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McCORMICK, John. Rumo ao Paraíso - A história dos movimentos ambientalistas

McCORMICK, John. Rumo ao Paraíso - A história dos movimentos ambientalistas

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John McCormick

RUMO AO PARAÍSO
A História do Movimento Ambientalista

RELUME DUMARÁ

John McCormick

RUMO AO PARAÍSO A História do Movimento Ambientalista

Tradução de Marco Antonio Esteves da Rocha e Renato Aguiar

RELUME DUMARÁ

Título original: Reclaiming Paradise © Copyright 1989, John McCormick © Copyright da edição em português, 1992: DUMARÁ DISTRIBUIDORA DE PUBLICAÇÕES Av. N. S. de Copacabana, 435 - S/207 22020 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (021) 257-5391 Coordenação Editorial: Alberto Schprejer Editoração: . Antônio Trânsito Capa: Victor Burton CIP-BrasiL Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Edltores de Livros, RJ. McCormick, John, 1964- M429r Rumo ao Paraíso: a história do movimento ambientalista / John McCormick; tradução de Marco Antonio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. - Rio de Janeiro: RelumeDurnarã, 1992 Tradução de: Reclaiming Paradise Bibliografia. ISBN 85-85427-094 1. Movimentos ecológicos - História. 2. Proteção ambiental Históiria. I. Título. 92-0191 CDD - 304.2 CDU - 3:577.4

" ... Rumo ao Paraíso é uma bem fundamentada reconstituição histórica do ambientalismo em escala planetária, desde suas raizes históricas remotas até a presente ascensão da ecologia política como movimento antecipador do terceiro milênio. É uma leitura importante para o público brasileiro, tão saturado de mensagens 'verdes' mas tão carente de uma informação mais rigorosa e precisa, indispensável para a afirmação de uma cultura ecológica ... " ALFREDO SIRKIS " ... As bases constitutivas do pensamento ecológico são múltiplas e antigas. Elas ganharam consistência com o conhecimento cientifiço sobre as formas de vida e os ecossistemas adquirido no século passado. Nutriram-se das lutas em defesa das florestas e animais ameaçados, na primeira metade deste século, e incorporaram outras dimensões fundamentais: a luta pela paz, contra a contaminação dos alimentos, contra o risco nuclear, pela despoluição das cidades, contra o gigantismo das concentrações industriais, pelas liberdades fundamentais, por nov.os direitos de cidadania. A história da constituição desta consciência ambientalista global ainda não havia sido contada, e por isto saudamos o esforço de John McCormick, fruto de uma pesquisa histórica e de sua própria experiência militante ... " CARLOS MINC

ISBN 85-85427-09-4

Prefácio à edição brasileira Carlos Minc
Ecologia virou moda? As empresas aprenderam a respeitar o ''verde''? A massificação do ecologismo pela mídia tem como sujeito oculto desviar os movimentos de suas reivindicações por justiça e igualdade? A industrialização da ecologia é a nova fronteira de grandes investimentos e lucros? Os ecologistas estão mais preocupados com árvores e baleias que com homens e mulheres? Nós, ecologistas veteranos, ficamos comovidos com a "rápida, profunda e desinteressada adesão" de uma grande quantidade de empresários, banqueiros e governantes às grandes causas e bandeiras da ecologia. Parece que todos agora são ecologistas desde a mais tenra idade. A defesa das nações indigenas, a defesa dos mares, a prevenção contra as alterações climáticas do globo e a manutenção da biodiversidade ajudam, na TV, a vender refrigerantes, cigarros, calças jeans e empreendimentos imobiliários. O desconhecimento das bases filosóficas e históricas do movimento ecológico permite que muitas pessoas se considerem ambientalistas porque não comem carne, não jogam papel no chão ou ainda porque são favoráveis ao controle da natalidade A instituição da cidadania civil consagrou, no fim do século XVIll, as liberdades individuais - como as liberdades de expressão, de pensamento e de credo religioso. A cidadania política é ampliada apenas no século XIX, com a extensão do direito de voto e da participação dos cidadãos no exercício do poder político. A base da cidadania social e econômica é consagrada no século XX, com o reconhecimento do direito universal à educação, à saúde, à terra, ao" salário digno. Albert Hirschman nota o espaço de um século entre cada uma dessas grandes dimensões da cidadania conquistadas e analisa como o pensamento reacionário fustiga os conceitos e as políticas que as incorporam, desqualificando sobretudo as medidas que visam assegurar a cidadania social e econômica. O século XXI deverá consagrar a cidadania ecológica, o direito ao sol, ao ar puro, à qualidade de vida, ao alimento saudável, ao ambiente de trabalho despoluído. Os que hoje se recusam a apresentar relatórios de impactos ambientais em audiências públicas ou a adotarem tecnologias limpas cumprem o mesmo papel daqueles que negavam o direito de voto às mulheres ou lutavam contra a jornada de trabalho de oito horas. Cidadania ecológica supõe movimento e consciência ecológica. As bases constitutivas do pensamento ecológico são múltiplas e antigas. Ganharam consistência com o conhecimento científico adquirido no século passado sobre as formas de vida e os complexos equilíbrios dos ecossistemas. Nutriramse das lutas em defesa das florestas e animais ameaçados, durante a primeira metade deste século, e incorporaram sucessivamente outras dimensões fundamentais: a luta pela paz, contra a contaminação dos alimentos, pela vida saudável, contra o risco nuclear, pela despoluição das cidades, contra o gigantismo das

concentrações industriais, pelas liberdades fundamentais, por novos direitos de cidadania, pelas tecnologias limpas, contra a fome e os desequilíbrios, pelo desenvolvimento sustentado. 8 A história da constituição dessa consciência ambientalista global ainda não havia sido contada, e por isso saudamos o esforço de John McCormick, fruto de uma pesquisa histórica e de sua própria experiência militante .. Ao computarmos os milhões de associados e contribuintes da Greenpeace, da Friends of the Earth, da WWF, da IUCN e dezenas de outras organizações ecológicas de grande porte chegamos à conclusão de que se trata do mais amplo movimento de cidadãos que já houve. Um movimento dessa amplitude é obrigatoriamente heterogêneo, abrigando diversidades ideológicas, regionais, temáticas e também no tocante a suas estratégias e formas de ação. A riqueza maior da consciência ecológica global, apreendida por John McCormick, reside na multiplicidade de suas fontes constitutivas. Alguém poderá questionar: afinal, o que há em comum entre um membro de um clube de observadores de pássaros e um nutricionista preocupado com as doenças decorrentes da má alimentação? Entre um adepto da antipsiquiatria e um físico especialista em energia solar? Entre uma associação de bairro que combate os espigões e luta por mais áreas verdes e os adeptos de Gandhi, da não-violência? Entre os defensores das baleias e espécies ameaçadas de extinção e os remanescentes dos movimentos estudantis e alternativos de 1968? Para responder a tais questões é necessário conhecer a história do pensamento ecologista, os ideais dos fundadores e dirigentes das principais organizações ambientalistas, e de que forma, paulatinamente, os governantes e empresários foram obrigados a mudar, em parte, seus discursos, e alguns até seus procedimentos e suas decisões econômicas. A ecologia não é uma invenção da mídia. Isto é óbvio, mas precisa ser sempre explicitado. A mídia se preocupa crescentemente - muitas vezes de forma sensacionalista - com o meio ambiente porque milhões de pessoas em todo o mundo começaram a dedicar uma parte de seus esforços e de sua imaginação criadora para defender a vida no planeta e, em seu âmbito, a vida digna para cada um de seus habitantes. Quando começamos o movimento ecológico no Rio de Janeiro, no final da década de 1970, éramos considerados exóticos e visionários. Falávamos de ciclovias, táxis e ônibus movidos a gás natural, em reciclagem de materiais, contra os riscos do nuclear, em agricultura orgânica, em manejo ecológico das florestas. Mais tarde ganhamos força e nos aliamos a outros movimentos sociais, como o dos seringueiros de Chico Mendes, o dos pescadores, o da GásCoop - cooperativa dos táxis movidos a gás natural. Conseguimos vitórias na justiça contra os grandes poluidores, fechamos a usina nuclear por 85 dias, impedimos a entrada do metanol no Rio, junto com os estivadores e portuários devolvemos para a Bélgica um navio com lixo químico. Aí tudo mudou: para os setores mais conservadores, passamos a ser os inimigos do progresso, os

exibicionistas, os anticientíficos. Começamos a contrariar grandes interesses e deixamos de ser as peças curiosas da exposição. Os sindicatos nos reconheceram e entramos em dezenas de empresas para combater as tecnologias sujas, relacionando ecologia, tecnologia e saúde do trabalhador. Os sindicatos começaram a elaborar mapas de risco ambiental e incorporar demandas ecológicas nos contratos coletivos de trabalho. As associações de bairro se converteram em defensoras das encostas, da qualidade do ar, das áreas verdes dos quarteirões, da qualidade das praias. Centenas de táxis passaram a rodar com gás natural, as ciclovias saíram das pranchetas e começaram a enfrentar as resistências dos adoradores de automóveis. O jateamento de areia foi proibido nos estaleiros e vários parques ecológicos foram criados na Mata Atlântica. E no entanto o lixo químico é enterrado na Baixada Fluminenese sob as moradias dos bairros populares, o esgoto praticamente não é tratado, o cólera é um perigo concreto, milhares de agricultores se intoxicam com agrotóxicos. A maior parte das leis ambientais não é cumprida; o consumismo e o desperdício, outra face da perversa concentração de 9 renda, falam mais alto que a cidadania ecológica. Isso tudo revela como o atraso cultural e político impede o avanço da consciência ecológica. Comparados à Greenpeace, seus dois milhões de contribuintes, seus 12 navios, helicópteros, Institutos de Pesquisa, publicações como os Relatórios Netuno (que fazem o levantamento de todos os 1650 acidentes envolvendo embarcações nucleares e as características e localização das 16 mil ogivas nucleares que circulam nos mares), vemos como estamos ainda na idade da pedra. Para avançarmos temos de conhecer e divulgar o pensamento e a organização dos movimentos ambientalistas mais antigos e consistentes. Cidadania ecológica se constrói com educação ambiental, teoria, reflexão e prática sistemática do movimento ambientalista em conjunto com os diversos movimentos sociais e populares. A ecologia virou moda? Esperamos que sim. Uma moda saudável que contagia a juventude e as pessoas sensíveis: lutar por novos direitos, pela liberdade e pela vida no planeta. 10 FOLHA EM BRANCO

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Introdução
De todas as revoluções conceituais do século XX, poucas forjaram uma mudança tão universal e fundamental nos valores humanos quanto a revolução ambientalista. Gerado pelos amantes da natureza e filantropos vitorianos, nutrido por naturalistas amadores e planejadores profissionais, e finalmente inserido na agenda das políticas públicas por uma nova geração rebelde e idealista, o ambientalismo ultrapassou as divisões religiosas, nacionais e políticas para difundir-se em quase todos os países da Terra. Ganhou dezenas de milhões de adeptos, criou novos órgãos de legislação, engendrou novos partidos políticos, encorajou uma reavaliação das prioridades econômicas e tornou-se tema de políticas internas e relações internacionais. Acima de tudo, mudou nossas percepções do mundo no qual vivemos. Pressuposições de séculos foram subvertidas em não mais que poucas décadas. Pela primeira vez a humanidade foi despertada para a verdade básica de que a natureza é finita e que o uso equivocado da biosfera ameaça, em última análise, a própria existência humana. A mudança teve maturação lenta. Embora os movimentos ambientalistas datem do pós-guerra, a destruição ambiental tem uma longa linhagem. Há cerca de 3.700 anos, as cidades sumérias foram abandonadas quando as terras irrigadas que haviam produzido os primeiros excedentes agrícolas do mundo começaram a tornar-se cada vez mais salinizadas e alagadiças.1 Há quase 2.400 anos Platão deplorava o desmatamento e a erosão do solo provocada nas colinas da Ática pelo excesso de pastagem e pelo corte de árvores para lenha.2 Na Roma do século I, Columela e Plínio, o Velho, advertiram que o gerenciamento medíocre dos recursos ameaçava produzir quebras de safras e erosão do solo.3 Por volta do século VII o complexo sistema de irrigação da Mesopotâmia, construído 400 anos antes, começava a sucumbir sob o peso da má administração.4 Na mesma época o crescimento populacional plantava as sementes do colapso da civilização maia no século X. 5 A construção de embarcações para a frota do Império Bizantino, Veneza, Gênova e outros estados marítimos italianos reduziu as florestas costeiras do Mediterrâneo.6 A poluição do ar pela queima de carvão afligia tanto a Inglaterra medieval que em 1661 o memorialista e naturalista John Evelyn deplorava a "Nuvem lúgubre e Infernal" que fez a Cidade de Londres parecer-se com "a Corte de Vulcano ... ou os Subúrbios do Inferno, [ao invés] de uma Assembléia de Criaturas Racionais."7 Apesar dessas advertências prévias houve pouco sentimento de alarme ou interesse até bem depois da Revolução Industrial. A mudança mais ampla nas atitudes humanas começou com a era das descobertas científicas, quando os sinais de deterioração tornaram-se evidentes para mais pessoas, e não apenas para uns poucos observadores perspicazes da condição da natureza. As raízes de um "movimento" mais amplo podem ser discernidas pela primeira vez na segunda metade do século XIX. Os primeiros grupos protecionistas foram criados na Grã-Bretanha na década de 1860. Nos Estados Unidos, um movimento bipartido de preservacionistas de áreas virgens e de conservacionistas de recursos naturais começou a emergir na virada do século. A sensibilidade do público para 16 os primeiros movimentos era pequena, mas, à medida que a ciência revelava mais sobre a estrutura da natureza, e as pessoas ganhavam mais mobilidade e passavam a olhar para além de sua vizinhança imediata, o movimento cresceu e se disseminou. Contudo, a verdadeira revolução ambiental só aconteceu depois de 1945, com o período de maiores mudanças se verificando a partir de 1962. • Em 1863, a Grã-Bretanha aprovou a primeira lei de amplo espectro contra a poluição do ar no mundo e criou o primeiro órgão de controle da poluição. Até 1971 existiam somente 12 órgãos ambientais nacionais no mundo; hoje há mais de 140 . O primeiro grupo ambientalista privado do mundo (Commons, Foot-paths, and Open Spaces Preservation Society) foi fundado na Grã-Bretanha em 1865; hoje o mundo conta com mais de 15 mil desses grupos, um terço dos quais fundados depois de 1972. O primeiro acordo internacional sobre meio ambiente foi assinado em 1886; hoje são mais de 250, três quartos dos quais assinados após 1960. Em 1972 as Nações Unidas criaram um novo programa ambiental; já em 1980, quase todas as organizações internacionais mais importantes - desde o Banco Mundial até a Comunidade Européia e

a Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica - haviam tomado posições relativas às políticas de meio ambiente. Ainda insatisfeitos com a resposta política, novos partidos verdes surgiram para desafiar a velha ordem. O primeiro foi fundado em 1972, na Nova Zelândia; em 1988 havia partidos verdes atuantes em 14 países oito deles elegeram membros para suas assembléias nacionais e 11 membros verdes têm assento no Parlamento Europeu. Para muitos, a política verde oferece uma alternativa nova e poderosa para as inconsistências e insuficiências do tradicional eixo esquerda/direita. Nem todos os grupos privados foram efetivos, poucos dos órgãos nacionais têm poderes adequados ou responsabilidades lógicas, muitas das leis permanecem ainda inadequadas ou ignoradas, muito poucos pronunciamentos políticos contêm mais do que declarações bombásticas, e os partidos verdes (mas não suas filosofias) podem, em última análise, se revelar fenômenos efêmeros. Entretanto não há como negar a emergência de um movimento global substancial. Somente nos Estados Unidos 17 milhões de indivíduos descrevem a si mesmos como "ambientalmente ativos" e 55% da população reivindica apoio para os objetivos do movimento.8 Três milhões de britânicos são membros de grupos ambientais,9 fazendo do movimento o maior de sua história. O ambientalismo gerou sem dúvida uma revolução conceitual de proporções copérnicas, Isso torna ainda mais surpreendente o fato de que pouco se tenha escrito sobre-a história do movimento. É verdade que a produção intelectual americana e européia aumentou muito rapidamente nos últimos dez anos,10 mas somente uma pequena parcela da mesma vai além de movimentos nacionais limitados, sendo exceções notáveis os trabalhos de Max Nicholson e Lynton Caldwell.11 No entanto é difícil - e mesmo artificial avaliar o ambientalismo exclusivamente em termos de movimentos nacionais isolados. Fazê-Io pode levar a concepções equivocadas. Há, por exemplo, a afirmação de que a conservação foi uma das maiores contribuições da América para os movimentos reformistas mundiais e que suas idéias acabaram por ser exportadas para outras nações.12 Na verdade o conservacionismo americano foi muito influenciado pelas técnicas alemãs de manejo florestal e a conservação era praticada em algumas partes da Europa - e até na África do Sul e na Índia - antes de surgir nos Estados Unidos. 17 Existe a sugestão de que os parques nacionais são uma "invenção" americana.13 O primeiro parque nacional do mundo foi, é verdade, Yellowstone, e o conceito foi sem dúvida criado por George Catlin por volta de 1830; mas Wordsworth havia escrito dez anos antes sobre suas esperanças de que o Distrito dos Lagos inglês fosse encarado como "uma espécie de propriedade nacional na qual tem direito e interesse cada homem que tem um olho para perceber e um coração para desfrutar" .14 Existe a crença equivocada de que muitos temas e problemas recentes são "novos". A poluição ácida, por exemplo, é frequentemente retratada como uma questão dos anos 80. Todavia sua existência era suspeitada já no século XVII, sendo confirmada na década de 1850. Muitos dos debates sobre população dos anos 60 simplesmente ecoavam Thomas Malthus (1766-1834), que comparou o crescimento exponencial dos números da população humana ao crescimento aritmético da produção de alimentos - e até mesmo ele foi precedido por sir William Petty.15 A idéia de que o modo de vida industrial era insustentável, esboçada em 1972 em A Blueprint for Survival, havia sido explorada pelo menos já em 1899, pelo geógrafo Peter Kropotkin.16 Tais mitos e concepções errôneas podem derivar, ao menos em parte, da falta de definições claras ou consistentes da natureza e parâmetros do ambientalismo. Tratar-se-á de um modo de vida, um estado de espírito, uma atitude em relação à sociedade ou uma filosofia política? Talvez seja tudo isso, ou somente parte dessas coisas. Por que algumas vezes o ambientalismo é também chamado (confusamente) de movimento "ecológico" ou "conservacionista"? Como a "proteção" difere da "preservação"? Como a "conservação" se diferencia do "desenvolvimento sustentado"? O que é "desenvolvimento sustentado"? Será a ecologia uma ciência, uma filosofia, uma doutrina política ou todas as três? Aqueles que procuram por uma definição eficiente do ambientalismo poderiam fazer pior do que se reportar a Roger Scruton, que o define como "interesse pelo ambiente ... quando elevado à atividade política" .17 Mas o movimento ambientalista vai além disso. Poucos "movimentos" reformistas foram homogêneos porque poucos dentre os problemas sociais têm respostas simples ou universais. O ambientalismo não é uma

exceção. Assim como o movimento pelos direitos civis é fundamentalmente voltado à igualdade racial, o movimento ambientalista é fundamentalmente relacionado com a proteção e administração do meio ambiente natural e humano. Mas, assim como as filosofias dos direitos civis se estenderam da não-violência de Martin Luther King ao black power intransigente de Malcom X ou dos Black Panthers, assim também os grupos ambientalistas têm ideologias, objetivos e métodos dessemelhantes. Em 1970 a revista New Republic foi influenciada a descrever o movimento ambientalista americano como "o maior sortimento de aliados mal entrosados desde as Cruzadas, jovens e velhos, radicais de esquerda e de direita, liberais e conservadores, humanistas e cientistas, ateus e teístas".18 Em seu estudo sobre o ambientalismo americano, Joseph Petulla identifica três tradições principais: a biocêntrica (natureza em si e para si), a ecológica (baseada numa compreensão científica da inter-relação e interdependência entre as partes das comunidades naturais) e a econômica (a utilização otimizada dos recursos naturais, de outro modo apresentada como o enfoque utilitário do conservacionismo). O autor alinha uma série de argumentos diferentes (da preservação da natureza à ecologia humana e à filosofia anticrescimento) e uma variedade de embasamentos éticos, desde a tradição puritana (o desperdicio é o mal) até a riqueza e a ética empresarial.19 Aliado a isso há o cisma entre a "deep ecology" e a "shallow ecology"*; a primeira vê o homem como uma parte da natureza e subordina as considerações econômicas às ecológicas; a segunda é descartada pelos ecologistas "deep" como uma crença de que o homem é separado da natureza, e considera as medidas de proteção somente através de sua
* Literalmente, ecologia "profunda" e ecologia "rasa" ou "superficial". (N. do T.)

18 utilidade para os interesses humanos. O'Riordan, por seu turno, observa a evolução divergente de dois temas ideológicos: o ecocêntrico (que acredita em ordem natural e leis naturais) e o tecnocêntrico (que acredita que o homem é capaz de compreender e controlar os acontecimentos para servirem a seus objetivos)20. Considerada num nível global, a diversidade de filosofias, táticas e objetivos é amplificada. As questões abrangem desde a proteção de orquídeas até a de baleias, da efetiva destruição das wetlands* aos perigos teóricos-do inverno nuclear, dos efeitos da afluência aos da pobreza. Os grupos ambientalistas abrangem desde organizações de vários milhões de membros, operando a partir de escritórios de planejamento em Washington, Londres ou Genebra, até associações de aldeia no Himalaia lutando para salvar seu modo de vida próprio. As táticas abrangem desde à prática cuidadosa e continuada de lobby junto a legislaturas nacionais até a confrontação ocasionalmente violenta em alto-mar. As filosofias se estendem desde a acomodação entre as necessidades de desenvolvimento e de crescimento econômico até a defesa do anticrescimento mais intransigente. Dominando tudo isso está a questão de saber se o meio ambiente é um assunto político, econômico ou científico, ou todos os três. Este é o "movimento ambientalista". Quaisquer que sejam as filosofias ou os métodos das partes, o objetivo último do todo é a manutenção da qualidade do meio ambiente humano. Rumo ao Paraíso se propõe a remediar algumas das muitas concepções errôneas sobre esse complexo movimento e a proporcionar a primeira história do ambientalismo como fenômeno social, econômico e político global. Trata-se de um estudo de como e por que o estado e a condição do meio ambiente foram transformados de um tema privado em tema público. O veículo ativo dessa transformação foi um movimento de massa popular. A medida que as preocupações privadas se tornavam públicas os esforços desse movimento se refletiam crescentemente na legislação, na política pública, na criação e operação de organismos ambientais públicos, e nas mudanças dos valores sociais, econômicos e políticos. Esse processo ainda não acabou. Ainda que Rumo ao Paraíso se apóie fortemente nas experiências britânica e americana, seu argumento central é o de que o ambientalismo deve ser visto não como uma série de movimentos nacionais separados, mas como parte de uma mudança mais ampla e de prazo mais longo nas atitudes humanas. Somente desse modo o mesmo pode ser corretamente avaliado e compreendido. O capítulo 1 proporciona um prelúdio necessário ao restante do livro através do exame das raízes do ambientalismo nos séculos XIX e XX na Grã- Bretanha e nos Estados Unidos. Para mostrar como desenvolvimentos paralelos ocorreram em outros lugares, há uma breve descrição dos acontecimentos na Austrália, África do Sul e Índia. Esses desenvolvimentos são então relacionados a um dos primeiros temas ambientais efetivamente regionais (a questão da vida selvagem na África) e, finalmente, aos primeiros sinais de um movimento internacional de proteção da natureza. O tratamento aqui não pretende ser abrangente;

leitores em busca de maiores detalhes sobre os primeiros movimentos nacionais são reportados às fontes citadas. O capítulo 2 segue o fio da meada através da era pós-Segunda Guerra Mundial: as primeiras conferências importantes sobre conservação, a criação dos primeiros órgãos internacionais de conservação, os primeiros alarmes neo-malthusianos, e os primórdios de uma compreensão do debate conservação/desenvolvimento na África pós-colonial.
* O conceito de wetlands, literalmente terras úmidas ou molhadas, é objeto de debate recente e ainda em curso entre a comunidade científica e as autoridades (ver Time n2 34, 26 de agosto de 1991). Atualmente, segundo a Agência de Proteção Ambiental norte-americana, wetlands são "qualquer depressão onde a água se acumule por sete dias consecutivos durante a estação da floração, onde certas plantas aquáticas são encontradas e onde o solo é suficientemente saturado de água para que ocorra atividade de bactérias anaeróbicas ... " Diante dessa imprecisão do conceito preferimos optar pela manutenção do termo em inglês. (N.doT.)

19 Os capítulos 3 e 4 se concentram sobre a partida radical em direção ao Novo Ambientalismo entre 1962 e 1972. O capítulo 3 avalia algumas das razões pelas quais o novo movimento emergiu e quando isso ocorreu: a reação à afluência, o medo da precipitação radioativa, a influência de RacheI Carson, o impacto dos desastres ambientais e a influência de outros movimentos sociais. O capítulo 4 se volta então para o debate gerado pelos assim chamados profetas do apocalipse. O capítulo 5 focaliza um único evento: a conferência de Estocolmo de 1972 sobre o meio ambiente humano. A conferência foi um divisor de águas, fazendo com que o ambientalismo global possa ser separado em duas fases - antes e depois de Estocolmo. O desempenho do resultado institucional mais concreto de Estocolmo - o Programa Ambiental das Nações Unidas - é examinado no capítulo 6. O capítulo 7 avalia a politização do meio ambiente nos países mais desenvolvidos. Pouco antes, mas mormente depois de Estocolmo, o Novo Ambientalismo começou a se traduzir em ação política dos governos: nova legislação, a criação de novos departamentos governamentais e o reconhecimento de convenções internacionais. Organizações não governamentais desempenharam um papel chave ao iniciar e monitorar o desenvolvimento das políticas públicas ambientais. Ao final dos anos 70, a insatisfação com a resposta dos governos ocidentais ajudou a gerar novos partidos políticos verdes. O capítulo 8 lida com um importante resultado da conferência de Estocolmo e um dos mais difíceis problemas enfrentados pelo ambientalismo contemporâneo: a resolução do conflito entre os objetivos de desenvolvimento e a administração ambiental no Terceiro Mundo. Sem políticas práticas coerentes, dados precisos, desenvolvimento econômico com bases amplas, sem uma redução do crescimento populacional e uma distribuição mais equânime dos recursos (naturais e financeiros), o futuro do meio ambiente humano nos países menos desenvolvidos parece desencorajador. O capítulo 9 trabalha com uma visão mais ampla, através de uma avaliação das perspectivas para uma cooperação internacional mais intensa no tratamento dos problemas ambientais globais e regionais. Finalmente, a conclusão faz um sumário da significação do ambientalismo e examina as perspectivas para o século XXI. Rumo ao Paraíso iniciou sua trajetória como uma dissertação de mestrado para a Universidade de Londres. Foram necessários seis anos e várias reformulações para que chegasse à versão final. Compreender um dos mais amplos movimentos de massas da história não foi uma tarefa fácil e este livro deve muito à colaboração e influência de outros. Tenho uma dívida especial de gratidão para com Philip Lowe, do University College de Londres, que orientou o desenvolvimento da dissertação original; seus comentários bem escolhidos a mantiveram em seu curso e a impediram de tomar-se inadministrável. Max Nicholson empenhou seu tempo para falar com alguma profundidade sobre os primeiros anos da IUCN e teceu comentários sobre os dois primeiros capítulos. Martin Holdgate propiciou comentários abrangentes sobre os capítulos 5 e 6. Lynton K. Caldwell;: da Universidade de Indiana, Richard N.L. Andrews, da Universidade da Carolina do Norte, e Tim O'Riordan, da Universidade de East Anglia, leram o manuscrito todo e apresentaram muitos comentários úteis. David Brower, Czech Conroy, Duncan Poore, Robert Prescott - Allen e Richard Sandbrook discutiram comigo aspectos específicos do movimen-. to e, em alguns casos, comentaram trechos do manuscrito. Uma bolsa do World Wildlife Fund ajudou a dissertação em seus estágios iniciais e muitos colegas do Earthscan e do Institute for Environment and Development propiciaram-me um ambiente inspirador de trabalho enquanto o volume maior do projeto estava em curso.

A todos eles, meus sinceros agradecimentos. 20 FOLHA EM BRANCO 21

UM As Raízes do Ambientalismo
O movimento ambiental não teve um começo claro. Não houve um acontecimento isolado que inflamasse um movimento de massas, nenhum grande orador ou profeta que surgisse para incendiá-Ias, poucas grandes batalhas perdidas ou ganhas e poucos marcos dramáticos. O movimento não começou num país para depois espalhar-se em outro; emergiu em lugares diferentes, em tempos diferentes e geralmente por motivos diferentes. As questões ambientais mais antigas eram questões locais. Uma vez compreendidos os custos mais imediatos e pessoais da poluição, da caça ou da perda das florestas, os indivíduos formaram grupos, que formaram coalizões, que se tornaram movimentos nacionais e, finalmente, um movimento multinacional. Esta evolução foi episódica, com períodos de expansão dinâmica intercalados por tempos de sonolência. Os estímulos e as respostas freqüentemente se diferenciaram, mas certo número de critérios objetivos teve de ser atingido antes que um movimento mais amplo pudesse emergir: o progresso da pesquisa científica, um crescimento da mobilidade pessoal, a intensificação da indústria, a disseminação dos assentamentos humanos e mudanças mais amplas nas relações sociais e econômicas. Estes e outros fatores exerceram níveis variados de influência. Na Europa o meio ambiente havia sido manipulado pelo homem durante séculos. A agricultura transformara a paisagem, restringindo a natureza a florestas, terras não utilizáveis e quaisquer pequenas ilhas que pudesse encontrar no mar da habitação humana. Quando esses vestígios remanescentes foram ameaçados pela indústria e pela agricultura mais eficiente, protecionistas se levantaram em resposta. Em outros lugares, naquelas regiões que estavam vivenciando um novo assentamento europeu - América do Norte, Austrália, África do Sul e algumas colônias africanas selecionadas -, a conservação e a proteção emergiram como uma forma de controle político e econômico. A exploração irrestrita dos recursos naturais na ausência de um controle metropolitano não podia mais ser permitida. Na América do Norte, a costa leste refletia cada vez mais uma predominância humana de variedade européia, mas as terras a oeste dos Apalaches eram relativamente intocadas. Também se revelaram ricas em recursos naturais. Isso levou alguns a argumentar que o Oeste americano deveria ser protegido contra o tipo de mudanças provocadas pela mão do homem que havia ocorrido no Leste, e outros a argumentar que os recursos deveriam ser explorados, mas de uma maneira racional e sustentável. Posteriormente as influências intranacionais se disseminaram. O conhecimento dos especialistas florestais alemães foi exportado para os Estados Unidos e para a índia, via Grã-Bretanha, para a Austrália via Índia, e mais além. O romantismo e o darwinismo 22 alteraram as percepções humanas muito além de seus respectivos lugares de origem. No final do século XIX era difícil dissociar os objetivos dos movimentos nacionais. Mesmo que diferenças entre métodos e objetivos possam ter permanecido, a cena estava pronta para o surgimento do movimento ambiental global. A GRÃ-BRETANHA VITORIANA: À PROCURA DA ARCÁDIA As origens do ambientalismo britânico se encontram na era das descobertas científicas. O crescimento do interesse pela história natural revelou muito sobre as conseqüências da relação de exploração do homem com a natureza. Isso levou inicialmente a um movimento pela proteção da vida selvagem e, depois, a reivindicações para que fossem proporcionadas oportunidades rurais de lazer como antídoto para a vida nas florescentes conturbações industriais. A primeira influência importante sobre o nascente ambientalismo britânico foi o estudo da história natural. Os fundamentos da botânica e da zoologia modernas e de outras ciências biológicas foram estabelecidos pelo trabalho de uma sucessão de naturalistas de campo amadores

durante os séculos XVI, XVII e XVIII.1 O mais notável foi Gilbert White, cuja obra seminal, The Natural History of Selborne, editada em 1788, tomou-se o quarto livro mais publicado em língua inglesa e influenciou sucessivas geraçóes de naturalistas, inclusive Darwin. White condensou a visão arcadiana da natureza, a qual advogava simplicidade e humildade de modo a restaurar a convivência pacífica do homem com a natureza. "Se existiram até agora poucos desejosos e capazes de olhar para a natureza com a extraordinária maturidade de Gilbert White", observa David AlIen, "houve muitos que gradualmente tomaram consciência dos atrativos do cenário natural... e aprenderam a reagir com uma segurança continuamente crescente."2 Essa tomada de consciência encorajou e encontrou apoio entre os românticos e os primitivistas, que encontravam consolo emocional (mas não necessariamente desafio científico ou intelectual) num mundo natural anteriormente considerado estranho e proibido. Suas sensibilidades estéticas eram ofendidas pela sujeição da natureza pelo homem. Poetas e pintores deploravam as mudanças realizadas no campo pela agricultura. Wordsworth escreveu sobre os "direitos violados" da natureza. O escritor e esteta William Gilpin observou que "onde quer que surgisse o homem com suas ferramentas, a deformidade seguia seus passos. Sua pá e seu arado, sua sebe e seu terreno sulcado eram abusos chocantes contra a simplicidade e elegância da paísagem".3 A Inglaterra do século XVIII tornou-se a Meca dos naturalistas e ilustradores botânicos.4 A invenção da litografia entre 1796 e 1798 trouxe a beleza visual da natureza para um público mais amplo, notadamente através do trabalho de Thomas Bewick. As descobertas do botânico sueco Carl von Linné (Linnaeus), cujo trabalho em taxonomia botânica foi a infância da ecologia, e do naturalista inglês John Ray se associaram aos achados da era das exploraçóes para encorajar a pesquisa nas ciências naturais, culminando nas teorias de Darwin e de WaIlace. A história natural se tornou um passatempo popular vitoriano, alimentado pelo sentimento de que conduzia o homem para mais perto de Deus. O estudo da natureza era em si mesmo um ato de devoção, como expressado pela máxima recorrente "através da Natureza até o Deus da Natureza".5 A compreensão do ambiente natural que emergiu das pesquisas dos séculos XVIII e XIX afetou profundamente a visão do homem quanto a seu lugar na natureza. A era vitoriana foi um período de grande autoconfiança e segurança, embora o ideal vitoriano de civilização tenha quase sempre dependido da conquista da natureza pela ciência e pela tecnologia.6 O domínio sobre o meio ambiente era visto como essencial para o progresso e para a sobrevivência da raça humana. Mas uma "consciência biocêntrica"7 emergiu gradualmente, reforçando o restabelecimento do sentido de ienter-relação entre o homem 23 e a natureza e a aceitação de uma responsabilidade moral relacionada à proteção da natureza contra os abusos. A obra de Darwin forneceu um estímulo importante para esse ponto de vista; a evolução sugeria que o homem era parte integrante de todas as outras espécies e que, por sua própria conta e risco, se havia distanciado da natureza. Para Lowe, o termo "equilíbrio da natureza" no século XVIII havia implicado "um robusto e préestabelecido sistema de controles e restrições que assegurava a permanência e a continuidade na natureza. Ao final do século XIX, o termo transmitia a noção de um equilíbrio delicado e íntimo, facilmente rompido e altamente sensível à interferência humana"8. Mudanças que haviam sido consideradas vantajosas no passado provocavam agora uma oposição apaixonada, ao menos entre uma influente minoria de vitorianos intelectuais e das classes dominantes.9 O imperativo de "melhorar" o meio ambiente (através da demolição de prédios, do controle de epidemias, da drenagem de pântanos e assim por diante) foi freqüentemente interpretado como vandalismo e crescente mente rejeitado, uma mudança de ponto de vista fundada na reação intelectual contra muitos dos dogmas do liberalismo econômico.10 O aperfeiçoamento dos transportes no século XIX tornou o campo acessível a um número crescente de vitorianos que, na prosperidade do período, buscavam educação, lazer e autodesenvolvimento. Por volta da década de 1880, havia várias centenas de sociedades de história natural e clubes de campo no interior que reuniam cerca de cem mil membros.11 A ênfase desse período concentrava-se mais na contemplação e no estudo que na preservação da natureza, mas isso acabaria por mudar. O crescimento da popularidade da história natural e da ornitologia levou a uma grande disseminação da coleta de espécimes em meados do século, e a um crescimento correspondente nos danos infligidos às plantas e aos animais selvagens. Embora muitas coletas fossem empreendidas com propósitos legítimos de pesquisa, naturalistas menos conscientes competiam uns com os outros ao reunir coleções de pássaros, ovos e plantas.

O desejo de preservar a natureza tornou-se então implícito no estudo da mesma, e clubes e naturalistas passaram a se preocupar com os danos infligidos tanto por seus próprios semelhantes quanto por outros. À medida que os naturalistas aprendiam mais sobre a natureza, passaram a reconhecer seu valor e o calibre das ameaças colocadas pela atividade humana. A voga de colecionar, somada ao aperfeiçoamento das armas de fogo e à crescente popularidade (mesmo entre os naturalistas) dos esportes campestres, cobrou seu tributo em vidas de animais selvagens. A caça em si mesma não causava muita preocupação, mas a carnificina desenfreada sim.12 A matança indiscriminada de aves marinhas na costa de Flamborough Head em Yorkshire atraiu muita condenação. A partir do mesmo zelo humanitário que gerou o movimento antiescravagista, veio a segunda maior influência sofrida pelo ambientalismo britânico: a cruzada contra a crueldade com os animais. Embora a Society for the Protection of (mais tarde, Society for the Prevention of Cruelty to) Animals, fundada em 1824 e reconhecida por carta real em 1840, tenha inicialmente feito campanha contra a crueldade com animais domésticos, em pouco tempo voltou sua atenção para os animais selvagens; Da década de 1870 estava investigando a vivissecção; o tiro aos pombos, a caça ao veado e ao coelho. A crueldade contra animais era vista como a expressão dos elementos mais selvagens e primitivos da natureza humana. Os protecionistas acreditavam que salvando os animais selvagens estavam ajudando a preservar a própria tessitura da sociedade.13 Nada ilustrou tão claramente as firmes raízes de classe média e alta do protecionismo britânico quanto o apoio que aquela entidade de proteção recebeu desses setores. Os movimentos populares por reformas sociais algumas vezes emprestam técnicas uns aos outros e atraem apoio dos mesmos setores. Nos anos 50 e 60, o movimento ambientalista se misturou por algum tempo aos protestos contra os testes nucleares, a injustiça racial e a guerra do Vietnam (ver capítulo 3). Do mesmo modo, os métodos dos aboli24 cionistas vitorianos e daqueles que se opunham à crueldade contra animais começaram a influenciar os naturalistas. David Allen identifica um momento decisivo na década de 1860, quando a cruzada protecionista concentrou suas forças sobre a questão da matança dos pássaros, particularmente as gaivotas, para fornecer plumagem para as modas femininas. 14 A questão da plumagem foi com certeza a primeira causa protecionista popular e foi importante por trazer o protecionismo para mais perto da história natural. A East Riding Association for the Protection of the Sea Birds, fundada em 1867 para lutar contra a temporada anual de caça de Flamborough Head, pode ter sido o primeiro organismo de preservação da vida selvagem no mundo,15 e outros logo o seguiram. Quatro leis do Parlamento - em 1869 (Pássaros Marinhos), 1872 (Pássaros Selvagens), 1876 (Aves Selvagens) e 1880 (Pássaros Selvagens) - deram alguma proteção aos pássaros selvagens e ajudaram a diminuir o fluxo de plumagens das fontes locais, mas novos suprimentos foram trazidos dos trópicos na década de 1880. Nos cinco meses que antecederam o mês de abril de 1885, por exemplo, a plumagem de aproximadamente 775 mil pássaros das Indias Ocidentais, do Brasil e das Indias Orientais, além de outros países; foram vendidas no mercado de Londres.16 A oposição à matança dos pássaros por sua plumagem foi conduzi da pelas próprias mulheres, que eram maioria entre os membros das primeiras agremiações - a Liga da Plumagem (1885), a Liga de Selborne (1885), a (posteriormente Royal) Society for the Protection of Birds (1891) e o Fur, Fin and Feather Folk (1889). A Society for the Protection of Birds fez com que seus membros se comprometessem a não mais usar plumagens e montou uma rede com ramificações nacionais e além-mar; a ramificação indiana esteve por trás de uma das primeiras legislações contra o tráfico internacional de animais selvagens: em 1902, o governo indiano ordenou a interdição da exportação de peles e de plumas de pássaros.17 O movimento pela proteção da vida selvagem foi somente uma conseqüência da tardia reação vitoriana ao desenvolvimento. Também as condições sociais urbanas passaram por um exame minucioso, notadamente no trabalho de Charles Dickens e Friedrich Engels.18 A crença otimista numa prosperidade sem limites foi substituída pelo pessimismo quanto às perspectivas para o desenvolvimento social e econômico, a autoconfiança tendo sido minada pela depressão econômica da década de 1880 e pela crise intelectual da era pós-Darwin. A depressão sublinhava a crença crescente de que a indústria não era necessariamente a Grande Provedora; a fonte do poder econômico e político era agora retratada como destruidora da moral e da ordem social, da saúde humana, dos valores tradicionais, do meio ambiente físico e da beleza natural.19

A ameaça à saúde humana havia já sido tratada na campanha contra a indústria de álcalis. A produção de carbonato de sódio, usado na manufatura de sabão, vidro e têxteis, produzia emissões prejudiciais de ácido clorídrico. A prevenção da poluição era uma simples questão de lavar as emissões com água, mas, como não havia nenhum controle legal, os produtores não estavam dispostos a tomar essa iniciativa, a menos que seus competidores fizessem alguma coisa nesse sentido também. No dia 12 de maio de 1862 o Times noticiou que "extensões inteiras de terra no interior, antes tão férteis quanto os campos de Devonshire, foram varridas por pragas mortais até que ficaram tão áridas quanto as areias do Mar Morto". Agricultores e proprietários de terras queixaram-se, mas pouco foi feito até que lorde Derby, cuja propriedade perto de St. Helens, em Lancashire, foi afetada, levou o assunto até a Câmara dos Lordes. A campanha parlamentar de Derby foi importante para a aprovação da Lei dos Álcalis em 1863. Ashby e Anderson argumentam que - decreto "tornou explícita uma atitude social que havia permanecido implícita durante alguns anos, a saber, que o governo central precisava fazer alguma coisa quanto à proteção contra a poluição do ar por vapores nocivos” 20. A forte reação contra as condições de vida miseráveis das cidades industriais combinouse ao anseio por uma compensação em espaços abertos e natureza para produzir o terceiro 25 impulso importante do ambientalismo britânico nascente: o movimento por interesses. O primeiro grupo. ambientalista privado do mundo - a Commons, Open Spaces, and Footpaths Preservation Society (fundada em 1865) - promoveu campanhas de sucesso pela preservação de espaços para amenidades, particularmente as áreas verdes urbanas, que eram, freqüentemente, o "ambiente campestre" mais disponível para os trabalhadores urbanos. David Allen vê os conceitos de recreação, preservação, santuário e áreas virgens fundirem-se no decorrer dos anos 1860 e serem exponenciados por argumentos econômicos e científicos para dar ao movimento por amenidades sua força.21 A tática de pressão da Commons Society obteve sucesso, mas como carecesse do status de empresa não podia comprar terras. A necessidade de um organismo que pudesse adquirir e manter terras e propriedades para a nação foi atendida em 1893, através da criação do National Trust, que objetivava proteger a herança natural e cultural da nação contra a padronização causada pelo desenvolvimento industrial. O National Trust alcançou algum sucesso inicial na aquisição de terras para preservação. Por volta de 1910 contava com 13 áreas de interesse natural entre suas aquisições, mas era igualmente interessado por sítios de cunho histórico e cultural, e os naturalistas expressaram preocupação pela maneira aleatória com que as reservas naturais potenciais eram adquiridas, aparentemente com pouca atenção para com a importância nacional de suas plantas e animais.22 Em 1912, foi criada a Society for the Promotion of Nature Reserves, não para possuir reservas naturais ela mesma, mas para estimular o National Trust a prestar a devida atenção à criação de reservas. Isso foi feito através de um inventário nacional de sítios que valia a pena proteger e de uma mobilização do apoio público à aquisição desses sítios. Mesmo assim, a necessidade de áreas protegidas era vista como menos urgente que a necessidade de restringir os anseios dos colecionadores e de se contrapor à crueldade contra animais. As reservas naturais eram consideradas pela maioria das pessoas como meios secundários e caros de complementar a legislação.23 Ainda que a primeira tenha sido criada em Norfolk Broads, em 1888, somente depois da Segunda Guerra Mundial a idéia de proteção do hábitat ganhou amplo apoio na Grã-Bretanha. Ironicamente, o National Trust foi condenado por seu próprio sucesso na aquisição de propriedades a gastar cada vez mais e mais recursos em administração e agenciamento de terras. Isso abriu o caminho para a criação, em 1926, do Council for the Preservation (e, mais tarde, Protection) of Rural England (CPRE), fundado para coordenar o movimento voluntário, promover a legislação, orientar os proprietários de terras e "criar um apelo único, simples e direto a todos os que se interessem pela preservação do interior do país".24 Em 1929 o CPRE fez uma solicitação diretamente ao primeiro-ministro Ramsay MacDonald para investigar a idéia de parques nacionais. O Comitê Addison foi instituído, apresentando um relatório que advogava a criação de parques nacionais para proteger a flora, fauna e áreas de interesse natural excepcional, e aumentar a afluência de público. Os parques nacionais britânicos, contudo, não aconteceram até depois da Segunda Guerra Mundial, quando então assumiram uma significação muito diferente dos parques de outros lugares. Em lugar de proteger áreas virgens, preservavam o campo em seu conjunto, em áreas nas quais a propriedade permanecia em diferentes mãos e onde as pessoas moravam e ganhavam a vida.25

RUMO À CONSERVAÇÃO NO IMPÉRIO: ÍNDIA, AUSTRÁLIA E ÁFRICA DO SUL Ninguém conheceu melhor a ciência das florestas no século XIX do que os alemães. A instrução universitária em manejo florestal havia estado disponível por 150 anos, e con26 ceitos de manejo produtivo e sustentado das florestas foram introduzidos no final do século XVIII. Curiosamente, a índia deveria tornar-se um importante campo de provas para a ciência do manejo florestal alemã e colaborou não somente para difundi-Ia mais amplamente como para assentar as fundações da conservação global. A Grã-Bretanha havia designado o primeiro conservador de florestas para Bombaim em 1847 e o segundo para Madras em 1856; 26 ambos foram encarregados de administrar as florestas como fonte direta de renda para o Estado. Também em 1856, a Grã-Bretanha adquiriu a Baixa Birmânia; o governador-geral da Índia, lorde Dalhousie, designou o especialista em manejo Dietrich Brandis* (um parente por matrimônio) como superintendente florestal para a região, encarregado da prevenção do desmatamento. Em 1864 Brandis foi designado para a função de inspetor-geral de florestas para a Índia e a primeira Lei Florestal Indiana foi aprovada no ano seguinte. Em 1866 o recrutamento organizado de funcionários florestais da Grã-Bretanha teve início, supervisionado por Brandis e seu novo assistente alemão, William Schlich. A instrução britânica em manejo florestal era na época bastanete falha, assim, todos os especialistas florestais ingleses iam à Alemanha, França e Suíça como parte de sua educação. Depois de um período no Serviço Florestal Indiano, muitos partiam para outras partes do império, notadamente a Austrália e a África Oriental. Os primeiros colonizadores da Austrália, assim como dos Estados Unidos, viam as florestas como obstáculos no caminho do progresso. As advertências sobre a deterioração ambienta! não demoraram a surgir. Em 1803, a derrubada "imprevidente" da floresta nas encostas do rio Hawkesbury, em New South Wales, e o cultivo em suas margens estava causando erosão do solo e enchentes sérias, "que poderiam, em alguma medida, ter sido evitadas se árvores e outras plantas nativas tivessem sido mantidas"27. Depois, no século XIX, o desmatamento da floresta para criação de pastos para ovelhas levou a um excesso de pastagem e à inutilização de vastas áreas no interior, em Victoria, New South Wales e Queensland. Bolton afirma que a lentidão da Austrália quanto à prática de conservação esclarecida foi uma atitude em grande parte herdada da Grã-Bretanha, a qual, em alguns aspectos, se atrasou em relação ao resto da Europa-na arte do reflorestamento.28 Espécimes de plantas introduzidas disseminaram-se com rapidez, freqüentemente em substituição às espécies nativas; pragas animais introduzidas (notadamente o cão e o gato domésticos, e o coelho) contribuíram para o extermínio generalizado dos animais selvagens, um processo que havia começado com a caça às balei ás e focas no fmal do século XVIII e começo do XIX. Por volta de 1830 as pouquíssimas focas que restavam não eram suficientes para tornar sua caça economicamente viável, e por volta de 1850 a caça às baleias também declinou, em grande parte graças à prática de matar fêmeas no período de dar cria. A idéia de leis de caça era anátema para muitos australianos. Na Grã-Bretanha, direito de caçar havia sido um privilégio dos proprietários de terra, e sua contravenção, crime pelo qual muitos condenados eram deportados. A abundância aparente da fauna australiana sugeriu que matar animais sem maiores impedimentos deveria ser um direito de todos: "por ser a Austrália uma jovem sociedade livre e em expansão, rejeitaria a noção de conservação da fauna como uma odiada relíquia do passado feudal do Velho País.29 À medida que a matança se disseminou, betardas, avestruzes, cangurus-pequenos e os marsupiais menores tornaram-se cada vez mais raros. Um visitante britânico na Austrália Ocidental observou em 1849 que, embora existissem vastas bordas de cangurus no interior, o comércio de suas peles havia causado tamanho dano que "nenhum incremento pode fazer frente a essa matança de animais por atacado".30
*Dietrich Brandis (1824-1907) nasceu em Bonn, Prússia, e estudou botânica. Foi superintendente florestal na Baixa Birmânia de 1856 até 1862 e inspetor-geral de florestas para a India de 1864 a 1883, quando voltou à Alemanha. Foi com sua ajuda que Gifford Pinchot estudou manejo florestal na França e na Suíça em 1889-1890. Tanto Brandis quanto William Schlich foram nomeados cavaleiros por serviços prestados à administração florestal indiana

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Os primeiros sinais de uma reação surgiram no final do século XIX. Desde a década de 1860 os governos começaram a reservar áreas costeiras e margens de lagos e rios para o lazer público.31 Em 1866 uma reserva foi criada em Jenolam Caves, em New South Wales. Em 1879 o governo de New South Wales criou o Royal National Park, ao sul de Sydney, porém mais voltado ao lazer público que à preservação das áreas virgens. O parlamento tasmaniano havia começado a legislar sobre a proteção de espécies selecionadas de pássaros em 1860, e sociedades de história natural foram formadas em Victoria e New South Wales na década de 1880. New South Wales introduziu uma legislação que protegia determinados marsupiais em 1903, e em 1909 uma Wildlife Preservation Society foi formada em Sydney. Comissões de inquérito na Tasmânia e em Victoria (1898) e na Austrália Ocidental (1903) argumentaram que a floresta não poderia ser encarada como um recurso sem limites, devendo ser administrada de maneira sustentável. Um decreto sobre florestas e parques nacionais em Queensland, em 1906, dava poderes ao governo para criar parques nacionais em áreas que produzissem pouca madeira negociável e, em 1915, à Tasmânia aprovou uma Lei de Preservação da Paisagem. Mas as leis aprovadas por outros estados pretendiam criar parques de recreação e não de preservação de áreas virgens. Ainda que comissões de manejo florestal - que se assemelhavam mais ao modelo indiano do que ao americano, com ex-funcionários do Serviço Florestal Indiano desempenhando um papel influente - tivessem sido implantadas em todos os estados entre 1907 e 1920; o resultado nem sempre foi o de uma administração florestal aprimorada. Na Africa meridional, a destruição e a legislação ambientais surgiram alguns anos depois do primeiro estabelecimento europeu permanente em 1652. Em 1658 tiveram que ser publicadas proclamações para restringir a derrubada inconseqüente de florestas para obtenção de lenha e o abate a tiros de pingüins para comida, de focas pelas peles e de elefantes pelo marfim (embora esta última tenha sido imposta devido à intenção da Companhia Holandesa das Indias Orientais de monopolizar o comércio de marfim). Entretanto, era difícil fazer cumprir essas leis numa colônia em que os colonos tomavam-se cada vez mais dispersos e isolados, e para os quais recursos tais como madeira, peles, couros e marfim representavam uma forma útil e acessível de permuta e uma fonte valiosa de renda. A caça se disseminou durante o século XVIII, com alguns caçadores de elefantes embarcando em expedições de mais de nove meses de duração. Na década de 1830 a população de elefantes do Cabo oriental já havia quase desaparecido. A derrubada descontrolada de florestas, assim como a erosão do solo e a dispersão de areia subseqüentes, criou as condições para a aprovação de um regulamento de 1846 que objetivava uma "melhor preservação" da área de Cape Flats, próxima à Cidade do Cabo; a partir desse evento, argumenta Grove, é possível datar "a continuidade de uma medida articulada de pensamento ambiental de base estética e urbana”32 Grove observa os paralelos entre o advento coincidente de uma legislação ambiental desse tipo nas redondezas de cidades da África do Sul, Grã-Bretanha, Austrália e Nova Zelândia. Uma comissão de florestas foi instituída no Cabo em 1854, e áreas de conservação de florestas foram estabelecidas na região de George em 1856. Em 1859 foi aprovada a Lei de Preservação de Florestas e Pastagens, sobrevivendo (mesmo um pouco alterada em 1888) até 1910; Grove crê que essa foí a forma mais abrangente de legislação conservacionista aprovada nas colônias britânicas no século XIX. Ele localiza de modo preciso uma séria seca ocorrida em 1862 como o momento decisivo na mudança da atitude dos colonos e agricultores, enfatizando a necessidade de uma legislação sobre a administração da terra. Um Comitê Especial sobre erosão do solo, seca e problemas associados, criado em 1864, observou as relações entre erosão do solo, queimada da veldt* e derrubada da vegetação. Uma cruzada de um só homem foi empreendida por J.c. Brown, botânico do Cabo entre
* Palavra africâner que designa uma vegetação típica da África meridional com arbustos e árvores rarefeitas. (N.doT.)

28 1862 e 1866, cujos relatórios oficiais sobre agricultura e aridificação indicavam as relações existentes entre a atividade humana e a degradação ambiental. A aparente abundância de terras para o estabelecimento de colonos e a influência do comércio de madeiras conspiraram para reduzir o efeito das advertências de homens como Brown, que desfrutava de pouca credibilidade entre a comunidade dos colonos.33 A questão da preservação da vida selvagem era de interesse mais imediato. Apesar da imposição de uma legislação de proteção da vida selvagem em Natal, na República Sul-Africana, e no Estado Livre de Orange, na segunda metade do século XVIII, o número de animais mortos aumentou. Em 1858 O marfim era a exportação mais valorizada de Natal. Em seu apogeu, no ano de 1877, mais de 19 toneladas deixaram a colônia (produto,grosso modo, de 950 elefantes); em 1895 a exportação anual tinha caído para somente 30 kg. Em

1866 uma companhia do Estado Livre de Orange exportou sozinha 152 mil peles de antílopes africanos e de outros animais selvagens. Em 1873 foram exportadas 62 mil peles de zebra e de outros animais.34 A caça profissional tornou-se uma atividade principal mais para o norte em meados do século XIX, seus objetivos sendo marfim, penas de avestruzes, chifres de rinocerontes, dentes de hipopótamos, couros e carne.35 Os maiores campos de caça se localizavam nos atuais Botswana e Zimbabwe. Somente entre 1872 e 1874 cinqüenta toneladas estimadas de marfim - os despojos de cerca de 2.500 elefantes - foram apropriadas por caçadores ndebele e europeus. Em 1876 outras 18 toneladas de marfim (aproximadamente 900 elefantes) foram comerciadas. À medida que as manadas diminuíam, os caçadores eram obrigados a trabalhar mais para o norte, e em 1880 os elefantes já eram tão raros ao sul do Zambeze que era impossível praticar a caça de animais vivos para obter marfim na área.36 As primeirasreservas estatais de caça na Africa foram instituídas em 1857 nas florestas de Knysna e Tsitsikama, e reservas particulares de caça foram criadas em outros lugares por grandes proprietários de terra a partir de 1875. Em agosto de 1883 morreu o último quaga* no zoológico de Amsterdam, o que enfatizou a gravidade da ameaça enfrentada pelos animais selvagens africanos; no mesmo mês o primeiro organismo de conservação da vida selvagem na Africa do Sul, a Natal Game Protection Association, foi fundado. A preocupação do presidente Paul Kruger, da república do Transvaal, com o desaparecimento dos animais selvagens encorajou o estabelecimento da reserva de caça de Pongola, no Transvaal oriental, em 1894. Mais tarde essa reserva tornou-se parte do Kruger National Patk. AS RAÍZES DO AMBIENTALISMO AMERICANO Há paralelos entre o crescimento do interesse pelo ambiente natural na Europa Ocidental e na América do Norte. Havia um florescimento similar do interesse pela história natural, e a influência do romantismo era comparável. Mas havia uma diferença principal óbvia no fato de que a Europa fora de há muito colonizada e explorada, enquanto que vastas áreas novas no Oeste da América do Norte estavam sendo abertas para a colonização, da mesma maneira como havia acontecido na Austrália e África do Sul. Houve casos de preservação da natureza na costa leste durante os primeiros anos da colonização européia. Por exemplo, William Peno, que decretou, quando da fundação da Pensilvânia, no final do século XVII, que os colonos deveriam deixar meio hectare de árvores para cada dois e meio que fossem desmatados.37 Mas a maioria dos colonos via as áreas virgens como uma ameaça e como uma barreira para sua provisão de segurança, conforto, comida e abrigo. A esperança de que o Novo Mundo fosse um segundo éden se espatifou com a descoberta de que a terra era freqüentem ente hostil e desolada. Nash argumenta que a colonização do continente ofereceu oportunidades abundantes para a
* Espécie de burro selvagem então existente na África do Sul. (N.do T.)

29 expressão dos preconceitos judaico-cristãos contra a natureza virgem.38 Já em 1700 mais de 200 mil hectares de florestas haviam sido derrubados para a agricultura na Nova Inglaterra.39 Por volta de 1880 haviam sido derrubados 60% das florestas de Massachusetts. De cerca de 1620 até 1870 a floresta foi a maior fonte de energia nos Estados Unidos e forneceu o material primário de construção, mas era pequena a compreensão das técnicas de administração das florestas. Para Huth, o machado foi o símbolo das primeiras atitudes americanas em relação à natureza.40 Ao mesmo tempo a crescente popularidade da história natural alertou os cientistas (assim como ocorreu na Grã-Bretanha) para a amplitude das mudanças ambientais. A beleza da natureza virgem norteamericana inspirou os escritos de autores românticos, filósofos e viajantes através do século XVIII e no começo do século XIX. O cientista, escritor e poeta escocês Alexander Wilson (que era mais conhecido em seu tempo do que John James Audubon) comentou as belezas da natureza e publicou um estudo de nove volumes sobre os pássaros americanos, projetando assim o interesse pela ornitologia. A publicação em Londres entre 1827 e 1838 de The Birds of America, de Audubon, que mostrou pela primeira vez pássaros em seu habitat natural, trouxe a beleza da natureza para uma audiência mais ampla. Os escritos de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau influenciaram mais ainda a incipiente filosofia americana sobre o homem e a natureza. Thoreau estudou administração florestal e advertiu sobre as conseqüências da derrubada das florestas e da plantação de centeio com fins de lucro imediato, "uma ganância que põe a perder seus próprios objetivos".41 Ao mesmo tempo em que o avanço para o Oeste durante o século XIX

lançava colonos, companhias de mineração e madeireiras contra as áreas virgens, também consolidava a influência dos amantes da natureza, que discorriam sobre a beleza espetacular das Montanhas Rochosas e do faroeste. Um tema recorrente do romantismo foi o fascínio pela biologia e pelo estudo do mundo natural: os românticos viam a natureza como um sistema de relações necessárias que não podia ser perturbado sem mudar ou talvez destruir o equilíbrio do todo.42 Não aceitando a teologia cristã, enfatizavam a primazia da natureza como fonte de inspiração. Dois acontecimentos seminais ocorreram no ambientalismo americano em 1864. O primeiro foi a publicação de Man and Nature, de George Perkins Marsh,*/** um livro notável por esposar idéias que levariam um século para serem mais amplamente discutidas. O livro era um produto da educação de Marsh na Vermont rural, de sua grande memória, sua busca de toda uma vida por conhecimento e de suas viagens pela Europa e pela América do Norte (era capaz de ler em vinte línguas). Nele Marsh demonstrava que a destruição arbitrária e o desperdício perdulário estavam tornando a terra inabitável para os seres humanos e, em última análise, ameaçando a existência do homem, que "há muito esqueceu que a terra lhe foi dada somente em usufruto e não para consumo, e menos ainda para desperdício despudorado".43 A sociedade, advertiu, "estava destruindo o chão, o revestimento e as estruturas de portas e janelas de nossa morada para obter combustível para aquecer nossos corpos e ferver nossa sopa, e o mundo não pode dar-se ao luxo de esperar até que o progresso lento e seguro das ciências exatas nos tenha ensinado uma economia melhor ( ... ) os ensinamentos da simples experiência ( ... ) não devem ser desprezados". As idéias de Marsh tiveram muita influência no posterior estabelecimento de uma comissão nacional de especialistas florestais 44 e influenciaram escritores franceses e
* George Perkins Marsh (1801-1882) nasceu em Vermont e lecionou por um curto período antes de entrar para a advocacia e depois para a política. Membro whig** do Congresso (1843-1859), ajudou a fundar e a dar forma à Smithsonian Institution. Foi ministro dos Estados Unidos para a Turquia (1848-1854) e para a Itália (1861-1862); nesse. último posto sobrava-lhe tempo para escrever copiosamente. Mau and Nature tomou-se um best-seller imediato. ** Whig, membro ou simpatizante do partido político criado em 1834 em oposição aos democratas jacksonianos. Os whigs eram ligados principalmente aos interesses da manufatura, comércio e finanças, e foram sucedidos pelo Partido Republicano por volta de 1854. (N. do T.)

30 especialistas florestais indianos e italianos. Para Steward Udall, o livro representou o começo de um conhecimento da terra nos Estados Unidos.45 O segundo evento foi o decreto do Congresso em 1864, transferindo o Vale Yosemite e o Mariposa Grove de Big Trees para o estado da Califórnia, à condição de que "os espaços serão mantidos para utilização, lazer e recreação públicos, e deverão ser mantidos inalienáveis em qualquer tempo".46 A delimitação de uma área para fins de recreação nunca havia sido adotada antes como elemento de administração da terra nos Estados Unidos. Roper esboça para Jefferson em 1815 a idéia de que o governo democrático deve preservar regiões com belas paisagens para o desfrute de todos os cidadãos.47 Durante suas viagens no Oeste americano entre 1829-32, o artista George Catlin concluiu que tanto os búfalos quanto os índios americanos estavam igualmente ameaçados de extinção. Ele acreditava que o "primitivo" dava mais valor à preservação e escreveu que índios, búfalos e áreas virgens poderiam ser igual e efetivamente protegidos se o governo estabelecesse um "parque nacional que contivesse homens e animais, em toda rusticidade e frescor de sua beleza natural!”48. Idéias similares foram expressas por Henry David Thoreau em 1853, quando ele escreveu sobre o caráter desejável das "reservas naturais"49 e sugeriu que a preservação das áreas virgens era, em última análise, importante para a preservação da civilização.50 George Perkins Marsh levou o argumento mais adiante, sugerindo que a preservação das áreas virgens tinha justificativas tanto "econômicas" quanto "poéticas", isto é, podia ser administrada de modo sustentável para o benefício de todos.51 Um segundo dispositivo legal, assinado em 1872, designava uma área de 800 mil hectares no Wyoming como Parque Nacional de Yellowstone, o primeiro parque nacional do mundo. Para Nash, a "invenção americana" de parques nacionais tornou-se possível pela existência de terras sob domínio público, a existência de áreas virgens num período em que a demanda por preservação se desenvolveu, assim como pelo modelo de colonização americano (em que coexistiam terras incorporadas e não incorporadas)52. Runte sugere que os parques nacionais americanos se originaram da procura da identidade nacional e da glorificação da beleza natural revelada pela expansão em direção ao oeste.53 O estabelecimento de Yellowstone e Yosemite deu substância às filosofias de Catlin, Thoreau, Marsh e outros, e forneceu o

modelo que foi imitado em outros países desde o final do século XIX, embora tendo adotado significados diferentes em diferentes circunstâncias. Por exemplo, os parques nacionais foram criados na Austrália (Real Parque Nacional, 1879), Canadá (Parque Nacional Banff, 1885) e Nova Zelândia (Parque Nacional Tongariro, 1894), mas, ao menos no caso da Austrália, os parques tinham menos a vocação de preservação de áreas virgens do que de recreação pública. Muir versus Pinchot: O movimento americano se divide Na virada do século, o ambientalismo americano se dividiu em dois campos: os preservacionistas e os conservacionistas. Os primeiros buscavam preservar as áreas virgens de qualquer uso que não fosse recreativo ou educacional, e os últimos explorar os recursos naturais do continente, mas de modo racional e sustentável. A visão dos primeiros era talvez filosoficamente mais próxima do ponto de vista do protecionismo britânico; os segundos se fundavam na tradição de uma ciência florestal racional da variedade alemã. Como campeão da preservação das áreas virgens, ninguém poderia rivalizar com o naturalista John Muir.* Suas primeiras lutas foram importantes para a criação do Parque
* John Muir (1838-1914) nasceu em Dunbar, Escócia, e emigrou com sua família para Wisconsin em 1849. Após a universidade (não se formou) perambulou pelo Canadá e pelo sul dos Estados Unidos, até chegar a San Francisco em 1868 e mudar-se para o Parque Nacional de Yosemite. Na meia-idade começou a escrever, destacando-se na proteção não somente do Yosemite, como também dos parques nacionais de Petrified Forest e Grand Canyon, no Arizona.

31 Nacional de Yosemite em 1890, a primeira reserva conscientemente designada à proteção de áreas virgens.54 Incentivado por esse sucesso, mas cauteloso relativamente à necessidade de observar mais de perto as reivindicações de utilização das áreas virgens, Muir ajudou a fundar em 1892 o Sierra Club, o qual trabalhou para tornar as regiões montanhosas da costa do Pacífico acessíveis àqueles que buscavam usufruir das áreas virgens. O clube tornou-se um centro de aglutinação da causa preservacionista. Com motivos mais baseados em emoção do que em racionalidade (mesmo que freqüentem ente tenha utilizado justificativas práticas na argumentação de sua hipótese), Muir falou e escreveu sobre as áreas virgens em termos religiosos, observando que, embora a glória de Deus se inscrevesse em todos os seus trabalhos, nas áreas virgens as letras eram maiúsculas. Quando Ralph Waldo Emerson visitou Yosemite em 1871, Muir esperava poder persuadido-lo ajuntar-se a ele "numa adoração de um mês pela natureza nos altos templos da grande Sierra Crown, além do nosso sagrado Yosernite".55 Ele sentia que a civilização havia distorcido o sentido humano da relação com as outras coisas vivas. Enquanto Muir e os preservacionistas falavam de "proteger" ou "preservar" o meio ambiente, o que freqüentemente implicava a total exclusão das áreas virgens de qualquer alternativa que não fosse recreação, outros falavam de "conservação", ou de exploração sustentada de recursos tais como solo, florestas e águas. Uma das primeiras questões da conservação foi a proteção das florestas. O plantio de árvores havia começado nos estados ditos de pradarias* durante a década de 1860, 56 e uma Divisão de Manejo Florestal foi criada no seio do Departamento de Agricultura em 1876, embora não tivesse nem poder nem dinheiro. O trabalho real foi empreendido por amadores, tais como o botânico financiado independentemente Charles Sprague Sargent. Inspirado pelo livro de Marsh, Sargent fez um levantamento das florestas americanas para o governo federal em 1880 e recomendou que as florestas de propriedade federal fossem protegidas até que um estudo abrangente pudesse ser realizado por especialistas. A primeira sugestão sobre um serviço florestal de especialistas cientificamente treinados veio de Gifford Pinchot,** um rico pensilvaniano que havia estudado manejo florestal na Europa, onde aprendeu que as florestas tanto poderiam ser protegidas quanto administradas para aproveitamento sustentado. (A influência européia prosseguiu quando, em 1886, o especialista florestal alemão Bernhard Fernow tomou-se o primeiro especialista treinado a ser indicado para um trabalho na administração direta das florestas nos Estados Uuidos.)57 Pinchot, Sargent e outros perseguiam a idéia de uma comissão patrocinada pelo governo e obtiveram o patrocínio da Academia Nacional de Ciências. O trabalho da comissão confirmou que as florestas americanas estavam numa situação de risco, mas que não deveriam ser completamente fechadas à ocupação e uso futuros: deveriam ser gerenciadas de modo a contribuir para a economia do país, argumentou Pinchot.58 A maneira como isto deveria ser realizado foi o que trouxe a divisão entre preservacionistas e

conservacionistas a público. Nash argumenta que a lealdade definitiva de Pinchot era para com a civilização e o manejo florestal; a de Muir para com as áreas virgens e a preservação.59 Pinchot achava diffcil entender a ética preservacionista da escola de Muir e buscava minimizar sua influência. Achava que a conservação deveria se basear em três princípios: desenvolvimento (o uso dos recursos existentes pela geração presente), a psevenção do desperdício e o desenvolvimento dos recursos naturais para muitos, e não para poucos.60 Ele afirmava que sua política de conservação estava "abrindo novas
* Estados banhados pelo rio Mississippi. (N. do T.) ** Gifford Pinchot (1865-1946) nasceu em Connecticut e foi educado em Paris e na Pensilvânia. Depois de formar-se em Yale estudou manejo florestal na Alemanha e na França antes de se instalar como consultor dessa especialidade em Nova York. Foi nomeado para o conselho da nova Comissão Nacional de Manejo Florestal em 1896. Sua família ajudou-o a instalar uma escola de manejo florestal em Yale. Pinchot encontrou-se pela primeira vez com John Muir em 1893; os dois viriam a tomar-se renhidos adversários.

32 perspectivas" (inegavelmente, este deveria ser o título de sua autobiografia). Worster argumenta, entretanto, que tal afirmação ignora uma tradição de agricultura científica progressista que vinha desde o século XVIII. A contribuição de Pinchot era, antes, trazer a tradição da agricultura progressista para a administração das terras públicas, particularmente as florestas.61 O conservacionismo americano nascente é freqüentemente representado como uma batalha entre moralidade (representada pelo povo) e imoralidade (representada por interesses privados voltados à exploração dos recursos naturais da nação em benefício próprio). Para McConnel,62 o conservacionismo havia se tornado intimamente identificado com o progressismo que varreu os Estados Unidos no período de 1900 a 1917, o qual era freqüentemente apresentado como uma morality play.*/63 Bates sugere que, ainda que o movimento progressista fosse em parte um protesto contra o monopólio e destacasse a livre concorrência, marcava também o declínio do laissez faire e o desenvolvimento da consciência social.64 Conservacionistas organizados, argumenta, eram mais preocupados com ajustiça econômica e a democracia na alocação dos recursos do que com a prevenção do desperdício; o conservacionismo era uma cruzada democrática "para barrar o roubo e a exploração ( ... ) [e] para distribuir de modo mais equânime os lucros da economia". Hays concorda que o conservacionismo americano não nasceu de um grito popular, mas argumenta igualmente que não dirigiu seu fogo primordialmente contra a empresa privada.65 À diferença dos preservacionistas amadores na Grã-Bretanha contemporânea, os lideres conservacionistas americanos eram profissionais em campos tais como manejo florestal, hidrologia e geologia. Eram menos influenciados pela opinião pública do que pela lealdade a seus ideais profissionais quanto a assegurar um planejamento racional e uma exploração eficiente dos recursos naturais. Opunham-se frontalmente àqueles que buscavam evitar que os recursos fossem desenvolvidos comercialmente. Hays enfatiza a aplicação de nova tecnologia, argumentando que a democracia de base popular, para os conservacionistas, teria derrotado o "evangelho da eficiência 66. Jones sugere que os lideres progressistas não eram o produto do descontentamento popular, mas os guardiães autodesignados do interesse público.67 A filosofia utilitarista de Pinchot era intensamente apoiada pelo vice-presidente Theodore Roosevelt, que se tornou presidente depois do assassinato de William McKinley, em setembro de 1901. Pursell argumenta que Roosevelt se sentia atraído pelá conservacionismo, particularmente por esperar que esse fosse um tema que não levantaria questões sociais fundamentais 68. Pinchot tornou-se, com efeito, "secretário de estado para a conservação", e a administração de recursos um assunto de política pública. Roosevelt buscou também as opiniões de Muir, e as reivindicações dos preservacionistas foram atendidas durante a era Roosevelt, através da incorporação do Vale Yosemite ao parque nacional circunvizinho e da criação de cinqüenta e três reservas naturais, dezesseis monumentos nacionais e cinco novos parques nacionais.69 No todo, entretanto, o mandato de Roosevelt assistiu à promoção da conservação profissional baseada menos em princípios emocionais de preservação do que em administração racional de recursos naturais. Se o manejo florestal era uma inspiração do conservacionismo americano, a água era uma outra. Os conservacionistas enfatizavam a importância dos rios no transporte interiorano, no suprimento doméstico e comercial de água, no controle de cheias e erosão e na energia hidrelétrica, e observaram que os hídricos eram os únicos recursos importantes que ainda permaneciam sob possessão pública. O desenvolvimento

multidirecionado dos rios era visto como um exemplo fundamental da utilização planejada e eficiente dos recursos. Os empresários americanos estavam menos interessados na administração da
* Uma peça alegórica popular, muito comum especialmente nos séculos XV e XVI, na qual os personagens personificam conceitos ou qualidades abstratas (como vícios, virtudes ou a morte). (N. do T.)

33 água como um recurso do que em sua exploração, mas até mesmo seus líderes tiveram que admitir que a navegação interiorana precisava ser administrada para evitar que as ferrovias assumissem um monopólio dos transportes. Em março de 1907 Roosevelt, por sugestão de Pinchot, 70 criou a Comissão das Vias Navegáveis Interiores, ostensivamente para preparar e apresentar um plano abrangente para o desenvolvimento e controle dos sistemas fluviais americanos. Na realidade a coisa foi muito mais longe do que isso. Roosevelt insistiu no fato de que qualquer plano para utilização das vias navegáveis do interior deveria considerar a questão do controle de cheias, a prevenção da erosão e assoreamento, e a construção de represas. A comissão concluiu que quaisquer planos para uso das vias navegáveis do interior deveriam encarar os rios como patrimônio nacional e assumir plena responsabilidade em relação à conservação de todos os recursos relacionados a eles. Suas descobertas foram publicadas em 1908, e sofreram imediata oposição por parte do poderoso Corpo de Engenheiros do Exército (o qual tinha uma visão estreita da utilização e desenvolvimento da água)71 e do Congresso (que era contra um super-órgão de planejamento). Em 1908-1909, à medida que seu mandato chegava ao fim e que seu programa de conservação parecia estar em refluxo, Roosevelt lançou o que Penick descreveu como uma "cruzada ... nascida em parte da frustração",72 centrada na idéia de levar a conservação às: pessoas. Numa manifestação da Comissão das Vias Navegáveis em maio de 1907, Frederick H. Newell (engenheiro do Levantamento Geológico americano, colega de Pinchot e membro da comissão) sugeriu que a mesma organizasse uma conferência nacional para, ajudar a chamar a atenção sobre a questão da conservação. O plano foi aceito, e a Conferência de Governadores sobre a Conservação, patrocinada pela Casa Branca; foi realizada entre 13 e 15 de maio de 1908. Cerca de 44 governadores de estados e representantes de setenta organizações nacionais estavam presentes, mas Muir, Sargent e outros preservacionistas não foram convidados. Ainda que inicialmente limitada à discussão dos recursos hídricos nacionais, a agenda foi ampliada de modo a poder tratar de todos os recursos naturais. Os direitos dos estados eram a questão chave, com a maioria dos governadores declarando sua oposição a tudo que fosse além do mais marginal envolvimento do governo federal no controle dos recursos. Eles recomendaram que cada estado criasse uma comissão de conservação para trabalhar com as outras comissões estaduais e com o governo federal. Graças à publicidade que envolveu a conferência, o conservacionismo tornou-se objeto de debate público e foi, pela primeira vez, trazido ao conhecimento de um público americano mais amplo. Três semanas depois, Roosevelt havia anunciado a criação de uma Comissão Nacional de Conservação, encarregada de fazer o primeiro levantamento dos recursos naturais dos Estados Unidos. Pinchot liderava o comitê executivo, o qual teve um sucesso notável ao completar seu inventário num período de seis meses. Este foi submetido ao Congresso no dia 22 de janeiro de 1909 como uma base para legislação futura. Roosevelt o descrevia como "um dos documentos mais fundamentalmente importantes jamais submetido ao povo americano" .73 A Comissão, entretanto, teve vida curta. O Congresso se recusou a aprovar o financiamento do governo, devido ao ressentimento que prevaleceu em relação à expansão do poder executivo promovida por Roosevelt.74 Pinchot, neste ínterim, consciente de que um novo presidente provavelmente não seria tão simpático ao conservacionismo quanto fora Roosevelt, trabalhou para organizar duas outras conferências sobre conservação, dessa vez internacionais em seu âmbito. A primeira foi o Congresso Conservacionista NorteAmericano, realizado em Washington, D.C., em 18 de fevereiro de 1909, sob a direção de Pinchot. Dez delegados do Canadá, Terra Nova, México e Estados Unidos discutiram os princípios de conservação esposados por Roosevelt, Pinchot e pelo encontro de governadores. O mais importante resultado do congresso , foi a aceitação de que a conservação era um problema mais amplo do que as fronteiras de uma única nação. A conferência, assim, propôs que Roosevelt convocasse uma conferência mundial sobre conservação. O Congresso norte-americano ainda estava em sessão quando Roosevelt expediu convites para que 58 países estivessem presentes num congresso conservacionista mundial em Haia. Roosevelt deixou seu cargo em março, e aproximadamente a metade dos países havia aceito o convite quando a conferência foi

cancelada pelo presidente Taft. Pinchot sentiu-se amargamente desapontado. Outros congressos foram realizados em setembro de 1910, setembro de 1911, outubro de 1912 e novembro de 1913, mas Taft não repetiu seu pedido ao Congresso, feito como presidente eleito, pela manutenção da Comissão Nacional de Conservação, e parecia indeciso quanto a abraçar ou não uma política conservacionista. Pinchot foi afastado do cargo em 1910 e tomou-se presidente da National Conservational Association (fundada em 1909).

A QUESTÃO DA VIDA SELVAGEM AFRICANA: 1895-1933 Ainda que o Congresso Conservacionista Norte-Americano de Roosevelt e sua planejada conferência conservacionista internacional fossem as primeiras tentativas de discussão do conservacionismo num nível intergovernamental, a proteção da natureza, particularmente dos pássaros, já bavia sido tema de discussões internacionais. Durante a segunda metade do século XIX, organizações para proteção dos pássaros tornaramse politicamente ativas num bom número de países europeus, e desenvolveram a discussão sobre uma proteção mais universal para os pássaros selvagens.75 A idéia de um acordo internacional para proteger animais e que fosse igualmente útil para o manejo florestal e para a agricultura 35 (portanto, marcadamente utilitário) foi a princípio sugerida num encontro de especialistas florestais e agrícolas alemães realizado em Viena, em 1868. Todavia, somente em 1902 uma convenção de proteção aos pássaros válida para a agricultura foi finalmente assinada por 12 países europeus (exceto a Grã-Bretanha)76 A oposição a seu caráter utilitário, combinada com sua limitação a pássaros, formou um

ponto de aglutinação para os grupos que buscavam tanto a redação de um documento mais ambicioso quanto a criação de uma instituição internacional permanente para trabalhar na área da proteção à natureza.77 Um assunto que talvez tivesse maior significado de longo prazo e maior importância pan-européia era a questão da vida selvagem africana. Os debates sobre caça e plumagem na Grã-Bretanha do século XIX atraíram a atenção de alguns naturalistas para os problemas das colônias. Os animais selvagens das colônias da África Oriental começavam a atrair safáris, com a caça tornando-se subitamente acessível pela criação dos protetorados alemão e britânico em 1885 e 1896, respectivamente. A abundância de caça no sul da África Oriental britânica era devida ao predomínio dos Maasai (que não matavam ou comiam caça eles próprios) sobre a maior parte dos atuais Quênia meridional e Tanzânia setentrional. A construção da estrada de ferro de Uganda entre 1895 e 1902 (e da estrada de ferro Tanga-Moshi entre 18% e 1912) tornou o interior acessível para colonos e caçadores brancos. Estes últimos voltavam a seus países de origem levando relatos de caça abundante. A partir de 1895 o número de caçadores visitantes cresceu rapidamente, e o número de animais que se prestavam à caça diminuiu. Em 1897 o primeiro-ministro britânico, lorde Salisbury, respondendo a pressões de preservacionistas e de caçadores igualmente preocupados (mas por razões obviamente diferentes) com a disponibilidade futura de caça, propôs ao governo alemão a necessidade de controlar as exportações de marfim da África Oriental. Uma nota foi expedida para outros governos em 1899 e, em 1900, o primeiro acordo ambiental do mundo - a Convenção para a Preservação de Animais, Pássaros e Peixes na África - foi asssioado em Londres pela Grâ-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Portugal e pelo Congo Belga. A preservação da caça estava na raiz da convenção, e havia pouco interese pelos animais que não se prestavam à caça, os quais presumivelmente não estariam ameaçados por não serem caçados.78 A convenção estava encarregada de controlar o comércio de marfim, peixes, peles e troféus e sugeria medidas protetoras tais como a criação de temporadas de caça, mas, apesar de assinada, nunca foi posta em prática; sua importância duradoura reside no precedente criado para legislações posteriores. A proteção davida animal nas colônias britânicas deu um passo adiante em 1903 com a fundação da primeira organização ambiental internacional do mundo, a Society for the Preservation of the Wild Fauna of the Empire (SPWFE, hoje Fauna and Flora Preservation Society), patrocinada por caçadores (inclusive Frederick Courtenay Selous) e por naturalistas (inclusivesir Ray Lankester). A sociedade objetivava encorajar a proteção da fauna (na realidade, pássaros e mamíferos de grande porte) nas colônias. Em um ano, seus patrocinadores-caçadores estavam sendo apelidados de "os açougueiros penitentes".79 Entre os que advertiram sobre a declínio da caça africana estava sir Harry Johnston, comissário especial em Uganda (1899-1901) e membro fundador da SPWFE, e o sagaz naturalista alemão C.G. Schillings, que coletava espécimes para os museus alemães e foi pioneiro na fotografia de animais selvagens na região. Em 1906 Johnston escreveu que financiamentos eram desesperadamente necessários para custear a proteção de futuros parques nacionais na África Oriental, que a opinião pública deveria ser encorajada a fortalecer a ação do governo e que as lições que estavam sendo aprendidas na África deveriam igualmente ser aprendidas na Grâ-Bretanha, Ele escreveu depreciativamente sobre os caçadores europeus: "Parece ainda ser panacéia aceita nas sociedades britânica e continental que um homem jovem ou de meia-idade que tenha sido contrariado no amor 36 ou que tenha comparecido diante da Divorce Court* ( ... ) deve partir para a África e matar caça de grande porte."80 As reservas criadas na África Oriental no final do século XIX eram planejadas como forma de amenidade para o uso de soldados e administradores com inclinação pela caça.81 Schillings, que esteve presente na conferência. de 1900 e se preocupava no sentido de que a destruição da vida selvagem sul-africana não se repetisse na África Oriental, escreveu sobre a "tragédia da civilização"·do homem, o qual estava submetendo cada vez mais a natureza a seu controle e matando animais numa escala sem precedentes. Achava lamentável que os alemães soubessem tão pouco sobre a vida animal em suas colônias e, em seus livros, With Flashlight and Rifle e In Wildest África, fez defesas apaixonadas por maior proteção e pesquisa. Achava que a tarefa mais urgente era reunir dados precisos sobre a vida dos animais selvagens para então elaborar medidas praticáveis de proteção. Como Marsh antes dele, Schillings afirmava que nenhuma época havia assistido a um tal progresso da indústria e do conhecimento, embora ainda estivesse cega para seus efeitos: poluição do ar e da água, desmatamento, a extinção de espécies animais e a exploração inconseqüente das reservas de carvão.82 Ressaltou também que caçadores

negros e comerciantes exerciam uma pressão adicional sobre a caça; somente nos Camarões alemão, 452 toneladas de presas de elefantes foram exportadas no período entre 1895 e 1906. Em 1910 cerca de 150 a duzentas excursões de caça estiveram visitando a África Oriental britânica anualmente, matando cerca de dez mil animaís.83 A moda da caça começou a decair quase tão repentinamente quanto havia começado, o que se deveu, em larga escala, ao fluxo permanente de entrada de colonos brancos que reduziu a área dos territórios públicos de caça. Em 1919 havia duas reservas de caça na África Oriental britânica: a Setentrional (entre o lago Rudolf, agora Turkana, e o monte Ouênia) e a Meridional (entre Nairobi e a fronteira de Tanganica, estendendo-se até o distante monte Kilimanjaro). A reserva Setentrional situava-se num semideserto impraticável para a colonização, enquanto a Meridional havia sido criada quase que arbitrariamente e foi somente durante as operações militares da Primeira Guerra Mundial que se descobriu que continha terras apropriadas para colonização. Lorde Cranworth observou que havia pouca probabilidade de que a reserva fosse mantida inviolada, a menos que os colonos fossem convencidos de que isso não retardaria o desenvolvimento da colônia: "Onde quer que se escolha a área a ser reservada para os animais de caça, é seguro que seja um parreiral de Nabote** para alguém e ( ... ) a caça provavelmente alcançará uma fama pior através dessa suposta usurpação do que se essa terra fosse realmente aberta para colonizaçâo.”84 (Essa observação presciente poderia ser igualmente bem aplicada aos problemas que surgiriam muito mais tarde, quando os governos africanos recentemente independentes tentaram equilibrar a necessidade de explorar recursos naturais e a exigência de proteção da vida selvagem.) Embora muito reduzida, a caça deveria ficar na moda ainda por várias décadas. Mas a disseminação da colonização européia trouxe dois problemas mais imediatos em seu rastro. Primeiro, havia uma suspeita crescente de que animais tais como o cefo e o búfalo transportassem moscas tsé-tsé e outros parasitas que ameaçavam a criação doméstica. Segundo, os especuladores estavam começando a perceber as possibilidades comerciais da exploração dos recursos florestais da África Oriental. O governo colonial britânico, que era a favor da conservação dos recursos florestais, sentiu que seria prematuro vender concessões até que existisse um esquema praticável de reflorestamento. Entretanto cem mil hectares estimados de florestas (ou um quarto da área proclamada de florestas) foram
* O equivalente à nossa Vara de Família, que se encarrega dos divórcios. (N. do T.) ** Personagem bíblico (Reis 21:1) cujo parreiral era cobiçado por Acab, rei de Israel. (N. do T.)

