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Monografia Bolivar - Final

Monografia Bolivar - Final

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CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ARTES CURSO DE HISTÓRIA

BOLÍVAR SCHLOTTFELDT MARINI

UMBANDA EM ALEGRETE ORIGENS E FUNDAMENTAÇÃO

ALEGRETE/RS/BRASIL

2010

BOLÍVAR SCHLOTTFELDT MARINI

UMBANDA EM ALEGRETE ORIGENS E FUNDAMENTAÇÃO

Monografia apresentada à Banca Examinadora da Universidade da Região da Campanha – Campus Universitário de Alegrete, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientador (a): Prof.º Edson Romário Monteiro Paniagua.

Alegrete, 03 de dezembro de 2010.

UNIVERSIDADE DA REGIÃO DA CAMPANHA CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE ALEGRETE CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ARTES CURSO DE HISTÓRIA A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova o trabalho de conclusão. UMBANDA EM ALEGRETE ORIGENS E FUNDAMENTAÇÃO Elaborado por: BOLÍVAR SCHLOTTFELDT MARINI Como requisito parcial para obtenção do titulo de Bacharel em História

____________________________________ Prof.º Luis Felipe Shervenski Coordenadora do Curso ____________________________________ Prof.º Edson Romário Monteiro Paniagua. Orientador (a)

Comissão Examinadora ____________________________________

____________________________________

____________________________________

Alegrete, 03 de dezembro de 2010.

Como a nossa lei não há.Refletiu a luz divina Com todo seu esplendor É do reino de Oxalá Onde há paz e amor Luz que refletiu na terra Luz que refletiu no mar Luz que veio de Aruanda Para todos iluminar A Umbanda é paz e amor É um mundo cheio de luz É a força que nos dá vida É a grandeza nos conduz. Levando ao mundo inteiro A Bandeira de Oxalá! Levando ao mundo inteiro A Bandeira de Oxalá! (Hino da Umbanda) . Avante filhos de fé.

Outro elemento estudado foi a mutação do ritual umbandista. Quanto à presença da Umbanda em Alegrete. Orixá. Ao longo do trabalho são apresentados trechos de entrevistas com Pais de Santo e Caciques de Umbanda alegretenses. foi descoberta a descendência do ritual praticado na cidade. que é dos terreiros de Porto Alegre (da mesma forma que as outras religiões afrobrasileiras aqui existentes). Também se comprovou que a Umbanda nunca se privou da participação social e política.RESUMO Esta pesquisa sobre a Umbanda começou com o objetivo de identificar as raízes africanas da Umbanda e a representatividade social que esta religião por ventura poderia ter trazido aos seus adeptos. em especial durante a década de 40. é chamada de “religião tipicamente brasileira”. mas ao longo do desenvolvimento as evidências mostraram que esta religião não possui apenas raízes africanas. Palavras-chave: Umbanda. Alegrete. representando a síntese das principais religiões que fizeram parte da fundamentação da sociedade brasileira e. dando suporte teórico à pesquisa bibliográfica efetuada. justamente por isso. religião. católicas. kardecistas e exotéricas. . mas também indígenas. no regime do Estado Novo. Também foram obtidos dados comprobatórios de que a Umbanda já se fez muito mais presente na vida dos alegretenses do que hoje em dia. frente às mudanças pelas quais a sociedade passou.

Another factor studied was the mutation of Umbanda’s ritual. the evidence showed that the roots of Umbanda aren’t only African. Also was proved that Umbanda never deprived itself from the social and political participation. in front of the changes of the society. but also indigenous. was discovered the progeny of the ritual in this city. Orixá. . supporting the theoretical search performed. among the regime of “Estado Novo”. Exoteric and Kardecists to. representing the synthesis of the major part of the religions that formed the base of Brazilian society and because that it’s called a "typical Brazilian religion". identify the Umbanda’s African roots and the means of social representation that this religion gave to their disciples. datas who comprove that Umbanda has been done much in the life of alegretenses than today were also obtained. Keywords: Umbanda. Along the research. Catholic. but over the time. About the presence of Umbanda in Alegrete. Alegrete. especially during the 40s. religion. As well. which cames from the “terreiros” of Porto Alegre (in the same way as the others africanBrazilian religions here). were showed parts of interviews with “Pais de Santo” and Umbanda “Caciques” of Alegrete.ABSTRACT This research about Umbanda started with an objective.

....................................... ..................................................................... 54 Figura 7: Foto de Araci Baez no seu túmulo no cemitério municipal de Alegrete......... 30 Figura 4: Principais rotas de tráfico de escravos.............................. 64 Figura 14: Carteira de identidade da AFROBRAS.............. 64 ...... ...... ........................................................ .......... ................................ Exemplo de sincretismo religioso........................................ 60 Figura 10: Final da passeata do dia de Yemanjá (02 de fevereiro)................ ...................................................LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Foto de Zélio Fernandino de Moraes........................................................... ..... ..... 60 Figura 9: Foto de duas placas depositadas junto ao túmulo de Araci Baez em virtude de graças alcançadas....... 62 Figura 11: Imagem do Xangô peregrino......... 46 Figura 5: Ogum (esquerda) e São Jorge (direita)........................................ ano de 1985.......... 21 Figura 3: Iluminura medieval de um Ouroboros...................................... realizada pelo médium vidente Jurandy em 1949...... 58 Figura 8: Foto de uma placa depositada junto ao túmulo de Araci Baez em virtude de graças alcançadas...................................................................... ano desconhecido............................................... 63 Figura 13: Identidade de Médium filiado à AURAFA......................................... ...... ............... ... uma loja contemporânea de produtos de religião afro-brasileira........... 62 Figura 12: Imagem do Xangô peregrino sendo conduzida pelo carro de bombeiros pelas ruas da cidade.............................................................................................. ................. 18 Figura 2: Pintura mediúnica retratando o Caboclo das Sete Encruzilhadas................................. 50 Figura 6: Interior do Bazar Santa Rita de Cássia. ..... ano de 1985...................................................................................

35 2. 25 2 O UNIVERSO MÍSTICO UMBANDISTA SOB UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA ...........2 Umbanda e política.. 66 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .. Orixá da Trapaça ............................... 61 CONCLUSÃO ............5 As esposas de Xangô ........... 28 2.............................................................................................................................................. 42 2.......................... 58 3................4 Iansã..................................................1.......................................... 43 2.. 12 1....... 33 2...1 Contexto Histórico ................................... 11 1..................................4 UMBANDA E SOCIEDADE .............................................................................................................................1.... 14 1..... 8 1 AS ORIGENS DA UMBANDA NO BRASIL ..................................... 43 2..................2 Ogum......................................................................................................................5 ADAPTAÇÃO DO RITUAL – MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS .. 49 2.....1 Exu..................................... 36 2..................................1 Contexto Histórico ........................ 18 1............................................................................................................................. 24 1.............................. A UMBANDA CHEGA AO RIO GRANDE DO SUL ....................................................................................................................1 COSMOVISÃO AFRICANA .................. 53 3 EXPANSÃO........1...... 22 1......... um Orixá Popular ..........................1...................... 24 1.......... 57 3....................................5 A RELEVÂNCIA DA UMBANDA NO ESTADO NOVO .................................................1 Organização e Regulamentação (de 1981 ao momento presente) ....................................................................2 Escravos Africanos no Brasil – A adaptação a um meio exótico ... 39 2................1 ETIMOLOGIA DA PALAVRA .........................3 ZÉLIO FERNANDINO DE MORAES E O CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS ........2 A UNIÃO DE TODAS AS BANDAS .......5.... 67 .........................1.................................... 37 2....................................................................6 Ibêji.....1............................................SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................... uma Rainha de Vários Reis ...................................3 Ossanha e os Fundamentos das Ervas .....1...3........ a Inocência que Vence a Morte ..1 A UMBANDA EM ALEGRETE ............................................ 46 2................2 O ITÃ E A EDUCAÇÃO RELIGIOSA .........................3 A DIÁSPORA AFRICANA . 41 2.......................5...................................3.......................................................................................................................................................4 O SINCRETISMO – ATRIBUIÇÕES E PERMUTAS DE SIGNIFICADO .... 28 2......

o Catolicismo. no município de Alegrete. as informações foram dispostas de forma cronológica. serviu aos interesses da classe governante em certos momentos da história do Brasil. porém entremeadas por contextualizações e comentários que facilitam a compreensão do conteúdo. bibliográfico e investigativo. focando. Claros exemplos disso são as críticas dirigidas à Umbanda pela doutrina Espírita.8 INTRODUÇÃO O presente trabalho constitui-se em uma análise da trajetória da Umbanda no Brasil. Aprofundando-se na questão social da Umbanda. que são: o Kardecismo. também foi perseguida e discriminada por outras ordens religiosas que veem. que antigamente a considerava uma manifestação baixa ou atrasada da sua própria doutrina. que desacredita a Umbanda da sua capacidade. há a crítica das seitas neopentecostais que. em outros momentos. Além disso. é claro. Porém. de forma mais específica. Com essa disposição das informações. a sua difusão para o estado do Rio Grande do Sul. uma corruptela do que se espera de uma religião. além de analisar a maneira como essa religião criou vínculos com vários setores da sociedade. Ela é africana ademais todas as suas outras influências. como elemento agregador. No decorrer deste trabalho. constatou-se que a Umbanda não é apenas uma religião afro-brasileira. o Candomblé (da mesma forma que todos os cultos das nações africanas). não tão somente à Umbanda) além de se apropriarem de sua linguagem. ou mesmo pelo Catolicismo. Através de uma pesquisa de cunho documental. o animismo nativo indígena e certos ritos esotéricos de origem européia. nessa manifestação espiritual. dirigem contra a Umbanda a carga de ser a sua antagonista. mais seriamente do que o descrédito do Catolicismo. percebe-se que ela. demonizando as entidades dos rituais afro-brasileiros (generalizando a todas as religiões afro. observa-se a .

A começar. estudou-se cada um dos elementos que deram origem à Umbanda. bem como a idéia de construir um conhecimento fruto da comparação metódica. Dá-se preferência a esta nomenclatura do que o termo “pai-de-santo”. elementos estes que possibilitaram a realização de seus cultos no Brasil. Sendo assim. estendendo a análise para o campo da antropologia. também se estudou a estigmatização imposta por ele à Umbanda. Nesse ponto. que participou do processo de fundamentação da Umbanda como religião e emprestou algumas terminologias também. os seus cultos ancestrais. nos primeiros anos de escravidão. Além da contribuição prática do Espiritismo. no movimento humano que ficou conhecido por “diáspora africana”. e a forma como esses contingentes humanos de diferentes nações africanas foram recriando. . como a palavra médium. a definição do processo de possessão mediúnica. etc. fato que facilitou aos africanos adquirirem o conhecimento acerca dos elementos nativos da nova terra. substituindo o que encontravam aqui por elementos endêmicos da África. Sinônimo de cacique. desenvolveu-se um sincretismo 1 entre os santos católicos e as divindades africanas. Outro elemento é o Catolicismo. Em meio a essas trocas simbólicas. para que os escravos pudessem dar continuidade à prática do seu culto de maneira velada. visto que esses ritos foram sendo adicionados à Umbanda 1 2 Fusão entre religiões diferentes ou mesmo a influência de uma religião sobre outra. como já foi supracitado. também se averiguou a influência indígena no tocante à estreita relação entre os nativos e os escravos africanos. dirigente. usada para designar adeptos e líderes de terreiro 2 . Outro fator estudado foi o Kardecismo. que se misturou aos cultos afro-brasileiros primordiais pela necessidade de tornar viáveis os cultos religiosos dos escravos. Realizou-se uma breve explanação da influência de ritos esotéricos europeus na Umbanda. visto que os mesmos eram proibidos de manifestar as suas religiões. mentor. Este trabalho também se propõe a estudar o lado simbólico da Umbanda e os processos que levaram o ritual umbandista ao formato que possui atualmente.9 clara tentativa de fazer os conteúdos dialogarem entre si. etc. em terras brasileiras. mais comumente usado no Candomblé e no Batuque. Nome comumente usado para designar o sacerdote umbandista. a relevância das diferentes levas de escravos africanos que chegaram ao Brasil.

combinada às entrevistas com pessoas ligadas à Umbanda. entrando em contato com os sacerdotes umbandistas. Também. realizou-se esta parte do trabalho. essas interpretações não coincidem com a real consumação dos fatos. Com acesso à leitura paleográfica. foi revisado o processo de expansão da Umbanda pelo Brasil e como isso foi facilitado pela existência de práticas rituais similares ao longo do país. AURAFA. uma explanação sobre a história da Umbanda em Alegrete. fruto da interpretação de seus sacerdotes e devotos. Pretende-se. como ela se estabeleceu e como se organizam as casas de religião na cidade. Para esta parte do trabalho. mas sim. que foram sendo incorporadas ao contexto da Umbanda. muitas vezes. dar início a um registro formal de uma religião conhecida pela transmissão oral da sua tradição. . Acresceu-se a esse trabalho. fazer as ligações entre os fatos. aclarando. assuntos até então negligenciados mesmo pelos seus próprios adeptos. contribuindo no processo de formulação que resultou na Umbanda que conhecemos hoje. Este trabalho não tem a pretensão de criar uma opera omnia 3 da Umbanda. foi usada a metodologia investigativa e documental. Quanto a isso.10 de maneira gradativa. adeptos do culto e com a diretoria da Associação de Umbanda e Religião Africana de Alegrete. dessa forma. tampouco o registro definitivo dessa religião em Alegrete. impedindo que as corruptelas geradas pelo passar do tempo causem uma má interpretação do significado das práticas religiosas e de seus dogmas. 3 Do latim = obra completa. também.

José Henrique Motta de. às vezes. SP: Editora do Conhecimento. 91. 2008. podemos destacar as seguintes: Umbanda Tradicional (segue os preceitos de Zélio Fernandino de Moraes). Limeira. como o Candomblé e o Batuque) Umbanda Esotérica (baseada nos preceitos de Oliveira Magno. Umbanda Popular (anterior à fundação formal da Umbanda Tradicional. propagam 4 Em relação às linhas doutrinárias da Umbanda. Veio a Jurema para trabalhar A caboclada iluminou todo terreiro E Oxalá abençoou Oi Saravá. 6 OLIVEIRA. Muito já se falou sobre as origens da Umbanda e não são raras as especulações tendenciosas acerca da maneira como ela foi codificada. da Matta) Umbanda Iniciática (descende da Umbanda Exotérica. W. Das Macumbas à Umbanda. 5 Diz-se das práticas católicas que são mescladas a elementos da cultura popular e do folclore. mais precisamente. a pajelança indígena. Emanuel Zespo e W. Umbanda branca ou de mesa (de influência Espírita). Umbanda cruzada (variação que mistura elementos dos cultos das nações africanas. veio Iemanjá. porém com influência indiana oriental. foi criada pelo Mestre Rivas Neto). Tais discussões. p. também chamada de macumbas ou Candomblé de caboclos). com o passar do tempo. o campo da religião sempre foi marcado por discussões entre grupos que alegam ser os detentores da verdade absoluta. veio Iansã. Existem ainda outras linhas. porém suas características específicas não são suficientemente claras para que se criasse uma denominação. como o Kardecismo. Umbanda de caboclos (com forte influência da pajelança indígena) e Umbanda de Pretos Velhos (com destaque ao culto dos ancestrais africanos).11 1 AS ORIGENS DA UMBANDA NO BRASIL Quando Oxalá fundou a Umbanda Senhor Ogum tomou conta do congá Veio Oxum. a Umbanda tenha se dividido em várias linhas doutrinárias 4. 1. . seu Ogum Megê Deste terreiro ele é o protetor (Ponto cantado de abertura de trabalhos na Umbanda) Por mais que. as origens desta religião remetem a um conjunto de práticas ligadas a várias religiões e seitas. no Rio de Janeiro. Essas práticas populares vão ganhar o status de religião em um momento relativamente recente da nossa história. o esoterismo de origem européia.ed. até por que. da virada do século XIX ao XX 6. o culto das nações africanas e o Catolicismo popular 5.

porém. necessita de nomes. marcos fundacionais. marcos históricos. Nei. o vocábulo umbanda é de origem banto (angolana). LOPES. SP: Selo Negro. como resultado de diversos fatores sociais. Há casos em que os rituais vão sendo construídos ao longo do tempo. presente tanto no dialeto umbundo 9. Nesse ponto. que nem sempre uma religião é fruto da ação de um fundador. além do recorrente uso do viés da confirmação 7. por esta ser fruto de uma construção permeada de especulações e comparações forçadas. políticos. então. observa-se. até meados do século XX. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.1 ETIMOLOGIA DA PALAVRA 8 Segundo a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana .12 imprecisões quanto à real origem da Umbanda. entre outros. no cotidiano da prática religiosa. . gerando todo tipo de má interpretação dos fatos. filosóficos e antropológicos. uma cisão quanto à interpretação das origens da Umbanda. como um costume característico de um grupo que gradualmente é disseminado e ganha novos parâmetros. não somente para manter credibilidade. levantam-se indícios de que a Umbanda é produto de uma construção gradativa e que o mito criacional da Umbanda (que será melhor detalhado ao longo deste trabalho) apenas serviu para oficializar uma série de práticas que já existiam há muito tempo. Percebe-se. existe um mito criacional que indica o Rio de Janeiro da virada do século passado como o local de nascimento da Umbanda. muitas vezes. existem os adeptos da Umbanda Exotérica e da Umbanda Iniciática). estudando a maneira como se construiu o ritual umbandista e o contexto religioso do Rio de Janeiro do século XIX. São Paulo. 663. p. quanto 7 8 Termo para expressar o erro sistemático ou tendenciosidade. A manutenção da fé. de um indivíduo que recebeu a incumbência divina de dar início e disseminar tal doutrina. Existem os que buscam uma explicação mística para o processo de formulação da Umbanda (dentre estes. 2004. mas também para facilitar a compreensão da mitologia que se cria em torno das religiões. Devido a isso. Em princípio. este trabalho não se ocupará em estudar a Umbanda Esotérica. como também existem os que procuram a análise histórica do mesmo processo. 1.

