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Rabindranath

Tagore

PÁSSAROS PERDIDOS
Suplemento com poemas
selecionados dos livros
A Colheita e Gitanjali
(Oferenda Lírica)

Tradução: Ivo Storniolo


Edição PAULUS, 1991

Compilação, organização e
reprodução eletrônica:
Luiz Edgar de Carvalho

“Livros não mudam o mundo,


quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas”.
Mário Quintana

LuMenSana
Publicações Eletrônicas
para ler e pensar
2010
Prólogo

VIDA E MEDITAÇÃO. Vida é o ponto comum em que todos nós podemos nos
encontrar. Estamos todos vivos, a vida nos anima e, contudo, para todos nós fica sempre
a pergunta: O que é vida, ou a Vida? É como se não bastasse a vida que já usufruímos;
queremos mais vida, certos de que a vida não é tanto posse e experiência, mas fome e
busca, sede e procura.
Onde encontrar mais vida, ou talvez a Vida pela qual tanto ansiamos? Em nossa
vida mesmo. Todavia, não basta viver. É preciso encontrar o sentido que faz da nossa
vida a Vida, saciando a nossa fome e a nossa sede. E para isso é preciso meditar.
Na Meditação podemos descobrir o sentido do que já estamos vivendo e, assim,
nos prepararmos para viver mais intensamente. A eternidade, com efeito, não é uma
dimensão em outro espaço ou tempo, mas a intensidade com que vivemos este
momento, aqui e agora. Deus é vida. E o Eclesiastes já dizia que “Deus busca aquilo
que foge” (Ecl 3,15). Se quisermos encontrar Deus e a Vida, temos que meditar sobre o
momento presente, que sempre está fugindo, escapando. Descobrindo o que ele
significa, perceberemos que a eternidade marca todos os nossos momentos, fazendo-nos
experimentar a Vida que Deus quer para todos nós. Vida e meditação, ou meditação e
vida, tornam-se, então, a sístole e a diástole da experiência que nos desperta para a
Vida, o grande dom de Deus, sempre à disposição de todos e de cada um. Falta-nos,
talvez, apenas descobrir, aceitar e amar esse dom. (LEC)

Rabindranath Tagore

Grande poeta e místico indiano, nasceu em Calcutá, 1861, e faleceu em


Santiniketan, Bengala, 1941. Músico, poeta, contista, teatrólogo e filósofo, publicou
muitas obras de cunho místico e profundamente humano. Em 1901 fundou uma escola
superior de filosofia em Santiniketan, que depois foi transformada em Universidade, em
1921. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1913, e tornou-se mundialmente
famoso graças ao seu livro de poemas Gitanjali (Oferenda lírica).
Tagore, aclamado por Ghandi como “o grande mestre”, é reconhecido por todos
os indianos como “o sol da Índia”. Bem cedo se revelou poeta, músico, teatrólogo,
contista e filósofo, profundamente identificado com a natureza, apaixonado pelo seu
povo, e sobretudo, aberto para o infinito. Não buscava, porém, o absoluto fora deste
mundo ou além desta história. Pelo contrário, percebeu o absoluto através dos seres e do
miúdo de nossas situações e acontecimentos. Desde a adolescência, foi capaz de ver e
proclamar a grandeza que se esconde na pequenez, a luz dormindo na treva, e os
grandes paradoxos da humanidade: triunfo na derrota, beleza no feio e, principalmente,
a amizade e predileção que Deus tem pelos pobres, humildes e perdidos.
Tagore continua a ser o “grande mestre” e “o sol”, não só para a Índia, mas para
o mundo inteiro que procura avidamente a sua libertação. Para alguns a libertação das
ilusões do poder e da riqueza que os esvaziaram. Para a maioria dos outros a libertação
da opressão e miséria a que foram reduzidos pelas ilusões dos primeiros. Para todos,
porém, a libertação da morte para a vida, da escravidão para a liberdade. Todos, enfim,
podendo experimentar o latejar da vida de todos os tempos que, neste momento, dança
em nosso próprio sangue (Gitanjali, 69).
Com sua mensagem, ele nos aponta o futuro, o dia em que cada pessoa na
humanidade poderá finalmente exclamar, extasiada: “Tu, Senhor de todos os céus, onde
estaria teu amor se eu não existisse?” (Gitanjali, 56).
Poderíamos ler todos estes textos de Tagore em apenas uma horinha. Nós os
consumiríamos, mas talvez não iríamos perceber o que eles têm a nos dizer, nem a
escola de vida que neles se escondem: redescoberta da natureza, percepção do tempo,
mistério das relações, demitização das ilusões, anseio pelo absoluto, alegria de
descobrir-se amado por tudo, por todos e, por trás de tudo e de todos, amado por Deus.
Não se tratam aqui de simples aforismos ou meros poemas literários, mas de profundas
reflexões de vida. Para serem lidas pouco a pouco, conferindo a cada momento a
percepção poética e mística do autor com a experiência que temos da nossa vida. Para
começar, ele se compara com um instrumento nas mãos de Deus (Gitanjali, 1). Termina
exclamando: “Ó meu Deus, permite que todos os meus sentidos se dilatem, e eu farei
este mundo roçar os teus pés, numa derradeira saudação a ti! (Gitanjali, 103). Que
possamos dizer o mesmo, com estas mesmas palavras de Tagore, mas aplicando-as à
nossa própria vida. (LEC)