37 destruídos no período entre 1894 e 1919.85 A causa direta foi o desmatamento e a utilização para plantio por agricultores camponeses; a causa indireta foram mais provavelmente as políticas administrativas do governo, que obrigaram os agricultores camponeses a saírem de suas terras agrícolas tradicionais. O Regulamento da Floresta de 1911 protegia apenas uns oitocentos mil hectares de floresta contra o desmatamento, exceto sob licença. O extermínio, pelas autoridades coloniais, de animais selvagens encarados como pestes agrícolas ou portadores de epidemias para a criação doméstica começou a cobrar pesados tributos depois da Primeira Guerra Mundial. Por exemplo, um total de 321.518 animais foram mortos em operações antitsé-tsé entre 1924 e 1945, somente na Rodésia meridional.86 A preocupação com as implicações era um dos principais motivos por trás da convocação, de iniciativa britânica, da Conferência Internacional para a Proteção da Fauna e da Flora, em Londres, em 1933. A conferência resultou na assinatura de uma convenção sobre a Preservação da Fauna e Flora em seu Estado Natural, mais· tarde ratificada pela maioria dos poderes coloniais. Sucedendo a há muito defunta Convenção de 1900, esta foi planejada para restringir as ameaças à vida selvagem africana através da criação de áreas protegidas, tais como parques nacionais e reservas. Reuniu preservacionistas, cientistas e governos numa causa comum, tornou seus signatários conscientes dos problemas das colônias africanas de uns e de outros, e estabeleceu o precedente de organizações não governamentais desempenhando um papel técnico consultivo em iniciativas desse tipo.87 Chegou até a incluir apêndices sobre espécies animais raras ameaçadas de extinção. Os signatários, entretanto, não eram obrigados a cumprir essas regras; não havia fundos para encontros regulares de acompanhamento e nem um comitê de fiscalização. É possível igualmente que a conferência tenha angariado a antipatia das populações locais para com o conceito de proteção da vida selvagem, pois os animais estavam sendo protegidos por razões não práticas e sem consideração para com os direitos tradicionais de caça. Este se tornaria mais tarde um fator crítico nas tentativas pós-independência de promover a conservação (ver capítulos 5 e 8).

O NEW DEAL E O DUST BOWL* Em seguida à Primeira Guerra Mundial e ao declínio da influência de Roosevelt, bem como de Muir e Pinchot, Fox vê o conservacionismo americano perder sua conexão com o liberalismo político e associar-se ao Partido Republicano de mentalidade empresarial dos anos vinte. Assim, quando Franklin D. Roosevelt assumiu, em 1933, a presidência de uma nação em profunda crise financeira, herdou um movimento conservacionista republicano em aliança estreita com os interesses empresariais, casamento que Fox acreditava encaixar-se perfeitamente aos ideais do New Deal de administração profissional e eficiência.88 Roosevelt, entretanto, voltou ao pinchotismo, e sua administração New Deal o aplicou como a pedra angular da retomada econômica, notadamente na Autoridade do Vale do Tennessee, o apogeu de uma filosofia de desenvolvimento multidirecionado. De modo similar, o Civilian Conservation Corps distribuiu estrategicamente os desempregados em manejo florestal, prevenção da erosão do solo e controle de cheias. Em outros lugares as atitudes frente à "administração racional", como exemplificado pelo extermínio de animais vistos como pestes (iniciado por Theodore Roosevelt através de financiamento federal), estavam mudando. O lobo, a marmota e o coiote eram alvos especiais. Pinchot tinha aparentemente pouco interesse pela vida dos animais selvagens e
* Dust bowl: Literalmente, tigela de pó. Termo cunhado em 1936 para descrever regiões anteriormente férteis que passaram a sofrer períodos prolongados e regulares de seca e grande erosão pelo vento no interior dos Estados Unidos. (N. do T.)

38 deu pouca atenção às implicações ecológicas da erradicação de espécies que interferiam na produtividade dos recursos nos quais o homem tinha interesse.89 A oposição ao extermínio de predadores foi dirigida nos anos do pós-guerra pela American Society of Mammalogists e, em 1936, foi interrompida a matança de todos os predadores em parques nacionais. Esta visão em evolução está condensada na carreira de Aldo Leopold.* Leopold, formado na Yale Forestry School, publicou em 1933 o livro Game Management, que se tornou um texto fundamental para os profissionais da vida selvagem. Nesse livro ele declarou que a "conservação efetiva requer, além do sentimento público e das leis, a manipulação deliberada e com propósitos definidos do meio ambiente".90 Entretanto, ele havia começado cedo a se preocupar com a obsessão do Serviço Florestal pelo manejo florestal, que excluía a administração dos animais selvagens. Ele foi importante, em 1924, na criação da Gila National Forest como área virgem no Novo México e, em 1935, ajudou na fundação da Wilderness Society. A conversão de Leopold ao conservacionismo progressista foi confirmada em seu enorme e influente Sand County Almanac, publicado postumamente em 1949. Nesse livro ele conclamou à criação de uma nova ética da terra, baseada na crença de que o homem não era um conquistador da "terra-comunidade", mas um membro e cidadão dela; uma fragilidade do conservacionismo baseado em noções econômicas era que ele ignorava os elementos na terra-comunidade que não tinham valor comercial, mas que eram essenciais para o seu funcionamento saudável.91 Leopold advertiu sobre a inadequação da conservação do solo como uma questão puramente econômica: "Abusamos da terra porque a vemos como uma mercadoria que nos pertence. Quando a virmos como um recurso ao qual pertencemos poderemos começar a utilizá-Ia com amor e respeito.92 Nesse ínterim o movimento pela preservação das áreas virgens experimentou um renascirnento durante o New Deal. A medida que os Estados Unidos emergiram da Depressão, as visitas aos parques nacionais elevaram-se de 6,3 milhões em 1934 para 16,2 milhões em 1938. Apesar de seu profundo interesse por terra, árvores e água para uso humano,93 Roosevelt não ficava pessoalmente impressionado com muitos parques, mas os achava essenciais ao processo de rejuvenescimento espiritual nacional. Esperava que os parques pudessem ser tornados mais acessíveis, particularmente para os residentes nos estados superpovoados do leste. Nisso ele se opunha aos preservacionistas das áreas virgens, que argumentavam que as estradas que estavam sendo construídas para os parques para torná-Ios mais acessíveis ameaçavam destruir as áreas virgens. A dissenção continuada entre conservacionistas e preservacionistas chegou a seu clímax em 1935-1939 com O debate sobre o Kings Canyon, na Sierra Nevada. Muito tempo antes Muir havia feito campanha para declará-Io parque nacional, mas não obteve sucesso; em 1935 a construção planejada de uma estrada de acesso e o desenvolvimento comercial que a mesma acarretaria ajudaram a

afastar o Sierra Club do caminho original que havia trilhado. Um esforço concentrado de campanha resultou na criação do Kings Canyon National Park em 1939. Os meados dos anos 30 assistiram a um dos maiores desastres ambientais produzidos pela mão do homem na história: o Dust BowI. Entre 1934 e 1937 mais de duzentas tempestades de poeira regionais atingiram as Grandes Planícies.94 Algumas eram densas o suficiente para encobrir o sol e criar redemoinhos de mais de 6 metros de altura; outras empurraram a poeira a lugares tão distantes quanto Chicago, Washington, D.C., e ao Atlântico. Por volta de 1938 mais da metade das Grandes Planícies - cerca de 1,29 milhão
* Aldo Leopold (1887-1948) nasceu em Iowa e formou-se na Yale Forestry School antes de entrar para o Serviço Florestal Americano, no Arizona. Por sua influência o Serviço Florestal adotou técnicas mais cuidadosamente consideradas de administração da caça. Em 1928, depois de quatro anos em Wisconsin, deixou o Serviço Florestal para dirigir uma série de pesquisas sobre a caça. Em 1933 foi criada para ele uma cadeira de administração da caça na Universidade de Wisconsin, posto que manteve até a morte.

39 de quilômetros quadrados - foi erodida; com dezesseis estados afetados, o país foi obrigado a importar trigo. A culpa imediata foi atribuída ao vento e à seca de 1931-1934. Mas a verdadeira responsabilidade estava em mais de meio século de práticas agrícolas irrefletidas: arar a terra com sulcos longos e retos, deixar campos sem a cobertura da vegetação, opção por monocultura e destruição do relvado nativo que era uma proteção natural vital contra o vento e a seca.95 O Comitê das Grandes Planícies, em seu relatório de 1936, enfatizou o efeito de perturbações contra o equilíbrio da natureza, da busca de competição egoisticamente interessada e não regulamentada e da crença de que a natureza poderia ser moldada para corresponder à conveniência humana.96 Antes do Dust Bowl, a administração de recursos nos Estados Unidos não tinha coordenação e estava fundada nas necessidades econômicas imediatas; como conseqüência direta do Dust Bowl, acredita Worster, o conservacionismo começou a deslocar-se em direção a uma perspectiva ecológica mais abrangente e coordenada. Os efeitos do Dust Bowl foram sentidos muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Anderson argumenta que o alarme criado pelas imagens do Dust Bowl era um dos muitos fatores que se combinaram para encorajar uma reavaliação das políticas agrárias nas colônias britânicas da África;97 os outros incluíam os efeitos da Depressão sobre os mercados de exportação para produtos coloniais, o reconhecimento de que crescimentos rápidos na população de seres humanos e de gado das reservas africanas estavam exercendo uma séria pressão sobre o solo, e a preocupação com as conseqüências de uma incidência crescente de secas numa boa parte da África Oriental. Em 1938 a conservação do solo havia-se tornado uma questão fundamental da política pública na África Oriental, um desenvolvimento que Anderson vê como parte de uma transição mais ampla no pensamento colonial britânico. PROTEÇÃO DA NATUREZA: PRIMEIROS PASSOS RUMO A UMA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL Em 1909 os protecionistas europeus se reuniram no Congresso Internacional para Proteção da Natureza, em Paris. Passando em revista os progressos (ou a falta deles) da proteção da natureza na Europa, propuseram a criação de um organismo internacional de proteção da natureza.98 A idéia foi assumida por Paul Sarasin (fundador, em 1914, do Parque Nacional Suíço). Com a bênção do Conselho Federal Suíço ele contatou os governos da Áustria, Argentina, Bélgica, Grã-Bretanha, Dinamarca, França, Alemanha, Hungria, Itália, Japão, Holanda, Noruega, Portugal, Romênia, Rússia, Espanha, Suécia e Estados Unidos. Todos, exceto o Japão e a Romênia, aceitaram em princípio. Em 1913 um Ato de Fundação de uma Comissão Consultiva para a Proteção Internacional da Natureza foi assinado em Berna por 17 países europeus. A comissão deveria coletar, classificar e publicar informações sobre a proteção internacional da natureza e fazer propaganda em defesa da causa. O primeiro passo era realizar uma conferência para falar de questões tais como a pesca da baleia, o comércio internacional de peles e de plumagens e a proteção dos pássaros migratórios. Mas a eclosão da guerra tanto impossibilitou a conferência quanto efetivamente enterrou a comissão de 1913. O único progresso realizado nos anos de guerra foi a assinatura, entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha (em nome do Canadá), em 1916, de um acordo sobre pássaros migratórios.

As tentativas do pós-guerra de reviver a comissão tiveram pouco sucesso. Estava claro que a idéia de um organismo internacional não era muito mais do que uma fantasia de uns poucos entusiastas comprometidos, dentre os quais o mais incansável era o preservacionista holandês P.G. van Tienhoven. Em 1925 van Tienhoven fundou o Comitê Holandês para 40 a Proteção Internacional da Natureza, como uma base a partir da qual poderia promover seu sonho da criação de um organismo internacional que assumisse o papel da comissão de 1913. A fundação de organismos de proteção da natureza na Bélgica e na França entre 1925 e 1926 parecia ser um bom presságio, mas não houve apoio da Grã-Bretanha.*/99 Em 1928 van Tienhoven criou - e recebeu apoio para tanto - um escritório de coordenação internacional com subsídio holandês, o qual foi reconstituído em 1934 como L'Office International pour Ia Protection de Ia Nature (OIPN) e se encarregou da promoção da proteção internacional da natureza. Seu trabalho foi inconclusivo e, assim como o da comissão de 1913, estava fadado ao fracasso. Era uma trabalho prematuro; tanto o organismo de 1913 quanto o de 1934 careciam de uma autoridade internacional junto à qual pudessem fazer lobby,100 e de organismos nacionais maduros que fossem capazes de formar as bases de uma rede internacional sólida. Todo progresso que possa ter se realizado na cooperação internacional durante os anos do entreguerras coube aos ornitólogos. O International Committee for Bird Protection (mais tarde International Council for Bird Preservation, ICBP) foi fundado num encontro realizado em Londres, em junho de 1922. Seu grande animador era Gilbert Pearson, presidente da Associação Audubon de 1910 a 1934, que esperava que o ICBP pudesse estreitar relações com os grupos de proteção americanos e europeus. O comitê tinha objetivos menos ambiciosos do que a comissão de 1913, buscando "coordenação transnacional ao invés de integração internacional”.101 A chave para o sucesso do ICBP reside na autonomia que deu a seus comitês nacionais. A instituição teve uma ponderável influência formadora sobre o movimento protecionista internacional, chamando atenção para o esgotamento de certas espécies, para as ameaças enfrentadas pelas espécies migratórias e para o comércio internacional de plumagens.102 A necessidade de implementar ação e legislação internacionais estava na pauta de outros agrupamentos de ornitólogos durante os anos 20 e 30, notadamente a Conferência sobre a Proteção de Aves Aquáticas Migratórias, realizada em 1927. Enquanto a Europa tinha sua atenção desviada durante o final dos anos 30 pela ameaça crescente do nazismo, os americanos chegaram a dois notáveis acordos ambientais internacionais próprios. O primeiro foi o Tratado sobre os Pássaros Migratórios de 1937, assinado com o México e o Canadá. O segundo, a Convenção sobre a Proteção da Natureza e a Preservação da Vida Selvagem no Hemisfério Ocidental (a Convenção do Hemisfério Ocidental), foi aberto em 1940 à assinatura de todos os países americanos. Vida selvagem, paisagem, formações geológicas, áreas virgens e regiões e objetos de valor histórico ou científico estavam todos incluídos. Os governos signatários se comprometeram a criar novos parques nacionais, consolidar os parques já existentes, manter reservas de áreas virgens, elaborar legislações, encorajar intercâmbio de pesquisa entre si, proteger pássaros migratórios, controlar o comércio de animais selvagens e oferecer condições de proteção específica às espécies listadas num anexo. Tudo isso era muito impressionante, mas ao final da guerra somente oito estados haviam assinado e a convenção, Carecendo de administração adequada, caiu num quase esquecimento até 1976, quando a Organização
* O Comitê Correlativo Central para a Proteção da Natureza foi criado na Grã-Bretanha em janeiro de 1924, especificamente para atuar como órgão de coleta, classificação e distribuição de informações, como organismo de coordenação e para facilitar os contatos internacionais. Representantes dos dez órgãos que o constituíam deveriam se encontrar anualmente para discutir problemas nacionais e internacionais, e políticas de atuação, o que fizeram por três anos, discutindo, dentre outras coisas, os problemas enfrentados por baleias e pelas espécies migratórias. Para evitar a impressão de que era um órgão internacional, seu nome foi mudado para Comitê Correlativo Britânico. Por volta de 1926 não havia mais motivo para manter a realização dos encontros anuais pois existia o sentimento de que não havia nada para discutir; seus membros faziam cada vez menos uso do comitê como um fórum, e o órgão foi dispersado em 1936.

41 dos Estados Americanos lançou uma campanha para redinamizá-Ia. A essa altura, contudo, a convenção tinha pouco valor prático.103 A SPWFE, o IOPN e o ICBP, as duas convenções africanas e a convenção do hemisfério ocidental representaram as sementes de um interesse pela cooperação internacional e a aceitação (ainda que somente

por uma minoria) do fato de que os movimentos de conservação e preservação tinham, em última análise, interesses que transcendiam as fronteiras nacionais. Mas uma outra guerra mundial deveria acontecer antes que o clima se tornasse propício para que as esperanças de poucos se convertessem nas ações de muitos. 42 EM BRANCO 43

DOIS Proteção, Conservação e as Nações Unidas (1945-1961)
A Segunda Guerra Mundial transformou valores e atitudes no sentido do internacionalismo, o que, por sua vez, alterou radicalmente a agenda do ambientalismo. Mesmo antes de a guerra haver terminado, já estavam sendo traçados planos para promover a reconstrução e a assistência econômica, particularmente através das novas Nações Unidas e seus órgãos especializados. Nesse clima receptivo, o período entre 1943 e 1946 assistiu à ressurreição de duas iniciativas ambientais datadas de antes da Primeira Guerra Mundial: a realização de uma conferência internacional sobre a conservação de recursos naturais e o estabelecimento de uma organização internacional para a proteção da natureza. Mais uma vez, contudo, os conservacionistas e protecionistas seguiram caminhos distintos, e mais uma década se passaria antes que eles começassem a concordar uns com os outros. Desde que Taft cancelou a conferência internacional proposta por Theodore Roosevelt em 1909, Gifford Pinchot vinha tentando periodicamente reviver a idéia. Abordou Wilson, Harding, Coolidge e Hoover, um após o outro, sem sucesso. Em seguida, sua amizade com Franklin D. Roosevelt mais uma vez lhe proporcionou influência na Casa Branca. Num discurso para o Oitavo Congresso Científico Americano, em maio de 1940, Pinchot argumentou que o "acesso justo" de toda nação aos recursos naturais era "uma condição indispensável para a paz permanente".1 Ele sentia que a paz só poderia ser atingida pela eliminação dos incentivos à guerra, dentre os quais um dos mais comuns era a demanda por terra e recursos naturais. Em junho de 1944 ele fmalmente levantou a questão com Roosevelt, que reagiu favoravelmente. "Fico surpreso que o mundo saiba tão pouco sobre si mesmo", escreveria Roosevelt mais tarde a seu secretário de estado, CordelI Hull. "A conservação é uma base para a paz permanente."2 O Departamento de Estado não chegou a ficar entusiasmado. Argumentou que o novo Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC) e a planejada Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) pretendiam tornar a conservação parte do planejamento de política econômica do pós-guerra, e expressou dúvida quanto à possibilidade de ser atingido um consenso internacional significativo sobre conservação sem considerar o desenvolvimento e comercialização ordenados dos recursos naturais. A conservação, argumentava, era apenas uma parte, ainda que importante, do problema global de colaboração internacional no uso mais sábio dos recursos produtivos do mundo. A conservação, naquilo que se relacionava à agricultura, piscicultura e manejo de florestas, seria avaliada pela FAO; o Acordo Anglo-Americano do Petróleo, então já submetido ao Congresso, incluía o objetivo básico de um desenvolvimento "ordenado" dos recursos petrolíferos do 44 mundo; e a conservação já havia sido levantada nas discussões sobre matérias-primas internacionais.3 Roosevelt rejeitou esses argumentos dizendo que os mesmos não haviam conseguido captar a necessidade real de conhecer mais sobre os recursos mundiais. Em janeiro de 1945 declarou a Pinchot que abordaria a idéia da conferência como uma das bases para a paz permanente, com Stálin e Churchill em Yalta, naquele mesmo mês.4 Não há evidências de que de fato tenha levantado a questão em Yalta, porém, e embora os planos de Pinchot para a conferência estivessem esperando por Roosevelt quando de sua volta; o presidente parece ter sido influenciado pela visão do Departamento de Estado. Ele esboçou um memorando para Pinchot em março, sugerindo que, dados os elementos de conservação que estavam sendo introduzidos nos programas da FAO, do ECOSOC e do Banco Mundial, a conferência fosse adiada. "Nós não desejaríamos ter uma organização internacional separada para recomendar planos e projetos com respeito à conservação, exceto se subordinada e relacionada ao [ECOSOC]", escreveu.5 O memorando nunca foi enviado, todavia, e Pinchot

então apresentou a Roosevelt um plano inicial detalhado para a conferência. Esta poderia considerar o estabelecimento de uma organização internacional para promover a conservação de recursos naturais, justo acesso a matérias primas necessárias para todos os países, intercâmbio de informações e o levantamento de um inventário de recursos naturais e de um conjunto de princípios para sua conservação. Pinchot assinalou que Lewis Lorwin, um membro de primeiro escalão da Administração Econômica Exterior americana, havia sugerido que as propostas de Dumbarton Oaks, que delineavam os propósitos da ONU, poderiam incluir o incentivo à cooperação internacional na conservação de recursos naturais e humanos.6 Pinchot também deixou estabelecido com o presidente da Comissão Interina sobre Alimentação e Agricultura da ONU que não haveria qualquer espécie de conflito entre a conferência mundial e os planos da FAO. Os membros do governo com quem Pinchot havia falado, segundo alegava, haviam todos dado seu apoio; somente o Departamento de Estado se opunha. Com a morte de Roosevelt em abril de 1945 o interesse direto da Casa Branca na questão chegou ao fim. Numa carta subseqüente ao Departamento de Estado, WiIliam Clayton, o secretário de Estado assistente para questões econômicas, assinalava que o esboço de plano de Pinchot de março "confirma nossas suspeitas iniciais. A agenda sugerida [e as recomendações e conclusões] ( ... ) todas indicam uma pauta de discussão que coincidiria quase que a cada passo" com as funções da FAO, do ECOSOC e de uma proposta Conferência Mundial de Comércio. Clayton achava desnecessário convocar uma conferência para reunir informações, o que poderia ser feito melhor por técnicos que se comunicariam uns com os outros através dos "canais normais", e que não era provável que os países chegassem a concordar quanto a uma ação cooperativa de conservação até que os problemas maiores de acordos de comércio e mercadorias tivessem sido resolvidos.7 Pinchot foi aconselhado a entrar em contato com Truman, Averell Harriman e Clayton. Em maio ele falou com Truman e em dezembro deu a este último um novo conjunto de planos para a conferência.8 Mas a iniciativa estava agora fora das mãos de Pinchot e sua autobiografia foi o que lhe restou como ocupação à qual dedicar seus últimos meses. Ele morreu em outubro de 1946, aos 81 anos. Ironicamente, as Nações Unidas já haviam começado a pensar numa conferência internacional sobre a conservação e o uso de recursos, a ser baseada na "necessidade de desenvolvimento contínuo e aplicação generalizada das técnicas de utilização e conservação de recursos".9 Em setembro de 1946, o representante americano nas Nações Unidas escreveu ao presidente em exercício do ECOSOC, em nome dos Estados Unidos, propondo que ali fosse realizada uma conferência para "consideração da conservação e utilização eficiente dos recursos naturais" .10 O motivo básico era a necessidade de examinar a conservação à luz das exigências da época da guerra sobre os recursos naturais e sua importância para a reconstrução do pósguerra. A despeito das reservas anteriores do Departamento de Estado dos EUA quanto à duplicação, por parte da conferência, das atividades do ECOSOC na área, este mostrou-se receptivo e adotou uma resolução 45 reconhecendo a necessidade de desenvolvimento e aplicação de técnicas de desenvolvimento e conservação de recursos. Convocava uma conferência a ser "devotada unicamente ao intercâmbio de idéias e experiências sobre esses assuntos, entre engenheiros, técnicos de recursos, economistas e outros especialistas em áreas correlatas" (o destaque é meu).11 A conferência - United Nations Scientific Conference on the Conservation and Utilization of Resources (UNSCCUR) - foi marcada para o verão de 1949. Tanto na forma quanto no conteúdo, era completamente diversa da conferência natimorta de Pinchot. SEGURANÇA DE ALIMENTOS, AS NAÇÕES UNIDAS E OS NEO-MALTHUSIANOS O fornecimento de alimentos e a eliminação da fome estavam entre as prioridades imediatas da agenda de reabilitação econômica e social da ONU. Em outubro de 1942, Frank McDougall, consultor do representante australiano na Liga das Nações e há muito envolvido nas atividades da Liga relativas à nutrição, havia delineado, num memorando que circulou pelos governos, uma proposta para uma campanha da ONU pela libertação da penúria de não ter alimentos. Submeteu essa sugestão a Roosevelt, que, com pouca antecedência, anunciou em fevereiro de 1943 que a conferência seria realizada naquela primavera para investigar os problemas alimentares de longo prazo. Durante a conferência a discussão (realizada em Hot Springs, Virgínia, em maio de 1943) foi centrada na oferta e procura de alimentos, produção aumentada para atender às necessidades de consumo e melhor distribuição. Havia menção passageira ao valor da administração do solo: a já proposta nova Organização para Alimentação e Agricultura, assinalava o

relatório da conferência, seria "dedicada a implementar o bom uso e a boa administração, sob todas as formas e por todas as pessoas, desse mais básico dos recursos do homem".12 A FAO foi fundada numa conferência em Quebec em outubro de 1945, e sir lobo Boyd Orr foi eleito o primeiro diretor-geral.* A nova organização "nasceu da idéia de libertação em relação à penúria";13 a prioridade primeira de Orr era fazer frente a uma crise mundial de alimentos, que, segundo as previsões da época, chegaria a se estender por boa parte de 1947, e depois lidar com a oferta de alimentos de longo prazo. Ele propôs um Conselho Mundial de Alimentos que compraria, estocaria e venderia mercadorias agrícolas importantes que fizessem parte do comércio mundial, desse modo controlando preços e abastecimento. O Conselho seria intimamente relacionado ao ECOSOC e ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, o Banco Mundial, criado em 1944). Acumularia reservas de alimentos de vulto suficiente para fazer frente a emergências de fomes coletivas. Essá proposta foi, todavia, rejeitada no final de 1947, constituindo uma derrota que influenciaria a decisão de Orr de renunciara seu posto no ano seguinte. A FAO enfatizava o desenvolvimento e a exploração de recursos naturais em apoio a suas metas de curto e longo prazo, a saber, fazer frente aos problemas de nutrição mundiais e melhorar a condição das populações rurais através do aprimoramento da eficiência na produção e distribuição de produtos agrícolas e alimentares, mas também reconhecia a importância da conservação. Um meio de atingir suas metas, conforme definido no Artigo I de sua constituição, era "a conservação dos recursos naturais e a adoção de métodos aperfeiçoados de produção agrícola" .14 Aliada ao problema dos alimentos, havia aquestão da restauração da indústria madeireira, um fim em função do qual a FAO promoveu a
* Sir John Boyd Orr (1880-1971), médico nascido na Escócia, especializou-se em nutrição depois de ver o sofrimento dos habitantes dos bairros pobres de Glasgow. Foi atuante nas atividades da Liga das Nações, relacionadas à nutrição. Ele renunciou ao cargo na FAO em 1948 e, em 1949, em reconhecimento por seu trabalho naquele órgão, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e foi elevado à dignidade de par do reino, tomando-se lorde Boyd Orr.

46 proteção e extensão da cobertura florestal para conter a erosão do solo, proteger os divisores de águas, controlar as cheias, agir como anteparos contra o vento e abrigar a vida selvagem. Por exemplo, organizou cursos e workshops sobre manejo de florestas, estudou as tendências das matas e realizou conferências em 1947, 1948, 1949 e 1952 para discutir, respectivamente, o abastecimento de madeiras na Europa, América Latina, Ásia e Pacífico, e também Oriente Médio, assim como planos de longo prazo para a reabilitação de florestas e o uso de produtos florestais. A assistência técnica a países menos desenvolvidos era um dos destaques da agenda da FAO. Em 1951, a FAO realizou uma conferência no Ceilão sobre o uso do solo na Ásia e no Extremo Oriente. O povoamento estava no cerne do debate, e o cultivo em rodízio foi apontado como responsável pela redução da fertilidade do solo, destruição da vegetação, inundações, erosão do solo, assoreamento de rios e redução da oferta de água. Foram definidos dois pontos críticos na conferência: 1. A pesquisa sobre os solos tropicais era urgentemente necessária; vinha existindo uma tendência excessivamente forte para aplicar, nos trópicos, os resultados de pesquisas e experiências das zonas temperadas, resultando no fracasso dos programas de desenvolvimento agrícola. Um exemplo de tal fracasso foi a tentativa, feita em 1947-1948, de desenvolver um esquema de cultivo de tubérculos comestíveis em Tanganica. A falta de um planejamento preliminar e uma incapacidade de planejar o esquema de acordo com as condições climáticas locais levaram ao seu abandono em 1950.15 2. Era preciso dar maior atenção às necessidades dos camponeses agricultores; poderia ser necessária uma reforma agrária para criar pequenas fazendas eficientes. Um projeto de pesquisa foi lançado em 1949 para examinar os recursos florestais latino-americanos e as melhores maneiras de administrálos e explorá-Ios. Em seu discurso presidencial na reunião anual da British Association for the Advancement of Science em setembro de 1949, sir John RusseIl falou sobre o papel essencial da ciência na alimentação das populações em crescimento. Advertindo quanto às raízes políticas e sociais da erosão do solo, e aludindo aos programas antierosão do solo então em curso nos Estados Unidos, na URSS, na África do Sul e em colônias africanas, concluiu que a ecologia estava sendo cada vez mais usada para ajudar na produção de safras: "A idéia antiga

de que a ciência permitiria ao agricultor ir a qualquer parte e produzir qualquer coisa deu lugar ao princípio mais realista de que cada hectare de terra deve, tanto quanto possível, ser usado do modo ao qual melhor se adapte. As extensões de área cultivada, o tratamento da terra erodida e o aprimoramento das pastagens naturais já são vistos como problemas ecológicos, mas o alcance é muito mais amplo e as possibilidades grandes.''16 Tomou-se claro para diversos economistas e conservacionistas que o mau gerenciamento dos recursos e o crescimento populacional eram obstáculos para a solução da crise de alimentos. Orr escreveu em 1953 sobre "o patrimônio desperdiçado" de terras férteis, causado pela erosão do solo, a qual, por sua vez, era causada pela derrubada das árvores (sobretudo em terras de encosta) e pelo excesso de pastagem e cultivo. "A presente carência mundial de alimentos", observou, "fez surgir de novo o espectro de Malthus”.17 Desde Malthus muitos outros haviam arriscado opiniões, alguns apenas poucos anos antes de Orr. Em 1936 o economista liberal Stuart Chase havia escrito alarmadamente sobre a exaustão dos recursos naturais.18 Em 1937, no auge do Dust Bowl, Paul Sears abordara os perigos dos desertos em expansão em seu livro Deserts on the March.19 Em 1939, Hugh Bennetf 20, do Serviço de Conservação do Solo dos Estados Unidos, e R.O. Whyte e G. V. Jacks21 haviam advertido quanto aos males da erosão do solo e à necessidade da conservação. Em 1945 Frank Pearson e Floyd Harper haviam escrito sobre a relação entre fome, povoamento e terra em seu livro The World's Hunger.22 As preocupações 47 quanto à relação entre o crescimento populacional e a exaustão de recursos foram então revividas em dois influentes livros publicados nos Estados Unidos em 1948: Our Plundered Planet, de Fairfield Osborn, e Road to Survival, de William Vogt. Osborn (1887-1969) havia sido presidente da New York Zoological Society desde 1940 (e de 1948 a 1962 foi presidente da Conservation Foundation). Impelido em parte pela lembrança do Dust Bowl, e em parte pela escassez de comida e madeira no período de guerra, e citando numerosos exemplos da história que demonstravam o uso errôneo da terra pelos humanos, argumentava que a história das florestas, das campinas, da vida selvagem e dos recursos hídricos nos Estados Unidos no século anterior havia sido "a mais violenta e mais destrutiva de todas as escritas na longa história da civilização". Lamentava o fato de que poucas pessoas tinham consciência dos processos de destruição crescente que estavam sendo inflingidos aos recursos naturais: "A ação do governo, em última análise, baseia-se principalmente ... no ponto de vista das pessoas. O fato de que mais de 55% da população dos EUA vive em cidades e vilas resulta inevitavelmente num distanciamento da terra e numa apatia quanto ao modo de tratar os recursos para a vida." Alegava que a discórdia internacional poderia ser explicada a partir da diminuição das terras produtivas e do aumento das pressões populacionais, e advertia: "A maré da população da terra está subindo e as reservas de recursos para a vida da terra estão decrescendo. ( ... ) Só existe uma solução. O homem precisa reconhecer a necessidade de cooperar com a natureza.23 Em The Limits of the Earth (publicado em 1953), Osborn argumentava: "Enquanto os recursos se mostraram adequados não apenas para atender as necessidades básicas dos povos, mas também para sustentar suas economias, as nações e culturas floresceram. Os chamados 'períodos grandiosos' da história estão intimamente identificados com esta relação favorável. Na falta dela, impérios que eram aparentemente indestrutíveis se desintegraram”.24 Como Marsh antes dele, Osborn traçou as ligações entre destruição ambiental e decadência social na Grécia e em Roma. Perguntava agora como a terra poderia continuar a atender as necessidades de sua população em crescimento rápido. Vogt (1902-1968) foi ainda mais alarmista. Suas experiências do período de guerra no Peru e no Chile, com sua pobreza e suas famílias numerosas, e a resistência da Igreja Católica ao controle da natalidade transformaram-no num neo-malthusiano.25 De 1943 a 1948 Vogt foi chefe da Seção de Conservação da União Pan-Americana. Road to Survival, que se antecipava aos profetas do apocalipse dos anos 60, tornou-se um best-seller. Nele, Vogt argumentava que os Estados Unidos eram superpovoados, auto-indulgentes, perdulários (quanto ao solo arável, madeira, água, carvão e gasolina em particular) e estavam condenados à extinção. "Os métodos da livre concorrência e a aplicação da motivação do lucro têm sido desastrosos para a terra. ( ... ) A terra é administrada com base nas chamadas leis econômicas e com um descaso bastante geral em relação às leis físicas e biológicas às quais ela está sujeita. O homem pressupõe que o que tem sido bom para a indústria deve ser necessariamente bom para a terra. Isso pode revelar-se um dos mais dispendiosos erros da hístória."26 Ao examinar os efeitos de um desequilíbrio entre

as exigências humanas e a capacidade da terra para atendê-ias em cinco continentes, Vogt concluiu que o homem havia "se colocado numa posição insustentável através de uma violação abrangente e prolongada de certas leis naturais: para se restabelecer, ele precisa somente adequar seu comportamento em conformidade com as limitações naturais". Vogt afirmava que todos eram responsáveis, e que os governos provavelmente não agiriam sem que as pessoas tomassem a iniciativa. As pessoas tinham que avaliar as relações complexas entre o homem e os recursos que tornavam impossível isolar o destino de uma nação do da outra e compreender sua dependência dos recursos. Era também essencial que as pessoas fossem conscientizadas do dilema.27 Entre os que foram influenciados pela avaliação de Vogt incluía-se Paul Ehrlich, então estudante e mais tarde um professor de biologia na Universidade de Stanford (ver capítulo 4). 48 As advertências de Osborn e Vogt foram lidas por um público amplo, mas seu impacto foi amortecido pelo fato de que vinham justamente quando. os Estados Unidos atingiam o fim de duas décadas de austeridade forçada e adentravam uma década de prosperidade e consumo sem paralelos. O clima favorável produziu repetidas safras abundantes, as rendas aumentaram e tanto os gastos em bens de consumo quanto a demanda de energia cresceram. Meio século antes, a conservação americana estava aliada ao progressismo, o qual, por sua vez, era produto de uma era de prosperidade. Mas agora a prosperidade produzia uma reação muito diferente; nesse clima as previsões de apocalipse pareciam prematuras e falar em escassez de recursos soava irrelevante. Não obstante, em 1952, uma comissão do governo presidida por William Paley, da CBS, concordou com a alegação de Vogt de que os recursos dos Estados Unidos estavam se esgotando. Reuniões entre Osborn, Horace Albright e outros resultaram na fundação, no mesmo ano, do Resources for the Future (RFF), criado com uma generosa dotação da Fundação Ford, que encarregava o RFF da tarefa de arquitetar um plano racional para o consumo dos recursos. Mas a presença, no Conselho de Mantenedores do RFF, de representantes das câmaras de comércio e associações comerciais influenciou a perspectiva do RFF sobre conservação; em 1963 o RFF publicou um relatório que na realidade refutava as conclusões de Paley.28 PROTEÇÃO DA NATUREZA: A UNESCO E A CRIAÇÃO DE UMA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL As tentativas do pós-guerra para criar uma organização internacional de proteção da natureza foram inicialmente entravadas por uma curiosa dissençãozinha entre os protecionistas britânicos e americanos, de um lado, e os suíços, belgas e holandeses, de outro. Estes últimos eram particularmente interessados em que se criasse uma organização independente do novo sistema das Nações Unidas; os primeiros pensavam que isso não era de bom alvitre. Os europeus continentais prevaleceram, negando desse modo aos ambientalistas uma inserção efetiva nas atividades da ONU por quase trinta anos. Como parte de um estudo da viabilidade do estabelecimento de parques nacionais na Grã-Bretanha, foi criado um Comitê de Parques Nacionais e estabelecido o Wild Life Conservation Special Committee (WLCSC), sob a presidência de Julian Huxley.* Huxley concluiu que o WLCSC poderia estudar proficuamente o Parque Nacional Suíço, fundado 32 anos antes. Sua administração tinha muitos anos de experiência do tipo que poderia se revelar útil para o WLCSC nas suas deliberações. Uma equipe de seis cientistas e administradores, inclusive Max Nicholson,** foi assim enviada à Suíça em junho de 1946 para se encontrar com o comitê científico que supervisionava o parque e discutir a administração dos parques nacionais. A equipe ficou surpresa e mais do que um pouco desalentada ao descobrir, quando da sua chegada, que os suíços haviam realizado um encontro reunindo seus colegas da Bélgica, França, Noruega, Países Baixos e Tchecoslováquia, países onde uma reativação da rede de conservação anterior à guerra já havia sido informalmente discutida. O
* Sir Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi biólogo e escritor. Lecionou em Oxford (1910·1925) e no King's College de Londres (1925-1935) para depois tomar-se secretário da Zoological Society of London (1935- 1942). Em 1946 trabalhou no Comitê dos Parques Nacionais e tomou-se o primeiro diretor-geral da UNESCO (1946-1948). Recebeu o título de cavaleiro em 1958. ** Edward Max Nicholson (nascido em 1904), omitólogo e ex-funcionário público, teve enorme influência na evolução do ambientalismo britânico e internacional, embora a mesma venha sendo, constantemente subestimada na literatura. Co-fundador do British Trust for Ornithologye do Council for Nature, participou também na criação da IUCN e do World Wildlife Fund, foi o segundo diretor-geral da Nature Conservancy (1952-1966) e esteve intimamente envolvido no debate meio ambiente/desenvolvimento dos anos 70 (ver capítulo 8).·

49 International Office for the Protection of Nature (IOPN), que havia se mudado de Bruxelas para Amsterdam em 1940, mantivera apenas um funcionamento de rotina até 1947, quando, numa tentativa de reviver o interesse, elaborou um relatório sobre as atividades internacionais de proteção da vida selvagem durante a guerra. O dr. Charles Bernard, presidente da Liga Suíça para a Proteção da Natureza, decidiu nesse momento submeter a questão a um escrutínio mais amplo. O propósito do encontro dos suíços era discutir, "informalmente e sem compromissos", o futuro da proteção internacional à natureza.29 Bernard havia, porém, perseguido sua meta de reviver o IOPN com tamanha energia que foi acusado de planejar trazer o IOPN ou seu sucessor para a Suíça. Nicholson acredita que os suíços encaravam esta reunião de 1946 como uma oportunidade de passar a perna nos holandeses e belgas, que haviam mantido o IOPN antes da guerra.30 Bernard assegurou aos participantes da reunião que não seria possível tomar decisões: "Nosso objetivo é permitir que cada um de nós expresse suas idéias sobre o assunto. Nossas conversações serão informais, uma vez que nenhum de nós veio na condição de representante oficial. Além disso, não há um número suficiente de nações aqui representadas.”31 A delegação britânica insistiu para que não fossem feitos registros em ata nem firmados compromissos. Isso acordado, as discussões giraram em torno da utilidade de um órgão intergovernamental oficial, e foi proposto que a Liga Suíça pedisse ao governo suíço o restabelecimento da comissão de 1913. Van Tienhoven sugeriu que se entrasse em contato com a UNESCO para obter assistência, mas foi voto vencido. Numa reunião final em 6 de julho, chegou-se a duas conclusões provisórias: que era "desejável" que existisse uma organização internacional ativa ("adequadamente financiada e com termos de referência convenientes") para facilitar a cooperação entre os organismos nacionais, e que os organismos nacionais poderiam perfeitamente considerar isso.32 A delegação britânica retornou convencida de que era muito cedo para se estar falando em iniciativas internacionais no campo da proteção da natureza.33 Enquanto a Suíça havia permanecido neutra, o resto do mundo estivera lutando numa guerra devastadora, argumentavam, e não apenas a reconstrução extensiva era uma prioridade imperiosa, como poucos países possuíam seja os recursos, seja os órgãos nacionais necessários para criar uma rede internacional viável. Enquanto seus colegas na Grã-Bretanha voltavam-se então para a questão de um organismo nacional (a Conservadoria da Natureza foi criada em 1949), Julian Huxley fazia valer sua influência como novo diretor-geral da UNESCO. Sempre um naturalista cioso, estava convencido da relevância e urgência da proteção da natureza. Nas suas memórias34 descreveria a IUPN como "a organização para a conservação da natureza que fundei e desenvolvi enquanto estava na UNESCO", uma pretensão exagerada, mas que não deve diminuir a importância de seu papel. A UNESCO havia sido fundada em novembro de 1946 para promover a cooperação internacional na educação, ciência e cultura. Sua agenda para 1947 centrava-se em medidas para cooperar na reconstrução do pós-guerra, especialmente no campo da educação; seu único envolvimento oficial com as ciências naturais estava na promoção da educação e do intercâmbio científico. Seu Departamento de Ciências Naturais (um dos sete departamentos da UNESCO) recebeu 12% do orçamento da UNESCO para 1948, mas empregava menos de 6% de sua força de trabalho.35 Dentro do departamento, a conservação de recursos naturais era um elemento menor, embora tenha sido lançado um projeto em abril de 1947 para examinar as "necessidades e possibilidades" da floresta amazônica, essencialmente voltado para a pesquisa e divulgação de dados científicos e informações sobre a área.36 A palavra "conservação" aparecia na constituição da UNESCO apenas em relação a livros, obras de arte e "monumentos" históricos e científicos. Como um organismo novo, a UNESCO foi obrigada a buscar aconselhamento em questões técnicas com os órgãos internacionais não-governamentais existentes, um dos 50 quais foi o lnternational Council of Scientific Unions (ICSU). Por sugestão do bioquírnico de Cambridge Joseph Needham, o ICSU vinculou-se à UNESCO em Paris. A UNESCO também se havia concedido poderes para ajudar a criar novas organizações internacionais não-governamentais se necessário. HuxIey começou por submeter uma proposta à Conferência Geral, em Cidade do México em 1947, para que a UNESCO incluísse a proteção da natureza em sua súmula. Acabou por conseguir persuadir a conferência de que "a fruição da natureza era parte da cultura, e que a preservação de plantas e animais raros era um dever

científico".37 Tinha sido graças a HuxIey e Needham que a ciência chegara ao menos a ser incluída na súmula da UNESCO; não fosse por HuxIey, observa Nicholson, "a ciência teria sido formalmente eliminada ou nunca teria aparecido como um fator importante na UNESCO".38 Foi apenas o interesse pessoal de HuxIey que conseguiu, naquele momento, levantar alguma discussão sobre o assunto da proteção da natureza dentro da UNESCO. Uma outra contribuição veio da Sociedade Zoológica de Nova York, a qual estava promovendo a idéia de uma fundação internacional com uma súmula para implementar a conservação da vida animal, das florestas e de outras formas de flora, recursos hídricos e solos. O novo organismo internacional de proteção da natureza proposto pelos europeus foi, enquanto isso, discutido em maior profundidade num segundo encontro patrocinado pelos suíços e realizado entre 28 de junho e 3 de julho de 1947 em Brunnen. Mais bem organizado do que o encontro informal em Basiléia no ano anterior, este contou com o comparecimento de setenta delegados, representando vinte e quatro países (todos europeus, exceto a Argentina, Austrália, Guatemala, as Índias Orientais Holandesas, a Nova Zelândia e os Estados Unidos); quatorze governos haviam dado a seus representantes poderes para falar em seu nome, deixando a Grã-Bretanha, a Bélgica e a Suíça como os únicos países europeus ocidentais sem representação governamental. Mais uma vez ficou claro que não poderiam ser tomadas quaisquer decisões finais; a tarefa era, "como prioridade primeira e maior, estabelecer a base de uma organização que seria definitivamente criada num futuro próximo".39 Apesar da melhor organização, a conferência foi confusa quanto às suas intenções. Alguns delegados viram nela meramente uma oportunidade para mais discussões preparatórias, enquanto outros pressionaram no sentido da fundação imediata de um organismo internacional. Alguns delegados eram favoráveis a uma ação rápida, alegando que não seria "prático deixar a iniciativa para a UNESCO [porque] a UNESCO (...) não possuía, mais do que a ONU, o conhecimento especializado exigido para colocar tal organização de pé".40 Havia claramente alguma preocupação em não perder a iniciativa para as Nações Unidas e em preservar a independência do IOPN. A delegação britânica, porém, divergiu e propôs que se pedisse a UNESCO que realizasse um congresso, preferivelmente em Paris, em 1948, para considerar a forma que teria um organismo internacional de proteção da natureza, usando os termos da comissão de 1913 como a base para um novo acordo. Havia alguma confusão quanto ao possível papel da UNESCO. O mais esperançoso dos delegados em Brunnen encontrava dificuldades para ignorar o apoio pessoal de HuxIey, já então bastante conhecido, à proteção da natureza. HuxIey e Needham haviam, porém, declarado à Liga Suíça que a UNESCO não tinha nenhuma intenção de realizar qualquer ação específica no campo da proteção da natureza, e nenhuma evidência de apoio concreto da UNESCO era visível. Um delegado francês, o professor Bresson, que estivera intimamente envolvido na fundação do IOPN em 1926, resumiu a questão: "Sem ajuda governamental, acho que não podemos fazer nada quanto ao problema de uma organização internacional."41 Os americanos apoiavam a visão britânica de que a ajuda de um órgão da ONU era indispensável para que os governos levassem a sério o novo organismo proposto; era certo que o governo dos Estados Unidos não daria qualquer apoio a não ser 51 que se obtivesse o patrocínio da ONU. E como, perguntavam os americanos, poderia o novo organismo ser verdadeiramente internacional quando países como a URSS, China, Índia, Canadá e África do Sul não estavam representados em Brunnen? Apesar das dúvidas, uma constituição preliminar foi adotada pela conferência, estabelecendo uma [Provisional] International Union for the Protection of Nature (IUPN). Com sede em Basiléia, a IUPN "facilitaria a cooperação entre governos e organizações nacionais e internacionais preocupadas com ( ... ) a proteção da natureza".42 Pesquisa científica, consciência pública, educação, planejamento regional, criação de áreas protegidas, preservação da vida selvagem e dos bábitats e a preparação da convenção global foram os assuntos incluídos na agenda da IUPN. Uma cópia da constituição preliminar deveria ser imediatamente enviada à UNESCO, com o pedido de que fosse passada aos governos para que tecessem comentários. A UNESCO deveria ser solicitada a realizar um congresso em Paris em julho de 1948 para adotar a constituição. Ao decidir que se deveria solicitar à UNESCO que representasse a constituição preliminar da IUPN junto aos governos, esta realizou uma manobra para que a UNESCO passasse a se identificar consigo, atraindo desse modo o apoio governamental. Na mesma conferência de Cidade do México de 1947 em que havia conseguido convencer a UNESCO da importância da proteção da natureza, Huxley conseguira fazer

com que a UNESCO concordasse em convocar uma conferência técnica sobre a proteção da natureza, a ser realizada ao mesmo tempo que a UNSCCUR, a planejada conferência científica da ONU de 1949. Houvera alguma oposição a isso, especialmente por parte da Comissão Nacional dos EUA para a UNESCO, que acreditava que esta deveria transferir seu apoio diretamente para a conferência da ONU e garantir que fosse dada ênfase à preservação de áreas naturais.43 A vontade de Huxley prevaleceu, não obstante, e a UNESCO prometeu até mesmo assistência financeira à IUPN para a realização da conferência técnica. A conservação dos recursos naturais e a proteção da natureza deveriam, portanto; ser tratadas como questões separadas. A conferência de Paris sugerida pelos delegados em Brunnen era uma preocupação mais urgente para a Liga Suíça e a UNESCO. A UNESCO a via como uma conferência para estabelecer uma organização nãogovernamental (ONG), enquanto a IUPN esperava o envolvimento do governo. Depois de discussões acaloradas, chegou-se a um acordo pelo qual a UNESCO e o governo francês se comprometiam a convidar os representantes governamentais, enquanto a Liga Suíça convidaria as ONGs. A conferência foi realizada de 30 de setembro a 7 de outubro de 1948, em Fontainebleu, comparecendo representantes de 18 governos, sete organizações internacionais e 107 organizações nacionais. A maior parte das discussões girou em torno da questão de uma constituição para a IUPN. O esboço discutido em Brunnen era insuficiente, na visão de Nicholson, que conseguira que o Foreign Office britânico preparasse um novo esboço que serviu de base para a maioria das discussões,44 com emendas sugeridas pela UNESCO e pela delegação dos Estados Unidos. A questão mais controversa era o poder relativo do governo e dos representantes privados, com os governos não desejando ficar numa posição em que pudessem ser minoria dos votos em relação aos grupos privados. A solução aceita foi dar aos governos dois votos nas Assembléias Gerais e aos conjuntos de grupos privados um voto. Na sua forma final, a IUPN era um híbrido de órgãos governamentais e não-governamentais que, mesmo hoje em dia, é quase único. O Ato Constitucional da União foi assinado a 5 de outubro de 1948. A IUPN deveria promover a preservação da vida selvagem e do ambiente natural, o conhecimento público das questões, educação, pesquisa científica e legislação, e coletaria, analisaria e divulgaria os dados e informações. Também poderiam ser iniciados trabalhos para a preparação de uma convenção global para a proteção da natureza (uma proposta que se revelaria excessivamente otimista e irrealmente ampla). 52 Para os propósitos da IUPN, a natureza era definida como uma faceta importante da vida espiritual, seu desenvolvimento e exploração formavam a base da civilização humana, e a exaustão dos recursos naturais havia levado a uma depreciação dos níveis de vida humanos. Isso significava uma sobreposição de proteção e conservação. A constituição enfatizava que a destruição da natureza poderia ser revertida se as pessoas fossem "despertadas a tempo para uma consciência integral de sua dependência em relação aos recursos naturais exauríveis e [reconhecessem] a necessidade de sua proteção e restauração, assim como de sua administração sábia e bem-informada, a fim de que a paz, o progresso e a prosperidade futuras da humanidade pudessem ser asseguradas".45 Assim, a despeito do fato de que grande parte da discussão que cercava a formação da IUPN se tivesse concentrado na proteção da natureza, os princípios da IUPN referiam-se à conservação de recursos. As considerações estéticas foram minimizadas e a ética da conservação não foi sequer mencionada. A filosofia adotada pela IUPN via o homem como colocado firmemente no coração do sistema natural, com a conservação servindo diretamente a seus interesses e necessidades. O quartel-general do novo organismo foi mudado de Basiléia para Bruxelas, onde comissões ad hoc foram estabelecidas para tratar de educação, nomenclatura e publicações. Uma das tarefas mais urgentes da União era redigir um contrato com a UNESCO para a conferência técnica planejada para o verão seguinte. Este foi acordado e assinado em novembro, com a UNESCO comprometendo-se a apoiar financeiramente os preparativos para a conferência. Embora a IUPN passasse a existir no papel, enfrentava dois enormes problemas, o de transformar seus princípios em resultados concretos e o de estabelecer sua autoridade e credibilidade. Nesse aspecto a entidade foi entravada por restrições financeiras que se tornariam cada vez mais graves durante a década seguinte. Muito dependia então dos resultados da UNSCCUR, onde especialistas em conservação e administração de recursos poderiam trocar idéias "sobre experiências passadas, a fim de comparar as vantagens econômicas dos diferentes métodos"46, mas não seriam estabelecidas recomendações para ação futura.

A CONFERÊNCIA CIENTÍFICA DA ONU SOBRE A CONSERVAÇÃO E UTILIZAÇÃO DE RECURSOS (UNSCCUR) Como preparação para a UNSCCUR, ficou acordado que os delegados deveriam ter à sua disposição as conclusões das conferências regionais sobre conservação. Essa necessidade foi atendida em parte pela Conferência Interamericana sobre a Conservação de Recursos Naturais Renováveis, em setembro de 1948, em Denver, e pelo Sétimo Congresso de Ciência do Pacífico, na Nova Zelândia, em fevereiro de 1949. A conferência de Denver foi realizada pelo governo dos EUA a pedido da União Pan-Americana, e resolveu pedir à União que assumisse a iniciativa de ajudar a ONU a promover a cooperação entre os governos ocidentais no que dizia respeito à conservação de recursos naturais. Os 21 governos americanos representados foram instados a criar órgãos de conservação nacionais e a ratificar a Convenção do Hemisfério Ocidental.47 A UNSCCUR foi realizada em Lake Success, no estado de Nova York, entre 17 de agosto e 6 de setembro de 1949. Organizada conjuntamente pela FAO, OMS, UNESCO e Organização Internacional do Trabalho, dela participaram mais de quinhentos e trinta delegados de quarenta e nove países (excluindo a URSS). Nas cinqüenta e quatro reuniões realizadas pelas seções relacionadas a minerais, combustíveis e energia, água, florestas, terra, e vida selvagem e peixes, a conferência discutiu questões de recursos globais: a crescente pressão sobre os recursos; a 53 interdependência de recursos; uma análise das carências críticas de alimentos, florestas, animais e combustíveis; o desenvolvimento de novos recursos através de tecnologia aplicada; técnicas de recursos educacionais para países subdesenvolvidos; e o desenvolvimento integrado das bacias hidrográficas. Discutiu-se ciência, não política (embora questões de política tenham sido inevitavelmente mencionadas); a conferência não tinha poder para impor compromissos a governos e não fez recomendações a eles, nem tentou chegar a acordos internacionais. Pretendia apenas ser um fórum para o intercâmbio de idéias e experiências sobre técnicas de conservação e utilização de recursos.48 De qualquer modo não se poderia esperar que muito do que foi discutido fosse colocado em prática até que os recursos financeiros se encontrassem disponíveis, mas os princípios discutidos deveriam propiciar um arcabouço útil para ação futura. Um tema central da agenda era a adequação dos recursos naturais para atender a exigências crescentes; argumentou-se que o conhecimento científico poderia descobrir e criar novos recursos e ajudar a compreender melhor aqueles já em uso. Outro tema recorrente foi a exaustão perdulária dos recursos devido à guerra. Muitos dos temas e conclusões da UNSCCUR foram sem dúvida precoces, tanto que, embora tenham gerado muita discussão na época, duas décadas se passariam antes que se refletissem mais amplamente na política de conservação internacional. A maioria dos historiadores ambientais ignoram injustamente a UNSCCUR; na opinião de Nicholson, a mesma teve sucesso somente na medida em que "assinalou a inclusão da conservação na agenda das atividades intergovernamentais".49 Mas isso subestima a amplitude e capacidade de previsão de sua agenda, que não se repetiriam até a Conferência da Biosfera de 1968 e a Conferência de Estocolmo de 1972 (ver capítulo 5). Inquestionavelmente, a UNSCCUR foi o primeiro marco importante na ascensão do movimento ambientalista internacional. Embora a conferência simultânea da IUPN fosse intitulada lnternational Technical Conference on the Protection of Nature (ITC), esta discutiu também a conservação de recursos naturais renováveis. Observando, por exemplo, que as agências da ONU se estavam voltando para a assistência técnica a países menos desenvolvidos, e que tais projetos, "para serem efetivos, exigem a aplicação de princípios de ecologia humana”50, a IUPN resolveu recomendar a essas agências a promoção do estudo da ecologia humana. Participaram da ITC representantes de trinta e dois países e onze organizações internacionais, inclusive a FAO, OMS, ICBP, lCSU e a Organização dos Estados Americanos, e a conferência se concentrou na educação e na ecologia humana. Um total de 23 resoluções foram passadas, muitas indo além da proteção da natureza para serem surpreendentemente conservacionistas - afirmando, por exemplo, a necessidade de um estudo cuidadoso da ecologia humana; da promoção da educação para a conservação; da consideração do impacto ecológico de projetos de desenvolvimento de grande escala; do uso controlado de pesticidas ("deve ser dada mais atenção ao controle de [pesticidas] e métodos biológicos do ponto de vista da proteção do equilíbrio da natureza");51 da pesquisa detalhada quanto à situação da fauna e da flora ameaçadas; e da

cooperação entre a UNESCO e a FAO para a conservação dos recursos alimentares. Talvez a resolução de visão mais ampla tenha sido a nº 7, a qual sugeriu que a IUPN deveria investigar a possibilidade de promover, com os órgãos de auxílio ao desenvolvimento, a execução de levantamentos que detalhassem o impacto ecológico de projetos de desenvolvimento. Tal política não seria ativamente implementada por grupos ambientais e órgãos de auxílio senão depois de outros vinte anos ou mais. As resoluções que resultaram da ITC poderiam ter formado a base de uma organização que já de início fundamentasse suas atividades na relação entre desenvolvimento e meio ambiente. Na verdade, a promessa da ITC viria a se constituir num contraste marcante 54 com a realidade do interesse muito mais limitado na proteção da natureza que caracterizou a política da IUPN nos quinze anos subseqüentes. IUPN - PRIMEIROS ANOS A IUPN não foi produto de um movimento popular, mas sim criação de uns poucos entusiastas. Nicholson lembra que, até a 5ª. Assembléia Geral de Copenhague, em 1954, quando "cientistas" assumiram a administração, a União foi dirigi da por "indivíduos e grupos missionários emocionalmente inspirados" .52 Começou sua existência com um suprimento saudável de entusiasmo e dedicação, mas pouca coisa além disso. Era um órgão pequeno e exclusivo, preocupado com uma faixa estreita de interesses. Tinha pouca capacidade organizacional e sustentação financeira, poucos organismos ou comitês nacionais com os quais pudesse trabalhar, e muito poucas evidências científicas comprovadas sobre as quais pudesse basear uma agenda e planejar políticas. Ao realizar a ITC em separado, a entidade pode ter-se distanciado do sistema da ONU e talvez perdido uma oportunidade não apenas de incentivar a atividade de preservação dentro da ONU, mas de se beneficiar da influência política e dos recursos financeiros que um envolvimento mais íntimo com a ONU poderia ter trazido. Em sua 2ª Assembléia Geral de 1950, em Bruxelas, era evidente um traço de frustração nas palavras do secretário-geral Jean-Paul Harroy: "Não é irracional afirmar que a ONU deveria colocar a União no mesmo nível de seus principais organismos especializados e conceder-lhe colaboradores numerosos que dispusessem de créditos substanciais”.53 Sem dinheiro a IUPN não poderia patrocinar a pesquisa ou financiar a conservação e dificilmente teria condições de reunir o tipo de equipe profissional necessária para estabelecê-Ia como uma organização científica internacional. Nicholson é de opinião que a União era uma organização imaginativa que previu problemas tais como o efeito de químicos tóxicos e os problemas que provavelmente decorreriam das tentativas aceleradas de encontrar e desenvolver novos estoques de energia.54 Ainda assim, não conseguiu cumprir a promessa contida no preâmbulo da sua constituição, que definia a proteção da natureza como "a preservação de toda a comunidade biótica mundial ou do ambiente natural do homem, o qual inclui os recursos naturais renováveis da Terra dos quais é composto";55 optou, ao invés disso, por se dedicar quase que exclusivamente à proteção da natureza. Durante seu mandato como secretáriogeral (1948-1955), Jean-Paul Harroy "ouviu continuamente a União ser criticada como estando atrasada em relação a seu tempo" por causa de sua visão limitada.56 Poucos governos tinham mais do que um interesse passageiro na proteção da natureza; na GrãBretanha, recorda-se Nicholson, isso era considerado como "a excentricidade amigável de certas pessoas com quem era preciso ser indulgente”.57 Na Assembléia Geral de Caracas, em 1952, um grupo que incluía Vogt, Osborn, Coolidge e Harroy apresentou uma resolução, sugerindo que a IUPN solicitasse ao secretáriogeral da ONU a designação de um dos órgãos especializados para considerar o problema da população. Isso conduziu a um debate tão acirrado, que Charles Bernard (o presidente da IUPN) temeu pela estabilidade da União e pediu a retirada da resolução.58 (A resolução acabou por ser adotada na Assembléia Geral de 1954.) Dentre todas as limitações da IUPN, poucas eram maiores do que a pura falta de dados concretos. Registros esparsos e o trabalho independente e individual de cientistas haviam estabelecido há muito que algumas espécies estavam ameaçadas de extinção, mas freqüentemente a única indicação residia nos números em decréscimo; a origem da ameaça e a ação corretiva apropriada muitas vezes eram conjeturas. A ITC havia, contudo, lançado alguma luz sobre o estado do conhecimento existente, sendo imediatamente compilada 55

uma tentativa de lista de espécies ameaçadas. Os estados membros da IUPN foram incentivados a preparar listas nacionais de espécies ameaçadas, mas nenhum o fez até o final dos anos 60. O Survival Service foi criado como uma rede consultiva que ligava especialistas em diferentes países e o IUPN Bulletin, lançado em 1952, propiciou um foro para o intercâmbio de notícias e informações. Mas o Survival Service se encontrava diante do problema de encontrar pessoas e organizações qualificadas, capazes ou ao menos dispostas a fornecer informações satisfatórias e atualizadas. A falta de progresso na conservação de mamíferos levou a American Society of Mammalogists a desligar-se da IUPN em 1954. Uma injeção de fundos privados dos Estados Unidos em 1955 finalmente permitiu que a IUPN empreendesse pesquisas de campo. Um ecologista norte-americano, Lee Talbot,* foi contratado para realizar um levantamento, a fim de determinar a situação dos mamíferos ameaçados, notadamente aqueles na lista da IUPN. Ele viajou muito pela África, Ásia meridional e Oriente Médio e Próximo durante os anos de 195657. Seu levantamento não apenas acrescentou peso às fontes de informação da IUPN, mas foi imediatamente usado para educação e publicidade. O trabalho de Talbot, juntamente com outros levantamentos realizados durante o final dos anos 50, em cooperação com a Fauna Preservation Society, resultaram num quadro muito mais claro da situação e nas primeiras e hesitantes ações corretivas. As informações coletadas e classificadas durante os anos 50 - coordenadas pelo Survival Service - resultaram na publicação, em 1958, de uma lista de trinta e quatro espécies ameaçadas. Isso por sua vez levou à publicação, em 1960, do Red Data Book, um arquivo sob forma de fichário contendo cento e trinta e cinco espécies ameaçadas de mamíferos. O ICBP e a IUPN em conjunto prepararam uma lista adicional de aves ameaçadas. Ambas as listas cresceram durante a década de 60 e acabaram por formar a base da série atual de Red Data Books, a principal fonte de referência no que diz respeito à situação de espécies ameaçadas e em perigo. A conferência de Lake Success havia concluído que o número de espécies ameaçadas da fauna e da flora59 estava aumentando, mas as plantas foram praticamente ignoradas nos trabalhos iniciais da IUPN, assim como os mamíferos de menor porte, os répteis, anfíbios, insetos e moluscos. "Fauna", na realidade, referia-se apenas aos mamíferos de maior porte (como também mais visíveis e populares). O Survival Service Comission Threatened Plants Committee foi estabelecido somente em 1974, e um Red Data Book de plantas foi finalmente publicado em 1978. Boardman acredita que isso refletia não tanto uma falta de consciência da importância ecológica das plantas, mas sim as dificuldades envolvidas na listagem e avaliação das ameaças às milhares de espécies em pauta.60 Os mamíferos e pássaros eram mais visíveis, as ameaças que enfrentavam mais fáceis de identificar e a ação corretiva mais prontamente sugerida. Nicholson acredita que muito disso pode ser atribuído também a um acidente histórico;61 a ornitologia havia entrado numa fase de crescimento dinâmico nos anos 20 e por isso tendeu a eclipsar as outras ciências por algum tempo. A botânica estava simplesmente num período de recessão de interesse depois da guerra. A segunda das principais redes da IUPN, além do Survival Service, era a Commission on Ecology. Foi criada em 1954, sob a presidência do ecologista americano Edward Graham, para coordenar a pesquisa ecológica e promover a cooperação entre os ecologistas. Em 1956 a comissão havia concluído que sua prioridade era a pesquisa relacionada às condições bióticas que regiam certos tipos de "paisagens", o estudo das influências humanas e o melhor uso a longo prazo dessas paisagens. Houve sugestões iniciais no sentido de que as plantas só poderiam ser protegidas se os hábitats fossem protegidos; em
* Lee Merriam Talbot (nascido em 1930), um zoólogo e ecologista, foi o primeiro ecologista do quadro da IUCN. Ele entrou para o CEQ em 1970 como cientista de alto escalão. Em 1978, tomou-se diretor de conservação do World Wildlife Fund, e de 1980 a 1983 foi diretor-geral da IUCN.

56 1980 os Red Data Books confirmaram que 67% de todas as espécies ameaça das estavam em tal situação devido à perda ou contaminação de seus hábitats.62 A inércia da IUPN em relação ao problema da destruição dos hábitats já havia causado algum descontentamento inicialmente, sobretudo nos Estados Unidos. No Congresso Zoológico Internacional de Londres, em 1958, Coolidge notou "a maior consciência da importância de preservar os hábitats ao invés de espécies específicas".63 A importância de conservar ecossistemas representativos atraía agora maior atenção. Entre 1948 e 1956, por influência das advertências da Commission on Ecology de que as pessoas deveriam ter consciência das conseqüências ecológicas de suas atividades, os interesses da IUPN gradualmente se ampliaram para abranger a conservação. Isso foi confumado em 1956 pela decisão da União

de mudar seu nome (principalmente devido à influência americana)64 para lnternational Union for Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN). A nova ênfase na conservação de ecossistemas representativos começou por focalizar as wetlands na virada da década. Em 1961 a IUCN lançou o projeto MAR (um nome derivado das três letras comuns da palavra "marsh"* em diferentes línguas) para destacar as ameaças às wetlands, e uma conferência (conjuntamente organizada pela IUCN, pelo ICBP e pelo International Waterfowl Research Bureau [IWRBD foi realizada na região francesa de Camargue em novembro de 1962. O segundo foco de atenção recaiu sobre os parques nacionais. Naquele momento, os parques já vinham se desenvolvendo em isolamento nacional havia noventa anos, com os estados respondendo individualmente às necessidades domésticas e fazendo pouca referência aos desenvolvimentos internacionais. A crença de que era necessária uma maior coordenação e uma preocupação com o fato de que alguns países não haviam nem mesmo estabelecido seus parques nacionais estiveram por trás da Primeira Conferência Mundial sobre parques nacionais, patrocinada pela IUCN e realizada em Seattle, estado de Washington, em julho de 1962. O WORLD WILDLIFE FUND Dentre todos os problemas que assolaram a IUCN durante os anos 50, o mais grave era a falta de dinheiro; a União mal conseguia se sustentar, muito menos financiar projetos externos. Alguns fundos haviam vindo inicialmente da UNESCO, mas isso funcionava irregularmente e foi se tornando cada vez mais claro que era necessária uma estruturà organizada de levantamento de fundos. A idéia de um órgão separado para levantar fundos não pode ser inteiramente creditada a qualquer indivíduo isolado; tendo em vista o histórico de problemas financeiros da IUCN, a mesma deve ter estado presente com intensidade em mais que uma única mente durante a década de 1950. Mas Julian Huxley e Max Nicholson foram os que começaram a agir nesse sentido. Nicholson - então diretor-geral da Conservadoria da Natureza da Grã-Bretanha - lembra que, embora a Conservadoria da Natureza tivesse, dentro do Reino Unido, poderes estatutários adequados e uma renda pequena mas crescente, havia preocupação com a "ausência de um movimento de apoio forte para dividir as obrigações e propiciar força política. [A] ( ... ) ameaça (à natureza) era de alcance mundial ( ... ) Seria moralmente obrigatório e também uma fonte de maior força se usássemos a nossa base britânica para construir uma rede mundial efetiva".65 Em maio de 1961, a IUCN divulgou o Manifesto Morges, uma peça de retórica que serviu em parte para afirmar a crença da IUCN de que a capacidade e técnica necessárias para enfrentar as ameaças à vida selvagem existiam, mas não o "apoio e recursos", e que a necessidade mais essencial de todas era o dinheiro.66 Após uma visita à África Oriental, em 1960, Julian Huxley escreveu três artigos para o
* Pântano, alagadiço, charco.

57 semanário londrino The Observer sobre as crescentes ameaças à vida selvagem na África, particularmente as originadas pela expansão do cultivo, maior número de cabeças de gado, desmatamento, excesso de pastagem e a transformação da terra num semideserto. Huxley mencionou a idéia de levantamento de fundos juntamente com Max Nicholson, cujo envolvimento com a IUCN durante os anos 50 o havia convencido de que a União era incapaz de administrar eficientemente seus próprios negócios (sobretudo os financeiros), tendo-lhe ocorrido a idéia de um órgão gêmeo da IUCN que fosse responsável pelo levantamento de fundos. A prioridade desse órgão seria "salvar" a IUCN.67 Nicholson propôs um novo órgão que consistiria de um consórcio registrado na Suíça, um grupo de operações responsável pelo estabelecimento de prioridades e alocação de fundos, um clube de mantenedores constituído de membros ricos e diversos tipos de apelos nacionais. O conceito foi discutido na conferência de Arusha (ver adiante) em setembro e o World Wildlife Fund (WWF) foi lançado em Londres um pouco depois, naquele mesmo mês. Em dezembro foram lançados apelos nacionais nos Estados Unidos e na Suíça, seguidos por outros na Holanda em 1962, e na Alemanha e na Áustria em 1963. No conjunto, vinte apelos nacionais foram realizados durante os primeiros dez anos de operação. Segundo Harold Coolidge, o WWF "foi fundado sem dúvida com O propósito de levantar fundos para financiar o orçamento da IUCN",68 mas isto é questionável. O WWF rapidamente enveredou por um caminho paralelo ao da IUCN, mais do que auxiliar. "Ao invés de cuidar primeiro de nós", lembrava Coolidge, o "[WWF] declarava que éramos a principal prioridade, mas que tinham que cuidar de suas

próprias despesas administrativas e, ao mesmo tempo, tinham também certos projetos que queriam custear”.69 Isso causava problemas, com a IUCN constantemente em déficit, e o WWF obtendo regularmente um bom desempenho financeiro e acabando por expandir-se mais do que a IUCN.70 (Em meados da década de 80, a artificialidade de muitas das divisões entre as duas organizações levou a uma tentativa de fundir as instalações que compartilhavam na Suíça para criar um "Centro Mundial de Conservação".) O WWF custeava projetos em cinco categorias: espécies individuais, áreas virgens, apoio a organizações existentes, educação para a conservação e questões "variadas" de conservação. O WWF também fez representações diretas a governos. Em 1965 fez representações ao governo de Uganda para que não construísse uma usina de energia hidrelétrica no Parque Nacional de Murchison FalIs. Em 1968 O governo tanzaniano foi persuadido a não construir um novo hotel na cratera de Ngorongoro. Foram feitas representações a diversos países para criar parques nacionais específicos ou para lançar planos nacionais de conservação. Em 1967 o WWF estava gastando mais de 370 mil dólares por ano em conservação e já havia custeado 183 projetos, mas existiam desequilíbrios acentuados no modo pelo qual o dinheiro era gasto. Embora a maioria dos projetos (56%) estivessem na África e na Ásia, os mesmos atraíam apenas 26% dos fundos. Inversamente, a Europa e a América do Norte, com 27% dos projetos, atraíam 52% dos fundos. Isso podia ser explicado (alegava o WWF) pelo fato de que a maioria dos projetos europeus e norte-americanos envolviam a compra ou arrendamento de terras para o estabelecimento de novas áreas protegidas a um custo relativamente alto. Que a África tivesse mais projetos e atraísse mais fundos do que todo o resto do Terceiro Mundo combinado explicava-se pelo fato de que simplesmente um maior número de requerimentos havia sido submetido.71 Em 1969 a proporção de dinheiro pago a projetos europeus e norte-americanos havia aumentado ainda mais, para quase dois terços dos gastos totais, tendo a África, Ásia e América Latina combinadas recebido somente 15%. Talvez, admitia o WWF, essas não fossem as percentagens que "os fundadores do WWF tinham em mente quando de sua criação, [mas] está claro que, se o WWF pretende levantar fundos consideráveis no futuro, tem que mostrar resultados concretos nos países nos quais o dinheiro está disponível agora".72 As proporções mudariam significativamente durante os oito anos seguintes: a 58 proporção de fundos gastos na Europa caiu de 50% em 1971 para 10% em 1977; em 1969 a América do Norte recebeu 40% dos fundos, e em 1975 apenas 0,5%; os fundos para a África flutuaram amplamente, enquanto a proporção dos gastos na Ásia subiu de 6,5% em 1968 para quase 20% em 1975. Quanto à IUCN, apenas 12,8% dos recursos do WWF foram-lhe diretamente destinados pela União entre 1962 e 1967, e em 1969 a proporção havia caído para 9%.73 Esses números, porém, não incluíam os fundos dados a projetos aprovados pela IUCN. CONSERVAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E O PROJETO ESPECIAL AFRICANO À medida que a IUCN/lUPN atravessava penosamente a sua primeira década, ia tomando consciência de o quanto suas políticas preservacionistas eram inadequadas como resposta às exigências do pós-guerra por recursos e desenvolvimento; a conservação claramente tinha que ser buscada como uma parte integrante do desenvolvimento. Essa noção havia transparecido nas resoluções fundamentais acordadas na ITC de Lake Success. A resolução nª 1 relatava a importância de compreender as implicações da assistência técnica da ONU a países menos desenvolvidos em termos de ecologia humana; a nº 3 estabelecia que "as organizações preocupadas com a proteção e conservação da natureza e aquelas preocupadas com a utilização de recursos devem colaborar na maior medida possível"; a nº 7 observava que os grandes projetos de desenvolvimento poderiam ter efeitos imprevistos sérios sobre as condições naturais, e que a IUPN deveria promover levantamentos ecológicos detalhados de seu impacto. O interesse europeu pelo meio ambiente africano já havia produzido as convenções de 1900 e 1933, ambas as quais resguardavam a natureza em áreas protegidas. Enquanto os administradores coloniais haviam estado à vontade para traçar e impor - para melhor ou para pior - seus próprios conceitos de proteção da vida selvagem, sem muita referência às necessidades ou desejos dos povos locais, isso claramente não seria mais possível na era pós-colonial. Quando a África emergiu do colonialismo, os conservacionistas europeus

sentiram que era essencial incentivar os governos africanos a se associarem publicamente à conservação e a concordarem em princípio em reconciliar a conservação com os planos de desenvolvimento nacionais. Por iniciativa dos belgas, a Terceira Conferência Internacional para a Proteção da Fauna e da Flora da África foi realizada em Bukavu, no Congo Belga, em 1953. Pretendia discutir as questões dos recursos africanos e uma possível revisão da convenção de 1933 para torná-Ia "atualizada e de acordo com conceitos conservacionistas modernos”.74 No que equivalia a um afastamento tangencial do pensamento anterior, os delegados concordaram que a proteção da natureza na África envolvia muito mais do que as provisões para a proteção da fauna e da flora da convenção de 1933. O problema vital de proteger o meio ambiente humano na África, eles observaram, não poderia ser resolvido "somente com a criação de reservas naturais e com a proteção de certas espécies"; os governos deveriam considerar uma nova convenção de bases mais amplas, planejada para conservar a vegetação natural, o solo, a água e os recursos naturais, "basicamente no interesse das populações da África".75 Na Assembléia Geral de 1956, a IUCN observou que o "planejamento de paisagens baseado na pesquisa ecológica" deveria ser o ponto de partida para o desenvolvimento nos países menos favorecidos." Na sua Assembléia Geral de 1960, a IUCN concluiu que a conservação era uma prioridade particularmente urgente na África e que a ajuda externa "inclinava-se a desconsiderar a conservação e o valor da vida selvagem e do hábitat como um patrimônio econômico, científico e cultural permanente".77 A resposta da IUCN foi 59 lançar o African Special Project (ASP), numa tentativa de in,centivar'os novos líderes africanos a se identificarem publicamente com a conservação e de convencê-Ios das "virtudes de viver da renda de seus recursos naturais e não do capital".78 O ASP teve três estágios. No primeiro, o especialista em manejo de florestas da FAO para a África, Gerald Watterson, emprestado à IUCN como secretário-geral, viajou por dezesseis países da África e preparou relatórios sobre a conservação dos recursos naturais em cada um deles. O Estágio II foi o Simpósio Pan-Africano sobre a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais nos Estados Africanos Modernos (ou Conferência de Arusha), realizado em Arusha, Tanganica, em setembro de 1961, três meses antes da independência daquele país. Contando com a participação de representantes de 27 países (21 da África) e copatrocinado pela FAO e pela UNESCO, o evento foi notável por ser a primeira ocasião em que os próprios africanos estiveram plenamente representados num foro para a discussão de seus próprios recursos naturais. (As conferências de 1900 e 1933 haviam incluído apenas representantes das potências coloniais européias, e por isso haviam refletido a sua perspectiva particular.) A Conferência de Arusha, ao tentar trazer estados recentemente independentes e quase independentes para o debate, abriu a discussão sobre as necessidades dos povos locais, e suas atitudes para com a natureza. */79 Abrindo a conferência, sir Richard Turnbull, o governador de Tanganica, delineou três questões para consideração: que a natureza e a vida selvagem eram fontes valiosas de receita e por isso deveriam ser exploradas racionalmente onde esta fosse a melhor forma de uso do solo, que o apoio da opinião pública era essencial e que era necessária ajuda internacional para que a vida selvagem africana fosse preservada.80 O jornalista John Hillaby, destacando a "história marcada por contrastes" da IUCN, assinalava, na semana anterior à conferência, que a União parecia naquele momento ter sido "inteiramente revitalizada" .81 Havia uma ênfase nítida, durante as discussões na conferência, na utilização da vida selvagem, seja para alimentação ou recreação. Tornou-se clara a idéia de que "somente pela utilização planejada da vida selvagem como um recurso natural renovável ( ... ) podem sua conservação e desenvolvimento ser economicamente justificados em competição com a agricultura, a pecuária e outras formas de uso do solo".82 O valor da vida selvagem como um recurso não era de forma nenhuma incompatível com as exigências da agricultura e do manejo de florestas, nem com o desenvolvimento econômico e social geral de um país. Um especialista em florestas sudanês, Sayed Kamil Shawki, argumentou que os recursos naturais eram "comparativamente mais fundamentais para o desenvolvimento econômico dos países subdesenvolvidos do que o eram para os estados mais altamente desenvolvidos".83 A administração da vida selvagem fora e nas adjacências dos parques nacionais dependia das necessidades, modo de vida e cooperação das comunidades locais e de seu máximo envolvimento nos projetos de administração. Os vínculos africanos tradicionais com a natureza, que haviam sido solapados por modelos europeus de desenvolvimento econômico do tipo que havia causado a destruição da natureza na Europa, precisavam ser

revitalizados, Foi levantado para debate o tema de que a preservação por si só não era a resposta e que era necessária uma administração racional baseada em objetivos claros. Entre as principais recomendações da conferência: as políticas de uso do solo deveriam ser desenvolvidas com o objetivo de evitar a ocupação intensiva de terras inadequadas por agricultores e criadores, maior atenção deveria ser dada à economia dos programas de desenvolvimento de recursos e os governos africanos deveriam traçar políticas para a vida selvagem. A IUCN
* A IUCN, não obstante, vinha se preocupando com a proporção favorável a líderes europeus na discussão; dizia-se que a dificuldade estava em encontrar palestrantes africanos de destaque, o que, por sua vez, era visto como um reflexo das políticas educacionais coloniais.79

60 se ofereceu para ajudar os governos a integrar a administração da vida selvagem aos planos de desenvolvimento do uso do solo. O Estágio m do ASP deveria originalmente ter incluído a criação de uma unidade especializada dentro da IUCN para oferecer serviços de consultoria a governos africanos; na realidade, isso tomou a forma de uma excursão de dois especialistas em uso do solo (Thane Riney e Peter Hill) pelos estados africanos durante 1962-1963, com o propósito de orientar os governos na integração do uso dos recursos com o desenvolvimento econômico, Sua viagem por países sahelianos e da África ocidental no início de 1962 revelou uma "necessidade urgente de um serviço internacional para enfatizar a importância de uma integração íntima no desenvolvimento dos ( ... ) recursos naturais renováveis, de um planejamento global do uso do solo e da introdução de um pensamento ecológico em tal planejamento".84 Havia também a clara necessidade de uma convenção que comprometesse os estados africanos com a conservação da natureza, como fora sugerido em Bukavu. A FAO havia, de fato, criado um grupo de trabalho em 1960 para fazer o esboço de tal convenção. Duas resoluções traça das na conferência dos parques nacionais de Seattle se referiam à importância da conservação nos programas de desenvolvimento e à necessidade de que os órgãos de auxílio ao desenvolvimento incorporassem considerações ambientais a seu planejamento. * Em dezembro de 1962 a ONU adotou uma resolução apoiando a argumentação de que os recursos naturais eram vitais para o desenvolvimento econômico e que o desenvolvimento econômico nos países menos desenvolvidos poderia pôr em risco os recursos naturais se tivesse lugar "sem a devida atenção para com sua conservação e recuperação”.85 Em sua sessão de 1963 a Comissão para a Cooperação Técnica na África aprovou uma carta preliminar, endossada pela Assembléia Geral da IUCN de 1963, que foi realizada em Nairobi (pela primeira vez na África e apenas a segunda vez fora da Europa ou da América do Norte), a qual se concentrou nos problemas dos ambientes tropicais. Os trabalhos técnicos anteriores à conferência e boa parte da discussão concentraram-se no equilíbrio entre a população e meio ambiente, e nos efeitos da pressão populacional sobre a terra. A IUCN concluiu que, "se as considerações puramente políticas que têm dominado o cenário africano nos últimos anos puderem ser agora subordinadas à consideração mais precisa das necessidades humanas e animais básicas - as quais são geralmente complementares -, podem ser preparados planos que, se implementados de maneira realista, conduzirão a um nível de vida razoável e cada vez melhor para os povos africanos".86 Falando na assembléia, o secretário de estado para o Interior Stewart Udall, dos EUA, disse que o mundo estava precisando de uma ética de conservação: "A expansão das populações põe em risco a idéia da conservação e aumenta a obsessão da exploração excessiva. Isto é simplesmente uma política de 'pilhar agora e pagar depois'. A expansão das populações em toda parte torna ainda mais necessária uma política de conservação sábia. A conservação não é um luxo; é uma necessidade"87 Falando no Congresso do WWF de 1967, em Amsterdam, Russell Train, então presidente da Conservation Foundation de Washington, D.C., advertiu quanto à tendência entre os conservacionistas de pensar o homem e a natureza como conceitos separados e mutuamente excludentes; esse enfoque continha o seu próprio fracasso. Isso não o impedia de sentir-se encorajado a observar que os conservacionistas, não obstante, estavam compreendendo cada vez mais que os objetivos de conservação de longo prazo "não podem ser implementados com êxito isoladamente em relação a outros objetivos nacionais,
* O equivalente asiático do ASP, o South-East Asia Project, foi lançado em 1964. Lee Talbot empreendeu um trabalho de campo durante 1964-65, e a Conferência sobre a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais no Sudeste Asiático Tropical foi realizada em Bangkok de 29 de novembro a 4 de dezembro de 1965. Um equivalente latino-americano, a Conferência Latino-

Americana sobre Conservação de Recursos Naturais Renováveis, teve lugar em San Cartos de Bariloche, Argentina, de 27 de março a 2 de abril de 1968.