Língua falada pelos Ambundos. bunda. um desejo de disseminar a Umbanda por outros setores da sociedade brasileira. FERNANDES. palavras como sunga. Outras acepções feitas à etimologia da palavra Umbanda são mais permeadas de significado esotérico. que propôs uma relação mística da Umbanda com a tradição religiosa da antiga Índia. com o tempo. Isto sustenta a opinião de que a Umbanda nasceu das práticas medicinais alternativas usadas pelas camadas mais pobres da população. Não é de se esperar que uma sociedade estruturada dentro do modelo cristão católico aceitasse de bom gosto uma religião fruto das escalas mais humildes e que era herdeira de uma forte tradição africana e indígena. tentou-se remover os resquícios das práticas religiosas tidas como “atrasadas”. o umbundo e o quimbundo) contribuíram em grande parte para o vernáculo do português brasileiro. do sânscrito. porém um fator representava um entrave às pretensões desse grupo. Apud.13 no quimbundo10. Tal idéia não apresenta dados tangíveis e acaba tecendo uma relação forçada entre duas culturas. no Brasil. uma vez que várias gírias e expressões populares advêm dos dialetos bantos. da mesma forma que os Ovimbundos. Além disso. surgiram teóricos como o umbandista Diamantino Oliveira Fernandes 11 . este fator era a própria herança afro-indígena da Umbanda. Dessa forma. como de toda uma tradição ancestral. As línguas de matriz banto (em especial. Já o termo que designa o curandeiro praticante da medicina espiritual é mbanda (em umbundo) ou kimbanda (em quimbundo). havia dentro da comunidade umbandista. Durante a década de 40. p. passou a dar nome a uma subdivisão do culto da Umbanda. desconsiderando as evidências linguísticas das nomenclaturas de origem banto. 9 Língua falada pelos Ovimbundos. um grupo étnico angolano. Diamantino Coelho. Assim. dodói e tantas outras que poderia ser feita outra monografia acerca da contribuição banto à nossa língua. “medicina”. uma vez que nasceram na comunidade afro-descendente e. significando “arte de curandeiro”. cachimbo. 11 Cf. “ciência médica”. um grupo étnico angolano. neném. p. 2008. 1942. “princípio divino”. foram sendo assimiladas pela língua portuguesa. é uma tentativa eurocêntrica de corromper o significado original não só da palavra. 115. não confundir com o vocábulo moderno Quimbanda que. xodó. OLIVEIRA. O que se ressalva disso é a origem social dessas expressões. 23 10 . numa tentativa de afastar a Umbanda do seu passado original. O termo Umbanda representava para Fernandes a apócope de “Aum-Bandhã”.

linha de Ogum. Dentre essas anotações. 12 OLIVEIRA. quando se fala a respeito das “linhas” de espíritos (linha de Oxalá. como os mesmo. É difícil precisar os rituais das religiões indígenas como eles ocorriam no passado12. principalmente nas classes mais pobres. mediante a falta de acesso a cuidados médicos. etc. 2008. linha de Oxum. untando-se com um pouco de pó que guardam em casa. asperge. os índios põe-se a dançar. 1. Os chás. com o objetivo de limpá-las de energias negativas. europeus). A exemplo. em seu livro “Das Macumbas à Umbanda”: Consiste em encher grandes potes de barro. que precisam recorrer à medicina alternativa disponível. . Ou mesmo “bandas” como as diferentes linhagens de espíritos que compõem o panteão umbandista (africanos. Linha de Iemanjá. Mas qual é a origem dessas práticas? A resposta está nos habitantes nativos das terras brasileiras. Para montar um paralelo com o passado. tomando um ramo de folhas.). mas também da medicina popular. Este ritual é bastante semelhante a um ritual indígena descrito por José Henrique Mota de Oliveira. devido a sua estreita relação com os indígenas.2 A UNIÃO DE TODAS AS BANDAS Compreender a Umbanda é compreender a sua natureza. significa o mesmo que “linha”. Finalmente. o ritual em que o sacerdote Umbandista asperge a água das quartinhas sobre as pessoas. Mesmo com todo o esforço catequético europeu para aculturar os indígenas e eliminar todo e qualquer traço de sua cultura. a companhia. que mergulha nos potes. a palavra banda. há ainda quem defenda que a palavra Umbanda queira significar “a união de todas as bandas”. A Umbanda funciona como elemento agregador de uma série de práticas populares.14 No meio popular. não apenas práticas religiosas. nesse contexto. acham-se alguns elementos similares aos que se presencia hoje em qualquer casa de Umbanda. proferindo secretamente algumas palavras à sua superfície e soprando dentro delas fumo de petun. p. 36. Depois. muitos elementos culturais foram perpetuados e estão de tal forma entremeados na nossa cultura que já não sabemos separá-los da cultura européia. indígenas. linha das Almas. é preciso recorrer às anotações dos padres jesuítas. benzeduras e receitas de saúde são recursos recorrentes na sociedade brasileira. o feiticeiro.

47. 1979. Manoel. p. Informações da terra do Brasil. porém os conceitos religiosos são. A cultura religiosa africana ainda forneceu muitas características que ajudaram a compor a atual roupagem da Umbanda. 2008.13 A atual visão dos praticantes da Umbanda sobre as entidades indígenas (caboclos). o criador de todos eles. é uma caricatura romantizada. etc. curimba. A língua utilizada no culto é preponderantemente o banto 15 . todos estes estão submetidos à lei de uma entidade maior. no entanto. pois mesmo havendo vários Orixás. Apud NÓBREGA. os africanos contribuíram com boa parte das nomenclaturas usadas nos rituais de Umbanda e. No Brasil colonial. No processo de catequese. valente e aculturado pela prolongada convivência com o europeu. nesse ponto. era a religião oficial do Império. em parte pelos romances indianistas. omolocô. mas sim. dendê. A Igreja funcionava como elemento legitimizador do poder do Imperador e da estrutura de trabalho que mantinha a sociedade brasileira. 73. O Catolicismo também se mostra presente no mapa genético da Umbanda e não é de se estranhar que seja assim. o uso de velas para as entidades e as próprias estátuas de santos católicos são pequenos exemplos dessa influência. chega-se a uma configuração bastante interessante. . Vemos isso no culto aos Orixás. 37. p. em rituais de Umbanda (de predominante ancestralidade Angolana). O discurso cristão associava o trabalho escravo com o sofrimento de Jesus para criar uma cultura de conformação entre os escravos. o Catolicismo não era uma escolha. muitas vezes. chamado Zambi ou Olorum. que não é um orixá. a Igreja encontrou mais pontos de convergência entre a sua cultura e a cultura dos negros do que com a dos índios. Apud MÉTRAUX. 13 Idem. mas marcadamente pela tradição oral e pela imagem idílica do índio orgulhoso. 15 A exemplo: Umbanda. Presentes no Brasil desde o século XVI. 14 OLIVEIRA.15 Isso feito. Não é apenas no sincretismo religioso (que será mais bem detalhado no seguimento deste trabalho) que se mostra a influência católica na Umbanda. toma cada qual dessa água em cuias com ela banhando a si e a seus filhos. que são entidades específicas do povo Yorubá. p. isso porque há um monoteísmo latente 14 na religião nos negros yorubás. Ibidem. yorubanos.

o Kardecismo encontrou grande aceitação nas camadas mais pobres (em parte. 2008. gerando um “Espiritismo abrasileirado”. Assim. 16 17 OLIVEIRA. Ibidem. . 18 OLIVEIRA. e esta. Essa configuração sócio-religiosa é a responsável pela formulação da Umbanda. alicerçada no catolicismo. 62. uma vez que recebemos de volta os resultados de nossas ações passadas. enquanto o segundo é uma religião marcadamente urbana. Mesmo que a doutrina idealizada por Allan Kardec mais se assemelhe a uma ciência do que a uma religião. no qual nosso espírito é imortal e. de maneira desarticulada à igreja. 2008. Idem. p. ao se disseminar pelo Brasil. o que acarretou em uma adequação da doutrina pela população adepta. quando nossos corpos físicos morrem. por sua vez.16 Semelhante a todas as adaptações que os ritos exógenos sofreram para adequar-se à realidade brasileira. as práticas curativas populares e a mecânica dos processos mediúnicos vão ser os ingredientes originadores da Umbanda. muitas vezes. na segunda metade do século XIX17. como um culto doméstico. a cultura popular vai se encarregar de modificar alguns conceitos do Kardecismo tradicional. características estas que são mais influentes na Umbanda que o próprio Catolicismo. p. ele segue reencarnando em outros corpos em busca de aprimoramento. já que cultua uma profusão de santos (cada santo correspondendo a uma cura ou benção específica) e é praticado. O Kardecismo defende o princípio da reencarnação. pois temos uma herança indígena e africana mesclada à sociedade. Mas como ocorreu o encontro desse universo religioso africano com o Espiritismo? Observando que o primeiro é pertencente aos negros que trabalhavam na zona rural. p. Essa teoria é embasada por experiências científicas efetuadas por Kardec. Este catolicismo popular brasileiro pode ser considerado quase uma experiência politeísta (grosseiramente comparando). o já existente sincretismo entre os orixás africanos e os santos católicos. 63. devido à sua premissa de que as vidas futuras guardam recompensas àqueles que sofreram nesta vida). estando muito distante do conceito de religião hoje difundido. 75. esse encontro vai ocorrer quando do êxodo rural proporcionado pelo fim da escravidão 18. mesmo assim. o Kardecismo francês vai desenvolver novas características ao se disseminar pelo Brasil16. trazendo o Kardecismo mais próximo à sua realidade e aos seus anseios.

ganhando corpo dentro de um processo de bricolagem. transformaram-se na Umbanda que conhecemos hoje. pg. figurando como práticas populares e sem uma rigidez ritualística. envolvendo estes lados é que teve origem o mito de criação da Umbanda. Com isso. inclusive. 162). 21 Do dialeto quicongo. SP: PUC/SP. 2004. com o tempo. ocorreram os primeiros atritos entre elas e o espiritismo. Em meio a esse contexto. 179). 22 MALANDRINO. no Rio de Janeiro. Em primeira instância. Ainda que houvesse inúmeras semelhanças entre ambos. até então conhecidas como macumbas. 2004. Caracteriza-se por passes. dessa interação vão surgir os catimbós20 e as macumbas21. ambos de ascendência afro-indígena. além de como as práticas. Assim. 2006. entre os séculos XIX e XX.17 onde os negros da zona rural vão buscar um substituto à religião cultuada por eles no campo. 95. 2004. defumações e banhos (LOPES. onde cada parte integrante do novo complexo religioso conserva as estruturas de sua origem. plural de kumba. esse proto-ritual umbandista não possuía uma homogeneidade (ainda hoje não há como defender uma homogeneidade absoluta da Umbanda). pg. Umbanda: mudanças e permanências. as práticas religiosas supracitadas foram se unificando e. 20 Prática espírita afro-indígena de raiz banto. os negros migrados dos Candomblés de Caboclos19 da zona rural vão descobrir o Espiritismo como uma religião dotada de similaridades com os seus antigos costumes. os espíritos guias dessas práticas eram “atrasados” espiritualmente se comparados aos do Espiritismo. por parte do Espiritismo. De um fato bastante pitoresco. São Paulo. mas que guarda informações de como eram as relações entre as religiões no Brasil na virada do século passado. que significa “feito miraculoso”. as macumbas sofreram um profundo preconceito religioso. Brígida Carla. 405). a macumba foi rotulada de “baixo Kardecismo”. como defende Malandrino22. Uma história que já foi muito romantizada. pois segundo os espíritas mais ortodoxos. pg. permeado de elementos indígenas e do espiritismo popular (LOPES. 19 Variante do Candomblé da Nação Angola. Possui características similares ao catimbó (LOPES. makumba. . p. No Rio de Janeiro.

3 ZÉLIO FERNANDINO ENCRUZILHADAS DE MORAES E O CABOCLO DAS SETE Mesmo que seja alvo de inúmeros questionamentos.bp. também. que é ensinada em praticamente todos os terreiros. Rio Grande do Sul. a palavra Umbanda inicialmente designava uma série de práticas e rituais com grande adesão popular entre as camadas mais pobres da sociedade. 91.18 1. Porém.com/_DARteCZ-I4o/TE2ag5A3T8I/AAA AAAAAABk/L6lSW_ZvnlU/s200/Z%C3%A9lio+Fernandino+de+Moraes. o mito de criação da Umbanda serve como marco de fundação para os atuais umbandistas e. para explicar a origem das características pelas quais a Umbanda ficou conhecida. quando essas práticas se unificaram em torno de uma religião? A versão mais aceita.blogspot. é a da história de Zélio Fernandino de Moraes. . Figura 1: foto de Fernandino de Moraes. Como anteriormente mencionado. p. residente na cidade de Alegrete.24 Zélio 23 OLIVEIRA. é um relato sobre o médium Zélio Fernandino de Moraes e a maneira como ele fundou a Umbanda. 24 Fonte: Disponível em: <http://2. 2010. O que segue.jpg Acesso em: 15 out. 2008. O relato tem embasamento teórico no livro Das Macumbas à Umbanda23. sacerdote de Umbanda. um médium carioca que viveu entre o século XIX e o século XX. Esta história foi contada pelo médium Genaro Araújo.

os mentores da sessão estavam desagradados pelo modo pouco ortodoxo como Zélio. Independente disso. Rio de Janeiro. Afora as variações da história. na trajetória da família de Zélio. não houve nenhuma manifestação desse tipo no referido dia. percebemos. consta que o jovem sofria de um distúrbio mental desconhecido. Zélio foi levado a uma casa Espírita e. isso não foi um empecilho para buscar respostas em outros meios. Zélio entra em estado de transe mediúnico e pronuncia – “Aqui falta uma flor” – e sai para o exterior da casa espírita. voltando com uma flor branca e a coloca no centro da mesa. porém os médicos falharam em todos os procedimentos. como o catolicismo. ou a entidade manifesta em seu corpo. pois segundo o Livro de Atas nº 1. Continuando. ao ver Zélio. Percebe-se. Já neste momento. nessa peregrinação. . Aos 17 anos de idade. os rituais curativos populares e o espiritismo. era um jovem nascido em uma tradicional família católica de São Gonçalo. um trajeto por todas os elementos formadores do ritual umbandista. o que suscita o fato de Zélio ter sido levado a uma casa espírita filiada a esta Federação. fato que ocorreu no dia 15 de novembro de 1908. com a permissão do mentor da casa. Até este ponto. Mesmo a família sendo de tradição Católica. Neste ponto da história. ele foi acometido por uma grave doença e a sua família buscou todos os recursos que a medicina da época dispunha para tentar a cura. que tentou obter a cura do rapaz através de um ritual de exorcismo. porém sem sucesso. Sem desistir.19 Segundo se conta. Zélio de Moraes (10/04/1891 – 03/10/1975). 2008. sabe-se que Zélio possuía uma doença persistente e que não pudera ser curada pela medicina tradicional. com o decorrer da sessão espírita. Niterói. estava se 25 OLIVEIRA. Em algumas versões. da Federação Espírita de Niterói25. em outras. que ele fora acometido por um tipo de paralisia. a vaidade e o orgulho pessoal é o que menos importa. Ainda sem obter um diagnóstico conciso quanto à saúde de Zélio. o que nos faz pensar que mediante à angústia de ver um parente sofrer. 94. percebeu a sua latente mediunidade. A benzedeira sugeriu que a família o levasse até a Federação Espírita da cidade vizinha. p. um ar histórico de “peregrinação” em busca da cura para o jovem. a família de Zélio buscou auxílio em um padre da Igreja Católica. surge um equívoco. também. sua família recorreu a uma benzedeira que. ele participou de uma sessão espírita pela primeira vez em sua vida.