Pássaros Perdidos
Não são poemas acabados, mas percepções agudas que penetram o grande
mistério que vivemos e que tão simplesmente chamamos de “vida”.
Nestas curtas frases aforísticas, escritas há tanto tempo atrás, o que mais espanta
é a comunhão com a realidade tão próxima, que até nos toca, e tão longínqua, que
sempre nos escapa. Tomados pelo paradoxo da vida-e-morte, luz-e-sombra, vitória-e-
derrota, tornamo-nos todos contemplativos do grande mistério que vive em nós, nos
envolve e ultrapassa. Contudo, cada instante fugitivo em que percebemos a marca desse
mistério torna-se o momento de visão eterna. E ter visto, nem que seja uma só vez, é um
ato irrevogável. Um instante de compreensão pode mudar a vida inteira, como o
relâmpago que ilumina repentinamente o mundo que antes a treva encobria.
Pássaros perdidos são também um convite. Os pássaros pertencem a todos.
Voam de cá para lá em total liberdade, pontilhando o mundo com sua levíssima
presença. Pousam em nossas janelas, permanecem por brevíssimos e inquietos instantes,
cantam, e voam embora.
Pássaros perdidos são ainda sementes de poesia espalhadas em todo o lugar, à
espera de quem as receba e lhes dê condições para germinar e se desenvolver. Oxalá
encontrem em nós o solo fértil onde, misturadas com as nossas próprias sementes,
brotem e cresçam, transformando o nosso mundo em horta, pomar e jardim, cheios de
pássaros que chegam, cantam e depois revoam para longe...
Quem sabe eles nos contarão verdades como esta: “Existo. Essa é para mim a
eterna surpresa da vida”. (Pássaros perdidos, 22). (LEC)
1 - Pássaros perdidos do verão vêm à minha janela, cantam e vão embora,
voando. E as folhas amarelas do outono, que não sabem cantar, flutuam e nela caem,
suspirando.
2 - Bando de pequeninos errantes do mundo, deixai a marca de vossos pés em
minhas palavras!
3 - Para quem o ama, o mundo despe a sua máscara de imensidão e se torna
pequeno como uma canção, como um beijo do eterno.
4 - São as lágrimas da terra que mantêm o seu sorriso sempre em flor.
5 - O deserto poderoso queima-se de amor por uma folha de relva, e esta lha
meneia a cabeça, sorri, e voa para longe.
6 - Se de noite choras por não ver o sol, também não verás as estrelas.
7 - Água bailarina, a areia do teu caminho mendiga a tua canção e o teu
movimento. Não queres carregar o fardo de suas falhas?
8 - Seu rosto ansioso persegue os meus sonhos como a chuva noturna.
9 - Um dia sonhamos que éramos dois estranhos, e despertamos para descobrir
que nos amávamos.
10 - O sofrimento calou-se em paz no meu coração, como o anoitecer entre as
árvores silenciosas.
11 - Alguns dedos invisíveis, como a preguiçosa brisa, tocam em meu coração a
música das ondas.
12 - – “Mar, qual é a tua linguagem?” – “A da eterna pergunta”. – “E tu, céu,
com qual linguagem respondes?” – “Com a do eterno silêncio”.
13 - Coração meu, ouve os suspiros que expressam o amor do mundo por ti.
14 - O mistério da criação é amplo como o escuro da noite. A ilusão da
sabedoria é como a névoa do amanhecer.
15 - Não coloques o teu amor à beira do precipício, porque este é profundo.
16 - Esta manhã sentei-me à janela onde o mundo, como passante, pára um
momento, saúda-me, e continua o seu caminho.
17 - Estes pequenos pensamentos são como o rumor das folhas que suspiram
com alegria em minha mente.
18 - Tu não vês o que és. O que vês é a tua sombra.
19 - Meus desejos são loucos, meu Mestre; eles gritam, em meio às tuas canções.
Permite-me apenas ouvir.
20 - Sou incapaz de escolher o melhor. O melhor escolhe a mim.
21 - Quem leva a sua lanterna nas costas só vê diante de si a própria sombra.
22 - Existo. Essa é para mim a eterna surpresa da vida.
23 - “Nós, folhas rumorosas, temos voz para responder às tempestades. Mas
quem és tu, aí tão silenciosa?” – “Eu sou apenas uma flor”.
24 - O descanso é para o trabalho o mesmo que as pálpebras são para os olhos.
25 - O homem nasce criança. Seu poder está no desenvolvimento.
26 - Deus não espera resposta pelo sol ou pela terra, e sim pelas flores que nos
envia.
27 - A luz brinca feliz entre as folhas verdes, como criança nua. Ela não sabe
que o homem pode mentir.
28 - Ó Beleza, encontra-te no amor, e não no elogio dos espelhos.
29 - Meu coração abre as suas ondas na praia do mundo e, com lágrimas, deixa a
sua assinatura: “Eu te amo”.
30 - “O que esperas, lua?” “Saudar o sol, e depois ir-me embora”.
31 - As árvores vêm à minha janela com a voz ansiosa da terra muda.
32 - Cada manhã de Deus é uma nova surpresa para ele mesmo.
33 - A vida encontra sua riqueza com as reivindicações do mundo, e seu valor
com as reivindicações do amor.
34 - O leito seco de um rio não recebe gratidão pelo seu passado.
35 - O pássaro gostaria de ser uma nuvem. A nuvem gostaria de ser um pássaro.
36 - A cachoeira canta: “Encontro a minha canção quando encontro a minha
liberdade”.
37 - Não sei dizer por que este coração definha em silêncio. É pelas coisas
pequenas que nunca pede, não conhece, nem se lembra.
38 - Mulher, quando vais de um lado para outro na tua faina doméstica, os teus
membros cantam como a fonte escorrendo entre os seixos da montanha.
39 - O sol está para cruzar o mar no Ocidente, deixando sua última saudação
para o Oriente.
40 - Não culpes a tua comida por estar sem apetite.
41 - Como anseios da terra, as árvores se colocam na ponta dos pés para chegar
até o céu.
42 - Sorriste e falaste comigo sobre nada, e senti que era justamente isso que eu
há tanto tempo esperava.
43 - O peixe na água é mudo, o animal na terra é ruidoso, o pássaro no ar é
cantor. Mas o Homem leva em si o silêncio do mar, o barulho da terra e a música do ar.
44 - O mundo se precipita pelas cordas do coração hesitante, compondo a
música da tristeza.
45 - Ele fez de suas armas os seus deuses. Quando as armas vencem, ele fica
derrotado.
46 - Criando, Deus encontra a si mesmo.
47 - A Sombra, de face velada, segue a Luz com secreta humildade, com
silenciosos passos de amor.
48 - As estrelas não temem parecer vagalumes.
49 - Senhor, eu te agradeço porque não sou uma engrenagem do poder. Eu te
agradeço porque sou um daqueles que o poder esmaga.
50 - O entendimento agudo e sem amplidão perfura tudo, mas não move nada.
51 - O teu ídolo se desfez na poeira, para provar que a poeira de Deus é maior
do que o teu ídolo.
52 - O homem não se revela em sua história, mas luta através dela.
53 - A lâmpada de cristal reprova a lamparina de argila porque esta a chama de
“prima”. Quando a lua se levanta, porém, a lâmpada de cristal, com leve sorriso, a
chama de “minha querida irmã”.
54 - Como as gaivotas e as ondas, nós nos encontramos e nos aproximamos. As
gaivotas voam embora, as ondas rolam para longe, e nós também nos vamos.
55 - Meu dia terminou. Estou como um barco ancorado na praia, ouvindo a
música da maré dançando no entardecer.
56 - A vida é dada a nós, e nós a merecemos dando-a.
57 - Chegamos mais perto da grandeza quando somos grandes na humildade.
58 - O pardal lastima que o pavão tenha uma cauda tão pesada.
59 - Nunca tenhais medo dos momentos – canta a voz da eternidade.
60 - O furacão procura atalho por onde não há caminho, e de repente acaba
encontrando o Nada.
61 - Amigo, bebe o meu vinho em minha taça. Derramado na taça dos outros ele
perde a sua espuma e sabor.
62 - O Perfeito se reveste de beleza por amor ao Imperfeito.
63 - Deus diz ao homem: “Eu te curo, e por isso te machuco; eu te amo, e por
isso te castigo”.
64 - Agradece a chama por sua luz, mas não esqueças a paciente lamparina que
persevera na penumbra.
65 - Erva frágil, os teus passos são pequeninos, mas a terra é escrava dos teus
pés.
66 - A flor criança abre o seu botão e exclama: “Ó mundo querido! Espero que
nunca murches!.
67 - Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das
pequeninas flores.
68 - A justiça é capaz de resistir às derrotas; a injustiça não.
69 - “Eu dou com alegria toda a minha água” — canta a cachoeira —, “embora
um pouquinho dela baste para o sedento”.
70 - Onde está a fonte que jorra estas flores, em contínua explosão de êxtase?
71 - O machado do lenhador pediu que a árvore lhe desse um cabo. A árvore o
deu.
72 - Em meu coração solitário eu recebo o suspiro dessa tarde enviuvada, com o
seu véu de névoa e chuva.
73 - A castidade é um tesouro que vem da abundância do amor.
74 - Como o amor, a névoa brinca no coração das montanhas, exibindo
surpreendentes belezas.
75 - Lemos mal o mundo, e dizemos que ele nos engana.
76 - O vento poeta sai pelos mares e florestas, procurando a sua própria voz.
77 - Cada criança vem ao mundo com a mensagem de que Deus ainda não
desistiu da humanidade.
78 - A erva busca a sua multidão na terra. A árvore busca a sua solidão no céu.
79 - O homem constrói defesas contra si mesmo.
80 - Meu amigo, a tua voz anda errante em meu coração, como o abafado som
do mar entre esses pinheiros que escutam.
81 - Onde está a invisível chama da escuridão, cujas faíscas produzem essas
estrelas?
82 - Que a vida seja bela como as flores do verão, e a morte como as folhas do
outono.
83 - O benfeitor bate à porta. O amante encontra a porta aberta.
84 - Na morte os muitos se tornam um; na vida o um se torna muitos. Quando
Deus estiver morto, a religião será uma só.
85 - O artista é o amante da Natureza, e por isso é seu escravo e senhor.
86 - “Fruto meu, estás muito longe de mim?” “Estou escondido em teu coração,
minha flor”.
87 - A saudade é para aquele que sentimos à noite, mas não vemos durante o dia.
88 - A gota de orvalho disse ao lago: “Tu és a maior gota de orvalho sob a folha
do lótus; eu sou a menor, em cima”.
89 - A bainha sente-se feliz quando protege o fio da espada.
90 - Na escuridão o Uno parece uniforme; na luz ele parece multiforme.
91 - Com o auxílio da erva, a terra imensa torna-se hospitaleira.
92 - O nascimento e a morte das folhas são os giros rápidos do turbilhão cujos
círculos maiores fazem mover os astros.
93 - O poder disse ao mundo: “Tu és meu”. E o mundo o manteve prisioneiro em
seu trono. O amor disse ao mundo: “Eu sou teu”. E o mundo lhe deu a liberdade de sua
casa.
94 - A névoa é como o desejo da terra, escondendo o sol por quem ela clama.
95 - Cala-te, meu coração, porque estas grandes árvores estão rezando.
96 - O ruído do momento caçoa da música do Eterno.
97 - Penso em outras eras que flutuavam na corrente da vida, do amor e da
morte, e caíram no esquecimento. E sinto-me completamente livre para morrer.
98 - A tristeza da minha alma é como o véu da noiva, esperando que de noite o
levantem.
99 - O cunho da morte dá valor à moeda da vida, e torna possível comprar com a
vida aquilo que é verdadeiramente precioso.
100 - A nuvem esperava humildemente num canto do céu, e o amanhecer a
coroou de esplendor.
101 - O chão recebe insultos e devolve flores.
102 - Não pares para colher flores e guardá-las. Continua caminhando, porque as
flores guardam-se a si mesmas, florescendo em todo o teu caminho.
103 - As raízes são ramos sob a terra; os ramos são raízes no céu.
104 - A música do verão que se foi esvoaça ao redor do outono, procurando seu
antigo ninho.
105 - Não insultes o teu amigo, emprestando-lhe os méritos do teu próprio bolso.
106 - O toque de dias sem nome apega-se ao meu coração como o musgo ao
redor da velha árvore.
107 - O eco zomba de sua origem para provar que ele é o original.
108 - Deus fica envergonhado quando os ricos se gabam de conceder um favor
especial.
109 - Lanço a minha própria sombra em meu caminho, porque tenho uma
lamparina que não foi acesa.
110 - O homem se embrenha na multidão para afogar o seu próprio clamor pelo
silêncio.