61 mas podem ser melhor atingidos como elementos integrantes de programas nacionais globais de desenvolvimento”. 88 Entre 1963 e 1967 a FAO e a IUCN trabalharam em propostas concorrentes para a pretendida convenção africana, tendo a F AO prosseguido de forma independente na crença de que a proposta da IUCN dava muito pouca atenção à vida selvagem como um recurso a ser explorado e que a FAO tinha mais experiência do que a IUCN na preparação de convenções." Mas foi a proposta da IUCN que acabou por ser aceita pela Organização da Unidade Africana COUA), em 1967, formando assim a base da Convenção Africana para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. Adotada pelos 33 estados membros da OUA em Argel, em setembro de 1968, a convenção entrou em vigor em 1969. Sua filosofia fundava-se na "conservação, utilização e desenvolvimento dos recursos do solo, da água, da flora e da fauna, de acordo com princípios científicos e com a devida consideração pelos melhores interesses do povo”.90 A ênfase alterada no pensamento da IUCN foi confirmada na sua 10ª. Assembléia Geral de Nova Delhi, em 1969, quando ficou acordado que, depois de 21 anos de uma abordagem de "corpo de bombeiros" para sanar problemas de conservação isolados à medida que surgiam, havia chegado a hora de uma abordagem baseada na prevenção e na solução." A assembléia definia a conservação como o "gerenciamento (o qual inclui levantamento, pesquisa, administração, preservação, utilização ... ) do ar, da água, do solo, dos minerais e das espécies vivas, inclusive o homem, para atingir a mais alta qualidade de vida sustentável”* /92 Mesmo enquanto a IUCN e o WWF desenvolviam uma definição mais ampla e universalmente útil de conservação, todavia, o movimento de conservação já estava sendo rapidamente ultrapassado por um novo movimento, independente e muito mais ativista, preocupado com questões ambientais muito mais amplas. Em algum momento no final dos anos 50 e começo dos anos 60 as circunstâncias conspiraram para dar surgimento a um novo movimento de protesto, baseado nas preocupações com o estado do ambiente humano e com as atitudes humanas em relação à Terra. A natureza e os recursos naturais deixaram de ser a única preocupação; o novo movimento abrangia tudo, desde a superpopulação e a poluição aos custos da tecnologia e do crescimento econômico. O Novo Ambientalismo ia além do mundo natural; questionava a própria essência do capitalismo.
* Esta definição apareceu quase inalterada no preâmbulo da World Conservation Strategy em 1980.

62 FOLHA EM BRANCO 63

TRÊS A Revolução Ambientalista (1962-1970)
No final do verão de 1962 um novo livro de Rachei Carson começou a ser vendido nas livrarias americanas. Apesar de seu tema aparentemente impenetrável, pesticidas e inseticidas sintéticos, Silent Spring tocou num ponto sensível de seus leitores, vendeu meio milhão de cópias encadernadas, permaneceu na lista dos mais vendidos do New York Times por 31 semanas,1 e incitou a criação de um grupo consultivo presidencial sobre pesticidas. Em abril de 1970 trezentos mil americanos - talvez mais - participaram do Dia da Terra, a maior manifestação ambientalista da história. Reportagens de capa e manchetes de jornais proclamaram o advento do ambientalismo como uma questão pública fundamental. Para a revista Time o meio ambiente era o tema dos anos 70. 2 Para a Life tratava-se de um movimento que estava destinado a dominar a nova década.3 Nesse ínterim já havia começado o trabalho para uma das maiores conferências das Nações Unidas jamais realizada, a qual reuniu representantes de 113 nações em Estocolmo, para discutir os problemas do meio ambiente global.

Os oito anos intermediários haviam testemunhado a transformação do ambientalismo; houve uma revolução ambientalista, mais notadamente nos Estados Unidos. Se em 1962 havia apreensão sobre o estado do meio ambiente, por volta de 1970 havia uma insistência expressiva - freqüentemente estridente - em mudanças para uma sociedade global aparentemente propensa à autodestruição, As preocupações de uns poucos cientistas, administradores e grupos conservacionistas floresceram num fervente movimento de massas que varreu o mundo industrializado. Muitas das velhas organizações de proteção e conservação estabelecidas, temporariamente atoladas na apatia dos anos 50, foram ultrapassadas pelos acontecimentos e deixadas para trás para se recuperarem como pudessem. O movimento transformado - o Novo Ambientalismo - era mais dinâmico, mais sensível, tinha base mais ampla e ganhou muito mais apoio público. Algumas das organizações mais antigas foram-se com a maré, mas uma onda de novas organizações emergiu, */4 diferindo de suas precursoras em ao menos dois aspectos principais. Primeiramente, se a proteção da natureza havia sido uma cruzada moral centrada no ambiente não humano e o conservacionismo um movimento utilitário centrado na administração racional dos recursos naturais, o ambientalismo centrou-se na humanidade e em seus ambientes. Para os protecionistas a questão era a vida selvagem e o hábitat; para o
* Poucos dentre os novos grupos tinham um grande número de membros; um levantamento da EPA revelou que 72% dos grupos tinham menos de quinhentos membros e 45% tinham menos de cem.4

64 Novo Ambientalismo a própria sobrevivência humana estava em jogo. Havia uma concepção mais ampla do lugar ocupado pelo homem na biosfera, uma compreensão mais sofisticada dessa relação e um tom de crise maior e mais disseminado do que o ocorrido quando dos primeiros movimentos de conservação.5 Nash argumenta que o medo é subjacente ao crescimento do interesse americano pelo meio ambiente - medo não do esgotamento dos recursos e da perda de sua posição na política mundial, nem tampouco da feiúra do mundo, mas medo quanto ao futuro da vida e à vulnerabilidade do homem; o homem "foi redescoberto como parte da natureza",6 Os americanos não estavam limitando sua percepção somente aos "grandes outdoors", mas aplicando sua apreciação moral e estética da natureza ao meio ambiente como um todo.7 Em segundo lugar, o Novo Ambientalismo era ativista e político. Muitos dentre os grupos preservacionistas mais antigos perseguiam objetivos essencialmente filantrópicos, enquanto os conservacionistas baseavam seus argumentos na ciência econômica; em contraste, os novos ambientalistas buscavam um impacto mais diretamente político. Sua mensagem era de que a catástrofe ambiental só poderia ser evitada através de mudanças fundamentais nos valores e instituições das sociedades industriais.8 O Novo Ambientalismo pode ser visto como parte de uma transformação social mais ampla que ocorria então na sociedade ocidental. O novo movimento assumia posições que eram tanto reativas quanto antiestablishment. Seus líderes reagiam mais aos acontecimentos e desafios do que à simples evidência científica. Atribuía-se menos importância à certeza das conseqüências da má administração ambiental do que à evidência além de qualquer dúvida razoável. O Novo Ambientalismo era um movimento político e social, e as questões que levantou eram, em última análise, universais. Como seus precursores, o Novo Ambientalismo não era um fenômeno organizado e homogêneo, mas um acúmulo de organizações e indivíduos que tinham motivações e tendências variadas, com objetivos aproximadamente semelhantes, mas freqüentes diferenças de método. Sandbach faz uma distinção entre a velha forma ecológica/científica do ambientalismo e sua forma antiestablishment mais recente.9 A primeira ganhou corpo nos escritos de George Perkins Marsh e no movimento conservacionista progressista de Roosevelt e Pinchot. Encarava a sustentação de um meio ambiente físico e biológico viável como a prioridade; tentava influenciar as políticas do governo apresentando alegações válidas e cientificamente fundamentadas. A segunda, representada pelo Novo Ambientalismo, era mais anarquista, menos interessada na análise dos sistemas e mais pelo humanismo, Mas havia muitas outras maneiras de categorizar o movimento; o mesmo continha elementos de anarquismo, evangelismo, reforma social, reforma política e através de sua relação com a ecologia - ciência. Sem dúvida, em seus primeiros anos foi freqüentemente chamado de movimento ecológico; um ecologista profissional disse a uma comissão do congresso americano, em 1970, que a "ecologia não é mais uma disciplina científica - é uma atitude de espírito".10 Para Michael McCloskey, diretor executivo do Sierra Club, os componentes do novo movimento nos Estados Unidos se expandiram além das antigas alianças para incluir "o movimento de consumidores, inclusive os empresários reformistas; o movimento pela responsabilidade científica; um movimento

revitalizado pela saúde pública; grupos favoráveis ao controle da natalidade e à estabilização populacional; pacifistas e aqueles que sublinham a importância da democracia participativa, na qual as decisões são tomadas consensualmente; jovens que enfatizam a ação direta; e um movimento difuso em busca de um novo foco para a política".11 Por que o Novo Ambientalismo surgiu, quando surgiu e por que a transformação ocorreu tão repentina e completamente? Explicações claras e fáceis de compreender são sempre tentadoras, mas as revoluções raramente são simples. O movimento ambientalista foi um produto de forças tanto internas quanto externas a seus objetivos imediatos. Os elementos de mudança já vinham emergindo muito antes dos anos 60; quando finalmente se entrecruzaram uns com os outros e com fatores sócio-políticos mais amplos, o resultado foi uma força nova no sentido da mudança social e política. Seis fatores em particular 65 parecem ter desempenhado um papel na mudança: os efeitos da afluência, a era dos testes atômicos, o livro Silent Spring, uma série de desastres ambientais bastante divulgados, avanços nos conhecimentos científicos e a influência de outros movimentos sociais. O NOVO AMBIENTALISMO E A SOCIEDADE AFLUENTE O crescimento repentino de novos grupos ambientalistas na Grã-Bretanha, no começo dos anos 70, foi caracterizado como parte de um padrão de ocorrências semelhantes (na década de 1890, no final dos anos 20 e no final dos anos 50) discerníveis em fases similares do ciclo econômico mundial; tal crescimento ocorreu, em cada caso, perto do final de períodos de expansão econômica sustentada.12 Daí o aumento simultâneo do interesse ambiental em todos os países capitalistas industrializados, quando mais e mais pessoas passaram a levar em conta os custos externos crescentes do crescimento econômico descontrolado e buscaram reavaliar valores não materiais.13 O'Riordan sugere que os movimentos conservacionistas chegam ao ápice em tempos de ansiedade econômica, não numa tentativa de tornar mais lento o crescimento econômico, mas "para assegurar o progresso contínuo do bem-estar econômico e uma distribuição razoável dos benefícios do crescimento entre a população como um todo ( ... ) talvez a ameaça de escassez seja necessária para fazer com que uma população gananciosa, que desfruta do hedonismo da afluência, se lembre da necessidade da eficiência e da frugalidade" .14 O surgimento do Novo Ambientalismo foi parte de um processo amplo e cumulativo de mudança social e política. A Crise de Suez, a Guerra Fria, a ameaça de guerra nuclear e as injustiças da desigualdade racial geraram interesse público e mesmo protestos de massa no fmal dos anos 50. Concomitantemente, um crescimento econômico constante e prolongado ocorreu em todas as economias industrializadas. A justaposição dessas duas tendências fez, em última análise, crescer a frustração com os governos e a crença de que somente a ação direta poderia trazer à atenção do establishment político as questões externas ao paradigma político convencional.15 Isso poderia ser estendido aos anos 60, à visão de que a degradação ambiental significava uma ameaça tão grave para a segurança material quanto a guerra; daí os muitos paralelos entre o ambientalismo e o movimento contra a guerra. Ambos eram movimentos pela reforma social e ambos deviam muito de seu apoio aos ativistas jovens e de bom nível educacional. Nos Estados Unidos os anos 50 foram tempos de calma, equanimidade, consenso e afluência aparentes. As grandes empresas restabeleceram a reputação que tinham perdido na Depressão. Para os americanos com nível adequado de renda foi um período de conforto material e tempo de lazer crescente. Comentando o enfraquecimento do conservacionismo americano em 1952, Steven Raushenbush observou que "a função última de todas as matérias-primas do mundo é sustentar o alto padrão de vida americano" e que a conservação corria perigo de tornar-se uma causa perdida." Em meados da década os Estados Unidos, com 6% da população mundial, produziam e consumiam mais do que um terço dos bens e serviços produzidos no mundo.17 Famílias grandes eram consideradas desejáveis e a taxa de mortalidade estava declinando, portanto a população crescia rapidamente. Os intelectuais se afastaram da crítica social, a classe média tinha fé na capacidade do governo - no contexto do boom econômico - de dar assistência a problemas como poluição, condições de vida nos guetos e desemprego. Também os britânicos desfrutaram alguns dos prazeres do hedonismo da afluência. Mesmo que o boom dos anos de Macmillan tenha sido apenas breve e superficial, pareceu que os britânicos nunca tinham estado tão bem. A economia keynesiana parecia ter

resolvido o problema do pleno emprego e crescimento econômico constante, e os jovens tinham mais renda do que jamais haviam tido antes, o que lhes dava independência crescente. Todavia a satisfação e o conformismo do final dos anos 50 eram visivelmente superficiais, pois havia na realidade um descontentamento profundo e latente, particularmente entre 66 os jovens. Embora os Estados Unidos parecessem calmos e equânimes nos anos 50, e os anos 60, em contraste, fossem marcados pelo ativismo e por mudanças na política e na sociedade, as lutas que trouxeram as reformas dos anos 60 já estavam emergindo nos anos 50.18 A prosperidade do pós-guerra obscureceu a realidade mais significativa de desigualdade econômica; ainda que a parcela da renda nacional recebida pelos 5% mais ricos da população americana tenha caído durante a Depressão e os anos de guerra, a mesma permaneceu constante em cerca de 21 % daí em diante.19 Do mesmo modo, os 20% mais pobres recebiam constantes 5% da renda nacional. Para os trabalhadores industriais a vida tomou-se estúpida e mecânica, com pouco lugar para orgulho pessoal nos bens produzidos em massa e a perspectiva de automação provocou um sentimento de insegurança. Na afluência dos anos 50, os jovens americanos de classe média gozavam de confortos domésticos e educação prolongada, e eram geralmente conservadores e conformistas. Mas tomaram-se cada vez mais críticos da complacência e aparente indiferença de sua sociedade. O tempo de lazer aumentado e uma maior prosperidade ajudaram a deslocar a atenção da acumulação e da fruição de segurança material, e o próprio conforto da existência de classe média serviu para atrair a atenção para a desigualdade social. Os jovens estavam alarmados com a perspectiva de conflito nuclear que parecia ser concomitante à criação do que Eisenhower descreveu como o "complexo militar industrial" - o acúmulo de poder pelas elites militares e empresariais. Os defeitos da sociedade afluente tomaram-se cada vez mais evidentes no começo dos anos 60, em parte através de suas conseqüências ambientais. Em 1958 John Kenneth Galbraith, então professor de economia em Harvard, publicou The Affluent Society. Motivado em parte pela reativação do mercado no pós-guerra e pela crença de que todas as doenças sociais poderiam ser curadas com mais produção, como também pela preocupação com o notável grau de pobreza e privação que persistia num país que gozava de prosperidade e riqueza aparentes, ele criticava o consumo materialista. A produção aumentada não era o teste final da realização social, advertia.20 Downs sugere que a afluência trouxe consigo um crescimento marcante nas aspirações e padrões dos americanos relativamente a como deveria ser o meio ambiente. A insatisfação crescente com o "sistema" nos Estados Unidos não resultou principalmente de um desempenho pior desse sistema, argumenta. Ao invés disso, originou-se de uma rápida escalada nas aspirações das pessoas quanto a como deve ser o desempenho do sistema.21 O ADVENTO DA ERA ATÔMICA A primeira questão ambiental verdadeiramente global da era do pós-guerra - e talvez a primeira até então foi o perigo de precipitação nuclear provocada por testes. Depois da primeira explosão de uma bomba atômica pela União Soviética em 1949, o desenvolvimento dos artefatos nucleares entrou numa fase nova e competitiva. Os Estados Unidos lançaram seu programa de testes em 1951, seguidos pela Grã-Bretanha e pela URSS em 1953, e pela França em 1960. Os primeiros testes britânicos foram realizados na Austrália e no Pacífico, o primeiro artefato tendo sido detonado em uma fragata britânica perto da costa australiana, em outubro de 1952.22 Onze outros testes importantes foram realizados ali e no interior do sul da Austrália até 1957, e outros mais entre 1956 e 1958, nas cercanias da ilha Christmas. O segredo oficial que cercava os testes encorajou a circulação de rumores alarmantes, o que gerou uma forte oposição local.* A França começou seus testes
* A retomada do interesse pela questão no final da década de 1970 resultou na criação de uma Comissão Real, que apresentou relatório em dezembro de 1985 revelando que os testes haviam sido realizados sem a devida atenção para com as condições meteorológicas ou os perigos advindos aos aborígines, e que as tentativas britânicas de retiraros resíduos tóxicos em 1967 haviam sido completamente inadequadas; amplas áreas ao redor do local dos testes permaneceram contaminadas e inacessíveis.

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na Argélia, mas calculou mal as condições meteorológicas, o que resultou numa nuvem radioativa que cruzou o mar, penetrando na península ibérica.23 O local de testes francês foi subseqüentemente transferido para a Polinésia francesa. Entre 1945 e 1962, um total de 423 detonações nucleares foram anunciadas pelos Estados Unidos (271), URSS (124), Grã-Bretanha (23) e França (5).24 As tentativas de chegar a um acordo de desarmamento nuclear começaram semanas depois da bomba de Hiroshima, mas o primeiro resultado concreto não surgiu antes da assinatura, em 1963, do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, que pôs fim aos testes atmosféricos realizados pelos Estados Unidos, URSS e Grã-Bretanha. Ward, Dubos e Commoner afirmam que o tratado foi a primeira vitória na campanha para salvar o meio ambiente.25 Maddox tem uma visão diferente, sugerindo que, embora a questão da radioatividade no meio ambiente fosse um elemento da equação, os países signatários do tratado agiam mais devido ao fato de já haverem completado o desenvolvimento das ogivas transportadas por mísseis de longo alcance, calculando portanto que o tratado ajudaria a postergar o momento em que outras nações poderiam tornar-se potências nucleares. Desse modo, podiam dar-se ao luxo de aceitar o argumento ambiental.26 O tratado terá sido realmente uma vitória do ambientalismo? Uma das primeiras indicações dos custos ambientais dos testes nucleares aconteceu em outubro de 1952, quando uma chuva de granizo anormalmente radioativa ocorreu a 2.820 quilômetros do primeiro local de testes britânico, na costa da Austrália.27 Em abril de 1953 uma chuva radioativa caiu sobre o estado de Nova York, aparentemente contaminada pelos testes nucleares realizados em Nevada. O debate sobre esse novo fenômeno espalhou-se rapidamente no seio da comunidade científica.28 Em The Closing Circle, Barry Commoner relembrou que "aprendeu sobre o meio ambiente com a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos em 1953. Até então, como a maioria das pessoas, havia considerado o ar, a água, o solo e nosso meio natural como mais ou menos garantidos".29 Naquele momento passou a ficar profundamente interessado pela nova e destrutiva força da energia nuclear. Os testes se tornaram um assunto de apreensão pública mais ampla em março de 1954, quando um teste com uma bomba de hidrogênio americana, cujo nome de código era BRAVO, foi realizado sobre o atol de Bikini, no Pacífico ocidental. A quantidade de partículas espalhadas pela explosão foi duas vezes superior à esperada e uma mudança imprevista de ventos levou as cinzas radioativas na direção das ilhas Marshall, habitadas, em vez de caírem no oceano como planejado. Cerca de 18 mil quilômetros quadrados de oceano foram seriamente contaminados por uma nuvem radioativa que se estendeu por 410 km, alcançando 75 km de largura. Duas semanas depois do teste, uma traineira japonesa que pescava atum, a Fukuryu Maru Nº 5 (Dragão Afortunada), retomou ao porto com 23 dos membros de sua equipagem sofrendo de "doenças da radiação. A embarcação havia estado na direção do vento do teste BRAVO; se ela estava dentro ou fora dos "limites" fixados pelos Estados Unidos não ficou claro. Verificou-se que os peixes que chegaram subseqüentemente aos portos japoneses, em embarcações provenientes da mesma região, estavam contaminados. Toda a Asia, observa Voss, "galvanizou-se" numa ação para impedir novos testes.30 Albert Schweitzer, Albert Einstein e o papa Pio XII juntaram-se ao protesto. A morte de um dos tripulantes do Fukuryu Maru seis meses mais tarde desencadeou uma onda de antiamericanismo no Japão, e trouxe tensão às relações americano-japonesas.31 As coisas talvez tenham se tornado piores - então e mais tarde - pelo segredo com que a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos enfocava a questão da precipitação nuclear, levantando suspeitas públicas de que alguma coisa assustadora estava sendo ocultada. A mídia e a opinião pública nos Estados Unidos estavam, entretanto, divididas sobre a cessação dos testes. Pesquisas de opinião indicavam que uma maioria firme (embora inconsistente) apoiava a continuação dos testes, com as estatísticas flutuando de acordo com o nível das tensões da Guerra Fria (por exemplo, uma maioria de 71 % a favor dos testes em 1954 mudou para uma maioria de 77% contra em 1959, mas voltou a 55% a favor 68 em 1961, em seguida ao incidente do U-2 e à crise dos mísseis cubanos),32 Embora a conferência de Genebra sobre o desarmamento em 1955 (e discussões subseqüentes das Nações Unidas) tenha fracassado, os Estados Unidos, a URSS e a Grã-Bretanha anunciaram uma moratória dos testes nucleares, dependente de discussões futuras. Os testes se transformaram num tema de destaque durante a campanha presidencial de 1956; motivado pelo incidente BRAVO, Adlai Stevenson exigia a proibição dos testes com bombas de

hidrogênio. Durante sua campanha eleitoral de 1960 John F. Kennedy comprometeu-se a buscar um acordo sobre os testes nucleares. Na esteira de todos os testes cresceram os temores em relação à presença de estrôncio 90 na atmosfera e de outros ingredientes tóxicos da precipitação nuclear. Em audiências diante de uma subcomissão do Senado sobre desarmamento no final dos anos 50, cientistas, líderes religiosos e congressistas deram voz às preocupações com os perigos da precipitação nuclear, particularmente para a saúde humana.33 Mas a opinião estava dividida; havia aqueles - notadamente Edward Teller, então consultor científico de primeiro escalão da administração Eisenhower - que argumentavam que a radiação era uma preocupação menor. Na visão de Barry Commoner os testes revelaram quão pouco se sabia sobre o meio ambiente, pois supunha-se enganosamente que uma parte importante da precipitação poderia permanecer durante anos na estratosfera, em segurança; na realidade, a mesma retornava à terra num período de meses.34 Em 1958 Commoner e outros da Universidade de Washington em St. Louis formaram o Comitê de Saínt Louis para Informação Nuclear, com o objetivo de atrair atenção para as implicações da precipitação nuclear. Apesar desses temores a precipitação foi inicialmente apenas uma preocupação pública menor. Em 1961 somente 21 % dos americanos pensavam que havia na atmosfera precipitação suficiente para constituir um perigo.35 Entretanto a familiaridade com a precipitação aumentou. Em 1955 somente 17% dos americanos podiam defrnir o fenômeno da precipitação corretamente; em 1961 a estatística havia crescido para 57%.36 Como segmentos da mídia (e o próprio presidente Kennedy) se mostraram crescentemente inclinados a apoiar um tratado de proibição de testes durante 1963, não somente o apoio popular ao tratado aumentou, mas também cresceu a importância da precipitação como questão. Em julho de 1963 52% deram apoio irrestrito ao tratado e 12% citavam a precipitação como a principal consideração. Em setembro as cifras eram respectivamente de 81% e 21%, com a precipitação substituindo uma necessidade genérica de acabar com os testes como a justificativa mais freqüente para o tratado.37 Os pontos de vista nos círculos governamentais americanos eram igualmente divididos. Kennedy estava profundamente preocupado com a questão da precipitação,38 assim como seus conselheiros científicos e a Agência de Controle e Desarmamento, criada em 1961. Em seu discurso na rádio e televisão para a nação, em julho de 1963, Kennedy apresentou a abolição da precipitação como a principal vantagem do tratado, superada somente pela redução da tensão mundial. Entretanto, em outros órgãos governamentais e no Senado, a questão era muito menos importante do que as considerações militares; alguns senadores chegavam a entender a contaminação como um preço aceitável para a continuação dos testes.39 As posições dos congressistas variavam desde a do senador Wayne Morse, que pensava que o controle da precipitação era o objetivo central do tratado, até a do senador republicano conservador Strom Thurmond, que descartava a questão da precipitação como "propaganda", ou a do senador Bourke Hickenlooper, que argumentava que a radiação, em quantidades moderadas, poderia na verdade ser benéfica para a saúde.40 Em 1961, com as negociações sobre uma proibição dos testes visivelmente paralisadas,41 a URSS e os Estados Unidos retomaram seus testes, seguidos em 1962 pela Grã-Bretanha. A conferência sobre desarmamento em Genebra foi adiada, para ser retomada em julho de 1963, depois de contatos bilaterais entre os Estados Unidos e a URSS. Estava claro então que havia uma oposição internacional crescente aos testes atmosféricos, motivada parcialmente por aumentos significativos de precipitação em conseqüência de uma série 69 de testes em 1962. Além disso, os estoques de armas nucleares americanos haviam atingido, em 1962, um nível tão alto que houve apreensão relativamente a problemas de comando que ocasionassem uma guerra acidental.42 Em agosto o Tratado de Proibição Parcial de Testes foi fmalmente assinado em Moscou pelos Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha, proibindo os testes no ar, acima da atmosfera ou no mar (mas não no subsolo). O tratado final - para desânimo de Kennedy - só pôde ser parcial, uma vez que os Estados Unidos e a URSS foram incapazes de chegar a um acordo quanto aos métodos de verificar seu cumprimento no tocante aos testes subterrâneos. Commoner argumenta que um dos benefícios do tratado foi ter estabelecido que as armas nucleares eram um fracasso científico, na medida em que, a despeito do resultado da guerra nuclear, nenhuma das duas potências principais sobreviveria ao holocausto - o fracasso da "defesa" nuclear reside, assim, nos desastres ecológicos que a mesma desencadearia. */43

Afirmar que o Tratado de Proibição Parcial de Testes foi o primeiro acordo ambiental não é o exagero que parece ser à primeira vista. A questão da segurança global teria sido, em si mesma, razão suficiente, mas o elemento ambiental era um fator chave de apoio, mesmo que aparentemente desempenhasse um papel menor até bem pouco antes da assinatura, de fato, do tratado. O próprio preâmbulo do tratado apresenta seu objetivo principal como a "obtenção, o mais rápido possível, de um acordo sobre desarmamento geral e completo ( ... ) que poderia pôr um termo à corrida armamentista"; o desejo de "pôr um termo à contaminação do meio ambiente humano por substâncias radioativas" era um objetivo secundário.44 No texto do tratado apresentado na conferência sobre desarmamento de dezessete nações em Genebra, em agosto de 1962, o preâmbulo não fazia nenhuma menção à precipitação nuclear; essa cláusula em particular foi incluída somente nos meses finais das negociações.45 Independentemente das motivações fundamentais do tratado, entretanto, a questão da precipitação sem dúvida alertou muitas pessoas para a idéia de que a tecnologia poderia causar contaminação ambiental irrestrita e que todos poderiam ser afetados; houve a primeira alusão ao conceito de um meio ambiente global e a problemas ambientais universais. Esse conceito foi então adicionalmente reforçado pela publicação de Silent Spring. RACHEL CARSON E SILENT SPRING O acontecimento isolado mais freqüentem ente apontado como significativo do começo da revolução ambiental foi a publicação, em 1962, de Silent Spring, de Rachel Carson.** O livro detalhou os efeitos adversos da má utilização dos pesticidas e inseticidas químicos sintéticos, gerou muita controvérsia e aumentou a consciência pública quanto às implicações da atividade humana sobre o meio ambiente e quanto a seu custo, por sua vez, para a sociedade humana. Shea argumenta que o livro mostrou pela primeira vez "que um relato meticulosamente pesquisado e lucidamente escrito sobre uma tecnologia imperfeita era capaz de despertar as pessoas para que exigissem um enfoque mais racional dos problemas do meio ambiente".46 Para Schnaiberg, o livro oferecia uma visão de mundo sinistra, na qual as forças que minam o ecossistema operavam muito menos acintosamente, mas com
* Este conceito foi elaborado no debate sobre o inverno nuclear no começo da década de 1980. ** RacheI Carson (1907-1964) foi bióloga marinha por formação. Estudou genética na Universidade Johns Hopkins, onde chegou a lecionar, e na Universidade de Maryland. Em 1936 incorporou-se à Repartição de Pescados dos EUA. Começou a escrever para jornais em 1937. Seu primeiro livro, Under the Sea Wind, foi publicado em 1941. Tornou-se editora-chefe das publicações do Serviço de Peixes e Animais Selvagens dos EUA, chegando a escritora de tempo integral e celebridade em 1951, com a publicação de The Sea Around Us.

70 mais impacto do que qualquer observador leigo poderia apreciar.47 O livro expôs algumas das infraestruturas sociais, econômicas e científicas que com conhecimento de causa permitiram a ocorrência de degradação ecológica. Rachel Carson já havia estabelecido uma reputação como escritora durante os anos cinquenta, com a publicação de livros como The Sea Around Us (1951) - um best-seller nos Estados Unidos por noventa e seis semanas, traduzido em trinta e três línguas - e On lhe Edge of the Sea (1955). Ambos os livros eram estudos pouco polêmicos sobre história natural e refletiam o interesse fundamental da autora: o mar. Silent Spring, pelo qual é agora mais lembrada, diferiu desses livros no sentido de que nasceu de suas observações sobre as ameaças contra a natureza. À medida que foi se familiarizando com a questão dos pesticidas químicos, observa Graham, "ela viu claramente que o homem, mais do que jamais havia feito, relacionava-se com a terra não com humildade, mas com arrogância".48 Ao lado da ameaça de guerra nuclear, escreveu Carson, "o problema central de nossa era ( ... ) tornou-se a contaminação do meio ambiente humano total com ( ... ) substâncias de incrível capacidade de dano" .49 A utilização de produtos químicos para controlar as pragas de insetos, advertia, estava interferindo com as defesas naturais do próprio meio ambiente; "nós permitimos que esses produtos químicos fossem utilizados com pouca ou nenhuma pesquisa prévia sobre seu efeito no solo, água, animais selvagens e sobre o próprio homem".50 O interesse de Carson pelos efeitos do DDT surgiu em 1945, quando trabalhava para o Serviço de Peixes e Animais Selvagens dos E.U.A. 51 Silent Spring não foi em absoluto a primeira advertência pública sobre o impacto ambiental dos pesticidas persistentes; tais prognósticos haviam sido feitosjá em 1945. */52 (As propriedades inseticidas do DDT foram descobertas em 1939. Barato e fácil de fazer, foi aclamado como

o pesticida universal e tornou-se o mais amplamente utilizado dos novos pesticidas químicos, antes que seus efeitos ambientais tivessem sido intensivamente estudados.) A mensagem de Silent Spring era clara e direta, e o livro - impulsionado pela publicação prévia em série no New Yorker - tornou-se um best-seller imediato, vendendo meio milhão de cópias. Durante o ano de 1963, foi publicado em 15 países, tendo sido imediatamente atacado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e por várias companhias da indústria química, uma das quais tentou ostensivamente suspender sua publicação.53 O livro também foi vítima do ceticismo com que os cientistas freqüentemente saúdam os trabalhos que tentam popularizar informações científicas. Carson foi variadamente criticada por utilizar de maneira imprópria a palavra "mutagen", citar erradamente ou deturpar os escritos de autoridades médicas, dar crédito a teorias sobre o câncer que eram especulativas ou que já haviam sido descartadas e assim por diante.54 Apesar dos detratores, o presidente Kennedy ficou impressionado o bastante para se referir ao trabalho de Carson numa conferência de imprensa em agosto de 1962 e para solicitar a seu consultor científico que estudasse a questão dos pesticidas. Um grupo especial do Comitê de Consultoria Científica da Presidência foi criado e produziu, em maio de 1963, um relatório crítico em relação à indústria de pesticidas e ao governo federal. O relatório, observou Science, era "uma justificação bastante completa" de Silent Spring, Ao corroborar a tese de Carson, observa Brooks, o relatório do comitê mudou a natureza do debate; ninguém mais podia negar que o problema existia.55 Por que Silent Spring teve tanta influência? Seu impacto advinha de uma combinação de seu moralismo, da controvérsia que causou e do efeito que produziu, tirando a questão dos pesticidas dos círculos acadêmicos e das publicações técnicas, e colocando-a na arena
* Durante o ano de 1945, a Harper's, o Atlantic Monthly e o NewYorker publicaram artigos sobre os perigos do DDT para a natureza, Colegas de Carson no Serviço de Peixes e Animais Selvagens escreveram em publicações científicas sobre as possíveis conseqüências de longo prazo do DDT. A própria Rachei Carson submeteu um artigo sobre o DDT à Reader's Digest, mas ele foi rejeitado.52

71 pública. Enquanto quase todos os escritos anteriores sobre o assunto haviam sido escritos com terminologia econômica, observa Graham, Silent Spring era essencialmente um livro ecológico; foi, além disso, concebido para chocar as pessoas no sentido de uma ação contra o abuso dos pesticidas químicos.56 Fox menciona o fracasso relativo de um livro publicado seis meses antes (Our Synthetic Environment, de Murray Bookchin, escrito sob o pseudônimo de Lewis Herber), o qual examina um espectro amplo dos efeitos incidentais da tecnologia moderna, desde a poluição do ar até a contaminação do leite, e sugere que o livro fracassou por ser demasiado abrangente.57 Carson, em contraste, concentrou-se numa única questão. Pode ter sido ocasionalmente imprecisa e alarmista, mas sua mensagem essencial permaneceu. Os pesticidas se tornaram uma questão de interesse público não só nos Estados Unidos, mas em toda parte. Silent Spring pode ser responsabilizado por ter instigado mudanças nas políticas local e nacional nos Estados Unidos (por exemplo, alguns estados proibiram a pulverização aérea de DDT e os procedimentos de registro dos pesticidas químicos foram aprimorados) e em vários países europeus (por exemplo, Grã-Bretanha, Suécia, Dinamarca e Hungria). O debate público sobre pesticidas continuou através dos anos sessenta e doze das substâncias mais tóxicas listadas em Silent Spring foram proibidas ou sofreram restrições.58 DESASTRES AMBIENTAIS E ALARME PÚBLICO A inquietação difundida pelos efeitos da precipitação nuclear e pelas advertências de Silent Spring se combinou no período de 1966-1972 com uma série de "desastres ambientais" - acontecimentos que figuraram em manchetes de jornal e tiveram um efeito catalizador sobre os temores ambientais.59 Houve desastres ambientais comparáveis antes, alguns deles em passado muito recente. Em 1948, por exemplo, vinte pessoas morreram e 43% da população de Donora, Pensilvânia, caíram doentes em conseqüência de um nevoeiro sulfuroso. Uma mistura de nevoeiro e fumaça (o smog) típica do inverno desceu sobre Londres entre 5 e 10 de dezembro de 1952, tendo sido responsável, segundo o Conselho do Condado de Londres, pela morte imediata de 445 pessoas; ao todo, mais de quatro mil pessoas morreram, a maioria por complicações circulatórias e respiratórias de longo prazo provocadas pelo nevoeiro.60 O acontecimento foi diretamente responsável pela aprovação na Grã-Bretanha da Lei do Ar Limpo, em 1956. Em outubro de 1957 a usina nuclear de Windscale pegou fogo no norte da Inglaterra devido a um super aquecimento dos

reatores. O fogo ardeu por mais de 85 horas, mas, embora tenha havido liberação de radioatividade, a contaminação foi limitada.61 Ainda que o acontecimento tenha causado profunda preocupação na indústria de energia nuclear, o público e os meios de comunicação de massa - ainda não familiarizados com o processo da energia nuclear e, por isso, com as implicações de tais acidentes - mal chegaram a reagir. Além disso a energia nuclear ainda estava em sua infância e era saudada como o combustível do futuro. Os acidentes que ocorreram a partir dos meados dos anos 60 tiveram impacto muito maior por causa do aumento da sensibilidade pública para os problemas ambientais. Um dos primeiros na nova leva de desastres foi o desmoronamento, em outubro de 1966, de uma pilha de resíduos de mina acima do povoado de Aberfan, no sul do País de Gales, o qual resultou na morte de cento e quarenta e quatro pessoas, 116 das quais crianças da escola local. StanJey Johnson sugere que Aberfan foi importante não por seu lugar de destaque na genealogia da poluição, mas porque abriu caminho para uma maior compreensão das implicações da poluição.62 Ainda mais importante do que os riscos das áreas abandonadas, entretanto, era o problema da poluição pelo petróleo, que tinha efeitos colaterais imediatos, visíveis e freqüentemente catastróficos, portanto, de muito interesse para os editores de notícias. O número e o tamanho dos navios petroleiros aumentou dramaticamente depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1950 havia somente um petroleiro com capacidade maior 72 do que cinqüenta mil toneladas; pelo final dos anos 60, havia seissentos e dois petroleiros com capacidade maior do que essa.63 O primeiro desastre importante foi o naufrágio do petroleiro Torrey Canyon em março de 1967. Cerca de 117 mil toneladas de petróleo cru se espalharam depois que o navio se chocou contra um recife perto da costa do extremo sudoeste da Inglaterra, entre Land's End e as ilhas Scilly. Centenas da quilômetros do litoral da Cornualha foram poluídos. "Foi um acontecimento nacional de dimensões internacionais", observa Stanley Johnson.64 A utilização de detergentes não testados para diluir o óleo só fizeram aumentar o dano biológico. a incidente ilustrou dramaticamente as ameaças sofridas pelos ecossistemas marinhos com o tráfego de embarcações petroleiras através de águas próximas à costa. Com o custo das missões de bombardeio da Força Aérea Real que tencionavam incendiar o óleo derramado, e a conta de seis milhões de libras para limpeza do litoral poluido, o incidente também marcou os contribuintes britânicos - pois batia à sua própria porta - quanto aos custos financeiros da poluição. O desastre revelou a falta de preparo do governo para tais eventualidades e as lacunas na organização de pesquisas cientificas e no assessoramento cientifico ao governo britânico.65 A resposta do governo levou finalmente à criação da Comissão Real sobre Poluição Ambiental, em 1969. a incidente também estava em primeiro plano nas mentes dos signatários da Convenção Relacionada à Intervenção em Alto-Mar em Caso de Acidentes com Poluição de Petróleo e da Convenção sobre Responsabilidade Civil para Danos Provocados por Poluição de Petróleo. Dois anos depois de Torrey Canyon, um jorro fora de controle na plataforma de petróleo da Companhia Union Oil, na costa de Santa Barbara, Califórnia, espalhou poluição grave por quilômetros do litoral californiano. Por ter o derramamento se originado numa perfuração em área instável da plataforma continental, várias semanas foram necessárias para controlar completamente o fluxo. Foi também impossível ter certeza quanto à quantidade precisa de petróleo derramado; as estimativas variaram enormemente.66 O jorro acidental ocorreu em 28 de janeiro de 1969 e foram necessários dois dias para controlá-lo, mas houve uma segunda erupção em 12 de fevereiro. O vazamento prolongou-se durante semanas e as praias ainda continuavam sendo poluídas em julho. Embora desastres muito maiores tenham acontecido desde então (por exemplo, dois milhões de barris de petróleo foram derramados após uma colisão entre petroleiros no Caribe em 1979 e 3,1 milhões de barris no jorro fora de controle do poço mexicano Ixtoc I, em 1979-1980, bem no meio do golfo do México), o derramamento do Torrey Canyon e de Santa Barbara foram os primeiros acidentes desse tipo e, por isso, tiveram um impacto público muito maior. "Santa Barbara não foi nem o maior nem o mais assustador desastre ambiental experimentado pela nação", ponderou o Conselho sobre a Qualidade Ambiental em 1979; "ninguém foi morto ( ... ) ninguém sofreu danos permanentes à saúde ( ... ) um número pequeno de pessoas foi ameaçado ( ... ) Entretanto, o acontecimento dramatizou o que muitas pessoas viam como insensibilidade imprevidente e falta de interesse da parte do governo e empresários a respeito de uma questão que se havia tornado profundamente importante para elas. Isso enfatizou, para grande parte dos americanos, o sentimento de que a proteção de seu meio ambiente não aconteceria por si só, mas requeria seu apoio ativo e envolvimento.67 As

conseqüências do derramamento foram reforçadas pela indignação da população de Santa Barbara, desproporcionalmente originária da classe alta e média-alta.68 Johnson 69 e Molotch 70 vêem significado naquilo que o derramamento revelou da mudança nas prioridades políticas e na natureza do poder nos Estados Unidos. a secretário do interior Walter Hickel tomou providências imediatas, interrompendo a atividade dos poços na área do canal de Santa Barbara, mas em 24 horas ele havia ordenado o reinicio das perfurações e do bombeamento, confirmando as piores apreensões dos residentes locais sobre as prioridades governamentais.71 Torrey Canyon e o derramamento de Santa Bárbara foram os vazamentos de petróleo 73 mais divulgados da época, mas não se constituíram em absoluto nos únicos; em 1968, foram relatados 714 derramamentos de petróleo (de mais de cem barris) somente em águas americanas, e em 1969 mais de mil.72 Ao todo, há uma estimativa de que dez mil vazamentos de petróleo e de outros materiais perigosos poluíram anualmente as águas navegáveis dos Estados Unidos durante o final da década de sessenta.73 Poluições de outro tipo começaram então a capturar a imaginação de um público mais amplo. A precária condição do lago Erie foi com freqüência destacada como um dos efeitos extremos da poluição; Barry Commoner, por exemplo, dedicou um capítulo de The Closing Circle a esse assunto.74 O lago foi por muito tempo usado como esgoto para os efluentes orgânicos de cidades industriais importantes como Detroit e Toledo. A produção pesqueira do lago Erie começou a diminuir na virada do século e tornou-se progressivamente menor. A produção anual de cisco,* por exemplo, que antes constituía 50% da produção do lago, caiu de 6.187 toneladas antes dos anos trinta para 3,6 toneladas entre 1963-1964. Poluição era a suspeita, mas foram necessários vários anos de levantamento biológico antes que pudesse ser confirmado, no final dos anos cinquenta, que o lago sofria de eutrofia. ** Os custos humanos da poluição ambiental foram ilustrados no final dos anos sessenta e começo dos setenta pelos acontecimentos de Minamata, no Japão. A produção química havia começado nas margens da baia de Minamata (defronte a Nagasaki) em 1939 e catalisadores gastos, contendo mercúrio, eram despejados na baía. Em 1953 observou-se que gatos e pássaros na área estavam agindo de maneira estranha e, em 1956, já eram observadas desordens neurológicas entre as famílias de pescadores. Concentrações de mercúrio foram descobertas nos peixes que vinham da baia e em residentes locais que morreram por causa do que ficou conhecido como a "doença de Minamata". A companhia química envolvida negou a existência de qualquer relação entre o mercúrio e a doença, mas, em 1961 e 1964, pagou pequenas indenizações para as vítimas da doença. A segunda manifestação desta ocorreu na cidade de Nügata, onde uma outra fábrica descarregava mercúrio no rio. As vítimas de Nügata ganharam uma ação cível contraa fábrica em 1971 e, em 1973, a fábrica de Minamata foi considerada igualmente culpada, sendo obrigada a pagar indenizações razoáveis.75 Houve outros incidentes menos conhecidos mas igualmente significativos, em outros lugares no Japão. Em 1972 a Companhia de Mineração e Fundição Mitsui foi obrigada a pagar iridenizações para as vítimas do itai itai, uma doença que havia surgido já em 1920 e que afligia as pessoas que bebiam água do rio Jinzu (na costa norte do Japão central), no qual a fábrica havia despejado resíduos de cádmio, zinco e chumbo sem tratamento por um período de várias décadas. Em Yokkaichi, no Japão central, local da primeira refinaria de petróleo e complexo petroquímico do país, a poluição do ar - que já era um problema desde 1959 - provocou um crescimento da incidência de doenças respiratórias. Uma ação impetrada por nove vítimas, em 1967, resultou numa decisão a seu favor, em 1972. Estimuladas pelos resultados dos incidentes de Minamata, Nügata, Mitsui e Yokkaichi, mais de 450 campanhas antipoluição já haviam sido lançadas no Japão até 1971. 76 A maioria contestava o tipo de crescimento econômico unidirecional que o Japão havia buscado desde a guerra. O controle da poluição e o tratamento dos refugos tinham prioridade baixa no planejamento industrial japonês, o que se somou aos problemas criados pelo novo desenvolvimento industrial de uso intensivo de energia que substituiu a indústria leve de antes da guerra.77 Ao final da década de 60, a poluição tornou-se um problema crítico no Japão. O smog fotoquímico afligia as conurbações e se havia espalhado em direção ao campo, a baía de Tóquio estava seriamente poluída e a produção e o consumo de massa
* Peixe norte-americano típico da região dos Grandes Lagos. (N. do T.) ** A eutrofia ocorre quando resíduos orgânicos penetram no lago, consumindo o oxigênio e deixando muito pouco para a sobrevivência dos peixes. A eutrofia é um processo natural cuja evolução toma normalmente milhares de anos; a poluição no lago

Erie comprimiu esse processo num lapso de décadas. (Com o passar do tempo, os lagos eutróficos tomam-se pântanos e, depois, terra sólida.)

74 criaram uma sociedade do desperdício - cerca de 10% do lixo de Tóquio era plástico. O efeito destes e de outros desastres ambientais foi o de atrair uma maior atenção do público para as ameaças que recaíam sobre o meio ambiente. As pessoas estavam sensibilizadas para os custos potenciais de um desenvolvimento econômico descuidado e passaram a emprestar um apoio crescente a uma série de campanhas ambientais locais e nacionais, as quais recebiam ampla cobertura dos meios de comunicação de massa. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve debate sobre um aeroporto para aviões a jato planejado para perto do Parque Nacional de Everglades, sobre o proposto oleoduto do Alasca, as praias poluídas de Nova York, o chumbo na gasolina e sobre os fosfatos em detergentes. Na Grã-Bretanha, em 1969, houve debate sobre a localização do terceiro aeroporto de Londres, com os habitantes das localidades elegíveis organizando oposição expressiva e, finalmente, coroada de sucesso. O Novo Ambientalismo substituiu as velhas preocupações por novas. Por exemplo, uma pesquisa da National Wildlife Federation nos Estados Unidos em 1969 mostrou que uma questão estabelecida (a poluição da água) e uma outra de interesse mais recente (a poluição do ar e suas relações com a emissão de veículos) alcançaram o mesmo patamar de interesse que a dos pesticidas, deixando os espaços abertos e a vida selvagem bem para trás entre as questões encaradas como mais importantes pelo público americano.78 AVANÇOS NO CONHECIMENTO CIENTÍFICO Rachel Carson e outros foram presas das críticas nos campos científicos; a falta de precisão científica era o bastão que os oponentes e críticos do ambientalismo continuavam a brandir vinte anos mais tarde (ver o debate sobre a poluição ácida, capítulo 9). Não havia dúvida de que uma maior precisão científica era necessária e que o ambientalismo não poderia se alimentar indefinidamente do instinto e da suposição. Os cientistas compreenderam isso exatamente tanto quanto os ambientalistas e o crescimento do Novo Ambientalismo foi paralelo a novas e substanciais iniciativas na pesquisa científica internacional. Um ímpeto importante se deu em 1957-1958 com o Ano Geofísico Internacional, o qual mostrou o quanto a pesquisa poderia se beneficiar da cooperação internacional. Inspirados pelo ano geofísico, os membros de escalão superior do International Council of Scientific Unions (ICSU) - notadamente o presidente, sir Rudolph Peters - e da International Union of Biological Sciences (IUBS) falaram sobre a aplicação do modelo do ano geofísico à pesquisa biológica. O professor C. H. Waddington, presidente da IUBS, observou que a ecologia estava, nessa época (o começo dos anos sessenta), "emergindo de um estágio descritivo para um estágio experimental ( ... ) Ecologistas proeminentes se comunicavam entre si, e isso tornou o período maduro para um esforço internacional coordenado”.79 Havia preocupação de que o estudo da biologia ambiental estivesse atrasado em relação a outros campos, tais como a biologia celular e a biologia molecular. Depois de discussões entre a ICSU, IUBS, IUCN e biólogos de um sem-número de países, o Programa Biológico Internacional (IBP - Intemational Biological Programme) foi lançado em julho de 1964. Seu tema era "a base biológica da produtividade e do bem-estar humano"; seus objetivos eram promover o estudo internacional da produção orgânica, o potencial e usos de recursos naturais novos e existentes e a adaptação do ser humano às condições em transformação. Era uma resposta direta às ameaças sofridas pelos ecossistemas naturais que eram, agora, objeto de tanta atenção. O prazo de um ano era visto como um período muito curto para coletar um corpo significativo de informações biológicas e, assim, foram planejadas três fases, estendendo o IBP até 1974. O entusiasmo com o IBP não era em absoluto universal. Por um lado, poucos questionavam a necessidade de uma melhor compreensão da biologia ambientaI e os biólogos percebiam que o somatório dos esforços nacionais não estava nem perto de acompanhar as futuras necessidades do mundo em termos de parques nacionais, reservas naturais e 75 "laboratórios de campo". A Grã-Bretanha era, provavelmente, o mais entusiástico patrocinador do IBP, apoiada pela maioria dos países das Europas oriental e ocidental. Por outro lado, havia biólogos que sentiam que programas científicos nacionais eram mais adequados e temiam a dispersão de fundos para os programas

do IBP. Os Estados Unidos, onde a estrutura e as prioridades da pesquisa biológica eram muito diferentes, desde o começo se opuseram ao IBP (embora tenham fornecido, em seguida, apoio ativo).80 A carência de financiamento demonstrou ser um problema maior, em particular porque relativamente poucos países possuíam fundos para propiciar um apoio continuado. A entrada financeira total do IBP desde 1962 até 1974 foi de 1,88 milhão de dólares, dos quais 43% vieram de cotas nacionais e contribuições especiais, 15% de bolsas, empréstimos e contratos com a UNESCO, e 12% de publicações.81 Mesmo assim o IBP era geralmente visto como um sucesso. O modus operandi do IBP era definir uma questão, reunir uma pequena equipe de especialistas competentes, criar um plano de ação, colocá-lo em operação e, finalmente, avaliar seus resultados. Esse procedimento colocou especialistas em diferentes países em contato uns com os outros. Isso encorajou a pesquisa ecológica em muitos deles, produziu métodos de pesquisa confiáveis, teve um efeito catalizador sobre os novos programas de pesquisa ambiental 82 e produziu quarenta volumes de descobertas. Holdgate e colegas acreditam que esse processo produziu um notável impacto, ao sensibilizar o mundo para as ameaças contra a biosfera global e, como tal, foi um importante aporte para a conferência de Estocolmo 83 (ver capítulo 5). A UNESCO se interessou particularmente pelo programa e o IBP, por algum tempo, foi concomitante com e transferiu interesses para o subseqüente programa da UNESCO, O Homem e a Biosfera (ver capítulo 9). Se o IBP tinha um defeito, era o de ser grande e ambicioso demais. Bourlière observou que o próprio nome era enganoso e que deveria ser chamado, mais realisticamente, Programa Ambientalista Internacional.84 A INFLUÊNCIA DE OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS No final das décadas de 50 e 60 várias questões sociais e políticas galvanizaram massas da população particularmente os jovens - em protestos, o que criou um novo clima de intensificado ativismo público, do qual se beneficiou o ambientalismo. As primeiras de tais questões nos Estados Unidos do pós-guerra foram a pobreza e o racismo. Em dezembro de 1955 os trabalhadores negros de Montgomery, Alabama, começaram a boicotar o sistema de ônibus da cidade para protestar contra a segregação nos coletivos. Isso deu ao movimento pelos direitos civis o incentivo necessário, o qual se fortaleceu passo a passo nos 12 anos seguintes. Schnaiberg sugere que esse foi o primeiro movimento social que se voltava para (a) a mobilização das energias de uma parcela substancial da população universitária (deslocando seus interesses dos objetivos privados para os públicos) e (b) estender e desenvolver novas técnicas de participação na contra posição a forças sociais existentes.85 Inspirados pelos exemplos dos estudantes negros que promoviam manifestações contra o preconceito racial e as escolas segrega das no final dos anos cinquenta, alguns estudantes brancos esperavam encorajar a democracia social, acreditando idealisticamente que isso poderia ser realizado de maneira rápida e indolor, sem revolução. Não havia laços formais entre os movimentos por direitos civis e ambiental; ambos tinham sem dúvida valores diferentes e clientelas muito diferentes. Muitos estudos (no final dos anos 60 e desde então) argumentaram que o ambientalismo era elitista e que retirava a maior parte de seu apoio da classe média (principalmente branca).*/86 Para os
* Um levantamento de 1973 do Centro acional pela Ação Voluntária revelou que 98% dos membros das organizações ambientais americanas eram brancos, 65% eram universitários graduados, 35% eram profissionais liberais e 53% tinham renda familiar superior a 15 mil dólares americanos.86

76 cidadãos negros dos Estados Unidos, as questões mais imediatas e urgentes eram ajustiça econômica e social e os direitos civis. Enquanto os pobres lutavam por trabalho, educação e igualdade política e social, o lobby ambientalista incluía entre seus objetivos reivindicações aparentemente não essenciais como a proteção da vida selvagem. Para muitos ativistas negros o movimento ambientalista até ameaçava desviar os dólares e a consciência da classe média. Durante os anos sessenta os segmentos mais radicais do movimento pelos direitos civis começaram a excluir liberais brancos. O jornalista radical James Ridgeway chegou a ponto de sugerir que o movimento ecológico era remoto, separado e "isolado da onda revolucionária que estava varrendo a sociedade americana ( ... ) [o movimento] não tem posição sobre guerra, repressão política, negros, pobres, ou qualquer outro fator que tenha criado correntes de tensão na sociedade".87 Entretanto, o movimento pelos direitos civis mostrou o que poderia ser feito através do protesto de massas, e as técnicas

empregadas por Martin Luther King e outros lideres dos direitos civis para levar a cabo uma confrontação pacífica com a autoridade sem dúvida educaram uma nova geração nos métodos de protesto efetivo. Em termos da influência que teve ao alertar uma geração para os problemas sociais e métodos de protesto, o equivalente britânico mais próximo do movimento pelos direitos civis foi a Campanha para o Desarmamento Nuclear. A crise de Suez e a insurreição húngara de 1956 criaram uma nova disposição de propósito idealista na esquerda britânica, O que deu origem a um espírito de cruzada, a um novo socialismo humanista e à desconfiança em relação às velhas ideologias e instituições.88 A corrida armamentista nuclear era vista como sintomática dos problemas da velha ordem; manifestações durante o começo dos anos cinquenta revelaram uma maré de interesse público sobre a questão das armas nucleares e, em 1957, o Emergency Committee for Direct Action Against Nuclear War foi criado para protestar contra um teste nuclear britânico na ilha Christmas. A campanha para o desarmamento foi criada em 1958. Entre 1958 e 1965 várias manifestações de massa foram realizadas, notadamente a marcha de Londres às instalações de armas nucleares estabelecidas em Aldermaston, em Berkshire. Ainda que a maioria dos militantes do desarmamento se tenha envolvido por razões morais, políticas ou religiosas, houve laços significativos entre o movimento pelo desarmamento e o posterior movimento ambientalista, ao menos porque ambos os grupos buscavam o controle racional e humano sobre a alta tecnologia criada pela sociedade industrial avançada.89 Certamente era difícil dissociar, já no começo dos anos 70, as campanhas contra armas nucleares daquelas contra a energia nuclear. O segundo movimento americano digno de nota - com o qual o Novo Ambientalismo tem laços muito próximos - foi o movimento contra a guerra. Em 1965 as primeiras tropas de combate admitidamente desembarcaram no sul do Vietnam e ataques aéreos "não retaliatórios" começaram ao mesmo tempo; o primeiro protesto estudantil contra a guerra veio logo em seguida. O conhecimento crescente sobre a natureza da guerra, o próprio curso da guerra (e o fato de que as previsões oficiais não tinham sido confirmadas pelos acontecimentos), o amargor pelo vazio da postura de campanha do presidente Johnson em 1964, que se apresentou como um homem de paz, e a oposição ao recrutamento, tudo isso se combinou para produzir uma escalada de protestos na segunda metade da década. As bases principais de apoio se encontravam entre profissionais, estudantes e clero brancos.90 Os estudantes eram isentos da convocação e, assim, os campi universitários tornaram-se os quartéis-generais do movimento, cujos sustentáculos morais tiveram por um período algo em comum com o descontentamento mais amplo e profundo dos estudantes com a sociedade. As manifestações se tornaram quase que cotidianas; somente no ano acadêmico de 19671968 houve 221 protestos em 101 campi.91 O movimento contra a guerra revelou uma população dos campi que, segundo o relatório da Comissão Cox sobre distúrbios em Columbia, era "a mais bem informada, a mais inteligente e a mais idealista que este país jamais conheceu ... Ela é igualmente a mais sensível às questões públicas e a mais sofisticada em suas táticas políticas.92 Na raiz do fenômeno estava uma 77 sociedade aparentemente incapaz de conviver com os ideais ensinados nas escolas e igrejas. Para muitos estudantes ativistas, observou a Comissão Nacional sobre as Causas e para a Prevenção da Violência, a universidade representava uma instituição social de tipo qualitativamente distinto, na qual a crítica social radical poderia ser gerada e a mudança social construtiva promovida.93 O descontentamento estudantil ocorreu em muitas nações industrializadas no final dos anos sessenta, o divisor de águas do protesto sendo 1968 (cf., França, Alemanha e Espanha). Lipset observa que "aprenderse-ia a esperar por um forte crescimento no ativismo estudantil nas sociedades em que, por uma variedade de razões, foram questionados os valores políticos e sociais aceitos, particularmente em momentos em que os acontecimentos estão testando a viabilidade de um regime e onde o fracasso de políticas parece questionar a legitimidade dos arranjos e instituições sociais e econômicos". 94 Searle observa três características da inquietação estudantil do período: a busca por objetivos e valores sagrados, a criação de uma relação adversa com a autoridade e a rejeição da autoridade.95 A preocupação e sensibilidade aumentadas dos estudantes criaram uma clientela receptiva a todas as questões em que o sistema social e econômico dominante parecia estar atuando contra um ideal. Da mesma maneira que a discriminação racial e a imoralidade da guerra do Vietnam pareciam sintomáticos de uma enfermidade do sistema, a degradação ambiental pareceu ser um item igualmente aceitável na agenda de protesto. Nash sugere que setores da população universitária, nesse período, atribuíam os problemas sociais - desde o imperialismo até o racismo - a "atitudes nãoecológicas".96 O descontentamento estudantil se estendeu até a obsessão por sucesso e segurança das

gerações mais velhas. Materialismo, tecnologia, poder, lucro e crescimento eram caracterizados como símbolos do que havia de pior na sociedade ocidental e como ameaças para o meio ambiente. O ambientalismo também deu expressão à contracultura, a qual, observa Cotgrove, era "profundamente antiindustrial, com sua decisiva rejeição da ética do trabalho, sua condenação do consumismo e dos valores materiais, e seu questionamento da racionalidade de uma sociedade que utilizou a ciência para produzir o que era visto como as atrocidades desumanas da guerra do Vietnam e o dano ecológico causado pelos inseticidas e refugos industriais".97 O movimento hippie do final dos anos sessenta encarnou a escola moral e antiestablishment do ambientalismo nos Estados Unidos, em que o retorno às áreas virgens e à natureza era o único caminho para manter os valores da terra num mundo materialista. Nash acredita que não é acidental o fato de Charies Reich escolher The Greening America como título de seu importante livro de 1971,98 porque "o mundo verde, o mundo selvagem, guardava verdades essenciais".99 O ambientalismo nos Estados Unidos amadureceu finalmente quando se encontrou com os movimentos sociais heterogêneos da época. Chegando a seu ápice no fim de uma década de ativismo social, a revolução ambiental, argumenta Fox, 100 tomou emprestado de todos os movimentos importantes, sendo seu vínculo fundamental cronológico, já que os ativistas se voltaram para o meio ambiente no final dos anos sessenta, quando os movimentos pelos direitos civis e contra a guerra perderam impulso. Tanto na GrãBretanha quanto nos Estados Unidos, muitos dos jovens que apoiavam o movimento ambientalista haviam sido introduzidos no ativismo através de suas experiências em outras campanhas de protesto. O MODELO DOWNS O "ciclo questão-atenção" delineado por Anthony Downs 101 é bastante revelador do advento do Novo Ambientalismo nos Estados Unidos. Ele argumenta que o interesse do público americano pelos problemas sociais tem vida curta, é intenso e caprichoso. A percepção pública da maioria das "crises" na vida doméstica americana não reflete tanto mudanças nas condições reais quanto o funcionamento de um ciclo sistemático de au78 mento do interesse público e, então, fastio crescente com questões importantes. Ele sugere que a ascensão e queda de muitas questões sociais nos Estados Unidos passam por cinco estágios: (1) um estágio préproblema, quando um problema social indesejado existe, mas ainda não prendeu a atenção do público; (2) um estágio de descoberta alarmada freqüentemente deflagrado por uma série de acontecimentos que revelam a existência de um problema - e entusiasmo eufórico com a capacidade da sociedade de reagir (Downs observa a "grande tradição americana" de encarar com otimismo a maioria dos obstáculos ao progresso social, considerando-os como externos à estrutura da sociedade e como passíveis de serem eliminados sem qualquer reordenação fundamental da própria sociedade); (3) um estágio realista, em que se toma consciência do verdadeiro custo para "resolver" o problema; (4) um declínio gradual do intenso interesse público provocado pelo desencorajamento, alarme, fastio ou pelo surgimento de uma nova questão; e (5) o estágio pós-problema, no qual a questão se desloca num prolongado limbo, um período de atenção menor ou de recorrências espasmódicas do interesse. Os três primeiros estágios de Downs se aplicam sem dúvida ao Novo Ambientalismo, tanto na Europa ocidental quanto na América do Norte. Mas embora uma verdadeira torrente de escritos no começo da década de setenta ( e depois) 102 sugerisse que o ambientalismo tinha passado para o quarto estágio por volta de 1972, isso só era verdade na medida em que o interesse caiu dos ápices talvez artificiais atingidos entre 1968 e 1972. Ao invés de estar entrando em declínio, o ambientalismo tornou-se imbuído de uma reação mais cuidadosamente considerada e menos emocional aos problemas do meio ambiente. Deslocou-se da euforia para a razão e se alojou temporariamente no estágio três, no qual, apesar do desencorajamento diante dos custos da ação (que freqüentemente eram altos, mas talvez não maiores do que os custos potenciais da inatividade), o meio ambiente tornou-se uma questão central das políticas públicas. Certamente ainda não chegou ao quinto estágio, e pode nem chegar. O próprio Downs sugeriu que, mesmo que a questão ambiental deva inevitavelmente declinar, poderá reter mais atenção do que questões que afetam um número menor de pessoas. A questão é mais visível e mais claramente ameaçadora do que a maioria dos outros problemas sociais; é uma ameaça universal (o que a torna politicamente menos capaz de dividir do que, por exemplo, o ataque ao racismo ou à pobreza); um pequeno número de "inimigos públicos" ricos e poderosos

pode ser responsabilizado por ela; há a possibilidade de respostas tecnológicas firmes para os problemas ambientais; a maioria dos custos de controle da poluição poderia ser repassada para o público através de um aumento do preço dos produtos ao invés de impostos mais altos; a questão poderia gerar uma grande indústria privada com interesses fortes e constituídos na continuidade dos gastos para combater a poluição; e as questões elas mesmas são ambíguas - melhorar o meio ambiente é um objetivo amplo que abrange tudo. O modelo de Downs falha por não levar em conta a integração das questões sociais populares com o tecido político das sociedades. Repetidamente, esses movimentos realizam alguns ou todos os seus objetivos pretendidos através da transformação da sociedade; isso aconteceu com o movimento pelos direitos civis e com o movimento das mulheres, aconteceu com os movimentos contra a guerra e aconteceu com o ambientalismo. Isso não quer dizer, em absoluto, que todos os objetivos de todos esses movimentos foram atingidos, mas na maioria dos casos os reformistas sociais escalaram com sucesso a muralha e entraram na cidadela das políticas públicas. NÃO MAIS UMA CRISE SILENCIOSA As revoluções sociais têm raízes complexas. As raízes do Novo Ambientalismo são muitas e variadas, e é difícil dissociá-las uma da outra. Não foi uma questão isolada ou uma crise repentina que levou à formação do movimento, argumenta Bowman.103 Parece ser mais do 79 que uma coincidência que o surgimento da consciência ambiental tenha ocorrido em concomitância com a maturação da primeira geração a crescer na afluência do pós-guerra; o clamor sobre a qualidade ambiental foi, provavelmente, mais uma função das mudanças de atitude do que das mudanças no estado real do meio ambiente,104 mas a primeira não poderia ter ocorrido sem a última. O Novo Ambientalismo se preocupava fundamentalmente com a qualidade de vida e com o modo como esta foi comprometida pelos subprodutos poluentes do crescimento econômico. Afluência, descontentamento dos jovens, desastres de primeira página e tendências sociais e econômicas mais amplas, todos esses fatores tiveram seu papel no engendramento da mudança. Foram propostas outras explicações. Means sugere que os objetivos dos movimentos conservacionistas tradicionais podem ter sido muito estreitos e - paradoxalmente estariam sendo questionados por terem sido surpreendentemente bem-sucedidos. 105 Schnaiberg aponta para o interesse crescente pelas áreas virgens e pelo camping, em parte um reflexo da decadência das áreas metropolitanas e da expansão das áreas urbanas. 106 Downs sugere que tantos americanos tiveram a possibilidade de participar de certas atividades que antes eram acessíveis somente para uma pequena minoria rica (tais como possuir automóvel e acesso aos parques nacionais, moradias de subúrbio e áreas de veraneio), que o meio ambiente da elite estava se deteriorando.107 Enzensberger sugere que o impacto ambiental dos novos desenvolvimentos tecnológicos havia se tornado mais universal, o que significou - para as classes média e média-alta - que a mobilidade geográfica não era mais uma resposta para evitar problemas como a precipitação nuclear ou a poluição por petróleo.108 Solesbury sugere que problemas tais como pobreza, habitação e tensão racial tinham se tornado menos importantes nos afluentes anos 60 e que o ambientalismo tinha tomado seus lugares na imaginação pública.109 Hardin sugere que a preocupação ambiental pode ter sido um deslocamento da atenção dada a outros problemas de tratamento mais diffcil.110 Golub e Townsend argumentam que o mito de uma crise ecológica foi desenvolvido por interesses empresariais como maneira de encorajar uma maior cooperação internacional, possibilitando desse modo o crescimento industrial planejado através de um número crescente de empresas multinacionais.111 Qualquer que seja a causa, houve por volta de 1970 uma revolução nas atitudes ambientais. Em 1969-1970 O crescimento anual do número de membros dos cinco maiores grupos conservacionistas americanos era de 16% a 18%; o número de membros do Sierra Club tomado isoladamente havia triplicado desde 1966.112 Porta-vozes do ambientalismo tais como Paul Ehrlich e Barry Commoner (ver capítulo 4) viajavam pelo país, falando ocasionalmente para platéias de mais de dez mil pessoas. Numa reportagem de capa de fevereiro de 1970 a Time observou que o ambientalismo "pode muito bem ser a questão visceral capaz de unificar uma nação polarizada.”113 O Novo Ambientalismo chegou a seu ápice em 22 de abril de 1970, quando a maior manifestação ambientalista da história, o Dia da Terra, foi realizada nos Estados Unidos. A idéia veio do senador Gaylord Nelson, do Wisconsin; com financiamento federal, um comitê de

organização dirigido por Denis Hayes orquestrou uma demonstração nacional de preocupação com o meio ambiente. Foram realizados comícios e palestras em estimadamente 1.500 faculdades e dez mil colégios; ambas as casas do Congresso entraram em recesso; o próprio Nelson falou em nove campi universitários, de Harvard a Berkeley; os automóveis foram proibidos. na Quinta Avenida de Nova York durante duas horas, permitindo que cem mil pedestres ocupassem inteiramente a via pública; e em Washington, D.C., dez mil pessoas cercaram o Monumento a Washington para 12 horas de festejos. Pouco tempo antes do Dia da Terra, a New Republic descartou "a mania ecológica" como "válvula de escape para um presidente e um popuJacho demasiado baratos, ou demasiado sem entranhas, ou demasiado cansados, ou demasiado frustrados, ou demasiado todos esses fatores para encarar alguns velhos problemas que se mostraram persistentes e emocionalmente não gratificantes de 80 serem enfrentados". Seis meses mais tarde a revista dedicou um número ao meio ambiente e admitiu que o Dia da Terra tinha sido "não somente um canal para as energias pacifistas frustradas, como pensávamos. Ele assinalou um despertar para os perigos da ditadura da tecnologia". 104 Em 1963 Stewart Udall, secretário do Interior das administrações Kennedy e Johnson, havia escrito The Quiet Crisis, uma revisão pessoal da história da filosofia ambientalista americana, desde a sabedoria da Terra dos índios americanos até o planejamento urbano de Frederick Law Olmsted. A "crise silenciosa", argumentou, reside no fato de que a "América mantém-se equilibrada sobre um pináculo de riqueza e poder, ainda que vivamos numa terra de beleza fenecente, de feiúra crescente, de espaços abertos que se reduzem e de um meio ambiente geral que está sendo diminuído diariamente pela poluição, pelo barulho e pelas catástrofes”115 Udall argumentou que a obsessão do pós-guerra com "guerras frias e quentes" havia desviado a atenção do conceito de conservação e que o progresso da ciência tinha encorajado um falso sentido de bem-estar que resultou em necessidades urgentes de conservação e administração serem ignoradas. Em julho de 1965, cinco dias antes de sua morte, Adlai Stevenson (então embaixador americano nas Nações Unidas) fez um discurso diante do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em Genebra, sobre os problemas da urbanização no mundo. No discurso (preparado originalmente por Barbara Ward)116, ele usou a metáfora da Terra como uma nave espacial na qual viajava a humanidade, dependendo de seus suprimentos vulneráveis de ar e de solo. O tema foi desenvolvido mais tarde por Kenneth Boulding, um economista da Universidade de Michigan, em seu ensaio de 1966, "The Economics of Coming Spaceship Earth", no qual comparou a "economia cowboy" aberta (inconseqüente, exploratória, romântica, em que o consumo e a produção eram coisas boas) com a futura economia do "homem espacial", preocupada fundamentalmente com a manutenção de estoques, em que a "produção não é de modo algum uma aspiração e deverá sem dúvida ser encarada como algo a ser minimizado ao invés de maximizado, A medida essencial do sucesso da economia não é absolutamente a produção e o consumo, mas a natureza, a qualidade e a complexidade do estoque total de capital".117 A noção de Nave Espacial Terra foi graficamente reforçada pela publicação em 1966 das primeiras fotografias da Terra tiradas pelos satélites Lunar Orbiter, as quais mostravam o planeta como um oásis solitário, finito e aparentemente vulnerável no espaço. Para milhões na Terra, sugere Arthur C. Clarke, essas fotografias "devem ter sido o momento em que a Terra tornou-se realmente um planeta" .118 Por volta de 1970 a crise ambiental não era mais uma crise silenciosa. Um novo movimento de massas tinha surgido e uma nova questão estava começando a encontrar seu caminho para a agenda das políticas públicas. Evidências científicas crescentes confirmaram muitos dos temores de ativistas e ecologistas amadores; a raça humana estava usando rapidamente seu estoque de recursos naturais e empestando seu ninho durante o processo. O interesse aumentou e nasceu um debate controverso sobre os limites do crescimento, centrado no postulado malthusiano de que crise e colapso eram inevitáveis, a menos que o crescimento da população e a exploração de recursos fossem controlados. Os profetas do apocalipse tinham chegado. 81

QUATRO Os Profetas do Apocalipse (1968-1972)
Desastres múltiplos, argumenta Barkun, servem para destruir as teorias comumente estabelecidas que desempenharam seu papel suficientemente bem no passado e também, tipicamente, a resposta a tal tensão é a ascensão de líderes carismáticos que oferecem idéias e uma filosofia que podem ser interpretadas de uma maneira salvacionista.1 Embora o movimento pelos direitos civis tenha tido líderes desse tipo, o mesmo não foi tão verdadeiro em relação ao ambientalismo. No clima de alarme cada vez maior em relação à saúde do ambiente nos anos sessenta, surgiram, ao invés disso - pelo menos nos Estados Unidos - teóricos e filósofos ambientais (ocasionalmente carismáticos, muitas vezes controversos). A maioria deles era composta de acadêmicos, por exemplo, Paul Ehrlich, de Stanford, Barry Commoner, de Washington (St. Louis), LaMont Cole, de Cornell, Eugene Odum, da Georgia, Kenneth Watt, da Universidade da Califórnia em Davis, e Garret Hardin, da UC em Santa Barbara. Eles não ofereceram nenhum credo unificado para o movimento, nem deram um senso de direção específico ou puderam ser chamados de "líderes". Os mais pessimistas dentre eles rapidamente ganharam apelidos nada lisonjeiros, tais como "profetas do apocalipse" ou "novos Jeremias". Ainda assim, propiciaram um grau de focalização intelectual. Os debates que levantaram atraíram atenção para três questões fundamentais: poluição, crescimento populacional e tecnologia. A alegação de que nenhum deles por si só explicava integralmente o dilema ambiental, por sua vez, conduziu à visão de que a crise derivava do crescimento exponencial e que havia limites claros para o crescimento econômico. O DEBATE EHRLICH-COMMONER A controvérsia inicial foi despertada pelas diferenças de opinião entre dois biólogos, Paul Ehrlich e Barry Commoner. Ehrlich tomou um tema bastante surrado - o crescimento populacional - e tomou-o seu; Commoner, por sua vez, concentrou-se na qualidade do crescimento econômico. A questão da população tinha uma longa história, que remontava ao médico britânico sir William Petty (1623-1687), que havia escrito, em 1650, sobre a multiplicação da população humana,2 especulando que passariam dois mil anos antes que a capacidade de sustentação da Terra fosse atingida. Suas visões atraíram pouca atenção, o que não constitui surpresa. Quase 150 anos depois o economista clássico britânico 82 Thomas Malthus* obteve um impacto público muito maior. No seu Essay on Population, escrito em 17981803, Malthus defendia que a taxa natural de crescimento populacional era exponencial e a de produção de alimentos aritmética. A não ser que o crescimento populacional fosse controlado, a população superaria o suprimento de alimentos disponível e haveria fome generalizada.3 Vogt, Osborn, a Wildemess Society, o Sierra Club e outros levantaram a questão da superpopulação novamente no final dos anos 40 e nos anos 50. Em 1966 David Brower, então diretor executivo do Sierra Club, argumentava que não poderia haver política de conservação sem uma política populacional.4 Em 1967 Brower ouviu Ehrlich,** um professor de biologia na Universidade de Stanford, falar no Commonwealth Club, em San Francisco, e o contratou para escrever um livro curto sobre população para o Sierra Club. The Population Bomb foi, então, publicado em 1968, tornando-se um dos livros sobre meio ambiente mais vendidos de todos os tempos, com três milhões de exemplares em meados da década de 70. *** Ehrlich era um neo-malthusiano assumido. As críticas que o retratavam como alarmista não o perturbavam: "Eu sou um alarmista", disse à Playboy em 1970, "porque estou mesmo alarmado como o diabo. Acredito que estejamos à beira do abismo por causa das pressões populacionais."5 Era a luta para sustentar uma população humana que não parava de crescer a causa da maioria dos problemas, argumentava, e a salvaguarda ambiental mais efetiva era o controle da natalidade; "nenhuma mudança de comportamento ou tecnologia pode nos salvar, a não ser que possamos realizar um controle das dimensões da população humana".6 Ehrlich advertia que (1) centenas de milhões de pessoas enfrentariam a fome nos anos 70 e 80, (2) os limites da capacidade humana de produzir alimentos por meios convencionais havia sido quase alcançado, (3) as tentativas de aumentar a produção de alimentos causariam deterioração ambiental e reduziriam a capacidade da terra para produzir alimentos, (4) o crescimento populacional poderia levar a epidemias e à guerra nuclear, e (5) a única solução residia numa mudança nas atitudes humanas.

Barry Commoner,**** então professor de biologia da Universidade Washington, St. Louis, oferecia uma visão diferente. O ativismo ambiental de Commoner havia se iniciado em 1953 com a preocupação quanto aos efeitos da precipitação nuclear. A publicidade gerada pelo seu Comitê para a Informação Nuclear é muitas vezes considerada um fator revelador do apoio popular para o Tratado Parcial de Proibição de Testes de 1963. A questão da precipitação era para ele sintomática do impacto destrutivo da tecnologia sobre o meio ambiente. Levou sua mensagem aos campi americanos no final da década de 60 e, no começo de 1970, a mesma já havia rendido uma reportagem de capa da Time, saudando-o como o Paul Revere da ecologia. Delineou seus temores em The Closing Circle, publicado em 1971. Embora o crescimento populacional e a afluência tivessem se intensificado desde a Segunda Guerra Mundial, observava, os aumentos eram pequenos demais para explicar os aumentos dos níveis de poluição (de 200% a 2000%) desde 1946. Um fator
* Embora mais lembrado como demógrafo, o rev. Thomas Robert Malthus (1766.1834) estudou e escreveu sobre muitos campos diferentes e foi professor de história e política econômica no East India College, Hertfordshire. O fato de ser um clérigo fez com que ganhasse o epíteto de "aquele pastor lúgubre". ** Paul Ehrlich (n. 1932), biólogo, faz parte do corpo docente do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Stanford desde 1959. Tomou-se professor em 1966 e Bing Professor of Population Studies em 1976 . *** É curioso-observar que um livro notavelmente semelhante publicado três anos antes - The Silent Explosion, de Philip Appleman (Boston: Beacon Press, 1965), professor de inglês na Universidade de Indiana - vendeu bem, mas não alcançou nada parecido ao impacto de The Populalion Bomb. Ehrlich não fez qualquer referência ao trabalho de Appleman. **** Barry Commoner (n.1917), biólogo, é membro do corpo docente da Universidade Washington, St. Louis, desde 1947. Inicialmente professor de patologia vegetal, na década de 1950 fez campanha pela informação mais acessível sobre os efeitos dos testes nucleares e fundou o St. Louis Committee for Nuclear Information em 1958. Escreveu Science and Survival em 1966 e The Closing Circle em 1971.

83 adicional, portanto, deve ser uma "tecnologia defeituosa", resultando em um crescimento maciço do uso de sintéticos, produtos descartáveis, pesticidas e detergentes. A questão não estava tanto no crescimento da atividade econômica, mas em como esse crescimento havia sido alcançado. Não estava tanto no fato de que mais bens estavam sendo consumidos, mas que sua produção e a destinação dos resíduos estava custando mais caro em termos ambientais. A emissão crescente de poluentes por unidade de produção, resultante da introdução de novas tecnologias produtivas desde 1946, havia, segundo ele, chegado a representar 95% da emissão total de poluentes.7 Enfatizava que alguns dos riscos ambientais mais perigosos eram aqueles que não podiam ser vistos, particularmente o ar, os alimentos e a água contaminados por substâncias poluentes. Estabelecidas suas posições, Ehrlich e Commoner entraram num debate freqüentemente acrimonioso de mérito questionável, talvez baseado tanto na competição acadêmica quanto em quaisquer diferenças filosóficas genuínas. A opinião popular entre os cientistas naturais e sociais da época era que ambos estavam levando suas visões ao extremo, Ehrlich, ao ser um "alarmista", e Commoner, ao se mostrar estranhamente obstinado em absolver o crescimento populacional,8 Havia também uma preocupação com o fato de que os compromissos ideológicos de ambos os lados estavam obscurecendo as questões científicas; Ehrlich falava a partir de uma perspectiva científica, enquanto Commoner considerava a política como parte essencial da equação.9 Commoner se opunha à coerção para limitar o crescimento populacional, argumentando que a ação para eliminar a pobreza resultaria numa transição demográfica; isto é, à medida que as sociedades se tornassem mais ricas e industrializadas, o crescimento populacional diminuiria. Ele sugeriu que a maioria dos problemas graves de poluição dos Estados Unidos ou datavam dos anos do pós-guerra, ou haviam piorado desde a guerra 10 (embora The Closing Circle relatasse muitos exemplos de poluição que precederam a guerra, muitas vezes em décadas). Commoner argumentava que a poluição e a exaustão dos recursos minerais continuaria mesmo sem o crescimento populacional. De fato, em Science and Survival, ele havia descrito rapidamente o crescimento populacional como uma das fontes principais de poluição; em seguida à abertura do debate com Ehrlich, tendeu a descartar a questão da população. Ehrlich achava que The Closing Circle era "inexplicavelmente inconsistente e perigosamente enganoso". Via três defeitos principais no livro: pressupunha que a deterioração ambiental consistia apenas na poluição (levando Commoner a discutir a crise ambiental "como se ela tivesse começado nos anos 40"); o argumento de que a causa da poluição residia em tecnologia defeituosa baseava-se em pesquisas e interpretação de dados equivocadas; e as concepções distorcidas de Commoner sobre certos aspectos da demografia o levavam a tirar conclusões errôneas sobre a "auto-regulação" humana e as estratégias viáveis para as limitações populacionais.11

Ehrlich ocasionalmente parecia ter a mente mais aberta que Commoner, admitindo, por exemplo, que suas visões haviam mudado com o tempo e com a sua compreensão das questões. Commoner lembrava como, nas conversas iniciais com Ehrlich e seus seguidores, este último "concedia [em contraste com a posição expressa em The Population Bomb ]( ... ) que o crescimento populacional não é por si só responsável pelo impacto ambiental e que fatores tecnológicos são também significativos. Fiquei gratificado por essa indicação de que eles estavam prontos a modificar sua posição com base nos novos dados".12 Em 1973 13 e novamente em 1974,14 Ehrlich pareceu abrandar sua discordância com Commoner, ao sugerir que os componentes da crise ambiental causada pelo crescimento populacional, afluência ou por erros tecnológicos eram difíceis de diferenciar; era absurdo, argumentava, "tentar isolar qual dos três fatores multiplicativos é responsável pela coisa toda, quando é bastante óbvio que temos que atacar todos os três".15 Algumas contradições curiosas se misturavam sub-repiticiamente à argumentação de Ehrlich. Em 1970 ele assinalava que havia escrito The Population Bomb porque achava que havia gente demais enfatizando 84 somente a poluição; "não estou tentando minimizar o problema da poluição em nenhum sentido", afirmava, "No momento, o mesmo é pelo menos tão sério quanto o do crescimento populacional, e possivelmente, nos Estados Unidos, mais sério do que este último."16 Ainda assim, em 1973, ele observou que "do ponto de vista de um ecologista ( ... ) [a poluição do ar é] um dos problemas relativamente triviais ( ... ) é passível de rápida cura tecnológica e é apenas um sintoma do que estam os fazendo, e não algo ecologicamente sério" .17 De modo semelhante, embora defendesse que a superpopulação levaria à fome e à ecocatástrofe, defendia também que, "numa visão de longo prazo, a deterioração progressiva do nosso meio ambiente pode causar mais morte e miséria do que a defasagem alimentos-população".18 A alegação de Ehrlich de que a Terra estava produzindo tanta comida quanto poderia tem se demonstrado errônea desde então e, no começo dos anos 80, era cada vez mais amplamente aceito que a causa fundamental da fome não era tanto a carência de alimentos, mas sim um desequilíbrio entre oferta e procura. A argumentação de Ehrlich não levava em consideração a ineficiência das técnicas de produção de alimentos, índices de produção decrescentes ou práticas medíocres de administração da terra, e as soluções sugeridas por ele não faziam menção à necessidade de usar mais eficientemente os recursos existentes ou de reduzir o desperdício. Ele nunca aludiu, por exemplo, ao potencial da reforma agrária e da intensificação agrícola. Ehrlich também criticou Commoner por se preocupar com a poluição quase a ponto de excluir as demais formas de deterioração ambiental, porém ele mesmo estava preocupado com a questão isolada da população e encarava isso a partir de uma perspectiva limitada. Como causa da exaustão de recursos o crescimento populacional foi desde então aliado ao uso ineficiente e insustentável dos recursos - se não eclipsado por ele. Em outras palavras, trata-se menos de uma questão de números absolutos de pessoas do que de como os recursos, tais como alimentos, são utilizados e distribuídos. Tanto Commoner quanto Ehrlich foram guiados mais pelo que eles viam acontecer nos países industrializados do Ocidente e menos pelo que estava acontecendo - ou que se tem demonstrado estar acontecendo desde então - nas economias centralmente planejadas e nos países menos desenvolvidos. Se os eventos subseqüentes e as evidências científicas e demográficas provaram alguma coisa, foi que ambos os homens estavam em grande parte corretos em suas teses centrais (na medida em que as desenvolviam), mas que sofriam, paralelamente e em proporção semelhante, de obsessões e concepções equivocadas. O próprio Ehrlich assinalou um dos perigos dos quais havia sido vítima, quando observou que os cientistas eram muitas vezes criticados, seja por serem limitados demais ou por extrapolarem seu campo de especialidade; mas sentia-se freqüentemente impelido a ir além das fronteiras de seu treinamento formal para buscar soluções para os problemas humanos, e não via "nenhum outro caminho para os cientistas de todos os campos, senão fazer o mesmo - mesmo correndo o risco de estarem errados" .19 De modo semelhante, observou em 1973 que "a maioria das críticas aos ambientalistas pretendem que eles nunca deveriam cometer erros. Mas os erros vão continuar a fazer parte das afirmações dos ambientalistas, pois eles estão lidando com sistemas que não compreendemos inteiramente e onde há um grau considerável de incerteza" .20 A TRAGÉDIA DAS ÁREAS COMUNS

Uma tese apocalíptica igualmente polêmica foi o ensaio escrito pelo biólogo Garret Hardin* sobre a "tragédia das áreas comuns",21 Foi inicialmente apresentada como um
* Garret Hardin (n. 1915), biólogo, entrou em 1946 para o corpo docente da Universidade da Califómia, em Santa Barbara, tomando-se professor de biologia em 1956 e professor de ecologia humana em 1964.