Portanto. sem contar que os Espíritos. uma forte visão eurocêntrica. assim. cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. para dar início a um culto em que estes pretos e índios poderão dar sua mensagem e. São os espíritos dos antigos escravos africanos anciões. Um pouco da História de Zélio de Moraes. . um dia após a manifestação do espírito auto-intitulado Caboclo das Sete Encruzilhadas em um centro espírita de Niterói. Allan. Voltando ao relato. Zélio já estava na residência de sua família. recentemente nascidos na vida espiritual. o Espírito que se manifestava em Zélio responde: (. Éder Longas (Revisado por Mestre Thashamara). em São Gonçalo. 29 KARDEC.. 2010. e ainda menos aos europeus civilizados.etc. Observa-se nisso um preconceito existente e uma “elitização” das entidades espirituais. devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho. p. isso se comprova nesta passagem do livro A Gênese. existia uma tendência de acreditar que os espíritos de origem européia e oriental eram mais evoluídos que os espíritos africanos e indígenas. no dia 16 de novembro de 1908. as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras. 28 Guimarães.20 comportando. Disponível em <http://www.29 Constatamos.. que aos chineses. Zélio e alguns dos demais médiuns presentes passam a manifestar espíritos de caboclos26 e de pretos velhos27. encarnados e desencarnados.br>. Logo. vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar. nessa época. Lucília e Garcia. estes espíritos foram advertidos pelos mentores da sessão de que aquele não era seu lugar. Com efeito. Releva-se que o Kardecismo é uma doutrina de origem européia e que a escravidão havia sido abolida há pouco tempo. tornam mais sensíveis a diferença do progresso. 187. A Gênese. uniforme em toda a espécie humana. de Allan Kardec: O progresso não foi. Acesso em 30 Out.nativa. nesse fragmento. porque não haverá caminhos fechados 28 para mim. visto que as obras de Kardec foram escritas no século XIX e. quando vê uma multidão de desconhecidos em frente a 26 27 Nome dado aos espíritos de origem indígena.) se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios. pois eram considerados como espíritos menos evoluídos. era muito forte a influência do Neo-Darwinismo nas correntes filosóficas. no bairro das Neves. E se querem saber meu nome que seja Caboclo das Sete Encruzilhadas. Será uma religião que falará aos humildes. seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos. pois. Frente a isso. simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos.

estava começando um novo tipo de culto que seria destinado à caridade e ao auxilio aos pobres. um nome de inspiração católica.com/_4Bs2nt_cyzE/SRjfdWcNo0I/AAAAAAAAA ow/W68JH9dpTcY/s400/cabocloseteencruzilhadas. junto deles. alguns membros da Federação Espírita de Niterói. Figura 2: Pintura mediúnica retratando o Caboclo das Sete Encruzilhadas. havia no altar da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade uma grande quantidade de santos católicos.bp.21 sua casa. O cristianismo ainda influenciou a Umbanda de outras formas. Tenda Nossa Senhora da Conceição.blogspot. dispostos lá pela vontade de Zélio. . reafirmando que. naquela casa. realizada pelo médium 30 vidente Jurandy em 1949. que utilizou o sincretismo já existente entre as entidades de origem africana e os santos para criar uma nova linguagem religiosa. manifestou-se em Zélio o Espírito do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Zélio de Moraes fundou outras sete Tendas. Às 20h desse mesmo dia. devido à sua formação religiosa familiar. Ele batizou a casa de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Entre 1918 e 1935. 2010. Acesso em: 18 set. que são: Tenda Nossa Senhora da Guia.jpg>. Tenda Santa 30 Fonte: disponível em <http://1.

96.22 Bárbara. Certamente. sem a presença de Zélio.4 UMBANDA E SOCIEDADE Malandrino32 defende que a Umbanda é uma religião urbana. Sobrepondo-me à teoria da autora. . Dedicado à caridade. 33 Parte do ritual umbandista. Com a divulgação propiciada pela federação. Tenda São Pedro. a Umbanda seria uma religião suburbana que vai dialogar com realidade de indivíduos à margem de uma sociedade excludente. Tenda São Jerônimo. 31 32 OLIVEIRA. podendo participar dele qualquer tipo de indivíduo. nas décadas que se seguiram. onde os fiéis podem receber das entidades aplicações de energias curativas chamados de “Axés de cura” (do yorubá. fato consumado no ano de 1937. fornecendo um conforto religioso sem exigir nada em troca. ou mesmo que não tenha passado por nenhum ritual iniciático. esse grupo social já possuía uma experiência religiosa de matriz africana e vai ser o contato dessa experiência já existente com a religiosidade popular do Rio de Janeiro que vai originar a Umbanda. Espírito Santo. Zélio percebeu a necessidade de fundar a Federação Espírita de Umbanda. Pará e Rio Grande do Sul 31. axé = força vital). 1. Neste momento também é dada a permissão para que consultem as entidades que estão manifestadas nos corpos dos médiuns na forma de um oráculo. a Umbanda serviu de sustentáculo espiritual a uma população que afluiu para a região sudeste com o êxodo rural do século XIX e começo do XX. Da mesma forma que ela atende às necessidades dos humildes. 2008. a Umbanda deve o sucesso que teve à capacidade de dialogar com vários setores da sociedade. foram fundadas tendas nos estados de São Paulo. 2006. 96. ela ainda serve de campo para a discussão e teorização por parte dos intelectuais Kardecistas que migraram para a Umbanda. Segundo a autora. MALANDRINO. Contíguo a isso. com o auxílio das tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Minas Gerais. Essa população (que se estabeleceu nas periferias das grandes cidades) trouxe consigo suas raízes religiosas. Tenda São Jorge. é um espaço no ritual relacionado à cura. Este é um ritual público. Essa nova concepção religiosa veio a sanar as necessidades desse povo que estava deslocado de seu meio. Então. descendente do Espiritismo. o Candomblé. mas com o aval espiritual do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Tenda Oxalá. na grande maioria. como vemos nas sessões de passes mediúnicos33. mesmo que não seja praticante assíduo da Umbanda. p. p.

2006. desta forma. onde foi bricolando aspectos de outras religiões à sua acepção. atendendo. onde a política do estado procurava forjar um conceito de brasilidade para alimentar o discurso nacionalista do Estado Novo. Similar a isso. temos a pluralidade como principal característica da Umbanda. Essa pluralidade vai favorecer a identificação das pessoas com a religião. forçando o povo a se adequar às suas leis. mesmo que não tenha sido algo predeterminado. já que é um país composto pelas mais diversas culturas e etnias. processo este que não se restringe à esfera religiosa. desde o momento da sua formulação. uma construção que não se encontra encerrada. mediante a racionalização do mesmo. já havia um conceito de “sociedade umbandista” muito similar ao conceito espírita. 91. no decorrer da década de 30. A Umbanda não. fato que se observa com mais clareza. 2008. A falta desse caráter centralizador e de uma rigidez simbólica e de ritual vai favorecer o ingresso de novos adeptos. ela age na contramão do Cristianismo. p. Essa configuração única tem as mesmas características do Brasil. primeiramente. ela surgiu do povo. O conceito de “maleabilidade” vai estar presente em toda a história da Umbanda. uma vez que a religião da cultura dominante sempre foi usada como elemento de controle de massas. A exuberante vivacidade dos símbolos da Umbanda vai atrair fiéis interessados nessa mística. como um instrumento de agregação social que lhe dá subsídios espirituais para lutar contra um processo de dominação. releva-se a adaptabilidade da Umbanda como facilitador dessa adesão popular. . nunca de homogeneização. mas ainda relativo à Umbanda como 34 35 MALANDRINO. mas sim. E vai ser na década de 30 que os umbandistas vão dar o atual status de religião à Umbanda35. Além disso. serem sujeitos ativos da práxis religiosa. Malandrino34 ainda diz que a Umbanda vai conseguir conquistar um grande número de adeptos egressos do Catolicismo. mas também política e social. pois este foi estruturado de cima para baixo.23 Dessa forma. Anterior a isso. a criação das federações apenas serviu como instrumento de coesão e defesa dos interesses Umbandistas. p. A Umbanda nunca foi unificada dentro de dogmas ou instituições. culminando na perda de significado simbólico e mágico. às necessidades da elite e depois. até a atualidade. interessados na possibilidade de poder adaptar o ritual às suas necessidades e. OLIVEIRA. quando necessita adaptar-se à modernidade. 104.

observa-se a centralização do poder estatal nas oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais. na tentativa de adequar a Umbanda a uma sociedade urbana e em recente processo de industrialização. mediante às dissidências internas no Partido Republicano Paulista e por intensificação da oposição feita por outros estados. naquilo que ficou conhecido como “política do café com leite” 37 . não por luxo. Umbanda Religião do Brasil. como Rio Grande do Sul e Paraíba. que “é cristão por princípio e sentimento. da religião do antigo Egito e das lendas acerca dos reinos míticos de Lemúria e Atlântida. e Minas Gerais tinha um extenso rebanho bovino. Como São Paulo era um grande produtor de café. foi codificada e trazida ao mundo novamente.5 A RELEVÂNCIA DA UMBANDA NO ESTADO NOVO 1. Dessa forma. alguns leigos. Mesmo que. congressos e instituições representativas foram-se criando idéias de que a Umbanda seria a herdeira de uma tradição milenar que (através da ótica espírita) permaneceu velada. onde a Umbanda procurava uma aceitação social. estavam sacerdotes do culto umbandista e. Na década de 20. Tudo isso. revistas. 104. muitas vezes. 1. desejosos de quebrar com o monopólio das oligarquias e também fazer parte do processo político do Brasil. espírita por intuição e que adora as coisas de magia”. como o voto a cabresto e as “degolas”. como diz Pessoa 36 sobre o povo brasileiro. onde se revezavam políticos do Partido Republicano Paulista e do Partido Republicano Mineiro. recentemente. Para assegurar que os resultados das eleições seriam favoráveis. vemos a decadência desse sistema de governo. São Paulo: Obelisco.5.24 uma seita ou crença. Na tentativa de alçar a Umbanda a um novo patamar. deu-se o nome de “café com leite” a essa política. p. um grupo de intelectuais umbandistas se esforçaram em criar um novo contexto de criação para a Umbanda. trazendo consigo traços do Hinduísmo. Apud OLIVEIRA. p. essas comparações pareçam forçadas. [1960?]. através de jornais. para poder sacramentar a sua existência na sociedade brasileira. temos que avaliar que elas são fruto de um determinado momento histórico. 64. que ocorriam quando os presidentes e governadores destituíam dos seus cargos os senadores e deputados que não lhes favorecessem. 37 Política adotada durante a República Velha. mas por necessidade. José Henrique Mota de. o governo empregava vários recursos. Um elemento que auxiliou foi a facilidade do brasileiro em assimilar novas culturas. também. . 36 PESSOA [e tal]. 2008.1 Contexto Histórico Ao longo da República Velha (1889-1930). Nesse grupo de intelectuais.

às 23h26min. 1. . era necessário criar um conceito de “brasilidade”. todas as manifestações religiosas precisavam de aval das autoridades eclesiásticas39 para 38 Disponível em http://sbph. principalmente. quando um candidato de Minas Gerais foi preterido nas eleições por um de São Paulo. já que a perseguição estatal era muito intensa desde 1937. 107. permitia a existência de outras religiões além da oficial. uma vez que o decreto 2. no artigo 5º. p. 1997. Júlio Prestes. Sabe-se que. quando se criou a Seção de Tóxicos e Mistificações38 na 1ª Delegacia Auxiliar da chefatura de polícia do Distrito Federal. 2008. que as mesmas se limitassem ao culto doméstico ou particular.711.5. defender-se de acusações tão fortemente direcionadas? Usando de recursos similares ao Espiritismo. Essa seção se encarregava de investigar e prender casos de charlatanismo e prática ilegal da medicina. religiosa ou política. em lugares apropriados. governando dentro dos moldes das ditaduras nazifascistas. MACHADO. o então Presidente Washington Luís foi deposto e exilado. desde que não apresentassem a forma exterior de templos. exercida sob a liderança de Getúlio Vargas. O que vai se observar. de 19 de dezembro de 1860. nos anos seguintes. onde Vargas dá início ao período conhecido como Estado Novo (1937-1945). em 3 de novembro. É por essa razão que foi anulado o uso das bandeiras dos estados e de símbolos regionais. foi impedido de assumir o cargo.25 Essa situação se agravou em 1º de março de 1930. a prática de outras religiões não era fácil. a Umbanda precisou usar desse argumento nacionalista “getulista” para se proteger. Um mês depois. onde se exaltam os valores que buscam afirmar essa homogeneidade nacional. p. são várias medidas da parte de Vargas para se manter no poder.2 Umbanda e política No período do Estado Novo. José Henrique Mota de. culminando no golpe de estado de 1937. seu sucessor. Para sustentar as medidas de cunho nacionalista que vão ser tomadas por Vargas. Como poderia a Umbanda. contudo. Mesmo assim. o que fez o governador de Minas Gerais apoiar a oposição a São Paulo. 39 A Constituição do Império.org/2006/historia-religioes-e-praticas-religiosas/jose-henrique-motta-deoliveira/ acessado em 03/11/2010. Em 3 de outubro do mesmo ano. na época do Império. Exigia. uma religião baseada no fator místico da cura. 105. governador do Rio Grande do Sul. Apud OLIVEIRA. necessitava da aprovação das autoridades eclesiásticas para funcionar. em troca de símbolos novos a serem construídos. Cf. estabelecia quer toda sociedade. Vargas assume o comando do “governo provisório”.

por sua vez. mas que. beneficentes e científicas. Um fato que deve ser relevado é que boa parte dos intelectuais da Umbanda se encontrava entre os profissionais liberais. a Umbanda vai tentar mascarar-se dentro do movimento espírita. dessa forma. os umbandistas podiam proteger-se das constantes batidas policiais dentro de uma federação. esses intelectuais de classe média urbana vão utilizar os elementos lendários da Umbanda. Como forma de driblar esse processo. Ibidem. o que impulsionou esses adeptos a buscarem pontos de congruência entre a Umbanda e a política do Estado Novo. vai atender essas necessidades como forma de galgar apoio das classes urbanas. Partindo deste princípio. Estando. convenientemente. . ainda. esse conceito dentro da política nacionalista do governo ditatorial de Vargas. mesmo assim. 40 Idem. Esse quadro mudou sensivelmente para os umbandistas no decorrer da década de 40. representava uma opção recente. com a criação das federações de umbanda e a consequente organização dos adeptos. pois foi formulada com o objetivo de dialogar com todas as etnias. Esse recurso garantia certa segurança para os praticantes de Umbanda e. Esses intelectuais vão lançar. Dessa forma. proclama ser uma entidade beneficente dedicada a divulgar a doutrina espírita. antidemocrática e de inspiração fascista. classe que foi favorecida pelas medidas trabalhistas do Estado Novo (juntamente com os operários). e este. Em nenhum momento será feita alguma citação quanto à prática da Umbanda propriamente. temos a própria Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade que. para criar a referência de que a Umbanda é uma religião genuinamente brasileira. brancos e negros). amparados. pois já em 1937 havia sido criada a Federação Espírita de Umbanda do Brasil. muitas se ocultavam dentro de sociedades literárias. aproveitando-se do mote da Federação Espírita Brasileira e de seu sucesso. no seu estatuto de 1940.26 poderem operar. os umbandistas tiveram mais facilidade de negociar com o governo. pois foi apenas com a constituição de 1937 e a reforma do código penal que se excluiu a prática do espiritismo como crime contra a saúde pública.40 Sendo assim. como a sua criação dentro das três principais etnias que formam o povo brasileiro (índios. com todas as classes sociais e com os vários tipos de culto existentes. estratégia que escondia uma política de governo autoritária. veio a atender a essa classe umbandista recém formada. A exemplo.

onde as federações tinham a função de doutrinar e estabelecer uma homogeneidade do culto nos diferentes estados. bem como o diálogo entre esses grupos e o governo. O interesse do governo em atender essas reivindicações era para que a comunidade religiosa servisse como instrumento de propaganda e. características típicas das primeiras décadas da Umbanda. Isso ocorre quando a religião possui um grupo coeso de adeptos. é claro. muitos intelectuais umbandistas tornaram-se adeptos da ideologia estadonovista. . de amenizar o preconceito existente na sociedade. figuras chave como Zélio de Moraes e os líderes das federações existentes tentaram manejar a situação da melhor forma para que a Umbanda fosse reconhecida como religião e seus templos parassem de sofrer com as batidas policiais da Seção de Tóxicos e Mistificações. o Congresso Nacional da Umbanda veio para atar as pontas que ainda estavam soltas e formalizar em definitivo esta religião. além. pois uma vez que a religião fosse oficializada. de fato.27 Aproveitando este contexto favorável. onde a política do estado favorecia a criação de grupos em defesa de um ideal comum. que vão defender os ideais da classe. Nesse Congresso. os seus adeptos estariam protegidos judicialmente dentro das federações.