111 - O que termina em exaustão é apenas morte; o fim definitivo está naquilo
que não tem fim.
112 - O sol veste apenas uma túnica de luz. As nuvens se vestem com esplendor.
113 - As montanhas são gritos de crianças que levantam os braços, tentando
pegar as estrelas.
114 - O caminho se sente só com a multidão, porque ninguém o ama.
115 - As folhas amarelas que caem e as nuvens que passam caçoam do poder
que se gaba de suas maldades.
116 - Hoje a terra ensolarada sussurra para mim como a velha fiando na roca.
Ela me canta baladas antigas, numa língua já esquecida.
117 - A folha de relva é digna do vasto mundo onde ela cresce.
118 - O sonho é uma esposa que precisa falar. O sono é um esposo que sofre em
silêncio.
119 - A noite beija o dia que entardece, sussurrando-lhe ao ouvido: “Eu sou a tua
mãe, a morte, e vou dar-te um novo nascimento”.
120 - Noite escura, a tua beleza é para mim como a da mulher amada que apagou
a lamparina.
121 - Levo em meu mundo em flor todos os mundos que fracassaram.
122 - Caro amigo, quando ouço as ondas nesta praia, eu sinto o silêncio do teu
pensamento profundo naquelas tardes sem fim.
123 - O pássaro imagina que é bom para o peixe dar um passeio pelo ar.
124 - Disse a noite ao sol: “Tu me envias cartas de amor com a lua, e eu te
respondo com lágrimas na relva”.
125 - O grande nasce pequeno e, ao morrer, entrega ao mundo a sua grande
pequenez.
126 - A perfeição da pedra não vem com os golpes do martelo, mas com a dança
e a canção da água.
127 - A abelha suga da flor o mel, e a deixa, zumbindo a sua gratidão.
A borboleta vistosa tem certeza que as flores lhe devem gratidão.
128 - É fácil falar claro quando não se vai dizer toda a verdade.
129 - O Possível pergunta ao Impossível: “Onde é a tua moradia?”
O Impossível responde: “Nos sonhos dos que nada podem”.
130 - Se fechas a porta a todos os erros, também a verdade ficará de fora.
131 - Por trás da tristeza do meu coração eu percebo suspiros por coisas, porém
não consigo enxergá-las.
132 - A atividade do lazer é trabalho. A tranqüilidade do mar palpita nas ondas.
133 - A folha, quando ama, torna-se flor. A flor, quando adora, torna-se fruto.
134 - As raízes debaixo da terra não pedem recompensa por encher de frutos os
ramos.
135 - O vento está inquieto neste anoitecer chuvoso. Contemplo os ramos que
balançam e medito na grandeza de todas as coisas.
136 - A tempestade noturna, como criança gigante que desperta no escuro,
começou a brincar e a gritar.
137 - Ó mar, solitário noivo da tempestade, em vão ergues as tuas ondas para
perseguir a tua amada!
138 - A Palavra disse ao Trabalho: “Eu me envergonho de ser tão vazia”.
“Quando vejo a ti, compreendo quão pobre sou” — respondeu o Trabalho à Palavra.
139 - O tempo é a riqueza da transformação, mas o relógio o parodia em mera
transformação sem riqueza.
140 - A verdade, com suas vestes, acha que os fatos são apertados demais. Na
ficção ela se move mais à vontade.
141 - Ó Caminho, eu me cansei de ti quando só andava para cá e para lá. Mas
agora que me levas para todos os lugares, somos como dois enamorados.
142 - Deixa-me acreditar que uma dessas estrelas conduz a minha vida em meio
a esse escuro desconhecido.
143 - Mulher, tocaste as minhas coisas com a graça dos teus dedos, e a ordem se
fez como a música.
144 - Uma voz triste se aninha nas ruínas dos anos. De noite ela canta para mim:
“Eu te amei”.
145 - O fogo flamejante me avisa com sua própria chama. Livra-me da brasa
agonizante que se esconde sob as cinzas.
146 - Tenho as minhas estrelas no céu. Mas ai da lamparina apagada em minha
própria casa.
147 - O pó das palavras mortas apega-se a ti. Lava a tua alma com o silêncio.
148 - Na vida há brechas, e por elas entra a música triste da morte.
149 - Nesta manhã o mundo abriu o seu coração de luz. Sai, coração meu, e vai
ao seu encontro com o teu amor.
150 - Meus pensamentos estremecem com as folhas trêmulas, e o meu coração,
tocado pela luz do sol, canta. Minha vida se enche de alegria, flutuando com todas as
coisas no espaço azul, na escuridão do tempo.
151 - O grande poder de Deus não está no furacão, mas na leve brisa.
152 - Este é um sonho em que todas as coisas estão dispersas e oprimem.
Quando eu despertar e for livre, encontrarei todas elas reunidas em ti.
153 - O sol poente perguntou: “Quem me substituirá nos meus deveres?”
“Farei o que puder, meu Mestre” — respondeu a lamparina de argila.
154 - Não colherás a beleza da flor arrancando as suas pétalas.
155 - O silêncio levará a tua voz, assim como o ninho abriga os pássaros
adormecidos.
156 - O Grande não teme andar com o Pequeno. O Medíocre anda sozinho.
157 - A noite abre as flores em segredo, e deixa que o dia receba os
agradecimentos.
158 - O poder considera ingratidão suas vítimas se debaterem.
159 - Quando nos alegramos em nossa plenitude, podemos nos separar de nossos
frutos com alegria.
160 - As gotas de chuva beijaram a terra e lhe sussurraram: “Mãe, somos os teus
filhos saudosos, e do céu voltamos para estar contigo”.
161 - A teia de aranha pretende recolher gotas de orvalho, e só recolhe moscas.
162 - Ó Amor! Quando trazes na mão a ardente lamparina da dor, eu posso ver a
tua face e reconhecer que és a felicidade.
163 - O vagalume falou às estrelas: “Os sábios dizem que vossas luzes um dia se
apagarão”. As estrelas nada responderam.
164 - No crepúsculo do dia o pássaro de algum antigo amanhecer retorna ao
ninho do meu silêncio.
165 - Os pensamentos atravessam a minha mente como bandos de patos
revoando no céu. Ouço o bater de suas asas.
166 - O canal gosta de pensar que os rios existem apenas para enchê-lo de água.
167 - O mundo sofrido beijou a minha alma, pedindo que eu lhe devolvesse
canções.
168 - Não sei o que me oprime o coração – se é minha alma que deseja sair para
fora, ou a alma do mundo batendo em meu coração para entrar.
169 - O pensamento se alimenta com suas próprias palavras, e cresce.
170 - Engolfei a taça do meu coração nesta hora silenciosa e, ao erguê-la, estava
cheia de amor.
171- Tens o que fazer ou não. Quando precisas dizer “tenho que fazer alguma
coisa”, começa o mal.
172 - O girassol se envergonhava de ter como parente uma flor sem nome. Ao se
levantar, o sol sorriu e lhe perguntou: “Estas bem, meu amor?”
173 - “Quem é que me empurra para frente, como o destino?” “É o teu próprio
eu, montado em tuas costas”.
174 - As nuvens se escondem atrás das longínquas montanhas, enchendo de água
as campânulas do rio.
175 - Enquanto caminho, vou derramando água do meu cântaro. Resta muito
pouca para minha casa.
176 - A água brilha na taça; no mar ela é obscura. A pequena verdade se
expressa com palavras claras; a grande verdade fala no silêncio.
177 - Teus sorrisos eram as flores dos teus próprios campos, e a tua fala era o
murmúrio das tuas próprias montanhas. O teu coração, porém, era a mulher que todos
nós conhecemos.
178 - Deixo as minhas pequenas coisas para as pessoas que amei. As grandes são
para todos.
179 - Mulher, assim como o mar cerca a terra inteira, com as tuas lágrimas
envolveste o coração do mundo.
180 - A luz do sol me saúda, sorrindo. A chuva, sua irmã sombria, fala ao meu
coração.
181 - A flor do meu dia perdeu suas pétalas, esquecida. Ao anoitecer ela
amadurece o dourado fruto da memória.
182 - Sou como um caminho dentro da noite, ouvindo, em silêncio, os passos da
própria memória.
183 - Ao anoitecer, o céu é para mim uma janela com uma lamparina acesa, e
atrás dela alguém esperando.
184 - Quem se ocupa demais em fazer o bem não acha tempo de ser bom.
185 - Sou a nuvem de outono, sem água para chover. Contempla a minha
plenitude no campo de arroz maduro.
186 - Odiaram e mataram, e ainda receberam agradecimentos. Mas Deus,
envergonhado, se apressa em esconder a memória deles sob a verde relva.
187 - Os dedos dos pés são dedos das mãos que abandonaram o seu passado.
188 - A escuridão caminha para a luz; a cegueira caminha para a morte.
189 - O cachorro de estimação suspeita que o universo inteiro planeja tomar o
seu lugar.
190 - Calma, coração meu, não levantes poeira. Deixa que o mundo encontre um
caminho para ti.
191 - O arco sussurra à flecha, antes de atirá-la? “Tua liberdade me pertence”.
192 - Mulher, em teu sorriso jorra a música da fonte da vida.
193 - A mente lógica é como navalha afiada: ela fere a mão que a maneja.
194 - Deus prefere as lamparinas dos homens às suas estrelas imensas.
195 - Este é o mundo das tempestades selvagens, domadas pela música da
beleza.
196 - “Meu coração é como o porta-jóias do teu beijo” – disse para o sol a
nuvem do poente.
197 - Tocando, podes matar; ficando longe, podes possuir.
198 - O canto do grilo e o tilintar da chuva chegam a mim na escuridão, como o
murmúrio dos sonhos da minha longínqua juventude.
199 - “Perdi a minha gota de orvalho” – diz a flor ao céu, que perdeu todas as
suas estrelas.
200 - A acha de lenha arde em chamas, e clama: “Esta é a minha flor, a minha
morte”.
201 - A vespa acha que a colméia das abelhas vizinhas é muito pequena. As
abelhas pedem que ela faça a sua ainda menor.
202 - “Não consigo conter as tuas ondas” – diz a margem para o rio. O rio lhe
responde: “Então me deixa guardar as tuas pegadas em meu coração”.
203 - O dia, com o barulho desta pequena terra, afoga o silêncio de todos os
mundos.
204 - A música sente o infinito no ar, a pintura, na terra, e o poema o sente na
terra e no ar, porque a sua palavra tem o sentido que caminha e a melodia que voa.
205 - Quando o sol desce no Ocidente, o Oriente da sua manhã permanece diante
dele em silêncio.
206 - Que eu não me comporte mal com o meu mundo, colocando-o contra mim
mesmo.
207 - O elogio me envergonha, porque eu o mendigo às escondidas.
208 - Não perturbeis a profunda paz do meu ócio quando nada tenho a fazer.
Deixai-me, como a praia no entardecer, quando o mar está em silêncio.
209 - Minha jovem a tua simplicidade revela a tua verdade profunda, como o
azul do lago.
210 - O melhor nunca chega sozinho. Vem acompanhado por tudo o mais.
211 - A mão direita de Deus é suave, mas a esquerda é terrível.
212 - O meu entardecer chegou em meio a estranhas árvores, falando uma língua
que as estrelas do meu amanhecer desconhecem.
213 - A escuridão da noite é como um saco de carvão que se incendeia, trazendo
o ouro do amanhecer.
214 - Nosso desejo usa as cores do arco-íris para pintar as efêmeras névoas da
vida.
215 - Deus espera reconquistar suas próprias flores, agora presenteadas pelas
mãos dos homens.
216 - Meus pensamentos tristes caçoam de mim, perguntando-me seus próprios
nomes.
217 - O dom do fruto é precioso, e o da flor é doce. Deixa, porém, que o meu
seja o dom das folhas, com a humilde entrega de sua sombra.
218 - Meu coração desfraldou suas velas aos ventos preguiçosos, em direção à
sombreada ilha do Qualquer-lugar.
219 - Os homens são cruéis, mas o Homem é bom.
220 - Prepara-me a tua taça e deixa que a minha plenitude seja para ti e para o
que é teu.
221 - A tempestade é como o grito lamentoso de um deus cujo amor foi rejeitado
pela terra.
222 - O mundo não afunda porque a morte não é uma greta.
223 - O amor que se perdeu torna a vida mais rica.
224 - Meu amigo, o teu grande coração brilhava com o sol nascente, como o
pico nevado de um monte solitário diante do amanhecer.
225 - Da fonte da morte jorra a tranqüila água da vida.
226 - Meu Deus, aqueles que possuem tudo menos a ti, riem-se daqueles que
nada possuem além de ti.
227 - O movimento da vida descansa em sua própria música.
228 - Os pontapés levantam do chão a poeira, mas não as colheitas.
229 - Nossos nomes são como a luz que brilha de noite nas ondas do mar e