85 discurso presidencial na Divisão do Pacífico da American Association for the Advancement of Science em dezembro de 1967. Como o próprio Hardin assinalou, o tema das áreas comuns não era novo e já estava bastante conhecido nos círculos de ciências sociaís.22 A novidade - que gerou a controvérsia - foram suas conclusões. Ele defendia que não existiam soluções "científicas" para problemas tais como a superpopulação. A "tragédia" residia na inevitabilidade da destruição dos recursos de propriedade comum; Hardin sugeria que a inevitabilidade da destruição global predeterminava as escolhas que a humanidade deveria fazer para assegurar sua sobrevivência. Usou a parábola de uma área comum na qual vários criadores de gado levavam seus animais para pastar. Um determinado número de cabeças de gado num tempo determinado comia capim à mesma razão que crescia - a oferta e a procura estavam em equilíbrio perfeito. Então, um criador concluía que poderia acrescentar uma vaca e colher os lucros, enquanto os custos eram compartilhados por todos os outros criadores, cujas vacas se haviam contentado com menos. Concluía também que, se ele não acrescentasse uma vaca a mais, os outros poderiam fazê-Io e então obteriam os lucros à sua custa. A única solução racional era acrescentar uma vaca. Mas todos os outros criadores chegavam às mesmas conclusões e resolviam que tinham que introduzir vacas adicionais. Desse modo, "cada homem está aprisionado num sistema que o impele a aumentar seu rebanho ilimitadamente - num mundo que é limitado. A ruína é o destino para o qual todos os homens caminham, cada um em defesa de seus próprios interesses numa sociedade que acredita na liberdade das áreas comuns. A liberdade numa área comum traz a ruína de todos". Hardin sugeria que a poluição era o reverso da tragédia das áreas comuns, no sentido em que o homem não estava tirando, mas acrescentando às áreas comuns, sob forma de resíduos nocivos. "O homem racional descobre que sua parte no custo dos resíduos que descarrega nas áreas comuns é menor que o custo de purificar os resíduos antes de Iiberá-Ios. Uma vez que isso é verdade para todos, enquanto nos comportarmos somente como empreendedores livres, racionais e independentes, estaremos aprisionados num sistema que 'emporcalha nosso próprio ninho"'. Como, perguntava Hardin, poderíamos "legislar a temperança", por exemplo, na procriação humana? A proibição era fácil de legislar, mas a temperança não, e ele questionava a visão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de que "qualquer escolha e decisão relativa ao tamanho da família deve irrevogavelmente pertencer à própria família e não pode ser feita por mais ninguém". A temperança não poderia ser alcançada através de um apelo à consciência, mas apenas por "coerção mútua, mutuamente acordada pela maioria das pessoas afetadas", sobretudo quando aplicada ao controle do crescimento populacional. Em outras palavras, o homem deve ser coagido a respeitar um senso de responsabilidade comunitária, porque ele nunca o adotaria voluntariamente.23 MODELOS GLOBAIS E OS LIMITES DO CRESCIMENTO A superpopulação não foi a única teoria antiga a ser ressuscitada pelo Novo Ambientalismo. Uma idéia com um pedigree intelectual ainda mais impressionante - os limites do crescimento exponencial - foi desencavada e revisitada em controvérsias ainda maiores. Thomas Malthus, David Ricardo, John Stuart Mill, W. Stanley Jevons, Karl Marx e Friedrich Engels haviam todos, em uma ou outra oportunidade, examinado essa questão ou outras correlatas.24 Em tempos recentes, como em 1953, o advogado Samuel Ordway havia traçado sua própria "Teoria do Limite do Crescimento" num volume fino e, de uma maneira geral, ignorado que antecipava muitas das simulações computacionais caras e sofisticadas dos anos setenta.25 O principal produto do renascimento dos anos 70 foi The Limits to Growth, publicado em 1972. As raízes do relatório remontavam ao final da década de 40, quando Jay 86 Forrester* se tomou o pioneiro da aplicação do computador digital, de métodos de tomada de decisões militares táticas e dos sistemas de realimentação de informações a estudos das forças que interagem nos

sistemas sociais.26 Durante o final da década de 50, ele refinou suas teorias de dinâmica industrial como uma técnica de administração. O método da dinâmica de sistemas defende que são necessários modelos para descrever a organização dos sistemas, suas relações internas e pressuposições quanto aos contatos externos fora das fronteiras do sistema. Os componentes das relações podem então ser alterados, a fim de simular resultados alternativos. O método sustenta que os modelos mentais são inferiores aos modelos computacionais porque somente os modelos computacionais permitem que as relações e suas conseqüências sejam explicitadas.27 Em meados da década de 1960, o Dr. Aurelio Peccei, um consultor administrativo italiano, ** havia começado a refletir sobre os problemas do mundo. Ele os via como materializados num conjunto de relações interconectadas e achava que somente poderiam ser entendidos através de uma visão geral que delineasse os vínculos entre ocorrências e condições aparentemente sem relação, pensamentos que esboçou em The Chasm Ahead.28 Em 1968, reuniu um grupo informal de trinta economistas, cientistas, educadores e industriais num encontro em Roma. Desse encontro surgiu o Clube de Roma, uma associação livre de cientistas, tecnocratas e políticos. Já em 1970 o Clube possuía setenta e cinco membros de vinte e cinco países. Sua meta definida era incentivar a compreensão dos componentes econômicos, políticos, naturais e sociais interdependentes do "sistema global" e encorajar a adoção de novas atitudes, políticas e instituições capazes de minorar os problemas. A degradação ambiental era justamente um desses problemas. Os outros incluíam a expansão urbana, a perda de fé nas instituições, rejeição dos valores tradicionais e deterioração econômica, todos os quais o Clube via como de tal complexidade que extrapolavam a competência das instituições e políticas tradicionais. O método da dinâmica de sistemas de Forrester já havia sofrido críticas severas,29 mas Clube via nele considerável potencial para seus próprios interesses. Em 1970 lançou um Projeto sobre a Condição da Humanidade e convidou Forrester para ir à Suíça para traçar o perfil de seu método. A "condição" era que a sociedade humana, apesar de seu conhecimento e habilidades, não compreendia as "origens, significação e inter-relações de seus muitos componentes e, portanto, é incapaz de conceber respostas efetivas".30 O fracasso tinha ocorrido porque a sociedade continuava a examinar questões isoladas sem compreender que o todo era mais do que a soma de suas partes. Nesse ínterim, durante seu estudo das preparações em curso para a Conferência sobre o Meio Ambiente Humano da ONU, a ser realizada em Estocolmo, em 1972 (ver capítulo 5), um grupo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) concluiu que um Estudo dos Problemas Ambientais Críticos ajudaria os planejadores da conferência. Sob a égide de um comitê diretor, setenta cientistas e profissionais e quarenta e cinco observadores se encontraram durante o mês de julho de 1970 em Williamstown, Massachusetts, para estudar e discutir o efeito de poluentes marinhos, terrestres e atmosféricos específicos sobre as condições terrestres e climáticas globais, e examinar os procedimentos de pesquisa e mooitoração.
* Jay Wright Forrester (n. 1918) realizou quase toda a carreira profissional no MIT. Esteve na equipe de pesquisa de 1939 a 1956 (dirigindo o Digital Computer Laboratory do MIT entre 1946 e 1951) e tomou-se professor de administração na Sloan School of Management em 1956. Desenvolveu o modelo de dinâmica de sistema das mudanças econômicas e sociais nos Estados Unidos. ** Aurelio Peccei (1908-1985) nasceu em Turim e se formou em economia na Universidade de Turim. Trabalhou para a Fiat de 1930 a 1973, foi presidente da Olivetti de 1963 a 1967 e presidente do conselho diretor da ltalconsult a partir de 1971. Cofundador do Clube de Roma, dedicou seu tempo, a partir de então, ao estudo dos macroproblemas da era tecnológica e das mudanças necessárias na sociedade humana, a fim de encontrar respostas para esses problemas.

87 "A existência de um problema global", enfatizava o estudo, "não implica a necessidade de uma solução global.”31 A maior parte da ação corretiva, concluía, teria que ser realizada nos níveis local, regional e nacional, mas o potencial de cooperação internacional na pesquisa e na monitoração era alto. A recomendação geral do estudo era a aplicação de novos métodos padronizados de coleta de dados globais. O relatório definia duas situações particularmente importantes: que os dados disponíveis, sobretudo no nível internacional, eram fragmentários, contraditórios, às vezes não confiáveis e muitas vezes não se encontravam disponíveis (por causa de relatórios irregulares e falta de padronização); e que os problemas ambientais tinham que ser considerados a partir das diferentes perspectivas dos países mais desenvolvidos e menos desenvolvidos. "Há poucos motivos para acreditar que os países em desenvolvimento possam ser desviados de sua preocupação com os efeitos de primeira ordem da tecnologia para um interesse pelos efeitos colaterais sobre o meio ambiente. Atualmente e no futuro previsível, as sociedades industriais avançadas terão que carregar o fardo da ação de combate contra a poluição”.32 O relatório do MIT defendia

um estudo mais completo e satisfatório de questões como a poluição marinha por petróleo, o aumento do dióxido de carbono na atmosfera e o efeito potencial dos aviões de transporte supersônicos (SSTs supersonic transports) na atmosfera; a formulação de novas prioridades; e o abandono da pressuposição de que o meio ambiente tem que arcar com os custos do desenvolvimento tecnológico e industrial. O projeto do Clube de Roma foi lançado num encontro em Cambridge, Massachusetts, no final de julho de 1970. Forrester havia delineado um modelo global, chamado World 1, identificando componentes específicos do problema e sugerindo técnicas para analisar os mais importantes dentre esses componentes. Argumentava que a mente humana era incapaz de compreender, prever ou controlar as atividades de padrões muito complexos e que a intuição humana muitas vezes conduzia equivocadamente as pessoas a buscar soluções que, ou não tinham efeito, ou tinham o efeito oposto do desejado; 33 a simulação computacional era, portanto, vital para ajudar o homem a lidar com questões de macropolítica. Forrester desenvolveu seu modelo em World 2, definido em seu livro World Dynamics; examinando apenas os aspectos mais amplos do sistema mundial, nem abordava as dificuldades de implementar mudanças nas atitudes humanas, nem considerava a possibilidade de mudanças nas aspirações e valores humanos, trazidas pelo reconhecimento das condições difíceis com que se defrontava a humanidade.34 Organizou uma equipe, sob a direção de Dennis Meadows, * então com 28 anos, para fazer uma versão ainda mais detalhada e refinada - World 3. Cinco fatores básicos foram identificados como determinantes e, em última análise, limitadores do crescimento: população, produção agrícola, recursos naturais, produção industrial e poluição. Usando o modelo de Forrester, a equipe chegoua três conclusões: 1) Se as tendências existentes de população mundial, poluição, industrialização, produção de alimentos e exaustão de recursos continuassem inalteradas, os limites do crescimento no planeta seriam atingidos dentro de cem anos. O resultado mais provável seria um declínio súbito e incontrolável tanto na população quanto na capacidade industrial. 2) Era possível alterar essas tendências de crescimento e atingir um estado de estabilidade econômica e ecológica que fosse sustentável por muito tempo no futuro. O estado de equilíbrio global poderia ser planejado de modo que as necessidades materiais básicas
* Dennis Lynn Meadows (n. 1942) foi professor assistente de administração do MIT entre 1969 e 1972. Depois transferiu-se para o Departamento de Engenharia do Dartmouth College, New Hampshire. Sua mulher Donella (n. 1941) foi pesquisadora no campo da nutrição e ciências alimentares no MIT (1970-1972) e depois transferiu-se para o Departamento de Estudos Ambientais em Dartmouth.

88 de cada pessoa na Terra fossem satisfeitas e cada pessoa tivesse uma oportunidade igual de concretizar seu potencial humano individual. 3) Se as pessoas do mundo decidissem se empenhar para chegar a esse segundo resultado e não ao primeiro, quanto mais cedo começassem a trabalhar para atingi-Io, maiores seriam as chances de sucesso.35 A tese essencial do modelo do MIT, lançada no-dia 2 de março de 1972 como The Limits to Growth, era que as raízes da crise ambiental residiam no crescimento exponencial. A catástrofe era inevitável já no final do século, causada pela exaustão dos recursos e pelas taxas de mortalidade crescentes devido à poluição e à carência de alimentos. Um aumento do suprimento de alimentos, a descoberta de novas fontes de energia e avanços tecnológicos para o controle da poluição poderiam reverter essa tendência. Em última análise, porém, havia uma necessidade urgente de atingir um equilíbrio global através do reconhecimento dos limites do crescimento econômico e populacional. "O otimismo tecnológico", argumentava a equipe, "é a reação mais comum e mais perigosa às nossas descobertas a partir do modelo do mundo. A tecnologia pode amenizar os sintomas de um problema sem afetar as causas subjacentes ( ... ) [e] pode, desse modo, desviar nossa atenção do problema mais fundamental - o problema do crescimento num sistema finito."36 Os autores recomendavam, entre outras coisas, uma redução de 40% no investimento industrial, uma redução de 20% no investimento agrícola, uma redução de 40% na taxa de natalidade e uma transferência maciça de riqueza dos países ricos para os pobres.

Baseando-se nas descobertas dos Worlds 2 e 3, o Clube de Roma chegou a várias de suas próprias conclusões,37 muitas das quais notavelmente perceptivas: 1) Era essencial que houvesse consciência quanto às restrições quantitativas do meio ambiente mundial; a pressão populacional por si só era suficiente para impelir a sociedade a buscar um estado de equilíbrio global; tal equilíbrio só poderia ser atingido se a situação do Terceiro Mundo fosse substancialmente melhorada. 2) O desenvolvimento global estava tão intimamente entrelaçado a outras questões, que era necessário conceber uma estratégia geral, a fim de enfrentar todos os problemas principais, particularmente a relação do homem com o ambiente. * 3) Se a sociedade pretendesse tomar um novo rumo, eram necessárias medidas internacionais concatenadas e planejamento conjunto de longo prazo numa escala sem precedentes; a imposição de uma interrupção no crescimento econômico e populacional não deveria conduzir a um congelamento do desenvolvimento econômico; ao contrário, os países mais desenvolvidos deveriam tomar a iniciativa, desacelerando seu crescimento e ajudando os países menos desenvolvidos a impulsionar suas economias mais rapidamente. (Estas visões ganhariam uma divulgação mais ampla no final dos anos 70 e começo dos 80 [ver capítulo 8].) Os autores do World 3 não se arrogavam infalibilidade. Admitiam que seu modelo era "imperfeito, supersimplificado e inacabado", e que eram necessários muitos estudos posteriores. Porém, apesar de seu estágio preliminar, consideravam importante publicar suas descobertas no momento em que o fizeram, porque decisões com implicações sociais, econômicas e físicas globais de grande alcance estavam sendo tomadas e não podiam
* A World Conservation Strategy, o relatório Global 2000 e os relatórios das comissões Brandt e Brundtland - publicados respectivamente em 1980, 1982, 1980 e 1987 - podem ser vistos como estágios nessa direção.

89 esperar por modelos perfeitos e compreensão total. O propósito de publicar The Limits to Growth, um resumo não-técnico de suas descobertas, era abrir o debate sobre as tendências globais em aceleração para uma comunidade mais ampla do que apenas a dos cientistas; nisso tiveram êxito. Meadows e sua equipe de fato receberam com agrado as discussões e críticas construtivas, conforme indica a sua associação com a equipe de Sussex (ver adiante). Uma das motivações por trás do trabalho do Clube era a crença de que os políticos e cientistas haviam se tornado complacentes demais e prontos a acreditar que o homem sempre conseguia tirar uma solução do nada quando as coisas pareciam estar a ponto de ir longe demais. O Clube pretendia chocar as pessoas a ponto de fazê-Ias abandonar sua complacência, "advertir quanto a uma crise potencial mundial se ( ... ) for permitido que as tendências [atuais] continuem e, assim, oferecer uma oportunidade para realizar mudanças nos nossos sistemas políticos, econômicos e sociais para assegurar que essas crises não aconteçam",38 e chocar a sociedade a ponto de fazê-Ia iniciar uma transição do crescimento para o equilíbrio global. O Clube de Roma via os Worlds 2 e 3 como um meio para seus fins e esperava que, ao quantificar a condição humana, os modelos incentivariam as pessoas a procurar soluções. Diferentemente de Hardin, o Clube acreditava que a melhoria da situação do Terceiro Mundo era essencial para que se atingisse o equilíbrio. Mas, como Hardin, que acreditava que "nenhuma solução técnica pode nos salvar da miséria da superpopulação",39 o Clube acreditava que "soluções tecnológicas por si só"40 não poderiam livrar o homem de seu círculo vicioso de população crescente e superexploração do meio ambiente natural. O Clube concluía que a correção do desequilíbrio global era um desafio para a geração atual, não para a próxima, e que isso exigia medidas internacionais coordenadas e planejamento de longo prazo numa escala sem precedentes. Do outro lado do Atlântico, enquanto isso, uma segunda "hipótese do apocalipse" - A Blueprint for Survival 41 - havia sido publicada como resposta radical ao que era encarado como as atitudes bastante moderadas do establishment da conservação britânica. O golpe inicial veio num artigo de agosto de 1971, no Observer, de seu correspondente de meio ambiente, Gerald Leach. O autor observava que, embora as linhas principais das mudanças necessárias para um movimento no sentido da economia de nave espacial estavam

se tornando claras, ninguém havia definido os detalhes. Edward Goldsmith, editor do Ecologist, organizou uma conferência na qual ficou decidida a construção de um modelo para a Grã-Bretanha. Blueprint, que se baseava substancialmente no modelo do SCEP e foi influenciado por Limits to Growth, foi publicado no Ecologist no começo de 1972. Partia de uma premissa semelhante àquela do modelo do MIT, de que "se for permitido que as tendências atuais continuem, o colapso da sociedade e a ruptura irreversível dos sistemas de sustentação da vida neste planeta ( ... ) são ínevítávels".42 O crescimento populacional e a utilização dos recursos precisavam de mudanças radicais nas atitudes e nas práticas; o crescimento indefinido não poderia ser sustentado por recursos finitos. Entre as recomendações: o uso de menos pesticidas e fertilizantes, manejo eficiente dos esgotos e redução dos dejetos industriais, proteção dos recursos genéticos, contabilidade social (isto é, fazer com que os poluidores pagassem), a estabilização do crescimento populacional e a criação de um novo sistema social descentralizado. Como o MIT, a equipe do Blueprint reconhecia seu débito para com as idéias de John Stuart Mill. Para implementar suas idéias, a equipe propunha um Movimento pela Sobrevivência, uma coalizão de organizações ambientais que trabalhasse para persuadir os governos a tomar medidas que levassem a uma sociedade estável; embora Friends of the Earth e a Conservation Society, entre outras, chegasem a expressar algum interesse inicial, o movimento deu em nada. O tema do não-crescimento foi levado mais além em 1973 pelo economista britânico E. 90 F. Schumacher. Em seu livro Small is Beautiful.43 ele criticou o desperdício e a dilapidação dos recursos e o excesso de dependência da indústria ocidental em relação à tecnologia de uso intensivo de capital e energia. Criticando o sistema de valores que permitia tal estado de coisas, desafiava as pessoas a reexaminarem seus valores e estilos de vida e a fazerem uma transição da crença de que "mais é melhor" para "pequeno é harmonioso". Sua tese revestiu-se de um significado especial com a decisão das nações da OPEP, em outubro de 1973, de impor um embargo de petróleo, levando os preços a quadruplicarem. APOCALIPSE AMANHÃ No começo dos anos 70, muitos norte-americanos e europeus ocidentais estavam completamente alarmados com as perspectivas aparentemente desoladoras para o futuro. A despeito da falta de dados científicos completos, a especulação se tomou um passatempo popular. Na esteira dos profetas veio uma inundação de previsões apocalípticas freqüentemente fantásticas, muitas das quais voltaram para assombrar seus autores desde então. Paul e Anne Ehrlich, por exemplo, advertiram que "a própria humanidade pode estar à beira da extinção".44 Em outros trabalhos, Ehrlich freqüentemente advertiu quanto à perspectiva de "ecocatástrofe", epidemias de âmbito mundial e guerra nuclear se o crescimento populacional continuasse. Barbara Ward e René Dubois previram que, já em 1985, todas as superfícies terrestres que não as mais frias e altas estariam ocupadas pelo homem.45 Os temores do efeito dos aviões de transporte supersônicos (SSTs) sobre a atmosfera, combinados às previsões de que até quinhentos SSTs estariam voando em poucos anos, levaram à sugestão de que, em 1985, uma frota de trezentos Concordes, juntamente com uma frota expandida de SSTs da Boeing, consumiriam 2,2 bilhões de barris de petróleo por ano, ou seja, um nono da demanda mundial em 1971.46 Em 1970, a Life listou várias previsões para as quais os cientistas alegavam "evidências teóricas e experimentais sólidas": a poluição do ar, combinada a uma inversão de temperatura, mataria milhares de pessoas numa cidade dos EUA no início dos anos 80; os habitantes dos centros urbanos estariam usando máscaras de gás para sobreviver à poluição do ar; já em 1985, a poluição do ar teria reduzido a quantidade de luz solar que chega à Terra à metade; e um sistema ecológico de importância maior teria sido destruído em algum lugar dos Estados Unidos.47 Em 1969, Paul Ehrlich fez toda uma série de previsões de colapso, um exercício que poderia, em retrospecto, parecer tanto imprudente quanto pouco característico de um cientista racional. Baseado nas tendências então aparentes, ele previu o fracasso da Revolução Verde, a incompetência dos programas de ajuda aos países menos desenvolvidos e o colapso da indústria de anchovas peruana (esta entrou em colapso em 1972, três anos antes do que Ehrlich havia previsto). Contudo, ele também previu incorretamente: 1) o colapso da indústria baleeira em 1973 (ela não entrou em colapso);

2) a redução da pesca anual de peixes oceânicos para trinta milhões de toneladas já em 1977 (na realidade, foi mais de duas vezes esse número, embora a possibilidade de um colapso na indústria mundial da pesca persistisse, pois a produção pesqueira continuou a se mostrar insustentável); 3) uma taxa de cinqüenta milhões de mortes anuais por desnutrição (é impossível chegar a um número de mortes por desnutrição que não seja apenas aproximado em qualquer região ou período dados, mas os números da mortalidade em países que viveram fomes coletivas entre 1960 e 1983 indicam que morreram pouco mais de 12 milhões de pessoas.48 Mesmo as projeções mais pessimistas de mortes anuais por desnutrição não 91 atingiriam o número previsto por Ehrlich. Quaisquer que sejam as estimativas, porém, é claro que 12 milhões de mortes significam uma tragédia de proporções gigantescas.); 4) florações diatomáceas nos oceanos e a extinção, já em 1979, de toda a vida animal marinha de importância (a vida marinha se provou consideravelmente mais resistente do que muitos cientistas esperavam). O que estas e outras previsões enfatizam é que a crise ambiental parecia muito pior em 1968 do que pareceria dez ou 15 anos depois. Nessa época, pelo menos alguma ação havia sido realizada, o que pode ter permitido que o mundo evitasse um apocalipse; mesmo assim, é questionável se algumas das previsões teriam se tornado verdade algum dia. Grande parte do alarmismo foi criado e alimentado pelos profetas do apocalipse. Quando Ehrlich escreveu The Population Bomb, a população dos Estados Unidos estava crescendo a quase 1,5% ao ano, o suficiente para dobrar a população norte-americana em cerca de sessenta anos. Dada a alta média de consumo per capita de recursos naturais pelos consumidores norte-americanos, as implicações deste crescimento pareciam sérias. No final dos anos setenta, porém, a taxa de crescimento populacional norte-americano havia caído abaixo de 1% ao ano. Em 1978 Ehrlich admitiu que ninguém havia previsto a rápida mudança do comportamento reprodutivo que ocorreu no começo dos anos setenta.49 Mas ele ainda estava apenas marginalmente mais otimista. Aqueles que alegavam que não havia problema populacional, somente um problema de distribuição, estavam errados, argumentava; a única estratégia sensata continuava sendo a de acabar com O crescimento populacional tão rápida e humanamente quanto possível. RESPOSTAS A THE LIMITS TO GROWTH À medida que o número de novos Jeremias proliferava, o mesmo ocorria com as hostes de seus críticos. Numa análise dessas críticas, Sills sugere que havia duas posições analiticamente distintas no que diz respeito à natureza do problema ambiental: pessimismo e otimismo. 50 Por essa definição os ambientalistas eram pessimistas e os críticos do movimento, otimistas. Os dois lados diferiam quanto às projeções sobre recursos naturais, alimentos, poluição e população; a crítica mais comum aos ambientalistas era a de que eram alarmistas, uma visão contida numa análise freqüentemente citada de The Limits to Growth: "The Computer That Printed Out W*O*L*F*".*/51 The Limits to Growth em si tornou-se um assunto notável de debate e crítica. As invectivas eram particularmente dirigidas à recomendação de uma política abrangente de não-crescimento; não apenas isso produziria uma recessão industrial de grandes proporções nos países mais desenvolvidos, mas colocaria um freio no desenvolvimento dos menos desenvolvidos. Os modelos WorId começavam com uma receita de apocalipse, argumentava O'Riordan, "e só se pode pressupor que esse programa enormemente complicado de computador foi produzido para estimar o momento do resultado cataclísmico que foi assim pré-determinado"; a "paixão evangélica por uma 'operação de comandos' que fizesse despertar a Terra", de Peccei, mandou ainda mais às favas uma certa dose de cautela científica. O relatório interessava aos políticos conservadores de linha dura, que "buscavam uma fundamentação politicamente respeitável para bloquear o que consideravam como reformas sociais excepcionalmente progressistas" .52 Em sua análise da 3ª Conferência no Campo, da série

* Literalmente, "O Computador Que Imprimiu L*O*B*O*''. Há aqui um jogo "de palavras com a expressão cry wolf, que em inglês significa dar o alarme injustificadamente, numa referência à conhecida fábula do cordeiro que se divertia anunciando a chegada do lobo que não vinha. (N. do T.)

92 de 1970, o ambientalista britânico Robert Boote disse: "Se nós subestimamos a tarefa em 1963, isso não é motivo para aceitar o clamor dos neo-malthusianos de que estamos diante de um apocalipse iminente."54 A visão marxista era que a ideologia de The Limits to Growth visava quebrar a resistência da classe trabalhadora à autoridade." The Limits to Growth (e a "síndrome do apocalipse" em geral) também foi criticado por sugerir a inocuidade de se encaminhar uma ação fundamentada e por ignorar a capacidade dos seres humanos para realizar adaptações políticas e sociais 55 (ver debate de Kahn e Simon no capítulo 7). Forrester provavelmente tinha interesse em promover a metodologia da dinâmica de sistemas, comentam os autores de Global 2000, enquanto os membros da equipe de Meadows "provavelmente tinham aspirações menos definidas. Eles eram relativamente jovens (idade média abaixo de trinta anos) e, na sua maior parte, no início de suas carreiras. Meadows e sua esposa haviam acabado de retornar de uma temporada de um ano na Ásia, durante a qual passaram a se preocupar com os problemas de desenvolvimento e meio ambiente, e estavam ansiosos para explorar as causas e soluções de tais problemas. A maioria dos membros da equipe tinha treinamento formal em ciência, engenharia ou dinâmica de sistemas, e não em ciências sociais".56 Significativamente, a equipe de 17 membros consistia de dez americanos, três alemães, um norueguês, um turco, um iraniano e um indiano; em outras palavras, inclinava-se fortemente na direção dos Estados Unidos, tinha pouca representação do Terceiro Mundo e nenhum membro dobloco do Leste. A crítica mais abrangente a The Limits to Growth foi a empreendida em 1972 por treze ensaístas associados à Unidade de Pesquisa em Ciência Política da Universidade de Sussex, na Grã-Bretanha.57 Seu relatório se concentrava nas fraquezas da metodologia da análise do MIT, no valor técnico do modelo e nos valores ideológicos dos seus criadores. Os autores de Sussex enfatizavam que não estavam subestimando a importância positiva do trabalho do MIT e reconheciam que, em conseqüência de terem lido The Limits to Growth, muitas pessoas estavam pensando e discutindo os problemas; "em particular, estão discutindo mais uma vez se o mundo é passível ou não de se deparar com limites físicos".58 O debate público aberto que cercou o trabalho do MIT foi sua conquista mais importante, argumentava a equipe de Sussex. (Ao chegar o final dos anos 70, cerca de 4 milhões de cópias de The Limits to Growth haviam sido vendidas em trinta línguas.)59 A equipe argumentava que as ciências sociais poderiam se beneficiar com o uso da modelagem computacional, mas que os modelos tinham suas limitações. A equipe do MIT havia se atribuído a tarefa de traçar um modelo no qual as relações eram uma representação precisa do mundo real como este se apresentava em 1970, mas o modelo não conseguiu atender às exigências. O problema básico residia numa carência de dados (pela qual a equipe do MIT não poderia ser responsabilizada e que ela mesma admitia), nas pressuposições feitas sobre as relações, na escolha das pressuposições e no relativo desprezo em relação à economia e à sociologia. Daí vinha a perigosa auto-ilusão da afirmação de Meadows, na introdução de The Limits to Growth, de que "os modos de comportamento básicos que já observamos neste modelo parecem ser tão fundamentais e gerais que não esperamos que nossas conclusões mais amplas sejam substancialmente alteradas por revisões posteriores” 60 A equipe de Sussex argumentava que era "essencial examinar a predisposição política e os valores implícita ou explicitamente presentes em qualquer estudo de sistemas sociais. A aparente neutralidade distanciada de um modelo de computador tanto é ilusória quanto persuasiva". Enfatizando que atitudes e valores subjetivos influenciam as previsões (e de fato admitindo que suas próprias visões sobre The Limits to Growth refletiam suas predisposições políticas e limitações subjetivas), a equipe de Sussex identificou uma segunda fraqueza importante - "o fetichismo do computador, [o qual] ( ... ) concede ao modelo computacional uma validade e um poder independente que transcendem inteiramente os modelos mentais, os quais são sua base essencial".61 93 As visões da equipe de Sussex diferiam em três aspectos fundamentais das da equipe doMIT:

1) Havia uma ênfase muito maior nos limites políticos e sociais do crescimento do que nos limites puramente físicos (a pobreza, argumentavam, era um problema maior, diante do qual a meta do MIT de crescimento zero não era o ideal); "o debate do crescimento versus não-crescimento tornou-se bastante estéril ( ... ) porque tende a ignorar as questões realmente importantes da composição do crescimento nos seus resultados e da distribuição dos frutos do crescimento". O problema era estimular uma distribuição mais equitativa. 2) O grupo do MIT estava subestimando as possibilidades de um progresso técnico continuado. A equipe de Sussex argumentava que "a inclusão do progresso técnico no modelo do MIT em setores dos quais ele é omitido tem o efeito de adiar indefinidamente as catástrofes que o modelo de outro modo prevê". Estudos feitos cem anos antes do estudo do MIT (o qual fazia previsões para daqui a 130 anos) não poderiam ter previsto a dependência do petróleo e o crescimento da energia nuclear, argumentava a equipe de Sussex. 3) A equipe de Sussex não estava inteiramente convencida de que os modelos de mundo baseados na dinâmica de sistemas poderiam desenvolver-se a ponto de se tornarem instrumentos satisfatórios de previsão e planejamento de políticas. Robert Golub, um físico em Sussex, argumentava que a abordagem do MIT era inerentemente perigosa, porque dava aparência espúria de conhecimento preciso a quantidades e relações que eram desconhecidas (e muitas vezes impossíveis de conhecer), estimulava um excesso de simplificação grosseiro e incentivava o desprezo por fatores difíceis de quantificar, tais como mudanças de política ou valores sociais.62 Não havia dúvida de que o crescimento exponencial não poderia continuar indefinidamente, mas a equipe de Sussex opunha-se particularmente à alegação do MIT de que o crescimento existente deveria acabar dentro do período de vida de muitas pessoas que viviam então e que, a não ser que medidas drásticas fossem tomadas, ocorreria o desastre global. The Limits to Growth foi, além disso, criticado por Sandbach 63 e O'Riordan 64 por basear todas as suas previsões nas reservas conhecidas de recursos (embora a equipe do MIT tenha tomado o cuidado de assinalar que novas descobertas "adiariam a carência, mas não a eliminariam”).65 Sandbach cita o exemplo de um estudo norte-americano de 1944 onde, se as reservas previstas de quarenta e uma matérias-primas tivessem permanecido estáticas, 21 delas estariam exauridas já em 1980. 66 O progresso tecnológico tem demonstrado repetidamente que se tornou mais fácil extrair e substituir os recursos, que a eficiência dos processos industriais cresceu 67 e que o volume de recursos exploráveis conhecidos muitas vezes cresceu junto com a demanda. Hoje em dia já está claro que os modelos do MIT foram construídos numa época em que a compreensão dos processos ambientais e das questões dos recursos era incompleta (permanece incompleta atualmente), quando a modelagem computacional estava em sua infância e quando as percepções tinham alta probabilidade de serem influenciadas pelo desalento malthusiano predominante na época. As fraquezas do The Limits to Growth não residem tanto em suas conclusões mais amplas (embora muitas delas fossem contestadas), mas sim na sua metodologia. Alguns críticos sentiam que o método era simples demais e, portanto, insuficiente para propiciar diretrizes de política. Outros ainda achavam que, já que The Limits to Growth era basicamente uma versão "sensacionalizada" do World 94 Dynamics, sua publicação poderia ter sido adiada até que alguns dos seus problemas estruturais tivessem sido resolvidos.68 A equipe de Sussex não era ela própria imune às concepções equivocadas. Ao criticar o subsistema de poluição do modelo do MIT, eles argumentaram que "a maioria dos desastres causados pelos poluentes materiais tem grande probabilidade de ser local ( ... ) ou de ser causada por um poluente ou classe de poluentes". Ao agrupar todos os poluentes, argumentava a equipe de Sussex, "e pressupor que os mesmos se comportam de alguma maneira cumulativa, desvia-se a atenção de problemas que são urgentes e ainda solúveis, e se a dirige para a especulação sobre uma corrida imaginária contra o tempo entre a "Vida" e a "Asfixia Global". Justamente enquanto a equipe escrevia surgiram crescentes evidências do problema emergente da poluição ácida (a equipe do MIT havia mencionado a poluição de dióxido de enxofre), que acabou por desmentir a alegação da equipe de Sussex; a acidez pode ser causada por uma classe de

poluentes, mas as vias dos danos causados são enormemente complexas e o problema não é inteiramente local, e nem sempre passível de solução local.69 Uma década depois, os autores de Global 2000 criticaram os modelos World 2 e 3 por uma variedade de razões. "São modelos gerais estrategicamente orientados e não fazem qualquer tentativa de desenvolver análises detalhadas específicas. Familiarizam os usuários com as tendências básicas dos sistemas de população-recursos-meio ambiente, mas não dizem nada em relação aos problemas de regiões específicas”.70 Outros problemas identificados pelo Global 2000 incluem os seguintes: os modelos são baseados numa série de pressuposições controversas (inclusive a incapacidade da tecnologia de minorar os limites naturais do crescimento); concentram-se nos recursos minerais sem dar atenção aos combustíveis fósseis; omitem fatores sociais, tais como distribuição de renda e a ordem internacional, os quais "podem colocar problemas de limitação muito antes que os limites físicos propriamente ditos sejam alcançados"; sofrem as conseqüências de uma base de dados fraca e de um agrupamento de itens com comportamento dessemelhante no subsistem a da poluição; e deixam de levar em consideração possíveis mudanças qualitativas na natureza do crescimento econômico que poderiam torná-Io uma sobrecarga menor em relação aos recursos limitados. Global 2000 concluiu que, embora os modelos World tenham ajudado a esclarecer a natureza dos problemas globais de longo prazo, "suas limitações os tornam inadequados como instrumentos básicos de análise ou como instrumentos para análises detalhadas de problemas globais e suas soluções".71 Para Hecox, a contribuição duradoura de The Limits to Growth reside mais nas questões que levantou do que nas respostas que forneceu e mais no direcionamento da atenção pública para questões cruciais dos futuros globais do que em suas descrições específicas.*/72 A SÍNDROME DO APOCALIPSE Se os profetas do apocalipse fizeram surgir uma refutação científica fundamentada e análises de alto nível intelectual, atraíram também ataques apaixonados e ocasionalmente reacionários ao seu alarmismo. Se é possível identificar um porta-estandarte dos críticos do apocalipse, este foi provavelmente John Maddox, o editor do periódico científico britânico Nature. A primeira linha de seu livro de 1972, The Doomsday Syndrome, diz: "Este não é um trabalho intelectual mas sim uma queixa."73 Ele se opunha aos modelos e ensaios que ignoravam as formas pelas quais as "instituições sociais e as aspirações
* O Clube de Roma patrocinou uma seqüela mais otimista a The Limits to Growth, intitulada Mankind at the Turnlng Point, de Mihaljo Mesarovic e Eduard PesteI (Nova York: Dutton, 1974). Dividindo o mundo em sub-regiões, esta oferecia uma técnica de projeções através das quais os elaboradores de políticas poderiam de fato testar suas estratégias. Deliberadamente discreto, o relatório foi praticamente ignorado.

95 humanas podem conspirar para resolver os problemas mais aterrorizantes". Achava que o debate do apocalipse era dogmático demais - ou tinha-se uma visão de longo prazo e a favor da preservação do meio ambiente, ou era-se uma pessoa sem coração e contra a mesma. Ao disseminar o desalento e o alarme, argumentava, a síndrome do apocalipse poderia minar a capacidade da raça humana de cuidar da sua sobrevivência e "ser um risco igual a qualquer dos impasses que a sociedade havia criado para si mesma". Maddox via com ceticismo os valores e a história de todo o movimento ambiental: o argumento ambiental a favor do Tratado de Proibição dos Testes de 1963 foi aceitável aos signatários somente porque estes já haviam, na época, atingido os objetivos estratégicos do programa de testes; Rachei Carson tinha, em certa medida, induzido seus leitores a um erro grave e a influência de Silent Spring advinha muito da "técnica de superdramatização calculada" de Carson; e a afirmação de que a decisão do Congresso dos EUA, em 1971, de abandonar seu projeto de SST foi uma vitória ambiental não era bem colocada - muito mais importante foi a resistência do Congresso a ser coagido a concordar com um projeto de desenvolvimento cujos benefícios econômicos eram questionáveis. Outros críticos do apocalipse eram menos reservados em seus ataques. Poucos foram mais indignados do que Thomas R. Shepard, Jr., o editor da revista Look. Em seu notável livro de 1973, The Doomsday Lobby, em co-autoria com Melvin Grayson, ele permitiu claramente que a revolta o desviasse do caminho da razão. Invectivas particularmente violentas eram dirigidas a Silent Spring. Os dois homens argumentavam que o livro era um ataque à comunidade empresarial, um ataque ao progresso científico e

tecnológico, um ataque aos Estados Unidos e um ataque ao próprio homem. Rachel Carson tornara-se a porta-estandarte do estandarte da "brigada acadêmica de esquerda". (Só não chegaram a chamá-Ia de comunista.) Milhões de norte-americanos haviam comprado o livro "tão avidamente quanto as Hausfrauen rechonchudas da Bavária haviam comprado o lixo de Adolf Hitler e, em grande parte, pelo mesmo motivo". Em 1961, relataram, houve 110 casos registrados de malária no Sri Lanka (então Ceilão) e nenhuma morte; em 1968, houve 2,5 milhões de casos e dez mil mortes. Muitos acreditavam, escreveram Greyson e Shepard, que esses novos casos e mortes poderiam ser atribuídos, em grande medida, ao impacto de Silent Spring, por ter levado a uma proibição do DDT. Era, eles escreviam, "O Livro Que Matava".74 Shepard pode ter-se mostrado transtornado, mas suas visões eram apenas uma sombra das de Petr Beckmann, um engenheiro elétrico da Universidade do Colorado. Em seu livro Eco-hysterics and the Technophobes, 75 ele se declarava desobrigado a observar as delicadezas da etiqueta científica porque não estava discutindo com cientistas, mas sim com "fanáticos obscurantistas" pregando "incoerências violentas". Para ele, The Limits to Growth era "um dos maiores aleijões concebidos pela filosofia do apocalipse", a palavra ecologia havia perdido todo o seu sentido e os profetas do apocalipse eram ignorantes no que diz respeito à demografia, economia e ciência. Não tinha nenhuma pendência quanto à idéia de que o meio ambiente deveria ser protegido e preservado, mas achava que os "ecoloucos" e o "ecoculto" haviam chegado para dominar o movimento ambiental, a ponto de fazer com que o movimento começasse a degenerar para uma tecnofobia cega. A própria ciência estava sob ataque, escreveu; os ambientalistas estavam cerceando a atividade científica e reduzindo as novas matrículas nas escolas de física e engenharia. O prêmio Nobel Norman Borlaug (pai da Revolução Verde) finalmente acabou integrando-se à refrega, denunciando os "ambientalistas histéricos" por tentarem impedir o uso de produtos químicos agrícolas. "Sé for negado à agricultura", continuava, "o uso de produtos químicos agrícolas por causa de uma legislação imprudente que está sendo agora promovida por um grupo poderoso de lobbysts histéricos, os quais estão provocando o medo ao prever o apocalipse para o mundo através de envenenamento químico, mundo estará condenado não por envenenamento químico, mas pela fome."76 96 Além dessas visões, havia evidências crescentes do surgimento do que Killian chama de um "movimento contra-social".77 Em certo nível o ambientalismo despertava a ira daqueles que acreditavam na santidade dos "valores tradicionais", tais como o direito de determinar o tamanho da própria familia. Em outro nível foram feitas tentativas de relacionar o movimento ambiental a uma conspiração maior. As Filhas da Revolução Americana achavam que o Dia da Terra era subversivo; um administrador estadual da Geórgia montou uma pequena campanha para chamar atenção para o fato de que o Dia da Terra coincidia com o aniversário de Lênin; 78 o presidente da Associação Americana do Carvão advertiu que o movimento ambiental poderia se radicalizar a ponto de poder enfraquecer os Estados Unidos, ao negar ao país os minerais necessários e outros recursos.79 Finalmente, havia a questão da "poluição versus folha de pagamento", na qual muitas indústrias ameaçadas argumentavam que não poderiam continuar a operar se fossem forçadas a se adequar a controles ambientais severos e que portanto muitos de seus empregados perderiam seus empregos.80 Não há mais nenhuma dúvida de que alguns dos profetas exageraram o problema em certa medida. Ambientalistas mais tradicionais podem ter temido que a síndrome do apocalipse faria mais mal do que bem à causa ambiental. Robert Allen, um dos autores de A Blueprint for Survival, observou que a maioria dos ecologistas classificava a si mesma como moderada.81 Maddox advertiu que o movimento ambiental poderia se ver na posição de "cair com a cara no chão quando era mais necessário, simplesmente por ter vendido seu peixe com excessiva energia". 82 Daniel Luten, presidente dos Amigos da Terra, refletia, em 1985, que os profetas previram uma crise imediata "porque estavam com medo de que. a fixação da atenção do público não duraria o suficiente para que se examinassem as questões mais profundas que eles achavam necessitar de atenção. Quando não houve crise imediata, ficaram desacredítados"83. Para sermos justos, a maioria dos profetas estava delineando cenários que ilustravam o que poderia acontecer, não o que necessariamente viria a acontecer. Os autores de The Limits to Growth enfatizaram (nitidamente com pouco efeito) que "nossa postura é de preocupação muito grave, mas não de desespero".84 É verdade que os modelos e ensaios traçavam quadros sombrios e algumas das profecias se revelaram falsas, engendrando a dúvida; ainda assim, os profetas fizeram com que as pessoas pensassem. Pode ter sido rude - ou mesmo uma aposta perigosa - usar tais táticas de choque, mas o intenso interesse gerado em torno da saúde do meio

ambiente, mesmo que muitas vezes carecesse de sustentação científica digna de crédito e se apoiasse fortemente demais na postulação, não obstante abriu caminho para uma mudança nas atitudes sociais e, subseqüentemente, políticas. Como Smith, Malthus, Mill, Marx e Keynes antes deles, os novos profetas do apocalipse desencadearam um debate acalorado, de modo que seus argumentos se tornaram menos importantes do que os efeitos dos mesmos. Em A Miséria da Filosofia Marx observou quanto ao livro de Malthus sobre população que "na sua primeira edição, não era nada além de um 'panfleto sensacionalista' e, de quebra, um plágio do começo ao fim. E mesmo assim, que estímulo foi produzido por esse libelo sobre a raça humana!”85 Quaisquer que sejam as inexatidões e ilusões que marcaram os escritos de Ehrlich, Commoner, Hardin, Meadows e outros, a sua contribuição para o Novo Ambientalismo foi a de ter incitado as pessoas a pensarem sobre essas questões. Nesse sentido os profetas do apocalipse tiveram êxito nas metas que se propuseram. 97

CINCO A Conferência de Estocolmo (1970-1972)
Duas conferências internacionais foram realizadas em 1968 e em 1972 para avaliar os problemas do meio ambiente global e; mais importante, sugerir ações corretivas. A primeira foi a Conferência da Biosfera, realizada em Paris em setembro de 1968. Concentrando-se sobre os aspectos científicos da conservação da biosfera, a conferência foi em parte o produto do aumento da coordenação na pesquisa ecológica encorajado pelo Programa Biológico Internacional (ver capítulo 3). A segunda foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em junho de 1972. Estocolmo foi sem dúvida um marco fundamental no crescimento do ambientalismo internacional. Foi a primeira vez que os problemas políticos, sociais e econômicos do meio ambiente global foram discutidos num fórum intergovernamental com uma perspectiva de realmente empreender ações corretivas. A conferência objetivava "criar no seio da ONU bases para uma consideração abrangente dos problemas do meio ambiente humano" e "fazer convergir a atenção de governos e opinião pública em vários países para a importância do problema".1 O evento resultou diretamente na criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP - United Nations Environmental Programme). E marcou igualmente uma transição do Novo Ambientalismo emocional e ocasionalmente ingênuo dos anos 60 para a perspectiva mais racional, política e global dos anos 70. Acima de tudo, trouxe o debate entre os países menos desenvolvidos e mais desenvolvidos - com suas percepções diferenciadas das prioridades ambientais - para um fórum aberto e causou um deslocamento fundamental na direção do ambientalismo global. A CONFERÊNCIA DA BIOSFERA A Conferência da Biosfera deu continuidade ao tema da cooperação internacional em pesquisa ecológica, que havia sido inicialmente explorado na UNSCCUR, em 1949. Na conferência sobre os parques nacionais de 1962, em SeattIe, foi cogitada a realização de um encontro semelhante sobre espécies em extinçâo.2 Isso foi discutido na Assembléia Geral da IUCN de 1963 e em 1965-1966 foram traçados planos por um comitê organizador multi-ONGs. A UNESCO sugeriu então que era necessária uma conferência mais geral sobre uso e conservação racionais da biosfera, a fim de propiciar a persuasão das nações emergentes quanto às virtudes da conservação. A Conferência da Biosfera (a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para Uso e Conservação 98 Racionais dos Recursos da Biosfera) foi realizada em Paris, sob os auspícios da UNESCO, de 12 a 13 de setembro de 1968. A biosfera foi definida como "aquela parte do mundo na qual a vida pode existir, incluindo-se portanto certas partes da litosfera, da hidrosfera e da atmosfera".3 A conferência discutiu o impacto humano sobre a biosfera, incluindo os efeitos da poluição do ar e da água, o excesso de pastagens, o desmatamento e a drenagem das wetlands. Vários temas emergiram do debate sobre os relatórios nacionais distribuídos na conferência:

1) Ainda que algumas mudanças no meio anibiente venham ocorrendo há décadas ou mais, as mesmas parecem ter atingido um patamar crítico. 2) Nos países industrializados isso estava "causando preocupação e exigência popular por correção". 3) Paralela a essa preocupação estava a compreensão de que os caminhos tradicionais de desenvolvimento e uso dos recursos naturais tinham que ser alterados, com o desenvolvimento descuidado sendo substituído pelo desenvolvimento que reconhecesse que a biosfera era um sistema, o qual podia ser afetado em seu todo pelas atividades desenvolvidas em qualquer uma de suas partes. 4) Era necessário um novo enfoque interdisciplinar para o uso planejado dos recursos naturais; as ciências naturais e a tecnologia não podiam resolver sozinhas os problemas de administração de recursos - as ciências sociais também deveriam ser consideradas. 5) Era necessário um vasto montante de novas pesquisas nos países mais desenvolvidos e nos menos desenvolvidos; posto que não há solução universal para os problemas da biosfera, compreensão e técnicas teriam que ser adaptadas às áreas no interior dos países e às regiões formadas por dois ou mais países. A conferência chegou a um acordo sobre uma lista de vinte recomendações. As oito primeiras eram baseadas na necessidade de mais e melhores pesquisas sobre ecossistemas, ecologia humana, poluição e recursos genéticos e naturais, e sobre a necessidade do desenvolvimento de práticas de inventário e monitoração de recursos. As recomendações de 9 a 13 defendiam a necessidade de novos enfoques para a educação ambiental. A proposta da realização de uma conferência sobre o meio ambiente humano havia sido então adotada pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC); os delegados em Paris receberam bem essa proposta, percebendo que o uso e conservação racionais do meio ambiente humano dependiam não só das questões científicas, mas igualmente das dimensões política, social e econômica, que estavam fora da esfera de ação da conferência de Paris. A recomendação 19 percebia a necessidade de levar em consideração os impactos ambientais dos projetos de desenvolvimento de grande escala. Os delegados temiam que a industrialização e a exploração intensiva dos recursos naturais .em países menos desenvolvidos pudessem causar danos irreparáveis em ambientes pouco perturbados e ecologicamente frágeis e, assim, inibir o desenvolvimento sócio-econômico. Um resultado importante da Conferência da Biosfera foi a ênfase sobre o caráter inter-relacionado do meio ambiente. Os delegados concluíram que a deterioração do meio ambiente era culpa do crescimento populacionaI, urbanização e industrialização rápidos. Um vasto movimento de êxodo rural havia provocado o desaparecimento de tradições, direitos costumeiros e mudanças em estilos de vida, trazendo problemas particularmente sérios para os países menos desenvolvidos. O mundo "carecia de políticas ponderadas e 99 abrangentes para a administração do meio ambiente. Está agora perfeitamente claro que políticas nacionais são obrigatórias se o que se pretende é restaurar e preservar a qualidade ambiental" .4 As recomendações 1 e 20 defendiam a criação de um novo programa de pesquisa internacional sobre o homem e a biosfera. "Muitas das mudanças produzidas pelo homem afetam a biosfera como um todo", observou a conferência, "e estão agora confinadas dentro de fronteiras regionais ou nacionais ( ... ) Esses problemas não podem ser resolvidos em nível regional, nacional ou local e portanto requerem atenção numa escala global."5 O Programa Biológico Internacional deveria terminar em 1974. Seu começo fora auspicioso, mas era uma iniciativa não-governamental e, como tal, tinha capacidades limitadas. A UNESCO acreditava que o IBP deu muito pouca ênfase ao estudo de áreas em que ecossistemas vizinhos se encontram, isso por ter sido implementado somente por especialistas em ciências naturais, dar pouca im portância aos dados econômicos e sociais no estudo dos ecossistemas e carecer de um componente de instrução e treinamento.6 Foi discutido um sucessor para o IBP, e o programa O Homem e a Biosfera (MAB - Man and lhe Biosphere) foi finalmente lançado em novembro de 1971 (ver capítulo 9).

PREPARATIVOS PARA ESTOCOLMO O significado da Conferência da Biosfera é geralmente negligenciado, principalmente por causa do impacto público e político muito maior da conferência de Estocolmo de 1972. Contudo, algumas iniciativas atribuídas a Estocolmo foram, em alguns casos, somente expansões de temas levantados em Paris. Alguns dos fundamentos intelectuais de Estocolmo refletiam os de Paris e algumas dentre as recomendações eram comuns a ambas as conferências. A diferença real reside no fato de que, enquanto Paris se voltou para os aspectos científicos dos problemas ambientais, Estocolmo se preocupou com questões políticas, sociais e econômicas mais amplas. Isso não somente produziu um maior envolvimento das ONGs (isto é, o movimento dos cidadãos) nas discussões, como também deu oportunidade a coberturas jornalísticas mais dramáticas. Se houve alguma questão isolada que tenha gerado Estocolmo, foi a questão da poluição ácida. Pesquisas realizadas na Suécia durante o final da década de 60 haviam revelado um preocupante aumento na acidez da chuva que caía na região (ver capítulo 9), impelindo os cientistas suecos a reivindicar ação preventiva. Sverker Astrom, embaixador sueco na ONU, submeteu uma proposta de realização de uma conferência internacional numa· resolução apresentada ao ECOSOC em julho de 1968. Doud sugere que a velocidade com que a resolução foi adotada pela Assembleía Geral, no mês de dezembro seguinte, refletiu, em alguma medida, o impacto do Novo Ambientalismo.7 A resolução enfatizava o trabalho ambiental que já era empreendido pelas organizações intergovernamentais (OIGs), pelas ONGs e pelos órgãos especializados da ONU (na realidade, listava OIT, FAO, UNESCO, OMS, WMO, IMCO e IAEA, o que sugere uma definição muito vaga do que constituía a "atividade ambiental"). A conferência, continuava a resolução, era necessária para fornecer uma perspectiva segundo a qual a ONU pudesse avaliar de maneira abrangente os problemas do meio ambiente humano e fazer convergir a atenção de governos e opinião pública. */8 Deveria também identificar aqueles aspectos que só poderiam ser resolvidos ou que melhor se resolveriam através do acordo e da cooperação internacionais.9 Esse era o ponto crítico. O fato de que a poluição ácida - uma questão transnacional - tenha
* Assim como ocorreu com a UNSCCUR em 1949, a conferência de Estocolmo foi inicialmente convocada para chamar a atenção sobre uma questão, mas não necessariamente para recomendar ação. Foi somente em 1970 que conversas sobre ação entraram nas deliberações do comitê organizador.8

100 contribuído para concretizar a conferência não se tratava de coincidência; na época os ambientalistas europeus e americanos estavam preocupados com a poluição e, numa medida menor, com a destruição das áreas virgens. Mas o mais importante produto das discussões pré-conferência foi o novo e tenaz papel dos países menos desenvolvidos no debate ambiental. A poluição, um problema dos países industrializados, pode ter sido a centelha da conferência, mas os países menos desenvolvidos utilizaram seu poder de voto na Assembléia Geral-para assegurar que a perspectiva do Terceiro Mundo fosse apreciada desde o início. A resolução da Assembléia Geral expressava a esperança de que os países menos desenvolvidos "obteriam benefício particular da mobilização de conhecimento e experiência sobre os problemas do meio ambiente humano, o que os capacitaria ( ... ) a prever e impedir a ocorrência de muitos desses problemas".10 As resoluções subseqüentes da Assembléia Geral das Nações Unidas e do ECOSOC refletiam a cautela do Terceiro Mundo quanto à filosofia do crescimento zero que gerou lhe Limits to Growth. Um relatório sobre os progressos na preparação da conferência em julho de 1970 advertia para o fato de que a popularização dos problemas ambientais "aumentou o perigo de uma concentração sobre os aspectos mais espetaculares da deterioração ambiental (tais como a poluição) nuns poucos países avançados, em detrimento de aspectos menos óbvios de natureza econômica e cultural". Era necessário um programa de informação dirigido a legisladores, planejadores de políticas governamentais e líderes da indústria e da agricultura para colocar em perspectiva questões tais como a poluição e chamar atenção para os problemas ambientais dos países menos desenvolvidos. 11 Esses países temiam claramente que as salvaguardas e restrições ambientais impostas pelas nações industrializadas retardassem o desenvolvimento, que pudessem advir restrições comerciais quando os países mais desenvolvidos proibissem a importação de comida contaminada por pesticidas e que não pudessem se beneficiar da administração dos recursos naturais compartilhados. "Debates sobre a teoria do apocalipse, os

limites do crescimento, a explosão populacional e a conservação da natureza e dos recursos naturais," observava o UNEP, "eram em grande parte encarados como acadêmicos e sem grande interesse para aqueles confrontados com as realidades diárias da pobreza, fome, doença e sobrevivência”12. Ainda muito mais urgentes eram as questões da baixa expectativa de vida, de carências básicas como abrigo, água potável, saneamento adequado e, acima de tudo, da necessidade de alimentar e empregar um número rapidamente crescente de pessoas. Havia uma forte tentação para os países pobres de concentrar toda sua energia e todos os seus recursos na solução a curto prazo desses problemas, e de se preocupar com quaisquer dos problemas ambientais resultantes num estágio posterior. Por outro lado, alguns dos governos do Terceiro Mundo sentiram que poderiam aprender com os erros ambientais cometidos pelo mundo industrializado. Em dezembro de 1971, a Assembléia Geral aprovou uma resolução em grande parte devotada a descrever em linhas gerais as restrições feitas pelos países menos desenvolvidos. Esta reforçava que o plano de ação de Estocolmo devia reconhecer que "nenhuma política ambiental deveria afetar de modo adverso as possibilidades de desenvolvimento presentes e futuras dos países em desenvolvimento ( ... ) [e que] o fardo das políticas ambientais dos países desenvolvidos não pode ser transferido ( ... ) aos países em desenvolvimento".13 O Reino Unido e os Estados Unidos foram os dois únicos países a votar contra essa resolução.*/14 Muitas das preocupações dos países menos desenvolvidos surgiram quando dos dois
* Os países mais desenvolvidos tinham aparentemente suas próprias preocupações sobre o que a conferência poderia realizar. Pouco antes da conferência, o Ecologist sugeriu que os países mais desenvolvidos estavam "ansiosos para limitar tanto quanto possível a ação internacional sobre o meio ambiente no que se refere a medidas antipoluição, (temendo) que a conferência se tomasse em mais outra plataforma para a reivindicação de maior ajuda econômica por parte dos países pobres".

101 encontros preparatórios realizados durante o ano de 1971: a Mesa-Redonda de Especialistas em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Founex, Suíça, de 4 a 12 de junho) e o grupo de trabalho do SCOPE/UNCHE (Scientific Committee on Problems of the Environment/United Nations Conference on the Human Environment) sobre problemas ambientais em países menos desenvolvidos (Canberra, Austrália, de 24 de agosto a 3 de setembro). A mesa-redonda de Founex tentou assegurar aos países menos desenvolvidos que a proteção ambiental não entraria em conflito com seus interesses, não afetaria sua posição no comércio internacional e que eles poderiam manter seu desenvolvimento industrial ao mesmo tempo que evitavam as ciladas experimentadas pelo mundo mais desenvolvido. Em vez de uma confrontação entre desenvolvimentistas e conservacionistas, observa Rodgers, "o que emergiu foi um consenso forjado sob a liderança dos economistas do desenvolvimento do Terceiro Mundo, os quais identificam o meio ambiente como uma dimensão crítica do desenvolvimento bem-sucedido".15 Founex, argumentam Holdgate e colegas, começou a esclarecer as ligações entre meio ambiente e desenvolvimento, destruiu a idéia de que esses conceitos eram necessariamente incompatíveis e começou a convencer os representantes dos países pobres de que as preocupações ambientais eram mais disseminadas e mais relevantes para sua situação do que haviam avaliado e não deveriam constituir uma barreira para o desenvolvimento, porém ser parte do processo.16 Maurice Strong,* que havia convocado o encontro de Founex e era o secretário-geral designado da conferência de Estocolmo, tomou parte na criação de um Comitê Preparatório de vinte e sete nações para organizar Estocolmo e elaborar uma agenda. As restrições dos países menos favorecidos, ele recordou mais tarde, "tornaram claro que pensavam que o subdesenvolvimento e a pobreza constituíam a ameaça mais pungente e imediata ao meio ambiente de seus povos". Como resultado, a agenda da conferência e o próprio conceito de meio ambiente foram ampliados para incluir questões como deterioração do solo, desertificação, administração do ecossistema tropical, suprimento de água e assentamentos humanos. Os países menos desenvolvidos "haviam forçado um reconhecimento claro da relação entre meio ambiente e desenvolvimento" .17 Uma agenda para a conferência foi acertada no encontro de fevereiro de 1971 do Comitê Preparatório. Incluía administração dos assentamentos humanos, administração de recursos naturais, controle de poluentes, educação e informação, e meio ambiente e desenvolvimento. A atenção se voltou então para a questão dos arranjos institucionais necessários para dar seguimento à conferência. Chegou-se a um acordo de que alguma estrutura nova era necessária, mas não houve concordância quanto à forma que deveria assumir. Em sua terceira sessão, em julho de 1971, o Comitê Preparatório recebeu um relatório do secretário-geral da ONU em final de mandato, U Thant, que esboçava

critérios para esses arranjos. Tais critérios incluíam uma disposição pela qual "todas as funções que pudessem ser mais bem desempenhadas por organizações existentes deveriam ser atribuídas a essas organizações, tanto internacionais quanto nacionais, com melhor capacidade de cumpriIas efetivamente. Nenhum mecanismo novo desnecessário deveria ser criado" (ênfase minha).18 O relatório sugeria em seguida que seria mais lógico pensar em termos de organizações setoriais separadas, ligadas através de "painéis de controle", em vez de o serem em termos de um "superorganismo" global. Esta proposta contrastava de maneira marcada com uma proposta anterior do próprio U Thant de montar exatamente esse "superorganismo", a qual tinha-se claramente defrontado com a oposição ativa dos órgãos existentes da ONU.19 Qualquer centro gerador de políticas, advertia o relatório, "do qual se espera que influencie e coordene as atividades de outros órgãos, não deverá ter ele
* Maurice F, Strong (n, 1929) é homem de negócios canadense e milionário self-made com interesses numa variedade de empreendimentos, inclusive a Petro-Canadã, De 1966 a 1971 foi diretor-geral do Escritório Canadense de Ajuda Externa (mais tarde Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional), Foi o primeiro diretor-executivo do UNEP, de 1973 a 1975.

102 próprio funções operacionais que venham a competir de alguma maneira com as organizações sobre as quais conta exercer sua influência".20 Num maldisfarçado exercício da arte de vender, os organismos existentes da ONU expuseram sua argumentação num trabalho específico preparado antes da conferência para os governos. Redigido por uma comissão dos organismos da ONU, o documento consistia na defesa das atividades de proteção ambiental existentes da ONU. As mesmas eram sistemáticas, observava o relatório, e lidavam com uma variedade de problemas relacionados ao meio ambiente. Considerando a complexidade e variedade das questões, os arranjos cooperativos entre as organizações da ONU haviam viabilizado "um mecanismo dinâmico e efetivo".21 O modelo setorial da ONU ainda era o melhor enfoque para se tratar com um grande número de problemas ambientais, tanto nacional quanto internacionalmente, porque poderia "fornecer a flexibilidade requerida para ( ... ) combinar estas atividades setoriais" de modo ad hoc.22 Havia admitidamente lacunas (notadamente nas áreas da pesquisa, intercâmbio de dados e fornecimento de assistência técnica), novos terrenos ainda deveriam ser explorados e muitas questões recebiam um tratamento inadequado; o enfoque multidisciplinar só havia sido aplicado a um pequeno número de casos. Mas o reconhecimento de que muitos dos problemas do meio ambiente humano eram intersetoriais havia criado as condições para uma maior coordenação em áreas como desenvolvimento dos recursos hídricos, população e pesquisa ambiental. O relatório seguia descrevendo em termos gerais as atividades da ONU existentes no campo do meio ambiente humano, incluindo assentamentos humanos, administração de recursos naturais e poluição. Isso ajudaria os delegados de Estocolmo a apreciar plenamente o potencial oferecido pelo sistema da ONU para "esforços mundiais ampliados em direção a um meio ambiente humano melhor". O sistema da ONU não fora projetado para muitas das tarefas que então passava a assumir regular e efetivamente; entretanto, "novas responsabilidades não requerem automaticamente novas instituições e mecanismos, senão que significam uma adaptação dos mecanismos e arranjos existentes ( ... ) As instituições, a experiência e o alto nível de especialização necessários existem”23. Os órgãos especializados estavam claramente preocupados com a possibilidade de que alguma das mudanças acordadas em Estocolmo pudesse ameaçar sua futura independência.24 Essa inquietação não foi mencionada em fórum aberto em Estocolmo, mas aparentemente houve uma boa quantidade de discussões privadas durante a conferência, no sentido de mobilizar Maurice Strong a fazer uma declaração pública para a conferência sobre o fato de que a autoridade última para os programas permanecia com cada um dos órgãos especializa dos. 25 Um documento paralelo preparado pelo secretariado da conferência oferecia uma visão oposta à do relatório da ONU, argumentando que a descentralização não era a forma mais efetiva de administração. Recomendava o estabelecimento de um novo organismo intergovernamental no seio da ONU, apoiado num pequeno secretariado e num orçamento limitado. A população não seria uma de suas preocupações, já que a ONU tinha criado recentemente o United Nations Fund for Population Activities (UNFPA). Tanto a GrãBretanha quanto os Estados Unidos haviam promovido ativamente a idéia de um número limitado de arranjos institucionais, mas enquanto a Grã-Bretanha havia sugerido que nenhum fundo novo fosse criado para o trabalho ambiental da ONU, um comitê consultivo do Departamento de Estado americano havia recomendado um Fundo Voluntário para o Meio Ambiente, com um orçamento anual mínimo de cem milhões de dólares (dos quais a metade seria investi da em assentamentos humanos). Esse fundo poderia ser

administrado por um "executivo forte e de alto nível (isto é, um único funcionário apoiado numa pequena assessoria) para assuntos ambientais", estabelecido no escritório do secretário-geral da ONU.26 O comitê também recomendou a criação de um Orgão Intergovernamental das Nações Unidas para o Meio Ambiente como subsidiário da Assembléia Geral, a fim de aconselhar e apoiar o executivo. O comitê consultivo, que apresentou relatório em abril de 1972, sugeriu que a política de financiamento deveria ser formulada 103 através de avaliações nacionais baseadas na taxa de consumo de energia de cada país. Em fevereiro de 1972, o presidente Nixon tinha proposto a criação de um fundo apoiado em contribuições voluntárias dos membros da ONU, com o objetivo de cem milhões de dólares em cinco anos.27 Nesse ínterim, um grupo de trabalho havia sido criado pela Academia Nacional de Ciências (por solicitação do Departamento de Estado) para éxaminar a postura dos Estados Unidos na conferência. O grupo recomendou que, dados os objetivos difusos da conferência e a amplitude dos problemas ambientais, "nós não consideramos uma escolha entre a estrutura principal existente para a cooperação internacional, a ONU, e uma estrutura internacional nova, mas sim a emergência de federações flexíveis de redes de instituições - públicas e privadas, globais e regionais, permanentes e ad hoc - para lidar com os problemas ambientais internacionais".28 Recomendava ainda que os Estados Unidos advogassem um único ponto central no sistema da ONU para lidar com problemas ambientais, isto é, um conselho consultivo e de pesquisa independente, um sistema global de monitoração, um fundo ambiental e apoio ao trabalho de organizações transnacionais ou regionais para enfrentar problemas comuns onde as capacidades nacionais fossem inadequadas. O secretariado da conferência finalmente concordou que a forma da nova instituição não poderia ser decidida até que as funções a serem desempenhadas pela ONU fossem determinadas. Oitenta países submeteram relatórios nacionais ao Comitê Preparatório, seminários regionais foram realizados para discutir as reservas feitas pelos países menos desenvolvidos, bem como encontros para negociar a publicação de três novas convenções ambientais: a que tornava ilegal o despejo de resíduos no mar, a que conservava os sítios de valor como herança cultural ou natural e a que preservava wetlands e ilhas como áreas ecológicas de significação especial (ver capítulo 8). Preparativos como esses tornaram o andamento dos procedimentos em Estocolmo muito mais fácil. O que aconteceu na conferência foi somente a ponta do iceberg, observa Sohn: "toda uma montanha de árduo trabalho preparatório foi o pré-requisito necessário para o sucesso final".29 Os relatórios, em última análise, deram a Estocolmo um sentido de direção, fizeram convergir os pensamentos dos delegados e evitaram muito desperdício de tempo em discussões preliminares. O que Landsberg chama de "paciente trabalho missionário”30 de Maurice Strong havia também contribuído para evitar um desacordo maior entre os países mais e menos desenvolvidos. Strong havia enfatizado constantemente a compatibilidade entre o desenvolvimento e a qualidade ambiental em suas conversas preparatórias com os governos do Terceiro Mundo. Landsberg acredita que as discussões sobre desenvolvimento e meio ambiente em Founex, Canberra e em outros encontros tenham ajudado a reduzir o que de outro modo poderia ter sido "urna grande dose de controvérsia aguda e retórica em Estocolmo. De certo modo, estabeleceu-se a impressão de que todos esses problemas já haviam sido conversados e, com exceções, havia uma quase relutância em repassar uma vez mais o terreno já familiar".31 Restavam diferenças de opinião, mas estas não polarizaram irrecuperavelmente a conferência. Os temores de que os países menos desenvolvidos desprezassem as preocupações ambientais não se confirmaram.32 Em maio de 1971 Maurice Strong encarregou Barbara Ward e René Dubos* de preparar um relatório não oficial que proporcionasse aos delegados de Estocolmo os fundamentos intelectuais e filosóficos necessários para suas deliberações; Strong
* Barbara Ward (1914-1982), também conhecida como baronesa Jackson de Lodsworth, foi jornalista e escritora. Editora assistente do Economíst de 1940 a 1950, foi nomeada, em 1968, Schweitzer Professsor de Desenvolvimento Econômico Internacional na Universidade de Colurnbia. Em 1973 tomou-se presidente do IlED. Seus dois últimos livros foram The Home of Man (1976) e Progress for a Small Planet (1979). René Dubos (1901-1983), americano nascido na França, foi biólogo, filósofo e ganhador do prêmio Pulitzer.

104 descreveu-o como proporcionando "uma estrutura conceitual".33 O relatório, mais tarde publicado com o título de Only One Earth.34 foi revisto por um comitê de 152 consultores com conhecimentos em indústria,

pesquisa científica, planejamento, relações internacionais, economia e desenvolvimento. Todo esse trabalho de revisão e edição resultou num documento freqüentemente brando e retórico, ocasionalmente alarmista, que apresentava orientações gerais em vez de propostas específicas (as quais, supunha-se, deveriam derivar da própria conferência). O livro resumia a questão através do esboço de três requisitos muito amplos para o progresso futuro: "responsabilidade coletiva internacional" no sentido de aprender mais sobre os sistemas naturais e sobre como eles são afetados pela atividade humana e vice-versa; adoção de políticas globais (em vez de nacionais) e coordenadas sobre as questões de proporção global, tais como clima e oceano; e unidade de propósito baseada na "lealdade para com a Terra", isto é, a crença na necessidade de proteger e aprimorar o meio ambiente, e o reconhecimento do conceito da interdependência planetária da vida na Terra. Ward e Dubos criticaram as instituições internacionais existentes pela falta de "qualquer sentido de comunidade e compromisso planetários". Avaliaram separadamente as características dos problemas ambientais nos países mais e menos desenvolvidos. Poluição, desperdício e mau uso do solo, crescimento urbano, a sociedade de consumo e a pressão sobre os recursos estavam listados como "problemas da alta tecnologia", ou seja, dos países mais desenvolvidos. Pressões populacionais, os problemas potenciais da Revolução Verde, indústria e poluição, e crescimento urbano foram avaliados no contexto dos países menos. desenvolvidos. A despeito de sua natureza abrangente, Only One Earth foi bem recebido e propiciou um gancho filosófico útil para a conferência. Sua publicação foi empreendida por um novo instituto de pesquisa, o International Institute for Environment Affairs (IIEA), criado em 1972 sob o patrocínio do Instituto Aspen para Estudos Humanísticos, no Colorado. O IIEA deveria ajudar na preparação de Estocolmo e, a partir daí, dar seguimento às suas conclusões e, em alguma medida, atuar como uma ponte entre os países mais e menos desenvolvidos.35 Iria concentrar-se nos impactos sócio-políticos da administração ambiental e nas implicações da relação meio ambiente/sociedade, atuando como uma. fonte confiável de informação e como um ponto de convergência de comunicações para instituições, pessoas e idéias.36 Um memorando sobre uma proposta de estrutura para o IIEA observava que Estocolmo era uma oportunidade política premente para começar a encorajar uma cooperação internacional mais intensa no campo do meio ambiente, mas "existe um perigo real de que seu resultado possa vir a ser mais divisivo do que qualquer outra coisa. Quase que inevitavelmente, a Conferência de Estocolmo levará ao auge uma incipiente mas necessária coalizão política entre os objetivos ambientais e os objetivos de desenvolvimento ( ... ) irá, pelo menos, ter algum efeito sobre questões de padrões internacionais e de procedimentos de controle e, assim, sobre o direito internacional".37 Os fundamentos filosóficos do llEA se apóiam nos resultados de um estudo de praticabilidade que durou quatro meses e que foi conduzido entre fevereiro e maio de 1970 pela Fundação Anderson. O estudo descobriu que as instituições governamentais nacionais e internacionais estavam preocupadas quase que exclusivamente com os sintomas físicos da questão ambiental, ao invés das implicações sociais ou da mudança institucional; que o interesse público (ao menos nos Estados Unidos) se concentrava quase que inteiramente sobre problemas ambientais domésticos; e que, embora ocorressem fortes pressões para deter a degradação ambiental, poucas pressões eram exercidas no sentido da definição de valores ou para "ajudar a conduzir o 'movimento ambientalista' por caminhos construtivos e dinâmicos de reforma das atitudes, valores e instituições tradicionais".38 O llEA começou por promover, em Aspen, uma série de grupos de trabalho sobre a 105 administração internacional dos problemas ambientais e passou suas recomendações para os organizadores de Estocolmo. O co-presidente do IlEA, Robert o. Anderson (presidente da Atlantic Richfield e financiador inicial do instituto) acreditava que o mesmo deveria "manter a embarcação firme num curso intermediário entre os alarmistas da ruína e do desânimo e aqueles que resistem a reconhecer o perigo claro ao qual o meio ambiente humano está sendo exposto".39 Em janeiro de 1973 Barbara Ward tornou-se presidente do instituto em tempo integral, mudando sua sede para Londres e rebatizando-o como International Institute for Environrnent and Development (IIED), o que refletia o resultado das discussões sobre as prioridades dos países mais e menos desenvolvidos em Estocolmo. O IlED funcionou subseqüentemente como um grupo de pesquisa sobre políticas, investigando a temática de que um desenvolvimento sem a devida atenção às restrições ambientais era tanto insustentável quanto devastador (ver capítulo 8). A CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano foi realizada em Estocolmo, Suécia, de 5 a 16 de junho de 1972. Participaram representantes de 113 países, 19 órgãos intergovernamentais e quatrocentas outras organizações intergovernamentais e não-governamentais. Embora a China estivesse representada, foi ostensiva a ausência de todos os países do leste europeu, exceto a Romênia, os quais boicotaram a conferência devido a uma questão sobre ostatus de votação da Alemanha Oriental. Todos, entretanto, haviam participado das discussões preparatórias. A conferência, disse Maurice Strong na abertura, lançaria "um novo movimento de libertação" para emancipar os seres humanos dos perigos ambientais produzidos por eles mesmos; assim como o conceito de "crescimento zero" não constituía uma política viável para nenhuma sociedade, os conceitos tradicionais das propostas básicas de crescimento precisavam ser repensados.40 A conferência se preocupava principalmente com "as características do meio ambiente que afetavam a qualidade da vida humana - um conceito muito subjetivo e insatisfatoriamente definido".41 Ainda que o conceito de "meio ambiente humano" tenha emergido antes da conferência, foi a ênfase sobre esse tema que distinguiu Estocolmo das reuniões internacionais de mesmo nível que a antecederam. Relembrando os acontecimentos de Estocolmo alguns anos mais tarde, Barbara Ward observou: "Antes de Estocolmo, as pessoas geralmente viam o meio ambiente (...) como alguma coisa totalmente divorciada da humanidade (...) Estocolmo registrou um deslocamento fundamental na ênfase de nosso pensamento ambiental.”42 Muitos dos relatos sobre a conferência transmitem um sentimento predominante de excitação e antecipação. Lee Talbot, que assessorava a conferência como membro do Conselho de Qualidade Ambiental dos EUA, acredita que isso foi em parte devido ao fato de que muitos dos participantes eram novos no sistema da ONU, em parte por causa da esperança de que declarações grandiosas seriam convertidas em ações de natureza firme e em parte porque Estocolmo foi a primeira conferência temática da ONU.43 (Posteriormente, as conferências temáticas se centraram em população [1974], hábitat [1976], desertificação [1977] e em fontes renováveis de energia [1981].) Notava-se igualmente um certo ar de juventude na conferência; a mesma seguia de perto os passos do Novo Ambientalismo e foi vista por muitos como uma sanção oficial da ONU de que os problemas identificados no decorrer dos anos 60 eram dignos da atenção dos governos (embora alguns governos nacionais já tivessem começado a enfrentá-Ios - ver capítulo 7). Holdgate lembra que "o sentimento dominante, certamente entre os delegados que tinham uma experiência profissional nas ciências ambientais, era de que as questões ambientais 'tinham-se imposto'. Pela primeira vez, o meio ambiente estava sendo discutido pelos governos do mundo como um tema em si, por seu próprios méritos".44 Barbara Ward 106 observou em seu discurso para a conferência que era impossível estar fazendo parte dela "sem imaginar se não estaríamos na presença de um destes momentos de reviravolta nos assuntos do homem em que a raça humana começa a ver a si mesma e às suas preocupações a partir de um novo ponto de vista".45 Mais tarde ela relembrou: "Aqueles de nós que lá estavam experimentaram ( ... ) um sentimento de que por fim estávamos avançando.”46 O entusiasmo não foi, em absoluto, universal. Embora a IUCN,juntamente com outras organizações conservacionistas importantes, tenha tomado parte nos encontros do Comitê Preparatório, ela se mostrou indiferente em relação à conferência. De uma maneira bastante pomposa, registrou em seu relatório anual de 1971 que "poucos dentre os que trabalharam de perto com o programa [de organização] mantiveram a esperança de que Estocolmo pudesse produzir qualquer enfoque basicamente novo para os problemas do meio ambiente". Concedia que havia ocorrido um recente despertar da consciência governamental e que as organizações existentes, com toda probabilidade, "veriam fortalecidos seus programas ambientais como resultado da conferência".47 Na própria conferência, Gerardo Budowski, que ocupava o cargo de diretorgeral da IUCN, concedeu somente que "a hora e o lugar eram favoráveis".48 Em sua revista anual de 1972, a União registrava sua própria 11ª. Assembléia Geral, a Segunda Conferência Anual sobre Parques Nacionais, a Convenção da Herança do Mundo, e suas ligações estreitas com o WWF e as organizações das Nações Unidas, antes de mencionar sua colaboração na preparação de Estocolmo. Observou que, ao mesmo tempo que se tinha manifestado, na própria conferência, um reconhecimento generalizado de que a conservação da natureza e dos recursos naturais deveria ser parte integral de programas sólidos de meio ambiente e desenvolvimento, "foi dada pouca atenção às questões das áreas virgens e da necessidade de manter e

aprimorar a diversidade”49. Ao mesmo tempo que se mostrava entusiasmada, em seu Relatório Anual de 1972, com as realizações da conferência sobre os parques nacionais e com o reconhecimento da Convenção da Herança do Mundo, parecia reservada em seus julgamentos sobre Estocolmo. O maior avanço da conferência foi a nova percepção da posição dos países menos desenvolvidos. Apesar das tentativas anteriores de minorar as preocupações desses países, muitos se mantiveram céticos. A publicidade vinculada aos incidentes relacionados à poluição nos anos que antecederam Estocolmo havia-os encorajado a equiparar meio ambiente e poluição. Uma vez que muitos deles viam a poluição como uma evidência externa de desenvolvimento industrial, os esforços para controlá-Ia eram vistos como esforços para restringir o desenvolvimento. O embaixador Keith Johnson, da Jamaica, relator geral da conferência, observou que muitos dentre os países menos desenvolvidos sentiam um "temor latente de que a conferência fosse simplesmente outro expediente dos países desenvolvidos para evitar o apoio à revolução do desenvolvimento".50 Um tema que esteve presente em muitos discursos do Terceiro Mundo era que não se deveria permitir que os fatores ambientais viessem a restringir o crescimento econômico. A questão foi bem colocada; Aaronson observou que, depois de Estocolmo, "seria difícil para os ambientalistas ocidentais continuar encarando 'o meio ambiente' de modo provinciano.51 O ponto de vista dos países menos desenvolvidos dominou as discussões em quase todos os assuntos e forçou os ambientalistas ocidentais a abandonar o provincianismo e a começar a ver os problemas ambientais numa perspectiva global. Os países mais desenvolvidos tinham ido para a conferência determinados a discutir suas próprias definições dos problemas ambientais críticos, e viram-se levados pelas discussões a uma posição de compromisso sobre as prioridades relativas dos países menos desenvolvidos e as suas próprias. O desempenho da delegação chinesa merece menção especial. Os chineses decidiram vir a Estocolmo somente no último minuto e havia alguma preocupação quanto a seus planos para as sessões da conferência, particularmente de que viessem a assumir a 107 liderança dos países menos desenvolvídos.52 Sem dúvida, as posições assumidas por muitos dos países do Terceiro Mundo foram reforçadas pela presença chinesa.53 Tang Ke, chefe da delegação chinesa, num importante discurso que fez para a conferência, argumentou que a China apoiava os países menos desenvolvidos na exploração de seus recursos naturais de acordo com suas exigências; "cada país tem o direito de definir seus próprios padrões e políticas de ambiente à luz de suas próprias condições, e nenhum país, qualquer que seja, pode solapar os interesses dos países em via de desenvolvimento sob o pretexto de proteger o ambiente".54 Quanto ao mais, a delegação teve um papel passivo. Seu interesse principal parecia voltar-se para a Declaração sobre o Meio Ambiente Humano, cujo perfil tinha sido traçado 18 meses antes para a conferência do Comitê Preparatório. Uma moção apresentada pela China levou a uma rediscussão, temperada pela preocupação de que um texto deveria ser aprovado no final da conferência; Maurice Strong argumentava que aquela seria uma das medidas fundamentais do sucesso de Estocolmo. Os chineses assumiram inicialmente um ponto de vista extremo, argumentando, por exemplo, que o preâmbulo deveria ser ampliado para afirmar que em alguns lugares o meio ambiente estava ameaçado de extinção pela "pilhagem, agressão e guerra por parte dos colonialistas, imperialistas e neo-colonialistas". A delegação sugeriu uma emenda ao Princípio 13, cujo efeito seria demonstrar que a superpopulação era causada por "pilhagem, agressão e guerra" e que "a famosa teoria malthusiana era teoricamente absurda e sem fundamento na realidade”.55 Já pelo fim das discussões, sugeriu que todos os princípios em relação aos quais não havia sido atingido um acordo deveriam ser omitidos. Mas quando a declaração foi votada, no último dia da conferência, a delegação chinesa foi a única a não aprová-Ia por aclamação. A delegação americana se encontrava numa posição curiosa. Desde o início um dos mais importantes advogados da conferência de Estocolmo, os Estados Unidos se opuseram a muitos dos princípios ou emendas propostos ou apoiados pelos países menos desenvolvidos, tentaram enfraquecer a proposta do Registro Internacional de Substâncias Químicas Potencialmente Tóxicas, abstiveram-se na votação de uma resolução que condenava os testes com armas nucleares (especialmente na atmosfera) e se opuseram à expansão do conselho dirigente, que havia sido proposta para o novo programa ambiental da ONU. Além disso, foram constantemente criticados (por exemplo, pela Suécia, Índia, China, Islândia, Tanzânia e por grupos ativistas radicais americanos que estavam fora do salão da conferência) pelos custos humanos e ambientais da guerra na Indochina. Em contraposição, os Estados Unidos receberam ampla aclamação

popular por patrocinar uma moratória de dez anos na caça comercial da baleia, uma questão que atraía muita atenção entre delegados, ONGs e meios de comunicação de massa. Um fator significativo na qualidade de Estocolmo foi o papel das ONGs. Mais de quatrocentas estavam oficialmente representqdas, principalmente internacionais e ONGs dos países mais desenvolvidos. A presença de muitos grupos não credenciados havia gerado temores pela segurança da conferência, mas estes foram desfeitos pelos acordos conseguidos para a participação das ONGs. Durante os preparativos da conferência, havia ficado estabelecida a realização de um fórum ambiental (o Miljöforum) que, sancionado pela ONU, seria ostensivamente a arena oficial das ONGs credenciadas em Estocolmo. Os céticos achavam que o fórum, ao invés de oferecer às ONGs a oportunidade para exprimir seus pontos de vista, se destinava a desviar sua atenção da conferência oficial, minimizando assim a atenção despertada pelas questões controversas.56 O fórum foi prejudicado por limitações de financiamento e pelo temor de que pudesse vir a ser ou muito radical, ou muito conservador mas, não obstante, foi capaz de organizar uma série de comunicações e encontros, ainda que fora do âmbito do salão da conferência propriamente dito. O Ecologist e os Friends of the Earth colaboraram na publicação do Stockholm Conference Eco, um boletim destinado a fornecer uma avaliação construtiva 108 das sessões da conferência. Um fórum popular alternativo (o Folkets Forum) foi criado sob a iniciativa do PowWow, um grupo alternativo fundado em Estocolmo em 1971, o qual argumentava que os problemas do meio ambiente não podiam ser resolvidos por governos. Os grupos mais radicais estavam preocupados com o fato de a conferência não ter planos para lidar com questões tais como guerra química e biológica, população, e as atividades "ecocidas" dos Estados Unidos na Indochina. Alguns achavam que a conferência era inadequada, pois os representantes governamentais estariam propensos a promover os interesses constituídos de seus governos, coincidissem ou não esses interesses com o desenvolvimento do meio ambiente humano.57 A segurança estrita na admissão às sessões da conferência causou inicialmente um certo mal-estar entre as ONGs, mas Barbara Ward organizou sessões de informe, ingressos e documentos, e criou vias de acesso à conferência para os grupos.58 Talbot relembra a excitação entre as ONGs e os grupos de cidadãos, que acreditavam estar finalmente atraindo a atenção dos governos. Mas, observa ele, "estava claro para a maioria das delegações governamentais que as atividades das ONGs eram totalmente separadas da 'ação real', e tinham pouco efeito discernível sobre ela ( ... ) Houve [portanto] uma real desilusão de parte de muitas ONGs quando compreenderam o quanto era pequeno o papel que realmente desempenhavam”.59 Inicialmente as ONGs tiveram um papel ativo nos assuntos do UNEP, mas restrições de natureza financeira, o interesse declinante pela solução global ("ou, pelo menos," argumenta Sandbrook, "um interesse decrescente do UNEP em providenciar uma solução global”)60 e a ascensão de grupos ativistas haviam resultado, já em 1980, na presença decrescente das ONGs no Conselhos Dirigentes anuais do UNEP. Em 1974, mais de 150 ONGs se haviam registrado para participar do Conselho Dirigente; em 1980, esse número já havia caído para menos de vinte. No Conselho Dirigente de 1980, Sandbrook encontrou muito poucas evidências de que quaisquer governos tenham consultado ONGs sobre sua posição antes de comparecer ao Conselho; muitos queixavamse que o interesse não existia, mesmo quando procurado. O elo mais consistente entre o UNEP e as ONGs continuou a ser o Environment Liaison Centre (ELC), uma coalizão de ONGs baseada em Nairobi (sede do UNEP) que fornece regularmente informações e material sobre as atividades do UNEP para mais de três mil ONGs. Apesar do peso limitado das ONGs nos assuntos da ONU, a era pós-Estocolmo assistiu a um crescimento revigorado na formação de novas ONGs. Já em 1982 o ELC estimava que havia 2.230 ONGs ambientalistas nos países menos desenvolvidos, das quais 60% haviam-se formado depois de Estocolmo, e 13 mil nos países mais desenvolvidos, das quais 30% haviam-se formado depois de Estocolmo.61 Novas formas de ONGs também emergiram. Observando que os grupos de pressão nas democracias ocidentais desempenham um papel complementar junto às instituições governamentais, ajudando a manter os governos informados, atentos e em xeque, Lowe e Goyder argumentam ser lógico presumir que, já que os governos concordam em formar níveis de tomadas de decisão mais altos do que aqueles que se situam no âmbito da nação-estado, os grupos não governamentais, similarmente, se reagrupariam de modo a participar deste novo nível.62 Esse parece ser o caso, por exemplo, do European Environrnental Bureau (EEB), cujas origens podem ser traçadas a partir de Estocolmo. A conferência não somente colocou ONGs nacionais em contato

umas com as outras, mas enfatizou que elas enfrentavam problemas comuns que pediam uma resposta articulada. A primeira sugestão para a criação de uma agência européia de ONGs partiu de Julian Lessey da Conservation Society de Londres. Num encontro em Brighton, em 1974, entre vinte representantes de grupos da Europa Ocidental e da América do Norte, inclusive o IIED e o Sierra Club, chegou-se ao consenso de que a Comunidade Européia "tornava-se cada vez mais importante para os assuntos ambientais",63 e de que era necessária uma cooperação mais estreita entre a Comunidade e as 109 ONGs. O EEB foi criado em dezembro de 1974 para oferecer às ONGs um canal direto de acesso à Comunidade Européia, cujo primeiro Plano de Ação Ambiental foi publicado em 1973. A criação do EEB sugeria que, depois de muitos falsos começos anteriores, quando as ONGs internacionais careciam de autoridades internacionais junto às quais pudessem fazer lobby, o surgimento do internacionalismo político e a criação de organizações governamentais internacionais deram às ONGs internacionais relevância e permanência contextuais.64 A despeito dos céticos, havia uma expectativa otimista dentre muitos dos participantes de Estocolmo de que a conferência oferecesse uma oportunidade real para começar a evitar os perigos da degradação ambiental. Sob estas circunstâncias, argumenta Holdgate, era inevitável que "parte da euforia ( ... ) não sobrevivesse à dura realidade de fazer o plano de ação funcionar”.65 Um ano depois da conferência, a crise de energia de 1973-1974 havia alterado o clima econômico internacional. Taxas declinantes de crescimento econômico e instabilidade nas relações internacionais desviaram ainda mais o interesse dos assuntos ambientais, que eram amplamente encarados como uma preocupação de longo prazo. Barbara Ward lembrou mais tarde que, retrospectivamente, a conferência deveria ter sido um momento de virada mais importante do que acabou por ser.66 Isso sugere, em alguma medida, que muito da euforia e do otimismo de Estocolmo estava baseado em ingenuidade política. Mas Ward observou que essa alta expectativa era uma característica de muitas conferências, nas quais o aumento cumulativo do interesse e da excitação tendiam a assoberbar os participantes com a impressão de sua própria importância. Todavia, sentia ela, a criação de um novo órgão da ONU e de um ponto de convergência no qual interesses pudessem ser expressos e a dissipação do malestar do Terceiro Mundo foram realizações maiores.67 Estocolmo concordou amplamente tanto em relação aos problemas quanto às soluções, mas, observou Ward, a "ação [dos governos] raramente cumpriu suas promessas. Para um número crescente de questões ambientais, a dificuldade não está em identificar o remédio, pois o remédio é agora bem compreendido. Os problemas estão enraizados na sociedade e na economia - e, por fim, na estrutura política".68 Talbot observa que esse tão propalado sentimento de desilusão não consegue compreender o verdadeiro significado de Estocolmo, qual seja, que a conferência não foi um evento isolado, mas parte de um processo que chamou a atenção dos governos para o meio ambiente, facilitou acordos e convenções internacionais subseqüentes sobre questões ambientais chave e resultou na criação do Programa Ambiental das Nações Unidas.69 Como observam Holdgate e colegas, a Conferência de Estocolmo foi "um foco ao invés de um começo para a ação sobre problemas ambientais''.70 Barbara Ward argumentou que as pessoas achavam muito mais fácil identificar mudanças necessárias do que começar realmente a implementá-Ias. As dificuldades se ampliavam quando, além de identificar um novo enfoque, este tivesse que ser vinculado a outras instituições, metodologias e percepções.71 DECLARAÇÃO, PRINCÍPIOS E PLANO DE AÇÃO A Conferência de Estocolmo produziu uma Declaração, uma lista de Princípios e um Plano de Ação. A idéia de uma declaração parece ter sido sugerida pela primeira vez na Conferência da Biosfera e foi imediatamente apoiada pelo secretário-geral da ONU.72 Não se-visava definir cláusulas de cumprimento legalmente obrigatório, mas a declaração deveria ser "inspiracional", registrando os argumentos essenciais do ambientalismo humano, e atuar como um prefácio para os princípios, delineando metas e objetivos amplos. Foi notável que tantos países - com sistemas políticos, sociais e econômicos diferentes pudessem ter sido capazes de concordar sobre um exercício filosófico de espectro tão amplo. Sabiamente, a Declaração não tentou definir o termo "meio ambiente humano", 110

em parte porque sentia-se que poderia ser difícil, naquele estágio, alcançar uma definição que não fosse indevidamente restritiva. Os vinte e seis princípios podem ser desmembrados em cinco grupos principais. E estes afirmavam respectivamente que: 1) Os recursos naturais deveriam ser resguardados e conservados, a capacidade da terra de produzir recursos renováveis deveria ser mantida e os recursos não renováveis deveriam ser compartilhados. 2) O desenvolvimento e a preocupação ambiental deveriam andar juntos e deveria ser dada toda a assistência e incentivo aos países menos desenvolvidos no sentido de promover uma administração ambiental racional. (Este grupo tinha o propósito de tranqüilizar os países menos desenvolvidos.) 3) Cada país deveria estabelecer seus próprios padrões de administração ambiental e explorar recursos como desejasse, mas não deveria colocar em perigo outros países. Deveria existir cooperação internacional voltada para o melhoramento ambiental. 4) A poluição não deveria exceder a capacidade do meio ambiente de se recuperar e a poluição dos mares deveria ser evitada. 5) Ciência, tecnologia, educação e pesquisa deveriam ser utilizadas para promover a proteção ambiental. Houve somente discordâncias menores em relação à maior parte dos princípios; a única exceção foi o princípio concernente ao fornecimento de informações sobre atividades nacionais que pudessem ter conseqüências adversas além de suas fronteiras. A Assembléia Geral da ONU discutiu a questão e concluiu que o intercâmbio de informações subseqüente a Estocolmo não deveria ser encarado como um instrumento que capacitasse um estado a interferir no desenvolvimento dos recursos naturais de outro. Os princípios 21 e 22 recomendavam em última análise que os estados tinham o direito de explorar seus recursos e a responsabilidade de assegurar que estes não causassem dano a outros estados, e que deveriam cooperar no sentido de desenvolver uma legislação internacional sobre responsabilidade e compensação. 73 O princípio onze afirmava separadamente que as políticas ambientais de todos os estados "deveriam aumentar e não afetar adversamente o desenvolvimento presente ou potencial dos países em desenvolvimento". Landsberg observa que a amplitude da agenda, assim como a natureza pouco maleável dos processos envolvidos na discussão e consenso quanto às recomendações, colocavam ameaças potenciais ao sucesso da conferência.74 Mas um ritmo frenético de discussão e emendas perdurou durante a conferência, e as negociações finais comprimiram-se nos três últimos dias. Isso conferiu aos procedimentos um sentido de urgência que pode ter desencorajado delongas. Sandbrook resumiu o propósito genérico do plano de ação como o lançamento de "um conjunto de atividades internacionalmente coordenadas que objetivava, em primeiro lugar, o desenvolvimento do conhecimento sobre as tendências ambientais e seus efeitos sobre homens e recursos e, secundariamente, a proteção e o aumento da qualidade do meio ambiente e da produtividade dos recursos através de uma administração e planejamento integrados".75 O plano consistia em 109 recomendações distintas, estendendo-se desde o específico até o geral e caindo em três grandes categorias: avaliação ambiental, administração ambiental e medidas de apoio. Quase a metade versava sobre a conservação de recursos naturais, enquanto o restante cobria questões relativas a assentamentos 111 humanos, poluição e poluição marinha, desenvolvimento e meio ambiente, além de educação e informação. O LEGADO DE ESTOCOLMO A Conferência de Estocolmo foi o acontecimento isolado que mais influiu na evolução do movimento ambientalista internacional. Apresentou quatro resultados importantes.