O culto dessas nações tem muitos pontos de similaridade. Quando falamos em Orixás 42. xá = guardião. com mitos e lendas particulares. ori = cabeça. Além do mais. A religião dos africanos que chegaram ao Brasil com a escravidão tem muitas especificidades referentes aos cultos de diferentes nações. na Umbanda. a impossibilidade de rememorar como eram feitos os rituais indígenas do passado (outro grande influenciador da Umbanda) reduz a pesquisa apenas à esfera mística africana. “Guardião da cabeça”.28 2 O UNIVERSO MÍSTICO UMBANDISTA SOB UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Na Bahia Ogum é Santo Antônio. Mesmo a Umbanda sendo uma religião de tradição. pois as divindades banto chamam-se Inquices43 e as Fon. E na Umbanda ele é Jorge Guerreiro. porém cada nação tem um universo religioso independente das demais. Até mesmo as lendas contadas a respeito dos Orixás. que será mais bem detalhada na sequência. concluiu-se que a Umbanda gaúcha é muito permeada de simbologias africanas. vão ser retiradas do contexto yorubano. Voduns44. referimo-nos às divindades de matriz Yorubá. banto. embora o 41 42 Compreendida dentro do grupo dos Jejes Do yorubano. as nomenclaturas utilizadas vão ser as dos Candomblés da nação Yorubá. predominantemente.1 COSMOVISÃO AFRICANA Sendo a Umbanda o mosaico sincrético de várias religiões existentes no Brasil. Fon41 e Yorubá. 43 Do banto nkisi = sagrado. . As principais nações que configuram o panorama religioso africano no Brasil são as nações Banto. com base em pesquisas que comprovam ser o Rio Grande do Sul o estado com o maior número de praticantes de religião africana no Brasil. por que falar especificamente da religião dos africanos? Após uma análise feita nos centros visitados e. Por isso o uso da palavra Orixá e não Inquice. 44 Do gbé vodún = espírito. Eu quero ver a sua fé meu filho Aonde é que Ogum é Verdadeiro (Ponto cantado de descida de Ogum na Umbanda) 2.

. os Orixás. o mundo material. Dentro ainda do universo religioso yorubano. são raríssimas as casas de santo que cultuam Olorum. há considerações a serem feitas a respeito dos mitos de criação do mundo que explicam a maneira como é estabelecida a relação entre homens e Orixás. Abaixo do Orum existia o Aiye. em entrevista realizada em setembro de 2010. por ser anterior à idade dos metais. Inicialmente. a religião dos yorubanos possui um monoteísmo latente. Nanã não aceita nenhum tipo de metal no feitio de suas comidas ritualísticas. anteriormente à criação do mundo. seu filho mais velho. Então. havia o Orum. por ser tão antigo. “senhor do Orum”. Todos residentes em Alegrete. quando interpelados sobre a falta de reverência. da nação Jeje. da Nação Oyó. ele sentiu muita sede e 45 46 Do yorubano. Mas Oxalá não fez as oferendas necessárias para a viagem e não obteve sucesso. da nação Oyó e pelo Babalorixá Noé Mendonça. chamado Olorum 45. pois. pelo Babalorixá Carlos Dorneles. também. onde os orixás são cultuados juntamente com espíritos de caboclos e pretos velhos. dando a ele uma concha de caramujo igbin cheia de terra seca. Na África. Esta mesma proibição contra o metal é vista na ritualização do Orixá. um espaço atemporal e infinito. sacerdote de Umbanda. que precisam ser feitas em panelas de barro ou de pedra e mexidas com colheres de madeira. Xapanã. Segundo o Babalorixá Carlos Dorneles. a não ser Nanã Buruku 46. Olorum não possui nenhum tipo de representação pictórica. uma pomba branca e uma galinha de cinco dedos para ajudá-lo na sua tarefa. Olorum é tido como um ser incriado. O culto de Nanã é datado de antes da idade dos metais e. Outra característica é que. porque Olorum é uma entidade distante do mundo humano. Segundo a lenda yorubana. dizem que seu deus é demasiado grande para ser contido dentro de um templo e. de forma que possui um Deus supremo. o Aiye era alagadiço e não poderia sustentar nenhum tipo de vida. Como anteriormente citado. no caminho. Os Bantos o chamam de Zambi e os Jeje possuem uma entidade semelhante. pois é o criador de tudo que existe e não existe nada anterior a ele no universo.29 culto de nação mais similar à Umbanda seja o Candomblé de Angola. material. de nome Mawu. Olorum encarregou Oxalá. Rio Grande do Sul. são poucos os terreiros que sabem como proceder com os rituais iniciáticos dos filhos desta Orixá. Olódùmarè ou Olofin que criou as demais entidades. a morada celestial de Olorum. O que segue são lendas contadas pelo médium Genaro Araújo. possui atribuições semelhantes. uma Orixá ancestral que vivia no lodo primordial. de descer até o Aiye e torná-lo habitável. este por ser filho de Nanã. da morada celestial. uma vez que é um tabu tentar representar em uma imagem o deus supremo.

Jörmungandr que. habita as bordas dos oceanos. Figura 3: Iluminura medieval de um Ouroboros. estabilizando o universo com a forma de uma grande cabeça. definido por Claude Kapler47 como o símbolo da autofecundação. nos quais ouro. . A palavra Ouroboros vem de um hibridismo entre a língua copta e o hebraico. como a cobra que morde a própria cauda. um antigo símbolo místico indo-europeu. Voltando ao Orum. e ob em hebreu.png> Acesso em: 05 out. Monstros. bastante similar ao Ouroboros. na figura da “serpente do mundo”. ficando embriagado e incapaz de concluir a missão. o universo. fazendo com que a água se separasse do lodo. Para garantir a unidade do universo. formando terrenos secos. vemos elementos comuns aos povos antigos.org/wikipedia/commons/f/fa/Ouroboros. São Paulo: Martins Fontes. significa serpente. ele espalha a terra seca. 48 47 KAPLER. ele desce ao Aiye e.wikimedia. demônios e encantamentos no fim da idade média. segurados pela cobra Dan. podendo representar também os movimentos ininterruptos e.30 tentou saná-la com vinho de palmeira. da continuidade ou da eternidade. Claude. Oxalá mostra-se envergonhado e ganha mais uma chance. 1993. 2010. em copta. Um símbolo semelhante também é visto na mitologia nórdica. similarmente a Dan. com o Orum acima. 48 Fonte: Disponível em: <http://upload. desta vez. significa Rei. com isso. com a ajuda da pomba e da galinha. Olorum amarrou uma cobra gigante (cultuada pela nação Fon com o nome de Dan) ao redor do mundo. o Aiye flutuado no meio e os oceanos abaixo. Nesse mito de concepção.

etc. ele vai usar da terra e da água.31 Ainda dentro do mito de criação do mundo. mas supõe-se que houvesse centenas. dos quais algumas dezenas chegaram até o Brasil. Olokun. já que grande parte de seus sacerdotes morreu no translado. . nos navios negreiros. eles travam disputas entre si. da mesma forma que os deuses gregos. Para isso. dono dos escravos. Não se tem uma estimativa exata de quantos Orixás havia na África originalmente. Concluída essa parte. Nos Orixás que ainda hoje são cultuados. ou entre os Orixás e os seres humanos. Destes. uma vez que todos representam um elemento da natureza. à prosperidade e. por exemplo. após o Aiye estar apto a ser habitado por seres vivos. ainda são cultuados nos terreiros de candomblé mais antigos. a gameleira-branca. principalmente. apenas 16 tiveram maior adesão no seu culto e perduraram até os dias de hoje. uma divindade da agricultura. No Brasil. totêmicos e xamânicos. Algo que deve ser levado em conta é a natureza destes Orixás. possuindo características quase humanas. a de criar os vegetais. Oko. a maioria dos orixás cujos cultos “sobreviveram” até os dias de hoje são ligados à cura. que são muito semelhantes aos deuses gregos em suas paixões. a exemplo do Orixá Oko. passando a habitar o Aiye junto dos humanos e dos animais. que representa o tempo. como. misturados à sua magia para dar vida a todos os seres. já que seu culto favoreceria apenas o senhor de terras. conta-se que49. Oxalá recebeu uma nova incumbência. um animal ou uma qualidade humana. Os Orixás são seres muito próximos dos humanos em seu psicológico. Esta árvore dá nome ao Orixá Iroko ou Loko. os animais e a raça humana. ficando o seu culto restrito por muito tempo. à guerra. da Nação Oyó. podemos perceber elementos animistas. Existem muitos fatores que explicam essa abreviação do número de Orixás. já que era necessária a resistência à conjectura dominante. Bocum. Por esse motivo. em entrevista realizada em setembro de 2010. Muitos Orixás “raros” nos terreiros modernos. A cada Orixá vão ser atribuídos elementos rituais. o Babalorixá Carlos Dorneles. Nanã Buruku. Mas havia fatores mais pragmáticos. a morte de seus sacerdotes. como Loko. como a conveniência do culto. Não havia porque ser cultuado pelos negros em terras brasileiras. os demais orixás que viviam no Orum desceram por uma árvore gigantesca de iroko50. decorrentes do seu papel na criação do mundo ou de fatos marcantes no convívio entre os Orixás. romances. o que quase aconteceu com o Orixá Oxossi. 49 50 Cf. Orumilá.

Yemanjá. Oxum. Xangô é um orixá da Justiça. Os seres humanos habitantes do Aiye estão abaixo dos desígnios de Olorum. os orixás ainda podem ser associados a uma determinada qualidade humana. Yemanjá e Oxum são associadas à maternidade. Algumas considerações ainda podem ser feitas acerca do panteão de Orixás yorubanos. Esse deus. Ewá rege também as cachoeiras. Deste mesmo jeito. seres ligados à natureza. competindo a ele o fator da cura (em oposição à Xapanã. mas o fogo para Ogum é o fogo da forja de metais. Obá. Ogum e Xangô também. já para Xangô. Os Orixás são potencialidades naturais. Obá rege os rios turbulentos. Bará é um orixá mensageiro. que mantém o equilíbrio 51 Nanã rege o lodo. vão existir muitos Orixás ligados à água. A cosmovisão africana estabelece relações hierárquicas. é onipresente. embora seja considerado a potencialidade absoluta do cosmos. Exu é associado ao fogo. já que não possuem poderes ilimitados. trapaças. os Orixás. porém é mais associada às neblinas e nevoeiros. uma vez que a adoração e as oferendas são destinadas as suas contrapartes mais humanas. jogos. Além destes elementos. Essas atribuições são muito variáveis.32 alianças. As características divinas dos Orixás não são apenas atribuídas aos elementos da natureza. como também os vivenciam. o fogo representa o raio ou o fogo que cai dos céus. que os tornam divindades mais aptas a dialogar com os humanos. Ogum e Iansã são Orixás guerreiros. como no animismo. tão presente na ritualização da Umbanda. Yemanjá rege os mares e oceanos. principalmente. Oxum rege os rios calmos e as cachoeiras. cada uma assumindo uma característica específica deste elemento. muito embora essa relação seja muito importante. já que Ogum é o ferreiro dos Orixás. Ewá51 e outras. e em geral. porém adorados por nações diferentes. porém eles não são oniscientes ou onipotentes. um claro exemplo é a similaridade entre Odé e Oxóssi. reforçando a sua proximidade com a humanidade. encontra-se em segundo plano. os pântanos ou até mesmo a lama do fundo dos rios do mar. as medicinais. onisciente e onipotente. Olorum. Nanã e Xapanã são relativos à morte ou às doenças. casamentos e todas as demais relações sociais típicas da humanidade. são entidades femininas. isso cabe na concepção de que eles são semideuses descendentes de um Deus maior e este sim. ambos orixás yorubanos da caça. Ossain é um orixá das ervas. Odé e Otim são um casal de orixás relacionados à caça. mais próximas dos anseios da humanidade. como Nanã. . que representa a doença). pois não só compreendem seus sentimentos.

Exu é um orixá associado aos caminhos. que há graus de aproximação ou de inimizade entre os orixás. suas manifestações elementais. Os dísticos Orum e Aiye. é quem conduz as oferendas dos humanos para os Orixás e quem manda os recados destes para os humanos em troca. utilizando elementos fantásticos para transmitir os fundamentos que ainda hoje estão presentes nos rituais. de casamentos. pg. Exu também é conhecido por ser trapaceiro e astuto. pode-se dizer que essa “comunidade de Orixás” é um reflexo da comunidade humana. como será melhor detalhado no capítulo sobre a diáspora africana. de desavenças. Oxalá. já o enganou diversas vezes. também por cobiçar o poder de seu pai. O uso do nome Bará é uma peculiaridade do culto das Nações no Rio Grande do Sul.1. que significa esfera. Afora as considerações etimológicas. preponderando o Nagô e o Jeje. Cada um dos relatos místicos da tradição yorubana. Isso remete à idéia yorubana de que “tudo que existe no Orum. que significa “o dono da força”. O uso de lendas para ensinar facilita o processo. Orixá da Trapaça Exu é uma palavra de origem banto. LOPES.1 Exu. Na sequência. 2004. 349. já que são religiões marcadas pela transmissão oral dos conhecimentos ritualísticos. decorrente do parentesco entre eles. existem relações de subordinação. Por causa disso. Do yorubá itan. . A lenda é um fator muito importante dentro da Umbanda e das demais religiões afro-brasileiras. existe de outra forma no Aiye”. da mesma forma que enganou alguns dos outros orixás também. Nei. etc. de alianças. mesmo dentre os demais. serão descritas alguns Itãs52 yorubanos que explicam muitos detalhes na liturgia umbandista. Por isso. deuses e humanos e divino e profano vão acompanhar praticamente todas as lendas que compõem o imaginário místico africano. pois elas descrevem a história de uma forma bastante atrativa. isso porque há pouca influência banto na cultura negra gaúcha. os yorubanos referem-se a esta mesma entidade pelo nome de Bará. sendo que dentre estes existe uma hierarquia na qual Oxalá governa os demais e. Essas trapaças nem sempre 52 Cf. ele é o mensageiro dos Orixás. 2. mas sim.33 do mundo através dos Orixás. Essa proposição não quer dizer que existam orixás mais ou menos poderosos que os outros.

que governava o reino de Oyó. avistou Exu. pai de Xangô e queria ver seu filho. o Babalorixá Carlos Dorneles. em constante mudança. que faziam guarda na frente do palácio. mas apenas o capricho de pregar uma peça nos demais. da Nação Oyó. anunciou-se como Oxalá. que pediu ajuda a seu pai para transportar alguns fardos de sal. Ao chegar ao palácio em Oyó. não pode se dar início a nenhum ritual antes que Exu seja reverenciado. Outra peculiaridade do culto do Exu é que. o totem representativo do Exu seria o próprio ser humano. Ao passar perto de um córrego. os filhos de Xangô. fato muito recorrente nas lendas desse Orixá. pois mesmo ele tendo desvios de conduta. Se atribuíssemos um caráter totêmico aos Orixás. ajudou-o a carregar os fardos. O comportamento do Exu é explicado dentro da idéia yorubana da transitoriedade do bem e do mal. quando Xangô foi inspecionar as suas masmorras. Os soldados. bem e mal não podem ser conceitos estáticos. mesmo hoje em dia. ele é adorado antes de todos os demais Orixás. Em razão disso. justamente por isso. . para que. também é conhecido como o mais humano dos Orixás. é impossível um conceito tão estreito abrigar toda a complexidade do mundo e das relações interpessoais. ao verem aquele velho homem de vestes sujas. carvão e azeite de dendê. Xangô ficou de tal maneira envergonhado que. Exu também é esperto. viu seu pai lá aprisionado. Essa travessura de Exu é uma forma de ele se rebelar contra seu pai. Mas ele não é lembrado apenas por isso. eles o aprisionaram nas masmorras do palácio. dessa forma.34 possuem uma maldade implícita. seja estabelecida a comunicação entre humanos e Orixás e para que não haja nenhuma interferência que venha a afetar o ritual. Conta-se que53 uma vez Oxalá foi visitar seu filho Xangô. pois está em constante rotação. quando estão incorporados no seu Orixá. mesmo ele sendo o filho mais novo de Oxalá. O bem e o mal são relativos. então. mas suas roupas ficaram sujas. em entrevista realizada em setembro de 2010. não podem se aproximar de Oxalá. com todas as suas qualidades e imperfeições. comunicativo e tem um raciocínio muito rápido. que era conhecido pelas suas vestes impecavelmente brancas. e Oxalá. Seis anos depois. 53 Cf. pensaram ser um mendigo que queria se passar por Oxalá. Exu significa “esfera”. Isso porque ele é o senhor dos caminhos e recadeiro dos deuses.