depois desaparece, sem deixar qualquer sinal.
230 - Quem tem olhos para ver a rosa, veja também os espinhos.
231 - Cobre de ouro as asas do pássaro, e ele nunca mais voará pelo céu.
232 - O mesmo lótus de nossa terra floresce aqui, em água estrangeira, com
outro nome, mas com a mesma doçura.
233 - Aos olhos do coração a distância parece muito maior.
234 - A lua derrama sua luz por todo o céu, e guarda suas manchas de sombra só
para si mesma.
235 - Não digas “é manhã”, deixando a manhã com um nome de ontem.
Contempla esta manhã pela primeira vez, como a criança recém-nascida que ainda não
tem nome.
236 - A fumaça no céu e a cinza na terra gabam-se de serem irmãs do fogo.
237 - A gota de chuva sussurrou ao jasmim: “Conserva-me no teu coração para
sempre”. O jasmim suspirou “ah”, e desfolhou-se no chão.
238 - Tímidos pensamentos, não tenhais medo de mim. Eu sou poeta.
239 - O silêncio vago do meu pensamento parece cheio do canto do grilo – o
crepúsculo cinzento do som.
240 - Os foguetes insultam as estrelas, mas o insulto os persegue de volta para a
terra.
241 - Tu me guiaste pelos ruidosos caminhos do dia até a minha solidão no
entardecer. Agora fico esperando que a tranqüilidade da noite me revele o que ela
significa.
242 - Esta vida é como a travessia de um mar, onde nos encontramos todos
dentro de um mesmo e pequeno barco. Na morte chegaremos à praia, e iremos cada um
para os nossos diferentes mundos.
243 - O rio da verdade corre no leito das mentiras.
244 - Hoje o meu coração anseia pela doce hora mais além do mar do tempo.
245 - O canto do pássaro ecoa a luz da manhã para a terra.
246 - “És tão orgulhosa para não me beijar?” – perguntou a luz da manhã para a
flor.
247 - “Ó Sol, como posso cantar para ti e te adorar?” – perguntou-lhe a
pequenina flor. O sol lhe respondeu: “Com o humilde silêncio da tua pureza”.
248 - O homem, quando é animal, é pior que um animal.
249 - Quando beijadas pela luz, as nuvens negras tornam-se flores do céu.
250 - Que a espada não caçoe do seu punho sem corte.
251 - O silêncio da noite arde como lamparina imensa, com a luz da sua Via
Láctea.
252 - Dia e noite, a canção sem fim da morte se avoluma, como um mar que
rodeia a ensolarada ilha da vida.
253 - Esta montanha, com suas pétalas de montes, não é como uma flor bebendo
a luz do sol?
254 - Mal lido e mal acentuado, o real torna-se irreal.
255 - Coração meu, procura a tua beleza no movimento do mundo, assim como
o barco encontra sua graça na água e no vento.
256 - Os olhos não se orgulham de sua visão, mas de seus óculos.
257 - Vivo neste meu pequeno mundo e temo diminuí-lo ainda mais. Arrebata-
me ao teu mundo, e concede-me a liberdade de abandonar tudo o que possuo!
258 - A mentira, por mais que aumente o seu poder, jamais se tornará verdade.
259 - O meu coração, com suaves ondas de canções, deseja lamber o mundo
verdejante em meio a este ensolarado dia.
260 - Erva do caminho, ama as estrelas, e os teus sonhos desabrocharão em
flores.
261 - Deixa que a tua música atravesse o vozerio do mercado e penetre, como
espada, o seu coração.
262 - As trêmulas folhas desta árvore tocam o meu coração como os dedos de
uma criança.
263 - A pequena flor quis seguir o caminho das borboletas, e desfolhou-se toda
no chão.
264 - Desce a noite, e eu me encontro no mundo dos caminhos. Abre-me a tua
porta, ó mundo que és o meu lar!
265 - Cantei as canções do teu dia. Agora, no anoitecer, deixa que eu leve a tua
lamparina para iluminar o meu tormentoso caminho.
266 - Meu amor, eu não peço para entra em tua casa. Vem tu para a minha
infinita solidão.
267 - Morrer pertence à vida, assim como o nascer. Para andar, primeiro
levantamos o pé, e depois o abaixamos.
268 - Com as flores e a luz do sol eu aprendi o significado dos teus pequenos
suspiros. Agora, ensina-me a reconhecer as tuas palavras no sofrimento e na morte.
269 - A manhã beijou a flor noturna que tarde acabava de se abrir. A flor
estremeceu, suspirou, e desfolhou-se no chão.
270 - Na tristeza de todas as coisas eu ouço a Mãe Eterna cantando a sua canção
de ninar.
271 - Terra minha, eu cheguei à tua praia como estrangeiro, vivi em tua casa
como hóspede, e agora me despeço como amigo.
272 - Quando eu me for, gostaria que os meus pensamentos voltassem a ti, como
o fulgor do poente nas margens do silêncio estrelado.
273 - A estrela vespertina do descanso brilha em meu coração. Que a noite me
sussure coisas de amor.
274 - Sou como criança na treva. Mãe, em meio à escuridão da noite, eu estendo
os braços a ti.
275 - O meu dia de trabalho terminou. Mãe, esconde a minha face em teus
braços e deixa-me sonhar.
276 - A lamparina arde longamente no encontro, mas apaga-se logo após a
despedida.
277 - Ó Mundo, quando eu morrer, guarda em teu silêncio esta única palavra:
“Eu amei”.
278 - Vivemos neste mundo quando o amamos.
279 - Os mortos se imortalizam pela fama; os vivos se imortalizam pelo amor.
280 - Eu te vi como a criança meio desperta que vê sua mãe à luz da aurora,
sorri, e adormece novamente.
281 - Morrerei muitas vezes, e então ficarei sabendo que a vida nunca se esgota.
282 - Eu passava no caminho, em meio à multidão, quando te vi na varanda,
sorrindo. Então esqueci todo o barulho e cantei para ti.
283 - O amor é a plenitude da vida, como a taça cheia de vinho.
284 - Eles acendem suas próprias lamparinas e cantam em seus templos com
suas próprias palavras. Mas os pássaros cantam o teu nome na luz da manhã, porque o
teu nome é alegria.
285 - Leva-me ao ninho do teu silêncio, para que o meu coração fique cheio de
canções.
286 - Os que assim o desejam, podem viver no seu mundo cheio de fogos de
artifício. O meu coração suspira por tuas estrelas, meu Deus.
287 - O sofrimento do amor canta em torno da minha vida como o mar
insondável, e a alegria do amor canta como os pássaros nos bosques floridos.
288 - Apaga a lamparina quando quiseres. Eu reconhecerei a tua escuridão, e a
amarei.
289 - Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes,
e então saberás que eu meu feri e também me curei.
290 - Um dia eu cantarei para ti no amanhecer de algum outro mundo: “Outrora
eu te vi à luz da terra, através do amor humano”.
291 - Em minha vida houve nuvens que não trouxeram chuva nem trovoadas,
mas deram-me cores no céu poente.
292 - A verdade levanta contra si a tempestade que espalha as suas sementes em
todo lugar.
293 - A tempestade da noite passada coroou esta manhã com paz dourada.
294 - A verdade parece chegar com a sua palavra final; e a sua palavra final dá à
luz outra palavra.
295 - Feliz aquele cuja fama não brilha mais do que a sua verdade.
296 - A doçura do teu nome enche o meu coração quando eu me esqueço do
meu, como o sol da manhã quando a névoa se dissipa.
297 - A noite silenciosa tem a formosura da mãe; o dia alvoroçado tem a beleza
do filho.
298 - Quando o homem sorriu, o mundo o amou; quando ele gargalhou, o
mundo se amedrontou.
299 - Deus fica esperando que o homem se torne criança na sabedoria.
300 – Faze-me sentir este mundo como o teu amor buscando a sua forma, e
então o meu amor o ajudará.
301 - O teu sol sorri nos dias de inverno do meu coração, jamais duvidando das
flores da sua primavera.
302 - Em seu amor, Deus beija o finito; o homem beija o infinito.
303 - Atravessaste o deserto de anos estéreis para chegar ao momento da
realização.
304 - O silêncio de Deus amadurece o pensamento do homem, e o transforma
em palavras.
305 - Eterno Viajante, encontrarás as tuas pegadas em minhas canções.
306 - Pai, não permitas que eu te envergonhe, porque em teus filhos tu mostras a
tua glória.
307 - Que dia melancólico! A luz, sob as nuvens turvas, está como criança
castigada, com marcas de lágrimas no rosto pálido, e o clamor do vento parece o grito
de um mundo ferido. Mas eu sei que estou caminhando para me encontrar com o meu
amigo.
308 - Lua Cheia, esta noite as palmeiras se agitam e o mar se levanta, ecoando as
batidas do coração do mundo. E tu, de que céu desconhecido trouxeste em silêncio o
doloroso segredo do amor?
309 - Eu sonho com certa estrela, uma ilha de luz onde algum dia eu nascerei.
No fundo de sua vida preguiçosa a minha vida amadurecerá a sua obra, assim como o
arrozal amadurece com o sol do outono.
310 - Quando chove, o perfume da terra molhada se levanta como o grande
louvor da multidão silenciosa das coisas que nada significam.
311 - Não podemos aceitar como verdade que o amor sempre seja derrotado.
312 - Algum dia saberemos que a morte não pode roubar nada do que a nossa
alma tiver conquistado, porque suas conquistas se identificam com ela mesma.
313 - No meu anoitecer Deus vem a mim, trazendo em seu cesto as flores frescas
do meu passado.
314 - Meu Mestre, quando todas as cordas de minha vida estiverem afinadas,
cada toque teu fará soar a música do amor.
315 - Senhor, faze-me viver de verdade, para que também a minha morte seja
verdadeira.
316 - A história da humanidade espera, com paciência, o triunfo do homem
humilhado.
317 - Sinto agora o relance do teu olhar no meu coração, como o silêncio da
manhã cheia de sol no solitário campo que já foi ceifado.
318 - Tenho saudade da ilha das Canções, mais além deste mar dos Gritos.
319 - A música do pôr-do-sol é o prelúdio para a noite, um hino solene à
inefável escuridão.
320 - Escalei o pico da fama e não encontrei nenhum abrigo em sua estéril
altura. Meu Guia, antes que o dia se apague, conduza-me ao vale da tranqüilidade, onde
a colheita da vida amadurece em dourada sabedoria.
321 - As coisas parecem fantásticas na luz vaga do crepúsculo – as torres com a
base mergulhada na sombra e a copa das árvores como borrões de tinta. Vou esperar o
amanhecer e despertar para ver a tua cidade em plena luz.
322 - Eu sofri, me exasperei e conheci a morte. Sinto-me feliz de viver neste
mundo imenso.
323 - Há trechos em minha vida que são desnudos e silenciosos. São os espaços
abertos onde os meus dias de trabalho encontraram ar e luz.
324 - Liberta-me do passado que não vivi e que me agarra pelas costas,
dificultando a morte.
325 - E esta é a minha última palavra: Eu confio em teu amor.
Suplemento com poemas
selecionados do livro A Colheita
Os poemas de A Colheita, de Tagore, num total de oitenta e seis, foram origi-
nalmente escritos em bengali e depois traduzidos para o inglês pelo próprio autor. Esses
poemas datam de épocas diversas, uma espécie de testemunho do itinerário poético e
místico de Tagore. São reflexos de sua vida. A Colheita é também reflexo de nossa vi-
da. Chegamos ou chegaremos ao nosso outono, carregado de frutos, alguns já passados
e outros ainda verdes, mas todos eles representativos da nossa história pessoal e coleti-
va, dos momentos felizes e infelizes, ou, talvez, compreendidos e não-compreendidos
ao longo de nossa caminhada. Meditando, poderemos descobrir o itinerário da nossa
alma e, talvez, enxergar os próximos passos do nosso caminho, todos eles passando por
terrenos que esperam o plantio. Não importa quem irá fazer a colheita.
O mais importante é ler estes pequenos poemas para aprender a ver e ouvir, ou
melhor, a viver com todos os sentidos abertos, a fim de compreender a luta da Vida que
se faz em nós, através de nós e, quem sabe, apesar de nós. Drama, comédia, tragédia?
Tudo isso, mas também o êxtase de nos sentirmos parte deste mundo e desta história e
do mistério da natureza, certos de que “o amanhã pertence a nós!” (A Colheita, 86).
Tagore acreditava no triunfo do Amor e da Vida, contra o Ódio e a Morte. Viveu
plantando, e até hoje nós saboreamos os frutos deliciosos que ele colheu.

