qualquer outro uma dimensão da
ecologia profundamente vinculada à questão social, uma luta verde do terceiro mundo. A resistência dos
povos da floresta - os índios, os seringueiros, os castanheiros - representava essa realidade de um movimento
de defesa do ecossistema amazônico formado não mais a partir de uma reflexão ambientaJista intelectual e
urbana, mas de uma simples e candente necessidade de sobrevivência. Durante os anos 70, quando o regime
militar estimulou com incentivos fiscais e subsídios a chamada "colonização" da Amazônia - a devastação da
floresta para grandes pastagens -, os seringueiros tiveram suas próprias condições de sobrevivência
comprometidas. Dos seringais do Acre, devastados pelos incêndios e derrubadas praticadas pelos
fazendeiros vindos do sul, saíram mais de 30 mil trabalhadores da borracha que tiveram como destino a
Bolívia, onde só puderam continuar sua atividade como cidadãos de segunda classe, ou as emergentes
favelas da periferia de Rio Branco. Outros, no entanto, como Wilson Pinheiro e Chico Mendes, passaram a
resistir, organizando os seringueiros e suas fann1ias nos chamados "empates", mobilizações de resistência
pacífica nas quais eles se interpunham fisicamente no caminho dos tratores e das moto-serras, muitas vezes
enfrentando a violência da polícia e dos jagunços do latifúndio.
O movimento de seringueiros não se limitou a resistir ao desmatamento; foi capaz, igualmente, de
gerar propostas de alternativas econômicas para a região amazônica baseadas nas reservas extrativistas -
regiões da floresta a serem demarcadas e dedicadas a atividades extrativistas -, que podem ser desenvolvidas
sem nenhum dano para a floresta, voltadas à exploração da borracha, da castanha-do-Pará, dajuta, do babaçu,
do açaí e outros produtos. Para viabilizar esses projetos os seringueiros tentavam obter recursos junto ao
poder público e entidades nacionais e internacionais, para a implantação de uma infra-estrutura mínima de
usinas de processamento e meios de transporte para escoar a produção e comercializá-Ia, prescindindo dos
intermediários ou "marreteiros".
O Conselho Nacional dos Seringueiros soube estabelecer importantes alianças, de dois tipos. Com
outros povos da floresta, como os índios, fazendo nascer uma solidariedade que no passado não existira e
que ficou consubstanciada na Aliança dos Povos da Floresta,

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da qual participavam seringueiros como o próprio Chico Mendes, Raimundo de Barros, Osmarino Amâncio
e outros, lideranças da União dos Povos Indígenas, como Marcos Terena, Airton Krenak, Paiakan Kaiapó, e
ecologistas das cidades, tanto do Brasil como do exterior. O movimento de seringueiros obteve apoio
político e técnico de entidades como o Instituto de Estudos Amazônicos, de Curitiba, dirigido por Mary
Alegretti, e estabeleceu ligações com entidades ambientalistas norte-americanas e européias.
Chico Mendes recebeu diversos prêmios internacionais e conseguiu sensibilizar importantes
formadores de opinião no sentido de uma solidariedade ativa para com a luta em defesa da floresta e para a
proposta das reservas extrativistas. Seu assassinato repercutiu em todo o mundo, nas primeiras páginas
dosjomais e nos noticiários de televisão de vários continentes. O escândalo colocou definitivamente os
problemas ecológicos do Brasil, particularmente a destruição da Amazônia, no centro da atualidade
internacional, e pesou decisivamente para que o Brasil viesse a ser escolhido para sediar a Conferência ECO-
92. Pela primeira vez, no Acre, um crime dessa natureza não permaneceu totalmente impune: pelo menos o
autor e o mandante direto foram presos e condenados. Mas os instigadores e os articuladores indiretos, muito
mais poderosos, não foram atingidos pelas investigações e o movimento perdeu uma liderança que vem se
revelando, ao fio dos anos, cada vez mais insubstituível.