Em primeiro lugar, a conferência confirmou a tendência em direção a uma nova ênfase sobre o meio ambiente humano. O pensamento progrediu das metas limitadas de proteção da natureza e conservação dos recursos naturais para a visão mais abrangente da má utilização da biosfera por parte dos humanos. A própria natureza do ambientalismo mudou: da forma popular, intuitiva e provinciana com a qual emergiu nos países mais desenvolvidos no final dos anos 60, para uma forma de perspectivas mais racionais e globais, a qual enfatizava o esforço no sentido de uma compreensão plena dos problemas e do acordo sobre uma ação legislativa efetiva. O Novo Ambientalismo evoluiu para termos que eram politicamente mais aceitáveis, encorajando mais governos nacionais a fazer do meio ambiente uma questão de política. Em segundo, Estocolmo forçou um compromisso entre as diferentes percepções sobre o meio ambiente defendidas pelos países mais e menos desenvolvidos. Isso é até irônico porque a conferência foi inicialmente produto da preocupação existente nos países industrializados na década de 60. Mas os organizadores não tiveram em nenhum momento a oportunidade de permitir que a conferência se concentrasse somente nos interesses dos países mais desenvolvidos. Durante os primeiros debates da ONU na conferência, os países menos desenvolvidos fizeram uso de seu poder de voto na Assembléia Geral das Nações Unidas para compelir os países mais desenvolvidos a reconhecer a necessidade de equilibrar as prioridades na administração ambiental com os objetivos do desenvolvimento econômico. Os países mais desenvolvidos foram pelo menos incentivados a começar a reinterpretar as prioridades do ambientalismo, a assumir uma visão mais ampla do caráter globalmente correlato de muitos problemas e a começar a entender quantas dessas questões estavam arraigadas em problemas políticos e sociais, particularmente nos países menos desenvolvidos. Em qualquer circunstância, era talvez inevitável que muitas dentre as recomendações de Estocolmo fossem soluções de compromisso; as preocupações dos países menos desenvolvidos injetaram uma nota muito necessária de realismo nos procedimentos da própria conferência e levaram, em última análise, a uma visão muito mais ampla sobre as raízes e causas da crise ambiental. Antes de Estocolmo as prioridades ambientais foram em larga escala determinadas pelos países mais desenvolvidos; depois de Estocolmo, as necessidades dos países menos desenvolvidos tornaram-se um fator chave na determinação das políticas internacionais. Em terceiro lugar, a presença de muitas ONGs na conferência - e o papel que tiveram - marcou o começo de um papel povo e mais persistente para as ONGs no trabalho dos governos e das organizações intergovernamentais. As ONGs tiveram pouca influência na conferência em si e nem sempre conseguiram concretizar tanta influência quanta poderiam ter nos fóruns da ONU, mas houve um rápido crescimento do número e da qualidade das ONGs na década pós-Estocolmo. A conferência não somente colocou as ONGs nacionais em contato umas com as outras, mas enfatizou o fato de que enfrentavam problemas comuns que pediam uma resposta combinada. Finalmente, o produto tangível de Estocolmo foi a criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas. Este tinha limitações e deficiências, mas foi provavelmente a melhor forma institucional possível naquelas circunstâncias. 112 FOLHA EM BRANCO 113

SEIS O Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (1972-1982)
A despeito de todos os méritos e toda a significação vinculados ao processo de simplesmente chegar a um acordo quanto a seu conteúdo, a Declaração de Estocolmo, os Princípios e o Plano de Ação permaneceriam sendo exercícios no papel até que tivessem algum resultado prático. Sua verdadeira efetividade dependeria dos acertos institucionais feitos para que os princípios se transformassem em políticas e programas ativos. Os órgãos especializados da ONU haviam se preocupado com a forma que esses acertos assumiriam. Essas e outras preocupações haviam sido consideradas pelo comitê preparatório da conferência, particularmente durante sua sessão final em Nova York, em março de 1972, mas o comitê determinou que os acertos institucionais deveriam ser deixados para a própria conferência. O acerto que acabou por ser ratificado pela resolução 2997 da Assembléia Geral da ONU de 15 de dezembro de 1972 1 não determinava a criação de um novo órgão especializado, mas sim de um programa abrangente de coordenação de políticas; isso tomou forma no Programa de Meio Ambiente das Nações

Unidas (UNEP), criado como um reconhecimento de que "problemas ambientais de significado internacional amplo" estavam circunscritos à jurisdição da rede da ONU. A sede de todos os órgãos especializados da ONU existentes se encontrava na América do Norte ou na Europa, portanto, quando se colocou a questão de um secretariado para o novo organismo, houve uma campanha para que este fosse instalado num país menos desenvolvido.2 Vários países mais desenvolvidos se opuseram a isso, argumentando que, tendo em vista o papel de coordenação do UNEP, o órgão deveria ser localizado mais próximo dos demais organismos existentes da ONU.3 A opção do país menos desenvolvido prevaleceu, contudo, e o UNEP foi localizado em Nairobi, no Quênia. Isso, esperava-se, apaziguaria ainda mais aqueles representantes dos países menos desenvolvidos que duvidavam dos benefícios do planejamento ambiental. Escritórios de ligação foram estabelecidos também em Nova York e Genebra, e escritórios regionais em Bangkok, Beirute, Cidade do México e Nairobi. Maurice Strong foi nomeado primeiro diretor-executivo do UNEP. A IMPLEMENTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO A nova organízaçãotinha quatro setores: um conselho diretor para os programas ambientais; um pequeno secretariado que seria o "ponto de convergência para a ação ambiental 114 e a coordenação com o sistema da ONU"; um fundo voluntário para o meio ambiente para o qual os governos poderiam contribuir; e uma diretoria de coordenação ambiental, constituída por membros de todos os órgãos relevantes da ONU. O Conselho Diretor se reuniria anualmente, promoveria a cooperação ambiental internacional, ofereceria "orientação geral de políticas para o direcionamento e coordenação de programas ambientais dentro do sistema das Nações Unidas"4 e garantiria que os governos dessem aos problemas ambientais internacionais emergentes a atenção apropriada. A diretriz básica do UNEP era o Plano de Ação de Estocolmo. Este seria implementado através de três componentes funcionais: avaliação ambiental, administração ambiental e medidas de apoio. Avaliação ambiental global. Esta se materializou sob a forma do Earthwatch, uma rede patrocinada pela ONU, planejada para pesquisar, monitorar e avaliar as tendências e processos ambientais, fornecendo notificações precoces de riscos ambientais e determinando a situação de recursos naturais selecionados. O Earthwatch, além disso, tinha três outros componentes bastante distintos. O primeiro era o Sistema Internacional de Referência (INFOTERRA), um "painel de controle" descentralizado para a troca de informações. O segundo componente, o Sistema Global de Monitoração Ambiental (GEMS Global Environmental Monitoring Sistem), colocaria em andamento os levantamentos ambientais, coletando informações dos governos e construindo um quadro das tendências ambientais regionais e globais. O terceiro componente do Earthwatch era o Registro Internacional de Substâncias Químicas Potencialmente Tóxicas (IRPTC - Intemational Register of Potentially Toxic Chemicals), o qual se tornou operacional em 1976. Baseado em Genebra, visava construir um banco de dados sobre substâncias químicas potencialmente tóxicas para uso dos governos; estes seriam notificados sobre quaisquer mudanças e aconselhados quanto à ação apropriada. O IRPTC era uma iniciativa ambiciosa; para maximizar sua utilidade, muito tempo teve que ser dedicado à manutenção da qualidade de seus dados.5 A localização do IRPTC em Genebra, todavia, juntamente com o Programa dos Mares Regionais (ver adiante), dava-lhe melhor acesso aos outros órgãos da ONU e maior liberdade em relação à burocracia da sede do UNEP.6 O Earthwatch era amplo e muitas vezes de alcance abrangente em seus objetivos. O principal obstáculo a seu desenvolvimento era a falta de uma estrutura organizacional adequada e de recursos financeiros adequados.7 O diretor do Earthwatch tinha um papel mais de coordenador do que de executivo; o programa possuía apenas duas ou três equipes profissionais; grande parte do dinheiro destinado ao Earthwatch foi gasta em projetos isolados mais do que com o Earthwatch em si; a estrutura de programa do UNEP não se relacionava suficientemente com o Earthwatch; e poucos governos pareciam sequer ter consciência da existência do Earthwatch ou de seus serviços. O Earthwatch seria, em princípio, uma atividade de todos os órgãos relevantes da ONU, coordenados pelo UNEP, mas a falta de pessoal e dinheiro que sofria acarretava que praticamente não houvesse nenhuma atividade de avaliação ambiental dentro da ONU e as atividades relevantes empreendidas pelos órgãos individuais não eram adequadamente coordenadas ou avaliadas.8 Uma avaliação independente do INFOTERRA, conduzida em 1980 sob os auspícios da UNESCO, concluiu que o mesmo havia cumprido os propósitos delineados em Estocolmo.

Mas, embora o INFOTERRA estivesse então estabelecido, era consideravelmente subutilizado.9 Ironicamente, monitorar e avaliar os "limites exteriores" da terra era uma área em que o UNEP achava que poderia desempenhar um papel útil, dadas as limitações impostas a muitas de suas outras funções.10 O GEMS enfrentou logo no inicio três problemas sérios: a falta de apreciação e avaliação dentro do Earthwatch como um todo, a dependência em-relação à cooperação e ao trabalho de outros, além de um clima predominante de pessimismo quanto à utilidade da monitoração global.11 Muitos dos sistemas de monitoração estabelecidos após Estocolmo ficaram abaixo das expectativas, em grande parte por causa da falta de objetivos 115 claramente definidos. A monitoração, tal como existia antes de Estocolmo, tendia a concentrar-se na poluição. A Organização Meteorológica Mundial deveria supostamente fornecer uma base operacional para o GEMS, criando uma rede de dez estações atmosféricas de referência em áreas remotas e cem estações regionais afastadas dos principais centros de contaminação ambienta!. Mas nos primeiros cinco anos do GEMS somente doze estações de monitoração do ar foram estabelecidas. O que deu uma indicação da dimensão do empreendimento. Passados dois anos de sua criação, os planos para o GEMS haviam se ampliado para incluir um sistema que registraria ameaças à saúde humana e desastres naturais iminentes, um conceito tão amplo que em 1977 a maior parte do GEMS estava ainda em fase de planejamento. No 7º Conselho Diretor do UNEP, em 1979, a preocupação expressa por diversos governos em relação à aparente falta de progresso do Earthwatch levou a um apressadamente realizado encontro de especialistas para analisar os desenvolvimentos. Seu relatório foi mais descritivo do que crítico, mas sugeria que uma das principais limitações das avaliações ambientais era a variabilidade na qualidade, comparabilidade, oportunidade e representatividade dos dados;12 o desenvolvimento de metodologias não havia sido universal, nem as metodologias existentes eram sempre compatíveis. Isso, argumentava o UNEP, juntamente com a relativa escassez de recursos destinados ao Earthwatch, explicava por que tinham sido feitas tão poucas avaliações abrangentes.13 Administração ambiental. A informação reunida pelo Earthwatch ajudaria na implementação do segundo componente do Plano de Ação, a administração ambiental. A meta aqui era desenvolver uma estrutura de planejamento abrangente que apoiasse a proteção ambiental. Seriam elaboradas convenções internacionais, tomadas medidas para assegurar a preservação da diversidade biológica e dos recursos genéticos, e promovidos diversos objetivos específicos - inclusive uma moratória da caça comercial de baleias. Este era, de modo geral, um programa realizável com objetivos identificáveis, mas o progresso foi desigual. O UNEP era de opinião que muitos dos governos não possuíam a vontade política para adotar as recomendações de seus próprios especialistas e que algumas das recomendações de Estocolmo tocavam em questões delicadas, relacionadas à soberania dos estados e seu desenvolvimento econômico. 14 O UNEP, não obstante, colaborou com outras organizações - órgãos da ONU, OIGs e ONGs - na elaboração e consenso de convenções internacionais, notadamente a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies em Extinção da Fauna e Flora Selvagens, a Convenção de Bonn sobre Espécies Migratórias (em ambos os casos o UNEP financiou o estabelecimento de secretariados da convenção) e a Convenção para a Proteção do Mar Mediterrâneo contra a Poluição (Barcelona, 1976). Quanto à caça às baleias, alcançou-se um acordo em torno de uma moratória em 1982 (embora a Islândia, a Noruega, a Coréia do Sul, a URSS e o Japão continuassem a matar baleias cinco anos depois). Quanto à ajuda para o desenvolvimento, o UNEP ajudou a encorajar órgãos de ajuda bilaterais e multilaterais a incluírem procedimentos de avaliação ambiental nos subsídios para o desenvolvimento (ver capo 8). Medidas de apoio. Estas incluíam educação, treinamento de pessoal, informação pública e assistência financeira. Em 1975 foi criado um Programa [conjunto] UNEP/UNESCO de Educação Ambiental e em 1977 foi realizada em Tbilisi, URSS, a Conferência Intergovernamental da UNEP/UNESCO sobre Educação Ambiental; ambos os eventos resultaram numa série de seminários e workshops de treinamento, na criação de uma rede de informação e no treinamento de especialistas em meio ambiente. Mas a educação era, em última análise, uma questão nacional e o trabalho dos órgãos especializados da ONU viria a ser menos produtivo nessa área do que o trabalho das ONGs nacionais. Na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e em outros países ocidentais a educação já há muito tempo vinha sendo uni elemento importante no trabalho das ONGs, e isso continuou durante a década de 70. Quanto à informação pública, o UNEP não chegou a ser um êxito. A

116 instituição, em 1972, de um Dia [anual] Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) teve pouco efeito; fora das ONGs ambientais quase ninguém sequer sabia de sua existência. Para complicar as coisas, o UNEP não foi capaz de decidir se implementava seu próprio modesto programa de informação ou se devolvia a responsabilidade aos órgãos externos. Em 1975 o programa forneceu os fundos para a criação do Earthscan, um serviço de notícias e informações dentro do llED, que passou a produzir um corpo substancial de informações para os meios de comunicação e para as ONGs. Já em 1986, quando a maior parte da equipe do Earthscan saiu para formar o Instituto Panos, suas redes incluíam jornais, jornalistas especializados e ONGs em 130 países. O serviço funcionava em íntima relação com o UNEP, mas a proporção de fundos que dali recebia foi diminuindo consistentemente. UNEP: OS DEZ PRIMEIROS ANOS O UNEP experimentou uma sorte variável em sua primeira década. Suas perspectivas não foram em nada facilitadas pelo fato de que possuía o que Sandbrook descreve como "talvez uma das tarefas mais difíceis em todo o sistema da ONU".15 O ponto crítico era que o programa não foi elaborado para ser um órgão executivo com os mesmos tipos de poderes que a FAO, UNESCO ou outros organismos especializa dos. Tinha que coordenar o trabalho de alguns órgãos da ONU, promover iniciativas de políticas com outros e fornecer informações a outros ainda. Possuía um campo imenso de atuação - na realidade todo o meio ambiente natural - e frnanças mirradas. Era impelido a envolver-se em atividades e interesses múltiplos, e freqüentemente a agir com base no surgimento imprevisto de oportunidades e não em quaisquer planos de longo prazo cuidadosamente considerados. Não tinha poder para interferir nos assuntos das nações em relação à administração de questões ambientais locais e regionais. Falando de modo genérico, seus problemas abrangiam quatro categorias principais: financeira, administrativa, política e constitutiva. A força do UNEP tinha, em última análise, que ser medida em termos de sua disponibilidade frnanceira. Teve um início promissor, com sessenta milhões de dólares destinados ao Fundo do Meio Ambiente em apenas seis meses (o objetivo era cem milhões em cinco anos). Os governos (um total de 96 já em 1983) contribuíram voluntariamente para o Fundo do Meio Ambiente do UNEP, com montantes variando desde o dos Estados Unidos - os quais, durante os primeiros oito anos da existência do UNEP, contribuíram com quarenta milhões de dólares (36% do fundo) - até os de 64 países tais como Zâmbia, Jordânia e Paraguai, que não fizeram nenhuma contribuição em absoluto entre 1978 e 1981. Nos primeiros cinco anos de operação, o UNEP planejava levantar vinte milhões de dólares por ano, objetivo que chegou muito perto de atingir. No período de 1978 a 1981, levantou cerca de 31 milhões de dólares por ano (comparados aos 37,5 milhões planejados). O objetivo para o período 1982-1983 era de sessenta milhões de dólares por ano, mas as metas financeiras se mostraram cada vez mais irreais e enganosas, e o UNEP teve que se contentar com uma renda média anual de trinta milhões de dólares no período 1979 a 1983. Descontada a inflação, essa verba valia cada vez menos. As complicações das insuficiências de renda foram agravadas por contribuições que chegavam atrasadas ou no final do ano contábil, ou em moeda não conversível (moeda que só pode ser gasta no país doador, geralmente no bloco oriental). Tais problemas tornavam difícil o planejamento prévio. Apenas pouco mais de um terço dos gastos do UNEP (números de 1980) teve a forma de assistência a outros órgãos da ONU, enquanto 28,4% foram para outras instituições, 22,4% para projetos diretamente implementados pelo UNEP e 14,7% para os próprios Centros de Atividade do Programa do UNEP, criados para administrar aqueles projetos do UNEP que envolviam vários órgãos diferentes. 117 A segunda limitação grave do UNEP residia em sua própria administração interna. O programa foi acusado por seus críticos de ter uma perspectiva limitada dos problemas globais, de ser ineficiente, de não conseguir delinear suas prioridades, de ser excessivamente centralizado na pessoa do diretor-executivo e de tentar fazer demais e apresentar muito pouco no fim. A responsabilidade por esses problemas era encarada como residindo em parte na própria política de administração do UNEP e em parte nas limitações inerentes ao campo de atuação do UNEP. Maurice Strong, a despeito de seu papel em Estocolmo e na fundação do

UNEP, era novo nas questões ambientais e por isso, ao ser nomeado primeiro diretor-executivo, foi buscar nas áreas que conhecia melhor - negócios, politica e serviço público internacional - as indicações que fez para os cargos de primeiro escalão, quando do lançamento do UNEP.16 O resultado a longo prazo foi que o UNEP viu-se conviviendo com sistemas de administração baseados mais em procedimentos burocráticos do que em enfoques profissionais para os problemas do meio ambiente. Houve pouca melhoria no primeiro mandato de quatro anos (1976-1980) do sucessor de Strong, o dr. Mostafa Tolba.* Em 1980 as questões de pessoal haviam atingido um ponto tão desalentador que os representantes permanentes dos países da Comunidade Européia no UNEP compilaram um relatório sucinto que traçava o perfil do que eles consideravam como seus problemas fundamentais: administração autocrática sem nenhuma delegação de autoridade e centralização de todas as decisões, não importando o quanto fossem pequenas, na pessoa do diretor-executivo; o moral baixo da equipe e a alta rotatividade (das 180 vagas da equipe profissional, sessenta estavam disponíveis); e a situação pouco saudável do Fundo do Meio Ambiente, que poderia ser atribuída em parte à insatisfação com o desempenho do UNEP e de seu diretorexecutivo.17 Foi feita uma tentativa sem êxito de substituir o dr. Tolba ao final de seu primeiro mandato no cargo, em 1980; os representantes da Comunidade Européia e outros apoiavam um cientista de Gana, dr. Ernest Boateng. O número de funcionários de modo algum podia ser considerado grande; em 1975 o UNEP empregava noventa e nove pessoas (85 na sede e 14 nos escritórios regionais) para um orçamento anual de trinta milhões de dólares. Em 1980 tinha 180 vagas na equipe profissional e o mesmo orçamento. A instabilidade das instalações de sua sede e o adiamento, em 1980, dos planos para um novo edifício não tomaram mais fáceis os problemas de administração. Somente em 1983, depois de ficar temporariamente baseado em diversos escritórios diferentes, o UNEP mudou-se finalmente para as instalações permanentes de seus escritórios na periferia de Nairobi. A terceira fonte de problemas foi a localização do UNEP em Nairobi. Isso ajudou a minorar o desequilíbrio na localização de sedes de órgãos da ONU e provavelmente ajudou a abrir as mentes dos ambientalistas europeus e norte-americanos, chamando atenção para a situação dos países menos desenvolvidos. Mas também isolou o UNEP dos países industrializados, os quais controlavam o equilíbrio do poder político e econômico do mundo e, portanto, tomavam muitas das decisões fundamentais que afetavam o meio ambiente global; a observação de Sills, de que Nairobi ficava "longe do campo de batalha do meio ambiente",18 ignora o fato de que muitas das mais terríveis batalhas ambientais estão sendo travadas nos países menos desenvolvidos (mas muitas das decisões que afetam essas batalhas são, é verdade, tomadas mais ao norte). O próprio UNEP sentia que sua localização tomava difícil o recrutamento de profissionais altamente qualificados e fazia com que fosse criada uma nova infra-estrutura a partir de muito pouco, ao passo que, se
* Mostafa Kamal Tolba (n. 1928) nasceu no Egito. Foi titular da cadeira de microbiologia na Universidade do Cairo e serviu como ministro e assessor de Anwar Sadat antes de chefiar a delegação egípcia em Estocolmo. Serviu como interino de Maurice Strong por três anos antes de ser nomeado diretor-executivo do UNEP em 1976.

118 tivesse sido localizado dentro de um órgão já existente da ONU, teria tido a possibilidade de fazer uso de uma reserva comum de pessoal, dirigindo seus recursos à ação concreta." A localização no Quênia também tendia a deixar o UNEP dividido entre o mundo mais desenvolvido, que apoiava a ênfase nos problemas globais, tais como a poluição, e o mundo menos desenvolvido, que adotava o UNEP como seu "organismo" próprio na ONU, enfatizava as questões de desenvolvimento ambientalmente sadio e esperava que o UNEP fosse particularmente simpático às necessidades dos paises menos desenvolvidos em qualquer conflito de interesse com paises industrializados. Isso chegou a um ponto em que o conselho diretor foi acusado de rejeitar sugestões de projetos do secretariado por não serem eles suficientemente orientados para o Terceiro Mundo.20 A divisão, por sua vez, ajudou a azedar as relações entre o conselho diretor e o secretariado. A quarta fonte de problemas era constitutiva. Desde o início, a sede do UNEP ficou dividida entre o programa propriamente dito e o fundo. O primeiro era responsável por elaborar programas, que podiam ou não ter sido levados à prática sob a forma de projetos. O segundo era responsável pela administração das finanças desses projetos. Essa divisão exigia que todas as atividades do UNEP fossem aprovadas tanto pelo fundo quanto pelo programa, envolvendo profissionais de ambos os lados na formulação e na execução. Uma segunda divisão dentro do UNEP era entre o próprio secretariado e o conselho diretor. O conselho era composto por representantes escolhidos dentre os 58 países membros, os quais eram eleitos para o conselho

para três anos de mandato pela Assembléia Geral da ONU. O conselho se reunia anualmente por duas semanas para discutir e decidir quanto às políticas. No início, ficou encarregado de uma variedade de responsabilidades básicas: promover a cooperação ambiental internacional, orientar a política e analisar o progresso nos órgãos da ONU, atrair a atenção dos governos para os problemas ambientais globais emergentes, assegurar que o desenvolvimento nos países menos desenvolvidos não fosse prejudicado por políticas de administração ambiental e administrar o Fundo do Meio Ambiente. Os críticos alegavam que o conselho teve êxito na última dessas responsabilidades, mas não nas outras. Foi freqüentemente acusado de ser pouco ágil e excessivamente obcecado com procedimentos, assim como o resto do sistema da ONU. Martin Holdgate, presidente da 11ª sessão do conselho diretor em 1984, expressou sua preocupação pelo fato de que em 1983 as questões de procedimento tivessem se tornado tão predominantes que tendiam a obscurecer a verdadeira razão de ser do UNEP: "que as pessoas em todo o mundo têm necessidades ambientais às quais as Nações Unidas deveriam atender". A sessão plenária gastava tempo demais "em discussões que provavelmente não ajudariam a resolver esses estarrecedores problemas".21 O problema constitutivo mais crítico residia na natureza da relação do UNEP com as outras agências da ONU. Não tendo poderes executivos, o mesmo não tinha muito alcance para realizar seus próprios programas e precisava, ao invés disso, funcionar através de outros órgãos especializados da ONU. Sua tarefa de persuadir outros órgãos a executar programas era prejudicada pelo fato de que tinha poucos incentivos para oferecer e nenhum meio de levar a cabo seus desejos;22 além disso, parte do progresso lento do UNEP refletia o fato de que o meio ambiente havia provado ser mais complexo e mais caro de monitorar do que supunham os delegados de Estocolmo.23 O Plano de Ação era amplamente considerado como genérico demais, vago demais em relação às prioridades e sobretudo - carente demais de meios de implementação. A dificuldade em avaliar a eficácia do UNEP era magnificada pela dificuldade em avaliar seu papel preciso em um . dado projeto. Diferentemente da FAO ou da OMS, observou o dr. Tolba, o UNEP não podia "dizer, ao fim de um esforço, [que havia] erradicado uma doença aqui ou plantado tantos milhares de hectares de campos de arroz ali".24 Em 1976 a Assembléia Geral da ONU analisou seus acertos institucionais para o meio ambiente e concluiu que eram adequados. Mas o próprio UNEP admitiu suas deficiências.25 119 A incompatibilidade entre o desejo por um secretariado pequeno e a necessidade de manter as metas de alcance mais amplo do programa era uma dificuldade que ainda não havia sido resolvida, mesmo em 1982. Talvez o problema mais fundamental de todos tenha sido que o papel do UNEP foi sistemática e amplamente mal compreendido.26 O UNEP nunca foi concebido para ser um ótgão especializado da ONU em caráter integral, mas simplesmente o programa ambiental do sistema das Nações Unidas. Foi planejado para ser capaz de assumir um ponto de vista abrangente do meio ambiente global e desenvolver um programa ambiental que pudesse ser implementado por todos os órgãos relevantes - seu papel era catalítico. Como observa Holdgate, os órgãos existentes da ONU - notadamente a FAO, a OMS, a WMO e o Banco Mundial já vinham se preocupando com as questões ambientais (como haviam se esforçado para enfatizar antes de Estocolmo) e o meio ambiente "não era uma entidade isolada que exigisse seu próprio organismo operacional, mas um tema horizontalmente abrangente".27 Holdgate assinala que organizações poderosas e bem estabelecidas inevitavelmente seriam cautelosas em relação a qualquer nova coordenação sobreposta a seu trabalho, um dilema do qual Maurice Strong e o conselho do UNEP tinham consciência. A resposta deles foi desenvolver uma série de atividades que atendessem a uma necessidade real e não entrasse em conflito com as atividades de outros organismos estabelecidos.28 As três primeiras áreas foram aquelas quanto às quais se havia chegado a um acordo antes de Estocolmo - o Sistema Global de Monitoração Ambiental, a poluição marinha e o INFOTERRA. À medida que suas próprias atividades se desenvolveram, do mesmo modo cresceram a credibilidade e a capacidade do UNEP para realizar o trabalho de coordenação e compilação de um programa de amplitude verdadeiramente sistêmica.29 As relações do UNEP com os outros órgãos da ONU eram um fator determinante essencial do nível de influência do UNEP. Nos primeiros anos, estas relações foram deficientes por três motivos principais. Primeiro, a novidade da situação fez com que os órgãos existentes da ONU se mostrassem particularmente desconfiados em relação ao UNEP; levaria tempo até que eles ficassem acostumados com a existência do UNEP e aceitassem seu programa. Segundo, o UNEP - deixando de lado os seus poderes limitados - tendia a fazer comentários ou tentar influenciar as atividades dos outros órgãos mais do que havia sido permitido

pelos termos de suas prerrogativas. Tolba não se sentiu desencorajado pelas queixas geradas por tal situação e disse em 1975: "Nunca deixaremos de interferir nos assuntos de todo mundo, uma vez que envolvam o meio ambiente. Essa é a nossa atribuição.”30 Terceiro, os mecanismos através dos quais se supunha que o UNEP trabalharia com os outros órgãos eram insuficientes. O quarto elemento dos arranjos institucionais recomendados em Estocolmo, o Environment Co-ordination Board (ECB), havia sido criado como um meio através do qual o UNEP poderia coordenar e influenciar as atividades dos outros órgãos da ONU, e também como um canal através do qual os órgãos da ONU poderiam influenciar o UNEP; inicialmente o mesmo deveria se preocupar mais com este último item.31 Requisitado pelo conselho diretor a rever suas próprias funções em 1976, o ECB concluiu que o ciclo de suas reuniões precisava ser planejado para permitir reações imediatas às decisões do conselho diretor, que o conceito de programação conjunta precisava ser mais desenvolvido (o que envolvia todos os órgãos em questão) e que era necessário que houvesse mais programação multiorgânica em lugar de discussões bilaterais entre o UNEP e os demais organismos.32 A programação conjunta que havia sido realizada até fevereiro de 1976 consistia numa série de reuniões entre o UNEP e outros órgãos (por exemplo a FAO, a UNESCO, a OMS e a UNECE), que realmente não fizeram mais do que identificar áreas de interesse comum e concordar quanto a mecanismos para que se mantivessem reciprocamente informados dos desenvolvimentos havidos. No 5º conselho diretor, de 1977, o ECB foi encarregado de elaborar memorandos de 120 entendimento com outros órgãos especializados.33 o que subseqüentemente fez com vários deles. Mas os memorandos, o ECB, os esforços de programação conjunta e a programação temática (planejamento de áreas inteiras de programa, tais como água e alimentos) não tiveram êxito, nenhum deles. Em 1978, como parte de mudanças mais amplas na ONU em relação à coordenação inter-orgânica, o ECB fundiu-se com o Administrative Committee on Co-ordination (ACC). Robinson observa um aperfeiçoamento perceptível nas relações entre os órgãos da ONU, provavelmente em conseqüência do trabalho do ACC.34 Em 1982 foi introduzida uma nova iniciativa - o Programa Ambiental de Médio Prazo de Amplitude Sistêmica -, planejada para definir precisamente o que cada órgão da ONU faria no período 1984-1989. A maioria das descrições de ações a serem realizadas por cada órgão foram postas de lado desde então por serem inócuas e altamente genéricas; além disso o programa traçou áreas de interesse, mas somente falou de medidas apropriadas em termos amplos.35 Era tão genérico que quase qualquer iniciativa quanto ao meio ambiente poderia se encaixar em uma ou outra de suas propostas. Ao invés de permitir que o UNEP fizesse poucas coisas bem, corria o risco de diluir ainda mais a agenda do UNEP. Ainda assim, dez anos depois de Estocolmo, o UNEP acreditava confiantemente que suas relações com outros órgãos haviam melhorado à medida que a ocorrência de programação conjunta fora crescendo.36 O PROGRAMA DOS MARES REGIONAIS O Programa dos Mares Regionais (RSP - Regional Seas Programme) foi muitas vezes citado como um dos principais sucessos do UNEP - se não como seu único sucesso real na primeira década -, no qual o UNEP teve êxito em reunir 120 países e 14 órgãos da ONU para fazer frente a problemas compartilhados de poluição e degradação litorânea em mares comuns. A ação recomendada por Estocolmo era terminar com toda a poluição marinha significativa em três ou quatro anos, particularmente em mares interiores ou semiinteriores.* A idéia do RSP nasceu numa reunião de especialistas realizada em Londres, em junho de 1971, como preparação para Estocolmo. Analisando a posição da poluição marinha a reunião concluiu que um enfoque mar-a-mar para o problema era mais realista e factível do que um programa global de alcance amplo.37 Esse enfoque revela muito quanto aos motivos pelos quais os planos globais de alcance amplo nem sempre conseguiram obter um grau de sucesso comparável ao do Programa dos Mares Regionais. O RSP foi iniciado em 1974 com uma estratégia cuidadosamente planejada para respeitar as sensibilidades nacionais, particularmente quanto aos dados sobre poluição, e para deixar a implementação propriamente dita de cada plano regional sob responsabilidade exclusiva dos estados litorâneos em questão. O RSP envolvia a maioria dos principais organismos da ONU e ilustrava exatamente o tipo de papel catalizador e parcialmente executivo que o UNEP poderia desempenhar.38 Dentro do RSP foram realizados levantamentos de cada região e foi traçado um plano de ação. O UNEP organizou então um encontro entre os governos envolvidos para que chegassem a um acordo entre si no sentido de que o mar regional era um

recurso comum diante de ameaças comuns e em seguida concordassem quanto ao plano de ação. A isso seguiram-se trocas de informações e monitoração, com as instituições nacionais se reunindo para discutir a ação. O UNEP agiu como um catalizador inicial e, à medida que cada programa foi crescendo, os próprios estados assumiram o financiamento e a administração, e os organismos científicos nacionais
* O princípio de uma abordagem regional para a administração marinha não era novo; o Conselho Internacional para a Exploração dos Mares, por exemplo, já era atuante no Atlântico orte e no Báltico desde 1902,

121 empreenderam o trabalho de monitoração e pesquisa, utilizando os órgãos da ONU para consultoria especializada. Dessa forma, um organismo internacional estava reunindo várias nações em torno de um problema de interesse mútuo. O modelo do RSP foi o Plano de Ação do Mediterrâneo, adotado por dezesseis estados mediterrâneos em Barcelona, em janeiro de 1975. Em fevereiro de 1976 uma segunda reunião foi realizada em Barcelona para implementar o componente legislativo do plano de ação. Essa foi historicamente a primeira tentativa real de dar início a uma administração efetiva do Mediterrâneo.39 O primeiro componente desse plano foi uma legislação nova; a reunião adotou a Convenção de Barcelona para a Proteção do Mar Mediterrâneo contra a Poluição e dois protocolos: um para combater os despejos por parte de navios e aeronaves, o outro para incentivar a cooperação em casos de poluição de emergência por petróleo ou outras substâncias. A convenção entrou em vigor em 1978. Em 1980 foi adotado um terceiro protocolo, voltado para a poluição cujas fontes eram de base terrestre. A convenção e os protocolos foram acordos de cavalheiros - não havia meios de impor o seu cumprimento. O segundo componente do plano para o Mediterrâneo foi a monitoração e a pesquisa, realizados pelos laboratórios dos estados litorâneos; havia 84 laboratórios desse tipo envolvidos em 1984. O terceiro componente foi a administração ambiental, consistindo de um programa de longo prazo de estudo e pesquisa sobre desenvolvimento e meio ambiente (O Plano Azul), e um Programa de Ações Prioritárias que se concentrava em áreas prioritárias selecionadas. O componente final era o pequeno secretariado criado para supervisionar o plano de ação. Usando uma diretriz semelhante, mas permitindo variações regionais para as necessidades regionais específicas, foram subseqüentemente traçados planos de ação regionais para dez mares regionais, inclusive para o mar Vermelho (1976), a região do Kuwait (1978), os mares litorâneos da África ocidental e central, o Caribe, os mares do Oriente asiático, os mares do sudeste do Pacífico (todos em 1981) e os mares do sudoeste do Pacífico (1982). Em 1983 já estavam envolvidos no RSP - em graus variados - mais de 120 países, 14 órgãos da ONU e 12 outras organizações internacionais.40 Infelizmente o sucesso do programa foi limitado por diversos problemas fundamentais, vários dos quais foram equacionados no relatório Portmann de 1982, encomendado pelo UNEP:41 1) Outros órgãos da ONU mostraram-se relutantes em apoiar integralmente o programa e usaram fontes de informação diferentes dentro dos países quando empreendiam suas próprias atividades ambientais. 2) A sustentação financeira, por ser voluntária, era imprevisível, o que tornava os órgãos da ONU ainda menos dispostos a se envolverem. O UNEP, por exemplo, gastou oito milhões de dólares no Plano de Ação Mediterrânea nos seus primeiros cinco anos. Quando os governos envolvidos assumiram a responsabilidade, reduziram o orçamento em um quarto. Três países (França, Itália e Espanha) subseqüentemente foram responsáveis por 80% das contribuições governamentais.42 Pagamentos em atraso significavam na prática que os fundos para o Mediterrâneo quase desapareceram em 1981-1982. 3) Em muitas regiões o nível de especialização e as instalações disponíveis para a implementação do plano de ação eram inadequadas. (Stjepan Keckes, diretor do RSP, contestou este ponto e argumentou que a infraestrutura necessária poderia se desenvolver com o RSP.)43 4) Uma deficiência clara que afetava todos os planos regionais era a escassez de informações sobre poluentes e a quantidade limitada de dados confiáveis sobre níveis de 122

poluição marinha. A partir de 1985 houve apenas um relatório terminado sobre o estado de um meio ambiente marinho regional: o do Mediterrâneo. Embora o Plano de Ação do Mediterrâneo estivesse bastante adiantado, se aperfeiçoamento, que de fato ocorreu, foi limitado por problemas combinados de financiamento e desacordos quanto a padrões. A despeito desses problemas, o Programa dos Mares Regionais foi amplamente encarado como o empreendimento mais efetivo do UNEP em sua primeira década de operação. O UNEP atribuiu o sucesso do programa ao fato de que era regional e não global, envolvendo nações com problemas comuns urgentes que só poderiam ser resolvidos pela ação conjunta.44 Por ser uma iniciativa regional, tinha também proporções mais fáceis de administrar e metas mais fáceis de atingir. Outros problemas (tais como a poluição ácida ou a poluição de rios compartilhados) se provaram mais bem enfrentados por países em iniciativas bilaterais ou regionais, onde existiam interesses comuns, custos econômicos ou implicações políticas identificáveis. O UNEP FRUSTRADO: O PROBLEMA DA DESERTIFICAÇÃO Uma indicação de como os esquemas de alcance mais amplo podem fracassar, mesmo quando são incluídos dispositivos nacionais ou regionais, pode ser encontrada num dos maiores fracassos do UNEP, uma área à qual o programa dedicou tempo e recursos consideráveis, a saber, a campanha contra a desertificação. "Desertificação" é uma palavra um tanto desajeitada de origem relativamente recente, comumente definida como a degradação do solo causada pelo homem, de modo que o solo perde sua fertilidade e sua capacidade de oferecer retorno econômico a partir de cultivo ou pastagem.45 A desertificação não implica a expansão dos desertos naturais tanto quanto o aumento da incidência de condições desérticas em áreas semidesérticas. Um terço da superfície terrestre do planeta é semidesértica e sustenta mais de seiscentos milhões de pessoas; cerca de metade dessa área - que sustenta oitenta milhões de pessoas - é considerada como estando sob ameaça de desertificação.46 Segundo o Mapa da Desertificação do Mundo da ONU, mais de 40% da área não desértica da África corre o risco da desertificação; metade das pessoas mais ameaça das pela desertificação do mundo vivem no Sahel da África ocidental.47 As causas são complexas, mas incluem o desmatamento, o excesso de cultivo (engendrado por uma combinação do aumento da demanda de alimentos, devido ao crescimento das populações, com a aceleração no cultivo de culturas comerciais e levando a um declínio da fertilidade do solo, erosão pelo vento e pela água, invasão de dunas de areia e produtividade decrescente das safras), o excesso de pastagem e a irrigação mal planejada e administrada. A incidência desses fenômenos, por sua vez, toca no coração do dilema de administração de recursos dos mais pobres dentre os países menos desenvolvidos. As secas e as fomes coletivas são geralmente percebidas como atos de Deus; até talvez uns quinze ou vinte anos atrás, grande parte da literatura sobre a fome se concentrava na ligação entre o suprimento absoluto de alimentos e a subnutrição. Sem rejeitar essa noção, observando que ao passo que as fomes coletivas envolvem freqüentemente a subnutrição aguda e generalizada, nem todos os grupos nas nações afetadas pela fome ficam sem comer. Sua abordagem de "prerrogativas" se concentra na propriedade e na troca.48 Timberlake argumenta que embora a seca possa ser um precursor natural da fome (isto é, um ato de Deus), a fome de 1984-1986 no Sahel foi uma conseqüência direta de estratégias econômicas, agrícolas e ambientais incorretas (isto é, um ato do homem). Os 123 camponeses africanos, em seus esforços para sobreviver, foram impelidos a exigir cada vez mais de seu "estoque de capital" de florestas, solos e rios; esse processo fez "falir" o meio ambiente africano ao minar a capacidade das nações africanas de produzir alimentos para seus habitantes.49 A seca de 1968-1973 no Sahel ilustrou alguns dos perigos associados à disseminação dos povoamentos humanos em terras áridas periféricas. A seca não é incomum na área (houve secas de grandes proporções em 1910-1914, 1927-1930 e 1940-1944,50 e novamente em 1984-1985), mas as circunstâncias da seca de 1968-1973 deram motivo a preocupações especiais. "A causa do desastre saheliano [de 19681973], em última análise", argumenta Murdoch, "foi a destruição de um modelo complexo de organizações de vida que anteriormente haviam permitido que números bastante grandes de pessoas vivessem num meio difícil".51 No decorrer de um período de séculos, os nômades do Sahel haviam criado um sistema agrícola, econômico e de comércio para compensar com precisão as limitações de seu meio ambiente. Criavam

rebanhos mistos de camelos, bois, carneiros e cabras; alternavam os períodos de acasalamento a fim de ter leite durante o ano todo; deslocavam seus rebanhos de acordo com a incidência de chuva, levando-os, durante as estações secas, para áreas de vegetação permanente; mantinham rebanhos maiores do que os que necessitavam imediatamente, assegurando desse modo uma reserva de comida para os tempos de seca; passavam para a caça e a coleta em épocas de seca extrema; e mantinham padrões de comércio complexos com as regiões de savana ao sul, garantindo assim um suprimento regular de grãos. O colonialismo trouxe impostos e exigências de exportação, forçando os camponeses a se dedicarem à produção de culturas comerciais, minando os sistemas agrícolas nativos, reduzindo a fertilidade do mesmo, aumentando a erosão do solo e empobrecendo os camponeses. A terra foi mais intensamente trabalhada para compensar a perda de fertilidade e os camponeses adentraram terras periféricas para produzir alimentos e culturas comerciais (reduzindo nesse Ínterim os períodos de pousio). As mudanças assim operadas nos sistemas agrícola e econômico do Sahel persistiram, explicando em grande parte a resistência significativamente diminuída à seca que tornou as fomes de 1968-1973 e 1984-1986 tão desastrosas. Murdoch conclui que a pobreza dos camponeses era "um mecanismo causal no círculo vicioso do subdesenvolvimento que tem evitado o desenvolvimento sustentado de uma economia integrada, a qual, por sua vez, propiciaria mais renda, maior número de empregos e mais capital para investimentos". Ele observa ainda o efeito do colapso do comércio nômade tradicional na destruição das estratégias de longo prazo dos nômades.52 Anos de boa chuva durante a década de 1960 haviam incentivado a disseminação de culturas alimentadas pela chuva e pastos para animais em terras periféricas nos limites do Sahara. Quando as chuvas não vieram em 1968, os rebanhos de animais foram privados de pastagens (mas não de água) e começaram a morrer em grande número. As chuvas não vieram novamente em 1970 e a colheita se exauriu com rapidez, deixando aproximadamente três milhões de pessoas necessitadas de ajuda alimentar emergencial em seis países. Em 1973, quando se tornou clara a dimensão total da seca, estimou-se que entre cem mil e 250 mil pessoas e 3,5 milhões de cabeças de gado haviam morrido. Uma das lições a ser aprendida foi a conseqüência desastrosa de uma combinação de seca e deslocamento de grande número de pessoas e animais para terras ecologicamente periféricas. Em circunstâncias normais o pastoreio nômade faz um uso perfeito dos solos secos; a pastagem moderada sustentável na verdade aumenta a produtividade dos pastos. Mas os aumentos no tamanho dos rebanhos e as diminuições nas áreas de pastagem disponíveis levou ao excesso de pastagem. No Niger, por exemplo, entre 1938 e 1961, o número de jumentos aumentou em 100%, o de cabras e carneiros em 200%, o de bois em 480% e o de camelos em 700%.53 Os números crescentes de animais eram em parte uma função do 124 crescimento populacional humano. Os rebanhos são encarados como um seguro contra os anos de seca. Durante os anos de pluviosidade boa, permite-se que os números cresçam. Quando do primeiro aparecimento da seca, contudo, os donos de rebanhos relutam em reduzi-los, exercendo assim maior pressão sobre os pastos sobrecarregados pela seca. Uma assistência veterinária melhorada aumentou ainda mais o número de animais e a política governamental generalizada de incentivar os nômades a se estabelecerem oferece pouco repouso ao solo usado para pastagem. Além disso, a construção de poços tendeu a concentrar os nômades, muitas vezes atraindo muito mais animais do que comportava a capacidade de sustentação planejada para os poços e intensificando o uso do solo circundante. A seca de 1968-1973 foi um dos motivos subjacentes à convocação, em 1977, da United Nations Conference on Desertification (UNCOD), realizada em Nairobi de 29 de agosto a 9 de setembro de 1977. O objetivo era criar um fórum para a discussão do problema, que era visto como já tendo atingido proporções de crise, e planejar a ação. A realização da conferência implicava o reconhecimento claro de que a desertificação era um elemento básico na redução da capacidade da África de produzir alimentos para o sustento de seus habitantes; ela teve êxito também em estabelecer firmemente o papel da atividade humana na desertificação. A conferência resultou num Plano de Ação para o Combate à Desertificação, que consistia em 28 recomendações. Estas incluíam planos nacionais de ação, aperfeiçoamento da criação de animais, agricultura sustentada pela chuva e cultivo de irrigação; a monitoração das tendências de desertificação; projetos transnacionais orientados para a vinculação dos países dentro de medidas integradas antidesertificação; a administração dos aqüíferos regionais; e a criação de cinturões verdes para interromper

fisicamente a expansão dos desertos. Também foi enfatizada a importância de restringir o crescimento populacional e aprender a compreender os fatores políticos, econômicos e sociais associados à desertificação. O United Nations Sudano-Sahelian Office (UNSO) recebeu a responsabilidade pela coordenação das ações de desdobramento na região sudano-saheliana enquanto o UNEP ficava responsável pela mesma no resto do mundo. Tolba alegou que existia um consenso geral de que a UNCOD foi "uma das conferências da ONU cientificamente mais bem preparadas dos anos 70" e que as recomendações, se efetivamente aplicadas, "teriam colocado a comunidade internacional em condição de ter interrompido a desertificação já no ano 2000".54 Como diretor-executivo do UNEP, sua avaliação evidentemente não era desinteressada, mas há muitas evidências que fundamentam sua conclusão. Diferentemente do caso de muitos outros problemas ambientais, havia certeza quanto às causas e a ação corretiva necessária. Mas em maio de 1981 Tolba comunicou que o progresso na implementação do plano de ação havia sido lento. Em maio de 1984 um encontro de dois dias do conselho diretor do UNEP (convocado para discutir a avaliação geral do UNEP quanto à implementação do plano contra a desertificação) confirmou que os objetivos do plano ainda eram fundamentalmente corretos e viáveis; mas Tolba admitiu naquele momento (num discurso notavelmente franco e transparente) que o UNCOD não havia sido realista ao estabelecer a meta de interromper a desertificação até o final do século.55 A avaliação concluía que a desertificação havia continuado a se estender e intensificar, que as taxas observadas provavelmente não se alterariam nas terras irrigadas e de vegetação baixa, cresceriam para proporções críticas nas terras de cultivo dependente de chuva e que os custos das perdas na produção devidas à desertificação montavam a cinco vezes o valor estimado para que se interrompesse a desertificação (4,5 bilhões de dólares por ano durante vinte anos). Os mais afetados eram países menos desenvolvidos em terras áridas tropicais, particularmente aqueles atingidos pela seca, rendas baixas e instabilidade política. A seca continuada no cinturão sudano-saheliano e uma recessão econômica que havia limitado a disponibilidade de fundos não haviam ajudado a campanha contra a 125 desertificação. Quatro quintos dos investimentos em projetos relacionados à desertificação foram feitos sob a forma de ação "preparatória ou de apoio", tais como construção de estradas, suprimento de água potável, oferta de habitação e extensão da irrigação. Somente 20% dos gastos haviam sido feitos sob a forma de ação corretiva do tipo recomendado pela UNCOD. Os projetos transnacionais já haviam nascido mortos e pouco foi feito para monitorar a situação ou aumentar a compreensão do processo. Somente 22% de toda a ajuda para o Sahel foram para a agricultura e cerca de 1,4% para o manejo de florestas. Poucos países haviam elaborado planos nacionais de ação ou tentado avaliar a extensão e a gravidade da desertificação. Poucas medidas corretivas haviam engajado comunidades locais. Embora as soluções técnicas para a desertificação fossem todas conhecidas e compreendidas, os meios econômicos, sociais e políticos para aplicá-Ias ainda não haviam sido encontrados.56 Havia três níveis de abordagem para o problema: nacional, regional e internacional. No nível nacional, o plano havia recomendado que uma estrutura de coordenação nacional fosse estabelecida para combater a desertificação e traçar planos de ação nacionais. Em todos os casos, à exceção de três, a responsabilidade havia sido na realidade entregue a órgãos existentes. Dos três novos organismos nacionais criados somente um tornou-se de fato efetivo, a partir de maio de 1984. Em muitos casos o fracasso no estabelecimento de estruturas nacionais refletia a baixa prioridade nacional atribuída ao combate à desertificação.57 Tolba assinalou, em seu discurso de maio de 1984, que isso havia sido encorajado pela falta de poder político das populações rurais pobres mais imediatamente afetada. Os países menos desenvolvidos também haviam pensado que existiam problemas de curto prazo mais imediatos precisando de intervenção e resistiram a fazer planos de longo prazo. Quanto aos países mais desenvolvidos, os órgãos de ajuda preferiram sistematicamente financiar projetos "de impacto" visíveis, tais como represas, estradas e fábricas, os quais utilizavam tecnologia e equipamento das nações doadoras, criando empregos e lucros na nação em questão. Os projetos rurais eram mais difíceis de identificar, planejar e implementar, e eram menos visíveis.58 Havia também uma predominância da falta de consciência nos países mais desenvolvidos - muitos dos quais muito afastados das causas e efeitos imediatos - quanto à extensão do problema. No nível regional quatro comissões regionais da ONU organizaram reuniões e começaram a coletar dados, mas nenhuma traçou planos regionais de ação. O UNEP responsabilizou pelo fracasso as carências

frnanceiras, os conflitos e guerras civis e as relações políticas tensas entre os países envolvidos, e não a inadequação da estrutura regional.59 Um dos órgãos regionais mais efetivos foi o UNSO, que ajudou a produzir um acordo regional sobre - estratégia da desertificação na região sudano-saheliana, levantou quarenta milhões de dólares entre 1978 e 1983 para programas antidesertificação nos 19 países que servia e ajudou a estabelecer dois centros de estudos regionais. Mas também teve seus problemas. Uma crítica foi que o escritório, baseado em Nova York, tinha mais experiência de assistência técnica do que de problemas de desertificação e era capaz de classificar um projeto como "anti-lesertificação" apenas porque era politicamente conveniente fazê-lo.60 No nível internacional tódos os órgãos da ONU foram incentivados a apoiar as atividades antidesertificação e dois organismos ad hoc foram criados para encorajar isso: a Divisão de Desertificaçâo do UNEP, e o Inter-Agency Working Group on Desertification. O UNEP acreditava que esse sistema havia "de modo geral funcionado eficientemente",61 mas as limitações frnanceiras significaram na prática que a Divisão de Desertificação não havia obtido seu complemento integral de pessoal profissional, o que lhe deu poucas oportunidades de operar efetivamente. "É a unidade fundamental da ONU para o problema da desertificação", concluiu O UNEP, "e ainda assim, até o presente momento, nunca teve os recursos para cumprir suas funções.”62 O grupo de trabalho, em contraste, 126 obteve um êxito moderado em sua função de reunir os representantes dos órgãos da ONU para coordenar a pesquisa, o treinamento e a troca de informações dentro da ONU. Dentre todos os obstáculos ao progresso, nenhum foi mais sério do que a pura falta de dinheiro. Tolba havia dito na UNCOD que teriam de ser gastos 2,4 bilhões de dólares anualmente durante vinte anos para interromper a desertificação no Terceiro Mundo. Foi aberta uma conta especial dentro das Nações Unidas para financiar projetos antidesertificação, mas, entre 1977 e 1984, a mesma atraiu escassos 48.524 dólares. O Consultative Group for Desertification Control (DESCON) - um híbrido de representantes de órgãos da ONU e organismos de ajuda - foi criado para identificar e unir as fontes de fundos e os projetos prioritários. Entre 1978 e 1983 o grupo analisou 48 projetos, encaminhando financiamentos integrais para 12 e parciais para sete. O montante realmente providenciado pelo DESCON foi de 26 milhões de dólares, cerca de um quarto do total necessário. O UNEP acreditava que tanto os países mais desenvolvidos quanto os menos desenvolvidos haviam ficado igualmente confusos quanto aos objetivos do DESCON e não haviam utilizado plenamente seus serviços. O UNEP ofereceu duas explicações para a precária situação financeira: os países menos desenvolvidos que sofriam com a desertificação pareceram não ser capazes (ou talvez não estar dispostos) de dar prioridade às medidas antidesertificação e as atividades para combater a desertificação não eram de uma maneira geral competitivas em termos de razão custo-benefício econômico a curto prazo. Mohammed Kassas, presidente da IUCN e autoridade em terras áridas, assinalou que o Egito, por exemplo, gastou 13.800 dólares por hectare na luta para recuperar terras desérticas. Investida num banco, tal soma poderia ter rendido 1.700 dólares de juros por ano, muito mais do que a terra poderia dar de retorno.63 Em 1982 Grainger advertiu que dez anos depois do clímax da seca saheliana de 1968-1973 o Sahel estava avançando firmemente na direção de um outro desastre; os especialistas não estavam de acordo quanto ao momento da chegada da próxima crise, que poderia estar muito próxima ou a alguns anos de distância, mas que a experiência anterior demonstrava ser inevitável.64 Apesar da necessidade urgente de aumentar a produção de alimentos, menos de um quarto da ajuda para a região havia sido investida no desenvolvimento agrícola. A população do Sabel estava crescendo à razão de 25% ao ano, as safras estavam declinando (a produção de cereais dependentes de chuva havia caído para 75% de seu nível de 1%8) e muitos países haviam passado a depender do envio de alimentos (grande parte dos quais só chegava às cidades). O Club du Sahel estimou que a auto-suficiência em alimentos na verdade ficou menor entre meados dos anos 70 e 1982. A seca de fato retomou à África subsahariana e a fome sobreveio. Em maio de 1984 um grupo de 25 jornalistas visitou a Etiópia sob a égide do serviço de informação ambiental Earthscan, para que lhes fossem mostrados os efeitos da desertificação. Ficou imediatamente evidente que a Etiópia já se encontrava nos estágios iniciais de uma fome de proporções consideráveis. Todos os jornalistas enviaram reportagens para seus jornais e periódicos, relatando que cinco milhões de pessoas estavam diante da subnutrição, mas houve pouco interesse e poucas das reportagens foram publicadas. Em outubro de 1984 uma equipe de televisão da BBC gravou uma reportagem sobre os campos de refugiados na Etiópia rural.

Enfatizando mais uma vez o poder da televisão, a exibição do filme resultou, durante os 18 meses seguintes, em uma conscientização pública generalizada em âmbito mundial e numa campanha de proporções sem precedentes para levantar fundos. Os artistas de rock britânicos, liderados por Bob Geldof e Midge Ure, formaram o Band Aid e em novembro gravaram uma canção de grande vendagem, Do They Know It's Christmas?, para levantar fundos para o combate à fome. Ao Band Aid seguiu-se uma contra partida norteamericana, o U.S.A. for Africa, com a canção We Are the World, e também os concertos Live Aid, simultâneos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Já em 1986 haviam sido arrecadados mais de cem milhões de dólares pelo Band Aid e Live 127 Aid, e 51 milhões de dólares pelo U.S.A. for Africa.65 Em 1984-1985 a fome afligia vinte países (Sudão, Etiópia, Niger, Moçambique, Somália, Chade e Mali eram os mais afetados). Estima-se que um milhão de pessoas morreram de subnutrição e doenças correlatas, dez milhões foram obrigados a abandonar suas casas e trinta milhões em vinte países não tinham a quantidade de alimentos suficiente para viver. Muito pouco da publicidade dada à fome nos meios de comunicação do Ocidente falava da degradação ambiental como uma causa fundamental. Ainda assim o binômio fome/seca levou funcionários do governo, órgãos de ajuda e planejadores de desenvolvimento a uma tomada de consciência do fato de que os programas de desenvolvimento africanos dos vinte anos anteriores haviam fracassado. Em 1984 o Banco Mundial, uma instituição normalmente cautelosa, concluiu que "a transformação econômica e social da África, tão ávida e efetivamente iniciada nos primeiros anos de independência, poderia ser interrompida ou revertida" a não ser que as políticas de desenvolvimento mudassem.66 Timberlake observa que a fome teve o efeito positivo de desencadear "uma reavaliação dolorosa entre os responsáveis pelo 'desenvolvimento' da África e trouxe uma nova predisposição a admitir erros".67 As causas da fome confirmaram muitas advertências feitas antes, durante e desde Estocolmo sobre a natureza da relação entre o planejamento do desenvolvimento e a administração ambiental. UNEP: UM IRREGULAR HISTÓRICO DE REALIZAÇÕES O UNEP foi o resultado mais concreto da Conferência de Estocolmo. Embora imperfeito e uma década depois ainda insuficiente em muitos sentidos, era provavelmente a melhor forma institucional possível, dadas as limitações impostas pelos outros órgãos especializados da ONU e pelo baixo nível de financiamento por parte dos governos. Mas teve diversos obstáculos colocados em seu caminho desde o princípio. Teve demasiado pouco dinheiro, demasiado pouco pessoal e demasiadas coisas a fazer. Teve a tarefa ingrata de coordenar o trabalho de outros órgãos da ONU em meio a uma realidade de desconfiança e ciúme inter-organismos, e os governos nacionais provaram não estar dispostos a conceder-lhe poderes significativos. Portanto, alega Eckholm, o UNEP simplesmente não se tornou a força global poderosa que alguns haviam sonhado outrora.68 Dez anos depois de Estocolmo o UNEP propriamente dito só podia reivindicar "um irregular histórico de realizações (...) [com] um progresso de mediano a bom (...) na implementação de alguns dos elementos do Plano de Ação (...) [enquanto] para outros elementos, o progresso foi muito lento".69 Exceto pelo Programa de Mares Regionais, o sucesso mais notável do UNEP foi o seu envolvimento na promoção de um acordo na Convenção para a Proteção da Camada de Ozônio de Viena, em 1985 (ver capítulo 9). O Comitê de Coordenação para a Camada de Ozônio, patrocinado pelo UNEP, ajudou a criar um consenso quanto às dimensões da ameaça à camada de ozônio. Isso -estabeleceu um precedente promissor para o progresso em relação a outras ameaças globais. Através do GEMS o UNEP também promoveu o desenvolvimento de programas de monitoração; através do IRPTC deu início a uma coordenação de dados sobre substâncias químicas tóxicas e deve ser-lhe dado o crédito por ter ajudado a fazer com que convenções como a do Comércio de Espécies em Extinção passassem a funcionar efetivamente. Mas os fracassos foram mais numerosos que os sucessos. Na sua sessão de 1977 o conselho diretor do UNEP estabeleceu vinte e uma metas a serem cumpridas até 1982. Em 1982 o Sierra Club e o Grupo Agesta da Suécia fizeram avaliações separadas de progresso; os resultados (Tabela 2) não foram encorajadores. O próprio UNEP acreditava que nunca teria sido possível passar imediatamente a implementar as recomendações do Plano de Ação de Estocolmo por três motivos: o secretariado pequeno e os fundos limitados, a imensidão da tarefa e a natureza das recomendações em si, as quais variavam do específico (em

termos de metas e ações necessárias) ao geral (em termos de ações necessárias e não metas) .70 Dadas as circunstâncias, pode ser-lhe atribuído o mérito de ter realizado mais do que na verdade tinha poderes para fazer; é preciso fazer uma distinção entre o que o UNEP realmente poderia fazer e aquilo que os que estavam de fora achavam que ele deveria fazer. Tolba acreditava que, num balanço, a realização global mais importante do UNEP foi aumentar o nível geral de consciência ambiental nos círculos implementadores de políticas.71 O UNEP podia alegar que tinha ajudado a atrair a atenção dos governos tanto para seus próprios problemas ambientais nacionais quanto para problemas globais compartilhados. Mas sua deficiência principal permanece: raramente se encontra em posição de dar seguimento a suas advertências e aconselhamentos com dinheiro ou assistência técnica.

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SETE O Norte: Política e Ativismo (1969-1980)

À medida que se intensificava a adesão ao Novo Ambientalismo, o interesse público se refletia cada vez mais nas políticas públicas. Enquanto somente quatro projetos de legislação ambiental nacional haviam sido aprovados nos países membros da OECD entre 1956 e 1960, dez foram aprovados no período de 1961 a 1965, dezoito entre 1966 e 1970 e trinta e um de 1971 a 1975.1 A partir de agosto de 1971, 12 países haviam planejado ou implementado a reorganização de seu programa ambienta;*/2 em junho de 1972, esse número tinha chegado a 25 (11 dos quais no Terceiro Mundo); em 1985, mais de 140 países dispunham de organismos ambientais.3 Sandbach argumenta que a criação de novos órgãos administrativos e legislativos ajudou a minorar os temores dos ambientalistas e a conter a questão ambiental.4 Mas as mudanças políticas e administrativas eram freqüentemente mais quantitativas do que qualitativas. Embora muitos partidos políticos europeus ocidentais tenham começado a lançar mão do expediente de adotar políticas de meio ambiente no começo dos anos setenta, suas respostas foram pobres o bastante para estimular o crescimento de partidos ambientais inteiramente novos, notadamente na Alemanha Ocidental, Suíça, Bélgica, França e Holanda. Para tornar as coisas piores, poucos governos criaram organismos ambientais com poderes adequados. Em alguns casos reestruturaram as responsabilidades delegadas de departamentos já existentes, em outros criaram departamentos inteiramente novos ou então novos órgãos reguIamentadores com poderes horizontalmente abrangentes, mas as soluções raramente se mostraram suficientes para lidar com os problemas. Havia três razões principais para isso. Primeira: o meio ambiente revelou-se quase impossível de ser compartimentalizado. Um problema comum a quase todas as tentativas de criar uma nova máquina governamental foi o de definir os contornos das responsabilidades e propiciar a autoridade legislativa necessária. O meio ambiente invade quase todas as outras áreas importantes da política pública. Em teoria um verdadeiro "departamento de meio ambiente" teria que estar armado com um aparato impressionante de autoridade legislativa, que interviesse na agricultura, indústria, comércio, transporte, energia, suprimento de água e outras áreas do planejamento de recursos. Na prática os novos organismos ambientais raramente dispunham do apoio de uma legislação adequada à amplitude de suas responsabilidades.
* Austrália, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha Ocidental, Índia, Japão, Ouênia, Nova Zelãndia, Singapura, Suíça e Estados Unidos.2

130 Segunda: a criação de novos departamentos freqüentemente causou conflitos com os departamentos existentes, os quais não desejavam abrir mão de seus poderes ou responsabilidades, resultando, com muita freqüência, em novos organismos cujas obrigações se combinavam mal, eram inadequadas ou incompletas, ou então tinham muita responsabilidade mas pouco poder. Nos Estados Unidos 27 órgãos diferentes tinham responsabilidades relativas a diferentes componentes da política ambiental. Na Grã-Bretanha, o inapropriadamente chamado Departamento do Meio Ambiente (DOE - Department of the Environment) tinha provavelmente menos influência sobre a política ambiental do que o Departamento da Agricultura (e nenhum departamento do governo britânico faz tanto em termos práticos quanto o movimento ambientalista privado). Terceira: muitos dentre os novos organismos criados eram afligidos pela falta de recursos humanos, financeiros e técnicos; tendendo a ser membros subalternos do governo, seus dirigentes tinham freqüentemente que atuar em níveis médios, sem acesso aos quadros que tomavam as decisões no primeiro escalão; e a monitoração e fiscalização da legislação variavam desde o controle estrito até nenhum controle.5 A OECD concluiu em 1985 que mesmo entre seus estados membros muitos países não foram capazes de dedicar recursos a programas ambientais necessários.6 Seis elementos em particular determinaram a natureza da resposta da maior parte dos sistemas políticos à questão ambiental nos anos 70 e 80: (1) o nível do ativismo político público, particularmente através dos grupos de interesse; (2) o nível de confiança na capacidade administrativa (muito maior na GrãBretanha, por exemplo, do que nos Estados Unidos); (3) o papel da lei e a divisão de poderes entre os governos central e local (maior centralização na Grã-Bretanha do que nos Estados Unidos); (4) o grau de consulta e de acesso públicos ao processo de tomada de decisões (prática aberta de lobby nos Estados Unidos, consulta privada na Grã-Bretanha); (5) o grau de acesso público à informação (maior nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha); e (6) a natureza dos arranjos institucionais existentes.

O campo de ação dos novos órgãos ambientais com freqüência revelou muito sobre as prioridades políticas e econômicas dos diferentes sistemas políticos. Para a maioria dos países menos desenvolvidos o estímulo era o desejo de planejar os recursos naturais segundo os interesses do desenvolvimento econômico. Assim, os países menos desenvolvidos freqüentemente combinaram em um ou dois organismos as responsabilidades relativas aos recursos naturais, turismo, vida selvagem, população e uso do solo. Nos países industrializados o controle da poluição era em geral o elemento principal na responsabilidade dos novos departamentos; essa questão também serviu de estímulo nos países menos desenvolvidos mais industrializados, tais como Índia, Brasil e China. Enquanto os países mais desenvolvidos começavam a preparar uma nova agenda de "previsão e prevenção", os países menos desenvolvidos ainda estavam na fase de "reação e cura".7 Nos países mais desenvolvidos, registrava-se igualmente um deslocamento pronunciado no sentido de fazer frente aos problemas transfronteiras, tais como a poluição ácida, substâncias químicas tóxicas, resíduos perigosos, pesqueiros compartilhados e administração de bacias fluviais. Havia o começo de uma verdadeira ponderação da vinculação dos interesses nacionais com os internacionais, por exemplo, na questão da poluição ácida (ver capítulo 9). Na maioria dos casos as iniciativas nas políticas ambientais eram respostas nacionais a problemas nacionais, mas o fato de que muitos países diferentes tenham começado. a voltar sua atenção para problemas ambientais quase que simultaneamente sugere que as iniciativas nacionais eram influenciadas também por avanços mais generalizados do conhecimento científico, pelas bem-divulgadas descobertas dos modelos globais, por acontecimentos (tais como os desastres ambientais) ocorridos em outros países e também pela participação em tratados internacionais ou em organizações intergovernamentais. 131 O papel dos grupos de interesse, tanto na atração de atenção para as questões quanto na monitoração da implementação e da eficácia da legislação foi, nacional e internacionalmente, um importante elemento nas políticas ambientais. À medida que floresceu o número de organismos ambientais estatais e de instrumentos Iegislativos, o mesmo aconteceu com o número de ONGs - e o apoio a elas. A tendência entre esses grupos estava longe das questões mais limitadas da proteção da natureza e evoluía no sentido das questões ambientais mais amplas, assim como, ao mesmo tempo, se distanciava cada vez mais das preocupações puramente filantrópicas, evoluindo na direção do ativismo e da prática de lobby. Embora as questões domésticas tenham permanecido sendo as mais imediatamente identificáveis e acessíveis à maior parte das ONGs, as ONGs maiores (ou coalizões de ONGs) não podiam ignorar o aumento do número de questões que deveriam ser enfrentadas nos níveis regionais ou globais. */8 As atitudes contrastantes da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos em relação à elaboração de políticas ambientais dá uma idéia das diferentes questões em jogo, dos diferentes estilos nacionais de regulamentação e da inerente complexidade do meio ambiente como questão política. GRÃ-BRETANHA: A BABÁ TEM RAZÃO À primeira vista a Grã-Bretanha tem um histórico impressionante no que tange o reconhecimento e reação à degradação ambiental. Em 1273 foi ali aprovado o que pode ter sido o primeiro instrumento de legislação antipoluição do mundo (um decreto proibindo a queima de carvão mineral). Em 1863 criou-se o primeiro organismo de controle da poluição, a Inspetoria dos Álcalis. Em 1947 a Grã-Bretanha aprovou uma das legislações de planejamento mais abrangentes do mundo, a Lei do Planejamento da Cidade e do Campo. Em 1956 tornou-se a primeira nação industrializada importante a aprovar uma Lei do Ar Limpo. Em 1970 criou o primeiro órgão "ambiental" de nível ministerial. Contudo, paradoxalmente, sucessivos governos do pósguerra se mostraram lentos em suas respostas às tendências da opinião pública quanto ao meio ambiente. A posição britânica sobre a poluição ácida oferece um exemplo disso. O problema foi identificado inicialmente na Grã-Bretanha; a usina elétrica de Battersea, em Londres (inaugurada em 1929), foi a primeira usina elétrica do mundo a instalar filtros antipoluição e Londres foi uma das primeiras cidades do mundo a atacar com sucesso os problemas de smog. Todavia, durante os anos 80, a Grã-Bretanha estava efetivamente atrasada em relação a outras nações da Europa ocidental no tocante aos acordos internacionais para restringir a poluição ácida (ver capítulo 9). As respostas para esses paradoxos devem ser procuradas na natureza do sistema político britânico.