1. Ordena-me, e eu colherei os meus frutos, para trazê-los em cestas cheias ao


teu pátio, embora alguns já estejam passados e outros ainda verdes.
O outono se arca sob o peso dos frutos maduros, e na sombra ouve-se a flauta
melancólica do pastor.
Ordena-me, e eu embarcarei no rio. O inquieto vento de março agita languida-
mente as ondas, levantando murmúrios.
O jardim já entregou tudo o que possuía, e com a hora cansada do entardecer
chega o chamado da tua casa na margem do poente.

5. Um punhado de pó conseguia esconder o teu sinal quando eu ignorava o seu


significado. Agora que sou mais sábio eu o leio em tudo aquilo que antes o escondia.
Ele está pintado nas pétalas da flor, as ondas o refletem na sua espuma e as
montanhas o mantêm no alto de seus cumes.
Antes eu desviava o meu rosto de ti. Por isso eu lia as letras ao contrário e não
conseguia entender o que queriam dizer.
9. Enquanto eu continuava preguiçosamente entre os meus tesouros acumula-
dos, eu me sentia como o verme que, no escuro, se alimenta do fruto em que nasceu.
Agora deixo para trás essa prisão apodrecida.
Não quero mais freqüentar a minha tranqüilidade embolorada. Vou atrás da e-
terna juventude, e atiro longe tudo o que não está de acordo com a minha vida e o meu
leve sorriso.
Corro através do tempo. Coração meu, na tua carruagem dança o poeta que vai
cantando enquanto viaja.

13. Mover-se é encontrar-se contigo a cada momento, Companheiro-


viandante! É o mesmo que cantar ao compasso dos teus pés.
Quem é roçado pelo toque da tua respiração se protege mais, caminhando pela
margem. Ao contrário, abre intrépido a sua vela ao vento e cavalga sobre as ondas
turbulentas.
Quem abre corajosamente as portas e sai para fora, recebe a tua saudação. Não
se detém para contar o que ganhou ou lamentar o que perdeu. Seu coração pulsa como
tambor, ritmando a sua marcha. Andando, ele marcha contigo a cada passo, Compa-
nheiro-viandante.

21. Algum dia encontrarei a Vida que pulsa dentro de mim, a alegria que se
esconde em minha vida, embora os dias confundam o meu caminho com a sua poeira
ociosa.
Eu conheci a Vida em alguns vislumbres, e o seu vacilante sopro chegou até
mim, perfumando por um instante os meus pensamentos.
Algum dia encontrarei fora de mim a Alegria que mora por trás do véu da luz.
Então eu me levantarei na solidão transbordante, onde todas as coisas são vistas como
o seu Criador as vê.

25. O pássaro da manhã já está cantando. Quem é que lhe traz as notícias do
dia antes que desponte o amanhecer, quando o dragão da noite ainda mantém o céu
preso em suas negras e frias espirais?
Pássaro da manhã, conta-me como foi que o mensageiro do Oriente encontrou o
caminho para chegar ao teu sonho, em meio à dupla noite do céu e das folhas? O mun-
do não acreditou quando gritaste: “A noite se foi! O sol está chegando!”
Desperta, ó tu que dormes! Abre a tua fronte, esperando a primeira bênção da
luz e, cheio de alegre fé, canta junto com o pássaro da manhã.
30. Um sorriso de alegria percorreu o céu quando revestiste com farrapos o
meu coração, e o deixaste a mendigar pelo caminho.
O meu coração foi de porta em porta, e muitas vezes, quando o seu pratinho es-
tava quase cheio, acabava sendo roubado.
No fim do fatigoso dia o meu coração chegou à porta do teu palácio, levantando
lastimosamente o seu pratinho. Tu então saíste, tomaste-o pela mão e o fizeste sentar-se
ao teu lado, no teu próprio trono.

33. Quando pensei fazer a tua imagem com a minha vida, para que os homens
a adorassem, eu trouxe a ti o meu pó e os meus desejos, os meus sonhos e as minhas
ilusões coloridas.
Quando eu pedi que fizesses da minha vida uma imagem do teu coração, para
que lhe desses o teu amor, tu me trouxeste o teu fogo e a tua força, a tua verdade, a tua
beleza e a tua paz.

49. Meu Mestre, foi grande a minha dor enquanto eu afinava as cordas do meu
instrumento.
Começa agora a tua música, e deixa-me esquecer o sofrimento! Deixa-me sentir
como beleza o que estavas pensando naqueles dias impiedosos!
A noite que desfalece está se atrasando em minha porta. Deixa que ela se despe-
ça de mim com as suas canções!
Ó meu Mestre, derrama o teu coração nas cordas da minha vida com as melodi-
as que descem das tuas estrelas.