a manufatura do ferro era o que havia de mais moderno. Por essa razão. Ogum pode ser associado às descobertas tecnológicas. sendo responsável pelos soldados e policiais também. mesmo que ainda hoje um de seus símbolos continue sendo a bigorna de ferreiro. o seu culto vai se expandir e ganhar novos âmbitos. um orixá ligado à agricultura 54. de saúde e a vitória mediante os obstáculos da vida. Em todas as casas de religião africana visitadas. a ser cultuado como Orixá da guerra. havia um especial destaque à figura de Ogum e os próprios sacerdotes afirmam a importância do culto do Orixá. Essa popularidade de Ogum é algo inerente à sua própria personalidade. multidões de pessoas recorrem a Ogum pelos mais variados motivos. Ele era responsável pelo fabrico das ferramentas dos trabalhadores. O culto de Ogum. Ogum passa. o culto de Ogum tornou-se bastante popular. ao fogo e à profissão de ferreiro. representado sempre como um homem vistoso. . isso corresponde à ciência aplicada. em parte.2 Ogum. na Idade dos Metais. na Nigéria. hoje em dia. em entrevista realizada em setembro de 2010. um Orixá Popular A palavra Ogum vem do dialeto yorubano e significa “senhor da guerra” (gum = guerra). ficando mais focado na guerra. porque já havia outro orixá que designasse a caça. popular e com uma especial habilidade de falar com as mulheres. Este Orixá ainda protege todos os profissionais que trabalham com ferramentas de metal. por esse motivo. desde ferreiros até cirurgiões. Mas essas características 54 Cf. era um elemento de vantagem frente aos demais. Oxóssi e. à caça. dentistas e mecânicos.35 2. ele ajuda as pessoas que lhe prestam culto a vencer as batalhas da vida. devido à necessidade de ter uma divindade que auxiliasse os africanos a resistirem à escravidão. forte. como a procura de emprego. quando se pressupõe que tenha iniciado o culto aos Orixás. então. no Brasil.1. da Nação Oyó. perdeu um pouco da sua alusão à agricultura e à caça. Posteriormente. já que é um Orixá guerreiro e. Mas Ogum era. fato que comprova essa popularidade. Ogum é associado à tecnologia. possuir um arado ou uma espada de ferro. originalmente. também. das armas dos guerreiros e caçadores. Por trabalhar com o manejo do ferro. Compreende-se que. por esse mesmo motivo. portanto. o Babalorixá Carlos Dorneles. Há quatro mil anos.

Para tal feito. as folhas sagradas. ser um grande guerreiro. 57 O sangue animal empregado nos rituais de Batuque é chamado de Axorô. energia. são seus domínios. esse conceito tem um grande valor na comunidade yorubana. o sangue animal (chamado de axorô). Ogum também foi o primeiro Orixá a descer do Orum depois de Oxalá. mais que isso. vitorioso em inúmeras batalhas. do yorubá. Ogum representa o arquétipo do guerreiro ou do herói. que são um dos “sangues” 55 rituais utilizados para ativar o Axé 56 dos Orixás. é o Orixá das ervas medicinais. como a Umbanda não utiliza sacrifícios.3 Ossanha e os Fundamentos das Ervas Ossanha. o batuque pode utilizar o sangue de animais 57 ou o “sangue das ervas”. pedras especiais que retém a energia dos Orixás. portanto. Quando se fala em ativar o Axé dos Orixás. apenas a infusão de ervas sagradas é utilizada. de pretos velhos. sendo necessária a ativação das energias dormentes dentro destes. ele o fez para ajudar seu pai na construção do mundo. seu nome significa “luz divina”. ou Ossãim. o fato de Ogum ser o primeiro filho de Oxalá e. pois é a luz do sol que nutre os vegetais. 55 No batuque. representa a superioridade de Oxalá e da sua família de Orixás. Um componente ritual de muita relevância pertence a Ossanha.36 guerreiras de Ogum acabam tornando-o orgulhoso. funcionando como fluido ritualístico. ele é o varão primogênito de Oxalá. Em ambos os casos. 2. o vegetal (infusões de plantas) e o mineral (resulta da solubilização do produto da raspagem de pedras). violento e temperamental. já que nenhum orixá é completamente bom ou completamente mau. a Umbanda usa imagens de santos católicos. As florestas. uma vez que é o dono das ferramentas de metal necessárias para tal feito. Ossanha figura como um dos filhos de Oxalá que mais teve participação na criação do mundo. de caboclos e das demais entidades que pertencem à sua egrégora. . sendo o responsável pela criação da flora. Em uma sociedade patriarcal e ligada ao conceito de que a prole de uma família é o indicador de sua posição social. o Batuque usa os acutás. existem três tipos de sangue nos rituais. quer dizer dar vida aos receptáculos inanimados que os sustentam. 56 Do yorubá. utilizam-se objetos inanimados para a representação ritual. a seiva.1.

Ossanha é um Orixá tão importante na Umbanda. que se deve louvar Ossanha e lhe reverenciar sempre que se proceder com rituais que envolvam ervas. irritado por precisar recorrer a seu irmão mais moço sempre que quisesse usufruir das plantas sagradas. Iansã representa o arquétipo da mulher sensual e esperta. até que um dia descobriram onde era guardado o segredo. “oh. então. em entrevista realizada em setembro de 2010. Nas lendas que são contadas sobre 58 59 Cf. já que esse Orixá tem o segredo do Axé destas. Isso é contado na forma de uma lenda nos terreiros. Iansã obedeceu a seu marido e as folhas de Ossanha se espalharam. que assegurou o seu domínio sobre a medicina fitoterápica.1. uma Rainha de Vários Reis Iansã é a Orixá feminina dos ventos. da Nação Oyó. pois ele possui o Axé das ervas de todos os Orixás. Esse é um exemplo claro de como a lenda representa um fator importante na doutrinação dos filhos de santo59 de um terreiro. o segredo delas continuou pertencendo a Ossanha. 60 Iyá = mãe. Diz-se que58 Ossanha era o dono de todas as folhas da floresta e que as pessoas lhe pagavam tributos pelo uso medicinal delas. Vendo isso. o Babalorixá Carlos Dorneles. Ossanha desesperou-se e começou a gritar: Eu eu assa! Eu eu assa! Que em yorubá significa. Esse conto serve para ensinar um fundamento muito importante dentro da religião. pois ele tinha o conhecimento acerca de sua utilização mágica. ou seja. mas não se compromete com nenhum. Ossanha segurou para si o Axé de todas as folhas. Xangô. Orixá das ventanias. que se envolve com vários homens. omo = filho. das tempestades e da sensualidade feminina. mésan = nove .37 Por isso. Seu nome vem do yorubá e significa “mãe dos nove filhos” 60 . 2. já que não há uma literatura formal que cumpra o papel educativo dentro do terreiro. mesmo que os outros Orixás tivessem suas ervas rituais próprias.4 Iansã. para que cada Orixá pegasse uma folha para si. Com esse encanto. pediu a sua esposa Iansã. Nome que é dado aos adeptos de uma casa de religião africana. para gerar um vento poderoso que espalhasse todas as folhas da cabaça de Ossanha pela floresta. folhas”. Ele escondia o segredo de todas as plantas em uma cabaça presa no alto de uma árvore de iroko. Os demais Orixás foram ficando desejosos de desfrutar de semelhante poder.

o filho de Oxóssi e Oxum. da caça e dos animais. abandonou-o e passou a viver com o irmão dele. Iansã fez com 61 Cf. chegou à floresta. agita a vida das pessoas. A paixão é outro elemento representativo de Iansã que. tinha tanta vergonha de sua aparência física que se escondia sob um manto de palha de dendezeiro. que imediatamente se apaixonou por ela e lhe ensinou todos os seus segredos. Xapanã era um homem deformado pela varíola. menciona-se que o Orixá Ossanha apaixonou-se pelo caçador Oxóssi e o enfeitiçou para que passasse a viver consigo na floresta.38 Iansã. Em sua viagem. Essa liberdade sexual é vista nas lendas não só de Iansã. A paixão de Iansã não é vista com maus olhos. nesse relacionamento. ficando ainda mais poderosa. o que aguçou a curiosidade de Iansã. assim Iansã aprendeu a lutar e a manejar a espada. a mãe dos rios. Perdidamente apaixonado. viajou longas distâncias até que um dia encontrou o guerreiro Ogum. Iansã tentou seduzi-lo. mas este era um Orixá muito velho e amargurado. seduz e se relaciona rapidamente com Iansã. Para conquistar Xapanã. Iansã segue viagem até encontrar Exu. ela percorre o mundo se envolvendo com vários Orixás. Pode-se constatar que a homossexualidade não representava um tabu. vivendo um tempo com Logum. Depois que Oxaguian deixou de lhe interessar. que queria ver o seu rosto. com que aprendeu a manejar o escudo durante as batalhas. tomada por paixões momentâneas. Dizem que 61 Iansã decidiu viajar pelo mundo para ganhar experiência. não existem muitos tabus sexuais que oprimam e restrinjam as relações interpessoais. Iansã não se importou com essa sua característica. já que os próprios Orixás tinham relações homossexuais. onde encontrou o caçador Oxóssi. bem como em várias outras sociedades africanas. Como último recurso. com quem aprendeu a pescar e a fazer poções mágicas. em outra lenda. Oxum. Iansã aprendeu a controlar a magia do fogo de Exu. deus das doenças e dos mortos. pois na sociedade yorubana. mas de outros Orixás. em entrevista realizada em setembro de 2010. que era um Orixá hermafrodita. Iansã não se apegava a ninguém e seguiu seu rumo até entrar no reino do temido Xapanã. Ainda na floresta. . Iansã conheceu Logum. no meio de uma encruzilhada. da Nação Oyó. não se sensibilizou. mas foi enfeitiçado por Iansã e caiu apaixonado por ela. Oxóssi lhe ensinou os segredos da floresta. Quando se cansou de Ogum. que era esposo de Oxum. Oxaguian. Há uma lenda que se refere à liberdade de Iansã. o Babalorixá Carlos Dorneles. similar à tempestade.

do yorubá. forte e guerreira. por 62 Espírito dos mortos na mitologia africana. fez com que as feridas de Xapanã pulassem de seu corpo e se transformassem em pipocas. . fazendo dela a sua rainha. que lhe davam um poder ainda maior. mas são o reflexo de uma sociedade com padrões sociais diferentes da sociedade cristã ocidental. Esses conceitos parecem ser bastante avançados para seu tempo. Apenas foi se estabelecer quando achou alguém que realmente amava. vulcões e da palavra escrita. Xangô tinha misericórdia pelos seres frágeis. pedreiras. muitos fatos de sua vida são preenchidos por mitos. lar do rei Xangô.39 que um vento forte entrasse na cabana de Xapanã e lhe levantasse o manto de palha. Iansã é a rainha dos eguns62 e a pipoca é a comida ritual de Xapanã. Ainda hoje. por isso as crianças são sempre bem-vindas no palácio de Xangô. controlava os raios e possuía por arma dois machados de pedra. Mesmo sendo um homem poderoso e forte. inteligente e respeitada. Como a maioria dos dados históricos se perdeu no tempo. Porém.1. dona de um vasto conhecimento. na consumação dos fatos. Iansã nunca mais partiu de Oyó e somou tudo que aprendera de Xangô com o conhecimento acumulado em sua viagem. Xangô apaixonou-se ao ver aquela mulher linda e delicada e. que também era o Orixá da palavra escrita. essa idéia é totalmente oposta ao princípio cristão de família. mas ela nunca fez questão delas. chamados oxês. mas sim. Cultuado como orixá da justiça. 2. o caminho de Iansã a levou até a cidade-estado de Oyó. como ela controlava a magia. ao mesmo tempo. preferindo a vida livre. o que o deixou muito agradecido e o fez ensinar a ela os segredos dos mortos. seu símbolo maior são seus machados de dois gumes e. dos raios. O soberano de Oyó era um homem muito poderoso. Iansã não figura como uma mulher vulgar. A liberdade de Iansã levou-a a conhecer vários lugares e a ter várias coroas sobre a sua cabeça. como uma rainha poderosa. O mito de Iansã inspira muitas mulheres modernas a quebrarem os tabus sociais e a buscarem sua independência. Já dotada de grande poder e prestígio. égun = esqueleto. Fazendo uma comparação entre culturas. Xapanã tornou-se um homem belo.5 As esposas de Xangô Xangô é considerado um dos primeiros soberanos da cidade de Oyó.

Xangô a convida para ser sua esposa. Mas Ogum era muito orgulhoso e não deixava a sua esposa sair para lutar ao seu lado. enquanto desenrolava o lenço de sua cabeça. Essa lenda serve para ensinar outros fundamentos da religião. Obá ficou um tempo sem entender até que viu Oxum observando a cena de um canto. Obá e Oxum. Como Oxum usava um lenço na cabeça que não possibilitava que fossem vistas suas orelhas. quando havia uma queixa de furto ou de outro delito. dizendo que ele não agiria semelhantemente a Ogum. Obá era a deusa da guerra e esposa de Ogum. também deus da guerra. o que deixava Obá muito melancólica. As duas seguiram lutando durante a queda e quando chegaram ao solo. Narra-se que Xangô era a representação maior da justiça de Oxalá. . Há uma lenda63 que fala sobre duas de suas esposas. Com o tempo. Oxum. revelando as suas duas orelhas intactas. 63 Cf. No mesmo dia. em entrevista realizada em setembro de 2010. Outra demonstração da importância das lendas dentro da fundamentação dos filhos de santo de um terreiro. Obá nem sequer desconfiou do embuste de sua rival e cortou uma de suas orelhas para preparar a sopa. o que fez Xangô se afastar dela. da Nação Oyó.40 ser o Orixá dos raios e trovões. que são as especificidades dos cultos de Obá e Oxum. Desejosa de recuperar o amor de Xangô para si. Obá pediu sugestões para a outra esposa de Xangô. que se sentiu anojado com tão repugnante prato e cuspiu a sopa. como o tambor. já o rio Oxum é calmo e sem obstáculos. Obá e Oxum começaram uma briga tão violenta que acabou irritando irremediavelmente Xangô. Obá serviu a sopa da sua orelha para Xangô. sempre caminhando pelos mercados e ruas de sua cidade e. o Babalorixá Carlos Dorneles. há um violento turbilhão que agita as águas. seu outro símbolo. que era mais jovem e mais amada pelo marido. Xangô é o dono das coisas que fazem barulho. e este as expulsou do alto de seu palácio. tornaram-se dois rios de nome Obá e Oxum. Obá voltou a ficar melancólica e a reclamar da sua situação. Oxum disse que conseguia prender o amor de Xangô servindolhe uma sopa feita com um pedaço de sua orelha. O rio Obá é um rio violento e perigoso. mas quando os dois rios se encontram. Sabendo dos lamúrios de Obá. Xangô olhava atentamente para o meio da multidão e identificava precisamente o infrator.