A partir da morte de Chico Mendes e seus desdobramentos, a questão ecológica tornou-se ainda mais
presente nos meios de comunicação, chegando a criar em certos momentos a ilusão de quase uma nova
unanimidade nacional, onde todos se teriam tornado "verdes". Essa tendência passou a ser visível sobretudo
em meios empresariais, onde o discurso anterior de que a ecologia entravava o progresso passou a ser cada
vez mais substituído por categorias extraídas de um discurso ecológico como a do "desenvolvimento
sustentado", que se transformou num termo de referência de um novo jargão usado intensamente por
ambientalistas, empresários e técnicos dos órgãos governamentais. Esse fenômeno de apropriação de
fragmentos de um discurso ecológico refletia duas realidades. Em alguns casos, o avanço sincero das
concepções ecológicas, ou simplesmente ambientalistas, entre empresários e quadros técnicos sensíveis a
essas novas visões e identificados com elas como cidadãos. Em outros, a busca de uma melhoria de imagem
institucional por parte de empresas poluidoras ou devastadoras, fossem privadas ou estatais, ou,
simplesmente, a exploração de um gancho publicitário naquilo que para muitos ainda parecerá um
"modismo". Por outro lado, independentemente dessa diferenciação - de interpretação muitas vezes difícil e
subjetiva - a ecologia passou a ser vista por muitos também como "um bom negócio", apontando para novas
oportunidades em novos ramos emergentes: os equipamentos antipoluição, os estudos de impacto ambiental,
o turismo ecológico etc.
Paralelamente às ONGs "tradicionais" do movimento ambientalista brasileiro surgiu uma nova onda
de entidades, que dão ênfase àquilo que se pode definir como uma estrutura de funcionamento "mais
profissional", capazes de superar o funcionamento artesanal e amadorista do movimento.
Capacitadas a atrair recursos de organizações ambientalistas de outros países, bem como de empresas
públicas e privadas, nacionais ou multinacionais, essas entidades vêm ocupando espaços com um grau
variado de seriedade e equilíbrio entre o ideal ambientalista e o pragmatismo do relacionamento com
variadas fontes financiadoras com interesses diversos. A consolidação. de entidades mais
"profissionalizadas" como a SOS Mata Atlântica, a Pronatura e outras vem enriquecer o espectro das ONGs
ambientalistas, que no Brasil nunca conseguiram se transformar em grandes entidades como a WWF, a
Friends of the Earth ou a Greenpeace. Em contrapartida, mesmo nos municípios mais afastados dos grandes
centros e nas mais pequenas localidades do país encontram-se grupos ambientalistas.

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Aeleição presidencial de 1989 e o governo CoUor criaram uma nova situação no tocante à questão
ecológica. A tendência "Iobbista" do movimento passou das ante-salas aos gabinetes executivos. Mais do
que qualquer outro presidente anterior, Collor usa conceitos e assimila um discurso ambientalista como um
dos componentes da "modernidade" que procura encamar. Essa situação permitiu medir melhor os limites da
estratégia "Iobbista". Ao discurso ambientalista corresponde uma atuação que vem sendo pouco eficaz
excetuada a questão indígena, onde houve avanços graças à ação do sertanista Sydney Possuelo, na PUNA! -
, muitas vezes menos determinada do que no último período do governo anterior quando, apesar de um
discurso mais atrasado, a presença do jornalista Fernando César Mesquita, no IBAMA, fora um claro fator
de avanço no combate à devastação.
O anúncio da realização, no Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas para o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento, apelidada ECO-92 ou Rio-92, reforçou mais ainda a presença da ecologia
nos meios de comunicação, criando quase uma supersaturação temática, muitas vezes superficial. Seu efeito
sobre o movimento ambientalista também foi ambíguo. Por um lado permitiu, pela primeira vez, que este
tentasse organizar-se no plano nacional através de um Fórum Nacional de entidades e suscitou uma
ecologização com graus variados de profundidade de diversas ONGs a princípio não-ambientalistas, ditas
sociais ou "de desenvolvimento", o que foi coerente com o escopo amplo da Conferência. Por outro lado,
esse avanço representado por um FórumNacional e pela entrada no campo ambientalista de numerosas
organizações novas ainda não representou, na prática, um reforço do movimento em função das lutas do dia-
a-dia em tomo dos diversos problemas ambientais do país - alguns dos quais vêm se agravando - nem uma
melhor coordenação dos ecologistas diante de uma nova' situação de mobilização de seus adversários. Os
interesses econômicos mais predatórios representados por segmentos empresariais, sobretudo da região
amazônica, souberam utilizar-se do "gancho" da ECO-92 para lançar uma campanha antiecológica
explorando temas xenófobos como o pretenso risco de uma "internacionalização" da floresta. Esse lobby,
que conta com governadores, entre os quais a figura histriônica de Gilberto Mestrinho, do Amazonas,
militares, parlamentares e jornalistas conseguiu, pelo menos num determinado período, ocupar um espaço de
mídia considerável e consolidar uma articulação que agora se encarrega de tentar desmantelar os avanços
obtidos nos últimos anos na legislação ambiental, nos níveis federal, estadual e municipal, e, enquanto isso
não é possível, entravar ao máximo fi aplicação dessas leis.