51. Eu sei que no vago poente de algum dia o sol irá me saudar com a sua
despedida final.
Os pastores estarão tocando as suas flautas debaixo das árvores e os rebanhos
pastando nas margens do rio, enquanto os meus dias lentamente irão entrando na escu-
ridão.
Antes de partir, esta é a minha súplica: saber por que a terra me chamou aos
seus braços, por que o silêncio da noite me falou das estrelas, e por que a luz do dia
beijou os meus pensamentos e os desabrochou em flores.
Antes que eu me vá, possa eu retardar o meu último compasso para completar a
música. Possa eu levar uma lamparina acesa para contemplar a tua face, e uma grinal-
da para te coroar.
58. A ti pertence a luz que irrompe da escuridão, e o bem que jorra do coração
partido na guerra.
A ti pertence a casa que se abre para o mundo, e o amor que chama ao campo
de batalha.
A ti pertence o dom que ainda é um ganho quanto tudo se perdeu, e a vida que
flui das cavernas da morte.
A ti pertence o céu que jaz no barro de cada dia. Nele estás presente a mim, e
nele estás presente a todos.

63. Não quero o amor que desconhece limites, como o vinho espumante que
rompe o seu vaso e se derrama, perdendo-se num momento.
Envia-me o amor fresco e puro como a tua chuva que abençoa a terra sedenta e
enche as vasilhas do lar.
Envia-me o amor que encharca tudo, descendo até o centro do ser e daí se espa-
lha, como seiva invisível, pelos ramos da árvore da vida, fazendo nascer flores e frutos.
Envia-me o amor que mantém o coração tranqüilo com a plenitude da paz.

69. Estavas no centro do meu coração, mas o meu coração andava errante e
nunca te encontrou. Tu te escondias dos meus amores e esperanças até o fim, porque
estavas sempre dentro deles.
Eras a mais íntima alegria no jogo da minha juventude e, quando eu corria de-
mais no jogo, a alegria me ignorava. Tu cantavas para mim nos momentos de êxtase, e
eu me esquecia de cantar para ti.

73. A primavera entrou em meu corpo com suas folhas e flores. As abelhas
zumbem a manhã inteira e o vento preguiçoso brinca com as sombras.
Uma fonte suave brota do coração do meu coração. O prazer lava os meus o-
lhos como o orvalho banhando a manhã, e a vida estremece em meus membros como as
cordas do alaúde.
Ó amante dos meus dias sem fim! Estás andando solitário pelas praias da minha
vida, onde a maré transborda? Os meus sonhos não esvoaçam ao teu redor, como as
borboletas com suas asas de mim cores? Não vêm de ti essas canções que ecoam nas
sombrias cavernas do meu ser?
Além de ti, quem poderá ouvir o sussurro das horas que hoje se ouvem em mi-
nhas veias, os passos alegres que dançam em meu peito, o rumor da vida incansável
que bate as suas asas em meu corpo?
74. Rompi as amarras que me prendiam, paguei as minhas dívidas, e a minha
porta se abriu. Vou-me embora para todos os lugares!
Eles continuam em seu canto, encolhidos, tecendo a pálida roupa de suas horas,
ou tornam a sentar-se no chão e me chamam de volta.
Mas eu já forjei a minha espada, vesti a minha armadura, e o meu cavalo se im-
pacienta. Vou conquistar o meu reino!

77. O mundo pertence a ti desde sempre e para sempre. Mas tu não precisas
de nada, meu Rei, e não encontras prazer em tua riqueza. É como se ela não existisse.
Por isso, pouco a pouco tu vais entregando a mim o que te pertence, e assim,
pouco a pouco, conquistas o eu Reino em mim.
Dia por dia tu compras a alvorada do meu coração, e assim encontras o teu
amor, esculpido na imagem da minha vida.

78. Deste canções aos pássaros e os pássaros te devolveram canções. A mim


deste apenas voz, e me pediste mais. E então eu canto.
Fizeste leves os teus ventos, e eles voam rápido a teu serviço. Minhas mãos, po-
rém, tu as encheste de peso para que eu mesmo as aliviasse e, por fim, ganhasse com-
pleta liberdade para te servir.
Tu criaste a tua terra, encheste as suas sombras com résteas de luz, e depois re-
pousaste entre elas, abandonando-me no chão com as mãos vazias para criar o teu céu.
A todas as coisas tu dás. A mim só pedes. A colheita da minha vida amadurece
ao sol e à chuva, até que eu ceife mais do que semeaste, alegrando o teu coração. Sim,
tu és o Senhor do celeiro de ouro.

79. Que eu nunca peça ficar livre dos perigos, mas coragem para enfrentá-los.
Que eu nunca mendigue paz para a minha dor, mas coração forte para dominá-
la. Que eu nunca procure aliados na batalha da vida, mas a minha própria força.
Que eu não anseie medrosamente pela salvação, mas esperança e paciência pa-
ra conquistar a minha liberdade.
Senhor, garante que eu não seja tão covarde para sentir a tua misericórdia ape-
nas no meu triunfo, Permite-se encontrar o teu aperto de mão no meio do meu fracasso.
81. Na tua vigília sem fim ouves os meus passos que se aproximam, e a tua a-
legria se mistura ao despertar da aurora, irrompendo numa explosão de luz.
Quanto mais eu me aproximo de ti, mais profundo se torna o fervor da dança do
mar.
Teu mundo é um feixe de luz, que se derrama e enche as tuas mãos. Mas o teu
céu está escondido em meu coração. E ele pouco a pouco vai abrindo as suas flores em
botão, com timidez de amor.

86.
AÇÃO DE GRAÇAS

S im, meu Senhor. Que se alegrem e te agradeçam todos aqueles que andam
pelo caminho do orgulho, esmagando a vida dos pobres com os seus passos e pisando o
doe verde da terra com os pés empapados de sangue. Sim, hoje é o dia deles!
Mas eu te agradeço, porque a minha porção foi permanecer com o pobre que
sofre e geme sob o peso do poder, e ainda esconde o rosto e afoga o soluço na escuri-
dão. Sim, meu Senhor. Cada palpitação da nossa dor vibrou no mais íntimo da tua noi-
te, e cada insulto foi acolhido pelo teu grande silêncio. O amanhã pertence a nós!
Ó Sol, levanta-te sobre os corações que sangram e desabrocham como flores na
manhã, e também sobre o banquete do orgulho, ontem iluminado por tochas, e hoje
reduzido a cinzas. . .
Suplemento com poemas
selecionados do livro Gitanjali
(Oferenda Lírica)
Gitanjali (pronuncia-se guitánjali) é a mais famosa coleção de poemas de Tago-
re. Publicado originalmente em bengali, em 1909, foi traduzido em prosa poética para o
inglês, pelo próprio autor, em 1912.
Gitanjali é um livro de Vida e, portanto, fala de Deus, sobre nós e sobre o mundo
em que vivemos. Passo a passo Tagore nos mostra que já estamos vivendo aquela Vida
que tanto buscamos. Falta-nos, talvez, apenas, aceitar e amar o sentido de tudo o que
somos e fazemos.
Aí descobriremos também que Deus nos ama com amor infinito, e então pode-
remos dizer, completamente extasiados: “Tu, Senhor de todos os céus, onde estaria o
teu amor se eu não existisse?” (Gitanjali, 56)

1. Fizeste-me sem fim, pois esse é o teu prazer. Esvazias continuamente este
frágil vaso, e de novo sempre o enches com vida fresca.
Levaste por montes e vales esta flautinha de bambu, e nela sopraste melodias
eternamente novas.
Ao toque imortal das tuas mãos, o meu pequeno coração perde os seus limites
na alegria, e faz nascer inefáveis expressões.
Teus dons infinitos vêm a mim apenas sobre estas minhas tão pequenas mãos.
Passa o tempo, continuas derramando, e ainda há sempre lugar a preencher.

2. Quando me ordenas cantar, parece que o meu coração vai arrebentar-se de


orgulho. Então contemplo a tua face e as lágrimas me vêm aos olhos.
Tudo o que é duro e dissonante em minha vida se dissolve em única e doce har-
monia, e a minha adoração abre as suas asas, como um pássaro alegre voando sobre o
mar.
Sei que tens prazer no meu canto. Sei que posso chegar à tua presença apenas
como um cantor.
Com a ponta da asa imensamente aberta do meu canto eu roço os teus pés, que
eu jamais poderia querer alcançar.
Embriagado pela alegria de cantar, esqueço a mim mesmo e te chamo amigo, tu
que é o meu Senhor.
5. Peço a indulgência de um momento, para sentar-me ao teu lado. Depois vou
terminar as tarefas que já comecei.
Longe da visão da tua face, o meu coração não conhece tranqüilidade nem re-
pouso, e o meu trabalho torna-se um afã interminável num mar de fadigas sem fim.
Hoje o verão chegou à minha janela, zunindo e murmurando, e as abelhas se
afanam como serviçais do bosque florido.
Agora é o momento de sentar-me quieto, face a face contigo, e cantar a oferta
da vida neste silencioso e transbordante momento de lazer.

10. Aqui é o estrado para os teus pés, que repousam aqui, onde vivem os mais
pobres, mais humildes e perdidos.
Quando tento inclinar-me diante de ti, a minha reverência não consegue alcan-
çar a profundidade onde os teus pés repousam, entre os mais pobres, mais humildes e
perdidos.
O orgulho nunca pode se aproximar desse lugar onde caminhas com as roupas
do miserável, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
O meu coração jamais pode encontrar o caminho onde fazes companhia ao que
não tem companheiro, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.