Os políticos britânicos tradicionalmente têm visto a si próprios como guardiães do interesse público e têm confiado em sua capacidade de compreender esse interesse com um mínimo de consulta ao público em si. Uma das características da política britânica é a limitação imposta ao acesso público à informação e a crença de que um público passivo aceitará aquilo que é tido como sendo de seu interesse (uma atitude freqüentemente questionada). Isso significa, por sua vez, que muitas das políticas regulamentadoras na
*Isso influenciou até certo ponto a percepção dos movimentos nacionais relativamente às questões. Por exemplo, um levantamento realizado em 1974 entre 635 sociedades locais por interesses comuns na Grã-Bretanha revelou que 83% consideravam seu trabalho como estando ligado a problemas universais de poluição, superpopulação e escassez de recursos naturais (por exemplo, esquemas de tráfego local ligados ao consumo global de petróleo). Destas, 44% afirmaram que poderiam dar sua contribuição principal através da educação pública e da publicidade, e 20% diziam que questões locais não poderiam ser usadas como exemplos de problemas globais.8

132 Grã-Bretanha foram executadas através de consulta seletiva aos grupos de interesse, sem exigência de informar o público.9 A concordância voluntária a respeito de padrões "decentes" de comportamento foi o elemento chave do controle da poluição, uma atitude descrita por Jon Tinker em 1972 como a síndrome da "babá tem razão", na qual o governo faz apelo ao senso de Jair play das indústrias poluidoras. Algumas das leis antipoluição britânicas, argumentava ele, eram mais apropriadas a uma escola de garotas eduardiana do que a uma sociedade industrial avançada. Os transgressores, observou, "são discretamente levados a um canto pelos funcionários da fiscalização e repreendidos pelo mau procedimento. Não há necessidade de processos judiciais: a vergonha de ter sido apanhado é tida como punição suficiente".10 O enfoque não coercitivo do controle da poluição se reflete no fato de que a Inspetoria de Álcalis só instaurou processo em três casos entre 1920 e 1967.11 Stanley Johnson argumenta que o enfoque britânico do controle da poluição tendia para o conservadorismo por acreditar na inocência até que a culpa fosse provada.12 Em 1972 a Real Comissão sobre Poluição Ambiental concluiu em seu segundo relatório anual que havia necessidade de uma maior transparência para o público no processo de implementação das políticas ambientais.13 Uma segunda fonte de problemas reside no fato de que, embora a Grã-Bretanha seja tida como um modelo de democracia, o processo de governo é em parte frustrado pelo predomínio de um serviço público elitista e de uma burocracia acachapante. Os servidores públicos britânicos são comumente criticados por não conseguirem adotar métodos modernos de administração, por não serem suficientemente sistemáticos, por não planejarem com antecedência e por serem obcecados por procedimentos. Um terceiro problema reside nas inadequações dos governos locais, onde se concretiza uma parte considerável dos controles sobre o meio ambiente. Há relativamente pouco interesse público pela política local e, entretanto, os governos locais têm muita autoridade na garantia da saúde pública. Nas áreas interioranas industriais das Midlands, do sul do País de Gales e da Escócia, a fragilidade dos governos locais foi acentuada pela predominante resistência pública a reconhecer a poluição como um problema ou - nas áreas de mineração de carvão - a aceitar fontes alternativas de energia menos poluentes, tais como o gás natural. Assim como aconteceu freqüentemente em outros lugares, o temor de que controles ambientais pudessem solapar a indústria existente e afastar as novas num período de dificuldades econômicas desincentivou a implementação de controles da poluição.14 Até 1970 a autoridade em políticas relacionadas ao meio ambiente na Grã-Bretanha estava dividida entre grupos distintos de organismos; o controle da poluição do ar, por exemplo, estava dividido entre os ministérios da habitação e governo local (Inspetoria dos Álcalis), da tecnologia, transporte e agricultura, o Departamento de Serviços Sociais, o Conselho de Comércio e as secretarias de estado para a Escócia e o País de Gales. Harold Wilson propôs primeiramente uma fusão, em 1969, e criou tanto o Ministério para o Governo Local e Planejamento Regional 15 quanto a Real Comissão sobre Poluição Ambiental. Havia muita discussão sobre as questões ambientais tanto no seio do governo trabalhista quanto no da oposição conservadora em 1969-1970, incentivadas em parte pela sérieBBC Reitli Lectures, apresentada por sir Frank Fraser Darling em novembro de 1969,16 pela instalação do Ano de Conservação Européia em 1970 e pela Mensagem ao Congresso de 1970, do presidente Nixon. O meio ambiente não seria ainda uma questão eleitoral em 1970, uma vez que a proximidade da eleição encorajava os dois partidos principais a se concentrarem nas questões conhecidas. Depois da vitória dos conservadores, entretanto, a palavra "meio ambiente" apareceu pela primeira vez no discurso da rainha em julho de 1970. Em outubro a reorganização da máquina de governo originalmente planejada pelo governo Wilson foi delineada num comunicado oficial

do governo de Heath, chamado Heath Govemment White Paper, o qual observava ser "cada vez mais aceita a idéia de que 133 manter um meio ambiente decente, melhorar as condições de vida das pessoas e propiciar condições adequadas de transporte uniam-se no planejamento do desenvolvimento (...) É necessária uma nova forma de organização no centro do sistema administrativo, uma vez que essas funções interagem e também porque dão lugar a reivindicações intensas e conflitantes" .17 Os ministérios da habitação e governo local, de obras e construções públicas e de transporte foram então fundidos pelo governo de Heath no novo Departamento do Meio Ambiente (DOE - Department of Environment), responsável por "toda a gama de funções que afetam o meio ambiente onde vivem as pessoas". Peter Walker foi designado secretário de Estado e definiu imediatamente quatro objetivos para o departamento. Somente dois deles - os que se relacionavam ao desenvolvimento de um "enfoque prático e positivo" da poluição em todas as suas formas e ao desenvolvimento de um enfoque positivo do planejamento - eram políticas ambientais no sentido estrito (os outros se relacionavam à reforma do governo local e habitação). Uma das primeiras atividades do DOE no controle da poluição foi uma reorganização abrangente dos serviços de água. A responsabilidade pelo fornecimento de água, esgotos e conservação da água na Inglaterra e País de Gales é exercida por mais de 1.400 organismos regionais. Sob a Lei da Água de 1973 (no qual a pressão dos grupos ambientais teve apenas um papel Limitado), essa responsabilidade foi realocada em dez Autoridades Regionais da Água baseadas nas bacias hidrográficas naturais ao invés de sêlo nas unidades governamentais locais. A Lei de Controle da Poluição de 1974 contemplava vários problemas ambientais, incluindo manejo de resíduos e poluição da água, do ar e sonora. Bennett o vê como "o primeiro reconhecimento formal do meio ambiente como entidade una" .18 Atribui-se à criação do Departamento do Meio Ambiente - o primeiro departamento com esse nome no mundo - uma significação maior do que merece. A sugestão de Aldous de que o novo departamento estava armado com "uma gama de poderes sobre o meio ambiente tão ampla quanto é politicamente aceitável para um único ministério no seio de um sistema parlamentar (...) democrático” 19 é questionável. A criação do DOE foi mais uma reorganização da máquina estatal do que a criação de um novo departamento com poderes adicionais. O próprio título de Departamento do "Meio Ambiente" era inadequado, já que as políticas ambientais mostraram ser uma pequena (e não muito importante) parte de suas responsabilidades; o órgão conferia consideravelmente mais peso às suas atribuições no governo local e na habitação. Em 1985 já se havia tomado óbvio que a estrutura do departamento era insatisfatória, e o Partido Trabalhista seguiu a orientação da Aliança Liberal-SDP, sugerindo a necessidade de reorganizar a estrutura do governo relacionada à administração ambiental. Não foi especificado exatamente como isso deveria ser implementado. A questão ambiental mais controversa e mais amplamente debatida nas décadas de 70 e 80, e talvez no século XX, foi a questão do campo. A ética rural ocupa na psique britânica um espaço equivalente à posição das florestas na Alemanha Ocidental e das áreas virgens nos Estados Unidos. Mudanças sociais e econômicas ocorridas ao longo de um período de seis mil anos produziram a paisagem britânica característica que há muito tem fascinado escritores, artistas e poetas: pequenas campinas e prados divididos por sebes e salpicados aqui e 1á por bosques e pequenas áreas de florestas. Essas mesmas mudanças removeram quase que totalmente a cobertura florestal natural das ilhas Britânicas, à exceção de 7%. Restam muito poucas, se é que restam, áreas verdadeiramente virgens e os únicos vestígios das outrora grandes florestas naturais permanecem em locais como Sherwood, New Forest e Forest of Dean. Quanto ao resto, a vida selvagem é obrigada a coexistir com a agricultura. Na Inglaterra tomada isoladamente, 70% da terra disponível são cultivados. Durante a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de tomar-se auto-suficiente em alimentação encorajou uma intensificação agrícola, um processo que continuou através 134 dos anos do pós-guerra, estimulado por tarifas sobre as importações e subsídios para os agricultores - estes últimos, particularmente, viabilizados sob a tão difamada Política Agrícola Comum da Comunidade Européia. Um de seus resultados foi a retirada de sebes e florestas, e um aproveitamento sem precedentes

das wetlands, de modo a criar campos maiores e aumentar a produtividade agrícola. Para muitos, a agricultura não mais enriquece e conserva a paisagem, mas a destrói. Entre 1946 e 1974 um quarto das sebes da Inglaterra e do País de Gales - cerca de 193 mil quilômetros ao todo - foi removido.20 Florestas decíduas foram continuamente substituídas por plantações de coníferas comerciais ou convertidas em terra arável entre 1947 e 1980 a metade das antigas florestas da Grã-Bretanha foi perdida.21 Capinzais, pântanos, charcos, urzais, baixadas e charnecas foram igualmente convertidos. Em 1980 a natureza das mudanças foi documentada por Marion Shoard em The Theft of the Countryside. Observando que o sistema de planejamento britânico era amplamente considerado como o mecanismo mais sofisticado e efetivo do mundo para restringir a tendência inerente aos interesses privados poderosos de se sobrepor aos interesses públicos em relação à terra, a autora perguntava o que esse sistema estava fazendo para salvaguardar a paisagem da investida violenta é sistemática da agricultura moderna. "A resposta", escreveu, "é quase nada. O sistema de planejamento não tenta reconciliar as diferentes prioridades da produção alimentar e da conservação da paisagem e das áreas virgens nos casos em que os dois interesses entram em conflito (...) [A agricultura e o manejo florestal comercial] estão efetivamente acima da lei, na medida em que esta se aplica a outras atividades que afetam o meio ambiente.”22 Muito do conflito entre conservacionistas e agricultores chegou a um ápice durante a formulação da Lei da Vida Selvagem e do Campo de 1981, que atraiu um recorde de mais de 2.300 emendas antes de ser aprovada. Dentre as muitas anomalias do decreto estava o fato de que nenhum incentivo era dado aos proprietários cujas terras contivessem Sítios de Interesse Científico Especial (uma curiosa forma de designação criada pelo Conselho de Preservação da Natureza) para conservar esses sítios e muitos incentivos eram dados para desenvolvê-los. Meses depois de sua aprovação tornou-se claro que o instrumento era insuficiente e havia forte apoio entre os conservacionistas no sentido de sua substituição. Organismos ambientais privados são o elemento chave na elaboração britânica de políticas. Naqueles pontos em que outros países industrializados podem formular e executar suas políticas ambientais através de órgãos governamentais, muitas funções na Grã-Bretanha são levadas a cabo por grupos privados. O National Trust, por exemplo, faz consideravelmente mais do que o governo na aquisição e manutenção de construções históricas e paisagens panorâmicas. A maior parte das reservas naturais é gerida por grupos naturalistas locais, os quais, por sua vez, são coordenados pela Real Sociedade para a Conservação da Natureza. Muitos grupos ambientais recebem financiamento direto do governo e quase a metade tem representantes em um ou mais comitês consultivos oficiais. Até a década de 1970 esses grupos dependiam de negociações privadas com funcionários do governo; depois, muitos ficaram mais envolvidos na prática direta de lobby, no ativismo político e na mobilização da opinião pública - isso apesar do fato de que, para muitos desses grupos, o ativismo político aberto ameaçasse sua condição de organizações filantrópicas. A mudança é exemplificada pelo comentário de um funcionário de primeiro escalão do Conselho para a Proteção da Inglaterra Rural (CPRE - Council for the Protection of Rural England), que observou que sob a liderança de sir Herbert Griffin o CPRE não buscou atrair atenção e evitou meticulosamente embaraçar aqueles que influenciava ou procurava influenciar. Griffin, secretário-geral do CPRE desde sua fundação em 1926, finalmente se aposentou em 1965. "Atualmente", observou o funcionário, "não estamos relutantes em relação a nos aproximar do público. Na realidade, somos muito conscientes do papel dos meios de comunicação de massa. Isso é mais adequado ao estilo 135 geral da política ambiental, na qual o conflito passou a desempenhar um papel maior".23 Os membros de ambas as casas do parlamento defendiam posições oficiais ou honorárias em muitas organizações ambientais e o interesse aumentado pelas questões ambientais se refletia nos debates e questões parlamentares. Silent Spring, Aberfan, Torrey Canyon e a ascensão do movimento ambiental global são fatores que influenciaram o ambientalismo britânico e o número de pessoas que se associaram a grupos ambientalistas aumentou durante os anos 70. Entre 1967 e 1980 os membros do CPRE e da Ramblers Association mais que dobraram, os da Sociedade para a Promoção da Conservação da Natureza (agora Real Sociedade para a Conservação da Natureza) mais que quadruplicaram. Os membros da Real Sociedade para a Proteção dos Pássaros aumentaram de 38 mil para trezentos mil e os do National Trust (cujos interesses extrapolam a proteção da natureza) de 159 mil para 1 milhão. O número de associações locais por interesses comuns multiplicou-se por seis entre 1958 e 1975; em 1977 as mesmas já tinham um total de trezentos mil membros.24 Em 1983 estimou-se que o movimento ambientalista britânico já contava com cerca de três

milhões de membros ou 5,3% da população total." Isso o transformava no maior movimento de massas da história britânica. Assim como nos Estados Unidos, os membros dos grupos ambientais britânicos são geralmente mais afluentes e de escolaridade superior à média. Por ser a classe ainda uma divisão social importante na GrãBretanha, e porque está, por sua vez, ligada ao trabalho e ao emprego, as organizações por interesses comuns são mais ativas no sul predominantemente white collar e profissional liberal da Inglaterra do que nas Midlands e no norte predominantemente braçais e industriais. A identidade de classe dos ambientalistas não é, em parte alguma, mais marcada do que no apoio dado a muitos grupos ambientalistas pelos pares do reino, e pelo papel ativo da Câmara dos Lordes na introdução, debate e emenda de muitas legislações ambientais. Lorde Ashby, por exemplo, foi o primeiro presidente da Real Comissão sobre Poluição Ambiental, lorde Creighton tem um papel ativo na administração de várias organizações ambientais, e lorde MeIchett tanto é parlamentar quanto membro ativo de vários grupos ambientais. OS ESTADOS UNIDOS: CONTROLES E RESTRIÇÕES Como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos não tinham, até 1970, um órgão federal único responsável pelo controle da poluição; a responsabilidade pertencia a uma confusa coalizão de organismos distintos no Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar. A poluição da água e do ar eram geralmente consideradas como assunto local e o papel do governo federal na elaboração de políticas ambientais era, desse modo, limitado. As organizações ambientais, entretanto, tinham começado a pressionar por uma ação mais vigorosa e abrangente sobre o meio ambiente. Em sua Mensagem ao Congresso de 1970, Richard Nixon havia falado sobre a "inadequação de nossa constituição para lidar com problemas que ultrapassam as fronteiras políticas tradicionais”26, e introduzido uma década nova no que diz respeito à formulação de políticas ambientais. Apesar das tentativas de racionalizar a elaboração e implementação de políticas ambientais, a natureza estratificada do sistema político americano colocou enormes obstáculos no caminho do enfrentamento de uma área política já complexa. Como todas as áreas de políticas públicas, os programas ambientais nos Estados Unidos ganharam forma através da dispersão dos poderes do governo em controles e restrições, e através do papel dos grupos de interesse. Uma autoridade compartilhada, independente e contrabalançada no sistema federal torna impossível diferenciar funções federais, estaduais e locais; rivalidades jurisdicionais acrescentam a primeira camada de complexidade à administração dos problemas ambientais. Uma complexidade adicional é constituída pela fragmentação das responsabilidades ambientais entre muitas instituições e pelas tentativas

de aplicar as políticas ambientais federais através dos governos locais e estaduais. A camada final de complexidade é adicionada pela divisão de poderes para fazer, implementar e avaliar as políticas entre a Casa Branca, o Congresso, a burocracia e os tribunais. O problema da burocracia (particularmente a ausência de coordenação dentro e entre os departamentos) é ilustrado pelo exemplo do Departamento do Interior: dois de seus órgãos, O Serviço de Peixes e Animais Selvagens e o Bureau de Administração da Terra, competem diretamente. Um preserva a vida selvagem nas terras públicas, enquanto o outro tem estado tradicionalmente inclinado a proteger os direitos daqueles que desejam criar gado ou extrair minério.27 Além dos departamentos do Interior, de Agricultura e de Energia, não menos do que vinte e sete outras organizações do Corpo de Engenheiros do Exército, passando pela Administração Federal da Aviação, a Administração de Alimentos e Drogas, O Serviço de Parques Nacionais e a Guarda Costeira Americana - estão envolvidas na implementação de políticas ambientais.28 Apesar de todas essas reivindicações jurisdicionais, a Agência de Proteção Ambienta! (EPA Environment Protection Agency) é o mais importante dentre os principais órgãos reguladores. A história da EPA data de 1969, quando o Comitê Consultivo do Presidente para Assuntos de Organização Executiva (o Conselho Ash) foi criado para examinar políticas de recursos naturais e programas federais de controle da poluição. Dentre suas 137 recomendações, havia uma para a criação de um novo e imenso departamento de recursos naturais e meio ambiente, em substituição ao Departamento do Interior (por muito tempo Visto oficiosamente como o departamento dos recursos naturais) e concentrando responsabilidades relevantes retiradas de outros

departamentos. (Propostas semelhantes haviam sido feitas antes pela Comissão Hoover de 1949 e novamente num projeto de lei do Senado, de 1965.)29 O princípio orientador do Conselho Ash era minimizar o número de organismos federais que se reportavam ao presidente.30 Inicialmente, favoreceu a consolidação dos programas antipoluição vigentes sob o proposto Departamento de Recursos Naturais, mas houve recuo quando alguns membros do conselho argumentaram que tal situação poderia submergir os programas de controle da poluição e resultar em decisões que favoreceriam o desenvolvimento de recursos em detrimento de uma qualidade ambiental melhorada.31 No dia primeiro de janeiro de 1970, a Lei de Política Ambiental Nacional foi aprovada depois de uma rápida passagem pelo Congresso, apesar da oposição da Casa Branca. A lei alertou todos os órgãos governamentais para as conseqüências ambientais de suas atividades e exigiu a preparação de um relatório de impacto ambiental para todos os programas federais importantes que "afetassem significativamente a qualidade do meio ambiente humano". Mais de 12 mil relatórios foram preparados na primeira década de operação.32 A legislação também criou o Conselho de Qualidade Ambiental (CEQ Council onEnvironmental Quality), com base no Escritório Executivo da Presidência, para que elaborasse um relatório anual sobre a qualidade ambiental e aconselhasse o presidente sobre políticas nacionais para melhorar a qualidade ambiental. */33 O CEQ não recebeu poderes reais, e Davies e Davies sugeriram que toda a influência que teve o órgão advinha de sua localização no Escritório Executivo; era duvidoso, notaram, que o CEQ pudesse eventualmente "agüentar os golpes de um presidente hostil".34 Isso foi confirmado em 1981, quando o presidente Reagan inicialmente considerou abolir o CEQ e depois se resolveu pela demissão de quase todos os membros e redução de seu orçamento à metade. O compromisso a que se chegou sobre programas antipoluição foi o estabelecimento, em dezembro de 1970, da EPA, um órgão independente de controle da poluição que assumiu a responsabilidade pela regulamentação e fiscalização dos programas federais em poluição do ar e da água, radiação ambiental, pesticidas e resíduos sólidos, e, numa medida menor, pelas pesquisas. O órgão se reportava diretamente ao presidente. Quarles sugere que em termos políticos a decisão de criar a EPA foi "um compromisso que reduziu a oposição à reorganização. A proposta original [de um novo departamento de recursos naturais] pode ter sido demasiadamente audaz, já que representantes do capital teriam tentado fazer lobby para sua derrubada no congresso".35 A EP A tomou-se, em termos de pessoal e de orçamento, o maior órgão regulamentador de Washington. Começou com um quadro de oito mil pessoas e um orçamento de 455 milhões de dólares; em 1981 possuía um quadro de quase 13 mil funcionários e um orçamento de 1,35 bilhão de dólares.36 Foi responsável por importante legislação, como a Lei do Ar Limpo, a Lei da Água Limpa, a Lei de Conservação e Recuperação de Recursos e a Lei de Controle de Substâncias Tóxicas. Além da regulamentação, a EPA tinha poderes de financiamento, notadamente através da administração de um superfundo, um programa de 1,6 bilhão de dólares para limpar os depósitos de resíduos da nação. A primeira década da EPA assistiu a uma impressionante efusão de legislação ambiental federal. Apesar das pressões impostas à administração Nixon pelos interesses do capital, o apoio do Congresso à reforma ambiental assegurou a aprovação de legislação fundamental sobre o controle da poluição do ar e da água, recuperação dos resíduos sólidos e regulamentação sobre pesticidas.
* Nixon tinha-se antecipado ao Congresso, criando, em maio de 1969, seu próprio Conselho [consultivo] de Qualidade Ambiental com status de ministério. Era constituído por Nixon, que o presidia, o vice-presidente e por secretários de seis departamentos (inclusive agricultura e interior). O conselho se reuniu somente algumas vezes e pouco realizou.33

138 A nova legislação sobre resíduos tóxicos foi colocada à prova numa importante controvérsia pública entre 1976 e 1979. A manufatura, o consumo e o manejo de produtos químicos, especialmente os que são usados como fertilizantes e pesticidas, foram sempre causa de preocupação. Em 1976, em seguida a vários anos de chuvas e nevascas incomumente intensas, produtos químicos começaram a vazar através das paredes dos subsolos e porões de casas perto de Love Canal, uma via de navegação não concluída e abandonada do século XIX, no estado de Nova York. O canal havia sido usado antes como vazadouro de resíduos industriais e depois vendido para o Conselho Educacional de Niagara Falls, que construiu ali uma escola e um campo de esportes. Uma parte daquela terra foi vendida a uma imobiliária, que construiu algumas centenas de unidades habitacionais ao longo do canal. Estudos feitos na época identificaram 82 compostos químicos diferentes, inclusive o triclorofenol, que contém dioxina. Em agosto de 1978 mulheres grávidas e crianças

com menos de dois anos de idade foram aconselhadas a deixar a área. Em julho de 1979, 263 famílias haviam sido evacuadas e suas casas compradas pelo governo; além disso, mil famílias foram orientadadas a deixar a área, tendo sido gastos cerca de 27 milhões de dólares pelas autoridades municipais, estaduais e federais para fornecer habitação temporária, interditar as áreas contaminadas e conter a infiltração de produtos químicos.37 Love Canal foi somente o mais divulgado dentre esse tipo de incidentes potenciais; um relatório de 1979 para a EPA estimava o número de áreas condenadas que continham resíduos perigosos nos Estados Unidos entre 32 mil e cinqüenta mil, das quais entre 1.200 e duas mil poderiam colocar riscos significativos para a saúde humana e para o meio ambiente.38 A AGENDA AMBIENTAL DE REAGAN As atitudes da Casa Branca em relação ao meio ambiente sofreram uma transformação dramática no começo da administração Reagan. Vig e Kraft sugerem que a agenda ambientaI de Reagan era baseada em (1) reforma da regulamentação, (2) o máximo de confiança possível no livre mercado para a alocação de recursos e (3) transferência das responsabilidades pela proteção ambiental para os governos estaduais e locais.39 Duas indicações de Reagan exemplificaram a atitude do novo presidente: a de James Watt para secretário do interior, e de Anne Burford (Gorsuch, em solteira) - uma protegida de Watt - para a administração da EPA. Watt tinha servido no Departamento do Interior por seis anos, durante a administração Nixon. Antes de sua indicação para a secretaria, ele dirigiu a Mountain States Legal Foundation, uma organização que se dedicava à ação legal para restringir ou anular as ações federais no Colorado e em outros estados do Oeste. Watt acreditava que a maioria dos problemas de recursos poderia ser resolvida com sua abertura para o mercado. Sua franqueza rude tornou-se rapidamente um tema tão destacado quanto suas políticas. Num discurso de janeiro de 1982, ele disse que nunca havia usado as palavras democrata ou republicano - "trata-se de liberais e americanos". Um ano mais tarde comparou seus críticos ambientalistas a nazistas e bolcheviques.40 A quintessência do sagebrush rebel, suas políticas incluíam a abertura das áreas virgens para exploração de petróleo e gás, a privatização das terras possuídas pelo Serviço de Florestas e pelo Bureau de Administração da Terra e um aumento na disponibilidade das reservas de carvão, petróleo e gás possuídas pelo governo federal. Anne Gorsuch era procuradora e deputada estadual de um só mandato no Colorado, sem experiência administrativa; em sua lista de clientes anteriores figuravam muitas indústrias que se opunham à regulamentação ambiental federal. Os ambientalistas interpretaram sua indicação como um sinal de que a Casa Branca pretendia promover uma mudança nas simpatias da EPA, que se afastariam dos ambientalistas, seguindo na direção do empresariado e de outros interesses econômicos atingidos pela regulamentação.41 Dos 15 subordinados nomeados por Gorsuch, 11 haviam mantido ligações com empresas 139 regulamentadas pela EPA. O presidente Reagan deixou claro desde o começo que se propunha a reduzir o poder da EPA, instituindo cortes de orçamento e de pessoal (de 29% e 23% respectivamente)42 entre 1981 e 1983. Sob o mandato de Gorsuch a maior parte dos programas importantes do órgão foi quase paralisada e o moral da equipe da EPA entrou em colapso. Sugestões de que a administração da EPA estava envolvida em politicagem e intrigas tornaram-se um constrangimento político. Em dezembro de 1982 Gorsuch foi citada por desacato ao Congresso por recusar - sob ordens presidenciais - a entregar documentos requisitados judicialmente sobre alegada má administração do Superfundo. Em março de 1983 ela renunciou (um mês antes havia se casado com Robert Burford, chefe do Bureau de Administração da Terra). A indicação de William Ruckelshaus (que havia sido o primeiro administrador da EPA) parecia um bom presságio para o órgão, mas repetidos cortes orçamentários e de pessoal continuaram a interferir no funcionamento efetivo da EPA. Seis meses depois da demissão de Burford, James Watt também renunciava. Seu comentário de que a comissão criada para examinar suas políticas controvertidas de leasing de carvão incluía entre seus membros "um negro (...) uma mulher, dois judeus e um aleijado" revoltou a opinião pública de tal modo que o Senado, liderado pelos republicanos, mostrou-se pronto a aprovar uma resolução que exigia seu afastamento; Watt preferiu renunciar em 9 de outubro ao invés de enfrentar uma "desconfirmação" por seu próprio partido.43 O princípio implícito na política americana de que os interesses afetados pelas políticas públicas devem ter uma participação ativa em sua formulação e avaliação significou que o lobby ambiental, assim como todos os outros lobbies em Capitol HiII, teve um papel importante na elaboração das políticas

ambientais. Organizações como o Sierra Club e Friends of the Earth (FoE) formaram seus próprios comitês de ação política (através dos quais contribuições em dinheiro podiam fluir diretamente para candidatos políticos); a League of Conservation Voters tornou-se cada vez mais ativa nas eleições presidenciais e para o Congresso; e um sem-número de organizações - notadamente o Environmental Defense Fund e o Natural Resources Defense Council - aumentaram o tamanho de suas equipes científicas e técnicas de modo a fornecer seu próprio depoimento especializado e reduzir sua dependência de estudos fornecidos por órgãos governamentais ou pelos interesses econômicos atingidos pela regulamentação.44 Aqueles que na era pós-profetas haviam falado do caráter de moda passageira do ambientalismo tiveram motivos para rever suas opiniões uma década mais tarde. Não somente as questões ambientais mantiveram uma firme proeminência nas prioridades do público americano em termos de políticas públicas como o alarme causado pelas. posições antiambientalistas da administração Reagan levou a uma onda de adesões entre 1981 e 1982. Os maiores grupos ambientalistas tomados isoladamente - incluindo-se o Sierra Club, a National Wildlife Federation e a National Audubon Society - contavam juntos com cerca de cinco milhões de membros. Uma pesquisa de opinião do Resources for lhe Future (RFF) em 1980 sugeria que cerca de 7% da população norte-americana (17 milhões de pessoas) podiam estar envolvidos no movimento ambientalista, e que outros 55% simpatizavam com seus objetivos.45 A simpatia em relação ao movimento era maior entre os brancos, os jovens, entre os que tinham pelo menos alguma instrução de nível superior e os de nível de renda mais alto.46 A ASCENSÃO DOS VERDES Em março de 1983, a política ambiental na Europa Ocidental assumiu uma nova dimensão com a chegada no Bundestag alemão ocidental de 27 parlamentares representando Die Grünen (os Verdes), um partido formado exatamente quatro anos antes. O partido ultrapassara a barreira de 5%, o que o autorizava a estar representado no Bundestag. Como o primeiro partido novo a entrar no Bundestag em 30 anos, Die Grünen parecia 140 QUADRO 1 Cronologia do movimento dos partidos verdes (1970-1987, por país)
1972 NOVA ZELÂNDIA. Fundação do Values Party. Disputou cerca da metade das cadeiras nas eleições nacionais de 1972 (ganhando 1,98% delas), e todas em 1975 (5,2% dos votos). Sua participação caiu para 2,5% na eleição de 1978. Embora o partido tivesse disputado as eleições de 1981 e 1984, sua participação nos votos entrou em colapso, caindo para 0,2%. 1973 GRÃ-BRETANHA. Fundação do Ecology Party sob o nome de People. Disputou as duas eleições gerais de 1974, mas atraiu a atenção nacional pela primeira vez na eleição de 1979, quando apresentou 53 candidatos e obteve uma média de 1,5% dos votos. Obteve sua primeira cadeira num conselho local na Cornualha, em 1981. Ainda que tenha apresentado 108 candidatos nas eleições gerais de 1983, sua participação média nos votos foi somente de 1%. Foi rebatizado como Green Party em 1985. 1974 FRANÇA. O movimento ecológico (originado no rastro do movimento estudantil) apresentou René Dumont nas eleições presidenciais de 1974 e recebeu 337 mil votos (1,32%). Apresentou duzentos candidatos na Assembléia Nacional de 1978, sob a bandeira Ecologie 78 e recebeu 2,1 % da votação. Mouvement d'Ecologie Politique, fundado em 1980. Apresentou Brice Lalonde dos Amis de Ia Terre nas eleições presidenciais de 1981, e recebeu um milhão e 126 mil votos (3,88% do total). Registrou somente 1,08% dos votos nas eleições para a Assembléia Nacional. Constituiu-se formalmente como partido político em 1982, adotando o nome de Les Verts - Parti Ecologiste. Obteve 6% dos votos e algumas dúzias de cadeiras nas eleições municipais de 1983. Em 1984 fundiu-se com outros grupos verdes para fundar a Confédération Ecologiste et Parti Ecologiste. Os

ecologistas disputaram em quase um terço dos distritos metropolitanos nas eleições para a Assembléia Nacional em 1986, obtendo 1,21% dos votos. 1978 BÉLGICA. Fundação do Parti Ecologiste (Ecolo) e do Andres Gaan Leven (Agalev); valão e flamengo, respectivamente. Nas eleições de novembro, concorreram com lista conjunta e ganharam 4,5% dos votos para a câmara baixa (o que significou duas cadeiras para cada) e 4,9% dos votos para o Senado (o que significou três e uma cadeiras repectivamente, mais um senador cooptado). Em meados de 1983 ganharam 9 cadeiras regionais e 79 no conselho municipal. Na eleição de outubro de 1985 aumentaram seu número de cadeiras na câmara baixa para cinco e quatro respectivamente (6,2% dos votos) e elegeram dois senadores diretamente e um senador cooptado cada. Na eleição de dezembro de 1987 o Ecolo perdeu duas de suas cadeiras na câmara baixa, mas o Agalev conseguiu mais duas cadeiras. ALEMANHA OCIDENTAL Fundação do Grüne Aktion Zukunft. Em 1979 a Bremer Grüne Ust ganhou 5,1 % dos votos e quatro cadeiras na Bremen Burgerschaft. Fundiu-se com outros partidos em janeiro de 1980 para formar Die Grünen. Preocupado com a evotução dos Grünen para a esquerda, Herbert Gruhl e outros saíram do partido em 1981 e formaram o Qkologisch·Demokratische Partei. Em março de 1981 Die Grünen ganharam 5,3% dos votos e seis cadeiras no Landtag de BadenWürttenburg. Em 1982 ganharam 11 cadeiras no Landtag da Baixa Saxõnia e nove no Landtag de Hesse. Concorreram sem sucesso em Saarland, Renânia-Palatinada do Norte e Reno·Westphalia do Norte (1980), Bavária (1982), e Renânia-Palatinada e Schleswig-Holstein (1983). Nas eleições de 1983 para o Bundestag, obtiveram 5,6% dos votos e 27 cadeiras, em grande parte à custa dos social-democratas. Também obtiveram 49 cadeiras municipais, e mais de 320 comunitárias; em 1984 Die Grünen tinham 50 cadeiras em seis parlamentos dos Lands. Elegeram sete membros para o Parlamento Europeu nas eleições de 1984. Nas eleições de 1984 para o Bundestag, Die Grünen obtiveram 8,3% dos votos e aumentaram seu número de cadeiras para 44, apenas um pouco menos que a União Social-Cristã e o Partido Democrático Livre. 1979 SUÍÇA, Os partidos verdes disputaram a eleição de 1979 ganhando duas cadeiras e tornando-se os primeiros verdes a obter representação na assembléia nacional. Em 1983 foram fundadas a Fédération

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des Partis Ecologistes de Suisse e a Fédération Verte, conseguindo cadeiras nas assembléias cantonais de Zurique e Lucerna. Na eleição nacional de 1983, a primeira obteve 2,9% dos votos e três cadeiras no Nationalrat. LUXEMBURGO. Fundou-se a Alternative Lescht·Wiert. Disputou a eleição de 1979, mas alcançou somente 1,1% dos votos. Em 1983 foi fundada a Di Greng Alternativ que obteve, nas eleições gerais de junho de 1984,6,8% dos votos e duas das 64 cadeiras da Câmara dos Deputados. 1980 FINLÂNDIA. O Vihreät foi fundado e obteve uma cadeira no Conselho Municipal de Helsinki. Ganhou 2,8% dos votos nas eleições municipais de 1984, obtendo então 101 cadeiras. Disputou a eleição nacional de 1987, ganhando 4% dos votos e quatro cadeiras na Assembléia Nacional. 1981 SUÉCIA. Fundação do Miljöpartiet. Obteve 1,7% dos votos na eleição de 1982 e ganhou duas cadeiras em conselhos locais. Conseguiu somente 1,5% dos votos na eleição geral de 1985, mas obteve seis cadeiras no conselho e em 1987 gozava de mais de 8% de apoio nas pesquisas de opinião. Na eleição de setembro de 1988 os verdes conquistaram 20 cadeiras (em grande parte às expensas dos partidos conservadores), tornando-se o primeiro partido novo a entrar no parlamento em 70 anos. 1982

ÁUSTRIA. Fundação da Vereinte Grüne Osterreich e da Alternative Uste Osterreich. Obtiveram respectivamente 1,9% e 1,3% nas eleições de 1983, contribuindo para a derrota do chanceler socialista Bruno Kreisky. O segundo ganhou também quatro cadeiras no conselho municipal. Nas eleições de novembro de 1986 os verdes aumentaram sua votação para 4,8% e obtiveram oito cadeiras, conduzindo um quarto partido ao parlamento pela primeira vez desde 1959. IRLANDA. Fundação do Ecology Party. Apresentou sete candidatos na eleição de 1982. Desde então ganhou outro nome, Comhaontas Glas. 1983 HOLANDA. Foi fundado o De Groenen. Uma pesquisa de opinião em 1983 indicava que eles obteriam 12% dos votos nas eleições nacionais, mas nas eleições gerais de 1986 amealharam parcos 0,04% dos votos. Nas eleições européias de 1984, o De Groenen participou do Groen Progressief Akkord com os comunistas, o Partido Socialista Pacifista e o Partido Político Radical, e obteve 5,6% dos votos e duas cadeiras. O De Europese Groenen também participou da aliança, mas ganhou poucos votos e nenhuma cadeira. 1984 Partidos Verdes de sete países disputaram as eleições para o Parlamento Europeu (em comparação com três nas eleições de 1979); foram eleitos membros verdes da Alemanha Ocidental (sete), da Holanda e Bélgica (dois cada). ITÁLIA. Chegou-se a um acordo entre os principais grupos ambientais para a criação de um "antipartido" que buscasse o crescimento econômico qualitativo em vez de quantitativo. Nas eleições locais die 1985 o Verdi recebeu 2,6% dos votos. Em junho de 1987 disputou sua primeira eleição nacional, recebendo 2,5% dos votos e elegendo 13 deputados e um senador. Nos seis meses que se seguiram à eleição, obteve sucesso fazendo lobby para limitar o desenvolvimento de usinas nucleares. NOTA: Outros partidos verdes também foram discutidos ou formados na Dinamarca, Canadá, Estados Unidos e Espanha. Os verdes canadenses apresentaram sessenta candidatos nas eleições gerais de 1984 mas obtiveram somente 0,2% dos votos. Na Espanha o Partido Verde Espanol foi formado em 1984, a partir de uma coalizão de grupos pacifistas, feministas e ambientalistas. Mas em seu primeiro congresso, em fevereiro de 1985, alguns grupos membros desautorizaram essa atitude alegando que não haviam sido adequadamente consultados.

FONTES: Keesing's Conternporary Archives 1973, 1974, 1976, 1978-1986; Chronicle or Parliamentary Elections and Developments 1978/1979-1986/1987; Alan J. Daye Henry W. Degenhardt, Political Parties or lhe World (Detroit: Gale Research Company, 1984); Arthur S. Banks, org., Political Handbook or lhe World: 1987 (Binghamton, NY: CSA Publications, 1987); Eva Kolinsky, "The Greens in Gennany: Prospects of a Small Party", Parliamentary Arrairs 37:4 (Outono de 1984), pp. 434-447; Hans Lohneis, "The Swiss Election of 1983: A Glacier on the Move?", Wesl European Polilics 7:3 (julho de 1984), pp. 117-119; Andrew Rosenbaum, "Italy's Green Party", Environmenl 29:10 (dezembro de 1987), pp. 3,34-35; anuários estatísticos de Luxemburgo (1983/1984), Austria, Suíça e Suécia (1986), e Finlândia (1987).

142 destinado a desbancar o vacilante Partido Democrático Livre como terceiro partido na política alemã ocidental.47 Die Grünen ocuparam suas cadeiras no Bundestag entre os democratas-cristãos conservadores e os social-democratas liberais de esquerda, mas na verdade não era fácil defini-los em termos políticos tradicionais.48 Um dos primeiros slogans do novo movimento foi: "Nós não somos esquerda nem direita; nós estam os na frente." Ainda que esposassem no essencial uma plataforma ambientalista, consideravam-se também como porta-vozes políticos dos movimentos de cidadãos que se opunham à energia nuclear e apoiavam a paz, o feminismo e as questões do Terceiro Mundo. Spretnak e Capra apontam quatro pilares na plataforma verde: ecologia, responsabilidade social, democracia de base e não-violência.49 Die Grünen nasceram de uma complexa rede de "associações por iniciativa do cidadão" orientadas para o ambientalismo, notadamente a Grüne Aktion Zukunft (GAZ), fundada em 1978 por Herbert Gruhl, que havia sido eleito para o Bundestag como membro da União Democrata Cristã, da qual se retirou para formar o GAZ. Os partidos verdes disputaram sem sucesso as eleições da Land (estado) em Hesse e na

Bavária em 1978. Em outubro de 1979, a Bremer Grüne Liste recebeu votos suficientes nas eleições do estado de Bremen para assumir quatro cadeiras. Incitados em grande parte por Gruhl e Petra Kelly, e por Roland Vogt (então com a União dos Grupos de Cidadãos Ecológicos Alemães), a Sonstige Politische Vereinigung (SVP) - Die Grünen foi fundada em março de 1979 e, em janeiro de 1980, num encontro em Karlsruhe, Die Grünen foi formalmente estabelecido como partido político nacional. Die Grünen defendiam de modo variado a criação de uma economia não baseada no crescimento, a subdivisão das grandes companhias em pequenas unidades, a semana de trabalho de 35 horas, impostos mais altos para grupos de renda mais alta, investimento do Estado para criação de empregos, o fim da energia nuclear, o uso sustentável dos recursos naturais, conservação de materiais e energia, crescimento zero da população e desarmamento nuclear. Gruhl achava Die Grünen demasiado esquerdistas e excessivamente preocupados com políticas não ecológicas, assim ele e outros deixaram o partido e fundaram uma Grüne Fõderation, e, depois, em 1981, o Õkologish-Dernokratische Partei (ÖDP). Em dois meses Die Grünen tinha ganho suas primeiras seis cadeiras no Landtag, ao receber 5,3% dos votos em Baden- Württenburg, Em 1982 ganharam cadeiras suficientes em Hesse e Hamburgo para assegurar o equilíbrio de poder;50 em agosto de 1983 os verdes precipitaram uma nova eleição em Hesse ao se recusarem a aprovar o orçamento daquele ano e, embora perdessem duas de suas cadeiras na nova eleição, mantiveram o equilíbrio de poder. Petra Kelley emergiu rapidamente como sua líder mais destacada e ativa,* uma posição que continuou a manter até 1984, quando foi removida em função do sistema de rotatividade das lideranças empregado pelo partido. Paralelamente ao fato de terem conseguido romper a barreira do nível nacional nas eleições para o Bundestag de 1983, Die Grünen também obtiveram quarenta e nove cadeiras estaduais e municipais, e mais de 320 cadeiras nas comunidades locais. Die Grünen alcançaram mais destaque e sucesso eleitoral do que qualquer outro partido verde, mas não eram nem os primeiros a ganhar cadeiras na legislatura nacional (essa distinção pertence aos verdes suíços, em 1979)51 nem os primeiros a disputar uma eleição nacional. Onze anos antes o Values Party havia disputado cerca de metade das cadeiras nas eleições gerais de 1972 na Nova Zelândia, ganhando 1,98% dos votos (ainda que registrando a alta marca percentual de 9% nos eleitorados individuais)52. Fundado em maio de 1972 por Tony Brunt (um jornalista de 25 anos de idade) e Norman Smith (um
*Petra Kelly (n. 1947) nasceu na Alemanha Ocidental e foi educada ali, nos Estados Unidos e na Holanda. Trabalhou desde 1972 como administradora para a CEE, em Bruxelas. Renunciando ao Partido Social Democrata alemão em 1979, entrou para os verdes, então recentemente formados, tornando-se uma de suas primeiras e mais conhecidas líderes. Obteve uma cadeira no Bundestagem 1983 e foi substituída como líder em 1984, em função do sistema de rotatividade utilizado pelos Grünen.

143 executivo de relações públicas de 29 anos), o Values Party agradou sobretudo aos profissionais jovens e de boa escolaridade. Apesar das mudanças na liderança e de problemas internos o partido foi suficientemente organizado para disputar todas as cadeiras na eleição de 1975, aumentando sua participação nos votos com a impressionante marca de 5,2%, e assumindo o terceiro lugar em 29 dos 41 distritos eleitorais das principais cidades.53 Mas seus membros discordavam sobre o lugar que o partido deveria ocupar no espectro político e até mesmo sobre se de fato deveriam ser um partido político, em vez de simplesmente um grupo de interesse.54 O partido obteve somente 2,5% dos votos em 1978; em 1984 sua participação já havia caído para apenas 0,2%. James observa que muitos dentre seus membros consideravam o Values Party menos como um partido potencial de governo do que como um canal para influenciar as atitudes lateralmente e as políticas públicas a partir de baixo; em 1978 a novidade da mensagem do partido parecia já ter-se desgastado, os partidos maiores tinham-se tornado mais conscientes das questões ambientais, e o Values Party parece ter sofrido com o deslocamento dos eleitores em direção ao Partido Trabalhista, ansiosos pela substituição do primeiro-ministro Robert Muldoon.55 O British Ecology Party, fundado em 1973, foi o primeiro da Europa. Embora tenha disputado 106 cadeiras nas eleições gerais de 1983 e 133 cadeiras nas eleições de 1987, o partido nunca foi forte. Rüdig e Lowe apresentam quatro razões principais: a ausência de projetos de desenvolvimento ambientalmente controversos, que poderiam estimular uma ecologia radical, a integração de tal radicalismo, como de fato ocorreu, ao domínio das políticas do Partido Trabalhista, a maleabilidade das autoridades diante das resistências fortes contra projetos específicos (reduzindo assim o potencial de oposição local) e a preferência tradicional entre os grupos conservacionistas britânicos por modificar o sistema a partir de dentro.56 O

Ecology Party (agora chamado Green Party) tampouco foi capaz de superar as dificuldades do sistema pluralista, o qual milita contra os partidos menores na Grã-Bretanha. Os partidos ecológicos franceses disputaram eleições presidenciais e para a Assembléia Nacional durante os anos 70 e 80. Um movimento ecológico nascido dos levantes estudantis de 1968 tomou forma pela primeira vez em 1970. Em 1974, com o apoio dos grupos ecológicos franceses, René Dumont (professor do Instituto Nacional de Agronomia e membro do Clube de Roma) concorreu às eleições presidenciais, recebendo modesto 1,32% dos votos. Uma aliança eleitoral de grupos ecológicos, estabelecida em 1977, concorreu nas eleições de 1978 para a Assembléia Nacional sob a bandeira Ecologie-78, recebendo 2,1% dos votos no primeiro turno. Em 1980 estabeleceu-se o Mouvement d'Ecologie Politique, que lançou a candidatura de Brice Lalonde (um jornalista de 35 anos de idade e veterano dos levantes estudantis de 1968) às eleições presidenciais de 1981. Lalonde obteve respeitável 1,126 milhão de votos (3,88% do total de votos), mas o partido foi incapaz de capitalizar esse resultado e teve um desempenho ainda pior nas eleições posteriores para a Assembléia Nacional, naquele mesmo ano. Em todos os outros lugares na Europa Ocidental, os ecologistas tiveram mais sucesso. Entre 1978 e 1984 foram criados partidos ecológicos em mais de dez países (ver relação adiante); os verdes suíços ganharam duas cadeiras nacionais em 1979, seguidos por dois partidos belgas em 1981 (Ecolo e Agalev), pelos verdes alemães ocidentais em 1983, pela Di Greng Alternativ em Luxemburgo em 1984, os verdes austríacos em 1986, os verdes finlandeses e italianos em 1987, e os verdes suecos em 1988. Em 1988, 104 representantes verdes tinham assento em oito assembléias nacionais, 11 no parlamento europeu e mais centenas deles em assembléias regionais, locais e municipais. O fenômeno dos partidos verdes gerou numerosos estudos analíticos, mas poucas das avaliações existentes são mais do que meras tentativas. Cohen e Arato observam o quanto é difícil colocar os verdes alemães ocidentais no mapa político tradicional e o quanto é insuficiente a visão padronizada sobre Die Grünen como um movimento jovem de classe média e tendência de esquerda, centrado numa única questão.57 Essa descrição se aplica igualmente bem a outros partidos verdes. Em última análise pode revelar-se inadequado 144 avaliar os Verdes dentro do eixo tradicional esquerda/direita; eles buscam mudanças sociais fundamentais e de amplo espectro que transcendem as divisões liberal/conservador ou marxismo/capitalismo. A dificuldade de fazer generalizações é ilustrada pela variação das raízes dos partidos verdes europeus. Müller-Rommel identifica três categorias de partidos verdes: pequenos partidos socialistas preexistentes que adotaram políticas ambientais e se transformaram (na percepção do público) em partidos ecológicos; partidos liberais e agrários que vinham tradicionalmente enfatizando as questões ambientais (por exemplo o partido sueco Centrum, do qual emergiu o Miljöpartiet); e os novos partidos criados especificamente para representar um eleitorado mais consciente das questões ambientais.58 A emergência dos novos partidos tem sido, de modo variado, relacionada aos movimentos estudantis dos anos 60, caracterizada (ao menos no caso da Alemanha Ocidental) como o último de uma série cíclica de movimentos alemães de jovens 59 ou interpretada como parte de uma mudança de longo prazo dos valores numa sociedade pós-material descrita por Inglehart. 60 Rüdig e Lowe questionam a interpretação dos dados de pesquisa e sua inter-relação com as explicações pós-materiais, sugerindo que uma análise adequada da ascensão dos Verdes teria que ir além dos estudos tradicionais de comportamento eleitoral.61 Talvez a explicação mais elementar de tal ascensão seja o fracasso dos partidos estabelecidos mais antigos em simplesmente responder de maneira adequada às necessidades e reivindicações do movimento ambiental. ATIVISMO E MEIO AMBIENTE INTERNACIONAL Como foi observado antes, o Novo Ambientalismo havia ultrapassado em muito os movimentos estabelecidos de conservação. Embora alguns dos grupos estabelecidos mais antigos tenham finalmente adotado táticas ativistas, novos grupos ambientalistas politizados foram necessários tanto para alimentar quanto para servir às novas prioridades. A mudança nos Estados Unidos começou com a criação de organizações nacionais tais como o Environment Defense Fund e os Friends of the Earth e foi, depois, transposta para as questões internacionais através dos esforços dos FoE e do Greenpeace, duas organizações abertamente ativistas.

A própria criação dos FoE foi sintomática de uma mudança nas prioridades. A entidade foi fundada em 1969, em conseqüência do desacordo entre o Sierra Club e seu diretor executivo, David Brower* Brower havia sido diretor executivo desde 1952, período durante o qual o clube passou a ser visto como o mais influente dos grupos conservacionistas tradicionais62 e Brower identificado entre os mais conhecidosconservacionistas. Ele empreendeu envolver o clube em questões públicas críticas, tais como a construção de uma barragem que ameaçava o Monumento Nacional Dinossauro, na fronteira entre os estados do Colorado e de Utah, e o apoio à Lei das Áreas Virgens de 1964. Em parte como resultado disto, o número de membros do Sierra Club aumentou de sete mil para setenta mil; pesquisas de opinião revelaram que as políticas de Brower contavam com o apoio de 85% dos membros do clube.63 Seus críticos, entretanto, argumentavam que sua independência de atitudes e sua determinação de se dedicar a projetos favoritos implicavam o fato de, freqüentemente, ele deixar atrasar o trabalho administrativo do Sierra Club. Ainda que autorizado a realizar tantos lobbies políticos quantos permitia a situação de isenção de impostos do clube, suas campanhas contra os planos de construir duas
* David Brower (n. 1912) tornou-se um dos mais respeitados ativistas do conservacionismo nos Estados Unidos. Depois de abandonar a universidade, Brower passou seis anos trabalhando no Yosemite antes de juntar-se à University of California Press corno editor. Em 1952 foi designado para o cargo de diretor do Sierra Club, o primeiro em tempo integral, posto que manteve até sua renúncia compulsória em 1969. Fundou então os Friends of the Earth.

145 barragens no Grand Canyon por parte do Bureau de Reaproveitamento tiveram influência na perda dessa condição pelo clube. Além disso sua alega da indiferença em relação aos deveres para com o clube havia sido relacionada aos pesados déficits anuais entre 1967 e 1969. Foi afastado do cargo em 1969. Logo após seu afastamento Brower fundou os FoE, cuja filosofia era um reflexo direto do Novo Ambientalismo: a solução dos problemas ambientais não residia em remédios temporários, mas em mudanças sociais fundamentais. Os FoE adotaram vigorosos métodos de campanha visando obter o máximo de publicidade e atrair atenção para atividades e empreendimentos que ameaçassem o meio ambiente. Passaram subseqüentemente a conseguir apoio entre os descontentes de classe média jovens e de boa escolaridade.64 A organização foi concebida desde o começo como uma estrutura que tanto seria abertamente ativista quanto internacional. A "fórmula" dos FoE, segundo Brower, era encontrar pessoas em outros países que compartilhassem de sua filosofia sobre os limites do crescimento para então criar e fazer funcionar organizações FoE independentes .65 O primeiro escritório dos FoE foi aberto em San Francisco em 1969, seguido de escritórios em Paris (julho de 1970) e Londres (outubro de 1970). No início Brower simplesmente indicava amigos como seus representantes ultramarinos, mas o processo de recrutamento foi posteriormente formalizado. Dois encontros em 1971 (na França e na Suécia) resultaram no estabelecimento de uma instituição internacional cujo quartel-general situava-se nominalmente em San Francisco. Burkes observa que a primazia da autodeterminação e da tomada de decisões por consenso eram características da própria definição dos FoE Internacionais, e "se isso resultou, algumas vezes, numa diminuição da taxa de desenvolvimento dos FoE como uma força internacional efetiva, significou igualmente a ausência de divisões destrutivas dentro da organização".66 Grupos autônomos foram em seguida criados na maioria dos países da Europa Ocidental e depois em outros lugares (por exemplo, Malásia e África do Sul), freqüentem ente com métodos e modelos diferentes de organização, mas perseguindo todos o objetivo de promover uma "utilização mais racional de nossos recursos através de todos os meios construtivos e de trabalhar contra aqueles que destroem esses recursos".67 As questões às quais os FoE davam tratamento incluíam fontes alternativas de energia, questões da vida dos animais selvagens, transporte, poluição e mudanças na legislação. Foi a poluição - especialmente a provocada pela precipitação atmosférica devida aos testes nucleares - que levou à criação do Greenpeace, o mais manifesto dos grupos de ação direta. Desde a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a China vinham realizando testes nucleares no Pacífico e ao seu redor. Os planos americanos de explodir um artefato nuclear na ilha de Amchitka (ao largo da costa do Alasca), em 1971, incentivaram um grupo de ambientalistas americanos, o Don't Make a Wave Committee, a protestar por intermédio do envio de um barco de pesca para a área, contribuindo assim para o adiamento do teste e o posterior cancelamento de todos os testes em Amchitka.68 Táticas similares foram empregadas novamente em junho de 1972 quando uma tripulação de voluntários liderada por um canadense,

David McTaggart,* conduziu um iate em direção ao local de testes francês, no atol de Mururoa, a sudeste do Tahiti; foi detonada uma bomba com o iate a apenas 80 quilômetros de distância. Em agosto de 1973 o iate navegou novamente para o local dos testes franceses, mas dessa vez sua tripulação foi interceptada através de uma agressão física de comandos franceses. Fotografias clandestinas do ataque atraíram uma publicidade considerável; em
* David McTaggart (n. 1933) nasceu no Canadá e geriu uma série de empreendimentos nos Estados Unidos antes de abandonar a carreira e mudar-se para o Tahiti. Após os protestos do atol de Mururoa, em 1972·1973, McTaggart mudou-se para Vancouver e criou o Greenpeace, tornando-se mais tarde diretor do Greenpeace lnternational.

146 parte como resultado das atividades do Greenpeace, a França anunciou uma breve moratória dos testes em novembro. A Austrália e a Nova Zelândia mantiveram pressão diplomática sobre a França através dos anos 70 e o Greenpeace continuou com seus protestos públicos, mas a França realizou testes regulares durante toda a década. As atividades de protesto do Greenpeace tiveram seu lance mais sério em julho de 1985 quando a embarcação do grupo, o Rainbow Wanior, sofreu um atentado a bomba no porto de Auckland, Nova Zelândia, perpetrado por elementos da Direction Général de Sécurité Extérieure, o serviço de inteligência francês. Um dos membros da tripulação do Greenpeace (Fernando Pereira) morreu em conseqüência do incidente. A controvérsia que se seguiu comprometeu as relações franco-neozelandesas e levou à renúncia do ministro da defesa francês, Charles Hernu. O Greenpeace fez igualmente campanhas contra a pesca da baleia, abate de focas, energia nuclear e despejos de lixo radioativo. Em muitos casos, adotou as mesmas táticas de ação direta, como a tentativa de obstruir a área de despejo de lixo nuclear no oceano ou o abate de focas no Ártico. A chave de suas atividades é sempre a geração de publicidade muitas vezes gráfica e de forte efeito visual nos meios de comunicação de massa. A medida que a organização foi crescendo, grupos autônomos que rejeitavam o controle do quartel-general do Greenpeace em Vancouver foram criados na Grã-Bretanha, França e Holanda. Em 1985 havia escritórios do Greenpeace em 17 países, com um número total de um milhão e duzentos mil membros,69 e foi criado um escritório internacional em Lewes, na costa sul da Inglaterra. De todas as questões recentes enfrentadas pelos novos ativistas poucas se mostraram tão geradoras de confronto quanto o movimento contra a energia nuclear. O advento da energia nuclear na década de 50 foi ampla, mas não universalmente, bem-vindo. A mesma foi retratada como uma fonte de energia mais barata e limpa do que as fontes tradicionais, com o potencial de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Durante o período de maior otimismo previu-se que nos anos 80 seriam construídas mais de cem usinas nucleares por ano. Na realidade a capacidade mundial de geração de energia nuclear em 1983 era menor que a metade do que havia sido previsto; havia 282 usinas nucleares comerciais em 25 países, com cerca de 174 mil megawatts de capacidade de geração, ou seja, o bastante para produzir 9% da eletricidade consumida no mundo.70 Quatro fatores principais contribuíram para a mudança de atitude: a oposição pública, baseada em preocupações ambientais e de segurança (especialmente em relação ao lixo nuclear); os problemas operacionais (por exemplo, com os reatores avançados refrigerados a gás); os desentendimentos na indústria quanto aos méritos relativos de diferentes projetos de reatores; e - talvez o mais importante - o fato de que a energia nuclear já não era mais economicamente atraente no começo da década de 1980. A construção de novas usinas nucleares freqüentemente estourava os orçamentos e finalmente admitiu-se que a energia nuclear não era mais barata do que a carbonífera. De qualquer maneira essa havia sido sempre uma afirmação controversa. A questão da segurança era quase tão velha quanto a própria energia nuclear comercial, embora não tivesse atraído a atenção pública até bem mais tarde. O primeiro acidente importante em reator aconteceu no Canadá em 1952, quando a confusão dos operadores se combinou com problemas técnicos para produzir uma explosão dentro do núcleo de um reator de pesquisa. Não houve pessoas feridas ou radiação excessiva.71 O acidente em Windscale, no distrito dos lagos ingleses, em outubro de 1957 (ver capítulo 3), foi mais divulgado e contribuiu para causar um retrocesso de breve duração nos planos do governo britânico para o desenvolvimento da energia nuclear (outros fatores foram a capacidade de recuperação do mercado mundial de petróleo, a queda dos preços do mesmo, a expansão da indústria do carvão e os custos de construção de usinas nucleares). O primeiro acidente nos Estados Unidos - que resultou na morte de três operadores - ocorreu com

147 um reator em Idaho, em janeiro de 1961. A causa exata do acidente nunca foi estabelecida, mas pode ter sido erro humano.72 As primeiras manifestações de oposição pública à construção de usinas nucleares vieram de residentes locais. Na Grã-Bretanha a oposição manifestou-se inicialmente devido à apreensão quanto à segurança das usinas. A necessidade de situar as usinas em locais bem distantes dos centros populacionais e perto de uma fonte de água disponível implicou o fato de que muitas das usinas encomendadas pela Autoridade Central de Eletricidade deveriam ser construídas em áreas de destacada beleza natural, como Snowdonia, no País de Gales. Isso provocou protestos e oposição por parte dos residentes locais e dos grupos nacionais de pressão. Hall argumenta, entretanto, que tais protestos não eram sintomáticos de um desejo de rejeitar a energia nuclear amplamente difundido nas comunidades. Ele sugere que os grupos oposicionistas britânicos tiveram muito menos sucesso na época do que viriam a ter na década de 70, quando havia uma percepção crescente do público de que o programa nuclear não era um sucesso. Além disso os planos de introduzir os reatores americanos refrigerados com água pressurizada provocaram uma indignação intelectual maior e mais difundida do que os esquemas anteriores.73 Havia uma ignorância considerável sobre a energia nuclear, um legado do sigilo que havia envolvido as primeiras pesquisas sobre armas nucleares; havia igualmente uma ingênua fé residual na capacidade da ciência de beneficiar a sociedade. A oposição pública à energia nuclear foi muito mais expressiva, e freqüentemente violenta, na Alemanha Ocidental, França e Suíça. Em 1971, por exemplo, foram anunciados os planos de construção de um reator nuclear em Whyl, no sudoeste alemão. Apesar da oposição das pessoas que moravam na área, a construção começou em fevereiro de 1975. Centenas de manifestantes ocuparam imediatamente o local, sendo dispersados pela polícia alguns dias mais tarde. Poucos dias depois o local foi novamente ocupado, dessa vez permanentemente. Seguiram-se vários anos de confrontação e em 1982 a construção .ainda não havia recomeçado. Os planos de construção de uma usina em Kaiseraugst, na Suíça, sofreram oposição similar. As manifestações de massa contra a construção de um reator em Creys-Malville, França, em julho de 1976, foram reprimidas à força pela ação da polícia de choque, o que resultou na morte de um manifestante.74 A polícia de choque também foi utilizada em Brokdorf e Grohnde, Alemanha Ocidental, em 1976 e 1977, e em Kalkar, na Holanda, em 1977. Nos Estados Unidos a segurança era a questão fundamental. A suspeita pública cresceu com a morte inexplicada de Karen Silkwood, uma empregada da fábrica de plutônio Kerr-McGee, situada perto de Oklahoma City, num acidente de automóvel em novembro de 1974. Ela estava a caminho de um encontro com um funcionário do sindicato e um repórter, encontro em que apresentaria provas de práticas negligentes na fábrica. A fábrica foi subseqüentemente fechada. A oposição não violenta foi adotada pelos manifestantes que protestavam em Seabrook, New Hampshire, em outubro de 1976; mais de 1.400 manifestantes foram presos. Em março de 1978 o acidente na usina nuclear de Three Mile Island, em Harrisburg, Pensilvânia, deu sustentação aos opositores da energia nuclear.* Informes conflitantes sobre a liberação de radioatividade na atmosfera levaram à evacuação das mulheres grávidas e das crianças mais novas num raio de oito quilômetros.75 ,O incidente levantou muitas perguntas sobre a segurança dos reatores e a adequação das
* O acidente, envolvendo tanto falha mecânica quanto erro humano, começou pela falha de uma válvula e o fechamento de uma bomba que fornecia água para um gerador, o que provocou a interrupção do funcionamento do reator. Isso foi exacerbado pela falha de uma válvula de escape de pressão, que não fechou (o que provocou escapamento do líquido de refrigeração do reator), pelo fato de as bombas auxiliares de alimentação de água não estarem em operação (o que constitui uma violação das regras), pelo fato de os operadores não reagirem prontamente à situação e por leituras incorretas dos mostradores dos instrumentos.

148 normas de segurança, levando diretamente a uma série de cancelamentos de encomendas de novos reatores. O efeito do incidente sobre o público foi aumentado pelo lançamento, duas semanas antes, do filme A Síndrome da China, com Jane Fonda e Jack Lemmon, baseado numa pane fictícia em uma usina nuclear. Em maio de 1979 foi realizada uma manifestação - a maior contra a energia nuclear - em Washington, DC, envolvendo 75 mil pessoas. Three Mile Island também teve repercussões fora dos Estados Unidos. Dois dias antes o governo da Suécia tinha recusado a idéia de um plebiscito sobre o programa nuclear sueco; uma semana após, essa decisão foi revertida e o plebiscito foi realizado depois de um ano.

O alcance internacional do movimento antinuclear havia ganho expressão com a convocação da "Conferência sobre um Futuro Não Nuclear", não governamental, realizada paralelamente a uma conferência da International Atomic Energy Authority em Salzburgo, Austria. Fundou-se uma rede internacional de intercâmbio de informações - o World Information Service on Energy - que, daí em diante, obteve seus fundos a partir dos acertos para o licenciamento dos direitos do símbolo do movimento: um desenho sorridente do sol em vermelho sobre fundo amarelo, com os dizeres "Energia Nuclear? Não, Obrigado." Em 1983 o símbolo estava disponível em quarenta línguas;76 seu sucesso parecia significar a presença crescente de um movimento ambientalista novo e mais ativista, não inibido pelas fronteiras nacionais. O movimento ambientalista - e especificamente o movimento antinuclear - havia sido freqüentemente criticado por exagerar sua argumentação, por utilizar táticas de pânico para angariar simpatia e apoio. Todavia, Three Mile Island mostrou o quanto poderia estar perto um desastre ambiental catastrófico. Uma confirmação da medida na qual o meio ambiente global podia ser contaminado pela atividade humana foi finalmente fornecida em 26 de abril de 1986, quando um reator explodiu na usina nuclear de Chemobyl, a oitenta quilômetros de Kiev, na Ucrânia. O acidente foi causado por um experimento que envolvia o desligamento deliberado dos sistemas de segurança; ao menos 32 mortes foram atribuídas à explosão, ao fogo e a doenças da radiação na seqüência da explosão. Mais de duzentas pessoas sofreram com moléstias graves causadas pela radiação e cerca de 135 mil tiveram que ser evacuadas da área de Chernobyl. Os ventos levaram a radiação para a Escandinávia e para partes do leste e do noroeste da Europa, contaminando derivados de leite e vegetais, e obrigando os agricultores de algumas áreas a manter suas criações de animais em locais protegidos. Embora haja pouca concordância quanto à escala precisa da ameaça a longo prazo para a saúde, muitos cientistas acreditam que o número de pessoas que provavelmente sofrerão de doenças relacionadas à radioatividade nas próximas décadas chegará aos milhares. O acidente de Chernobyl foi um exemplo espetacular de como a tecnologia - se mal administrada ou dirigida - pode provocar contaminação ambiental repentina e extrema. Entretanto está claro que a maioria das mudanças ambientais produzidas pela mão do homem são muito mais lentas, muito menos óbvias e mais difíceis de detectar e medir. Na maioria dos casos isso é uma função da taxa de desenvolvimento tecnológico e de crescimento econômico. Onde o crescimento e o desenvolvimento são relativamente rápidos e disseminados, as mudanças ambientais ocorrem no mesmo ritmo. Daí as mudanças acentuadas evidentes no meio ambiente das sociedades industriais. Nos países menos desenvolvidos crescimento e desenvolvimento foram freqüentemente rápidos, mas também desiguais. Na pressa de fornecer às suas populações os supostos benefícios do industrialismo, os governantes e planejadores dos países menos desenvolvidos colocaram freqüentemente o benefício imediato na frente dos custos de longo prazo. O resultado freqüente foi uma forma sub-reptícia e insidiosa de mudança ambiental que discriminou a pobreza rural, provocando degeneração rápida em vez de gradual: erosão do solo, desmatamento, assoreamento, o avanço de condições desérticas e - em última análise – 149 fome, miséria e morte. Se as nações industrializadas testemunharam mudanças ambientais que foram conseqüência do superdesenvolvimento, os países menos desenvolvidos testemunham uma mudança causada por desenvolvimento desigual. Resulta daí que os problemas e as respostas políticas de uma sociedade de baixo nível tecnológico são freqüentemente diferentes daqueles da sociedade de alta tecnologia. 150 FOLHA EM BRANCO 151

OITO O Sul: Meio Ambiente e Desenvolvimento (1972-1982)
Antes de Estocolmo muitos ambientalistas haviam questionado - e rejeitado - a ética do crescimento. Para eles o crescimento econômico era suspeito e inimigo de uma administração ambiental racional e correta. Havia pouco espaço para acordos. Uma década depois de Estocolmo as atitudes já eram mais conciliadoras. Desenvolvimento e meio ambiente já não eram mais vistos como incompatíveis e havia o consenso generalizado de que uma assimilação dos objetivos de ambos era necessária para criar uma sociedade

sustentável. O crescimento econômico não era mais encarado com desconfiança. Ao contrário, era visto como essencial, contanto que fosse sustentável. Enquanto nos anos 60 o crescimento populacional havia sido considerado como um obstáculo para o desenvolvimento econômico e social, agora se argumentava, de modo inverso, que uma falta de desenvolvimento poderia incentivar o crescimento populacional. Para o Banco Mundial o problema populacional consistia em "um descompasso entre a população e a capacidade de produzir renda (...) que deixa muitos dos povos do mundo num círculo vicioso de pobreza e fertilidade alta".1 A Declaração Cocoyoc (ver adiante) observou que "os enormes contrastes no consumo per capita entre a minoria rica e a maioria pobre têm um efeito muito maior do que seus números relativos sobre o uso e o esgotamento dos recursos”.2 De uma posição pré-Estocolmo de rejeitar os padrões econômicos e sociais da sociedade capitalista e buscar mudanças fora das instituições estabelecidas, uma nova geração de ambientalistas havia se voltado, uma década depois, no sentido de uma política de compromisso, de usar os sistemas econômicos, sociais e políticos para realizar as mudanças dentro desses próprios sistemas. O novo slogan ambiental era "desenvolvimento sustentável" . Como em tantos outros "novos" conceitos ambientais anteriores e adota dos desde então, não havia muita coisa de novo em relação ao desenvolvimento sustentável. O mesmo havia sido adotado pelos especialistas florestais alemães e indianos, e também por Roosevelt e Pinchot. Os delegados em Lake Success em 1949 e Bukavu em 1952 haviam falado da necessidade de administrar os recursos naturais racionalmente, enquanto a IUCN sugeriu a de reconciliar as políticas de conservação e desenvolvimento já em 1956. Em Arusha, em 1961, foi observado que "somente pela utilização planejada da vida selvagem como um recurso natural renovável (...) podem sua conservação e seu desenvolvimento ser economicamente justificados em competição com a agricultura, a pecuária e outras formas de uso do soIo".3 A IUCN havia lançado o Projeto Especial Africano em grande 152 parte porque sentia que os programas de ajuda externa existentes eram "inclinados a desprezar a conservação e o valor da vida selvagem e do hábitat como um patrimônio econômico, científico e cultural permanente".4 Na Primeira Conferência Mundial de Parques Nacionais em Seattle, em 1962, ficou resolvido que a conservação era um elemento importante do desenvolvimento e que os organismos internacionais deveriam incorporar estudos ecológicos a seu planejamento.5 Também em 1962, a Assembléia Geral da ONU adotou uma resolução sobre Desenvolvimento Econômico e a Conservação da Natureza, a qual endossava uma resolução anterior da UNESCO que dizia que, para serem efetivas, as medidas para preservar a natureza e os recursos naturais "devem ser tomadas, desde o estágio mais inicial possível, simultaneamente ao desenvolvimento econômico".6 Em 1970 Paul e Anne Ehrlich argumentavam que a ajuda para o mundo em desenvolvimento havia sido "pouquíssima e ecologicamente inepta demais";7 o Norte industrializado havia cometido o erro fundamental de basear seu padrão de progresso na expansão do Produto Nacional Bruto, tornando-se assim "hiperdesenvolvido", Os países menos desenvolvidos estariam mais bem orientados se buscassem "semidesenvolver-se" e a prioridade deveria ser o desenvolvimento agrícola ecologicamente correto e não a industrialização. Apesar de tudo isso não existe uma definição consensual de desenvolvimento sustentável. Geralmente, o termo é aplicado aos países menos desenvolvidos e ao tipo de desenvolvimento econômico e social necessário para melhorar as condições de vida dos pobres do mundo sem destruir ou minar a base de recursos naturais. O IIED arriscou uma definição em 1982: "o processo de melhorar as condições de vida da maioria pobre da humanidade e ao mesmo tempo evitar a destruição dos recursos naturais e de sustentação de vida, de modo que os aumentos de produção e as melhorias das condições de vida possam ser sustentados a longo prazo",8 O conceito pode ser de fato uma abordagem para os problemas dos países menos desenvolvidos, mas é igualmente aplicável aos países mais desenvolvidos. Uma definição mais universal e apropriada poderia ser o desenvolvimento que ocorre dentro da capacidade de sustentação do meio ambiente natural e humano. Anteriormente a Estocolmo a preocupação entre ambientalistas europeus e americanos com os limites para o crescimento havia levado a maioria a deixar de lado os problemas dos países menos desenvolvidos. A mudança de ênfase depois de Estocolmo foi acentuada e rápida. As ligações entre o meio ambiente e o desenvolvimento eram mencionadas tão freqüentemente que na quarta sessão do conselho diretor do UNEP, em 1976, diversas delegações questionaram a necessidade, aparentemente sentida pelo secretariado do UNEP, de continuar a defender a noção. A idéia estava bem entendida e bem estabelecida,

protestavam; seria aceitável a reiteração, mas não havia necessidade de maior elaboração.9 A elaboração da questão, contudo, estava no âmago do debate ambiental desde Estocolmo. Os problemas ambientais nos países mais desenvolvidos haviam sido retratados como uma conseqüência do hiperdesenvolvimento (isto é, a exploração irrefletida e perdulária dos recursos naturais) e, nos países menos desenvolvidos, como uma conseqüência do subdesenvolvimento (acesso desigual à riqueza nacional, falta de oportunidades econômicas e a exploração desigual dos recursos naturais). 10 Um relatório de 1976 do diretor executivo do UNEP argumentava que o pior uso do meio ambiente estava ocorrendo "nos dois extremos da escala da riqueza".11 As raízes da alteração de ênfase do movimento ambiental pós-Estocolmo devem ser procuradas em quatro desenvolvimentos mais amplos: a natureza evolutiva das relações políticas e econômicas internacionais, o crescimento de uma nova visão global do meio ambiente, a necessidade sentida por muitos ambientalistas do Norte de acomodar as diferentes prioridades dos países menos desenvolvidos e a crescente autoconfiança e sofisticação das ONGs ambientais. Enquanto os ambientalistas dos anos 60 haviam esposado a causa como uma visão alternativa para aqueles que rejeitavam o saber 153 econômico convencional, os dos anos 70 trabalhavam para incorporar os novos valores às políticas das instituições existentes, notadamente a indústria e o governo. MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO Em seguida a Estocolmo o UNEP e a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) sugeriram que havia necessidade de reuniões para discutir a implementação das idéias levantadas em Founex e Canberra em 1971. Gamani Corea, presidente do United Nations Committee for Development Planning (UNDP), sugeriu que os principais pontos de discussão, dado o novo interesse do Terceiro Mundo pelo meio ambiente, deveriam ser a necessidade urgente de fornecer orientação a planejadores e a questão da distribuição internacional da riqueza e da renda.12 Os encontros reuniriam cientistas das disciplinas sociais e naturais numa tentativa de definir possíveis linhas de colaboração entre eles e poderia ter seguimento numa série de seminários e conferências regionais sobre o meio ambiente e o desenvolvimento. Isto tudo levaria a uma proposta (mas abortada) conferência de Estocolmo Il, a ser realizada em 1977. Duas reuniões - às vezes confusamente chamadas de "Canberra lI" e "Founex lI" foram realizadas. A "Canberra II"* teve lugar em Genebra, em abril de 1974. Na reunião chegou-se a um acordo sobre o fato de que, dadas a quantidade e a diversidade dos recursos da Terra, sua disponibilidade física não seria um problema grave no futuro previsível, a não ser em aplicações de curto e médio prazo. Ao contrário, o problema dos recursos era o das "implicações econômicas, tecnológicas e ambientais de tornar disponíveis quantidades suficientes de recursos naturais e de usá-Ios racionalmente para o desenvolvimento econômico".13 O encontro concluiu que, dada a complexidade das relações econômicas internacionais, o desenvolvimento futuro tinha grandes proabilidades de ser restringido por problemas de distribuição de recursos naturais muito antes de surgirem quaisquer problemas de quantidades finitas. Essa conclusão era muito diferente daquelas de Paul Ehrlich e do Clube de Roma. A cooperação econômica mais estreita e equânime entre os países, observou o grupo, poderia se constituir num pré-requisito importante para a administração mais racional de recursos em uma escala global. O encontro também observou (o que não é surpresa, uma vez que foi realizado no contexto da crise energética de 1973-1974) que os recursos naturais estavam destinados a desempenhar um papel muito mais importante nas questões internacionais. Os países menos desenvolvidos, frustrados em seus esforços para negociar mudanças substanciais na ordem econômica mundial existente, estavam "estudando seriamente as possibilidades de usar seu cabedal de recursos naturais como um instrumento para conquistar uma melhor posição de negociação". Os países mais desenvolvidos, de sua parte, estavam se tornando cada vez mais conscientes da importância de uma continuidade de abastecimento e haviam feito grandes esforços, mesmo no ano anterior, para reduzir sua dependência em relação à energia e às matérias-primas importadas. A crise do petróleo dera aos países menos desenvolvidos um novo sentido de poder dos produtos primários, levando a uma nova fase nas relações Norte-Sul.14 Em maio de 1974 a Assembléia Geral da ONU adotou uma declaração que pedia o estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Mundial, a qual propiciaria uma

estrutura econômica global mais equilibrada. Naquele mesmo mês foi realizada uma pequena reunião UNEP - UNCTAD sobre Padrões
* O Grupo de Especialistas sobre o Impacto dos Problemas e Políticas de Administração de Recursos em Países Desenvolvidos sobre o Comércio Internacional e as Estratégias de Desenvolvimento, do UNEP-UNCTAD.

154 Alternativos de Desenvolvimento para discutir melhor a agenda para a Founex lI. Entre as conclusões a que se chegou, estavam as seguintes: 1) O desenvolvimento dos países menos desenvolvidos era governado pela disponibilidade de recursos naturais numa medida muito maior do que nos países mais desenvolvidos, onde as especializações, os recursos de capital e os recursos tecnológicos tinham mais influência. 2) A capacidade de lidar com a degradação ambiental era mais limitada nos países menos desenvolvidos, que tinham menos recursos tecnológicos e de capital, do que nos países mais desenvolvidos. Conseqüentemente a degradação ambiental poderia ter um impacto mais rápido e mais imediato sobre o desenvolvimento econômico. 3) Era preciso repensar os fundamentos das estratégias de planejamento e desenvolvimento para dar prioridade mais alta às estruturas sociais, à distribuição de renda mais equânime e às questões ambientais. No nível local deveria ser dada uma consideração muito maior às necessidades e condições locais antes de, por exemplo, usar técnicas, variedades de culturas, métodos agrícolas e outros conhecimentos que tivessem funcionado em outros lugares. A "Founex II"* foi realizada em Cocoyoc, no México, entre 8 e 12 de outubro de 1974. Presidida por Barbara Ward, reuniu um grupo de 33 delegados de 22 países (oito mais desenvolvidos, 14 menos desenvolvidos), inclusive Mostafa Tolba, Maurice Strong e Gamani Corea. Foi realizada para discutir a relação entre o meio ambiente e o desenvolvimento à luz da experiência dos últimos anos passados, para analisar o impacto que as questões ambientais - e especificamente a crescente consciência das limitações dos recursos naturais - estavam tendo (ou deveriam ter) sobre as estratégias de desenvolvimento e as relações econômicas internacionais, e para fornecer subsídios ao processo de repensar o desenvolvimento e os problemas econômicos internacionais que estava tendo lugar nas Nações Unidas.15 Foi publicada uma declaração perspicaz (em grande parte elaborada por Barbara Ward) ao final do simpósio, resumindo os pontos levantados. Observava que mais pessoas estavam passando fome, não tinham abrigo e eram analfabetas do que quando a ONU foi criada para estabelecer uma nova ordem internacional. O mundo ainda estava por emergir das conseqüências de quase cinco séculos de colonialismo, os quais haviam concentrado o poder econômico nas mãos de um pequeno grupo de nações. Grande parte da pressão sobre os recursos naturais se devia ao consumo desproporcionalmente alto de recursos no Norte industrializado: "A preempção por parte dos ricos de uma parcela desproporcional de recursos fundamentais entra em conflito direto com os interesses de mais longo prazo dos pobres ao prejudicar seu acesso final a recursos necessários a seu desenvolvimento e aumentar seu custo. Tudo isso é uma razão mais forte para que se crie um novo sistema de avaliação de recursos que leve em consideração os benefícios e os prejuízos para os países em desenvolvimento." A falta de recursos para o desenvolvimento humano pleno era uma causa permanente de crescimento populacional e as relações econômicas desiguais contribuíam diretamente para as pressões ambientais. Qualquer processo de crescimento que não conduzisse ao atendimento das necessidades humanas básicas (comida, abrigo, vestuário, saúde e educação) era um simples arremedo da idéia de desenvolvimento.
* Simpósio sobre Padrões de Uso de Recursos, Meio Ambiente e Estratégias de Desenvolvimento,

155 A declaração recomendava que:

1) deveriam ser instituídas políticas dirigidas à satisfação das necessidades básicas dos mais pobres, capazes ao mesmo tempo de assegurar a conservação adequada dos recursos e proteção ao meio ambiente; 2) os governos e organizações internacionais deveriam promover a administração de recursos e do meio ambiente em escala global; 3) deveriam ser criados regimes internacionais fortes para a exploração das áreas livres globais, de modo a taxar essa exploração para que beneficiasse os países mais pobres; 4) eram necessárias novas prioridades nas pesquisas científica e tecnológica e no desenvolvimento; 5) as novas prioridades do desenvolvimento deveriam visar a restringir o consumo exagerado no Norte e incrementar a produção dos gêneros essenciais para os pobres. A declaração terminava questionando os pressupostos do Novo Ambientalismo. O caminho para diante não passava pelo "desespero da espera do apocalipse nem pelo otimismo fácil de sucessivas soluções tecnológicas", mas pela avaliação cuidadosa e imparcial dos "limites exteriores" dos recursos físicos da Terra e por uma busca de meios para chegar aos "limites interiores" dos direitos humanos fundamentais. Embora Barbara Ward sentisse, retrospectivamente, que os "instintos" de Cocoyoc estivessem corretos16 e que a conferência desenvolveu mais o conceito de relação entre meio ambiente e desenvolvimento, esta teve, em última análise, pouca influência duradoura. POLÍTICAS DE AJUDA PARA O DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE Em seguida a Estocolmo os organismos de ajuda multilateral e bilateral começaram a pensar mais cuidadosamente sobre a viabilidade ambiental de seus programas. As preocupações pré-Estocolmo com a população, poluição e tecnologia falha davam lugar agora ao papel e aos efeitos da pobreza. O Banco Mundial estimou, no começo dos anos 70, que cerca de oitocentos milhões de pessoas, ou um quinto da população do mundo, estavam tão privados de renda, bens e necessidades básicas, que podiam ser considerados membros da classe dos "absolutamente pobres". O presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, * definiu a pobreza absoluta como "uma condição de vida degradada pela doença, analfabetismo, subnutrição e esqualidez a ponto de negar às suas vítimas as necessidades humanas básicas; uma condição de vida limitada a ponto de impedir a realização do potencial dos genes com os quais se nasce; uma condição de vida degradante a ponto de insultar a dignidade humana".17 Durante as décadas de 1950 e 1960 a visão convencional da comunidade de desenvolvimento era que o crescimento econômico era o modo mais efetivo de erradicar a pobreza. A melhor forma de ajudar os pobres era incrementar o capital, a infra-estrutura e a capacidade produtiva de uma economia; os ganhos do crescimento econômico "escorreriam"
* Robert McNamara (n.1916) foi educado na Universidade da Califómia e na HaMrd Business School. Foi executivo da Ford Motor Company de 1946 a 1961, ascendendo à posição de presidente antes de ser nomeado secretário da Defesa no primeiro gabinete de Kennedy. Permaneceu no cargo durante a administração Johnson e em 1968 tomou-se presidente do Banco Mundial, posição que deteve até 1981.

156 para os pobres através das forças de mercado, criando empregos, aumentando a produtividade e os salários e reduzindo os preços. Mas o crescimento nem sempre reduzia a desigualdade; nem a renda escorreu automaticamente para os pobres. Quando muito promoveu o dualismo - a emergência de um setor urbano moderno paralelamente à estagnação no resto da economia.18 Para tornar as coisas piores boa parte da ajuda estava sendo gasta em projetos de prestígio não essenciais (tais como novas vias expressas, aeroportos e salões de conferência). Nos anos 70, a atenção se voltou para a noção de crescimento econômico com redistribuição de renda19 e finalmente para a idéia de que o atendimento das necessidades básicas (tais como alimentação, saúde, educação, habitação, água e saneamento) era mais importante para os pobres do que a questão bastante mais nebulosa da igualdade.