Uma lenda muito contada nos terreiros68 explica o porquê da necessidade de culto do Ibêjis na liturgia umbandista e do Batuque. então. os gêmeos são vistos como seres sobrenaturais na África. O nascimento de gêmeos requer um cuidado extra por parte da família. 69 Do yorubá. levando. Segundo Nei Lopes64. Mesmo após isso.1. do radical kú = morrer. temerosos de sua ira. Nesse Itã.41 2. na imagem dos santos Cosme e Damião. já que acreditam que eles dividem a mesma alma. O temor que se tem é referente ao fato de que. Ikú = morte. . 333. os gêmeos só estariam fora de ameaça se o próximo filho se chamasse Idowu67. “o que demorou a sair”. “aquele que sentiu primeiro o gosto da vida”. Ikú estava investindo sobre várias aldeias. Todos os Orixás temiam Ikú e não queriam interromper o seu caminho. a Inocência que Vence a Morte Ibêji é uma entidade dupla. o primeiro gêmeo a nascer deveria se chamar Taiwo65 e o segundo de Kainde66 ou Kehinde. a personificação da morte. foram para a entrada do vilarejo levando um tambor (símbolo de Xangô) e se esconderam em uma gruta. Os Ibêjis foram sincretizados na Umbanda. O som produzido por Ibêji prendeu a atenção de Ikú. Do yorubá. um deles saiu para a frente da gruta e começou a tocar seu tambor. Há uma Orixá cujo culto pouco se difundiu no Brasil. para que ela não levasse os habitantes de seu vilarejo. Certa vez. 67 Numa tradução livre do idioma yorubá. o Babalorixá Carlos Dorneles. representada por um casal de crianças gêmeas ou por dois gêmeos meninos. pela óbvia alusão ao duplo. as plantas que germinam. da raiz éji. 66 Do yorubá. Ibêji representa tudo que nasce na natureza.6 Ibêji. várias pessoas. mas que é lembrada em alguns Itãs. que começou a dançar na frente 64 65 LOPES. 68 Cf. Quando Ikú se aproximou. A palavra Ibêji vem do yorubá e significa “gêmeos”. como as nascentes dos rios. como ambos dividem uma única alma. em entrevista realizada em setembro de 2010. “Primeira criança nascida depois de gêmeos”. que quer dizer dois. tratam-se os Ibêjis como dois meninos que são representações infantis de Xangô. Os dois irmãos. da Nação Oyó. os filhotes dos animais. porém os Ibêjis pensaram em um plano para parar Ikú. seu símbolo é o nascimento. para o mundo dos mortos. a morte de um significa a morte do outro gêmeo e o único jeito de evitar que isso ocorra. é o gêmeo que sobreviver absorver a outra metade da alma. 2004. p. pois como são Orixás crianças. Para que isso ocorra. seu nome é Ikú 69.

2 O ITÃ E A EDUCAÇÃO RELIGIOSA Afora as interpretações místicas. um dos rituais mais necessários do calendário é a festa de Ibêji. A Bíblia é composta por parábolas. A aldeia ficou muito agradecida aos Ibêjis e os seus habitantes passaram a lhes prestar reverência em todas as festas para protegerem-se da morte. Na Umbanda. A lenda das trapaças do Exu mostra a ambivalência dos Orixás que. Cada Itã relatado anteriormente tem seu propósito neste trabalho. os adeptos das religiões afro-brasileiras continuam a reverenciar os Ibêjis (cada religião com suas especificidades). artifício que poderia vencer a morte. comemorada no dia de Cosme e Damião. valem-se das lendas contadas oralmente pelos pais de santo. acreditam estar atraindo para si as energias da vida. não deixam de ser seres superiores. Essa lenda serve para mostrar como a inocência de uma criança é capaz de combater inimigos poderosos. Da mesma forma. por isso. 2. Olorum. A criação do mundo pela cosmovisão yorubana ajuda a entender como se processam as relações de poder e a origem dos Orixás. Quando o irmão que estava tocando se cansou de tocar. Também existe o simbolismo de que os Ibêjis são seres que nasceram recentemente e.42 da gruta. mesmo estando próximos dos sentimentos humanos. logo as religiões afro-brasileiras. ainda conservam a energia vital do nascimento. pois. Já as histórias de Ossanha e Ibêji . até que Ikú ficou tão cansada que decidiu ir embora. A popularidade do culto de Ogum exemplifica como o culto de uma entidade pode crescer de tal maneira a quebrar os limites de uma religião e se disseminar em vários meios de cultura. com isso. Esse revezamento durou dias e semanas. 27 de setembro. as lendas de Yansã e Xangô. Da mesma forma que os habitantes da aldeia salva pelos gêmeos. qual o propósito de narrar essas lendas? Elas são um importante instrumento de transmissão dos fundamentos da religião. que não cabem a este trabalho. que não possuem um registro material. seus poderes e suas limitações mediante o deus supremo. já que a maneira simples como as crianças veem o mundo pode trazer soluções para problemas que os adultos não solucionaram. ele esperou Ikú girar enquanto dançava e trocou de lugar com o irmão que ainda estava escondido. mostram que mesmo os Orixás padecem de sentimentos e paixões similares aos humanos.

3 A DIÁSPORA AFRICANA 2. Dentro desse vasto quadrante histórico. entre um e outro compromisso religioso. pois a religião não compreende apenas a prática do ritual. daí a designação que se dá ao conjunto de adeptos de um terreiro e seu sacerdote. o sacerdote. Muitas vezes. Acontece que cada elemento do ritual tem um porquê e quando esses elementos são eliminados ou simplificados.43 comprovam a importância da lenda dentro da religião. mas toda uma vivência onde é criado um vínculo quase familiar. já que. a vida moderna acaba por consumir esse e outros momentos. desempenha a função de doutrinador.3. e Portugal. Dos países ibéricos. Portugal apenas dominou os mares enquanto uma potência maior. temos o período das grandes navegações e o mercantilismo marítimo (do século XV ao XVIII). chegou a um local onde os nativos . a “família de santo”. não tinha ainda entrado nessa corrida pela conquista de territórios além mar. 2. que o sacerdote de Umbanda ou o Babalorixá oportuniza aos seus filhos essa vivência. mas é em um momento qualquer. em virtude da praticidade ou da inviabilidade deles dentro de um contexto novo. perde-se a correlação com a tradição e os rituais tornam-se uma repetição vazia de atos sem significado. a Espanha podia se considerar “sortuda”. como a Inglaterra. A diáspora aconteceu concomitante a vários contextos. esse momento de formação não é instituído dentro do calendário ritualístico. A sobrevivência das religiões africanas depende dessa vivência. momento no qual ele. no qual os africanos foram a mão de obra explorada pelas colônias européias num processo que durou 300 anos. com uma frota de navios muito inferior a de Portugal. quanto para justificar determinados elementos dentro do ritual. O Itã desempenha esse papel na doutrinação dos filhos de santo. tanto para ensinar. uma vez que se estendeu desde meados do século XV até finais do século XIX.1 Contexto Histórico O conceito de diáspora africana abrange a dispersão de várias tribos africanas pelo mundo. potência pioneira no expansionismo marítimo. Muitas vezes. vai se mostrar a mais incompetente na maneira de administrar seus lucros.

os produtos do interior do continente eram levados até a costa e lá eram trocados por armas. que era o trafico de escravos. Acesso em: 14 nov.org/wiki/Escravid%C3%A3o_na_%C3%81frica>. nem de longe se assemelha ao que o tráfico de escravos se tornou com o passar do tempo. com a finalidade de servir de entrepostos na viagem até às Índias. munição. porém. Nas comunidades africanas. Nessa conjuntura. havia a chamada escravidão doméstica. comprar escravos africanos. São errôneos e tendenciosos os discursos que buscam atenuar o peso da culpa que recai sobre a Europa. frente à grande demanda das colônias européias. a Inglaterra pode dar atenção a esse lucrativo campo de investimentos. ou seja. O meio empregado pelos europeus pouco mudou em quatro séculos. Dentre estes produtos. 2010. Esse conceito inicial. também funcionavam como pontos de trocas comerciais com o interior do continente. Os espanhóis não precisaram.wikipedia. É necessário se avaliar a forma como se estabeleciam essas relações de trabalho e de posse de indivíduos na África e o que significavam para os povos que as praticavam. rum. os escravos africanos.44 estavam inseridos dentro de uma sociedade que conhecia o trabalho sedentário. ao longo do século XVII e XVIII. os escravos eram vistos apenas como um povo que fora derrotado e precisavam prestar tributo com seu trabalho aos que lhes derrotaram. tendo sido reduzido a uma propriedade. As feitorias fundadas por europeus na costa africana desde o século XV. o africano era desprovido da própria humanidade. mencionando que os africanos escravizavam uns aos outros e que estavam acostumados com o fato de serem escravos. um em especial veio a atender as necessidades de mão de obra dos europeus. os habitantes das tribos anexadas tornavam-se escravos. é uma predominância britânica nas navegações ultramarinas 70 e no tráfego de escravos. Havia uma predileção pelas escravas mulheres e pelas 70 Disponível em <http://pt. Diferente da escravidão pelas mãos dos europeus. . Na África. pois nessas tribos havia a escravidão por dívidas e os escravos oriundos das tribos conquistadas. Chama-se escravidão doméstica porque os escravos passavam a trabalhar na casa de seus donos ou em propriedades rurais familiares. caracterizadas pela agricultura em pequena escala. O conceito de escravidão não era estranho às tribos africanas. etc. Depois de curar as cicatrizes da guerra dos 100 anos. portanto. bens semoventes que nem ao menos possuíam alma. O que foi visto. quando ocorria algum confronto.

havia um costume muito utilizado em tempos de crise. feitiçaria e adultério. Os próprios africanos passaram a provocar guerras com as tribos vizinhas no objetivo de obter mais escravos. penalizando os que descumprissem as suas leis. . O escravo que antes era a consequência de um processo passou a ser o objetivo dos conflitos. O irônico é que. como é visto hoje com os Estados Unidos da América. o que vinha a aumentar a prole da família. As crianças eram facilmente ensinadas a se comportar dentro desse sistema. assassinato.45 crianças. a vitória era obtida com a ajuda dos europeus. algum membro do grupo poderia ser posto como em troca de comida ou do pagamento das dívidas. uma vez que os filhos das escravas com seus donos não eram tratados como escravos. Outro meio de se tornar escravo na África era como punição por crimes como roubo. Ou ainda. mas também deu as condições financeiras que a Inglaterra necessitava para investir em industrialização. Se a dívida fosse paga. o que possivelmente corresponda com a realidade. mas como membros da família. que viram nesse sistema de trabalho uma forma de lucro. percebeu-se que os africanos se tornariam mais lucrativos como compradores em potencial dos produtos industrializados britânicos do que como escravos. e as mulheres serviam de concubinas ao seu senhor. que era a escravidão por penhora. O conceito mercantil de escravo vai vir junto dos europeus. quando a Inglaterra já estava industrializada. após lucrar tremendamente com a exploração do trabalho escravo. A partir desse momento (século XVIII). acarretando na primeira revolução industrial. que lhes forneciam as armas de fogo e a munição necessária para garantir seus interesses. Podemos julgar essas práticas britânicas como prepotência. A alta demanda da Europa e a rentabilidade desse negócio levaram a inúmeros conflitos civis na África. a Inglaterra passou a lutar contra o tráfico de escravos e a escravidão. mas temos de avaliar que desde sempre os povos dominantes põe-se no direito de intervir em questões de soberania dos outros países quando há uma ameaça aos seus interesses. Essa maneira de obter lucro não só foi o principal esteio das colônias européias durante o período do mercantilismo. Caso uma aldeia ou mesmo uma família se encontrasse em dificuldades financeiras. o indivíduo feito escravo estaria livre dessa sua condição.

Ao falar de diferentes grupos que foram trazidos.2 Escravos Africanos no Brasil – A adaptação a um meio exótico No começo do século XVI. Acesso em: 14 nov. porque os nativos das terras brasileiras não estavam acostumados com o trabalho sedentário. . Acesso em: 14 nov.wikipedia. quebramos 71 Disponível em: <http://pt. posteriormente. 2010. não adiantava fustigá-los para que trabalhassem.jpg>. os africanos foram trazidos da África para suprir essas necessidades na década de 30 do século XVI.libertaria. o Brasil ainda tentou empregar apenas a mão de obra escrava indígena. 72 Disponível em: <http://pt. Acesso em: 14 nov.73 Um fator deveras relevante para fazer a análise da forma como a cultura africana foi adaptada ao Brasil é a origem dos escravos comprados. 2010 73 Fonte: Disponível em: <http://www. O pesquisador baiano Renato da Silveira defende que houve três grandes levas de escravos que vieram para o Brasil. mas porque. Assim.pro. Figura 4: Principais rotas de tráfico de escravos.46 2. 2010.br/brasil/capitulo04/trafico_negreiro. Essa experiência se mostrou ineficaz. foram criadas leis72 que restringiam e outras que proibiam a escravidão indígena. esse não era um conceito comum àquele grupo humano.3.org/wiki/Escravid%C3%A3o_no_Brasil>. A dificuldade de uso dos índios não acontecia somente por razões práticas. precisamente no ciclo do pau-brasil 71 .org/wiki/Abolicionismo_no_Brasil>.wikipedia. muito embora a escravidão indígena só tenha terminado no século XVIII.

foram trazidos ao Brasil africanos de outra origem. parte 1 – as origens. disponível no documentário: Mojubá: a cor da cultura. daí a necessidade de estipular uma equivalência simbólica com os itens que eles dispunham na África. Realização: Canal Futura. fato que contribuiu para a reelaboração de suas culturas em terras brasileiras. . 74 Cf. 75 Do idioma quimbundo. Mais adiante. pois como foi anteriormente descrito. Muitos itens necessários para a prática ritual não existiam em terras brasileiras. tanto Orixás. esses ritos seminais de religião africana no Brasil davam especial destaque à figura dos ancestrais.47 com a imagem clichê que temos da África. chamado de Calundu 75 . Realização: Canal Futura. 2005. Desse contato inicial entre as duas culturas. como se o continente apresentasse uma homogeneidade étnica absoluta. Documentário da TV Escola. é que esses africanos foram escravizados junto dos indígenas nos engenhos de cana de açúcar. Documentário da TV Escola. Brasil. o reino de Portugal trouxe para o Brasil. sendo que estes se dividem em Jejes e Nagôs. cada um possui suas ervas e animais específicos para o culto. vemos a importância dos indígenas. escravos comprados nas suas colônias na região do Congo 74 . De fato. Como todo ritual banto. disponível no documentário: Mojubá: a cor da cultura. Vale ressaltar que um elemento crucial para o desenvolvimento da religião africana era o saber acerca dos elementos naturais. surgiu o “ancestral” do Candomblé. quanto Inquices e Voduns são divindades relacionadas com a natureza. a África é muito heterogênea etnicamente e podemos dividir os africanos que vieram para o Brasil em dois grandes grupos. Uma peculiaridade dessa época. particularmente florescente na Bahia. Brasil. como a flora e a fauna. diferente do conceito de Candomblé. Do grande grupo compreendido como os oeste-africanos. 2005. 76 Cf. Quando os jejes chegaram ao Brasil. assimila características do culto dos antepassados (pretos-velhos) e dos indígenas (caboclos) que foram inicialmente escravizados com eles. A etnia predominante nessa época eram os nativos Angolas e Congos. Neste ponto. A partir de 1537. que transmitiram aos africanos a sabedoria acerca das plantas da terra brasileira. a partir do final do século XVII e ao longo de todo século XVIII. vieram os jejes 76 . A escolha dessa nova etnia ocorreu porque esse era o período da exploração do ouro na região central do país e os Jejes estavam habituados à atividade mineira. kilundu = ancestral. Esses ritos se tornaram o que atualmente se chama de Candomblé de Angola que. Renato da Silveira. os Bantos e os Oeste-africanos. Renato da Silveira. parte 1 – as origens.

disponível no documentário: Mojubá: a cor da cultura. Realização: Canal Futura. do banto. 77 Cf. que por muitos é considerado o criador da Umbanda. além de grande parte das significações hoje existentes em cultos de nações diversas e da Umbanda. aproveitando um sincretismo já existente. mas também o sincretismo entre conceitos religiosos indígenas e africanos e entre conceitos africanos de diferentes nações. era muito católica. . Documentário da TV Escola. e isso vai ajudar a inserção das imagens de santos católicos no rito Umbandista. Os Nagôs. a sacerdotisa do culto incorpora uma cabocla de Oxum (entidade yorubana) que cumprimenta a todos dizendo “saravá meus filhos” (termo que é a “bantuização” da palavra portuguesa “salvar”). Ao longo do ritual. um egun (termo de origem yorubá). Exemplificando: Em um terreiro de Umbanda (cuja herança africana é mais marcadamente angolana). 2005. contribuíram com grande parte dos dialetos africanos no português brasileiro. em sua grande maioria. Como já foi anteriormente citado neste trabalho. a família de Zélio de Moraes. Vemos. Isso se vê mesmo nos rituais Umbandistas. parte 1 – as origens. nessa narrativa. também chamados de yorubás 77 . a forma como o culto religioso Umbandista assimilou elementos das várias etnias de africanos que foram trazidos ao Brasil. No final do ritual. Brasil. ao longo de todo o século XIX. chegou outra etnia de oeste-africanos. Um fato curioso que se observa na configuração ritual de vários terreiros de Umbanda é a “miscigenação” religiosa entre as nações. onde as palavras usadas vêm. por sua vez. Eles trouxeram o conceito de Orixá. Eles se integraram ao meio religioso existente. Em um último momento da escravidão no Brasil. Fato comprovante de que não existe apenas o sincretismo entre Orixás e santos católicos. Renato da Silveira. vão contribuir com o conceito de Orixás e com algumas nomenclaturas das entidades. os filhos de santo vão consultar-se com a cabocla de Oxum e ela diz a um deles que este está atormentado por um espírito.48 encontraram aqui uma cultura afro-brasileira já com algum grau de elaboração e hierarquia. concomitante à cultura do café. influenciando e sendo influenciados ao mesmo tempo. originando a seguinte configuração ritual: Os bantos. os Nagôs. o espírito de uma preta-velha (entidade típica dos Candomblés de Angola) incorpora na sacerdotisa para fazer uma limpeza e encerrar o culto. que chegaram primeiro.