11. Deixa esse cantochão, essas cantilenas e repetições de rosários! A quem


adoras tu nesse canto escuro e solitário de um templo com portas fechadas? Abre os
teus olhos e vê que o teu Deus não está diante de ti!
Ele está onde o lavrador cava a terra dura e onde aquele que abre caminhos es-
tá quebrando pedras. Está com eles ao sol e à chuva, com a roupa coberta de pó. Despe
p teu manto ritual e desce como ele ao chão poeirento.
Libertação? Onde encontrar essa libertação? Nosso mestre tomou alegremente
sobre si os encargos da criação. Ele está ligado a todos nós para sempre.
Sai das tuas meditações e deixa de lado as tuas flores e o teu incenso! Que im-
porta se as tuas roupas se rasgam e mancham? Vai encontrá-lo e fica com ele na fadiga
e no suor da tua fronte.

12. Longo é o tempo da minha jornada, e longo é o caminho.


Saí no carro do primeiro raio de luz, e continuei a minha viagem através dos
desertos dos mundos, deixando minhas pegadas em muitas estrelas e planetas.
O caminho mais longo é o que mais se aproxima de ti, e a mais difícil aprendi-
zagem é a que leva à extrema simplicidade de um acorde.
O viajante precisa bater em muitas portas alheias para finalmente chegar à sua
própria; tem que vagar por todos os mundos de fora, para finalmente alcançar o santu-
ário mais íntimo.
Meus olhos vagaram longe e por todos os lugares, antes que eu os fechasse e
dissesse: “Estás aqui!”
A pergunta e o grito “Onde?” derretem-se nas lágrimas de mil torrentes, e afo-
gam o mundo no dilúvio da certeza: “Eu sou!”

13. A canção que eu vim cantar até hoje não foi cantada.
Gastei os meus dias afinando e desafinando o meu instrumento.
O compasso não saiu certo e as palavras não foram retamente colocadas. Res-
tou apenas a agonia do desejo em meu coração.
O botão de flor não se abriu, e apenas o vento soluça ao seu redor.
Não vi o seu rosto nem ouvi a sua voz. Ouvi apenas os seus passos calmos an-
dando pelo caminho na frente da minha casa.
Passei o interminável dia da minha vida estendendo para ele a minha esteira no
chão. Mas a lâmpada não foi acesa, e não posso convidá-lo a entrar em minha casa.
Vivo na esperança de encontrá-lo, mas o encontro ainda não aconteceu.

17. Estou apenas esperando o amor, para finalmente entregar-me em suas


mãos. Por isso já é tão tarde, e por isso sou culpado de tantas omissões.
Eles vêm com as suas leis e os seus códigos para logo me prenderem. Mas eu
sempre escapo deles, porque estou apenas esperando o amor, para finalmente entregar-
me em suas mãos.
As pessoas me culpam e dizem que eu sou descuidado. Não duvido que estejam
certas por me culpar.
O comércio do dia terminou e todos os trabalhos já foram feitos. Aqueles que
em vão vieram chamar-me, foram-se embora enraivecidos. Estou apenas esperando o
amor, para finalmente entregar-me em suas mãos.

19. Se não falas, vou encher o meu coração com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada, com a cabeça pacien-
temente inclinada.
A manhã certamente virá, a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em
torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros, e
as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta.
28. As algemas são tenazes, e o meu coração dói quando tento quebrá-las.
Libertação é tudo o que desejo, mas eu me envergonho de esperar por ela.
Tenho certeza de que há em ti um tesouro sem preço, e que és o meu melhor a-
migo. Mas não tenho coragem de varrer as quinquilharias que entulham o meu quarto.
O cobertor que me envolve é manto de pó e morte. Eu o odeio, mas abraço-o com amor.
Minhas dívidas são grandes, minhas falhas são enormes e a minha vergonha é
secreta e pesada. Todavia, quando venho pedir um benefício, tremo de medo de que a
minha súplica seja atendida.

34. Permite que de mim reste apenas aquele pouco, pelo qual eu possa cha-
mar-te o meu tudo.
Permite que da minha vontade reste apenas aquele pouco, pelo qual eu possa te
sentir em todo lugar, chegar a ti em cada coisa, e a cada momento oferecer-te o meu
amor.
Permite que de mim reste apenas aquele pouco, pelo qual eu jamais possa te es-
conder.
Permite que das minhas correntes reste apenas aquele pouco, pelo qual eu fique
ligado à tua vontade, aquele pouco pelo qual o teu projeto se realiza em minha vida: a
corrente do teu amor.

35. Pai, permite que onde o coração não teme e a cabeça fica erguida;
onde o conhecimento é livre;
onde o mundo não foi estilhaçado em pedacinhos pelas paredes domésticas;
onde as palavras brotam da verdade profunda;
onde a luta incansável estende os braços para a perfeição; onde a clara torrente
da razão não se perdeu no deserto arenoso e monótono da rotina morta;
onde a mente é conduzida por ti em direção a pensamentos e ações abrangentes
— permite, meu Pai, que a minha pátria desperte dentro desse céu de liberdade.

36. Senhor, esta é a súplica que eu dirijo a ti: fere a raiz da miséria no meu
coração.
Dá-me forças para suportar alegremente as minhas alegrias e tristezas.
Dá-me forças para que o meu amor frutifique em serviço.
Dá-me forças para que eu nunca despreze o pobre, nem dobre os meus joelhos
diante do poder insolente.
Dá-me forças para elevar a minha mente muito acima da pequenez do dia-a-dia.
E, finalmente, dá-me forças para entregar com amor a minha força à tua vonta-
de.
39. Quando o meu coração estiver duro e ressequido, vem a mim com uma
chuva de misericórdia.
Quando a vida perder a graça, vem a mim numa explosão de canções.
Quando o trabalho tumultuoso espalhar por toda parte o seu ruído, isolando-me
do além, vem a mim, Senhor do silêncio, com a tua paz e serenidade.
Quando o meu coração mendigo estiver covardemente encolhido num canto, ar-
romba a porta, meu Rei, e vem a mim com a pompa de um rei.
Quando o desejo cegar a minha mente com ilusões e poeira, ó tu, o único Santo
e Vigilante, vem a mim com o teu raio e o teu trovão.

44. O meu prazer é ficar esperando e vigiando à beira do caminho, onde a


sombra persegue a luz e a chuva cai no despertar do verão.
Mensageiros que trazem notícias de céus desconhecidos me saúdam e logo se
apressam pela estrada. O meu coração se alegra dentro de mim, e é doce o sopro da
brisa que passa.
Da aurora até o anoitecer fico sentado aqui, diante da minha porta. Sei bem que
de repente chegará o momento feliz em que finalmente verei.
Enquanto esse momento não chega, fico sorrindo e cantarolando sozinho. E en-
quanto isso o ar vai se enchendo com o perfume da promessa.

45. Ouviste os seus passos silenciosos?


Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre.
A cada momento e a cada idade, a cada dia e a cada noite ele vem vindo, vem
vindo, vem vindo sempre.
Cantei muitas canções em muitos estados de espírito. Contudo, cada uma de su-
as notas proclamavam: “Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre”.
Nos dias perfumados do abril cheio de sol, pelo caminho da floresta ele vem
vindo, vem vindo, vem vindo sempre.
No escuro chuvoso das noites de julho, sobre a trovejante carruagem das nuvens
ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre.
De tristeza em tristeza, são os passos dele que me apertam o coração, e é o to-
que dourado de seus pés que faz brilhar a minha alegria.

50. Eu estava mendigando de porta em porta no caminho da aldeia, quando a


tua carruagem de ouro apareceu ao longe, como um sonho deslumbrante. E eu fiquei
me perguntando, extasiado, quem seria esse Rei dos reis.
As minhas esperanças voaram alto, e eu pensei que os meus dias infelizes ti-
nham chegado ao fim. E fiquei sentado, esperando esmolas dadas sem serem pedidas, e
um tesouro derramado pelo chão, em todo lugar.
A carruagem parou onde eu estava sentado. Teu olhar pousou sobre mim e des-
ceste sorrindo. Senti que a felicidade da minha vida por fim havia chegado, Então, de
repente, estendeste a mão direita e perguntaste: “O que tens para dar a mim?”
Ah, mas que gesto régio foi esse o de abrir a tua mão para pedir esmola a um
mendigo? Eu estava confuso e não sabia o que fazer. Então, bem devagar, tirei da mi-
nha sacola o último e menor grão de trigo e o entreguei a ti.
Contudo, qual não foi a minha surpresa quando, no fim do dia, esvaziei a minha
sacola no chão, e encontrei um grão de ouro entre as pobres migalhas que restavam!
Chorei amargamente, lamentando não ter tido a coragem de entregar-me todo a ti.

56. Assim é que a tua alegria em mim é tão completa. Assim é que desceste ao
meu encontro. Tu, Senhor de todos os céus, onde estaria o teu amor se eu não existisse?
Tu me tornaste herdeiro de todo esse tesouro. No meu coração está o jogo sem
fim do teu prazer, e a tua vontade sempre vai dando forma à minha vida.
E, por isso, tu que és o Rei dos reis, tu te revestiste de beleza para seduzir o meu
coração. E por isso o teu amor se perde a si mesmo no amor do teu amante, e então és
visto na união perfeita de dois.