No final dos anos 60 diversos órgãos de ajuda ao desenvolvimento haviam tomado consciência de que a eficácia de sua ajuda era muitas vezes solapada pela ausência de qualquer consideração relativa aos seus efeitos ambientais. Muita ajuda era desperdiçada porque resultava em degradação ambiental ou era solapada por essa degradação: a erosão do solo, a desertificação, o assoreamento de represas, o fracasso dos sistemas de irrigação e assim por diante. A Conservation Foundation nos Estados Unidos já havia começado, nos anos 60, a pensar na necessidade de levar em conta os fatores ecológicos no planejamento para o desenvolvimento. Em 1968 patrocinou uma conferência em Airlie House, Virginia, sobre os Aspectos Ecológicos do Desenvolvimento Internacional, a qual concluiu que economistas do desenvolvimento, planejadores, engenheiros e ecologistas deveriam consultar uns aos outros para maior interação na elaboração dos projetos. Airlie House foi seguida por mais encontros, envolvendo o Banco Mundial, a FAO, o UNDP, a IUCN, o lnternational Biological Programme (IBP) e a Conservation Foundation. Por sugestão de Max Nicholson (representando o IEP) foi realizado um encontro na FAO em Roma, em 1970, envolvendo todos esses grupos e os órgãos de ajuda do Canadá e dos Estados Unidos. Ficou decidido que a IUCN e a Conservation Foundation deveriam preparar um livro de orientação para planejadores de desenvolvimento. O livro Ecological Principies for Economic Development foi publicado em 1973, com autoria de Raymond Dasmann, da IUCN, e John Milton e Peter Freeman, da Conservation Foundation.20 Os autores examinaram os princípios ecológicos que precisavam ser considerados em situações em que o desenvolvimento econômico ameaçava causar modificações de vulto nos sistemas naturais e argumentavam que a definição de conservação da UNESCO/FAO, como "o uso racional dos recursos do planeta para obter a mais alta qualidade de vida para a humanidade", poderia com a mesma facilidade ser aplicada para definir as metas do desenvolvimento econômico; conseqüentemente deveria haver uma convergência cada vez maior, ao invés de conflito, entre os objetivos da conservação e os do desenvolvimento. A consideração adequada dos princípios ideológicos ajudaria os conservacionistas e os promotores do desenvolvimento a atingir suas metas com um mínimo de efeitos colaterais indesejáveis. As limitações ecológicas aos sistemas naturais tinham que ser levadas em conta caso se pretendesse que o desenvolvimento tivesse êxito. O livro estabelecia, em termos gerais, as necessidades ecológicas e de desenvolvimento das áreas tropicais úmidas e das terras de pastoreio das regiões semi-áridas e semi-úmidas, e avaliava o impacto do desenvolvimento do turismo, dos projetos de desenvolvimento agrícola e dos projetos das bacias hidrográficas. Explorava idéias gerais ao invés de estabelecer princípios abrangentes. A IUCN desenvolveu subseqüentemente algumas dessas idéias em encontros e na publicação de uma série de diretrizes para o planejamento do desenvolvimento. No período 1977-1979 o IIED realizou uma série de estudos reveladores sobre as políticas ambientais de algumas organizações de ajuda ao desenvolvimento bilaterais e multilaterais selecionadas.21 Foram identificados quatro problemas principais nas instituições financiadoras de um modo geral: 157 1) a falta de quaisquer procedimentos claros para a avaliação ambiental de projetos (com as exceções do Banco Mundial e da Organização dos Estados Americanos); 2) uma falta geral de critérios para a avaliação do impacto ambiental (originária em grande parte da falta de definições conceituais quanto ao que constituía interesse ambiental); 3) a falta de formas alternativas de análise e contabilidade, o que incluía os efeitos ambientais e sociais de longo prazo dos projetos de desenvolvimento; 4) carência de pessoal apropriadamente treinado. O primeiro dos estudos do IIED concentrou-se nos órgãos de ajuda multilaterais. O estudo concluiu que dentre os nove organismos estudados o Banco Mundial tinha a política ambiental mais avançada e práticas que "sem dúvida exercem liderança intelectual nas questões ambientais em toda a comunidade internacional de desenvolvimento”. Isso se devia em grande parte à influência e ao interesse pessoal de Robert McNamara nas questões ambientais.22 O Banco Mundial havia estabelecido um novo cargo de consultor ambiental em 1970 (uma atitude desprezada pelos críticos do banco como cosmética) e adotou o procedimento de

considerar os fatores ambientais na sua política de assistência econômica. Num pronunciamento de 1970 ao ECOSOC, McNamara reconheceu que as instituições tinanciadoras estavam diante do problema de assegurar que a assistência ao desenvolvimento evitasse os danos ambientais sem diminuir o ritmo do crescimento econômico.23 Em 1972 o Banco Mundial havia publicado um manual para os que estavam envolvidos em projetos de desenvolvimento (inclusive engenheiros, planejadores e instituições financiadoras) 24. O trabalho listava ponto por ponto as questões que deviam ser levantadas durante o planejamento e a apreciação. Não era de modo nenhum perfeito. Embora cobrisse indústria, transporte, serviços de infraestrutura e energia, mal chegava a mencionar a agricultura. Era também muito genérico, deixando pouco espaço para os problemas de comunidades específicas. Mas foi o primeiro esforço importante, por parte de uma instituição que concedia empréstimos, no sentido de estabelecer critérios para avaliar o impacto ambiental de seus projetos de investimento.25 O Banco Mundial enfrentou uma resistência inicial às suas novas preocupações ambientais por parte dos países menos desenvolvidos; muitos temiam que a incorporação de dispositivos de proteção ambiental aos projetos aumentaria os custos totais desses projetos em 25% a 50%. Tais temores foram desfeitos quando o banco concordou em arcar com quaisquer custos adicionais envolvidos para respeitar os padrões necessários.26 Na realidade o banco acabou por descobrir que os custos adicionais eram da ordem de 0% a 3%. A política do Banco Mundial era de que os aspectos ambientais e de saúde dos projetos deveriam ser analisados nos estágios de formulação e planejamento. Uma análise dos 1.342 projetos que receberam empréstimos e créditos do Banco Mundial entre 1º de julho de 1971 e 30 de junho de 1978 concluiu que 63% não demonstravam implicar problemas ambientais aparentes ou potenciais. Em 365 casos (27% do total) uma equipe do próprio banco tratou dos problemas ambientais identificados; em 110 situações (8%) os problemas ambientais pareceram sérios o bastante para exigir estudos especiais feitos por consultores, sendo incorporadas salvaguardas ambientais como condição para o empréstimo. Nos 22 casos restantes, outros organismos haviam determinado anteriormente a necessidade de salvaguardas, e medidas apropriadas haviam sido tomadas.27 O segundo estudo do IIED examinou as políticas ambientais de seis organizações de ajuda bilaterais (as do Canadá, Alemanha Ocidental, Holanda, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos).28 Chegou-se à conclusão que a confusão que existira quatro anos antes quanto ao sentido de "meio ambiente" havia sido resolvida e que o meio ambiente não 158 estava sendo visto como um assunto adicional a ser considerado, mas cada vez mais como uma "nova abordagem ao desenvolvimento, a qual dá maior peso à sustentabilidade dos resultados e aos custos dos efeitos colaterais destrutivos dos projetos". Todavia, por mais ampla que tenha sido em princípio a aceitação dessa visão, a mesma ainda vinha tendo "muito pouco impacto na orientação e no planejamento dos projetos ou das políticas de desenvolvimento concretas dos organismos estudados". Um estudo anterior da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID - United States Agency for Intemational Development) havia concluído que a despeito do acréscimo, em 1977, de uma seção sobre Meio Ambiente e Recursos Naturais à Lei da Assistência Externa e da criação de vários projetos da USAID dirigidos à proteção dos recursos naturais, os esforços da USAID haviam carecido de uma autoridade clara e se mostrado "fragmentários e sujeitos a justificativas tortuosas".29 O estudo do llED sobre os organismos bilaterais concluiu que os objetivos ambientais e relativos aos recursos precisavam de uma definição mais abrangente no contexto das políticas de ajuda como um todo," que era preciso dar atenção urgente à questão a fim de ajudar os países menos desenvolvidos a estruturar uma capacidade própria de estudar e administrar seus·problemas ambientais específicos, que os projetos de aprimoramento ambiental precisavam de apoio comparável àquele dado aos setores tradicionais de desenvolvimento, e que os documentos de política dos organismos de ajuda freqüentemente não dedicavam a atenção adequada aos fatores ambientais. Quatro dos seis organismos haviam definido claramente pontos focais de responsabilidade ambiental, mas apenas um (o dos Estados Unidos) examinava sistematicamente os projetos quanto a seu impacto ambiental.30 Havia consenso nos seis organismos quanto à necessidade de integrar um conceito amplo de "meio ambiente" ao pensamento e planejamento do desenvolvimento, mas "a este compromisso retórico, com algumas exceções, não correspondeu rapidamente nenhuma ação específica". Um estudo separado da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional constatou "uma abordagem informal e às vezes aleatória das questões ambientais" .31 O estudo concluiu que a entidade

carecia de um compromisso enérgico de incorporar as questões ambientais ao planejamento regular de políticas, que não havia avaliação sistemática das conseqüências ambientais no estágio de proposição de projetos e que monitoração e procedimentos de avaliação inadequados acarretavam à agência pouco retorno no tocante às conseqüências ambientais dos projetos. A política britânica de ajuda era ainda menos esclarecida. Em 1982 era política da Administração do Desenvolvimento Ultramarino "levar em consideração" as implicações ambientais dos projetos de ajuda e chamar a atenção dos governos beneficiários para as implicações desses projetos, mas só fornecer aconselhamento "estritamente" sob solicitação; "cabe aos próprios governos dos países em desenvolvimento decidir que prioridade desejam dar aos fatores ambientais dentro de seus programas de desenvolvimento próprios, Essa é uma questão política a ser considerada em confronto com as exigências de desenvolvimento econômico e social de cada país individualmente".32 A política dos organismos da Comunidade Britânica envolvidos no desenvolvimento era, da mesma forma, responder aos pedidos de aconselhamento mais freqüentem ente do que tomar a iniciativa nas idéias e programas. Poucas atividades da Comunidade Britânica, se é que havia alguma, reconheciam em qualquer sentido formal a dimensão ambiental do desenvolvimento.33 Em setembro de 1979, nove meses depois da publicação do primeiro estudo do IlED, representantes de nove organismos multilaterais examinados se reuniram em Paris, sob os auspícios do UNEP, do Banco Mundial e do UNDP, e chegaram a um acordo quanto a uma declaração conjunta (assinada em Nova York em 1980) comprometendo-se a implementar novas políticas em sete áreas identificadas pelo estudo, incluindo o exame sistemático de todas as políticas e projetos de desenvolvimento, a fim de garantir que 159 fossem propostas medidas apropriadas para o cumprimento dos princípios e recomendações de Estocolmo. A declaração observava que o desenvolvimento econômico era essencial para minorar todos os principais problemas ambientais e reconhecia que os organismos de ajuda tinham a responsabilidade de assegurar a sustentabilidade das atividades de desenvolvimento econômico que financiavam.34 Os efeitos cumulativos do desenvolvimento mal planejado ou inadequadamente orientado e o papel desempenhado nisso pelas políticas de ajuda ao desenvolvimento foram ilustrados num relatório publicado pelo Banco Mundial em 1984 sobre o desenvolvimento na África subsahariana.35 O relatório concluía que a região enfrentava graves problemas econômicos e sociais, com instabilidade política, produto interno bruto e produção agrícola em declínio, subnutrição crescente e um meio ambiente natural em deterioração. Os fatores fundamentais que os causavam, alegava, eram o crescimento populacional em aceleração, a queda do retomo dos investimentos e o efeito das políticas dos governos e dos que doavam ajuda sobre a eficiência do uso dos recursos. Embora muitos organismos de ajuda, incentivados pelo UNEP, tivessem em princípio concordado em realizar avaliações de impacto ambiental dos projetos de ajuda, "essa promessa ainda não se traduziu em ação generalizada - e poucos projetos financiados por particulares realizam uma análise ambiental prévia adequada” 36 Não obstante, o UNEP acreditava que se havia verificado um deslocamento da ênfase de "uma abordagem quase que puramente técnica para um enfoque social mais amplo, considerando as metas do desenvolvimento do ponto de vista dos valores e da ética e não apenas do ponto de vista do crescimento econômico quantitativo, e a longo prazo ao invés de a curto prazo".37 Aparentemente isso havia chegado a um ponto em que alguns planejadores acreditavam que o verdadeiro desenvolvimento não poderia ser atingido copiando o Ocidente, onde o crescimento industrial havia sido utilitário e portanto insustentável.38 POLÍTICA AMBIENTAL NO TERCEIRO MUNDO: QUÊNIA E ÍNDIA Assim como os países mais desenvolvidos repensaram suas políticas ambientais no final da década de 1960 e começo da de 1970, muitos países menos desenvolvidos também o fizeram. O número de países menos desenvolvidos que possuíam organismos ambientais cresceu de 11 em 1972 para 102 em 1980.39 Mas, assim como nos países mais desenvolvidos, simplesmente criar um órgão não equivalia a criar um órgão eficiente. Os novos organismos dos países menos desenvolvidos não apenas enfrentavam muitos dos problemas políticos e de jurisdição vividos por seus similares em países mais desenvolvidos (notadamente a falta de autoridade conferida aos novos órgãos ambientais), como também seus próprios problemas adicionais: com excessiva freqüência a instabilidade política e econômica, a prioridade dada ao

desenvolvimento econômico a quase qualquer custo e a ausência (com algumas exceções) de uma classe média substancial, um movimento ambiental, um arcabouço legal e institucional firme e uma base de dados sólida. Emil Salim, o ministro da Indonésia para Assuntos Populacionais e do Meio Ambiente, embora concordasse com a necessidade de proteger a riqueza genética de seu país, assinalou em 1982 que a Indonésia carecia de um "conhecimento preciso do que constitui a sua riqueza natural e como protegê-Ia".40 O desenvolvimento do arcabouço legal (inclusive de procedimentos e organismos regulamentadores, apoiados por pessoal treinado) para a ação ambiental era desigual, e a legislação existente muitas vezes difícil de fazer cumprir ou implementada ineficientemente. Poucos países menos desenvolvidos possuíam políticas ambientais nacionais explícitas. Enquanto as nações industrializadas tiveram algum sucesso na realização de levantamentos ambientais e na implementação de planos de desenvolvimento, o 160 progresso nas nações mais pobres foi variável. Conceitos tais como desenvolvimento sustentável eram diretrizes úteis para projetos de desenvolvimento mas não encontravam aplicação generalizada.41 O Quênia deveria teoricamente ter-se saído melhor do que a maioria das outras nações. A sede do UNEP localiza-se ali, o país foi anfitrião de conferências ambientais fundamentais, possui uma rede de ONGs relativamente bem-desenvolvida e desfrutou de relativa prosperidade econômica e estabilidade política desde a independência em 1963. Possui um cabedallimitado de terras aráveis, mas sua área de terras produtivas é suficiente para alimentar (pelo menos em teoria) sua população em rápido crescimento. Também é bem aquinhoado de outros recursos naturais. Contudo as indicações são de que enfrenta uma "crescente e aterradora perda de recursos naturais a longo prazo em troca de retornos de curto prazo" 42 As perdas resultam do excesso de pastagem, expansão do cultivo em áreas de pluviosidade marginal, desmatamento, expansão descontrolada de novos assentamentos, destruição das bacias de captação de áreas altas e assoreamento de rios. A taxa de crescimento populacional do Ouênia é a mais rápida do mundo, de 4,2%, 43 e mostra poucos sinais de estar se reduzindo. Caso continue, a população nacional dobrará a cada 18 anos. Em seu estudo da política ambiental do Quênia, Randall Baker e David Kinyanjui concluíram que em 1980 o Quênia não possuía uma política ambiental nem uma política integrada de uso do solo em escala nacional.44 Isso era verdade apesar de importantes declarações sobre administração ambiental feitas sucessivamente pelos presidentes Kenyatta e Moi, e do consenso geral entre os funcionários de ministérios e secretarias de que tal política de meio ambiente era prioritária. A Secretaria Nacional do Meio Ambiente do Quênia concluiu que os planos para a introdução de uma exigência de avaliação de impacto ambiental não teriam efeito algum enquanto não houvesse uma política de meio ambiente, "e enquanto sua implementação for prerrogativa das próprias instituições que exacerbaram, senão precipitaram os problemas existentes".45 No Plano Qüinqüenal de 1979-1983 as políticas de utilização dos recursos foram lista das como responsabilidade da secretaria do meio ambiente e do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, porém nenhum dos dois órgãos tinha status de elaborador de política. Em 1980 o Quênia possuía 14 peças avulsas de legislação relacionadas aos recursos naturais e à administração de recursos, mas muito raramente as mesmas eram aplicadas. Baker e Kinyanjui constataram entre outros problemas uma sobre posição e confusão de responsabilidades (por exemplo, apenas para a água havia 26 instituições com interesses relacionados), a não-aplicação da lei, um conflito fundamental entre parlamentares representando eleitorados rurais que enfrentavam carência de terras e organismos setoriais que apoiavam uma legislação mais severa e abrangente, leis divorciadas da realidade econômica e social da situação que supostamente deveriam fiscalizar, ausência de monitoração e coleta de dados organizadas a nível nacional e um órgão ambiental carente de políticas, autoridade legislativa, representação local e poder político. A situação ficou ainda mais complicada devido às rivalidades entre departamentos; sete de um total de vinte ministérios têm participação nas questões de recursos naturais; os ministérios do planejamento e desenvolvimento nacional, meio ambiente e recursos naturais, de terras e assentamento populacional, do desenvolvimento da água, turismo e vida selvagem, desenvolvimento da agricultura e pecuária, e da energia e desenvolvimento regional. Os problemas da Índia são semelhantes, mas obviamente muito maiores. O país possui um extenso corpo de legislação ambiental, que remonta à Lei do Dano às Praias (Bombaim e Kolaba) de 1853. 46 Foi criado um Comitê Nacional de Planejamento Ambiental em 1972 para agir como um órgão consultor do governo (Indira Ghandi demonstrou um ativo interesse pessoal nas questões ambientais). As limitações

inerentes ao poder de um órgão consultivo levaram à criação, em 1980, de um Departamento do Meio Ambiente, sob a 161 responsabilidade direta do primeiro-ministro, a fim de apreciar projetos de desenvolvimento, monitorar a poluição e implementar a regulamentação e conservação dos ecossistemas marinhos e das reservas da biosfera. As avaliações ambientais tiveram algum êxito, como, por exemplo, a inclusão de medidas de redução da poluição numa fábrica de fertilizantes perto de Bombaim e a alteração dos planos para a construção de um projeto hidrelétrico dentro de um santuário de vida selvagem no estado de Tamil Nadu.47 O Departamento do Meio Ambiente também identificou reservas potenciais da biosfera e fez um levantamento de âmbito nacional das wetlands importantes, e o comitê de planejamento - antes de sua extinção - incentivou os governos estaduais a estabelecer seus próprios conselhos ambientais. Em 1985, de 22 estados, 18 tinham seus próprios departamentos de meio ambiente e havia mais de duzentas leis nacionais e estaduais relacionadas ao meio ambiente.48 Mas os fracassos suplantam os sucessos. Ramakrishna destaca o grau de incerteza quanto à autoridade legislativa do governo central para implementar estatutos ambientais, os problemas de cumprimento das leis e a falta de um direito de ação privada.49 Numa análise de trinta textos de legislação ambiental o comitê responsável pela criação do Departamento do Meio Ambiente observou quatro defeitos básicos: 1) muitos promoviam o desenvolvimento e o uso de recursos para benefícios econômicos específicos, sem uma análise cuidadosa dos efeitos ambientais potenciais; 2) diversas leis estaduais acarretavam implicações ambientais potencialmente adversas para estados vizinhos; 3) muitas leis eram claramente inadequadas (por exemplo, a Lei dos Inseticidas de 1968 não incentivava a substituição de agrotóxicos tais como o DDT, que haviam sido proibidos em outros lugares, e careciam de dispositivos adequados para a monitoração da incidência de resíduos de agrotóxicos); 4) o meio ambiente era tão novo como área de política que ainda era amplamente ignorado ou desprezado dentro dos órgãos do governo.50 O comitê de planejamento ambiental e o Departamento do Meio Ambiente, além disso, tinham pouca credibilidade em outros departamentos do governo. Para um departamento com responsabilidades potencialmente enormes, o do meio ambiente tinha, em 1983-1984, apenas 237 funcionários e um orçamento anual de 16 milhões de dólares (200 milhões de rüpias).51 E a indústria indiana, apesar do extenso corpo de legislação relativa à poluição, permaneceu relutante quanto a controlar a poluição ou fora do alcance da lei; em 1985 o ministro de estado para o meio ambiente relatou que havia cerca de quatro mil indústrias poluidoras na Índia, das quais apenas duzentas haviam instalado estações de tratamento de efluentes.52 Em nenhum lugar as fraquezas do sistema de controle da poluição da índia foram mais trágica e dramaticamente ilustradas do que no escapamento de gás metil-isocianato de uma fábrica de pesticidas da Union Carbide, em Bhopal, em dezembro de 1984. As estimativas do número de mortes imediatas variaram entre 1.300 e dez mil; a estatística mais comumente citada hoje em dia é de cerca de 2.500, embora vários anos depois continuem a morrer pessoas por causa dos efeitos remanescentes. A UNICEF calculou que foram afetadas cerca de duzentas mil pessoas ao todo (das quais cerca de 75% moradoras de favelas locais).53 Três problemas específicos foram destacados pelo acidente de Bhopal. Primeiro, a inadequação das regulamentações sobre padrões de poluição e segurança química e do sistema de zoneamento, o qual permite que muitos dos pobres da 162 índia vivam tão próximo de complexos industriais; segundo, a inadequação do sistema de reação a desastres do governo ("a centralização e a falta de iniciativa do governo", observou o Centro para a Ciência e o Meio

Ambiente, "tão visíveis no cotidiano, fizeram com que o sistema literalmente desmoronasse sob pressão");54 e terceiro, o sistema de valores políticos e econômicos, que permite que empresas multinacionais operem fábricas sob padrões de eficiência e segurança abaixo daqueles que teriam que respeitar em países mais desenvolvidos. O simples número de casos fatais em Bhopal não teve precedentes, mas acidentes semelhantes ocorreram antes na Índia e em outros lugares, e a probabilidade de incidentes futuros permanece alta. */55 Tanto o Quênia quanto a Índia possuem um movimento ambiental não governamental ativo e de forte expressão. Dentre as sessenta organizações quenianas ativas apenas no plantio de árvores, a de maior destaque é o Movimento Cinturão Verde, criado pelo Conselho Nacional das Mulheres do Ouênia em 1977. Liderado por Wangari Maathai, uma antiga professora de anatomia, o movimento ajuda comunidades locais a estabelecer plantações de árvores em espaços abertos, áreas de colégios e ao longo de estradas.56 Em 1987 já existiam mais de mil cinturões verdes, vinte mil "minicinturões verdes" em campos de fazendas e 65 viveiros comunitários de mudas de árvores. Um outro grupo ativo é a Associação de ONGs de Energia do Quênia, que participou de um bem-sucedido projeto financiado pela USAlD para testar e distribuir jikos (fogões a carvão vegetal) mais baratos e eficientes. A índia se orgulha de ter literalmente milhares de grupos de cidadãos, desde movimentos locais de base até organizações nacionais de maior amplitude. O poder dos movimentos de base pode ser resumido pelo histórico do Dasobli Gram Swarajya Mandal.57 Formado em 1964 para incentivar as indústrias caseiras baseadas na matéria-prima das florestas no estado setentrional de Uttar Pradesh, o movimento rapidamente descobriu que não tinha nenhum direito ou controle sobre as florestas locais e que empreiteiras de fora tinham a oportunidade de pagar muito menos do que o valor de mercado pelos produtos das florestas locais. Deu-se início a uma campanha de conscientização pública local para chamar a atenção do povo para o que estava acontecendo. A resistência local ao poder das empreiteiras de fora tornou-se gradualmente mais militante, de tal forma que em 1973-1974 os aldeões locais (principalmente mulheres) já estavam se organizando em grupos para impedir fisicamente a derrubada de árvores. O chipko andalan - ou "movimento para abraçar as árvores" - resultante atraiu subseqüentemente a atenção e a admiração mundiais pelo seu gandhismo não violento, embora, mais de uma década depois, sua meta de alterar a política florestal do estado em Uttar Pradesh permanecesse inatingida. A nível nacional a Índia também se orgulha de ter uma das ONGs mais enérgicas do mundo menos desenvolvido - o Centro para Ciência e Meio Ambiente. Supervisionado por Anil Agarwal, o centro publicou relatórios sobre a situação do meio ambiente na índia em 1982 e 1984-1985, os quais forneceram as avaliações mais completas e abrangentes já compiladas dos problemas ambientais de um país menos desenvolvido (e, de fato, de quase qualquer país). Nem na Índia nem no Quênia o governo trabalha tão integradamente com as ONGs quanto poderia. As ONGs, portanto, carecem do tipo de acesso à elaboração de políticas que Ihes daria a influência que buscam. Na Índia, o governo trabalha apenas com ONGs
* A atenção que Bhopal atraiu obscureceu um outro incidente sério ocorrido apenas um mês antes: a morte de mais de quinhentas pessoas na explosão de um depósito de gás liqüefeito de petróleo em lxhuatepec, um subúrbio de favelas de Cidade do México. ada menos do que cem mil pessoas - a maioria migrantes de áreas rurais - estavam instaladas em casas improvisadas a uma distância que às vezes não passava de 130 metros dos tanques de arrnazenarnento.55 a origem do acidente estavam muitos dos mesmos problemas subjacentes a Bhopal.

163 de base urbana e freqüentemente se opõe ativamente ao trabalho das ONGs rurais, as quais estão mais afinadas com as necessidades da maioria rural do país.58 A ESTRATÉGIA MUNDIAL DE CONSERVAÇÃO Estocolmo implantou com firmeza o meio ambiente na agenda das relações internacionais. À medida que a identificação de problemas que transcendiam fronteiras (por exemplo, a poluição ácida) e de problemas comuns a diversos países (por exemplo, a erosão do solo, a poluição e o desmatamento) aumentava, também se tornava mais evidente que era necessária uma cooperação internacional muito maior. MaxNicholson havia escrito sobre a necessidade de um programa mundial de conservação já em 1966, embora o esquema que visualizou se limitasse à vida selvagem. Ele observou que os recursos limitados e uma base de informações insuficiente significavam desincentivos à montagem de um esquema naquela época, mas que por volta de

1970 uma estratégia mundial poderia ser uma possibilidade concreta: "tal programa poderia ser de valia na concentração da opinião mundial sobre a escala, a natureza e a distribuição dos principais requisitos constatáveis para a conservação. Presumivelmente, caberia à IUCN tomar a iniciativa nesse ponto, mobilizando toda a ajuda que pudesse ser necessária ou apropriada".59 A IUCN começou a considerar uma abordagem estratégica para a conservação na sua Assembléia Geral em Nova Delhi, em 1969. 60 Raymond Dasmann (autor do manual de 1973 sobre diretrizes ecológicas) lembra que na época em que ele entrou para a IUCN, em 1970, como ecologista de primeiro escalão da equipe, três mudanças haviam acontecido na União: tinha uma nova liderança, uma nova estrutura organizacional e recebera uma doação de vulto da Fundação Ford. A Ford havia sugerido que era necessário um controle mais centralizado por parte da sede da lUCN sobre as suas atividades. Dasmann observou a influência de um novo programa de conservação marinha intercomissional na IUCN, o qual enfatizava "o planejamento, a programação, a estratégia e a tática".61 Essa abordagem permeava agora o trabalho de todas as comissões da IUCN e foi, na visão de Dasmann, "um impulso que levou à abordagem estratégica para os problemas mundiais de conservação". Um desenvolvimento mais significativo observado por Dasmann foi a mudança de ênfase na IUCN, no sentido de uma preocupação com o desenvolvimento econômico. Em seguida à Assembléia Geral de 1%9, ao encontro de 1970 em Roma (ver acima) e à publicação de Ecological Principies for Economic Development, a IUCN passou a pensar mais no assunto. Conservação e desenvolvimento foram os temas da Assembléia Geral da IUCN de 1972, em Banff, Canadá, quando MauriceStrong anunciou que a IUCN receberia financiamentos do UNEP, uma vez que esse organismo havia sido criado.62 Durante 1973 e 1974 foram realizados vários encontros internos da IUCN para formular diretrizes ecológicas para o desenvolvimento; dois conjuntos dessas diretrizes, sobre florestas tropicais e montanhas, foram completados. Discussões sérias sobre uma abordagem estratégica à conservação foram iniciadas numa reunião de 1975 entre a IUCN e o UNEP. O vice-diretor-geral australiano da IUCN, Frank Nicholls, insistiu para que a IUCN fosse clara quanto a suas políticas de conservação futuras, suas prioridades principais e a ação necessária para tornar as políticas efetivas. Nesse encontro o UNEP pediu à IUCN que preparasse uma estratégia para a conservação da vida selvagem, planejada exclusivamente para determinar as ações prioritárias necessárias para proteger e salvar as espécies selvagens. Durante os dois anos seguintes Dasmann e Duncan Poore (diretores gerais em exercício um após o outro) trabalharam no esboço da estratégia. O UNEP parecia não ter nenhuma idéia clara quanto à forma que a estratégia assumiria, de modo que a elaboração inicial do documento foi deixada em grande parte por conta de Dasmann e Poore. Suas origens foram muito estreitas, o que, para AlIen, refletia em certa medida o 164. campo de especialização da IUCN.63 Lee Talbot (posteriormente diretor-geral da IUCN) lembra que "a primeira versão era essencialmente um livro-texto sobre a vida selvagem", mas que cada versão subseqüente integrava as visões anteriormente conflitantes de desenvolvimentistas e conservacionistas, e que a versão final foi um consenso entre os dois pontos de vista.64 Até o fmal dos anos 70 a política de conservação da IUCN havia sido determinada a cada três anos pela Assembléia Geral e orientada, no período interveniente, pelo Conselho Executivo. Mas a IUCN carecia dos benefícios de um plano de ação coerente e integrado; suas atividades tendiam a ser "uma variedade de projetos, muitas vezes de grande valia individualmente, mas que careciam da coerência (...) e do impacto de um programa planejado".65 A primeira tentativa significativa de alterar isso foi o documento de estratégia trienal para 1976-1978, preparado por Duncan Poore e adotado na 12ª. Assembléia Geral em Kinshasa, em 1975. Esse documento traçava quatro objetivos principais para a União; os três primeiros diziam respeito à conservação e proteção de espécies animais e vegetais, ecossistemas e hábitats representativos, enquanto o quarto falava vagamente em estabelecer "um quadro de uso prudente que garanta que o potencial de recursos naturais renováveis seja mantido”66. A IUCN deveria chegar a um ponto de equilíbrio entre "trabalhar para uma estratégia mundial de conservação de longo prazo em fases" e reagir a oportunidades repentinas e problemas urgentes. Um dos princípios orientadores traçados no documento era que os problemas de conservação deveriam ser tratados "como uma parte integrante dos planos para o desenvolvimento econômico e social nas naçóes ou regiões em questão".67 Todos os esforços deveriam ser empreendidos no sentido de envolver a população local nos projetos de conservação, levando plenamente em consideração suas necessidades, atitudes e conhecimento. A prioridade da IUCN ainda era claramente a conservação da

natureza, mas havia evidências de que a entidade estava se tornando mais interessada em "eco desenvolvimento" (isto é, o desenvolvimento de uma localidade aproveitando ao máximo e de modo sustentável seus recursos físicos, biológicos e culturais). Escrevendo no IUCN Bulletin de maio de 1976, Allen destacou o interesse da IUCN pelo conceito, o qual, observava, "parece ser a reconciliação há muito esperada entre a conservação e o desenvolvimento".68 A IUCN anunciou em outubro de 1977 que estava preparando uma Estratégia de Conservação Mundial (WCS - World Conservation Strategy). Dasmann deixou a IUCN em 1977 e Poore se tornou seu sucessor em 1978; daí em diante, a estratégia foi orientada por Robert Allen (um dos autores de A Blueprint for Survival, na época chefe de publicações da IUCN e posteriormente consultor de primeiro escalão para politicas) e pelo diretor-geral canadense da IUCN, David Munro, abertamente em consulta com a UNEP, FAO e UNESCO, com financiamento do UNEP. A estratégia, dizia a IUCN, permitiria que a ação internacional de conservação fosse dirigida mais eficientemente, identificasse as principais ameaças a espécies e ecossistemas e propusesse medidas e prioridades. Seria essencialmente um documento de política conjunta UNEP/IUCN/WWF, embora estivesse disponível para outras organizações interessadas e visasse também influenciar governos, órgãos da ONU e organismos intergovernamentais. Não ficaria confmada a espécies ameaçadas e áreas necessitadas de proteção especial, mas cobriria também espécies e áreas de valor econômico que estivessem sendo mal utilizadas, tais como parentes selvagens e semidomesticados de espécies de animais e plantas cultivadas ou pesqueiros e wetlands costeiras que os sustentassem. Propiciaria "pela primeira vez uma perspectiva global sobre os muitos problemas com os quais a conservação está relacionada".69 Uma primeira versão foi enviada a todos os membros da IUCN em dezembro de 1977, a fim de expô-Ia à discussão mais ampla possível. Num pronunciamento na Assembléia Geral de 1978 em Ashkhabad, na União Soviética, Lee Talbot observou que essa consulta sobre a Estratégia de Conservação Mundial deveria constituir "a primeira 165 de muitas demonstrações de que o secretariado encara a si próprio como uma central de troca de informações, um apresentador de opiniões e um divulgador de argumentações'”.70 Diferentes prioridades econômicas, geográficas e de conservação tinham que ser incluídas. Uma segunda versão fora preparada para a Assembléia Geral de Ashkhabad. Recebida positivamente de um modo geral, não deixou de ter as omissões apontadas. Era necessária uma discussão mais completa e focalizada da relação entre a conservação e os fatores sócio-econômicos, particularmente o crescimento populacional. Além disso era preciso um relato mais completo do processo de desenvolvimento e de como a estratégia deveria influenciá-Io e também eram necessários mais detalhes sobre planejamento, legislação e educação para a conservação, poluição, substâncias químicas tóxicas e conservação da água e do solo. Era preciso muito mais em relação à implementação da estratégia - sobre como a ação recomendada poderia ser levada a cabo e não quais ações eram necessárias, e também carecia de recomendações mais explícitas e precisas aos governos sobre a sua implementação.71 Muitos delegados de países menos desenvolvidos assinalaram - já o haviam feito em Estocolmo e outras vezes desde então - que enfrentavam preocupações ambientais mais urgentes do que a proteção da natureza. Os problemas da vida selvagem não poderiam ser tratados isoladamente e era claro o apoio existente para a idéia de que a estratégia deveria ter uma base mais ampla. Também foi defendida em Ashkhabad a opinião de que a IUCN tinha a oportunidade de influenciar políticas de ajuda bilaterais e multilaterais, e que deveria aproveitá-Ia. A estratégia não dedicava atenção suficiente ao potencial de projetos de desenvolvimento orientados para a conservação e à introdução de princípios de conservação em projetos que poderiam de outra forma ser destrutivos para o meio ambiente. A IUCN deveria tentar influenciar os organismos de ajuda bilateral e multilateral de modo que suas atividades estivessem em consonância com a WCS. A assembléia resolveu que a versão da WCS apresentada na sessão ordinária seguinte da Assembléia Geral, "embora continuando a se concentrar nas questões de conservação, deve colocar a conservação firmemente no seu contexto sócio-econômico, com a devida referência à população e a outras influências de peso, tais como pobreza, crescimento econômico, conservação de energia e de matérias-primas, tecnologias inapropriadas e a satisfação das necessidades humanas básicas". 72 Isso, observou a IUCN, significava um "afastamento das preocupações de conservação tradicionais”. 73 (Apesar dessas esperanças, a estratégia publicada - embora incluísse argumentações sobre população, alimentos e erosão do solo - permaneceu essencialmente um documento sobre a conservação da natureza.)

Um trabalho fundamental apresentado à Assembléia Geral de Ashkhabad - baseado numa pesquisa com diretores gerais, membros do conselho e da diretoria executiva anteriores e atuais da IUCN - resumiu os êxitos e fracassos da conservação internacional e particularmente daquela instituição. Concluía que muito havia sido conseguido em trinta anos, desde a fundação da IUCN, particularmente no desenvolvimento de parques nacionais, arcabouços legais e organizacionais e coleta de dados. Mas havia ocorrido uma destruição, degradação e exaustão continuada (mesmo acelerada) de ecossistemas e espécies, além de uma predominante ausência de consciência pública sobre a importância dos ecossistemas e espécies. As conquistas do movimento internacional de conservação eram pequenas, esparsas e talvez também temporárias. A fim de realizar avanços reais era necessária uma unidade de propósitos muito maior, o que significava consenso quanto a uma estratégia de ação e a implementação dessa estratégia.74 Em fevereiro de 1979 a IUCN anunciou que a Estratégia de Conservação Mundial (WCS) seria lançada em setembro daquele ano. Uma terceira versão, refletindo as opiniões da 14ª Assembléia Geral, havia sido analisada por um painel indicado pelo conselho da IUCN em janeiro e o lançamento público da WCS seria preparado (com a 166 ajuda de um financiamento do UNEP, de setecentos mil dólares) para atrair tanta publicidade quanta possível nos meios de comunicação e alcançar o máximo impacto sobre os que tomam decisões e o público.75 Ashkhabad havia decidido que a WCS não deveria ser um documento definitivo, devendo ser revisada e atualizada a cada três anos e analisada pela Assembléia Geral. Parte do financiamento do UNEP para a IUCN seria destinado à preparação de uma segunda edição a ser submetida à 15ª Assembléia Geral, em 1981. Na realidade a WCS não foi propriamente atualizada, mas sim adaptada através da formulação de estratégias de conservação nacionais, cuja necessidade fora compreendida pela primeira vez já em 1976. 76 Em maio de 1979 o lançamento da WCS havia sido adiado até março de 1980; embora a publicação tivesse sido decidida pelo grupo do conselho da IUCN, a penúltima versão havia enfrentado críticas consideráveis por parte dos organismos da ONU e foi solicitada toda uma variedade de mudanças. Em janeiro de 1979 foi criado um comitê de lançamento da WCS, constituído por representantes da IUCN, do UNEP e do WWF, e foram formados comitês nacionais em diversos países para planejar os lançamentos nacionais e discutir planos para implementar sua estratégia. A versão fmal da estratégia foi apresentada ao UNEP, FAO, UNESCO, WWF e ao conselho da IUCN em agosto de 1979 e fmalmente aprovada em outubro. Em dezembro a IUCN publicou seu documento de política, o qual havia sido preparado em consultas com o UNEP e o WWF como um plano para a política da IUCN entre 1980 e 1982, a fim de propiciar à IUCN "um enfoque mais avaliado à ação de conservação".77 documento era baseado nos mesmos princípios que a WCS.78 O lançamento simultâneo da WCS em 40 países ou mais em março de 1980 confirmou a tendência já evidente para uma reapreciação da política num nível organizacional dentro da IUCN e num nível conceitual no movimento conservacionista como um todo. Naquilo que dizia respeito à IUCN, 25 anos haviam-se passado desde que seu nome fora mudado de "proteção" para "conservação" da natureza e dos recursos naturais, mas até o lançamento da WCS, "não existia verdadeiramente uma plataforma amplamente aceita que refletisse essa mudança, nem uma base de referência para reconciliar as exigências clássicas da proteção da natureza e as do progresso econômico sustentável".79 A definição das metas da IUCN, na opinião de Talbot, já se fazia necessária há muito tempo. O lançamento da WCS deu substância à reformulação da agenda da IUCN. A IUCN estabeleceu dois novos empreendimentos na seqüência imediata da estratégia. Em abril de 1981 foi criado dentro da IUCN o Centro de Conservação para o Desenvolvimento, a fim de promover a integração da conservação no planejamento e implementação do desenvolvimento econômico. Sua primeira ação concreta quanto à avaliação de impacto ambiental foi um projeto de consultoria para ajudar o Conselho de Recursos do Zimbabwe a apreciar o desenvolvimento de fontes de energia alternativas. Em janeiro de 1982 a IUCN estabeleceu o Serviço Ambiental Conjunto com o IIED, a fim de ajudar os países menos desenvolvidos a criar ou fortalecer o planejamento, a educação, as ONGs e as estruturas legais, desse modo aprimorando sua capacidade de promover o planejamento ambientalmente correto do uso do solo e a avaliação de impacto ambiental, principalmente junto a governos de países menos desenvolvidos e organismos de desenvolvimento internacionais. Segundo admitem seus autores, a WCS foi um documento de compromisso. Não apenas representava um consenso dos membros da IUCN e dos organismos envolvidos na sua preparação, mas empreendia o

estabelecimento de prioridades para conservacionistas com interesses diferentes e tentava chegar a um ponto de acomodação entre a conservação e o desenvolvimento. Dava também uma visão genérica e simplificada dos problemas e questões envolvidos. A meta da estratégia era "ajudar a impulsionar a conquista de um desenvolvimento sustentável através da conservação dos recursos vivos".80 Era necessária, diziam seus elaboradores, (a) devido ao ritmo em que os recursos estavam sendo 167 destruídos ou exauridos, (b) devido ao ritmo em que a demanda estava crescendo, (c) porque a ação corretiva levaria tempo para ser implementada e mostrar resultados, e (d) porque os prognnas nacionais e internacionais de conservação existentes eram inadequadamente organizados e fragmentários, exercendo pouca influência sobre o processo de desenvolvimento. A estratégia era dirigi da a elaboradores de políticas governamentais, conservacionistas e incrementadores do desenvolvimento (inclusive organismos de ajuda, indústria e comércio). A conservação foi definida como "a administração do uso humano da biosfera de modo que esta possa produzir os maiores benefícios sustentáveis para as gerações atuais, embora mantendo seu potencial para atender às necessidades e aspirações das gerações futuras". Isso abrangia "preservação, manutenção, utilização sustentável, restauração e aprimoramento do meio ambiente natural". Os objetivos específicos de conservação, conforme traçados pela WCS, eram: 1) A manutenção de processos ecológicos essenciais e sistemas de sustentação da vida, tais como solo, florestas, sistemas agrícolas e sistemas litorâneos e de água doce. Isso significava reservar boas terras aráveis para o cultivo, administrar as terras aráveis segundo padrões altos e ecologicamente corretos, proteger os divisores de águas e a vida marinha litorânea e controlar os despejos de poluentes. 2) A preservação da diversidade genética para projetos de procriação na agricultura, manejo de florestas e vida marinha. Isso significava evitar a extinção de espécies, preservar tantas variedades de plantas de cultivo e forragem quanto possível, além de árvores produtoras de madeira, animais para a aquacultura, micróbios e outros organismos domesticados e seus parentes selvagens, proteger os parentes selvagens de espécies economicamente valiosas e outras que sejam úteis, como também seus hábitats, adequar as necessidades dos ecossistemas ao tamanho, distribuição e administração das áreas protegidas e coordenar programas nacionais e internacionais de áreas protegidas. 3) Assegurar a utilização sustentável de espécies e ecossistemas. Isso significava garantir que a utilização não excedesse a capacidade produtiva das espécies exploradas, reduzir as produtividades excessivas a níveis sustentáveis, reduzir a coleta incidental, manter os hábitats de espécies exploradas, regulamentar o comércio internacional de espécies selvagens, distribuir cuidadosamente as concessões madeireiras e limitar o consumo de lenha, como também regulamentar as quantidades de gado nas terras de pastagem. A estratégia começava reiterando a visão de que a conservação e o desenvolvimento há muito tempo vinham sendo encarados como incompatíveis e que os conservacionistas haviam alimentado essa visão ao parecerem resistir ao desenvolvimento. Os incrementadores do desenvolvimento, em conseqüência, passaram a ver a conservação como sendo irrelevante, perniciosa e anti-social. Na realidade, argumentava a estratégia, o desenvolvimento que fosse sustentável e capaz de atender em particular às necessidades das populações rurais pobres do mundo teria que ser baseado na conservação correta: "existe uma íntima relação entre o fracasso na realização dos objetivos de conservação e o fracasso na realização de objetivos de desenvolvimento econômico e social - ou, tendo estes sido realizados, na sustentação dessa realização". A WCS definiu as áreas prioritárias para a ação internacional: 1) Assistência internacional e legislação. Embora houvesse mais de quarenta convenções multilaterais para lidar com a administração de recursos vivos, poucas tinham a conservação como seu objetivo básico. 168 2) Administração mais eficiente das florestas tropicais e terras áridas.

3) Um programa global para a proteção de áreas de recursos genéticos. 4) Administração mais eficiente das áreas comuns globais - o oceano aberto, a atmosfera, a Antártica e o oceano meridional. 5) Estratégias regionais sobre mares e bacias fluviais internacionais. Tudo na WCS tinha, por seu turno, a meta subjacente do desenvolvimento sustentável. A nível nacional as prioridades incluíam as estratégias nacionais de conservação, a integração da conservação com o desenvolvimento, planejamento ambiental, legislação e uma análise da organização, treinamento e pesquisa, participação pública, educação e desenvolvimento rural baseada na conservação. As estratégias nacionais de conservação (NCSs - National Conservation Strategies) eram promovidas pela IUCN como o melhor meio pelo qual os países poderiam encontrar individualmente sua via para o desenvolvimento sustentável. Preparar uma NCS seria idealmente um empreendimento cooperativo, no qual tomariam parte os organismos do governo, as ONGs, os interesses privados e a comunidade. Desse modo, a IUCN esperava, "os interesses setoriais perceberão melhor sua inter-relação com outros setores ... De fato, a não ser que os responsáveis pela implementação da estratégia tenham se envolvido no processo e estejam convencidos de sua mensagem, o efeito final da NCS será severamente limitado".81 Além disso, observava a IUCN, uma NCS não deveria e não poderia ser produzida segundo fórmulas pré-definidas - países diferentes tinham necessidades diferentes. A IUCN esperava que os governos assumissem a responsabilidade de preparar as NCSs, uma vez que seriam os responsáveis por sua implementação. A nação não era a única unidade para a estratégia - estratégias provinciais locais ou estratégias conjuntas de países eram igualmente viáveis. A IUCN, o UNEP, a FAO e a UNESCO se colocavam à disposição para fornecer orientação e assistência técnica. Em setembro de 1983 a IUCN comunicou que 32 países (dos quais, dez mais desenvolvidos) haviam realizado algum tipo de ação relativa às estratégias nacionais de conservação. Destes, 14 estavam "considerando" a necessidade de uma NCS, 15 haviam começado ou completado versões iniciais e três (África do Sul, Espanha e o Reino Unido) haviam completado e lançado estratégias nacionais. A contribuição da Grã-Bretanha era verborrágica e sinuosa - não constituía um bom prenúncio para a qualidade das estratégias nacionais em geral. Dentre 41 países que em 1987 já haviam tomado atitudes ou estavam pensando em tomá-Ias, apenas mais cinco - Austrália, Madagascar, Nova Zelândia, Vietnam e Zâmbia haviam publicado uma NCS.82 Desse modo, sete anos depois do lançamento da Estratégia de Conservação Mundial, somente oito países (dentre mais de 160) haviam tomado atitudes concretas. Havia claramente muito mais a ser feito antes que a WCS pudesse ser aclamada como um marco de transformação real. O próprio programa de assistência técnica da IUCN havia-se dedicado quase que inteiramente aos países menos desenvolvidos, onde obteve êxito apenas limitado, por quatro motivos: 1) Os pedidos inciais de assistência eram normalmente feitos por ministérios de recursos naturais ou do meio ambiente, e não através de autoridades responsáveis pelo planejamento central do desenvolvimento. Conseqüentemente os organismos de ajuda para o desenvolvimento encontravam dificuldade em fornecer apoio financeiro. As autoridades responsáveis pelo planejamento estavam mais inclinadas a tratar de projetos mais convencionais - tais como energia, indústria, agricultura e desenvolvimento rural - do que a considerar a logística de requisitar apoio financeiro para o desenvolvimento de uma estratégia de conservação. 169 2) A concretização e manutenção de uma visão de longo prazo quanto ao planejamento foi retardada pelas freqüentes mudanças de governo nos países menos desenvolvidos. 3) Os interesses que apoiavam o crescimento econômico e o retorno rápidos eram muitas vezes mais poderosos, mais bem organizados e mais concentrados do que aqueles que promoviam a prevenção da degradação ambiental.

4) O impacto da demanda dos países mais desenvolvidos sobre a base global de recursos foi considerável, de modo que as políticas de comércio tiveram uma influência de vulto na oferta e procura de recursos nos países menos desenvolvidos. Retrospectivamente a estratégia poderá ser vista como um passo útil adiante, mas em última análise incompleto. Em alguns sentidos estava atrasada para seu tempo e excessivamente restrita à visão mais estreita e tradicional da IUCN em relação ao mundo natural. No final da década de 1970 já era claro que a política ambiental tinha que avançar bem além da conservação da natureza e dos recursos naturais, entrando na esfera do meio ambiente humano; Estocolmo tinha deixado isso muitíssimo evidente. A WCS foi um primeiro passo útil e administrável (ainda que, em última análise, de utilidade e praticidade variáveis); porém, em realidade, o mundo teria necessidade de uma Estratégia Mundial de Meio Ambiente de alcance mais amplo. 170 FOLHA EM BRANCO 171

NOVE O Meio Ambiente Global
Nos meados da década de 1970 poucos países poderiam afirmar que não haviam sido afetados, se é que havia algum que não o tivesse sido, por algum tipo de problema ambiental. Rica ou pobre, industrial ou agrária, autoritária ou democrática, socialista ou capitalista, quase todas as sociedades sentiam-se compelidas a reavaliar suas atitudes em relação à administração de recursos e à condição do meio ambiente humano. Favorecida pelo aprimoramento da coleta e análise de dados, a consciência dos problemas nacionais havia crescido a um ponto em que se tornava claro que existiam muitos problemas ambientais comuns a mais de um país, ou transnacionais e até mesmo globais. Questões como a poluição marinha, caça às baleias, produção pesqueira, desertificação, poluição ácida, destruição da camada de ozônio e a escalada do dióxido de carbono não podiam ser resolvidas por governos isolados agindo por conta própria. O debate sobre a precipitação nuclear nos anos 50 havia servido para despertar a atenção nesse sentido. A resposta óbvia era uma maior cooperação internacional. Estocolmo havia propiciado um impulso poderoso ao internacionalismo. Num pronunciamento sobre política externa em 1970 Richard Nixon havia dito: "Sabemos que temos de agir como um mundo uno na restauração do meio ambiente mundial, antes que a poluição dos céus sufoque todas as nações."1 Em 1972 Falk observou que justamente porque os impactos mais manifestos dos problemas ambientais foram verificados no nível doméstico, estes não eram "potencialmente os mais graves tanto para os Estados Unidos quanto para o mundo”2. Em sua Mensagem Ambiental ao Congresso em maio de 1977 o presidente Carter observou a compreensão crescente de que os problemas ambientais não paravam nas fronteiras nacionais e orientou o CEQ e o Departamento de Estado para que estudassem as mudanças prováveis na população global, recursos naturais e no meio ambiente para o final do século. Suas conclusões serviriam como base para a política de planejamento de prazo mais longo dos EUA. O estudo resultante, The Global 2000 Report to the President, foi submetido à presidência em 1980. GLOBAL 2000 E THE RESOURCEFUL EARTH O Global 2000 concluiu que havia "um potencial de problemas globais de proporções alarmantes até o ano 2000", que eram necessárias mudanças na política pública e que, "dada a urgência, a amplitude e a complexidade dos desafios diante de nós, os esforços agora em curso em todo o mundo situam-se muito aquém do que é necessário. Uma era de cooperação e compromisso globais sem precedentes é essencial. As mudanças 172 necessárias ultrapassam as capacidades de qualquer nação isolada".3 O Global 2000, como observaram corretamente seus autores, não foi a primeira investigação do governo dos EUA sobre o futuro dos recursos

naturais. A Comissão Nacional de Conservação, de Theodore Roosevelt, a Junta de Recursos Nacionais, de Franklin D. Roosevelt, e a Comissão de Políticas para Materiais, de Truman, haviam examinado questões semelhantes embora menos abrangentes. O Global 2000 era, contudo, a primeira tentativa por parte de qualquer governo em qualquer parte do mundo de examinar a interdependência entre população, recursos e meio ambiente a partir de uma perspectiva global de prazo mais longo. Cleveland acha que a importância real do Global 2000 reside não na descoberta e extrapolação de tendências conhecidas em categorias familiares, mas no fato de que um governo nacional isolado havia transformado projeções sobre uma variedade de questões em "um pacote que força ou pelo menos incentiva fortemente uma visão abrangente"4. Embora não tenha empreendido a realização de previsões, o esboço de projeções no tempo futuro fez com que o Global 2000 soasse muito como um documento previsor.5 O relatório advertia que se "as tendências atuais continuarem o mundo no ano 2000 será mais populoso, mais poluído e mais vulnerável a rupturas do que o mundo em que vivemos agora. Pressões graves envolvendo população, recursos e meio ambiente são claramente visíveis adiante. A despeito da maior produção material, os povos do mundo serão mais pobres do que são hoje em muitos sentidos"6. Especificamente, o relatório concluiu que no ano 2000: 1) a população do mundo aumentaria em 50%, sendo o crescimento maior nos países menos desenvolvidos; 2) a distância entre os ricos e os pobres - medida em termos de PNB per capita e de consumo de alimentos, energia e minerais - se ampliaria; 3) haveria menos recursos disponíveis - particularmente terra, água e petróleo; 4) importantes ecossistemas sustentadores de vida - tais como florestas, atmosfera, solo e espécies selvagens - seriam reduzidos; 5) os preços de muitos dos recursos mais vitais aumentaria; 6) o mundo seria mais vulnerável aos desastres naturais e a rupturas por causas humanas. Enquanto o Global 2000 delineava os problemas, as soluções possíveis foram listadas num documento subseqüente, Global Future: Time to Act. 7 Foram dadas três razões pelas quais os Estados Unidos deveriam se interessar pelos problemas do empobrecimento em termos de recursos globais e da degradação ambienta!: a questão moral da pobreza e da miséria para os povos mais pobres do mundo; o argumento freqüentem ente citado das "gerações futuras"; e interesse próprio, tendo em vista a ameaça à segurança econômica e política dos EUA. De uma maneira geral, Global Future recomendava um aumento da assistência financeira e científica por parte dos Estados Unidos a programas internacionais, juntamente, em alguns casos, com a demonstração de um bom exemplo em casa (por exemplo, através do uso sustentável de suas terras agrícolas e de um trabalho no sentido de assegurar que 20% da energia dos EUA fosse derivada de recursos renováveis até o ano 2000). Se havia uma lição clara a ser aprendida a partir do esforço do Global 2000, observavam os autores do Global Future, era que o governo dos Estados Unidos carecia da capacidade de prever e reagir efetivamente a questões globais. Portanto - entre outras coisas - era preciso que houvesse mudanças nas instituições governamentais. Os autores recomendavam 173 a criação de um novo centro do governo para coordenar a coleta e modelagem de dados, a fim de dar sustentação à análise de políticas globais de longo prazo, a criação de um novo escritório na Casa Branca, dedicado exclusivamente a questões globais de longo prazo, e de uma comissão de coordenação interorganismos, bem como a atribuição de tais tarefas ao CEQ. Mas nenhuma dessas recomendações foi instituída, pois a administração Reagan havia então assumido o poder e decidiu ignorar o Global 2000. O relatório teve também seus detratores fora da admininistração Reagan. Na tradição dos críticos anteriores dos profetas do apocalipse, vieram os new Pollyannas, comandados pelo professor Julian Simon,

um economista da Universidade de Illinois e, depois, de Maryland, e Herman Kahn, do Instituto Hudson, de Nova York. Em 1981 Simon argumentava que embora houvessem sido observados sinais constantes de deterioração dos recursos naturais e crescimento das necessidades humanas, as tendências em ambas as áreas eram na realidade positivas; os autores do Global 2000 não ofereciam evidências convincentes para sustentar sua posição, e os fatos, conforme a leitura que ele fazia, apontavam precisamente na direção oposta.8 Como Simon, Kahn e Schneider argumentavam que a reação em geral positiva ao Global 2000 servia para reforçar o pessimismo predominante da sociedade. Declaravam-se preocupados com os efeitos de relatórios como o Global 2000 sobre o moral social, os quais, achavam eles, eram inspirados por "preconceitos, sentimentos de culpa e interesses de classe (...) dos afluentes, da elite e dos privilegiados". Consideravam o Global Future como mais comedido e razoável, "talvez porque parece refletir mais o pensamento de burocratas do que as predisposições de ambientalistas profissionais".9 Em 1983 Simon e Kahn trabalharam brevemente em colaboração para compilar The Resourceful Earth, 10 dirigido não tanto a ser uma avaliação ou crítica do Global 2000 quanto uma visão alternativa. Em seu comentário questionavam todas as conclusões principais do Global 2000 e argumentavam, como já fizera Maddox antes (ver capítulo 4), que muito mais crédito deveria ser dado à engenhosidade humana na solução de problemas. Era um ponto válido mas - nesse caso, como em outros - Simon, Kahn e Schneider revelavam uma percepção do mundo que era de outro modo provinciana e limitada, além de muitas vezes baseada num uso seletivo dos dados. Por exemplo, o Global 2000 havia afirmado que as disparidades de renda entre as nações mais ricas e mais pobres se ampliariam segundo sua projeção. Kahn e Schneider declararam que "apenas consultando uma das tabelas estatísticas do Global 2000 o leitor pode descobrir que se projeta para os paises menos desenvolvidos um aumento per capita do PNB de 382 dólares em 1975 para 587 dólares no ano 2000, ou seja, de 50% em duas décadas".11 Sem dúvida isso era verdade. Todavia, essa mesma tabela 12 mostra a projeção de que em paises mais desenvolvidos o PNB per capita durante o mesmo período aumentará em 96%, e que, enquanto o PNB per capita de 1975 nos países mais desenvolvidos era mais de onze vezes maior do que nos países menos desenvolvidos, até o ano 2000 o mesmo chegaria a ser mais de 14 vezes maior. Isso apóia claramente a conclusão do Global 2000. Simon e Kahn, por sua vez, sugeriam que "os povos do mundo" tinham rendas cada vez mais altas, habitações melhores, mobilidade, melhores estradas e mais veículos. Se acreditarmos que aqueles norteamericanos, europeus ocidentais e japoneses que têm emprego são "os povos do mundo" isso é verdade. Contudo isso patentemente não é verdade em muitos paises menos desenvolvidos. Simon e Kahn também alegaram que a renda em países mais pobres estava aumentando numa taxa percentual tão grande ou maior do que nos países mais ricos. Entretanto um pais muito pobre encontraria dificuldades para não aumentar sua renda proporcionalmente mais rápido do que um muito rico, simplesmente porque começou de uma base muito mais limitada. Embora a taxa de crescimento projetada nos paises menos desenvolvidos entre 1975 e 1985 fosse de 5% (comparada aos 174 3,9% dos mais desenvolvidos), havia uma diferença considerável entre o PNB projetado para países mais desenvolvidos e países menos desenvolvidos - respectivamente 7.150 dólares e 1.841 dólares. ACORDOS QUANTO AO MEIO AMBIENTE GLOBAL Uma medida da importância recém-percebida das reações multinacionais a questões ambientais foi o crescimento do número de tratados e acordos internacionais na década pós-Estocolmo. Foram firmados quase tantos acordos internacionais novos quanto haviam sido firmados nos sessenta anos precedentes (ver Tabela 4). Um registro do UNEP de 1984 13 lista 108 acordos, dos quais 58 datam do período 1971-1983. A lista mais abrangente compilada em 1985 por Burhenne 14 inclui 257 tratados multilaterais, duzentos (77%) dos quais foram assinados depois de 1960 e 108 destes (42% do total) depois de 1970. Tal proliferação era função de quatro fatores principais: 1) o trabalho dos novos organismos ambientais nacionais e o crescente corpo de leis nacionais; 2) a disponibilidade de dados melhores - e mais impressionantes;

3) a influência da maior consciência pública; 4) a tendência no sentido de uma maior cooperação internacional em relação a uma grande variedade de questões. Mas a qualidade dos novos acordos e leis nem sempre correspondia à quantidade. O sucesso de qualquer acordo deve ser medido pelo nível de cumprimento efetivo dos signatários. Isso, por sua vez, é função da eficiência da fiscalização, a qual é uma função dos recursos financeiros e de pessoal disponíveis, o que é função da vontade política. Segundo tal parâmetro os tratados internacionais com dimensão ambiental variaram em sua eficácia do Tratado de Proibição dos Testes Parciais (cumprimento total), passando pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies em Extinção da Fauna e da Flora Selvagens (CITES - Convention on lntemational Trade in Endangered Species -; progresso constante, com a vantagem de um secretariado e um financiamento razoavelmente forte), até a Convenção das Wetlands (pouco progresso, poucas obrigações legalmente compulsórias e ausência de secretariado). A maioria dos tratados internacionais, especialmente acordos multilaterais, é minada por três fraquezas principais. Primeiro, há o problema da fiscalização. Embora os tratados internacionais sejam por definição regras firmes e compulsórias com força de lei, seu cumprimento não pode ser fiscalizado da mesma maneira que no caso das leis domésticas.15 Em muitos casos, o apelo é feito menos em relação à letra da lei e mais à moralidade e a "jogar o jogo" - os signatários são tão influenciados como por qualquer outro motivo pelo opróbrio de atrair as críticas de outros membros caso não respeitem o espírito de um acordo. As primeiras convenções européias, a Convenção do Hemisfério Ocidental e a Convenção Africana de 1968 tornaram-se "convenções adormecidas" porque nenhuma delas havia estabelecido sistemas adequados de fiscalização ou administração.16 Se as negociações não conseguem resolver uma disputa, os estados podem recorrer à arbitragem internacional ou, mais. raramente, à Corte Internacional de Justiça. De modo geral, o melhor meio de assegurar o cumprimento é através de mecanismos não judiciais, por exemplo, reuniões regulares das partes envolvidas numa convenção (o que ás relembra dos dispositivos do tratado); o estabelecimento de órgãos administrativos para supervisionar o tratado e exigências de relatórios regulares. Lyster observa também a influência das ONGs no aprimoramento do cumprimento dos tratados; ao comparecer às reuniões de signatários as ONGs não apenas oferecem especialização técnica como podem policiar a implementação de convenções e divulgar contravenções ou discrepâncias.17

A segunda fraqueza dos tratados internacionais é estrutural: à medida que os objetos dos tratados se tornaram mais complexos seus conteúdos também se tornaram menos precisos e sua efetividade menos previsível.18 Haigh cita o exemplo da convenção sobre poluição do ar transfronteiriça de longo alcance (ver adiante). Uma comparação do texto da convenção com aquele sobre o qual foi modelado - uma convenção do Conselho Nórdico - revela que o maior número e variedade de partes contratantes produziu uma convenção menos precisa, menos restritiva e com menor probabilidade de ser efetivamente fiscalizada do que a sua progenitora.19 Finalmente, uma vez que o acordo tenha sido ratificado há o problema de transformar seus princípios em leis nacionais e, depois, de realmente implementar a lei nacional. Devido ao fato de tratados e convenções muitas vezes não serem mais do que acordos em princípio, influenciados (e mesmo enfraquecidos) pela necessidade de acomodar as diferentes prioridades das nações signatárias, existe freqüentemente uma grande diferença entre o que é acordado durante as negociações e o que é subseqüentemente considerado aceitável pelos parlamentos nacionais.20 Tratados tais como a CITES, por exemplo, dependem para sua implementação de uma lei interna, a qual por sua vez depende da efetividade dos órgãos governamentais, a qual é quase universalmente limitada (ver capítulos 7 e 8). A negociação que precede um acordo internacional com freqüência resulta em um texto tão geral e. não específico que cada estado pode interpretá-Io sob sua 176 própria ótica, produzindo legislações nacionais e resultados diferentes." A Declaração de Estocolmo oferece alguns exemplos. O Princípio 3 observa que "a capacidade de produzir recursos vitais renováveis da Terra deve ser mantida e,sempre que for praticável, restaurada ou melhorada" (ênfase minha); o Princípio 16 destaca a necessidade de aplicar políticas demográficas "que sejam consideradas apropriadas pelos governos em questão"; o Princípio vinte um (21) observa que os estados têm, de acordo com os princípios das leis internacionais, "o direito soberano de explorar seus próprios recursos segundo suas próprias políticas ambientais" . Alguns dos efeitos dessas fraquezas são ilustrados pelo histórico irregular dos tratados internacionais relativos à vida selvagem e ao meio ambiente natural. Entre 1900 e 1980 foram firmados 18 desses tratados, dez deles entre 1968 e 1980 (ver Tabela 5). Os quatro acordos geralmente encarados como mais importantes 22 foram os relativos às wetlands, à herança natural e cultural mundial, comércio internacional de espécies ameaçadas e espécies migratórias, todos assinados entre 1971 e 1979. A convenção das wetlands foi o primeiro tratado a visar a uma participação de âmbito verdadeiramente mundial e o primeiro a se preocupar exclusivamente com o hábitat.23 Elaborado para proteger uma cadeia global de wetlands usadas por aves aquáticas em suas migrações anuais, foi assinado em 2 de fevereiro de 1971 e entrou em vigor em 21 de dezembro de 1975. Diferentemente de convenções anteriores que se referiam ao hábitat, as quais enfatizavam a separação de áreas protegidas exclusivas, a convenção enfatizava o uso sustentável; a única restrição que colocava quanto ao uso das wetlands era que seu caráter ecológico não deveria ser prejudicado. Maltby observa que a convenção foi um primeiro passo no sentido de definir obrigações internacionais sobre as decisões de administração da terra de estados soberanos.24 A convenção ajudou a evitar o desenvolvimento nas wetlands listadas como de importância internacional; por exemplo, os planos para represar o rio Ouse, na Grã-Bretanha, em 1976, foram alterados quando se assinalou que as Ouse Washes estavam listadas na convenção.25 Mas o instrumento tinha também muito poucas obrigações legalmente compulsórias para as partes envolvidas (Lyster observa que exigir que as partes "promovam a conservação das áreas listadas" não as obriga legalmente a garantir que as wetlands listadas sejam de fato protegidas)26. As partes têm se mostrado relutantes em incluir mais do que uma ou umas poucas áreas, e os participantes não europeus têm sido muito poucos (particularmente os das regiões tropicais).27 A convenção também tem carecido de financiamento adequado e de um secretariado. A Convenção da Herança Mundial, que é administrada pela UNESCO e entrou em vigor em 17 de dezembro de 1975, é dirigi da à proteção dos sítios naturais e culturais de significação global. A convenção é um tanto limitada por sua seletividade; os sítios listados têm que ser considerados tanto como sendo de valor nacional quanto universal. Mas a listagem dá aos sítios um valor de prestígio que oferece às partes mais pobres a perspectiva de receber assistência técnica e financeira para a proteção dos sítios.28 (Em 1985 o futuro da convenção foi posto em dúvida com a saída dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha da UNESCO; os Estados Unidos vinham contribuindo com 25% do orçamento anual do World Heritage Fund.) A

Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies em Extinção, que foi assinada em 6 de março de 1973 e entrou em vigor em 12 de julho de 1975, visa regulamentar ou impedir o comércio de uma lista especificada de espécies vegetais e animais selvagens ameaça das ou em perigo. Em 1985, 87 estados faziam parte da CITES, a qual tinha a vantagem de possuir um secretariado pago trabalhando em tempo integral, inicialmente custeado pelo UNEP e subseqüentemente pelos participantes da CITES. A maioria das principais nações que comerciavam com espécies selvagens havia assinado a CITES no decorrer de uma década a partir de sua abertura para signatários.

A quarta convenção de vulto (a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias, ou Convenção de Bonn) foi um produto direto da conferência de Estocolmo. Assinada em Bonn em 23 de junho de 1979, só entrou em vigor em 1º de novembro de 1983, momento em que havia ficado claro que, para ser efetiva,

precisava de um grande número de signatários. Essa convenção também enfrentou restrições financeiras e administrativas. 178. ORGANIZAÇÕES REGIONAIS: O MEIO AMBIENTE NA EUROPA OCIDENTAL No que se refere à fiscalização de acordos internacionais as organizações regionais ou intergovernamentais gozam de duas vantagens claras; podem exercer pressão moral, senão legal, sobre os governos nacionais e propiciam continuidade administrativa (a OEA e a Convenção do Hemisfério Ocidental sendo exceções notáveis). A Europa Ocidental tem uma abundância de OIGs e ONGs, muitas das quais se voltaram para questões ambientais. A poluição do ar, por exemplo, foi abordada pelo Conselho Nórdico, pelo órgãos especializados da ONU, pela Comissão Econômica da ONU para a Europa, pela OECD e até mesmo pela OTAN. Declarando sua intenção, em 1970, de passar da busca do crescimento econômico pelo crescimento em si para a busca do crescimento qualitativo, a OECD criou um Comitê Ambiental para coletar informações a serem incorporadas ao processo de tomada de decisões e elaboração de políticas da OECD. Os europeus conseguiram chegar a um acordo em relação aos problemas por eles compartilhados particularmente quanto à poluição do ar, dos rios e do oceano - mais rapidamente do que poderia ter sido o caso em quase qualquer outra parte do mundo. O primeiro organismo de importância na Europa e o primeiro organismo internacional de base ampla em qualquer parte do mundo29 a se interessar pelo meio ambiente foi o Conselho da Europa (fundado em 1949). O conselho criou o European Committee for Conservation of Nature and Natural Resources em 1963 para traçar um plano de ação para a administração dos recursos naturais da Europa. No mesmo ano, em seguida ao sucesso da Semana Nacional da Natureza na GrãBretanha, o conselho declarou 1970 como o Ano Europeu da Conservação (ECY - European Conservation Year) com o objetivo de promover um senso comunal europeu da extensão e do valor dos recursos naturais da Europa, do caráter das capacidades destrutivas do homem e da necessidade de administração correta de longo prazo. O ECY promoveu a consciência pública e influenciou a opinião política no período que antecedeu Estocolmo, como também gerou uma série de conferências ministeriais européias sobre o meio ambiente (Viena em 1973, Bruxelas em 1976, Berna em 1979 e Atenas em 1982). O ECY também propiciou um foco para o debate sobre população, poluição e crescimento; "portanto, por acidente, o questionamento radical da adequação da custódia dos recursos naturais pelo homem e dos benefícios da ciência e da tecnologia ganhou um público mais amplo e mais voltado à conservação", observa Haigh.30 Mas o ECY também tinha seus críticos. "Só conversa e pouca ação - esta é a situação das coisas no Ano Europeu da Conservação", assinalava o porta-voz de meio ambiente da oposição na Grã-Bretanha, Christopher Chataway.31 "Os cínicos já o estão chamando de Ano Europeu da Conversação", observou Robert Allen no Ecologist. Embora concedesse que o ECY havia "propiciado um novo alento aos conservacionistas, trazendo-os de volta das áreas selvagens que eles tão seriamente se esforçam para proteger", Allen alegava que, no fechamento do ano, a maioria dos políticos bavia contornado suas implicações mais profundas e que, tivesse o governo britânico o levado mais a sério, já teria acontecido alguma ação política construtiva.32 Em 1967, O Conselho da Europa estabeleceu um European Information Centre for Nature Conservation dentro do comitê para a conservação, a fim de promover a consciência do meio ambiente. Finalmente, um projeto para criar uma rede de reservas naturais européias representativas levou à elaboração da Convenção sobre a Conservação da Vida Selvagem e dos Hábitats Naturais Europeus (a Convenção de Berna), a qual foi aberta para os signatários em 1979 e entrou em vigor em 1982. O conselho também promoveu a conservação arquitetônica, planejamento urbano, planejamento regional e controle da poluição (por exemplo, a Carta da Água de 1968 e a Carta do Solo de 1972). Por causa de seus poderes únicos de criar compromissos de legislação para seus estados 179 membros sem análise ou ratificação adicional, a Comunidade Econômica Européia (CEE) é o organismo regional com maior potencial para tomar medidas efetivas quanto ao meio ambiente europeu. Quando a GrãBretanha entrou para a Comunidade em 1970, existiam aqueles que temiam que isso pudesse ter implicações ambientais indesejáveis; Brian Johnson sugeriu que o crescimento econômico constante mas lento da Grã-

Bretanha a havia deixado essencialmente verde e agradável apesar dos rigores da Revolução Industrial (a Grã-Bretanha possuía menos cobertura florestal do que qualquer outro estado membro, exceto a Irlanda, e vinha perdendo vida selvagem e hábitats constantemente desde a Segunda Guerra Mundial); a doutrina do crescimento econômico adotada pela Europa criaria tantos problemas para a Grã-Bretanha quantos resolveria, ele argumentava, e as perspectivas ambientais totais da Grã-Bretanha poderiam ser "negociadas e se perder nas transações político-econômicas em bloco como a federação da Europa".33 A despeito de todos os seus problemas emergentes (notadamente os que resultaram de políticas agrícolas inoportunas), a Comunidade conseguiu realizar ações positivas quanto ao meio ambiente. Isso começou em outubro de 1972 quando uma reunião dos chefes de estado e governo da CEE concluiu que o desenvolvimento econômico havia resultado em desigualdades nas condições de vida dentro da Comunidade, que a base ecológicadesse desenvolvimento estava ameaçada, que a expansão econômica não era um fun em si mesma e que se deveria prestar mais atenção às metas sociais tais como a qualidade de vida. Portanto eles se declararam favoráveis a uma política ambiental européia. Desde então tem havido um corpo constantemente crescente de diretivas, regulamentações e decisões quanto à poluição da água, do ar e sonora, resíduos, substâncias químicas, vida selvagem e áreas rurais - entre cinqüenta e cem até 1985, dependendo dos critérios utilizados.34 Essas disposições contaram com um consenso unânime e bloqueios apenas temporários, observa Haigh, e sem atingir o ponto de quase imobilidade que tende a afligir muitas outras áreas da política da Comunidade. De fato, argumenta, a política ambiental "pode agora ser considerada como uma das histórias silenciosas de sucesso da Comunidade" e está sendo vista como de importância crescente à medida que a deposição ácida, as emissões de veículos e a movimentação de resíduos perigosos através de fronteiras demonstra que as medidas nacionais não são suficientes.35 O efeito de sua oficialização como membro da CEE tem sido significativo sobre a Grã-Bretanha; Haigh afirma que é mais difícil assinalar mudanças na política ambiental doméstica britânica resultantes de Estocolmo do que mudanças resultantes de sua oficialização como membro da CEE.36 As diretrizes da Comunidade sobre poluição do ar introduziram o conceito de padrões de qualidade do ar na Grâ-Bretanha37 e algumas das confusões na divisão das responsabilidades domésticas entre autoridades nacionais, regionais e locais na Grã-Bretanha foram contornadas através da transferência de certos poderes para o nível da Comunidade (por exemplo, no estabelecimento do nível de chumbo nos combustíveis). A política ambiental da Comunidade é determinada em grande parte pela natureza transnacional de muitos problemas ambientais europeus. Ela objetiva, diz a CEE, colocar a expansão econômica "a serviço do homem" através da proteção ambiental e da administração dos recursos naturais. A Comunidade usa o Princípio do Poluidor Pagá, está desenvolvendo um projeto de mapeamento ecológico e propôs a introdução de avaliações de impacto ambiental no estilo das dos EUA. O Primeiro Programa de Ação (1973-1977) concentrou-se no controle da poluição e perturbações, enquanto o Segundo Programa de Ação (1977-1981) era baseado no princípio de combinar considerações ambientais com políticas econômicas.38 O Terceiro Programa de Ação (1982-1986) incluía propostas de coordenação ambiental e recomendações quanto à política ambiental externa da CEE: "A Comunidade continuará a falar em várias organizações internacionais com uma única voz, usando com proveito a influência que adquiriu em outras áreas da cooperação internacional (...) Mais especificamente usará essa influência para assegurar que os planos traçados no nível internacional, tais como os do Programa de Meio Ambiente da ONU e a Estratégia de Conservação Mundial, ( ... ) sejam de fato implementados".39 O Programa prosseguia 180 assinalando. a importância da proteção. ambiental cama parte integrante da política de desenvolvimento, Entretanto. as programas de ação. da Comunidade não. são. compulsórios para as estadas membros, não. existe garantia de que as palavras se transformarão em ação. e nem garantia de que as membros da Comunidade ou recipientes de ajuda da Comunidade estarão. sempre de acordo com suas prioridades.40 As atividades da CEE relativas ao. meia ambiente também têm devida muita ao. papel das ONGs. Um canal de cooperação fundamental é a European Environment Bureau (EEB) criada em 1974 especificamente coma uma resposta ao. fato. de a Comunidade Européia ter assumida responsabilidades ambientais 41 (ver capítulo. 5). O EEB propicia aos grupos ambientais um canal direto de acesso. à CEE. A Comissão Européia encara a órgão. cama uma fonte de orientação e informação, e lhe fornece recursos financeiros (a que, em certa medida, determina a estilo. de atuação. da EEB cama de argumentação. moderada e racional, e não. de confrontação aberta). Sua situação. sob a lei belga significa que deve evitar

posturas políticas ostensivas, possui poderes limitadas de sanção. contra políticas contestadas e deve buscar um meia-termo. entre as táticas diferenciadas das organizações que a compõem e as diversas estilos políticos nacionais de fazer lobby.42 ACORDOS SOBRE QUESTÕES ISOLADAS: A POLUIÇÃO ÁCIDA E A CONVENÇÃO SOBRE POLUIÇÃO DO AR TRANSFRONTEIRAS DE LONGO ALCANCE A despeito. da quanta de acordo pode existir entre dois ou mais países em relação. a uma questão há alguns problemas que não podem ser resolvidos de maneira nenhuma a não. ser através de acordos regionais e até mesma globais. Em nenhum ponto isso. é tão. claramente ilustrada quanta na questão. da poluição da ar, historicamente tratada cama um problema local. Numa tentativa de controlar a poluição da ar local na GrãBretanha e em outros países industriais na década de 1950, foram construídas chaminés altas em muitas fábricas e usinas de energia. Londres perdeu com alegria seu tristemente famoso fog amarela (sobre a qual George Gershwin havia escrita tão. eloqüentemente), mas exatamente ao. custa de lançar a poluição mais adiante. O dióxido de enxofre (SO2) e as óxidos de nitrogênio emitidos durante a queima de combustíveis fósseis haviam sido há muito implicados na acidificação de salas e águas de superfície. Atualmente, coma as pesquisas confirmaram as efeitos de longo alcance desse tipo. de poluição, a poluição ácida tornou-se uma das questões ambientais internacionais mais sérias, causando. tensão. nas relações entre governos (por exemplo, entre as Estados Unidos e a Canadá, entre a Grã-Bretanha e a Noruega), dividindo. países entre poluidores e poluídos e testando. a vontade política de proteger a meia ambiente. A poluição. ácida é freqüentemente descrita cama um problema da mundo. moderno, mas as ligações entre as emissões industriais e a saúde de pessoas e plantas foram notadas na Inglaterrajá na século XVII par John Evelyn eJohn Graunt.43 Eles também observaram que parte da poluição estava cruzando a canal na direção da França e sugeriram, mesma naquela época, que fossem usadas chaminés mais altas para dispersar a poluição, No começo do século. XVIII, a própria Linnaeus observou a poluição da enxofre próxima a uma oficina de fundição. na Suécia. O processo da poluição ácida foi plenamente especificado. pela primeira vez pelo químico britânico Robert Angus Smith, * que observou
* Robert Angus Smith (1817.1884) foi um químico nascido na Escócia. Educado na Alemanha, passou a maior parte de sua vida em Manchester, ganhando a vida como químico consultor e pesquisando questões de saúde pública, tais como a contaminação dos suprimentos de água e a poluição do ar. Durante as décadas de 1850 e 1860, delineou o processo da poluição ácida, e, durante seus vinte anos com o Alkali Inspectorate (do qual era o primeiro inspetor), fez assídua campanha a favor de controles da poluição industrial do ar.

181 a correlação entre a queima de carvão e a poluição ácida em Manchester e nas suas cercanias em meados do século XIX. Ele publicou suas conclusões em 1872 em Air and Rain: the Beginnings of a Chemical Climatology.44 Foi o primeiro a usar o termo "chuva ácida" e a descrever a conexão entre a queima de carvão, a direção dos ventos, a corrosão e os danos da acidez à vegetação. Em 1881 um cientista norueguês atribuiu uma "precipitação de neve suja" na Noruega a uma grande cidade ou a um distrito industrial na GrãBretanha. Já em 1942 as pesquisas sobre a precipitação ácida haviam se espalhado para a Áustria, Estados Unidos, Canadá, Suécia, Itália e Irlanda.45 Em 1948, por instigação dos suecos, foi iniciada uma monitoração sistemática da precipitação em âmbito europeu. Na década de 1960, Svante Oden (um cientista especializado em solos, do Colégio Agrícola próximo a Uppsala, Suécia) demonstrou uma relação entre as emissões industriais e os danos ao meio ambiente (principalmente aos peixes e aos lagos). Ele afirmava que a precipitação sobre a Escandinávia estava se tornando mais ácida e que grandes quantidades dos compostos de enxofre que causavam a acidificação provinham das emissões industriais da Grã-Bretanha e da Europa Central. Portanto parecia concebível que os poluentes fossem capazes de viajar mil quilômetros ou mais. Em abril de 1972 a OECD lançou um estudo de quatro anos sobre as causas, transporte e efeitos das emissões de enxofre. Os resultados publicados em 1977 46 forneceram mais evidências das causas da poluição ácida e confirmaram que os poluentes transportados pelo ar poderiam ser, como de fato estavam sendo, levados por sobre fronteiras, afetando de modo verificável por medição a precipitação em outros países. Em cinco dos 11 países participantes (Finlândia, Noruega, Suécia, Austria e Suíça) estimava-se que mais de metade dos depósitos totais de enxofre haviam vindo de fontes externas. O projeto da OECD também revelou que os

problemas não se restringiam à Europa Ocidental, mas envolviam todos os países europeus ao norte dos Alpes. Na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, em Helsinki, em 1975, a União Soviética sugeriu que fossem feitas tentativas para se chegar a um acordo sobre três problemas pan-europeus: energia, transporte e meio ambiente. Os países europeus ocidentais concluíram que apenas este último era politicamente aceitável e a Suécia e a Noruega imediatamente aproveitaram a oportunidade de abordar a questão da poluição do ar transfronteiras. O objetivo desses países era elaborar uma convenção sobre poluição do ar transfronteiras de longo alcance a ser assinada por todos os estados europeus, os Estados Unidos e o Canadá.47 A Economic Comission for Europe (ECE) da ONU foi escolhida como o melhor foro para a discussão, principalmente porque incluía estados europeus ocidentais e orientais. A Suécia e a Noruega queriam uma convenção forte que interrompesse o aumento de emissões de S02 (a cláusula da "imobilização"), juntamente com uma cláusula que especificava uma diminuição do S02 em níveis percentuais fixos de até 50% (a cláusula da "regressão"). A Grã-Bretanha e a Alemanha Ocidental objetaram à criação de controles legalmente compulsórios, a primeira porque questionava se a acidificação escandinava era causada pela poluição britânica, a segunda porque estava relutante em ser policiada pela ECE.48 A Alemanha Ocidental acabou aceitando uma convenção de compromisso, que consistia de obrigações gerais dos signatários de pelo menos limitar e preferivelmente reduzir a poluição do ar, inclusive a poluição do ar transfronteiras de longo alcance. Isso seria feito com o uso da "melhor tecnologia disponível que seja economicamente viável" em instalações industriais novas e retroativamente adaptadas. Esses termos - "melhor tecnologia disponível" e "economicamente viável" - subseqüentemente receberam interpretação ampla e imprecisa.49 Finalmente a Grã-Bretanha também aceitou a convenção porque acreditava que seus planos para uma maior participação da energia nuclear levariam a uma redução líquida das emissões e que por isso poderia atender os termos da convenção sem alterar suas políticas energéticas ou de controle da poluição vigentes.50 Os planos nórdicos para metas, cronogramas, exigências de diminuição e dispositivos de fiscalização foram excluídos. 182 A Convenção sobre a Poluição do Ar Transfronteiras de Longo Alcance (a convenção LRT AP) foi assinada em Genebra em novembro de 1979 por 33 países (incluindo a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, as Alemanhas Oriental e Ocidental, a França e a Comunidade Européia) e entrou em vigor em março de 1983. Desde então tem sido criticada por sua falta de poder real, porém foi a primeira vez que os países da Europa Oriental, Ocidental e da América Norte se juntaram para assinar um acordo ambiental. Teve também o efeito positivo de fortalecer a fundamental rede de coleta de dados européia - o Programa Cooperativo para a Monitoração e Avaliação da Transmissão de Longo Alcance dos Poluentes do Ar na Europa. O programa, planejado para fornecer informações sobre o fluxo transfronteiras de poluentes do ar, tem estado em operação desde 1978; em 1985 possuía 88 estações de monitoramento em 23 países da Europa Ocidental e Oriental.51 Para manter o ímpeto a Suécia convidou então todos os signatários da convenção para a Conferência sobre a Acidificação do Meio Ambiente, realizada em Estocolmo em junho de 1982 (o décimo aniversário da conferência de 1972). A conferência foi realizada em dois estágios: um encontro científico e técnico, e um encontro ministerial. O primeiro encontro fez um escrutínio de todas as evidências quanto às causas, transporte e efeitos dos poluentes do ar transfronteiras e concluiu que os compostos de nitrogênio e enxofre criados pelo homem eram basicamente responsáveis pelos depósitos ácidos; uma redução das emissões sobre uma grande região industrializada levaria a uma diminuição "aproximadamente proporcional" dos depósitos ácidos; existia em disponibilidade comercial a tecnologia que poderia reduzir radicalmente as emissões de poluentes do ar; e que o fato de que tecnologias aprimoradas podem vir a emergir no futuro não justifica a espera, retardando o uso de tecnologia existente. O encontro ministerial adotou essas conclusões, concordou que os problemas da acidificação eram sérios e concluiu que, mesmo que os depósitos totais não aumentassem mais, os danos ao solo e à água continuariam a aumentar, a não ser que fossem tomadas providências imediatas dentro do arcabouço da convenção. A Alemanha Ocidental aproveitou a oportunidade para anunciar uma reversão completa de sua política anteriormente ambígua em relação à poluição ácida: informou que tentaria reduzir à metade suas emissões de SO2 em dez anos e que levantária a questão do meio ambiente internacional na reunião de

cúpula econômica mundial seguinte. O volte face foi atribuído ao peso crescente dos Grünen e aos primeiros relatórios confirmados de danos generalizados às florestas da Alemanha Ocidental.52 A conferência de 1982 em Estocolmo também acelerou o processo de ratificação da convenção LRTAP; em poucos meses todos os países da Comunidade Européia haviam-na ratificado. Mas a mesma tinha ainda pouca substância e os países nórdicos continuavam insatisfeitos com a falta de ação política real. Mantendo a pressão, estes propuseram então uma redução mútua de 30% das emissões de SO2 nos dez anos do período 1983-1993, calculados a partir dos níveis de emissão de 1980. Em março de 1984 representantes de dez países se reuniram em Ottawa para assinar uma declaração de cinco pontos empreendendo a redução de emissões que produziam a poluição ácida. O mínimo era a redução de 30% do SO2 proposta pelos escandinavos - portanto o acordo recebeu a alcunha de "Clube dos Trinta por Cento". Em abril de 1985,21 países já haviam entrado para o clube. * Uma segunda conferência internacional (a Conferência Multilateral sobre Meio Am biente)
* Os membros originais eram Áustria, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha Ocidental, Holanda, Noruega, Suécia e Suíça. A Dinamarca e a Holanda foram mais além, comprometendo-se a reduções de 40%, assim como Áustria, Canadá, França, Alemanha Ocidental e Noruega com reduções de 50%. Em junho de 1954 os dez países receberam a adesão da Bélgica, Bulgãria, Bielorússia, Alemanha Oriental, Liechtenstein, Luxemburgo, Ucrânia e a URSS. Em setembro aderiram também a Tchecoslováquia e a Itália, bem como a Hungria, em abril de 1985.