4 O SINCRETISMO – ATRIBUIÇÕES E PERMUTAS DE SIGNIFICADO Além do sincretismo existente entre os conceitos religiosos africanos e os indígenas no século XVI e o sincretismo entre nações africanas. Para demonstrar a forma como ocorreram essas comparações e adaptações sincréticas. mas de forma muito restrita. entenderam que aquele altar era relativo à religião daqueles que os escravizavam. visto que a condição imposta a eles. em terras brasileiras. não havia a possibilidade legal de execução de seus cultos. elas eram demonizadas. mas ele existe desde que houve a necessidade de se ritualizar os Orixás por intermédio de imagens de santos. os santos católicos dos altares postos nas senzalas passaram a ser sincretizados com os Orixás. existe o sincretismo entre os cultos africanos e o catolicismo. 41. 2008. não vai haver um padrão definido. por sua vez. fato que resulta em uma análise interessante da forma como se estabeleceu o sincretismo. uma vez que não se tem 78 OLIVEIRA. Devido ao caráter plural da religião africana e da maneira gradual e dispersa com que esse sincretismo aconteceu. foram-se gerando alguns padrões. No Brasil escravista. As práticas religiosas dos escravos eram expressamente proibidas. muitos processos sincréticos ocorreram de forma similar. os escravos precisaram mascará-la de alguma forma. mais que isso. como o protestantismo. é bom criar um contexto histórico. o cristianismo era a religião oficial do estado 78 . porém não foi possível tirar a vontade de resistir a um sistema opressor. Frente à impossibilidade de praticar a sua religião livremente. alguns Babalaôs e Caciques de Umbanda vão recorrer à livre especulação baseada em sua experiência. É complicado datar com exatidão o surgimento desse sincretismo. Assim. Os africanos. Porém. Para essa compreensão. Uma forma comum que os senhores de escravos usavam para converter os africanos era o posicionamento de altares católicos nas senzalas. p. foram-lhes tirados muitos traços de sua humanidade. era a de animais. Eles acreditavam que isso pudesse influenciar o processo de catequese dos escravos. Para os africanos. . ainda que haja peculiaridades entre diferentes regiões do Brasil. A igreja católica ainda permitia que houvesse outros tipos de culto. e tentaram ocultar o seu culto religioso dentro do culto católico.49 2.

Figura 5: Ogum (esquerda) e São Jorge (direita). Isso explicaria o fato de que São Jorge é Ogum no Rio de Janeiro e Oxóssi na Bahia.wordpress. interpretando a imagem deste santo. a título de melhor ilustrar o que foi dito anteriormente. .com/2010/04/ogum. porém. viram de uma maneira diferente.79 79 Fonte: Disponível em: <http://brincodepena. que possuem as chagas do martírio.jpg> Acesso em: 16 nov. subentendeu-se que ele era o mais importante naquele culto. como a imagem do Cristo Crucificado e do Nosso Senhor dos Passos. Exemplo de sincretismo religioso. Mas outras imagens de Jesus inspiravam diferentes interpretações. expõem-se algumas relações simbólicas. Este Orixá ainda foi sincretizado com São Lázaro e São Roque. dois santos que têm a pele marcada pela lepra. e Jesus Cristo passou a representar Oxalá. Imagina-se os escravos frente a um altar católico europeu. Outros. ao ver aquele santo posto acima do altar. como se aquele santo não estivesse lutando contra o dragão. mas sim. Oxóssi. 2010. outra alusão às doenças de pele. caçando-o e o associaram ao Orixá da caça. Outro caso é o de São Jorge. alguns entenderam que se tratava de um guerreiro e o associaram ao Orixá da guerra. essas chagas vão ser interpretadas como uma suposta doença de pele e estas imagens foram sincretizadas com o Orixá da varíola. Em um exercício de imaginação antropológica.50 acesso à mente daqueles escravos que criaram essa cultura em meados do Brasil colonial. Xapanã.files.

já que o Catolicismo era a religião oficial do estado e não havia espaço para as religiões de matriz africana. como é o caso de São Jorge e Nosso Senhor do Bonfim. cada parte assimila uma característica da outra. Paralelo a isso. na qual a Igreja do Bonfim é lavada com água de cheiro 80 pelas tradicionais Baianas. A festa do Bonfim é um claro exemplo de como as religiões afrobrasileiras usaram dos rituais da liturgia católica para adorar suas divindades. sincretizados com Ogum e Oxalá. Claro que a conversão não se concretizou em sua totalidade. como um mal a ser sanado. permutas de significado. pois muitos costumes indígenas. na quinta-feira que antecede a Festa do Bonfim. nos princípios da colonização do Brasil. . realizada no segundo domingo depois do Dia de Reis (seis de janeiro) na cidade de Salvador. há o culto de São Jorge. as relações sincréticas surgiram nessa tentativa de resistência religiosa. na adoração de sua morte. o que havia era uma perseguição ferrenha a qualquer manifestação religiosa africana. num sincretismo entre o Catolicismo e o Candomblé baiano. mas sim. pois o culto de um está atrelado ao culto do outro. uma vez que alguns santos católicos passaram a carregar uma carga de simbolismos dentro da cultura popular. Nosso Senhor do Bonfim é uma representação de Jesus Cristo crucificado. não houve apenas uma atribuição de significado.51 Como visto. O que ocorreu não foi apenas uma atribuição de significados católicos às práticas africanas. Tanto que a igreja tratava de demonizar as entidades dos cultos praticados pelos escravos. a igreja tentou substituir os costumes dos africanos por costumes cristãos e disso surgiram novas práticas religiosas. como a medicina popular e as benzeduras. Da mesma maneira. práticas essas que os padres tentaram substituir por costumes católicos. Porém. A festa consiste em uma celebração ao Nosso Senhor do Bonfim. As práticas religiosas indígenas. havendo aquilo que se pode denominar de “permuta de significado”. ocorre uma festa ecumênica e de caráter popular conhecida por Lavagem do Bonfim. Seu culto está sincretizado com a figura de Oxalá no candomblé Baiano. Nesse exemplo. respectivamente. um tipo de chá feito com as ervas sagradas dos Orixás e pode ter diversos fins dentro dos rituais afro-brasileiros. Ademais. sofreram semelhante processo de repressão. transcendendo seu significado católico. ou seja. foram incorporados à cultura popular. um santo tão popular que seu culto sobreviveu até mesmo ao fato de ter sido “rebaixado” do seu cargo de Santo pelo 80 Também chamada de amassi. Bahia.

uma permuta de significado. quando o Papa. é possível dizer que houve. e muitos Umbandistas e Africanistas dizem que São Jorge é apenas um representante de Ogum. de uma cultura mais “digerível” pela população em geral. 9. Mas afora isso. houve a reformulação do calendário litúrgico. mas a impressão que se tem é que. retirou o título de santo de todos aqueles que não tinham documentação histórica comprovando a sua existência 81. Nesse ponto. o Papa João Paulo II o reabilitou à categoria de santo. Por isso também São Jorge é cultuado com maior ênfase no Rio de Janeiro.ed. e a continuidade da sua utilização pode até colaborar com a desvinculação do significado original que os africanos atribuíam às suas entidades. Um santo para cada dia. Isso ocorreu no ano de 1963. o sincretismo funciona como um facilitador à empatia e a uma possível conversão a qualquer religião afro-brasileira. também. São Paulo: Paulus. o sincretismo nasceu como uma alternativa a um meio opressor sim. Umbandistas e católicos utilizam os mesmos termos e. que são contra o culto de santos. São Jorge e Ogum são praticamente a mesma entidade.52 Papa Paulo VI. onde o culto de São Jorge e de outros santos deixou de ser obrigatório. Posteriormente. para a cultura popular. o culto de ambas as divindades encontra-se indissociável. elementos de outra cultura. o valor dos prêmios para quem apostou no cavalo no jogo do bicho é menor. Recentemente. justamente porque ele é santo padroeiro de Portugal. A Umbanda não tardou a assimilar a figura de São Jorge. em virtude do grande número de apostas. 1983. por parte da população cristã. A popularidade deste santo é tão grande que no dia de sua festa litúrgica. Cultuar esses sincretismos exacerbados seria dar continuidade a uma cultura de opressão. Mario e GIOVANNINI. em muitos casos. dão atribuições semelhantes a São Jorge e a Ogum. Essa fusão de simbologias nem sempre agrada os setores envolvidos. . aproveitando o sincretismo já existente entre este santo e o Orixá Ogum. em 1969. pois o sincretismo coloca. em um outro meio religioso. anteriormente sede da corte portuguesa. O catolicismo desgosta desse sentido “pagão” atribuído a São Jorge. É mais fácil para um indivíduo “dito cristão” se sentir mais à vontade em um terreiro de Umbanda do que 81 SGARBOSSA. na sua tentativa de agradar os protestantes. Pelo que foi estudado. Evidentemente. isso é muito comum no que diz respeito ao sincretismo. Luigi. pois. muitas vezes. e que essa associação ocorreu em um tempo onde a sua religião era perseguida. O culto de São Jorge chegou ao Brasil com os portugueses.

2006. casas de Batuque de linha cruzada ou de feituras diferentes empregam o uso de imagens. p. por vezes. que é a adaptação às conjecturas. observa-se que existe uma grande similaridade. 171. Mesmo que existam os que o defendam e os que o criticam. do convívio entre os filhos de uma casa de religião e de aspectos práticos do cotidiano do terreiro também. sendo que a representação das entidades dentro do Batuque é efetuada pelo Ocutás82. pode-se expor algumas características 82 Também chamados de otás ou acutás. Malandrino83. o que leva muitas casas de santo a usarem as imagens como artifício para atrair mais filhos de santo. Tem a mesma função que os vultos de santos católicos feitos de gesso utilizados na Umbanda. 2. pois a Umbanda usa imagens de santos católicos. o sincretismo cumpriu o seu papel. A análise destes elementos indica uma série de características da execução dos rituais. O que se destaca do sincretismo é que ele surgiu como ferramenta de resistência. O uso das imagens facilita o entendimento da ritualística por uma pessoa leiga.53 em um de Batuque. Dessa forma.5 ADAPTAÇÃO DO RITUAL – MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS Dentro da dinâmica do ritual Umbandista. o de se adaptar. existe mais de um enfoque que se pode dar ao sincretismo e ele vai ter importâncias diferentes ao longo da história. discutir a relevância do seu emprego hoje em dia cabe a cada terreiro e à proposta que estes trazem consigo. mas o que destoa desse contexto são algumas casas de Nação africana que usam as imagens também. e isso é uma ligação com uma cultura do coletivo. . em seu livro “Umbanda: mudanças e permanências”. identificam-se elementos que sofreram adaptações de terreiro para terreiro. 83 MALANDRINO. mas foi empregado na Umbanda com outro pretexto. relata as variações que foram vistas dentro das terreiras por ela visitadas ao longo de sua pesquisa. Comparando os dados da autora com os dados obtidos nas terreiras visitadas na cidade de Alegrete para a realização deste trabalho. Claro que essa utilização está dentro da proposta da Umbanda. Evidente que nem sempre é esse o caso. Brígida Carla. agora. Neste ponto. da mesma forma que há elementos que pouco ou nada variam. são pedras que representam os orixás.

onde não haja muitos filhos de santo e. os sacerdotes responsáveis pelo terreiro costumam proceder de vários modos. há o fator prático. Outubro de 2010. Figura 6: Interior do Bazar Santa Rita de Cássia. o que é uma herança do Espiritismo. O tamanho do espaço do terreiro também fornece informações. Rua Bento Manoel. É conveniente lembrar que a grande maioria dos serviços prestados pela Umbanda não são cobrados. Além disso. há quem cobre uma mensalidade dos médiuns que trabalham no terreiro. 84 Fonte: Bazar Santa Rita de Cássia. Comparando com os terreiros de Batuque. luz e demais serviços. o que indica um terreiro maior ou que tenha um público maior e que usa essa mensalidade nas despesas.54 das terreiras visitadas e analisar as causas e as situações que decorrem dessas características. Há casos em que os próprios administradores do terreiro o mantém com seu dinheiro. já que o terreiro é um imóvel que precisa ser atendido de água. de culto doméstico. como também as oferendas feitas aos Orixás. consequentemente. o que possibilita continuarem prestando um serviço gratuito à comunidade. número 1171. Um terreiro de Umbanda é uma unidade que carece de manutenção permanente. o que indica um terreiro menor. uma loja 84 contemporânea de produtos de religião afro-brasileira. Para manter esse espaço. . Em contrapartida. menos gastos com os serviços assistenciais. os de Umbanda costumam ter seu espaço reduzido. já que o uso de velas para as entidades é constante.

Tia Maria Catarina e Ogum Beira Mar”. baianos.. O Batuque ainda pratica sacrifícios de animais. no lugar dele. número 137. Lair de Lima Orguissa. ele precisa ser regulamentado por um dos vários órgãos existentes no Brasil. embora. podendo haver um espaço dedicado somente à Umbanda e outro ao Batuque. sendo necessário um pátio ligeiramente amplo. porcos ou até mesmo bois (menos comumente). é utilizada uma sineta para marcar os pontos. Outras variáveis são as influências de cada terreiro. a Umbanda Kardecista e a Umbanda de linha cruzada. Já se um terreiro quer ser aberto ao público. as pessoas chegam até ele por indicação. Os rituais Umbandistas podem ser executados plenamente dentro de um espaço fechado. também conhecida como “Dona Tita”. Além disso. apenas se obteve notícias de um único terreiro de Umbanda pura na cidade de Alegrete. dependendo do ritual que será feito. que é o “Templo de Caridade de Oxum. havendo três tipos principais: A Umbanda pura. os rituais sejam executados no espaço externo. são conhecidas de um dos filhos da casa ou dos próprios chefes do terreiro. Essa maleabilidade do ritual favorece a umbanda no sentido de ela poder funcionar em espaços relativamente reduzidos. De todos os terreiros visitados e de todas as pessoas que se entrevistou. dirigido pela Sra. que representa a mescla da Umbanda com o Batuque ou Candomblé. número 91. que consiste em uma mistura da Umbanda com o Batuque ou Candomblé. Neste caso. A Umbanda pura dá bastante destaque aos pretos velhos.55 Muitos assentamentos de Batuque necessitam ser feitos no espaço externo da casa. Há também terreiros que são fechados e os que são abertos ao público. às vezes. Os terreiros da cidade de Alegrete podem recorrer à AFROBRAS (Federação da Religião Afro-brasileira) com sede em Porto Alegre – RS. caboclos. não é utilizado o atabaque. boiadeiros. sala 304. mas mesmo que haja uma divisão ritualística e de espaço. Nos terreiros fechados. marinheiros. que são músicas cantadas para fazer o Orixá se manifestar no corpo do médium. a . o que torna mais barata a manutenção do terreiro. O culto desse tipo de terreiro costuma ser de caráter doméstico. ou seja. Também existe a Umbanda de linha cruzada. nem sempre as casas são plenamente mistas. etc. sendo necessário um galinheiro para as galinhas e uma encerra para as cabras. havendo também “caboclos de Orixás” que são incorporados nas sessões rituais. na Rua Uruguai. localizado na Travessa número 1 da Avenida Liberdade. por exigência dos responsáveis ou das entidades.

os rituais são bastante simples e nem sempre são feitos rituais iniciáticos nos adeptos. a riscagem e a lavagem de cabeça com o amassi. Já a proposta da Umbanda sempre foi a adaptação. que neste caso. ou uma “família de santo” como se diz usualmente. caboclos e caboclos de Orixás. Ambas as propostas carregam a marca de sua época. o que não quer dizer que não ocorram. são muito importantes os rituais iniciáticos. de terem migrado do espiritismo. são exclusivamente os pretos velhos. De maneira diferente. Nessas casas. não há uma ancestralidade do terreiro. Este tipo de Umbanda foca as suas atividades mais na caridade e na prestação de serviços à comunidade do que aos rituais dedicados aos Orixás. portanto era necessário que os seus rituais fossem o mais similar possível àqueles que eram feitos na África. que diverge da proposta do Batuque. etc. apenas são diferentes. algumas vezes. como o batismo. Este ritual é muito mais passível de adaptações que os outros. usar palavras do vocabulário do Batuque (Ogã. mas esse tipo de Umbanda encontra-se mais próxima ainda. . ou então. similar à do Candomblé. onde a fé dos escravos era reprimida. É claro que a Umbanda é muito próxima do Espiritismo. ocorre nas casas de Umbanda Kardecista. Mãe e Pai de santo. Estes três exemplos mostram a real proposta da Umbanda. pois são religiões que surgiram em tempos de escravidão. A proposta do Batuque. pois eles marcam etapas da vida dos adeptos. é a de resistência. pode-se dizer que um dos únicos fatores que a diferencia do Espiritismo é a orientação das entidades que atuam no terreiro. uma forma de manter a sua identidade e a unidade social do grupo. pois ela surgiu para acolher um grande número de manifestações religiosas “marginais” de sua época. ocorre o fato de os mentores da terreira serem autodidatas na religião. Era no meio religioso que os escravos encontravam um lenitivo ao seu sofrimento e ânimo para seguir oferecendo resistência ao modelo social vigente. Nessas casas.56 ritualização da Umbanda permeia-se de elementos do Batuque.) e dão mais foco aos caboclos de Orixás do que aos demais caboclos e aos pretos velhos. bem como nas de Umbanda pura. mas que sua importância é minimizada. nesses casos. Equede. não há uma melhor que a outra. Essas casas costumam tocar atabaques. onde o uso de imagens é minimizado.