57. Luz, minha luz, a luz que enche o mundo, a luz que beija os olhos, a luz que
acalma o coração.
Sim, meu amor, a luz dança no centro da minha vida. A luz, meu amor, tange as
cordas do meu amor. O céu se abra, o vento gira loucamente, e um sorriso percorre a
terra.
As borboletas estendem as suas velas pelo mar de luz. Lírios e jasmins desabro-
cham na crista das ondas de luz.
A luz se derrete em ouro em cada nuvem, meu amor, derramando-se numa pro-
fusão de pedrarias.
Um alvoroço brota de folha em folha, meu amor, e o prazer é sem limites. O rio
do céu transborda as suas margens e o dilúvio da alegria inunda todas as coisas.

63. Tu me tornaste conhecido de amigos que eu não conhecia, deste-me assen-


to em casas que não eram a minha, trouxeste para perto o que estava longe, e do es-
trangeiro fizeste para mim um irmão.
Meu coração se inquieta quando tenho que deixar o meu esconderijo costumei-
ro. Eu me esqueço de que o antigo mora dentro do novo, e que aí tu moras também.
No nascimento e na morte, neste ou em outros mundos, e onde quer que me con-
duzas, tu és sempre o mesmo, o companheiro único da minha vida sem fim. Sim, com
laços de alegria tu amarras o meu coração àquilo que eu não conheço.
Quando alguém conhece a ti, ninguém mais lhe é estranho, e nenhuma porta se
lhe fecha. Senhor, atende a esta minha súplica: que eu jamais perca a felicidade de ver
a presença do único no jogo dos muitos.
66. Essa que ficou sempre na profundidade do meu ser, no crepúsculo de vis-
lumbres e percepções momentâneas; essa que jamais retirou seus véus na luz da ma-
nhã; essa irá ser a minha última oferenda a ti, meu Deus, envolta na minha canção
final.
As palavras a cortejaram, mas não conseguiram vencê-la, e a persuasão inutil-
mente estendeu para ela os seus braços ansiosos.
Vaguei de país em país, conservando-a no íntimo do meu coração, e ao redor
dela a minha vida ergueu-se e caiu, ao mesmo tempo forte e frágil.
Embora habite sozinha e afastada, ela sempre reinou sobre todos os meus pen-
samentos e ações, sobre todos os meus sonos e sonhos.
Muitos bateram à minha porta, perguntaram por ela, e foram-se embora, sem
esperança.
Ninguém no mundo conseguiu vê-la face a face, e ela continua em sua solidão, à
espera do teu reconhecimento.

69. A mesma torrente de vida que dia e noite percorre as minhas veias, tam-
bém percorre o mundo e dança em ritmo perfeito.
É a mesma vida que explode pelo chão da terra em inumeráveis formas de plan-
tas, e que se precipita em tumultuosas ondas de folhas e flores.
É a mesma vida que o fluxo e refluxo do mar embalam: o berço do nascimento e
da morte.
Sinto que os meus membros se tornam gloriosos em contato com esse mundo de
vida. E encho-me de orgulho, porque o latejar da vida de todos os tempos neste momen-
to dança em meu próprio sangue.

72. Ele está no meu mais íntimo, e é aquele que desperta o meu ser com os
seus toques profundos e escondidos.
Ele é quem põe o seu encanto em meus olhos e alegremente pulsa as cordas do
meu coração em cadências variadas de prazer e pesar.
Ele é quem tece a tela dessa ilusão em vaporosos matizes de ouro e prata, azul e
verde, deixando aparecer entre as dobras os seus pés, em contato com os quais eu es-
queço a mim mesmo.
Passam-se dias, os anos se esvaem, e é sempre ele quem move o meu coração
com mil nomes e disfarces, em muitos êxtases de alegria e tristeza.

73. A libertação para mim, não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade
em mim laços de prazer.
Tu sempre estás vertendo para mim o gole fresco do teu vinho de várias cores e
sabores, enchendo este vaso de barro até as bordas.
O meu mundo fará brilhar as suas centenas de diferentes lamparinas com a tua
chama, e depois as colocará diante do altar do teu templo.
Não! Eu jamais fecharei as portas dos meus sentidos. Os prazeres dos meus o-
lhos, dos meus ouvidos e do meu tato estarão sempre cheios do teu prazer.
Sim! Todas as minhas ilusões se acenderão num raio de alegria, e os meus dese-
jos todos amadurecerão em frutos de amor.

75. Os teus dons para nos mortais, preenchem todas as nossas necessidades e
por fim, em nada diminuídos, voltam a ti.
O rio faz o seu trabalho diário e se apressa por entre campos e aldeias; e a sua
corrente incessante por fim dirige-se a ti, para lavar os teus pés.
A flor adoça o ar com o seu perfume, e a sua última tarefa é entregar-se a ti.
O teu culto em nada empobrece o mundo.
Das palavras do poeta os homens captam o sentido que lhes agrada, mas o seu
sentido definitivo dirige-se a ti.

78. Quando a criação era nova e todas as estrelas brilhavam no seu esplendor
original, os deuses fizeram a sua assembléia no céu, e cantaram: “Ó imagem da perfei-
ção! Ó alegria imaculada!”
Mas alguém de repente exclamou: “Parece que algo se rompeu na corrente de
luz! Parece que uma das estrelas se perdeu!”
Arrebentou-se a corda de ouro da harpa dos deuses. Eles pararam de cantar e,
desolados, clamaram: “Sim, a estrela perdida era a melhor! Ela era a glória de todos
os céus!”
Desde esse dia a estrela é procurada sem parar, e todos mutuamente lamentam
que com essa estrela perdida o mundo perdeu a sua única alegria.
Todavia, no mais profundo silêncio da noite, as estrelas sorriem e segredam en-
tre si: “Que procura inútil! Em todo o universo reina a mais absoluta perfeição!”

81. Em muitos dias de ócio eu lamentei o tempo perdido. Mas ele não foi to-
talmente perdido, meu Senhor, porque tomaste em tuas próprias mãos cada momento
de minha vida.
Escondido no coração das coisas, tu alimentas as sementes para que elas bro-
tem, os botões se abram em flor, e as flores deixem o lugar para os frutos.
Eu estava cansado e dormindo em meu preguiçoso leito, imaginando que todo o
trabalho já estava terminado. E, ao despertar pela manhã, encontrei o meu jardim re-
pleto de flores maravilhosas.
82. Senhor, em tuas mãos o tempo não tem fim. Quem poderia contar os teus
minutos?
Os dias e as noites se esvaem, e os anos florescem e murcham como as flores.
Tu conheces o segredo da espera.
Os teus séculos se sucedem uns aos outros, aperfeiçoando uma pequena flor no
campo.
Nós, porém, não temos tempo a perder. E por que não temos tempo, devemos
aproveitar ao máximo as nossas ocasiões. Somos pobres demais para nos atrasarmos.
Desse modo o tempo vai passando. Eu o dou a todos aqueles que se queixam e o
reclamam. É por isso que o teu altar vai se despojando de todas as oferendas, até a
última.
Quando o dia vai chegando ao fim, eu me apresso, temendo que a tua porta se
feche. Contudo, sempre consigo chegar a tempo.

96. Quando eu me for daqui, deixa que a minha despedida seja esta: o que eu
vi é insuperável.
Eu provei o mel escondido dessa flor de lótus que desabrocha no oceano de luz,
e por isso fui abençoado. Deixa que seja essa a minha despedida.
Nesta casa de jogos de formas infinitas, eu também joguei, e aqui eu pude vis-
lumbrar aquele que não tem forma.
O meu corpo e os meus membros vibraram ao toque daquele que é intocável. Se
agora chegou o momento do fim, que assim seja! Essa é a minha palavra de despedida.

101. Em minha vida eu sempre te procurei com as minhas canções. Foram e-


las que me levaram de porta em porta, e com elas eu senti a mim mesmo, pesquisando e
tateando o meu mundo.
Foram as minhas canções que me ensinaram tudo o que aprendi. Elas me mos-
traram caminhos secretos, e trouxeram diante dos meus olhos muitas estrelas que des-
pontavam no horizonte do meu coração.
Elas me guiaram todos os dias em meio aos misteriosos países do prazer e da
dor. E agora, a que portal de palácio elas me trouxeram, neste entardecer que coroa o
fim da minha jornada?

102. Eu me vangloriei entre os homens de haver-te conhecido. Eles vêem as


tuas imagens em todas as minhas obras. Então se aproximam e perguntam: “Quem é
ele?” Não sei o que lhes responder, e digo apenas: “Na verdade, não sei como vos con-
tar”. Eles caçoam de mim e se afastam, com desprezo. E tu ficas aí, sentado e sorrindo.
Conto as tuas histórias em canções sem fim, e nelas o segredo do meu coração
acaba escapando. Eles se aproximam e me perguntam: “Conta-nos o que significam
todas essas canções”. Não sei o que lhes responder, e digo apenas: “Ah, quem pode
saber o que elas significam?” Eles sorriem e vão-se embora, me desprezando. E tu con-
tinuas aí, sentado e sorrindo.

103. Ó meu Deus, permite que todos os meus sentidos se dilatem, e eu farei
este mundo roçar os teus pés, numa derradeira saudação a ti.
Assim como a nuvem chuvosa de julho se inclina sob o peso de aguaceiros con-
tidos, permite que o meu coração se prostre à tua porta, numa derradeira saudação a
ti.
Permite que todas as minhas canções reúnam os seus diversos timbres numa só
torrente e se derramem no mar do silêncio, numa derradeira saudação a ti.
Assim como as cegonhas em bando voam noite e dia, voltando para os seus ni-
nhos nas montanhas, ó meu Deus, permite que a minha vida inteira continue a sua via-
gem para o seu eterno lar, numa derradeira saudação a ti.