183 foi realizada em Munique em junho de 1984, com o objetivo parcial de incentivar mais países a entrar para o Clube dos Trinta por Cento. Crescia a pressão para um acordo específico sobre a redução das emissões anuais nacionais de enxofre e. óxido de nitrogênio. No segundo encontro do conselho executivo da convenção do LRTAP, em setembro de 1984, foram iniciados os trabalhos para elaborar um protocolo sobre a redução das emissões de enxofre. Esse protocolo foi adotado na terceira reunião do conselho em Helsinque, em julho de 1985, comprometendo seus signatários com um corte de 30% nas emissões nacionais anuais de enxofre ou nos fluxos transfronteiras, até 1993 no máximo, tendo como base os níveis de 1980. Os 21 membros do Clube dos Trinta por Cento assinaram imediatamente o protocolo; a Grâ-Bretanha e os Estados Unidos postergaram mais uma vez. Sua adesão original à convenção da LRTAP havia-se tornado agora praticamente sem sentido. As negociações internacionais quanto à questão da poluição ácida foram caracterizadas por três traços principais. Primeiro, o nível do interesse e da ação dos governos era muitas vezes diretamente proporcional ao grau de prejuízo doméstico identificado. Os países escandinavos e o Canadá - onde havia sido confirmada a maior parte dos danos - eram os mais veementes; os alemães ocidentais alteraram a política somente quando confrontados com provas de danos substanciais a florestas dentro de suas próprias fronteiras; a Grã-Bretanha, onde relativamente pouco prejuízo havia sido provado ou oficialmente reconhecido, recusava-se irredutivelmente a agir. Em segundo, os governos muitas vezes estavam menos preocupados com a opção de agir ou não para restringir as emissões do que com os custos envolvidos e com quem os pagaria. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos alegavam que se conhecia muito pouco sobre as causas e os efeitos da poluição ácida para justificar os gastos com controles; a Grã-Bretanha argumentou que já havia reduzido suas emissões de SO2 em 42% entre 1970 e 1985 simplesmente usando carvões de teor de enxofre mais baixo, aumentando a eficiência no uso da energia e com a "reestruturação industrial"; a Polônia (outro retardatário) alegava que por motivos econômicos havia pouca probabilidade de que pudesse reduzir suas emissões.53 Finalmente, havia uma ausência nítida de interesse governamental em tomar providências em relação a questões que não trouxessem benefícios nacionais imediatos. Os únicos custos seriamente considerados pelos governos eram os envolvidos na redução das emissões. As estimativas teóricas dos custos dos prejuízos às safras, florestas, lagos, produção pesqueira, saúde e construções aparentemente possuíam pouco peso nas decisões políticas. A poluição ácida mostrou-se um assunto particularmente amargo nas relações entre os Estados Unidos e o Canadá. Uma deficiência fundamental da Lei do Ar Limpo e dos programas antipoluição dos EUA do início da década de 1970 era que os mesmos foram elaborados principalmente para debelar altas concentrações de poluentes próximas às fontes e não dedicavam nenhuma atenção à poluição do ar de alcance mais longo.54 O uso de chaminés mais altas era incentivado por implicação, o que teve como conseqüência a construção de mais de 175 chaminés de mais de 150 metros de altura entre 1970 e 1979.55

As pesquisas revelaram que do mesmo modo que a poluição ácida estava cruzando as fronteiras nacionais na Europa também as emissões dos EUA estavam poluindo o Canadá. Em agosto de 1980 os Estados Unidos e o Canadá assinaram um Memorando de Intenções Sobre a Poluição do Ar Transfronteiras, reconhecendo a necessidade de ação cooperativa para reduzir a poluição. Ambos os governos concordaram em tomar "providências provisórias disponíveis dentro das prerrogativas atuais" para combater a poluição do ar transfronteiras; a EP A, todavia, interpretou isso como um compromisso de controlar as emissões de SO2 apenas na medida permitida pelos dispositivos da legislação doméstica.56 O memorando também estabelecia grupos de trabalho científicos conjuntos para desenvolver um banco de dados cientifícos; quando seus relatórios finais foram apresentados em fevereiro de 1983, havia duas séries de conclusões - uma do Canadá e outra dos Estados Unidos. Embora ambas concordassem quanto ao papel dominante dos depósitos 184 de enxofre na degradação ambienta!, os cientistas dos EUA alegavam que eram necessárias mais pesquisas antes que controles de emissão estritos pudessem ser impostos. As negociações quanto a um acordo sobre a qualidade do ar entre os Estados Unidos e o Canadá começaram em 1981. 57 No início de 1982 os negociadores do Canadá apresentaram uma primeira versão de um tratado, baseada na diminuição de 50% das emissões de SO2 do leste do Canadá e uma "regressão" semelhante nos Estados Unidos. Isso foi rejeitado pela delegação dos EUA em junho de 1982; os Estados Unidos questionaram a sinceridade da disposição do Canadá para atingir uma redução tão drástica 58 e acusaram aquele país de ser excessivamente precipitado e prematuro nas suas ações e acusações. Os canadenses, por sua vez, acusaram os americanos de usar táticas de retardamento e questionaram o valor da continuação das conversas com os Estados Unidos. Surgiram esperanças no Canadá devido ao retorno para a EPA, em maio de 1983, de William Ruckelshaus, que foi orientado pelo presidente Reagan a dar prioridade à questão da poluição ácida. Os fundos para pesquisa foram até mesmo dobrados.59 Ruckelshaus trabalhou para produzir um plano que fosse amplamente aceitável, mas mesmo essa sugestão de cortes modestos foi bloqueada pelo diretor do orçamento David Stockman e pelo secretário de energia Donald Hodel, que alegaram que seria dispendioso demais para as companhias de serviços de infra-estrutura e seus consumidores.60 O impasse continuou a causar tensão nas relações diplomáticas entre os dois países e as declarações públicas sobre as questões foram muitas vezes caracterizadas pela linguagem rancorosa. Através dos meados dos anos 80 a poluição ácida permaneceu sendo um dos principais pontos de disputa nas reuniões de cúpula regulares entre norte-americanos e canadenses. A PROTEÇÃO DAS ÁREAS COMUNS GLOBAIS: A CAMADA DE OZÔNIO Se o acordo sobre recursos compartilhados ou problemas de poluição do ar transfronteiras parecia elusivo, o acordo sobre o conceito muito mais nebuloso de "áreas comuns globais" parecia fora de questão - a não ser que houvesse evidências irrefutáveis que mesmo os governos não pudessem negar. O uso dos oceanos e da atmosfera era amplamente encarado como livre para todos; o primeiro como meio de transporte e uma fonte de peixe e minerais, e ambos como espaços convenientes para o lançamento de efluentes. O aperfeiçoamento da coleta de dados parecia sugerir a existência de novas ameaças à qualidade da atmosfera na década pósEstocolmo. A monitoração realizada desde 1957 no observatório de Mauna Loa, no Havaí, já havia revelado um aumento na concentração de dióxido de carbono na atmosfera (CO2), de 315 partes por milhão (ppm) em 1957 para 335 ppm em 1980, ou 6% em 23 anos.61 A queima de combustíveis fósseis foi identificada como a principal fonte, mas as pesquisas do final da década de 1970 62 sugeriram que o desmatamento e a remoção da vegetação também eram responsáveis pela liberação do CO2. Havia mais CO2 armazenado na biomassa da Terra do que retido pela atmosfera. Havia temores de que o aumento do CO2 poderia levar a alterações climáticas de vulto inclusive ao chamado "efeito estufa" -, com profundas implicações sociais, econômicas e políticas. Temores semelhantes foram levantadós pela perspectiva de que emissões de clorofluorocarbonos (CFCs), compostos clorados, dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio pudessem reagir com o ozônio estratos fé rico, destruindo a camada de ozônio e conseqüentemente aumentando o nível de radiação ultravioleta nociva que atingia a superfície da Terra. O efeito dos CFCs (compostos utilizados em propelentes de aerosóis, refrigeração, manufatura de isopores e solventes industriais) foi delineado por dois cientistas da Universidade da Califórnia, Mario Molina e F.S. Rowland, em 1974.63 Eles advertiram que o

uso dos CFCs estava crescendo e que as concentrações de ozônio poderiam ser reduzidas em 20%. (Estimativas subseqüentes da Academia Nacional de Ciências, do 185 UNEP e do Conselho Nacional de Pesquisa estipularam o número em 16,5%, 10% e entre 3% e 5% respectivamente.64 o que diz muito quanto à dificuldade de interpretar dados e identificar tendências.) Os Estados Unidos, o Canadá e a Suécia proibiram quase que imediatamente o uso não essencial de propelentes à base de CFCs nos sprays. A conseqüência aparente foi uma diminuição da produção global de CFCs entre 1974 e 1979, da ordem de entre 13% 65 e 17% 66 Os dados completos, porém, deixaram de estar disponíveis a partir de 1975, quando os Estados Unidos pararam de comunicar seus níveis de produção em resposta a uma atitude semelhante por parte da URSS, China e da Europa Oriental. As melhores estimativas em 1985 sugeriam que a produção mundial havia subido 6% em relação aos níveis de 1979, mas ainda estava mais baixa do que os níveis de 1974; 67 o uso aumentado em países da OECD e a produção e uso aumentados em países que não fazem parte da OECD podem ser a explicação para isso.68 A ação sistematíca da ONU em relação ao ozônio começou com o lançamento (num encontro de especialistas do UNEP em 1977, em Washington) do Plano Mundial de Ação para a Camada de Ozônio. Liderado pela Organização Meteorológica Mundial, a meta do plano era aumentar o número de estações de monitoração. O encontro também estabeleceu o Coordinating Committee on the Ozone Layer (CCOL), que coletou informações sobre as pesquisas planejadas e em curso, publicando curtos resumos anuais no Ozone Layer Bulletin, Em 1982 cerca de vinte países haviam agido no sentido de controlar suas emissões de CFCS.69 Um estudo de seis desses países (inclusive a Grã-Bretanha e os Estados Unidos) sugeria que as atitudes do público, a presença de um organismo de regulamentação forte e a influência limitada da produção de CFCs na economia nacional eram fatores fundamentais 70. Em 1981 um grupo de trabalho de especialistas legais e técnicos havia iniciado o trabalho relativo a uma convenção global sobre a camada de ozônio, seguindo o padrão do Programa de Mares Regionais do UNEP. Em março de 1985 a Convenção Global sobre a Proteção da Camada de Ozônio foi assinada em Viena por 28 países. A adoção de protocolos sobre estratégias de controle foi impedida pelo desacordo entre a CEE e o Japão de um lado e o "Grupo de Toronto", composto pelos Estados Unidos, Canadá, Finlândia, Noruega e Suécia do outro; os primeiros propunham um Limite para a capacidade de produção (permitindo um crescimento de 30% na produção), enquanto o último queria reduções mais imediatas e substanciais no uso de aerosóis e um teto na utilizaçãopercapita.71 A questão adquiriu nova urgência com a descoberta, em 1985, por parte de cientistas britânicos, de uma diluição (ou "buraco") na camada de ozônio da Antártica.72 O buraco era aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos continentais e parecia estar aumentando. Não estava claro se era causado por CFCs, radiação solar ou condições meteoro lógicas polares. Também não havia certeza se se tratava de um fenômeno único da Antártica ou uma advertência quanto às futuras mudanças no ozônio global.73 Os cientistas tinham notado dez anos antes uma queda dramática nos níveis de ozônio, mas a alteração havia sido tão nítida e anormal que terminou sendo atribuída a erro humano ou de computador.74 Em fevereiro de 1987 os representantes das principais nações industrializadas se reuniram em Viena numa tentativa de chegar a um acordo quanto a um congelamento dos níveis de produção de CFCs e a uma diminuição gradual a partir daí. Em abril, havia se chegado a um acordo em princípio, em seguida a uma mudança de posição da CEE afastando-se de um cronograma mais longo para o congelamento e a redução.* O acordo final foi alcançado a 17 de setembro de 1987, num encontro em Montreal, quando 56 países elaboraram um acordo para em 1990 congelar nos níveis de 1986 o consumo dos cinco
* Nos Estados Unidos, enquanto isso, o ozônio - e os perigos da radiação ultravioleta e de câncer de pele - tomou-se um ponto principal de conversas, provocadas pelo menos em parte pela descoberta de câncer de pele no presidente Reagan.

186 tipos mais comuns de CFCs, seguindo-se reduções de até 50% até o ano 2000. Dois terços dos países consumidores de CFCs do mundo precisavam assinar o protocolo para que este entrasse em vigor. Temendo que os não signatários fossem contemplados com uma vantagem na concorrência os Estados Unidos haviam defendido um mínimo de 90% dos países consumidores; para fazer frente a isso o protocolo incluiu

dispositivos comerciais que permitiam que os países signatários proibissem importações relacionadas a CFCs de países que se recusassem a assinar.75 A NECESSIDADE DE CERTEZA CIENTÍFICA Dados científicos incompletos e inconsistentes têm sido repetidamente citados por governos e indústrias que se opõem a medidas relativas às questões ambientais. A questão do ozônio destacou a rapidez com que os governos poderiam, na realidade, chegar a um acordo quanto ao enfrentamento de um problema antes que os efeitos de longo prazo estivessem plenamente compreendidos e fossem objeto de consenso; a Convenção do Ozônio foi o primeiro acordo ambiental baseado na prevenção e não na cura. Entretanto a mesma também enfatizou o problema de coletar e interpretar dados sobre a atmosfera. As condições atmosféricas variam tanto no tempo como no espaço e as combinações de fatores (naturais ou causados pelo homem) envolvidas nas mudanças atmosféricas podem ser tão complexas que a especificação de causas e efeitos pode ser muito difícil. Ao longo do tempo as flutuações aumentam, tornando problemático saber se as mudanças são parte de uma nova tendência ou de uma oscilação de período mais longo. Novas dificuldades surgem da ausência de séries de registros de longa duração, dos efeitos dos fatores locais sobre as estações de controle e da relativa falta de estações nos oceanos.76 Para o UNEP a aplicação do Plano de Ação de Estocolmo sempre exigiu um aprimoramento da monitoração, das técnicas de coleta de dados e da troca de informações. As tentativas conjuntas de aprimorar a qualidade dos dados haviam começado com o Programa Biológico Internacional (ver capítulo 3). Esse programa foi encerrado em 1974, e a iniciativa passou para o programa Man and the Biosphere (MAB) da UNESCO. Produto da Conferência da Biosfera, o MAB foi planejado para ser um programa de pesquisa intergovernamental e interdisciplinar baseado em 14 temas, desde a interação humana com os ecossistemas até o papel das áreas urbanas como sistemas ecológicos.77 Tinha quatro metas principais: a) identificar e avaliar as mudanças na biosfera resultantes das atividades humanas (e os efeitos dessas mudanças sobre o homem); b) estudar as inter-relações entre os ecossistemas naturais e os processos sócioeconômicos; c) desenvolver formas de medir mudanças quantitativas e qualitativas no meio ambiente a fim de estabelecer critérios científicos para a administração regional dos recursos naturais e o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental; d) incentivar uma maior coerência global da pesquisa ambiental.78 O MAB tinha um pequeno secretariado dentro da UNESCO, mas em termos reais operava através de uma rede de 102 comitês nacionais (compostos principalmente de cientistas pertencentes a universidades ou instituições nacionais de pesquisa) e representantes de organismos públicos e privados relevantes. O principal órgão de elaboração de políticas do MAB era o International Coordinating Council eleito pela Conferência Geral da UNESCO e que se reunia a cada dois anos para analisar o programa. Em 1982 o MAB já 187 abrangia mil e trinta projetos de pesquisa reunindo mais de dez mil pesquisadores em setenta países.79 A coordenação e efetividade da pesquisa ambiental foi auxiliada pelo avanço na armazenagem e recuperação de dados computadorizados. Os dados coletados eram mais precisos e exatos, e foram refutadas muitas pressuposições anteriores baseadas em informações inadequadas. Por exemplo, ficou demonstrado que as taxas de perda de florestas tropicais úmidas pressupostas no começo dos anos 70 eram exageradas. A despeito de todas as suas deficiências (ver capítulo 6), o programa Earthwatch do UNEP havia contribuído para esse progresso. A rede de pesquisa e troca de informações do MAB havia, nesse ínterim, auxiliado a propiciar uma melhor compreensão dos vínculos entre causa e efeito nos problemas ambientais igualmente nos níveis local, nacional e internacional. Compreendia-se mais claramente agora, por exemplo (mesmo que dificilmente chegasse a ser uma descoberta recente), que a remoção da cobertura florestal numa encosta de

morro poderia levar à erosão do solo que poderia ocasionar o assoreamento do leito de rios a dezenas ou mesmo milhares de quilômetros abaixo. O impacto das mudanças ambientais sobre as cadeias alimentares foi mais bem compreendido e avaliado, assim como a mecânica de fenômenos como a poluição ácida. Em 1979 a Organização Meteorológica Mundial em conjunto com uma variedade de órgãos especializados da ONU, inclusive o UNEP e a FAO, lançaram o Programa Mundial do Clima, com o objetivo de determinar a extensão da influência humana sobre o clima. Diferentes componentes do programa contribuiriam para aprimorar a disponibilidade e confiabilidade dos dados climáticos e promover a consideração dos fatores climáticos no planejamento de desenvolvimento. Em 1981 já havia sido criada uma rede de 109 estações regionais de monitoração em 71 países, em cooperação com o UNEP, a fim de monitorar, por exemplo, o CO2 e contaminantes em precipitação. Havia suspeitas crescentes de que o clima do mundo estava mudando. A variabilidade climática é um fenômeno natural e, embora os extremos climáticos não sejam evidência de uma mudança climática, parecia a muitos, nos anos 70 e 80, que tais extremos estavam se tornando mais comuns: secas severas, baixa pluviosidade, alta pluviosidade, ondas de calor, "o verão mais quente em cinqüenta anos", "o inverno mais seco/brando deste século" e assim por diante. Em 1986 já estava surgindo um consenso maior sobre a questão da mudança climática global. Modelos computacionais novos e mais sofisticados sugeriam que o clima não apenas estava se tornando mais quente, mas que isso estava ocorrendo mais depressa do que os cientistas haviam previsto.80 Havia sugestões de que o efeito estufa poderia levar a um aumento de temperaturas de 3,5°C a 4,2°C na metade do século XXI 81 e que os níveis globais do mar poderiam subir concomitantemente de vinte a quarenta centímetros. 82 Os cientistas recomendaram que fossem realizados estudos regionais sobre o impacto de tais mudanças e possíveis respostas de políticas para elas, advertindo também que a destruição da camada de ozônio e as mudanças climáticas não podiam mais ser consideradas como questões isoladas.83 Enquanto isso os dados em outras áreas permaneceram incompletos ou pouco confiáveis. A conservação da vida selvagem fornece um exemplo. Sem um inventário completo das espécies do mundo é difícil saber quais estão em perigo, em que medida isso acontece e por quê. Apenas cerca de 1,6 milhão de espécies foram classificadas e denominadas; as estimativas do total real variam de cinco a trinta milhões.84 É cada vez mais aceito que exceto nos casos das espécies mais raras, onde a procriação em cativeiro pode ser essencial, a vida selvagem só pode ser efetivamente protegida em seu hábitat natural. Contudo esse hábitat está sendo constantemente alterado e explorado. Dados o ritmo de destruição de hábitats e a disseminação limitada de muitas espécies, é concebível que a extinção de espécies seja um acontecimento cotidiano. Ainda na década de 1960, os parques nacionais eram considerados como um método eficiente de proteger a vida selvagem; no final da década de 1970 já estava claro que poucos parques nacionais em países menos desenvolvidos poderiam continuar a existir sem benefícios econômicos mais óbvios para as 188 comunidades locais. As áreas naturais não poderiam perdurar "como ilhas fortificadas em mares de pessoas famintas", observou Eckholm.85 "Onde um grande número de pessoas carece de um meio de conquistar uma vida decente, algumas delas com certeza invadirão parques nacionais para plantar alimentos e cortar madeira (...) As reservas naturais não podem ser administradas com êxito isoladamente da sociedade local. Devem ser planejadas dentro do contexto do desenvolvimento regional mais amplo." Uma aspecto que causava particular apreensão era o estreitamento da base genética de muitos dos produtos agrícolas e animais de criação do mundo, tornando-os mais vulneráveis às pragas, doenças e mudanças do solo e do clima. A destruição das wetlands e das florestas tropicais úmidas juntamente com a poluição das águas litorâneas constiuíam ameaças graves aos recursos genéticos selvagens. Em 1974 foi criado em Roma o International Board for Plant Genetic Resources (IBPGR), a fim de coordenar e incentivar a coleta, preservação e intercâmbio de materiais genéticos vegetais. O grupo fez coletas de campo de material genético e repensou os melhores meios de conservar recursos genéticos. O registro de áreas para conservação in situ era incompleto, e a proteção nem sempre adequada; portanto as coletas de idioplasma exsitu eram consideradas necessárias. Muitos outros progressos foram realizados na conservação ex situ; o IBPGR promoveu coletas de base abrangendo mais de vinte dos produtos agrícolas mais importantes do mundo, incluindo trigo, arroz, milho e cevada.86 Em 1975 apenas oito instituições possuíam instalações para o armazenamento de sementes por períodos longos; em 1983 esse número já havia subido para 33. 87

Em 1982 o UNEP advertiu que "o número de parâmetros ambientais para os quais tendências globais podem ser estabelecidas quantitativamente podem ser contados nos dedos de uma das mãos".88 Holdgate e seus colegas concluíram que embora existissem dados relativamente completos sobre a produção de alimentos, pescado, crescimento populacional e desenvolvimento industrial, havia poucas informações confiáveis sobre poluição marinha e a situação de águas interiores, além de evidências conflitantes sobre as taxas de desmatamento de florestas tropicais. Escrevendo em 1982 eles concluíram que a comunidade mundial ainda não havia atingido uma das metas principais da conferência de Estocolmo: "a compilação, através de um programa global de monitoração, pesquisa e avaliação, de um quadro definitivo do estado do meio ambiente mundial”. 89 Além disso, embora os novos dados que haviam sido coletados fossem agora mais exatos, os mesmos tiveram o infeliz efeito de lançar dúvida sobre muitas avaliações ambientais anteriores; Holdgate e seus colegas observam que "por terem lançado dúvida sobre tantas das informações anteriores esses avanços prejudicaram as comparações que poderiam ter revelado mudanças no meio ambiente mundial entre 1970 e 1980".90 Não obstante, poucos poderiam agora negar o alcance global de muitos dos problemas ambientais. Num relatório de 1982 a OECD concluiu que "uma implicação importante da interdependência econômica e ecológica é que à medida que esta última aumenta, inevitavelmente a capacidade dos governos de lidar unilateralmente com problemas numa escala nacional diminuirá".91 Sempre haveria problemas locais ou nacionais exigindo respostas apropriadas, mas as respostas bilaterais e regionais haviam se mostrado viáveis quando bem planejadas. No final das contas os problemas do meio ambiente global exigiam respostas globais viáveis. A COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO Em setembro de 1983, 38 anos depois da UNSCCUR e 11 anos depois de Estocolmo, a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução que pedia a criação de uma nova comissão independente, encarregada de abordar a questão da relação entre meio ambiente 189 e desenvolvimento, e de compilar propostas "inovadoras, concretas e realistas" para lidar com essa questão. A Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento resultante realizou sua primeira reunião em Genebra, em outubro de 1984, sob a presidência de Gro Harlem Brundtland, primeira-ministra do Partido Trabalhista da Noruega durante nove meses em 1981 (e novamente a partir de maio de 1986). A comissão tinha 23 membros - 12 do Terceiro Mundo, sete do mundo industrializado (entre eles Maurice Strong) e quatro do bloco comunista. Um crescimento sem precedentes das pressões sobre o meio ambiente global havia tornado lugarcomum previsões graves sobre o futuro, observou a comissão; um futuro mais seguro, justo e próspero exigia políticas dirigidas à sustentação da base ecológica do desenvolvimento e à alteração da natureza da cooperação entre governos, empresas, ciência e povos. Evitando uma reiteração dos problemas e tendências que já haviam sido bem contemplados pelo Global 2000 e outros relatórios, a comissão selecionou oito questões fundamentais (inclusive energia, indústria, segurança alimentar, assentamentos humanos e relações econômicas internacionais) e examinou-as a partir da perspectiva do ano 2000. Entre março de 1985 e fevereiro de 1987 patrocinou mais de 75 estudos e relatórios, realizando também conferências ou audiências públicas em dez países e acumulando assim as visões de uma seleção impressionante de indivíduos e organizações. Em 1987 o relatório da comissão foi publicado sob o título de Our Commom Future.92 O relatório concluiu que meio ambiente e desenvolvimento estavam inextricavelmente unidos e que as respostas de políticas existentes eram deficientes pelo fato de que as instituições existentes tendiam a ser independentes, fragmentárias, excessivamente limitadas na sua perspectiva e preocupadas demais com o enfrentamento de efeitos e não de causas. (Daí problemas como a poluição ácida serem muito freqüentemente abordados como problemas de políticas distintas.) As metas desses organismos eram com excessiva freqüência concentradas no aumento do investimento, emprego, alimentos, energia e outros bens econômicos e sociais, e não na sustentação do capital de recursos ambientais do qual tais metas dependiam.93 As fronteiras nacionais haviam-se tornado tão porosas que as distinções entre questões locais, nacionais e internacionais se haviam diluído; as políticas domésticas cada vez mais tinham efeitos muito além das fronteiras nacionais (por exemplo, mais uma vez a poluição ácida). Era necessária uma maior

cooperação internacional, mas os organismos internacionais - notadamente o sistema da ONU - estavam sitiados no momento em que mais se precisava deles. Além disso, concluiu a comissão, a política ambiental com excessiva freqüência era colocada em segundo plano; os organismos ambientais muitas vezes sabiam sobre novas iniciativas nas políticas econômicas, comerciais e energéticas (com possíveis conseqüências para os recursos) muito depois das decisões efetivas terem sido tomadas. Já era tempo de que "as dimensões ecológicas das políticas (fossem) consideradas ao mesmo tempo que as dimensões econômicas, comerciais, energéticas, agrícolas, industriais e outras - nas mesmas agendas e nas mesmas instituições nacionais e internacionais".94 Os organismos nacionais de proteção ambiental precisavam de fortalecimento urgente, particularmente nos países menos desenvolvidos; o trabalho do UNEP precisava ser reforçado e estendido (sobretudo através de um aumento de fundos); a monitoração e a avaliação precisavam de melhor focalização e coordenação; os elaboradores de políticas precisavam trabalhar em contato mais íntimo com as ONGs e a indústria; as convenções legais e internacionais precisavam de fortalecimento e de melhor implernentaçâo; e a ONU devia trabalhar no sentido de uma declaração universal c, posteriormente, uma convenção sobre proteção ambiental e desenvolvimento sustentável. Redclift vê na crítica feita pela comissão de Brundtland sobre a administração ambiental convencional e na visão global da comissão o mais radical afastamento, até hoje, dos enfoques anteriores voltados para o desenvolvimento sustentável. Contudo, mesmo antes 190 da publicação final do relatório, ele considerou improvável que os países mais desenvolvidos ou os países menos desenvolvidos viessem a agir no sentido das medidas recomendadas por Brundtland; não poderiam fazê-lo "sem se envolverem numa reforma estrutural muito radical, não apenas nas metodologias para a avaliação das perdas de florestas ou da erosão do solo, mas do próprio sistema econômico internacional”.95 Se esse processo de reforma havia começado ou se poderia suplantar as atitudes econômicas e políticas convencionais em relação aos recursos naturais, essas eram questões que atingiam o coração mesmo das metas e filosofias do movimento ambiental. Quase 125 anos haviam-se passado desde a criação do primeiro organismo governamental de controle da poluição e 101 anos desde o primeiro acordo ambiental internacional. Nos vinte anos anteriores ao relatório de Brundtland mais de 130 países haviam criado novos órgãos ambientais, mais de 180 acordos internacionais haviam sido assinados, alguns milhares de ONGs ambientais haviam sido formadas e as Nações Unidas haviam criado um novo programa ambiental global. Boa parte da estrutura já existia. O processo de reforma certamente havia começado. 190 FOLHA EM BRANCO 191

CONCLUSÃO Rumo ao Século XXI
O movimento ambientalista percorreu um longo caminho em um século. Seu início foi realmente humilde: um grupo de mulheres inglesas preocupadas com os danos que sua moda infligia aos pássaros selvagens, homens de letras nos cafés arengando contra os smogs que sufocavam suas cidades, especialistas florestais e botânicos trabalhando isolados na África e na Ásia para refrear a derrubada descontrolada de florestas, um roceiro barbado e um refinado intelectual de Yale às turras sobre os esplendores naturais da América do Norte, e um bando de naturalistas, ilustradores e fotógrafos se empenhando para educar a sociedade quanto às belezas da natureza indômita, A partir desses e de outros acontecimentos tomou forma um movimento global de massas que deixou poucas sociedades intocadas. O meio ambiente tornou-se uma questão política que atravessa horizontalmente os campos políticos tradicionais, a raison d'être de novas burocracias e de novos partidos políticos inteiros, o objeto de corpos de legislação novos e complexos, o tema de programas de pesquisa nacionais e multinacionais, e a causa de um movimento de massas que mobiliza cerca de dez milhões de pessoas.

Através de tudo isso, o movimento ambientalista forjou três modificações significativas nos valores humanos. Primeiro, instigou a redes coberta de uma das mais fundamentais realidades da existência humana: que a humanidade é totalmente dependente de um meio ambiente natural saudável. A apreciação dessa verdade básica foi perdida através dos milênios em função do progresso do desenvolvimento industrial e agrícola. O homem primitivo via a natureza insubmissa como ameaçadora e perigosa. À medida que se empenhou em controlar a natureza e, em seguida, explorar os recursos naturais de maneira mais eficiente e lucrativa, a natureza se tornou menos ameaçadora. Mas a ameaça de um meio ambiente insubrnisso foi removida para dar lugar à ameaça de um meio ambiente supercontrolado. O homem tecnológico começou a entender a ironia, e nisso reside a segunda faceta significativa do ambientalismo: o mesmo representa uma readaptação ao legado da tecnologia. Os primeiros ambientalistas perceberam que as mudanças geradas pelas revoluções agrícola e industrial cobraram, em última análise, um preço demasiado alto à natureza. Os vitorianos de boa escolaridade, com sua nova apreciação da natureza, foram os primeiros a se rebelar em número significativo contra a poluição do ar e da água, e contra a perda das áreas virgens e da vida selvagem. Mas não existia um sentido universal de alarme. Duas guerras mundiais, várias guerras regionais e uma depressão econômica severa se combinaram para desviar a atenção de volta para problemas mais imediatos. Somente na segunda metade deste século, com a ascensão de uma nova classe média, a expansão da educação e a emergência de dois terços da população mundial das sombras 192 do colonialismo, é que as questões dajustiça social, econômica e política começaram a ser enfrentadas por mais do que uns poucos privilegiados. O meio ambiente era uma dentre várias questões desse teor. Inglehart caracteriza a mudança de atitude como "uma revolução silenciosa", um deslocamento da ênfase assoberbante sobre os valores materiais e a segurança física em direção a uma maior preocupação com a qualidade de vida. 1 Houve sugestões de que a unidade tradicional com a qual se media o progresso nas sociedades industriais - crescimento econômico - não era mais apropriada. Ophuls e outros argumentaram que muitas das crenças sociais dominantes, gestadas em tempos de abundância, necessitavam ser redimensionadas à luz da crescente penúria ecológica.2 Para Pirages os problemas ambientais na sociedade industrial tinham suas raízes no Paradigma Social Dominante, um conjunto de crenças e valores que incluía os direitos de propriedade privada, a fé na ciência e na tecnologia, o individualismo, o crescimento econômico, a sujeição da natureza e a exploração dos recursos naturais.3 A poluição, a carência energética e até mesmo a inflação, a recessão econômica e o desemprego desafiaram o Paradigma Social Dominante.4 O temor acerca dos limites do crescimento e das implicações da má administração ambiental deram lugar a uma nova visão de mundo, mais compatível com os limites ambientais. Essa visão, que até pode ser uma ideologia, foi chamada de Novo Paradigma Ambiental.5 Em seu cerne há um clamor por um tipo de sociedade inteiramente novo, baseado em produção e consumo cuidadosamente considerados, conservação de recursos, na proteção ambiental e nos valores básicos de compaixão, justiça e qualidade de vida. Milbrath sugere que os ambientalistas constituem uma vanguarda que utiliza educação, persuasão e política para tentar atrair as pessoas para sua visão de uma sociedade nova e mais sustentável. 6 Nisso eles sofrem oposição de uma retaguarda (personificada por Julian Sirnon e Herman Kahn) que acredita que as sociedades industriais funcionam muito bem, que não há limites para a engenhos idade humana e que a sociedade industrial produz a maior parte da riqueza e os arranjos econômicos, políticos e sociais mais equânimes. O terceiro aspecto significativo do ambientalismo reside no desafio que faz aos modelos ortodoxos de crescimento econômico, seja capitalista ou socialista. Nos países mais desenvolvidos é um desafio frontal à produção e ao consumo impensados e não regulamentados; nos menos desenvolvidos trata-se de um desafio à presunção de que o modelo industrial seja a estrada mais efetiva para um desenvolvimento rápido e igual. Num texto muito discutido de 1966 o historiador medieval Lynn White relacionou a destruição histórica da natureza com o antropomorfismo judaico-cristão.7 O cristianismo, argumentava, era a mais antropocêntrica das religiões, pregando ser desejo de Deus que o homem explorasse a natureza para seus próprios fins; o homem tinha um domínio outorgado por Deus "sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela a terra" (Gênesis 1:26). Deus disse aos homens: "sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a"; (Gênesis 1:28). A ciência e a tecnologia ocidentais, argumenta White, foram "tão

impregnadas pela arrogância cristã em relação à natureza que não se pode esperar nenhuma solução advinda somente delas". Moncrief combate a tese de White argumentando que as culturas exteriores à esfera judaico-cristã passaram por experiências semelhantes de modificações ambientais dramáticas: "nenhuma cultura foi capaz de filtrar completamente as tendências egocêntricas dos seres humanos",8 Isso pode ser· verdadeiro, mas em termos de amplitude e volume os problemas ambientais mais graves só ocorreram nos últimos 150 anos, na proporção da disseminação da revolução industrial e da ocupação e colonização européias da África e de outros continentes. Na África subsaariana, os mais sérios problemas se sucederam na interação das sociedades tradicional e industrial, onde as exigências desta última foram impostas sem muita consideração pelas implicações para a primeira. 193 Certamente o ambientalismo forçou uma reconsideração das prioridades e princípios do crescimento. Desde o fmal da década de 1960 a natureza do debate foi fundamentalmente alterada pelas perspectivas rivais dos países "mais" e "menos" desenvolvidos e entre comunidades no seio de uma mesma nação. Os ambientalistas ocidentais podem ainda estar mais imediatamente preocupados com questões domésticas, mas - no nível global - algumas das mudanças filosóficas mais importantes para o ambientalismo derivaram da influência dos países menos desenvolvidos. Em 1972, observam Holdgate, Kassas e White, os problemas ambientais tendiam a ser vistos "individualmente, simplisticamente e de um ponto de vista exàgeradamente ocidental"9 segundo o qual os ambientalistas advertiam sobre os malefícios do crescimento econômico. Nos países menos desenvolvidos, contudo, os benefícios potenciais do crescimento econômico não eram questionados. Confrontados como estavam com os problemas imediatos e visíveis da pobreza, esses países encaravam a administração ambienta! como uma preocupação distante, quando não um freio efetivo ao desenvolvimento. Uma década mais tarde, em contraste, havia uma aceitação bem maior (em palavras se não em atos) do conceito de desenvolvimento sustentável. Na Sessão de Caráter Especial do UNEP (realizada em Nairobi em 1982 para marcar o décimo aniversário da conferência de Estocolmo), relembra Sandbrook, os governos "expressaram preocupação" com os danos que estavam sendo infligidos a seus ambientes naturais, "os quais afetam de maneira adversa seu desenvolvimento e as condições de vida de muitos de seus povos".10 O Centro de Ciência e Meio Ambiente da Índia argumentou que não poderia haver um "desenvolvimento econômico racional e equânime sem conservação ambiental. A degradação ambiental resulta invariavelmente em desigualdade econômica na qual o pobre sofre mais. A degradação ambiental e a injustiça social são duas faces da mesma moeda".11 Não somente muitos dentre os países menos desenvolvidos pareciam agora de fato convencidos dos benefícios econômicos da administração ambiental, mas a contribuição que deram para o debate internacional sobre o meio ambiente teve o efeito adicional de introduzir uma nota de realismo no ambientalismo da Europa Ocidental e da América do Norte. O ponto de vista simplista inicial de alguns Novos Ambientalistas, segundo o qual todo crescimento estaria errado e seriam incompatíveis os objetivos do desenvolvimento econômico e da administração ambiental sadia, foi substituído pela visão mais realista de que os objetivos de ambos tinham que ser reconciliados. Em vez de serem mutuamente excludentes, os objetivos do desenvolvimento e da administração ambiental eram mutuamente dependentes. As definições freqüentemente reacionárias das questões ambientais que tiveram lugar antes de Estocolmo foram gradualmente (se não totalmente) substituídas por atitudes mais conciliatórias e tentativas de concretizar compromissos realistas. O FUTURO DO AMBIENTALISMO "O relato de minha morte", observou certa vez um robusto Mark Twain, "foi um exagero." Ele poderia estar falando em nome do movimento ambientalista. Com regularidade persistente e desorientada o ambientalismo foi declarado morto, à morte ou defunto desde quase pouco antes de ter nascido. Já em 1954 Grant McConnell lamentava que a América não veria novamente algo parecido com o movimento conservacionista progressista.12 Em 1972 Anthony Downs advertia que a maioria das questões sociais acabava, mais cedo ou mais tarde, entrando num estágio de limbo prolongado (embora tenha concedido que as questões ambientais poderiam conservar seu interesse por mais tempo)13 Em 1975 James Bowman percebeu um declínio gradual

no interesse intenso pelo meio ambiente.14 Em 1976 Riley Dunlap e Donald DiIlman escreveram sobre um "dramático declínio do apoio aos programas de proteção ambiental".15 Em 1980 Francis Sandbach, citando pesquisas 194 de opinião e a diminuição do espaço nos jornais, não via razões para discordar de Bowman.16 Sobre esse pano de fundo as opiniões de Clay Schoenfeld representavam claramente as de uma minoria. Longe de ser uma coqueluche passageira, argumentava ele em 1972, o movimento ambientalista (ao menos nos Estados Unidos) parecia destinado a ser uma presença permanente17 por várias razões. Em primeiro lugar, a degradação ambiental era um problema de alta visibilidade que milhões de pessoas podiam ver, cheirar, provar o gosto e ouvir. Segundo, o ambientalismo não era um movimento inteiramente novo; tinha desde há muito uma estrutura sólida e estabelecida a partir da qual poderia operar e se expandir. Em terceiro, a diversidade inerente ao movimento permitia um prognóstico otimista quanto à sua sobrevivência. Quarto, a afluência deu a mais pessoas a oportunidade de fazer escolhas difíceis. Finalmente, o movimento tinha uma boa dose de integridade interna pelo fato de fazer parte de uma mudança de valores coerente e fundamental. Certamente houve pesquisas de opinião durante os anos 70 que pareciam indicar o declínio do apoio ao movimento ambiental. Mas houve desde então a mesma quantidade delas que têm indicado exatamente o oposto.18 Nenhuma chegou a captar o essencial. A robustez e a significação de um movimento nem sempre podem ser medidas através de pesquisas de opinião porque muitos vêem o movimento ambientalista de uma perspectiva limitada tanto em termos históricos quanto geográficos. Para aqueles europeus e americanos que viveram o auge do ambientalismo de massa dos anos 60 e 70, a relativa sobriedade do final dos anos 70 e começo dos anos 80 ocupados que estavam com a recessão econômica e a crise energética, e depois com a afluência que regressava e o conservadorismo político - deve ter parecido anticlimático. O ambientalismo das ruas declinou, é verdade; mas o movimento mais amplo não. Ao invés disso, transformou-se. Durante a década de 1960, fixou-se na arena dos protestos de massa e da ação de cidadãos; no começo dos anos 80 já havia escalado (e, em alguns casos, conseguido penetrar) a muralha da cidadela das políticas públicas. Durante a década de 1960 os ativistas pediam mudanças na elaboração das políticas, nos objetivos do planejamento e nos valores econômicos e sociais; no final dos anos 70 suas reivindicações estavam sendo lentamente atendidas. Com freqüência as ações dos governos e a eficácia das legislações deixaram muito a desejar qualitativamente, mas não há contestação quanto ao advento "do meio ambiente" como uma questão de política pública. Em manifestos, plataformas e discursos de campanha a energia e o ambiente tomam regularmente seu lugar ao lado de declarações sobre economia e política externa, previdência social, educação, criminalidade, saúde, agricultura e outras áreas mais "tradicionais" da política. Em 1987 sugeria-se até que os verdes da Alemanha Ocidental já estavam em declínio porque suas políticas ambientais estavam sendo adotadas por partidos maiores e mais antigos.19 O meio ambiente tornava-se cada vez menos partidário. Entretanto, à medida que se aproxima o século XXI e que a natureza do ambientalismo continua a mudar é dificil saber se devemos estar otimistas ou pessimistas quanto ao futuro. Os sinais são dúbios. Na coluna dos créditos, houve uma notável mudança de atitude . • No nível mais fundamental, o estilo de vida da classe média ocidental está mudando: as pessoas estão dirigindo automóveis que têm maior índice de aproveitamento de combustível, economizando energia dentro de casa, reduzindo o tamanho de suas famílias e dando apoio aos grupos ambientalistas e a seus objetivos. A consciência ambiental é cada vez mais assumida como um pressuposto . • Há outros exemplos da responsabilidade empresarial, notadamente através da crescente incidência dos relatórios de impacto ambiental. O nivel alcançado ainda está longe de ser perfeito e as raízes dessa mudança podem não ser tão honoráveis quanto 195 parecem (ainda não é sempre que a responsabilidade social consegue superar a motivação do lucro), mas a tendência dá esperanças.

Movimentos de cidadãos e movimentos de base nos países mais e menos desenvolvidos estão registrando níveis igualmente impressionantes de realizações. Na Grã-Bretanha, o National Trust isoladamente assegurou a proteção perpétua a milhares e milhares de hectares no campo. No Quênia, o Movimento Cinturão Verde colaborou no sentido de transformar o plantio de árvores numa cruzada nacional. No México, Malásia e Índia movimentos de cidadãos desempenham um papel crescente nas decisões' de planejamento. Nos Estados Unidos os grupos ambientais têm-se mostrado eficazes no uso do lobby e repetidamente fizeram do meio ambiente uma questão de política nacional, estadual e local. Embora ainda longe da perfeição, o número de órgãos governamentais e instituições que lidam com o meio ambiente cresceu. Esses organismos têm sido apoiados por um corpo crescente de legislações local, nacional e internacional. A elaboração das políticas - embora com freqüência ainda limitada pelas restrições da ideologia e de acervo incompleto de dados - está se aperfeiçoando. Paralelamente ao sucesso dos partidos verdes na Europa Ocidental, partidos estabelecidos mais antigos têm dado mais atenção ao meio ambiente como área de atuação política. O meio ambiente tem tido, tradicionalmente, mais aceitação no eleitorado de ideologia política moderada/liberal, mas o ano de 1988 assistiu a sinais de um novo interesse dentre os conservadores anti-regulamentação. Durante a campanha presidencial americana de 1988, George Bush fez declarações consideravelmente mais fortes sobre o meio ambiente do que Ronald Reagan jamais se sentiu inclinado a fazer (ainda que a questão tenha persistido como reserva intelectual de seu oponente democrata Michael Dukakis). Ainda mais surpreendentemente, Margaret Thatcher - depois de anos de ardente oposição à regulamentação governamental (especialmente em questões ambientais) e de pressão crescente de ambientalistas e membros de seu próprio partido - aparentemente empreendeu uma abrupta conversão ao ambientalismo. Em outubro de 1988 ela declarou repentinamente que proteger o equilíbrio da natureza era um "dos grandes desafios" do final do século XX e convocou uma ação urgente para salvaguardar a camada de ozônio, restringir a poluição ácida e evitar o aquecimento global do clima do planeta. O anúncio pegou muitos ambientalistas de surpresa; pareceu a alguns dentre eles que o Partido Conservador estava fazendo uma tentativa de reivindicar o ambientalismo como reserva natural da direita. Os dados ainda permanecem muito incompletos, mas sabe-se muito mais do que apenas há uma década sobre o estado do meio ambiente e sobre o tipo de proteção que o mesmo precisa. A pesquisa ambiental é mais coordenada e efetiva; o IBP, o MAB, o Earthwatch e o GEMS proporcionaram uma compreensão melhor da interconexão de causa e efeito nos problemas ambientais. Os novos dados revelaram mais claramente o alcance geográfico dos problemas ambientais. Quer os partidos verdes continuem a existir em sua forma atual, quer venham a definhar à medida que suas políticas sejam adotadas pelos partidos mais antigos, o advento da política verde já abalou nossas pressuposições sobre o velho eixo esquerda/direita na política. Muitos verdes argumentam que é necessária uma filosofia política inteiramente nova para responder adequadamente às necessidades do ambientalismo e que o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo em todos os matizes existentes são por demais "inecológicos". Jonathon Porritt, uma figura eminente do British Green Party,

196. argumenta que a política verde "desafia a integridade das ideologias [existentes], questiona a filosofia que lhes é subjacente e debate fundamentalmente as noções de racionalidade hoje aceitas".20 • O ambientalismo já ultrapassou a desesperança dos profetas do apocalipse e adentrou uma fase mais madura e comedida na qual o conhecimento acumulado dos dois últimos séculos, e particularmente das duas últimas décadas, se presta cada vez mais a um uso considerado e efetivo. Os planejadores nos países mais e menos desenvolvidos começaram a concordar na visão de que muitos problemas ambientais são tanto uma preocupação global quanto local. A natureza e o alcance do trabalho dos

organismos internacionais são por si mesmos evidências de uma visão mais ampla e mais racional das questões e dos problemas ambientais. Todavia, a despeito desse progresso, existem problemas que não podem ser ignorados na coluna de débitos do balancete. Embora exista mais certeza sobre as ameaças ao meio ambiente, há talvez menos certeza sobre as perspectivas de enfrentamento dessas ameaças. • Apesar da criação de novos órgãos ambientais e da aprovação de nova legislação nos países mais desenvolvidos, a vontade política de implementar o espírito - sem falar na letra - da proteção ambiental é bastante desigual. A ascensão de forças materialistas anti-regulamentação sob o reaganismo e o thatcherismo, que davam prioridade aos interesses imediatos sobre os de longo prazo, se combinou em meados dos anos 80 com uma recessão econômica para reduzir os recursos alocados no enfrentamento de problemas ambientais. Holdgate, Kassas e White argumentam que a proporção existente entre palavras e ação é muito fortemente inclinada em benefício das primeiras.21 Eckholm observa que embora a compreensão pública dos imperativos ambientais tenha aumentado na década pós-Estocolmo e novas instituições necessárias tenham evoluído, "muitas das forças sociais, econômicas e tecnológicas que estão na base das dificuldades ambientais mal chegaram a ser questionadas”.22 É freqüentemente difícil saber o que está acontecendo nas economias centralmente planejadas. A poluição do ar na Polônia e na Tchecoslováquia quase não tem precedentes em sua gravidade; 23 o acidente de Chernobyl levantou questões sobre as prioridades dos planejadores e administradores soviéticos; combinado com os relatórios sobre a grave poluição do lago Baikal, o acidente também levanta questõessobre a qualidade do meio ambiente em outros lugares na União Soviética. Pode haver esperança para o futuro, entretanto; durante 1988 e 1989 a administração e a proteção ambientais figuraram com destaque crescente nas declarações políticas do presidente Gorbachev. Despontavam uma franqueza, uma honestidade e uma segurança sobre a política ambiental soviética que estavam ausentes sob Leonid Brezhnev; a administração ambiental racional pareceu ter capturado a própria essência da glasnost e da perestroika. A litania de problemas que afligem os países menos desenvolvidos cresce com uma persistência preocupante. Incidentes como os de Bhopal e de Ixhuatepec não somente lançam uma sombra sobre as prioridades de planejamento e desenvolvimento, mas como a maioria de suas vítimas era constituída de favelados - sublinha também os profundos problemas sociais e econômicos do Terceiro Mundo, onde a desigualdade econômica está criando uma subclasse em expansão e onde o crescimento populacional freqüentemente ultrapassa a oferta de habitações, água limpa e saneamento. A África subsaariana proporciona graves motivos de preocupação. Problemas como

197 a espiral ascendente de crescimento da população, erosão disseminada de solos, produção deficiente de alimentos, instabilidade política, incompetência burocrática, termos desiguais de comércio, prioridades mal orientadas de desenvolvimento, guerra civil, corrupção e má administração econômica se combinaram de maneira demasiado freqüente vindo a produzir um subcontinente em crise. Se as tendências atuais se mantiverem, a região está fadada a nada menos do que uma catástrofe ambiental e humana . • Dominando a quase tudo esteve o surgimento, em primeiro lugar, de problemas que afligiam muitas áreas diferentes do planeta (poluição ácida, resíduos tóxicos, contaminação nuclear, derrubada de florestas e mortandade de animais selvagens) e, depois, de problemas que afligiam o planeta como um todo. Acordos sobre o tratamento das ameaças à camada de ozônio foram alcançados de maneira notavelmente rápida; mais sério agora, entretanto, é o problema do efeito estufa. Com o uso crescente do carvão, petróleo e gás natural, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra

cresceu de maneira constante desde a Revolução Industrial. Atuando como uma estufa, esse CO2 vem retendo a radiação solar dentro da atmosfera da Terra. Advertências sobre o aquecimento global foram feitas já em 1970. Na época soaram muito como ficção científica, com sugestões aparentemente fantásticas de que um clima mais quente levaria a mudanças nos padrões de produção agrícola, ao derretimento das calotas polares e ao aumento dos níveis globais dos mares, inundando muitas áreas costeiras. Nos últimos anos da década de 1980, essas advertências começaram a parecer muito mais reais. Para muitos dos que passaram pela seca americana de 1988 deve ter sido difícil não acreditar que a mudança climática havia séria e finalmente começado. As temperaturas elevaram-se drasticamente, mantendo-se entre os 35°C e 40°C) durante semanas a fio. A falta de chuvas provocou a queima da vegetação e levou a uma quebra na produção de milho e soja em boa parte do Meio Oeste. Os níveis da água no Mississippi caíram, deixando barcaças encalhadas ao longo das regiões mais altas. Durante boa parte dos meses de agosto e setembro, grandes parcelas das florestas do Oeste montanhoso queimaram; dentre as regiões mais prejudicadas estava o Parque Nacional de Yellowstone. A fumaça dos incêndios chegou até St. Louis e Chicago. Quer fosse realmente parte do efeito estufa ou simplesmente o extremo cíclico mais recente do modelo climático continental; o fato deu a muita gente uma amostra das possíveis conseqüências do aquecimento global produzido pela mão do homem. Um problema verdadeiramente planetário como esse exige respostas políticas muito diferentes de tudo que já aconteceu até hoje. Em 1982 o UNEP publicou The World Environment 1972-1982 como um balanço dos "primeiros dez anos nos quais a humanidade [havia] consciente e cooperativamente tentado a administração racional" do planeta. Em seu prefácio o diretor executivo do UNEP, Mostafa Tolba, observou que "ações preventivas ao invés de curativas vinham ganhando impulso e ampla aceitação" e que a importância da cooperação internacional havia sido trazida para o centro das atenções. Mas, advertiu, "dez anos depois de Estocolmo, está claro que ainda temos um conhecimento muito imperfeito do estado dos componentes principais de nosso meio ambiente e dos mecanismos de interação", e enfatizou a necessidade de um planejamento de longo prazo: "os problemas que nos assoberbam hoje são precisamente aqueles que em função de uma [falta de previsão] semelhante falhamos em resolver decadas atrás".24 Em nível global descobrir e compreender o que é preciso em termos de administração de recursos é muito mais fácil do que implementar realmente programas administrativos 198 multinacionais. A ciência fornece uma compreensão dos mecanismmos dos problemas ambientais, mas as causas e soluções são em última análise uma questão de valores humanos e de comportamento humano. Na análise final o meio ambiente é uma questão política. Quer sejam ou não as soluções efetivamente aplicadas, as mesmas continuam dependendo da política e de políticas práticas, da atitude dos líderes, partidos e seus eleitorados, e de um complexo sistema cooperativo e de referências cruzadas envolvendo organismos internacionais, órgãos ambientais nacionais, organizações não governamentais e de uma série de convenções e acordos internacionais de cumprimento freqüentemente não obrigatório. Quaisquer que sejam, entretanto, os prognósticos de curto prazo, as mudanças de longo prazo na atitude foram animadoras para o movimento ambientalista. Bowman vê o ambientalismo como o último estágio do processo que trouxe o homem "do temor para a compreensão, para o uso, o abuso e, agora, para a preocupação com o mundo físico e biológico à sua voIta".25 Houve uma tendência marcada evoluindo da noção do meio ambiente como algo divorciado da humanidade em direção a um novo foco sobre os custos humanos da deterioração ambiental e da má administração. Não se trata mais simplesmente de saber o que o homem está fazendo com o meio ambiente, mas o que a espoliação do meio ambiente está fazendo ao homem. Os ambientalistas argumentam que não podemos mais considerar o meio ambiente como garantido. Já é tarde demais para salvar muitas espécies e hábitats, e outras mais irão sem dúvida sofrer em função do desenvolvimento irrefletido. A poluição foi obstada ou reduzida em algumas partes do mundo, mas tornouse pior em outras. Florestas e terras férteis estão sendo perdidas em algumas partes e restauradas em outras. Mais cedo ou mais tarde, um equilíbrio praticável deve ser consumado entre as necessidades do homem e as da natureza. Não importa quanto tempo isso demore, o relacionamento entre os humanos e seu meio ambiente jamais voltará a ser·como já foi, e isso foi asseguarado pela ascensão do movimento ambientalista.

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APÊNDICE Enquanto isso, na terra do pau-brasil ... Alfredo Sirkis *
Rumo ao Paraíso é uma bem fundamentada reconstituição histórica do ambientalismo em escala planmetária, desde suas raízes históricas remotas até a presente ascenção da ecologia política como movimento antecipador do 32 milênio. É uma leitura importante para o público brasileiro, tão saturado de mensagens ''verdes'' mas tão carente de uma informação mais rigorosa e precisa, indispensável para a afirmação de uma cultura ecol6gica. Nosso país carrega no pr6prio nome o estigma da devastação ambiental. Desde a carta de Pero Vaz de Caminha se cantam louvores à natureza pujante da ilha de Vera Cruz enquanto se devasta e saqueia, impiedosamente, a terra do pau-brasil. Já no Brasil Colônia, entretanto, o interminável ciclo das devastações era pontuado por lamentos conservacionistas como os de frei Vicente Salvador. Essa dicotomia entre o amor e a devastação do paraíso é bem da tradição colonial lusitana: a famosa diferença entre intenção e gesto, do coração sentimental, que se desabotoa, da mão cega que executa. O Brasil independente manteve a tradição, do império à velha república: ao longo de cinco séculos a Mata Atlântica foi desmatada em 97% pelos ciclos do açúcar e do café, pela industrialização e pela urbanização. Para além da nostalgia de um Gonçalves Dias ou do ufanismo poético de um Osório Duque Estrada, para além de leis conservacionistas da burocracia pombalina, como as adotadas sob a influência de José Bonifácio e André Rebouças, a maior epopéia conservacionista brasileira foi o reflorestamento da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, pelas mãos do major Archer e seus escravos, no final do século XIX, num momento em que já aparecia com nitidez o desastre ecol6gico provocado pelos desmatamentos das fazendas de café, afetando os mananciais de água que abasteciam a então capital do Império. De lá para cá a terra do pau-brasil - hoje extinto fora dos jardins botânicos continuou a testemunhar a devastação ambiental: a destruição do verde, a poluição das águas e a organização destruidora do crescimento urbano desordenado com seu séquito de taras sociais e ecol6gicas se realimentando num motocontínuo. O quadro foi sê agravando até chegar à sua expressão máxima, durante o "milagre econômico" do regime militar, de 1964 a 1975, quando se consumaram a supersaturação das megalópoles, Cuba*ALFREDO SIRKIS, 41, é escritor, jornalista, vereador pelo Rio de Janeiro e presidente nacional do Partido Verde (PV).

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tão, a devastação de quase 10% da floresta amazônica, o primado absoluto do automóvel e a primeira usina nuclear. Também se chegou - dialeticamente, diriam - ao ponto de mutação de consciência e de práxis que marca o nascimento do ambientalismo como agente social significativo. Os embriões do atual movimento ambientalista se insinuam nas frestas estreitas da ditadura militar do período Ernesto Geisel, na saída dos anos de chumbo para os da luta pela anistia, embora sua gênese remonte aos anos de terror e ufanismo do governo Médici: a AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural) começou a ser articulada em 1970 e foi fundada em 1971. Seus primeiros protestos e mobilizações, contra a poluição do rio Guaíba e a forte fedentina dos efluentes da Borregard Celulose datam de 1972. Apresentava-se então como um movimento absolutamente apolítico.Tinha como liderança mais visível um ex-funcionário de uma multinacional de agrotóxicos, José Lutzemberger, que se convenceu dos malefícios desses produtos, e, como aliadas, senhoras da alta sociedade gaúcha próximas dos círculos de poder e insuspeitas de qualquer intenção subversiva. Ainda assim, o incipiente movimento era estritamente vigiado pela multitentacular comunidade de segurança e informações do regime militar. O surgimento dessa primeira onda de ambientalismo, com epicentro no sul do país, registrava apenas um pequeno atraso em relação ao nascimento e desenvolvimento de movimentos análogos nos anos 70, na Europa e nos Estados Unidos. De todos os países latino-americanos, o Brasil foi aquele em que mais rapidamente o discurso ambientalista foi apropriado e difundido. Enquanto o governo militar fazia publicar nas principais revistas da Europa e Estados Unidos uma publicidade que convidava: "Venha nos poluir!" esses círculos emergentes ligavam-se nas mobilizações dos verdes europeus contra o desastre químico de Seveso, a poluição do Reno, a chuva ácida, as usinas nucleares. O acordo nuclear Brasil-Alemanha, em 1975, estimulou os primeiros contatos com o país em que, por um lado, a multinacional KWU nos vendia o passe ao nuclear mas onde, por outro lado, os ambientalistas brasileiros entravam em contato com o movimento ecologista e alternativo que daria origem ao primeiro partido verde europeu: Die Grünen, Em meados dos anos 70 o movimento ecologista começou a se perfilar como personagem do cenário político e cultural da sociedade, e desde então cresceu, em sua forma multifacetada, numa proporção sem precedentes desde as idéias socialistas gestadas no final do século passado. A explosão da questão ecológica - com todas as suas contradições - é o fato cultural maior da humanidade, neste final de século. Aqui como nos países do norte, essa explosão da ecologia, que se tornou exponencial no final dos anos 80, teve como precursores aqueles embriões organizados de ambientalistas. Sua emergência como fenômeno cultural e político, porém, deu-se na junção desse ambientalismo com ageração dos baby boomers, a numerosa tribo de 68. U ma geração rebelde ativista, iconoclasta, daria um poderoso megafone a essas idéias cuja existência, na época do seu desabrochar, nem sequer conhecia. Nos anos em que os modelos eram Sierra Maestra e o delta do Mekong, quem imaginaria os filhos de Che Guevara e os sobrinhos de Ho Chi Minh protestando algum dia por causa de uma árvore cortada ou da fumaça de uma chaminé de fábrica? A princípio, no plano do discurso ideológico, o pensamento de esquerda da geração 68 nada tinha a ver com defender a natureza, pois estava voltado para a resistência à tirania política e a luta contra a exploração e a miséria que, na sua visão, só a revolução socialista poderia resolver. Ainda assim notam-se, já em 1968, sinais profético-poéticos desse futuro ''verdismo''. Em primeiro lugar na cultura ou na contra cultura. Uma raiz poética, antecipadora da política verde no Brasil, é sem dúvida o movimento tropicalista, com seus poetas e cantores: Caetano, Gil, Capinam. "Viva a mata-ta-ta, viva a mulata-ta-ta-ta" no país onde "os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis." Girassóis que os verdes europeus escolheriam mais tarde para seu símbolo. Além da raiz poética, com seus signos antecipatórios daquilo 217 que o discurso lógico, político, somente alcançaria anos mais tarde, 1968 traria outros aportes ao futuro movimento: um espírito libertário, a contestação comportamental, a vertente comunitário-rural do ideário hippie, a perseguição de uma utopia e a descoberta da necessidade de uma revolução interior, todas facetas que conviveram simbioticamente com o élan de rebeldia, ao mesmo tempo antiautoritário e autoritário, da geração 68. A história do movimento ecologista no Brasil ainda não foi escrita, e temos ampla liberdade para fincar nossos marcos. De minha parte colocaria como marco inicial de um movimento eco-político o caso Carlos Dayrel, ocorrido em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1975. Estávamos em pleno governo Geisel,

que, depois de ter patrocinado no ano anterior - eleitoral - uma "distensão", naquele momento fechava novamente, sob pressão dos ''bolsões sinceros mas radicais". O JB publicava no dia seguinte: "PROTESTO JOVEM ACABA EM TUMULTO, MAS ACÁCIA NÃO CAI PARA AVENIDA PASSAR. "Porto Alegre - O protesto de três estudantes que passaram mais de seis horas trepados numa acáéia de 80 anos provocou tumulto, mas obteve do Secretário de Obras do Estado a promessa de que a árvore seria conservada como símbolo da preservação das áreas verdes de Porto Alegre ( ... ). "A velha acácia ( ... ) seria a sétima árvore a ser serrada no dia de ontem para dar lugar à pista de rolamento do Elevado Imperatriz Leopoldina, na Avenida João Pessoa. O primeiro a subir nela foi Carlos Dayrel, de 20 anos, mineiro de Sete Lagoas, estudante do terceiro ano de engenharia eletrônica e membro da Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (AGAPAN). "Subiu às 11 horas. Ao meio-dia recebia as primeiras adesões. Teresa Jardim, estudante de Biblioteconomia ( ... ), Marcos Saracol, estudante de matemática. "Por volta das duas da tarde já havia embaixo da acácia uma multidão que pedia a adesão da turma da Prefeitura aos três jovens. "( ... ) Os policiais isolaram a área ( ... ) Às 15 horas chegou uma escada Magyrus e o policiamento foi reforçado. Hélio Barros, morador da vizinhança, se baseava no testemunho do avô para afirmar que a árvore tinha sido plantada 'seis anos depois que Deodoro proclamou a República'. "'Os prefeitos passam. As árvores devem ficar' dizia um dos cartazes, levantado ao lado de outros que defendiam os jovens e a natureza. "O oficial de operações do IX Batalhão da PM, capitão Moncks, pegou um megafone e falou: 'Eu também sou estudante e apóio a sua luta pela natureza. Trago aqui a promessa de que vocês não serão presos nem molestados. E que a árvore não será cortada hoje.' "(...) "Três e meia da tarde chegou ao tronco da acácia o professor Adamastor Uriati, diretor da Escola de Engenharia e chamou Carlos (...) 'Venha cá o senhor!', sugeriu o estudante; (...) o professor (...) foi subindo até chegar ao galho mais alto, onde conversou com Carlos. "Os dois desceram quinze minutos depois, deixando Teresa e Marcos no mesmo lugar. O professor ia levar Dayrel à presença do Secretário de Obras. "'Hoje está havendo uma manifestação semelhante a essa na Alemanha, contra uma usina atômica', informou a todos o presidente da AGAP AN, o agrônomo José Lutzemberger. "Às 5 h, acompanhado do diretor da Escola de Engenharia e de uns 20 repórteres e cinegrafistas, Carlos Dayrel chegou ao gabinete do Secretário Plínio de Almeida, que lhe mostrou os planos de urbanização da cidade. Carlos comentou que os planos 'só favoreciam os automóveis'. O Secretário então encerrou a entrevista prometendo a preservação da velha acácia. "O grupo voltou à Av. João Pessoa para dar a notícia aos dois manifestantes que ficaram esperando na árvore. A multidão aplaudia os três manifestantes. Mas quando desceram, os jovens receberam voz de prisão do tenente Jesus, que então comandava a Brigada. Vaiados pelo público e advertidos pelos jornalistas pela quebra da palavra, os policiais deram início a um tumulto. Foram espancados e presos os repórteres lcaro Cerqueira, da Rádio Gaúcha, e Antonio Miguel, da Rádio Difusora. O cinegrafista Luís Carlos Hambrecht, da TV Difusora, recebeu um pontapé na mão e deixou a câmara cair, espatifando-a. Os dois radiorrepórteres e mais Teresa Jardim e Marcos Saracol foram levados, em seguida, na viatura da Brigada Gaúcha. À noite o comandante do policiamento, cel. Aldo Danesi, prometia punir 'os policiais arbitrários' e liberou os presos." Esse saboroso episódio assinalou o despertar de uma nova geração de militância ecológica e a confluência do ambientalismo das entidades pioneiras com a disposição militante de uma geração pós-68, representada por aqueles jovens. No plano internacional, essas novas lutas se articulavam com a idéia de um movimento ecologista que já não era mais apenas o conservacionismo, a simples resistência à devastação - do qual a pioneira FBCN (Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza) é o grande exemplo -, mas 218

a crítica, cientificamente consistente, não apenas de atos isolados contra a natureza mas de toda a crise de civilização engendrada pelo modelo produtivista-industrialista. Não mais o cultivo de um discurso ambiental proclamado como ideologicamente "neutro", mas uma ecologia política onde há uma luta a ser travada na sociedade, uma mobilização e uma difusão ampla de idéias, uma luta por corações e mentes, uma conquista de contrapoderes e de espaços de poder. Um território onde a defesa do meio ambiente se interpenetra com a democratização radical do estado, da sociedade, da cultura, com causas sociais e comportamentais que são indispensáveis à reivindicação do paraíso, à vida melhor. O caso Carlos Dayrel encerra um perfeito simbolismo do que viria a se tornar o movimento ecologista nos anos seguintes e da sua forma de inserção na sociedade. Ali estão os personagens de todas as futuras batalhas: os ativistas ecológicos, o público debaixo da árvore, o público mais amplo, atingido no dia seguinte pela midia; a polícia sem saber ao certo como se posicionar diante do protesto, se tolerá-lo pelo seu conteúdo "inocente", como pensou o capitão Moncks, ou se baixar o pau, por se tratar de protesto - fosse por que motivo fosse, conforme o tenente Jesus; o poder público, representado pelo Secretário que não pensou na árvore na hora de planejar o elevado, mas foi obrigado a fazê-Io e a alterar os planos, diante do protesto; finalmente, o diretor da faculdade que, no afã de mediar, acabou também ele subindo na árvore. O caso da acácia de Porto Alegre é, sobretudo, antecipador daquilo que viria a ser, durante mais de uma década, a imagem de marca do movimento: ações de pequenos grupos ativistas capazes de capturar a atenção da mídia e, através dela, levar suas idéias ao grande público. Um casamento, uma parceria por vezes conflituosa, mas sempre vibrante, entre os ecologistas e a imprensa escrita, o rádio e a TV, que se converteram na artilharia do movimento, embora às vezes seus obuses também despencassem sobre os ecologistas. Nos anos seguintes o movimento ecologista não trilhou o caminho de organização em grandes entidades. O Brasil não teve um processo de consolidação e expansão de grandes ONGs como uma Greenpeace, uma WWF ou uma Friends of the Earth. À medida que as idéias ecológicas cresciam na sociedade ia-se dando, não um fortalecimento qualitativo das primeiras entidades, mas uma multiplicação exponencial de novas entidades. Essa pulverização do movimento ecologista brasileiro é uma de suas características mais marcantes. No início dos anos 80, no seu livro Como Fazer Movimento Ecológico, Carlos Minc já contava mais de 900 entidades em todo Brasil. Hoje seu número se aproxima das 5 mil. A grande maioria dessas entidades são formadas por núcleos que gravitam em torno de menos de dez pessoas e não dispõem de um mínimo de infra-estrutura: sede, telefone etc. A essa pletora de grupos ambientalistas seria necessário somar um número cada vez maior de ONGs, a princípio não-ambientalistas, que incorporaram em maior ou menor grau reivindicações, lutas e questões ecológicas. São associações de moradores, sindicatos, entidades culturais e artísticas, e ONGs de desenvolvimento. Com o início do processo de abertura política, o movimento ecologista tendeu a uma natural politização.Já não era mais possível manter o discurso do apoliticismo e creditar a devastação ambiental "ao homem, que está destruindo o planeta". Numa visão mais concreta, a culpa não cabe à humanidade como um todo mas a modelos de desenvolvimento, interesses econômicos, opções políticas e agentes bem identificados, passíveis de responsabilização. A poluição e a devastação têm endereço, são pessoas jurídicas, e sua possibilidade de continuar agredindo o meio ambiente ou seu recuo é a resultante de um confronto que se dá no terreno político. Desde cedo os ecologistas se dividiram diante da questão política - ainda que sem necessariamente teorizá-lo -, em torno de duas estratégias: a do lobby e a da organização popular. A atuação de José Lutzemberger é altamente representativa da estratégia do lobby. É o pragmatismo e o não alinhamento político-ideológico com capacidade de influir 219 sobre quem venha a estar no poder. Assim, Lutzemberger trabalhou com o PMDB gaúcho de Pedro Simon sobre a questão dos agrotóxicos, entre outras. No início da campanha presidencial de 1989, aproximou-se do PDT de Brizola, depois do PT de Lula e, finalmente, chegou a Secretário Especial de Meio Ambiente do governo Collor. Segundo a estratégia do lobby , não convém que os ecologistas tomem partido, muito menos que se constituam em partido verde. O lobby depende da capacidade de influenciar a quem quer que disponha de poder. Os avanços e as conquistas ambientais obtidas nos dois últimos governos por decreto presidencial e portarias de órgãos do executivo atestam que a estratégia "lobbista" é capaz de alcançar resultados.

A outra estratégia, a da mobilização e organização popular, da participação na política institucional e a de tomar um partido político foi o caminho adotado, de uma forma geral, pela geração mais jovem de ecologistas. Entre os gaúchos foi, por exemplo, o caminho seguido por outros ativistas da AGAPAN: Caio Lustosa, no PMDB, PSDB e finalmente PT; Giovanni Gregol, no PT, e Gert Schinke no PT e depois no PV. Em São Paulo, Fábio Feldmann pelo PMDB e depois PSDB, e Roberto Tripoli pelo PSDB e depois PV. No Espírito Santo, Vitor Buaiz e Rogério Medeiros pelo PT. Outros, como Carlos Aveline, fundador da UP AN, continuaram afastados de uma atividade partidária mas imprimiram à sua atuação ambientalista uma perspectiva ecopolítica. A questão política foi colocada Claramente para os ecologistas no início da década de 1980, com o avanço do processo de democratização, a anistia e a volta dos exilados particularmente da geração 68 -, que haviam realizado seu aprendizado ecológico na Europa, em contato com os movimentos verdes, pacifistas, antinucleares e alternativos do final dos anos 70. Ex-exilados, como Fernando Gabeira, Carlos Minc, Lizt Vieira e o autor, voltaram ao país, sob a atenção favorável da opinião pública, trazendo na bagagem formulações de um emergente movimento verde. Na Europa o primeiro partido verde, Die Grünen, da República Federal da Alemanha, formara-se em 1978, criando uma referência de organização política para os ecologistas. A maior concentração dos ecologistas da anistia deu-se no Rio de Janeiro, uma metrópole cosmopolita com uma população sensível a mensagens novas e um contexto natural altamente privilegiado. A esse cosmopolitismo e a esse patrimônio cultural não correspondia um conjunto de entidades ambientalistas tão bem estruturadas como no sul do país. A criação de um partido verde não foi a opção inicial desses ecologistas da anistia, que representavam de uma forma mais ampla, aos olhos da população, a geração resistente de 68, ou pelo menos sua parcela mais Iibertária. Nossa perspectiva inicial foi a do verde em vários partidos de oposição, no caso do Rio de Janeiro, particularmente o PT e o PDT. Essa estratégia permitiu, em 1982, a eleição do primeiro parlamentar ecologista do Rio de Janeiro, Lizt Vieira, deputado estadual pelo PT. Esses ecologistas com uma origem marcadamente de esquerda se concentraram, sobretudo, no movimento antinuclear que se gestou no início dos anos 80 para protestar contra a construção das usinas nucleares de Angra dos Reis. Esse movimento, que teve como marco importante a manifestação Hiroshima Nunca Mais, no dia 6 de agosto de 1982, em Angra dos Reis, teve grande influência na opinião pública local do litoral sul-fluminense e em toda a população do Estado do Rio, que passou a apresentar, em pesquisas, índices de oposição ao nuclear muito superiores aos europeus ou norte-americanos e que se intensificaram ainda mais depois dos acidentes de Tchemobile de Goiânia. Os limites do "verde em vários partidos" revelaram-se já na primeira metade da década de 1980. Os partidos da oposição ao regime militar - o PMDB, o PDT, o PT e os partidos comunistas - abriam alguns espaços à questão ecológica, sobretudo em período eleitoral, mas não só não a consideravam como prioritária como não estavam dispostos a qualquer questionamento do seu ideário produtivista, industrialista e desenvolvimentista. Além 220 disso, O ambiente interno desses partidos era muitas vezes hostil aos ecologistas. No caso dos partidos tradicionais, pelo fenômeno sufocante do fisiologismo-clientelismo; no caso dos partidos mais à esquerda, pelo patrulhamento ideológico e a noção difusa de que a ecologia era mais "coisa de país rico" e que o Brasil tinha outros problemas prioritários como a fome, a miséria, o desemprego, a carência de uma reforma agrária etc. Não obstante, eram estruturas já prontas e consolidadas, onde algum espaço era sempre possível, dependendo da habilidade com que se trabalhasse, e ofereciam certos atrativos e uma maior segurança em comparação com a aventura e o trabalho de Sísifo que sugeria a fundação de um partido verde no Brasil. A discussão a respeito era apaixonada e polarizada. No movimento ambientalista, a idéia era hostilizada por alguns, por serem contrários ao que definiam como "partidarização" da ecologia (eram basicamente os que acreditavam na estratégia "lobbista"); por outros, mais pragmaticamente, por já militarem em um partido como o PMDB ou o PT. O surgimento do Partido Verde lhes criaria um incômodo político real ou imaginário. Por outro lado, havia na sociedade, com intensidade cada vez maior, a demanda por um partido com essas características. A lentidão do movimento ecológico inserido nas entidades em efetivar essa alternativa

deixava campo livre a eventuais manobras cartoriais de oportunistas sem nenhuma prática ecológica, que sonhavam apropriar-se juridicamente da carismática sigla PV para explorá-Ia fisiologicamente. As condições do Rio de Janeiro ofereceram a base para a fundação, no início de 1986, do Partido Verde - PV, cujo núcleo histórico, o Coletivo Verde, era constituído, em parte, por ex-exilados e artistas famosos como Lucélia Santos. No seu manifesto de fundação o Partido Verde situava sua singularidade dentro do contexto político brasileiro e, por outro lado, esclarecia a relação do Partido Verde com os verdes dos demais partidos:
"(...) O Partido Verde se define como um movimento de cidadãos e não de políticos profissionais ou homens de aparelho. (...) "O Partido Verde não pretende o monopólio da causa ecológica, nem de nenhuma das outras bandeiras que defende, pois sabe que em tomo de cada uma delas encontrará aliados noutros partidos e na sociedade em geral. Considera, no entanto, que a sua formação e atuação independente será uma contribuição importante nessa luta. "O Partido Verde pretende (...) contribuir para a afirmação de um grande movimento ecológico, pacifista e alternativo capaz de influenciar os destinos da nação brasileira nesse limiar do século XXI (...). "(...) estará ao lado de todas entidades, organizações populares e movimentos que almejam transformar a vida das pessoas fazendo-a mais livre e digna. Estará ao lado das mulheres, dos negros, dos índios, das chamadas minorias, de todos grupos vítimas da opressão generalizada ou específica. Defenderá uma sociedade cada vez mais descentralizada, em todos os níveis, e pluralista, onde nenhum (...) interesse econômico ou político possa continuar devastando a natureza, poluindo o meio ambiente e ameaçando a vida para servir sua sede de lucro e poder. "(...) O Brasil é um dos países do mundo com mais natureza e vida a defendere, simultaneamente, um dos países onde elas estão sendo mais rapidamente devastadas pela voracidade dos modelos econômicos predatórios, do capitalismo selvagem, pelo descaso e inoperância do estado e pelo ainda baixo nível de consciência e organização dos cidadãos. Acreditamos que esse quadro possa ser modificado e que as condições para tanto nunca estiveram tão favoráveis quanto agora, apesar de tudo. Por isso o Partido Verde surge como uma alternativa política para os que acreditam na possibilidade de uma vida diferente e de uma nova sociedade."

A primeira experiência político-eleitoral do Partido Verde, ainda numa fase embrionária, sem registro legal, foi a campanha de Fernando Gabeira para governador do Rio de Janeiro, numa coligação informal dos verdes com o PT que representou em muitos aspectos uma experiência inteiramente nova em campanhas políticas. Alegre, irreverente, com temáticas e formas de atuação inteiramente inéditas, alcançou um escore eleitoral de quase 8% depois de ter, nas pesquisas, beirado os 15%. Na reta final, ressentiu-se do chamado "voto útil" e também da forte exploração negativa de uma parte da mídia em relação à discussão sobre a descriminalização da maconha, levantada por Gabeira durante 221 um programa de rádio. O resultado, contudo, foi bastante positivo, especialmente ao se considerar que o Partido Verde sequer existia legalmente, e que o PT obtivera um ano antes apenas 0.9% para seu candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Duas manifestações marcaram profundamente essa campanha: o Fala Mulher, a maior manifestação feminista da história do Brasil, e o Abrace a Lagoa.uma corrente humana de mais de 80 mil pessoas à volta da Lagoa Rodrigo de Freitas. As eleições de 86 produziram uma nova safra de parlamentares ecologistas como Fábio Feldmann, um advogado do grupo OIKOS, eleito deputado federal pelo PMDB de São Paulo, e Carlos Minc, eleito deputado estadual no Rio de Janeiro pela coligação PT(PV. Ambos teriam uma atuação parlamentar marcante, Feldmann na elaboração do capítulo de meio ambiente da Constituição de 1988 e Mine em diferentes leis e atuações de rua de caráter espetacular e simbólico que souberam capturar a mídia e chamar a atenção sobre problemas ecológicos e de direitos humanos. Essa tendência de surgimento de parlamentares novos ligados aos movimentos ecologistas prosseguiu nas eleições seguintes, as municipais de 1988, com a eleição para Câmaras Municipais de dois ex-dirigentes da AGAP AN, em Porto Alegre, Gert Schinke e Giovanni Gregol, de Roberto Tripoli, em São Paulo, pelo PT, e do autor, no Rio de Janeiro, como vereador mais votado entre 1500 candidatos, eleito pelo PV. Nesse mesmo pleito foram eleitos alguns prefeitos ecologistas ou com idéias ambientalistascomo Vitor Buaiz, em Vitória, e Jaime Lerner, em Curitiba. Esse ano de i988, marcado por um crescimento do movimento ecologista e por vitórias na Constituinte e nas eleições municipais, foi também marcado por grandes queimadas na Amazônia e por um acontecimento de intensa repercussão nacional e internacional: o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. O movimento dos seringueiros do Acre encarnou melhor do que qualquer outro uma dimensão da ecologia profundamente vinculada à questão social, uma luta verde do terceiro mundo. A resistência dos

povos da floresta - os índios, os seringueiros, os castanheiros - representava essa realidade de um movimento de defesa do ecossistema amazônico formado não mais a partir de uma reflexão ambientaJista intelectual e urbana, mas de uma simples e candente necessidade de sobrevivência. Durante os anos 70, quando o regime militar estimulou com incentivos fiscais e subsídios a chamada "colonização" da Amazônia - a devastação da floresta para grandes pastagens -, os seringueiros tiveram suas próprias condições de sobrevivência comprometidas. Dos seringais do Acre, devastados pelos incêndios e derrubadas praticadas pelos fazendeiros vindos do sul, saíram mais de 30 mil trabalhadores da borracha que tiveram como destino a Bolívia, onde só puderam continuar sua atividade como cidadãos de segunda classe, ou as emergentes favelas da periferia de Rio Branco. Outros, no entanto, como Wilson Pinheiro e Chico Mendes, passaram a resistir, organizando os seringueiros e suas fann1ias nos chamados "empates", mobilizações de resistência pacífica nas quais eles se interpunham fisicamente no caminho dos tratores e das moto-serras, muitas vezes enfrentando a violência da polícia e dos jagunços do latifúndio. O movimento de seringueiros não se limitou a resistir ao desmatamento; foi capaz, igualmente, de gerar propostas de alternativas econômicas para a região amazônica baseadas nas reservas extrativistas regiões da floresta a serem demarcadas e dedicadas a atividades extrativistas -, que podem ser desenvolvidas sem nenhum dano para a floresta, voltadas à exploração da borracha, da castanha-do-Pará, dajuta, do babaçu, do açaí e outros produtos. Para viabilizar esses projetos os seringueiros tentavam obter recursos junto ao poder público e entidades nacionais e internacionais, para a implantação de uma infra-estrutura mínima de usinas de processamento e meios de transporte para escoar a produção e comercializá-Ia, prescindindo dos intermediários ou "marreteiros". O Conselho Nacional dos Seringueiros soube estabelecer importantes alianças, de dois tipos. Com outros povos da floresta, como os índios, fazendo nascer uma solidariedade que no passado não existira e que ficou consubstanciada na Aliança dos Povos da Floresta, 222 da qual participavam seringueiros como o próprio Chico Mendes, Raimundo de Barros, Osmarino Amâncio e outros, lideranças da União dos Povos Indígenas, como Marcos Terena, Airton Krenak, Paiakan Kaiapó, e ecologistas das cidades, tanto do Brasil como do exterior. O movimento de seringueiros obteve apoio político e técnico de entidades como o Instituto de Estudos Amazônicos, de Curitiba, dirigido por Mary Alegretti, e estabeleceu ligações com entidades ambientalistas norte-americanas e européias. Chico Mendes recebeu diversos prêmios internacionais e conseguiu sensibilizar importantes formadores de opinião no sentido de uma solidariedade ativa para com a luta em defesa da floresta e para a proposta das reservas extrativistas. Seu assassinato repercutiu em todo o mundo, nas primeiras páginas dosjomais e nos noticiários de televisão de vários continentes. O escândalo colocou definitivamente os problemas ecológicos do Brasil, particularmente a destruição da Amazônia, no centro da atualidade internacional, e pesou decisivamente para que o Brasil viesse a ser escolhido para sediar a Conferência ECO92. Pela primeira vez, no Acre, um crime dessa natureza não permaneceu totalmente impune: pelo menos o autor e o mandante direto foram presos e condenados. Mas os instigadores e os articuladores indiretos, muito mais poderosos, não foram atingidos pelas investigações e o movimento perdeu uma liderança que vem se revelando, ao fio dos anos, cada vez mais insubstituível. A partir da morte de Chico Mendes e seus desdobramentos, a questão ecológica tornou-se ainda mais presente nos meios de comunicação, chegando a criar em certos momentos a ilusão de quase uma nova unanimidade nacional, onde todos se teriam tornado "verdes". Essa tendência passou a ser visível sobretudo em meios empresariais, onde o discurso anterior de que a ecologia entravava o progresso passou a ser cada vez mais substituído por categorias extraídas de um discurso ecológico como a do "desenvolvimento sustentado", que se transformou num termo de referência de um novo jargão usado intensamente por ambientalistas, empresários e técnicos dos órgãos governamentais. Esse fenômeno de apropriação de fragmentos de um discurso ecológico refletia duas realidades. Em alguns casos, o avanço sincero das concepções ecológicas, ou simplesmente ambientalistas, entre empresários e quadros técnicos sensíveis a essas novas visões e identificados com elas como cidadãos. Em outros, a busca de uma melhoria de imagem institucional por parte de empresas poluidoras ou devastadoras, fossem privadas ou estatais, ou, simplesmente, a exploração de um gancho publicitário naquilo que para muitos ainda parecerá um "modismo". Por outro lado, independentemente dessa diferenciação - de interpretação muitas vezes difícil e subjetiva - a ecologia passou a ser vista por muitos também como "um bom negócio", apontando para novas

oportunidades em novos ramos emergentes: os equipamentos antipoluição, os estudos de impacto ambiental, o turismo ecológico etc. Paralelamente às ONGs "tradicionais" do movimento ambientalista brasileiro surgiu uma nova onda de entidades, que dão ênfase àquilo que se pode definir como uma estrutura de funcionamento "mais profissional", capazes de superar o funcionamento artesanal e amadorista do movimento. Capacitadas a atrair recursos de organizações ambientalistas de outros países, bem como de empresas públicas e privadas, nacionais ou multinacionais, essas entidades vêm ocupando espaços com um grau variado de seriedade e equilíbrio entre o ideal ambientalista e o pragmatismo do relacionamento com variadas fontes financiadoras com interesses diversos. A consolidação. de entidades mais "profissionalizadas" como a SOS Mata Atlântica, a Pronatura e outras vem enriquecer o espectro das ONGs ambientalistas, que no Brasil nunca conseguiram se transformar em grandes entidades como a WWF, a Friends of the Earth ou a Greenpeace. Em contrapartida, mesmo nos municípios mais afastados dos grandes centros e nas mais pequenas localidades do país encontram-se grupos ambientalistas. 223 Aeleição presidencial de 1989 e o governo CoUor criaram uma nova situação no tocante à questão ecológica. A tendência "Iobbista" do movimento passou das ante-salas aos gabinetes executivos. Mais do que qualquer outro presidente anterior, Collor usa conceitos e assimila um discurso ambientalista como um dos componentes da "modernidade" que procura encamar. Essa situação permitiu medir melhor os limites da estratégia "Iobbista". Ao discurso ambientalista corresponde uma atuação que vem sendo pouco eficaz excetuada a questão indígena, onde houve avanços graças à ação do sertanista Sydney Possuelo, na PUNA! , muitas vezes menos determinada do que no último período do governo anterior quando, apesar de um discurso mais atrasado, a presença do jornalista Fernando César Mesquita, no IBAMA, fora um claro fator de avanço no combate à devastação. O anúncio da realização, no Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, apelidada ECO-92 ou Rio-92, reforçou mais ainda a presença da ecologia nos meios de comunicação, criando quase uma supersaturação temática, muitas vezes superficial. Seu efeito sobre o movimento ambientalista também foi ambíguo. Por um lado permitiu, pela primeira vez, que este tentasse organizar-se no plano nacional através de um Fórum Nacional de entidades e suscitou uma ecologização com graus variados de profundidade de diversas ONGs a princípio não-ambientalistas, ditas sociais ou "de desenvolvimento", o que foi coerente com o escopo amplo da Conferência. Por outro lado, esse avanço representado por um FórumNacional e pela entrada no campo ambientalista de numerosas organizações novas ainda não representou, na prática, um reforço do movimento em função das lutas do diaa-dia em tomo dos diversos problemas ambientais do país - alguns dos quais vêm se agravando - nem uma melhor coordenação dos ecologistas diante de uma nova' situação de mobilização de seus adversários. Os interesses econômicos mais predatórios representados por segmentos empresariais, sobretudo da região amazônica, souberam utilizar-se do "gancho" da ECO-92 para lançar uma campanha antiecológica explorando temas xenófobos como o pretenso risco de uma "internacionalização" da floresta. Esse lobby, que conta com governadores, entre os quais a figura histriônica de Gilberto Mestrinho, do Amazonas, militares, parlamentares e jornalistas conseguiu, pelo menos num determinado período, ocupar um espaço de mídia considerável e consolidar uma articulação que agora se encarrega de tentar desmantelar os avanços obtidos nos últimos anos na legislação ambiental, nos níveis federal, estadual e municipal, e, enquanto isso não é possível, entravar ao máximo fi aplicação dessas leis. Essa situação consagra, definitivamente, a politização da questão ecológica, que deixa de ser uma falsa unanimidade para se tomar o terreno cada vez mais privilegiado de mais um grande confronto na sociedade brasileira entre a mentalidade capitalista selvagem, truculenta e oligárquica e uma perspectiva ecológica que não se preocupa apenas com a preservação ambiental, mas também com a democratização da sociedade e a justiça social, além de uma modernização e despoluição da vida política brasileira, dominada por uma mentalidade e uma prática fisiológicas. A perspectiva ecológica vai além do simples protesto que marcou toda uma primeira fase do movimento. Além da denúocia de atividades agressoras ao meio ambiente e da elaboração de melhores leis, o movimento é chamado, cada vez mais, a colocá-Ias em prática, elaborar e implementar projetos, soluções, tecnologias alternativas em áreas como energia, transporte, saúde, saneamento, educação, habitação etc. Deve aprender a combinar e harmonizar níveis diferentes de atuação como a rua, o bairro, o local de

trabalho, os parlamentos municipal, estadual e federal, órgãos do poder executivo, empresas. Para todo esse espectro amplo de atuação que envolve a organização popular, a inserção na mídia, um trabalho dentro do aparelho de estado e da iniciativa privada, a grande 224 diversidade de entidades e campos específicos de trabalho pode ser algo positivo. As estratégias da organização popular pela ecologia, defendida pelos verdes, e a da articulação "Iobbista" de outros setores ambientalistas não são necessariamente contraditórias - em determinadas circunstâncias podem ser complementares. Na esfera político-institucional, o movimento necessita de instrumentos de intervenção que lhe permitam ampliar seus espaços nos vários parlamentos e executivos. Esses instrumentos são o Partido Verde e os núcleos de ecologistas existentes noutros partidos políticos . Já podem ser observadas, hoje, experiências de poder local onde são visíveis, claramente, influências de políticas propugnadas pelos ecologistas. Apesar da forte crise econômica, social e moral que ocorre no país, algumas dessas administrações locais têm obtido sucesso e conquistado a simpatia da maioria dos habitantes desses municípios. É o caso de administrações, além das de Curitiba e Vitória, das de Anthony Garotinho, em Campos, TeIma de Souza, em Santos e também, em certa medida, de Marcello Alenear, no Rio de Janeiro e de Luiza Erundina, em São Paulo. Despoluição das águas, ônibus a gás, ciclovias, hortas comunitárias, áreas de proteção ambiental, projetos de reflorestamento, questionamento do reinado absoluto do automóvel; em todas essas cidades e diversas outras o peso das idéias e propostas defendidas pelos ecologistas começa a fazer-se sentir. São passos iniciais de uma ecologia urbana em gestação no ventre conturbado das cidades ambientalmente "inviáveis" que vão, aos poucos, começando a "esverdear", como reflexo de uma nova cultura que nasce e cresce no bojo da antiga, produzindo aqui e ali pontos de mutação e a lenta configuração de novos paradigmas. Querer tomar o rumo do paraíso, num país tão desigual, com tanta miséria e violência no cotidiano é, para muitas pessoas hoje totalmente descrentes, um desafio quixotesco. Essa descrença e o pessimismo reinante interessam aos poucos beneficiários contumazes do modelo de sociedade que devasta o meio ambiente e degrada o ser humano enquanto acumula cada vez mais renda nas mãos de uma elite, hoje condenada a viver reclusa e temerosa ou emigrar para o Norte do planeta. Rumo ao paraíso é o caminho alternativo de quem rejeita a: fatalidade do apocalipse, a inevitabilidade da entro pia e da autofagia, e acredita na capacidade do ser humano de criar e transformar. E a direção de quem aposta na ecologia e na cidadania como as atuais metas de uma permanente luta pela vida.

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