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3 EXPANSÃO, A UMBANDA CHEGA AO RIO GRANDE DO SUL

Xangô rolou a pedra na pedreira, No Mar se estende o manto de Iemanjá, Mamãe Oxum chorou na cachoeira, Reluz a espada de Ogum a batalhar, Ogum Megê, vem de Aruanda, Seus filhos proteger.

(Ponto de descida de Xangô)

A Umbanda chegou ao estado do Rio Grande do Sul no final da década de 3085, época em que ela estava começando a galgar reconhecimento nacional 86. Em decorrência dessa expansão, começaram a ser criados órgãos regulamentadores da Umbanda. Anterior à Umbanda, já havia uma cultura religiosa afro-brasileira bastante difundida pelo Rio Grande do Sul e que sobreviveu até os dias de hoje. Constam, no território rio-grandense, casas de Batuque das Nações Oyó, Jeje, Ijexá, Nagô, Cambina e Moçambique. Mesmo havendo uma heterogenia de nações, o ritual destas é similar em muitos aspectos e o que se percebe, quando da chegada da Umbanda, é que ela adotou algumas características e outras ela manteve tal como eram cultuadas na sua origem. Uma prova disso é o culto do Orixá Oxóssi pela Umbanda. Oxóssi é uma entidade de origem Ketu e seu culto é muito difundido no Rio de Janeiro e na Bahia, o que não ocorre em todas as partes do Brasil. No Rio Grande do Sul, o culto desse Orixá não existe no Batuque, já que o elemento ao qual ele é associado, a caça, é representado por dois Orixás, Odé e Otim, o caçador e a sua esposa. O que se observa na permanência do culto de Oxóssi na Umbanda gaúcha é que se trata de um culto que veio de um contexto étnico religioso e foi inserido em outro, mantendo as suas características principais. A Umbanda ainda assimilou as características regionais do sul do Brasil. Como vemos no culto aos caboclos boiadeiros, muito comuns no Nordeste e no Centro-Oeste do País e que, ao chegar ao Rio Grande do Sul, adaptou-se à cultura
85 86

CORRÊA, Norton F. O Batuque no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS: UFRGS. 1992. p. 58. OLIVEIRA, 2008. p. 113.

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do gaúcho, havendo caboclos boiadeiros que se identificam como eguns (espíritos) de gaúchos que foram cooptados pelas falanges da Umbanda para trabalhar pela caridade. 3.1 A UMBANDA EM ALEGRETE

De maneira contrária ao modo como ocorreu na maioria das localidades, a Umbanda chegou à cidade de Alegrete anteriormente ao Batuque. Mesmo com a existência de uma população negra em Alegrete e, também, nos quilombos do Angico e São Miguel, não se fala de uma religião de escravos africanos alinhada com qualquer nação de batuque na cidade de Alegrete anterior ao começo da década de 60, como nos relata o Babalorixá Noé Mendonça da Nação Jeje em Alegrete. Enquanto que a Umbanda é datada da década de 40, nesta cidade, tendo sido estabelecida pela zeladora de santo Araci Baez (28/09/1902 – 11/06/1970), que tinha a sua terreira no Bairro Vila Nova, nesta cidade, e trabalhava com um guia espiritual chamado “Pai Aimoré” da falange dos caboclos.

Figura 7: Foto de Araci Baez no seu túmulo no cemitério municipal de Alegrete.87

87

Fonte: Cemitério Municipal de Alegrete. Novembro de 2010.

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Foi com unanimidade que os chefes de terreiro visitados responderam que a Umbandista pioneira em Alegrete foi a Sra. Araci Baez, tanto que a história desta se confunde com a história da Umbanda em Alegrete. Não existem dados documentais que comprovem a origem da Umbanda trazida pela Sra. Araci Baez, mas o que se conta nos terreiros é que ela teria feito uma iniciação em Porto Alegre e disseminou em Alegrete sua descendência Umbandista. No meio religioso umbandista, também se menciona os nomes da Sra. Marica De Ré, do Sr. “Tatau”, do Sr. Joaquim Telles (também conhecido por Sr. Sellet) como chefes de terreiro contemporâneos da Sra. Araci Baez. Dentre os feitos notórios de Aracy Baez, está a passeata pública do dia da Yemanjá (02 de fevereiro), onde um grande número de adeptos percorria as ruas da cidade em direção à praia do Rio Ibirapuitã onde eram feitas oferendas e se saudava Yemanjá. Essa passeata mobilizava o Corpo de Bombeiros e a Polícia Municipal de Alegrete, devido ao número de participantes. Mesmo depois de falecida, a Sra. Araci Baez continua prestando serviços à população, como dizem aqueles que acreditam no seu poder, uma prova disso são os agradecimentos por graças concedidas que são vistos em seu túmulo no Cemitério Municipal de Alegrete que, por sinal, é um dos túmulos mais visitados no Dia de Finados, juntamente com o do Dr. Romário Araújo de Oliveira, outro conhecido umbandista alegretense.

moradora de subúrbio e praticante de uma religião fortemente estigmatizada pela sociedade. Para proteger a população umbandista e africanista desta cidade.89 É possível perceber a quantidade de tabus enfrentados por Araci Baez. antigamente localizada na Rua dos Andradas. uma mulher afro-descendente. O fato de ela ter alcançado esse número de adeptos denota a capacidade agregadora que a Umbanda tem. Fonte: Cemitério Municipal de Alegrete. arrecadando sempre uma grande quantidade de fiéis. uma capacidade que se fez presente desde a sua origem e é a principal responsável pelo sucesso obtido em se difundir por várias regiões do Brasil. 88 89 Fonte: Cemitério Municipal de Alegrete. número 28 e hoje se encontra sem sede. Novembro de 2010. Novembro de 2010. Figura 9: Foto de duas placas depositadas junto ao túmulo de Araci Baez em virtude de graças alcançadas. a maioria delas impostas pelo preconceito. um grupo de chefes de terreiro e praticantes de Umbanda e Batuque decidiu regulamentar as suas atividades dentro de um órgão que lhes desse amparo político e jurídico. . Dessa iniciativa.60 Figura 8: Foto de uma placa depositada junto ao túmulo de Araci 88 Baez em virtude de graças alcançadas. É claro que houve dificuldades na trajetória da Umbanda em Alegrete. de origens humildes. surgiu a AURAFA (Associação de Umbanda e Religião Africana de Alegrete).

90 Esses dados constam na ata nº 1 do livro de atas da AURAFA do ano de 1981. A reunião foi presidida por Manoel Soares Neto. . bibliotecárias: Miriam M. ficando por um período de dois a oito dias coletando donativos e. da zeladora de santo Eunice Oliveira de Oliveira e de outros chefes de terreiro. Manoel ainda discursou acerca da necessidade de que as casas de religião africana e as de Umbanda se unissem para que tanto a Umbanda. numa reunião que aconteceu na terreira intitulada “Tenda de Pai Joaquim”. quanto o Batuque. consultores jurídicos: Nilo Gonçalves e Prudêncio Almiron.1 Organização e Regulamentação (de 1981 ao momento presente) A AURAFA foi criada pela iniciativa do umbandista Sr. foi eleita uma diretoria provisória. que consistia em uma imagem de São Jerônimo (santo sincretizado com o Orixá Xangô) que circulava de terreira em terreira. Com isso. Nessa mesma reunião. 1ª tesoureira: Eliza Lima de Castro. adquirissem uma representatividade política maior e que houvesse melhores condições de culto aos adeptos. vice-presidente: Aristeu Pinto. O Sr. Vargas Benites e Mônica Zuñeda D’ávila. 539.61 3. 1ª secretária: Jussara Alves. eram executados bingos e tômbolas beneficentes. situada na Rua General Sampaio. diretor do conselho de organização espiritual: Manoel Soares Neto. que foi conquistada pela Lei Municipal nº 929/70. ao fim. 2ª secretária: Odete Maria Pereira Prates. obteve-se esta configuração – presidente de honra: Joaquim Rodrigues Teles. Sylla Orguissa. foram indicados – presidente: Sylla Orguissa. Babalorixás e Ialorixás da cidade de Alegrete. diretor da organização espiritual “Reino de Ubiratan” na cidade de Porto Alegre. A associação elaborou muitos projetos de relevância social e religiosa. relações públicas: Otto Ávila Anhaia. Quanto à Diretoria executiva. como a criação de uma casa sede para os umbandistas de Alegrete (que não saiu do papel) e a criação da “Praia de Iemanjá”. Para se manter financeiramente. A fundação data do dia 27 de agosto do ano de 1981 90 . percebemos que a AURAFA estava bem amparada por pessoas comprometidas com o desenvolvimento da Umbanda e das religiões afro-brasileiras. além disso. 2º tesoureiro: Propércio Mayer Muller. a AURAFA dispunha de recursos como a imagem do Xangô Peregrino.1.

92 91 92 Fonte: Acervo pessoal do Senhor Sylla Orguissa. . ano desconhecido. presidente da AURAFA.91 Figura 11: Imagem do Xangô peregrino. ano de 1985. presidente da AURAFA.62 Figura 10: Final da passeata do dia de Yemanjá (02 de fevereiro). Fonte: Acervo pessoal do Senhor Sylla Orguissa.

presidente da AURAFA. A associação deixou de ter a sua sede na Rua dos Andradas e hoje ocupa a residência do seu presidente. Sylla Orguissa. ano de 1985. 93 Fonte: Acervo pessoal do Senhor Sylla Orguissa.63 Figura 12: Imagem do Xangô peregrino sendo conduzida pelo carro de bombeiros pelas ruas da cidade. 93 Quanto à parte de regulamentação. mas que hoje se encontram desativados. que podia estar desfrutando dos projetos de cunho social que foram criados pela AURAFA. funciona apenas com caráter burocrático. pudessem recair sobre uma terreira ou qualquer membro da associação. atualmente. processos jurídicos e toda sorte de problemas que. numero 60. . licenças e carteiras de associados. desde certificados de batismo e de casamento. Isso deu aos adeptos um anteparo legal em casos de queixas policiais. A proposta inicial da AURAFA era dar um suporte jurídico e doutrinário à Umbanda e às religiões afro-brasileiras de Alegrete. eventualmente. Bairro Vera Cruz. na Rua Venezuela. Isso representa uma grande perda à população alegretense. a AURAFA passou a fornecer toda a documentação necessária. com o passar do tempo. alvarás. porém. a AURAFA foi se desarticulando e perdendo representatividade.

presidente da AURAFA. . Fonte: Acervo pessoal do Senhor Sylla Orguissa.94 Figura 14: Carteira de identidade da AFROBRAS. em uma sessão da 94 95 Fonte: Acervo pessoal do Senhor Sylla Orguissa. quando.64 Figura 13: Identidade de Médium filiado à AURAFA. ano do centenário da Umbanda. presidente da AURAFA. 95 Um último ato de relevância à comunidade Umbandista foi efetuado em 15 de novembro de 2008.

os líderes de terreiro retomem a organização e o nível de união entre as casas que antes existia. no futuro. vemos que a comunidade umbandista de Alegrete já provou que é capaz de se organizar em torno de um órgão competente. Isso só será possível quando o objetivo dos interesses de todas as partes envolvidas voltar a ser uma causa nobre e de relevância social. o atual estado de inércia deve servir como estímulo para que.65 Câmara de Vereadores de Alegrete. foram entregues comendas alusivas ao centenário aos mais antigos chefes de terreiro da cidade. Nessa retrospectiva. .

bem como da própria sociedade. apresenta características singulares. . quanto abre novos campos de manifestação. em virtude da praticidade e das necessidades dos próprios adeptos. a Umbanda já mostrou que pode ser um elemento de transformação da sua realidade. devido a isso. algumas delas herdadas do Kardecismo e das demais religiões de matriz africana. concluiu-se que a Umbanda. entrou-se em contato com adeptos antigos do culto. que tanto impõe limitações. agregando grandes parcelas da sociedade e disseminando a sua proposta de caridade e aceitação das diferenças. E mesmo que ela não esteja mais tão bem representada como antes na sociedade alegretense. Os dados obtidos foram comparados e dispostos de forma a criar uma trajetória da Umbanda. posteriormente. somente depois disso.66 CONCLUSÃO A Umbanda é uma síntese de várias manifestações religiosas populares e. desde a sua origem no Rio de Janeiro até a atualidade na cidade de Alegrete. suas características rituais sofreram adaptações ao longo do tempo. fez-se uma revisão bibliográfica sobre o tema e. na cidade de Alegrete. foram visitados terreiros de Umbanda e Batuque. Para chegar a esta conclusão. Sendo assim. Também se constatou que a Umbanda nunca se alienou ao convívio social e político.

1. 2004. Pierre. CORRÊA. SP: PUC/SP. 2008. Tradução: Laura Cardellini Barbosa de Oliveira.ed. . Umbanda: mudanças e permanências. Limeira. CARNEIRO. São Paulo. 2004. Norton F. O negro e descendentes na sociedade do Rio Grande do Sul (1635-1975). MITHEN.ed. RS: UFRGS. O Batuque no Rio Grande do Sul. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. 2006. São Paulo. Cláudio Moreira.ed. RS: Gráfica Evangraf Ltda. PINSKY. Oficinas Gráficas da Imprensa Oficial. LOPES. MALANDRINO. KAPLER. Edison. Nei. Arqueologia da violência. A Umbanda e o afro-brasileiro na visão de Vinícius de Oxalá. José Vinicius Galhardo. Monstros. 1993. SP: WMF Martins Fontes. ESTATUTO DA UNIÃO DE UMBANDA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. 1999. Escravidão no Brasil. São Paulo. 2002. 9. SP: Cosac & Naify. Tradução de Paulo Neves. 1976. SP: Selo Negro. Brígida Carla. RS: 1963. Claude. Jaime. Das Macumbas à Umbanda. A pré-história da mente: uma busca das origens da arte. OLIVEIRA. SP: Global. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo. 1984. 2008. Porto Alegre RS: Grafosul. José Henrique Motta de. 3. SP: UNESP. Porto Alegre. PASSOS.67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTO. SP: Conhecimento. São Paulo. da religião e da ciência. demônios e encantamentos no fim da idade média. Steven. Porto Alegre. Candomblés da Bahia. São Paulo. 1992. CLASTRES. Porto Alegre.

1983. 2008. SOUZA. Pelotas. Porto Alegre. Marina de Melo e.História da festa de coroação de Rei Congo. 1ª reimpressão. Um santo para cada dia.ed. 2006.68 SGARBOSSA. século XIX: Mestre Tito. Luigi. RS: Universitária/UFPEL. Reis negros no Brasil escravista . 9. Belo Horizonte. RS: UFRGS. MG: UFMG.São Paulo: Paulus. XAVIER. 1994. VECCHIA. Agostinho Mario Dalla. Religiosidade e escravidão. Regina Célia Lima. . Os filhos da escravidão: memórias dos descendentes de escravos da região meridional do Rio Grande do sul. Mario e GIOVANNINI.

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