Essa situação consagra, definitivamente, a politização da questão ecológica, que deixa de ser uma
falsa unanimidade para se tomar o terreno cada vez mais privilegiado de mais um grande confronto na
sociedade brasileira entre a mentalidade capitalista selvagem, truculenta e oligárquica e uma perspectiva
ecológica que não se preocupa apenas com a preservação ambiental, mas também com a democratização da
sociedade e a justiça social, além de uma modernização e despoluição da vida política brasileira, dominada
por uma mentalidade e uma prática fisiológicas.
A perspectiva ecológica vai além do simples protesto que marcou toda uma primeira fase do
movimento. Além da denúocia de atividades agressoras ao meio ambiente e da elaboração de melhores leis,
o movimento é chamado, cada vez mais, a colocá-Ias em prática, elaborar e implementar projetos, soluções,
tecnologias alternativas em áreas como energia, transporte, saúde, saneamento, educação, habitação etc.
Deve aprender a combinar e harmonizar níveis diferentes de atuação como a rua, o bairro, o local de
trabalho, os parlamentos municipal, estadual e federal, órgãos do poder executivo, empresas. Para todo esse
espectro amplo de atuação que envolve a organização popular, a inserção na mídia, um trabalho dentro do
aparelho de estado e da iniciativa privada, a grande

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diversidade de entidades e campos específicos de trabalho pode ser algo positivo. As estratégias da
organização popular pela ecologia, defendida pelos verdes, e a da articulação "Iobbista" de outros setores
ambientalistas não são necessariamente contraditórias - em determinadas circunstâncias podem ser
complementares. Na esfera político-institucional, o movimento necessita de instrumentos de intervenção que
lhe permitam ampliar seus espaços nos vários parlamentos e executivos. Esses instrumentos são o Partido
Verde e os núcleos de ecologistas existentes noutros partidos políticos .
Já podem ser observadas, hoje, experiências de poder local onde são visíveis, claramente, influências
de políticas propugnadas pelos ecologistas. Apesar da forte crise econômica, social e moral que ocorre no
país, algumas dessas administrações locais têm obtido sucesso e conquistado a simpatia da maioria dos
habitantes desses municípios. É o caso de administrações, além das de Curitiba e Vitória, das de Anthony
Garotinho, em Campos, TeIma de Souza, em Santos e também, em certa medida, de Marcello Alenear, no
Rio de Janeiro e de Luiza Erundina, em São Paulo. Despoluição das águas, ônibus a gás, ciclovias, hortas
comunitárias, áreas de proteção ambiental, projetos de reflorestamento, questionamento do reinado absoluto
do automóvel; em todas essas cidades e diversas outras o peso das idéias e propostas defendidas pelos
ecologistas começa a fazer-se sentir. São passos iniciais de uma ecologia urbana em gestação no ventre
conturbado das cidades ambientalmente "inviáveis" que vão, aos poucos, começando a "esverdear", como
reflexo de uma nova cultura que nasce e cresce no bojo da antiga, produzindo aqui e ali pontos de mutação e
a lenta configuração de novos paradigmas.
Querer tomar o rumo do paraíso, num país tão desigual, com tanta miséria e violência no cotidiano é,
para muitas pessoas hoje totalmente descrentes, um desafio quixotesco. Essa descrença e o pessimismo
reinante interessam aos poucos beneficiários contumazes do modelo de sociedade que devasta o meio
ambiente e degrada o ser humano enquanto acumula cada vez mais renda nas mãos de uma elite, hoje
condenada a viver reclusa e temerosa ou emigrar para o Norte do planeta. Rumo ao paraíso é o caminho
alternativo de quem rejeita a: fatalidade do apocalipse, a inevitabilidade da entro pia e da autofagia, e
acredita na capacidade do ser humano de criar e transformar. E a direção de quem aposta na ecologia e na
cidadania como as atuais metas de uma permanente luta pela vida.